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XICO SÁ

Escritor, jornalista e colunista da Folha. É do Cariri, mas teve a sua educação sentimental no Recife. Visite seu blog.

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Escritor, diretor e produtor de animações. Tem artigos e crônicas em revistas e sites. Coordena o Blônicas. Veja seu site.


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Artista (cantor, ator, compositor e escritor). Tem trabalhos em teatro, TV, cinema, revistas e jornais. Visite seu site.
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Escritora, jornalista e colunista da Revista Tpm. Adora futebol e é comentarista da SporTv. Visite seu blog.

HENRIQUE SZKLO

Escritor e depressivo. Filho da D.Sarah (blog) quer ser rico, poderoso e símbolo sexual. Tem um cão que é a sua cara. Veja o site.

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ANTONIO PRATA

Escritor e cronista do Estadão e revista Capricho. Colaborou na novela Bang-Bang. Visite seu blog.

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Roteirista, física nuclear e Ph.D. em ponto arroz duplo. Redatora, repórter e apresentadora de rádio e TV. Visite seu blog.
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Escritor, organizador editorial e agitador cultural. É de Sertânia (PE) e recebeu o Prêmio Jabuti em 2006. Visite seu blog.
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Uma vida de segunda ou cruzando o Paraíso, amigo Sam Sheppard

De Xico Sá.

Ainda na cama, o grupo Morphine toca “buena”, aquela, faço as promessas da semana e os três desejos de segunda.

Saio do escuro e mendigo um naco de sol, bem-aventurados os lagartos que nadam no seco.

Esta semana eu te quero, eis o primeiro  e talvez único desejo. Não vale dizer “eu não tenho roupas”, daqui vejo o desespero diante do armário lotado, que venhas só de botas mesmo que serás um presente para todos os vagabundos da noite.

A tira do Laerte antes do horóscopo. Esse cara tá foda, uma fase que nunca acaba. Alguém diz.

Estamos numa fase como as nossas tripas.

Com fome, mas sem saber donde vem o ronco, se da minha pança ou da linda barriguinha dela.

Amo a minha cachorra chapada e bêbada, amigo zero quatro.

Dois bules de café amargo, cream cracker, manteiga Aviação,de lata, duas ou três coisas que nunca saberemos de nós dois sobre todas as outras coisas sem importância.

Os caras morreram, agora nos demos conta, inclusive Antonioni, mas nós estamos apenas de ressaca, amor, essa dengue sartreana da moléstia, calma ai, calma ai, sem desespero, ao lusco-fusco estaremos tinindo de novo.

Nuestros horóscopos para agosto, mas como agosto se agosto, Bárbara Abramo, caiu em julho este ano, tragédia de avião e tudo com cento e tantos mortos?

Ao sair não bata a porta, deixa aberta para que o vento devolva o teu cheiro e eu goze mais uma vez antes que dobres a esquina do Paraíso adonde ganha a vida, à custa da neutralidade suspeita, o velho babaca do teu analista.

[do libreto "Tripa de cadela & outras fábulas bêbadas", breve pela editora Dulcinéia Catadora]

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h23
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Sexo de A a Z - a letra I

De Edson Aran.

Hoje: a incrível letra “I”

Incesto: Tipo de coisa que deve ficar entre a família.

Indecisão: O cara era mais indeciso do que bissexual numa orgia.

Índio: Vive peladão no meio do mato e toma no rabo faz quinhentos anos. Aí quando ele pega uma professorinha e passa a vara, todo mundo reclama.

Indecêncio: Indecêncio Malta, deputado federal (PFL-PI), está no décimo mandado e acumulou vistosa fortuna graças às inúmeras vezes em que ganhou na loteria (1.717 até hoje de manhã).

