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Caos e celulose.
De Antonio Prata. Estou feliz e satisfeito. Se não tivesse que escrever esta crônica, até abriria uma cerveja: acabei de eliminar o último montinho da casa, o maior, que me acompanhava há mais de um ano. Não sei se você, disciplinado leitor, também sofre desse mal -- o montinho -- mas a minha vida é uma eterna e inútil luta contra eles. Não faço idéia de como nascem. Um livro caído no canto? Uma conta de luz deixada por acaso ao lado do sofá? Algumas folhas impressas esquecidas perto do som? Sei que estou andando pela casa numa tarde qualquer e meus olhos tropeçam na pequena Quéops doméstica, feita de manuscritos inacabados e livros jamais começados, cartas abertas e fechadas, caixas de CDs sem discos e discos sem caixas, contas, revistas, folhetos imobiliários, post its ancestrais e outras milongas mais, a desafiar a simetria que eu, com inquebrantável otimismo, desejava para minha sala, para minha vida. Depois do susto – mas como? Ontem mesmo não estava aí! -- vem um suspiro resignado – pois é, agora está, fazer o que? – e vou tratar de outros assuntos. Por que não vou lá e simplesmente arrumo a bagunça? Oh, proativo leitor, logo vê-se que não entende nada de montinhos. Desfazê-los é perigoso como desarmar uma bomba! Ou você vai até o fim na empreitada, ou acabará dividindo-os em vários montinhozinhos temáticos – aqui as cartas, aqui os livros, aqui revistas... – e, em questão de semanas, terá criado um irreversível arquipélago de bagunça. Mais do que isso: acocorar-se diante das camadas sedimentares do passado é repensar a própria vida. Jogo fora essas revistas ou compro uma estante? Essas contas... Não seria o caso de botar no débito automático? Olha só, aquele conto do Cortázar. Se eu fizesse um mestrado, quem sabe, poderia... “Ligar urgente para Clélia – 87-98786754!!!”. Quem é Clélia? Oito sete é de onde? Será que eu liguei? São tantas as indagações que surgem que tenho medo de, no meio da arrumação, decidir que minha verdadeira vocação é a odontologia, resolver passar seis meses na Índia ou fazer uma tribal na panturrilha. Esta tarde, no entanto, apesar de todas as dificuldades, atirei-me com ímpeto à tarefa e desbaratei a última das barricadas de caos e celulose que restava em minha casa. Estou contente. Sinto que a vida é simples e boa. Mens sana in domus sano. Sento-me no sofá, observo a luz do sol atravessar a sala e sinto o sangue correr em minhas veias. Montinhos, nunca mais!, digo. Jogo a crônica de lado e vou abrir uma cerveja. Antonio Prata é cronista do Blônicas. Batatadas.
De Leo Jaime. Acabo de ver um filme no Kibe Loco de uma cena do programa do Gilberto Barros em que ele faz um Quizz Show. A moça está lá dentro de um tubo de ensaio gigante e dá pra perceber que a cada pergunta que ela erra o tubão vai se enchendo de água. Ele lê a pergunta: "Quais órgãos humanos ficam dentro de cavidades ósseas chamadas de órbitas?". A moça contempla, por alguns segundos, a eternidade e depois responde com a fronte erguida de convicção: " "Astronauta." Ele olha estupefato. Ela repete, desta vez mais cautelosa: "Astronauta?". Não sei o que a fez famosa ao ponto de ser convidada para o horário nobre da televisão. Sei, no entanto, que esse vídeo vai lhe dar muito mais popularidade; Vê aí: http://video.google.com/videoplay?docid=-8332558995028309760 Isso é o que o popular apelidou de batatada. Essa pérola proferida sem nenhum cuidado que bate com força e machucando os ouvidos. É triste e ao mesmo tempo hilário. Todo mundo se lembra de alguma assim, por ter presenciado ou por ter protagonizado. Claro que quase ninguém tirou dez em todas as provas que fez na vida e nas questões que errou deve ter dito alguma asneira. Errar é comum e humano, e a ignorância é absolutamente natural. Lembro até de uma grande celebridade afirmar que sua mãe tinha nascido analfabeta. Pois é: a ignorância é um pressuposto, algo que até mesmo o mais sábio dos cientistas há de conservar. Nenhuma ciência domina tudo e tem todas as respostas. O que difere, porém, é o nível de estupidez contido em uma simples afirmação. Isto pode surpreender. O grande Nélson Rodrigues afirmava que a sólida e maciça burrice é a única coisa infinita no universo. Ouso dizer que o mau gosto também é, mas uma coisa é derivada da outra. Uma coisa é ter afirmado séculos atrás que a terra era plana. Outra é supor que astronautas sejam órgãos humanos. Bom, são humanos. Seriam os órgãos astronautas? Que o espaço sideral seja uma cavidade óssea, isso é que estabelece profundidade à questão. Será? Tenho visto alguns programas de clipes com letras traduzidas do pessoal do hip-hop. Vejo que o que sobra em auto-estima falta em preparo. Tudo o que é dito, ou pelo menos o que tem feito muito sucesso, tem a profundidade de um pires além da evidente auto-promoção. Ah, nestes clipes todo mundo gosta de coisas caras e tem o corpo malhado. Será que o estereótipo do abdome definido, idéias confusas, como bem disse o parceiro Leoni, vai se eternizando? Livros não são inimigos de músculos, não necessariamente. Talvez fosse o caso de, um dia, a juventude que eu queria, malhar na Academia. A brasileira de letras. Uma leitora disse-me, um dia, que não devíamos chamar ninguém ou nada de burro. Disse que era maldade, que era discriminação etc. E dizer ou fazer sandices? Devemos nos acostumar? Admirar? Claro que sim. Nada é mais espetacular do que a burrice humana. Bom, vá lá, talvez a genialidade seja um pouco mais espetacular. Leo Jaime é cronista do Blônicas. Memórias Póstumas de Um Peru de Natal.
