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Bem casado.
De Cléo Araújo. Fugi um pouco. Cléo Araújo é cronista do Blônicas. Os hunos.
De Edson Aran. Entre todas as hordas bárbaras (motoboys, mulheres-frutas, sem-terra) que tumultuaram a Idade Média, nenhuma foi pior do que os hunos. Nômade feito flagelado da seca, o huno era hábil em cima de um cavalo e, diz a lenda, onde passava não nascia grama. Isso levou historiadores a afirmarem que os deputados e senadores brasileiros também são hunos. Onde eles passam também não cresce grama. Alguns comem tudo, outros vendem pra quem pagar melhor. A única diferença é que eles não usam mais cavalos: como andam de quatro, a montaria ficou obsoleta. Átila, o rei dos hunos, aterrorizou os povos da Europa Central no século 4. Muito folgado, Átila entrava num boteco, pedia um conhaque Dreher e passava a noite inteira contando piada ruim e mexendo com a mulher dos outros. Aí baixava policia, a porrada comida e todo mundo ia dormir na delegacia. Identificar um huno é muito simples. Quando você suspeitar que alguém no bar é huno, não entre em pânico. Olhe para o outro lado, assovie uma canção do Roberto e, quando ele se distrair, você grita "Ei! Ô huno!". Se ele olhar, é huno legítimo. Os hunos são criaturas perigosas, especialmente quando munidas de arco e flecha, armamento que dominam com rara eficiência. No caso do conflito se tornar inevitável, tranque as mulheres e as galinhas no celeiro, envenene os poços, arme-se de um rifle e fique à espreita. Quando eles se aproximarem, quebre a vidraça com a coronha do rifle e grite: "Malditos hunos! Venham me buscar se puderem, seus bastardos!" Depois é só mandar bala até a chegada da sétima cavalaria ou das tropas do imperador de Bizâncio. O que passar primeiro. Edson Aran é cronista do Blônicas. Desbravadores dos céus.
De Silvio Pilau. Zeca Pagodinho tem medo de avião. Sempre que pode, o bêbado mais famoso e divertido do país evita viagens aéreas. Felizmente, Zeca não representa nossos interesses. Felizmente, quem representa não sofre desse mal. Para os nossos políticos voar é um prazer. Uma diversão. Um passatempo. Passam mais em lojas de conveniências de aeroportos ou vendo filmes no ar do que no Congresso trabalhando. Viajam, se precisar, até de graça. São capazes desse sacrifício. Tudo por nós. São seres nobres, bravos, altivos. São corajosos desbravadores que não temem desafiar os céus. São nossos filhos engravatados de Ícaro, que exalam intempérie ao confrontar a lei da gravidade. Por isso, não entendo a polêmica em torno das passagens gratuitas. Precisamos de pessoas assim. É disso que são feitos os verdadeiros heróis, ora. São forjados a partir da capacidade de fazer aquilo que não conseguimos fazer. Ceifando os céus a todo momento, nossos políticos apenas comprovam a coragem que esperamos deles. Tolos vocês que pensam que eles estão se aproveitando de prerrogativas políticas. Ingênuos vocês que acreditam que eles usufruem de prazeres rindo do povo. Nossos destemidos brasileiros dos céus, nossos políticos voadores, estão demonstrando que são as escolhas certas para o nosso país. Estão lá, com a cabeça nas nuvens, com os pés bem longe do chão, mas não porque estão longe da realidade. Claro que não. Estão lá, a quilômetros da terra, para ter uma visão mais ampla do país. Para ver tudo de cima. Querem somente ver melhor para governarem melhor. Simples assim. Mas, na verdade, ainda assim tem uma coisa nessa história toda que me deixa indignado. Não muito, mas me causa um certo desconforto. Eles estão viajando para o exterior em seus ternos de milhares de reais e tomando drinques em paraísos naturais às minhas custas. Eu paguei. O tempo que passo no escritório trabalhando foi pra que eles pudessem saborear essas viagens. Por isso, considero má educação o fato de não me agradecerem. Nem um muito obrigado. Nem mesmo uma lembrança a quem bancou tudo. Acho que a polêmica toda é por causa disso. Se eles ao menos nos trouxessem uma presentinho de suas andanças aéreas - um chaveiro, que fosse - ninguém estaria falando nada. Silvio Pilau é cronista do Blônicas. Eu sou um merda.