Infâmia: Antigo reino oriental na fronteira com a Esbórnia e a Indecência. Foi governado por Antunes, o Desprezível, até a invasão dos néscios em 1346, 1415 e 1618 (sendo absolutamente néscios, os néscios não sabiam exatamente onde ficar). Com o fim do período néscio, a Infâmia passou para o controle dos beócios e dos fagócitos, que estavam ali de passagem e resolveram fazer uma invasãozinha básica. No começo do século 19, a região foi dominada pelos cretinos que, numa grande volúpia predatória, estupraram todas as casas, depenaram todas as mulheres e raptaram todas as galinhas. Historiadores são unânimes em afirmar que esta foi a invasão mais cretina de todas.

Inferno: A diferença entre inferno e inferninho é que, no segundo, as capetinhas são de néon.

Intimismo: Performance intimista de verdade só pode ser feita no banheiro, sem testemunhas e com muito creme pra deslizar melhor.

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h46
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O quarto concreto.

De Carlos Castelo.

No ano do cinqüentenário da poesia concreta surgiu um novo elemento para sacudir a polêmica em torno do movimento artístico mais discutido dos últimos tempos no Brasil.

Além de Augusto, Haroldo e Décio apareceu um quarto poeta reinvidicando sua participação no movimento: Anfrísio dos Santos.

Maranhense de Codó, dono de uma casa de material de construção em Carapicuíba, Anfrísio afirma que o Manifesto Concreto foi escrito a oito mãos e garante ter co-autoria também, entre outros, no célebre poema “Beba Coca-Cola”, do colega Décio.

A comunidade artística ainda se encontra perplexa, pois, para seus pares, o quarto concreto de origem maranhense seria o poeta Ferreira Gullar, não Anfrísio dos Santos.

Procurado por jornalistas da área cultural, o autor de “Poema Sujo” não quis se manifestar alegando que só dará novos depoimentos assim que acertar um novo corte de cabelo diferente do atual “chanel” na altura do pescoço.

Abaixo o depoimento completo de Anfrísio da Silva, o quarto concreto:

Pergunta: Como o senhor tomou contato com o grupo de poetas concretistas de São Paulo?

Anfrísio da Silva: Eu era assistente de pedreiro e fazia uns bicos numa firma de dedetização. Por acaso, dei de cara com o Décio na Praça da República, na hora do meu almoço. A gente estava dividindo o mesmo banco. Ele estava lendo “Os Ratos”. Vi aquele nome na capa e falei assim: “Ratos? Disso eu entendo”.

Os olhinhos do Décio brilharam. Falou pra mim: “você entende de Dyonélio Machado?! Não posso acreditar! Outro, além de mim, valoriza o verdadeiro Joyce brasileiro!”

Não entendi muito bem aquilo que ele estava falando. Mas aceitei na hora o convite pra fazer um trabalho concreto na casa dele.

P: O senhor tinha idéia do que era Concretismo?

AS: Idéia, idéia assim eu não tinha. Cheguei a pensar que o Décio queria fazer um calçamento novo na casa. E, apesar de estar mexendo mais com barata, formiga e rato, podia muito bem fazer um extra e levantar um dinheirinho reformando a residência do homem.

P: E o que aconteceu quando chegaram à casa de Décio?

AS: Bom, estavam lá os dois irmãos, os Campos. O Décio me apresentou dizendo que eu conhecia o Dyonélio. O Haroldo, largou um livrão que parecia uma Bíblia em cima da mesa, e foi logo me abraçando. O Augusto desligou a vitrola e fez a mesma coisa. Foi quando o Décio falou assim: “tem algum texto teu aí por acaso pra gente fazer uma leitura?” O que eu tinha no bolso era um papel desses de pão, com o pedido do material do calçamento que eu vim escrevendo no ônibus pra mostrar pra eles. Peguei e entreguei o papel todo amarrotado pro Décio.

P: E o que ele fez?

AS: Começou a ler o meu pedido em voz alta. E os outros dois irmãos ouviam, muito quietos, de olhinho fechado. Eu me lembro até hoje: “Simento, arêa, tigolo, maça de pedreiro, duas pá, uma cuié, pedriscu”. Fiquei atrapalhado por ele ler aquela besteirada como se tivesse cantando o “ouviram-do-Ipiranga-às-margens- plácidas”, sabe aquele respeito? Quando ele parou, o Haroldo tomou o papel e botou os olhos em cima foi tempo, mas tudo no maior silêncio. Demorou uns dez minutos pra ler aquele tiquinho de palavra.

