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ARQUIVO
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Mais uma crônica que muda de telinha...
De Nelson Botter Junior.
Transformei em animação uma de minhas crônicas que foram publicadas no livro "Blônicas", pela Editora Jabuticaba (à venda nas melhores e piores livrarias). O texto foi publicado uma vez aqui, há muito tempo, mas quem quiser pode lê-lo abaixo. E aqui também vai o vídeo. A adaptação foi difícil, pois não quisemos usar uma narração pra explicar o que estava acontecendo. Além disso, usamos um plano seqüência único e o estilo das ilustrações é em xilogravura. A direção de arte é de Fernando Alonso e as ilustrações de Guilherme Ranoya.
Aceitamos críticas boas e ruins, afinal a sua opinião é o que nos faz produzir!
UM COMEÇO NO FIM - Tortuga Studios - 6 min. - 2008
UM COMEÇO NO FIM
De Nelson Botter Jr. Na beira da estrada havia um menino. O sol já se punha e a tarde alaranjada se refletia no asfalto. O ar seco cheirava a sangue, a ponto de causar enjôo. Com lágrimas nos olhos, o menino observava seu cão vira-lata. O cachorro estava morto, rasgado ao meio e largado ali, apodrecendo, para o delírio de moscas e urubus. O asfalto da estrada ainda guardava as marcas de borracha negra, provocadas pela súbita brecada do carro que atropelou o cão.
Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas. Auto-estima e a Síndrome dos Três Porquinhos.
De Gisela Rao. Auto-estima é um assunto tão falado hoje em dia que chega a encher o saco. Dá vontade de dar um peteleco nas pessoas que viram do nada pra você e dizem: “Você precisa se gostar, ter uma auto-estima alta!”. Bom, a ouvinte, que já se acha um pano de prato ambulante, certamente tem vontade de se enfiar mesmo debaixo da pia, afinal parece tão simples se gostar e ela não consegue. Parece que é tão fácil quanto apalpar um mamão na feira ou comprar um moletom do Mickey, na Disneylândia. Mas, não é! Se gostar, enquanto a maré inteira tenta te convencer de que você não é magra o suficiente, não é linda o suficiente, não é sexy o suficiente, não é bem sucedida o suficiente... é dose! É como remar dentro de um caiaque no meio do tsunami. Na minha opinião, auto-estima é um negócio que se constrói de pouquinho, tijolo por tijolo... Não de uma vez só, na porrada. Gosto de comparar a auto-estima à fábula dos Três Porquinhos. Às vezes, encontro mulheres com a auto-estima como a casa de palha de Cícero, o porquinho preguiçoso, completamente frágeis e, mesmo assim, arrastando trens por homens que, num simples sopro, as destroem em pedacinhos. Mas se ainda transito tanto é porque preciso construir melhor o meu gostar, o meu aceitar. A melhor forma de fazer isso é quando você está só, solteira. E a maioria das mulheres pensa exatamente o contrário, que é preciso ter um homem ao lado para se sentir amada, para sentir-se valorizada. Terrível engano. Quando estamos só temos todo o tempo do mundo para a gente, pra se reconstruir, para aumentar nosso autoconhecimento. Quando você se liberta do pavor de ficar sozinha é aí que começa o seu verdadeiro processo de se amar. Dói no começo, mas depois é bom demais. Então, que resposta você se dá? Sua auto-estima é como a casa de palha, de madeira ou de tijolos – dos Três Porquinhos? Se a resposta for a 1 e a 2, minha pergunta é: onde está a sua pá? Chega de drama e vamos botar a mão na massa! Gisela Rao é cronista do Blônicas. Comendo o sistema.
De Cristiana Soares. - Consegui despentear o cabelo dele. E pelado, sem terno, ele se veste de outro homem. Minhas botas que ele critica ficam observando como pode um burguês e um bicho grilo na mesma cama. E eu concluo que cama é o lugar mais democrático do mundo, junto com as praias cariocas. Cristiana Soares é cronista do Blônicas. Só mais um pouco de cala a boca.
De Tati Bernardi. Vai lá dentro do chalé, vai. Coloca o shortinho. O chinelo verde. Tira essa Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Ensaio sobre a coleira.