De Nelson Botter Jr. Sim, eu sou um merda. É isso mesmo. Chego a essa conclusão após avaliar algumas coisas. Pra ser mais específico, enumerei tudo que me leva a essa conclusão: 1. Eu não recebo verba indenizatória 2. Eu não tenho um castelo 3. Eu não tenho uma mansão de 5 milhões para esconder do fisco 4. Eu não ganho hora extra nas férias 5. Eu não sou correligionário de deputado para ser contratado com verba indenizatória 6. Eu não sou diretor do senado para usar apartamento funcional para minha família 7. Eu não sou presidente do senado para utilizar seguranças do congresso no Maranhão (e ser imortal da ABL) 8. Eu não faço nepotismo terceirizado 9. Eu não sou filho de senador pra ter seu celular emprestado 10. Eu não sou um dos 181 diretores no senado 11. Eu não sou funcionário fantasma 12. Eu não trabalho em casa para um senador, como faz a filha de um ex-presidente 13. Eu não participo de campanhas sem me licenciar do cargo 14. Eu não pago minha doméstica, minha secretária ou qualquer outro profissional com verba do congresso 15. Eu não freto jatinhos 16. Eu não uso a gráfica do senado para minha autopromoção (aliás, para nada) 17. Eu não sou Adriane Galisteu, os atores Kayky Brito, Stephanie Brito e Samara Felippo, os empresários Cláudio Torelli, Maiz Oliveira, a estilista Ian Acioli, a joalheira Roseli Duque, a arquiteta Viviane Teles, o cantor Fábio Mondego e o jornalista Nelson Sacho (assessor de Galisteu) para viajar por conta da Câmara dos Deputados, mesmo que sem ciência do fato – Fonte: Site Congresso em Foco 18. Eu não uso passagens aéreas e nem tenho minhas viagens internacionais pagas pela Câmara, e muito menos sou viúva de senador pra receber sobra de passagens em dinheiro 19. Eu não faço chacota quando perguntado sobre os assuntos graves que mancham a ética do congresso 20. Eu não tomo medidas somente pra acalmar a opinião pública, fingindo cortar gastos e resolver escândalos com medo de não ser reeleito no futuro É... não tenho como negar, eu sou um merda. E o que mais me faz pensar que sou um merda é que tudo isso que não usufruo enumerado acima é pago por mim. Sim, eu pago por tudo isso. E bastante. Sou ou não sou um merda? E você? Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas. Para mais informações sobre os escândalos do congresso, visite: http://noticias.uol.com.br/politica/escandalos-congresso-nacional-2009.jhtm Não há diamantes que comprem uma alma perra.*
De Xico Sá. Tudo que sei é que esta é uma história em primeira pessoa. Blow-up. Quando dei fé, cão vadio, aos teus pés lá embaixo estava, mulher-abismo. Enfiei-me entre os dedos lambi como um lazarento... pulgas passionais ainda tentaram me avisar, epa!, durante a queda, em vão. Uma mulher muito grande, alma desenhada por R. Crumb. Pulgas mais avexadas, sado-camonianas, escreveram no meu couro, em caligrafia-coceira, “o amor é fogo que arde e não se sente”, ah, se eu pego esse caolho eu furo o outro. Lambi os dedinhos, um a um, mas não com ritmo, queria que você visse o desassossego desse pobre cardisplicente sob a forte chuva de granizo. Não há guarda-chuvas para o amor, Catherine. Nem mesmo quando se tem 20 anos. Não há diamantes que comprem uma alma perra, Catherine, não há barcos, salva-vidas, só perdição e enchentes. Não à-toa os sofás bóiam nos aguaceiros. Sofás dormidos por homens que erraram, homens que já partiram. “As mulheres são todas diferentes. Quando se perde um homem, há outro igual ao virar da esquina. Quando se perde uma mulher, é uma vida”. Desde o dia em que cai aos seus pés não sabia se estava a ganhá-la ou perde-la. O AMOR É FODIDO, do amigo ultramarinho Miguel Esteves Cardoso, me ensina coisas. Ao contrário das pulgas sado-camonianas, este gajo, certa noite das antigas, na cidade de São Paulo, boate Love Story, dizia que as lágrimas das raparigas são coquetéis sem álcool. Dizer “não chores” funciona sempre, porque só mencionar o verbo “chorar” emociona-as e liberta-as, dando-lhes carta branca para chorar ainda mais. As raparigas, depois de chorar, soprou-me o gajo, lirismo-Morrisey, ficam com vontade de fazer amor. * do livro "Cão vadio aos pés de uma mulher-abismo" (editora Fina Flor, esgotado). Xico Sá é cronista do Blônicas. Gran-Torino dilema.