P: Haroldo chegou a fazer algum comentário?

AS: Fez não. Passou pro irmão, que deu de ler o papel também. Cheguei a pensar que tinha ofendido eles com o meu palavreado mal ajambrado de trabalhador braçal. Por fim, o Décio pegou o telefone e ligou pra um tal de Cabral lá no Rio de Janeiro. Deu de ler o papel de pão de novo, agora com mais força na voz ainda. Quando desligou, veio e perguntou se eu tinha contato com o Guimarães. Ou com um tal de um conterrâneo meu, do Maranhão - Souza Andrade, se não me falha a memória. Disse a ele que meu contato era só com o Carlos. Quando falei esse nome, os três começaram a berrar “Drummond! Drummond!” – urravam feito bezerro desmamado na sala. Eu doido pra explicar que o Carlos que eu tratava era o Carlos Pipa, dono da loja de material de construção da Barão do Triunfo, mas ficou por isso mesmo.

P: E os desdobramentos desse primeiro contato? Como Anfrísio dos Santos saiu do trabalho braçal, da vida feita de bicos, para a Alta Poesia?

AS: Bom, depois de uns dias, os três me apresentaram a um mestre-de-obras amigo deles, o Oscar. Prepararam uma comedoria para o homem que não foi mole. Devia ser muito bom mesmo o sujeito. Quando ele entrou na sala, o Augusto disse no pé do meu ouvido: “Anfrísio, esse homem fez uma cidade inteirinha”. Pois bom, com esse eu podia me entender, era do meu ramo. Quando estavam na sobremesa, arranquei do bolso outra lista de material de construção e li pro Oscar. Dessa vez eu mesmo e bem alto: “Argamaça! Baldrame! Asso! Têia! Pedra mineira!”. Assim foi. Acabou que o mestre-de-obras me chamou de um nome que até hoje eu não sei o que é: “proletário”. Uma coisa assim. E, na hora, me convidou para entrar no Partido dele.

P: E o senhor aceitou?

AS: Ora se aceitei. Vou ficar de fora de um Partido que só tem pedreiro como eu? E fiz muito bem. Um ano depois, eu estava lá na Rússia declamando lista de material de construção e o povo batendo palma. Foi aí que fiquei conhecido como poeta concreto pra valer.

P: É verdade que o senhor é co-autor do poema "Beba Coca-Coca"?

AS: Sim, é meu também.

P: Explique melhor a sua versão.

AS: Eu gostava de Grapetti, um refrigerante que tinha naquela época. Eu chegava no boteco perto da casa do Décio e dizia pro português: "quem bebe Grapetti, repete". Todo dia eu dizia aquilo. E o povo ria de mim. Um dia eu vi o Décio, concentrado, escrevendo sobre a Coca-Cola num papel. Eu perguntei assim: "quem bebe coca-cola, repete?". Ele riu assim e falou: "obrigado, Anfrísio, era essa repetição que faltava no poema". Por isso eu me considero dono da idéia junto com ele.

P: E como explicar esse seu sumiço de tantos anos e o porquê da sua opção de montar uma loja de material de construção em Carapicuíba?

AS: Depois que voltei da Rússia começaram a chamar o Oscar de um tal de stalinista. Não conhecia aquele nome, mas devia ser coisa ruim. No dia que passaram a me chamar desse nome também foi que eu vi. Vinha o povo com as pedras na mão, me chamando dessa coisa e jogando a pedregulhada por cima. Foi aí que me desgostei e tomei a decisão de mudar de vida.

P: E como foi essa mudança?

AS: Eu apanhava as pedras que jogavam em mim, botava numa caçamba e vendia pras obras lá da periferia. Com o tempo, fui juntando tijolo e cimento. Logo estava com a loja montada.

P: O senhor conhece Charles Sanders Pierce?

AS: Não.

P: Ezra Pound?

AS: Não.

