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A copa e os clichês
De Rosana Hermann. A linha de raciocínio mais trivial da criatividade é a livre associação de idéias. Se fizéssemos um teste para gerar piadas usando o termo 'copa', quase cem por cento faria a primeira graça associando 'copa' a 'cozinha'. Nesta época, em reuniões profissionais de criação, sempre tem uma meia dúzia de voluntários não solicitados que dão esta mesma sugestão, a de gravar boletins da copa numa cozinha, com o entusiasmo infantil de quem supõe que ninguém mais tenha pensado nisso. Nesta copa o fator Alemanha agrava a situação das associações-clichê. Os mesmos bem-intencionados, que só conhecem o caminho associativo, seguem pelas mesmas trilhas batidas e chegam aos mesmos lugares-comuns, como cerveja, chopp, salsicha, salsichão, chucrute e eisbein. É como se a pessoa abrisse a gavetinha 'Alemanha' em sua cabeça e fosse jogando pra fora tudo o que ela já guardou ali. Não é elaboração, idéia, propriamente dita. É só uma faxina. Ali fica ela, como uma criança, brincando com o óbvio, jogando brinquedos pra fora da caixa. "Tive uma idéia!! Por que vocês não fazem uma matéria mostrando um monte de salsichas?? Hahahaha! Muito engraçado!" E, claro, se alguém mostrar uma única salsicha durante a copa ela terá a certeza de que sua idéia brilhante e original foi copiada e não creditada. (Aqui, vale uma pausa: há idéias que são, de fato, originais e que acabam sendo copiadas; mas estas não são as mais óbvias, decorrentes de associações diretas. Pelo menos as dez primeiras coisas que pensamos serão aquelas que todos pensarão e o melhor é jogá-las fora, exatamente como as primeiras folhas que envolvem o pé-de-alface.) Junto com a culinária alemã as idéias mais recorrentes dizem respeito à indumentária (sandálias com meias, por exemplo), os suvacos femininos não depilados (comuns na Europa), as danças típicas. A língua, então, é uma festa. Centenas de jornalistas que querem mostrar suas aptidões lingüísticas já estão revelando seus guten tags e guten morgens pelas rádios e tvs. Alguns já chegaram ao 'ich spreche kein Deutsch", talvez o mais útil de todos. É incrível mas momentos coletivos como a copa do mundo revelam que somos todos muito parecidos. Numa recente reunião, a associação evidente também mostrou-se presente no sentido inverso, com a idéia de mostrar o Brasil para o alemão. Gente bacana e entusiasmada sugeriu coisas 'impensáveis' como fazer uma feijoada para os alemães, botar umas gostosas sambando e, como é junho, fazer uma festa junina. Aproveitei para lembrar que dia 13, primeiro jogo do Brasil, é dia de Santo Antonio casamenteiro, coisa que ninguém sabe também. O mais curioso, no entanto, ainda está por vir: no fundo, nessas ocasiões, o que o telespectador deseja é isso mesmo, ver o óbvio representado na mídia. Ele aceita uma ou outra idéia que o surpreenda mas o grosso do que ele quer ver é o que ele próprio pensaria ou faria. Hoje, a TV não serve apenas para informar ou entreter mas para dar vazão ao desejo popular de estar na tela. Quem é que, afinal, não queria estar na copa? Gritando "Traz o Hexa Brasil"? E assim, os que não primam pela originalidade, os que simplesmente mostram a salsicha que o cidadão pensaria em mostrar, os que vão lá e dançam com a vassoura numa festa alemã, acabam agradando o sujeito da poltrona com a cerveja na mão. Eu não me surpreenderia se os índices mais altos de audiência fossem atingidos pelos programas que mostrarem o cúmulo do óbvio com o máximo da técnica, bem colorido pra gente ver na tv de plasma novinha, com muita cerveja alemã, chopp claro e escuro, muito eisbein, chucrute e apfelstrudel, falando sobre a copa, direto de uma cozinha, E guten tag, alles gut e ... Brasil, traz o Hexa que a taça do mundo é nossa! Galvão, filma eu! Rosana Hermann joga no meio campo do Blônicas todas as quartas-feiras. Todos juntos vamos???
De Nelson Botter. Vai começar mais uma copa, prepare o rojão, a amarelinha, os gritos e as bandeirinhas, que beleza ver a nação unida, patriotismo e orgulho de ser brasileiro. De 4 em 4 é sempre assim. Mas por que será que quando se descobriu um esquema de corrupção monstruoso no governo tupiniquim, a galera não soltou o grito da garganta, não foi ou vai (pois dá tempo) às ruas vibrar, como no esquema Collor, amarelinhas fazendo barulho, apitos e batuques, bandeiras com mensagens de "não somos bobos não!", carros alegóricos que protestam de lado a lado? Pois é, o povo fica de 4 em 4 nessas horas. Amarela, a cor da seleção, é prenúncio. Bob Jeff falou, o congresso fez que não escutou, acordão e pizza salvou quase todo mundo, assim se faz política. E ninguém diz nada, movimentos estudantis de rabo preso, oposição que não sabe se opor, o brasileiro omisso e mal informado. Bola pra frente? Ainda pegando o futebol para Cristo, veja como o time brasileiro se destaca pelo individualismo, se vira malandro, numa jogada individual resolvemos um jogo, futebol em conjunto é coisa de europeu, o jeitinho brasileiro é no ziriguidum, joga a bola em mim que eu resolvo. Isso é cultural, não é só o jogador brasileiro que é assim, que nada, ele é povo antes de qualquer coisa, o brasileiro é assim, individualista que só. Somos todos Ronaldinhos, sorrindo e gingando. Quarteto mágico que nada, é cada um por si e Deus – que é brasileiro – por todos. Ele que se vire. O ópio do povo é o futebol, traz momentânea alegria, a pátria de chuteiras, une o país durante 90 minutos. Que o Brasil vá bem nessa copa, que chegue na final, assim serão 7 momentos de união. Depois, xi amigo, só daqui 4 anos. É igual eleição. Por falar nisso, ano de copa é ano de votar para presidente e governador. Hmmm, coincidência ou não, vale a reflexão, é hora decisiva, o país inteiro pode ganhar ou perder muito, depois a nova chance demora mais 4 anos. É, Robinho, Kaká, Ronaldo e Cicinho, marquem seus gols aí, e quem sabe nós marcamos os nossos aqui, nas urnas. Para fazer um Brasil campeão é preciso virar o jogo. Já que não vamos às ruas, que a justiça seja feita no voto. Acorda Brasil, avante Brasil, salve a seleção, salve essa nação! Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol (especial da Copa). Estou de Xico
De Paulo Castro. Sei lá, estou escrevendo meio em cima da hora, amanhã já é segunda, e se rolar, hoje é segunda, e eu estou substituindo o Xico Sá que está de férias. Claro que vocês preferem ele. Eu também prefiro. Ele é mais universal, e quando a gente lançou o livro, eu tive que dar um toque pro cara: Paulo Castro é cronista do Blônicas. Felizes
