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A merda e a pirâmide social
De Rosana Hermann. A pirâmide social prova que o homem é mesmo uma múmia. Ricos equilibrados num minúsculo triângulo ao alto, a massa pobre sustentando a geometria da coisa e a classe média recheando a desigualdade, uma merda.
É possível transitar pelas fatias da pirâmide, mas as mudanças têm seus preços e obstáculos. Na pirâmide cultural o movimento é natural e o preço, acessível: qualquer informação adquirida nos tira da ignorância rumo à erudição, embora o caminho seja longo e sedentário. Já na pirâmide estética, a subida artificial é muito cara enquanto a descida é de graça, brinde da ação do tempo: por mais lindinha e fofa que seja a vovozinha, pelos padrões vigentes, ninguém fica mais bonito aos noventa e cinco do que aos vinte e cinco. E só D’us sabe o custo de um tratamento para reverter os efeitos do tempo. Por mais que as cirurgias sejam dolorosas e os tratamentos estéticos dispendiosos, a transição de maior custo, em todos os sentidos, é a social. Viver na miséria é injusto e indigno, não é preciso explicar e acabar com a pobreza tem sido um dos maiores desafios da raça humana. Ao mesmo tempo, perder status quo e empobrecer também é doloroso. O ser humano acostuma com a sonora redundância do bem-bom e sofre muito ao ver-se obrigado à voltar para uma vida de privações. O mais surpreedente porém, é descobrir que para subir na vida, ainda que licitamente, pode custar a própria vida. Recentemente, conversei um rapaz muito jovem, forte, bonito e talentoso, que estava bem vestido mas abatido, com o rosto todo inchado de visíveis pancadas. Ele explicou que foi a um clube noturno popular, num bairro de periferia e que foi atacado por uma horda de rapazes, que o espancaram. Motivo: ele estava usando boas roupas de griffe, do tênis ao boné, peças que ostentam suas cobiçadas etiquetas costuradas pelo lado de fora. Fiquei surpresa, porque o rapaz em questão até pouco tempo atrás, era office boy, menino simples que já morou em internatos, sem família, que ascendeu socialmente unicamente por seus méritos pessoais, como seu inigualável talento artístico, sua invejável sorte e seu admirável esforço. De uma forma romanceada, nosso herói voltava a seu próprio habitat natural, confirmando que o caminho mais curto da base para o todo da pirâmide é uma reta vertical. E por isso, apanhou pra valer. É triste, mas a melhor ilustração para esta história real é a velha piada sobre o inferno dividido por países, cada um lotado de caldeirões de merda em ebulição, onde os assistentes do demônio forçam as vítimas submersas com seus tridentes a voltarem para o fundo. Isso, em todos os países, exceto no inferno brasileiro, onde não há assistente ou tridente, pois neste país em particular, dizem, quando um tenta sair da merda, os que estão na merda o puxam de volta pra dentro. Natal em novembro
De Nelson Botter. Você, que está a ler o Blônicas neste exato momento, me responde rápido: existe frase mais manjada pra se falar em novembro do que "Nossa, já tá chegando o natal! Putz, acabou o ano!". Entonces, é nessas e outras que aposto um milhão como você já soltou a dita frase nas últimas semanas. Viu? Eu disse. OK, OK, o que isso tem a ver? Bem, essa introdução meio estranha nada mais é do que uma explicação do por que vou falar sobre o natal hoje, mesmo ainda faltando um mês para essa data. Sim, é um pouco de ansiedade também, admito. E o mais interessante é que estudo e aplico vários macetes para amenizar a ansiedade. Mas a ansiedade dos outros, pois a minha não sei o que acontece, nunca consigo controlar. Você até pode achar isso engraçado, pois bem, eu perco a carreira, mas não perco a piada. Eu nem era tão ansioso, mas de uns tempos pra cá a coisa começou a piorar, a ganhar níveis altos e incontroláveis, a ponto de já haver comprado alguns presentinhos de natal antes de entrarmos em dezembro. Você pode até achar isso normal, mas o fato é que sempre compro todos os presentes nas últimas 12 horas antes da festa. Agora você começa a perceber meu drama? Schopenhauer disse certa vez que "viver é sofrer". Filósofo safado esse (sim, Schopenhauer não é marca de cerveja alemã). Depois o Freud viu a bola quicando e pegou de primeira, chute na veia, afirmando (mais ou menos assim) que o sentido de nossa vida é aliviar o sofrimento de procurar alívio. Pegando carona nos geniais batutinhas, vejo que minha ansiedade - cada vez maior - nada mais é que a manifestação desse sofrimento. E o natal só faz tudo piorar! Agora, vejo que minha ansiedade anda se alimentando das decorações natalinas, é um verdadeiro complô contra mim. Lembro que antigamente as lojas, ruas, shoppings, enfim, todos os lugares começavam a se enfeitar com pinheirinhos, bolinhas, duendes, estrelas e o bom velhinho Noel no início de dezembro. Agora, ai ai ai, mal entra novembro e já está tudo coberto de neve. Um verdadeiro festival de inverno em tudo quanto é canto, como se precisássemos nos preparar psicologicamente para enfrentar o natal. Mas a festa é só daqui dois meses? E daí, já vamos esquentar os motores, vai que o povo esquece e resolve lembrar um dia antes, né? E foi assim que caí na armadilha, vejo aquilo tudo e acabo gastando dinheiro antes da hora, vivendo o natal por antecipação e deixando minha ansiedade mais agitada do que detector de mentiras em Brasília. Estranho, pois isso é um contraponto com a melancolia que toma conta da maioria das pessoas nessa época do ano. Esse papo de fraternidade e saudosismo cria uma certa letargia na galera, realmente o povo fica estranho. Inconsciente coletivo, que leva o pseudônimo de "espírito natalino". Não que isso seja ruim, muito pelo contrário, sinto que as pessoas ficam mais calmas e caridosas. Eu até sinto aquela coisa no peito, um suspiro diferente, me encanto com as luzes, me sinto realizado em ir até o Bank Boston da Paulista (pelo menos uma vez no ano, pois dinheiro que é bom, nada), etc e tal. Mas no fundo tudo é comércio, tudo é business, tudo é sobrevivência. No money, no game. O espírito natalino morre no dia 26 e vira cada um por si de novo. Basta ver que a próxima festa, reveillon, é uma grande putaria (no bom sentido, sempre). Se a cada momento de pseudo-união entre as pessoas ficasse sempre uma sementinha do quanto é bom respeitar o outro e ajudar, a coisa toda do natal valeria muito mais a pena. Não estou pregando o "seja bonzinho", é apenas uma constatação de que se viver é sofrer, é preciso amenizar esse sofrimento (principalmente minha ansiedade!), estender a mão com força e vontade, para depois receber a mão do outro também. Assim como o comércio do natal, ajudar e ser ajudado é uma questão de sobrevivência. Feliz natal e até semana que vem. Nelson Botter é cronista do Blônicas às terças-feiras. O cavaleiro da casa da ignorânça
De Xico Sá. Desde que soube da criação e dos bons frutos da Casa do Saber, centro de estudos chiques de São Paulo, já devidamente alcunhado de Daslusp, meu amigo Pereira, tosco no último, cotovelos gastos nos balcões de botequim, inimigo declarado do neo-iluminismo, danou-se, avalovarou-se, oxe. Quer porque quer abrir a sua Casa da Ignorança. Está na praça a colher subscrições de apoio ao seu projeto. Entornou a aguardente do destemor e da coragem, e agora não há mais como removê-lo de tal engenho e arte. É líquido e certo como tudo aquilo que ingere. Beauvoirs de butique “Mais encanadores e menos Sartres”, brada o entrevado, retomando uma antiga peleja desta Pátria de extremos,sempre entre o 8 ou 80. “Chega de Beauvoirs de butique”, provoca, bandeira das ignorâncias desfraldada. “Abaixo as peruas nietszcheanas, que gastam seus aforismos até com as oiças de vendedoras de shoppings”, abestalha-se, combatendo o que julga ser o seu bom combate. E mesmo que os amigos todos, esclarecidos, tentem ignorá-lo, ele segue, avante, montado no burro do desconhecimento, às quedas, embriagu ês de teimosia e de cachaça, triste figura, lá vai o nosso bom e risível cavaleiro. Como eliminar uma mulher “Fora os mauricinhos kantianos”, prega ainda o destemido Quixote de boteco, cujos moinhos são os ventiladores de teto. De todos os cursos da Casa do Saber, sempre na mira da sua espada chauvinista, um, em especial, o chamou para a briga: “Drama Grego - Formas Trágicas de Eliminar uma Mulher”. “Pera lá, comequié?”, soluçou, na