De Max (cão de Henrique Szklo). Mitos e verdades sobre o cinofilismo dialético. Existe uma certa resistência, diria até uma má vontade mal-disfarçada, de vocês, humanos, em aceitar e compreender os preceitos básicos que contemplam o cinofilismo dialético, um estudo tão complexo e profundo da alma canina. Alguns de vocês, a maioria talvez, nem acreditam que nós, cães, tenhamos alma. Nos enxergam como seres praticamente celerados, ocos, insensíveis, colocados no mundo por Deus apenas para latir, abanar o rabo, farejar comida e fazer coco. Pelas babas do Pateta! Nada poderia ser mais injusto, para não dizer ultrajante. O cinofilismo dialético é uma linha filosófica de bases muito sólidas que discute, de maneira ampla, reflexiva e transparente, alguns dos mais importantes e indispensáveis elementos da vida sócio-cultural dos cães. Um de seus principais temas é o repúdio insofismável à prática repulsiva de tentar manter nossas raças puras. Nada mais repugnante do que repetir o erro que vocês mesmo cometeram há alguns anos, estipulando regras de aparência e comportamento que caracterizam o que é “ser” de uma raça ou não, criando a categoria inaceitável de cães de segunda classe. Eu mesmo fui mais uma das tantas vítimas que esta prática execrável provoca em nossa psique. Não tenho nenhum orgulho em afirmar, ao contrário, mas sou filho de minha própria irmã, o que me causa naturalmente um tremendo desconforto. É claro que o meu pai não é totalmente culpado deste crime hediondo, já que foi colocado nesta situação e ninguém lhe perguntou se estava disposto ou não. Porém, não o eximo totalmente de culpa. Se ele não quisesse, não teria consumado o fato e hoje eu não existiria, mas ele poderia se sentir um cachorro mais digno. Fazer sexo com a própria filha, Dom Pixote me livre! De qualquer forma, milhões de cães em todo o mundo são vítimas deste que é o maior crime contra a cachorridade. E isso tem de acabar. Não bastasse isso, ainda existem os concursos, que são verdadeiros festivais de preconceito. Quem pode ou não pode ser considerado de uma raça. Quem é o mais digno para ser legitimado como “puro”. Ridículo. E os idiotas que se propõe a participar deste circo ainda se sentem orgulhosos e caminham com uma empáfia de dar nojo. Para nós, seguidores do cinofilismo dialético, pedigree é uma afronta. Se tivéssemos mãos, rasgaríamos o nosso sem hesitação. O que vocês não se dão conta, ou fingem não dar, é que isso prejudica sobremaneira a nossa vida sexual. Mutley explica! Segundo ele, todos os nossos problemas têm fundo sexual. Ainda mais nos dias de hoje. Vocês sabem que cães que vivem com humanos já tem uma certa dificuldade em encontrar parceiras. Não costumam sair muito e quando saem, estão sempre presos à coleiras, enforcadores e afins. O sexo livre foi praticamente abolido de nossas vidas e somos obrigados a manter relações sexuais com quem nossos donos escolhem. E ainda por cima, sob seus olhares curiosos. O mais difícil não é fazer sexo na frente de várias pessoas, mas sim conseguir manter a ereção ouvindo seus comentários sarcásticos e nada lisonjeiros sobre nosso desempenho. Outra questão premente estudada pelo cinofilismo dialético é a necessidade inadiável de se criar novos sabores para a ração que nos é oferecida. Vocês, enquanto se locupletam com centenas de pratos, doces, salgados, milhares, milhões de receitas, oferecem aos seus ditos melhores amigos, um alimento seco, insosso e sem nenhum apelo visual ou olfativo. Vocês fazem uma idéia do que é comer todo santo dia a mesma coisa? Café da manhã, almoço e janta, a vida inteira o mesmo indigesta e desagradável alimento? Não, não devem fazer. Mas eu lhes afirmo: é insuportável. De qualquer maneira é fácil de perceber que o que falta é boa vontade da parte dos humanos. Nós podemos até compreender que a vida moderna exige que os alimentos de cães sejam práticos e que a nossa necessidade de nutrientes esteja plenamente satisfeita com as rações atuais. Ei, não precisa cozinhar para nós! Nós entendemos. Só o que pedimos é o desenvolvimento de rações com sabores, cheiros e consistências diferentes. Por que não uma ração com sabor pizza de calabresa? Ou de nhoque com porpeta? Lasanha seria espetacular. Sushi, frango assado com farofa. Ou ainda rações com aparência de um bolo de mil-folhas com profiteroles ou uma Lagosta ao Termidor. Por Snoopy, será que isso é pedir muito? O cinofilismo dialético também trata de outra questão de suma importância para todos nós, membros da raça canina: o uso inadvertido, obrigatório e não-autorizado de roupas. Nós não queremos nem temos a menor vontade de nos vestir, principalmente aquelas roupinhas em que se lê SEGURANÇA. Pelo amor de Lassie, será que vocês não percebem que não fomos feitos para usar nenhum tipo de vestimenta? Já não nos basta a vergonha de ter de caminhar ao lado de seres bípedes com