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O que tem no copo vermelho?
De Xico Sá. “Decifra-me ou te devoro”, foi logo berrando a Esfinge, num grego das antigas, “o que tem no copo vermelho, meu filhooooooo?” Eu mal escapara das garras dos tubarões de Boa Viagem, “benvindo ao Recife, na próxima te pego, meu nego”, dissera o monstro dos mares com seus dentes afiados capazes de fazer dos surfistas meras criaturas esquisitas sem pé nem cabeça _como uma história mal contada. Aquela voz que saía de dentro do copo gigante e vermelho me deixava sem saída. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, prevalecia o adágio naquela manhã de 30 graus. As ruas vazias, como se o copo gigante tivesse engolido a cidade. Havia um barulho de multidão dentro dele. Havia quase uma metrópole lá dentro, a sensação era essa. O copo que bebeu a cidade. Vejo algo como se fosse a ponta dos dedos de um mulher, unhas e mãos vermelhas, tentando sair do copázio. Pelo barulho, alguém tenta puxá-la pelos pés, como se dissesse: o copázio repete a vida lá fora, quando uma criatura tenta subir, vem alguém e lhe puxa a perna. Agora ensaia-se o motim, percebe-se. Mas será por que somente as fêmeas tentam a fuga? Tento ganhar tempo com a Esfinge. O tic-tac do relógio como num quiz show de auditório fuleiro. Arrisco a minha cabeça quando avisto uma ex-afilhada de Balzac que põe só a cabeça de fora do copo. Havia rejuvenescido pelo menos umas duas décadas meia. De balzaquiana a rapariga em flor. Mas quando ia respondendo, outro evento me choca: minha sobrinha Alice, de seis anos, já portava lindos e maduros cabelos brancos. Quando ia dizendo “é uma fon...” Repensei. Não, não pode ser uma fonte da juventude depois do ocorrido com a Alice menina. É algo mais sofisticado em matéria de maquinaria do tempo. Parece o Castelo dos Cárpatos, de Julio Verne... Ou seria a Ilha do Doutor Moreau habitada pelos homens invisíveis de G.H. Wells? Não, certamente não seria tão óbvio, muito menos estaria ligado tal copo a livros fantásticos ou sonhos. Uma arte de Duchamp ressuscitado? Nem de perto. A brisa marinha, num pitaco dos deuses, assobia-me uma canção que ouvi há muito no rádio. Epa. Tá quente. O relógio marcava os últimos segundos possíveis para a resposta. Arrisco, dona Esfinge: é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar! Ufa! Escapei de mais essa! A Esfinge recolhe a sua bocarra de caninos brancos. De lambuja, ainda faço uma graça à moda de Gertrude Stein: o copo vermelho é apenas um copo vermelho, um copo vermelho, um copo vermelho. Xico Sá é cronista do Blônicas. Escravos do sistema.
De Milly Lacombe. Tudo começou durante uma ensolarada tarde de novembro, quando meu celular novíssimo parou de funcionar. Não. Não é verdade. Não exatamente. O problema parecia ser na bateria, que passou a descarregar em cinco minutos. Rendida, procurei o endereço de uma assistência técnica e arrumei tempo para ir até o local deixar o aparelho. Lá chegando, peguei uma senha, sentei e esperei, cercada por outras pobres almas igualmente aprisionadas ao sistema. Vinte minutos depois, fui atendida por uma sorridente funcionária (sorridente no sentido de carrancuda, quero dizer) que determinou: - Volte em 10 dias úteis. No dia exato, descontados aqueles tais “não úteis”, voltei. (Claro que tentei, antes, ligar para verificar se o aparelho estava pronto. Eu ligava, a telefonista virtual ia dizendo aquele arsenal de números associados a um problema específico, eu ia teclando firmemente, prestando atenção máxima para não perder o número referente ao exato problema de meu aparelho sob o risco de ter que apertar zero a qualquer momento para voltar ao menu inicial e começar a ouvir todas aquelas associações novamente, o que, todos sabemos, é absolutamente enlouquecedor - ter que voltar ao menu inicial, digo. Mas enfim, lá ia eu, ultraconcentrada, nessa algazarra numérica até chegar à tal gravação “sua ligação é muito importante. Por favor, aguarde até ser atendido”. Ficava ingenuamente esperando, querendo acreditar que minha ligação era importante para alguém S.A, até que a linha caía. Repetida a pataquada pelo menos meia dúzia de vezes, fui pessoalmente ao encontro do aparelho). Mais uma vez, peguei a senha, sentei e, como se não tivesse mais nada para fazer da vida, esperei. Depois de uns quinze minutos, embora várias recepcionistas estivessem livres antes disso, fui chamada. Entreguei minha ficha, vi a funcionária digitar o computador e dizer, ainda sorridente no sentido de carrancuda: "A senhora pode aguardar cinco minutos? Vou apenas dar baixa