De Milly Lacombe. Eu não conseguia tirar os olhos do relógio do padre. Ali, no altar e bem perto do sacerdote, me senti completamente abduzida pelo brilho do ouro daquele adereço enorme, que, bem mais largo do que o pulso do homem, balançava muito a cada movimento de braço. De que marca era aquele treco enorme? Não conseguia ver. Mas será que só eu estava fascinada com aquela jóia? Olhei em volta em busca de uma outra alma observadora, mas percebi que estava sozinha nessa. Os padrinhos tinham o olhar fixo nos noivos, enquanto as madrinhas enxugavam as lágrimas. Dos noivos, pensei, não podia esperar muito. Estavam em um outro mundo, preocupados, talvez, com o que viria a partir daquele dia - como se a vida fosse mudar radicalmente a partir dali. Lembrei do voto de pobreza clerical e o que exatamente ele significava. Certamente, não a compra de um relógio inteiro de ouro para ser usado, como enfeite, na celebração de um casamento. Mas enfim. Aquela deve ser uma paróquia de dízimo farto, tão bem localizada em um dos bairros mais nobres de São Paulo, e o padre se sentiu no direito de ostentar a peça. Afinal, se o Papa usa Prada sem cerimônia, que mal poderia estar escondido atrás daquele relógio de ouro? Minha obsessão pelo relógio do padre finalmente deu trégua, e eu pude então prestar atenção no sermão. O padre pedia para que meu irmão, o noivo, prometesse ser fiel na saúde e na doença e até o último dia de sua vida. Instantes depois, foi a vez da noiva fazer a mesma promessa. Incrível, pensei, os noivos precisam jurar, obrigados pelas leis da Igreja, perante uma centena de convidados, fidelidade até o dia em que expirarem. Como alguém pode prometer uma coisa dessas? E o que é precisamente fidelidade? Seria considerado infiel o padre que rompe o voto de pobreza? Ou só a noiva que, depois de dez anos de casada, se apaixona por outro e decide interromper o casamento? Se apaixonar por uma outra pessoa é pecado? Ou só "ficar"com uma outra pessoa constitui pecado? Melhor que o fiel, apaixonado por outra, faça vistas grossas a esse amor e leve adiante um casamento, mesmo se ele estiver falido, fracassado? Sejamos infelizes até o último dia de nossas vidas, é essa a mensagem? Pensei em chamar o homem do relógio de ouro de lado e levar com ele um lero. Seria interessante. Mas meu pensamento mudou mais uma vez de rumo quando o ouvi começar a dar conselhos sobre como fazer um casamento dar certo. Como diria uma certa pessoa por quem eu nutro amor e respeito em doses abençoadas, se tem alguém nesse mundo que pode falar sobre casamento com propriedade é um padre, tá certo? Ora, o que entendem os sacerdotes sobre casamento? Já passaram pelas dores e delícias do convívio diário? Com as encucações geradas pela diminuição da libido? Já tiveram que educar, do zero, um outro ser humano? Pagar escola? Ah, por favor. Coloquem ali para discursar sobre como fazer um casamento dar certo alguém que já tenha casado 15, 20 vezes. Essa pessoa sim eu vou querer ouvir. Mas um padre ... Fui interrompida porque era hora de cumprimentar meu irmão. E foi só ele me abraçar para que toda essa minha revolta evaporasse miraculosamente. Enquanto me desidratava em lágrimas, só conseguia dizer que queria que ele fosse feliz. Naquele momento, nada mais me importava. Nem as incongruências do cristianismo, nem a devoção cega de quem insiste em não questionar, nem o excesso de ouro na decoração da Igreja e nem, vejam só, o relógio do padre, que começou tudo isso. No fim, nada importa. Que sejam todos felizes. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. Levei a família inteira para dançar
De Tati Bernardi. Lá estava o demônio que não me deixa em paz, ele berrava que eu sou dura, estranha, sem charme. Não poderia faltar também a velha cansada que adora falar mal do mundo e dormir cedo, ela teve que ir amarrada, amordaçada e equipada com desfibrilador. A criança até gostou da idéia, mas a velha não parava um minuto: "Isso é hora de você estar na rua?" Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados. O que é o sucesso?
De Henrique Szklo Eu sempre disse que para se escrever sobre algum assunto com um mínimo de credibilidade é preciso conhecê-lo com alguma profundidade. E é justamente o que eu não vou fazer agora. Vou dar a minha visão, totalmente de fora, sobre algo que não conheço e provavelmente jamais conhecerei: o sucesso. Mas afinal de contas o que é o sucesso? Na minha visão provinciana, dolorida e extremamente invejosa, acredito que o sucesso nada mais é do que a conexão direta entre a obra artística e o inconsciente coletivo. Não tem nada a ver com qualidade, não tem nada a ver com talento, nada a ver com fórmulas ou esquemas pré-estabelecidos. É claro que as grandes corporações ligadas à comunicação de massa procuram sempre fazer uma lavagem cerebral. Coisa que têm demonstrado excelentes resultados, haja visto o mar de lama que temos acompanhado nas tv, rádios, livrarias e cinemas. O sucesso não tem preconceito, ele atinge qualquer pessoa de qualquer raça, sexo, orientação sexual etc. Não está preocupado com a justiça e muito menos com a elevação dos valores morais e éticos da nossa sociedade. O sucesso é um déspota, que escolhe aleatoriamente os privilegiados que serão ungidos pelo seu toque mágico. Não pergunta pra ninguém, não faz pesquisa, não ouve a voz do povo. Só faz o que quer e ninguém consegue controlá-lo. O sucesso é frio, insensível, não está nem aí com as necessidades dos outros. Muitas vezes aterrissa sobre pessoas que não precisam dele e acaba esquecendo aqueles necessitados que tanto dependem de sua atenção para conseguirem o seu sustento. O sucesso é podre, nojento e causa um rosário de problemas para seus seguidores. É responsável, por exemplo, pela avalanche de revistas sobre a vida dos famosos e a verdadeira praga contemporânea que são os paparazzos. Sem contar que quem faz sucesso não pode nem ir ao cinema, ir a um restaurante sossegado e lá vem aquela romaria de fãs encher o saco, pedindo autógrafos, pedindo para tirar uma foto, enfim, um verdadeiro inferno em vida. O sucesso é uma droga. Depois que a pessoa experimenta uma vez não consegue mais viver sem. O problema é que, diferente das outras drogas, não está a venda em qualquer esquina. Acabou, acabou. Bye-bye, so long, farewell. É por isso que os viciados se agarram a ele e fazem qualquer coisa para não perder contato. E pior: não existe clínica para tratamento destes viciados e, uma vez abandonados, ficam ao deus-dará. E sacana como é o sucesso, deixa um monte de gente nesta situação deplorável. Os mais azarados ainda têm de passar pelo vexame de ser ridicularizado pelo repórter Vesgo do Pânico. Enfim, o sucesso é um grande filho da puta. Ordinário, escroto, cafajeste, indigesto. É por isso que eu todo dia dou graças a Deus de não conhecê-lo. De sequer chegar perto deste desclassificado. E se um dia ele vier cheio de graça pra cima de mim vai ver o que é bom pra tosse! Eu, hein?! Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e não faz sucesso. Conheça seu site, o blog da mãe e o 1° OPEN MIND, um fim de semana inteiro voltado ao desenvolvimento da criatividade. Celulite como segunda opção
De Leo Jaime. Acaba o programa das quatro mulheres que, na edição comemorativa de aniversário tinha 10 homens, inclusive eu - sim, elas querem ouvir os homens! - e cada um tinha que deixar uma frase para elas. Escolhi uma apaziguadora: "Mulher sem celulite não dá para conversar! Não sofram por causa disso". Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. As leis do internauta médio