sua crítica da pinga mineira de alambique pura. “Isso mesmo que ouviste!”, aquiesceu a moderninha civilizada, discípula do professor daquele curso, sr. Antonio Medina Rodrigues. “Ele analisa a maneira como os gregos encaravam a mulher e o feminino na antiguidade e como esses modelos trágicos deixaram marcas recorrentes na subjetividade do ocidente”, completou, lendo o catálogo do combatido estabelecimento. O cavaleiro da Casa da Ignorança perdeu de vez a paciência e, do alto do lombo do mal-entendido, esporou: “Comigo não tem essa viadagem de subjetividade recorrente, uma mulher é uma mulher é uma mulher,e nela não se bate nem com uma flor!” Bibliofobia & cultura de axila Não há mais como detê-lo, o quadrúpede que conduz o nosso cavaleiro partiu em desabalada carreira, sua Dulcinéia é uma belíssima loira burra, e o Sancho Pança é barnabé que entende de leis de incentivo à cultura. Quer se tornar um perfeito estúpido, como sugere o francesinho, aquele escriba oportunista que plagiou as idéias de Pereira, nosso anti-iluminista? Basta matricular-se na nova casa, que em apenas dez lições, sem mestre, você alcançará o intento. Temos também cursos por correspondências, nas áreas de bibliofobia e cultura de axilas. Oferecemos ainda o espetacular “Como fazer do seu chatérrimo marido adorniano um infalível e priápico lenhador dos trópicos”. E aguardem, ainda em lenta gestação, o extra-acadêmico que vai mudar a sua vida: “A queda que as mulheres têm pelos tolos”. Nesta terça, 29/11, das 19h à meia noite, Xico Sá lança seu “Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias”. Todos convidadíssimos: rua dr. Mello Alves 278, SP, na editora do Bispo. O mapa da mina aqui: www.editoradobispo.com.br Festas e títulos
De Milly Lacombe. Quando eu era adolescente era minha mãe me levava às festas. Festas que aconteciam normalmente na casa da Renatinha Gaudêncio ou da Dani Bittencourt. Meninas sortudas de pais modernos, que não ficavam por perto e não estavam muito preocupados com o que íamos aprontar. Além disso, as casas eram grandes, o ambiente escuro, a música alta. E eu, aos 13, só pensava em namorar, beber, dançar. Mas minha mãe, carcamana e muito atenta, via aquele como o cenário ideal para que a vida fácil e farrista corrompesse sua primogênita. Então, o que ela muito espertamente fazia era ficar de tocaia pela redondeza para ver se eu ia aprontar. E, por pelo menos meia dúzia de vezes, achou que seria uma boa idéia entrar festa a dentro e me arrancar dali. "Maria Emilia, aqui você não fica. Acabei de ver um menino fumando maconha. Vamos embora!". E lá ia eu, arrastada, de volta pra casa. Na segunda-feira tinha que passar horas explicando a amigos por que minha mãe não tinha me deixado ficar. Uma vergonha que me traumatizou por anos a fio. Mas havia um cenário ainda pior. Era quando a matriarca, não contente em me arrancar da festa, ligava para os pais da Daniela, minha melhor amiga, para recomendar que eles fizessem o mesmo. E sempre que eles caiam nessa, Daniela, minha companheira de peladas e de todas as horas, passava uma semana sem falar comigo. Como se a culpa por ter uma mãe maluca e intervencionista fosse minha. Não sei bem quando o fantasma de minha mãe finalmente deixou as festas que eu frequentava, mas em algum ponto de minha adolescência a matriarca resolveu sair do meu pé. Talvez quando a figura de Sergio, meu primeiro namorado, entrou em cena. Sergio era sedutor, engraçado, hábil. E usou todos esses recursos para conquistar a mulher certa: minha mãe. Foram dois anos de sossego em minha vida. Minha mãe, aliviada porque a filha mais velha, esquisita e que gostava de jogar futebol tinha encontrado um companheiro, parou de me perseguir. E Sergio e eu, abençoados com essa aura de confiabilidade materna, aprontávamos uma atrás da outra: sexo, drogas e rock’n roll, era essa minha vida com ele. Isso e, claro, idas ao Morumbi. Porque ele tinha esse grande defeito: era são-paulino. E como meu time era o Fluminense, que estava a 400 quilômetros de distância, e eu assistia até Desafio ao Galo aos domingos de manhã, não me importava em ir ao Morumbi torcer contra o tricolor dele. Juntos, nos divertíamos sem parar. Cinco anos mais velho do que eu, Sergio sabia das coisas da vida, e me ensinou muitas delas. Um companheirão; amigo e amante em doses exatas. Faz pouco tempo encontrei com ele na rua: o mesmo sorriso maroto, o mesmo jeito debochado. Soube que eu tinha virado gay e corintiana, e quase teve um treco. "Gay tá ótimo, mas corintiana, Milly, por favor!", foi o que me disse. E é essa a tônica. Sou muito mais discriminada por ser corintiana do que por ser gay, uma ironia. Mas hoje não está para muxoxos ou para reclamações engajadas . Porque é dia de decisão e, com um pouco de justiça, sairei do Morumbi, para tristeza de meu primeiro namorado, vitoriosa. E direto para alguma festa. Milly Lacombe escreve no Blônicas e no BlogGol. Testemunhais
De Castelo.
Certos testemunhais de sites de relaciomento me fascinam mais que um bloco inteiro de perguntas de Luciana Gimenez a um travesti recém-operado de fimose. A leitura deles começou a ser de tal maneira obssessiva pra mim que passei a imaginar testemunhais ideais. Como estes aqui: “Pitoco, saiba Pitoco, que um Pitoco só pode ser um Pitoco se não tivesse existido nenhum outro Pitoco. Pitoco é um só na superfície da Terra. Ai, Pitoco, eu não canso de repetir: Pitoco, Pitoco, Pitoco, eu te amo, Pitoco. E se, nessa vida, não existisse Pitoco, um Pitoco eu inventaria, viu, Rogério César?” “Cara sensível o Alaor. Escritor, poeta, delegado-responsável pelo setor de Disciplina e Ordem dos presídios de Espírito Santo, trata-se de um amigo pra todas as horas. Mas o que mais chama atenção no Alaor é o pioneirismo. Quando servimos no Segundo Pelotão de Infantaria Motorizada, ele deu o primeiro curso de manicure na selva já ministrado na Amazônia. Durante o dia a tropa desarmava minas, fazia exercício de tiro e, à noitinha, aprendia com ele a tirar cutícula, passar base e escolher o melhor tom de esmalte para as unhas dos recrutas. Bons tempos aqueles de caserna. Alaor, você não existe! Muita gente acha isso ótimo, eu sei, mas eu te adoro”. “Maria de Lourdes: eu guardei dentro de mim, todos esses anos, algo muito importante pra escrever bem aqui. É um espacinho pequeno pra dizer algo que - quase durante duas décadas de ansiedade, sofrimento, medo - eu trouxe calado em mim. Maria de Lourdes, eu mal consigo teclar o computador. Meu corpo treme, minh’alma está arrebatada, não há um pêlo de meu corpo que não esteja, neste momento singular, completamente eriçado, tamanho desejo de dizer a você, minha querida, que (EXCESSO DE CARACTERES, FAVOR REDIGITAR E DAR “ENTER”)". “O Tóti é o melhor professor da facul. Nunca vou esquecer o dia em que ele comparou Deus a um omelete de gorgonzola na aula de Metafísica II. Ou da aula em que transformou o “Montanha Mágica”, do Thomas Mann, numa equação matemática e resolveu o conflito final do livro elevando o personagem-central ao quadrado. Irado!". “Dora…você pra mim…olha…meu Deus é tão difícil te definir. Sei lá…às vezes me vem uma idéia…uma pálida noção…do que seria…a pessoa…Dora. Talvez…o que eu…pudesse…assim…dizer de você. Ah, seja o que Deus…quiser… Vou dizer…o que…acho numa frase…e pronto. Lá vai: Dora…você…é…a pessoa mais…reticente…do mundo…”. “Amaury: quer saber? Vai se foder que eu não sou veado”. CASTELO ama São Paulo e tem um site: www.castelorama.com.br - Se todo mundo fosse como eu