De Leo Jaime. Será que alguém vai entender? Clint Eastwood retoma o personagem truculento e tosco de outrora para dar um rumo e situar na história, diante da atualidade, aquele ponto de vista. É certo que o durão de outrora merecia ser revisitado, por tudo, até para supor um amadurecimento e mudança de atitude. No entanto, o que me parece mais apropriado é o fato desta história, tão bem contada por este fantástico ator/diretor, abordar o encontro de um homem de 80 com um cara de 17 anos. Há uma frase no roteiro que é uma sentença: “enquanto estes pilantras estiverem por aí os jovens decentes não terão a menor chance”. E diz isso se referindo a uma pseudo-gangue do bairro, que curte hip-hop e tem aquela cultura horrorosa de achar que com armas tudo se resolve. E vendo-se refletido nos tais jovens, percebe que este não é o método e que o jovem comum, boa pessoa, não tem chance de sobreviver num mundo em que os brutos tendem a vencer sempre. A gangue que ameaça o tal garoto do filme é a mesma que, em outro momento, o protege de outra gangue. Gangue? Bad boy? Achar bonitinho e supor que estes caras são a versão atual dos jovens rebeldes de outra eras é muito burro e superficial. A tal cultura hip-hop de pimps, hoes, bitchs é ridícula! E copiada aos estertores por todos os jovens do mundo! Enquanto este modelo vingar, não há a menor chance! Espero que isso, para quem ver o filme, fique claro! A solução é: cumprir a lei! E se a lei é desagradável, lutar para mudá-la. Ponto final. Tiroteio nas ruas tranquilas do Rio de Janeiro. O bagulho sendo vendido e sendo comprado regularmente, apesar do terror e das mortes. Não dá pra dizer que a sociedade não esteja fazendo sua parte. A parte ruim está sim, que é alimentar este estado de coisas com a omissão ou olhando para o outro lado. Ninguém luta para a legalização ou pára de comprar. Vai ver nem pensam no assunto. Botam Black Eye Peas no som, bem alto, e ficam cantarolando My Hump. Sem saber direito o que estão dizendo ou fazendo da vida. Leo Jaime é cronista do Blônicas. Homem de ferro
De Henrique Szklo Me sinto ameaçado pelo mundo. Uma ameaça constante e perturbadora. Por isso sou duro, muitas vezes inflexível e implacável. Sinto que se o vento bater forte eu vou quebrar, por isso não vergo. Travo, resisto até a morte. Bato de volta no vento pra ele deixar de ser besta. Sei que é inútil. Sei que preciso relaxar, pra minha própria sanidade, pra minha própria sobrevivência. Sei de tanta coisa que não serve pra nada. Mas como vou abrir a minha guarda assim sem mais nem menos, esperando o direto no meu queixo. Como vou relaxar e gozar se a ameaça está sempre à espreita? Como, se eu sinto que um mínimo momento de fraqueza pode abrir as portas do meu castelo e me destruir por dentro? Estou cercado por cavalos de tróia. Isso se reflete na minha atitude, nas minhas relações, nos meus gestos. Sou uma pessoa dura. Acredito que minha linguagem corporal expressa essa inflexibilidade com mais presteza que as palavras. Isso afasta as pessoas, afasta os empregos, afasta tudo. Como diferenciar uma ameaça de um carinho? Como saber se a mão que chega vem para esmurrar ou para afagar? Na dúvida, eu impeço a mão de me tocar. Às vezes de forma áspera, como que uma mensagem subliminar: não volte mais aqui, não se atreva. Quem consegue uma aproximação comigo o faz à maneira dos adestradores de cães raivosos. Vêm com calma. Tentam ganhar a confiança