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Perdão no Ano Bom
De Castelo Era uma tradição. Nesse instante, Acácio cutucou Iêda. - Tu me perdoa? - Amém! Agora me diz, é tão grave a minha falta contigo? Chegar em casa com uma cueca escrita com lápis de rímel “Eu quero é rosetar” por acaso não pode ter perdão? Acácio ficou orando, de olhos fechados, enquanto Iêda queimava o papelzinho do perdão na vela. Ao fundo, fogos de artifício. Castelo é www.castelorama.com.br Será que vai dar?
De Leo Jaime. Sempre tenho essa pergunta, obsessivamente, rodeando todos os meus projetos, mesmo os mais simples. Sei, estou sendo óbvio. Todo mundo guarda alguma reserva de dúvidas para seja qual for o projeto ou sonho. Refiro-me, porém, ao projeto mais cotidiano, como dar cabo das tarefas do próximo dia. Será que vou conseguir escrever o texto? Cantar a canção? Ser claro na hora de expor as idéias? Os sentimentos? Não que considere todas as tarefas difíceis, separadamente, mas o conjunto é complicado. Viver é muito cheio de detalhes, de pormenores, de curvas. É preciso ser profissional. Para não viver tenso, a maior parte do tempo, aceito a idéia de que não preciso ter uma atuação brilhante na vida. Ninguém precisa. Com isso, sei que a voz vai falhar, as palavras vão fugir, vou esquecer onde deixei a carteira, perder o retorno, o fio da meada, o saco, um monte de vezes. Diariamente. E, é sério, é com esforço pra dar capricho que tudo sai mais ou menos. Fico pensando se terei condições de pagar as contas. Não há garantias. Tenho vivido do prazer que dou aos outros com minhas performances cênicas, e de vez em quando com o que batuco no teclado do computador. Do mesmo modo que não sei se vai sair alguma coisa na próxima vez que tentar escrever ou encenar, como posso garantir que vai ficar interessante aos olhos de quem tem tanta oferta de diversão? A conta do padeiro depende disso: é preciso que queiram ver, ler ou ouvir alguma coisa que tenha feito. É preciso que eu faça, que continue querendo e sabendo fazer. A cada dia vai ficando mais intrincado o equipamento básico de viver. São necessários muitos acessórios. É preciso aprender muitos manuais, fazer upgrades e investimentos. Muitas senhas pra decorar. Será que vou aprender e lembrar de tudo? Pode ser besteira, mas quando paro pra pensar na quantidade de coisas que tivemos que domar nos últimos anos, na dificuldade em equilibrar vida profissional, cultural, política, intelectual, sexual, espiritual, afetiva com suas atribuições acho que somos heróis do dia-a-dia. Heróis mais ou menos. A vida vai dragando nossa atenção para tantas coisas e a sensação de que não temos dado atenção suficiente a nada é permanente. Alguém vai lhe convencer a fazer ioga, a mudar a alimentação, a virar budista. É a moda. Não quero polemizar e muito menos criticar nenhuma destas opções. Mas, algo me diz: não vai adiantar. Tudo esfria. Tudo cai. Tudo escapa à compreensão. E os dias fogem como cavalos selvagens descendo a colina. Feliz ano novo. Leo Jaime é cronista do Blônicas. Aceite
De Rosana Hermann. Não, não é azeite em espanhol. É do verbo aceitar menos, muito menos saboroso e muito mais complexo. Aceitar é difícil. Deveria ser mais fácil para as mulheres, equipadas com um órgão reprodutor receptivo. Deveria mas não é. Aceitar as coisas é difícil pra todo mundo, todo mundo. Porque aceitar é parecido com desistir, perder, dar o braço a torcer, todas essas coisas que ego não gosta. Aceitar parece coisa de quem leva desaforo pra casa. Pois leve. Em último caso é melhor levar um desaforo para o domicílio do virar um presunto no IML. Para aceitar as coisas como elas acontecem, as pessoas como elas são, os fatos da forma que ocorrem, é preciso antes conformar-se. No sentido lato, conformar-se é tomar a forma de alguma coisa, como acontece com os fluidos. Quando você despeja água na panela, ela se adapta à forma da panela. O mesmo acontece se você jogar suco na jarra, fizer xixi no penico ou lembrar que o ar ocupa todos os espaços, conformando-se com tudo. A gente, não. A gente não é fluido. O pensamento é rígido, a idéia é fixa e o corpo é travado. E aí, ninguém se conforma com nada. A gente não se conforma com nada. Nem com o semáforo que fecha, com a porta fechada, com o salário que ganha, com um telefone que dá ocupado. Nós, neuróticos, queremos que o mundo entre em conformidade com a gente. Coisa de louco mesmo. Depois de aprender a se conformar, a entrar em sintonia com a forma do mundo, figurativamente falando, aí sim, podemos passar para o segundo grau, a aceitação do conteúdo. Aceitar não é de forma alguma ficar parado sem ir para frente, desistir de lutar para melhorar ou mudar o que não está bom. Ninguém precisa aceitar o fato de ser obeso e morrer de sobrepeso, mas para emagrecer é preciso aceitar que tudo o que é gostoso engorda, por exemplo. Aceitar, em última instância, ou em primeira, é não negar o óbvio. É não fechar os olhos para a realidade porque o que vemos não é o que gostaríamos de estar vendo. Aceitar é não se enganar, é não enganar os outros, é ser maduro. Gente infantilizada não aceita a verdade e fica ofendida por qualquer coisa. Aliás, gente infantilizada ainda não é gente, é só um projeto em desenvolvimento. Pode ser que tudo isso seja uma grande bobagem, que um ser humano consiga ser feliz, viver em equilíbrio sem ter que aprender a aceitar o mundo ou a conformar-se com a vida. Mas uma coisa é certa, quem se conforma é fluido, é flexível. E é muito melhor viver de forma flexível do que de forma rígida. E quem aceita as coisas como elas são, vive leve. Porque não aceitar a realidade vira um fardo, um peso morto a ser carregado em vida. Portanto, se você tiver alguma coisa para decidir em 2006, aproveite para incluir esses dois conselhos: conforme-se e aceite. Ao parar de lutar contra o inevitável e repudiar o óbvio, você economizará energia para poder fazer o que realmente vale: viver a sua vida. Feliz ano novo. Rosana Hermann escreve aqui toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. Ano novo, vida nova?
