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- Cão de guarda do sono da amada

De Xico Sá.

 

“Amar, além de muitas outras coisas, quer dizer deleitar-se na contemplação e na observação da pessoa amada”, sopra o velho Alberto Moravia que dormia na prateleira à altura do meu peito na livraria Dantes tempos destes, altura da saída. Ela dorme. O que ficou para trás leia-se epígrafe. Antonio Maria também escreveu algo lindo sobre essa vigília. Lá vou eu também, sonâmbulos corações, o amor é assim mesmo, e hoje é segunda-feira, e ninguém sabe o que se passa no miocárdio dos cronistas.

 

Ela dorme.

 

Mãozinha no ar, como se apanhasse pássaros, que coisa mais linda. Uns 23 minutos assim, mirei no rádio-relógio. A mão desce ao colchão, quase dormente, formigamentos. Coça o nariz, não de Gogol, esse russo que sempre penso quando ouço, escrevo ou corizo. Bota a mãozinha entre as coxas. Agora vira de lado, como os antigos LPs quando gastavam as seis músicas do A. E me abraça como nunca tivesse partido, corpos viciados, almas não? Amar, além de muitas outras coisas, é uma droga pesada, crack dos lençóis das dores paraíbas ou três mil fios, quizas, quizas, quizas.

 

Dorme, meu anjo.

Ela obedece.

Vigio o sono dela como um soldado zapatista.

Como um cão zela o sangue do dono.

Como se fosse um homem-exército e pronto.

 

Amar, no início era o verbo intransitivo da alemã professora de amor de Mario. O idílio tem sobrevida, não como gênero, mas como vício, ê, corpos que se chamam sem DDD nem DDI.

 

A mão desce agora sobre o meu peito, como se medisse meus batimentos.

A mão direita volta para a arte de apanhar pássaros, que diabos!

 

Eu durmo do lado esquerdo da cama. Siempre. O do coração, agora é que pensei nisso, donde, na minha casa, repousa uma luminária de Nossa Sra. Aparecida comprada no meio da estrada, postos de gasolina, como nos amores de motel de Sam Shepard, nega linda.

 

Às vezes acordo beijando a padroeira, de tão apertado pela nega e pela vida.

 

Mãozinha no ar catando pássaros.

 

Aí uma calmaria danada, de horas, sem coreografias ou narrativas. Sonha, sonha, sonha, minha menina.

 

Eu passo a mão na sua bundinha, scratch de um dj vinil sonâmbulo todas as vezes possível. A noite toda, tchun, stchun, as preparadas, o baile todo, tum, stchum, só as carências, tum, schum, o amor que ex-porra, tchum, stchum, as babilônicas, tum, stchum, as garantidas, tum, stchum, os trocadilhos, a vida breve, tchuum, stchum, a vida loka...

 

“Imagino que minha mulher tenha feito aquele trejeito e aquela distorção de corpo muitas vezes...” Dinovomoravia.

 

Como é lindo a vigília ao sono dela.

 

Coça o nariz. Nunca ensaia um ronco, sussurra umas onomatopeiazinhas lindas de sonhos de besouros.

 

Bebo mais um gole do chá da caatinga que sempre guardo à cabeceira –deixei o sertão mas não deixo o mato. Chá de mulungu, miss lexotan.

 

Ela arruma os cabelos como algas, entorpeço num mergulho.

Sofro?

Sei lá. Vivo tanto.

 

Xico Sá escreve no Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h50
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- Sugando a banha

De Ailin Aleixo.

Outro dia vi aquele programa da Sony, "Extreme Makeover". Uma mulherzinha do Mississipi queria ficar parecida com a Barbie ou com a Pamela Anderson, tanto faz. Veja só: ela queria ter a fuça de alguém que já parece um genérico de fêmea produzido em laboratório. Mas, enfim, foi lá, colocou silicone, injetou gordura na boca pra ficar com aquela expressão de tesão eterno que tem as mulheres em capa de filme pornô e saiu esfuziante: finalmente não era mais ela mesma.

Que deprimente.

Não existe mais lugar para o imperfeito. Algo nos faz acreditar que se só seremos dignos de atenção e de amor se tudo em nós for milimetricamente dimensionado, duro e liso. A mentira das fotos de revista viraram verdade: não importa que aquelas coxas magníficas da fulana e a barriga de tanque do Sicrano foram resultado de horas e horas de correção por computador, o que importa é o que se vê. E isso assusta, porque é meio difícil ficar igual a algo que não existe; a realidade sempre estará aquém do referencial.

O real esvaziou-se de importância: não interessa se você tem dinheiro, cultura, sucesso. Interessa, isso sim, se aparenta ter. Cada vez mais gente leiloa a individualidade pela aprovação dos outros e se torna um clone fajuto de seres pré-aprovados pela platéia ou uma versão mentirosamente melhorada de si mesmo: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento. Não vejo problema algum em acertar um nariz torto, levantar peitos caídos. O que me amedronta é essa insanidade que leva a um tipo inédito e estúpido de mutilação, a mutilação pró-fama. O que são dores, anestesia, o período angustiante de recuperação perante a cara de espanto dos amigos, o despeito das amigas, os futuros flashes? Nem para os índios na época do descobrimento o espelho era tão fascinante. Eles trocavam ouro para ter um pedaço de si refletido. Hoje troca-se de rosto, de corpo, por elogios. E muitas vezes fajutos.