De Henrique Szklo Se todo mundo fosse como eu, a humanidade estaria perdida. É sério. Confesso aqui de público que sou desnecessário. Mais que isso, sou prejudicial à saúde da sociedade como um todo. A maçã podre que pode estragar todas as outras. Enfim, eu não presto. Foram anos de terapia para chegar à esta conclusão. Hoje sou uma pessoa assumida. O resto continua a mesma merda, mas pelo menos eu assumi minha verdadeira condição: aquele que pode destruir a sociedade moderna. Se todo mundo fosse como eu, o comércio, por exemplo, não teria se desenvolvido até o modelo atual. Nem de perto. As lojas não teriam hora pra abrir nem pra fechar, dependeria do sono dos funcionários, do seu humor, dos compromissos inadiáveis e de sua escassa vontade de trabalhar. Os produtos estariam sempre em falta, já que tudo ficaria pra última hora e quando a última hora chegasse daria a maior preguiça de fazer outro pedido. Cliente mal-educado seria expulso a pontapés do estabelecimento e os mais necessitados sairiam sem pagar. Controle do dinheiro? O que é isso? Se todo mundo fosse como eu, nada que exigisse disciplina daria certo. Por isso não existiria a polícia, o exército nem qualquer instituição que necessite de um mínimo de organização e cadeia de comando. Ninguém mandaria em ninguém, nem receberia ordens. As pessoas fariam tudo de última hora, sem o menor planejamento, sem ensaio, e jamais teriam um plano B. Tudo por causa da mania idiota de gostar de surpresas. Se todo mundo fosse como eu, o convívio social seria o maior problema do ser humano. Imagine seis bilhões de pessoas que detestassem conviver umas com as outras, situação agravada pelo mau-hálito crônico. Ninguém daria bom dia no elevador, não conversaria com o motorista de táxi, jamais falaria com estranhos, enfim, seis bilhões de ilhas dividiriam este pequeno planeta miserável. Além disso, todo mundo detestaria estudar, o que não seria um grande problema já que ninguém suportaria ser professor. As pessoas seriam educadas pela TV, pela empregada e pelo cachorro. Se todo mundo fosse como eu, provavelmente a raça humana ainda estaria nas cavernas, mas reclamando bastante de tudo. Os dentistas ficariam sem trabalho, e os mecânicos só atenderiam casos de emergência, já que a manutenção preventiva dos carros jamais seria realizada. Só existiriam pratos, copos e talheres descartáveis, pois todos teriam verdadeiro nojo de lavar a louça. Todo mundo teria uma penca de dívidas impagáveis, deixando os credores arrancando os cabelos por causa dos atrasos nos pagamentos ou da inadimplência pura e simples. Pensando bem, se todo mundo fosse como eu, ninguém teria cabelos. Enfim. O serviço de proteção ao crédito não teria lugar pra guardar tanto nome sujo e os laboratórios farmacêuticos fabricariam apenas anti-depressivos. Se todo mundo fosse como eu, as pessoas seriam radicais e teriam sempre certeza de suas crenças, mesmo que estas crenças fossem completamente modificadas de hora em hora. Ninguém se casaria e as casas seriam totalmente dominadas pela bagunça. Nada seria organizado e as faxineiras que tirassem nossas coisas do lugar seriam todas executadas em praças públicas. Se todo mundo fosse como eu, não existiria burocracia. Por isso as pessoas confiariam mais na palavra das outras, só para evitar a papelada. E, como conseqüência disto, esqueceriam o que foi combinado e as brigas chegariam a beira da selvageria. Além do mais, as pessoas não mentiriam umas às outras, o que causaria uma grande dificuldade de se fazer amizades ou mantê-las por longo tempo. Se todo mundo fosse como eu, a televisão seria o aparelho mais importante de todos. A pizza seria o alimento mais consumido e não existiriam academias de ginástica. Ninguém acreditaria em Deus, todo mundo torceria apenas pro Palmeiras, formaríamos um imenso bando de deprimidos e graças às queridas mães não haveria ninguém que não se considerasse a pessoa mais especial do mundo. Se todo mundo fosse como eu, os livros de auto-ajuda não teriam nenhum leitor, o mundo ficaria abarrotado de gente que gosta de ter idéias mas sem a menor vocação para realizá-las, os bancos teriam lucros muito mais estratosféricos (se é que isso é possível) com a cobrança de juros de seus correntistas relapsos. Em compensação, aqueles com portas giratórias seriam depredados ao menor sinal de travamento. As pessoas sempre teriam uma piadinha idiota pra fazer em qualquer situação. Os homens broxariam com uma freqüência assustadora e os egos seriam tão desenvolvidos que as pessoas teriam sempre torcicolo de tanto olhar pro próprio umbigo. Ainda bem que nem todo mundo é como eu. Senão a tecnologia não teria se desenvolvido tanto, não existiria computador e muito menos internet. Eu não estaria aqui e você também não. Puxa, ainda bem mesmo que tem muita gente que não se parece nada comigo. Assim eu posso continuar sendo como sou, continuar intoxicando o tecido social, mas usufruindo do resultado do trabalho daquelas pessoas que fazem todas essas coisas que eu detesto fazer. Que maravilha. Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e hoje estará no bate-papo do UOL às 18 horas. Leia seu site, o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. A importância de ser uma ameba
De Leo Jaime. O que é divertido? Quando e como somos felizes? A despeito daqueles momentos irrefutáveis em que a alegria ou o êxtase acontecem e podemos absorver e depreender tudo o que a experiência proporciona ou, mais simples, curtimos e ponto final, há aquilo que reconhecemos como sendo "o que todo mundo faz quando quer se divertir". O que nem sempre é divertido. Leo Jaime é cronista do Blônicas e escreve aqui toda quinta. Declaração pessoal dos direitos mundanos
De Rosana Hermann. Eu quero o direito de desligar o telefone sem responder ‘quem era’. Quero fazer cara feia pra quem peida dentro da minha faixa aérea. Quero pular os capítulos chatos dos livros que leio. Quero comer a casca da pizza que meu vizinho deixa no prato. Quero o direito de não ser boazinha, simpática, singela. Quero poder brincar de vaca amarela. Quero distância de todo mundo que é chato. Quero gargalhar e soluçar no cinema durante comédias e dramas, não necessariamente nesta ordem. Quero o direito de cantar as letras do Djavan, certas ou erradas, junto com o cantor, no show, na televisão, no rádio e até mesmo no karokê, esteja ou não na minha vez. Quero o direito soberano de impedir que me cutuquem para falar comigo. Nenhum ser humano pode ser invadido em suas fronteiras físicas, psíquicas ou espirituais sem consentimento prévio e sem acordo anterior para decidir se a invasão será na sua ou na minha casa. Quero o direito de errar sem receber um alerta do Windows.Quero escrever no blog todo dia, toda hora, sem me justificar. Quero parar de escrever sem explicar. Quero decidir e voltar atrás, quero prometer para mim mesma e não cumprir, quero me perdoar sem intromissões. Quero decidir ficar dez dias sem Internet e voltar no nono, ou no quarto, ou no segundo dia. Quero poder dizer que não estou quando meu corpo se faz presente, porque para mim ‘estar’ não é só fisicamente. Quero não-patrulhar e não ser patrulhada. Quero não julgar e não ser julgada. Quero não pentelhar e não ser pentelhada. Quero amar e ser amada. Quero gozar e ser gozada. Quero publicar este parágrafo estúpido sem ser censurada. Quero poder ser estúpida, tanto quanto quero o direito de ser bacaninha. Quero poder cumprir todos os meus compromissos, quero o direito de me esforçar para ser o melhor que eu posso. Quero praticar tudo o que me dá prazer com ou sem talento. Ou não. Quero acabar esta crônica logo, quero tomar banho, quero ir trabalhar, quero produzir, quero ler os comentários, quero quero quero. Sou cheia de quereres mundanos. Sou louca por direitos, humanos. Rosana Hermann escreve aqui às quartas, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem. - Evite o primeiro programa
De Lusa Silvestre. Sempre acreditei que tudo estava sob controle. Ela estava lá embaixo, numa sala só pra ela, com sofá, controle remoto, etecétera. Ali, a coisa estava administrada. No máximo, no máximo, eu zapeava pelos canais, e diante de nada pra assistir, pronto: ia fazer outra coisa mais interessante. Lia. Fazia quebra cabeça. Ouvia João Gilberto na frente da lareira. Tudo nos conformes. Mas, não pus fé no perigo, achei que podia ter mais, que podia entrar e sair quando quisesse. Arrisquei: pus outra no quarto. A princípio, pensei que facilitaria minha vida: eu já estaria na cama. Se eu dormisse no meio do jogo, não teria problema. Imaginei que eu poderia quando quisesse desligar a bicha, e ler sossegado. Ou mesmo ouvir um CD. Comecei a sentir que eu estava prejudicando minha vida quando passei a disciplinar meus compromissos de acordo com a programação. O quê ? Pizza de quarta ? Tá louca ? Hoje é dia de Brasileirão. Baladinha na quinta ? Justo no dia do "Grande Família", do "House" ? Necas. Começou a interferir no meu trabalho. Eu corro pra almoçar em casa, engulo a comida, e mal a última colherada de espinafre passou pelo esôfago, já estou assisitindo algum documentário na National Geographic. Dia desses vi um de polvos. São muito cruéis, os polvos. Sabia que alguns deles têm venenos capazes de