no aparelho". Cinco minutos, como em um jogo de basquete, viraram 20. E ela me chama novamente: Nenhuma frase que comece pela palavra “então” - especialmente pronunciada em um saguão de assistência técnica - pode ser seguida de boa notícia. Não existe: “Então, pela demora na reposição da peça, estamos concedendo à senhora um crédito de mil reais na compra de qualquer produto de nossa marca, mais uma semana em um resort de luxo no sul da Bahia”. “Então”, continuou ela, agora sim, levemente sorridente no sentido de sorridente. “O técnico foi fechar seu aparelho e deu problema na placa". Perguntei o que isso significava. "Significa que o técnico foi fechar seu aparelho e deu problema na placa", ela repetiu, como se eu fosse surda ou débil mental. Insisti para que ela me explicasse até que ficou claro que ela sabia tanto quanto eu. Pedi para falar com o técnico, e ela me disse que o cliente não tem autorização para falar com o técnico. Pedi para que ela fosse falar com ele para me dizer o que exatamente estava acontecendo. "Está acontecendo que, na hora de fechar, deu problema na placa". “ Que placa?” “A placa! A placa!”, repetia ela. Não íamos sair disso. Para interromper o ciclo, perguntei quanto tempo mais até que eu pudesse ter meu aparelho com uma placa nova. "Ah, pelo menos mais dez dias úteis". Pedi que ela me dessa uma nova ordem de serviço. "Não posso, porque é o mesmo problema". “Como assim?” "Ué, o problema na placa continua”. “Mas meu problema era na bateria” “Então”. Desisti de entender porque ficou claro que a máxima do “se não pode convencê-los, confunda-os” estava sendo exercida. “Quando exatamente fica pronto?”, perguntei, quase chorando. “Como disse, a senhora precisa ligar daqui a dez dias para ver se ficou pronto”. E é aí que você percebe que está irremediavelmente sozinha, frente a frente com o sistema. Você quer chorar, o sistema está com uma espécie de riso contido no canto da boca. Você sabe que está sendo enganada, injustiçada, chicoteada. Ainda assim, não tem com quem reclamar. O sistema está ali, olhando nos seus olhos, mas não há mais nada a fazer. Se você gritar, quem, além do segurança sorridente no sentido de carrancudo, vai escutar? O sistema nos quer, mas, uma vez lá dentro, não há saída. Não há para quem reclamar. Muito menos como cancelar. Cruza-se a fronteira para o lado de lá, e não há mais volta. Somos, oficialmente, prisioneiros. Mas ainda resta um consolo. Porque, à noite, você vai jantar com o amor de sua vida, e dormir ao lado dele, e, por alguns instantes, colocar tudo em perspectiva novamente. E, no dia seguinte, acordar, relaxada e renovada, até perceber que sua novíssima e moderníssima conexão sem fio à internet não está funcionando. Milly Lacombe é cronista do Blônicas. Aniversário de São Paulo.
De Roberto da Concina. Como São Paulo faz parte de meu bairro, a Mooca – sim, isto mesmo, São Paulo faz parte da Grande Mooca - sinto a necessidade de dizer uma ou duas coisas a respeito da cidade. Apesar de estar na periferia da Mooca, São Paulo não é de toda má e, em alguns pontos, chega a ter um nível de civilidade suportável. Claro, existem alguns bairros completamente carentes de cultura, onde as pessoas andam de chinelos nas ruas, camisetas regatas e, a contar pelos cabelos ostentados, ainda não apareceu pente por lá. É o triste caso da Vila Madalena, onde a civilização passou longe. É preciso que se levantem algumas Bandeiras, formadas de gente obstinada e desbravadora, com coragem o bastante para dar a estes pobres concidadãos um caridoso banho de cultura. Alguns centros de arte e livrarias não seriam de todo ofensivo para estes irmãos, abandonados no outro extremo da cidade. Podemos aproveitar para oferecer algum lustre de cultura ao bairro de Pinheiros, logo ao lado, também carente neste sentido. A Mooca poderia exportar alguns artistas para locais como estes, entre os quais eu, renunciadamente, me voluntario. Apesar de meu estilo sutil, imparcial e modesto já puderam reparar que sou um artista, não? Um homem das letras? Ótimo, estamos nos entendendo. Vou aproveitar e arrecadar algumas roupas com o pessoal daqui da Zona Leste, para distribuir lá nos Jardins, que fica à meio do caminho. Com aquelas roupas fashion deles, faltando pano em alguns lugares, cheias de remendos em outros, se viessem por estas bandas, não havia morador que não lhes trouxesse um prato de macarronada no portão. Aliás, os bairros ricos da cidade andam meio apagadinhos, não têm a expressão dos bairros de cá. No Morumbi, ninguém fala. Não sei se porque andam meio desanimados com o time