De Ricardo Prado. Que toquem os sinos, pequeninos ou graúdos, sinos de Belém — mesmo que seja o do Pará! Morri! Mas não guardo rancor de quem me caçou, assou e afirmou que eu estava um pouco seco. É a vida. Ou o fim dela. Morri num feriado muito temido pela minha espécie: o Natal. Ah, o Natal. Creio que seja o mais bizarro de todos os feriados “civilizados”. Pelo que pude apurar, antes de ser degolado e devorado, trata-se da celebração do aniversário de um deus, ou filho de um deus, algo do tipo. O aniversário é dele, mas quem ganha presentes são as pessoas. Até aí, tudo bem, é a mesma linha de propagandas de supermercado — “o aniversário é nosso, mas é você quem ganha”. Quando vou aprendendo mais é que começo a me complicar. A princípio eu achava que o tal deus era um senhor de barba branca e roupão vermelho, pois, afinal, é tudo o que se vê nessa época do ano. Fora isso, pensei também que tivesse a incrível habilidade de se multiplicar, pois eu via o barbudo em várias lojas e shoppings ao mesmo tempo! Mais para frente arrepiei minhas penas ao descobrir que ele não usa carro nem avião, mas um trenó (!) voador (!!) amarrado a renas também voadoras (!!!). Ah, e uma delas tem o um nariz vermelho brilhante (?!). As vitrines e ruas se enchem de enfeites, luzes que piscam e neve artificial. Esta última é outro dos aspectos estranhos da festa, pois num país do Hemisfério Sul como o em que vivia, antes de ser assado e fatiado, é verão em dezembro. Talvez estivesse lá para combinar com as roupas do barbudo, que de maneira alguma eram de verão. Há também o costume de armar dentro de casa uma réplica de pinheiro e também enchê-lo de enfeites. E luzinhas que piscam. Dispenso comentários. Ah, e tem quem traga árvores de verdade para dentro de casa. Não faltava mais nada. Já as pessoas não poderiam ficar mais simpáticas. Num mundo em que uma vaga de estacionamento é disputada a punhos cerrados e dentes quebrados, o Natal aparece como uma dádiva àqueles que ainda acreditam em relações humanas harmoniosas. Uma família que se senta cada membro num cômodo e liga a televisão para assistir a mesma coisa de repente se ama e se adora. Trocam beijos, abraços e presentes à meia-noite do dia 24 para o 25 de dezembro. Até certos parentes que preferiam ver outros debaixo de um ônibus tratam como os mais estimados seres do planeta. As pessoas correm e sofrem para adivinhar o que o outro gostaria de ganhar. Altruísmo! Nem tanto — esperam um presente em troca. O fato é que os seres humanos são criaturas fascinantes. Só de tratarem com naturalidade um feriado tão bizarro como este, sinto que não poderia ter morrido em época melhor. Meus primos lá do Hemisfério Norte reclamam de serem decepados e temperados em mais um feriado, um tal de Dia de Ação de Graças. Deixo para eles, porém, falarem sobre o tal. Quanto a mim, fico esperando que “o dia” do tal barbudo chegue para podermos finalmente conversar. Estou um pouco pessimista, porém, pois já me disseram que o infeliz vive há mais de mil anos. Querido Papai Noel...
De Felipe Soares Machado. Neste Natal não venha, definitivamente dê a volta no quarteirão, e se puder passe por quilômetros de distância da minha presença. Vermelhinho assim, você parece uma estrela de partido político querendo me iludir, e pra mim não dá mais, chega de ilusão. Ei, mas num tem uma TV de plasma 37 " High Definition (1366 X 786 pixels) aí não? Enfim, sou brasileiro amigo. Felipe Soares Machado é leitor do Blônicas e vencedor do concurso de crônicas natalinas. Mantém o blog www.quartosubversivo.zip.net Natal.
De Edgar Costa Neto. - Presta atenção, filha: essa história de Deus mandar um filho à terra foi
uma grande besteira do ponto de vista do marketing do produto. Edgar Costa Neto é leitor do Blônicas e vencedor do concurso de crônicas natalinas. Mantém o site http://www.digo.ecn.br Vencedores do Concurso de Crônicas de Natal.
O 1º. Concurso Livre de Crônicas Natalinas da Editora Jaboticaba e do Blônicas anuncia seus vencedores. Agradecemos a todos os leitores que participaram e prestigiaram nosso concurso. Foi muito difícil escolher os 10 premiados e parabenizamos a todos os participantes pela qualidade dos textos. Vencedores por ordem alfabética: Prêmio: Livro do Blônicas e publicação do texto no blog. Edgar Costa Neto Felipe Soares Machado Ricardo Prado Prêmio: Livro do Blônicas. Fernando Brandt Marina Rosane Melz Maykon Souza Selene Alge Stella Thaís S. B. Araujo Thaty Marcondes Sexta-feira os 3 melhores textos estarão aqui no Blônicas, até lá! Olhos negros.
