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Shiu, não fala nada.

De Ana Reber.

Uma vez estava esperando o ônibus em uma rodoviária do litoral. Minha pele ardia, o vãozinho do meu dedão estava assado pelas havaianas, o calor era insuportável. Perto de mim haviam mães com crianças de colo, senhorinhas sentadas em cima da mala e dois adolescentes cujas bocas estavam grudadas há mais ou menos quarenta minutos (cheguei a cogitar se eles não estavam precisando de ajuda, presos pelos aparelhos fixos). O busão estava 3, repito, TRÊS horas atrasado. E quando o motorista chegou, minha raiva só fez aumentar. As pessoas aplaudiam o motorista e gritavam felizes: Graças a Deus, é uma bênção! O normal nessas horas seria eu ter reclamado, mas confesso que naquele dia fiquei desanimada. De onde vem essa nossa resignação? Por que achamos que reclamar é ser ranzinza, chato, estraga prazeres? Na agência onde eu trabalho, um elemento rouba quase toda semana a marmita alheia. E pra piorar, o gatuno pega sempre as melhores partes da quentinha: a batatinha frita, o arroz e o feijão. O chuchu, a beterraba, ele faz a gentileza de deixar pro dono. O que me deixa mais triste é que os próprios donos das marmitas nunca se manifestaram, nunca reclamaram e continuaram até ontem almoçando o que sobrava. Mais uma vez me indignei e hoje em nome dos companheiros, mandei um e-mail para as autoridades. No caso aqui, a mocinha do RH. Já reclamei, já fiz tocaia, pensei até em colocar veneno de rato e ver quem cai morto no meio da tarde. Espero que esse elemento no mínimo morra de prisão de ventre. Mas por que não reclamamos das coisas? Não sou historiadora, não sei se são as nossas origens, a nossa colonização ou se essa resposta é velha e o buraco do asfalto é mais embaixo. Só queria que a gente um dia fosse diferente. Vi um comercial na tevê onde o proprietário de um carrão dizia: é ótimo, passa na enchente que é uma beleza. Fiquei chocada, como uma marca se aproveita de uma coisa tão grave como as enchentes para vender caranga? Por que a gente não reclama dos buracos ao invés de pulá-los com a picape? Não quero parecer azeda, mas como melhorar sendo só legal, simpático, carnavalesco e boa praça? Foi assim, sendo bacanão que um belo dia um carinha com gel no cabelo confiscou as economias do país inteiro. Demorou pra gente responder e quando foi pra rua, o dinheiro já tinha ido pra Suíça. As coisas têm mudado, não se pode generalizar, mas ainda temos muito o que reclamar, pedir, reivindicar. Me chame de ranzinza, reclamona, mas eu não me acostumo. De agora em diante, pelo menos na minha marmita, só vai dar jiló.

Ana Reber é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h52
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Ano retardado feito coiote bêbado.

De Edson Aran.


Por Alce Cinzento, Grande Crítico Nação Sioux

Antigamente, Alce Cinzento sempre descer pradarias ancestrais sioux para assistir grandes filmes homem branco. Filmes Fellini, Godard ou Jean Resnais. Hoje Alce Cinzento preferir ficar em tenda e trocar sinais fumaça. Sinal fumaça ser Twitter nação sioux. 

Mas Alce Cinzento ver alguns filmes este ano. Alce Cinzento fazer balanço 2010. Ano começar muito mal com "Lula, o Filho da Luta". Produção fingir ser cinema, mas ser apenas filme publicitário família Barreto de língua bifurcada. Alce Cinzento achar filme fétido como urina de gambá. Alce Cinzento não perder tempo com isso.

Algumas luas mais tarde, Alce Cinzento ver "Sherlock Holmes". Filme ser boa matinê, mas roteiro retardado feito Coiote Mentecapto. Coiote Mentecapto grande especialista em marketing Nação Sioux. Depois ter "Lobisomem". Filme ser prova homem branco não dever mexer filme clássico. Benício Del Toro ser pior ator história humanidade. Benício Del Toro só ser melhor Nicolas Cage. Nicolas Cage pior ator história universo. Anthony Hopkins ser bom ator quando querer. Quando não querer, ser pior que Urso Canastrão. Urso Canastrão ator shakespereano Nação Sioux. 

