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Tubo de ventilação.
De Antonio Prata.
Num mundo ideal, as janelas dariam sempre para árvores frondosas, crepúsculos de calendário ou vizinhas distraídas. Aqui neste vale de lágrimas, no entanto, tenho que aceitar como vista do meu banheiro um vão de concreto onde a luz do sol jamais penetrou. Segundo o Jurandir, zelador zeloso e profundo conhecedor das questões condominiais, o nome técnico da anti-paisagem é "tubo de ventilação". Se a tal garganta que perpassa treze andares não brinda os moradores do Edifício Maria Eulália com visões do paraíso, ao menos distribui, para deleite do cronista, a trilha sonora de algumas vidas empilhadas acima e abaixo do meu banheiro. Tem o garoto que ouve música sertaneja e canta junto. Tem a moça que passa a vida ao telefone, repetindo sempre a mesma conversa: "E ele? Não! E você? Sei. E ele? Não! E você? Sei." Tem um senhor que tosse toda manhã, com uma força capaz de enviar seus perdigotos à Dinamarca, caso para lá sua janela estivesse virada -- e não, como já foi dito, para o "tubo de ventilação". Tem os namorados adolescentes que tomam banho juntos, descobrindo as artimanhas e agruras do asseio a dois: "deixa eu, tá frio!". "Calma, tem xampu no meu olho!". "Lindoco, posso lavar?!". "O que?". "Ele...". "Ele não, Gatucha! Tenho vergonha...". "Ah, deixa, vai?!". Tem alguém que passa as madrugadas no messenger. Triste... A noite toda aquele brrrrlump, brrrrlump -- um sapo eletrônico, a coaxar pelo prédio nossas solidões compartilhadas. Semana passada, chegou pelo tubo uma coisa diferente. Não era som, era um cheiro. Cheiro de.... De que, meu deus?! Senti meu cérebro formigando, como se as memórias lá do fundo borbulhassem, confusas, querendo saber qual deveria emergir. Seria o desodorante da enfermeira que primeiro me pegou no colo? O xampu da minha mãe, na infância? O perfume de uma namoradinha da quinta série, que estava submerso há anos em algum rincão, ao lado do gosto do Halls de cereja e da música tema de Top Gun? Fiquei ali parado, no box do chuveiro, de olhos fechados, com a sensação de estar muito próximo de uma coisa enorme e íntima, mas que ia se esvaindo, enquanto o cheiro sumia e se acalmava o alvoroço nas galés da memória. Então alguém deu a descarga, outro ligou o rádio e fui pegar uma coca na cozinha.
Antonio Prata é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 18h11
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Modinhas de fêmea.
De Xico Sá.
Vocês viram qual a nova modinha entre as mulheres espanholas? Uma romaria de madrilenas corre aos consultórios especializados para recuperar a virgindade perdida. É a chamada himenoplastia. Pá-pum. Uma cirurgia rapidíssima e lá esta a Iracema, com seus lábios de mel, como veio ao mundo, virgem, virgem. Só dói no bolso: custa uma bagatela de 2 mil euros.
A loucura é tanta que as prostitutas já enxergaram na técnica uma mina de pessetas. Deu no "El País": "M., prostituta de 25 anos, passou oito vezes pelo consultório para comprar sua inocência fictícia. Oito homens pagaram 6 mil euros cada um para ser o primeiro. Ela ganhou 48 mil. A cirurgiã que a operou conta que existem ofertas de virgens, leilões realizados em despedidas de solteiro nas quais o melhor licitante deflora a garota".
Mas esse é um caso raro, relata a reportagem. O mais comum são muçulmanas e ciganas, entre 20 e 25 anos, prestes a se casar, com medo que seus maridos as abandonem ou castiguem por causa dos seus passados. Isso é que é machismo, não aquelas besteirinhas que vocês sempre reclamam, pois pois!
Xico Sá é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 17h39
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Oração para um dia bom.
De Cléo Araújo.