roupas, em geral de péssimo gosto? Olha, sou um intelectu-au, tenho amestrado, mas às vezes não consigo me controlar. Me pego em ataques de fúria e só consigo me acalmar com minha bolinha de borracha. O cinofilismo dialético também dá rápidas pinceladas em questões menos importantes, mas não menos críticas, como a incompreensível proibição de cães em certos locais, a inaceitável obrigatoriedade de banho e tosa, a insistência dos humanos em jogarem coisas fora (nós corremos, buscamos e vocês pegam de nossa boca e jogam de novo), solicitações estúpidas como nos obrigar a fingir de morto, as vacinas dolorosas, o uso de enforcadores, as broncas que levamos quando cheiramos as partes íntimas das visitas, etc, etc, etc. Após anos de estudos e desenvolvimento do cinofilismo dialético, a conclusão a que se chega é que se o ser humano considera que o cão é seu melhor amigo e nos trata de forma tão displicente, discriminatória e indigna, imagine quem ele considera inimigo. Bom, nem precisamos imaginar, não é verdade? Basta abrir os jornais todos os dias. Max é cão de guarda de Henrique Szklo, que é cronista do Blônicas. Graham Bell tinha insônia.
De Bianca Rosolem. - Oi, é a Bi... . Eu sei, eu sei, tá tarde demais, eu vi no relógio da sala, acabei de chegar. Ahãn... . Eu vi uma coisa hoje, parece bobeira, eu sei, eu sei, eu fico assim às vezes, não tenho culpa. Humm, estou acendendo o cigarro...O céu está lindo, você viu? Um amigo me disse que é algo que não lembro o nome, mas a lua está mais perto da terra...Sim, sim, é um nome aí...Ela fica grandona, né? Eu acho que isso mexe com a gente sim, eu não sei, acho que estou mais para lá do que nunca... . Ah, desculpa, mas não dá risada! Eu vi uma moça hoje em uma esquina, parada...Ah, calma...Então, era o jeito dela, ela ficou parada, com os braços cruzados, andando pequenos passos de esperar, sabe? Eu fiquei olhando aquilo enquanto o sinal não abria...E não sei explicar, eu senti algo e fiquei olhando...Não, não é “viagem”...Escuta, porra, era bonito ela esperando, pensei tanta coisa, como aquele momento parecia um “start”...Calma, vou acender outro cigarro...Porra, me deixa fumar, esse papo anti-tabagista agora não...Então, escuta isso, eu fiquei pensando sobre essa coisa do “start”, ela ali parada, esperando, parecia o momento anterior ao momento, como aquelas coisas da física quântica, a matéria antes da matéria...Quê? Ah sim, comi um yakissoba lá na frente do MASP, deu azia...Cacete, não é o cigarro...Posso falar? Imagina ela ali, quanta coisa não poderia acontecer sabe? Eu só vi ela esperar enquanto o sinal também me fazia esperar, nós duas estávamos suspensas de nossos próprios fatos. Estávamos aguardando o segmento da vida, juntas, mas cada uma iria para um destino...Calma, não tô falando de destino do tarô, mas tá vendo, ouve só! Você entende isso, o quanto é sublime e inexato...Nós duas aguardando, foi um minuto ou mais, ela continuou e eu fui, ela ficaria ali e eu não saberia o que ela aguardava...É isso que estou falando, eu fiquei imaginando o que ela esperava, como aqueles programas com três finais diferentes para escolher...É, era uma merda mesmo, sim, sim, da rede Globo, éramos bem pirralhos, né? Então, aí pensei em escrever algo sobre isso, uma pessoa esperando, e a vida passando na frente dela, e ela pescando as oportunidades, os acontecimentos...É, também acho, parece brincar de deus, clichê também, Hollywood tá cheia disso...Hey, me deixa falar! Mas é legal isso né? Ahãn, eu acho que senti mesmo a situação, como aquele suspiro antes de pular...Exato, suspenso, é essa a palavra! O momento suspenso antes de um grande acontecimento, como foi “o antes” da bomba explodir em Hiroshima...Esses segundos, estes fragmentos de tempo antes do tudo. Né? Ahãn, como o “Big-Bang” e a espera do universo para se expandir. Pois é, como vamos saber que estamos a um passo do grande momento, o que estamos esperando afinal? Eu fiquei intrigada sobre isso até chegar aqui em casa, precisava falar sobre isso, desculpa mesmo te acordar...Eu sei que você no fundo gosta disso. Não, não vou te convidar para uma noite de sexo selvagem agora...Só você para me fazer rir...Eu estava melancólica, já fui até ouvir Sarah Vaughan...Agora estou dando risada, tá vendo, perdi a inspiração para escrever sobre o grande mistério da vida, sobre essa coisa do “antes-do-antes”, sobre esperarmos sem saber...E agora? Quê? Boa idéia! Vou escrever nossa conversa, é isso, vou começar agora...Agora já foi, deu a idéia e eu abracei... O título será “Graham Bell tinha insônia”, sua colocação para me tomar por inconveniente. Amanhã entra lá no “bróg” e lê...Ah é! Esqueci! Você acha isso de blog exercício de ego anônimo...Por isso que eu te amo e não trepo com você...Ahahahaha...Estamos suspensos também?! Quem sabe, né? Beijo. Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. Exame.