De Nelson Botter. Tive alta do hospital psiquiátrico em pleno reveillon. Esperei isso por mais de dois anos e cinco tentativas de fuga. Estava feliz pelo fato de sair, mas já viu, reveillon, só podia dar merda mesmo. Na porta do hospital estava meu pai, me esperando com um balão na mão. Isso mesmo, uma porra de um balão daqueles de porta de restaurante de polenta e frango assado. Era prata, com a cara de um bicho qualquer. Aliás, cara de bicho tem o meu pai, com aqueles óculos ridículos de fundo de garrafa que mais parecem o telescópio Hubb. Inclusive, pra que gastar dinheiro com uma porra de um telescópio desses? De que interessa saber de outro planeta se não conseguimos dar conta nem do nosso. Que o Spock cuide de sua vida sem atrapalharmos. Mas, lá estava meu pai. Dei uma boa olhada no indivíduo e num piscar de olhos acabei descobrindo de quem eu tinha puxado toda a minha loucura. Pior, se eu não fosse louco de nascença, acabaria ficando depois de quinze anos com aquele cara que eu tinha de chamar de papai. "Vamos para a nossa casinha, Juninho?", ele perguntou como se eu fosse um debilóide. Bem, sou louco, mas não sou retardado, é diferente porra! Ele abriu a porta do carro e me colocou no banco de trás. E não é que o desgraçado ainda veio e me colocou o cinto de segurança? Cerrei meus punhos e só não o soquei no queixo porque ainda estávamos muito perto do hospital psiquiátrico. Chegando em casa minha mãe estava na porta com um sorriso amarelo de ponta a ponta. Poupe-me desse seu teatro ridículo, velha coroca. E não me olha muito não, minha paciência não anda das melhores. Ela ficava acenando de longe enquanto meu pai estacionava o carro na garagem. Não via a hora de tomar meu coquetel de Gardenal com Lexotan para esquecer dos problemas... e dos meus pais. Meu quarto estava a mesma coisa, intocável, inviolável, inexplorado. Era um auto-retrato do dono. Até o pacotinho de maconha continuava escondido no fundo da cômoda. Será que essas porras têm prazo de validade? Por via das dúvidas, fumei tudo de uma vez, observando da minha janela a noite que caía seca e quente. Detesto esse clima, prefiro tudo úmido. Às vezes, quando faz muito calor de noite, mijo na minha cama pra ficar mais agradável. Refrescante como Halls. Minha mãe me trouxe uma roupa branca, dizendo que eu deveria me trocar rápido, pois os convidados para o reveillon já deviam estar chegando. Por que esses putos não foram para a praia? É tão mais agradável pegar aqueles congestionamentos gigantes, cidade lotada com falta d'água, cheia de gente se roçando com o corpo cheio de areia. Sabe, roçadinha à milanesa. Supimpa! E os fogos? Tanto corre-corre com a galera se queimando com aqueles Caramurus fajutos que explodem na sua cara e você ainda tenta sorrir com o último dente que te restou, só pra não ficar ruim na fita com os amigos. Mas o melhor mesmo é ir até a praia à meia-noite. Apesar de ser um programa de índio, você não encontra nenhum por lá, só gente vestida de roupa branca. Doutores da alegria. Todos num fogo desgraçado. O cheiro de álcool fica mais forte do que o do esgoto que dá no mar. O mais engraçado é que ainda têm a cara-de-pau de dizer que estão andando torto por causa da areia que é muito fofa. E a sujeira que esse pessoal faz? Branco é sempre sinônimo de limpeza, mas nesse caso os "roupas brancas" fazem questão de emporcalhar tudo. Uma beleza. Um enorme cesto de lixo revestido de areia e água salgada. Até fiscal do Ibama faz questão de jogar alguma coisa no chão. Uma vez um tio meu pisou na bosta e ficou furioso. "Quem é que traz o cachorro pra praia?". Mal sabia ele que aquela bosta não era de cachorro e sim de gente. Daquele tamanho, nem um Mastim Napolitano consegue fazer. Família desgraçada, por que não foram pular sete ondinhas bem longe da minha casa? Tomei o coquetel. Não tem Coca-Cola? Gosto para acompanhar. Minha mãe fez cara de satisfeita, passou o guardanapo na minha boca (estou babando?) e me olhou. Peguei um copo de cidra que uma tia deixou dando sopa. Mandei pra dentro, escondido, mas mandei. Gosto horrível, mas não tão horrível quanto agüentar meus primos vestidos de cowboy com arminhas de plástico correndo pra lá e pra cá. E eu que sou o maluco. Tomei um pouco do uísque do meu pai. Ele me pegou no pulo, mas não fez nada, nunca faz. Comecei a ver umas bolinhas estranhas. O mundo de repente ficou mais divertido. Cores, música distorcida, imagem tremendo. Senti-me uma TV sem antena. Subi para o quarto. Quero ficar sozinho, não me encham o saco! E, finalmente, tudo ficou escuro. Acordei na cama, com os fogos. Uma barulheira infernal. Não tinha forças, mas minha vontade era abrir a janela e xingar o mundo. Virei de lado e arrotei. Saiu um jato de vômito. Apenas dei risada ao pensar que não seria eu que limparia aquela sujeira toda. Senti-me por instantes um dos porcos de branco que deviam estar acabando com a praia uma hora dessas. Desci a escada e meu pai veio me abraçar, todo sorridente. Idiota, só percebeu que eu estava todo vomitado quando me soltou. A cara de nojo foi geral. Ótimo, ninguém vai me abraçar. É o reveillon que pedi a Deus, obrigado Senhor. Minha mãe fez a cara de sempre: sorriso amarelo. Às vezes me pergunto se ela faz essa cara enquanto caga. Abri a porta, ninguém me impediu, e saí andando pela rua. Quando começaram a vir atrás, corri e me perderam de vista. Ainda tonto, comecei a tomar o rumo do hospital psiquiátrico. Esse pessoal todo que se entenda com o seu mundo dos normais. Eu quero mais é a minha caminha lá, com a plantonista peituda, o Seu Geraldo (que trabalha há mais de vinte anos no hospital e opera a máquina de choque como ninguém) e o meu coquetel de Gardenal, Lexotan e Coca-Cola (para desentupir). Eu era feliz e não sabia. Nelson Botter é cronista do Blônicas e deseja um delicioso 2006 para todos! Bacanal cristão
De Milly Lacombe. Ah, o Natal. Essa maravilhosa festa cristã. A celebração máxima da religião mais popular do planeta. Uma época de confraternização entre os que se amam, como um dia Jesus – o homem de cuja existência não se tem prova histórica – deve ter sonhado: a família em volta da mesa, comida farta, gula praticada a nível máximo. Jesus, quando saía por aí pregando a paz entre os homens, certamente imaginou essa cena. Pão e vinho em doses miseráveis o escambau! Tragam o pernil, a farofa, a batata, massas, doces, bebidas várias. Que os homens se unam pelos laços abençoados do sal-de-frutas. O dia é para exageros. A ordem é comer até passar mal. Nada mais adequado às tais normas cristãs. Normas, aliás, que vêm sendo adaptadas à conveniência dos patuscos cardeais que regem essa milionária instituição chamada Igreja. Patuscos, sim. O que é quase uma contradição de termos porque cardeais patuscos deveriam ser, por princípio, expulsos da instituição, junto com os homossexuais. Afinal, eles pecam igualmente: gula e luxuria. São, até onde aprendi, pecados de mesmo peso. Mas falemos da cobiça. Uma semana antes do natal, lá estão todos os bons cristãos se entregando ao consumismo desenfreado. Nas calçadas, nossos vorazes consumidores passam por mães e filhos largados à sarjeta, implorando por uma esmola. O que fazem os imaculados cristãos? Os muito culpados jogam moedas e saem dali orgulhosos de tanta bondade. Os menos culpados – porque culpa todos os que fomos criados sob esse manto cristão temos em doses maiores ou menores – se convencem de que o problema não é deles – é um mal social, culpa do Governo (que, diga-se, é sim também culpado). Mas o governo não é o único diabo dessa história. Vilões somos todos, todos os que formamos uma sociedade que se divide em corruptos e corruptores. Mas não temos tempo para ver nada disso porque temos que sair desembestadamente por aí comendo e comprando. A época pede isso. Um verdadeiro bacanal cristão. Fomos criados para acreditar que Jesus existiu e foi casto. Para acreditar no pecado original. Para acreditar que a mulher veio da costela de Adão. Isso entre outras carochinhas. Tudo sem questionar. Questionar é pecado porque pressupõe a negação da mais genial de todas as grandes sacadas cristãs: o conceito da fé. Fé: acredite sem refletir. Acredite sem questionar. Sem sequer pensar a respeito. Simplesmente acredite. Só assim você demonstrará que é um verdadeiro cristão e entrará o reino de Deus. Sim porque sim. Não porque não. Como pode haver vida criativa sem que abandonemos o limitado, sem que questionemos? Como teria Colombo chegado as Américas se não tivesse questionado a retidão do mundo? E Galileu pensado em um sistema regido pelo sol e não pela Terra? Durante quantos anos a escravidão foi verdade absoluta, com selo de qualidade da Igreja? Quem ousou questioná-la? Mas o fato é que eu também sou capaz de ter fé. Fé em que um dia todos nos libertemos do manto limitador do cristianismo. Que questionemos tudo. Que nos aventuremos por mares nunca antes navegados. Que rasguemos a atual cartilha de crenças que nos rege. Que construamos uma sociedade mais justa, mais feminina – sensível e intuitiva – e sem surtos maniqueístas. Que não nos deixemos corromper por dinheiro e poder. Que não corrompamos em nome do dinheiro e do poder. Que, finalmente – como deve ter desejado Jesus, se um dia ele existiu – aprendamos a nos amar e respeitar. Feliz natal? Milly Lacombe escreve aqui aos domingos. O natal é vermelho
De Castelo. Fazia aquele friozão tradicional na Lapônia quando Papai Noel pegou o celular. A ligação era para seu gnomo-auxiliar de confiança: - Alô, Tatix? Dá uma chegadinha aqui em Napapiiri. Preciso de você numa missão especial… Como um raio, o gnomo adentrou na sala de Santa Claus. O bom velhinho não perdeu tempo. - Quero que você vá ao Brasil, fiel amigo. Vasculhe o país, do Oiapoque ao Chuí, se necessário – mas me volte trazendo um esquerdista de verdade. - Esquerdista? – estranhou Tatix. - Fui informado por uma de minhas renas, que o lugar seria um dos poucos onde ainda se acharia essa rara espécime viva. Tatix coçou a cabeça: - Mas por que o senhor precisa de um esquerdista aqui? Uma lágrima rolou pelas róseas bochechas do ancião: - Entra ano, sai ano, e nenhum adulto acredita em mim: dizem que não existo. Quero me aproximar dos meus iguais. Solidarizar-me. Sei lá, coisas da idade... - Seu desejo é uma ordem! – disse Tatix. E se desmaterializou para reaparecer na avenida W-3 em Brasília - disfarçado de executivo. Imediatamente, deu início à busca. Parou numa banca e comprou dezenas de publicações. Depois se sentou num quiosque de ônibus e, com sua visão megablaster eficiente, leu todo o material em poucos minutos. Pronto. Já estava falando Português e tudo sobre esquerdistas estava armazenado em seu hardware. Descobrira que estes usavam barba, bigode, gritavam palavras-de-ordem e se concentravam não muito longe dali. Sem perda de tempo, se picou para o Planalto. - Onde acho um cara chamado Aldo Rebelo? – perguntou ao segurança. - Tá em reunião – respondeu o guarda carrancudo. Tatix já ia se mandando para outro ponto do Distrito Federal – a fim de localizar Oscar Niemeyer - quando saiu de um prédio o esquerdista modelo. Tinha barba grande, usava um terno ensebado e vociferava palavras-de-ordem pelas calçadas da capital. Tatix foi até ele. Cumprimentou-o e, ao tocar sua mão, os dois se desintegraram rumo a Lapônia. Um décimo de segundo depois estavam diante de Santa. O seqüestrado ainda estava tonto quando Papai Noel lhe pespegou uma pergunta: - Ho, ho, ho! Como é seu nome, amigo? O barbudo então deu um berro que fez todas as renas, assustadas, darem coices: - MEU NOME É ENÉAAAASSSSSS!!!!! Castelo é uma fortaleza e tem um site: www.castelorama.com.br Cria muenstros (O criador e a caricatura - 2a. parte)
De Henrique Szklo - Meu caso é grave, doutor? Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e pensa que todo mundo é filho de Papai Noel. Leia seu site, o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. Como é que eu faço?