Um dia bom tem cozinha quente. Tem potes de cereja em calda abertos sobre a mesa da copa, rodelas de abacaxi cortadas com esmero pela tia avó em uma travessa de louça branca e um belo assado no forno, que doura bem devagar e espalha seu perfume de temperos por todos os cômodos da casa. Um dia bom é um dia perfeito para se vasculhar os armários atrás de antigos discos de vinil. Mas também é ideal para se ficar surpreso com uma chuva inesperada que cai lá por volta das dez da noite (afinal, "fez tanto sol o dia inteiro"). Um dia bom é um dia feito para se ganhar um presente de surpresa, para se jogar ping-pong depois da meia-noite e para se tomar sorvete de flocos com calda de caramelo pouco antes de ir dormir. Também é dia para se dar uma passada na casa dos amigos, tomar Coca Cola com bastante gelo, encher a sala de colchões e dormir lá com todos os primos que existem no mundo. Um dia bom é simplesmente delicioso porque a gente pode sair para comprar material escolar novo. E não há nada melhor no mundo do que encapar um caderno e escolher um estojo. Mas o melhor de um dia bom é que, embora ele passe rápido, dá tempo de quase tudo. De ir dormir na casa da amiga - mas de só fechar os olhos quando o sol já for nascendo lá fora, de dar voltas de mobilete pela cidade, de conhecer aquele menino lindo em quem você estava de olho há semanas, de dar banho no cachorro com a mangueira, de ficar com o rosto corado pelo sol e de passar esmalte com gliter nas unhas dos pés. Durante um dia bom, todo mundo deveria ler pelo menos um capítulo de "O mundo de Sofia". Mas vale a pena também aproveitar para começar a aprender a dirigir naquela estradinha de terra remota e para comer pastel de carne com ovo no mercadão municipal. Num dia bom, você pode descongelar o Han Solo, voar de bicicleta com o E.T., cantar Sinatra no karaokê e decorar a coreografia de Thriller. Mas por favor, não se esqueça de esperar pelo menos duas horas depois do almoço antes de entrar na piscina para não ter congestão. Ou você tem alguma dúvida de que você vai pegar uma bela de uma piscina num dia maravilhoso feito esse? Coma bolacha recheada de morango, lave o carro na garagem, encha os pneus da bicicleta e pule elástico. Pegue uma luneta e vá para um terreno escuro olhar o céu. Jogue vídeo-game, chupe manga com fiapo e faça um banho de creme no cabelo. Assista "A Gata e o Rato", "A lagoa azul" e "Curtindo a vida adoidado". Compre tinta, telas em branco, pincéis e pinte um quadro bem colorido e sem noção estética nenhuma. Jogue "Stop", acampe no jardim e solte uma pipa. Almoce na casa de uma avó, que nem precisa ser a sua. Jogue queimada, buraco e truco. Quando o dia estiver acabando, tome um belo banho. E não se esqueça de usar uma daquelas bolinhas de óleo de amêndoa para se perfumar. Vista um pijaminha bem fresco e deite na sua cama. Abençoe cada picada de pernilongo na sua perna e cada músculo que dói de tanto que jogou biribol. Aí, como você acredita em Deus, é a ele a quem agradece por tudo. Pelo seu pai, pela sua mãe, pelos seus irmãos, pela sua casa e por não ter tido dor de garganta. E aí, caia no melhor sono do mundo, enquanto admira o seu teto, todo decorado de star fix. Boa noite. Durma bem. Amém.
Cléo Araújo é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 15h05
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15 PREVISÕES PARA 2009.
Pai Aran joga búzios e vê o futuro pra suncê.
1 - Índia e Paquistão farão as pazes e se unirão num novo país: o Indigestão.
2 - Tiririca será escolhido para o papel principal de "Lula, o Filho da Luta", superprodução cinematográfica da família Barreto sobre a vida de você sabe quem.
3 - O Talibã vai renunciar ao terrorismo e virar um grupo de axé music sob o comando de Carlinhos Brown. Pensando bem, eles vão continuar no terrorismo.
4 - Lula baterá novo recorde de popularidade, alcançando uma aprovação nunca antes vista na história deste país. Garanhuns será um novo destino para romeiros em busca de milagre, sentido da vida e bolsa-família.
5 - Novas e exóticas mulheres-frutas serão lançadas pelo funk carioca: Mulher Fruta do Conde, Mulher Mamão Macho, Mulher Lichia e Mulher Cupuaçu.
6 - As crises cíclicas do capitalismo acontecerão semana sim, semana não.
7 - Barack Obama vai virar verso do Caetano Veloso até março. Ele vai rimar "barraco" com "Barack" e "Obama" com "iguana".