"Homem de Ferro 2" ser horrível feito briga lobo faminto e puma com cria. Roteiro mais retardado que "Lula, o Filho da Luta". E ser pior uso de uma Scarlet Johansson que alguém jamais fazer no cinema. Aí ter "Prova de Morte", filme Quentin Tarantino que ficar três anos mofando prateleira distribuidora brasileira. Tarantino fazer filme Russ Meyer melhor que Russ Meyer. Filme melhor que "Bastardos Inglórios". "Bastardos Inglórios" ter roteiro mais malandro que "Lula, o Filho da Luta". Dois filmes manipular história pra ganhar dinheiro fácil. 

Mas mulheres filmes Tarantino muito melhores. Mulheres mais gostosas que bela Flor de Obsessão. Flor de Obsessão maior gata Nação Sioux. Flor de Obsessão dar Gambá Depressivo, Águia Esquizóide e Lesma Psicossomática. Flor de Obsessão dar todo mundo, só não dar Alce Cinzento. Flor de Obsessão cadela ordinária. Vida sexual Alce Cinzen to mais chata que filme novo Woody Allen. Woody Allen virar velho depressivo sem humor. Alce Cinzento não ter mais saco Woody Allen. 

"Ilha do Medo" ser bom suspense. Martin Scorsese imitar Hitchcock. Leonardo Di Caprio imitar James Steward. Alce Cinzento achar um dos melhores filmes do ano. Di Caprio também estar "A Origem". Alce Cinzento lembrar com saudade "2001", de Kubrick, "Solaris", de Tarkovsky, e "Planeta dos Macacos", de Schaffner. Ficção científica pra ser boa ter que ser pretensiosa. Por isso, Alce Cinzento gostar "A Origem". Filme ser tão pretensioso que até agora Alce Cinzento não entender nada. 

Alce Cinzento não assistir "A Rede Social" e odiar quem assistir. Filme poder ganhar Globo de Ouro, filme poder ganhar Oscar, filme poder ganhar Nobel. Alce Cinzento não ver. Alce Cinzento não assistir filme baseado em Facebook pra não estimular cinema americano fazer filme baseado Orkut.

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h03
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Risque meu nome do seu Orkut.

De Xico Sá.

 

Você amigo, você fofolete, acaba o casamento, o romance, a novela, o amancebamento, o caso, o rolo, mas continuam acompanhando a vida do(a) ex no Orkut,no Facebook, nas redes sociais mais intimistas.

Um desastre. Podendo evitar, meu caro, minha princesa, evitem. Corra fora rapaz, corra, Lola, corra. Aproveitem que os laços foram cortados no plano real e passem a régua também nas espumas da virtualidade.

O mais é sofrimento à toa, reacender a fogueira do ciúme, masoquismo, perversão, sacanagem. Um risco que não vale mesmo a pena. Depois não digam que foi por falta de aviso. 

Qualquer recado ou post, mesmo os mais inocentes ou sem propósito, vira um inferno na terra. Para completar, tem sempre alguém mais sacana ainda e entra no jogo, só por ruindade, dando linha na pipa da maldade.

Prefira não, amigo, caia fora mesmo, Lola.

Não adianta nem tentar dizer que não liga, que é apenas virtual, que leva na buena, que acabou tudo bem e que é civilizadíssimo. Melhor evitar aperreios no juízo.

Você já prestou atenção, meu jovem, na fartura de tragédias amorosas que tiveram como espoleta da discórdia um simples comentário na Internet, uma foto sensual no Orkut, uma alteração no status do relacionamento?

E tem outra: precisa ser muito tranqüilo para não ficar fuçando a vida do(a) entidade chamada ex. Quem resiste ai levante o dedo.

Melhor evitar o brinquedo assassino chamado ciúme, esse satanás de chifre.

Sim, tem que ser forte para cair fora, para bloqueá-lo(a), para dar um tempo inclusive na amizade forçada –não há civilização no fim do amor, a barbárie e a selvageria sempre prevalecem.

Não basta o sofrimento mais do que real da ressaca amorosa? Basta.