Jamais fomos tão carentes de aceitação. Nunca fomos tão egocêntricos.

Adoraria perder uns quilos. Chegando aos trinta, também seria legal dar uma levantada no que a gravidade insiste em abaixar. Mas não deixo de me sentir (pelo menos não sempre) interessante, sexy, digna de receber carinho e dar amor porque a calça, ocasionalmente, não fecha. Não me acho um lixo porque comprovo diariamente a existência de mulheres muito mais gostosas que eu. Gosto de ser quem sou e prezo quem tem a mesma relação consigo mesmo— pobres (e chatas) as pessoas que se odeiam por não atenderem as expectativas alheias.

As débeis que vendem até a alma para ter a bocona da Angelina Jolie ou a cintura da Halle Barry deveriam saber que a primeira se divorciou porque o marido transava até com a fruteira, e a segunda vive sozinha porque não controla o próprio ciúme. Ter dimensões e formas idealizadas não livra ninguém da infelicidade—apenas o transforma num infeliz bonito na foto.

Uma coisa é certa: seríamos muito mais felizes se investíssemos em terapia o tanto que gastamos sugando banha e esticando a cara.

Ailin Aleixo é cronista do Blônicas aos domingos e em abril lança o livro "Só os idiotas são felizes".

Escrito por Blônicas às 12h36
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- A escada da novela das oito

De Evandro Daolio.

 

Pelo amor de Deus. Eu não agüento mais aquela escada da novela das oito. Quem assiste sabe do que estou falando. Para quem não assiste eu explico. Tem uma escada na novela que todo mundo cai. E morre.

 

Se não morre é pior, ressuscita. Só das vezes que eu contei, acho que foram duas mortes, 20 escorregões, 12 tonturas na parte superior, 4 rolagens escada abaixo sem morte, e uma rolagem escada abaixo com ressuscitação, ou seja, a personagem morreu em um capítulo mas voltou à vida no outro.

 

Acho que era mais fácil eles colocarem um escorregador no lugar da escada, porque dificilmente você vê alguém subindo, só rolando para baixo. Já pensei em ir no estúdio com um machado e destruir a escada. Depois entregava o machado para a produção e diria: “Pronto, escrevam outra coisa...”

 

Poxa, e eu que gosto tanto de novela... Tem tanto jeito de matar os atores. A gente deveria criar o Sindicato do Noveleiros, em defesa de nós, consumidores de novela. Aí obrigaria o autor da novela a nos pagar dez reais de indenização por cena que ofenda nossa inteligência.  Ficaríamos ricos. Você já deve ter tido a sensação vendo algum filme americano qualquer porque adorou a chamada sempre fantástica,  que se te dessem uns 5 mil reais você sozinho faria melhor. É essa a sensação que tenho quando vejo cenas assim. Eu sei, eu sei que a gente assiste quase qualquer coisa autores de novela, mas não custa nada respeitar a gente.

 

Não me esqueço de uma cena na novela que tinha a Jade, e o Murilo (sei lá o nome do personagem) tinha caído não sei de que altura (e só quebrado a perna). Fazia anos que eles não se viam. Quando a Jade entrou na sala, ele a olhou de soslaio e disse sem mexer os lábios:

 

- Oi Jade...

- Coooorta!

 

Se eu fosse o diretor eu cortava e mandava fazer a cena de novo, com choro. — Pode ir chorando Murilo, se vira.

 

Uma vez comentei com um diretor sobre isso e ele me explicou que não dá tempo de gravar novamente a cena. Aí eu comentei de outra cena que ele fugia com a Jade em um shopping, mas corria de uma forma cuidadosa para não desmanchar os cabelos. Sabe quando a pessoa não vira muito o pescoço? Aí ele não soube o que me dizer.

 

O pior é que quando morre um ator, pelo orçamento, eles colocam outro no lugar. Aí fica aparecendo advogado, delegado e personagens voando na novela.

 

Então criei uma fórmula para todos nós virarmos escritores de novela. É só aplicar essa seqüência:

 

1. Arrume uns oito casais de diferentes faixas etárias + um casal polêmico.

2. Faça todo mundo brigar entre si

3. Misture alguns casais.

4. Mate alguém e contrate um novo ator.

5. Coloque um delegado debilóide no lugar  para enrolar até o último capítulo.

6. Casais se casam e descobre-se o assassino.

 

Dependendo do número de capítulos e audiência, você enrola mais em cada item.  Pronto, está aí sua novela. Mande aqui você também uma cena ridícula que assistiu. Vamos nos unir.

 

E mesmo com tudo isso, sabendo o que vai acontecer, eu continuarei aqui, atento e torcendo, aguardando a Nazaré, a vilã, terminar se atirando de uma cachoeira ou rolando escada abaixo. Fazer o quê?

 

Evandro Daolio escreve aqui no Blônicas todos os sábados. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 12h29
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- Bandeira

De Milly Lacombe.

 

Futebol é uma merda. Pior mesmo, só gostar de futebol.