lentamente com gestos nunca bruscos. Tentando comprar a confiança com pequenos pedaços de carne. Mas a maioria das pessoas não tem esta paciência, por isso correm o risco de serem mordidas pelo cão que tentam alimentar. Aliás, mesmo aqueles que acreditam ter adestrado o animal, correm risco constante de levar uma abocanhada. Ao meu lado, ninguém está totalmente seguro. Tentar transpassar minhas defesas, meu campo de força, minha carapaça é uma missão inglória. Sou uma pessoa blindada. Sou o homem de ferro. Tenho uma capacidade de proteção e de ataque invejável, mas não me comunico com o mundo exterior e tenho meus movimentos prejudicados pelo peso e pela falta de flexibilidade da armadura. É isso que eu sou, um herói solitário. Minhas pretensas boas intenções se perdem na minha luta contra o mal. Uma luta que brutaliza aos poucos, que desfigura lentamente as feições humanas. Não sei se algum dia conseguirei tirar meu traje protetor e encarar o vento e o sol e as pessoas de peito aberto. Todo herói tem seus dilemas. Herói bem resolvido não é herói. Talvez eu não queira ser herói. Mas só talvez. Talvez o que eu queira de verdade ainda não foi desvendado. Talvez nunca seja. Certamente nunca será. Henrique escreve no Blônicas e é casca grossa. Vicky Cristina Barcelona Katita e Ruriá.
De Carlos Castelo SAÍDA DO CINE LUMIÈRE - EXTERIOR - NOITE Katita e Ruriá - ele webdesigner, ela atriz - saem da última sessão de “Vicky Cristina Barcelona” e se dirigem a pé pela calçada até um pé-pra-fora do Itaim. KATITA RURIÁ KATITA RURIÁ KATITA RURIÁ KATITA RURiÁ KATITA Ruriá faz uma cara entendiada. E, depois de alguns momentos de silêncio, responde ao comentário da companheira. RURIÁ BAR PÉ SUJO - INTERIOR - NOITE Garçom idoso coloca uma garrafa de Serramalte e dois copos americanos na frente do casal. KATITA Ruriá bebe um longo gole da cerveja, dá uma babadinha e usa o guardanapo para limpar o canto da boca. RURIÁ KATITA RURIÁ Kakita se irrita, pede outra cerveja. O velho garçom traz. Ela quase toma a garrafa da mão dele. Coloca no copo, sobe espuma, mas ela bebe assim mesmo, num gole nervoso. KATITA Ruriá lança-lhe um olhar frio. E responde com grande segurança e superioridade. RURIÁ FIM Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Vazio.
De Bianca Rosolem. E então um dia ela descobriu. Desde o início algo dele intrigava-a. Por muitas vezes ele mostrava-se absorto em algum grande mistério, como que desconectado da realidade. Os olhos paravam em algum ponto distante, e permaneciam assim, imóveis. Quando interrogado, ele parecia simplesmente acordar de um sonho muito profundo, dizendo “o quê?”. Foi assim quando seu pai morreu, a notícia chegou através de um telefonema do hospital. Logo após desligar, ele permaneceu alguns minutos sem se mover sobre o sofá. Ela sentou-se calmamente e pousou os braços sobre os seus ombros e aguardou. Ele nada disse, levantou-se e foi tomar banho. Ela esperou sentada na cama, e quando o viu saindo do banheiro com a toalha enrolada na cintura, perguntou. “O quê? Ah, sim, Ana, meu pai acabou de falecer.” No enterro ele não falou muito, apertou todas as mãos e agradeceu as condolências, ouviu palavras de conforto, fez um discurso sobre a vida do pai. Chegou em casa, tirou o paletó escuro e dormiu. Ela também dormiu, segurando a mão dele, mas tinha certeza que ele não sentia a sua compreensão. Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. ...