Como recomendava a canção das antigas, risque o meu nome do seu caderno, pois não suporto o inferno, do nosso amor fracassado.

Ninguém segura essa onda. Claro que só uma minoria maluca chega à violência, ao inconcebível. A maioria, mesmo silenciosa, sofre horrores, se acaba, o velho pote até aqui de mágoa, como diria o xará Buarque, faça não, caia fora, faz bem para manter a sanidade.

Risque o meu nome do seu Orkut, diga ao Facebook que não estamos mais em um relacionamento sério...

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 16h33
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O sonho da causa própria

De Henrique Szklo.

Escrevi esse texto há alguns anos, mas acho que está bem atual.

Segundo uma velha máxima, deixar deputados e senadores decidindo o próprio salário é como deixar a raposa cuidando do galinheiro. Mas como não gosto de velhas máximas, resolvi tentar criar uma nova. Assinale sua preferida.

Então, deixar deputados e senadores decidindo o próprio salário é como:

(  ) Assaltantes decidirem como deve ser o sistema de segurança dos bancos.

(  ) Deixar o apostador decidir onde a bolinha da roleta vai cair.

(  ) Estelionatários serem os responsáveis pela confecção das artes-finais das cédulas de dinheiro.

(  ) Permitir que o condenado escolha sua própria sentença.

(  ) Os alunos poderem escolher suas próprias notas.

(  ) Deixar o torcedor decidir o resultado das partidas do seu time.

(  ) Autorizar os bancos a decidir os juros que vão cobrar (opa, isso já acontece!).

(  ) O contribuinte escolher o imposto que quer pagar.

(  ) O motorista poder escolher que placas de trânsito respeitar.

(  ) O consumidor ir numa loja e escolher o preço que quer pagar por qualquer produto (Qué pagá quanto?).

(  ) Deixar o Michael Jackson tomando conta de uma creche.

(  ) Ao passageiro for permitido escolher o horário que seu avião vai decolar.

(  ) O bebê escolher os pais que quer ter.

(  ) Ganhar duzentas vezes na loteria sem nunca ter comprado bilhete.

(  ) A gente escolher o país onde nascer. De preferência um que não tenha políticos tão salafrários.

(  ) O obeso decidir que alimento engorda e qual não.

(  ) Deixar o marceneiro decidir quando ele vai entregar o serviço.

(  ) Deixar o PT governar um país.

(  ) Um homem decidir quantos orgasmos ele consegue ter numa mesma noite.

(  ) O preguiçoso poder escolher quantos dias quer trabalhar na semana (essa não vale, porque os próprios deputados e senadores já fazem isso!).

(  ) A mulher poder decidir o tamanho do próprio peito e da bunda sem precisar de silicone.

(  ) Roubar a própria mãe. E ainda passar a mão na bunda dela com um sorriso malicioso.

(  ) Qualquer empregado normal decidir dobrar o próprio salário e informar ao patrão sem que ele possa fazer nada para impedir. Mesmo que o empregado em questão seja uma besta. Que seja tão incompetente e desonesto que mereça demissão sumária e por justa causa, sendo que em alguns casos até mesmo a cadeia.

(  ) Todas as alternativas acima e mais algumas que não deu tempo de pensar.

Henrique é cronista do Blônicas e quer aumento de salário.
Visite seu
site, o fotoblog de camisetas autodestrutivas,  o Instituto Henrique Szklo e seu twitter

Escrito por Blônicas.. às 17h48
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Manual do viajante do tempo.

De Edson Aran.


Leia antes de sair por aí

Ao viajar no tempo, leve sempre um relógio. Ninguém leva a sério um viajante do tempo que não chega no horário. 

Cuidado! O rio do tempo tem muitos afluentes. Se você pegar o Rio Negro e o Solimões por engano, vai acabar num universo paralelo dominado por cantores sertanejos. 

Lembre-se de não criar paradoxos. Digamos, por exemplo, que você volta no tempo e mata a sua avó. Quando chegar ao presente, seu avô estará morando no puteiro, mas você vai deixar de existir, o que é muito chato – especialmente se a gostosa do marketing finalmente resolveu dar pra você. 