8 - Num discurso improvisado no Sindicato dos Onanistas Comissionados Autônomos (Soca), o presidente Lula dirá: "Us empresh... empreshárius... que é donu das empresha... tudo shifu... shifu..."
9 - Chico Buarque escreverá novo romance que fará muito sucesso entre mulheres que completaram o segundo grau. As demais continuarão gostando mais do Fabio Jr.
10 - Uma boa notícia: não vai ter Bienal de Artes em São Paulo. Bem, este ano também não teve...
11 - Depois de transformar Machado de Assis em cirquinho mambembe, a Globo fará uma versão realista do Carequinha.
12 - Um novo filme brasileiro trará vários favelados se matando.
13 - Haverá mais atentados, atrocidades e aloprados. E nós ainda estamos na letra A.
14 - O novo hype da Internet será o Twitter, que ficará velho e será substituído pelo Twoing, que ficará velho e será substituído pelo Zwboing, que ficará velho e será substituído...
15 - O filme "Lula, o Filho da Luta", de Fabio Barreto, ganhará o Calango de Ouro no Festival de Cinema de Garanhuns.
Edson Aran é cronista do Blônicas e pai de santo pela Harvard.
Escrito por Blônicas às 16h44
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Madonna finalmente encontra Jesus
De Henrique Szklo
Foi em São Paulo, após seu último show. Alguns poucos e bons foram testemunhas deste milagre. Aliás, o Brasil é realmente um país com vocação para milagres, não há a menor dúvida. Este privilegiado grupo de VIPs, escolhidos a dedo, puderam comparecer a uma festinha num bar de Pinheiros na capital paulista onde Madonna se revelou. O que todos viram e comentaram é que a rainha do pop, que até então se dizia cabalista, descobriu Jesus. E se entregou de corpo e alma. Segundo as más línguas, mais de corpo que de alma.
Vários fatos cabeludos (e um careca) são observados neste misterioso e místico episódio. Perguntas constrangedoras e capciosas precisam ser formuladas no intuito de esclarecer alguns pontos obscuros nesta história toda. A igreja vai querer saber toda a verdade. Não vai contar para ninguém, mas vai querer saber de qualquer jeito. Os evangélicos por sua vez vão querer tirar proveito do evento para aliciar mais algumas almas perdidas e fazê-las encontrar finalmente o caminho do caixa. Já nós os judeus, que não acreditamos em Jesus, ficaremos em território neutro. Dentro de nossas lojas e empresas esperando o momento adequado para produzir e vender produtos relacionados ao evento a preços indecentes. E por isso é bom que tudo se esclareça com a maior rapidez e honestidade possível. Sem subterfúgios, sem diz-que-me-diz-que, sem fofocas. Apenas a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, em nome de Deus.
Eu, como judeu, me sinto em plenas condições para servir de mediador deste embróglio. Não tenho rabo preso com nenhum dos lados desta história e adoro ver o circo pegar fogo. Além do mais, Jesus é patrício, e eu conheço bem a alma judaica. Não tem como ele me enganar com estes truques de andar no mar e multiplicar os pães. Isso não me impressiona. Eu quero os fatos.
Vamos então às perguntas. Jesus foi convidado para a festa ou apareceu assim sem mais nem menos? Se não foi convidado, como conseguiu entrar, ultrapassando a barricada de gordura e músculos dos seguranças? Será que ele deu uma carteirada, mandando um "Sabem quem é meu pai?"? E se foi convidado, quem convidou? Quem tem o email dele? Por que convidar Jesus e barrar Maomé? E Buda e Moisés, como ficam? E o que estaria fazendo Jesus na festa de Madonna? Por que ele não veio à festa de confraternização da minha firma? Quem ele pensa que é? Vip? E se for Vip porque nunca apareceu na Caras? Jesus por acaso estava alcoolizado ou alterado por algum tipo de droga ou aquilo que foi visto na pista de dança era só alegria? E Jesus se aproximou de Madonna com que intenção? Para repreendê-la, para dar-lhe um aviso, um sinal ou só para pegar a popstar? Desde quando Jesus beija de lingua? O pai dele sabe onde ele estava?