De Nelson Botter. A água desce suavemente da jarra, percorrendo os cabelos que vão até seus ombros nus, revelados por um generoso vestido que expõe divinamente seu belo colo. Seus olhos são negros, de pupilas vivas e brilhantes, donas de uma beleza indescritível em palavras. A menina pensa na chegada dele. Demorou, mas chegou. Finalmente lá estará ele, tão esperado e festejado. Ela ainda não está pronta, quer recebê-lo divinamente, mil reverências e agrados, tudo para depois poder repousar a face do recém-chegado naquele seu colo mágico e sedutor de mulher. Ela sabe que ele não ficará muito tempo, mas fará daquele o melhor dos encontros. Tudo é efêmero, essa é a lei, por isso ela quer viver cada segundo como se fosse o último. Ah, ela é linda, doce e misteriosa. Uma fortaleza impenetrável para alguns, mas quem tem a sorte de merecer suas chaves conhece que nobre valor se esconde naquele coração apertado e ansioso. Charmosa, ajeita o vestido e se debruça na janela. Ele já deve estar chegando, a menina pensa ao mesmo tempo que corre até o congelador para pegar a garrafa que guardou especialmente para aquela ocasião. Os óculos repousam na mesa e ela não precisará deles, afinal a paixão é cega. Ela sabe amar, aprendeu nos livros, praticou na vida. Debruçada, com as mãos apoiando o queixo fino e bem recortado, faz caras e bocas. Ela é especialista nisso, sabe melhor do que ninguém ser a musa pontual, a menina manhosa, a amiga companheira, a mulher que deseja, a amante insaciável... mas hoje o vestidinho revela o colo cheio de amor e esperança. Ela o espera ansiosa, pois sabe que finalmente a hora da virada chegou. A rolha do champagne bate no teto alaranjado. Ele chegou, está ali, do outro lado da porta. Ela ajeita o cabelo e também o vestido com seu delicioso “tomara que caia”. A mais bela das mulheres morreria de inveja dela nesse momento. Vai até a porta, respira fundo, fecha os olhos negros e a abre. Se abre. Lá fora a vida. Os fogos no céu negro revelam que ele já está lá, chegou e veio por um breve tempo, mas infinito o bastante para ficar para sempre na memória. As doze badaladas anunciam a virada... e ela sabe que esse será o seu ano. Vai menina, vai brincar lá fora, que o mundo é seu e te espera de braços abertos. Ele te ama. Feliz 2007. Nelson Botter é cronista do Blônicas. Na linha do coração e da vida.
De Xico Sá. Vejo aqui na linha do coração um amor mal-resolvido", soprou este mago que vos lê a sorte e sina. A mocinha, uma deusa balconista ali dos arredores da praça Patriarca/SP, assanhou as sobrancelhas. "Ele vai voltar pra mim?", avexou-se em saber. "O infeliz te ama muito, mas é cheio de dúvidas e nove-horas, sabe como são essas coisas", tergiverso, na moral, enquanto afago, carinho esotérico com fundo levemente erótico, a mão direita -uma mão espadulada, conforme meus conhecimentos prévios de quiromancia. A minha primeira consulente, na tenda improvisada no viaduto do Chá, sai comovida, esperançosa. Falar em amor mal-resolvido é golpe certeiro para qualquer alma penada. A consulta gratuita, "dumping" na concorrência cigana e baiana, atraiu os passantes. De graça, nego entra na fila até para ouvir o dia da morte. O segundo foi chegando como quem chega do bar. Ótimo. Nada mais fácil do que prever o futuro de um ébrio. "Todo mundo crê em alguma coisa; eu, por exemplo, creio que vou tomar um uísque", recepciono a criatura, ajambrando um boutade de Grouxo Marx. "Me leva com vossa pessoa, então", soluça o rapaz, fino, bom humor. Com uma alma bêbada, melhor aplicar as cartas. Ele saca mais rápido e vai logo traçando o baralho, como se fôssemos disputar um truco. Começou a dar trabalho. Decido então o seu destino: dou-lhe umas moedas para tomar uma cerveja. Ele arreda, feliz, feliz... Próximo. Outra rapariga em flor. Mão cônica. Lindos dedos. Passeio na linha da sua vida suavemente. Agora a esquerda, para ler o passado. A direita de novo. Ela apreensiva. O medo da mocinha diante do mago. "Você quer mesmo que eu diga tudo que li aqui, passado, presente, futuro?" Titubeou. "Será, meu Deus!?", diz. "Está nas suas mãos", amplifico o mistério, com voz de G.K.Chesterton. "É muita desgraça assim?", treme. "Nada mais, nada menos do que a vida, meu amor", amacio. "Me solta, melhor ir embora", ela tira a mão, que eu ainda acariciava... As ciganas ao lado só miravam a minha banca de mercadorias e futuros. Uma delas, Carmem de Itapevi, olhos capitus, foi com a minha cara. "Vou te ensinar como se lê uma mão de verdade", disse, rindo do meu jeito leso e picareta. Decifrou num instante a minha sina amores "perros". "Você sabia que está muito próximo de encontrar a mulher da sua vida?", faz suspense. "Acabo de encontrar", gracejei. "Não brinque com o destino", ela atalha. "Verdade", insisti. "É uma moça que tu já conheces, e muito, com quem foi, acabou, voltou, foi de novo...” deu o serviço clicheroso, fudeu, passou. E um lance de búzios jamais abolirá o silêncio, como diz o velho Acaso com os dedos coçando para jogar novos dados. Xico Sá é cronista do Blônicas. Depois que você me mandou limpar os óculos.