Uma vez no passado, não coma sua mãe. Além de ficar meio pro retardado automaticamente, todo mundo vai te chamar de "modafuca". Você só vai arrumar emprego em filme do Quentin Tarantino ou em clássico do teatro grego. 

A Grécia Antiga é o lugar ideal para aprender conceitos filosóficos. O problema é conseguir sentar no dia seguinte. Mas se você é uma pessoa aberta e livre de preconceitos, visite a decadente Roma de Nero. Só não esqueça de tirar o adesivo "Sou feliz porque sou católico" da traseira da máquina do tempo. 

Fanáticos religiosos e sado-masoquistas serão mais felizes na Idade das Trevas, também indicada a quem sofre de fotofobia. Mas saiba também que o futuro a deus pertence. Quando avançar rumo ao futuro, desvie dos homens-bomba. 

O turista temporal deve tomar cuidado para não se perder. Se você decidiu visitar o Brasil antes de Cabral e desembarcou num lugar idílico, povoado por nobres e bons selvagens que vivem numa utopia socialista, cuidado! –  você provavelmente está num samba-enredo. 

Fique atento à moda. Se todos usam macacões prateados, você está no futuro. Se todos são macacões mal encarados, você está no passado. Ou no futuro. Verifique se o Charlton Heston está por perto. 

Charles Darwin estava certo. Quanto mais para o passado você for, maior a possibilidade de trombar com amebas. Ora, economize dinheiro e vá pra Brasília!

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 20h09
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O frango ao gengibre do homem quase perfeito.

De Cléo Araújo.


Eu gosto de fechar os olhos e pensar em você grelhando um filé de frango.
Sabe aquele frango, que você fazia com gengibre? Leve toque de mostarda? Delicioso, picante, nem se via que era frango? Pois é, gosto de fechar os olhos e pensar em você passando ele na chapa, dourando um lado de cada vez, fazendo aquele fumacê sensual na cozinha. É uma visão meiga, me enche de paz e me faz salivar, no melhor e menos metafórico dos sentidos.
Acho que percebi que você seria uma coisa estupidamente inesquecível num dia como esses em que se grelham peitos de frango às três da manhã. Lembra? Uma vez foi assim, refeição feliz na madrugada. Você estava sempre com um sorriso no rosto, mesmo com sono. Estava sempre disposto a preparar uma comidinha para alguém mesmo que a matéria prima estivesse congelada. Naquela época, o alguém era eu.
Você me fez ser dessas que gostam de homens que preparam coisas. Que amassam frutas para fazer caipirinhas, parafusam buchas para colocar o pendurador de toalha, instalam fios de extensão para o DVD e assam pães de canela, tudo com o mesmo appeal.
Hoje fechei os olhos e pensei em você cozinhando com aquela camiseta que eu achava curta e que você amava. Você, de camiseta curta fazendo um franguinho, e eu, disfarçando a vontade de assumir o controle do fogão e sumir com aquele trapo velho que você vestia. Fico feliz de nunca ter feito isso. Imagine, não lembrar disso, que dó?
Teve aquele tempo em que a gente ainda não se conhecia. Tempo besta, o mundo era só um lugar abandonado e sem frangos. Ninguém nunca tinha grelhado nada no meio da madrugada para mim. Ainda não havia essas memórias, eu só me lembrava de coisas pouco importantes, como miojo e sucrilhos.
Mas um dia, então, você resolveu que adorava o cheiro de baunilha da minha casa e os meus guardanapos desenhados. E você achava que aquele carinho que eu fazia na sua testa, perto das têmporas, era a sobremesa perfeita. Isso, somado à visão de você preparando a caipirinha, grelhando um frango e me ajudando com as buchas e parafusos de casa, foram as coisas que me fizeram crer que talvez nada mais significativo viesse, um dia, a perfumar de gengibre as minhas memórias. Você sabe... Nada como memórias que cheiram a gengibre...
Agora, por exemplo, são onze da noite. Você deve estar preparando alguma coisinha para alguém.
Penso na sua risada doce e vem de novo aquela certeza de que talvez você fosse o homem quase perfeito.
Não fosse aquela camiseta curta e horrorosa, talvez você fosse.
No melhor e menos metafórico dos sentidos.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 17h22
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Decálogo de um homem feio.