 

E é esse precisamente o meu caso. Para os desgraçados que, como eu, torcem e distorcem, o domingo pode ser o pior, ou o melhor, dia do ano. E sempre que o domingo termina em tragédia você se pega repetindo: “Futebol é uma merda. Vou me desapegar, encontrar outra mania, começar a viajar todo o fim de semana, adquirir vida própria.” Mas aí vem a quarta-feira e lá está você cantarolando na fila da bilheteria do Pacaembu, como se o domingo passado tivesse acontecido vinte anos atrás. Quando nasci minha alma foi salva e se fez tricolor. O do Rio, que fique claro, porque, como diria Nelson Rodrigues, tricolor só tem um.

 

Pois bem.

 

Aos sete anos, pulando na cama de meu pai como um pardal da manhã (para continuar citando o dramaturgo) quando meu Flu bateu o Bangu na final do Carioca. Aos dez, debulhada em lágrimas e trancada no banheiro, quando o time foi eliminado pelo Corinthians no Maracanã.  Aos dezesseis, chorando na sala quando vencemos o Brasileiro. Memórias não me faltam.

Rivelino, Dirceu, Doval, Gil, Pintinho, Cafuringa, Carlos Alberto, Washington, Assis, Renato Gaúcho. Meus heróis.

E a vida ia assim, vert, blanc, rouge, até que eu me vi em situação inimaginável: debaixo da bandeira da Gaviões da Fiel em pleno Pacaembu.

 

Como exatamente fui parar ali?

 

Longa história. Vamos resumi-la. Em 2002 me apaixonei pela mais fanática das corintianas. Até aí, nada demais. Já tinha me apaixonado por torcedores de outros times antes.

 

Mas dessa vez seria diferente.

 

Recém-chegada de uma temporada de seis anos em Los Angeles, havia finalmente me desapegado. Estava fortunadamente em solo americano quando meu time caiu para a terceira divisão e, portanto, distante dos gozadores de plantão e da dor maior.

Mas eis que retorno à pátria-mãe e me envolvo com uma alvinegra.

Uma, duas, três idas ao Pacaembu e aquele negócio (sem trocadilho algum) começou a crescer dentro de mim.

Que força era aquela que me arrepiava e me fazia ficar com lágrimas nos olhos? Quem eram essas pessoas que, na chuva e com o time ruim de dar dó, continuavam a cantar enlouquecidamente?

Lá pela quarta ida, já me descabelava por um time que não era o meu e praticamente consumava a única das traições que jamais fora realizada: a do time de coração.

Debaixo da bandeira, o silêncio é cortante. Todos se olham, ninguém diz coisa alguma. Mas não é preciso, a comunicação é telepática. Fora das dimensões da bandeira, o estádio continua a explodir. E trata-se apenas de um jogo que nada vai definir, muito menos para um time que já não têm mais chances no Brasileiro.

Ao meu redor, expressões preocupadas, temerosas, amedrontadas. Mas a bandeira baixa e a insegurança vai com ela. O fundamental é pular, gritar, torcer – dane-se o resultado. Uma vitória é capaz de apagar 100 derrotas, é a lei. E eu ali, saltitante como o pardal da manhã.

 

Quantas pessoas podem dizer que sabem o que é torcer para um outro time que não o seu? Quantas conhecem a força de uma torcida que foi rival? Quantas se permitem trair?

 

Como freqüentadora desse limbo futebolístico, tenho tido domingos deprimentes, domingos em que, ajoelhada diante da figura de São Jorge, juro que vou me desapegar, encontrar outra mania, começar a viajar no fim de semana. Mas aí vem a quarta-feira e eu já nem lembro mais.

Na posição de provável única habitante desse limbo tenho o seguinte a dizer: bem-aventurados os que conhecem a irreparável dor da derrota de um time que não é originalmente o seu.

Bem aventurados os que choram em público depois do inesperado e impossível malogro.

Bem aventurados os que se permitem toda sorte de promiscuidade em nome do amor.

E aos que nunca terão a chance de torcer para o Corinthians dentro do Pacaembu lotado, eu sinto muito.

 

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e está sempre no Pacaembu quando o Corinthians joga.

Escrito por Blônicas às 12h45
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25/02/2005 - Ou eu acabo com meu ego ou ele acaba comigo

De Henrique Szklo.

 

Descobri a origem de todos os meus problemas e desmazelos. O responsável por tudo o que estou passando. O grande culpado, o vilão de toda a história: o ego. Filho da puta! É tudo culpa dele. Juro, eu sou inocente. Não tenho responsabilidade nenhuma nestes sentimentos inconfessáveis que tomam conta de mim. É o ego que me faz assim. Ele me controla, me domina, faz o que quer comigo. Déspota. Ditador. Insensível. Se eu pudesse, mandaria matá-lo, tamanha é minha aversão por este traste imprestável. Meu ego não merece viver. Que ódio que eu tenho dele. Ódio e nojo!