De Leo Jaime. Estávamos lá, autografando os livros no lançamento, quando resolvi compartilhar uma pequena angústia com uma das minhas parceiras de blog e livro: "Como é que você faz? Escreve a mesma dedicatória pra todo mundo? Fica constrangida com isso?". Até certo ponto, incomoda a possibilidade de um ficar lendo a dedicatória do outro pra ver se escrevemos a mesma coisa. E se for? A amiga disse que a uma certa altura, para ser criativa e fazer algo de muito pessoal para uma pessoa amiga escreveu assim: foda-se! E depois ainda teve que dar explicações. Eu acho que compreendo. E então? Tentamos ser criativos e bolar uma coisa minimamente interessante pra cada um ou dizemos, ou escrevemos, aquele textinho decorado mas eficaz? É uma escolha. Cada um quer uma coisa pessoal e intransferível daqueles segundos em que o encontro se deu. O fato é que estar lá no dia do lançamento e ter a assinatura do autor, ou dos autores, é bacana. Mesmo sem uma dedicatória muito espalhafatosa. Mas já que somos autores, que estamos vendendo nossas habilidades com a palavra, não seria mais correto dar um capricho e escrever um parágrafo ou frase originais para cada um? Pois é. E, vamos supor, sendo cem o número de livros para serem autografados, com cem nomes diferentes e grafias às vezes insondáveis, eu juro!, num prazo de uma hora: como é que fica? Essa mesma indagação já me ocorreu em filas de cumprimento de noivos. Dizemos a eles um rápido e burocrático "sejam felizes" ou elaboramos um breve e intrigante período sobre as peripécias do amor e os augúrios de uma nova família? Pior ainda quando o assunto são as condolências. Dar os pêsames. Aquela fila, a viúva se esvaindo, nosso coração encolhido de compaixão e a dificuldade em escolher palavras que não façam a fila emperrar e nem sejam de uma superficialidade formal que invalide todo o sentimento. O que dizer? Ou, e a questão inicial volta à cena: decoramos uma passagem magnífica e mantemos a frase qual seja o defunto? Deixamos a poesia decorada cumprir nossa missão ou improvisamos? A amiga vem e me apresenta: "essa é minha companheira.". Muito prazer! A companheira sai e eu comento que é legal ela apontar a mulher dela e apresentá-la assim. Alguns amigos gays apresentam os namorados como "amigos". Oras, amigos muitos são e não gozam, perdoe o sentido enviesado, das mesmas intimidades. A amiga aponta seu desconforto com o termo "companheira". Parece coisa de petista. Concordo. Depois de alguma deliberação chegamos à conclusão de que as melhores opções são: essa é minha nega ou essa é minha patroa. Claro que tem tons de diálogo de sambista ou adjacências. O que é melhor. Mas como é que ela apresenta a mulher dela?! Escrever é tentar domar as palavras. Nem sempre domáveis. Leo Jaime escreve no Blônicas todas as quintas-feiras. Quem pensa não casa
De Rosana Hermann. Enquanto não inventarem aquele sistema do filme Matrix de fazer download de conhecimento, aprender será sempre um processo demorado. Leva tempo para cair a ficha, para entender a vida e até interpretar um simples ditado da sabedoria popular. Depois de todos esses anos compreendi uma frase que detestava: quem pensa não casa. A primeira interpretação foi a mais óbvia. Casar deveria ser uma bobagem tão grande que qualquer pessoa com a mínima capacidade de raciocinar ficaria solteiro eternamente. Mas a vida mostrou que a todo instante o desejo de encontrar um par e ter alguém com quem ficar aninhado provava que o instinto humano era pró acasalamento. E o instinto não pode ser tão imbecil assim. E assim, abandonei a vida solitária e comecei a pensar em casar com alguém. A segunda interpretação foi a de que casar deveria ser um ato impulsivo sem grandes requisitos de reflexão. Achei interessante a proposta de casar sem pensar. E assim, fui casando impensadamente pela vida afora. Passados alguns erros e muitas tentativas comecei a suspeitar que o ‘quem pensa não casa’ poderia ser um alerta para o excesso de importância que a civilização dá ao intelecto em detrimento do corpo. E acreditei que, enfim, a proposta fosse a de ter uma vida mais carnal como solução para a vida a dois. Matriculei-me numa academia, passei a fazer atividades físicas cinco vezes por semana, fiz uma dieta de muitas restrições, fiquei magra e linda. E nunca fui tão infeliz na vida conjugal. O tempo passou, construí uma família e uma vida estável, esqueci o provérbio. Até que o insight aconteceu. Depois de uma rara discussão que acabou em briga de casal, com direito a acusações, lista de defeitos e ameaças de rompimento, finalmente entendi que a frase é na verdade, um koan, aquele tipo de proposição zen budista que contém uma verdade inacessível para o intelecto mas compreensível para a intuição e que, ao ser usada na meditação, pode levar a pessoa a iluminar-se. Não sei se me iluminei mas entendi que pensar é o mais solitário e egoísta dos atos humanos enquanto casar é exatamente o oposto, é a idéia de dividir a vida e o afeto com outro ser humano. Pensar é masturbação mental, casar é vida sexual. Pensar é a ante-sala da paranóia, casar é a sala de estar do equilíbrio. Para pensar é preciso ter cérebro, para casar é preciso ter coração. Quem só vive pensando não aprende a conviver, a chave do casamento, um exercício diário de negociação, prática constante da adaptação. Quem não consegue flexibilizar o pensamento, quem não é capaz de abrir mão da teimosia, quem tem dificuldade aceitar o outro, não fica em qualquer tipo de casamento. Porque você pensa sozinho mas casa com o outro. Porque casar é pra fora, pensar é pra dentro.
