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- A vida é breve, a D.R. é longa
De Xico Sá. "Ai naquele maior barraco, ele, rapaz acadêmico, vem com uma citação de Delleuze (o Gilles, filósofo francês) pra cima de mim, vê se pode uma coisa dessas?!!" D.R. Kurosawa - Outro noite adiei a saideira por horas, reparando num embate de casal que imitava a arte deste cineasta. Uma discussão lenta, imagens lindas, arrozais sob montanhas, silêncios que falam coisas, uma peleja quase em ideogramas. D.R. MPB - Indecifrável e incompreensível como o "zum de besouro ímã" do verso do Djavan. Muita onomatopéia e nem uma idéia os males da D.R. são. D.R. Erística _ Como na corrente homônima herdada dos gregos, a arte de triunfar no barraco oral mesmo sem ter razão. D.R. punk-rock _ Três acordes e vai cada um pro seu lado, dormir na casa da mãe, de um(a) amigo (a), hotel, flat, amante, homeless... D.R. Paulo Coelho _ Depois de "Onze minutos" de sexo, o barraco sempre começa com uma parábola bíblica ou uma lenda árabe. D.R. free-style _ É a discussão rimada, estilo rap, passionais MC´s: "Assim você me afunda/ com esse pé-na-bunda/ com essa insensatez.../ meu barquinho já naufraga/bossa nova é uma praga/veja só que a vida fez!" D.R. brechtiana _ A arte de enfrentar o público, seja num botequim seja numa festa, com o distanciamento do personagem, como se dissessem do palco, a cada golpe, "não é nada disso que vocês estão pensando, controlem-se". D.R. Abaporu ou D.R. arte moderna _ Típica discussão sem pé nem cabeça, que para nenhum dos dois interessa. D.R. metalingüística _ A D.R. da D.R., tipo roteiro de Kauffman ("Adaptação", o filme), exercício das cabeças requentadas ou das mentes ressentidas. P.S. da D.R. ou existencialismo de cabeceira _ Melhor uma D.R. com Gisele Bündchen ou um sexo com Simone de Beuavoir? Xico Sá é cronista do Blônicas todas as segundas-feiras. Minha avó quer vir a São Paulo
De Milly Lacombe.
Minha avó quer vir a São Paulo. Um desejo singelo não tivesse ela 96 anos e o ímpeto de nunca mais andar de avião, sabe-se lá por que. Então, minha avó, que mora no Rio, diz que quer vir, mas tem que ser de carro. E de carro, com minha avó, o Rio parece ficar a 30 horas de São Paulo. Porque ela tem que parar para ir ao banheiro de vinte em vinte minutos, para comer uma coisinha de meia em meia hora, para esticar as pernas de quarenta em quarenta minutos ... transportá-la é trabalho para um budista aposentado. Até porque, parcialmente surda, ela uiva, em italiano, tudo o que quer dizer. Trata-se de uma travessia que poucos têm a capacidade de fazer. Mas ela diz que aos 96 anos não se tem pressa para nada e que, portanto, só vem se for de carro. E, como a velha tem uma teimosia ancestral, a viagem será feita pelo solo. Para isso, minha mãe foi ao Rio. E de lá vai voltar com Nonna no carro. Tudo porque minha avó, que continua mais lúcida do que muitos de nós, quer ver a bisneta recém-nascida em São Paulo. Ao todo já são seis bisnetos. E ela não dá sinais de que faltará ao nascimento do sétimo, que nem planejado foi ainda. Existe uma forte suspeita na família de que Nonna talvez dure mais do que se supõe. Aliás, corre um bolão para saber quem vai primeiro: ela ou Picsy, a poodle de minha irmã, que já tem uns 20 anos e ainda saltita pela casa. Surda e semicega, mas saltitante. Fico imaginando como é ter 96 anos e não poder mais divagar sobre o futuro. Fico imaginando como é ter 96 anos olhar em volta e não achar nenhum de seus amigos e conhecidos da juventude. Olhar em volta e pensar que todos os que me cercam neste momento já deixaram de existir, se retiraram da festa, e eu ficarei sozinha, sem esses que tão bem me conhecem e me percebem. Nem pais, nem irmãos. Apenas descendentes. Como é ter 96 anos e não saber se o amanhã chegará? Não seria essa a fórmula da vida? Viver aqui e agora, sem pressa de chegar? Mas teríamos nós que alcançar os 96, perder o controle sobre a bexiga e, parcialmente, a capacidade de ver, ouvir e andar para sacar isso? Nietzsche, que uma amiga minha recentemente me proibiu de citar ("por que você não lê Schopenhauer, Platão, Epicuro, qualquer outra coisa que não seja esse insuportável Nietzsche? Não aguento mais suas referências a ele!"), tem a receita. Seu eterno retorno fala exatamente disso: esta vida, conforme se vive agora e se viveu no passado, terá que ser vivida novamente, e inúmeras outras vezes. Todas as dores e alegrias se repetirão eternamente. Retornaremos, portanto, para sempre. Mas o grande barato dessa teoria é que você não precisa de fato acreditar nela para tirar proveito. Você pode simplesmente fingir que acredita. A lição é: escolha cada uma de suas ações imaginando que ela se repetirá para a eternidade. Minha avó certamente não sabe que está vivendo sob a filosofia de Nietzsche. Mas ela, aos 96, sabe, sem dúvida, muito mais coisas do que você e eu. Sabe, inclusive, que o segredo da vida é a morte e, sem pressa de desvendar esse mistério, vai vivendo cada momento como se fosse o último. A essa altura, deve estar em algum posto da Dutra comendo, bebendo, olhando a paisagem, assistida por minha mãe, que provavelmente está batendo os pés no chão em sinal de impaciência, olhando o relógio e implorando para que a mãe dela entre no carro e dê sequência a viagem. Porque, aos 65, ainda se tem pressa de chegar. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - O preâmbulo
De Castelo. - O gênio sem lâmpada
De Henrique Szklo Confissões de um arrivista incompreendido Quando nasci, algum anjo sarcástico e galhofeiro quis me sacanear e me ungiu com a marca da vaidade não justificada. Me tocou e decidiu que eu seria um ninguém com aspirações interplanetárias. Um qualquer com presunções megalômanas. Um néscio com pose de gênio. Desde então minha vida tem sido uma seqüência de equívocos, um mar de desencontros, tempestades em copos de coca-cola. Apesar de a culpa não ser minha, devo reconhecer que também não é só do anjo. Minha mãe, por exemplo, tem a sua parcela. Ficou a vida inteira me botando na cabeça que eu era uma espécie de reencarnação do Einstein. Me pedia toda hora para botar a língua para fora. Eu queria ser veterinário, como meu pai, mas conclui que cuidar de animais seria um desperdício de talento, por isso acabei escolhendo como profissão a publicidade, o lugar para onde naturalmente os gênios se encaminham. Mas minha sina não se restringiu aos limites de minha casa. Bastou eu começar a trabalhar e ganhei um prêmio logo de cara. Medalha de bronze no Clube de Criação, o que apenas confirmou a opinião de minha mãe. Não tinha jeito, eu era mesmo um gênio. Fui ficando cada vez mais convencido de que era um talento excepcional e que cedo ou tarde o Washington e o Giba precisariam ser desmascarados. Fui para a Lage, Stabel/BBDO, uma das agências mais legais da época, trabalhar com minha querida amiga Magy. A época mais feliz da minha vida profissional. Além de sucessivos aumentos salariais espontâneos, fui finalista do prêmio Abril com dois anúncios. Não estava mais cabendo tanta genialidade num corpo só. De repente entediei. Não havia mais desafios para uma mente tão brilhante por isso resolvi viajar. Fui para a Europa e fiquei seis meses vivendo na maior dureza. Não gostei nem um pouco da viagem. Me trataram como um qualquer. Ninguém enxergou meu talento e inteligência, por isso minha bola baixou um pouco (não muito), mas continuava firme na minha postura de craque. Quando voltei, não demorei muito para ser contratado pela melhor e maior agência da época, a MPM. Olha aí as coisas voltando ao normal. Pouco tempo depois, mesmo sem fazer parte da turma que mandava na criação, fui promovido à diretor associado de um grupo de contas. Aí eu tive a comprovação definitiva de que era gênio. Aos 27 anos estava em meu auge. Por isso é que a queda foi mais sofrida. Deslumbradinho com o cargo, meti os pés pelas mãos e acabei brigando com todo mundo. Minha genialidade não resistiu ao meu gênio. Acabei saindo da agência e fiquei os sete anos seguintes amargando um ostracismo nada genial. O Enio