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- Amor-rolimã

De Xico Sá.

 

Só há um tipo de amor que vale a pena: o amor-rolimã, ou amorolimã, amorrolimã, decidam aí a grafia enquanto eu me despradonizo todo na tentativa da boutade perfeita. O amor que deixa os joelhos e os cotovelos à mercê de merthiolate e dor. Calçada de cimento tosco, calçada em areia grossa, calçada em concreto ou em pedrinhas de brilhante para quando o meu amor passar.

 

Sair de um amor é deixar de brincar de rolimã. Pena que agora não dê mais pra pedir penico às nossas mães – embora o buraco-mor d´alma ainda venha delas. Mas a dor agora também é só nossa, só dividimos com o Édipo ao longe, platônico, meu Deus, perdido na poeira dos gregos e caetés.

 

O amor rolimã é todo escoriações, sanguinho novo e vivo a escorrer, sangue que desce pela perna, joelho, batata, pé, e lá embaixo escreve o nome da desalmada em garrafais. O amor rolimã é sempre ladeira abaixo, rolamento oleado, viagem vertical, japão da dor.

 

Desvios nas calçadas, nonada, asfalto quente, cair de boca, beijar como o papa o chão dos estrangeiros d´alma. Perder os dentes ali mesmo, numa manobra orgulhosa, narciso precoce de todas as quedas. Mercúrio cromo, dor mais vermelha, será física ou será daquelas?

 

Dói aqui, ó, pontada no estômago, como um boxeur que adivinha o golpe, que prescreve a corda e a coreografia do nocaute. Amor de rolimã é que é amor, amor-rolimã dói demais.

 

Calçada ladeira abaixo, cair de boca, cair de peito, rasgar as vestes e a capa mentirosa do que tiver mais próximo. Faísca nas rodinhas, como golpe de samurai, os rolamentos na pista, o incêndio das horas, a descida mais assassina, sai do meio, lá vai, lá vamos, lá vai, fodeu, até quando?

 

Xico Sá, diretamente de Teresina, num calor do cão. Visite seu carapuceiro.

Escrito por Blônicas às 16h12
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31/01/2005 - MPB: Muita Pretensão e Babaquice

De Edson Aran.

 

Já escrevi sobre isso. Outros já escreveram também. Mas confesso que continuo sem saber que cazzo é MPB. Você aí no canto. O que é MPB? É toda música que se faz no Brasil, você diz.

 

Ah, é? Então por que o Djavan é MPB e o Wando não é? Por que a Zizi Possi é e o Reginaldo Rossi não é? Por que a Gal é e o Magal não é? E, mais estranho ainda, por que o Peninha não é, mas quando o Caetano grava o Peninha, aí é? Você sabe a resposta? Nem eu.

 

Gênero, a MPB também não é. Gênero é samba, jazz, maracatu, bossa nova, essas coisas. Na MPB cabe o Seu Jorge, que faz samba, e a Marina Lima que faz (ou costumava fazer) rock. Cabe o Zeca Pagodinho que faz pagode e cabe o Djavan que faz, hummm, bem, as djavanices dele.

 

Talvez MPB seja toda música que é cantada em português e tenha raízes genuinamente brasileiras. Será? Mas então por que quando o Gilberto Gil canta reggae em inglês é MPB, mas quando o Sepultura canta rock em inglês é uma só banda vendida ao imperialismo? Sergio Mendes tocando nos Estados Unidos não é MPB, mas o Olodum rebolando em clipe do Michael Jackson é.

 

Também é possível que MPB seja uma espécie de asilo de artistas só liberado para velhos caquéticos como o Chico e o Caetano. Será? Mas o Chico César e a Marisa Monte já nasceram MPB. E a Fernanda Porto também. Embora, veja que gozado, o Patife, responsável em parte pelo sucesso da Fernanda, não passa de um DJ de drum’n’bass. Uai, mas Fernanda Porto não faz drum’n’bass também?! 

 

Ei, acho que temos uma pista aí. Fernanda talvez seja MPB porque  pediu a benção ao Chico Buarque. Deve ser isso. MPB é apenas um título de nobreza para uma suposta elite musical. Uma espécie de Câmara dos Lordes caipira onde você só entra se não levar bola preta do Chico, do Caetano, do Gil, da Gal.

 

A origem da expressão é política, na verdade. Foi inventada nos anos 70 para se contrapor à uma suposta invasão americana. A sigla remete a MDB, a oposição oficial à ditadura. Não posso jurar, mas acho que quem inventou a expressão foi a Elis Regina. A mesma Pimentinha que participou de um movimento contra a guitarra elétrica nos anos 60. Ela e outros nativistas queriam que todo mundo no país continuasse batendo tambor e fazendo dança da chuva forever. Nacionalismo exacerbado nunca dá em coisa que presta. O MDB virou o PMDB clientelista que todos nós conhecemos e a MPB é apenas o seu equivalente estético. Case closed.

 

Eu, em protesto, nunca menciono a sigla maldita. Nas revistas em que trabalhei e trabalho, a palavra sempre foi proibida. Não adianta muito. Até a MTV, sempre tão moderninha, tem uma categoria MPB no VMB, vê se pode. Mas eu não desisto. Para o Brasil avançar é preciso que cada um cumpra com o seu dever. Eu, de minha parte, já matei e enterrei a MPB. Ajude o Brasil a ser um país melhor e faça o mesmo. 

 

Edson Aran é cronista especialmente convidado. Visite seu site que é muito bom.

Escrito por Blônicas às 11h33
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- Marque com X
De Ailin Aleixo.

Durante muito tempo acreditei que o que me fazia amar um homem era a inteligência. Ficava enfeitiçada com citações, elucubrações e teses. Mas não era. De nada adianta um perito em física nuclear, se ele não rir das pequenas besteiras que faz, se não souber aproveitar um sábado quente simplesmente não fazendo nada (e curtindo o ócio), se virar um psicopata quando alguém o fecha no trânsito. Então saquei: bom humor era o que mais me atraía.

Sempre achei delicioso estar com alguém que não vê o mundo como uma grande e monstruosa boca cheia de dentes prestes a mastigá-lo, que vive sem arrastar correntes, faz de tudo uma possível piada. Só que nem tudo é uma piada e, em certas horas, tudo o que quero é alguém que me escute e diga algo que me conforte a alma. E, nesses momentos, o pior que pode acontecer é ser levada na piada - existe uma grande diferença entre alegria de viver e recusa a sair da infância. Pois é, não era bom humor o que me fazia amar alguém: era, antes, sensibilidade.

Telefonemas de bom-dia, atenção a informações aparentemente banais mas que dizem muito a meu respeito, não ficar azedo e arredio por causa das minhas pequenas (ou grandes) oscilações de humor - tudo o que eu podia querer. Quase tudo. Tenho personalidade forte e só sobrevive ao meu lado um homem que grite comigo quando eu passar dos limites do bom senso, demonstre desagrado quando eu exigir demais e oferecer de menos. Preciso ser cuidada, mas tenho que sentir que quem está comigo é um homem de verdade e não um principezinho criado pela avó. Quero ser domada, tomada. Mais uma vez minha certeza caiu por terra: nem inteligência, bom humor ou sensibilidade eram o que me fazia amar alguém. Era - isso, sim - virilidade.

Mal abrir a porta da sala e ser consumida por beijos. Ter a roupa arrancada no caminho da cozinha, ser jogada na mesa de jantar sem tempo pra pensar no que está acontecendo, só sentir e saber o tesão incontido daquele homem por mim. Ser desejada com urgência e paixão é um dos maiores elogios que uma mulher pode receber, mas só ser desejada de nada adianta, pelo menos não depois da décima trepada monumental: quando acaba o suadouro, o que resta? Se pouco importa o saldo, o que interessa mesmo é a movimentação, então estamos feitos. Mas, se existe a possibilidade de ser esmagada pelo vazio de sentido após o orgasmo, de nada vale. Pelo menos se não vier acompanhada de carinho. Taí: pensei, então, que carinho era a pedra fundamental pra despertar meu amor.

Mas logo descobri que não era. Carinho é um sentimento abrangente demais: nos invade desde a visão de um cachorro abandonado até a palavra confortadora para alguém que pouco nos importa mas a quem também não queremos mal. Não bastava, era muito pouco. Daí constatei que o essencial para que eu amasse alguém era notar no outro a vontade de ficar, o desejo de estar comigo. Constatei coisas demais e fiquei paralisada diante do ideal que havia criado: absurdo e fictício.