matar dez vezes em seguida um ser humano ? Ou, por exemplo, sabia que os chimpanzés são uns bichos muito bonitinhos, ai, que gracinha, mas que por baixo daqueles pêlos macios esconde-se um primata três vezes mais forte que um homem, e que os 99% de semelhança dos macacos com a gente inclui o fato deles terem piti também? Se ficasse só nisso, até que tudo bem. Estou na página 280 do mesmo livro faz três meses, mas sei que os chimpanzés às vezes ficam putos, e descontam na gente feito todo mundo. De certo modo, mantinha-me culto. Mas dia desses me peguei assistindo "American Chopper". São dois carinhas saradões, um mais velho com um bigode como o do Leôncio do Pica Pau, e outro o filho dele com um cavanhaque daqueles de meio dedo de largura, cavanhaque de jogador de futebol italiano, ambos fazendo moto. Eu não ando de bicicleta desde a copa de 78, mas assisto dois bigodudos fazendo uma moto. E não perco um. E pra piorar, o vício está me cansando do sexo. Depois da meia noite, passa Sexytime. Mulheres e mulheres escancaradas pra gente ver, como se a vida fosse um grande papanicolau. A Dow Química perde em quantidade de silicone. Você vê um, se assusta: como pode passar isso na TV ? Putaria generalizada não era exclusivo da internet ? No segundo programa, você já começa a não ver muita graça. No quinto, passa batido enquanto zapeia procurando algum chimpanzé tendo piti. Preciso me livrar do vício. Mexer nos meus interesses sexuais já é demais. Estou começando a achar polvo um troço muito sexy. - Sexo só por escrito
De Xico Sá. “Você pensa muito em sexo?”, me pergunta a moça ao telefone. “Bemmm...”, resmungo, ali ainda estirado na cama. “O quanto você pensa no assunto?”, diz mais, já com o medidor de testosterona em riste. “Bemmmm...”, me estrebucho no leito, tentando acordar das trevas. “Em que situações você pensa em sexo?”, insiste a danada. “Bemmm...”, começo a ressuscitar, lentamente, da ressaca braba. Pense numa ressaca. Ressaca não, doença. Depois dos 40 não temos mais ressaca, adoecemos mesmo de fato e de direito. “Em que lugares: no trabalho, no chuveiro, de noite na cama?”, tenta me ajudar a criatura. Era uma menina da revista Marie Claire, pedindo que eu respondesse a uma enquete. Como se eu fosse autoridade no assunto; tudo por causa dessas leseiras que escrevo. Deu vontade de responder, na lata: “Ora, e existe outra coisa pra se pensar no mundo!”. Pior é quando a gente pensa mais do que faz, que é o que normalmente acontece. O pensamento girando e o coalho tomando conta do juízo.Mal desligo, mal pulo da cama, ali encoberto pela nuvem de álcool e o bafo de onça da ressaca _cuidado, não acendam fósforos ao ler esta crônica!_ e já me liga outra criatura, de uma rádio, a pretexto do meu livro novo _eta, já aproveito pra fazer o autojabá: trata-se do “Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias”. Outra criatura de vozinha linda, rouca, daquelas que faz a gente pensar besteira. Ainda mais quando acorda. “Por que o sr.fala tanto de sexo, escreve tanto sobre isso?”, manda a interrogação, toda respeitosa. “Bemmmm...” Não era o meu dia de grandes respostas. “Beemmm... é minha flor de obsessão”, reagi, salvo pela expressão do velho Nelson, aquele mesmo, o nosso Shakespeare brasileiro, o pernambucano que só pensava em desvios de conduta e morais pecaminosas. “Bemmm, desconfio em quem, morando no Brasil,não pensa em sexo toda hora”, mandei mais um plágio, agora copiando Antonio Pellegrino, costela-amada, escriba de incríveis achados. Entre Rodrigues e Pellegrinos, enrolei, me salvei. Pra completar, no dia seguinte, ainda apareceu outra menina, dessas lindas de trabalho de faculdade, perguntando, ao telefone, se eu poderia orientá-la numa tarefa(o famoso TCC, uma monografia, de conclusão de curso de jornalismo) das mais prazerosas. “Estou fazendo uma pesquisa sobre mercado do sexo...”, iniciou a danada, rapariga em flor. De entrevista em entrevista, mais uma semana de muito sexo literalmente oral e escrito... E o queijo, como se diz no Nordeste sobre os donzelos e abstêmios, coalhando no juízo. Xico Sá escreve no Blônicas, que agora virou livro. Venha ao lançamento no dia 22/11. Clique no logo acima pra saber mais. - Agradecimentos
De Milly Lacombe. Chegamos à hora dos agradecimentos. Trata-se do grande final, da apoteose dramática, do inevitável e dolorido exercício de lembrar por que nos apaixonamos. É o pente fino na relação, o inventário de tudo o que fomos, o último ato. Feito isso, podemos baixar as cortinas e dar o espetáculo por encerrado. Sofisticadamente, como se espera das paixões doces, verdadeiras, belas e sem futuro – aquelas que ocorrem em teatros vazios, mas que, nem por isso, devem ser menos aplaudidas. Daqui, da solidão desse palco em que me encontro agora, meus mais sinceros agradecimentos. Antes de mais nada, obrigada por ter me dado esse ingresso, por ter me recebido, me convidado a sentar e me deixado ficar. Obrigada por ter me lembrado que a vida pode ser mais divertida, mais intensa, mais musicada e florida. Obrigada pelas noites quentes, pelas cervejas geladas, pelos CDs, pelos livros, pelas caronas, pelos cafés. Por ter me dado colo, carinho, atenção. Por ter me deixado olhar dentro de você, por ter me enxergado tão bem, por ter me permitido ouvir sua melhor música. Obrigada pela sensibilidade, pelo interesse, pelo doce-de-leite. Obrigada por, mesmo sem dizer, ter me feito sentir tão amada, por ter me deixado ler alguns de seus mais secretos pensamentos. Por ter feito meu coração disparar sem motivo aparente, por ter me admirado tão aberta e sinceramente. Por ter me feito rir, por ter rido de mim, por ter perdido seu sapato no meio da avenida São Luiz e, principalmente, por todas as muitas horas em que, juntas, rimos tão sincera e deliciosamente de coisas que não tinham graça. Obrigada por ter me dado sua senha, por ter roubado a minha, pelo acesso, pela orientação, por ter entrado em mim, por ter me deixado entrar em você. Por ter me feito chorar de saudade e de medo de te perder. Por ter sentado comigo na varanda e me ouvido falar, por ter me contado sobre seu trabalho, sobre a vaga na garagem, sobre a gorda, sobre seus sonhos, medos, segredos e anseios. Obrigada por ter me aberto a porta e, depois, por ter me deixado entrar sem bater. Pelo cabelo molhado, pelos suspiros, pelo bico e por me fazer acreditar que um dia poderíamos ter sido. Obrigada por ter me dado tanto prazer e, principalmente, por ter me deixado te dar algum. Pelas tardes em que passei esperando o telefone tocar, por nunca ter me falhado, pela cumplicidade e pela senha do album na internet. Pelas memórias, pelos beijos molhados, por ter mexido no meu cabelo, por ter me abraçado por trás e me beijado o pescoço, por ter me deixado deitar em você e ficar em silêncio. Por ter me ligado para dizer que a lua estava cheia, por ter me feito ver estrelas, por ter passado a mão na minha perna sempre que havia uma chance, por ter alcançado minha alma. Obrigada por ter me procurado, por ter se perdido, por ter me deixado molhada, por ter me secado, por ter me dado comida na boca, por ter me lido. Por me fazer sentir tão bonita, por ser tão bonita, por ter tido orgulho de mim, pelos telefonemas fora de hora, por ter me entretido, me divertido e por ter me feito protagonista. Obrigada por não ter desistido da gente depois daquela primeira noite, e por ter se entregado de forma tão doce e intensa no que agora sei que foi nossa última vez. Mas, acima de tudo, obrigada por ter me permitido sonhar. Porque, sem sonhos, eu não existo. Então, my beautiful lady, em resumo é mais ou menos isso: obrigada por ter me feito existir. Milly Lacombe escreve no Blônicas, que agora é livro! Venha ao lançamento dia 22/11. Veja detalhes clicando no logo acima. 36 coisas cretinas que você pode fazer em São Paulo
De Castelo Mora em outra cidade e vem para o lançamento do livro "Blônicas", dia 22? 1. Andar de pedalinho no rio Tietê. Castelo é um dos cronistas do novo livro "Blônicas". Mais textos como esse em www.castelorama.com.br - A gente começa a ficar preocupado com os rumos da humanidade quando:
De Henrique Szklo - O Donald Trump, que sempre foi considerado um idiota, vira referência de empresário; Henrique Szklo é cronista do Blônicas, que agora é livro! Lançamento dia 22/11 em São Paulo. Veja mais clicando na logomarca acima. - Quem fala?