Mainardi até me disse: “você é uma promessa que não deu certo”. Na época não gostei, mas depois continuei não gostando, porém contra fatos não há argumentos. Neste momento de escuridão profissional o que me salvou foi ter criado um anúncio para me vender ao mercado que me introduziu no mundo do humor. Me fantasiei de judeu ortodoxo e o escambau, mas não adiantou nada. Todo mundo achou genial, ganhei prêmios, etc., mas o meu objetivo, que era me lançar no maravilhoso mundo das agências criativas, falhou. Novamente o gênio fora vencido. Abri então uma confecção de camisas que as pessoas achavam geniais, a Ópera Bufa, mas minha admirável inaptidão administrativa sepultou o negócio em pouco tempo. Cheguei até a ter uma loja e publicava um jornalzinho idiota que as pessoas adoravam, o Tribufa da Ópera. Tem gente que até hoje diz tê-los guardados. A maioria nunca comprou uma camisa sequer, mas adorava o Tribufa. Genial, diziam. Tempos depois comecei a escrever na Revista da Criação e apesar de achar que ninguém lia minha coluna, podia ao menos sentir um pouco do gostinho de uma sutil genialidade. Quando tudo parecia estar perdido em 97 voltei a ser diretor de criação de uma agência. Meu retorno triunfal. Diretor de criação, colunista da Revista da Criação, comecei a ir para Cannes escrever também de lá, enfim, o gênio estava de volta. O que comprova que o ego é como a dengue. Sobrevive anos encubado. Escrevi outros livros, abri e fechei uma agência e hoje trabalho como freelancer, dei aulas na Panamericana, tenho milhares de projetos para TV, rádio, livros, revistas, internet, costas de figurinha. Quatro anos depois de minha diáspora profissional estou falido, quebrado mesmo, mas não me arrependo. Depois de tanta batalha, tanta grama ingerida, tanto sapo engolido, tanta energia desperdiçada estou fazendo o que gosto. Estou devendo até a alma, mas quem tem de se preocupar com isso são meus credores. O complexo de Einstein não me persegue mais. Até minha mãe já jogou a toalha e assumiu para ela mesma que me acha um medíocre. Mas eu ainda acredito. Eu ainda tenho fé. Veja o Max, por exemplo. Pelo jeito que ele me olha e abana o rabo tenho certeza de que pelo menos alguém no mundo ainda acredita na minha inquestionável genialidade. Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas, deve uma fortuna aos bancos e tem um gênio péssimo. Leia seu site, o blog da mãe e participe da Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. - O que precisa ser dito
De Leo Jaime. Leo Jaime é cronista do Blônicas. - Regras de conduta
De Rosana Hermann. Moisés atravessou o deserto durante quarenta anos em busca da terra prometida. E, claro, com seiscentas mil pessoas paranóicas, cansadas, desconfiadíssimas sobre a existência ou não de Canaã, com problemas até a tampa, não faltaram críticas e ataques de todos os lados. O que foi uma grande maldade com Moisés porque ele estava fazendo isso de graça, cumprindo ordens bem superiores e, enfim, estava na mesma situação de todos. O Todo-Poderoso, que acompanhou Moisés de perto, vendo aquele bando de mal-agradecidos, chegou a se arrepender de ter criado a raça humana. E Lhe ocorreu que, ora bolas, se ele tinha criado aquela criatura tão deselegante e agressiva, de mente tão nefasta, o ser humano, um poço de queixas e ingratidão, Ele bem que poderia destruir tudo e fazer uma gente mais gentil. Veja bem, D’us não quis destruir Moisés, mas o povo que ele liderava. Nem sempre a maioria tem razão. Mas aí veio Noé e fez a arca pra salvar um par de cada exemplar de criaturas e foi aquela água. E o que temos agora? Um novo povo? Não. Somos todos descendentes dessas mesmas pessoas que reclamam o tempo todo. Até hoje. A diferença é que naquela época todo mundo dava a cara pra bater. Não tinham endereço, porque ninguém sabia o CEP do deserto do Egito, mas todo mundo tinha nome. E rosto. Eram filhos de alguém. Bem diferente de hoje, quando a Internet possibilita que todo mundo atravesse as urls dos vários desertos da rede, xingando e criticando no anonimato. Mesmo que você leve a pessoa para a terra prometida, ele vai criticar você. Mesmo que você trabalhe de graça, leve-a para links maravilhosos. Mesmo que você escreva cinqüenta mil posts úteis, se ela encontrar um com o qual não concorda, dirá que você não é mais o mesmo, que o blog virou uma merlin e a partir daí, xingará você sempre. Por isso, é preciso ter algumas regras. Para sobreviver num blog, tenho uma regra particular: não aceito insultos de pessoas que se conectam com meu, com seu, com nosso dinheiro, o dinheiro público. É sempre melhor a convivência pacífica, a crítica construtiva. Mas se alguém quiser escrever críticas destrutivas ou ofensas leves, tem que pagar a própria conexão pra fazer isso. Acho o fim da picada uma pessoa que está numa repartição pública, uma autarquia, um órgão municipal, estadual ou federal, em horário de trabalho e usa a conexão para pelo povo, pra ficar ofendendo pessoas em blogs. Porque ela não está estudando, pesquisando ou buscando informação, está apenas praticando a encheção de saco bíblica. Até D’us se arrependeu de ter criado o homem, imagine se os blogueiros já não passaram por esta sensação de arrependimento de publicar abertamente para levar pedradas. O que eu faço? Pego o IP da criatura, ligo pra ouvidoria do órgão em questão, mando email pra todo mundo, boto a boca na rede. Eu não fiz nada contra a pessoa, não a conheço, não sei quem é, não posso vê-la atrás de seu anonimato. E recebo dela um bando de xingamentos, ameaças a outros leitores, ofensas pessoais, agressões gratuitas, avulsas, sem motivo algum. Então, se tudo o que eu tenho é um IP é através dele que faço justiça com meus próprios cliques. Para que ela aprenda que para cada ação há uma reação. Que aqui se faz, aqui se paga. Que a gente colhe o que planta. E todos esses outros chavões sobre os feitiços virando contra os feiticeiros. Eu voto, eu luto, eu quero um país democrático e não vou sustentar funcionários da máquina pública que usam meu dinheiro pra me ofender anonimamente online. Como? Se eu aceito ofensas de conexão privadas? Ah, no caso das privadas, é mais fácil. É só apertar o botão e deletar. Com a ajuda de D’us. Rosana Hermann escreve aqui de quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. - Agora eu quero um revólver de natal
De Nelson Botter. Semana passada mataram uma vizinha de rua na frente do prédio dela. Um ladrão pediu a bolsa, ela se assustou e esboçou um movimento defensivo. O cara, armado, não esperou pra ver o que ela ia fazer. Bang! Na cabeça. Morte instantânea, a calçada cheia de sangue, o ladrão correndo e as pessoas apavoradas na rua. Sim, foi em plena luz do dia, mais precisamente às 17 horas, ou seja, tinham várias testemunhas de olhos arregalados, boquiabertas com tal selvageria. Aquela arma não era uma AR-15, nem uma bazuca, era apenas um revólver como os que todos continuarão comprando após o resultado do referendo. Arma legal ou fria, é arma. Aí eu me pergunto: e se ela estivesse armada? Teria ela sacado e atirado? Teria ela exercido o direito de se defender? O tiro foi rápido e cruel, sem chance alguma de reação. Um simples movimento fez com que o ladrão, na dúvida do que ela poderia fazer, atirasse sem hesitação. Só há uma certeza nessa história: além da bolsa, o ladrão teria ganho mais uma arma. O cidadão de bem no domingo deu uma resposta aos governos estaduais e federais. Disse que não está contente com a política de segurança pública e que quer continuar com o direito de poder se armar. Motivos para isso não faltam, aliás, muito bem explorados pelos profissionais que produziram a campanha do "não". Um 'case' fantástico para a publicidade brasileira. Reverteu-se um quadro de 76% do "sim" no início da pseudo-discussão. A virada foi incontestável, baseada nos argumentos mais fortes e mais bem explorados da campanha do "não". Quem bancou, leiam fábricantes de armas, deve estar rindo até agora. Talvez se a campanha do "sim" fosse mais eficiente, manteria a larga vantagem do início, mas isso não ocorreu.