Hoje, enfim, aprendi que toda enumeração é uma estupidez e qualquer tipo de formulário emocional, uma passagem sem escalas pra frustração. Claro que gosto de homens cultos, atenciosos, interessantes, divertidos e viris - seria mentira negar. Mas a verdade é que, para que eu ame alguém, basta que eu ame alguém. Porque, quando se precisa justificar o amor, é porque ele não existe. Simples assim.

Ailin Aleixo é nossa cronista aos domingos. Visite seu site.
Escrito por Blônicas às 12h14
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- Cuidado com a teoria do não-sei-o-que-lá-amigo


De Evandro Daolio.

Outro dia fiquei sabendo de algo terrível que sempre me recusei a enxergar. Pobre dos que simplesmente nunca pensaram muito no assunto, como eu.

Um grupo de mulheres me elucidou sobre algo horroroso que todas parecem saber até geneticamente. Para meu espanto, disseram-me, ‘em off’, que quase todas têm um não_sei_o_que_lá-amigo. Entenda-se por ‘não_sei_o_que_lá’ uma palavra pornográfica que começa com a letra p, e que não tive coragem de escrever, pois toda vez que a digitava, caía no chão tendo convulsões. Então, para manter o nível a substituí por ‘não-sei-o-que-lá’, mas é isso que você pensou mesmo.

Com a maior tranqüilidade do mundo, enquanto comiam seus lanches, pedindo para passar a mostarda e lambendo a maionese que escorria pelo canto da boca, comentaram que o não_sei_o_que_lá-amigo é um cara, que pode ser um ex-namorado ou não, um amigo de infância, às vezes um ‘ex-ficante’, vizinho, primo ou ‘ex-qualquer-coisa’ que ela já conhecia, e que quando sentem falta de sexo, estão carentes, bravas ou cismam, telefonam para ele para matar saudades.

O processo que se segue é simples: o não_sei_o_que_lá-amigo recebe o telefonema e a busca logo em seguida, ou pior — ela vai até ele como em um sistema delivery (o que é mais freqüente). Aí, o não_sei_o_que_lá-amigo a usufrui sem muitas perguntas e depois a entrega de volta.

Parei meu lanche no ar e permaneci catatônico. Elas riam que se matavam. Fiquei dias transtornado e com vontade de chorar, lembrando-me das gargalhadas daquelas mulheres, elas comendo os lanches com as bocas abertas e, entre uma gargalhada e outra em rotação lenta, pediam para eu passar a mostarda.

Passei a perguntar sobre o assunto para diversas mulheres, para descobrir estavam me gozando. Mas a resposta que recebia era sempre:

— Ué? Você não sabia?

Depois que conheci a Teoria do não_sei_o_que_lá-amigo tive que morrer e nascer novamente.

É engraçado descobrir que elas também fazem com a gente o que achávamos ser prática comum apenas de nós homens. Nunca, jamais descarte a possibilidade do não_sei_o_que_lá-amigo rondar a mulher encantada dos seus sonhos. Existem perigos que são óbvios para nós e que já nascemos sabendo (como ex-namorados, festinhas de faculdade, etc...) mas da existência do terrível não_sei_o_que_lá-amigo, essa meu amigo, quem nasce sabendo são elas.

Evandro Daolio escreve aqui aos sábados. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 11h11
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- Iconoclasta, graças a Deus

De Henrique Szklo.

 

Quando Marlon Brando morreu no ano passado, quem ficou passado fui eu. Marlon (gosto deste tom de quem tem intimidade com celebridades) era meu ídolo. Principalmente por ser um iconoclasta assumido. Jamais se curvou diante dos poderosos, nem fez o jogo de Hollywood ou se preocupou com a própria carreira. Dizia não gostar de atuar e é verdade: não decorava falas, não colaborava com o diretor, a partir de uma época só pegou no batente quando precisou de dinheiro, não foi buscar um merecido Oscar e literalmente cagou para o establishment. Resultado: dizem que morreu na merda. Sozinho, gordo feito uma pipa, parece que estava devendo mais de vinte milhões de dólares, e há versões que afirmam que foi encontrado morto num apartamento caindo aos pedaços (como ele). A morte mítica de um mito destruído.

 

Como iconoclasta precisou viver sua vida inteira com o conflito insolúvel de ser ele mesmo um ícone. Um dos maiores atores de todos os tempos, consagrou o “método”, que foi depois seguido por outros grandes como Bob, Al, Dustin (sou íntimo, lembra?). E sendo ele um ícone, precisava ser necessariamente destruído, desacreditado, morto. E foi o que ele fez, aos poucos. Um dos caras mais bonitos e sexys do cinema virou uma betoneira. E no final de sua carreira só participou de filmes medíocres, a exceção da Cartada Final, com Bob e Ed. É, devemos admitir que como iconoclasta ele também mandou muito bem. Ele conseguiu desconstruir o símbolo. Não teve a sorte (ou azar) de Jimmy, que morreu jovem, virou ícone sem saber e por estar a sete palmos não teve a chance de desprezar a indústria nem engordar, sofrer com uma vida pessoal trágica e muito menos ficar velho. Como uma vez disse Paul, “envelhecer não é para amadores”. Marlon fez o que quis de sua vida e a vida fez o que quis dele. Foi um resultado justo.

 

Devo dizer que tenho o maior orgulho e uma vaidade indisfarçada em compartilhar este traço marcante da personalidade do meu agora falecido ídolo Brando: a iconoclastia. Eu, como ele, jamais me curvei aos poderosos nem fiz o jogo de Hollywood. Provavelmente é por isso que estou na merda agora, apesar de o meu apartamento não estar caindo aos pedaços, nem eu. Afinal, ainda é cedo. Tenho 42 anos, não estou morrendo nem estou sozinho, não é Max? ...Max? ...Max?

 

Como publicitário, sempre tive dificuldade para me posicionar. Um publicitário iconoclasta não dá certo mesmo. É um problema de raiz, de DNA. O responsável por criar os ícones não pode ser o maior interessado em destruí-los. Há um claro conflito de interesses.

 

A vida de um iconoclasta não é fácil. Não tente fazer em casa, é muito perigoso. Ainda mais agora que não existe espaço para quem não é bem-sucedido, famoso, workahoolic, preparado, simpático, que sabe se vestir, que é mestre em lidar com subalternos e superiores, que tem espírito de liderança, que a puta que o pariu. Quem não se enquadra neste perfil é um fracassado antes mesmo de dar a partida e, não raro, é punido de forma exemplar. Quem não aceita o que vem pronto ou questiona o inquestionável é um incômodo na vida dos outros, além, é claro, de ser uma besta quadrada. Por isso, o iconoclasta está sempre sendo taxado de chato, implicante, anti-social e, por conta disso, merece ser expulso do paraíso.

 

Mas ser iconoclasta tem lá suas vantagens. Não precisa engolir tanto sapo na vida, não precisa bajular ninguém, nem programar seu destino como se isso fosse possível. O iconoclasta é independente. Não precisa de ninguém pra ajudá-lo a estragar a própria vida. Faz tudo sozinho.

 

Não sei se vou terminar meus dias devendo alguns milhões de dólares ou algumas milhões de desculpas. Só sei que quando for desta para melhor, a primeira pessoa que vou procurar será o extraordinário, verdadeiro monstro-sagrado, legendário, absoluto, sensacional, incomparável, o meu herói Marlon Brando e, de iconoclasta para iconoclasta, pedir milhões de desculpas por ter escrito este artigo.

 

Henrique Szklo escreve aqui às sextas-feiras e dá um workshop de redação criativa chamado Oficina do Diabo

Escrito por Blônicas às 10h55
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- Quero ser magra!

De Gisela Rao.

 

Não é fácil ser gorda. Não é fácil se olhar no espelho e se sentir o próprio Baby-Dino. Pior ainda é tentar emagrecer. Sempre é um desastre.

 

Minha primeira tentativa de emagrecer foi no Vigilantes do Peso.

 

A primeira noite em que fui ao Vigilantes, achei o máximo. Quem recebia a gente era uma mulher loira, muito alto astral, com umas roupas justas e pulseiras beeeeeem exageradas.

 

- Gente! Como foi a semana de vocês? Se comportaram?