Rosana Hermann escreve aqui toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. Bilhete suicida de um duende
De Nelson Botter. No momento em que você estiver lendo essa minha carta, Belinha, já devo estar morto. Sim, a decisão de cometer suicídio foi barra pesada, precisou de muita coragem da minha parte, mas é definitiva. Simplesmente não agüento mais. Pois é, Belinha, a única coisa boa que me prendia neste maldito mundo era você, e depois que entrei no almoxarifado da fábrica de empacotamento de presentes e te vi bulinando o Papai Noel de calças arriadas, nada mais me resta. Pior que isso foi saber pelo Willow, em plena bebedeira de fossa lá no bar da rena do nariz vermelho, que não era o primeiro par de chifres que você colocava nesta minha pequenina testa. Ele me contou, Belinha, que você já saiu com metade da Lapônia, que até já fui chifrado com um boneco de neve que vivia se derretendo por você. Agora entendo aquela sua tara por cenouras... E o que fazer numa hora dessas? Comprar uma briga com o mundo ou simplesmente abandoná-lo, tirando meu time de campo e me recolhendo à nítida insignificância do meu nanico ser? Preferi a segunda opção. Então saiba, sua vaquinha, que a culpa de minha morte é sua. É isso aí, você vai carregar na sua consciência pelo resto da vida essa minha decisão. Cada vez que você fechar os olhos na cama com outro duende, ou até mesmo com aquele velho broxa do Papai Noel, vai se lembrar de mim, vai recordar que minha morte foi decorrência desse seu fogo insaciável, esse vulcãozinho que você carrega no meio das perninhas... que delícia! Ah, Belinha, serei o fantasma da sua vida, sua putinha, esse meu desejo nem praga é, já se tornou uma maldição. Prepare-se, pois você terá de conviver com isso para o resto da sua mundana vida. Mas é claro que os motivos que me levam ao suicídio não são relacionados só a você, sua vaca de presépio. Não fique se achando tão importante assim, você é apenas uma pequena parte de toda a minha tragédia. Pior que a sua perversão, só mesmo a triste condição de vida dos duendes. Quanta injustiça! Pra começar, ninguém acredita em duendes. Se nossa autoestima já é baixa por natureza, o que dizer depois dessa constatação? Além disso, não temos inclusão social, só arrumamos emprego na época do natal, ou ajudando aquele velho pederasta do Noel a empacotar e distribuir presentes ou então em shoppings, como ajudante daqueles falsos e patéticos papais noeis, que fedem a cachaça vagabunda, usam aquela barba de algodão amarela toda babada, que já foi utilizada por uns dez outros caras em vinte e oito natais, e aquela roupa vermelha cheia de ácaros, exalando cheiro de naftalina. Tudo isso pra ficar levando cuspe na cara daquelas crianças mimadas que ficam passeando no shopping com as mães que não têm muito o que fazer, a não ser estourar o limite do cartão de crédito. Você sabe, Belinha, ser duende é broca. As pessoas acham que podemos ganhar o suficiente em novembro e dezembro para nos mantermos pelo resto dos meses. Que idiotice! Nem ticket-panetone nós ganhamos. E o transporte coletivo, então? Está o olho da cara a passagem de trenó! E os gastos com roupas? Acham que só porque usamos tamanho PP as nossas vestes são baratas? Esquecem que aqui faz um puta frio e que precisamos usar roupa sobre roupa! E nosso chapeuzinho, que é feito por encomenda? E nosso sapato com a ponta viradinha pra cima, uma fortuna! Quero ver alguém achar isso naquelas lojas de tênis vagabundo ou então nos 1,99 da vida. É, Belinha, sua tratante, minha desgraça é muito mais do que os chifres de alce que você me pôs. Comida nem entra na questão. As renas comem melhor que a gente. Para nós só sobra aqueles doces em forma de bengala, brancos com listas vermelhas. Até bola de árvore de natal já tive que comer pra matar a fome. Você bem deve lembrar que meu primo Patrick morreu com uma estrela entalada na garganta. É o desespero da fome! E me lembro de ver você diversas vezes chupando os bonequinhos do presépio. Aquela sua desculpa de que você estava treinando novas técnicas era só pra disfarçar sua visível fome. É, eu nunca engoli, quer dizer, você também não. Agora você pode entender porque naquelas noites de frio, em nossa cabaninha, antes de usar as cenouras em você, eu sempre comia um pedaço... Nossa, me ocorreu uma coisa agora: como sou burro! Estava tudo tão escancarado na minha rosada cara e eu nunca percebi! Você sempre reclamava que eu tinha pinto pequeno, e eu respondia que eu não podia fazer nada, que duendes são inteiramente pequenos... E aí, sua putana, você dizia que nem todos os duendes eram assim. Estava lá na sua resposta a prova maior de toda a sua traição! Como você poderia saber isso se não tivesse visto vários? Como fui tolo. E como me dói saber que existem duendes de pau grande! Nem nisso tive sorte, puta merda... Entretanto, o que me fez tomar a decisão de cometer suicídio foi te pegar com o bastardo do Noel. Já disse isso, né? Desculpe, é que a eminência da morte me deixa confuso, Belinha, estou atordoado e cada vez que lembro daquela cena dantesca meus sentidos ficam mais confusos. Eu deveria ter desconfiado. Aquele velho traidor me boicotava abertamente! Quando ele me tirou da chefia do departamento de laços e fitilhos eu já deveria ter notado que algo estava acontecendo. E quando fui pedir aumento e ele riu na minha cara: "ho ho ho!". Escrever um bilhete suicida é mais difícil do que eu pensava, a gente vai lembrando das coisas e vai percebendo que é mais idiota do que achava no começo da carta, e aí a vontade de se matar só vai aumentando. Agora vejo o quanto fui ingênuo, o quanto fui prejudicado naquela fábrica. Por isso o traíra do Noel queria me transferir para a filial de Campinas, onde fazem o treinamento dos veados do trenó. Tudo tão claro e eu não vi! No final das contas, se eu me matar vocês vão se dar bem, caminho livre para sua putaria com o velho! E eu pensando que aquele carregamento de Viagra lá no fundo da fábrica fosse pro ridículo do Noel usar com a mamãe Noel, a Dona Nóia... É, vocês planejaram tudo isso, querem se ver livres desse baixinho invocado aqui! Pois saiba, Belinha, que resolvi mudar meus planos enquanto escrevia essas últimas linhas. Agora, enquanto você estiver chegando no final desse bilhete, saiba que já tive tempo suficiente para chegar na casa do velho. Sim, vou matá-lo e você nunca mais terá aquela coisa murcha nas mãos. Vou fazê-lo tomar tanto Viagra de uma vez só que a roupa dele de vermelha vai ficar azul. Pois é, Belinha, minha doce vaquinha, seu castigo será viver com outra culpa, pois saiba que a essas horas o barbudinho já era! De hoje em diante, queridinha, diga a todos que Papai Noel não existe... Nelson Botter escreve aqui de terça e é um dos autores do livro Merreca Christmas, com textos de 14 escritores sobre o lado engraçado do Natal. Mais uma sobre as duas melhores coisas do mundo: a mulher e o garçom
De Xico Sá. Numa mesa de bar, claro. Se não, não teria graça. Eu nem contaria. Confesso que bebi. Deus deveria parar o cronômetro, como um juiz de basquete, quando a vida não tivesse como locações a cama ou o boteco. Mas nada é tão justo assim nesse mundo. Sabemos. Numa mesa de bar. Exterior, calçada, noite. A nega indaga: “Por que será que garçom só decora nome de homem?” A nega é mulher de amigo, Jotabê Medeiros, compadre torcedor do glorioso Santos Futebol Clube. De mulher de amigo também não sei sequer o batismo, o sagrado nome. Vê se pode uma coisa dessas! Garçom só decora nome de homem? Arrisco uma tese, PhD de botequim que me prezo. Com ajuda da amiga Ana Weiss, linda mulher do lado. O bar é minha UFPE, minha universidade católica, meu doutorado da USP, minha filosofia, minha cachaça, minha cátedra, minha nota de rodapé, minha escolástica... Meu bar, meu mar... Desde o “Robertão 70”, onde eu bebia no Recife ao som do Rei e sob às vistas do sósia-proprietário, grande homem. Desde o bode, o arco e a lira, naquele bar do Espinheiro, mesmas plagas, na companhia do lírico-mor, saudoso amigo Jaci Bezerra. A tese, sem mais torresmos mentais: ora, homem confia e trata bem o garçom, faz favor. O garçom é o cúmplice, o ombro amigo, o divã que anda e traz o Freud, o Reich engarrafado. No tempo em que se fazia mais sexo, o chique era Reich, lembram? Mulher contesta o garçom. Mulher é que confere as contas. Mulher é Procom, homem é fraude e festa. Mulher acha que o garçom é aquele quarto árbitro que sempre levanta a placa do acréscimo, na beirada do campo, pedindo mais tempo, mais uma saideira. Seu garçom faça o favor! Mulher é uma praga. E como amo. Mulher mata mais do que coração e varíola. Ainda morro disso, seu Evaldo, garçom-proprietário daquele bode da Encruzilhada, onde monto no White Horse e discuto Blow-Up,o filme, com Luciana Araújo, Hilton Lacerda e Dolores. A vida é 90% inspiração e 10% garçom. Garçom é a encarnação do anjo da guarda dos machos. Garçom mantém o respeito e guarda a sete chaves o batismo das nossas melhores costelas. Num bar, a simples pronúncia do nome de uma mulher já é o maior dos pecados. Ele sabe. E se for mulher dos outros, meu Deus, cem anos de inferno. Não há a menor réstia de machismo, minhas queridas, nessa elipse de gravata borboleta. Não é falha. O garçom não vos chama pelo nome por excesso de zelo, omissão sagrada, amém. Garçom não é dez, é 100%, garçom está acima de homem e mulher, garçom é a ONU da existência, mais uma, faz favor, e pergunta ai ao freguês de lado de quanto o meu time apanhou! Xico Sá é cronista do Blônicas e manda avisar aos amigos do Recife e de Curitiba que todo sábado (Diário de Pernambuco) e domingo (O Estado do Paraná) tem crônica inédita, como esta. Próxima parada será Fortaleza (Diário do Nordeste). Interessados nos serviços do cronista, encomendem o bolo-de-rolo aqui www.brpress.com.br Como escolher um deus