P: T.S. Eliot?

AS: Conheço não senhor.

P: E como faz Literatura?

AS: Eu não faço Literatura, faço concreto.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h33
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Cheirando tudo.

De Henrique Szklo.

O problema das drogas atinge aos cães

Recentemente tive a triste notícia de que um colega nosso, policial, morreu em razão de uma overdose de cocaína. Pobre criatura. Provavelmente estivesse vivendo um momento de muita agitação e ansiedade. Não creio, entretanto, que tenha sido culpa dele. Não consigo acreditar que um cão tenha vontade de se matar. A pressão por resultados deveria ser grande, imagino. Mesmo assim a auto-destruição não faz parte de nosso repertório. Honestamente, reputo a culpa desta trágica situação aos humanos que se diziam seus amigos, mas que, covardemente, o apresentaram às drogas que o levaram inexoravelmente ao vício. Se dizem amigos, afagam nossas cabeças, nos oferecem guloseimas, biscoitinhos e outros quetais para nos conquistar, utilizam suas falas mansas cheias de veneno para depois nos trair vergonhosamente. Dizem que nós somos seus melhores amigos. Imagine o que fariam com os piores. Pelas babas do Pateta, é repugnante esta prática de viciar pobres cães em drogas. E para quê? Para utilizá-los como narizes ambulantes em busca de entorpecentes escondidos em malas, containeres e afins. Querem que os desesperados cães viciados sejam dedos-duros de seus colegas-em-desgraça humanos. Quer dizer: ainda transformam as pobres criaturas em delatores vis. São vítimas transformadas em vilões.

Mas os cães são muito mais dignos que vocês, mesmo no vício. Nunca ouvi falar de um cão que roubasse objetos de sua casinha para vender ou trocar por alguma droga.. Até porque bolinha de borracha, osso de couro e os brinquedos em geral não têm nenhum valor de revenda. E que traficante iria aceitar como moeda de troca um monte de objetos repletos de baba? Cães viciados não mentem para a família, dizendo que estão limpos quando não estão, nem ficam mais agressivos com quem os coloca contra a parede. Jamais conheci cães que batessem na própria mãe (é claro que umas avançadinhas sem maldade acontecem de quando em quando), ou que concentrassem toda a sua energia na busca por mais e mais drogas. Cães tem mais no que pensar além da busca alucinante por prazer. Sexo, por exemplo.

Também não conheço nenhum cão traficante, tentando seduzir indefesos filhotes na saída de suas escolinhas de adestramento, nem tentando dominar um morro e usando armas para enfrentar a polícia. Scooby-Doo me livre!

Por outro lado, também não temos nenhum apoio para aqueles que querem abandonar o vício. Não existem campanhas contra o consumo nem existem associações de cães viciados anônimos, Au-Au-Au (perdoem-me pelo trocadilho, mas às vezes meu instinto animal toma conta de mim e perco completamente o controle de meus atos). Continuando, não existe nenhuma ONG, clínicas de desintoxicação, nem vejo comerciais de TV ou autoridades se mobilizando para resolver o problema.

Por Snoopy, cães também não têm nenhum interesse em apresentar a droga a seus colegas. Não oferecem nem pressionam socialmente. Nenhum de nós faz apologia à droga nem cria músicas idiotas utilizando este assunto.

Você que é meu leitor sabe que eu tenho um vício, mas que nem de perto chega na gravidade das drogas pesadas. Eu cheiro traseiros, confesso, mas por razões terapêuticas e sensoriais. Quem faz como eu sabe que cheirar traseiros abre as portas da percepção. A porta dos fundos, claro.

Segundo o cinofilismo dialético, filosofia que venho defendendo há anos, os cães se utilizam de meios mais naturais e saudáveis para resolver seus conflitos pessoais e os mais profundos questionamentos da sociedade canina moderna. Roer um osso por meia hora certamente vale mais que um ano de terapia. Com a vantagem que o osso não sai da boca automaticamente após cinqüenta minutos. Odie explica.