De Rosana Hermann. Sinto-me à vontade para falar desta criatura nascida da estatística, o brasileiro médio conectado à rede, porque ele só existe no mundo virtual da matemática. Portanto, não ofende ninguém. Sim, porque, o brasileiro médio, dentro ou fora da rede, pra começar, ofende todo mundo mas não aceita críticas e não leva desaforos pra sua homepage. Ao longo de mais de uma década de comunicação online tenho observado atentamente o comportamento deste internauta médio e, mesmo sem competência analítica e sem dados de pesquisa tenho, senão conclusões, uma coleção de sentimentos sobre os milhões de pessoas com quem já me relacionei, direta ou indiretamente. E uma coisa posso afirmar: o internauta médio não é burro, mas é muito impulsivo, agressivo, crítico, reativo e sobretudo pessimista. A primeira lei do internauta médio é a lei da não-inércia: nada fica como está, pois tudo o que existe de bom ou ruim, sempre tende a piorar. Vejo a aplicação desta lei diariamente nos comentários do meu blog. São frases como 'esse blog já foi melhor', 'antigamente você postava mais', 'você já era', 'isso aqui já teve melhores dias'. Mas isso é pinto comparado à demonstração de força da primeira lei durante os ataques do PCC. Todo mundo que soube de um fato em sua cidade, disse que foi no seu bairro. Se foi no bairro, na hora de contar, as pessoas transferiam os tiros para sua rua. E se foi de fato nas imediações de sua rua, no relato virou 'praticamente em frente à minha casa, escola, trabalho'. Todo mundo fez questão de exagerar e dramatizar todos os fatos. Sem contar a onda de boatos, sempre no sentido de piorar o que já era péssimo. Virou quase uma febre, uma mania. A segunda lei é o princípio fundamental da dinâmica do julgamento dos outros. A resultante de tudo que age sobre uma pessoa é igual ao produto de suas medidas (como estatura, idade, massa) pelos seus bens materiais. Mesmo sendo solidário com o coitadinho, mesmo tendo compaixão pelos que sofrem, o internauta brasileiro médio gosta mesmo é de poder, fama e ostentação. É isso que ele quer, é isso que o atrai, para o bem ou para o mal e por isso ele exige que todos os seus ídolos, aqueles a quem ele adora odiar, mantenham essas características em dia, para que ele possa invejá-lo e tentar destruí-lo no conforto de sua casa. Brasileiro não gosta de chutar cachorro morto, gosta de chutar cachorro feio. Feio e pobre. Só passam pelos critérios de julgamento os que têm corpos perfeitos e fortunas visíveis, obtidos por qualquer meio lícito ou ilícito. A terceira e última lei do internauta brasileiro médio é a lei da virtude e compensação: 'a cada virtude corresponde um defeito contrário de igual intensidade e no sentido de derrubar a pessoa'. Basta perceber um ponto positivo de um ser humano para que a terceira lei entre em ação dizendo que 'em compensação ela tem um defeito péssimo'. Exemplos vividos e observados são coisas como 'o Jô é inteligente mas é gordo', 'a Miriam Leitão é competente mas é esquisita, 'a Gisele é perfeita mas é chata', 'a Sabrina é gostosa mas é burra', 'o Silvio Santos é rico mas é doido'. Nem os ídolos do futebol escapam. Agora o alvo preferido é o Ronaldinho Gaúcho, 'que joga bonito mas é feio que dói'. Como se ser o melhor jogador do mundo não fosse suficiente para um craque de futebol. Ronaldinho, Xuxa e até Ayrton Senna já foram desabonados por diferentes razões, inclusive as de foro íntimo, com a orientação sexual de alguns. Talvez a única pessoa que tenha escapado ilesa oficialmente seja o Rei Roberto Carlos, já que ninguém diz ou escreve que ele é famoso mas é perneta. Mas isso, apenas porque o internauta médio tem medo de atacar as instituições consagradas. (A última vez que ouvi falar sobre a perna mecânica de Roberto foi numa letra de música do ousadíssimo porém extinto Joelho de Porco, que a chamava de Margarida. ) Em suma, ninguém é bom o suficiente para ter suas virtudes em primeiro plano. Sempre há um problema que desmerece ou desabona até o melhor dos melhores. O resultado desses enunciados compõem um quadro triste e sombrio do internauta médio, que pode não corresponder a você. Talvez porque você não faça parte da média. Ou porque a lei se aplica também a mim, pois embora a cronista seja experiente é muito exagerada; e apesar de alguns poucos bens não tem uma linda imagem; e, principalmente, porque nenhuma crônica escrita é tão boa que não possa ser piorada na edição. Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas e está no livro homônimo com outros textos. A falsa filosofia escondida na verdade de cada um
De Nelson
Botter. Chuva e frio. A ordem dos fatores pode sim alterar
o produto. Enquanto a bela morena dança pelada na minha frente, eu tento me
concentrar para escrever uma blônica para você, baby. Nada é fácil nessa
vida, muito menos viver, e é assim que as coisas devem ser. Equilíbrio é palavra
do novo milênio. Então, você é equilibrada(o)? Acho que não. Poucos têm o mapa
para esse tesouro, por isso é palavra cobiçada e tão presente nos livros de
auto-ajuda, na boca endinheirada de falsos gurus. A morena ginga e eu aqui
tentando escrever essa blônica para você, que não merece, nunca fez por merecer
e nem o fará. Todos reclamamos que a vida é estressante, que todas as doenças
são causadas pela loucura do dia-a-dia. Mas o que queremos? Vida sem estresse é
não viver. Não ter problemas é não ter desafios, é não saborear a vida na
plenitude. Vamos parar de reclamar e tirar as nossas bundas (algumas gordas e
outras mais bem feitinhas) de nossas cadeiras. É isso, sem atitude não se faz
nada, morre-se cedo, vos digo. Saque sua arma da atitude e atire na minha testa.
Vai. Me faça rir com gosto de sua pró-atividade, deixe meus olhos cheios de
lágrimas com seu dinamismo, me diga que você não é essa pessoa fria e inerte que
eu sempre vejo, grite para todos os seus demônios que corre sangue em suas veias
e que existe garra dentro dessa sua carne que apodrece a cada novo dia.
Equilibre-se. Não suma, não é assim que se espanta os fantasmas, sumir é virar
mais um deles, é arrastar correntes pelos corredores de um hotel abandonado, de
paredes amareladas e saudosas dos tempos áureos. Vidas são jogadas na lata do
lixo a cada segundo. Energia desperdiçada, que se dissipará sem nada deixar de
concreto. Sabe, baby, a vida é a corda bamba, já te dei guarda-chuvinha,
agora é com você, honey lips, vai lá, sinta o estresse, beba dele,
revigore-se e atravesse os prédios. Vai, você não cairá, acredite, você
consegue. Atravesse o arame farpado, seus pés nem sentirão, é como os gurus
fazem, os falsos, te mandam andar em brasas, e você o faz, todo contente,
achando que pode dominar o mundo depois disso. E a morena, agora senta no meu
colo, tapa minha visão com seus peitos saltitantes e não me deixa enxergar mais
você. Aliás, nunca te vi. E assim será. Apenas rezo por você, por mim, por nós.
Meros brinquedos da justiça divina, da mão que a tudo comanda. Será? Sei lá,
prefiro não pensar assim, tento fazer meu próprio destino. E você, baby?
Que me diz? Lembre-se: equilíbrio. Leve sempre uma balança, esse é o truque. E
agora digo tchau, fico por aqui, me equilibrando. É o fim de mais uma blônica,
baby, e concluo que mais uma vez
essa não é para você. Nem para mim. Muito menos para nós. É para ninguém.