De Tati Bernardi. A mesa rodava, as luzes insistiam, os barulhos iam cessando como um prêmio e as pessoas tentavam me aquecer. Eu sabia que estava sendo amada, talvez como nunca em toda a minha vida. Mas só tinha olhos para os pêlos do seu braço. Eu olhava como quem não olha e me dizia baixinho: olha eles lá, olha lá os pêlos que eu tanto amo sem mais e sem fim. Tati Bernardi é cronista do Blônicas e acabou de lançar o livro "A mulher que não prestava", a venda nas principais livrarias. O sonho da causa própria
De Henrique Szklo Segundo uma velha máxima, deixar deputados e senadores decidindo o próprio salário é como deixar a raposa cuidando do galinheiro. Mas como não gosto de velhas máximas, resolvi tentar criar uma nova. Assinale sua preferida. Então, deixar deputados e senadores decidindo o próprio salário é como: ( ) Assaltantes decidirem como deve ser o sistema de segurança dos bancos. ( ) Deixar o apostador decidir onde a bolinha da roleta vai cair. ( ) Estelionatários serem os responsáveis pela confecção das artes-finais das cédulas de dinheiro. ( ) Permitir que o condenado escolha sua própria sentença. ( ) Os alunos poderem escolher suas próprias notas. ( ) Deixar o torcedor decidir o resultado das partidas do seu time. ( ) Autorizar os bancos a decidir os juros que vão cobrar (opa, isso já acontece!). ( ) O contribuinte escolher o imposto que quer pagar. ( ) O motorista poder escolher que placas de trânsito respeitar. ( ) O consumidor ir numa loja e escolher o preço que quer pagar por qualquer produto (Qué pagá quanto?). ( ) Deixar o Michael Jackson tomando conta de uma creche. ( ) Ao passageiro for permitido escolher o horário que seu avião vai decolar. ( ) O bebê escolher os pais que quer ter. ( ) Ganhar duzentas vezes na loteria sem nunca ter comprado bilhete. ( ) A gente escolher o país onde nascer. De preferência um que não tenha políticos tão salafrários. ( ) O obeso decidir que alimento engorda e qual não. ( ) Deixar o marceneiro decidir quando ele vai entregar o serviço. ( ) Deixar o PT governar um país. ( ) Um homem decidir quantos orgasmos ele consegue ter numa mesma noite. ( ) O preguiçoso poder escolher quantos dias quer trabalhar na semana (essa não vale, porque os próprios deputados e senadores já fazem isso!). ( ) A mulher poder decidir o tamanho do próprio peito e da bunda sem precisar de silicone. ( ) Roubar a própria mãe. E ainda passar a mão na bunda dela com um sorriso malicioso. ( ) Qualquer empregado normal decidir dobrar o próprio salário e informar ao patrão sem que ele possa fazer nada para impedir. Mesmo que o empregado em questão seja uma besta. Que seja tão incompetente e desonesto que mereça demissão sumária e por justa causa, sendo que em alguns casos até mesmo a cadeia. ( ) Todas as alternativas acima e mais algumas que não deu tempo de pensar. Henrique escreve no Blônicas e vai dar bis no seu show de stand-up comedy, dia 17 de dezembro, domingo, às 19h30, no bar Beverly Hills, av. Jurucê, 1001, Moema, São Paulo. Veja o convite e faça já sua reserva. Sociedade Lipofóbica.
De Rosana Hermann. Homofobia é crime. Perfeito. Não faz sentido discriminar um ser humano por causa de sua orientação sexual. Não é da conta de ninguém, não interfere na vida de ninguém e, se ninguém tem nada a ver com isso e nem sofre conseqüências por isso, não há porque a sociedade condená-la. Xenofobia também é crime. Totalmente correto. É absolutamente inaceitável que uma pessoa seja discriminada por ter nascido em um determinado país, estado, município. Nas copas do mundo e outros torneios internacional damo-nos ao luxo de manifestar os piores sentimentos pelos argentinos, mas tudo tem que ficar só no folclore. Tratar mal alguém só porque nasceu em um país diferente do nosso ou porque tem outra língua é ridículo e não faz o menor sentido. Além da origem e da orientação sexual, também o credo de uma criatura é de foro íntimo. Nenhuma pessoa pode sofrer represálias porque tem uma ou outra religião. Está na constituição brasileira, está na declaração universal dos direitos humanos. Essa mesma sociedade contemporânea, porém, que já assimilou alguns desses itens anteriores e tenta conviver com outros, embora sem sucesso em muitos casos, desenvolveu uma fobia social que, ao invés de ser combatida, vem sendo fomentada: a lipofobia, ou, trocando em miúdos a aversão pela gordura presente em qualquer corpo humano de uma forma geral, seu ou de outrem. Qualquer acúmulo adiposo é visto como falta de caráter, falta de educação, desleixo, falta de vontade própria. Uma proeminência a mais, uma cintura mais larga, qualquer gordura é socialmente vista como um atestado de incompetência pessoal. O pior é que, ao contrário, todas as soluções mais absurdas para chegar à magreza, como consumo de anfetaminas, dietas loucas, plásticas sucessivas, são vistas como os novos ‘bons modos’ sociais para atingir a meta maior, a da boa aparência. Na era do espetáculo que estamos vivendo, vale para vida real o mesmo que vale nos palcos ou nos estúdios de produção: o que importa e o que parece e não o que é. As pessoas passaram a ser também cenográficas. Um talher de ouro numa cena de tv não precisa ser de ouro para assim parecer, basta que seja dourado. O mesmo passou a acontecer com homens e mulheres, que não precisam ser magros, basta que se matem de forma escondida para parecerem magros aos olhos de seus vizinhos. O que é não tem importância. Vale o que parece. O superficial. Tudo, claro, travestido de ‘preocupação social com a saúde’ e de ‘estímulo ao aumento da auto-estima’. Triste isso. Antes, acontecia freqüentemente, diante de escândalos de corrupção e de resultados estúpidos da eleição, de eu não me sentir parte do povo brasileiro. Agora, com o desprezo a tudo o que o ser humano contém em si em detrimento da sua forma física aparente, há dias que eu não me sinto mais parte da raça humana. Rosana Hermann é cronista do Blônicas. (Des)Conto de natal