de futebol deles, o São Paulo, e apenas vivem da ilusão de terem algum dia um time arrasador para torcer como o Juventus... Mas, antes, porém, de descambar nestes locais inexpressivos da cidade, vou dar uma paradinha no centrão que está ficando uma beleza, depois que alguns respeitosos senhores resolveram restaurá-lo. Aqui, sim, talvez, podemos encontrar o cosmopolitismo compatível à Zona Leste. Sim, porque se há um defeito que me é intolerável é o bairrismo. Estes sujeitinhos provincianos que não conseguem enxergar além de seus umbigos! No centro, o mundo inteiro tem aqui seus representantes, seus falares estão impregnados no português local, a comida de alhures (uau, percebam como estou a cada linha mais senhor do estilo) está representada nos vários restaurantes típicos. De mesmo modo que, no local, os povos do mundo encontram sua religião característica. Ninguém pensa em encontrar uma sinagoga mais fácil que não seja no Bom Retiro, ou um templo budista, no Paraíso, assim como ninguém tem dúvida de encontrar uma igreja apostólica romana no Bexiga ou no Brás. O mundo, São Paulo! Sim, às vezes, olho com orgulho este subúrbio da Mooca. Verdade que, às vezes, com um olhar um pouco altivo de colonizador, apressado em achar certo exotismo nestas terras agrestes, mas, de qualquer modo, com uma afeição paternal e sincera. Roberto da Concina é uma personagem impertinente e insubordinado ao seu criador, o escritor Mauro Judice. A vida sem estresse.
De Rosana Hermann. Todo mundo que já estudou física na escola conheceu a constante ‘k’, o coeficiente de elasticidade de uma mola. Mesmo quem esqueceu básicas em algum dado momento teve oportunidade de esticar a mola de um caderno até que ela perdesse totalmente sua capacidade de voltar a seu formato original. De uma forma grosseira esta imagem da mola que suporta um peso, uma tensão, uma força tão grande que faz com que ela deixe de ser o que sempre foi, uma mola, tem tudo a ver com o estresse, doença da vida moderna que faz com que a gente perca totalmente a forma, o conteúdo e as estribeiras. Mais recentemente as ciências do comportamento e as filosofias de muro de vizinha descobriram um novo termo, um novo conceito, também emprestado da física dos materiais ou da engenharia civil, a resiliência. Resiliência seria a velocidade com que se consegue sair do estado normal, ir para um estado alterado e voltar ao normal sem nenhuma seqüela. Para ilustrar, digamos que quem tem alta resiliência é capaz de receber um recado de que o chefe está chamando, interromper o joguinho de paciência no computador, ir até a sala do patrão, levar uma bronca com ameaça de demissão, sentir o coração explodir pela boca, o intestino perder o controle e, minutos depois, estar de volta tranqüilamente em sua sala pronto para mover um ás de copas para a linha acima das cartas. Felizmente, independente do k, da resiliência, da mola, do chefe ou da paciência, a lei garante que uma vez por ano todo cidadão tem direito a um mês de férias longe da agenda, dos compromissos e das pentelhações profissionais. Problemas, só no âmbito pessoal, familiar e social. O resto é só alegria. Neste período temos mais tempo de olhar para nós mesmos sem pressa. Podemos pegar um espelho e olhar nosso próprio lombo, ainda que para realizar a triste descoberta de que temos uma capa de bacon acumulada acima da etiqueta do biquíni. Podemos questionar se aquela pinta na perna estava ou não naquele lugar no verão passado. A liberdade das roupas leves e o contato com a areia permitem posições impensáveis em dias da semana inglesa, como ficar de quatro na areia em busca de uma conchinha, deitar na espreguiçadeira e babar de boca aberta durante um cochilo, deitar de bruços em forma de xis sobre a esteira com a bunda empinada para tomar sol nas dobrinhas. O descompromisso com a lógica, a elegância, a economia, a política, nos libertam de tal forma durante as férias que nossas molas interiores parecem se restaurar milagrosamente, como se tivéssemos coeficientes e resiliências antes desconhecidas. Lentamente as coisas começam a voltar ao lugar e acordamos exatamente quando o sono termina, comemos no momento em que a fome chega e fazemos amor quando o desejo nos chama. É como se um ‘eu’ enterrado durante o ano saísse da toca escura e úmida da obrigação de sobreviver e viesse à luz avisando que ainda estamos vivos, que ainda somos gente. E suplicando, de joelhos, com um sorriso marcado de sorvete eskibon, que no ano novo que começa a gente produza menos estressa, morra um pouco menos e viva um pouco mais. Feliz ano novo. São...