De novo a morena dança pelada e me sufoca com seu corpo, me matando de prazer.
Se eu sobreviver, volto semana que vem, baby. Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol. Simples dificuldades amorosas
De Paulo Castro. Amor está na pauta do dia? É sempre uma coisa tão boba que fala de amor, dizendo da família, dos motivos para os feriados, das razões dos relacionamentos. Mas as pessoas fogem do amor. Dizem muito sobre ele, mas fogem. Amantes distantes marcam um encontro, estão loucos pra ser ver, mas sempre algo dá errado na última hora. O que foi? Sempre, por quê? E se tomam coragem e se tocam na pele, então eles deixam de falar tanto em amor, não precisa mais. Veja quem fala muito de amor: os casais que já estão destruídos, as Igrejas rentáveis, os poderes, podres poderes, e até mesmo o Caetano fala muito em amor, mas se complica tanto na hora de amar. Paulo Castro é cronista do Blônicas e posta hoje em substituição a Xico Sá que está de férias até junho. 18 de maio
De Milly Lacombe. Dezoito de maio. Dia da minha maioridade. Aos 38 anos, ia, pela primeira vez,
morar sozinha. Um brinde à fase mais solitária da minha vida. Saí do trabalho,
retirei as últimas malas da casa de minha irmã, que me hospedou quando meu
casamento foi interrompido, passei no supermercado para comprar uma meia-garrafa
de vinho e uma taça, porque achei que a circunstância, mesmo cheia de dor e de
saudade, valia um gole, e lá fui eu para o novo canto. O frio é mais frio quando
se está sozinha - e aquela era, definitivamente, uma noite fria. Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol. Toque de recolher
De Tati Bernardi. No começo nossa relação era uma mansão iluminada e arejada com milhares de andares, janelas e portas abertas. Aos poucos, virou um casebre pequenininho, cheio de ratos e a única porta que sobrou, servia de entrada e saída. Cada vez que eu recomeçava, era como se eu me enterrasse mais e estivesse ainda mais perto do fim. Cada vez que eu abria a porta, a vontade de cerrá-la bem forte e para sempre atrás de mim aumentava absurdamente. Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados. Natureza
De Leo Jaime. Estávamos em uma canoa, era noite, tinha chovido no final da tarde e o céu estava nublado e o céu escuro. Subíamos o Rio Ariau, um afluente do Rio Negro, que tem as mesmas águas ácidas e, por isso sem mosquitos, e tranqüilas mas de coloração um pouco escura embora límpidas. Estávamos procurando jacarés. Nosso grupo era pequeno: os quatro amigos "haoles", o guia Paulo, que ia apontando a lanterna, Chico, que pilotava a canoa e um convidado especial, o Costela, um adolescente cujo apelido descrevia com justiça suas proporções. Paulo havia dito que era pra ficar de olho pois os jacarés ficariam com os olhos fixos no foco da lanterna e que, a uma certa altura, o Costela iria trazer um jacaré para a canoa, a fim de que pudéssemos observá-lo de perto. Não disse como. Fomos navegando para lá e para cá e eu não via nada, nenhum olhar parado de jacaré e imaginava que os bichinhos tinham mais o que fazer numa noite como aquela. Não chegava a ser frustrante, embora aquele fosse o motivo do passeio. Estávamos diante de um universo de cheiros e sons que a escuridão da noite tornava ainda mais interessante, e o dia tinha sido muito, muito rico em experiências. Era o meu primeiro dia na selva amazônica e eu já tinha tido em mãos: jibóias, botos, patos, macacos, antas, tucanos, paca, pererecas, araras, papagaios etc. Repare que só a paca veio no singular. Pois é. Tínhamos andado pela selva e visto um bom número de madeiras, ervas e raízes e ouvido inúmeros cantos de pássaros. Na volta desta caminhada, encostada em nossa canoa, havia uma outra, menor, e ao lado dela dois indiozinhos. O maior aparentava ter uns dez anos e seu irmão uns sete. Tinham alguns artesanatos para mostrar. Enquanto olhávamos, observei o menor com muita gentileza retirar uma formiga que subia no pé descalço do meu amigo. O pequeno tirou a formiga e a jogou no rio, protegendo o amigo de uma picada dolorosa, sem uma palavra e, também, sem lhe tocar o pé. Estávamos no meio da Selva. Não havia, ao alcance da visão, um sinal de civilização. Uma cerca, uma placa, um poste, nada. Onças, sucuris, jacarés, piranhas, tudo circulava por ali livremente. E os garotos também. De onde estávamos, podia se dar o berro que fosse, mesmo usando um potente equipamento de som, que ninguém jamais escutaria. Ou melhor, todos os bichos escutariam. E, no entanto, aquele pequeno dava uma demonstração de sua natureza gentil e delicada. E ao mesmo tempo, imaginava eu, os dois circulavam tranqüilos em meio a todos os riscos. Em São Paulo, Rio, será que uma mãe deixaria os filhos daquela idade saírem numa boa? Seriam, as crianças urbanas, tão gentis e, ao mesmo tempo, destemidas? Voltando para a mesma canoa, horas mais tarde. Avistamos o jacaré. Não eu, que não estava enxergando nada, mas vi a lanterna do Paulo focada e o pessoal prendendo a respiração. Num átimo o Costela tira a camiseta e tchibum na água. Nada nas mãos. Em dois segundos que pareceram emperrados no tempo, ele retorna à superfície, e ao foco da lanterna, com as duas mãos em torno do pescoço de um jacaré que, logo, é repassado para as mãos do Paulo. A boca deste jacaré, que deveria ter uns três anos, era maior do que a de um cachorro pastor- alemão adulto, e tinha mais dentes. E, no entanto, o Costela tinha entrado em seu habitat para, com mãos limpas, enfrentá-lo, no escuro. E lá estávamos nós com um jacaré no colo, no breu da noite, em meio à selva. Disseram pra gente observar se era macho ou fêmea, que era simples, que era só observar as unhas. Ficamos olhando para ver se tinha algum detalhe diferente. "É simples: não estão pintadas, deve ser macho!". Risadas brasileiras ecoaram na escuridão da mata e se somaram ao som de milhões de outras vidas. Leo Jaime é cronista do Blônicas e está no livro com outros textos. Inveja de quem viaja
De Rosana Hermann. A exceção existe apenas porque toda regra as tem. Porque se assim não fosse, seria o caso de afirmar categoricamente: todo mundo sente inveja de quem vai viajar. E mais, a intensidade da inveja é diretamente proporcional à distância e às mordomias de transporte e estada. Se for para outro país, ou ‘para fora, como se dizia nos anos sessenta, é batata que aconteça, mesmo que seja uma viagem de trabalho. A viagem de trabalho é sempre um abismo entre a realidade de quem vai e a ilusão de quem fica. A viagem de avião pode ser longa, demorada, desconfortável. A comida pode ser ruim, as pernas podem ficar com cãibras. A diferença de fuso horário e a falta de sono podem ser desastrosas para o viajante. Mas a imaginação de quem fica em terra firme acaba sempre voando mais alto. Para quem olha para o céu, viajar de graça, com tudo pago, é sempre um sonho. O aeroporto cheio de lojinhas, as lanchonetes exalando aromas de café e torradas na chapa, as pessoas passeando com suas malas de rodinhas com ares de quem está no topo da pirâmide de consumo. E, claro, há o hotel. O hotel e seus xampus, sabonetinhos e as surpresas dentro do frigobar, pequenas preciosidades para a sede e fome noturnas, cujos preços parecem ter saído de uma joalheria. Na ilusão de quem sonha em ir a