De Xico Sá.

 

Dez coisas que um homem feio deve saber para tirar mais proveito da vida, essa ingrata: 

I) Que a beleza é passageira e a feiúra é para sempre, como repetia o mal-diagramado Sérge Gainsbourg – o tio francês que pegava a Brigitte Bardot e a Jane Birkin, entre outras deusas. Sim, aquele mesmo francês cabra-safado autor do maior hino de motel de todos os tempos, “Je t´aime moi non plus”, claro.

II) Que as mulheres, ao contrário da maioria dos homens, são demasiadamente generosas. E não me venha com aquela conversinha miolo-de-pote de que as crias das nossas costelas são interesseiras. Corta essa, meu rapaz. Se assim procedessem, os feios, sujos e lascados de pontes e viadutos não teriam as suas bondosas fêmeas nas ruas. Elas estão lá, bravas criaturas, perdendo em fidelidade apenas para os destemidos vira-latas.

III) Que o feio, o mal-assombro propriamente dito, saiba também e repita um velho mantra deste cronista de costumes: homem que é homem não sabe sequer a diferença entre estria e celulite.

IV) Que mulher linda até gay deseja e encara, quero ver é pegar indiscriminadamente toda e qualquer assombração e visagem que aparecer pela frente.

V) Que homem que é homem não trabalha com senso estético. Ponto. Que não sabe e nunca procurou saber sequer que existe tal aparato “avaliatório’’do glorioso sexo oposto.   

VI) Que as ditas “feias” decoram o Kama Sutra logo no jardim da infância.

VII)  Que para cada mulher mal-diagramada que pegamos, Deus nos manda duas divas logo depois de feita a caridade.

VIII)  Que mulher é metonímia, parte pelo todo, até na mais assombrosa das criaturas existe uma covinha, uma saboneteira, uma omoplata, um cotovelo, um detalhe que encanta deveras.

IX) Que me desculpem as muito lindas, mas um quê de feiúra é fundamental, empresta à fêmea uma humildade franciscana quase sempre traduzida em benfeitorias de primeira qualidade na alcova.

X) Saiba, por derradeiro, irmão de feiúra, que a vida é boxe: um bonitão tenta ganhar uma mulher sempre por nocaute, a nossa luta é sempre por pontos, minando lentamente a resistência das donzelas. Boa sorte, amigo esteticamente prejudicado, nesse grande ringue da humanidade!

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

 

Escrito por Blônicas às 16h58
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Água na boca.

De Cléo Araújo.

Refeição de parque temático que se preze deve ter cachorro quente e Coca Cola. De preferência uma de quinhentos mililitros. Nada se compara, no universo dos hot dogs, sandubas de carrinho e hambúrgueres de origem suspeita a uma salsicha de cachorro quente produzida nas dependências de um parque temático. O pão é deliciosamente meio murcho, mas aquele meio do murcho que é a fração perfeita para dar ao conjunto o sabor de cachorro quente de parque, que é exatamente o que se quer quando se procura comida, oras, em um parque. A Coca Cola de máquina tem aquele tanto de gás a menos na medida exata para não ficar choco. São aquelas bolhas faltantes que fazem dele um refrigerante de máquina de parque temático. Único. Dá pra sentir o gosto do gelo. A dupla se completa com umas gotas de mostarda e catchup e um prato de plástico mole, sobre uma mesa de plástico de limpeza duvidosa e uma folha de guardanapo, fina, única, usada com parcimônia para durar até o último gole e a última mordida.

Aí tem o lance da pipoca. A de saquinho, comprada do tio do carrinho, seja na saída da missa, do estádio ou do colégio, é algo que contém um dos sabores mais singulares que conheço. A reação causada entre óleo sem rótulo, lâmpada de 100 watts, milho comprado a granel e papel acinzentado garante um tipo de resultado que pipoca de microondas nenhuma consegue copiar. Que manteiga que nada! A coisa é boa em seu estado puro, cada pipoca contando a história de um amassado da panela de alumínio do tio. Fora o sereno da garagem, onde ele deixa o seu carrinho estacionado durante a noite, ah, deve ter lá o seu papel. Até os piruás são especiais, têm aquele fundo de queimado que explode na boca, deixando uma pitada de sal na ponta da língua.