 

Aí, ela começava a elogiar as pessoas que tinham emagrecido. Mas eu não queria elogio, queria que ela chegasse para mim e dissesse:

 

- Sua gordinha miserável, comedora de chokitos. Você não serve nem pra emagrecer, heim? Olha o tamanho da sua bunda. Um horror! Uma calamidade! Tá vendo essa mulher magrinha e linda nessa foto aqui? Sabe quem é ela? Você há um ano atrás, sua chokitólatra! Quem mandou você engordar e quem mandou você não conseguir emagrecer?

 

É assim que eu queria que a  loira falasse comigo, mas não, ficava só no elogio, na complacência e o resultado não foi nada como eu esperava.

 

Eu passava fome pra caramba e, quando ia me pesar, uma senhora gorda e antipática marcava na minha ficha "200 gramas". Eu estava meio estressada naquela época e fiquei com muita vontade de agarrar a gorda pela blusinha de renda do nordeste e gritar:

 

- Olha, aqui, sua balofa! Essa sua balança tá quebrada. Não é possível que eu tenha emagrecido só 200 gramas. Eu vou fazer você comer essa balança, na frente de todo mundo, junto com essa banana com canela, no microondas, que vocês mandam a gente fazer. Eu odeio banana, ouviu??? Odeio banana!

 

A única ex-frequentadora do Vigil-antas que eu gostava era uma jornalista. Ela emagreceu mesmo e não ficava me enchendo o saco, me jogando na cara que um sujeito bêbado que morava debaixo da ponte era menos fracassado que eu.

 

Uma vez ela disse:

 

- Mas por que não deu certo? Logo você que adora auto-ajuda.

- Como assim auto-ajuda?

- Ué, no meu grupo cada um falava dos seus problemas da semana e aí a psicóloga ajudava.

- Problemas? Psicóloga? Putz, no meu grupo não tinha nada disso. Será que fui num programa da Ana Maria Braga pensando que era do Vigilantes?

 

Ih, fudeu…

 

Gisela Rao é cronista achocolatada do Blônicas nas doces quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 10h35
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- Mais simplicidades

De Lusa Silvestre.

 

Estão complicando. Muito. Pode ser por custos, por facilidade logística, mas estão complicando. Complicaram tanto a minha vida, que eu acabei surtando e dificultando tudo, até as coisas mais banais. Não consigo fazer mais um cheque, porque a máquina preenche. Mal, mas preenche. Não existe mais toalha pra secar a mão. Tem uma ventoinha, que sopra quente a sua mão. Ela seca da pia, mas encharca de suor. Tudo muito complicado. Fazer xixi, por exemplo. Olhando assim, sem muito estudo, é coisa simples, ainda mais para um homem. Basta pôr o pênis para fora, mirar em algum lugar neutro e seguro, e relaxar a musculatura certa. Simples? Não para mim. Não mais. Primeiro, essa dita facilidade toda de achar lugar pra fazer xixi. É uma idéia errada, essa de que homem não precisa procurar lugar. Eu agora estou estudando lugares. Fazer xixi na areia é mais seguro, não respinga nada na barra da calça. Por outro lado, urinar em gelo - como estão colocando nos mijadores de bar -  é traiçoeiro, porque o fluxo pode salpicar de maneira pouco previsível. Então há que se escolher o terreno. Outra: qual o melhor momento para levantar de um show ou filme pra fazer xixi ? Eu já perdi momentos históricos por avaliação errada. Já perdi o Gil cantando "Pílula de Alho". Uma vez, num reveillon, todo mundo se abraçava enquanto eu chacoalhava, apressado e desastrado. Perdi o Travolta e o Samuel Jackson matando um monte de gente, no Pulp Fiction, porque avaliei mal a hora de sair da sala de cinema. Estou repensando agora a postura certa para a micção. Merece estudo. Por que temos realmente que fazer de pé, se sentado é mais confortável e ainda nos permite mirar mais de perto ? Em casa, eu só faço sentado, ainda mais durante a noite, ainda mais se estiver de pileque. Se estou em um lugar sabidamente asseado, sento também. Não sinto minha masculinidade prejudicada em função disso. Minha próxima pesquisa dentro desse campo será para abolir de vez a última gota. Deve haver melhor jeito de expelir de vez todos os resquícios de líquido; só chacoalhar é muito ineficiente e incompleto. Tenho um amigo que não usa mais cueca. Achava que ia ser mais fácil, uma roupa a menos. Ledo engano: a gota escorre direto até a meia. Pior.

Outra coisa que à primeira vista parece ser simples é tocar guitarra imaginária. Mas não. É complicado como abrir porta de quarto de hotel com aquelas chaves eletrônicas. Tocar bem uma guitarra imaginária requer tanto estudo quanto tocar a de verdade. No mínimo, no mínimo, você precisa ter senso estético apurado. Guitarra imaginária é pra se tocar sozinho, sem ninguém por perto. Ninguém pode ver você tocando guitarra imaginária, senão as pessoas podem pensar que você é ridículo. É coisa difícil hoje em dia, ficar sozinho. Tem sempre alguém olhando. Basta fuçar na internet cinco minutos pra ver quanta gente foi pega em flagrante tocando guitarra imaginária, e hoje não pode nem aparecer na rua sem ser apontado e zombado. A internet não deixa ninguém mais ser ridículo em paz, como antes. Outra: pra tocar guitarra imaginária, você precisa saber dançar mal. Se você dançar bem, vão ficar prestando atenção nos seus passos, e não no seu solo imaginário. A roupa: normalmente sem camisa, onde um público imaginário pode notar seus músculos - guitarrista imaginário nunca tem barriga grande, branca e peluda. Mas o guitarrista imaginário é sexy. Sempre se dá bem, sempre fatura um sexo. Mesmo que seja ele e ele mesmo só. Eu não. Eu não me masturbo mais. Pra facilitar, terceirizei.

 

Lusa Silvestre é cronista especialmente convidado e nos brinda por aqui de vez em sempre.

Escrito por Blônicas às 12h11
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- Globalização, invasão ou apenas moda?
De Nelson Botter Junior.

Se todo o globo terrestre falasse uma língua só, seria tudo uma maravilha. Prático até dizer chega. Como não é assim, sempre buscou-se uma língua universal, evitando a clássica mímica, com gestos medievais e caretas que sempre funcionam. O idioma da vez já foi o francês, mas a tal da revolução deu em si e o Je t'aime mon amour foi à merd e c'est fini. Depois criaram o Esperanto na esperança de ser uma língua terráquea, mas nem os marcianos gostaram da idéia, pois o Tio Sam veio com sua cueca cheia de estrelas, mostrando seu mundo business e apontando as bússolas mundiais para os Yankees, com seus market-shares, feed-backs e recalls. A língua inglesa veio pra ficar, afinal all you need is love, meu chapa.

Parece até que esse idioma traz em seu íntimo maquiavélico o approach dominador que existe em seus nativos imperialistas, coisa iniciada na Grã-Bretanha monarquista do imaginário rei Arthur, com seus lords e ladies sem nenhum sex-appeal, e seguido bravamente pelos pupilos estado-unidenses ou americanos (como se intitulam). Aliás, isso reflete o egozinho dos cowboys do norte: começaram como donos das Américas e agora são os donos do mundo. Os caras são power, my brother...

Os filhotinhos de Bush adoram uma invasão e a influência lingüística é uma forma indireta de venderem seu american way of life. Tudo começou de maneira bem light, e ficou heavy nos anos 80 (já difamados pelo camarada Aran aqui neste blog), com expressões do tipo: take it easy, tô numa nice e relax, baby. Aos poucos os fast-foods foram chegando, com suas bandeiras de guerra e seus Big Macs atômicos, que depois ganharam a companhia das backed fuckin'potatoes e outras malditas delícias que nos fazem potenciais integrantes do fat family.

Agora tudo é festa. Os jovens são muito crazy e as "minas" muito style. O Falcão canta "I'm not dog no" e tem jogador de futebol que chama Creedance. Tenho um amigo que é gay e se veste de drag queen pra cair na night. Na hora do rush é melhor fazer um happy-hour, tomando um scotch com Red Bull. É sexy usar piercing no umbigo. Quem acorda tarde não toma café da manhã, faz um brunch. Jornalista freelancer diz várias coisas em off e meu palm-top não faz interface com o notebook, que está com pau no mouse. É mole ou é hard disk? Bem, todo micróbio terrestre corre atrás de um flash, querendo ser um pop-star e o Big Brother está aí pra dar um help para essa moçada. Cansou? Se o stress estiver muito grande, faz um download na internet de umas músicas new age. É, people, o mundo era Hi-Fi, agora está hi-tech.