De Carlos Castelo. O Morro do Emborcado estava em polvorosa. Quando entrou dezembro, Nenzinho e bando tomaram conta da boca. Os do Polaco foram brutalmente varridos do pedaço. E o mais incrível: Nenzinho contava apenas com 17 anos nas costas. Muito por isso, apesar de todo o conhecimento nas artes do bem-traficar, ele ainda guardava um pedaço do menino ingênuo e catarrento que habitara aquelas palafitas. A prova foi o que se deu na noite de 24 do mês. Nenzinho andava nuns nervos descomunais. Nessa noite mandou Repinique, seu assistente-de-ordens, reunir toda a cambada no terreirão. Liberou geral goró, farinha e outros breguetes. Só estranharam porque não rolava nenhum som. Quem começou a soar mesmo foi Nenzinho. Chegou nas frente dos brôs e deitou falação: - Aí, gente boa, chega essa época fico maus. Todo mundo aqui já foi lascado. Agora tamos na fita, mas o estado de dureza machucou geral e pra sempre. Acreditei numa pá de coisa. Essa pá de coisa me decepcionou geral. Então, aí, tô só avisando. Ficar esperto que vai rolar parada diferente nesse Natal. Quem avisa, brother é! A galera deu um "salve" desconfiado. Repinique fez sinal pra dispersar. Mandou ficar só a moçada firmeza: Toinho, Teco e Cosme Doido. Foram pra um canto do barraco receber as ordens. - É procêis irem num shopping aí, ó. Sequestrar o Papai Noel e trazer aqui pro cafofo. São oito horas. Nenzinho quer o velho aqui antes da meia-noite - disse Repinique olhando o relógio. Ordem dada, ordem feita. Meia hora antes da ceia chegava o Papai Noel do shopping Campo Limpo devidamente manietado. Cosme Doido falou: - Tem o duende e a Mamãe Noel no porta-malas. Traz? - Traz não - replicou Repinique - apaga que a ordem é só o velho. Teco deu um teco em cada um e largou na guia, estrebuchando. Papai Noel foi sentado num tamborete, as vendas retiradas dos olhos. Foi quando Nenzinho entrou na saleta. Olhou para o homem assustado, todo trajado de roupas encarnadas e mandou essa: - Lance seguinte: acreditei em tu, tá ligado? Coisa de menino, cara. Botei fé pra valer. Entrava dezembrão eu pedia pro Raimundo Celoura, lá da vendinha, pra escrever pra tu. Pedia só besteira: bola, meião, kichute. Tu alguma vez deu? Tô perguntado, velho pançudo, tu deu? - Hofhgmfrum... - Tira o pano da boca dele, Toinho! - Mas, meu senhor, eu não sou Papai Noel. Meu nome é Jurandir, eu... - Bota o pano na boca dele, Toinho! Nenzinho estava rubro. Foi até a mesa, rasgou um papelote e chupou ventas adentro. - Tão vendo? O cara vem aqui e diz que não existe! Seu Nicolau, muito feio mentir pras criancinhas... Excitado com a cena, Teco engatilhou a Magnum e a encostou na cabeça do velho. - Tu é muito porra, Papai Noel. Foi empurrado contra a parede por Nenzinho, que deixou bem claro: - Esse Papai Noel é meu. Só meu! Depois deu outro berro: - Tira o pano da boca dele, Toinho! Na manhãzinha de 25 de dezembro, a central da PM recebia o seguinte rádio da unidade que monitorava o Morro. - Positivo operante. Cabo Olinto monitorando o Emborcado. Aguardo IML, rabecão e patrulhinha de apoio. Ao que tudo indica fizeram uma malhação de judas no Papai Noel. Prossiga... Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Nem parece a Tati.
De Tati Bernardi. Hoje vou fazer uma coisa que nunca fiz na minha vida: usar um espaço na mídia pra falar do outro. Melhor: dos outros. Profile
De Isadora P. Szklo Eu tento preencher minha vida com o vazio de suas palavras em tom de brincadeira. Eu tento caminhar com as próprias pernas a fim de não depender do caminho que você seguirá. Eu tento engolir as lágrimas para não aguar o construído. Eu tento não olhar para trás, porque só o passado tem o poder de remeter-te às mais diversas sensações e ocasiões, e minha mente e meu coração continuam sempre me dizendo "tente nunca se lembrar do que foi ruim". Eu tento sorrir com um ar falso de compaixão a fim de jamais ferir os já feridos. Eu tento me segurar enquanto miro seus olhos que mesmo sem poder falar uma só palavra, dizem tudo, toda verdade omitida pela fala. Será que todos estão pensando que tenho as mesmas preocupações fúteis de uma sociedade falida? Oh não. Penso no indiferente, no acabado, no que falaram, no que deixaram de falar e no que eu gostaria de ter falado. Ofensas vindas de todo lado mas não me incomodam mais. Ligava, liguei, não ligo mais, não ligarei. Quem se importa? Sempre seguindo em frente. Minha auto-destruição é a minha única luta, porque eu não jogo para ganhar. Nunca fui o que quis. Nunca quis o que fui. Nunca fui invadida por uma felicidade duradoura. E nunca fizeram questão de tentar. Gosto de coisas simples, como ler frases bonitas, pensar e realizar, querer e poder, sentir que sou o que não sou para me satisfazer, escutar o que expresse o que está dentro de mim, fazer o que eu tenho vontade, escrever o que sinto, ser quem as pessoas não podem deixar pra trás, amar infinitamente, sentir, reciprocidade de sentimentos bonitos, olhar a lua, pensar e transmitir, rir, fazer rir, frases feitas, felicidade instantânea, sorrir, fazer sorrir, sentir uma brisa de felicidade, ouvir uma música agitada e dançar, ouvir uma música linda e chorar, falar uma coisa, sentir outra, fazer as pessoas felizes, fazer as pessoas se sentirem mal, arrancar seus vestígios de mim, sentir bem estar, conversar e te mostrar o quanto te amo. Mas sou uma pessoa substituta, quase nada é possível. Já cheguei a pensar que você me amasse de verdade mas, talvez eu esteja me afogando e você esteja apenas nadando em volta de mim. As pessoas não entendem o que eu falo, as pessoas não viveram o que vivi. Isadora é filha de peixe Ainda dá tempo!
