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- O suicídio de Etevaldo
De Castelo.
Etevaldo estava de saco cheio. Da existência besta. Mas, curioso, nada havia acontecido de tão grave assim. Ao contrário, quem olhava Etevaldo de fora via um cara como milhões de outros - acalentando meia-dúzia de sonhos num mundo globalizado e injusto. Fazia faculdade, freqüentava as baladas, bebia sua cerveja, dava uns tapinhas de lei. Como explicar a inapetência para o ser e estar? Etevaldo não era dos que temia a morte física. O mais difícil no suicídio (já planejado e re-planejado por ele) seria deixar de conviver com aquele pessoalzinho do peito. Ah, meu Deus, a Mari Pequenina. Já estava com saudades da baixinha do coração! Quantas vezes, no meio da tarde, se falavam. Assuntos os mais “nada a ver”. Só pelo prazer da besteira pela besteira. Os temas beiravam o ridículo: “por que a feijoada é servida às quartas e sábados e não às segundas e sextas?” Perdiam horas teorizando sobre tais bizarrices. E o Jim Jones? O maluco-beleza da moçada, sempre querendo chocar a sociedade. (Um dia tentou reunir os amigos para um “happening” na avenida Paulista contra o estupro de mulheres na Bósnia. Ninguém apareceu e Jim Jones foi em cana. Pior: apareceu no Jornal Nacional segurando um cartaz com pinto gigantesco e um “x” riscado em cima). Se houvesse uma outra vida e eles não estivessem lá ia ser a maior deprê. Venina, Tatão, Mojo, Prizinha, Cafaldo, Zé Orbital, Karine, Biu, Vane, Romerinho, Gomelino, Cardá…só pra lembrar os mais presentes. O que dizer então da Madu? Bem, aí a coisa entrava no campo sentimental. Foram se conhecendo devagarzinho, com muito tato, via e-mail. Um “oi” aqui, um “beijinho” ali. Hoje, essa coisa forte. Paixão mesmo, registrada nas mensagens dela, guardadas por Etevaldo como relíquias. (“Etezão: você é meu maior amorzãozão”. Ou ainda: “Etê: phone home aqui na minha casa!”). Quando pensava na Madu, o desejo de partir diminuía. Mas não se encerrava por completo. No frigir dos ovos, por pequena margem, a náusea venceu. Era chegada a hora. A mensagem de despedida acabou ficando pronta. E dizia o seguinte: “Não vou mais com vocês. Cansei, podem ir em frente que eu fico por aqui. Caminhem rápido, sem olhar pra trás. Caretas de Paris e New York, sem mágoas, estamos aí. Fui”. Depois de escrever o ponto final, respirou fundo e clicou o botão “encerrar conta”. Estava consumado o orkuticídio de Etevaldo. Castelo é cronista do Blônicas aos sábados. - As 7 mortes de Sculaccio
De Henrique Szklo “Sculaccio está morto”, dizia a manchete do jornal. Uma das maiores revelações da pintura contemporânea quis usar um tubarão como modelo vivo e acabou virando modelo morto do próprio. Ninguém foi capaz de explicar como é que ele pretendia pintar embaixo d’água nem como o tubarão conseguiu comê-lo inteirinho, não sobrando nem um pincel para contar história. Mas a mídia não está muito preocupada com estes pequenos detalhes, e sim em fazer uma cobertura sensacionalista e espalhafatosa, a altura do grande talento do sujeito. Carregar nas tintas, como se diz. A morte do grande mestre Sculaccio comoveu o mundo. Foi uma grande perda na opinião de todo mundo (menos na do tubarão). O que ninguém sabia, ou quase ninguém, é que o tubarão levou a fama de comedor sem tirar proveito. Nem sequer chegou perto de conhecer o delicioso sabor de um pintor em su tinta. O pobre predador sanguinário não sentiu nem o cheiro do verniz. Sculaccio era um gênio. Não só como artista, mas como salafrário. Bolou um plano tão genial que jamais ninguém poderia desconfiar. Logo cedo descobriu que tinha um grande talento para a pintura. Eclético, inventivo, completo. Não demorou muito para que o mercado de artes voltasse suas atenções para o jovem talento emergente. Durante alguns anos trabalhou como um louco. Realizou centenas de obras de excelente qualidade. O mercado porém preferia aguardar o amadurecimento do artista para colocá-lo numa posição de maior destaque. Mas justamente quando ele acabara de realizar uma grande exposição onde se consagrou internacionalmente, o tubarão papou ele. Quer dizer, todo mundo achou isso. Na verdade o corpo nunca foi encontrado. Isso porque não existia nenhum corpo. Sculaccio estava vivo, mais vivo do que muita gente. E por ser um artista dado como morto seus quadros atingiram rapidamente cifras estratosféricas. E como ele possuía muitas obras, seu fiel assistente, a quem deixou tudo em testamento, rapidamente vendeu o lote inteiro, levantando uma pequena porém indecente fortuna. Mas Sculaccio era ambicioso. Queria mais, muito mais. Mesmo após sua morte oficialmente declarada pelas autoridades, ele continuou pintando e assinando como Sculaccio, quer dizer, falsificando a si mesmo. Seu plano, porém, era mais ambicioso. Fez uma operação plástica, mudou de identidade e alguns meses depois apareceu em outro ponto do planeta para iniciar um trabalho completamente diferente daquele que o havia consagrado. Seu talento era realmente espantoso. Em pouco tempo Nascôsh, seu novo nome, passou a se destacar com seus trabalhos arrojados e vibrantes. E o pintor repetiu o mesmo plano anterior: ao atingir uma posição de destaque no mercado simulou sua própria morte e mais uma vez amealhou uma quantidade abestalhada de dinheiro. Repetiu o plano seis vezes até que foi descoberto. Primeiro por causa daquela mania besta de pintar assinando com o nome dos mortos. Exames feitos por computador comprovaram que as obras foram realizadas pela mesma mão, mesmo aquelas que haviam sido pintadas após o passamento declarado do autor. Segundo, porque um dia alguém descobriu um cirurgião plástico boca-mole que declarava aos quatro ventos que possuía uma invejável coleção de obras-primas. Coincidentemente sendo constituída de pelo menos um quadro de cada pintor incorporado por Sculaccio. Mas a prova final, aquela que desbancou o sujeitinho, entregou o ouro pro bandido foi ter sido reconhecido numa praia de nudismo por alguém que algum dia o havia comido. E não foi um tubarão. Henrique Szklo é cronista do Blônicas às sextas e quer morrer só uma vez. Leia seu site e o blog da mãe. - Meus ossos de estimação
De Marcelino Freire. Nunca tive um bicho de estimação. Pelo menos, assim, bicho tradicional, normal etc. e tal. Se todo mundo teve cachorro e teve gato. Eu não. Nenhum rato, nenhum peixe no aquário. Nenhuma tartaruga. Meus bichos eram bichos mortos. Que saudade! Explico: bichos só ossos. Explico: nasci no alto sertão de Pernambuco. Minha diversão era pedra e perna de passarinho. Verdade. Ligamentos miudinhos. Que eu encontrava enterradinhos. Que eu via morrer. Que eu matava para comer. Eu brincava com ossos, a saber: asa de galinha, bico de guiné, unha de preá. Couro de cabra virava casaca de cangaceiro. Olha só, pai, que barato este meu carro. A direção, um chifre onde eu me agarrava, velozmente. Carro?!! Essa não. Sim, eu tinha um tio que tinha um carrão. E que vinha da cidade para levar a gente. Mostrar que a vida não é nada mole, essas coisas. É preciso trabalhar duro, moço. Para não morrer feito esse povo. Eu também encontrava osso de gente. De repente, uma cabeça que mais parecia a de um macaco. Quando a gente morre vira macaco, eu pensava. E eu encontrava espinhas de peixe também. Nunca mais mexa em ossada assim, disse minha mãe. E eu não mexi mais. Até que veio alguém e mexeu. E levou tudo embora, dentro de um caminhão. Eu corri chorando, atrás do caminhão, lembro. Meus bichos de estimação eram também aqueles dinossauros. Mas isso já faz muito tempo. Marcelino Freire é cronista do Blônicas. Visite seu blog. - O cachorro
De Leo Jaime. Avenida larga e movimentada. Duas pistas, um canteiro no meio, muitos quilômetros. Eu ia em uma mão, o trânsito fluindo lento mas andando. Do outro lado, na calçada, observei a chegada de um cachorro pequeno. Desses de apartamento. Não sei o nome, mas uma raça dessas bem amorosas, que adora ficar no colo, em especial de mulheres. Schnauzer? Yorkshire? Um desses, de pelo meio acinzentado e comprido. Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. 28/04/2005 - Mega Sena acumulada