Bem, somente quando respondidas estas perguntas vergonhosas poderemos finalmente descansar em paz. Até lá, não recuaremos um centímetro sequer em busca da intromissão descarada na vida alheia. Mas no fundo, o que mais me preocupa é o fato de que, pelo que eu saiba, Madonna é a mãe de Jesus, o que imediatamente nos coloca num terreno perigoso e explosivo. Vistos aos beijos por todos os convidados da tal festinha, eles não tiveram o menor cuidado em esconder seu relacionamento incestuoso. Meu Deus, o Senhor que é onipresente, tomou conhecimento disto? Jesus, Seu filho apresentando um preocupante quadro edipiano? Que situação constrangedora, meus amigos.
E a história não acaba aí. Sem nenhum senso de decência, sem a mínima vergonha na cara, Madonna não teve o pudor de esconder seus sentimentos. Suas últimas palavras ao sair do Brasil foram "Minha vida mudou desde que eu conheci Jesus". E agora? Se ela decidir se casar com Jesus? Isso não é um privilégio dedicado apenas às freiras? E freira não precisa ser virgem? Ixi!
Henrique escreve no Blônicas e muda de opinião sobre as pessoas. Visite seu site, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.
Escrito por Blônicas.. às 17h17
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Mulheres são chatas.
De Tati Bernardi.
Certa vez um diretor de teatro cismou comigo. Ah, seus textos isso, seus textos aquilo. Sua foto isso. Você, Tati. Ah, que mulher. E durante quatro meses ele me mandou e-mails quase diários a respeito dessa adoração. Aí ele finalmente veio estrear sua peça em São Paulo. E quero te ver daqui, preciso te conhecer dali. Você, Tati. Ah, que mulher. E o cara me mandava e-mails nos intervalos da peça, pouquinho antes de começar, pouquinho depois de terminar. Durante os ensaios. Uma obsessão que nunca vi. E me mandava senhas de ingressos com cadeiras na primeira fileira. E traga quem você quiser, mas melhor que venha só. Preciso te conhecer, preciso. Você, que mulher. E eu fui. Ah, eu fui. Quatro meses no meu pé, tamanha obsessão. Eu fui. E achei ele gato e interessante. E confesso que ele foi, nessa minha vida bem aproveitada, o melhor beijo na boca que já dei. E a coisa crescia. Seu cheiro, seu cabelo, seu sorriso, sua cintura. O cara, se pudesse, me enquadrava e me colocava na sala. Se pudesse, me fazia virar uma estátua na entrada do apartamento. Nunca ninguém ficou tão encantado por mim. Ele chegou ao ponto de, no último dia da peça em cartaz em São Paulo, agradecer a Deus olhando pra mim, que estava que nem besta, de novo, na primeira fileira. Tipo: eu era Deus! E então, transamos, e a coisa só piorou. Porque seus olhos fechados, porque você dormindo, porque você acordando, porque tomar banho com você, porque eu sei, mulher da minha vida, primor intelectual, sensibilidade absurda, humor genial, maldade charmosa, que mulher, que mulher, que mulher, eu nunca mais viverei sem você, não agüento ficar longe, você pode tudo, é você, é você. E me apresentava pros amigos "se preparem pra amar essa mulher pra sempre, porque é o que eu vou fazer". E não existia quarta, nem quinta e nem terça. Todo dia era sábado. Todo dia era dia de namorar e ouvir aquelas coisas todas. E ele me mostrava sua foto criança "olha a cara do seu filho". E ai de mim se topasse sair com alguma amiga ao invés de ir naquele flat onde ele quase me embalsamava de tanto amor e sexo e planos. E eu quieta, vendo aquilo tudo. Querendo acreditar aos poucos mas acreditando rápido porque, afinal, a vida é um saco e eu deveria mesmo merecer tudo aquilo. Por que não? Sim, sim, eu merecia! Claro. E então, numa tarde, depois de tantos elogios e melhores beijos do mundo e carinhos na nuca para eu dormir mais rápido e um anel de ouro branco que ele mandou fazer escrito "I Love you" na parte de dentro, eu resolvi que gostava do cara. É, acho que eu curto esse cara. Olha, tô achando que eu amo esse cara. E porque resolvi que então eu estava naquela relação e qualquer mulher que resolve isso precisa de algumas garantias e conversas que vão além da ostentação teatral e da euforia sexual, achei que não teria problema nenhum em dizer pra ele, o quanto eu estava sofrendo com o final da peça, se ele ia mesmo vir pra São Paulo me ver toda semana, se ele ia se comportar no Rio, longe de mim, com aquelas vadias bundudas querendo uma chance na TV. Se ele me amava mesmo. Como seria com ele longe. Se ele achava que aquilo tinha futuro mesmo. Aquela ladainha normal de qualquer mulher que se sente à vontade pra ser chata depois do cara ter ganho o cartão "sou insuportavelmente louco, apaixonado e obcecado por você, fucking woman of my life". E ele coçou a batata da perna. Espreguiçou. Fungou fundo a respiração. Foi tomar banho sem falar nada. Ficou dois longos dias sem me ligar. E depois, porque eu fiquei sem entender nada e fui pro Rio, desesperada, ver o que estava acontecendo, ele me disse, com uma frieza e um distanciamento que até hoje me dilaceram e me fazem temer a vida: "ah, Tati, você é chata". É, mulheres são chatas mesmo. O que é melhor, muito melhor, infinitamente melhor, do que ser você.