Pequena Crônica Anacrônica.
De Lusa Silvestre. Longe de mim querer posar de arauto da saudade. Longe de mim dizer anacronicamente que o mundo mudou, blá blá blá, que antes que era bom, essas coisas. O que eu sei é que hoje eu chego em casa, esquento um pocket Sadia no Micro, e assisto um dos cento e duzentos canais de TV - então, realmente não vamos tão mal assim. Mas tem duas coisas que parecem ser modernidade, que parecem facilitar nossa vida, quando na verdade complicam pacas: Viagra e Blackberry. Primeiro, o Viagra, ou Cialis, ou o Chá de Catuaba em drágeas. Certo, isso praticamente acaba com a broxidão; o Broxa de hoje em dia tem que ser um cara realmente determinado para assim se manter. Por um lado, é bom, não existe mais a insegurança; o sujeito parte pro jogo com a certeza de um bom resultado. Agora, sejamos sinceros: quando o cara broxava, a mulher encanava, e o homem desculpava. E se tentava de novo dali um tempo, ou mesmo se conversava ainda de cueca no pé da cama. A mulher tentava ajudar, o homem minimizava, enfim: fazia parte. Com o Viagra, não tem mais essa do papo cabeça pós coito frustrado. Findou-se. Pena: nada mais cúmplice que uma moça tentando entender e/ou afagar uma broxidão. Nada mais heróico que, mesmo flagrado em evidente paumolescência, o homem ainda insistir na próxima, e na próxima, e na próxima, até dar certo. Com essa química a serviço de Eros, não tem isso. Não vai demorar para aparecer a primeira mulher encanada ao contrário, aquela que não psicologiza mais a broxidão, e sim a própria ereção. Já pensou, a moça tensa porque não sabe se aquela rigidez toda é por causa dela ou por causa do Viagra? O BlackBerry ? Também complica o sexo. Te acham em qualquer canto, e assim sendo, como ter sossego para o teretetê ? Mais ainda: quem vai conseguir manter uma amante se ligam em pleno motel ? Você está almoçando, recebe um email, o trem apita, e você - ansiedade pacas - vai ver quem escreveu. Como ter um colóquio sigiloso com uma amásia - hipoteticamente falando - se depois a própria mulher vai perguntar "te liguei", ou "te mandei um email" ? Como explicar ? Reunião ? Sem ingenuidade; ninguém cai mais nessa. Olha, se Blackberry não fosse um troço dependente de bateria, a instituição "amante" estaria com as tardes contadas. Pelo menos podemos usar a Ray-o-vac como pilha expiatória. Então, percebam: adoro o número de coisas que inventam todo dia. Em pouco tempo, poderei sair de casa carregando só um celular, e com ele ouvir música, tirar foto, pagar almoço e até ligar o carro. Pra quem entrava no cinema carregando carteira, chave, e um som Tojo na bandeja, é um baita progresso. Mas tenham isso em mente: o sexo sem a amante e sem a importência não existe. Tem que haver o risco, o "será que ?". Sem um sexo humano e natural não haverá muita graça, nem com cento e duzentos canais na televisão. Lusa Silvestre é cronista do Blônicas. Internet: paraíso do bom-senso, inferno da ignorância.
De Rosana Hermann. O primeiro sintoma da ignorância é ofender-se isoladamente com a palavra antes de compreender seu contexto. Paranóicos que somos, costumamos interpretar ‘ignorante’ como ‘grosseiro, inculto, atrasado’, esquecendo que ignorar é apenas desconhecer. Ignorância, em primeira instância é, simplesmente, não saber. Muita gente ignora isso e por isso, fica instantaneamente ofendido com o termo e, muitas vezes, parte para ignorância. Se os budistas tiverem razão ao ensinar durante milênios que a ignorância é o inferno do mundo, podemos ampliar e modernizar o conceito afirmando que o mundo virtual é o inferno dos ignorantes. Na Internet não há guias, gurus, professores, ninguém para nos guiar. Somos todos auto-didatas e estamos soltos à nossa própria sorte. É cada um por si, Bill Gates por todos e Steve Jobs por poucos. Neste mar de dados reais e irreais, de informações com e sem fonte, de fotos manipuladas, o ignorante navega de braçada e morre na praia. Abre arquivos executáveis indevidos, clica em links de emails de scam, baixa vírus sem perceber. Além de corromper seus próprios arquivos, comete o grave equívoco de acreditar em tudo o que vê, tudo que lê, que ouve, ainda baseado na antiga crença de que tudo o que está publicado é verdadeiro, máxima oriunda de uma época em que o acesso à publicação era privilégio da aristocracia letrada. O fato de estar na Internet não é prova de acuidade assim como a existência em si de um ser humano na Terra não garante sua integridade. Dizer ‘está na Internet’ como atestado de veracidade é tão absurdo quando dizer que uma pessoa é inocente ‘porque está no planeta’. Hoje, da mesma forma que criminosos e cientistas transitam livremente pelas ruas, informações inverídicas e dados reais circulam pela rede. É justamente por isso que devemos manter no mundo virtual a mesma prudência que temos pelo mundo real. Sair clicando ao léu é proporcionalmente tão perigoso quanto atravessar uma avenida de olhos fechados. Assim como o Google é a mais imprescindível ferramenta para buscar informações, o bom senso, a lógica, o critério, a intuição são ferramentas essenciais para selecionar os resultados. Atualmente o Google dá até uma