De Evandro Daolio. Hoje eu resolvi que vou ganhar na Mega Sena. Só assim mesmo. Não dá. Eu fico fazendo planos aqui para juntar dinheiro e pegando aqueles folhetos nos faróis de apartamentos à venda. Eu não consigo juntar dinheiro para comprar nada quanto mais esses apartamentos. Aí você vai lá e o corretor fala que quase tudo já está vendido. Aonde esse pessoal arruma dinheiro? Pode ir em qualquer um, mesmo esses que custam mais de um milhão, está tudo vendido. Deve ser uns cinco ou seis caras que compram tudo, só pode ser. Ou então os corretores mentem, o que não é difícil, pois sempre falta uma unidade para vender e quando você passa lá cinco meses depois ele sempre dá um jeito de te arrumar uma. Outro dia fui ver um que custava cento e vinte mil reais (mesmo sem dinheiro para comprar, claro) e era tão pequeno que se eu tropeçasse na sala era bem capaz de sair pela janela e cair lá embaixo. Em outro, a sacada era tão pequena que fiquei tirando sarro que meus pés tinham que ficar virados para fora, como pé de palhaço, para caberem. A corretora ficou até com vergonha. Outro, um banheiro que se você deixasse cair o sabonete, tinha que sair do box para poder agachar para pegá-lo. O pior é que eu tenho tanto azar na Mega Sena que eu sempre consigo não acertar um número sequer. Então pensei no seguinte: vou fazer nove jogos escolhendo seis números diferentes em cada. Aí eu chego no caixa e na hora que a menina for registrar eu puxo da mão dela e rasgo tudo, entregando em seguida os últimos seis números que não ia jogar. Quem sabe assim eu ganho. Sabe o que acho. Só pessoas más ganham na Mega Sena. Você conhece pessoalmente algum ganhador? Na verdade, é como enterro de anão... só se ouve falar. Pior, você já ouviu falar de algum ganhador que ajudou alguém ou fez algo de bom para muita gente? Um cara de ganha 30 milhões, se ele não souber aplicar ganha no mínimo meio milhão por mês só de juros. Só com o juros ele resolveria a vida de umas cinco mil famílias por ano, a dele incluída. Eu pintaria a cidade inteira, colocaria outdoor “se a prefeitura não faz eu faço”, mandava cortar a grama de todas as praças, encheria a cidade de galpões distribuindo sopa, mutirão de limpeza das margens dos rios, trocaria todos os barracos por casas e.... finalmente seria assassinado por alguém da prefeitura... mas eu seria uma espécie de Mister M para me camuflar e dar tempo de ajudar antes disso. Vai ver também que não ganhamos porque acabaríamos ajudando um monte de gente que não merece... Uma vez ajudei um primo meu, comprei um Palio arrebentado para ele arrumar e iniciar uma empresa, uma espécie de mecânica/funilaria da vida. Adiantei três mil reais. Dois meses depois descobri que ele pegou uma Kombi, lotou de mulher, foi para praia e torrou todo o dinheiro. Na cabeça dele, o dinheiro não ia acabar nunca. Pessoas boas.... É... é mais fácil cair um raio na minha cabeça em dia de sol (estatisticamente é mesmo) que eu ganhar na Mega Sena. Não tem jeito de ganhar dinheiro... Por isso é que acho que vou começar a jogar na Lotofacil viu... Evandro Daolio é cronista do Blônicas. Visite seu site. - Unplugged
De Rosana Hermann. Passei quatro dias sem computador, sem blog, sem ligar a tv, sem ouvir rádio, sem ler jornal, sem celular. E não fiquei no meio do mato, numa choupana sem energia elétrica vivendo de caça e pesca, ao contrário, matei o trabalho e fui com a família para Buenos Aires. Nem a câmera eu tive vontade de usar, voltei com pouquíssimas fotos, o mínimo necessário para aplacar o delirium tremens da abstinência digital. Fiquei mesmo unplugged. Olhei o céu, vi a lua, senti o cheiro do vento, conversei com meu marido e meus filhos. Ri muito. Há muito tempo não ria assim, bobeira de adolescente, daquelas que duram horas, gás hilariante de abobrinhas que imita velas de aniversário, aquelas que se reacendem do nada. Não fui ver show de tango, não visitei a Plaza de Mayo, não fui à Casa Rosada. Nem tomei café no Tortoni, nada. Apenas caminhamos, comemos, olhamos gente, conversamos com taxistas, examinamos vitrines. Entrei sim, em algumas lojas, como uma linda papelaria. Fizemos coisas tolas como usar a piscina do hotel e comer uma banana. Ir até uma estação de trem, dar com a cara na porta e ficar perdido no meio do nada. Comprar meia em outlet. Ver um musical de mágica e comer um misto quente num boteco, desses que servem carne com presunto no mesmo sanduíche. Foi uma viagem para fora do mundo opressivo e escravizante da informação constante, do bombardeamento de notícias que nos obriga compulsivamente a formar opiniões o tempo todo. Foi uma trégua mental maravilhosa. O maior problema da viagem, foi a família toda ter pisado no cocô de cachorro, que gerou muitos risos e a compra de uma escovinha de limpeza na farmácia. Coisa de turista, que olha pra cima. Na cidade, a gente não olha pro céu, porque não tem nada lá. Esta semana em que o mundo tenta pifiamente promover a campanha ‘desligue sua tv’, que será seguida em agosto pelo ‘desligue seu PC’, é um bom momento para fazer um primeiro simulado. Muita gente já faz isso, claro, tem seus momentos de desligamento e leitura. Mas ampliar este tempo unplugged é uma necessidade tão básica quanto comer menos e exercitar-se mais.
PS – Quanto é o próximo feriado? :-/ Rosana Hermann escreve no Blônicas todas as quartas, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem. - Uma lição
De Nelson Botter Junior. Prefiro omitir o meu nome. Vou apenas dizer que sou pastor, mas também não quero citar de qual igreja. É uma das grandes e não convém entrar nesses detalhes, pois o assunto aqui não tem a ver com religião... ou será que tem? Acho que não. Nelson Botter Junior escreve no Blônicas todas as terças-feiras e não é pastor (graças a Deus). - Faz de conta que sou o primeiro
De Xico Sá. Ailton não é apenas um bom garçom. É especial. Criatura abençoada. Especialíssimo. Do tipo que cria laços de estima e consideração com os fregueses. Do tipo que ouve, aconselha, amansa os traídos, acalma as mulheres de bêbados infiéis, bota ordem na casa, devolve uma certa paz ao universo. Melhor ainda, Ailton é do tempo em que garçom sempre sabia o resultado do futebol. Do tempo em que torresmo não fazia mal, do tempo em que os homens não tinham medo da sorte nem do colesterol. Toda essa “sabença”, como ele trata a soma de sabedoria com experiência, é servida de bandeja à freguesia. No boteco, ele é tudo ao mesmo tempo: sócio-proprietário, caixa, segurança e DJ _e só toca vinilzão de samba antigo. Adora João Nogueira. “Oh, minha romântica senhora tentação/ não deixes que eu venha sucumbir/ neste vendaval de paixão”. Essa toca até furar o disco. Principalmente quando tem alguém chorando as pitangas amorosas. Entre tantas serventias, esse negócio de amor e dor é com ele mesmo. É mestre, rima e solução da parada. Eu mesmo já fui perdidas vezes consolado pelo cara. Dor de corno, daquelas que não passam com cachaça ou aspirina, é com ele mesmo. Vai no ponto, na veia, um neurocirurgião do amor. Primeiro o afago, a compreensão e o ouvido ao alcance do freguês. No fundo musical, põe logo o vinilzão com “Peito Vazio”, de Cartola _``Procuro afogar no álcool a tua lembrança/ mas noto que é ridícula a minha vingança...” Dois, três conselhos depois a gente está pronto para outra, digo, outro chifre. Numa dessas sessões “macho em crise”, Ailton me deu uma dica genial. Notou, sensível que é, a minha dificuldade em descolar uma nova costela, uma nova deusa para enfeitar o meu pobre muquifo em desalinho. Uma dica importantíssima. Simples, simples de tudo, até boba, mas de uma sabedoria e tanto. Uma beleza de estratégia. “Seguinte, meu amigo, chega de saudade... Senta aqui, nessa primeira cadeira do boteco, que a vida vai sorrir pra ti”, disse, arrumando uma mesa bem na calçada, quase na rua, de frente para o crime. Sem deixar a bola cair, emendou: “Ora, compadre, todo dia tem uma mulher que sai para o bar, revoltada, muito revoltada, e diz para ela mesma: ´HOJE EU VOU DAR PRO PRIMEIRO QUE ENCONTRAR”. Desde então procuro sempre ser esse `primeiro´ homem estrategicamente bem localizado que pode tirar proveito, com toda delicadeza desse mundo, da fúria justa e caseira de uma mulher. Xico Sá escreve no Blônicas todas as segundas-feiras. - Meu pai nunca dirigiu
De Milly Lacombe Meu pai nunca dirigiu. Nunca quis, nunca gostou, nunca levou jeito. Não é preciso ter doutorado em Freud para entender porque, mesmo sendo gay, tenho um fraco por homens que não dirigem. Mas essa é uma outra história. O que quero mesmo dizer é que, porque o sujeito jamais se sentou no assento do motorista em toda a sua vida, também nunca foi solicitado para dar dicas sobre como conduzir um automóvel, ou sobre qual o melhor modelo disponível no mercado, onde fazer uma boa manutenção etc etc etc. Só um completo imbecil utilizaria meu pai como fonte para esse tipo de informação. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - O personal trainer do Piauí e o metrossexual