 

E o pior que não é só o meu que é assim. Todos são. O seu também é. O ego, como os homens, são todos iguais. Canalhas, não prestam, não são confiáveis. Jamais deixe um ego casar com sua filha. Nunca compre um carro usado de um ego. Se emprestar dinheiro pra ele, pode esquecer que jamais receberá um tostão de volta. Sem contar que ego não pede licença, não pede por favor e não diz obrigado. É mau educado que só a porra. Ego é feio, apesar de se achar o mais lindo do mundo. Ego é estúpido, não tem papas na língua, fala o que pensa e não respeita os mais velhos. Tem boca suja, fala muito palavrão e adora envenenar todo mundo pelas costas. É fofoqueiro e ladrão de galinhas. Ego é o fim da picada. O ego é vil, mal patrão e tem chulé. É pretensioso, trapaceiro e sonega imposto. É metido a machão, mas dizem que no carnaval sai vestido de Carmen Miranda. O ego é um salafrário, boca-mole, barraqueiro e impertinente. Aquele calhorda, cretino, imbecil! Tenho repulsa dele!

 

E não é só isso. O ego é um sujeito completamente fora de controle. Ele é metido, é preconceituoso, é mau. Ele quer que todo mundo se exploda e que só sobre ele no mundo. O ego é xenófobo, de extrema-direita e provavelmente contrário à união estável entre pessoas do mesmo sexo e principalmente ao estudo das células-tronco. O ego não aprova o protocolo de Kyoto e é contra o aborto, a não ser quando ele for a parte interessada. O ego não está nem aí com os problemas do outros, com a desgraça alheia. O ego não deu um tostão para as vítimas do tsunami na Ásia nem jamais doa sangue. O ego é muito egoísta. Não gosta de pobre e nunca dá esmola.

 

Mas tem mais: o ego não dá passagem no trânsito, nunca dá a preferência para pedestres e sempre que pode pára em cima da faixa. Se deixar, passa em cima das velhinhas que atravessam sem olhar. O ego dirige sem cinto, falando no celular no dia do seu rodízio. O ego não respeita os limites de velocidade, estaciona em local proibido, anda na contra-mão e se vier um marronzinho encher o saco ele ainda saca um revólver e dá uns tecos no coitado.

 

O ego é ateu quando convém e ortodoxo quando lhe interessa. O ego come, vira pro lado e dorme, não abaixa a tampa da privada depois de fazer xixi, jamais lava a louça nem tira os pratos da mesa. O ego palita os dentes com a boca aberta, coça o saco na frente de todo mundo e cospe no chão. O ego nunca compra flores nem dá jóias. Só está interessado em sexo e não faz a menor questão de esconder. Ego não usa camisinha e jamais assume a paternidade de um filho, mesmo que o exame de DNA prove sua participação. Aliás, ego detesta criança. Se puder, afoga todas. Salvo nos casos em que fica com vontade de praticar pedofilia. O ego não vale um tostão furado.

 

Não sei mais o que fazer com este infeliz. Ele acabou com a minha vida e ainda quer mais. Estou esgotado, vencido, desconsolado. Eu preciso dar um fim neste reinado de terror ou não terei mais muitos dias pela frente. Eu preciso acabar com meu ego. Preciso dar um basta! Preciso extirpar este mal pela raiz. Acabar com a raça deste maldito. E eu tenho certeza de que vou conseguir isso. Certeza absoluta! Afinal sou inteligente, engraçado, bonito, charmoso, gostoso, enfim, eu sou foda!

 

Henrique Szklo escreve aqui às sextas-feiras, mas se depender de seu ego, pega o blog só pra ele. Leia seu site, o blog da mãe e sua oficina de criatividade

Escrito por Blônicas às 12h31
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- O personal-trainer do Piauí

De Castelo.

 

Há controvérsias sobre a trajetória de Zé Arimatéia em São Paulo. A versão mais confiável dá conta de que ele teria vindo do Piauí na seca de 1987. Logo arrumou emprego de coletor de lixo no Parque do Ibirapuera. De tanto ver gente correndo, andando de bicicleta e malhando enquanto varria o chão, começou a dar conselhos aos atletas. Após um tempo, os freqüentadores do Parque o apelidaram de personal trainer do Piauí. A demanda cresceu tanto que Arimatéia teve que alugar uma sala comercial no Chora Menino, iniciando as consultas. O boca-a-boca aumentou. Até que, um dia, uma celebridade o procurou.

 

– Arimatéia, você é minha salvação!

– Pois se abolete, se abolete, dona. E vá me contando…

– Malho sete vezes por semana. Faço quatro corridas de 42 quilômetros no asfalto e três de “spinning” na academia. Sábado e domingo ainda tem sessão extra na esteira de casa. Mas estou estranha demais…

– Tá de calundu, é?

– Não, tô no período fértil. Mas, apesar de toda essa atividade física, tenho a impressão de que precisava malhar mais, muito mais. Nunca fico satisfeita…

– A madama merenda o quê?

– Dieta à base de aveia, iogurtes “light”, verduras, legumes, tofu e isotônicos. Mas não está revertendo meu estado ansioso, entende?

– Entendo, não. Mas compreendo, sim.

– O que faço então?

– A senhora carece de comer bode: bode assado com farinha.

– B-o-d-e? É algum produto importado?

– É. Do Piauí.

– Mas eu como esse “b-o-d-e”, antes ou depois do treino?

– Coma durante a sua carreira na rua. Faça um frito do bicho, com muito sal, e vá jogando us bucadim na goela. Dá sustança.

– Mas eu não vou ficar com sede? O que eu bebo quando parar a corrida? Gatorade?

– A madama mete uã lapada de cana do Cariri nos peito. Mas tem que ser a Cariri com K, num sabe?