Agora, existe o outro lado da moeda, pois o mesmo cidadão de bem que votou pelo não desarmamento votou pela manutenção dessa sociedade caótica de hoje, em que uma mulher é executada num assalto sem ter feito nada. O desarmamento não daria solução para isso, eu sei, só se combate a violência com punições rigorosas, educação e equivalência social. Entretanto, o fato de haver menos armas seria um primeiro passo para acabar com toda uma cadeia de acontecimentos que faz com que o bandido fique cada vez mais armado. "O desarmamento era uma forma de deixar o povo desprotegido contra os bandidos", dizia a campanha do "não". Mas a pergunta que eu faço é: e ela hoje está protegida? Levou-se muito em consideração essa coisa "bandidos x sociedade", mas e a "sociedade x sociedade"? Falando sério, é um perigo deixar um monte de louco poder andar armado por aí. E não são bandidos não, estou falando do tal cidadão de bem. Comprar uma arma legal é difícil, precisa até de teste psicológico, mas arma fria tem em qualquer esquina. Com a proibição, a arma fria seria mais crime ainda. Ajudaria a diminuir esse comércio ilegal. Meu vizinho pode ser louco e ter uma arma. Um dia posso discutir com ele e tomar um tiro. A sociedade é doente e o referendo apenas evidenciou isso. Espero ter escrito um monte de bobagem, espero estar muito errado, caso contrário... salve-se quem puder. Nelson Botter escreve aqui todas as terças-feiras. - Na fachada está escrito: isso é um muquifo de solteiro
De Xico Sá. Noves fora o “homem de predinho antigo”, aquela criatura que adora um pé-direito alto, um sofá de época e uma luz indireta, o macho solteiro é um desastre no capítulo decoração. Tem lá o seu sofá velho, a sua tv, uma cama barulhenta, três ou quatro panelas _sem cabo_ encarvoadas pelo tempo, e copos de requeijão, muitos copos de requeijão, alguns deles ainda com um pedaço do papel do rótulo. Se brincar, o cara coleciona também os velhos copos de geléia de mocotó, um primor de utensílio “vintage”. E quando a fofa, toda fina e fresca, nova namorada, chega lá no “muquifo” com a sua garrafa de champanhe?! Procura, procura as taças, para fazer uma graça com o marmanjo, e nada. O jeito é beber Veuve Cliquot em copo de extrato de tomate. Quem mandou apaixonar-se por um macho-jurubeba autêntico, que vem a ser justamente o avesso do metrossexual, aquele mancebo da moda que se lambuza de creminhos da Lancôme e decora o loft, sim, ele mora num loft, de acordo com as tendências da revista “Wallpaper”. “Uó-o-qué, rapaz, seje homi”, diria meu amigo Rinaldo, lá no sítio Acauã, de Chã Grande. Pior é quando ela tenta mudar tudo. E põe aquele seu quadro caríssimo e de grife numa sala que não tem nem mesmo um sofá que preste?! Um desastre. A fofa, toda classe média metida a besta, não desiste nunca. Ai presenteia o bofe _sim, ela está doida e perdidinha pelo cabra!_ com uma batedeira prateada ultramoderna com 600 funções, que nunca será usada. Ai fica aquela batedeira high-tech fazendo companhia aos três pratos chinfrins e aos garfos tortos _como se o Uri Geller, aquele parapsicólogo que aparecia no “Fantástico” das antigas, tivesse jantado por lá ou feito faxina na área. Ela começa a revirar geral, um deus-nos-acuda, numa casa onde ninguém havia mudado sequer uma planta de lugar. O reino vegetal, aliás, é outro ponto fraco do macho solteiro. Jarros, flores? Nem de plástico. Na casa do homem solteiro típico, a utilidade triunfa sobre a estética. O cúmulo do utilitarismo. Sofá da tia-avó vira cama, como diz a minha amiga D., co-autora dessa crônica. A cama vira sofá, a rede vira sofá e cobertor, o cobertor vira cortina preso à persiana... A falta de cortina é outra marca registrada do desmantelo do cavaleiro solitário. Quando muito, papel filme. Abajur? De jeito maneira. Tosco no último, ele não tem cultura de luz indireta, nem nunca terá, esqueça. Outro traço de personalidade do macho solteiro: tudo que chega até a cozinha vira tupperware _aquelas embalagens plásticas de lasanha comprada pronta, caixinha de entrega de comida chinesa ou japonesa, potes de sorvete... Melhor assim do que as frescuras do ex da minha amiga D., a mesma rapariga acima citada. Ela entrou na casa dele e logo ouviu a advertência, em altos brados: “Não pisa de salto no meu carpete de madeira!” “Nooooosssssa!,” arreganharia a bocarra o velho Costinha, se vivo fosse. Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. - Crendices dominicais
De Milly Lacombe.
Não acredito em coisas como vida após a morte, ou em um Deus controlador que se preocupa com o destino e a ação de cada homem e mulher sobre a terra. Mas acredito piamente em café-da-manhã. Acredito tanto que domingo é o único dia em que acordo voluntariamente cedo. Para nada além de fazer o café e pegar o jornal na porta dos fundos. E o ritual de sentar, beber, comer e ler, sem hora para ser interrompida, é uma de minhas crenças mais inabaláveis. Mas tenho outras crenças. Acredito, por exemplo, em Nietzsche e Eça de Queirós. Acredito em torta de limão, em Lennon e Bonno Vox. Acredito em Che e Clarice. Em Machado e Nelson. Acredito em estádios lotados para uma boa partida de futebol e que existam entre nós, hoje e sempre, profetas que passam, pela arte, o recado que vem de um Deus que, como disse Einstein, está revelado na harmonia de tudo o que existe. Acredito em suchis e sachimis, no Deus de Espinosa, aquele que se manifesta nas coisas materiais, e no de Platão, presente em todo e qualquer homem e mulher. Acredito também em doce-de-leite e em Einstein quando ele afirma que o comportamento ético dos homens deveria se basear na simpatia, na cordialidade, na educação e nos laços sociais. E que, para isso portanto, não é necessário base religiosa. “Os homens estariam em péssima situação se tivessem que ser controlados pelo medo da punição divina ou pela esperança de salvação após a morte”, escreveu o físico em 1930. Estamos, portanto, em péssima situação. Somos, ainda, animais profundamente imaturos. Não conseguimos nos aceitar, nos celebrar, nos amar pelo simples respeito que deveríamos ter à vida e ao divino. Somos orientados pelo medo da punição. Estamos dispostos a trocar liberdade por segurança. Sempre. E a qualquer preço. Vivemos em um dos países geograficamente mais abençoados do mundo. Somos, acima de tudo, um povo gentil e bondoso. É essa nossa índole. Mas não basta. Porque insistimos em nos odiar, em nos agredir, em nos cutucar, em nos violentar diariamente. Para justificar o português Eça: “O Brasil pode contar com um soberbo futuro histórico, desde que se convença que mais vale ser um lavrador original do que um doutor mal traduzido do francês”. Ainda não nos convencemos disso, e talvez por conta dessa falta de delicadeza observatória tenhamos aqui uma das elites mais cafonas do mundo. Aliás, nada pode ser mais cafona do que ser milionário em um país miserável. Mas nem sei como cheguei aqui se tudo isso era para dizer apenas que eu acredito piamente mesmo em café-da-manhã. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - Aluga-se espaço aconchegante
De Castelo.
- Alô? Por favor é daí que estão alugando um útero? - Viu nos classificados de Negócios e Oportunidades? Ao lado do anúncio do homem que está trocando a carótida por um casal de curiós? - Isso, isso. - Então é aqui mesmo. - Agora me diga, como é o seu útero? - Ah, muito acolhedor. Até hoje meus inquilinos só falaram bem dele. - Espaçoso? - É um útero duplex. Dois ambientes completamente independentes. O de baixo, em L, pode ser usado como living. Em cima, fica o dormitório. - A vizinhança é... - Sob controle. O único problema é quando as trompas ensaiam. No mais é um sossego. - Qual seria o valor do aluguel? - Econômico ou flat? - Como? - Explico. O aluguel flat tem serviço de hotelaria. O senhor não precisar se incomodar com nada. Estarei à disposição 24 horas por dia. Qualquer coisa, basta que me dê um chute na barriga. - E o econômico? - Se o senhor me chutar, devolvo o chute. Mas o útero é o mesmo. Para o flat cobro dois mil reais por mês, o econômico é a metade. Fora o condomínio. - Condomínio? Por acaso, o seu útero tem porteiro, playground, piscina? - E o senhor acha que, com esse arrocho da economia, eu tiro minha margem de lucro de onde? Do Caixa 2? - Justo, justo. Uma outra dúvida: se um inquilino precisa ocupar o útero por mais de nove meses, ele tem opção de compra? - Teria, em termos. Mas geralmente a proprietária consegue o alvará de despejo alegando ao juiz que vai usar o útero para fins particulares. - Que tipo de fins particulares? - Eu lhe garanto que usar pra salão de festa é que não é, meu senhor. - Seu útero está vago no momento? - Está vago. - Então, como poderíamos formalizar contrato, essas coisas. - Basta o senhor vir até aqui e assinar a papelada. - Irei à tarde. - Desculpe perguntar, mas o útero é para o senhor mesmo ou pra outra pessoa? - Eu mesmo vou morar. Após anos de análise, concluí que nunca deveria ter saído de um útero. O mundo aqui fora anda afetando bastante os meus nervos, sabe? - Muito bem. Aguardo o senhor para a assinatura do contrato. - Perfeito. - Até logo. - Até. Ah, só mais uma coisinha: daqui pra frente, posso lhe chamar de mamãe? Castelo escreve aqui no Blônicas aos sábados. - Por que SIM?
De Antonio Prata.