mãozinha para o usuário, corrigindo palavras e nomes quando nossa busca contém eventuais erros de ortografia. Mas é possível encontrar na rede tanto o esclarecimento da dúvida quanto a reafirmação do engano. O caso mais recente aconteceu no programa do Jô Soares. A emissora é exemplo de qualidade, o programa é ícone de sucesso, o apresentador é tido como um homem culto. Mas a falta de bom-senso acabou por macular esta ilibada imagem coletiva quando uma foto manipulada de Gisele Bündchen, alterada no photoshop, retirada sem critério do Google Images, foi usada para ilustrar uma importante entrevista sobre anorexia no mundo da moda. Dias depois, Jô fez um longo discurso desculpando-se pelo ocorrido porém, isentando-se de responsabilidade, ao dizer que a publicação de fotos manipuladas na Internet é que deveria ser controlada. Errou de novo. A Internet é o espelho do mundo humano, no bom e no mau sentido, onde a o verdadeiro e o fake estão à disposição de todos, assim como o perigo convive com a segurança. Cabe a cada um de nós desenvolver nossa capacidade de discernimento. A Internet é o paraíso do bom senso e o inferno da ignorância. E, em casos profissionais basta usar a velha regra: perguntar antes de atirar, checar, antes de divulgar. Para todo o sempre.
De Nelson Botter. Podia-se notar as marcas do tempo em seu rosto. O olhar triste e o jeito amargo também revelavam um longo caminho tortuoso. Quando abriu a porta e entrou rapidamente para fugir do temporal, chamou a atenção de todos no recinto. Nunca haviam visto tal mulher e o homem que servia os fregueses na mesa do fundo ficou medindo a estranha de maneira até constrangedora, o que também não era muito incomum em se tratando daquele turco desconfiado. Ela sentou-se e tirou o casaco ensopado. O turco se aproximou e perguntou secamente o que ela gostaria de beber. - O que você tiver de mais quente, por favor. - Temos sopa. - Qualquer coisa quente. O turco, incomodado com a resposta, virou-se e foi em direção à cozinha. Enquanto isso, a mulher abria a bolsa para pegar um bilhete. Ficou ali, mais de um minuto apenas observando o papel, as linhas, o jeito da escrita, tudo, menos o conteúdo. O rosto todo molhado da chuva era conveniente para esconder algumas lágrimas que lhe caíam dos olhos. - Aqui está sua sopa, dona. Sopa turca, muito boa. Ela nem parecia ouvir o homem. Continuou com os pensamentos mergulhados naquele pequeno pedaço de papel. Passava os dedos por toda a extensão do bilhete, como se o acariciasse, um gesto belo e terno. - Tome sua sopa, vai esfriar - disse o turco com voz enfezada. - Ah, sim, obrigada. O turco jogou no ombro o pano de prato que segurava nas mãos e deu de costas para a mulher. - Por favor, senhor - ela o chamou. - Por acaso o cemitério fica próximo daqui? O turco ficou pensativo por alguns instantes. Então, se aproximou mexendo um palito que trazia no canto da boca. - Dá umas seis ou sete quadras daqui. Mas depois das oito da noite eles fecham e já são quase nove... Ela ficou quieta, voltando seus olhos novamente para o bilhete. Pegou a tigela de sopa quente, dispensou a colher e a virou goela abaixo em poucos segundos. Sentiu o caldo quente lhe aquecendo e queimando por dentro. - Quanto é? - Cinco. Mais o serviço dá cinco e cinqüenta. - Fique com o troco - ela disse, entregando-lhe uma nota de cem. O turco olhou assustado, mas nada falou. - Não se preocupe, bom homem, não vou precisar desse dinheiro. Saiu pela porta da mesma maneira misteriosa que havia entrado, enfrentando a forte chuva que continuava lá fora. O turco ainda viu o vulto da mulher pela janela, caminhando em direção ao cemitério, tentando imaginar quem poderia ser aquela soturna figura. Assombração não era, pois até onde ele sabia fantasmas não bebiam sopa. A mulher encarava a tempestade com coragem, até que avistou o portão principal do cemitério. Sabia que se forçasse um pouco as barras, poderia passar, pois seu corpo era pequeno e franzino. Sem problemas conseguiu entrar e caminhou até uma das lápides da ala norte. Ajoelhou-se em frente ao túmulo e começou a rezar em prantos. Beijou o bilhete, deixou-o no chão e pegou um pé-de-cabra que trazia consigo dentro do casado. Forçou a tampa da tumba, que se moveu facilmente e a arrastou. Ela olhou emocionada para dentro e, então, fez o sinal da cruz, mirando seu rosto para o céu. - Já estou chegando... - ela murmurou. Ao dizer isso, começou a entrar na tumba e, com enorme esforço, conseguiu fechá-la, cerrando-se lá dentro para todo o sempre. Demorou quase um mês para que o coveiro percebesse que a tampa daquela tumba estava torta e levemente entreaberta. O cheiro que vinha não era nada bom. Lá dentro, dois corpos em decomposição, repousando abraçados. O coveiro viu poesia na cena. Então, resolveu não dizer nada a ninguém e muito menos retirar o segundo cadáver. Ele não tinha esse direito. "Fiquem juntos em paz", sentenciou, ajeitando a tampa da tumba. Suspirou, esboçou um leve sorriso e saiu com a certeza de que havia feito a coisa certa, afinal, o que pode ser mais insano e belo do que o amor? Nelson Botter é cronista do Blônicas. As maravilhas do sexo sem amor...