viagem é uma mordomia só, da decolagem ao pouso. Para quem vai a trabalho, há muitos outros itens na bagagem. A responsabilidade de fazer tudo certo, de corresponder às expectativas, a dúvida sobre o que levar, o medo de esquecer algum carregador essencial ou de perder as malas em trânsito. E há, claro, a preocupação de lidar com a inveja dos colegas, que mais cedo ou mais tarde, ainda que de forma inconsciente, vão olhar feio para o desertor. E, tanto podemos estar no lugar de quem recebe quando no lugar de quem alfineta, já que somos todos humanos. O que em geral, não percebemos, é que a viagem é proveitosa tanto para quem vai quanto para quem fica. É claro que invejamos a liberdade do viajante. Viver experiências novas, experimentar outras camas, ver novas paisagens da janela, conversar com estranhos em outra língua, são coisas admiráveis. Quem viaja traz mais na bagagem de volta muito mais do que a goma de mascar do freeshop. Sob a embalagem da inveja, quem vai, nos traz o melhor dos presentes, o desejo de aventurar-se. Esse sim, é um souvenir que todos nós precisamos receber de vez em quando. Toque de recolher
De Nelson Botter. As manchetes do dia não falam mais dos escândalos de corrupção do governo federal, do chapéu que a Bolívia deu na Petrobrás ou da facada que Hugo Chavez deu em Lula pelas costas. Não, agora o assunto da vez (o reizinho da mídia) é o terror. Ontem foi a apoteose dos acontecimentos que assolam São Paulo desde sexta passada. Sim, foi o clímax. Com uma cobertura jornalística de tempos de guerra, pudemos ver as mesmas oito ou nove cenas umas vinte vezes. A boataria se espalhou e o povo entrou. Gente voltando para casa porque os metrôs tinham sido atacados, escolas sem aulas porque os estudantes eram feitos de reféns, o comércio fechando as portas porque havia quebra-quebra, hospitais sendo invadidos, ameaça de bomba no aeroporto, etc e tal. Guerra, guerra, guerra! Engarrafamentos colossais lembravam aqueles filmes-catástrofe em que ETs invadem a terra e a população tem de fugir sem saber do que e pra onde. Pois é, meus amigos, o desespero da população é um simples retrato da falta de segurança em que nossa sociedade se encontra, da fragilidade e incompetência do poder público que consegue ser afrontado da maneira mais simples e manjada (com táticas de guerrilha). Pior é saber que muitos dos 12 mil presos liberados para o dia das mães estão participando desses ataques contra a polícia. Eis o ponto: se a população está apavorada, imagine o policial que sabe ser o grande alvo disso tudo. O policial que não tem equipamento e treinamento necessário para enfrentar os marginais, que ganha um salário de merda e que - para completar o quadro - não tem apoio da legislação para poder desempenhar seu trabalho. Hoje, a polícia (em termos legais) é mera segurança de porta de barzinho, só pode agir em defesa, só pode reagir, tem que levar um tiro primeiro. No meio do rocambole está o povo, sendo espremido, enquanto os homens que detém o poder e a lei não se entendem, interesses conflitantes, gente que joga no time adversário, outros são burros mesmo e estão ali por mero conchavo, e por aí vai, sabe-se lá o que realmente está por trás disso tudo, quem ganha dinheiro com isso, sempre sem solução, arrastando com a barriga uma desigualdade social que com o tempo se tornará uma guerra civil entre classes sociais. Algum tempo atrás isso ocorreu no Rio de Janeiro, tocaram o terror, agora é em São Paulo. No futuro podem ser outras capitais, outras cidades importantes, o Brasil inteiro, quem sabe? Enquanto isso, verbas públicas são desviadas, a lei branda ao bandido não é alterada, a instabilidade social cresce e a civilidade vai esgoto abaixo. Existe esperança? Não sei, pergunte ao Parreira. Mais uma festa
De Tati Bernardi. Um a um foram chegando, e eu somando a quantidade de amor que tenho no mundo. Mais ou menos 50 pessoas foram, somando com mais um monte de e-mails e mais um monte de ligações, é até que sou bem amada. Calma, você é amada, tá vendo? Não precisa mais ficar em casa de pijama assistindo Woody Allen, você é amada. É que dá uma preguiça de existir. Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados. Duelo de tantãs (parte 1)
De Henrique Szklo Eulálio, Eufrásio e Eustáquio eram muito amigos. Inseparáveis. Eles tinham muita coisa em comum: conheciam-se desde crianças, eram vizinhos de rua, estudaram nas mesmas escolas, entraram na mesma faculdade e acabaram virando sócios de uma empresa de altíssima tecnologia que desenvolvia estudos sobre alterações genéticas em hortifrutigranjeiros: a Eu³. Naquele momento, o projeto principal em desenvolvimento da Eu³ estudava a alteração do DNA do chuchu para que ele tivesse sabor, cheiro e consistência. Um projeto verdadeiramente ambicioso e de grande relevância para a humanidade. Eulálio, Eufrásio e Eustáquio, portanto, precisavam estar 100% focados no trabalho e determinados a cumprir com o planejamento apertado da empresa e administrar a forte cobrança de seus investidores internacionais. Mas eu havia esquecido de dizer: além de tudo, o Eulálio, o Eufrásio e o Eustáquio tinham em comum o tamanho colossal, quase teocrático, de seus egos. Até aí tudo bem. Depois de tantos anos de vida em comum isso nunca havia atrapalhado sua amizade nem interferido em seus negócios. Até que um dia Eulálio ouviu de orelhada um funcionário comentando que o Eufrásio era o maior egocêntrico que ele conhecia. Aquela notícia da Rádio Peão calou fundo no coração de Eulálio. De repente ele se sentiu pequeno, miserável, indigno. Foi comentar a história com Eustáquio, que teve a mesma sensação. Um olhou para a cara do outro e ali já pudemos perceber uma centelha de rivalidade brilhando em seus olhinhos egocêntricos. Eles não faziam idéia, mas daquele dia em diante começariam uma competição velada, porém brutal, entre os três ami-egos para definir de uma vez por todas quem era o maioral ali: o ego do Eulálio, o ego do Eufrásio ou o ego do Eustáquio. Era uma questão de honra. E de ego, claro. Começaram mandando aumentar o nome de cada um nas respectivas portas até que não coube mais e passaram, então, a escrever na vertical. O mais prejudicado nesta história foi Eustáquio em função do tamanho do nome, as letras acabaram ficando menores que as dos outros. E ele chorou. Enquanto Eustáquio se desfazia em lágrimas, Eulálio contratou uma assessoria só para plantar notícias na imprensa relacionadas ao seu nome, dando a entender que ele era a alma e o coração da Eu³. Os outros egos ficaram furiosos. Eustáquio parou de chorar e distribuiu uma circular pela empresa informando seus funcionário que dali em diante ele não cumprimentaria ninguém, só olharia com ar superior e se alguém por acaso lhe dirigisse a palavra ele ignoraria solenemente. Eufrásio saia de tarde e mandava os funcionários esperarem por ele até altas horas da noite. Quando ele voltava (se voltava) não dizia nada pra ninguém, como se a ordem anterior nem tivesse sido dada. E com a maior cara-de-pau ainda fazia uma expressão de que não entendia porque haviam ficado até tarde. A insatisfação entre os funcionários da Eu³ estava crescendo e aquilo estava virando um barril de pólvora. Principalmente porque a guerra de egos era contagiosa e virou uma epidemia. Agora, qualquer gerentinho, qualquer encarregadinho de merda estava se achando no direito de ser o gostosão da galera. E a cadeia alimentar ia descendo pelos escalões da empresa até a ralé, que, lamentavelmente, não tinha com quem ser arrogante, portanto sofria uma barbaridade, sonhando em subir na vida. Na reunião seguinte do conselho, Eustáquio deu sua grande cartada: sugeriu que o nome da empresa mudasse para Eu³/Stáquio, argumentando que fez uma consulta com a maior sumidade do país em numerologia que lhe garantiu que este novo nome daria um espetacular impulso aos negócios da empresa. O que o numerólogo não previu foi o número de membros do conselho com um mínimo de bom senso. E a proposta foi rechaçada totalmente. Continua... Duelo de tantãs (parte 2)