E bife no almoço de domingo? Se eu fechar os olhos, quase dá para sentir o aroma da frigideira de ferro que só um belo espécime de avó sabe onde encontrar. A mistura é simples: o bife, o sal, a avó, e mais nada. Há um ritual de preparo, é claro, que certamente esconde segredos invisíveis a olho nu. Se você tiver a chance de ver uma avó fritando um bife, pare, segure o queixo e repare: a malemolência com que ela vira o bichinho na frigideira; a idade, envergadura e número de dentes do garfo de virar; o número de viradas... E a manteiga espalhada no fundo da frigideira? Qual sua marca, quanto tempo ficou fora da geladeira? Em que mercadinho foi comprada? Aí, deite os olhos sobre o jeito de espalhar o sal sobre o bife. Dos dois lados, de um lado só? Tudo é variável determinante para o desfecho dessa história. E lá vem ele, ainda crepitante, mesmo fora do fogo, com toda sua suculência, se deitar no meu prato, para sermos felizes para sempre.

De sobremesa, eu fico com o bolo coberto com chantili feito em casa, da mesma altura, diâmetro, peso e dulçor do que a Neuza fez hoje, para comemorar meu aniversário. Eu ainda não o comi, mas nem precisa, porque eu já sei.  O geladinho da nuvem branca do chantili vai chegar primeiro ao céu da boca, dando aquela amanteigada geral. Aí, o pão de ló, levinho, levinho, aerado, fofo. É só com a terceira mastigada que eu vou perceber o leite condensado que foi levemente cozido, só para ganhar uma cor de caramelo a lá doce de leite argentino. E nossa? Calma... Hum, que delícia... O que é isso aqui no meio? Ah, são crocantes inesperados, mini pedaços de castanha do Pará, delicadamente moídas e salpicadas antes que o bolo fosse fechado, encapsulado e coberto. Um gole de um espumante brut, rose, só para dar cor ao copo, vai tilintar na boca, fazendo cócegas ao reagir com o doce, fechando um momento quase poético, definitivamente saboroso.

É água na boca, parabéns para você e nada mais.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 17h14
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Segunda-feira.

De Ana Reber.

Tem dias que a gente não sabe muito bem por onde começar. O dia nasce, corre, mas você não acompanha. Em dias assim, eu tenho vontade de sentar numa cadeira de balanço e ficar só acompanhando a dança coreografada dos ponteiros no relógio. Está frio, nada muito bom aconteceu, mas nada muito ruim também. Zero a zero no placar das grandes emoções. Olho pela janela e penso que para pelo menos uma pessoa neste mundo, o meu dia preguiçoso vai ser o dia mais feliz de sua vida. Ao final da tarde, ela se casa com o amigo de infância que no fundo, no fundo sempre foi apaixonada. Para outro alguém este foi um dia cinza, o mais triste do ano. Ele perdeu o pai, vencido por uma doença grave e agora está setindo agora um enorme vazio no peito, uma dor que vai deixar para sempre cinza o dia 31 de maio. Um terceiro ganha na loteria e morre antes de pegar o prêmio, enquanto um quarto fulano esvazia a conta da esposa rica para fugir com a amante cabelereira. Imagine o tanto de histórias, livros, filmes que daria para fazer com apenas 24 horas deste mundo. Drama, comédia, suspense com um desaparecimento, cinema mudo, aventura em alguma cordilheira, farsa nas rampas do congresso. Segunda-feira é assim, dá preguiça, uma vontade de ficar só assistindo o dia dos outros acontecer.

Ana Reber é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h25
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DELICATESSEN.

De Silvio Pilau.


De Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Com Dominique Pinon, Marie-Laure Dougnac, Jean-Claude Dreyfus e Karin Viard.


Divertido, bizarro e imaginativo, filme de estreia de Jean-Pierre Jeunet já apresenta toda a sua criatividade visual.