De Castelo A vida de Zé Arimatéia mudou muito desde que passou a ser chamado de “personal trainer do Piauí” pelos “habitués” do Ibirapuera. Por ser um fiel observador dos hábitos dos atletas no parque, esse gari da prefeitura começou a colecionar dicas sobre qualidade de vida. Hoje, num conjunto comercial no Chora Menino, aconselha políticos e celebridades. Mas há quem diga que seu estilo sertanejo, muitas vezes choca a clientela. Como aconteceu recentemente com um executivo que o visitou depois de ler uma reportagem sobre seus métodos não-ortodoxos. Vestindo terno Armani, o “self-made-man” (35 anos, mas aparentando 28) foi recebido pelo “personal” com a sua clássica indagação: - Que-qui-há? O executivo se manteve em silêncio, com expressão taciturna. - Tá com alguma curuba? - indagou Zé Arimatéia. O engravatado permanecia do mesmo jeito. - Cadiquê o calundu? Silêncio. O “personal” então berrou: - Rapáize, que fuleragem é essa?! Só então o homem se acomodou melhor na cadeira e começou a falar. - Não vim aqui para melhorar meu desempenho esportivo. Todo ano participo de provas de pentatlo e me saio muito bem. Tenho outro problema… - Vixe, desembuche! - Apesar de estar muito bem profissionalmente, quero mudar de país. Por uma razão muito simples: aqui não tem os produtos que necessito pra ter uma vida normal. - Êita lasca! E o que diacho lhe falta? - Coisas básicas. Um esfoliante de boa qualidade, uma máscara facial que deixe meu rosto com expressão suave. Um filtro solar de baixa adstringência. Seu Arimatéia, nem o Listerine brasileiro presta! Zé Arimatéia fez uma cara pensativa. O executivo então perguntou: - O que o senhor pode fazer por mim? - Vá no reservado - respondeu o “personal” - tire seus pano de bunda e apois se deite por riba daquela maca. - Sim, senhor. - Óli - completou Zé Arimatéia - de bruço, visse? Minutos depois, conforme fôra ordenado, o homem voltou nu. Quando deitou na maca, Zé Arimatéia puxou da gaveta um enorme relho chiquerador de couro cru. O executivo se sobressaltou. Arimatéia o acalmou. - Se apoqüente não, moço. O seu mal se cura lá em Peri Peri com uma pisa cantada das boas. Vai doer um tiquim, mas o decente sai daqui bom, bom, bom. Rumbóra… E, segurando o relho com firmeza, passou a distribuir chicotadas, ora numa nádega, ora noutra, versejando. - Essa aqui, cabra safado/ é pra tu aprendê/ a deixar de bestagem/ de frescagem e fuzuê. - Aiiiiiiiiiii - Tome uma bem nos quartos/ e outra nos costado/ mó de deixá de sê/ um caboclo abirobado! - Ahhhhhhhhh!! Depois da peia, Zé Arimatéia acrescentou: - Peça à dona Bebela, na recepção, uma lapada de cana Mangueira pra acabá com o tremelique. O executivo bebeu a cachaça ainda soluçando. E marcou outra hora, por vontade própria, já para o dia seguinte. Castelo é cronista de Blônicas aos sábados, nasceu no Piauí e foi deseducado em São Paulo. Conheça seu site. - Só porque criou o mundo pensa que é Deus
De Henrique Szklo (com preguiça de escrever um texto novo por causa do feriadão) Para mim não resta a menor dúvida: Deus trabalhava como free-lancer para uma agência de propaganda e criou o mundo por pura necessidade ou por simples obrigação profissional. A troca de fax entre os dois deve ter sido mais ou menos assim: De: Agência De: Deus Agência Deus Agência Deus Agência Deus Agência Deus Agência Deus Agência Deus Agência Deus Agência Deus Agência Deus Henrique Szklo é cronista do Blônicas às sextas, acredita em Deus mas a recíproca não é verdadeira. Leia seu site e o blog da mãe. - Os nomes
De Edson Aran
Conclave parece nome de ficção científica vagabunda. Com Jean Claude Van Damme – ou Dolph Lundgren – e três inevitáveis seqüências, todas mais toscas que a produção original. Conclave 2 – O Código Fênix e Conclave 3 – A Fuga de Ônix. Fênix também é legal. Tudo quanto é trash tem Fênix no meio. Ou Ônix. Ou Ômega. Alfabeto grego é danado de bom. Projeto Alfa, Força Delta, Código Pi, tudo funciona. Quando esgotar as letras, acrescente números. Projeto Alfa Três. Código Delta Cinco. E vamos que vamos. Mitologia grega também é bom demais da conta pra batizar coisas. Projeto Apolo. Operação Cavalo de Tróia. Síndrome de Medusa. Clube do Minotauro. Os Filhos de Plutão. Muito tempo atrás, assistindo a um Globo Repórter, vi a entrevista de um fabricante de jangadas. Havia aprendido o ofício com o pai e agora ensinava ao filho. Qual era o nome do cara? Posidônio, óbvio. O nome determina o destino, não tenha dúvida. Kelly Cristina, por exemplo. Ou é participante do Big Brother ou mulher de jogador de futebol. Sebás: cabeleireiro. Tião: motorista. Emmanuel Kant: estilista (Dior by Kant). Madonna Spielberg: travesti. Você quer mudar de time e sair por aí de salto alto e batom, mas ainda não escolheu seu novo nome? É simples. Pegue o prenome da sua cantora favorita (Britney, Jennifer, Beyoncè, Marina) e junte ao sobrenome do seu diretor de cinema favorito (Godard, Von Triers, Herzog, Truffaut). Funciona melhor com diretor europeu, claro, e não dá certo com diretor brasileiro. Britney Diegues e Jennifer Jabor é outra coisa. São duas mocinhas que acabaram de abrir um brechó descolado nos Jardins e posaram pra Mônica Bérgamo. O brechó fecha em seis meses. Uma delas vai namorar herdeiro de supermercado. A outra fica em Paris até dezembro. Dando, evidentemente. Nome é um perigo. Ratzinger, sinto muito, é nome de vilão de filme de guerra. B, claro. Coronel Ratzinger, este é o famoso Jean Claude, líder dos maquis no sul da França. Oh, bom dia, herr Claude, você vai me dizer o nome dos seus companheiros ou teremos de usar o – música de suspense - soro da verdade? Ratzinger e Conclave juntos? Vai dar em vilão de filme do Van Damme, não tem por onde. Sim, eu sou um homem de pouca fé, mas não me importo. Só não consigo remover montanhas, é vero. Se for preciso, eu compro um 4X4.
Edson Aran é cronista do Blônicas. Visite seu site
- Está escrito?
De Rosana Hermann. Caem duas torres, morre um papa, o fluminense ganha um campeonato e pronto, saímos todos atrás das profecias de Nostradamus, do Código da Bíblia, procurando o verso, a linha, com o texto rocambolesco que já previa a ocorrência do pelo no ovo. Mapa astral, quiromancia, leitura na borra de café, adivinhação pelas cartas ou nos miúdos do carneiro. Desde que o mundo é mundo e o tempo é tempo, o ser humano suspeita que tudo já esteja escrito (Maktub!) e que é só uma questão de alfabetizar-se na língua certa para ler o futuro, seu e da humanidade. Racionalmente, é incoerente, já que aqui neste planeta azulado e tortinho onde passamos a vida, ninguém sabe quem fez a reserva nem de quanto tempo será a estada. Racionalmente, sabemos se alguma força divina tivesse mesmo escrito tudo em linguagem cifrada não faria sentido que D’us tivesse escondido um código sobre nosso futuro nas linhas de azulejos do banheiro. É duro encarar, mas essa mania de procurar sinais, de buscar somas de números para saber se ele ou ela o ama é só uma loucurinha da nossa mente infantil, tadinha, que em busca de segurança neste imprevisível mundo, tenta desenhar uma figura familiar ligando os pontos do nosso cotidiano. Ninguém vai resolver seus problemas de forma mágica, ninguém vai tomar as decisões sobre os rumos da sua vida, o número da loteria que salvaria sua situação financeira não é necessariamente o número na placa do carro que está na sua frente na hora que você pensou nisso. Mesmo assim, é bom procurar oráculos que nos inspirem, palavras que não as nossas que nos desviem momentaneamente das nossas rotas de pensamentos. É gostoso ler o quadradinho do seu horóscopo, consultar o livro dos dias de aniversário, ir com aquela amiga num bairro a três mil léguas de distância pra conhecer uma pessoa ‘fantástica’ que adivinha tudo sobre você. Vá, leia, curta, procure. Mas sempre lembrando que as ocorrências da vida podem ser tão aleatórias que, no final, o conselho da vovó, as cartas do tarô ou o papelzinho do periquito do realejo podem ter todos o mesmo efeito. Por isso, já que o mundo é aleatório e não dá pra saber o amanhã, desejo a você, hoje, agora, terminando essas duas linhas, um tolo pensamento mágico: ao chegar à última palavra você sentirá uma onda de sorte, muita sorte. A sorte de estar vivo, a sorte de estar bem, a sorte de saber que sorte não é pra quem quer mas, pra quem tem. Sorte, muita sorte. Hoje e sempre, pra você. Rosana Hermann escreve no Blônicas às quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. - Yes, nós temos história!