Diferente dos humanos, os cães viciados tem uma preferência apenas por drogas aspiráveis. Por uma razão até que óbvia, já que é praticamente impossível para nós utilizar seringa e muito menos enrolar cigarros de maconha. Nossa constituição física não nos permite manipular finos papéis de seda, apesar de que na hora da lambida, somos imbatíveis.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 17h58
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Gastronomia coorporativa.

De Cléo Araújo.

Cada um se virava do seu jeito para matar aquela fominha de final de tarde no escritório. Uns traziam barrinhas de cereal, outros iogurte light com pedaços de frutas e havia ainda aqueles que sucumbiam ao carrinho de quitutes do Seu Mário.
Os gorditchos lamentavam e juravam dieta para a próxima semana logo depois de devorarem dois palitos de Twix. Os magros não tomavam lanchinho. E os veggies comiam ricota. Até que um dia, Gerusa, copeira visionária e empreendedora, resolveu lançar a salada de fruta institucional. O escritório entrou em festa. Todo mundo se sentiu incluído: grávidas, gorditchos culpados e magrinhos veggie. O único que ficou triste, naquele momento, foi o Seu Mário.
Gerusa foi às compras. Pegou o ônibus mais cedo e chegou ao prédio às seis da manhã, cheia das sacolas. Servia-se de um repertório básico de frutas: mamão, banana nanica, maçã, abacaxi e uva itália. Ao começar o preparo, achou por bem remover a casca dos baguinhos de uva. Sabia que Penélope não fazia boa digestão. Pronto. Agora, por dois reais, todo mundo teria um lanchinho leve, saudável e ainda daria uma força no orçamento de Gerusa.
Teria sido assim para sempre, não fosse ela uma altruísta iniciante no mercado da gastronomia coorporativa.
Primeiro, Penélope, que, embora tivesse adorado a uva sem pele, só queria sugerir uma coisinha: pêssego em calda. Daria um toque sofisticado e era assim que ela comia quando era criança. Gerusa tomou nota. Na seqüência, entraram Pablo e Miguel. Miguel se revelou um adito em maçã verde. Pablo já se fixou na ausência de casca nos baguinhos de uva, o que a havia deixado meio molenga.
No dia seguinte, Gerusa passou no supermercado e comprou uma lata de pêssego em calda, uma dúzia de maçã verde e banana prata (Firmina não comia nanica). Penélope foi, de novo, a primeira. Lamentou a presença de casca na uva. Gerusa, então, teve a idéia: faria um potinho especial para Penélope. Chegou Alcione. Diabética, pobrezinha, não curtiu a presença do pêssego em calda. Gerusa, então, prepararia também para Alcione um potinho especial. Samanta, do Marketing, ao ver o sucesso nas vendas de Gerusa, fez uma proposta ainda mais ambiciosa: bolinhas de melancia.
E Gerusa começou a perceber que todos entendiam muito mais de salada de fruta do que ela pensava. Sentiu-se meio perdida quando percebeu que talvez não conseguisse identificar uma pitomba no supermercado.
No dia seguinte, Gerusa gastou mais do que queria e percebeu que o lucro inicial das vendas não estava cobrindo os seus gastos. Resolveu, então, que aquela seria a última salada. O negócio, que tinha tudo para dar certo, naufragava no seu terceiro dia.
Todos ficaram tristes. Mas a vida continuou e Seu Mário voltou a sorrir.
Naquele dia, na hora do almoço, Michele, Fúlvio e Zoraide foram ao Mc Donald's. Michele pediu um Big Mac sem molho especial. Fúlvio um Cheddar sem cebola. E Zoraide um Mc Fish.
É que ela, na verdade, odeia Mc Donald's.
E não come nem frango, nem carne vermelha.

Cléo Araújo é a nova cronista do Blônicas. Aguarde, em breve, muitas novidades.

Escrito por Blônicas . às 15h56
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Chance.

De Nelson Botter Jr.