De Edson Aran. Talvez o deus que você esteja usando no momento seja surdo, mudo e nunca o socorra em momentos de real necessidade (“Oh, Poderoso Kahuma, permita que esse seu indigno servo passe o rodo na gostosa do marketing!”). Mas antes de sair por aí cultuando bezerros de ouro, certifique-se de orar à divindade certa. Pedir abundância a um deus da destruição ou chuva a um deus do submundo só vai complicar a sua vida. E tenha sempre em mente que muitas deusas do amor também são deusas da fertilidade. Você até vai passar a vara na gostosa do marketing, mas pode ganhar uma ninhada de mini-marqueteiros de fraldas sujas. Deuses omissos acabam com a fé de qualquer um, mas deuses hiperativos são uma fonte interminável de problemas. Sim, eles atendem às suas preces, mas enchem o saco com arbustos flamejantes, chuvas de fogo, estátuas de sal e anjos batendo na sua porta às três da manhã. Um anjo na sua porta às três da manhã nunca é notícia boa: ou é pra você sacrificar o próprio filho ou o Poderoso Congamonga está de olho na sua mulher. Escolha um deus que você sabe pronunciar o nome. Se você não consegue dizer “Quetzalcoalt”, arrume outra divindade ou seus rituais vão ficar ridículos. “Seu indigno lacaio o saúda, oh grande Qeatlz... Quoatlz... Qwertyuoip...ah, foda-se!” Deuses são caprichosos e exclusivistas. Tenha muito cuidado com deidades ególatras que se acreditam únicas, permitem apenas o monoteísmo e punem os faltosos com enchentes de rãs e terremotos de gafanhotos. Se puder optar, prefira o politeísmo. Se não puder, experimente pelo menos o catolicismo. Deuses onipresentes são como parentes chatos que nunca vão embora. Deuses oniscientes são como vizinhos bisbilhoteiros que não têm o que fazer. Deuses onipotentes são como argentinos: pensam que são grande coisa, mas é só pretensão e água benta. Deuses nórdicos são ok, mas você terá de enfrentar e matar de dois a seis gigantes por dia para manter o panteão feliz. Além disso, os nórdicos são obcecados por martelos, ragnaroks e brigas de rua. São uma espécie de Gaviões da Fiel no mundo dos deuses. Deuses gregos são muito mais divertidos, mas tenha cuidado. Se você for mulher, não dê mole para cisnes tarados, por mais sedutores que eles pareçam. Você pode acabar mãe de um semi-deus e eles dão sempre muito trabalho. Doze, na média. Cuidado com deuses que têm caras de elefante. Onde eles pisam não nasce na grama. Deuses de muitos braços nunca dão o braço a torcer. Deuses incorpóreos são os primeiros a tirar o corpo fora. Deuses do vinho são ótimos, mas te deixam em péssimo estado na manhã seguinte. E lembre-se: deuses que exigem sacrifícios humanos prometem mundos e fundos, mas nunca explicam como esconder os corpos. Edson Aran é cronista do Blônicas. Visite seu site. Eu divido tudo
De Milly Lacombe. Eu divido tudo: cama, jornal, livro, guarda-roupa e até mulher se for para o bem de todos. Mas tem uma coisa que, no meu mundo, é indivisível: comida. Desde pequena. Quando tinha dois anos, assim conta a matriarca, e vinham me roubar um gole de alguma coisa eu categoricamente negava. Odeio o som das palavras "Posso dar um gole?", "posso dar uma mordida?", "posso experimentar?". O diabo é que, em certas situações, a pergunta é imediatamente seguida do gole ou da dentada e aí não há mais nada a fazer a não ser abandonar o que se estava comendo. Por que você é assim?, perguntou a matriarca durante toda minha infância e adolescência. A pergunta, naturalmente, tinha intenções mais profundas do que saber os motivos pelos quais eu me negava a compartilhar alimentos. E, da forma como deveria ser ouvida, era: "Por que você é assim esquisita, minha filha? Onde foi que eu errei?". Hoje, me vendo falar sobre homossexualiade der forma pública, minha mãe deve achar que se minhas esquisitices tivessem ficado restritas a fúria em proteger o alimento isso teria sido uma verdadeira bênção. Como, durante os primeiros anos de minha vida, só me deparei com pessoas que davam goles e mordidas sem ver nisso qualquer problema, incluindo nessa lista meus três irmãos, acabei achando que essa minha característica, por mais que me parecesse a correta, era de fato esquisita. No recreio era um tal de dentada pra cá, gole pra lá que eu comecei a querer ser como eles. E, num certo dia, disse a mim mesma que, se alguém me pedisse gole ou mordida, eu daria. Dei. E joguei o sanduíche fora na sequência. Era mais forte do que a vontade de ser igual. Por causa desse incorrigível nojo pela saliva alheia sempre soube que só seria dentista se minha vida dependesse disso. Não há como, no meu mundo, alguém optar, voluntariamente, sem que sua vida esteja sendo ameaçada, por ganhar dinheiro metendo a mão na boca dos outros. Nesse meu mundo encantado, dentistas, só com recrutamento forçado. Mas também, por causa dessa minha nobre esquisitice, não me imaginava beijando um outro ser humano. Por isso, quando Flávio, na quarta-série, me agarrou atrás do armário, corri como uma besta enfurecida. O menino, onde já se viu, queria grudar a boca dele na minha. Se gole e mordida estavam fora de cogitação, trocar saliva era ocorrência inimaginável. Acabamos, é verdade, namorando. Mas, beijo, beijo, não me lembro de ter dado. Tudo mudou quando, aos 16 anos, beijei uma outra mulher. Foi nesse dia, na tarde de 12 de dezembro de 1983, que perdi definitivamente o nojo pela saliva alheia. E descobri que não há no mundo sensação igual a essa do beijo demorado e apaixonado na pessoa amada. Não há, para dizer a verdade, lugar mais confortável e aconchegante do que esse para onde nossa alma é enviada durante um beijo movido por amor. Ainda assim, gole e mordida eu não dou. Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol. Nova Iorque - MA
De Castelo. Veio para São Paulo, com filho e marido do Maranhão. Tinham perdido o patrimônio por causa da seca. Ao chegar, pegou as economias - que trouxera costurada na calcinha - e foi depositá-las no banco. Muito tímida, colocou o RG no balcão. Um atendente passou, pegou a identidade, e falou, com naturalidade, em voz alta: – Nova Iorque – MA? Ela tinha sido nascida e criada numa cidade maranhense que é xará da Big Apple. E mal sabia a confusão que isso ia dar. Logo depois chega o gerente. Disse, num sotaque macarrônico: – What can I do for you? Avexou-se com aquilo. Como é que falavam em inglês com ela, uma criatura tão evidentemente pindoramense. Indagou ao gerente se havia algum erro. Ele: – Ah, fala tão bem o Português… Insistiu: – Moço, olhe aqui, eu sou brasileira! E da gema! Ele, já quase gritando: – Mas está escrito aqui no seu documento: a senhora nasceu em Nova Iorque – MA! – e MA quer dizer MASSACHUSSETS!!! Ligou chorando para o marido. Quando ele chegou, a mulher estava com o mapa-múndi aberto sobre a mesa, e ainda teimava. – Fica aqui, pertinho de Pastos Bons! O gerente não se conformava: – Fica no Hemisfério Norte! Foi assim durante horas. Até que resolveram guardar o dinheiro em casa mesmo. Castelo ( www.castelorama.com.br) é uma espécie de palácio e visita Nova Iorque, no Maranhão, a convite de sua avó.Papai Noel filho da puta