De Nelson Botter. São Paulo é frenética. São corações que batem em diferentes ritmos, mas sempre acelerados, com pressa, trancafiados num trânsito garrafal, desafiando as badaladas do tempo que insiste em disparar tanto quanto a vida dos paulistanos. São inúmeros movimentos culturais, espetáculos da mais pura arte humana, polo do saber e da manifestação artística da grana que ergue e destrói coisas belas, uma avalanche de pernas ao meio-dia, o lanche da esquina e os restaurantes finos dos Jardins ou Itaim. São multidões que invadem o centro velho, que percorrem a cidade por cima ou por baixo das vias, rostos cansados, desesperançosos, gente que rala e faz um país girar. São Paulos, Marias, Josés, Patrícias, Marcelos, Julianas, Fernandos, Priscilas, são milhares, são milhões, são uma nação, são de todas as partes do mundo, são um mundo, aqui na terra da garoa, que não tem mais tanta garoa porque já não tem mais tanta mata, mas tem gente que mata e faz viver, bebês que explodem seu grito de vida, armas que explodem seu grito de morte. São arranha-céus que ganham os ares, helicópteros e aviões que beiram as lajes, monumentos do caos urbano, parques verdes cercados pelo cinza, enfim, São Paulo é muito mais do que isso, merece muito mais do que isso, pois são 453 anos de pura magia. São muitos e muitos parabéns, mais de 19 milhões de felicitações, minha terra! Pela fresta da janela, enquanto canto essas palavras pra ti, vejo tua noite brilhante, madrugada sem breu, e te beijo, cidade mãe, com o mesmo carinho da tua acolhida aos que aqui vêm tentar a vida. Teus filhos sem distinção. São todos, São Paulo. Parabéns. Nelson Botter é cronista do Blônicas e paulistano da gema! São Paulo vazia, cidade dos sonhos.
De Xico Sá. Sim, já foi simbora todo mundo. Noite vazia, meu velho Walter Hugo Khouri, bravo Antonioni da Móoca! A Babilônia está às moscas. As gostosas foram à praia. As gigantes crumbianas ascenderam às suas galáxias, com loas, cânticos & cânticos, uma graça. Sem problema, guardo todas nas minhas retinas e tento punhetas amnésicas. Restamos eu, os porteiros, meia dúzia de putas e proxenetas da Augusta. Até as baratas foram a uma festa na foz do rio Pinheiros, residência do dr. G.Samsa, ouço o barulho do engarrafamento nos esgotos. Os amigos do alheio também desceram a serra para praticar seus crimes de bagatela. O único defeito desses larápios é necessitar sempre seguir o fluxo dos otários. Os mendigos, os ninjas e o lumpem-do-lumpem-do-lumpem estão fodendo livremente debaixo das marquises. Avisto daqui um velho apodrecendo na viagem ao redor do seu quarto. Se pelo menos os filhos deixassem de presente uns barbitúricos! O negão na esquina do Ibotirama está encachaçado e com um banzo blues d´além África. Sim, os paulistas estão na autopista rumo às filas dos balneários. Como é bom São Paulo sem esse povo todo. Ando mais tranqüilo do que nas alamedas sob os pés de benjamins do Crato. Ah se eu pudesse erguer um muralha da China e que aqui não entrasse mais a estupidez carbônica desses autos. Os carros são mesmo a maior prova da imbecilidade da raça. Você sabia que a velocidade média da cidade, em tempos normais, é a mesma das charretes e cabriolés do século XIX? Sim, algo em torno dos seus 14, 15 km por hora. Bebo uma na laje do prédio. A Babilônia vazia é o maior barato. Xico Sá é cronista do Blônicas. A viagem.
De Milly Lacombe. Eu devia ter imaginado que a viagem seria apocaliptica quando abri o jornal e vi a data: 13 de Janeiro. Por que viajar de avião em um dia 13 se há, no mês, pelo menos outros 29 dias para isso? Mas o pensamento foi interrompido pelo toque estridente do telefone, e a viagem seguiu de pé. Milly Lacombe é cronista do Blônicas e está de volta depois de longas (e necessárias) férias. Comendo o próprio rabo.
De Tati Bernardi. Ainda é cedo e a vida escurece atrás dele. Tenho um pouco de medo daquelas duas rodelas verde musgo que me encaram como se eu pudesse ser reduzida a um segundo: tem muita sujeira ali naquela alma. Ignoro meu peito amaldiçoando o meio das minhas pernas e aceito o convite para ver de perto o cheiro do ralo. Ele não mora muito longe da doceria e vamos a pé mesmo. A cada passo morre em mim mais e mais da garota que tinha ficado feliz com o brigadeiro de colher. Tati Bernardi é cronista do Blônicas e autora do livro "A mulher que não prestava", à venda nas principais livrarias. Compraaaaaaaaaaa caceta! Quem pinta?