Quem deu o passo seguinte foi o Eulálio. Um passo gigantesco, claro. Contratou um batalhão de secretárias: uma para fazer telefonemas, outra para receber telefonemas, uma outra para trazer cafezinho, mais uma para levar a xícara depois de vazia, uma para cuidar de sua agenda, uma outra só para ficar olhando as outras trabalharem e outra ainda que ele não havia decidido para que ele a havia contratado, mas isso não era problema, já que a moça tinha um corpo espetacular. É claro que ele tinha uma idéia bem clara do que queria fazer com esta secretária, mas aquela não era hora de pensar em sexo ou qualquer outro assunto sem importância. Uma coisa muito maior estava em jogo. Maior que tudo no mundo. Maior que a vida. Gigantesca, desmesurada, inominável, espetacular. Acho que vocês sabem do que estou me referindo. Eufrásio contra-atacou com energia, mandando colocar sua foto em todas as salas da empresa. Clique de um dos maiores fotógrafos do mundo, que cobrou uma pequena fortuna pelo trabalho. O cara era tão bom que, de uma certa distância, o Eufrásio parecia até bonito. Bonito não. Simpático. Quer dizer, não dava vontade de vomitar. Eustáquio, para não ficar atrás, criou algumas frases de efeito e mandou pintar bem grande nas paredes da empresa, além de mandar instalar um letreiro nos elevadores onde elas pudessem ser lidas por todos o dia inteiro. Neste ponto da história, Eulálio, Eufrásio e Eustáquio não eram mais amigos. Nem colegas. Eram gladiadores sangrentos usando sua exacerbada auto-estima como armas letais, de uso exclusivo das forças ególatras. Acabo de receber um e-mail bem grosseiro do Eustáquio, questionando porque eu coloco sempre os nomes do Eulálio e do Eufrásio primeiro que o dele no texto. Eulálio, então, foi mais longe ainda. Longe demais como exigia a situação. Com a ajuda de um grande jornalista, escreveu sua auto-biografia, exaltando sem o menor pudor todas as suas qualidades, principalmente aquelas que não possuía. Lançou o livro numa grande festa regada a champanhe e celebridades nas principais capitais do mundo. Harry Potter perdia. Eufrásio não se fez de rogado e começou a comentar com amigos influentes e pessoas de trânsito na imprensa que estava pensando seriamente em se candidatar a um cargo público, para colocar todo o seu conhecimento, experiência e capacidade de trabalho a serviço da sociedade. Sentia que estava ungido desta missão divina. Ainda sem precisar exatamente suas pretensões, insinuou, entretanto, que a Presidência da República seria um bom começo. E não seria o primeiro, não é verdade? Eustáquio decidiu, então, comprar uma passagem para o próximo vôo tripulado à Marte, para provar que não tinha só o maior ego do mundo mas o maior ego do sistema solar. Obviamente, com toda essa lambança desenfreada, o projeto do chuchu beleza estava fazendo água, mas Eulálio, Eufrásio e Eustáquio não estavam nem aí. O sabor do chuchu não era nada se comparado ao sabor de subjugar os inimi-egos e fazê-los curvarem-se diante de uma força maior, bem maior. A empresa deles estava indo para as cucuias e mesmo assim não desistiram da competição idiota. Mantiveram seus egos cada vez mis inflados. Grandes pra chuchu. Agora quem me mandou um e-mail foi o Eufrásio, se declarando solidário com minha postura em relação ao Eustáquio. “Ele não tem do que reclamar”, afirma. Mas aproveita para comentar que no caso dele, Eufrásio, seria interessante colocar seu nome sempre em primeiro, apenas por uma questão de ordem alfabética. Não demorou muito e a Eu³ teve de fechar suas portas, deixando o chuchu sem pai nem mãe e os funcionários sem receber seus direitos. Foi aí que eles perceberam que existia uma coisa maior que seus egos: a fúria dos credores. Hoje eles estão superpobrinhos e endividados até o superego, mas não perderam a pose. Porém, para a tristeza de Eulálio, Eufrásio e Eustáquio o resultado de sua batalha campal de egos foi um fragoroso e vergonhoso empate: empatou com a vida deles, de seus funcionários, seus credores, seus investidores. Empatou até com a vida do chuchu. Mas não há de ser nada. Eles vão superar esse momento difícil. Eulálio, Eufrásio e Eustáquio são maiores que isso. Quer dizer: seus egos são. E-mail do Eulálio: “Seria possível você parar de falar nos outros e se concentrar em quem vale a pena?” Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e fica cansado. Conheça seu site, o blog da mãe e o 1° OPEN MIND, um fim de semana inteiro voltado ao desenvolvimento da criatividade. O poder do 'não'
De Rosana Hermann. É difícil dizer não. Em geral, o único não que sai fácil é o ‘não fui eu’, na hora do aperto, a resposta rápida do instinto de sobrevivência á culpa e a punição. Os outros, como não quero, não sou, não posso, não tenho, não sei, são todos complicados. Dizer não para quem pede um favor, para um parceiro, amigo, parente, sempre deixa um travo amargo. Quem pede sabe, racionalmente, que o outro pode e tem o direito de negar ajuda, mas se pede é porque venceu sua vergonha, esforçou-se e porque tem esperança de ouvir um sim. E aí, quando você frustra o pedinte, perde um ponto no caderninho do céu. Também é difícil admitir tudo o que não se é, não se tem não se pode. Claro que sem isso ninguém melhora. É só a partir da conscientização de nossos erros e limitações é que podemos crescer. Mas às vezes uma vida não é tempo suficiente para aceitar todas as qualidades que não temos, especialmente aquelas que adoraríamos ter. “Não sei” também é recordista de dificuldade, junto com o não conheço, não fui, não vi, não li. É muito mais comum mentir que viu o filme, que leu o livro e foi no tal lugar do que revelar ignorância. Somos todos muito orgulhosos e detestamos ser flagrados em nossa falta de conhecimento e cultura. É assim. Ou não? O não mais difícil, porém, é outro, é o não da determinação, o não que vence a compulsão. É o não que impede que a mão esprema a espinha, arranque a casquinha, futuque a ferida. É o não que mantém o cartão de crédito dentro da carteira, o que impede que você repita o segundo prato no rodízio. É o não do bom senso, que faz com que você conquiste atos heróicos que vão desde o simples não obrigado, para um panfleto inútil até não às drogas químicas que matam. Para viver uma vida feliz, inteira, verdadeira, é preciso ter coragem de dizer não. Sem magoar, sem ofender, sem ser cruel. Se você não gostar do texto, por exemplo, não é preciso xingar toda a linhagem do autor. Diga apenas ‘não gostei’. É um exercício simples que fortalece o caráter, dá firmeza às opiniões e valoriza o sim. Ou não. Rosana Hermann é cronista do Blônicas e está no livro com outros textos! Sua palavra