De Lusa Silvestre. - É você que faz o exame médico? Lusa Silvestre é cronista do Blônicas. Exercícios de pontuação amorosa.
De Xico Sá. Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final. Sim, o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar...” Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente. Sem reticências... Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita. O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!! O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor. Mulher se acaba, mas diz na lata, sem mané-metáforas. Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro, barraqueiros corazones. O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada. Nem no Crato... nem na Suécia. Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa. Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava. O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim. O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo. O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente. E vamos ficando por aqui, pois já derrapei na curva da auto-ajuda como uma Kombi velha na Serra do Mar... e já já descambarei, eu me conheço, para o mundo picareta de Paulo Coelho. Vade retro. Xico Sá é cronista do Blônicas. Diário do Roque.
De Carlos Castelo. ÚLTIMA SEMANA DE ABRIL Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Possuído pela dúvida.
De Silvio Pilau. Juro que ainda não sei o que pensar de Possuídos. Na verdade, sei que admiro a obra e a coragem de William Friedkin em contar essa difícil história. Afinal, espera-se que um cineasta consagrado, pertencente ao panteão do cinema norte-americano graças a O Exorcista, limite-se a projetos mais seguros, onde pudesse manter seu status e não despertar o ódio das platéias. Particularmente, não odeio Friedkin por Possuídos, mas é bem provável que muita gente o fará. Quem assistiu a algum trailer de Possuídos, pode começar a esquecer o que viu. O filme nada tem a ver com o que foi vendido. Não é uma história de terror sobre insetos assassinos se infiltrando sobre a pele das pessoas. O único inseto que o espectador verá é o que vai pousar na tela da televisão. Nada mais. Possuídos, na realidade, é um interessantíssimo estudo de personagens, repleto de significados e detalhes que deixam muitas questões para a platéia responder. E isso é bom? Nem sempre. É um caminho arriscado para qualquer cineasta construir uma obra vaga, que deixa lacunas a serem preenchidas. Quando o diretor sabe o que faz, o resultado é positivo. Fellini em 8 e ½, Kubrick em 2001 – Uma Odisséia no Espaço e David Lynch em Cidade dos Sonhos são exemplos de incursões bem-sucedidas nessa área. No entanto, estes são raros acertos. Normalmente, o que se vê são filmes confusos, sem pé nem cabeça, que tentam mascarar os problemas sob o rótulo de “inteligente”. Possuídos não é nem um, nem outro. O filme possui, sim, sua parcela de falhas. A narrativa é repetitiva, revelando sua a origem teatral, com os personagens voltando ao mesmo assunto dezenas de vezes, o que torna o filme, por vezes, cansativo. Da mesma forma, há cenas desnecessárias, com o único propósito de encher lingüiça. E, claro, muitos momentos criados por Friedkin e pelo roteirista Tracy Letts parecerão sem o menor sentido para a grande maioria. No entanto, Possuídos não chega a ser uma produção tão difícil de acompanhar ou entender. A construção da história é interessante, uma vez que Friedkin não tem pressa em apresentar e construir os personagens. Somente depois que o espectador conhece Agnes e Peter, as maluquices começam a acontecer. Por isso afirmei lá em cima que Possuídos foi mal marqueteado. Na realidade, não é um filme de terror, mas um conto sobre a aproximação entre duas pessoas repletas de problemas. Pode parecer estranha essa afirmação, mas Possuídos é, em sua essência, uma história de amor. Perturbada e doentia, mas uma história de amor. É aí, porém, que começam as perguntas. Quanto do que se passou foi real e quanto foi ilusão? Quem eram, realmente, personagens como Peter, dr. Sweet e RC? Que fim levou o filho de Agnes? Quem ligava para a protagonista? De onde surgiu o entregador de pizza? São diversas questões, todas passíveis de múltiplas interpretações, o que certamente fará com que o grande público vire a cara para o filme, mas também o que tem feito Possuídos ganhar uma crescente legião de seguidores. Escrevi lá no início que ainda não sabia o que pensar de Possuídos. Continuo não sabendo, mas escrever esse texto já ajudou um pouco. É, certamente, uma obra ousada, destinada a um público restrito, com boas interpretações e boas idéias. Mas é, também, um filme com problemas de ritmo e de soluções vagas. O resultado final é interessante, com certeza. Bom? Não sei. Espero que me ajudem a chegar a alguma conclusão. Silvio Pilau é cronista do Blônicas. A mulherzinha e a BMX.