Enquanto espirra o perfume de fragrância duvidosa, Emanuel pensa no tamanho da roubada em que está se metendo. Essa coisa de encontro às escuras, ou “blaindaiti” (como dizia seu amigo Cezar), definitivamente não é a melhor das idéias pra sair daquela melancolia danada. Tudo por causa da Glorinha. Mas agora já foi, são águas passadas, ela que seja feliz com o tal auxiliar administrativo do cartório, que em uma semana acabou com meses de planos. Caguei, diz ele se olhando no espelho. Um Alain Delon, diria sua avó.
Ajeita a camisa, dá um último tapa no cabelo emplastado de gel e caminha até a porta. Pensa no momento de encontrar Isabela e suas pernas tremem. O suor começa. Puta merda, toca passar mais perfume!
Essa coisa de conhecer gente pela internet é complicada. Você vê a foto ali, não sabe se a pessoa é aquela mesma, se não estão te enganando, se na hora de apalpar não é nada daquilo que você espera encontrar. Mas uma coisa o Cezar tem razão, precisa ir lá e conferir. Ainda mais no caso da Isabela, tão gatinha nas fotos, sorriso meigo, olhos delicados, peitos empinados, cintura fina, linda, linda, linda... mas, e se ela não for nada daquilo?
Uma tremenda incerteza bate em Emanuel. Cara, essa menina não pode ser tão bonita como nas fotos. Por que uma gata dessas estaria numa sala de bate-papo? Garotas bonitas como ela não precisam disso, definitivamente.
Emanuel olha para suas mãos, elas tremem. Volta para o espelho, se analisa dos pés à cabeça. Acho que não vou. Mais uma olhada. Cara, deve ser alguém zoando com a minha cara, se bobear é o próprio Cezar querendo me pregar uma peça. Nem ferrando que vou cair nessa. Melhor, vou deixar ele lá, plantado, achando que vou cair feito um bestão nessa zoeira dele.
Pipoca, pijama, Zorra Total na TV. É isso aí, que sair que nada, parei, não vou cair na do Cezar. Pensa que acreditei nesse papo de Isabela... prefiro ficar aqui pensando na Glorinha.
Enquanto isso, na porta do shopping está uma menina muito bonita, sorriso meigo, olhos delicados, peitos empinados, cintura fina, linda, linda, linda... seu nome é Isabela.

Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas e sempre diz que “chance” é sorte em francês.

Escrito por Blônicas . às 16h33
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Seleta coletiva.

De Antonio Prata.

Eu nunca vi a vizinha. Desde que ela se mudou para o apartamento ao lado, faz alguns meses, minha imaginação alimenta-se apenas do que deposita ao pé do lixo comum, na curva da escada.
Na noite em que se mudou, houve uma festa. Ou open house, como dizem agora. Não de arromba, com YMCA acordando os palmeirenses e professores universitários de Perdizes, no meio da madrugada. Somente música suave, risos e vozes cruzavam a parede da sala -- altas o suficiente para aguçar a minha curiosidade, baixas demais para satisfazê-la.
No dia seguinte, topei com dez garrafas de Veuve Clicquot, ao lado do lixo. Minha vizinha é fina, pensei, sem evitar que uma medíocre ponta de orgulho cutucasse minha alma barnabé: o condomínio está progredindo.
Algumas semanas depois, uma sexta-feira, cheguei tarde em casa: ouvi o burburinho. Confesso, envergonhado: mal fechei a porta, colei a bochecha na parede, na esperança de captar alguma pista sobre a moradora ao lado. Prédio antigo, paredes grossas -- dessas que não fazem a alegria de empreiteiras mesquinhas ou viúvas alcoviteiras -- ouvi apenas ruído. Tudo bem, pensei: no dia seguinte, na curva da escada... Quatro garrafas de bom vinho argentino, dentro de uma sacola da importadora Mistral, três caixas de pizza, um saquinho com cascas de lichia.
Aí a coisa azedou. Enquanto, do lado de cá da parede, malbecs e lichias eram o teto da sofisticação, coisa para jantar romântico em começo de namoro, trinta centímetros de tinta, massa corrida e tijolos para lá não passavam de acompanhamento para a pizza de sexta. O ressentimento cravou sua tachinha na bunda de minha condição AB. Vieram-me à cabeça – talvez para dar à inveja o verniz que faltava a meus hábitos de consumo – uns versos de Drummond: “não sei se estou sofrendo/ ou é alguém que se diverte (...)” – mais do que eu, pelo menos – “na noite escassa”.
Nunca vi a vizinha. Ignoro se é alta, ruiva, presidenta do Lions Club ou aborígene australiana, mas ultimamente percorro apressado os três metros que me separam do lixo bege. Não quero que ela, vendo através da sacola verde do Pastorinho umas latas de Skol amassadas, cascas de mexerica e potes de Yakult, pense que não sou digno de sua vizinhança. Ou, mais grave: se ache melhor do que eu. Afinal, nada, vindo de um vizinho, pode ser pior do que isso -- nem mesmo YMCA, no meio da madrugada.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h00
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Só os feios salvam.