De Nelson Botter Junior. Já diz o ditado popular que "um povo sem história é um povo sem memória". Isso sempre me preocupou no Brasil: a falta de interesse das pessoas em preservar nossa história, em se interessar pelo passado para entender mais o presente e planejar melhor o futuro. Se não aprendermos nada com o passado, os erros sempre se repetirão. É batata! Acredito que um país sem história é um país desfigurado, sem tradição, limitado a modismos do presente e um nebuloso futuro, repleto de paradigmas. Isso é um perigo. Realmente, nunca entendi porque há um certo desleixo e deboche do povo brasileiro com sua tradição, uma certa vergonha do passado. Existe um consenso de que nossa história não é muito gloriosa, que não devemos preservar o que se passou. Países colonizados de maneira exploratória, como nós, têm grandes cicatrizes de sofrimento e injustiça, mas quem não tem? Mesmo os países de sabedoria milenar, como Japão e China, têm manchas no decorrer das épocas. Semana passada, pude constatar em Paraty e Petrópolis o quanto a preservação da história, além de ser um registro importante de nossa identidade social e cultural, é geradora de empregos, fazendo o turismo girar. Que banho de cultura é o Museu Imperial de Petrópolis, que coisa linda é viajar no tempo e voltar ao século XVIII nas ruas de Paraty. E fiquei espantado com a quantidade de turistas estrangeiros nessas pequenas cidades, que em grande número demonstram um enorme interesse em saber mais sobre o Brasil Colonial e Imperial. E que loucura pensar que os gringos se interessam mais em saber de onde viemos do que nós mesmos... É claro que nosso problema maior está na educação, na desvalorização do professor (profissão das mais nobres e importantes), que como verdadeiros Dom Quixotes, armados apenas de paixão, travam incríveis batalhas contra a falta de recursos e estrutura. Sim, identificar o problema é fácil, apresentar soluções nem tanto. Seria muito simples eu descer a lenha no governo, dizer - por exemplo - que o dinheiro gasto no novo avião do presidente poderia ser revertido em educação, etc e tal, mas não quero cair nessa mesmice. Quero ser diferente, quero propor que você, sempre que puder, diga a alguém sobre a importância de se preservar a memória do nosso país, de se pesquisar e estudar a história de nosso povo, nossas raízes, nossas origens, nossa espinha dorsal. Faça isso, saiba mais sobre nossa história, visite museus e pontos históricos, discuta e transmita esse conhecimento, conte como foi e como é, de qualquer forma, seja numa roda de amigos, num blog, na sua casa, enfim, em qualquer lugar, até mesmo - e tão somente - numa simples crônica. E aí, topas? Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras. - O desgosto da depiladora
De Xico Sá. INSTITUTO DE BELEZA VÊNUS CACHORRA TURBINADA. Perna: R$ 12, virilha R$ 10, meia perna R$ 6... Cera negra, cera espanhola, manicure, pedicure, francesinha, dia da noiva, servir bem pra servir sempre... Beco estreito, depois da Praça Sans Peña. Só se morre de amor de lá por diante, disse o Cara. Ninguém mais morre de amor na Zona Sul. O amor acaba, no Rio, na futilidade, assim falou Paulo Mendes Campos. Balela, fuleiragem, o amor acaba pra latir pra outro e cantar “Tive Sim...” Salão lotado. -Rosângela, nega, capricha no cuzinho... -Ih, já vi que hoje tem festa na parada! Rosângela não anda tão feliz assim, mas negócio é negócio. É, quem diria, o neoliberalismo também chegou depois da Sans Peña. -Dá um trato do jeito que ele gosta, tu já sabe,né? Rosângela prepara todos os cuzinhos da área e nunca conseguiu dar o próprio anelzinho de couro. Tem um desgosto danado. Seu macho não aprecia um cuzinho. Ela conta as histórias que escuta das freguesas, algumas até conhecidas dele, e nada. Nada anima Feliciano. Ele já chegou inclusive a desconfiar que o rapaz era gay. Raciocínio que não procedia. Apenas um rapaz evangélico, boa formação moral. “Ah, tu reclama de barriga cheia, isso é que é homem, não esses indecentes que a gente tromba por ai”, aconselha a colega Verônica, amigada com um safado, alcoólatra, maconheiro, que não deixa o seu juízo em paz. Rosângela capricha no cuzinho da freguesa. -Hoje é o aniversário dele, sabe... -Sei... -Quero dar presente de cuzinho... Rosângela fica puta, maltrata um pouco a freguesa. “Ah macho frouxo o meu!”, pensa mordendo os beiços. -Ai –reclama a freguesa fogosa. -Dói? –pergunta Rosângela. -Dói nada, só na primeira vez, depois... -Ele bota... -KY só da primeira vez... -Agora é a seco mermo? -Basta um cuspezinho de nada, KY tá os zolhos da cara! -Mas ele bota tudo? -Até o tronco, ai mulê, pára de perguntar, que já tô ficando... Rosângela sente-se cada vez mais infeliz. Imagina-se no caixão, no velório, morrer de cuzinho virgem não! So faltava essa. “Nossa Senhora me defenda”, reza. A freguesa fogosa sai rebolando o cu enorme, saltitante pela calçada. Rosângela se tranca no banheiro e chora. Com o dedinho indicador ainda molhado de lágrimas procura o próprio rabo. A outra mão na buceta. Liga a torneira para disfarçar. Sai dali resolvida: vai dar o cuzinho para o primeiro católico que encontrar pela frente, de preferência o padre que a bolinou na última quermesse. Cuzinho enquanto mais linda e feminina oferenda, generosidade, alteridade, entrega... Afinal de contas, homem que é homem já sabe essa mínima etiqueta do ramo: cu não se pede, cu se oferece! Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. Visite seu site. - Marketing do divino
De Milly Lacombe Em matéria de marketing, nunca haverá um visionário como o sujeito que um dia decidiu explorar a imagem de Cristo de braços abertos e sangrando na cruz. Fico imaginando a circunstância em que foi estabelecido que a cena do homem crucificado era a melhor para agasalhar a propaganda cristã. A cruz, aliás, virou, desde então, o símbolo máximo da fé, mesmo sendo objeto de tortura de uma época. Faz sentido: o importante é comunicar o sofrimento porque só ele salva. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - Interferência Divina
De Castelo Caro concessionário da Rádio Nacional Gospel, ZYK 775 - AM 920 Kilohertz: Num mundo competitivo como o de hoje é compreensível a preocupação das empresas com a eficiência. No primeiro ramo, porque surgem para o consumidor, a cada minuto, novas e atraentes opções de divertimento e informação. No segundo, porque há cada vez mais alternativas de se morrer e ir para algum lugar melhor do que a Terra. Sua rádio é uma empresa de Comunicação com conteúdo religioso. Posso imaginar então o quanto os senhores se preocupam em estar onipresentes na vida de seu público/rebanho. Faz parte do negócio pastoral-radiofônico. Só isso explicaria o fato de suas antenas transmissoras - localizadas ao lado de minha casa - estarem funcionando tão acima da freqüência permitida que posso acompanhar sua programação, com grande clareza, até em meu telefone. É mais ou menos assim: - Alô? - (…Maria Madalena aproximou-se Dele e ajoelhando-se entendeu o Mistério da fé que…) - Alô? É da residência do seu Alberto? - (… Nosso Senhor então entrou na Galiléia e vendo Simão levantando o olhar para os Céus, disse, tomai e comei…) - É o Alberto! Quem fala? - (…todos cantando a canção da página 17: Senhor! Eu te amo, Filho de Deus, com toda minha devoçãooooooo!!!…) - Fiho de quem? Repete! Repete se for homem, Alberto desgraçado! Tudo bem, subentende-se que o deus-gospel – se quiser consenso - precisa ser mais convincente que o deus-cristão (ou que os deuses-afro, deuses-asiáticos etc). Mas ouvir um pastor cantando, às vezes, até no interfone de sua residência não me parece razoável. Se vocês continuarem nessa potência, logo vão pegar (e pregar) em microondas, lavadoras ou outros objetos elétricos inusitados. - Viu que está tudo congestionado na Marginal? Ou ainda: - Manhê, a torradeira tá dizendo que amanhã vai ter uma frente fria… Desafortunadamente, meu problema com a transmissão turbinada da Rádio Nacional Gospel tem sido ainda mais bizarro. Há meses instalei quilos de filtros na rede telefônica doméstica e a interferência divina melhorou. Só que agora meu telefone toca de meia em meia hora. De manhã, à tarde, de madrugada. E, ao atendê-lo, ninguém diz nada. Imaginei que talvez fosse uma mensagem cifrada dos Céus. Mas como as ligações se repetem e nenhum vozeirão bíblico se pronuncia, lamentavelmente perdi a fé. Mas não a esperança. Eu sei que Deus narra certo por ondas tortas e vai me ajudar. Por isso, senhor concessionário da Rádio Nacional Gospel, ponha a mão na consciência e - em alto e bom som - peça perdão pelos seus pecados. Mas numa freqüência bem baixinha, pelo amor de Deus. Cordialmente, Castelo. Castelo é cronista de Blônicas aos sábados e garante que a crônica acima é baseada em fatos reais. Visite seu site. - Sucesso
De Henrique Szklo John Doe é um ator extraordinário. Não fez escola, não fez nenhum tipo de curso, detesta teatro, nunca passou perto do Actors Studio e muito menos ouviu falar no “método”. Em sua vizinhança, entretanto, ele é o maioral. As mulheres o acham extremamente charmoso, os homens o invejam, as crianças o consideram um herói de verdade. - Certas coisas são melhores quando não são ditas