– Pinga, depois do “jogging”? Nossa, que original o seu treino, Arimatéia!

– Mas o goró é só pra evitar da dona ficá com dor-de-veado nas partes. Chegando em casa, perpáre um chá de fedegoso. Vá tomando de meia em meia hora. De noite, antes de ir pra rede, beba duas xícra grande de leite-de-jumenta-parida. E pronto.

– Entendi.

– Tome tudim, gúti-gúti. Se sentir cansaço, bata sete veiz com o pano de um alfanje em seus quartos, uã pancada em cada nádiga. E vórte aqui no espaço de dois meiz, num sabe?

Pontualmente, 60 dias depois, uma celebridade até brilhosa de tanta gordura adentrava no conjunto de Arimatéia. Ganhara 19 quilos da mais pura adiposidade.

Arimatéia indagou:

– E entonce?

– Perdi toda a vontade de correr. Tô na paz!

– De veras? – animou-se o “personal” do Meio Norte.

– Juro, Arimatéia. Não saio mais do sofá. Acabou totalmente aquela minha nóia por corrida…

– Êita!

– …acabou o casamento também. Mas, pela primeira vez na vida, tô me virando sozinha. Você é tudo de bom, homem… Alterou meu eixo…

– Vixe!

Arimatéia abriu a porta, mais oito pessoas o esperavam no corredor. A mulher o agarrou pelo ombro:

– Só tô com um medinho: o que faço se me der aquela vontade de correr de novo?

Arimatéia deu uma sonora gaitada. E arrematou:

– Se avexe não, siá! Cozinhe uma panelada com bucho de boi, tripa e mão-de-vaca. Coma um prato arretado, com muita farinha d’água e chupe o tutano. Passa vontade de se mexer até em calango. Agaranto!

 

Castelo é cronista do Blônicas. Visite seu Castel-O-Rama.

Escrito por Blônicas às 14h55
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24/02/2005 - Ponto G: mito ou realidade?

De Gisela Rao.

 

Cá entre nós: não conheço nenhuma mulher que tenha falado no cabeleireiro:

- Querida, sabe quem eu encontrei ontem?

- Quem?

- O Ponto G!

 

Talvez o Ponto G (“descoberto” pelo Dr. Grafenberg) seja uma dessas coisas que existam para levantar polêmica mesmo, tipo o Monstro do Lago Ness e o Pé Grande. Que eu saiba ninguém conseguiu fotografar o Pé Grande, nem o Ponto G. Mas, sinceramente, se eu fosse você, amigo leitor, eu me preocuparia mesmo é com o clitóris. Por quê?

 

. Existe e todo mundo sabe onde fica.

 

. Tem 6 mil terminações nervosas e você pode fazer a sua namorada subir mais pelas paredes que o Homem-Aranha.

 

. É o maior responsável pelo orgasmo feminino.

 

. A função dele é única e exclusiva de dar prazer.

 

. Quanto mais você brinca com ele, mais a sua namorada se excita e mais vantagem você leva, por exemplo: amanhã ela vai espalhar pra todas as amigas que você é bom no babado. Aí já viu…

 

Tá, você não tem tanta certeza se é bom nesse negócio de levá-la até o Kilimanjaro de prazer. Calma, amigo… Essas coisas se aprendem e tem uma pessoa super expert no assunto que pode te ensinar (afinal, você não nasceu com um, certo?): a sua namorada! Durante o babado pergunte para ela, numa boa, que ritmo ela gosta que você imprima a essa campainha mágica: bolero, samba ou rock hardcore. Ela vai te dar as coordenadas, pode ficar tranqüilo… Só umas dicazinhas que eu sei que você gosta:

 

. Mulheres gostam de preliminares. Vamos lá: até faculdade tem preliminares (o vestibular)

 

. Depois que a mulher chega lá no orgasmo, não precisa mais ficar tocando a campainha (clitóris). A gente sabe que com você também é assim. Depois do orgasmo, quer ficar um pouco em paz, né?

 

. Nunca, jamais, em tempo nem em encarnação pergunte se “Foi bom pra você”, OK?  “Está satisfeita?” é coisa de garçom. G-a-r-ç-o-m!

 

. Clitóris também tem gorrinho. Puxe-o um pouquinho pra trás que a alegria dobra.

 

. Clitóris não é “joystick” de videogame, não seja muito bruto na manipulação, OK?

 

Gisela Rao escreve no Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h53
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- Oscar

De Rosana Hermann.

 

Oscar brasileiro, Oscar da propaganda, Oscar da música, do teatro, da Internet, da dança. Do sexo, da pajelança. Para enaltecer qualquer prêmio, título, medalha, é só pegar o dito cujo e, com todo respeito, Oscará-lo. Por mais mambembe, chinfrim ou pé-de-chinelo que sejam os prêmios, todos deságuam no mar de referências ao mais prestigiado troféu, outorgado pelos membros da academia, aos mais proeminentes representantes da mais rica indústria do entretenimento da maior economia do planeta, the United Academy States of Hollywood Awards of American Dreams, ou simplesmente, Oscar.