De Henrique Szklo Querido Papai Noel: A minha mãe mandou escrever esta cartinha para o senhor, mas eu devo confessar que foi contra a minha vontade. Ela me obrigou, aquela chata. Eu disse pra ela que não acreditava no senhor e ela quase me bateu. Eu disse, então, que na melhor da hipóteses, o senhor era um filho da puta sem tamanho, já que nunca trouxe nada do que eu pedi. Durante anos fui um menino exemplar, só tirava nota boa. Eu era o mais bonzinho da classe e o mais simpático do bairro. Todo mundo gostava muito de mim. E me pergunta se adiantava alguma coisa. É claro que não e o senhor sabe muito bem, como um filho da puta que é. E todo ano era a mesma coisa: muita bondade, muita educação, muita disciplina, mas presente que é bom, nada. Cansei de escrever cartinhas pro senhor contando como fui um bom menino e prometendo melhorar sempre. No final, como de praxe, eu fazia uma pequena lista de presentes que gostaria de ganhar. Nada muito oneroso, nada que um Papai Noel de classe média não pudesse comprar. Nada que um filho da puta de classe média não tivesse condições de adquirir. E, o senhor sabe muito bem, jamais recebi nenhum destes presentes. Nadinha! Zero! Que bom velhinho, que nada! É um bom filho da puta, isso sim! Na verdade, se eu fosse o senhor, preferia mesmo não existir. Porque, do contrário, não sobreviveria cinco minutos lá na minha quebrada. O que tem de neguinho querendo pegar o senhor de pau não é brincadeira. Seu nome tá bem sujo por lá, viu, seu filho duma puta! Aliás pra mim o senhor é boiola. Fica só sentado colocando a molecada no colo. Eu, hein? Se a polícia investigasse sua vida, garanto que ia descobrir que o senhor é um pedófilo nojento. Nojento e filho da puta. E bebum, ainda por cima. É, porque essas bochechinhas vermelhinhas e essa cara de bobo alegre nunca me enganaram. Pensa bem: quem em sã consciência sairia por aí com essa roupinha ridícula, parecendo uma cereja gigante com chantili? Só se estiver mamado, não é não, hein, seu filho de uma puta? E essa barriga indecente? Chega a ser uma afronta num país onde tanta gente morre de fome. Mas o senhor não tá muito preocupado com esse pessoal não, né? O seu negócio é aparecer na televisão, todo metido a besta. Se achando artista de novela, fazendo comercial de tudo quanto é shopping center. Pensa que eu não sei que é tudo mentira? Me disseram até que quem inventou o senhor foi a Coca-Cola. Não me espantou nada, afinal, pra mim o senhor não passa de um arroto. Um arroto filho da puta. Mas, fala a verdade, Papai Noel: o senhor não se incomoda nem um pouco em ser tão filho da puta? Não mexe com seu orgulho, sua auto-estima? Eu, se fosse metade do filho da puta que o senhor é já teria me matado. E enforcado aquelas renas boiolinhas antes. Mas voltando ao assunto, a minha mãe mandou eu escrever esta cartinha pro senhor pra dizer que eu fui um bom menino este ano e queria ganhar de presente a diminuição da minha pena aqui na detenção. Mas como eu sei que o senhor é um grandessíssimo filho da puta, se bobear, a pena até aumenta. Bem, já fiz o que minha mãe pediu, agora o senhor pode pegar esta cartinha e enfiar no cu. E um Feliz Natal pro senhor. Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e pensa que todo mundo é filho de Papai Noel. Leia seu site, o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. De que lado você fica?
De Leo Jaime. Vamos supor que em sua rua tenha um supermercado e que você faça suas compras lá, regularmente. Já cumprimenta os funcionários, conhece as prateleiras, sabe que o preço não é o melhor mas como é próximo e tem bons produtos é um cliente fiel. Fiel até ser surpreendido com a notícia, espalhada aos quatro cantos do planeta, de que o gerente da loja resolveu tocar fogo em uma família de mendigos que tinha se mudado para a marquise do supermercado dias atrás. Pois é, todo mundo dormindo ele chega, sorrateiro, joga gasolina nos cobertores e ateia fogo, fazendo um churrasco daquela família que, aos olhos de todos, exibia sua miséria ali, de forma inconveniente, incomodando os usuários e espantando a freguesia. Isso mesmo, você não era a favor daquela família residir na frente daquela loja mas ficou horrorizado, com justiça, com a medida escabrosa que o seu gerente arranjou pra resolver o assunto. Qual sua atitude? Espera que a lei seja cumprida e nunca mais volta no supermercado? Provavelmente. Mas, afinal, o erro foi do gerente ou da empresa? Será que a empresa merece perder o cliente por ter tido um gerente maluco que tomou uma atitude criminosa por conta própria? Você pode nem querer saber. Mais provável é o supermercado predileto da vizinhança fechar as portas vendendo a loja para uma grande rede. O consumidor costuma ser radical nestes casos. Ainda mais quando é um caso desta gravidade, envolvendo assassinatos de crianças de forma tão hedionda. Nada na história acima parece irregular, nem mesmo o exagero que parece ser culpar o CNPJ de uma empresa por um erro pontual e imprevisível de um funcionário. Vamos agora transferir a mesma situação para a realidade carioca e tentar compreender um dilema que lá se estabelece e que aqui será exposto. São muitos os entorpecentes, a maioria deles liberada e fabricada por laboratórios confiáveis ou fábricas vigiadas e controladas pelo serviço de saúde pública. Álcool incluído, em suas milhares de formulações. Vamos, porém, admitir que o seu favorito, o que você gosta de usar, não esteja na lista. Digamos que você prefere ficar mutcho loco com algum bagulho fabricado por pessoas honestíssimas e muito criteriosas com relação a métodos de higiene e controle de qualidade. Que este seu bagulho costuma ser transportado com muito carinho por pessoas igualmente ciosas, muitas vezes em suas cavidades mais íntimas, e que estes portadores tenham por hábito acrescentar com generosidade substâncias que visam enriquecer o mesmo bagulho, tão sagradas que a este ato se dá o nome de batismo. Diante de tudo o que aí se apresenta é naturalíssimo que você tenha a mais cega confiança no produto e em quem o serve. Eu compreendo: o bagulho não tem a função de alterar o estado de consciência? Quem disse que é pra melhor? Quem sou eu pra julgar? Vá lá! Você tem a maior confiança no seu vapor e na origem do bagulho "dubão" que ele costuma trazer em sua casa. Ou é você que passa no barraco dele pra buscar? O que importa? Ai acontece a surpresa: aquele pessoal de índole sem jaça está com todas as digitais impressas na autoria de um crime bárbaro. O cara que vende seu bagulho é funcionário de uma boca que mandou queimar um ônibus com todos os passageiros dentro vivos, incluindo criancinhas. Não me pergunte o porquê de achar que o fato de ter criancinhas faz este churrasco humano mais bestial. Eu apenas reservo-me ao direito de achar que crianças de dois anos, viajando com a mamãe de ônibus, são menos hábeis para lutar pela própria vida diante da surpresa terrorista desta natureza. Pois é. O seu gerente mandou tostar o ônibus sem permitir que ninguém saísse de dentro. Um colega do cara que você recebe em sua sala ficou lá, impedindo que o pessoal escapasse à morte horrorosa. Um ou mais. Vai ver ele mesmo estava lá. E agora? Você deixa de comprar bagulho com ele e vai comprar com aquele pessoal que assou o jornalista com os pneus em volta do corpo? Talvez você prefira tentar compreender que todo mundo perde mesmo a cabeça um dia e que, pô, os traficantes são muito perseguidos: qualquer um faria a mesma coisa se estivesse no lugar deles. É provavelmente você vai indagar, em meio ao consumo de uma presença dada pelo seu vapor, que ele passou da conta desta vez mas que não deixa de ser um cara super gente fina. E que o bagulho dele é bom e não vem malhado. A sociedade do Rio tem feito suas escolhas. Tem que fazer. Em todas as cidades grandes, corrompidas pelo crime organizado, a escolha é proposta cotidianamente: de que lado você fica? Com tanto jeito de alterar seus estados de consciência sem comprar nada de bandido você vai continuar fazendo questão do bagulho produzido pelos criminosos? Já lhe ocorreu que os lugares em que há maior injustiça social no planeta sejam exatamente os grandes centros de produção e escoamento de drogas? Seu traficante queima criancinhas vivas e você continua comprando bagulho dele como se nada houvesse? Você compreende? Acha um absurdo, mas nem por isso vai deixar de ficar doidão do mesmo alucinógeno ilícito? Neste caso, caro leitor, só posso dizer uma coisa: tomara que o próximo bebê assado por um destes animais seja filho seu e não de alguém que, como eu, sabe muito bem de que lado está. Do outro. Não dou um centavo em mão de bandido. Não alimento a corrupção. Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. Eu, mulher