De Xico Sá.

"Por que ser feio é mais interessante? Ora, a beleza é passageira; a feiúra é para sempre" (Serge Gainsbourg).
 
Como dizem aqueles cartazes de estádio de futebol em finais de campeonatos, todo regozijo, toda poesia, todo triunfo e prosa: Eu já sabia!
Repare, amigo, no que disse o informe da BBC de Londres, rádio de confiança que ouvia há séculos com meu avó João Patriolino lá no sítio das Cobras, Santana do Cariri, ali entre Nova Olinda e Assaré, na confluência do Ceará, Pernambuco e Piauí, música ao longe entre uma rasga-mortalha e outra a ranger nas telhas dos mal-assombros possíveis do museu de almas e botijas:
“Mulheres casadas com homens feios são mais felizes!!!”
Ponham exclamação nisso, colegas tipógrafos ai nas oficinas dos velhos jornais e almanaques da vida, no tempo em que os gráficos tocavam fogo no mundo e paravam tudo, no tempo em que Manoel Caboclo e Silva fazia o seu lunário “O Juízo do Ano”, rua de Todos os Santos, Juazeiro, salve, salve meu vizinho e suas nuvens brancas sobre a caixola.
Ponham aspas nisso, tipógrafos da modernidade: "Mulheres casadas com homens feios são mais felizes!"
Feio o quê, caras pálidas de maquiagem! Perguntem às crias das nossas costelas ou às nossas mães mais lindas ainda lá nos seus sagrados cantinhos e altares!
Mulheres casadas com homens feios são mais felizes. Isso mesmo. Releia, acredite, repita comigo a manchete da semana. É a ciência comprovando a tese dos mal-diagramados pela mãe natureza.
É o que diz o informe da BBC, agora transmitindo apenas no mundo virtual e interneteiro, que pobreza, aquela emissora que me fez ouvir, no meio da Serra do Araripe, a linda “Hey Jude”, The Beatles, pela primeira vez, que coisa. Mas bora ao que interessa nessa crônica, chega de nostalgia, rapaz, a vida segue, a vida é bronca permanente como a revolução de Mao Tsé-Tung, eita que agora o homem comunistou-se de vez!
"Os homens mais bonitos que suas parceiras demonstraram tendência a oferecer menos apoio emocional e prático às suas mulheres", avaliou o professor James McNulty, que coordenou o estudo. "Homens mais bonitos têm à disposição mais possibilidades de relacionamentos de curto prazo, o que os torna menos satisfeitos e comprometidos com o relacionamento."
Si, Pedro Bó, ri, macaco darwinista!
É o que dizem os pesquisadores da tal notícia.
Mal-diagramado que só vendo, eu não digo é mais nada, sob pena de parecer exaltada e panfletária defesa corporativa dos feios do mundo, uni-vos.
Os lindos são muito mal-resolvidos. Acostumaram achar que a vida é uma luta de boxe que sempre vencem por nocaute.
Os feios são mais devotos e amorosos. Passam a vida vencendo apenas por pontos. E passarão, gracias.
Os mal-diagramados sempre tiveram que minar as resistências, gastar o latim de todas as missas, cozinhar os juízos, priquitins molhados de sertões difíceis de chuvas, desertos semi-áridos que se águam com muita prosa, governo em ano bom ou língua.
Faz todo sentido do universo essa pesquisa do triunfo dos mal-amanhados de nascença. Mas só faz porque é a favor da nossa feiosa causa. O resto é o olho de quem vê contra o coração de mãe ou de outras raparigas que, por ventura e sorte, nos amam em nos acham definitivos galãs e Alains Dellons do Crato. Ao cronista, amigo, só resta pingar o ponto final sobre todas as suspeitas anteriores. E pronto.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Cleozita às 15h17
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Você não tem mais certeza se é de esquerda quando...