Entendam, caramigos, não sou contra, acho interessante essa miscigenação lingüística (como diria Caetano), mas exagerar já é overdose. Quando não existe uma palavra no português para determinar tal coisa, como ocorreu com algumas expressões do tupi-guarani (do guerreiro tupiniquim Policarpo Quaresma) que vieram e ficaram - açaí, abacaxi, caboclo, canoa, jacaré, mingau, pipoca, arara, capim, catapora, cipó, jabuti, jibóia, mandioca, minhoca, paçoca, peteca, toca e outras - tudo bem, acho ótimo, delícia, ajuda a língua a se manter viva, com comichões, igual beijo molhado. Mas quando substituímos palavras existentes no português por expressões em inglês, aí não dá, o pulso não pulsa, é fake, modinha. Nesses casos acho trash, e estou completamente out. Proponho até o contrário, aportuguesar o inglês, como fizeram com deletar, escanear e linkar. Mas assim não gosto, quero com livre interpretação, vamos adaptar, sem ser muito ao pé da letra, pois censurar a criatividade do brasileiro é como amarrar as mãos de um italiano. Eu tive até um insight, dá um look: a partir de agora meu carro não tem mais airbag duplo, tem sim é um belo par de tetas!

Nelson Botter Junior escreve aqui às terças. Visite seu blog.
Escrito por Blônicas às 11h12
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- Contra o desmatamento das fêmeas

De Xico Sá.

Que modinha de fêmea mais sem graça essa das bucetas (há quem prefira a asséptica, científica e impenetrável palavra “vagina”!)  diagramadas, desenhadinhas, parecendo aquelas firulas de estádio em dia de jogo-festa da seleção brasileira! Parecendo os desenhos na grama do Serra Dourada, coisa mais parnasiana e danada. Ai que saudade da velha Playboy de Sônia Braga, e mais ainda da classe de Claudia Ohana, aquela linda mata atlântica dos tempos coloniais, floresta negra, dantesca, amazônica,labiríntica, amém!.

Chamam a tal modinha até de "depilação artística", reparem só no descalabro. Prefiro recorrer ao Ministério Público e denunciar esse vergonhoso crime de desmatamento pubiano. É o maior desastre ecológico do país desde que os franceses e portugueses começaram a roubar toras de pau-brasil -aliás, crime com pau no meio não desperta o menor interesse deste Carapuceiro.

Estão acabando com as nossas matas mais nobres. Em nome de diagramações ridículas, muitas vezes só um tufinho de nada de pêlo, espécie de buceta-Cebolinha... buceta-reco, um absurdo qualquer assim. As depiladoras que inventam moda vibram nas revistas do gênero. As clientes pedem coraçõezinhos, letras iniciais do namorado ou do urso, um anti-mimo sem menor apelo erótico, morte do lirismo, fim do mais lindo rebuceteio.

Toda essa onda começou com as irmãs J., brasileiras com salão da vanguarda depilatória em Nova Iorque. Estão fazendo as bucetas das celebridades e endinheiradas americanas. Virilhas de grife. Todas lisinhas e sem graça... e norte-americanas, pra completar. Como se fossem desenhadas com moldes, pequenos arabescos, caminhos de rato, como se chamavam os erros dos barbeiros de antigamente.

Que modinha mais sem graça. A fêmea pode muito bem depilar-se, ter os seus ditos cuidados íntimos, mas sem mexer muito nessa flora de valor inestimável. Sem desmatar-se, sem descobrir os mistérios do mundo, sob pena de ver esgotados os seus mananciais, aguinhas e caldinhos do mais puro desejo.

Xico Sá escreve aqui às segundas-feiras. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 11h45
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- Homem estúpido tem que morrer na mão
De Ailin Aleixo.

Homem não sabe mais seduzir. Sei lá se isso é culpa do excesso de praticidade ou se é inaptidão pura. O fato é que as meias-palavras, intenções sabidas e não explicitadas, o cuidado de criar algo interessante pra ser dito e feito estão mais raros de encontrar do que corvo albino. Tá tudo pá-pum: olhou, se apresentou, elogiou a bunda e já vai botando a mão. Putz, coisa tosca! Mulher não é mamão pra se escolher apalpando. Que decepção teria Vinicius de Moraes se visse os marmanjos de hoje em dia... Em vez da Garota de Ipanema, a Popozuda. De "teu corpo dourado é mais que um poema, é a coisa mais linda que já vi passar" pra "bate na palma da mão, bate na palma da mão e rebola o popozão". Uma desgraça completa. E o que aborrece não é a intenção por trás da corte, a mesma para os raros românticos ou os abundantes broncos: trepar com a fofa. Isso não tem problema. É, inclusive, divertido – poucas coisas fazem uma cidadã mais feliz do que saber que está matando alguém de tesão mesmo sem fazer nada. O ruim é que o jogo ficou escancarado demais, babacão, sabe? O excesso de pragmatismo nessas horas tem o mesmo efeito de parar de blefar no pôquer – retirado o suspense, perde-se toda a graça.

Se espero brilhantismo chicobuarqueano numa cantada? Ih, não me resta esperança suficiente pra isso. Basta não ser surpreendida por atos estapafúrdios, português assassinado e cérebro vazio. E não se trata de romantismo: só quero inteligência agindo em prol da libido, sabe como é? Coisinhas simples e especiais que fazem um homem sair da multidão para se instalar na minha cama e, às vezes, na minha vida (que, aliás, está sem vagas). Porque é muito fácil disparar um "sabia que você é gostosa, gata?", mas difícil fugir do óbvio – e, quando o cidadão faz isso, é sinal de que matou pelo menos um neurônio no processo. É um sinal, e mulheres adoram sinais.

Há muitos anos, fui apaixonada por um cara que trabalhava comigo e, confesso, jamais fui boa em abordagens tête-à-tête; sempre preferi as vias indiretas. Depois de algum tempo, e um longo trecho de via indireta, começamos a sair juntos, completamente sem pretensões ou conjugação de verbos no futuro, mas fiquei apaixonada – só que, parecia, estava sozinha nessa. Então, 16 horas antes do Dia dos Namorados, mandei entregarem a ele um lindo buquê de lírios-brancos com um bilhete: "Quase um presente, quase amanhã, para alguém que é quase meu namorado". Não casamos nem nada, mas tivemos dias deliciosos e até hoje, todas as vezes que nos encontramos, ele relembra o episódio – me instalei definitivamente em sua memória. Não foi no coração, mas já é alguma coisa.

Se pararmos para pensar um minutinho só talvez cheguemos à conclusão de que as mulheres estejam partindo pro ataque não apenas por compulsão para seduzir mas também por não serem adequadamente atacadas. É o triunfo da velha regra: se quer que algo saia bem-feito, faça você mesmo. Porque digo isso com certeza, é muito mais gostoso deixar um homem abobado do que suportar um bobo bancando o homem.

Ailin Aleixo escreve aqui aos domingos. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 11h57
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- O calendário de Deus


De Evandro Daolio.

Lembre-se sempre do calendário de Deus.
Você pode aplicá-lo em si mesmo ou utilizá-lo para reanimar seus amigos mais preguiçosos ou aqueles quase mortos.

Suponha que em uma quinta-feira qualquer seu amigo de sempre, telefone de novo convidando-o para sair à noite.
Como você está desanimado ou cansado de saber o que irá acontecer (ou seja, nada); fica na dúvida, mas acaba recusando o convite e prefere ficar assistindo à TV, e mais tarde, dormir.

Anos se passam e você finalmente morre. Aí, então, você encontra Deus e reclama:
— Poxa, Deus! Por que o Senhor me deixou a vida inteira sozinho? O que eu fiz para merecer isso? Por que não achei minha alma gêmea? Por que o senhor não olhou para mim?
— Olhei sim, meu filho, como não? – responde Deus enquanto revê sua papelada.
Depois lhe mostra apontando o papel:
— Aqui, olha! Está marcado aqui: Alberto, quinta-feira às 23h14 encontrará a Renata, sua alma gêmea. Viu? Está aqui. Tem até a data... 28 de fevereiro de 2004.
— Ué? Então cadê que passei a vida inteira sozinho como um idiota? — você reclama, inconformado.
— Aaaah... Aí já é outra coisa! — sorri Deus — Naquele dia você preferiu ficar em casa dormindo, filho. E não consegui encaixá-lo em outra data. Mas que Eu me lembrei de você, lembrei...