Ontem fui ao xérox da PUC e ouvi um aluno dizer pro outro que iria "votar NÃO, claro, porque esse referendo era o primeiro passo pra uma ditadura que o LULA estava preparando e que se o SIM ganhasse ele iria comprar um lança pregos numa loja de construção". Aí, bom, percebi o tamanho da encrenca e resolvi botar a boca no mundo. Sei que você, mesmo que pense em votar NÃO, riu da frase do biruta da PUC. Acontece que essa é só a posição mais extremada de alguns dos argumentos que estão rolando contra o desarmamento. Se tiver paciência, boa vontade e estiver realmente interessado no assunto (assunto que mata 40 mil pessoas por ano), por favor, continue a ler esse texto. Vou tentar refutar alguns dos argumentos do NÃO, enquanto falo das razões para se votar SIM. (O argumento da ditadura do LULA, acho, não precisa de resposta, né?) Legítima defesa: muitos defensores do NÃO dizem que o Estado quer tirar do "cidadão de bem" (depois falamos desse cidadão aí) o direito de se defender. Se os dados mostrassem que uma pessoa armada está mais protegida do que uma desarmada no caso de um assalto, eu concordaria. Acontece que, num assalto, uma pessoa armada tem 57% mais chances de ser assassinada (Dados do ISER, um grande instituto de pesquisa do Rio). Segundo o FBI, pra cada vez que o "cidadão de bem" se salvou sacando uma arma contra o bandido, 187 vezes o bandido levou a melhor. Estão me tirando um direito!: Sim, meu caro, estão te tirando um direito, mesmo! A vida em sociedade é assim, a gente abre mão de algumas liberdades individuais em prol da coletividade. Há mais de cem anos, se você não gostasse desse meu texto, poderia me chamar pra um duelo. Era legal. E eu, como não poderia amarelar, teria que aceitar. Aí isso foi proibido. Era o Estado metendo seus terríveis tentáculos na vida privada? Era! Que bom. Até umas décadas, se eu descobrisse que minha mulher transou com outro cara, poderia matar os dois e ser absolvido alegando "legítima defesa da honra". Agora não posso mais. Tiraram um direito meu?! Sim, tiraram. Cheguei a ouvir de um cara inteligente que ele iria votar NÃO porque sua geração havia cantado pelas ruas "É proibido proibir". Bem, imagino então que depois do referendo todos aqueles que apóiam o NÃO sob esse argumento anarquista vão abolir a constituição, a polícia, o Estado e sairão todos pelados cantando Geraldo Vandré pela Paulista. Quem diria que um dia veríamos, lado a lado, Foucault e Cel. Ubiratã, Henry David Thoreau e Erasmo Dias, Thomas Jefferson e Fleury... São 40 mil mortes por ano. Os EUA bombardearam o Iraque e ainda não conseguiram tanto em mais de dois anos. Vamos deixar que isso continue porque nosso imenso narcisismo não permite que nos "tirem um direito"??? Vão desarmar o "cidadão de bem" e não os bandidos: Bem, chegamos a esse tópico complexo. O cidadão de bem. Hum... Hum... Vamos lá. Sabe quantos por cento das pessoas são assassinadas pelos bandidos? 5%, segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública. Ou seja, 95% das mortes por arma de fogo no Brasil são causadas pelo... Cidadão de Bem! Mais ainda: se você tem uma arma pra se proteger daquele ladrão que veio lá de longe te matar, saiba que em 60% dos crimes por arma de fogo, vítima e agressor se conheciam e moravam a menos de 500 metros um do outro. O problema maior não é a bandidagem e o desarmamento não vai, nem pretende, resolvê-lo. O problema é que as pessoas estão brigando e estão armadas. A diferença entre o olho roxo e a morte é a arma de fogo. Outra coisa: 90% das armas apreendidas pela Polícia Federal nos últimos dez anos nas mãos dos bandidos foram, primeiramente, compradas pelo "cidadão de bem". Quer dizer, o "cidadão de bem" vai feliz com a família ao shopping, domingão, chinelo rider no pé. Aí entra na Bayard, compra seu 38 e volta pra casa, sentindo-se o próprio Bruce Willys. O "cidadão de bem" é assaltado, levam a sua arma e pronto, o três oitão do Batman está nas mãos do Coringa... Não vai adiantar, ninguém respeita lei no Brasil, nem adianta: É claro que vai ser possível comprar arma no mercado negro, assim como já é. Mas vai ser mais difícil, e mais caro também. Se o argumento é que nenhuma lei "pega" no Brasil, então voltamos pro tópico anterior, queimamos a constituição e vamos lá, pelados, cantar Geraldo Vandré... O efeito Fagner: "Esses artistas que tão fazendo campanha pro SIM são os mesmos que falaram pra votar no LULA. Agora olha só". É uma maneira curiosa de olhar as coisas. Sob a ótica de "toda unanimidade é burra", fazer sempre o contrário da maioria. Nelson Rodrigues, quando escreveu a frase acima, não imaginava que ela iria, também, virar uma unanimidade e, assim, tornar-se burra. É a mentalidade Revista Veja. Não importam muito os fatos, os dados, as questões que estão sendo debatidas. Se uma boa parte do povo acadêmico-artístico-de-esquerda apoiar, soy contra. Soy contra porque quero ter a opinião supostamente mais inteligente, soy contra porque a esquerda tá fora de moda, soy contra porque o Caetano é chato, soy contra porque não tenho saco de ver o Zé Celso pelado, soy contra porque soy contra, que saco! Votar NÃO não protege a sua vida nem a da sua família, pelo contrário. Votar NÃO não abala as bases do ESTADO rumo a um mundo mais livre. Votar NÃO não é a opção de quem "vê mais longe do que esses chatos da esquerda". Votar não é garantir que o Brasil continue a ser o país em que mais gente morre assassinada por armas de fogo em todo o mundo (UNESCO). Votar SIM nos tira desse caminho? Há muitas razões para se acreditar que SIM. E nenhuma que garanta que NÃO. Boa sorte para nós todos. Antonio Prata é cronista do Blônicas - Sexta-feira da paixão
De Henrique Szklo Estou perdidamente apaixonado por duas mulheres ao mesmo tempo Às vezes tenho a nítida sensação de que se for verdade que a vida conspira a nosso favor, o que seria de mim se ela conspirasse contra. Cada coisa que me acontece que eu vou te falar. Minha última aventura é essa que está descrita no subtítulo do artigo. Não é ridículo? Como é que pode uma pessoa estar realmente apaixonada por duas pessoas ao mesmo tempo. É um contra-senso. A paixão pressupõe foco total e absoluto num outro indivíduo. Nada mais importa, nada mais faz sentido, nada mais se justifica. Portanto como é possível uma pessoa conseguir dividir o indivisível? O último que conseguiu isto criou a bomba atômica. Pois é, é o que está acontecendo comigo neste exato momento: dois lindos raios caíram no mesmo lugar ao mesmo tempo, ou seja, no meu coração. Estou eletrocutado de amor. Desculpe, mas não tenho como evitar uma certa babaquice típica dos apaixonados. Saiba que apesar disto resisti bravamente para não dar o título deste artigo de “Entre dois Amores”. Parece que consegui. Meu coração, que já não é muito avantajado, está dividido em dois. Uma se chama Meu Número e a outra é a Nora que Mamãe Pediu a Deus. Não são seu nomes verdadeiros. Além de querer preservar minha intimidade, uma delas tem um marido que anda por aí com a orelha toda amassada puxando um pitbull. Vamos simplificar e chamá-las apenas de Número e Mamãe. Não, acho melhor chamar esta de Deus. Quer dizer, vamos ficar com Nora e não se fala mais nisso. Fica até difícil pra mim, que sou muito honesto, conseguir dizer aquelas coisas que toda mulher gosta de ouvir. Na verdade quando eu me declaro para uma delas sou obrigado pela minha consciência a dizer coisas como “você é 50% pra mim”. “Estou meio apaixonado”, pois que “completamente” seria mentira. “Penso em você 12 horas por dia, ininterruptamente”. “Minha vida sem você perderia metade do sentido.” Em vez de dizer “fico meio bobo na sua presença” tenho de dizer “fico ¼ bobo...” e por aí vai. Acabei desistindo de me declarar às duas. Em ambos os casos, porém, nada ainda aconteceu. E talvez nem aconteça. Tanto com Número quanto com Nora estamos só naquela fase do flerte, do xaveco, do olhar prolongado e silencioso, da tentativa idiota de esconder os sentimentos, do platonismo. É uma fase gostosa mas muito desgastante. Tenho de ficar o tempo todo interpretando gestos, palavras e olhares. Tudo a meu favor, claro. É lógico que Número está a fim. Ela só me despreza totalmente para me provocar. Nora deu um tapa na minha cara porque me ama. Número estava lá aos beijos com aquele cara só para me fazer ciúme. Nora está planejando ter um filho com o marido porque não pode viver sem mim. Não é fácil ser tão desejado, mas até que eu administro isso bem. Os problemas operacionais, porém, são dos mais sérios. Tenho de gastar o dobro em presentes e jantares. Tenho de tomar o maior cuidado para não misturar os assuntos que converso com uma ou outra. Não posso confundir aniversário, nomes de parentes, tamanho do pé e das roupas. Resolvi facilitar as coisas e contar para as duas o que está acontecendo. Eu disse facilitar as coisas? O pior é que não dá para escolher. Ambas são lindas, inteligentes, gostosas, realmente maravilhosas, para casar, e têm qualidades que me atraem profundamente. Já tentei até buscar um outro tipo de ajuda. Consultar os oráculos para ver qual seria a melhor solução. Se depender