Tati Bernardi é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 09h33
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O espírito de Natal.
De Bianca Rosolem.
Lembrei agora mesmo, quando escrevia o título acima, de um filme e resolvi registrar aqui e utiliza-lo para ilustrar o início dessa crônica. É um filme sessão da tarde natalino, acredito que com o divertido Bill Murray, não me recordo o título, e quem o souber deixe aqui anotado, por favor. Pois bem, na película o ator é um empresário mesquinho, sem valores humanos, mas com muito valor em espécie, digamos. É uma adaptação do conto natalino tradicional de autoria de Charles Dickens, que retrata o avarento visitado pelos espíritos do passado, presente e futuro, que o assombram na tentativa de elevar a mesquinhez de sua alma. O velho ditado "se não é pelo amor vai pela dor". Eu que não gosto de festas coletivas observo toda essa movimentação em torno da data de Papai Noel de uma maneira peculiar. Desde muito cedo algo me fazia estranha no período festivo. Meus pais acabavam brigando por algum motivo e sempre rolava algum stress que a tenra idade não compreendia. Apenas vivia um sentimento triste sem entender segurando o brinquedo novo. Com o tempo a chatice crítica se instalou e percebi a comoção financeira existente na comemoração do nascimento do Cristo. A real dessa história é bem simples: Um cara nasceu para salvar o mundo - olha a puta missão e responsa! - ganhou incenso e outras bugigangas e, hoje, o povo pega trânsito, fila pra tudo, e se endivida no cartão de crédito comprando grandes presentes. Claro que para compensar a falta de sentimentos reais e comprometimento nos relacionamentos, coisas que Jesus, o pobre filho do carpinteiro, pregou e deixando a maior história da humanidade. Calma lá, não me odeiem! E não me tomem por uma socialista chineluda chata. Sou um pouco dessas coisas, admito, mas vamos lá. A parte do presente é legal. Sim! Eu adoraria ganhar um conjunto de dvd+tv lcd+home theater e aquele telefone moderno que faz tudo e mais um pouco. Mesmo que eu não use metade dos recursos porque o meu é pré-pago. E os filmes que eu gosto não precisem de recursos extremos de som e imagem. Eu só acho que os sentimentos que deveriam nortear a data e, claro, toda a vida do indivíduo, ficam em segundo (terceiro, quarto, quinto...) plano para dar a vitória ao dimdim, money, bufanfa, grana, e sei lá quantos nomes o diabo tem. Como advogada, posso dizer que no final do ano as pessoas ligam desesperadamente atrás da grana. Elas lembram daquele processo e, pum, sacam o telefone, ou entram no escritório agressivas atrás do dinheirinho sonhado. Até esculacho já tomei porque uma senhora comprou o tênis para o filho no cartão de crédito, esperando o dinheiro de um litígio com o INSS que, infelizmente, não saiu. É só notar na rua o volume crescente velocidade da luz de pessoas, todas estressadas em comprar. Caminhando desesperadas atrás de "um" dinheiro aqui, acolá. Não deixemos de falar das inevitáveis contendas familiares, afinal, creio que isso não seja um privilégio da minha. Na casa de quem, o fulano fez tal coisa, a tia que não lava a louça, a cunhada que só traz aquele peru horroroso, tudo coisa muito elegante. Não vou me esquecer também daqueles famosos "escorpião no bolso". Sabe aquele tio velho, que fica de cara amarrada só para não abraçar alguém ou gastar dinheiro, e come todas as coxas da ave natalina? Ou aqueles que dão presentes usados, já viram, com cheiro de naftalina e preço em cruzeiros na etiqueta? E aquele que te emprestou uma graninha há uns meses atrás e resolve te cobrar com juros de 3.000%? Eu sei lá nessas horas. Eu apenas vejo essa gente enfiando pisca-pisca em todos os lugares (quem sabe até lá, não é minha gente?) e sinto uma vergonha alheia sem tamanho, proporção e cor. Eu não entendo nada disso, nem o excesso nem a carência. Eu só me questiono onde está a verdade nisso tudo. É isso aí, o espírito de natal é a grande assombração do conto ilustrado no filme citado. Exorcizando os maiores demônios existentes na alma humana que, sob o aval da comemoração do nascimento do Cristo, exteriorizam a sua faceta mais infame. E para compensarem tamanha excrescência, se entopem de presentes e comida como desculpas de sua própria mediocridade. E fingem também se gostarem. Por um dia. Feliz natal pra você.
Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 18h06
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Política à moda Hollywood.
De Silvio Pilau.
Rede de Mentiras tinha tudo para dar certo. Roteirista recém-oscarizado, um dos mais consagrados diretores do cinema americano, elenco formado por dois excelentes atores e um tema de extrema relevância para o mundo atual. As cartas estavam todas na mesa. Infelizmente, os jogadores não conseguiram montar um bom jogo. Ainda que esteja longe de ser um filme ruim, pode-se dizer que Rede de Mentiras é uma produção decepcionante, que peca pela falta de ousadia e coragem ao abordar de maneira superficial um assunto tão complexo. Dirigido por Ridley Scott (Gladiador) a partir do roteiro de William Monaham (Os Infiltrados), Rede de Mentiras é mais uma produção recente a montar sua trama central em torno do tema terrorismo e guerra no Iraque. Porém, o filme está mais para O Reino, que priorizava a ação ao invés da reflexão, do que Leões e Cordeiros, que fazia o contrário e levava o espectador a pensar sobre os acontecimentos. O roteiro não se prende a análises ou críticas políticas, nem aborda as conseqüências da guerra sobre as vidas humanas. A intenção de Scott e Monaham parece ser, unicamente, a construção de um thriller de ação que prenda a atenção por duas horas. Se esse era o objetivo, ele foi alcançado. Rede de Mentiras é uma aventura de espionagem conduzida com a competência de sempre por Scott e que conta com um enredo suficientemente bem amarrado. Ainda que superficial e não tão complexo quanto se poderia esperar, o roteiro não deixa grandes pontas soltas e é dinâmico para fazer com que o ritmo da produção seja bastante vertiginoso. Scott, aliás, colabora para isso ao construir cenas de ação eficientes e explorar a interessante contradição entre os norte-americanos serem prejudicados por sua própria tecnologia na luta contra os rústicos homens do deserto. Por outro lado, a história é falha em diversos pontos, como na construção dos personagens. Ao focar simplesmente na busca pelo terrorista, Rede de Mentiras jamais permite que o espectador conheça aqueles personagens. Hoffman, por exemplo, permanece um verdadeiro mistério durante toda a produção. Ainda que Russel Crowe use todo o seu talento para transformá-lo em uma figura carismática e levemente cômica, pouco se sabe sobre o personagem além do fato de que ele toma decisões capazes de influenciar o mundo enquanto leva o filho ao banheiro ou assiste o futebol de sua filha - idéia que Scott esgota ao repeti-la. Enquanto isso, a construção de Roger Ferris também enfrenta alguns percalços. Verdade que o personagem, ao menos, possui um arco dramático, mas esse é tão artificial que não convence - apesar da interpretação sólida e intensa de DiCaprio. Por exemplo, ele simplesmente decide dizer que está cansado de tudo o que vive, sem que o roteiro dê motivos para isso (e não falo sobre a cena que ocorre após o momento com a câmera de filmagem, mas antes). Além disso, pouco se sabe sobre ele fora sua capacidade como agente: quem é Ferris? De onde veio? Há uma breve menção a um divórcio e nada mais. O maior problema, porém, em relação ao personagem diz respeito ao relacionamento inventado pelo roteiro entre ele e uma jordaniana. Totalmente fora de contexto, a história serve apenas para estabelecer o conflito do terceiro ato, sem qualquer função orgânica à trama. Além disso, as cenas entre DiCaprio e a atriz Golshifteh Farahani são os únicos momentos no qual o filme perde um pouco de seu ritmo e o relacionamento entre ambos dá início a um clichê que simplesmente não deveria ter lugar em uma obra com temática séria como Rede de Mentiras: aquele no qual