De Henrique Szklo As palavras são uma invenção do homem. Não existem na natureza. A linguagem da natureza é muito mais sutil, ampla, difusa e por isso mesmo, poderosa. O homem criou a linguagem para facilitar a sua vida - a mesma razão pela qual inventou todo o resto – mas como todas as invenções, naturais e anti-naturais, esta possui um perverso efeito colateral. Como a função primária da palavra é justamente definir as coisas de forma clara, objetiva e inconteste, já vai aí uma falha intransponível. Nada na natureza é totalmente claro, objetivo e inconteste, portanto as palavras definem apenas uma pequena e insignificante fração das coisas. A fração mais superficial e óbvia. Seu real e complexo significado fica fora da zona da linguagem criada pelo homem. A palavra não traz em si atestado de idoneidade. Como se diz, o papel aceita tudo e, digamos que isto pode se extender pela linguagem falada como um todo, portanto uma boca aceita tudo. A palavra não possui mecanismos de comprovação de sua autenticidade. Já a natureza quando se comunica, apesar de nos faltar clareza em muitos momentos – mais por nossa limitação do que por qualquer outra causa - o faz de forma inconteste, contundente e plenamente comprovável. A natureza não se comunica com palavras. Se comunica com sinais. Sinais amplos e complexos, que exigem de seus interlocutores um pouco mais do que um raciocínio lógico. Uma pupila tem muito mais a dizer sobre o verdadeiro pensamento de alguém do que uma lingua. A lingua mesmo pode trazer informações valiosas. Não pelo seu movimento em busca da construção de sons, mas em sua textura, umidade, rigidez e tamanho. A palavra, portanto é limitada, limitadíssima. Não carrega em seu bojo todo o espectro de significados que aquele objeto, ato, conceito ou idéia têm. Se conforma em definições leigas e preguiçosas e mesmo assim temos a sensação de que “entendemos o mundo”, porque eventualmente conheçamos muitas palavras e milhares de suas combinações ilusórias. Henrique escreve no Blônicas e usa mal as palavras. Livro do autoconhecimento humano.
De Marcelo Ferrari.
sofremos até a página sete julgamos sempre pela capa.
Marcelo Ferrari é escritor convidado. Seu blog: http://xixicomtinta.blogspot.com/ Mais forte.
De Cléo Araújo. Logo ela, que sempre foi assim, tão certinha de tudo. Cléo Araújo é cronista do Blônicas. As sociedades secretas.
Organizações que você nunca ouviu falar . De Edson Aran. Os Escurinhos da Bavária Esporte Clube Zoroastro Sensitivo Os Serventes de Pedreiros Ordem dos Cavaleiros Templates Confraria da Salamandra Vesga Edson Aran é cronista do Blônicas. Tudo aquilo.