 

Eu já botei a mão num Oscar de um cara que eu mal conhecia, mas sabe, não foi uma coisa sexual, tá?, foi tipo-assim, uma coisa artística, entende? E depois, foi tudo super profissional, uma entrevista para uma emissora de TV. Lembro que o Oscar era pesado, mas pelo tamanho eu achei que fosse uma réplica. Mesmo assim, um Oscar. Lembro que o dono do Oscar era absolutamente desconhecido, lembro que era um prêmio naquelas categorias em que a gente dorme no sofá durante a transmissão da festa, algo como sonoplastia subaquática eletroforense bipolar ou efeitos foto-hídricos epistemológicos. Mas o filme era o Titanic, o tipo de blockbuster que abocanha Oscar às dúzias. De qualquer forma, foi bom pra mim, foi super válido, um lance de pele.

 

Tudo no Oscar é peculiar, único e extravagante, desde o tempo em que o ‘the Oscar goes to’ da abertura do envelope era o saudoso ‘and the winner is’. Cada detalhe é motivo  de cobertura jornalística. Os vestidos, os sapatos, as lágrimas, os discursos, os protestos, são festejados, comentados e analisados como se fossem tratados teológicos ou novas encíclicas. Até as ausências são manchetes. É compreensível, porque a festa de entrega do Oscar é um pot-pourri de todos os gêneros do cinema americano, com musicais grandiosos, mistérios sobre apresentadores, suspense sobre os premiados, romances e dramas de vencedores e perdedores. Para nós no Brasil ainda temos duas outras categorias já que o humor das piadas se transforma em terror da tradução e, muitas vezes, em novas piadas absurdas.

 

Aos 77 anos a estatueta ainda está em forma e o espetáculo continua sendo tão impecável que dificulta nosso desejo de achar a festa cafona. Mesmo sendo do contra, pichando o cinema americano que não é cabeça como o cinema europeu, iraniano ou indiano, todos nós, fãs ou não de Tarkovsky e Kiarostami, ano após ano, torcemos para que algum filme brasileiro seja indicado, acompanhamos os indicados, assistimos noite adentro a entrega da estatueta pelos membros da academia, dormitamos bem na hora do melhor ator, perdemos a hora no dia seguinte, vamos ao cinema ver todos os vencedores e pedimos ajuda aos amigos para lembrar como era atriz coadjuvante em inglês.

 

Em pompa, circunstância, importância e reconhecimento, o Oscar só perde mesmo para o Nobel, seu primo intelectual, capaz de mudar para sempre a vida de um laureado. Mas ninguém pára para ver a entrega do Nobel, que só tem como destaque a categoria Nobel da Paz.  O que a gente gosta mesmo, é da briga, da disputa. Por isso, neste domingo, lá estaremos todos nós, acompanhando a festa do Oscar na Globo, reclamando de tudo, torcendo e resmungando, roncando, desistindo, lutando contra o sono para ver o Oscar,  Mar adentro e madrugada, afora. 

 

Rosana Hermann escreve no Blônicas toda quarta, uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h46
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23/02/2005 - Educação e amor

De Leo Jaime.

 

Um dia tive contato com uma estatística que apontava números de investimentos em todas as áreas, numa perspectiva mundial. O quanto gastamos com saúde, com educação, com arte, com armas de guerra, com segurança pública, com investimentos em casas e assim por diante. No mundo. O investimento em armas de guerra passava de trezentas vezes o que gastamos em educação. Com isso é fácil concluir qual o nosso destino: é esse que compramos.

 

A educação deveria ser uma meta fundamental no mundo inteiro. O conhecimento tem se provado pacificador e motivador de grandes melhorias na qualidade de vida e nos relacionamentos entre os povos. Há que se perceber, porém, um detalhe: a educação está sempre levando a cultura como sua dependente quando deveria ser o contrário. Explico: o Ministério da Educação pode ou não levar a pasta da Cultura em seus atributos. E se o Ministério da Cultura for independente sua verba será infinitamente menor. É assim em todo canto e todo mundo parece concordar, menos eu. Simples o raciocínio, difícil a compreensão: para se estabelecer um paradigma do que deve ser ensinado é importante estabelecer o que é belo, o que é louvável, o que queremos instituir como bem cultural. Ética e estética. Depois de conhecidos esses referenciais fica muito mais fácil estabelecer moral e comportamento, escolher um programa escolar de base e estabelecer o que vai e o que não vai ser pesquisado, Essa é a chance que temos de inverter o investimento em armas trocando-o por coisas que produzam felicidade. Mas antes disso, muito antes, é preciso convencer a humanidade que a felicidade é uma coisa boa. Por isso investir em cultura. Sem contato com o belo, a educação pode ser infrutífera. Aprender o quê?, pra quê?

 

O amor deveria fazer parte dos ensinamentos básicos de todo cidadão. Isso se culturalmente compreendermos que sem amor somos um nada, sem amor não podemos ser felizes e nem convivermos bem em grupo, sem amor nossa vida é um caminhar em círculos sem graça. E a compreensão do amor fica muito melhor se estudarmos, se lermos as grandes estórias, os grandes romances, se pensarmos em todas as refrações do amor. O amor à natureza, aos animais, ao que se construiu no passado, ao belo, ao prazer, às artes, ao que ainda não se conhece ou o metafísico. Há muito o que se pensar sobre o amor. Há muito o que se aprender com o amor. Se os garotos ficassem dos 7 aos 11 anos estudando apenas e somente o amor, deixando a tabuada para depois, não seriam pessoas piores, tenho certeza. E seriam educadas de dentro pra fora. Da alma para o corpo social. Primeiro ser uma boa pessoa para depois ser um bom cidadão.