De Cléo Araújo. Foi em meados de 1985 que eu gostei do meu primeiro menino. Cléo Araújo é cronista do Blônicas. Mais devagar, ou não.
De Bianca Rosolem. “As coisas não andam boas por aqui”, ele disse me olhando daquele jeito. Eu o ouvia enquanto fingia colocar ordem na bagunça da sala. Era só uma maneira de ouvi-lo sem envolver-me demais. “Fernando, meu querido, o nosso erro foi querer demais”, eu disse e me arrependi. Era uma grande bobagem e uma resignação decadente acreditar que os sonhos que nos moveram e nos enterraram foram grandes demais. Primeiramente, sonhos não deviam ser medida, apenas meta e vida. Era isso agora que ele dizia enquanto revirava o armário da cozinha atrás de algo para beber. Achou a garrafa de Martini, fez uma careta, mas bebeu. “Vê? A vida é isso, um gole ruim, mas o único trago que se tem”. “Então vamos dar valor e celebrar esse que temos, certo?”, peguei a garrafa e bebi ali no gargalo, uma gota desceu o queixo e limpei com a mão. Sentei ao seu lado, recostando levemente minha cabeça em seu ombro enquanto passava a garrafa. Ele deixou o copo de lado e apoio os pés na mesa do telefone. Deu um grande gole. Ficamos olhando a bagunça dos livros da estante, o sol deixando sombras engraçadas na parede. Era verão, uma tarde quente e abafada de quarta-feira. Nós estávamos temporariamente há um ano e meio sem trabalho fixo. Ou seja, desempregados e fodidos. Eu vivia de alguns trabalhos esporádicos com amigos que nunca questionaram tudo como eu. Eles tinham chefes, holerites, festas de final de ano, e alguns até cônjuges. Já eu, colecionava ex-companheiros, dívidas de cheque especial e cursos de literatura e redação que criaram alguns roteiros “blockbuster’s,”isto se, ao menos, eu os tivesse terminado. Olhei o computador no canto, velho e amarelado, aquela quantidade de papel ao lado. “Eu sou uma porra de uma cretina que nunca conseguiu dizer uma linha do que escreveu, nem mesmo em uma mesa de bar. Sabe? Fazer aquela colocação perfeita, com um dos pés sobre a cadeira? Eu nunca fiz isso!”. Chutei um livro que estava sobre o sofá. Eu estava querendo mesmo colocar fogo em tudo. Eu não queria ter aberto a porta para o Fernando, mas o filho da puta sabia que eu estava e insistia. Ficava apertando a campainha e gritando até fazer a vizinha crente do apartamento do lado abrir uma fresta da porta. Certamente para ver a cara do “elemento” e se seria necessário chamar a polícia. Eu acabava abrindo, fingindo que estava dormindo. A nossa amizade era assim. Éramos cúmplices demais, e como estávamos absolutamente fracassados e sem norte, olhar um a fuça do outro era vislumbrar o nosso reflexo. “Sabe de uma coisa, você tem uns pés bonitos. Você ainda é bonita. A merda toda foi estes caras que você deixou dormirem com você. Eles roubaram o que você tinha de mais bonito”. Que porra, agora a bicha iria me fazer lembrar de quando eu ainda era uma garota de vinte e poucos. “Isso é auxílio ao suicídio, não quero lembrar de nada, eu bebo para esquecer. Sem análise. Você é um psicólogo de merda, lembra?”. Fernando era um cara fino, de verdade, falava de Proust, Lacan e música erudita. Sabia citar Balzac na língua pátria. Mas, torrou toda a herança e afundou seu consultório em dívidas. Ficou deprimido de maneira que não conseguia nem cuidar de si mesmo, quanto menos da psiquê alheia e, ainda, cobrar por isto. Eu o adorei desde o princípio, inteligente e gay. Perfeito, ele me compreendia, conversávamos sobre filmes, livros, música e desatinos do mundo. E tudo isso com cumplicidade e carinho, ficava bêbada e sempre me recostava em seu ombro. Ele não faria nada, apenas me daria carinho e atenção. Eu não me apaixonaria, não existiriam desilusões e mais amargura. “Essa casa está um lixo, ao menos tenha dignidade!”