Hoje em dia, Jean-Pierre Jeunet é conhecido como o cineasta responsável por um dos filmes mais cultuados da última década, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Porém, a história sobre a jovem garota que decide ajudar as pessoas ao seu redor não foi a primeira vez em que o diretor demonstrou seu vigor criativo e – por que não? – excentricidade. Antes disso e da fraca tentativa no cinema norte-americano com Alien – A Ressurreição, Jeunet construiu, em parceria com Marc Caro, duas das mais inventivas e bizarras comédias/fantasias dos últimos anos: Ladrão de Sonhos e este Delicatessen.

Situado em alguma época de um futuro próximo, Delicatessen conta a história de diversas pessoas que moram em um edifício em cima de um açougue. Como a comida anda escassa em todo o planeta, a solução encontrada pelos moradores foi a de contratar ajudantes para o açougueiro, engordá-los e, logo em seguida, picotá-los em diversas partes para que todos sejam devidamente alimentados. O mais recente deles, porém, acaba se apaixonando pela filha do açougueiro e a moça decide ajudá-lo para que o rapaz não termine no estômago de seus vizinhos.

Apesar do parágrafo acima, fica claro desde as primeiras cenas que a história e os personagens não são o grande foco de Jeunet e Caro. Durante um bom tempo, a plateia permanece totalmente alheia ao que está acontecendo em Delicatessen, enquanto os cineastas apresentam uma visão de mundo fantasticamente surreal através de imagens e cenas extremamente originais. Um exemplo é o momento no qual é realizada uma montagem com diversos personagens em seus afazeres cotidianos, que cresce de maneira ritmada com os sons das tarefas. Trata-se de uma sequência sem qualquer significado para a trama, construída como um exercício de estilo dos diretores, que encanta tanto pela montagem quanto pelas pequenas ideias presentes.

Aliás, Delicatessen é um filme construído sobre estas pequenas ideias, mesmo que elas não tenham o menor objetivo de fazer a trama andar. As inusitadas tentativas de Aurore cometer suicídio, as travessuras dos dois garotos e a história do degrau solto, por exemplo, servem unicamente para divertir. Na verdade, a trama em si pouco importa em Delicatessen: o que Jeunet e Caro querem apresentar ao espectador é a sua visão imaginativa, seu senso de humor bizarro e, claro, seu estilo visual originalíssimo. Enredo e personagens não buscam coerência ou um desenvolvimento narrativo que leve do ponto A ao ponto B: o que importa são as imagens e a sensação de fascínio diante do absurdo que elas são capazes de gerar.

E no que diz respeito ao estilo, Delicatessen é nada menos do que espetacular. Se Jeunet demonstraria em seus trabalhos seguintes mais consistência na condução da história, em termos visuais este seu primeiro longa já apresenta incrível criatividade. Utilizando praticamente dois tons de cores (o laranja e o verde) e aproveitando-se de uma direção de arte inspiradíssima, os cineastas deixam claro desde o princípio que tudo aquilo não tem lastro na realidade, com os acontecimentos se situando em uma espécie de dimensão paralela. Mais do que isso, o trabalho de câmera ajuda na construção deste clima bizarro, com ângulos de câmera inusitados e diversos planos que chegam a distorcer a face dos atores através das lentes.

No entanto, a ausência de um maior desenvolvimento dos personagens e da trama acabam fazendo falta ao filme. Como o espectador não se envolve com o que está acontecendo na tela, Delicatessen se torna, por vezes, cansativo. Fascinante, claro, mas cansativo. Isso também reflete no elenco: os atores não passam de ferramentas para transformar em celulóide a visão dos cineastas, sem jamais terem espaço para desenvolver seus personagens. Ainda assim, eles parecem “comprar” a ideia de Jeunet e Caro, e atuam sempre no limite do exagero e caricato, exatamente aquilo que os diretores esperam.

De certa forma, Delicatessen não passa de uma grande brincadeira. Jeunet e Caro não têm quaisquer pretensões em criar um filme que emocione pelo envolvimento com personagens ou surpreenda com reviravoltas na história. A trama é uma mera desculpa para exibirem na tela uma incrível capacidade criativa, tanto em termos de imaginação quanto nos quesitos técnicos. Delicatessen é obra de cineastas com uma visão diferenciada e um espírito tão irreverente que, mesmo com algumas derrapadas, é impossível não se contagiar.

Nota: 7.0

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 21h14
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