De Antonio Prata. Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares e o único resquício de nossa civilização for a porta de um banheiro público, os arqueólogos do futuro chegarão a conclusão de que éramos uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis. A leitora, pertencente a metade mais ilustrada da humanidade, talvez não saiba, mas todos os banheiros masculinos do país, do boteco sórdido ao aeroporto internacional, têm rabiscados em suas portas -- além de escudos de times e piadas infames -- pintos de todas as cores e tamanhos. Eu entendo os motivos estúpidos que levam o torcedor fanático a escrever “Timão eô!” na parede do banheiro. Compreendo o impulso que encoraja o sujeito reprimido a sacar sua caneta e deixar nas paredes do WC apreciações pouco elogiosas sobre o presidente da república ou o chefe da firma. Mais do que tudo, olho com ternura para o pobre diabo que, tendo como cúmplice apenas um vaso sanitário, aproveita para declarar seus sentimentos mais profundos: “Waleska te amo, ass. Anderson do RH”. Essa obsessão peniana, no entanto, me é incompreensível. Fico imaginando o pai de família sentar-se na privada e, protegido pelo anonimato de fórmica e azulejos, tirar a caneta do bolso. O coração acelera, pequenas gotas de suor surgem na testa e, com a alegria ardente das pequenas transgressões, o trabalhador honesto, bom marido e rotariano respeitado desenha o aparelho genital masculino, cheio de detalhes, na porta do banheiro. Será que ao deitar a cabeça no travesseiro e revisar o dia, o cidadão se arrepende de seus arroubos urolográficos? No fim do ano, quando pula ondas, come lentilhas e pensa no futuro, o vândalo sanitário pede ajuda aos deuses para deixar o vício? Ou, pelo contrário, não tem nenhuma vergonha de seus atos? Todo sábado, junta-se a seus confrades num boteco e, entre cervejas e amendoins, bate no peito: “Cês tem que ver o que eu fiz lá no Belas Artes! Da maçaneta até o chão! Azul e verde, uma beleza!”. Ao que outro sugere, tirando da pasta um estojo de canetas coloridas: “Vamos pra Osasco no domingo? Parece que abriu um shopping novo...”. Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares, espero que não sobre uma única porta de banheiro para contar a história. Afinal, não gostaria de ser visto pelos arqueólogos do futuro como parte de uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis. Muito embora, pensando bem, a descrição até faça sentido. Antonio Prata é cronista do Blônicas. Gazeta do Hipocondríaco.
De Marcelo Sguassábia. Confira nesta edição: Não se morre de amor nos trópicos.
De Xico Sá.
Sossega, nega, não se morre de amor nos trópicos. A morte amorosa é uma invenção dos que hibernam como ursos da Sibéria ou cinzentos donzelos alemães... O tio tenta uma filosofia de consolação para a amiga que sofre e pena entre a Angélica e Augusta como se fosse num inferno verde de fitzcarráldica fábula babilônica labiríntica, danou-se! a menina nas asas da hipérbole-helicóptera. Te juega, nega, aqui não se morre disso. Se o jovem Werther aqui fosse nascido, até choraria um tanto o seu infortúnio, mas já já algum vagabundo passaria na sua casa e eles iriam tomar um ele & ela (caldinho com cachaça) na Várzea ou no Pina, freguesia do Recife, iam tirar uma onda na barraca de Jesus ou no seu Rainha, na mesma cidadela invicta, iam tomar uma com Franciel, pura ingresia da Bahia, lá nas beiradas do mercado de São Joaquim, na frente daqueles garajaus com bodes pretos e galinhas idem, além dos gabirus na lama dos currulepes que ali dançam aos pés dos bêbados, seres com ou sem asas para trabalhos de macumba, como reza o manual de zoologia daquele cego portenho da gota. Sossega, preta, roga uma praga neste peste e pronto, cai de novo na lama milagrosa do hedonismo. E se a vida atropelar, de nuevo, na mesma curva, anota a placa, menina, e arrisca no bicho.
Xico Sá é cronista do Blônicas. Eu quero ser enganada.