Este é o calendário de Deus. Sempre o utilizo quando meus amigos desanimados não querem sair ou para quando fico desanimado de fazer mais uma busca no mercado feminino.

A fórmula padrão para usar ao telefone ou celular é esta:
— Ah... (coloque aqui o nome do seu amigo)! Vai saber se é justo hoje que Deus escolheu para te ajudar! (complemente aqui com a história do calendário de Deus).

E pronto, já terá companhia para sair. Sempre dá certo.

Evandro Daolio escreve aqui aos sábados. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 10h25
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O judeu errante

De Henrique Szklo.

 

Gostaria de fazer a minha estréia neste blog tão conceituado com uma confissão bombástica. Não, não vou falar que sou gay, nem que sou impotente ou que agarrei uma empregada a força quando tinha 14 anos. Essas informações são de foro íntimo e extremamente comprometedoras. Pretendo mantê-las em segredo ainda por um bom tempo. Ou talvez jamais revelá-las a ninguém, não sei.

 

Quero aqui, na verdade, me pronunciar a respeito de uma misteriosa e cruel sina que me persegue desde a mais tenra infância. Meu pesado carma, que a cada passo que dou nesta longa estrada da vida, parece mais e mais difícil de carregar. O fato é, meus amigos, que eu sou um judeu errante. No sentido mais literal da palavra. (Estou me referindo ao errante e não ao judeu). Parafraseando Al Pacino num filme obscuro de Oliver Stone, fiz todas as escolhas erradas que uma pessoa pode fazer. Pois é. Mas, por favor, não tenha pena de mim. Equivocado sim, tadinho não.

 

Sou daquelas pessoas que jamais podem se perguntar “onde foi que eu errei?”, senão vou ter de perder dias inteiros só para realizar o inventário completo.

 

Já mordi tanto a minha língua que ela parece uma colcha de matelassê. Sou daquele tipo de pessoa que toma todas as decisões (importantes ou corriqueiras) sempre tomado pela emoção. Ou pela “intuição” como eu gosto de justificar as cagadas. Não paro muito para pensar e já vou logo anunciando aos quatro ventos a minha decisão definitiva, para o resto de meus dias. Um ano, um mês, um dia, uma hora, um minuto depois já não estou bem certo. Já mudei novamente de idéia. E todas aquelas pessoas que ouviram minha certeza anterior? O que fazer com elas? Contar que já não é mais nada daquilo? Melhor não. Moita total. É o que eu sempre digo.

 

O problema é quando eu faço isso justamente com as decisões importantes. Mudanças estruturais em minha vida. Que demandam sacrifícios inomináveis e uma paciência que nunca tive. Há quatro anos abandonei minha profissão original de publicitário pela milésima vez para me dedicar à carreira literária. Hoje, estou trabalhando meio período no céu, meio no inferno. A carreira parece estar indo bem. Tenho um site, um jornal, alguns livros publicados, dou palestras e cursos. Por outro lado, acabou meu dinheiro e estou devendo umas 25 mães. Deu certo e deu errado ao mesmo tempo. O pior é que esta situação me leva a pensar coisas desagradáveis, como me arrepender por ter largado tudo em nome de um sonho, achar que o dinheiro é a coisa mais importante do mundo e outras iniqüidades menores. Eu sei que é feio, mas eu penso isso. Como já disse: faço tudo errado.

 

Na verdade isso tudo não passa de um padrão. Já abandonei e tentei retornar à publicidade um milhão de vezes. Neste momento, inclusive, estou fazendo isso. Aliás, se você souber de algum lugar que está precisando de redator, por favor me avise. E é sempre a mesma história. Eu saio da propaganda, digo que estou aliviado, que nunca tive muito a ver com a coisa toda, que nunca vesti a camisa, blá-blá-blá e, inevitavelmente, acabo tendo de voltar atrás e dizer que “adoro” publicidade e não via a hora de voltar.

 

E sou assim em tudo. Começo um esporte e tenho certeza de que vou praticá-lo para sempre. Não dura o tempo de produzir endorfina. O mesmo acontece com crenças filosóficas, idéias para ganhar dinheiro, relações pessoais, investimentos, idéias para livros, peças de teatro e roteiros de cinema. Depois passa, como se nunca tivessem existido. Eu sei que você deve estar esperando que eu justifique meu comportamento citando a música do Raul Seixas “Metamorfose ambulante”, mas pode tirar o cavalinho da chuva que eu não vou fazer isso de jeito nenhum. E ponto final. Pensando bem, até que não é uma má idéia.

 

Henrique Szklo escreve aqui às sextas-feiras e dá um workshop de redação criativa chamado Oficina do Diabo (pelo menos, até que mude de idéia).
Escrito por Blônicas às 11h04
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- As mulheres estão facinhas?

De Gisela Rao.

Tudo é relativo, como disse Einstein. Mas vamos observar alguns sinais pra ver se você ataca ou tira o time de campo. Amigão, saiu com a moça no sábado à noite, e não tem bafo de poodle depois que come ração de fígado, a perspectiva de tascar um beijo nela, na primeira noite, é tão grande quanto sentar com a camisa do Palmeiras na arquibancada do Corínthians e te encherem de bordoada. Certamente vai rolar. Uma vez conquistado o primeiro beijo, meça com a mão a temperatura da criatura. Se tiver subido uns 10 graus, pode dar um amasso na primeira noite mesmo porque raramente ela vai resistir. No máximo, você vai levar uma ou outra cotovelada no olho, mas a sua mão vai sair vitoriosa por supoesto.

 

Bom, pra transar na primeira noite nem sempre é fácil porque a maioria das mulheres tem Síndrome de Papel Kleenex, ou seja: de ser usada e jogada fora. Então, nesse terreno você tem mesmo que ir pianinho. Um boa tática é parar nos amassos e vocalizar, em seguida, o mantra favorito delas: "Quando é que vou te ver de novo?". Pronunciou esse mantra, elas já acham que podem começar a ver os padrinhos pro casamento porque, com certeza, você é um cara sério que quer continuidade.

 

Aí, você vai para o segundo round, ou seja: leva a moça pra jantar à luz de velas de novo porque, como ela já acha que vocês estão noivos, não vai regular a perseguida. Mesmo porque a segunda noite não é a primeira e, as amigas dela, sempre dizem que não é pra transar na primeira. Outra dica quente: se nessa noite o decote dela estiver um pouco mais generoso, a calcinha for nova e o olhar dela estiver parecidíssimo com o da Kate Winslet, em Titanic... mergulha fundo que a sobremesa tá garantida. E com direito a cafézinho. Se é que você me entende...

 

Gisela Rao escreve aqui no Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h11
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- O impropério da marca

De Paulo Castro.

 

Não tem quem não olhe para o meu braço direito. Bem no alto. Onde costumo suar muito. Sou um trabalhador braçal :

O que significa esse símbolo chinês, japonês, tatuado aí ?

- Significa sexo. Virtude. Morte Violenta. Ou Fortuna Repentina.

 

Para cada curioso, uma resposta. Parece um avião kamikaze sobrevoando uma caixa de tesouro. Parece uma mulher de pernas abertas sobre a cama bem arrumada, lençóis brancos. Parece  um crucificado, olhando estatelado para o próprio futuro túmulo de claustrofobia.

 

Andava pela cidade, consumindo livros, músicas, doces, olhos, bugalhos. E o corpo queria alvoroço. Vinho Chapinha indicando o caminho através da enxaqueca: dor insana.

 

O tatuador alugava um cubículo dentro do salão de beleza feio. Altamente suspeito. Estava dormindo em um canto, camiseta do Iron Maiden e fedor de maconha palha. Cutuquei o ombro, abriu olhar lascivo vermelho, talvez esperando o amor, lá dos prados da Arcádia Onírica, lá dos pesadelos solitários no centro da urbanidade.

- Parceiro, você usa agulha descartável ?

- Claro. Saúde é tudo. A riqueza do homem, saca ?

- Que saco. Quero uma tatuagem. Bem aqui. Acho que tenho um braço bonito.

- Quer mesmo uma figura ? É para a vida toda.