De Tati Bernardi. Combinei comigo um dia e um horário. Terça, onze e cinquenta da noite. Depois que eu resolvesse o problema do aquecedor que quebrou e depois que eu resolvesse o problema do cara que fez um buraco no teto por conta disso e o problema do pintor que viria depois do cara que arrumaria o buraco no teto. Depois que eu resolvesse o problema da grana alta que tenho que arrumar em uma semana. E eu contando centavo pra pagar nove reais da minha conta do UOL. Para isso só mudando de agência. Minha gerente é o tipinho loira de raiz de pêlo de Poodle que chega pra trabalhar rouca porque foi em alguma micareta fora de hora (e todas não são?). Depois que eu entregasse treze roteiros em um mês. Um milagre que só um ser sem dormir e sem vida seria capaz de cumprir. E eu cumpri. Dormindo e com vida. Terça, onze e cinquenta. Até lá, preciso resolver o problema da produtora que voltou a me encher o saco. O problema da emissora que continua me pagando pro pão com ovo. O problema do escritório de advocacia que resolveu me cobrar honorário até do segurança noturno que bateu punheta e limpou com a xerox rasurada do meu contrato. Tem também o problema da contadora que se confundiu com a minha senha e agora tô há semanas sem receber pelos meus freelas. Preciso entregar aqueles textos pra peça de teatro, ainda que ninguém me diga com clareza o que é pra ser feito. Bota aí alguma coisa de Revolução Francesa. Sei. Posso botar sadismo? Preciso inventar um jeito da minha personagem do filme trepar com um gringo por dinheiro e isso jamais parecer prostituição. Tá fácil. Combinei comigo um dia e um horário. Terça, onze e cinquenta. Depois que eu resolvesse meus exames pedidos pelo médico há meses. Agora preciso correr, pra aproveitar que o meu plano bom vai pro saco e eu vou ficar com meu plano vagabundo. Depois que eu resolvesse o lance da administradora do prédio ter o CNPJ caçado e meu condomínio ter subido para o equivalente ao que eu gastaria pra visitar minha amiga em Londres. Aliás, ia me dar isso de presente de trinta anos, mas esse ano fico sem presente mesmo. O importante é pagar meu porteiro que dorme na madruga enquanto eu negocio com os sequestradores relâmpago do bairro “ah, vai assaltar em alto de Pinheiros que lá tem velha rica e desocupada, aqui não tenho nem pra jujuba e preciso entregar um roteiro, agora não rola ir até o caixa com você, muito menos passear pelo bairro curtindo o seu cd pirata do Simple Red remixado”. Combinei comigo um dia e um horário. Terça, onze e cinquenta. Depois que eu resolvesse o lance de passar três dias por semana no Rio para melhorar minha social no trabalho. Não tenho dinheiro e pra falar a verdade (pela milésima vez) não tenho prazer nenhum em passar esses dias no Rio, longe da minha casa, marcando encontros, sempre em pé e com barulho, com gente que te enche de beijo e de festinha e nem dá tchau na hora de ir embora. A Net me cobrou em duplicidade de novo, eu devo dinheiro pra mais da metade da família, nenhum ser humano do planeta me abraça e sorri antes de perguntar porque ando tão magra ou porque cortei meu cabelo igual cabana de índio depois do vendaval. Minha ressonância da coluna foi usada numa campanha de tobogãs assassinos das noites do terror. Minha psicanalista me mandou aumentar as sessões para três por semana mas eu não tenho tempo ou dinheiro nem para meia. Se bem que todas duram “meia” e quando preciso ir embora, é só gritar algo do tipo “odeio homem” ou “quero trepar comigo” ou “não fui eu, fui ele” ou “não sou eu que to falando, mas eu acho” que ela se levanta num misto de ódio com delírio e me expulsa dali. E eu faço de conta que saiu sem q uerer. Minha empregada chora porque não tenho dinheiro pra pagar três vezes por semana. E eu que tô chorando pra pagar uma por mês? Escreveram vaca na poeira do meu carro quando eu fui doar umas roupas velhas para um centro espírita. O chá boa noite só aumenta a minha vontade de roçar os dentes alucinadamente e conferir novamente os trincos da porta. As furadeiras do meu prédio cantam sempre em uníssono com os galos, principalmente aos domingos. Meus hormônios me enlouquecem, ora falham, eu seco, não tenho fome de nada e medo de tudo, quero sumir e odeio todo mundo. Ora bombam, faço amor até com geladeira desregulada, quero 567 filhos, amo o que segue. Vai e vem. As estrias se partem e algo dentro de mim o tempo todo. E terça chegou, são onze e cinquenta da noite. Coloco Radiohead. If I could beeeee, who you wanteeeed. Apago todas as luzes. Vai, Tati, sofre. Você precisa sofrer um pouco. Vai. Você combinou que se daria pelo menos uns instante de luto pelo amor que morreu. Vamos lá. Uma lágrima. Um, dois, três e…e…e…ah, eu tenho mais o que fazer! Tati Bernardi é cronista do Blônicas. A mentira tem pernas curtas, mas torneadas.