 

E depois, um pouco mais tarde, estudar junto com outras coisas, é claro, o amor romântico. O enamoramento,  o ciúme, o desejo, a pequena morte ou orgasmo, a linguagem do amor.... tanta coisa fundamental para se saber e todo mundo estudando inglês ou fazendo ginástica.

 

Alguma coisa vai dar errado.

 

Leo Jaime escreve no Blônicas às quartas-feiras. Visite seu site

Escrito por Blônicas às 12h45
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- Baseado em fatos reais

De Nelson Botter Junior.

 

- Chefe, eu não sei como dizer isso, mas eu... eu preciso de um aumento.

- Você está falando sério?

- É, chefe, sei que é um assunto chato, mas é caso de necessidade.

- Na verdade, não vejo problema em você estar pedindo um aumento, um upgrade, afinal não precisamos estar esperando as coisas acontecerem sozinhas, né? Temos de estar sendo pró-ativos, estar buscando nossos objetivos, estar correndo de encontro ao sucesso!

- Sim, e usando gerúndios, né?

- Usando o quê? Esses termos técnicos...

- Sabe, chefe, eu fico constrangido ao pedir aumento.

- Ah, mas "quem não chora não mama", já diz o ditado! Eu até estou ficando muito satisfeito que você esteja pedindo um aumento. Poucos estão fazendo isso! Antes nós tivéssemos aqui na empresa funcionários, quero dizer, colaboradores como você. Sabe, há muito tempo venho observando sua alta performance. Confesso que não te via como um businessman, mas agora te vejo como um chairman. Você tem futuro, é mesmo top, um verdadeiro head!

- Nossa, chefe, nem sei o que dizer.

- Não precisa estar dizendo nada. Até prefiro assim. Quanto mais silêncio no meu setor, melhor. Atividade cerebral na equipe me incomoda. As ondas causam interferências no meu notebook.

- É, bem, e quanto de aumento poderei ganhar?

- Dentro do plano de carreira que vou estar oferecendo a você, temos várias possibilidades. Deixe-me ver aqui. Ah, está vendo essas pastas aí na estante? Pegue-as e organize-as. São cadastros que precisam estar sendo colocados em ordem alfabética e depois digitados.

- Eu poderia digitá-los antes e o programa do computador organizaria em ordem alfabética.

- Olha, um feedback rápido: eu sei que você é um profissional inteligente e agregador, gosto de suas idéias e sugestões, mas quando eu disser para você estar fazendo algo, faça do jeito que mandei e ponto final. Deixe suas considerações e criatividade para a sala do cafezinho, OK? Ah, deadline hoje às 20h.

- Tudo pronto até às 20h? Mas o expediente é até às 18h e não podemos fazer hora-extra!

- Hora-extra? Você sabe muito bem que isso não existe para cargo de trouxa, quer dizer, cargo de confiança!

- Chefe, são quase 17h. Para fazer tudo isso aqui de uma vez, só se eu varar a noite trabalhando.

- Então vare, oras. O importante é o foco no resultado!

- E a qualidade de vida?

- Isso é papo-furado de RH. Quer mais qualidade do que estar ficando aqui, no escritório, longe dos perigos da rua, das reclamações da esposa e dos filhos irritantes?

- Eu... eu... eu gosto da minha família.

- Ah, e quando terminar, deixe as pastas do lado de fora. Não vou estar deixando o meu escritório aberto para você ficar fuçando em tudo.

- Chefe, eu posso muito bem fazer essas coisas amanhã. Pra que ficar aqui de madrugada e depois ir pra casa?

- Ir pra casa? Muito folgado o senhor! De que adianta trabalhar de madrugada e não estar aqui no dia seguinte? Nem pense nisso, amanhã quero você aqui. Sua petulância está me irritando. Bem que já vinha percebendo uma queda em nosso clima organizacional por sua causa. Não seja uma sementinha ruim aqui dentro, hein!

- OK, mas... e quanto ao aumento...

- Meu caro, emprego não está fácil e precisamos estar cuidando do nosso, sempre. Hoje somos 300 nesta empresa. Já fomos 900. A carga de trabalho não diminuiu, mas o de funcionários sim, ou seja, todos estamos aqui produzindo por três.

- Sim, chefe, eu sei, mas e o aumento?

- Ué, aí estão as pastas.

- Não entendi.

- Você não pediu um aumento? Pois aí está o aumento... de trabalho. De que outro aumento você achou que poderíamos estar falando??? Você está no mundo corporate, na selva financeira, no mundo das águias, rapaz!

- Mas, chefe, e aquela coisa do “quem não chora não mama”?

- Pois é, aqui você chora, querido, mas quem mama sou eu...

 

Nelson Botter Junior escreve no Blônicas às terças e odeia o gerúndio coorporativo, os executivos exploradores e o Papai Smurf. Visite seu finado blog.

Escrito por Blônicas às 12h46
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- Carta aberta a Mr. Charles

De Xico Sá.