da astrologia, minha afinidade é muito maior com a Número. Já o tarô acha que o meu negócio é a Nora. Um amigo meu acha que eu deveria tentar ficar com as duas ao mesmo tempo. Já o Max, meu cachorro, acha que eu deveria ficar sozinho. Aliás, o Max está muito estranho desde que contei para ele esse meu problema. Anda calado, chorando pelos cantos da casa, macambúzio, rabo entre as pernas. Acho que ele está com ciúmes. Fazer o que? Nunca prometi nada para ele. Se ele tinha alguma esperança foi fantasia da cabeça dele. O que o Max por ser cachorro não sabe também é que para se esquecer um amor, só com outro. Isto significa que eu vou ter de me apaixonar mais duas vezes se eu quiser esquecer as duas ao mesmo tempo. Parece uma missão impossível. Mulheres assim a gente não esquece por que quer. Aliás quanto mais a gente quiser esquecer, mais vai lembrar. É claro que tem as suas vantagens. Eu tenho o dobro de chances que uma pessoa normal tem de ser feliz e encontrar a sua companheira. Todo mundo passa vida procurando sua metade e eu encontrei duas. Dificilmente eu vou levar um pé na bunda, no máximo em uma banda de cada vez. Quando Número está de TPM a Nora está no auge da empolgação, e vice-versa. Quando uma me magoa, eu corro para os braços da outra. E quando as duas estão meio chatinhas eu vou passear com o Max. É perfeito. No fundo acho que não quero que dê certo com nenhuma delas mesmo. Com certeza a fantasia de tê-las é muito mais interessante que qualquer realidade. Detestaria ter de escolher e abrir mão de Número ou Nora. Parece até que elas já fazem parte de mim, são minha carne, meu sangue, minha alma, não sei mais viver sem elas e... que curioso, enquanto eu estou escrevendo estas linhas passou aqui na rua uma moça bem interessante, do jeitinho que eu gosto. Ela ainda me olhou de um jeito que me deu até frio na espinha, mexeu comigo. Espera um pouquinho que eu já volto... Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas, está inseguro, vulnerável, mas acredita que o amor é lindo. Leia seu site e o blog da mãe. - A caminhada aos domingos
De Leo Jaime. A humanidade é acometida, de tanto em tanto, por severas alucinações coletivas. Seja na forma de crenças - e me recordo de alguém que dizia que a fé era a crença ilógica na ocorrência do improvável -, de comportamentos ou de simples e genuínas neuroses. Por exemplo: de uns tempos para cá todo mundo resolveu que caminhar é uma coisa fundamental. E não é um caminhar qualquer, tem que ser na beira da praia e aos domingos. Ou no Ibirapuera e equivalentes. Leo Jaime escreve todas as quintas no Blônicas. - Somos todos inocentes
De Rosana Hermann. O problema de tentar compreender todos os fatos em profundidade é que em última instância, somos todos inocentes. Todos, sem exceção. Pegue um exemplo recente, do estudante de jornalismo que assassinou o colega dentro da rádio USP. Ele premeditou o crime, levou a faca, golpeou o jovem, que veio a falecer. Mas o assassino tem problemas mentais. Estava em tratamento e tinha suspendido a medicação voluntariamente. E fez isto durante um surto. Como todos sabemos, problemas mentais tornam as pessoas inimputáveis. Não se pode imputar culpa a um doente mental. E, partindo-se do princípio que todo mundo que mata alguém é definitivamente louco, ninguém seria culpado. E não falo só de crimes fatais, de assassinatos, de homicídios dolosos. Todo mundo tem um motivo, todo mundo tem uma explicação, todo mundo faz coisas erradas em momentos de descontrole. E, convenhamos, ninguém tem culpa de se descontrolar. Sim, porque, a loucura, o descontrole, as manias, as obsessões, são todas doenças involuntárias. Ninguém escolhe ser doente, ser maluco. O assassino também é vítima da própria doença. O mesmo acontece com os viciados. O viciado já nasce com uma pré-disposição ao vício. É uma vítima também. E enquanto muitos podem beber sem tornarem-se alcoólatras, a pessoa que nasce com esta tendência precisa ficar se policiando para não virar um dependente. A pessoa não tem culpa. Não é ironia, é fato. Boa parte do que somos já vem na carga genética, como a tendência à obesidade. Não tenho culpa de engordar facilmente, já veio no meu DNA. Ninguém tem culpa de ser o que é, ninguém tem culpa do que lhe acontece. Até mesmo um idiota que pega um automóvel para tirar um racha e atropela um inocente, pode ser visto como um inocente. Ele nasceu idiota, tem um parafuso a menos na cabeça. Senão, não sairia por aí tirando racha com um carro, uma coisa sem sentido. Eu também acho isso assustador e muito imbecil. Mas veja, eu não tenho culpa. Hoje é quarta-feira, é dia de blônica pra mim e eu só consegui pensar neste assunto. Eu poderia ter pensado em outra coisa, mas não tenho culpa, não consegui, estou com TPM, minha cabeça não está funcionando bem, é horário de verão e eu não durmo direito desde domingo. O Botter, o zelador do Blônicas também é inocente. Ele não tem culpa de eu estar aqui, foi idéia do Carneiro, que também não é culpado. Carneiro é meu amigo, é um sujeito bacana e talentoso, nasceu assim. E apesar de toda a nossa inocência, de toda nossa falta de culpa, vou me render às evidências deste texto tão estranho e pedir, com todo o coração, desculpas. Rosana Hermann escreve aqui às quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. - A saga dos mistérios - Parte III
De Nelson Botter. NA CORRERIA Por que quando perguntamos para uma pessoa como ela está, a resposta é sempre aquela: "Tô na correria". Eu fico me questionando se essa resposta padrão é dada porque virou moda ou se as pessoas vivem correndo, batendo recordes da maratona. Talvez elas tenham voltado do parque naquele momento, mas não, depois me lembro que estavam trabalhando... Hmmm, talvez esteja aí a explicação... Trabalhar estressa e enche o saco. Até quem trabalha com o que gosta (uns 400 em 6 bilhões de pessoas) acaba desse jeito. O trabalho diário provoca altos piques, tanto para sua mesa quanto para a do chefe, fazendo escalas na caixa de e-mail, telefone e um ou outro colega que tem piada nova para contar, mas que você nunca consegue escutar até o final porque tem sempre outra pessoa de nível hierárquico maior que te chama antes da anedota terminar, causando um certo sentimento de frustração na pessoa que estava contando, "aquele idiota nunca me dá atenção", criando assim um ambiente de trabalho não muito favorável e harmonioso para você, que contribui diretamente para que quando o relógio marque 18 horas você saia correndo de lá, apesar de que você já estava na correria... ufa, cansei. Pois é, depois por causa dessa correria toda, ainda tem quem pegue a hora do rush (mais correria, só que em inglês). Mas além disso, precisa passar no supermercado, pois o papel higiênico de casa acabou, depois pegar o filho na casa da mãe, afinal com a correria do dia-a-dia fica impossível pegar o filho na escola. Mais do que isso, precisa voar para fazer o jantar e aí você descobre que já está muito tarde para correr na esteira, mas na verdade você nem precisaria, pois já está na correria o dia todo. E por aí vai, até o dia seguinte, quando você acorda atrasado (na hora do sono não há correria) e tem que sair correndo, mesmo sem vestir tênis, camiseta e shorts. Pensando bem, agora entendo o motivo das pessoas sempre trocarem o "está tudo bem" pelo "estou numa correria danada". E entendo mais ainda que esse estilo de vida é algo meio que obrigatório nos dias de hoje, o que faz com que todo mundo diga que está na correria, mesmo não estando, pois senão vai ficar "out", deslocado, com fama de quem não faz nada, um baita desocupado. Estar na correria é a última moda, de Paris a Nova Iorque. Quem não está na correria se sente inferiorizado a ponto de correr para a livraria e comprar livros de auto-ajuda sobre qualidade de vida e uma rotina menos estressante, pois poderá parecer aos outros (começando pela menina do caixa) que está na correria. Comenta com os vizinhos sobre os capítulos do livro, dá conselhos aos amigos, fala para os colegas de trabalho que as dicas do capítulo 11 tem dado resultado lá na sua casa, passeia com o livro no metrô para que todos vejam o título em letras envernizadas, enfim, vive na correria para mostrar o livro a todos e diminuir a culpa de ser mais tranqüilo, ter mais tempo para fazer o que quer, o que acha importante, o que lhe dá prazer, mesmo que seja o ócio criativo ou o ócio da oficina do diabo. Qualquer coisa, menos não estar na correria, valha-me meu Jesus Cristinho! Portanto, meus queridos, está aí mais um mistério a ser desvendado: a correria. Nem todos estão nela, talvez ninguém esteja, pois um pouco de administração do tempo já resolve o problema de muita gente, mas todos fazem questão de dizer que estão. E ficamos por aqui, pois é claro que eu e você estamos na correria e não podemos perder mais tempo com este texto. Nelson Botter escreve aqui todas as terças em que dá tempo. - "V" de vingança, "V" de vestido
De Xico Sá. Tomara-que-caia, tubinhos, pretinhos básicos, com e sem alça, os brejeiros de chita. Xico Sá escreve no Blônicas todas as segundas-feiras. - Chega
Milly Lacombe.