De Leo Jaime Dizem que não devemos conversar sobre futebol, religião, política, essas coisas em que dificilmente alguém muda de posição ou vê com boa-vontade o ponto de vista alheio. Eu, da minha parte, posso dizer que me preocupo muito mais em comentar a gravidez alheia. A não ser que esteja muito evidente, ou seja, do sétimo mês em diante, eu me nego a fazer qualquer observação. E mesmo assim acho imprudente, em alguns casos. Já aconteceu de eu perguntar quando ia nascer e a mulher responder: nasceu há quase dois meses. Sei que ela guardará um ódio profundo e rancoroso de mim e de todos os meus possíveis descendentes. Assim como sei que o marido também deve me odiar, pois a minha frase deve ter causado um hiato em sua vida sexual. Melhor dizendo: em suas vidas sexuais. Dizem que essa é uma cilada fatal: quando a mulher pergunta para você se ela está gorda. Em geral não está. Ou está. Mas a pergunta é, sem dúvida, o pretexto para uma briga pois não há resposta satisfatória. Se você disser que não ela pode dizer que: 1- você não presta atenção nela; 2- está sendo piedoso além de mentiroso; 3- Você nem olhou antes de responder porque não se interessa pelos problemas dela e por aí vai. Se você disser que ela está gorda, um pouquinho, mas que não importa porque seu amor é incondicional, aí ela ficará com ódio do mesmo jeito afinal, ela sabe que está gorda, você precisa ficar esfregando isso na cara dela???? Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas. Visite seu site. De Rosana Hermann - O que você faz? Este diálogo foi contado e interpretado pela atriz em questão, durante uma gravação e mostra que, pra muita gente ser atriz não é um trabalho é diversão. Não ocupa nenhum tempo, além daquela hora no palco. Não tem pré-requisito a não ser um corpo bacaninha. Durante dez anos escrevendo humor para a rádio Jovem Pan FM,(aulas de inglês, Maguilla, boi na linha, Djalma Jorge,etc) eu ouvi a mesma ‘piadinha’: “Você faz humor com aqueles loucos da Jovem Pan? E ainda pagam você pra isso!??!” Pagavam mal, mas pagavam. Recentemente, numa entrevista, o crítico gastronômico Josimar Melo contou que há quinze anos também ouve a mesma reação a sua profissão: “Isso é que é emprego! Recebe pra comer no Fasano!” O que ninguém pensa é que quando você lê o guia Josimar Melo, pode escolher só entre os restaurantes bons, mas para selecionar os bons ele teve que almoçar e jantar em centenas de restaurantes ruins. Sem contar os péssimos. Sem contar tudo o que vem antes, o estudo, as pesquisas, o trabalho de escrever um guia completo há treze anos, sempre atualizado. No maior país católico do mundo, boa parte da população herdou a visão judaico-cristã de que dinheiro é pecado e trabalho é sofrimento físico. Assim, as atividades culturais, ou qualquer uma que não envolva um machado, martelo ou britadeira, são quase sempre mal-interpretadas. Vida de modelo é só passarela, teatro é palco, televisão é estúdio, livro é digitação, produção de evento é só festa. Bailarino só fica dançando por lazer. E educação física então? Moleza o cara arruma um emprego pra se manter gostoso. Fato é que muitos trabalhos são invisíveis aos nossos olhos. O preconceito contra o trabalho intelectual, artístico, cultural, é muito triste. Desvaloriza o profissional, desqualifica a categoria e faz com que qualquer um se ache credenciado para fazer qualquer coisa. Justamente por achar que o apresentador de um programa semanal de meia hora só trabalha meia hora por semana é que tanta gente quer ser apresentador de tv, ator ou humorista. A idéia de que as atividades não exigem preparo, estudo, formação, técnica, sustenta até o nepotismo, assunto em pauta no momento. Como eu apresento um programa que pauto, produzo e escrevo só uma vez por semana, que é só televisão, como eu trabalho numa agência de comunicação da qual sou sócia que é só coisa de publicitário bem pago, como eu tenho um blog atualizado dezenas de vezes ao dia que é apenas uma coisa de adolescente, como eu escrevo crônicas aqui só às quartas-feiras só pra aparecer, quando alguém me pergunta o que eu faço, eu digo que sou dona de casa, a mais trabalhosa e invisível das atividades humanas. Ninguém me valoriza por isso, mas, pelo menos, não me pedem mais dinheiro emprestado. Rosana Hermann escreve no Blônicas às quartas, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem. - MULHERES, CHEGAY
De Nelson Botter Junior Os homens preferem ver a mulher apenas como um pedaço de carne. Eu prefiro mais observar os contornos da alma, que são igualmente estimuladores do apetite. Me fazem lamber os beiços e todos os dedos, desde os das mãos até os dos pés. Com esmalte, pois dá mais barato. Ah, e de preferência com o cantinho da unha sujo, pra ficar mais salgadinho. Camarão na moranga, coisa nobre. É isso aí, não quero mais saber de pepino na minha feira. Lésbica? Não gosto, palavra feia. Me chame apenas de mulher, pois não há lei no mundo que diga que uma mulher que gosta de outra mulher não é mulher. Quem não chora não mama e quero mesmo é um peito de uma vaca profana pra poder mamar até me engasgar e arrotar na cara dos puritanos, que enchem o mundo com suas fétidas idéias castradoras. Quero cuspir coalhada neles, la leche buena toda en mi garganta, la mala leche para los puretas. Já sei que sou excêntrica, vistosa, bem feita e estudada. Grande merda. De que vale o conhecimento e a estética se a alma está aprisionada, calada e definhando? Minha amiga me chamou no quarto, me dizendo que teria a solução para meu tédio continuado. Sim, doença crônica. A vaca pôs um comprimido colorido na boca e disse "pega". Sei lá onde parou a porra do comprimido, vai ver até engoli, mas junto com a língua dela, a saliva e todo o tesão do momento. Mãos, peitos, coxas, aranhas... Safada, me mostrou as chaves das algemas. Me liberta, puta, me liberta. Agora estou aqui, cheia de comichões. Tinha um namorado, mandei passear. "Vá comprar cigarros!". Mas justo quando precisamos que o dito cujo não volte mais, ele aparece. Cachorro pidão, sem dono, com a coleira na boca, babando e velando a minha porta. É por isso que prefiro os gatos, melhor, as gatas. Independência agora é o meu lema. Não gostou? Fazer o quê, querido? Sua raça não me apetece mais, chega de abraços brutos, pêlos e músculos. Não quero coito, quero caldo. Vou beber todas as mulheres do mundo de colher, briga de convexos, com pétalas de rosa e adoçante, nada de açúcar. Ah, refrigerante também nem pensar. Afinal, mulher que é mulher liberta sua alma, sai do armário, mas nunca abandona suas neuras de estimação... Aliás, você acha que eu estou muito gorda? Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras. Visite seu finado blog. - Quem quer casa... casa
De Evandro Daolio Outro dia um amigo meu apareceu desesperado porque já havia comprado um apartamento para se casar e agora sua noiva tinha desistido de tudo. Contou-me, desiludido, que sua dor era tanta que o colocou à venda na mesma semana. Não queria nunca mais pisar lá.... Há milhares de anos, lá estavam dois homens das cavernas encolhidos atrás de uma rocha aguardando alguma presa fácil passar. Um era menos feio (se é que isso era possível) e outro, muito mais feio. Foi quanto o tempo fechou e parecia que um dilúvio estava por vir. Assustados com os relâmpagos, trovões e a escuridão, saíram correndo. O mais feio correu direto para dentro de uma caverna, mesmo ela sendo um pouco longe e o outro, o menos feio, se encolheu covardemente debaixo da primeira árvore que apareceu. - Tratado geral dos chatos _o remake
De Xico Sá Sem nenhuma pretensão de atualizar a brochura “Tratado Geral dos Chatos”, que o homem de teatro _sim, existem, habemus homens de teatro!_ Guilherme Figueiredo pôs no mundo há mais de meio século, cá estamos com uma nova lista destas criaturas capazes de nos subtrair a paciência e nos deixar tão inquietos quanto as vítimas do Pediculus púbis, como são conhecidos cientificamente os insetos homônimos que atacam as partes mais baixas e indefesas de um cristão de fé. Megasuperultrahype – O chato mais veloz do Oeste. Trata-se da criatura atualizadérrima nas últimas tendências e apostas do mundinho dos modernos da noite e da mundanidade em geral. Sabe a nova gíria dos clubes de Londres e já baixou no computador a última faixa do DJ paquistanês pós-electro que será a sensação no inverno novaiorquino. Na hora de falar, apresenta-se como um Guimarães Rosa clubber, ninguém compreende um só vocábulo. Fêmea sitcom – Aquele tipo metropolitano metido a chique que acha que a vida é um seriado americano, um Sex and City sem fim. Nos salões, principalmente nas bocas-livres, está sempre com um prosseco à mão. Adora vernissages. Chatos de época - Rabugentos, inconsoláveis, sempre a resmungar pelo borogodó que se foi. Não é uma questão de idade, ataca também raparigas em flor, como as gazelas que fazem um tipo “virgens suicidas” e ouvem Renato Russo e Smiths como se fossem mademoiselles do século XIX. Garçonete-cabeça – Aqui encarno um rápido chato de época para lembrar o tempo em que garçom vestia preto e branco, com gravatinha borboleta, o chopp chegava gelado, ele sabia o resultado do futebol e ainda nos servia de ombro para uma dor amorosa de ponta. Hoje, nos bares de moda, as garçonetes são lindas, descoladas, podem passar a noite a discorrer sobre cinema coreano, mas o serviço que é bom... nécaras, como diz o meu amigo Sabião Bestunes, o monstro de Sabará. Mario de Andrades digitais – Pessoas que escrevem e-mails enormes, como as famosas cartas do modernista paulistano. Esse homem matou muitos pobres e desnutridos carteiros de tanto fazê-los gastar sola de sapato, pois se correspondia com o país inteiro... Embora desse a impressão a cada interlocutor que aquela troca de cartas embutia uma linda e única afinidade eletiva. Todos os anos vem à tona um novo carregamento de missivas do gênero. Escreveu para tocadores de coco do Nordeste, índios, mitos amazônicos, gorilas... Núcleo do bem de Gilberto Braga – A essa altura algum bonzinho pode até ser revelado como assassino de Lineu Vasconcelos, mas como é chata a turma “gente fina” do Shakespeare carioca! Aquele documentarista, então, é de envergonhar o meu amigo Simião Martiniano, cineasta-camelô de filmes de kung-fu de Pernambuco. Pior somente a sua estagiária-amante, um dos personagens mais cri-cris da TV desde “2-5499 Ocupado”, de 1963. Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. - Olegário
De Milly Lacombe
Olegário veio de outro mundo, mandado para entender o brasileiro. Foi deixado, numa madrugada quente de verão, na esquina da Ipiranga com a São João. Havia nos estudado detalhadamente, mas muitas coisas não faziam sentido. Era hora de se misturar.