- A vida toda é muito pouco tempo. Me mostre o que você tem aí.

 

E eram Garfields, dragões, smiles. E os misteriosos ideogramas. Cada qual com sua tradução em português, logo abaixo. Fiz de conta que estava pensativo, escolhendo com responsabilidade de causa e efeito. Tenho uma cara pensativa. Engano bem, quando o que me domina é mesmo a preguiça. E o Chapinha. E a paixão. Sem que ele percebesse que eu era guiado pelo acaso, coloquei o dedo sobre a imagem, dado lançado sobre a mesa sem estrelas astrológicas.

- Essa. Com certeza, essa. Me identifiquei absolutamente, totalmente.

- Ótima escolha. Vai te trazer muita sorte.

- Eu preciso disso.

 

Ver o sangue escorrer era delícia, uma drenagem na alma. Limpada com papel higiênico vagabundo. O motor ligado na minha pele, fazendo coro com o reggae e as tesouras tediosas, do dito salão que era de beleza, triste. Beleza era meu peito indigente. Beleza é a roupa de baixo da metrópole, de veludo e seda, de buracos e fazenda desfeita, as traças humanas. O traço humano. Ele queria puxar papo enquanto trabalhava. Eu queria puxar um carro-de-boi. Ou o primeiro verso de um poema. Fiquei caladão, até terminar. Pena que durou pouco. Nem orgasmo, que se tenha notícia.

 

Paguei, agradeci, apertei a mão, sorri, pisquei para um andrógino de cabelos azuis, a deixar as sobrancelhas cobreadas. Os poros latejando. O sol se pondo, a cidade baixa, abaixando em moral. Gosto dela assim.

 

Cheguei em casa tarde, me fiz nu. Lá estava a imagem. O ideograma, ilha negra no rubor. O mistério. O espelho sorridente, tirando um sarro esperto :

- Até que ponto você quer usurpar a sua imagem padrão, Paulo ?

- Até o limite da transfiguração. Até ser amado pela pura artificialidade. Na superfície, a profundidade.

Agora estou aqui, escrevendo, igualmente nu. Gosto de ficar assim. Agora estou aqui, igualmente apaixonado, dizem que vicia. E a figura incógnita no meu braço direito, no alto onde suo, o mundo é espelho meu.

 

Seus olhos espantados, sou eu.

- O que significa essa crônica tatuada aqui ?

Talvez signifique você.

 

Paulo Castro é cronista especialmente convidado. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 12h55
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Anos 80: eu vi(vi) e não gostei

De Edson Aran.

 

O passado não leva ninguém pra frente.

Mas nostalgia dos anos 80 já é apelação. Aquilo não prestou, gente boa. Olha só: o presidente do país era um bigodudo maranhense que parecia chofer de praça. “Toca pra onde, doutor? Ah, Primeiro Mundo não dá não, chefia. Só dá pra ir pro Terceiro e, ainda assim, com bandeira dois.” 

 

A inflação era de 300% ao mês. De quinze em quinze dias, mudava o nome da moeda. Começou com Caraminguá, depois virou Caraminguá Novo (com três zeros cortados), depois Cracatua e, finalmente, Cracatua Nova (seis zeros a menos). No final da década, já tinha supermercado aceitando pagamento em tampinhas de garrafas, conchinhas e bolas de gude.

 

E a vida cultural, então? O país era tão atrasado que tratava crítico de música feito gente! Toda manhã, o indivíduo chegava ao jornal (depois de uma noite tórrida com o Ditão, do caderno de Esportes), sentava (de ladinho) e inventava moda. A gente acordava yuppie, virava neo-punk e terminava a noite como dark. Quanto não estava muito inspirado, o crítico de música pegava uma matéria da Rolling Stone, traduzia e assinava. Isso era chamado de pós-modernismo e, geralmente, rendia promoção e Prêmio Esso. Afinal, revista estrangeira só tinha na livraria do aeroporto. E cada uma custava o equivalente a uns cinco bilhões de cracatuas.

 

A primeira formação dos Titãs tinha 365 vocalistas. Eu estava lá e vi. Era mais gente do palco do que na platéia. O roqueiro mais balado do país tinha a língua presa e cantava assim: “Zua ziscina ezá zeia de zatos.” Ou então: “Vais uma záze, é zaro que eu zô a zim...”

 

Nos anos 80 tudo andou de marcha a ré. Xuxa, por exemplo. Depois de vencer concurso de Panteras e filmar um softporn do Walter Hugo Khoury, voltou a ser virgem. E, já que falamos em vir de ré, a mulher mais cobiçada do país era a Roberta Close. Com todos os originais de fábrica. Só muito mais tarde ela cortaria as jóias da família e daria pro cachorro comer. Sim, tinha o biquíni fio-dental, que era bacana e sacana, mas você nunca sabia o que estava escondido do outro lado da coisa. Encher a mão era mais que um descuido, era quase uma paixão nacional. 

 

Nos anos 80 todo mundo tinha caca na cabeça. Como o corte de cabelo mullet, por exemplo, que era curto na frente e comprido atrás. O pior era agüentar as piadas: “Ah, você deixou o comprido atrás, hahahaha!” Combine isso a paletós gigantescos com ombreiras, gravatas multicoloridas com estampas do Mickey Mouse, óculos de aros vermelhos e você terá uma idéia da desgraça que foi a década.

 

Só tem saudade dos 80 quem nunca esteve lá. Quem conheceu de perto acorda suando frio e gritando toda noite.

 

Edson Aran é cronista especialmente convidado. Visite seu site.
Escrito por Blônicas às 11h04
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- As diferenças que fazem a diferença

De Nelson Botter Junior.

 

Pequenas atitudes, grandes diferenças. Eis que podemos observar o simples e sensual ato da mulher se acariciando enquanto passa um creme hidratante em seu corpo. Existe todo um ritual, que envolve desde poses altamente provocantes (mesmo sem platéia), até o extremo cuidado de aplicar o sedoso creme em cada centímetro da pele. Lindo, não? Pois é, agora vejamos o homem nessa função...

 

Primeiro que para conseguir fazer o traste do marido ou namorado largar o futebol já é um sacrifício (e dos grandes). E então fazer o desgraçado prestar atenção em seu delicioso e suculento corpo feminino desnudo sobre a cama? Só mesmo apelando para técnicas avançadas de sedução, tipo Belle de Jour. O homem é tão incompetente para esse ato de aplicar o creme que não sabe nem conjugar o verbo correto. Ele “despeja” o creme. É de uma falta de sensibilidade de causar inveja a qualquer psicopata. Pior: muitas vezes não sabe nem como abrir o “maldito” do pote, achando tudo muito complexo (como deve ser o mundo feminino). Se o hidratante for em bisnaga então, sai de baixo, pois é muito futurista para um macho tosco. Tudo que ele menos sabe fazer é dosar a força. Se bem que nesse ponto pode ser bom, pois as mulheres adoram utilizar seus produtos de maneira exagerada (principalmente xampu), enquanto o homem procura sempre economizar (assim a mulher gasta menos no supermercado ou farmácia).

 

Outra diferença verbal: a mulher se “massageia” com o creme, já o homem “esfrega” o hidratante na pele dela, no melhor estilo Capitão Caverna. É como se o plano fosse afundar o creme sob a delicada pele feminina, para haver uma penetração hidratante mais eficaz, não precisando repetir o processo durante meses. Um verdadeiro show de horror. Parece até que ele está encerando um carro, com aqueles movimentos bruscos em círculos desordenados, fazendo com que a mulher até sinta enjôo de tanto que balança. Chorem mulheres, homens só lembram de sensibilidade na hora de comprar camisinha.

 

E a coisa não se resume a cremes não. Quando o assunto é bronzeador e bloqueador solar, a coisa só tende a piorar. Reparem: uma mulher bem bronzeada por completo, sem pequenos focos de pele manchada ou defeitinhos na pele morena, é sinal de que o protetor solar foi aplicado por ela ou uma amiga (principalmente nas costas). Agora, se a mulher apresentar visíveis triângulos vermelhos, três ou quatro marcas nítidas de dedos ou se a pele lembra um dos 101 dálmatas, esteja certo de que tem a mão de um brucutu aí. O homem passando bronzeador na mulher é um perigo, pois sobra tapa pra tudo quanto é lado, no melhor estilo "batendo bife". Parece que empurra mais do que passa o creme e sempre aproveita esse momento que a mulher está de costas para observar as outras fêmeas que circundam a área. No final, as coitadas das mulheres se sentem surradas, no melhor estilo shiatsu.