De Tati Bernardi. Você sabe que uma pizza inteira não combina com os ponteiros do relógio avisando que já passa das onze da noite e sabe perfeitamente que se o peixe cru estiver "passado" é hospital na certa. Mas tem prazer maior do que dormir preenchido até a testa da melhor invenção do planeta ou mergulhar os molenguinhos no shoyo? Agora imagine se o entregador de pizza te contasse que depois de devorar tanta massa e tanto queijo você vai sonhar com o espírito sem cabeça do Saddam invadindo o seu quarto? Imagine se o baiano do restaurante japonês fizesse um discurso sobre salmonela enquanto você tenta se divertir com seus amigos? Sabemos bem dos perigos do mundo. Você sabe que não deve pegar aquela faixa de ônibus vazia na Rebouças, ainda que as outras pistas permitidas estejam paradas há mais de uma hora. Você sabe que não deve beber muito champanhe na festa da firma sem ter nada no estômago. Sabe que deve evitar multidões (eu pelo menos sei), evitar pastel de feira com aquele óleo preto que já dura meses, evitar falar mal dos outros, mentir, falar o nome de Deus em vão e comer amanteigados e suas gorduras trans. Mas vai dizer... vai dizer que meter o pau na estúpida que foi eleita a mais gostosa da firma não é uma delícia (sem trocadilhos, tô falando de falar mal mesmo)? Vai dizer que ver todo mundo se fodendo naquela avenida sebosa e só você naquela faixa proibida não é apoteótico? Que pagar um bom mico na festa da firma não pode ser a coisa mais engraçada da sua vida? Bolachinhas gordurosinhas fazem valer qualquer veia entupida, se acabar de dançar até desmaiar num ensaio de escola de samba faz valer essa encarnação no Brasil, mentir que você tem médico e ir brincar de médico com o novo estagiário pode ser ainda melhor que pastel de feira. Deus meu, e como pode! Mas você não quer saber antes. O valor da multa, a queimação da gastrite, o tempo que dura uma mentira, o dia do juízo final, a vergonha do dia seguinte, o desmaio. Tudo isso te espera, você sabe, você pressente, mas você não quer saber antes. Você não quer tragar a vida vendo a fotinho do pulmão preto do outro lado do maço. Você sabe que ela está lá, mas você só enxerga o slogan "um raro prazer". Ninguém vive a vida pensando no dia seguinte, caso contrário, apenas deitaríamos e esperaríamos a morte. Afinal, como dizem por aí: só ela é certa. Então, por que raios os homens resolveram agora, ao menos comigo, pular toda a introdução melosa, fictícia, cinematográfica e maquiavélica da sedução e ir direto ao assunto? Acabo de receber a trigésima proposta da semana: oi, você gostaria de dar para mim? Eu sei que sou culpada. Eu sei. Primeiro eu publico um texto no meu site dizendo que estou há meses sem sexo de qualidade. Depois lanço um livro chamado "A mulher que não prestava". Fora que sou uma mocinha nada Barbie (com uma coluna na Vip, só pra piorar) e minimamente inteligente, daí aos trogloditas acharem que não mereço ser enganada e irem direto ao assunto. Agradeço a consideração. Mas assim como estraga saber antes que o vatapá pode ser assassino ou que muito vinho pode causar cirrose hepática, que mulher quer ouvir: muchacha da teta satisfatória, eu vou te comer lindamente, mas vou acordar no dia seguinte dando a você a mesma importância que dou ao novo filme do Didi Mocó? Homem é tosco mesmo. Ou prometem trigêmeos numa vida de bangalôs e estrelas ou te olham com aquela cara de açougueiro. Caminho do meio, rapazes! Já diria o Buda. Em tempo (melhor explicar): e ele não estava se referindo a uma vagina. Não, eu não quero que ninguém me prometa nada que não possa me dar. Sou realmente uma mulher inteligente, moderna, bacana e se for para abrir as pernas para um ator, prefiro que seja logo para o Caco Ciocler (tô tarada por esse cara). Mas eu definitivamente preciso do glamour da sedução. Quem não precisa? Um homem só deve ir direto ao assunto se for redator publicitário e tiver de vender um produto em um banner de Internet. Mas na vida real... mais empenho, rapazes! Ou: prostitutas têm aos montes, e bem mais gostosas e divertidas do que eu. Custam menos também, já que tenho gostos refinados e adoro presentes caros. Eu definitivamente quero ser enganada. Nem que seja por uma única noite de prazer. Eu quero sim que abram a porta do carro para mim, que o restaurante seja à luz de velas, que o cd do carro seja bom, que ele use perfume, coloque sua melhor camisa e me diga coisas inteligentes. Afinal, muito melhor do que uma bela trepada é poder ligar para as amigas no dia seguinte e dizer: se aquele filho da puta só queria me comer, por que me enganou? Desgraçado! Tati Bernardi é cronista do Blônicas e acaba de lançar o livro "A mulher que não prestava". Comprem! Comprem! Nós realizamos o seu sonho.