De Leo Jaime. Não tenho recordações sobre povos com dificuldades com a própria língua em nenhum dos lugares que estive. Não conheço tantos paises assim: uns dez e olhe lá. Conversando com gente que morou em outros lugares, ouvindo contar das particularidades, dos pequenos entraves cotidianos, já ouvi sobre a dificuldades com dialetos mas nunca com a língua oficial. Vai ver o português é mesmo mais complicado mas um bom estudo básico faria com que nossas habilidades vernaculares fossem incrementadas. Disso não tenho dúvidas. Estudei em colégio público naquilo que chamavam de primário e ginásio. Sim, fiz prova de admissão. Para passar do quarto para o quinto ano do ensino fundamental era preciso fazer uma prova. Não sei se havia a possibilidade de reprovação mas os melhores classificados iam para uma turma e os piores para outra e, com essa turma, a disciplina e cobrança haveriam de ser maiores. Chamávamos os professores de senhor e senhora, nos levantávamos quando eles entravam e saiam e, assim me lembro, o professor ocupava um lugar de destaque no mundo profissional. Era muito honroso ser professor. Lembro de que uma professora quebrou uma régua de madeira na minha cabeça. E quem ganhou esporro depois fui eu e não ela. É, havia excessos mas era um mundo mais simples e o ensino era muito melhor. Já nesta época a língua nos pregava peças. Era um monstro de sete cabeças. O pais a que me refiro, porém, tinha uns 40% de analfabetos de pai e mãe e uns tantos outro semi-analfabetos, de modo que era compreensível a dificuldade. Nesta época o favelado, o homem da periferia, o popular inculto queria falar como doutor e a poesia era a sua maior ambição. Mire-se nos poetas de morro, nos poetas do sertão, a quem podia faltar a gramática mas nunca o senso do belo e o respeito ao culto e suas normas. Hoje em dia, no Rio, o garoto bem nascido tenta apreender o mais rápido possível as gírias do morro, o linguajar do bandido, numa inversão total da pirâmide social. Já não é o ignorante a sonhar com a poesia mas o criado com colheres de prata a ambicionar a crueza de idéias e miséria de de palavras. Quanto menor o repertório mais parcas as associações, mais pobres as idéias, diz a regra. O bandido não quer ser doutor, mas o doutor quer parecer bandido. Onde vamos chegar? Há o gerundismo, as frases que começam com então, com aí, a sobrancelha e a identidade, os atendentes que dizem que "não vão ter" quando querem dizer que o produto está em falta etc. Há quem diga, na mesma situação: "tem mas acabou". É muito mais simpático e igualmente tolo. Há quem atenda o telefone perguntando "quem deseja?", ou dizendo: "Leo de onde?". E o economês e o marketês, que alavancam receitas agregando muito pouco valor ao idioma. A última novidade é a linguagem juvenil internética. Será que é a língua andando? Será que é o processo natural? Akle naum eh um ngcio fciu de intndê. Será Babel? Ou o estudo fundamental é levado muito pouco a sério por alunos e professores? Ou nossos governantes não tem a menor vergonha na cara e deixam a esmo educação e a cultura, como obras de menor importância? Ou está na moda ser burro? Ou então, vai ver é isso, eu estava sem assunto pra uma crônica e fiquei teorizando sobre o nada. Torço pela última opção. E por fim: nenhuma das respostas anteriores. Marque um x. Leo Jaime é cronista do Blônicas, que agora é livro! Lançamento dia 22/11 em São Paulo. Veja mais clicando na logomarca acima. - Sintoma de velhice
De Rosana Hermann. Se você quiser saber se está ou não está ficando velho, não olhe para o espelho apenas ouça suas próprias palavras. O espelho engana, em todos os sentidos. Dependendo da luz, da roupa, da maquiagem e das cirurgias plásticas a imagem refletida pode mentir sobre seu grau de envelhecimento para mais ou para menos, mas suas palavras são tão eficientes quanto uma datação de carbono para avaliar a idade que você realmente tem. O primeiro sintoma começa com a palavra ‘antigamente’. Assim que você começa a dizer ‘antigamente’ você ficou antigo. Como dizia Nelson Rodrigues, ‘é batata’. Antigamente também contém uma dose de saudosismo que não combina nem um pouco com o zeitgeist vigente. O segundo sintoma é a expressão ‘no meu tempo’. Quando você começar uma frase com ‘no meu tempo’, bingo, você envelheceu. Sim, porque, se o agora, este tempo, não for o seu, é porque você parou em algum tempo perdido no passado. E gente jovem não vive no passado. O terceiro sintoma é mais divertido e menos sutil do que os dois anteriores: é quando você começa a afirmar que a idade é uma questão de espírito. Sim, claro, existem jovens velhos assim como existem velhos jovens, ah hã, mas esses extremos são muito mais exemplos de patologias do amadurecimento do que justificativas para sua juventude eterna. O quarto sintoma é quando você começa a se interessar pelo estatuto do idoso não para saber seus direitos mas para processar qualquer um que chamar você de velho. Envelhecer não é exatamente engraçado, divertido ou agradável mas é um processo universal, democrático e ... inevitável. A indústria fatura bilhões gerando produtos e serviços anti-idade, anti-envelhecimento, que tentam retardar, desacelerar os sinais físicos do envelhecimento mas nada pode impedir que ele aconteça, simplesmente porque não se pode parar a ação do tempo sobre os seres vivos. Mesmo que o homem viabilize na prática as experiências teóricas de Einstein, que submetiam um irmão gêmeo a viajar em uma nave imaginária a velocidade próxima à da luz, conseguiríamos apenas envelhecer mais devagar, já que o tempo se dilataria. Mas, a longo e lento prazo, todos envelheceremos. Recentemente, aliás, Woody Allen, 70 anos, disse que aquela história de ficar velho e sábio é uma balela. Ou seja, vamos todos envelhecer e depois morrer, péssima notícia para qualquer dia da semana, em qualquer idade. Mas nem tudo é caos e tragédia para todos nós que estamos sempre empurrando a meia-idade mais pra frente, nem que para isso tenhamos que viver até os 220. O mundo está piorando a olhos vistos em todos os sentidos. As pessoas estão cada vez mais preconceituosas e estúpidas, os governos cada vez mais corruptos, a polícia mais cruel. Do jeito que as coisas estão acho que morrer pode não ser a pior opção da vida, especialmente aos cem anos de idade. Sim, porque, antigamente, as pessoas eram menos egoístas do que são agora, o mundo era menos agressivo, havia menos armas, drogas e corrupção. No meu tempo, e eu me lembro bem, as crianças brincavam nas ruas, os casamentos duravam mais, os jovens respeitavam os mais velhos. E olha que apesar dos meus quarenta e tantos anos eu não sou nem um pouco saudosista.Ao contrário, trabalho, sou produtiva, faço esporte, sou uma mulher jovem de espírito! Velha eu? Nem pensar! E nem tente me chamar de velha que pelo estatuto do idoso, isso dá processo... Rosana Hermann escreve no Blônicas toda quarta, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem. - The book is on the table
De Nelson Botter.