De Rosana Hermann. Uma mulher não é um mistério, é uma confusão. E aproveito a ocasião para mandar o Freud à merda. Por causa dele não se pode falar de mulher sem que alguém na rodinha mencione alguma coisa sobre histeria, inveja do pênis ou a dificuldade de compreender a fêmea humana. E, por favor, a menos que você queira ir no lugar dele, não tente me convencer sobre a genialidade de Freud neste momento. Depois eu mudo de idéia. Agora eu quero que o Freud se foda. Uma mulher não é um flor, é uma couve-flor. Carnuda, comestível e, para alguns, indigesta. E, sim, já notei, a analogia não presta, porque mulher se come crua e couve-flor, cozida. Mas dane-se, a coerência não é a primeira das virtudes femininas. E assim é: quando a gente acerta é por ser mulher e quando erra é porque somos humanas. E quer saber, quer comer couve-flor crua, que coma. Estou de tpm. Uma mulher não é um avião, é uma caixa-preta; não é uma equação é uma função de muitas variáveis. Pra mulher, tudo depende. De tudo. Um homem pode ficar a fim de uma mulher e imediatamente querer comê-la. A mulher pode estar com o mesmo tesão, a mesma vontade e, ainda assim, não ir para a cama naquele dia por motivos que qualquer homem consideraria como torpes, com requintes de crueldade. A calcinha pode não estar combinando com o sutiã ou simplesmente, pode não ser a calcinha certa; o sutiã pode estar um pouco velho; o jeans pode deixar uma marquinha indesejável na cintura; ela pode estar se sentindo inchada naquele instante; pode estar encanada com a falta de uma meia depilação na virilha; um neurônio pode estar avisando que a escova se desmancharia no travesseiro, escova esta que precisa estar inteira na manhã seguinte para um compromisso. A mulher sabe que esses detalhes podem impedir que ela goze bem. Porque gozar bem requer uma cabeça vazia de preocupações. Gozar é entregar-se à maravilhosa pororoca do tudo com o nada. Há homens que já vão logo sodomizando a mulher na esperança de que a truculência rasgue todas as agendas femininas de uma vez. Pode ser que funcione e crie dependência. Pode ser que a mulher fique com ódio e não volte nunca mais. Mas não é estuprando a couve-flor ou esmagando a caixa-preta que o homem vai decifrar a complexidade de uma mulher. O perigo das fantasias sexuais
De Nelson Botter. Se achavam um casal moderninho de namorados, desses que fazem de tudo para manter as chamas da paixão e do tesão acesas. Kama Sutra na cabeceira da cama, revistas femininas sobre duzentas e tantas maneiras de enlouquecer seu parceiro, últimas novidades do Sex Shop, transas em lugares públicos, gelzinho comestível, contos do Marquês de Sade, loucuras e sacanagens a todo momento,etc. Ele até se vestiu de Zorro certa vez... Vale dizer que desde o início eles fizeram um acordo, tipo um contrato, em que ambos teriam de satisfazer as fantasias sexuais do outro. Fariam uma lista e apresentariam uma fantasia de cada vez, toda sexta-feira. Não havia regras, quer dizer, quase. Só tinha uma coisa: ambos deviam concordar. Daí por diante foi um festival de prazer: piscina, elevador, carro em movimento, parado, lava-rápido, cozinha, banheiro, cama dos pais, laje, sítio, escritório, escada, varanda, em frente à lareira, enfim, tudo que se pode imaginar. Até numa pequena viagem do Rio para São Paulo eles arriscaram o banheiro do avião, mas não deu muito certo, pois quando pousaram ainda estavam nas preliminares e pra terminar tudo teriam de seguir viagem para Brasília (aliás, onde a sacanagem rola solta). Todavia, com o tempo as coisas a dois começaram a perder um pouco a graça e um ménage com uma amiga dela acabou rolando naturalmente, sem que houvessem planejado, bem casual, numa viagem. Não deu três semanas, ela pediu o contrário, os dois com um outro cara. Ele relutou muito, mas depois dela ameaçar terminar o namoro e outras chantagens mais que só as mulheres sabem fazer, ele cedeu... e até gostou, tanto que ela ficou muito brava, pois por várias vezes foi esquecida de lado e só ficou assistindo os dois machões se atracando. Terrivelmente decepcionante pra ela, foram meses de terapia para superar a cena. Desde então, acharam melhor não mais envolver terceiros em suas fantasias, ou seja, fecharam a S/A e voltaram para a Ltda. Lá foram novamente para as delícias a dois, um remake em que a cumplicidade e a intimidade do casal estava a mil. Até que numa sexta-feira, como de costume, ela propôs uma fantasia e ele respondeu com um sonoro: "Nem fodeeendooooo!". O brilho no olhar dela se apagou rapidamente com aquela resposta, pois nunca esperava aquilo do namorado. Tudo ia tão bem... "Mas por que não, amor?", ela ainda insistiu. Ele, transtornado, pegou suas coisas e foi embora, sendo seguido até a rua. "Não tenho dinheiro pra isso, você enlouqueceu!", ele gritava. A mocinha ainda sustentou a idéia de que ele não pagaria sozinho, poderiam rachar as despesas, mas o rapaz foi irredutível: "Até com homem já transei para te fazer feliz (sic), mas não me peça isso... Agora você foi longe demais, acho melhor darmos um tempo". Enquanto ele partia, ela sentou-se na calçada, desolada, sem entender direito a reação do namorado. Tudo aquilo só porque ela propôs transar vestida de noiva. O aluguel do vestido nem era tão caro assim, ela pagaria metade, eles teriam dinheiro pra realizar essa fantasia. Se fosse o caso ela até pagaria sozinha... Então, de súbito, percebeu o que havia ocorrido: ela não tinha dito que não precisavam casar, que era apenas alugar o vestido! Era isso, bastava ir até ele e explicar direito a fantasia, falar que não era um casamento real, que ele não precisava se assustar daquela maneira. Entretanto, levantou-se e foi embora, certa de que nunca mais o veria, afinal, ela tinha prioridades e continuar com aquele filho da puta nitidamente significava ficar para titia pro resto da vida. Ah, nem fodeeendooooo! Nelson Botter escreve aqui no Blônicas e do BlogGol. Festa de firma é um perigo
De Xico Sá. Meninos e meninas, nos meus tantos anos de carteira assinada, já vi de tudo em festa de firma. É um capítulo à parte da nossa existência sob o domínio das 365 folhinhas do calendário. Xico Sá escreve no Blônicas toda segunda-feira. Coragem da ignorância
De Milly Lacombe. O motoqueiro passou zunido do lado direito do meu carro e levou com ele meu espelho retrovisor. Eram oito e meia da manhã, eu parada no trânsito diabólico da 23 de maio, com o habitual mau-humor das oito e meia da manhã. Porque oito e meia da manhã, para quem tenta ganhar a vida escrevendo, é madrugada. Foi, portanto, o que bastou para que eu me armasse do que meu pai chamaria de a coragem da ignorância e resolvesse ir atrás do motoqueiro. Desafiando as leis da física, fui metendo meu carro numa faixa imaginária, entre as faixas reais, buzinando feito uma mulher histérica (que de fato eu, naquele momento, era) e pedindo passagem como se se tratasse de um caso de vida ou morte. Mais para morte do que para vida. E eis que eu vejo o motoqueiro saindo da 23, indo em direção à rua Tutóia. E eu, já completamente fora do meu caminho e guiada por uma fúria cega, em minha perseguição implacável, agora xingada por uma horda de motoristas que se sentiam ofendidos quando eu enfiava meu carro milimetricamente entre os deles e os dos vizinhos. Paciência. Eu precisava ir fazer justiça. Dois faróis adiante, consegui alcançar o desgraçado. Encostei na moto dele e, sem pensar, abri meu vidro e disse: - Ô folgado, coloca meu espelhinho no lugar. - Eu hein. - Foi você que fez isso com ele, folgado. Devolve ele pro lugar, anda! - Faz isso você! - Não tá vendo que eu não alcanço, ô otário. Você tá ao lado dele, e foi você que fez essa palhaçada com ele. Coloca, vamô! Essa tal coragem da ignorância, quando bate, é o diabo. Pois o rapaz, agora já nos mesmo níveis de ódio em que eu me encontrava, tirou o capacete e grudou os olhos nos meus. Nessa hora, e só nessa hora, a coragem da ignorância finalmente me abandonou. E agora éramos, naquele duelo regado a buzinas de automóveis enfurecidos, que mandavam com que saíssemos do caminho imediatamente, apenas eu, em pânico e trazida de volta à realidade, e ele, senhor de seus domínios e pronto para me fazer virar moela. Tentei acelerar, mas meus pés já não me obedeciam. E foi sob esse manto de covardia que eu vi o rapaz, alheio ao buzinaço, desligar a moto, baixar o cavalete, apoiá-lo no asfalto, colocar o capecete muito calmamente no assento e vir na direção do meu carro. Ele parou na janela do passageiro, colocou a cabeça dentro do meu carro e disse: - Pois não, madame. Fez isso, ajeitou o espelinho, deu uma piscadinha, voltou para sua moto e foi embora. E eu fiquei ali, atônita, tentando calcular se aquele episódio tinha valido a pena. Meu espelhinho, a bem da verdade, estava no lugar. A perseguição, outra verdade, tinha sido memorável. Ter olhado dentro dos olhos do motoqueiro, uma classe de gente que normalmente não tem face, foi também uma lição. Claro, eu poderia ter morrido, mas, como diz o Severino, que trabalha no meu prédio, pra morrer basta estar vivo. Então, feitas as contas, estava tudo certo. Como escreveu Pessoa, tudo vale a pena se a alma não é pequena. E, depois da aventura, ainda fiquei com o troco: eram oito e quarenta da manhã e eu estava totalmente acordada. Milly Lacombe escreve aqui aos domingos e também no BlogGol. Era só o que faltava