De Leo Jaime. Chega mais um spam com este título. No que o programa abre uma preview do mail já pinta uma outra janela com um techno no último volume e uma peituda, vestida, de perfil. Somos o segundo país em cirurgias plásticas. Não somos o segundo mais populoso ou rico, o que nos aponta como mais imperfeitos, ou inseguros, do que os outros. Não vou aqui fechar os olhos para o bem que uma correção de algum defeito pode proporcionar ao ego e auto-estima. É fato. O problema é o que está na sombra desta questão: a dificuldade em aceitar as próprias imperfeições e, por conseguinte, as dos outros. Não há, ou não deveria haver, um nariz, peito, bunda ou barriga ideal. Evidente que há um peito da moda, bunda etc. Muda a todo ano e quem quer seguir a moda pode ter que passar a vida toda na mesa de cirurgia. Mais forte, mais magra ou magro, mais alto, peituda ou pouco peito? Qual é o sonho da estação? Ser desejável não se restringe a isso. A moça da foto do anúncio parece ser, para quem anuncia, a musa inconteste. A mulher que qualquer uma gostaria de ser e qualquer um gostaria de ter. E aí reside toda a ilusão: esta figura não existe e nem deveria existir fora do mundo simbólico. Mesmo no cinema, que é feito para alimentar o mundo dos sonhos, essa idéia é facilmente desconstruída. Atrizes tidas como belíssimas usam dublês de corpo e o que vemos na tela são imagens captadas de forma a mostrar as coisas de um jeito ideal e não real. Parece difícil, porém, ao cidadão comum, diferenciar ataques interplanetários, cenas de futuro longínquo e a beleza irretocável dos atores. Pois é, o conteúdo de verdade é o mesmo. Mesmo que os atores sejam de fato atraentes. É preciso saber que ali a coisa foi muito melhorada. É o tal do photoshop, se isso facilita a compreensão do meu ponto de vista. Fica a questão: por que é importante ser muito atraente? Como a idéia de parceiros múltiplos não é muito popular, não dá pra imaginar que o objetivo seja a compensação sexual levada às últimas. Dizem que é mais fácil conseguir trabalho ou amigos sendo uma beldade. Nada garante que seja mais fácil manter o que foi mais facilmente conquistado. Não há garantias também de que a busca desenfreada pela forma garanta conteúdo. Trocando em miúdos: bonito é uma coisa, gostoso é outra. No fundo da questão há a diferença entre pornografia e erotismo. A primeira trata de objetos do desejo, a segunda de narrativas do desejo. Quem você é, o que e como você faz, isso é muito mais sedutor do que como você é. Mesmo que na primeira impressão o aspecto exterior seja mais impactante. Será que planejamos um mundo e relacionamentos de primeiras impressões? E primeiras impressões rasas? E no final há o tempo. Impossível lutar contra isso. Ainda. E o tempo inclui o envelhecimento, é óbvio, o que nos dá a certeza de que nenhum peito ou barriga passará intacto. As cirurgias ainda não chegaram lá, ao cerne do problema, à imortalidade. Um mundo de Dorians Grays. Por outro lado: cada um deve ter um hobby. Leo Jaime é cronista do Blônicas. Eu queria ser Bill Murray.
De Xico Sá. Eu queria ser Bill Murray. Em Flores Partidas, assim mesmo, broken flowers, do Jim Jarmusch. Indo em busca do filho que talvez não tenha tido. Bill Murray parado. Não diga que silêncio; diga “não ouço nada”. Bill Murray on the road, no sossego, na moral e na elipse. A máquina de escrever cor de rosa, a motocicleta cor de rosa, flor de obsessão, rosa. Bill Murray d.Juan em fim de feira _a festa acabou, José, para onde?_ e a carta anônima, o vizinho Sherlock com ácido, a busca do rebento que não teve, teve?, não importa. Eu queria ser Bill Murray diante daquele gato, nem carecia a Sharon Stone, o gato feito à imagem e semelhança de Bill Murray, felino metafísico da porra. Ali, dizendo, o gato: “Você veio aqui, velho Bill, com segundas intenções, não, não sou teu filho, hombre”. Eu queria ser Bill Murray naqueles sonhos, a reprise. A lolita na vitrine, Lola, bundinha americana, mas safada, é o que vale. Bill Murray vaga pela América, ô, mas num me venha com essa de metáfora da América, apenas uma história sem final, como todo enredo de busca, como a própria cara de Bill Murray, procura. Eu queria ser Bill Murray emparedado na quarta parede, sem foco, boiando nos teus lindos olhos de cigana oblíqua. E basta. Xico Sá é cronista do Blônicas. O primeiro texto do ano.