. “Você veio aqui só para encher meu saco, né? Vai embora, some! Eu gosto da minha bagunça, dos homens que levam embora a minha boa vontade, e de bares com mesas de ferro”. Disse isso levantando, chutei alguma porcaria no chão machucando o dedo e fui até a porta. Abri-a terminando de falar, fiquei ofegante olhando para a cara do traste no meu sofá. Ele fez aquele gesto teatral-dramático, empunhado a garrafa e citando Camus: “Antes, a questão era descobrir se a vida precisava ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado”. Terminou chacoalhando os ombros e deu um gole.Ele olhou bem lá dentro, eu não fugi dessa vez. Eu comecei a rir, a chorar, fechei a porta e me joguei sobre o sofá. “Para quê toda essa merda, Fê! Todos dizem ser esta a realidade e têm tanta dificuldade em aceitar a metafísica. Mas, eu, eu sei que tudo isto é só um purgatório, uma prova, um grande sarcasmo de algo maior”. Ele me puxou, me deu a garrafa e seu colo. Acarinhou a minha cabeça. “Você é uma mulher tão interessante, tão corajosa, pena não ter aceitado isso”. “E você é um psicólogo de merda, nunca se esqueça disso!”, eu disse afastando a cabeça, sem me entregar tão facilmente. A tarde acabava, e a noite se anunciava com a lua aparecendo aos poucos na janela. Continuaria abafado e a garrafa de Martini acabaria logo. Seria necessário acender as luzes, de maneira que as aleluias encheriam o pequeno apartamento e grudariam suas asas sobre nossa pele suada. Elas voariam, seduzidas pela claridade artificial, e lá chegariam, perderiam as asas para virarem larvas e comerem os alicerces e os batentes de madeira. Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. Time is honey.
De Antonio Prata. Poucas coisas neste mundo são mais tristes do que um bolo industrializado. Ali no supermercado, diante da embalagem plástica histericamente colorida, suspiro e penso: estamos perdidos. Bolo industrializado é como amor de prostituta, feliz natal de caixa automático, bom dia da Blockbuster. É um anti-bolo. Não discuto aqui o gosto, a textura, a qualidade ou abundância do recheio de baunilha, chocolate ou qualquer outro sabor. (O capitalismo, quando se mete a fazer alguma coisa, faz muito bem feito). O problema não é de paladar, meu caro, é uma questão de princípios. Acredito que o mercado de fato melhore muitas coisas. Podem privatizar a telefonia, as estradas, as siderúrgicas. Mas não toquem no bolo! Ele não precisa de eficiência. Ele é o exemplo, talvez anacrônico, de um tempo que não é dinheiro. Um tempo íntimo, vagaroso, inútil, em que um momento pode ser vivido no presente, pelo que ele tem ali, e não como meio para, com o objetivo de. Engana-se quem pensa que o bolo é um alimento. Nada disso. Alimento é carboidrato, é proteína, é vitamina, é o que a gente come para continuar em pé, para ir trabalhar e pagar as contas. Bolo não. É uma demonstração de carinho de uma pessoa a outra. É um mimo de avó. Um acontecimento inesperado que irrompe no meio da tarde, alardeando seu cheiro do forno para a casa, da casa para a rua e da rua para o mundo. É o que a gente come só para matar a vontade, para ficar feliz, é um elogio ao supérfluo, à graça, à alegria de estarmos vivos. A minha geração talvez seja a primeira que pôde crescer e tornar-se adulto sem saber fritar um bife. O mercado (tanto com m maiúsculo como minúsculo) nos oferece saladas lavadas, pratos congelados, comida desidratada, self-services e deliverys. Cortar, refogar, assar e fritar são verbos pretéritos. Se você acha que é tudo bem, o problema é seu. Eu vou espernear o quanto puder. Se entregarmos até o bolo aos códigos de barras, estaremos abrindo mão de vez da autonomia, da liberdade, do que temos de mais profundamente humano. Porque o próximo passo será privatizar as avós, estatizar a poesia, plastificar o amor, desidratar o mar e diagramar as nuvens. Tô fora. Antonio Prata é cronista do Blônicas. Pedrão e os Neurônios Virgens
De Henrique Szklo Henrique escreve no Blônicas e dá palestras de criatividade. A escrava do congado.