Você diz que acabou e me pergunta se vou sentir sua falta. Eu digo que vou sentir falta desse curto espaço de tempo durante o qual pude provar seu gosto, seus cheiros, seus sentidos. Mas eu minto. Porque vou sentir falta mesmo de tudo o que não seremos. Saudade do que jamais viveremos juntas, das coisas que jamais experimentaremos. Saudade de nunca ter ido com você ao supermercado, de nunca ter brigado pelo sabor do sorvete, pela marca da pasta de dente, pelo rótulo do vinho. Saudade de nunca ter lido com você ao meu lado na cama, de nunca ter escolhido com você o filme que iríamos ver, ou restaurante no qual jantaríamos e beberíamos depois. Saudade de nunca ter sentado com você no sofá da sala para conversar sobre a viagem de fim de ano, de nunca ter acordado do seu lado num sábado de manhã, levantado para tomar café na cozinha, e voltado para cama. Saudade de não ter a chance de ler o jornal de domingo com você e de depois sair para correr no parque. Saudade de nunca ter decorado com você a nossa casa, de nunca ter brigado com você por ciúmes, de nunca ter feito as pazes apaixonadamente na cama, de nunca ter comemorado nosso aniversário. Saudade de nunca ter voltado para casa e encontrado você me esperando na sala, de nunca ter visto você chorar, de nunca ter tido a oportunidade de entender porque você gosta de Basquiat. Saudade de não ver você envelhecer, de não saber como seriam nossos filhos, de nunca ter conhecido sua família ou as pessoas que marcaram sua vida. Saudade de nunca ter mexido no seu rosto em público, de nunca ter beijado sua boca em público, de nunca ter tocado seu cabelo em público. Saudade de nunca ter ouvido você dizer que me ama; de não poder ser quem você gostaria que eu fosse. Mas, principalmente, saudade de nunca ter olhado dentro dos seus olhos naquela noite que você gozou. Porque teria sido nessa hora, no momento em que meus dedos e sentidos fariam o abençoado trabalho de conduzir você, doce e apaixonadamente, ao melhor lugar do mundo, que eu poderia ver muito de perto - a ponto de poder tocar se quisesse - sua alma. E assim, quem sabe, me seria dada a preciosa chance de reescrever nossa história – talvez uma das mais belas histórias de amor jamais escritas - e agora para sempre interrompida. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - Novas profissões de futuro
De Castelo
O mercado de trabalho está, a cada dia que passa, mais carente de profissionais diferenciados. As carreiras tradicionais, como médico, advogado, engenheiro e cafetão não conseguem mais preencher as necessidades das empresas, cada vez mais especializadas. É por isso que algumas profissões, nascidas muito recentemente, vêm obtendo índices altíssimos de contratação. É o caso do pedreiro trilíngüe. Este profissional pode, ao mesmo tempo que levanta uma parede, traduzir um texto em inglês, atender o telefonema de um espanhol e ditar uma carta em japonês. Tudo isso ganhando um salário-mínimo sem direito a tíquete-refeição. Outra carreira muito procurada hoje pelos head-hunters é o diretor-financeiro-segurança. Esse executivo deve ter sólida formação em Economia, ter MBA no exterior e, além disso, saber manejar armas pesadas, rádios walkie-talkie e ter habilidade no preenchimento e distribuição de crachás. A vantagem do diretor-financeiro-segurança é que ele pode usar a agressividade policial na hora de negociar com os fornecedores e ganhar o mesmo que um PM aposentado... Ao lado da secretária-psiquiatra e do ascensorista-contador, o cargo dediretor-presidente-gari é ainda, de longe, o mais requisitado pelas grandes multinacionais. Muitos executivos de alto escalão têm feito estágio como catadores de papel para poder pleitear a vaga. As novas exigências da alta gestão, como manter o Caixa 2, demitir levas de empregados e corromper políticos, provaram que um presidente não é completo se não souber meter a mão na sujeira com classe e sem manifestar nojo ou ânsia de vômito. Para finalizar, não podemos esquecer da nova carreira que está se transformando no grande filão da temporada. É a função de temporário-palhaço, também chamado de terceirizado-arrelia. Ele costuma ser contratado ganhando menos que os outros e, na primeira oportunidade ou queda da Bolsa, o que acontecer primeiro, é demitido sem justa causa. Para se dar bem, é necessário saber contar piadas, dar cambalhotas e ter muito, mas muito bom humor. Em compensação, tem direito a 30 passes de metrô por mês. Castelo escreve aqui todos os sábados. - A boa guerrinha
De Henrique Szklo Quem é contra a guerra do Iraque ou é ruim da cabeça ou não ama o Brasil de verdade. Basta ter um mínimo de bom senso para perceber que um conflito generalizado será a solução de todos os problemas brasileiros e só nos trará alegria e júbilo. Veja bem: os Estados Unidos, que recentemente sofreram uma derrota em casa e desde a segunda guerra não ganham uminha sequer na casa do adversário, tentam quebrar este tabu invadindo o Iraque. A França e a Alemanha, que se mordem de ciúmes pela liderança yankee vão acabar mudando de lado, enviando tropas invejosas para defender o ex-país dos bigodudos de roupa verde. Tony Blair, o Rubinho do Bush Schumacher, intervém com violência, relembrando os bons tempos de colonização sanguinolenta. A Rússia, que já foi o símbolo máximo da esquerda e hoje não passa de uma zero a esquerda, mete o bedelho onde não foi chamada e para não ficar mal com ninguém envia metade de suas tropas para um lado, metade para o outro. A versão norte-coreana do Don King resolve dar vazão à sua vocação belicista. A China, que não sabe mais onde pôr tanta gente, resolve entrar no conflito só para ver se consegue algumas baixas expressivas. A partir daí toda a Europa começa a se estapear, a Ásia tem chiliques e a Oceania envia seus cangurus-bomba para o front. Não vai demorar e todo mundo que tiver a sua bombinha atômica guardada na garagem irá arremessá-la nos cornos de seu maior inimigo, que via de regra é o vizinho de porta. Isso irá deflagrar um festival pirotécnico de ogivas nucleares e em poucos segundos o mundo civilizado (sic) não mais existirá. Você por acaso ouviu eu dizer o nome do Brasil? Claro que não. Um país privilegiado, terra abençoada, com praias, montanhas, florestas, clima tropical, cenário paradisíaco, palmeiras onde canta o sabiá, que não tem terremotos, não tem vulcões, não tem guerras e não tem importância nenhuma no cenário internacional. Não tem agora, mas graças a Deus e seu procurador legal George Bush, ele terá, e muita. O Brasil irá, em poucos segundos, saltar da condição de país miserável de terceiro mundo direto para o topo, sem escalas. Um país miserável de primeiro mundo será a maior e mais influente potência internacional. Pense bem: de uma hora para outra não vamos mais dever nada para ninguém já que nossos credores estarão divididos em milhões de pedacinhos radioativos. As dívidas em dólar serão todas perdoadas, até porque o dólar nem vai mais existir. E a Libra e o Euro idem. Então qual será a moeda mundial? É o real, oba! É o real, oba! Assim, a atividade econômica internacional só deslanchará depois do carnaval e os investidores serão muito suscetíveis aos rumos tomados pela novela das oito. Nosso alto astral e alegria de viver irão tomar conta do mundo inteiro, ou o que restar dele, e todos terão de se curvar à nossa conhecida boa índole, por bem ou por mal. A alma brasileira finalmente poderá se libertar dos grilhões que a oprimem e soltar o seu grito de liberdade: “Eu sou foda!”. Poderemos olhar para outros países com ar de superioridade e nojo. Imporemos nosso modelo de democracia a todos os países amigos, nem que para isso tenhamos de quebrar alguns pescoços fraternos. Nossa obrigação como império mundial será assumir o papel de polícia do planeta, uma truculenta e prepotente defensora do mundo livre. E como o mundo livre seremos nós mesmos, vai ficar tudo em casa. Nossa primeira atitude será encontrar um antagonista, alguém que seja nosso inimigo de plantão para manter o povo unido em épocas de crise. Alguém aí falou em Argentina? Pois é, se preciso for, nossa pátria, ultrajada, lançará mão do uso da força para que aqueles cabeludos mal-educados parem de nos chamar de “macaquitos” e desistam desta história estapafúrdia de que o Maradona é melhor que o Pelé. E se alguém ousar dizer que a nossa capital é Buenos Aires, faremos com que engula suas palavras levianas enviando toda a nossa poderosa esquadra de 15 aviões Mirage ano 65, modelo 66, segundo dono, desferindo um ataque fulminante e sem piedade. Além disso impingiremos rigorosos bloqueios comerciais que os impedirão de comprar pedras brasileiras, caipirinha em lata ou, pior, miniaturas do cristo redentor em pedra-sabão. Uma lição que eles jamais esquecerão. O American Way of Life será substituído pelo exuberante Brazilian Little Way. Apesar de o português se transformar na língua mundial não haverá como negar que além de o inglês ser muito mais sonoro e prático, não é de um dia para o outro que a gente vai abrir mão da nossa cultura, conquistada com tanto suor após anos e anos de Yásigi. Falando nisso, passaremos como um rolo compressor sobre as pobres e frágeis culturas alheias com nossas novelas, livros, filmes, reality shows, pagodes, loiras bundudas, pegadinhas fajutas, programas mundo cão, merchandising deslavado, descarregos em programas evangélicos, violência gratuita e cenas de sexo em horário infantil. Seremos também exemplo de desenvolvimento, organização, política, economia, tecnologia e, é claro, futebol. Ai de quem fizer um golzinho sequer na seleção canarinho. Mas como os países africanos vivem botando as manguinhas de fora, ganhando vários campeonatos, empresários brasileiros começarão a pressionar o governo a intervir nesta delicada situação diplomática e acabar com a festa destes abusados. Sem poder assumir a real motivação do conflito, o presidente Lula I anunciará ao mundo que lutaremos com todas as nossas forças para eliminar o “eixo do mar”: Guiné Equatorial, Gabão e Tanzânia. Que eles acabem com este negócio de ficar tocando batuque até altas horas da noite ou sentirão o peso da mão brasileira. Que antes desta história toda, por sinal, era bem leve. E é claro que a nossa pacífica superioridade despertará a ira de países frustrados e mal-comidos. Não vai demorar e terroristas treinados nas Ilhas Malvinas tentarão destruir o maior símbolo do poder e da pujança brasileira, jogando um avião na Daniela Cicarelli, mas seu plano falhará já que usarão um avião de uma conhecida empresa brasileira, que certamente irá cair antes de os terroristas se darem conta do problema de falta de manutenção ou de excesso de horas de trabalho dos pilotos. Todo mundo vai querer estudar no Brasil, que será um sentro de ecelênssia educaçionau, a Amazônia finalmente será nossa, todos os papas serão brasileiros, ganharemos todas as olimpíadas, comeremos todas as mulheres, todo mundo vai conhecer o nosso hino nacional, ou no mínimo o do Corintians, e o mais importante de tudo, finalmente teremos a nossa própria e tão sonhada bomba atômica, se Deus quiser. Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e adora jogar War. Leia seu site e o blog da mãe. - O mundo é dos chatos
De Leo Jaime. Leo Jaime é cronista do Blônicas. - Sim: o que significa?