De Xico Sá. A mentira tem pernas curtas mas bem torneadas, como as de Lurdinha, por exemplo, minha prima e musa da lan house de Solidão, Pernambuco. A mentira tem pernas curtas, mas é pra lá de sexy, usa um shortinho que só vendo, de parar a Rebouças, de fechar o comércio. A mentira é só um modo menos doloroso de se editar a vida, um corte, uma linguagem, diz um amigo que não sai da sua gelada ilha de edição nem para ir ao banheiro. Democrática, a mentira nasceu para todos como o sol dos trópicos. Mente o católico e o evangélico também mente ao dizer que esse mal jamais sairia da sua boca. Mente o judeu, mente o árabe da Faixa de Gaza e só não mente o homem-bomba porque não volta para contar a história. O macho mente, mas mente muito melhor a fêmea, ela tem a manha, o esmero, o escopo, a marcenaria da coisa, o dom de iludir como na canção de Noel & Vadico, a treta, o apuro, a língua, o domínio. De tanto abusarmos da moça de pernas curtas, nós, os marmanjos, banalizamos tal prática, nos entregamos pelo olho, pelos trejeitos, mesmo quando se trata da mentira mais sincera. Se for jornalista o sujeito, nooossaa, só deixa de mentir quando artista morto, como na música de Fred 04. É isso mesmo, até os melhores exemplares da raça masculina cometem as suas trapaças, dissimulações, subterfúgios, maquiagens na face da quase sempre insuportável realidade. Do presidente da corte superior ao trombadinha. A diferença é que uns ainda coram, enquanto outros nem se incomodam com as faces infestadas por cupins. Todo esse nariz de cera, esse lero-lero da cumeeira dessa crônica, para dizer que folheei dia desses, na espera do dentista, “101 mentiras que os homens contam _e por que elas acreditam” (ed. Ediouro), da norte-americana Dory Hollander, um clássico da psicologia barata. Aliás, nem no dentista foi, o fato deu-se no consultório do homeopata, quer dizer, no analista... Minto. Comprei mesmo o livro no sebo, por dever de ofício, e o devorei, olhos de traça. Que mentira que lorota boa, seu escriba de meia tigela, seu Zelig, que fica inventando desculpas para as leituras mais vagabundas. Dane-se, comprei, li e gostei, pronto. Melhor assim. E quer saber, é um clássico da psicologia popular universal. Está para a fofoca de salão como “A Interpretação dos Sonhos” [by Freud] está para a psicanálise. São frases que podem ser ditas tanto em Manhattan como no sertão do Crato. Dona Hollander fez uma pesquisa séria, ouvindo muita gente, sobre nossas mentiras, nem sempre sinceras, e nossas piores promessas. Vai de um inocente "estou cansado demais" a um irresponsável "eu te amo" _dito na hora errada à mulher errada, no lugar errado”. Começo, meio e fim e a nossa cuca ruim, como na canção do príncipe Ronnie Von. Por que elas acreditam, entonce? A psicóloga arrisca respostas. Uma delas: as mulheres acham que ceticismo e romantismo não podem andar juntos, sob pena de estragar as coisas. Dona Hollander nos separa em dois blocos: os perigosos e, digamos, aéticos, que abusam da mentira, que enganam por "esporte e lucro", de forma inescrupulosa como donos de bancos; os mentirosos ocasionais, que se mostram dissimulados sob pressão e desviam a realidade com pequenas lorotas, artifícios para se livrar da "fúria feminina" etc. Nessa categoria estão também aqueles que poderíamos chamar de canalhas líricos, inocentes galanteadores como o Bertrand Morane do filme "O homem que amava as mulheres". Seja qual for a sua classificação, a leitura pode ser feita de forma séria e compenetrada, na linha auto-análise, ou apenas como um delicioso chiclete para a mente, ora. À guisa de tira-gosto, ficam ai algumas casquinhas e caldinhos das nossas melhores mentiras captadas pela autora: "As únicas fantasias sexuais que tenho são com você". "Você é maravilhosa, merece alguém melhor do que eu". "Relaxe, é apenas uma amiga". "Vou deixar minha mulher". "O que me atrai em você é a sua mente". "Não, não acho você gorda". Xico Sá é cronista do Blônicas. |