De Giovana Madalosso. Queria se casar. Candidatos não lhe faltavam. Era esguia, delicada, e tinha olhos grandes e lamuriosos, que despertavam nos homens um desejo de tomá-la nos braços e fodê-la e protegê-la do mundo. O problema era ela. Toda vez que terminava de fazer sexo precisava ouvir Aquarela do Brasil. Não era uma mera vontade, um desejo aflorado na languidez do amor. Era um impulso irrefreável, mecânico. Não ouvisse a música e continuava com os músculos retesados e a alma suspensa num orgasmo mal concluído; não conseguia articular as palavras e convulsionava na inquietude. Já deixava, ao lado da cama, o aparelho de som ligado, a agulha posicionada sobre a faixa; tinha uma predileção pela versão original em vinil, embora qualquer uma servisse, desde que pudesse ouvi-la do começo ao fim. No primeiro encontro tudo corria naturalmente. Quando acabava de transar, ela virava-se para o lado, ainda nua, e baixava a agulha, e cantarolava bota o rei congo no congado, e relaxava os dedinhos dos pés um a um, e ninguém desconfiava de nada, mesmo sendo a escolha da música tão peculiar. No segundo encontro, ela já se via obrigada a dar uma explicação: roubaram todos os meus discos e só sobrou este, ando tão ufanista!, você mexe com a mulata que existe dentro de mim. O terceiro encontro não existia. Não sabia como justificar mais uma noite de meu Brasil brasileiro, e como nem cogitava dizer a verdade, nunca mais atendia as ligações. Saía em busca de outros homens. Foi para a casa de um deles, e lá flagrou-se, às duas da manhã, com a calcinha nos joelhos, vasculhando freneticamente a estante em busca da música, que ele não tinha. Nem no computador? Não, princesa, nem no computador. Vestiu-se e foi embora, resignada. Desde então, toda vez que saía, levava consigo um cd, e de cinco em cinco minutos tateava o plástico redondo dentro da bolsa, certificando-se de que estava mesmo lá, e só assim conseguia levar uma conversa adiante. Foi procurar ajuda num psicanalista. Não entendia por que nutria tamanha obsessão pela música. Foram dissecando a letra, verso a verso. Esse coqueiro que dá coco não seria o falo, e os cocos a semente? E a necessidade de ouvir isso após o coito um desejo de fecundação? Não sabia. Só sabia que, por mais que tentasse, não conseguia evitar. Pensou em desistir do sexo, do próprio e do oposto, mas era demasiado romântica para isso. Não tinha outro jeito senão insistir, na esperança de que alguém lhe resgatasse de sua loucura. A sua vida tornou-se a procissão do samba, e sua cama, o altar, por onde passavam Rodrigos e Robertos, Lúcios e Mauros, Pedros e Andrés, todos eles sacrificados à pátria antes que o amor tivesse chance de existir. Nem tinha mais prazer, só dependência, era como uma junkie, segurando a agulha, desesperada pelo primeiro acorde. Sentia raiva do filho-da-puta do Ary Barroso, do samba e de suas mulheres sacolejantes com fruteiras na cabeça, do infortúnio de ser brasileira e um dia ter ouvido aquela merda. Só pensava nisso, e já não se importava com mais nada, andava despenteada e mal vestida. Ligou para um dos Andrés e convidou-o para ir a sua casa. Abriu a porta e, sem nem cumprimentá-lo, pediu que ele a algemasse na cama, e amarasse seus pés, e fodesse muito, e depois, mesmo que ela implorasse para ser solta, que a mantivesse presa. André obedeceu. E então assistiu, atônito, a ela se contorcer e se urinar, e depois rir e gargalhar e, ainda presa pelos pés e pelas mãos, gritar estou livre, estou livre, estou livre. Ali ela descobriu que podia viver sem a música. E passado um tempo, nem se lembrava mais dela, mas toda vez que saía levava um par de algemas dentro da bolsa, mesmo que não as usasse, precisava saber que estavam ali, e tatear o metal gelado, e só assim conseguia levar uma conversa adiante. Podia se libertar da Aquarela do Brasil, mas não de si mesma. Giovana Madalosso é cronista do Blônicas. Morte por sufocamento cultural.