 

O bom de ser homem é que as mulheres nunca poderão ter o gosto da vingança quando o assunto é passar creme. É, meninas, guardem seus tapas para momentos mais oportunos, pois a maioria dos representantes da espécie masculina não querem saber nem de banho, quanto mais de creme hidratante. Os poucos que arriscam aplicar um creme no corpo, bem de vez em quando, procuram fazê-lo escondido de suas mulheres por dois motivos: primeiro para não levantarem suspeitas sobre sua masculinidade e, principalmente, para não serem flagrados aplicando o creme com mais maestria do que elas. Se isso acontecesse, as mulheres descobririam que seus homens SABEM como passar creme direitinho, mas esse segredo é para ser "aplicado" somente nas outras (leia concorrência), pois todo "sacrifício" depende do quanto a carne é fresca...

 

Nelson Botter Junior escreve aqui às terças-feiras e generalizou um pouco só pra provocar.

Escrito por Blônicas às 08h34
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- O amor nos tempos da tecnologia de "ponta"

De Xico Sá.

 

Um perigo para os adúlteros, traidores ou simples e bissextos puladores de cerca essa coqueluche das maquininhas de fotos digitais. Elas estão por toda parte, festas, restaurantes, bares, eventos... Como estão embutidas também nos celulares, a brigada moralista, que também é onipresente, pode muito bem enviar na hora, na bucha, para o email da suposta vítima do chifre, o flagrante delito.

 

Isso é o que se pode chamar, à vera, de tecnologia de “ponta”.

 

Muito melhor e eficiente do que as velhas cartas anônimas por meio das quais os Bovarys e as Bovarys de antigamente eram denunciadas. As missivas, aliás, hoje foram substituídas pelos hotmails anônimos da vida –  quem-avisa-amigo-é@hotmail.com ou quem-avisa-fofoqueiro-de-plantão-é@hotmail.com.

 

Mas nada como a fotinha, embora possa dar em muita confusão sem sentido ou lastro de verdade. Dependendo da malícia e do enquadramento do componente da brigada moralista, por exemplo, um simples beijo mais perto da boca pode render um rebuceteio dos diabos. Um olhinho fechado _às vezes por descuido ou cansaço paulistano_ pode ser o fim do mundo. Uma tragédia amorosa sem precedentes nas páginas policiais.

 

Pior é que, além dos delatores de plantão _velhos calabares do amor_, há ainda o efeito Blow Up.

 

Lembram do filme de Antonioni?

 

Na fita, um fotógrafo revela, sem querer, um crime que estava rolando no exato momento em que disparava sua câmera para tirar o retrato de pessoas em um parque. O crime estava por trás do beijo de um casal, se a memória carcomida pela maresia não me trai.

 

Os fotologs, estes álbuns pendurados na internet, são mestres no efeito Blow Up. Você vai ver as fotos de uma festa e, pimba, lá está o(a) amado(a) em caliente fuça-fuça ou, pior, nos braços de um(a) outro(a) qualquer, como na lírica de nervos de aço de Lupicínio.

 

É, acontece.

 

Infelizmente as maquininhas estão soltas por ai, sempre revelando, como na canção bossanovista, enormes ingratidões. 

Antes os bons tempos da filosofia de pára-choque, como leio agora naquele caminhão que passa devagar na enchente:  “O que os olhos não vêem o coração não sente”.

Xico Sá escreve aqui às segundas-feiras. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 09h05
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- Quilometragem livre - mulher rodada é que é bom
De Ailin Aleixo.

Mulher que é mulher dá pra quem ela quiser. Aliás, nem perde tempo pensando nisso porque é algo tão natural e simples na sua vida quanto escovar os dentes. Por isso acho patético essas fulaninhas cheias de preocupação, lendo livros e fazendo contas (primeiro encontro, terceiro, décimo segundo?) para descobrir o momento ideal de arriar a calcinha. Saturno e Vênus deverão estar alinhados conspirando para um acontecimento pós-transcendental. Parece que elas são oferendas pra Quetzalcoatl! Acorda, é só sexo! Carnal e pouco asseado como deve ser.

Apesar da aparente modernidade, tá cheio de mulher regulada por aí. E não porque não sintam vontade de dar, não: esse motivo é até respeitável. É porque tem medo do que os outros vão falar. Medo do que o cara vai pensar dela, vê se pode. Jamais me preocupei com o que o vizinho ou o porteiro pensam de mim: se eles não tem nada mais importante pra fazer do que vigiar a vida alheia, que vão comer mamão morno. O problema é que nossa sociedade é, feito lençol freático, permeada por um moralismo mais contaminador que dengue e, quando você menos espera, se pega censurando a conduta dos outros igualzinho sua avó jurássica.

Um namorado meu, há tempos, precisava de um bom advogado (não me lembro mais pra quê). Indiquei um grande amigo meu. Ele foi ao escritório do cara, curtiu e acabou fechando negócio. Meses depois, vendo o álbum do meu aniversário de 20 e poucos anos, o cidadão teve um surto porque deparou com uma foto minha dando um beijão no meu amigo, agora, seu advogado.

"Você deu pra ele?!"

"Ué, dei. Na época, claro."

"E ainda diz que é amigo?! Você fica trepando com tudo quanto é amigo, é? E me faz fechar negócio com um cara que te comeu?!"

Olha, sinceramente, homem que fica encanado com a vida sexual pregressa da namorada precisa tomar surra de frigideira pra deixar de ser besta. O mais engraçado é que os machos rodados se acham os Tiger Woods do sexo (acertam o buraco cada vez com mais distinção), mas as mulheres viram roupa comprada em brexó? Ah, faça-me o favor. Dou o que é meu e ninguém tem nada a ver com isso. E, aliás, o número de pessoas que passaram pela minha cama não te interessa, não altera a BOVESPA, nem a minha personalidade ou valor. Muda, isso sim, a experiência. O que é, ao meu ver, ótimo: ter referencial é algo valiosíssimo nesses dias de propaganda enganosa...

Mas, veja bem: dar pra quem quiser não significa passar o rodo no time de basquete inteiro ou em toda sua turma de amigos, não. Isso é falta de respeito consigo mesma. Porque, como disse Leila Diniz a um babacão que, depois de tomar um sonoro fora, a chamou de vagabunda: "Querido, eu posso dar pra todo mundo, mas não pra qualquer um".

Isso é que é mulher.

Ailin Aleixo escreve aqui aos domingos. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 10h54
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- Simplicidades
De Lusa Silvestre.

Outro dia fui num shopping, e acabei precisando fazer um cheque. Coisa simples, fazer um cheque. Você escreve o valor, assina, põe uma data, destaca, cruza, anota o telefone atrás, e depois aguarda triste e ansioso a compensação. Hoje em dia, é uma das poucas oportunidades de praticar a escrita à mão. Fui logo tirando o talão da carteira, quando a vendedora avisou: a máquina preenche. Entreguei a ela o cheque, ainda vazio. A máquina engoliu minha folha. Devolveu dez minutos depois, amassada. Destaquei outra: desta vez imprimiu. Mas no verso do cheque. Rasguei, destaquei outra: imprimiu do lado certo, mas o valor por extenso exatamente em cima do código da compensação. Paguei em dinheiro.

Demorou tanto para a compra de realizar, e tomei tanta água pra me acalmar, que em seguida tive que ir às retretas. Aliviar. Entrei no banheiro, fiz o que o dever pedia, lavei a mão - asseado que sou - e procurei a toalhinha de papel pra me secar. Não tinha toalhinha de papel. Tinha máquina de secar a mão. A primeira dificuldade foi exatamente saber onde ligar a máquina. Não tem botão de liga/desliga. Você pôe a mão lá debaixo da ventoinha, e esperar ela ligar sozinha. Ligou. Veio aquele vento quente, aquele bafo desconfortável. Começou a soprar a minha mão. Pensei: pô, se fosse pra soprar quente, faria eu mesmo - que sei onde ponho a boca. A máquina desligou sozinha, e a minha mão continuou molhada. Talvez até mais, porque além da umidade da pia, tinha agora o próprio suor da mão. Não consigo ser soprado quente sem suar. Liguei a ventoinha de novo, enfiei a mão lá outra vez. Necas. Enxuguei a mão na calça.