Sei que é difícil competir com o CD da Luiza Mell pelo fim das carrocinhas, mas nesta próxima terça-feira (22/11), em São Paulo City, teremos a festinha de lançamento do livro do Blônicas. É isso mesmo, se você não agüenta mais ler os cronistas deste blog aqui na Internet, a notícia é ruim mesmo: terão de nos engolir com papel e tudo. Claro que sair da tela para invadir o offset não seria possível sem a importante participação de você, leitor, que sempre gasta preciosos minutos de seu dia para nos acompanhar nas andanças pelo mundo do cotidiano, pelas opiniões um tanto duvidosas sobre o tudo e o nada. Por isso queremos agradecer de antemão pela sua companhia, ajuda e participação ativa, seja nos comentários, na fiel leitura ou na ferrenha divulgação dos textos para os amigos e – principalmente – inimigos. Se você ainda não viu o convite, basta clicar no logo do blog aí acima. Ficaremos todos muito felizes com sua visita, agora na versão unplugged. Ah, e lá na festa contribua e faça treze cronistas menos pobres comprando um exemplar, que conta com textos inéditos e os melhores já publicados. Teremos prazer em retribuir tal gesto filantrópico com autógrafos personalizados, abraços e sorrisos sinceros. Te esperamos por lá. Nelson Botter é cronista do Blônicas, junto com outros doze escritores porretas. - Os neurônios e o sexo
De Xico Sá. Na leseira de fim de tarde aqui na beira do Guaíba, Porto Alegre, onde participo de fuzarcas lítero-boêmias da 51ª Feira do Livro, discuto com gazelas e mancebos uma velha dúvida que sempre intrigou a humanidade. Pera lá, trata-se de um enigma nada fácil. Nada simples. Seria verdade afirmar que as mulheres intelectuais têm menos gosto ou queda para o sexo? Eis a questão. Mais épica e shakespereana do que o "ser ou não ser" do dramaturgo que inventou todas as nossas dúvidas. Reparo as raparigas em flor, todas de livros nas mãos, todas de modernos oculozinhos... Matuto, matuto, matuto. Tão sabidas, meu Deus, tão sabidas as danadas, sobrancelhas franzidas e os olhinhos dançando sobre as letras. Elas lêem, degustam os livros com sede e fome de um retirante. Com a gulodice de pobre em festa B.L., boca-livre. Elas lêem e eu fico tentando animar a platéia com a velha dúvida. Seria verdade que a mocinha magra ali, com uma sacola de livros mais pesada do que ela mesma, mal pensa numa safadeza, mal pensa na mais sagrada das brincadeiras? Mocinha tão magra, como essa moda de hoje, só o couro, o osso e os óculos. Não fazia nem sombra. Fico imaginando a galeguinha na cama, enquanto um porco chauvinista salta com uma lorota: "Xico, tu preferias transar com Simone de Beauvoir ou com uma loira do Tchan?" Noves fora a loira burra e desaparecida, eu disse, para fazer uma média com as moças, que Simone me faria muito mais feliz. Foi quando outro maluco, ali da nossa roda de conversa, lembrou de um levantamento estatístico, uma tal de PPV (Pesquisa de Padrão de Vida), feito pelo IBGE. Segundo apurou o renomado instituto, 61,4% das moças com mais de 12 anos de estudo não estão ligadas a nenhuma atividade sexual. Foram ouvidas mulheres entre 15 e 49 anos em todo o país, cutucou o moço, com ares chatos e doutorais. Imaginem o rebuceteio (para lembrar o título de uma inteligentíssima pornochanchada nacional dos anos 80), que tomou conta do ambiente. Uma confusão dos diabos, rebuliço, pororoca nas águas do Guaíba, quase uma nova guerra dos farrapos. O ambiente só serenou quando uma bela e sábia afilhada de Balzac, fina de óculos da Gucci, citou pesquisas americanas cujos resultados atingiam também os marmanjos. Então vamos ao acerto de contas: seja macho ou seja fêmea, seja o que diabo for, quanto mais letrado menos "chegado". Será? Por isso que eu mesmo, que não sou besta não sou nada, nunca sai do Mobral. Atrás de qualquer um de vocês, até mesmo do mais ignorante dos seres, não passo de um simples, mortal e bem-resolvido jumento. O melhor de tudo é que, para desmoralizar de vez esse mal-desenhado que vos fala, uma bela e sábia moça do Guaíba deu-me uma surra de filosofia na alcova. Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. - Check-list
De Castelo. Se você é um publicitário de Criação bem sucedido, um decorador de interiores “in”, um “webdesigner” de vanguarda, um arquiteto do circuito alternativo, um “art-buyer” chique ou até mesmo um aprendiz metrossexual do Justus, levante as mãos para o céu. - Politicamente equivocado
De Henrique Szklo Não corra o risco de ofender alguém inadvertidamente. Com este pequeno dicionário eufemístico você estará sempre respeitando o próximo. Analfabeto Baixinho Bicha Brocha Brega Burro Careca Chato Corno Contrabandista Covarde Egoísta Estelionatário Estuprador Feio Gago Gordo Grosso Impaciente Incompetente Invejoso Ladrão Mau-caráter Mentiroso Narigudo Pobre Perverso Pessimista Pretensioso Puxa-saco Sadomasoquista Terrorista Trombadão Trombadinha Vagabundo Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e tem medo de ofender os outros. Leia seu site, o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. - Já votou hoje?
O Blônicas é finalista do prêmio "The Bobs - Best of the Blogs", organizado pela Deutsche Welle International Weblog Awards, na categoria Melhor Weblog Jornalístico em Português. Clique no banner para votar quantas vezes quiser no Blônicas e concorrer ao sorteio de um I-Pod. Obrigado!!! - Banheiro dos homens
De Leo Jaime. Leo Jaime escreve aqui no Blônicas todas as quintas-feiras. - Teoria binária do chavão
De Rosana Hermann. A novela América acabou e boa parte dos telespectadores e profissionais de comunicação ligados à televisão já passa suas noites acompanhando Belíssima. De América, ficaram as seguintes informações reduzidas, ainda sustentadas pela mídia: Boi Bandido e Beijo Gay. Todos os cento e cinqüenta capítulos foram deletados do nosso cérebro, mas esses dois conjuntos de informações, esses quatro bytes, ficaram. Byte, você sabe, são grupos de bits. E bit, o menor elemento de armazenagem de dados de um computador, é uma forma reduzida de BInary digiT, dígito binário. O sistema binário, você também conhece, é aquele formado pelos números zero e um. Alguns grupos de bits estão armazenados na cabeça de todo mundo, como Einstein, Freud, Jesus, Hitler, Kennedy, Fidel, Bush, Osama, Saddam, Lula, Xuxa, Pelé, Coca Cola, Omo, Bambi, não necessariamente nesta ordem, evidentemente. Poderíamos fazer uma lista imensa de nomes, marcas, expressões, lugares. Todo mundo traz arquivado em seu cérebro uma expressão como "Paris, Cidade Luz" ou "Japão, a terra do sol nascente", só para citar dois exemplos. Pois estes 'chavões' que o cérebro guarda estão diretamente ligado à transmissão de dados na rede e à produção de sucessos. A Teoria Binária do Chavão pode demonstrar que o fato de reconhecer a expressão Boi Bandido mesmo sem ter visto América está totalmente ligada ao fato de você estar na rede lendo este texto agora. A revolução digital (de dígito) gerada pela tecnologia eletrônica aconteceu graças a um tipo de material estudado pela física do estado sólido, os semicondutores, como o silício. Os transistores, que são dispositivos semicondutores, quando usados como chaves, permitem que um circuito abra ou feche, sem peças móveis, só com um controle eletrônico. Grosso modo, essas 'chaves' deixam ou não deixam passar um pulso elétrico. Esse passa ou não passa corresponde a um ou zero. Um, passa, zero não passa. O número 79, por exemplo, é representado no sistema binário como 01001111. Ou seja, a transmissão desta informação seria um conjunto de pulsos que passam e não passam, um abrir e não abrir das chaves, dos transistores feitos de material semicondutor que conduzem ou não o pulso elétrico. Multiplique tudo isso por números incontáveis e teremos nosso mundo e todas as informações digitais que circulam por aí. E o que tem isso com o sucesso? Tudo. Porque o cérebro também é um complexo sistema de pulsos elétricos. Pensar, lembrar ,compreender, criar são atividades cerebrais que envolvem sinapses entre neurônios que afinal, são nossos chips. E o que chamamos de fama, sucesso, é a ocupação massiva de uma informação dentro dos cérebros das pessoas. O nome Pelé está arquivado em forma de pulsos em centenas de milhões de cabeças humanas. Como ele foi parar lá? Pela transmissão destes bits pela mídia e absorção desta informação pelos nossos sentidos até nossos cérebros. Foi assim que o símbolo da Nike foi parar lá também. É lá, na sua memória que estão todas as informações que compõem suas lembranças, seus conceitos e preconceitos, seu conhecimento, tudo o que serve de base até para seus julgamentos e sentimentos. E quanto mais simples, mais reduzidas essas informações, mais fácil será transmiti-las e armazená-las. Ninguém lembra do nome completo da princesa Isabel, mas a gente sabe o nome da filha da Xuxa, a Sasha. Fácil. Poucos bits, poucas chaves para abrir. Passa fácil. A mídia, quando cria termos e expressões, como a 'sem-terra', 'a musa da CPI', 'a mãe loira do funk', 'o bonde do tigrão', 'o maníaco do parque', está criando artifícios para facilitar a transmissão e absorção de informações pelas nossas cabeças. Toda a propaganda, aliás, quer só isso, um lugar na sua massa encefálica. Por isso as marcas tem nomes, logos, slogans, formas reduzidas de fixação. Por isso a mídia nos bombardeia o tempo todo com mensagens, pra que a mensagem entre e fique lá. Pra que seja constantemente realimentada, pra que não se apague. Sucesso tem a ver com chavão. Chavão tem a ver com chave. Chave tem a ver com transmissão de bits e bytes. E Coca Cola é isso aí. Plim-plim. Rosana Hermann escreve aqui toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. - Elizelda Responde