De Carlos Castelo. Prometo não usar o discurso livre indireto indiscriminadamente. Não abusarei das citações e do uso de aspas. Fugirei dos galicismos ( e dos trocadilhos infames, como “galinhacismos” que acabo de inventar). Esquecerei os parênteses e os travessões enquanto forma pedante de ressaltar certas informações num texto. Prestarei muita atenção para nunca começar um discurso no gerúndio. Lerei um Machado de Assis da fase madura de seis em seis meses. E finalmente este ano mergulharei a lança de minha curiosidade em “Moby Dick”. Buscarei achar um meio termo entre uma fabulação mínima, porém eficiente, e uma longa, mas não-digressiva. Farei de tudo para escrever ao menos 300 palavras ao dia. Encontrarei um bordel que me aceite como hóspede para enfim encontrar a paz e poder produzir mais e melhor, como apregoava Faulkner. Tentarei não me irritar ao ver na tevê Paulo Coelho visitando a Moldávia em companhia de Glória Maria. Dispensarei a linguagem tosca ao me referir aos autores de livros de auto-ajuda. Procurarei reler “O Ciúme”, de Robbe-Grillet, sem imaginar que, hoje em dia, uma prosaica câmera de vídeo pode ser bem mais eficaz que o mencionado romance francês. Evitarei a tentação de publicar uma crônica que fiz chamada “Monólogo interior” (fluxo de consciência com sotaque caipira de uma personagem natural de São José do Rio Preto). Perdoarei os organizadores de estantes das grandes redes de livrarias. Especialmente os que colocam “A Tempestade” de Shakespeare na seção de Metereologia. Olharei com grande complacência para os atores, músicos, publicitários, jornalistas esportivos e ginecologistas que se entregarem à elaboração de material ficcional. Serei um guardião da verossimilhança. Lançarei mão do recurso “Deus ex-machina” apenas se Deus quiser. Desistirei definitivamente da idéia de adaptar o monólogo de Molly Bloom para o formato Youtube. Apiedar-me-ei do Jabor. Seguirei ignorando o Mainardi. Usarei com parcimônia o ponto-e-vírgula; exceto nos casos em que a Gramática o permitir. Fugirei como o diabo da cruz da expressão “por conta de(o)”. Farei de O.G. Rêgo de Carvalho um escritor conhecido no Sul Maravilha. Buscarei o verdadeiro sentido da palavra metanóia. Aprenderei a usar corrretamente a crase. Terei uma atitude civilizada e racional para com os editores. E, como tudo o que escrevi aqui é ficção, pode ser que eu esteja fingindo ou mentindo. Logo, não prometo nada. Feliz ano. Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Socorro!
De Nelson Botter. Ano novo é uma maravilha mesmo. Todo mundo diz que agora vai, dá-lhe mudanças, tudo em ritmo do sambão entoado pela Simone e Beth Carvalho, na vitrolinha de 33 rotações, LP de 1976, e depois pra rebater vem o Rei, aquele das madeixas encaracoladas e do medalhão no peito, confirmando tudo, com sua canção que ecoa: “... daqui pra frente, tudo vai ser diferente...”. Enquanto os fogos explodem, as pessoas se abraçam, riem, choram, cantam, beijam, fazem mil e uma simpatias, aproveitam a muvuca pra sumirem com a cunhada, bebem toda a cidra sozinhos, choram mais um pouco e prometem, prometem, prometem... e como prometem! Se promessa pagasse imposto nessa época do ano, o governo já garantiria a verba anual pra pagar os 91% de aumento do congresso e mais bônus por projeto não analisado, não votado e não aprovado. No dia seguinte vem a ressaca, não só a etílica, mas também a da lista de tarefas para o ano. Dá-se conta de que o check-list é gigante, metade das promessas já se perdeu na bebedeira, foi privada abaixo, e a outra metade é praticamente inatingível. Daí chega-se à conclusão que novas promessas terão de ser feitas, a lista precisa ser revisada, e a primeira de todas é proferida ainda no caótico trânsito da estrada, na hora de voltar para casa: “Nunca mais passo reveillon na porra da praia”. É igual àquela galera que ainda tomando glicose no pronto-socorro promete nunca mais colocar uma gota de álcool na boca. Ano que vem você estará lá de novo, rolando na areia e segurando o franguinho, não tem jeito. Xiii, o franguinho? Lá se vai a promessa da dieta equilibrada... E depois de 7 horas na estrada, você chega em casa e liga a TV. O pior vem agora, lá está o messias do povo, discursando para uma multidão Enquanto o presidente discursa, inventando uma nova língua portuguesa, os outros abaixam a orelha. E até ele faz suas promessas de ano novo. As mesmas de quatro anos atrás, afinal as promessas são sempre as mesmas, seja a de não passar mais reveillon na praia ou seja a de erradicar a fome no país. Fome Zero, País Zero, Governo Zero, e por aí vão os zeros... sempre à esquerda. Enfim, terminadas as festas descobrimos que é isso aí, quem faz um ano ser bom ou não somos nós mesmos. Ainda bem. Já pensou se dependesse do Clô (que agora vai costurar em Brasília) ou do presidente-messias e sua terra “prometida”? Como diria Inri Cristo: “Valha-nos, oh Paaai”. Portanto, prometa menos e faça mais. Já é um bom começo para este novo começo... e olha que 2007 promete, hein! Nelson Botter é cronista do Blônicas. |