De Edson Aran.

Check list para os dias que correm:

1 – Os intelectuais que defendiam educação para todos agora desconfiam de gente educada

2 – Quem reclama de corrupção é chamado de “moralista pequeno-burguês”

3 – A liberdade de imprensa não é mais, assim, tão do cacete...

4 – A “política econômica neo-liberal assassina” agora chama “política econômica de forte conteúdo social”

5 – Ética uma coisa que só faz sentido no tempo do Espinoza (não o técnico de futebol, aquele outro)

6 – Alternância de poder é coisa de quem não está no poder

7 – Tem mais propaganda louvando o governo do que na época do general Médici

8 – Todos os metalúrgicos paulistas viraram coronéis nordestinos

9 – Nunca antes na história desse país tudo foi tão igual ao que aconteceu antes na história desse país

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h23
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Como tornar-se uma celebridade.

De Carlos Castelo.

Não é que se deva ou não se deva ser uma celebridade nos dias de hoje. Não há escolha. Quem não for está nas mesmas condições de um palestino chegando de madrugada em Tel Aviv sem documentos, pelado e segurando a bandeira de seu país. Ou seja, está frito em óleo de pastelaria.

Quem não é celebridade não arruma os melhores empregos, não é convidado para baladas, não pega os assentos VIP nos shows. Pior: não pega ninguém.

O não-célebre (ou sem-fama) de hoje é o equivalente ao servo da gleba da Idade Média. Com a diferença de que o servo da gleba era admitido nas festas de seu senhor.

Portanto, já que não há luz no fim do túnel mesmo, sejamos todos Narcisa Tamborindeguy assumidas. Eis o caminho das pedras para virar uma:
1. Comer muita alface crua sem sal ou azeite.

2. Beber muito espumante Miolo e esconder o rótulo para, na foto, parecer que é Veuve Cliquot.

3. No caso feminino, tentar loucamente encurtar o caminho, descolando um piloto de F-1 ou equivalente para dividir o leito.

4. Comprar uma assessoria de imprensa e lançar-se como principal produto de divulgação da empresa.

5. Afanar o caderninho de anotações “moleskine” da Joyce Pascowitch e colocar seu nome na lista dos “vip’s” na marra.

6. Usar óculos escuros. Até no box.

7. Gerar factóides. Antes, porém, ir ao Aurélio e aprender o significado da palavra “factóide”.

8. Passar a circular por festas e eventos em trajes sociais e com uma gigantesca jaca pendurada no pescoço.

9. Numa festa promovida por Glorinha Kalil, tentar suicídio pulando de barriga em cima da musse de salmão.

10. Fazer milhares de adesivos com sua foto 3X4 e colar no lugar do rosto da celebridade que estiver na capa de Caras.

11. Ir para Aspen e ficar sobre um esqui dando bom-dia, boa-tarde e boa-noite a todos que passam.

12. Vestir uma roupa de festa e freqüentar todos os casamentos da Igreja Nossa Senhora do Brasil.

13. Subornar o manobrista do Fasano para que ele lhe traga na porta do restaurante um Jaguar em vez de seu Ford Ka.

14. Trajar-se de Homem Aranha/Bat Girl e pular de pára-quedas do alto do Edifício Itália.

15. Colar adesivos fosforescentes na roupa.

16. Seqüestrar o João Dória Júnior.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h36
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