Esperando que a partida começasse, comprou o jornal e leu que um deputado federal havia sido punido por corrupção e recebido ordem de prisão. Porque tinha curso superior, ia ficar em cela especial, com TV, banheiro e outras comodidades. Também não conseguiu entender. Se o cidadão teve a oportunidade de estudar e se formar na faculdade, deveria estar aparelhado para distinguir o certo do errado, e, ao ser flagrado em delito, acabar duramente punido. Já o sujeito que não pôde estudar, deveria ser castigado com mais complacência e, esse sim, receber cuidados especiais no cárcere. Anotou.
Leu também que o Brasil havia mandado dinheiro para o paupérrimo Haiti. Nobre gesto. Mas aí se lembrou que, ao se dirigir para o estádio, havia visto gente dormindo na rua, jovens sujos e mal cuidados pedindo esmola. Se o País tem condições de presentear financeirante outras nações, por que não usar a grana em obras sociais aqui mesmo? Colocou mais essa no papel.
Leu a notícia de que o presidente-operário gastara bilhões em um avião de fazer inveja a xeque árabe. Soube que o chefe de gabinete-guerrilheiro conseguira barrar uma importante investigação de corrupção federal e que os homens do primeiro escalão do governo foram agraciados com um cartão de crédito para uso pessoal com limites estratosféricos. Nessa hora, viu policiais retirarem a força do estádio um menino franzino que, ilegalmente, vendia saquinhos de amendoim a um real. O garoto implorava para que o deixassem trabalhar. Olegário anotou tudo.
O jogo começou. O alienígena fechou o caderno se concentrou naquele ritual que envolvia 22 humanos. Olhou ao redor viu que já era noite e que o estádio estava completamente lotado. Homens, mulheres, crianças, pobres e ricos, pulavam como pardais.
O tempo ia passando, e a cantoria, os gestos e os chacoalhos, ganhando volume. O time de branco fez um gol. Um sujeito que estava a seu lado soltou um grito primata e tascou-lhe um abraço apertado. A equipe de azul empatou. O silêncio foi cortante. Dez minutos depois, a cantoria recomeçou. Gol do time de branco. Olegário se viu sufocado no meio de três marmanjos que pulavam como se o chão estivesse em brasas. Mais um gol dos brancos e a cantoria ganhou ainda mais volume, como se isso fosse possível. Olegário entendeu que o time de branco ainda precisava de um gol e que o tempo estava acabando. Começou a gritar, como os humanos ao seu redor faziam. Isso devia ajudar. Não demorou para que o gol salvador saísse e Olegário despencasse três fileiras abraçado a um delirante e superemocionado desconhecido.
Olegário não sabia o que estava sentindo, apenas que era algum tipo de êxtase. Agora gritava sem motivo aparente, só para colocar a emoção para fora. Fim de jogo. O alienígena sacou que havia sido invadido por uma energia rara. Dentro de seu corpo temporariamente humano não conseguia fazer caber tanta alegria. Saiu abraçando estranhos e cantarolando pelas ruas cobertas de bandeiras em branco e preto. Chegou ao hotel e mandou a mensagem à torre de controle. “Posso ficar aqui mil anos e não conseguirei entender este país. Mas o corintiano, esse sim faz sentido.”
- 7UYKWS
De Castelo Foi um dia difícil para T. - Tem um oficial de Justiça aguardando você na recepção-ão-ão-ão (a voz da colega ecoou por toda sala, todos ficaram olhando para a cara de T.). A empresa de TV a cabo o botara no pau por causa de uma conta de 10,90 reais atrasada. - Mil perdões, senhor. Aqui está o seu fusili ao sugo. T. contou até mil. Pegou a massa, deu uma garfada e o conteúdo caiu espetacularmente sobre sua camisa branca. - Ponha o celular na gaveta. Era a fivela do sapato. - Por favor, digite o que você vê escrito na imagem acima. Apareceu na tela uma seqüência de números e letras diagramadas de modo embaralhado: - AM2J9B. T. forçou a vista para entender o escrito e digitou letras e numerais. O programa anti-spam devolveu: - Tente novamente, o teste anterior foi inválido. Outra senha confusa surgiu na tela. - 7UYKWS. Ele a escreveu vagorosa e cuidadosamente. - Tente novamente, o teste anterior foi inválido. O corpo de bombeiros levou horas para apagar o incêndio no apartamento de T. Castelo é cronista do Blônicas aos sábados. Visite seu site. - O gênio brasileiro
De Henrique Szklo Um americano está no Brasil fazendo turismo sexual quando tropeça em uma lata de cerveja e ouve um grito. Um grito primal vindo de dentro da lata. Chuta de novo e ouve outro grito. Chega perto e olha para dentro. Estava muito escuro para ver alguma coisa. Passada a curiosidade amassa a lata com a mão e, neste momento, sob uma fumaça verde-amarela surge um personagem que habita os sonhos de 11 entre 10 pessoas no mundo. Quer dizer, este em particular não é tão desejado assim, mas se é o que temos para o momento... que assim seja. A figura em questão é Genivaldo, o gênio brasileiro. Ao invés dos tradicionais e esperados paramentos indianos, uma sunga verde, meio manchada de gordura em alguns pontos, uma sandália havaiana azul clara, barriguinha de chopp, um radinho de pilha ligado no Fla-Flu, óculos escuros e uma tatuagem de gosto duvidoso. Henrique Szklo é cronista do Blônicas às sextas e, a despeito da opinião de sua mãe, não é nenhum gênio. Leia seu site e o blog da mãe. 08/04/2005 - Carta ao pai
De Paulo Castro. A carta chegou até minhas mãos de maneira estranha: um envelope pelo Correio,
em destinatário apenas a palavra "Pai" e o endereço da minha casa. No remetente,
como era de se esperar, apenas as letras bem traçadas, fortes, com a grafia
firme, "Filho". Meu amado pai. Paulo Castro é cronista do Blônicas. Visite seu blog. - Escrever uma crônica
De Leo Jaime. Crônica vem do latim chronica, e quer dizer: "Texto jornalístico redigido de forma livre e pessoal, e que tem como temas fatos ou idéias da atualidade, de teor artístico, político, esportivo, etc, ou simplesmente relativos à vida cotidiana". Caso o leitor seja um daqueles rebeldes, que "não concordam", essa informação foi retirada do Aurélio. Desta forma fica claro que se o leitor rebelde acha o autor uma besta, fica também o nosso querido filólogo à disposição para as devidas cacetadas. Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas. Visite seu site. - Nota Fiscal