(atendendo aos leitores que não aguentam mais me ver sofrer) De Tati Bernardi. Já que não estou nem aí se ele percebe ou não minhas celulites e estrias, desfilo pelada e tranquila, enquanto como uma caixa de amanditas. Tati Bernardi é cronista do Blônicas e lança seu livro "A mulher que não prestava" no dia 11 de dezembro, na Fnac Pinheiros (São Paulo). Para mais informações e ver a campanha do lançamento, acesse www.tatibernardi.com.br A primeira noite de um homem só
De Henrique Szklo Estava marcado para a noite de ontem. Me preparei para este momento durante as duas últimas semanas. Apesar da minha idade aquela seria a primeira vez e eu estava naturalmente ansioso. Será que eu conseguiria? Iria corresponder as expectativas? Teria coragem de dizer e fazer tudo o que eu gostaria? Tentava há vários dias memorizar um texto que elaborei especialmente para esta ocasião tão especial. Mas eu não gosto de textos decorados. Prefiro o improviso, a surpresa. Fiquei no meio do caminho. Cheguei ao local do encontro e ainda não havia ninguém. Estava tenso, elétrico, confiante. Será que vai dar certo? Eu tenho competência para isso? Vou ser bem recebido? Quem sabe. Resolvi tomar um rabo de galo para relaxar. Grande pedida, caiu como uma luva. Devia se chamar luva de galo, pensei, tentando desviar minha mente da excitação exagerada. A hora estava quase chegando e apareceu uma velha conhecida minha: a vontade de fugir. Vontade que não teve a força de uma atitude, mas que, ao contrário, serviu para aumentar ainda mais a adrenalina e fortalecer minha convicção pela escolha de uma vida de incertezas e aventuras. Na hora marcada estávamos lá, frente a frente. Prontos para o que desse e viesse. Então as luzes se apagaram e eu me senti sozinho. Era como se tudo naquele lugar estranho estivesse apenas aguardando a minha queda, o meu vexame definitivo. Estava exatamente onde queria estar mas queria estar em outro lugar. Escondido, quieto, seguro. Mas ao mesmo tempo me sentia muito intenso e iluminado, destacado da paisagem. Dominei meus demônios e parti para o ataque. No começo deu branco. Não sabia direito o que dizer e o que fazer. A recepção era fria e preocupada, confirmando meus temores de um fracasso prematuro. Minhas mãos, meu corpo e minha língua ainda não sabiam direito como se comportar. Precisei de água, muita água. De repente tudo aquilo que eu preparei para dizer se apagou de minha mente como se alguém tivesse apertado minha tecla delete. Vacilei. Temi por minha dignidade, por minha auto-estima. O que eu estava fazendo ali? Por que me imponho sempre estas situações-limite? Como sair daquela saia justa sem me arrebentar por dentro? Vou em frente e seja o que Deus quiser. Usei meus instintos, fui inventando moda, improvisando, dissipando o medo. Por um momento cheguei até a ficar relaxado e calmo, quase o dono da situação. Mas logo em seguida novas dúvidas me atingiram como adagas afiadas em minhas costas, covardemente. Novos desafios e novos frios na espinha. O tempo todo assim: ora por baixo, ora por cima. O tempo foi passando e o monstro pareceu não ser tão feio. Já estive em batalhas piores, bem piores. E meu desempenho, posso dizer com destemor, até que foi razoável. Bem acima do que foi quando fiz sozinho, para treinar. Para a minha alegria e alívio consegui chegar ao fim. Não falhei, como temia. A reação foi de prazer. Não sei exatamente em que medida, se muito ou se pouco, mas o prazer estava ali, flutuando no ar. Cheguei a ser cumprimentado. Não sei se foi imaginação ou não mas acho que ouvi palmas. Em meu coração, a sensação de missão cumprida, de uma árdua e cansativa, mas vitoriosa batalha. Agora o cansaço. Suei, queimei calorias e neurônios, perdi mais alguns cabelos, mas sobrevivi. Foi um trabalho limpo. Plantei uma semente. Não sei se fecundará ou não, não importa. Mas sei que farei outras vezes e sei que farei melhor. Só posso dizer que foi um show e que esta noite dormi como um anjo. Henrique escreve no Blônicas e estreou como comediante stand-up. O castelo - parte 1
De Leo Jaime. Estava chegando o dia da estréia. Os atores inseguros, o cenário dando alguns problemas, o diretor achando que devia fazer uns cortes, o teatro demorando a liberar os espaços nas coxias e alguns camarins, ou seja, tudo dentro dos conformes. A tensão subindo e os dias ficando cada vez mais longos. Era preciso acertar os penteados, tanto dos atores quanto das perucas, definir as maquiagens, pois as das fotos não tinham ficado boas para a cena; era preciso, sobretudo, fazer a peça no palco, com cenários, figurinos e adereços, e testar a luz. O castelo - parte 2
"A casa está cheia de lixo porque ela vem juntando, há anos, tudo quanto é tipo de coisa que se pode imaginar. Mal se consegue abrir as portas dos cômodos, qualquer cômodo, porque está tudo entupido de quinquilharias, lixo mesmo, animais mortos em meio a jornais e revistas velhos e tudo o que você conseguir imaginar. Por isso a vigilância sanitária: a quantidade de ratos e insetos que aquele lixão produz está infestando a região toda". Leo Jaime é cronista do Blônicas. |