o mocinho tem que salvar sua amada da mão dos bandidos. Esse, por sinal, não é o único lugar-comum no qual a produção resvala em seu terceiro ato. Há um momento frustrante no qual alguém é salvo na "hora H" e a inevitável conversa entre mentor e aprendiz após todos os acontecimentos. Tais desvios quebram o tom realista que o filme deveria possuir, jogando na cara do espectador que ele está assistindo simplesmente mais uma produção hollywoodiana, onde a falta de ousadia em apresentar algo novo sempre dita as regras. E isso é uma pena, pois torna Rede de Mentiras uma decepção por jamais atingir o nível que deveria ter alcançado. É, ao final, um thriller que dá conta do recado e diverte durante duas horas. No entanto, atém-se unicamente à caça ao terrorista de maneira rasa, jamais indo a fundo na questão da guerra ou promovendo reflexões na platéia a respeito de assunto tão relevante. Está longe de ser um filme ruim, mas é, por tudo o que prometia, frustrante.
Silvio Pilau é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 16h16
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Papai Noel e o Marketing.
De Carlos Castelo.
- E então, como ficou a criação do personagem-ícone do Natal? - Trouxemos uns layouts com ele em algumas situações e figurinos. - Vamos dar uma olhada geral? - Ok, essa é a primeira situação. Ele seria um cara jovem, meio canalhão e usaria uma camiseta apertada, mostrando peitoral, bíceps. A consumidora feminina, com certeza, adoraria um tipo assim. - Faz sentido. É ela quem define as compras em casa. Mas, por outro lado, me parece um pouco fechado demais num universo só. Muito classe A, B também. - Ah, ele anda com um saco na mão, sempre cheio de presentes. Passa uma virilidade, a coisa do macho alfa-provedor. A classes C e D teriam identificação com esse aspecto, não acha? - Vocês chegaram a ler alguma pesquisa qualitative sobre o tema? Meio arriscado aprovar assim sem um embasamento. O outro... - Bem, aqui seria um sujeito, como eu posso dizer, mais efeminado. - Hum, hum. - Não necessariamente pela atitude, entende? - Sei. Ele não é uma bicha louca, é mais um simpatizante. - É, é. Efeminado pelas roupas vermelhas que ele usa e tal. - Veludo vermelho? - Exato. E no entorno tem renas, alces e esses duendes. Dão um toque surreal ao ambiente onde ele transita. Lembra do Pee-Wee Herman? - O humorista andrógino? - Ele tinha uma pegada gay light, assexuada, dava o maior samba. - Huuuummmm. Tem mais opções na pasta de vocês? - Tem o velhinho bêbado. - Curioso. Deixa eu ver. - A gente partiu da idéia de que um personagem assim despertaria a piedade das pessoas. Final de ano, todo mundo sensibilizado. Aí surge esse cara de barbas brancas, bochechas rosadas, bêbado e falando onomatopéias estúpidas, tipo "ho ho ho", frases desconexas, sabe? - E qual seria a vantagem do ponto de vista do marketing? - Bom, essa seria uma opção menos "right sizing", mas que pegaria pelo emocional, a vontade íntima das pessoas quererem ajudar um vovozinho de fogo. - Ho Ho Ho? - Sim, seria o "gimmick" sonoro do personagem. - Qual opção agradou mais o Planejamento Estratégico? - Hã, eles criaram um tipo deles... - Como era? - A gente não concordou muito. Mas por eles ficaria uma mistura do velhinho de barbas brancas com o gay de roupa de veludo vermelho... - Interessante! - Acha mesmo? - Sim! E olha: coloca o velho segurando o saco de presentes do canalhão com esses viados todos em volta! - Sério? - Ho Ho Ho!!! O "gimmick" sonoro é muito bom, cheio de non-sense! Vai pegar! Manda o orçamento amanhã pro Financeiro, sem falta!
Carlos Castelo é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas . às 16h30
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