De Nelson Botter. Elizelda Raio Laser, consultora em liderança de relacionamentos e Ph.D. em L.O.V.E. pela universidade de Hogwarts, Inglaterra, responde à leitora Maria José de Alencar: "Elizelda, qual o segredo para fugir à regra e não se separar depois de um mês de casamento?" Querida leitora, Companheirismo e cumplicidade são as palavrinhas mais importantes para um relacionamento, um chamego dos bons. Muitos acham que amar é apenas querer bem, aquela coisinha de fazer carinho e ficar em frente à porta de casa esperando o outro chegar, feito o Rex, mas saiba você que já dizia o profeta: não é. Ser companheiro e cúmplice é uma questão de pacto velado, respeito mútuo, parceria das boas, uma vontade danada de crescerem juntos. Nada a ver com "sermos um só", ainda mais porque o velho Newton provou por A mais B que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço nesse mundinho louco. Nem os camaradas mais espaçosos conseguem isso. O macete do negócio é saber unir forças, pôr em prática aquele velho ditado em que duas cabeças pensam melhor do que uma (hein???), que as individualidades devem ser mantidas e conviver harmoniosamente. Pena que na escala de valores para se casar esses fatores estão em baixa, uma bolsa de valores amorosa em queda, Nasdaq sentimental. Ninguém dá bola, virou café pequeno. Daí o grande número de fracassos amorosos, de mulheres produzindo lençóis freáticos com os olhos vermelhinhos, homens raspando os chifres no teto e estragando toda a pintura, brigas que acordam a vizinhança na hora do bom soninho, crianças preferindo morar no Cazaquistão do que aqui com os pais, etc e tal e vai mal. Muito mal. A coisa toda se resume da seguinte maneira: se você e seu lovezinho não conseguiram edificar essa coisa de se entenderem só pelo olhar, de ter objetivos em comum, de realizarem planos conjuntos e rirem das cagadas um do outro, tenho uma má notícia pra você, querida... saiba que uma hora a corda vai esticar até arrebentar. E quando isso acontece, pelo menos um dos dois cai e se esborracha. Não é pessimismo, é simples matemática. Aliás, tudo nessa vida é matemática, apesar de não haver lógica e não ser nada exata. Mas a questão nos mostra que se cada um for para um lado, não vai haver união e não se formará um conjunto. Aqui a ordem dos fatores altera o produto, minha pitagoriana de plantão. Portanto, tenha coragem de mudar. Se está uma merda, pior não pode ficar... Quer dizer, até pode, mas vale tentar. Tente até acertar. Apesar do meu tom jocoso e da rima irritante, é a mais pura verdade. Vejo pessoas e mais pessoas arrastando relacionamentos por isso ou por aquilo, sendo infelizes, procurando um outro brilho em cada olhar alheio, esperando um momento - que nunca chega - em que tudo vai mudar, se conformando com a conformidade do conformismo conformado. Estoure a corda antes que a queda seja maior ainda! Procure ser feliz, procure por quem será feliz com você. Todo Batman tem seu Robin, todo Romeu tem sua maledeta Julieta, todo Lula tem seu Dirceu... e por aí vai. Se você sacou que a coisa não vai dar muito certo, pule fora, não case, banque a Julia Roberts e sebo nas canelas, noiva em fuga 2. Veja tudo pelo lado positivo, querida leitora, afinal esse é o único momento na vida de uma mulher que é bom não ter cara de Cicarelli. O Blônicas é finalista do prêmio "The Bobs - Best of the Blogs", organizado pela Deutsche Welle International Weblog Awards, na categoria Melhor Weblog Jornalístico em Português. Clique no banner para votar quantas vezes quiser no Blônicas e concorrer ao sorteio de um I-Pod. Obrigado!!! - Breve guia para salvar a pele das mulheres
De Xico Sá. Tudo bem, bravas fêmeas, os homens são todos iguais, já sabemos. Homem-bouquet - aquele macho que entende de vinhos finos, abre a garrafa, cheira a rolha, balança na taça, sente o "bouquet" da bebida... O tipinho não perde um programa do Renato Machado no GNT, entra em sites franceses do gênero, reúne os amigos para aporrinhá-los com o tal "bouquet"... Mais uma advertência: o mesmo elemento costuma apreciar também o que ele chama de "um bom jazz", uma "música de qualidade"... Corra, Lola, corra de criaturas desse naipe. Homem-hortinha _ Aquele mancebo que, ao receber as moças elegantemente para um jantar, usa o manjericão cultivado na própria hortinha que mantém no quintal ou na área de serviço. Cultivar o próprio manjericão não é exatamente o defeito do rapaz. O problema é que ele passa duas horas a discorrer sobre o cultivo da hortinha, os cuidados, o zelo, uma chatice só, para não dizer outra coisa. Uma amiga, coitada, conheceu um destes exemplares que cultivava até a própria minhoca usado como "fator adubante" da própria hortinha. Corra, Lola, corra, corra mesmo, corra enquanto é tempo! Homem-do-predinho-antigo _ Aquele sujeito que ou é gay ou é um metrossexual enrustido. E o pior não é habitar um predinho antigo. O que mais dói é quando ele pronuncia, como toda a afetação desse mundo, que mora num "predinho antigo, charmoso". Você entra lá, leitora do meu coração, e avista logo umas revistas chiques estrangeiras espalhadas pela sala, tipo "ID", "Wallpaper" e quetais. O cara entende de iluminação indireta, tem cada abajur que só vendo. É um tipo sobretudo do Sudeste, mas também já começa a se espalhar pelo Sul e Nordeste. Fuja Lola, fuja. Homem-ONG - O sujeito onegê é o que há. Todo politicamente correto, benza-te Deus. Adora um abaixo-assinado, uma passeata, e está sempre morto de decepcionado com o governo, qualquer governo. Sim, ele acredita na humanidade, na responsabilidade social, no terceiro setor, na arte como redenção dos pobres... Se você reparar, leitora do meu coração, ele quase levita, de tão puro, de tão bom. Dá um "ninja" nele e some, Lola, some que é roubada-mor. Homem-chorinho - Ele odeia tudo que é do estrangeiro, mesmo que seja um velho e bom rock´n´roll do Lou Reed ou do Elvis _tanto o rei como o Costello. Mas é capaz de passar horas, dias, quinzenas, como se estivesse numa festa igual à do filme "Anjo Exterminador" (de Buñuel), só ouvindo uma "MPB de qualidade" ou "zum de besouro ímã" do gênero. Finja que vai no banheiro, Lola, e dê área. Xico Sá é cronista do Blônicas todas as segundas-feiras. - Lula é um completo idiota
De Milly Lacombe.
Lula é um completo idiota. Bush, um idiota. Hoje, esses dois idiotas estão reunidos em Brasília, a cidade de localização idiota, arquitetura idiota, palco de encontros idiotas. A diferença de idiotice entre nosso patético Lula e o boçal Bush deles é que ao americano não faltam opiniões. Todas, segundo minha cartilha de valores, idiotas. Mas, ainda assim, não se pode acusar o yankee de falta de opinião. É contra o aborto, contra a união civil de pessoas do mesmo sexo, contra o protocolo de Kyoto ... Já nosso líder idiota consegue ser ainda mais idiota do que o idiota deles porque, Corinthians fora, é um homem incapaz de opinião. E não há nada pior, nada mais lamentável, nada mais triste do que alguém sem opinião. Ainda assim, os dois idiotas estão reunidos em Brasília, incapazes de se entregar a papos mais profundos já que Bush não fala português, e Lula não fala nem inglês nem português. Sabe-se lá como esses dois idiotas se comunicam. Um encontro que, dada a falta de intelecto de ambos, tem tudo para potencializar a idiotice de cada um. E esses brilhantes homens comandam nações, espalhando suas idiotices pelo mundo. Porque o diabo da idiotice é que se você fica muito tempo exposto a ela acaba se contagiando. Vejam Gilberto Gil. De duas uma, ou sempre foi um idiota e escondeu muito bem, ou foi contaminado, coitado. Aliás, em matéria de líderes, o mundo anda mal. Tem outros idiotas por aí. Talvez não com o mesmo nível de idiotice de Bush e Lula, mas Berlusconi, Blair, Putin e Fidel não primam pelo brilho intelectual. Para nosso azar, estão todos no comando numa mesma época. Nosso planeta não poderia estar em pior giro. Houve um tempo em que Churchill, Roosevelt e Stalin eram líderes. Homens capazes de pensar, de refletir. Não que o mundo tenha melhorado com eles, muito pelo contrário, já que foi na gestão dessa trinca que a pior guerra já lutada estourou, e o maior atentado terrorista da história aconteceu: as bombas atômicas covardemente jogadas sobre duas cidades japonsesas quando a luta já se encaminhava para um desfecho. Pena que a covardia atômica nunca tenha adquirido seu real status histórico: a de atentado terrorista. Mas vá lá, para o bem ou para o mal, tratavam-se de líderes que deixaram legados: Livros, conceitos, idéias, reflexões, tratados, discursos brilhantes - opiniões. Lula e Bush não deixarão nada, absolutamente nada para as gerações que vêm aí. A não ser um enorme rastro de mediocridade intelectual, atraso social, político e econômico. E frases patéticas, que certamente renderão livros tragicômicos. Mas a culpa não é deles, da mesma forma que não é de Wendel, o limitado volante do Corinthians que não consegue acertar um passe em 90 minutos de jogo e leva qualquer corintiano a loucura. A culpa é de quem os escala. Portanto, no caso do sensacional Lula, nossa. Porque fomos nós, os idiotas daqui, que elegemos essa trupe de idiotas para nos comandar. Mas, como ensinou Churchill, a democracia é o pior dos sistemas com exceção dos demais. Teremos, então, a chance de nos redimir de nossa própria idiotice na próxima eleição presidencial. E de, assim, quem sabe, nos sentirmos um pouco menos idiotas. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - Civilização Brasileira