Aproveitando que a mão estava limpa - sujeito prático que sou - fui comer um sanduíche. Sentei-me numa dessas lanchonetes de hambúrguer, numa dessas pracas de alimentação. Pedi um x-egg - para a surpresa do chapeiro. Ninguém pede um x-egg assim, de peito aberto. É um sanduba em desuso. Veio o x-egg. Pedi catchup e mostarda, esperando os tubos gloriosos, as verdadeiras bisnagas, uma instituição da lanchonete - junto com a televisão de guardanapos. Vieram dois saquinhos, um de catchup e outro de mostarda. Desprevenido, eu já tinha pego o sanduíche com as duas mãos, e se você já pegou um x-egg com as próprias mãos, sabe que elas ficam besuntadas igual assadeira prestes a ir pro forno. Mãos besuntadas ficam sem a capacidade de fricção e agarro. Até um carangueijo perderia o poder das garras depois de pegar um x-egg na mão. E foi com mãos assim que tentei abrir os saquinhos de catchup. Imagine. Tive que apelar para os dentes. Um sacrifício enorme, e pra quê ? Pra conseguir dez milílitros de catchup. Não cobriu nem o espaço de uma dentada.

Cansei. Resolvi ir embora. Peguei o elevador, que - incrível - continua a mesma coisa; basta apertar um botão e pronto. Desci no estacionamento, entrei no carro, tentei ir embora. Na hora de sair da garagem, a cancela não levantou: eu não tinha pago o estacionamento. Tentei argumentar, mas a máquina ali da cancela só respondia os meus argumentos com um "obrigado por visitar o Shopping Pátio Higienópolis". Saí dali e voltei para pagar o cartão. Fui procurar uma vaga pra estacionar, porque ninguém quis esperar ali na fila de carros eu correr até o guichê de pagamento. Rodei vinte minutos, não achei a vaga. Larguei o carro no meio do corredor. Está lá até hoje. Um dia volto para buscar. Mas tenho que tirar dinheiro antes: ainda não paguei o estacionamento.

Lusa Silvestre é convidado especial e vai escrever muito por aqui.
Escrito por Blônicas às 11h45
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Você é um macho-pagador? (Teoria do macho-pagador)
De Evandro Daolio.

Quem já leu os livros da série ria sabe bem o que são as teorias. Antes de entrar diretamente nelas e você que nunca ouviu falar nem de mim muito menos dos livros (rs), vamos a uma rápida explicação sobre o significado delas.

Entre uma história e outra que você lerá a partir de hoje aqui, vou revelar as teorias que formulei durante o decorrer dos acontecimentos aterrorizantes mais marcantes de minha vida, simplesmente com a intenção direta de salvá-lo e evitar que faça as mesmas besteiras que eu, se é que já não as fez. É daí que vem o título “Ria da minha vida”, pois é o que mais fazem ao meu respeito. E tem uma outra intenção, que é apenas a de diverti-lo, claro. As teorias se chamam assim porque não são verdades absolutas. Gostaria que você as lesse com humor, mantendo a mente aberta e banhada com boa dose de bom senso, pois foram formuladas com essas características, aliás, básicas a todo ser humano.

Sobre o macho-pagador é o seguinte: Existe um fenômeno de projeto ‘homem’, medío-cre, babaca, socialite, peso a mais no mundo ou o que for, que chamo carinhosamente de... macho-pagador.

Os machos-pagadores têm características únicas e, por isso, são fáceis de serem identificados. Depois de uma breve explicação, você os reconhecerá aos milhares por aí. E reze para não se reconhecer também, claro.

Vá assinalando com um x os itens em que você se reconhecer. Se você for mulher, assinale se já recebeu, foi bajulada e/ou sustentada por um macho-pagador:

 O local mais propício para a identificação de um macho-pagador é o camarote de discoteca. Machos-pagadores estão sempre lá, rodeados de mulheres, baldes de champanhe, bajuladores, e não conhecem a fundo nem a metade das pessoas que estão com eles. As mulheres normalmente estão perto deles devido a dois fatores básicos: Foram eles quem as colocou na “área VIP” e, segundo, eles é que vão pagar a conta delas. Mas um macho-pagador de verdade nunca assume isso. Gosta de se iludir pensando que elas estão lá apenas por causa dele; e pior... acredita nisso.

 O segundo item mais fácil de identificação de machos-pagadores é a cesta de frutas e champanhe. Sem nenhuma comemoração específica, enchem a mesa (sempre estão em mesas) de comida e pedem uma cesta de frutas. Eu adoro os machos-pagadores porque me divirto com o dinheiro deles. Normalmente, quando fazem isso, pego uma tacinha, vou até a mesa e peço para me servir. Como eles sempre estão em turmas gigantescas movidas pelo interesse, nem reparam que não me conhecem. Uma vez, cheguei a pedir leite condensado para o garçom e coloquei em cima dos morangos.

 Namoram sempre mulheres lindas fisicamente, com cérebros de vento, mas causam inveja nos homens ‘comuns’ devido à fantástica aparência de tudo. E a cada hora estão com uma, duas, ou dúzias delas, rindo e brindando. Esses ‘namoros’ geralmente não passam de um mês.

 Eu conheço uma que esperou um domingo chegar para desmanchar, somente porque seu aniversário era no sábado e assim, ganharia o presente do macho.

 Só usam roupas de marca (inclusive cintos de marca) e, quase sempre, gel no cabelo lambido para trás.

 Machos-pagadores não se importam se as mulheres que estão com eles pedem canapés, comida ou bebidas diversas. Ao contrário, gostam de mostrar que têm dinheiro para pagar qualquer coisa que elas peçam. Mais tarde, fingem que não viram que elas ficaram com um outro cara qualquer do camarote, coisa que freqüentemente acontece.

 Acham que estão no camarote ou na “área VIP” porque conhecem o dono do local, quando, na verdade, é o dono do local que conhece o quanto eles gastam...

 ... e gastam o dinheiro do pai.

 Usam o sobrenome da família para se autopromoverem.

 Deixam o carro com o manobrista sem olhar o preço e não ficam observando se eles vão sair cantando pneu ou judiando do carro.

 Dão R$ 10,00 ou muito mais para o segurança deixar furar a fila e receber mordomias.

Claro que na maioria das vezes os machos-pagadores ficam com as mulheres. Mas, como o tipo de mulher que fica com eles não vale nada, saio ganhando no pacote, estando sempre por perto para beber, comer e entrar nos camarotes às custas deles, que é o mais importante para mim, nesses casos. E sempre com meu leite condensado à mão.

Existem milhares de outros itens que denunciam um macho-pagador. Mas o importante aqui é que você sinta pelo menos qual o estilinho deles.

Cuidado para não virar um. Eu mesmo, se não me casar e ficar solteiro, grisalho na balada, sem amigos e avô de qualquer mulher que me aproximar, vou virar um macho-pagador. Outro dia acordei gritando na noite sonhando estar de helicóptero descendo no meio da praia lotada de Florianópolis com aquelas camisas brancas apertadas e champanhe de bolso. Que pasadê-lo. O pior é que para ser macho-pagador ainda tem que ser rico (ou achar que é). O que vou fazer com meu Chevette verde-espaçonave, o Kiwi? Deus me livre...

Machos-pagadores referem-se aos homens. Mas as mulheres que se sujeitam a eles são ridículas igualmente. Saem ganhando apenas no sentido de que, quem paga, são eles.

Evandro Daolio escreve aqui aos sábados. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 11h36
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- Manual para utilização do Blônicas.

Detestamos manuais, gostamos mesmo é de fuçar nas coisas para vermos como funciona, portanto faça o mesmo. Mas, antes, saiba que o Blônicas é um blog dedicado a crônicas diárias feitas por escritores, abordando os mais diferentes assuntos e estilos. Aqui você encontrará sete cronistas fixos, um para cada dia da semana. Também teremos diversos convidados, que aos poucos farão aparições surpresa, com ativa participação no blog.

O espírito do Blônicas é criar uma interação entre os escritores e o público leitor, estimulando e propondo a leitura diária. Deixe seus comentários a respeito dos textos, eles serão muito importantes para os cronistas.

Agora chega de papo, ajeite-se na cadeira, prepare o amendoim e embarque nessa viagem, você é muito bem-vindo!

Escrito por Blônicas às 16h17
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