De Rosana Hermann. Eu peço, eu imploro, eu digo tanto, ‘não me dê a nota fiscal!’ mas não adianta. Na minha casa, todo mundo acha que eu sou a guardadora oficial e lá vem um me dando o manual, outro me dando a nota, o documento, a garantia, pra ficar sob meus auspícios.E no dia de buscar do conserto, na hora de tirar a cópia, de apresentar no tribunal, de trocar o produto, cadê, cadê a nota fiscal? Agora, por exemplo, tenho que encontrar uma nota fiscal para buscar o Ipod no conserto e não me lembro nem mesmo de tê-la recebido. Mas não, todos lembram com detalhes, o local, o instante, o frame da cena em que ela me foi outorgada. “Foi no quarto, você estava de pijama cheio de letrinhas quando eu te dei a nota fiscal dizendo ‘olha, guarda bem e vê se não perde!”. E desde quando uma pessoa de pijama levantando da cama tem condições psico-físico-químicas de receber tão responsável incumbência? Tentei reconstituir o momento do crime. Voltei ao quarto, procurei no armário, no chão, na arara, até na gaveta de calcinhas. Nada de nota. Nem um papelzinho, lanchinho pra traça. Pois não sei onde a maldita está e nem sei por onde começar a procurar. Sem contar que quando você, a responsável, não encontra algo perdido, o outro, o que a exige, não apenas não procura como fica parado a seu lado, supervisionando seu desespero. Eu sei que a nota não será necessária neste caso específico, o cara conhece a gente, sempre compramos lá e toda essa cantilena e blá blá blá, etcetera e tal. Mas neste exato momento, neste instante em que escrevo, dentro de mim, algo de desespera. Porque o papel, já era. Se ela estiver guardada em algum lugar, ela só vai aparecer quando o inverno chegar. Chama o camburão. A polícia. A ROTA. Os marines. Liga pros ghostbusters. E por favor, mundo mundo, não me entregue mais nenhum papel importante. Eu não gosto de documento,eu não nasci oficial, meu maior sonho social além da paz na terra e do fim da fome no mundo é a eliminação total da burocracia desnecessária. Ir ao cartório, tirar uma cópia autenticada, assinar em 3 vias, para mim, é o calvário. Tenho uma microempresa mas já deixei de receber pagamento de freela porque não ultrapassei a barreira do preenchimento da maldita nota fiscal. É ridículo? É. Mas sou assim. Eu queria a confiança do pelo de bigode, o aperto de mão selando o contrato, o fim imediato de todas as segundas vias, restando só, talvez a Via Dutra e a Anchieta. E agora, neste martírio de culpa, fico aqui, pedindo pra São Longuinho, que me ajude a encontrar o papelzinho. E, em o encontrando, oferecerei a ele três pulinhos. Mas assim, na relação informal. Porque por este serviço, eu não quero nem nota fiscal! P. S. – A cada compra ou serviço, exija sempre a nota fiscal. Só não me peça pra guardar. Ah, e mais uma coisa, dentro de poucos dias, este texto se auto-destruirá... Rosana Hermann escreve no Blônicas às quartas, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem. - A Confraria da Vila
De Nelson Botter Junior. Confraria da Vila, esse era o nome. Pode-se dizer que não passava de uma espécie de clubinho fechado, uma panelinha, pois só havia quatro membros e ninguém mais podia entrar. Acontece que Henrique, Carlos, Edson e Luís gostavam de confraria. "É mais pomposo", dizia Edson. Tudo bem, ficou. E ao longo de quatro anos os encontros semanais no Vila Bar (daí o nome da confraria) se desenrolaram regados a muita cerveja Original e calabresa acebolada "no capricho", como dizia Henrique. Mesmo quando alguém estava doente ou com algum outro compromisso, dava-se um jeito de cumprir o ritual. Ninguém faltava. "A confraria é sagrada", dizia Luís. Nem as esposas conseguiam atrapalhar as reuniões dos quatro, que aliás tinham como tema central o assunto: mulher dos outros. Essas é que valiam a pena. Todas as mulheres acompanhadas no bar passavam por uma séria observação, estudo geométrico, análise técnica de pesos e medidas, e algumas vezes rendiam até algumas abordagens mais pecaminosas. Sempre venerada e idolatrada, a mulher dos outros era tão ou mais sagrada que a própria confraria. Talvez só as juras de amizade eterna entre os quatro eram mais sagradas que tudo. "Mulher dos outros é uma vez e nunca mais", dizia Carlos. E assim a Confraria da Vila seguia firme e forte. Mas, então, algo aconteceu... Carlos parou de ir, assim, do nada. Pior: Luís também. Os dois, sem mais nem menos, simplesmente sumiram. Nem telefone atendiam. Henrique e Edson sentiram o baque já logo na primeira ausência dos dois. Depois, na segunda vez, o assunto era inevitável: o fim do casamento de Luís. - O Carlos foi o pivô da separação do Luís - disse Henrique. 05/04/2005 - O nosso João Terceiro
De Marcelino Freire. Sábado passado, Maria Bethânia não deu a mínima
para a morte do Papa. Nem eu. A nossa Roma era outra, negra. Novena, só a de
dona Canô. Explico: digo assim, durante o show, entre uma
música e outra, dela nenhuma palavra. Meu Deus, para quê? Valha-me.
Só a letra que dizia, em voz alta: “Eu sou a chuva
que lança a areia no Saara sobre os automóveis de Roma”. Ou ainda mais: “Quem
não seguiu o mendigo Joãosinho Beija-Flor?”. Joãosinho, isso mesmo. Bethânia, no palco, mostrava – sem querer – que o
nosso João é outro. Temos também um aqui, na boca do Rio, morrendo aos poucos.
Veio-me à imagem do carnavalesco, de repente.
Convalescente. Eta danado! Por que nenhum urubu vai à sua janela, esperar por
um aceno doente, uma pena de pavão ao vento, uma língua derramada? Depois de
dois derrames, hipertensão, pontes de safena. Fala, João, fala. A voz torta do
povo. Para milhões de telespectadores, o nosso samba do crioulo doido.
– Pobre gosta de luxo. Quem gosta de miséria é
intelectual. Miséria, assim, como a chacina de trinta pessoas
nas cidades de Queimados e Nova Iguaçu. Luxo, assim, como vimos à Praça de São
Pedro, na capa do mesmo jornal. O povo italiano comovido. E o daqui aflito.
Queremos justiça pela morte do Chicão. E do
Marquinho do Juninho do Gás. E do João Bolinho. Quem são? Respinguem, aqui para
o Brasil, um pouco dessa oração mundial. “A felicidade do pobre parece a grande
ilusão do Carnaval”, canta a baiana. Canta para uma bosta de intelectual, como eu, que
foi ao DirecTV Hall tentar esquecer que o Haiti é aqui, Meu Deus! Ah, que linda
namorada você poderia ser! Linda e linda! Vai ver que era por isso o tanto de flashes saídos
do celular. Explico: agora virou mania a platéia empunhar seus Vivos e Claros
ultramodernos sem que tenha ouvido o recado explícito: “Você não me pega, você
nem chega a me ver”. Ou: “Meu som te cega, careta, quem é
você?”. Onde vamos parar? No céu, João Paulo II olhará por
nós, será? Misturará Sua Santidade à da Mãe Menininha do Gantois?
Assim seja e saravá! Quanto ao nosso João, não quero nem pensar como vai
ficar esse mundo quando ele nos deixar. Marcelino Freire é cronista do Blônicas e autor, entre outros, do livro de contos “Angu de Sangue” (Ateliê Editorial). Visite seu blog. - Julia Roberts é a mulher da minha vida
De
Edson Aran.
Julia
Roberts é a mulher da minha vida desde que a vi rebolando de minissaia numa rua
de Los Angeles. “Pretty Woman” entra fácil
na minha lista pessoal dos 10 melhores filmes de todos os tempos.
“Casablanca”? Não, obrigado. “Cidadão Kane”. Humm. Ok. Pode ser.
Apesar
de ser uma comédia romântica, “Pretty Woman” foi feito numa época em que o
politicamente correto não dava as cartas em Hollywood. Julia é uma prostituta de
rua e entra na história com o Richard Gere apenas por dinheiro. Ela não é, nunca
foi, uma Meg Ryan mal comida disposta a se entregar ao primeiro bundão (isto é,
o Tom Hanks) que vê pela frente. Tem
duas cenas que eu particularmente adoro. Uma, logo no começo. Richard Gere está
ao telefone destruindo empresas. Julia assiste aos Três Patetas na TV. O Gere
finalmente pára de “palocciar” (verbo intransitivo direto), senta e fica olhando
a moça. Julia percebe que ele terminou o expediente e, ainda assistindo meio de
lado a TV, vai se aproximando, sorrindo, até tocar nos joelhos dele. O olhar da
moça diz tudo. A outra: Gere deixa Julia fazendo compras na Rodeo Drive e vai
embora. Ela vê uma gravata (num vendedor) e resolve comprar de presente para
ele. Tarde da noite, Julia está em primeiro plano usando a gravata. Há uma mesa
posta para dois. Ela olha para baixo. Está cansada de esperar. De repente,
escuta um barulho na porta. Julia se apruma e coloca os pés em cima da mesa.