De Castelo
São 7 horas da manhã, vai começar o dia. Olho pela janela do meu quarto, chove a cântaros, mas o caminhão, a blazer e o furgão da polícia estão fechando o quarteirão, como de costume. Tudo indica que vai ser um dia normal. Depois de me espreguiçar, desço vagarosamente da cama me arrastando no chão como uma cobra. Vou fazendo essa movimentação até o box, onde abro o chuveiro com os pés. Tomo meu habitual banho deitado. Pode parecer exagerado, mas a parte de trás de nosso habitáculo dá para uma favela. Reparo, surpreso, que aprendi a me enxugar no chão com relativa facilidade. O curioso é que nunca saio com as costas molhadas, o tapetinho deve ajudar a enxugar as gotas. Só então me levanto, puxo rapidamente o colete à prova de balas da gaveta para proteger o peito e as costas. O segundo movimento coordenado é o de pegar o capacete e enfiá-lo na cabeça. Só aí começo a passar a fita dental e a escovar os dentes. Na cozinha, mulher e filhos, já estão me esperando. Tomamos café juntos. Claro, tenho que ralhar com o Juninho. Ele, de novo, ia para a escola desarmado. Fase distraída a tal da pré-adolescência. Saímos os quatro da mesa rastejando. Sigo com as crianças para a garagem pelo elevador blindado de serviço. Minha esposa fica agachada à porta dando-nos proteção com o rifle novo que minha sogra nos deu no Natal. Entro com a família no carro. Coloco os dois meninos no porta-malas para, em caso de abordagem, tentar negociar um resgate menor. Saio para a rua e o espetáculo da mesmice cotidiana nos invade: o dono do armazém trocando tiros com o traficante da esquina, a padaria sendo incendiada pela enésima vez, o rabecão do IML em cima da calçada. Deixamos as crianças na escola. O congestionamento de sempre na frente do portão; a demora dos outros pais em retirar os filhos do porta-malas me irrita. Buzino. Há um princípio de tumulto. Uma das mães toma um susto, joga-se no chão e descarrega seu 38 cano longo na direção do meu carro. As balas passam silvando ao lado do meu retrovisor esquerdo. Deixo a esposa em seu trabalho e sigo até meu escritório por uma Marginal - assim evito ser abordado por aqueles meninos que vendem balas 9mm nos semáforos. Depois de passar pelas três blitze, finalmente entro em minha sala. O dia vai começar pra valer. Meus colegas vão chegando, tirando os coletes à prova de balas, colocando as pistolas ao lado do terminal de computador. Tudo tão maquinal e tedioso, com essa aura de começo de manhã. A jornada mal começou. E eu já não vejo a hora de dar o toque de recolher para poder retornar à casa, jantar e depois treinar pontaria no estande de tiros do condomínio. Se ao menos algo diferente acontecesse. Mas, como já disse, é mais um dia, de mais uma semana qualquer na cidade. CASTELO é uma edificação e tem um site: www.castelorama.com.br - Cardápio Antropofágico
De Henrique Szklo ENTRADAS CARNES COZINHA INTERNACIONAL AVES MASSAS SOPAS FRUTOS DO MAR PIZZAS SOBREMESAS BEBIDAS Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas. Leia seu site, o blog da mãe e participe da Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. - Leitor na calçada
De Rosana Hermann.
Ontem eu não tomei café da manhã. Saí em jejum e fui para uma reunião. Na hora do almoço, fiquei conversando e praticamente não comi. A comida esfriou e enrijeceu a tal ponto que eu não consegui cortar o alimento com a faca. (É, é papo de blog, mas blog é o tema. O link já vem.) Assim, depois de um dia de muito trabalho e poucas calorias, atingi o avançado horário das nove da noite com o estômago liderando um motim em protesto à greve de fome da turma da boca fechada. A hipoglicemia embaçava a tela do laptop e o cérebro deu um reboot na memória. Abandonei o recinto, guardei metade do meu escritório-móvel na mochila, metade numa pasta de mão e saí do prédio em busca de víveres. A única coisa aberta era uma sub padoca bem nojenta onde uma atendente idem rescaldou um enroladinho queimado e gelado cobrando três reais. Morto por morto, pedi um cadáver mais jovem. Peguei, paguei e saí mastigando o finado pela Avenida Paulista. Um homem alto me parou dizendo que era aidético e estava com fome. Imediatamente ofereci meu lanche e fiquei bastante surpresa quando ele o recusou com cara de asco dizendo que preferia dinheiro. Segui. Fazia muito frio, ventava e, com a boca cheia de pão, o saquinho numa mão e o laptop na outra, tentei raciocinar com que membro inferior eu faria sinal para parar um táxi. Exatamente neste momento tão frágil da minha existência, um simpático casal me abordou sorrindo. Ele me chamou pelo nome e logo se identificou como leitor do Blônicas e do meu blog e começou a conversar alegremente. Sem conseguir mastigar e falar, cobri a boca com o saquinho de pão enquanto a garota ria do meu ridículo. Finalmente engoli a mordida, pedi um segundo, virei de costas, limpei os fragmentos do pão da cara, deixando os da roupa e novamente, de frente, cumprimentei-os com beijos. Fiquei verdadeiramente feliz. Encontrar leitores de blog é uma experiência enternecedora, estimulante, entusiasmante, edificante e outros termos começados por e. Encontrar pessoas que conhecem o autor pela televisão é diferente, porque no caso do leitor do blog, o texto precede a imagem, a relação é com a escrita. Escrita online, que também difere do leitor de um livro. O leitor online é freqüente, acompanha, volta sempre, desenvolve uma relação de mão dupla. Já conheci muitos leitores de blog, em encontros marcados, fortuitos, inesperados. Uma vez, encontrei uma leitora do blog em Buenos Aires, um momento marcante, justamente por ter ultrapassado as fronteiras nacionais. Nesta hora a gente sente que a rede é mesmo mundial. Recentemente, em Londres, fui ciceroneada por dois leitores do blog que eu só conhecia no mundo virtual, em passeios inesquecíveis e evidentemente registrados em foto e vídeo. Na confusão das mãos, malas, migalhas, beijos, pressa e ventania, esqueci de perguntar o nome dele. Pena. Eu queria saber seu nome. Pronunciá-lo em voz alta, repeti-lo, emanar a vibração de seu nome para o universo. Não deu, esqueci mesmo. Foi a pressa. Ou a emoção. Mas fica aqui meu muito obrigada, a você, leitor na calçada. Hoje, escrevi para você. Rosana Hermann escreve no Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. - O Corinthians vai perder o campeonato
De Nelson Botter. Eu sei, esse assunto é besta e não merece espaço aqui neste blog, mas acontece que eu preciso falar. Não é possível que nada nesse país funcione! Se aquela história de que Deus é brasileiro for verdade, há de ser feita a justiça divina. E isso só tem um nome: o Corinthians vai perder o campeonato! Não se trata de inveja ou praga de um torcedor são-paulino, é apenas o desejo de uma pequena vingancinha dirigida não só aos dirigentes do futebol brasileiro, mas também aos dirigentes do país, mais especificamente ao nosso querido presidente. Calma lá, eu explico já. Nada contra a nação corinthiana, inclusive minha mulher torce para o timão, mas é que os cartolas arranjaram um jeito de dar uma forcinha para o Corinthians. Seja anulando partidas, prejudicando concorrentes diretos ou com a ajuda do apito, está nítido que o escolhido fora de campo para ser campeão é o time alvinegro de parque São Jorge. Vão dizer que estou falando besteira (os corinthianos), mas é evidente. Depois do caso Edílson, nada me convence que o futebol não é manipulado de uma forma ou de outra. Tem muita grana em jogo, literalmente. Interesses de grandes empresas, televisão, investidores, etc e tal. Só não se interessam pelo torcedor, esse não vale nada, pode morrer na base da paulada, pode levar tiro, tanto faz. E aí essa maracutaia toda me faz lembrar que mais acima, especificamente na cidade de Brasília, a coisa está sendo armada a mesma forma. Uma meia dúzia de deputados escolhidos a dedo para serem cassados e fica tudo bem. Bodes expiatórios bem merecidos, é verdade, mas muito mais gente precisa rodar. Acontece que é tanto político envolvido nas mutretas eleitoreiras que é bem capaz de não sobrar ninguém pra apagar a luz lá no congresso. Se todos que merecem forem cassados, acaba o congresso. O que seria ótimo, diga-se de passagem. Enfim, assim como no futebol, o povo fica em segundo plano, não recebe o devido respeito e é utilizado como trampolim para devaneios que enchem os bolsos de alguns poucos. E o nosso presidente que não sabe de nada, só dos resultados do Corinthians, vai sair ileso. Isso é que me deixa louco! Mas, como eu disse antes, a justiça divina vai agir e já que ele continuará com seu governo corrupto, me cabe torcer para que seu time do coração, pelo qual ele demonstra uma paixão muito maior que pelo povo que governa, perca na reta final. Castiguinho bobo, vingancinha tola, o certo seria o povo ir às ruas, mas quem sabe é um primeiro tropeço na felicidade monárquica do barbudinho. O mais irônico dessa história toda é que o campeão será o colorado do Sul, de camisa bem vermelha, assim como a estrelinha do PT. Nelson Botter escreve no Blônicas e no BlogGol, com Milly Lacombe. |