De Castelo. Velhacarias, trambiques, maracutaias, baixarias, mentiras,
cafajestagens. …EM CASA - Pode vir, Noeli, vem… …NO ESCRITÓRIO - Dona Estela, sabe aquela máquina copiadora nova que o doutor Braga mandou
instalar no corredor? …NO DENTISTA - Acabou a pilha da lanterninha. Mas dá pra acabar o serviço. Vamos só tentar
de novo, aqui pelo lado. …NA CAMA - Sabe de uma coisa. Nunca é tarde pra gente descobrir que o amor - me refiro
ao amor físico - pode ser sublime, espiritual. Apesar do lado material dele:
carne, osso, músculo, sabe? Castelo é uma casa grande e tem um site: www.castelorama.com.br O criador e a caricatura
De Henrique Szklo
– Igor, Igor, venha cá. Olhe só, acabei de criar o homem perfeito. «««»»» - E então, querida baronesa? O que achastes? «««»»» - Vejo que o nobre colega, conde de Stupidstein, torceu seu eminente nariz diante de tão inusitado feito científico. «««»»» - Meu filho. «««»»» - Quem é o senhor? Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e às vezes fica de quatro. Leia seu site, o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. Mau
De Leo Jaime. Não sou adivinho mas tenho certeza absoluta que daqui a um mês vai estourar nas rádios do mundo todo uma música americana, mais precisamente um hip-hop, com uma melodia tipicamente árabe. Os caras que vão cantar essa música têm uma ficha longa na polícia e se orgulham muito do tempo em que passaram na cadeia. Dizem que aprenderam a ser homens lá. Ah, eles chamam todas as mulheres, e alguns homens, de cachorra. O pior é que as mulheres com quem eles andam gostam. Depois do evento de 11 de setembro, em que alguns árabes derrubaram com canivetes o maior símbolo fálico americano, num gesto de ameaça de vingança, o povo americano começou a fingir que sabe que existem árabes no mundo. Começaram a samplear batidas, melodias e incluir alguns raps. Claro, o objetivo é ser mau e dar um toque do inimigo em seu balanço é uma óbvia alusão ao desejo de transgredir. Transgressão, aliás, é a fórmula, a receita milagrosa do sucesso. Levando-se em conta que o mercado hip-hop é responsável por mais de 40% da fatura milionária do mercado do disco americano, é óbvio que é a bola da vez. É a situação. No entanto, a situação, o mainstream nunca se fantasiou tanto de alternativo e transgressivo, perdendo até a noção das coisas. Um dia desses eu via o Chris Rock, ator negro, sacaneando os letristas de hip-hop em um stand-up comedy exibido na HBO. Ele falava de uma letra em que o cara dizia que as bolas dele estavam pingando de tão suadas, óbvio, de tanto comer a cachorra. Realmente, a imagem é muito desagradável: suor pingando das bolas do saco não parece um refrão tão interessante assim para uma canção. Mas, sabe como é, não se pode perder a fama de mau. Ser mau caráter, desonesto, porra-louca não necessariamente fazem de alguém um transgressor no sentido " antena da raça " que conferiam aos gênios que estavam à frente do seu tempo. Do mesmo modo que se entupirmos de heroína um cara que toca mal violão ele não vira o Jimmy Hendrix. Será que o povo sabe disso? Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. Ficou claro?
De Rosana Hermann. A assessora de imprensa envia um email convidando a todos para o lançamento do livro, já que este será o último do ano da editora . Recebe uma chuva de respostas indignadas perguntando por que a editora vai fechar. Ela responde novamente para toda a lista dizendo que é o último DO ano da editora e não O último ano da editora. Agora sim, todo mundo compreende. A leitora chama a blogueira pelo MSN, marcada como ocupada. A blogueira diz que está escrevendo uma crônica, que não pode conversar. A leitora insiste, diz que é rapidinho. A blogueira pede por favor, porque está no meio de um texto e a janela fica piscando, o que dificulta o trabalho. A leitora pede pra que a blogueira responda pelo MSN quando acabar o texto. A blogueira manda a última tela explicando que a leitora pode mandar um email, comunicação não-instantânea que a pessoa pode ler quando puder. A leitora finalmente entende. A overdose de informação está matando a capacidade de discernimento. A pressa é inimiga do conhecimento. E cada vez as pessoas entendem menos o que estão lendo. Ou vendo. Ou simplesmente não conseguem pensar em nada além daquilo que elas querem, desejam, sentem. Voltamos à teoria egocêntrica da criação do mundo. Para não correr riscos de interpretações errôneas a mídia cada vez mais passa a tratar o consumidor como um idiota, Talvez, estejamos mesmo emburrecendo, como previam os Titãs na letra de “Televisão”. Para reduzir tudo a uma plataforma compreensível os assuntos são transformados no formato de partidas de futebol, casa contra visitante. É só pegar uma notícia qualquer, definir o personagem principal e achar seu oponente. Hoje, podemos acompanhar, por exemplo, partidas como William Bonner X Homer Simpson, Paulo Autran X Gilberto Gil, Vesgo X Netinho, Bang Bang X Prova de Amor, Athina e Doda contra fotógrafos, Cléo Pires X Meningite, Vaticano X Daniela Mercury, ONGs X João Kleber, Diogo Mainardi contra o mundo e o povo contra Larry Flint. Se faltar assunto, o que é raro, é só falar de Gerald Thomas: ele é contra tudo e todo mundo é contra ele. Se alguém tentar entrevistá-lo ao vivo, ele tira a roupa e mostra com quantos centímetros de faz um yellow submarine. Facinho. Mas, de todos, o Superpop-up é o melhor exemplo maniqueísta desta redução. Toda noite tem uma ex- contra um marido, uma dançarina contra um tchan, uma garota de programa contra o preconceito. Aqui em casa, a partida sempre termina com a vitória do controle remoto. Coincidências à parte
De Nelson Botter. - Acabo de ler uma frase que dizia não existir coincidências. Porra, como assim não existe? Como pode? Se for verdade, pra que existe essa tal palavra "coincidência"? Será apenas uma mera coincidência a palavra "coincidência" existir? Nelson Botter escreve aqui todas as terças e também no BlogGol. O que querem as revistas femininas?
De Xico Sá. As revistas femininas muitas vezes nos assustam, amedrontam ou simplesmente nos afrouxam a mais irônica das gargalhadas. Ando viciado nelas. A patroa já não agüenta mais me ver fugindo com a sua pilha de almanaques para o banheiro. Xico Sá acaba de lançar "Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias. Folheadas de graça e vendas aqui www.editoradobispo.com.br Papo com taxista
De Milly Lacombe.
Papo com taxista, quando não é sobre o tempo, é bom. E esse não seria diferente. Quem começa é ele, porque eu raramente começo (ou termino) alguma coisa na vida. - Esse Dirceu sem vergonha foi cassado, viu só? Arrisquei, porque o homem podia ser membro da Independente e aí eu ia entrar numa boa. Mas prudência nunca foi meu forte, então, vá lá. - Tem toda a razão. Agora, cá entre nós, precisava o Lula ser corintiano? Ô desgraça. E sai ele na foto com a camisa do Corinthians, dá entrevista falando do Corinthians ... esse homem vai acabar com a gente.
Milly Lacombe escreve aqui e no BlogGol. O passaralho
De Castelo. - Ó lá! Castelo é www.castelorama.com.br Quatro textículos
De Henrique Szklo A carne é fraca Nunca fui Santa Sorte na política Tudo culpa da mardita Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e às vezes fica de quatro. Leia seu site, o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. Só Deus sabe...
De Paulo Castro. Começou com falta de ar. Sou meio boiola, justo, suspeitei que fosse algo, como é que se diz, "psicossomático". Tipos, era só deitar que começava o sufoco, e isso bem que Freud poderia explicar: a reação seria uma conversão física de um bloqueio de ordem sexual, possivelmente indicativo de núcleos estruturais histéricos. Como eu já disse, viadagem. Paulo Castro é cronista do Blônicas e ainda vai escrever por muitas décadas neste planeta. |