De Nelson Botter. O quase, como quase tudo, é quase sempre uma incógnita. Indica algo que quase ocorreu e é quase um sinônimo para uma falta, uma metade, um não inteiro, um talvez. Isso nos leva a quase que invariavelmente concluir que um quase pode ser bom ou ruim... ou, então, quase bom ou quase ruim, dependendo - claro - da situação. Por quê? Oras, veja só um exemplo: com tantos quase logo no início do texto, você já deve estar quase querendo me esganar. Apertar meu pescoço até quase esmagá-lo. Para alguns isso seria bom, para outros seria ruim (especialmente para mim). Assim, o quase é uma palavra interessante que a língua portuguesa nos proporciona, com inúmeras utilidades contrastantes, sendo quase determinante e quase condicional. Alguns casos são unânimes, não há dúvida se o quase é bom ou ruim, é uma coisa só e acabou, ou quase isso. Imagine-se dizendo para mim que você quase ganhou na loteria, pois quase foram sorteados os números que você jogou. Sim, você jogou, pois se você quase tivesse jogado aí não teria chance de ganhar, não precisaria se lamentar e eu também não estaria usando esse fato. Ou, então, um exemplo melhor: fantasie que você quase conquistou a mulher ou o homem dos seus sonhos, foi por pouco, foi por um quase. Mas um quase, apesar de parecer pouco, pode ser muito. É a velha história: se não fosse ele, o quase, tudo seria diferente! Só faltou tirá-lo da frase. Como eu dizia, no caso de quase se conquistar o amor dos seus sonhos, o quase é definitivamente ruim, coisa chata, sofrimento certo... É, mas pensando melhor, pode ser um quase ruim também, não necessariamente um ruim definitivo. Confuso? É, quase me perdi, mas a idéia aqui é dizer que a mulher dos seus sonhos pode mudar muito com o passar dos anos, e se tornar uma verdadeira bruxa, quase a imagem e semelhança da sua sogra. Já o homem dos seus sonhos pode virar um viciado em sofá e televisão, só saindo de lá com um guindaste. Então, no final das contas, o amor dos seus sonhos pode virar um pesadelo macabro, o que quase sempre acontece... Logo, muitas vezes o quase pode nos salvar de muitas coisas que quase não enxergamos. Tem dias em que o quase é carrasco, nos faz sofrer, chega a doer na alma. Tem coisa pior do que num dia só descobrir que seu filho quase passou de ano na escola, que você quase conseguiu fechar aquele negócio milionário (perdendo a concorrência por quase nada), que o Corinthians quase conseguiu ganhar a Libertadores (pois os argentinos quase erraram aqueles três gols) e que, em conseqüência disso tudo, à noite, você quase conseguiu ter uma ereção? Ah, e eu quase ia esquecendo: mais trágico que isso só descobrir que sua esposa, nesses anos todos de casados, quase atingiu o orgasmo... Em muitos casos o quase é determinante para mostrar uma drástica diferença, basta ver um homem que se diz quase uma mulher. Apesar dele ser homem, e quase uma mulher, ele é praticamente uma mulher, pois quase não é um homem. Infelizmente, drásticas diferenças são quase sempre incompreendidas. Quase todo mundo tem preconceito com os homens que quase são mulheres, ou com as mulheres que quase são homens, como se estivessem quase doentes ou então não fizessem parte da sociedade, quase excluídos. Uma pena, pois somos todos iguais, todos mesmo, e nesse caso não se aplica o uso do quase, é uma verdade absoluta. Aliás, o emprego do quase, nessa e em qualquer outra questão que envolva preconceito, é determinante para mostrar a drástica diferença entre um ser humano inteligente e um ser humano quase inteligente. Enfim, o quase é uma palavrinha de muito uso e diversas interpretações, marota e perspicaz na funcionalidade. Mas, como quase tudo nessa vida não pode ser para sempre, é preciso saber livrar-se do quase na hora certa, definitivamente não ficar no quase. É palavra que não deve nos acompanhar nos últimos momentos da vida, pois chegar ao fim e descobrir que você quase amou, quase foi feliz, quase realizou seus sonhos, enfim, quase viveu, é o maior dos fracassos, é tristeza da alma, significa que o último suspiro será muito doído... Portanto, aproveite que ainda há tempo e livre-se do quase nas questões mais importantes da vida, caso contrário essa será a sua palavra... e ponto final. Nelson Botter é cronista às terças. Visite também o BlogGol. Alguém para fazer o jantar
De Milly Lacombe. Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol. O encontro
De Tati Bernardi. Duas e cinco da manhã. Sem sono e com uma angústia que parecia fome, parecia tédio, parecia uma coceira de angústia bem no centro da sua existência, ela espremia com as mãos o chumaço de pêlos bem no meio das pernas, querendo extrair dali o caldo da sua chateação. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Escrevendo torto por linhas retas
De Henrique Szklo Sem perceber estou de novo escrevendo um texto sem graça, ou pelo menos sem a intenção de ser engraçado, o que dá mais ou menos na mesma. Os carros estão buzinando lá fora e eu tenho vontade de ficar aqui escrevendo o que me der na telha (pouca). O que me passar pela cabeça irá diretamente para os dedos que tamborilam freneticamente em um teclado meio sujo, meio limpo. Em sua superfície, as teclas estão limpíssimas. Limpei com Veja. Mas as laterais e suas entranhas estão imundas. Quem inventar um fio dental para teclado de computador vai ficar rico. O novo Bill Gates. Adoro escrever. Enche o saco, mas é gostoso. Porém, não sou ninguém sem os meus dicionários. Principalmente o de sinônimos, que eu considero o tio dos burros. Meu vocabulário é fraquíssimo e eu estou sempre pedindo socorro a esse tio querido. Aliás, o computador também é um elemento fundamental no exercício do meu ofício atual. Desde pequeno eu sempre fui encantado com teclados de letrinhas. Me lembro como se fosse hoje do meu primeiro encontro com uma máquina de escrever. Que brinquedo legal! Eu fiquei fascinado com aquelas teclas e o mecanismo tão rústico e eficiente de uma máquina de escrever manual. Eu não tinha nada para dizer, nenhuma idéia para expor, nada, ficava só escrevendo meu nome infinitas vezes. Era uma emoção vislumbrar meu nome escrito de uma forma tão profissional. Gamei no game. Era como as mulheres para mim naquela idade: havia uma sedução inexplicável, eu sentia uma atração não racional por elas (máquinas e mulheres), achava bom passar a mão, gostava de olhar os mecanismos internos mas não sabia absolutamente o que fazer com aquele desejo, não conseguia encontrar caminhos para expressar o sentimento ou aflorar aquela energia acumulada sabe-se lá onde. Eu gostava, mas não sabia porquê. Queria usar, mas não sabia como. Durante anos foi assim, tanto com umas quanto com as outras. Não sei qual eu descobri primeiro, mas sei que tive muito mais máquinas de escrever do que mulheres. Sempre conseguia juntar economias e comprar um modelo mais moderno, mais estimulante, mais legal. Nessa altura eu já sabia para que servia, mas não conseguia escrever nada. Eu não tinha repertório. Cheguei a começar alguns romances que não passavam do primeiro