Percebe-se que ela está nua e veste apenas a gravata. Gere entra, sorri e diz:
“Bonita gravata!”. E ela: “Comprei pra você!”. Corta. Isso
é muito mais erótico do que a Rita Hayworth despindo a luva, ícone de todo
crítico de cinema que não ousa dizer seu nome. O final do filme é adocicado,
claro. Julia Roberts não é a Audrey Hepburn roubando bolachinhas na Tiffany’s de
Nova York (se fosse na do Shopping Iguatemi, enchiam a menina de porrada). Mas
isso não importa. Julia, em “Pretty Woman”, é o sonho erótico de todo homem que
realmente gosta da coisa. Tudo o que nós, machos da espécie, queremos é uma
mulher que seja a Gloria Kalil na sociedade e a Sue Johansen na cama. Com a
Julinha da Rodeo Drive, a metade mais difícil já vem pronta. E ela, cá pra nós é
muito mais gostosa do que aquela velha assanhada do GNT. Edson Aran é cronista do Blônicas. Visite seu site que está de cara nova. - Pela via expressa
De Milly Lacombe. Eu não estava, ao contrário do que muitos pensam, torcendo para que o papa expirasse. Torceria se alguém me garantisse que depois dele não haveria outro. Mas como, salvo o apocalipse ou um surto mundial de iluminismo, haverá mais um, então, tanto faz. Mas é interessante refletir sobre a comoção mundial que a iminência de sua partida provocou. Vigílias mundo afora imploravam pela recuperação do homem. E aí eu não pude deixar de me perguntar o seguinte: se seus devotos realmente acreditam que o sujeito é divino e, em sua passagem por aqui, só fez o bem, então não faria mais sentido se todos rezassem por sua morte pronta? Não iria ele, segundo a fé cristã, pela via expressa e sem pedágio, direto para o paraíso? Por que orar para que o homem e seu sofrimento de tubos, máquinas e drogas intravenais se perpetue? Não faz para mim o menor sentido. O que sei é que, enquanto ele agonizava e seus súditos se ajoelhavam com velas nas mãos, na África, milhares de homens, mulheres e crianças morriam de AIDS porque esse mesmo santo homem nunca permitiu que, ali, se distribuíssem camisinhas. Mas para essa gente, ninguém faz vigília. Como também não houve vigília cristã enquanto os fornos de Auschwitz queimavam carne humana. Muito pelo contrário. A Igreja via na atitude algum sentido. Aliás, não há vigília pelos milhares de civis iraquianos que já morreram durante a invasão americana, fruto da arrogância do capitalismo republicano que esse mesmo papa tanto defendeu. Mas, pelos iraquianos moribundos, ninguém se ajoelha em praça pública. Agora, quando o Papa, a personificação de Deus na terra (me perdoe, senhor, por usar seu nome em vão) se aproximou da reta final, aí todos resolveram que era hora de sair de casa, dobrar as pernas e pedir para que ele ficasse mais um pouco entre nós. Mesmo que seja, pelo bem de nosso egoísmo, sofrendo como um pobre coitado. E aí, do alto de minha ignorância agnóstica, eu me pergunto como exatamente a vida desse homem é mais importante do que a da mulher que, enquanto eu escrevo essas linhas, agoniza em algum lugar sujo e remoto do Zaire vítima de AIDS. Para mim, são duas vidas igualmente importantes, igualmente divinas. Por isso proponho que, se o mundo parece estar tão disposto a sair de suas casas com uma velinha nas mãos para se ajoelhar em praça pública, todos os dias nos ajoelhemos e oremos por essa gente anônima que foi esquecida, que foi deixada ao relento, que foi ignorada por todos nós – principalmente pela Igreja que esse santo homem tão divinamente representou por mais de duas décadas. No mais é se libertar de dogmas, tabus e festejar, porque, por alguns dias, enquanto os patuscos e impecavelmente bem vestidos candidatos a santo padre estiverem reclusos no conclave lidando com suas intrigas e vaidades, ficaremos aqui do lado de fora, abençoadamente esquecidos. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - Está morrendo gente que nunca morreu antes
De Castelo. Demétrio morreu. Não sei se vocês repararam, mas isso costuma acontecer todo dia. Morre-se pra caramba. No mundo todo. Pois Demétrio, um sessentão até sacudido, pimba: caiu mortinho num sábado como esse, mastigando a costelinha da feijoada que a esposa, Cleonice, cozinhara a seu pedido. A mulher não esperava que o marido fizesse uma coisa daquelas, assim, no meio de um prosaico almoço familiar, sem dar um toque ao menos. Mas as surpresas ainda estavam por vir. Claro que Demétrio, como todo bom brasileiro, não deixou testamento. Bem, não deixou lá muita coisa também, um apartamentozinho em Cidade Ocian, mas também não oficializou. Quando Cleonice foi vender o apartamento (pra pagar as prestações atrasadas do Fininvest) viu que a transação era impossível. Só dava pra se desfazer de algum bem do esposo quando saísse o inventário. E podia demorar anos. O pior é que, sem o maldito documento, ainda era preciso continuar pagando o IPTU, o condomínio e outras taxas do apartamento no litoral. Cleonice não dizia nada. Era só enxaqüeca atrás de enxaqüeca. Uma caixa de Neolsaldina por semana. Outra dor de cabeça foi quando ela soube que precisava encerrar a conta bancária de Demétrio. Ligou para o telefone 24 Horas e, após 15 minutos de checagens de senhas e contrasenhas, a voz feminina disse a palavra-chave: - … o inventário. A conta não pode ser encerrada sem este documento. A cabeça de Cleonice deu uma leve pontada. Ela ponderou. - Mas já zerei a conta. - É uma regra, não podemos fechar. - Certo – Cleonice sussurou, procurando manter a calma – e o que vocês sugerem que eu faça então? - É só pagar os R$ 15 reais de tarifa da conta. - 15 reais por mês!! Pra conta de uma pessoa defunta! – outra pontada, agora na nuca. - Foi o que o senhor Demétrio estipulou. - Estipulou, mas não estipula mais nada! - Um minuto, dona Cleonice, transferirei a ligação para o gerente de sua conta. - … - pontada na testa. - Alô, dona Cleonice? Gerente Romualdo falando. - Sim. - Verifiquei aqui e posso diminuir a tarifa da conta do senhor Demétrio para 5 reais ao mês. É a tarifa mínima que o banco oferece. - Fazer o quê? - pontada aguda na sobrancelha. - Nossa conversa está sendo gravada para sua segurança. A senhora autoriza o pagamento de cinco reais por mês pela tarifa mínima da conta corrente do senhor Demétrio da Silva ? - Autorizo. - Operação concluída com sucesso. Ah, só mais um detalhe. A tarifa mínima de cinco reais não dá direito a cheque especial, nem a cartão de crédito. - … - seqüência de "agulhadas" múltiplas na testa, nuca e olhos. - Alô? Dona Cleonice…O senhor Demétrio da Silva não terá direito a cheque especial e cartão de crédito. A senhora ouviu a informação? Dona Cleonice? Ixe, desligou… Castelo é cronista do Blônicas aos sábados. Visite seu site. - Só nome feio
De Doutor Carneiro, o espírito de porco agridoce psicografado à contragosto por Henrique Szklo. Esta é a história de um homem estranho com um problema estranho. Cristófaro era um solitário, não conseguia conviver com as outras pessoas, sua vida era um inferno e nada dava certo pra ele. Tudo porque ocorria com ele um fenômeno nunca detectado em outra pessoa em toda a história da humanidade: Peritônio não conseguia ficar com um nome. A cada vez que alguém se dirigia a Leocádio, ele tinha um nome diferente. Robervério sofria demais com isso. Uma hora era Gracilândio e, minutos depois, era Arnovídio. Não conseguia ter documentos, não conseguia se inscrever em nada. O nome não ficava, não colava. Crise de identidade profunda. Certa vez, Arlintolfo procurou um médico. Mas não conseguiu a consulta. Menescôncio marcou a consulta, mas quem apareceu foi Laredésio. Procurou, então, um pai de santo que não exigia nomes na hora de marcar consulta. Chegando lá, Estrovaldo explicou sua situação e o sujeito ficou todo confuso. Nem o preto velho, nem a pomba-gira, nem ninguém da turma da pesada havia jamais visto uma coisa destas. Ficaram até com medo. Eles não tinham resposta. Sugeriram, porém, a Enemercádio que procurasse um famoso curandeiro que lidava apenas com casos raros e idiotas como este. Magrilôncio foi até ele. O sujeito era muito esquisito. Pudera. Misturou líquidos, acendeu incensos, proclamou cânticos incompreensíveis, peidou uma barbaridade. Garcilênio ficou parado, esperando que o maluco desse algum prognóstico. Ao final da sessão, o curandeiro chegou perto de Pritubério, olhou nos seus olhos e disse em tom premonitório: – Fazer o senhor parar de mudar de nome o tempo todo eu não consigo, não. Mas se o doutor quiser posso fazer um esforço para, pelo menos, o senhor usar uns nomes mais bonitinhos. Tá afins? Henrique Szklo é cronista do Blônicas às sextas e autor do novíssimo MINUTOS DE ESTUPIDEZ, nas melhores (e piores) livrarias. Leia seu site e o blog da mãe. 01/04/2005 - A didática do amor
De Paulo Castro. Estava folhando a apostila de educação sexual que minha filha irá utilizar na sua quarta série. Lá estavam os orgãos reprodutores masculinos e femininos, a fecundação, o desenvolvimento de feto dentro do útero e todas essas informações de bula ou modo de usar. "Mas alguém já sentiu prazer na leitura de uma descrição clínica? Será que o velho não sabia que as palavras trazem cores e sons para a carne?"
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