De Paulo Castro. O ato governamental populista é aquele caracterizado por uma aparência de cunho social. O povo acha que está sendo ouvido, que está fazendo parte do jogo, que é essencial para o avanço democrático. Apenas acha. É enganado. Paulo Castro é cronista do Blônicas. - Manifesto pela cozinha punk
De Xico Sá. Pela cozinha punk. Três acordes: arroz, feijão e bife. Xico Sá escreve no Blônicas todas as segundas-feiras. Armas, pra que te quero
De Castelo.
Antes de começar, já vou avisando: sou a favor da proibição de armas de fogo e munição no Brasil. Não tenho argumentos pra fazer ninguém mudar de lado. Mas se a revista Veja foi contra, sou a favor. E ponto. No entanto, admito: há um aspecto negativo na proibição. Se a moda pegar no mundo inteiro, no futuro, certos tipos de literatura e filmes vão perder muito do seu charme atual. A coisa já andava sensaborona com o “politicamente correto”, imagine somado a isso a proibição internacional aos armamentos. Duvida? “O detetive Smith Nero estava sentado havia horas em sua mesa de trabalho num prédio tosco do centro da cidade. A clientela não o procurava havia semanas. Nesse meio tempo, Nero desenvolvia alguns de seus hábitos favoritos. Fazer palavras cruzadas “Série Difícil” do jornal The Chicago Chronicle, sair para beber no bar do Tony talagadas de Toddy frio e enfiar compulsivamente na boca, um atrás do outro, cigarrinhos de chocolate. Foi quando o piso de madeira frouxa do gabinete estremeceu e adentrou pela porta uma estonteante dama de negro, acompanhada de um prejudicado vertical. Smith Nero fez sua tradicional expressão de bonomia, típica de quando recepcionava novos clientes e ofereceu o sofá. O estranho casal não emitia um som. Pareciam, em verdade, dois prejudicados vocais. O acompanhante da dama tirou do bolso um pirulito de framboesa. Deu uma longa e nervosa chupada nele. Quando ela ameaçou esboçar uma fala, Smith Nero percebeu um movimento estranho do homenzinho. Ele jogara o pirulito recém-chupado no cinzeiro e levara a mão trêmula à algibeira do paletó. Foi quando a luz vinda das persianas delatou a realidade. O prejudicado vertical estava sacando um revolverzinho de espoleta e o apontando perigosamente na direção do detetive. Nero foi mais rápido. Puxou da gaveta sua metralhadora de água, carregada até a boca e aplicou um jato no pequeno malfeitor, que caiu molhado feito um filhote de pato no chão”. E nos novos faroestes então? “Joe Montana agora tinha certeza de que estava com o vaqueiro Billy Blind Boy nas mãos. A vingança pela prisão de metade de seu bando, denunciado por Billy ao temível xerife Floyd Stew, aconteceria ali mesmo naquele desfiladeiro. Antes da execução sumária, Joe Montana abriu o cantil e jogou o pó de fibra agar-agar na água (a dieta do Texas, baseada em charque e chilli, estava deixando seu sensível intestino totalmente preso). Bebeu o conteúdo do cantil, pingou quatro gotas do floral na língua (agrimony e chestnut, para os momentos de decisão) e foi em direção à vítima. Vendo Billy Boy amarrado numa árvore, Montana pegou seu “Conjunto Cowboy Guardião do Saloon”, da Mattel Toys. Com o chicotinho de plástico, deu vários safanões na bunda do inimigo e saiu em direção a River Pecos”. Sem dúvida, a arte sempre imitou a vida. Mas, depois do politicamente correto e do desarmamento, a imitação deixará pra sempre de ser matadora. Castelo escreve no Blônicas aos sábados. - Sócio bom é sócio morto
De Henrique Szklo Quem nunca quis matar o sócio que atire a primeira duplicata. Dizem que ter um sócio é uma experiência, no mínimo, complicada. Não vejo assim. Costumo enxergar sempre o lado bom das coisas, a parte positiva, as lições que se possa extrair até das tragédias, como, por exemplo, ter sócios. Pra começar, trata-se de uma excelente maneira de fortalecer o caráter e forjar uma personalidade equilibrada. Quem agüenta um sócio é capaz de enfrentar qualquer desafio. Uma espécie de “No limite” onde, ao invés de comer minhocas e olhos de cabra, engole-se sapos. Conseguir manter uma sociedade sem estrangular o sócio, picá-lo em pedacinhos e oferecê-lo aos cachorros é a prova definitiva de que você está preparado para a vida. Dizem também que sociedade parece com casamento, já que começa em festa e acaba em baixaria. No matrimônio você trata o outro mal, xinga, grita, bate a porta na cara, ofende, faz o diabo, mas pelo menos tem sexo no final. Ou no começo. Até no meio, não importa. Já na sociedade você trata o outro mal, xinga, grita, bate a porta na cara, ofende e faz o diabo. Não tem sexo, mas em compensação tem muita sacanagem. Antes, durante e depois. Mas admito: sócio é um bicho complicado, incontrolável, com idéias próprias (inevitavelmente diferentes das nossas), implicante, dono da verdade, um chato de galochas que sempre acha que trabalha mais que a gente, o que é um flagrante absurdo, já que é óbvio que é a gente que trabalha mais que ele. Nem se compara. Quando o assunto é dinheiro, então, a sociedade passa por seus momentos mais espinhosos. Cada uma das partes sempre se acha lesada e acredita que merece um quinhão maior nos lucros. Sua empresa, por exemplo, anda pouco lucrativa? Tem certeza? É o que seu sócio diz ou você viu com os próprios olhos? É bom dar uma checada, só pra garantir. Acho sensato, inclusive, que você dê um jeitinho de ficar com uma parte maior, sem que ele fique sabendo, claro. Não há nada de errado nisso. Você estará apenas fazendo justiça. Aquele cretino merece ser passado para trás. Uma vez fui a uma festa para comemorar a nova composição societária de uma produtora. De cinco sócios passava para três. Comentei com um dos remanescentes que se a festa era boa daquele jeito por ele ter se libertado de dois sócios, imagine o carnaval que vai ser quando ele se livrar dos outros dois. Seus olhinhos brilharam. O sócio ganha em importância na falência. Além de contar com alguém para compartilhar as dívidas, você saberá imediatamente quem é o culpado por estar nesta situação ridícula. E se a falência for fraudulenta, então, você poderá de bom grado colaborar com a justiça, delatando o criminoso responsável por toda essa sujeira. Contrair sociedade é bom, mas há limites. Imagine se Deus, por exemplo, para criar o mundo tivesse arrumado um sócio. Um iria querer o mundo redondo e o outro em forma de donuts. A um apeteceria fazer tudo em seis dias e descansar no sétimo e o outro preferiria fazer em um dia e descansar nos outros seis. Um desejaria criar o homem à sua imagem e semelhança e o outro ambicionaria que ele tivesse a cara da sua mãe. Quando mandassem um representante aqui pra baixo não poderia ser filho de nenhum dos dois, para não melindrar. Sabe como são os sócios. Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e procura um sócio capítalista. Leia seu site e o blog da mãe. - Cabelos lisos 2
De Leo Jaime. A verdadeira loura é falsa. Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. - Uma idéia me teve