capítulo. Mas eu continuava fazendo upgrades. Uma vez tive uma máquina elétrica gigante, daquelas que se via em escritórios de contabilidade. Não era como a IBM, a mais legal da época (muito cara), com sua esfera de caracteres que corria pelo cilindro. A minha tinha um carro gigantesco que se movimentava como uma máquina normal. Quando eu apertava o botão para mudar de linha ela vinha com tudo e provocava um estrondo, que, às vezes, até tirava do lugar a mesa onde ela estava. Era o máximo. Minha última aquisição nesta área foi uma eletrônica, a Praxis. Tenho até hoje, apesar de nunca mais ter usado. Estou pensando até em mandar fazer uma revisão nem que seja só para funcionar como elemento simbólico. Bem, o que eu queria dizer com tudo isso é que eu só consegui começar a escrever efetivamente quando surgiu o computador. E como evolução natural de minha mania por máquinas de escrever, logo que os PCs apareceram eu comprei o meu. Era um 286, com monitor verde e HD de uns 4 megas, acho. Não tinha nem windows ainda. Mas foi realmente aí que eu percebi a grande diferença entre máquinas de escrever e computadores, o que me possibilitou a começar a escrever com uma certa pretensão. Eu sou um pedreiro das palavras e sou, como já disse, um coçahólic. Essa mistura é trágica quando você tenta produzir textos com uma máquina de escrever. Meu estilo é progressivo. Eu escrevo primeiro uma estrutura e depois vou lapidando. Lapidação esta que pode durar uma eternidade, se for necessário. Eu troco frases e blocos de texto inteiros de lugar, coloco palavra, tiro palavra, vou pra lá, vou pra cá e, enquanto não sentir que está pelo menos razoável, não desisto. Estou fazendo isso agora com este texto. (Esta frase, por exemplo, coloquei depois). E isso, meus amigos, com uma máquina de escrever é praticamente inviável. Eu perderia mais tempo da minha vida reescrevendo, fazendo o trabalho de datilógrafo, do que objetivamente escrevendo, criando, produzindo. Realmente, eu não sou possível sem o computador. É por isso que eu torço para nunca acontecer uma crise energética no mundo. Eu perderia a capacidade de fazer o que mais gosto. Vou acender já uma vela para São Thomas Edson e pedir proteção à rede elétrica. Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e fica cansado. Conheça seu site, o blog da mãe e o 1° OPEN MIND, um fim de semana inteiro voltado ao desenvolvimento da criatividade. A calcinha de Suzana
De Rosana Hermann. A invenção da calcinha certamente antecede à da fotografia mas o mundo nunca mais foi o mesmo desde o encontro entre os dois, especialmente quando o fotógrafo é um paparazzo e a calcinha é de uma celebridade. Atrizes saindo do carro, apresentadoras sambando de minissaia, cantoras no palco fotografadas do gargarejo sempre foram e sempre serão alvos de profissionais que em busca de uma pombinha, não deixarão as mulheres em paz. Esta semana, a calcinha da vez foi Suzana Vieira, uma atriz consagrada cujo mérito artístico parece ter sido recentemente suplantado por outro, a bravura de ter enfrentado dezenas de cirurgias plásticas em busca de uma aparência mais jovem, resultado que obteve com sucesso. Mas como a palavra já diz, trata-se de aparência, de imagem e não de uma realidade. Mesmo tendo as medidas corretas não se pode voltar atrás do tempo até os vinte anos. Eis que uma foto sem retoques mostrando um flagrante inter-coxas da atriz, dançando funk com roupa de adolescente, expôs não apenas a louvada liberdade de uma mulher bem resolvida aos sessenta e três anos mas também o fato de que toda matéria orgânica sofre ação do tempo e de que, enfim, bisturi não é varinha de condão. A foto, linkada em meu blog num post, com a frase 'hay que envejecer pero sin perder la compostura', desencadeou reações intensas homens e mulheres de todas as idades. As mulheres maduras, ou saíram em defesa do direito da exibição do corpo em nome da alegria ou partiram para a consciência do ridículo. Os rapazes mais jovens rejeitaram a foto por unanimidade, uma vez que são adeptos da filosofia de que só se mostra o que é bonito. Alguns leitores culparam o fotógrafo pela indelicadeza de captar um detalhe que a desabona enquanto outros argumentaram que se ela não quisesse ser flagrada assim não teria usado uma minissaia com a altura de um cinto. É verdade, a foto é só mais um conjunto de pixels num mar de informações digitais na rede e não vai mudar o mundo. Mas de alguma forma, ela cumpre um função, porque revela muito mais verdades sobre nós do que sobre Suzana. A foto questiona a ética do fotógrafo e a postura da atriz, a exigência da perfeição física e a insanidade por sua busca, o engano externo da plástica que gera um auto-engano interior, a diferença técnica entre a foto com e sem photoshop, o vício contemporâneo de consumir qualquer informação sobre as celebridades. Como na sociedade greco-romana, as celebridades formam nosso conjunto mitológico de arquétipos, nossos deuses e semi-deuses que regem nossos padrões de comportamento, nossos sonhos e aspirações. São eles que nos dão nossos parâmetros, em relação aos quais nos posicionamos aqui, bem abaixo do Olimpo da fama televisiva. Com ou sem fotógrafo. Com ou sem calcinha. Rosana Hermann é cronista do Blônicas todas as quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. Você
De Nelson Botter. Enquanto os dias correm eu me sento para contempla-los. Chega um momento em que você resolve se dar férias, livrar-se da correria, omitir-se como se assistisse a um filme, sessão da tarde, quando você chegava do colégio e tudo que tinha para fazer era a lição de casa. Relaxar e meditar é preciso, já dizia o Lama. Música para os ouvidos e também para a mente, eis um truque, pois acordes harmônicos podem ser um relaxante muito mais poderoso que qualquer bolinha da indústria farmacêutica. Pena que o lobby não deixa a gente perceber isso. Contemplar o mar, ver o pôr-do-sol, enfim, 'N' coisas que a natureza nos oferece, mas não, alguns insistem em tomar suas bolinhas coloridas. Amarras.
E eis que atingir o equilíbrio não é tarefa das mais simples, é claro que não, entretanto é preciso tentar, buscar no meio desse mundo caótico de cobranças insanas, sejam elas monetárias, intelectuais ou braçais. Férias, um paraíso na minha mente, vejo agora nós dois, juntos, juntinhos, na praia, Fernando de Noronha, perfeito, água de coco, máscara de mergulho para contemplar um mundo dentro do nosso mundo, paralelo e aquoso, um bagalô, nós dois deitados, contando infinitamente cada astro na noite estrelada, e o seu sorriso, a coisa mais linda dessas férias, mais bonito que as paisagens verdes da ilha, mais brilhante que o sol, mais forte que o oceano, mais apaziguador que o não ter nada para fazer. Minha droga é você, minha endorfina é sua voz, seu toque, seu beijo.
Volto dos vôos da imaginação, tudo real, presente, a loucura do dia-a-dia. Nada de ilha, de férias, mas há você. Ainda bem que você é mais que real. E isso é maravilhoso. Você, meu ponto de equilíbrio, minha sacerdotisa, minha xamã. Enquanto os dias correm eu me sento para contempla-los... e percebo que sem você, minha vida seria um filme sem graça e sem final feliz. Obrigado por me fazer te amar. Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol. |