De Cristiana Soares. Nunca havia ouvido a palavra “vagabunda” tantas vezes como naquela capital onde morei. Foram longos cinco anos testemunhando homens se referindo a mulheres usando esse linguajar, em geral pelas costas. Além de ficar chocada com a óbvia falta de respeito e com a pouca delicadeza, refletia com meus botões cariocas: “O que é ser vagabunda para eles?” Instalava-se um choque cultural do tamanho da Amazônia devastada. Num barzinho badalado entre os moderninhos, escutei um cidadão dizer à namorada que é feio mulher beber no gargalo (detalhe: ela tomava uma long neck, embalagem criada especialmente para ser utilizada dessa forma). E ainda arrancou o cigarro da boca da moça. Na agência onde trabalhava, dei um tapinha amistoso no braço de um colega e o chefe, que estava ao lado, fez um comentário buscando o olhar cúmplice masculino: “Aeee... tá te dando mole...” Uma profissional de atendimento me contou que um cliente havia lhe dito que uma mulher na idade dela (nem tinha completado 30), solteira, só servia para amante. Noutra oportunidade, quando eu comentei por acaso que havia sido casada duas vezes, ela ficou impressionada e me chamou de sortuda. Medo. Muitos deles deixavam suas namoradas em casa cedo para poderem cair na noite. Pré-revolução de costumes ou implicância minha? Numa festa de publicitários, qual não foi meu susto ao abrir os olhos no meio do embalo e ver um paredão de pessoas “botando reparo” em quem estava dançando. Sabe aquele olhar crítico de fofoqueira da década de 50? No dia seguinte, teriam muito o que comentar na firma. Aos domingos, passeando com as crianças (na feirinha de artesanato, no parque ou no shopping), só via casais com seus rebentos. Nem pai nem mãe separados. Apenas eu cometi tal heresia? Ou pelo menos só eu tinha o desplante de exibir esse infortúnio. Um morador acrescentou, em off, que ninguém se separava mas todo mundo se traía. Tudo muito família, é claro. Na fila do supermercado, comentei com a senhora distinta algo a respeito do preço ou qualidade de um produto. A mulher me olhou de cima abaixo como que dizendo “Te conheço?”. Uma amiga ousou me levar como companhia de última hora a uma reuniãozinha na qual fui educadamente ignorada. Trauma. Levei minhas filhas ao aniversário da amiguinha de uma delas e no final a mãe da aniversariante, entregando as lembrancinhas, disse-me que só havia a quantidade certa de convidados, dando-me a indireta de que não deveria ter levado a irmã. Eu respondi, constrangida, mas digna, que não tinha importância, pois lá em casa, tudo o que era de uma era de outra. Uma lembrancinha bastava para as duas. Foi chato ter que ser a Leila Diniz da agência. No começo eles nem entendiam o que era “aquilo” (no caso, eu). Não me computavam, não conseguiam me classificar. Aos poucos foram me absorvendo, mesmo eu falando mal deles para eles (era até divertido, confesso, e acabei me apegando àquele grupo). No final, a carola, que antes não falava palavrão, me superou. Dei minha contribuição modesta aos costumes locais. Em troca, minha identidade foi enfraquecendo, ficando sem ar. Vesti a armadura de Joana d’Arc para ir da casa para o trabalho, do trabalho para casa. Desisti de vida social, antes que me tornasse vítima de um sufocamento cultural. São Paulo me salvou. Cristiana Soares é cronista do Blônicas. Perigos de primeira viagem.
De Lusa Silvestre. Então, pronto: apareceu uma oportunidade de ouro pra viajar com a moça Ah, tem. Primeiro, a convivência direta vai expor o relacionamento a situações de Outra coisa a se preocupar é que, depois do bom dia inicial, vão ser mais E se no domingo de manhã amanhecer chovendo, e você não tem mais nada a Agora, por outro lado, uma viagem inaugural pode resolver uma das questão Cuidado, caro blônico. Antes de entrar no Google Wheater, pense bem: o Lusa Silvestre é cronista do Blônicas. Uma certa justiça.
De Carlos Castelo. Quando olhou o camarim reservado só pra ele, lacrimejou. Uvas, maçãs vermelhíssimas, pães artesanais, queijos diversos, grãos importadas do Líbano, a garrafa de Veuve Cliquot no gelo, água San Pelegrino. Tudo colocado harmoniosamente sobre uma mesa com toalha de renda branca. E flores. Muitas flores. Carlos Castelo é cronista do Blônicas. |