De Rosana Hermann. Idéias não são privilégios de ninguém, não há requisitos de cultura, conhecimento ou formação, é um acontecimento fisiológico que envolve as incontáveis sinapses cerebrais de todo ser humano. Há quem tenha idéias diariamente, como parte de suas atividades profissionais, enquanto outros as têm esporadicamente, por conta de um insight. Há pessoas que só tiveram uma idéia na vida e muitas se deram bem, porque colocaram toda sua energia nesta criatura única. Fato é que todo mundo tem idéias. É um mercado difícil. 1.Ninguém vai se entusiasmar tanto por sua idéia como você. Exponha-a com alegria, mas não culpe o outro por não partilhar da sua excitação. Excitação demais não gera movimento, apenas dissipa energia. 2.Não tente convencer o mundo que você está grávido da coisa mais genial que a humanidade já viu. A humanidade é antiga, você é que está chegando agora. 3.Assim como potência não é nada sem controle, idéia não é nada sem poder. Ou você conquista o poder ou conquista quem o tem. Mas lembre, quem já tem o poder também tem suas próprias idéias. 4.Uma idéia não é boa ou ruim ela é adequada ou inadequada. Toda idéia só faz sentido em um contexto. Em um contexto ela pode ser original e no outro, ridiculamente óbvia. 5.Não tenha medo de jogar uma idéia fora. Idéias são recicláveis. Se ela tiver potencial de existência, ela voltará. Abandonar um projeto pode ser uma ótima idéia também. Também não economize idéias. Praticar idéias é como cavar um buraco. Quanto mais você tira maior ele fica. 6.A pior pessoa para você vender uma idéia é para alguém que vive de criar idéias. Você pode vender seu pão para quem tem fome, mas qual o sentido de querer vender o seu pão caseiro para o padeiro profissional? De onde você tirou essa idéia? 7.Sobre contar ou não contar sua idéia para alguém, a resposta está nesta pergunta: o que você quer? Que a idéia aconteça ou que as pessoas saibam que você teve a idéia? A diferença entre uma idéia que vai e não vai existir está entre a vaidade pessoal e o mercado profissional. 8.Idéias são roubadas o tempo todo, de formas legais e ilegais. Porque as pessoas são antenas e as idéias viajam em ondas pelo ar. Capta quem pode. Sua idéia pode migrar para outra cabeça. Sua idéia pode ter vindo de outra cabeça. A única idéia que ninguém pode roubar é aquela que só você é capaz de fazer. 9.Só existem dois tipos de pessoas que vão apoiar sua idéia genial: as que realmente gostam de você e as que tem interesse nela. Os outros todos serão contra. Do ganhador único da loteria a gente só sente uma coisa. Especialmente se você jogou também. 10.Idéia boa é aquela que melhora o mundo. Porque melhorar o mundo é sempre, uma ótima idéia. Obrigada pela atenção e perdoe o longo texto. Contrariando meus próprios conselhos, me deixei levar pelo entusiasmo do tema. Não foi por mal. É só que eu não tinha idéia de que fosse ficar tão grande. Rosana Hermann escreve aqui às quartas, com uma crônica de quinta, até segunda ordem. - O poder da propaganda
De Nelson Botter. - Você pode repetir? - perguntou Anselmo para sua esposa. Nelson Botter é cronista do Blônicas todas as terças-feiras. - Enroladores
De Milly Lacombe.
Somos todos uns enroladores, vivendo sob o manto sagrado da cultura da enrolação. O esporte nacional não é o futebol, mas sim essa mania de dissimular, de deixar para depois, de não falar claramente o que se pensa, de não ter que carregar o pesado fardo da opinião. Existem provas verbais do fenômeno. Por exemplo, a expressão "a princípio". Usada a fartar, ela não quer dizer absolutamente nada. Vejamos. Sobre a cassação de deputados ligados ao mensalão. Perguntam ao ex presidente da Câmara dos Deputados se ele acha que todos, sem exceção, devem ser cassados. "A princípio, sim". E, com o uso da inócua expressão, ele já tem o direito de, no dia seguinte, responder categoricamente "não" à mesma pergunta. Trata-se na verdade de um grande limbo verbal que dá chances para que o usuário continue o eterno jogo da enrolação e tenha a oportunidade de sair pela vida agradando a todos os lados, sem a necessidade de ter opiniões concretas. Seria bom se começassemos a ter mais opinião, e a revelá-las com mais ênfase e segurança. Aliás, não há nada de torto em se ter uma opinião. Muito menos em mudar de opinião. O grande mal desta República talvez seja justamente a falta delas. Da mesma forma, não existe a opinião certa e a errada. Existem apenas opiniões. Paulo Francis, sempre que era confrontado por algumas de suas polêmicas idéias, respondia ao confrontador: "Calma, essa é apenas a minha opinião". O único inconveniente em se posicionar é que, a partir de momento que você toma partido, está automaticamente desagradando a um determinado grupo. E como convivemos pessimamente com a rejeição - e no caso de políticos com a perda de votos e, consequentemente, com a maravilhosa oportunidade de desviar dinheiro público - fica mais confortável popularizar expressões como "a princípio": "A princípio, sou contra o desarmanento", dizem alguns. Mas então ele é contra ou a favor? Ninguém sabe. Aliás, alguém sabe dizer se nosso genial presidente é contra ou a favor do aborto? Da união civil de pessoas do mesmo sexo? Das ridículas taxas de juros praticadas pelo Banco Central? Eu não tenho a menor idéia sobre o Lulla pensa a respeito dessas questões. Mas aqui um atenuante: não se sabe ainda se ele pensa. Portanto, nesse caso, é injusto exigir opinião. Mas voltemos à questão central. Em prosa, outra prova da enrolação como esporte nacional: "Depois a gente vê". Como quando você pergunta ao amigo arquiteto: "Quanto vai me custar essa reforma?". "Ah, não se preocupe, isso depois a gente vê". De três, uma. Ou a conta vai ser estratosférica, ou essa reforma jamais sairá do papel, ou a amizade está muito perto do fim. Por que não falar logo de uma vez quanto a reforma vai custar? Seria bastante proveitoso se começassemos a nos posicionar mais a respeito de tudo, a entender que sempre haverá opiniões contrárias, e que não há nada de errado com isso. Dessa forma, a princípio, viveríamos em um mundo menos hipócrita. Agora, quando começar a praticar? Isso depois a gente vê. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - Viagens idiotas: Lençóis Maranhenses
De Castelo.
Meu sonho era fazer viagens à la Maurício Kubrusly. Aquele trota-mundos global vai pra Santa Rita do Grelo Adentro e encontra uma ex-mulher rendeira que faz um camarão flambado no Calvados. O marido da dita-cuja é ex-barman do Oyster Bar e lhe prepara uma “incrível”– ele adora essa palavra – batida de cupuaçu na vodca russa. E mais: os filhos do casal, mesmo vivendo naquela praia deserta nordestina, criaram um artesanato raríssimo (vendido apenas no Mercado Comum Europeu ou na Daslu) e que está custando, no exato dia da estada, apenas 1 real a peça. Mas ainda chego ao patamar do colega. Já é um começo eu me recusar a viajar por essas agências-de-anúncio-de-página-dupla-de-jornal. Porque elas são as verdadeiras profissionais na arte de mediocrizar uma jornada. Recentemente estive nos Lençóis Maranhenses. E, no caminho pras dunas, acabei notando a aproximação de um Toyota de agência-de-anúncio-de-página-dupla-de-jornal. O carro ia para o mesmo local do meu jipe, mas apinhado de turistas. Detalhe: quase todos de Terceira Idade, caminhando pra Quarta. O que presenciei deveria ser interpelado por um tribunal de direitos humanos da ONU. Velhinhos de 75 anos pulando dentro do utilitário feito pipocas numa panela quente. Chamava a atenção porque o decrépito 4X4 passava nas enormes costelas-de-adão formadas no areião maranhense e ninguém fazia um “ô ô ô ô ô ô ô ô ô!” ou mesmo um “irrráááááááá!”. Os pobres anciãos não tinham mais energia pra gritar. O Toyota caia num buraco, o motor roncando feito um cavalo selvagem acuado e: - … O jipão corcoveava por cima de uma pequena montanha branca e: - … Durante o período de visita às famosas lagoas, caminhei por cerca de meia hora, encontrei uma lagoinha cristalina e lá fiquei me refrescando, dando uns tchibuns. Os colegas da agência-de-anúncio-de-página-dupla-de-jornal, com aquelas frasqueiras típicas, andavam, de lagoa em lagoa, feito formigas alienadas. Chegavam, fotografavam, enfiavam os pés na água e saiam buscando outro lugar pra se molhar. Comecei a pensar que os velhotes não voltariam mais à civilização. É sol e vento demais pra um cocoruto idoso. Mas olha só eles de novo, dias depois, no Centro Histórico de São Luís. A mesma correria. Chegando, fotografando um casarão e saindo logo pra fotografar o do lado. Todos lampeiros e saracoteando, pra lá e pra cá, com suas frasqueiras típicas. Definitivamente, a felicidade é um estado de espírito de porco. Castelo é cronista do Blônicas e escreve aqui todos os sábados. |