 

Caro Mr. Charles, sempre tive bode, espécie de “bodeville” particular, contra os nobres; respeitoso ressentimento semi-árido que julgo luxuoso e necessário guardar em minha carcaça aparentemente leve e de classe. Não tive, confesso nesta missiva aberta, nenhuma comoção com o teu casamento com a Lady Dy, bonitinha, uma graça, que Deus a guarde e proteja, mas nada demais, embora ali tu já tenhas demonstrado grandeza _ora, poderias ter escolhido qualquer patricinha inglesa e obedeceste ao pendor proleta (culpa ou coisa de vidas passadas?) do azulado coração.

 

Sim, já sabia do teu caso das antigas com a nossa gloriosa Camilla Parker-Bowles. Lembras quando tu bem disseste que querias ser o absorvente que ela usava, no que recordo agora de uma singela canção do nosso rei Roberto, eu quero ser o sabonete que desliza no teu corpo inteiro, travesseiro, travesseiro, travesseiro, sonho, sonho, sonho, sesta, noite inteira, café completo, uvinha na boca, sol que entra, manhãzinha, quarto adentro...

 

Nobilíssimo Mr. Charles, cheguei até a pensar que o gracejo do absorvente, cole aqui na minha aba, faz favor, fosse apenas um exotismo de bacana da corte. Má que nada, sai da minha frente que eu quero passar. Eis que o príncipe, nem tão petit assim, anuncia ao mundo o casamento e reafirma o amor de muito com uma senhora de 56 anos, a mesma dona Camilla Parker-Bowles, nada convencional, aquilo que o populacho e os plebeus classe média do arrocho, coitados,  tratam vulgarmente como mocréia, baranga e outros adjetivos sem lastro.

 

Na moral, Mr. Charles vai lá, coletiva de palácio, e anuncia o casório, que lindo, que homem de verdade, sangue bom, mesmo sendo azul, vontade de cantar, com os olhos de Sinatra, fly me to the moon...

 

Num mundo tão óbvio, tão ronaldoso e cicarellístico, Mr. Charles vai lá e, pimba, mostra o afeto que se encerra na sua grandeza, dá um tapa nos padrões publicitários e nos herdeiros, que príncipe foda, caralho. Lindo, lindo, lindo: tu serás eternamente responsável por aquilo que cativas!

 

Homem que é homem...

 

Charles, meu velho anjo safado, deste uma lição ao mundo, levarei teu nome longe, pois como diz meu amigo Pereira, vila Nhocunhé, SP,  mulher certinha, hoje em dia, até viado come!

 

Xico Sá é cronista do Blônicas e escreve aqui todas as segundas-feiras.  

Escrito por Blônicas às 13h33
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- O que importa é beleza interior

De Ailin Aleixo.

Há muito tempo que as mulheres sacaram que os homens mais interessantes, charmosos, cultos e bem-humorados jamais estrelariam uma campanha da Hugo Boss: onde sobram músculos torneados, coxas grossas e boca carnuda geralmente falta humor e inteligência. Coisas da vida. E até tudo bem: podemos até desejar uma noite ardente com o Brad Pitt, mas, ao contrário dos machos, não ficamos comparando com o loirão os homens com os quais efetivamente temos noites ardentes. Sabemos que delírio é delírio, photoshop é photoshop.

Aqui estão motivos hormonais, sociais, comportamentais e empíricos que levam algumas mulheres a cair de amores por pançudos porto-riquenhos como Benício Del TOro (uh! eu lamberia aquelas olheiras inteirinhas!) e outros do mesmo naipe.

Não-bonitos são mais ligados em cultura -

Os bonitões não precisam se esforçar na conversa nem ler Fernando Pessoa para impressionar – é só chegar e pegar. Levando em consideração que homens não passam da adolescência, os cidadãos desse tipo vão ficar insistindo nesse comportamento até a chegada dos cabelos brancos. Já os não-bonitos, desprovidos de facilidades naturais, precisam de outras armas para triunfar nesse mundo cruel. Então começam a ler, sacar o espírito feminino e, em poucos anos, continuam não-bonitos mas infinitamente mais interessantes. O que, de longe, é mais importante.

Exemplos notórios: Woody Allen, Vinícius de Morais.

Não-bonitos são muito mais envolventes -

Nós queremos mesmo é rir, ouvir um papo que preste e estar ao lado de um cara que puxe a cadeira para nos sentarmos. O que os não-bonitos têm a ver com isso? Tudo. Seguindo a lógica da compensação, é muito maior a probabilidade de um não-bonito ser charmoso e ter habilidade para transformar aquele narigão numa característica viril.

Exemplos notórios: Jean-Paul Belmondo, Gérard Depardieu.

Não-bonitos despertam nas mulheres o instinto maternal -

Toda mulher, mesmo que negue, tem forte instinto maternal. Não pode ver um coelhinho, urubuzinho, que já faz voz de criança, chama de lindinho. A vontade de encher de carinho e beijinho o que parece desprotegido é incontrolável. Não-bonitos têm o mesmo efeito e, assim como os bichinhos, muitas chances de ficar conosco debaixo do edredom.

Exemplos notórios: Adrien Brody, Robert Carlyle.

Não-bonitos são mais dedicados à alegria feminina -

Homem feio dá menos trabalho. Tudo bem que ele é culto, divertido, charmoso, mas nenhuma perua vai sacar isso só de olhar para a cara dele – que, convenhamos, não é lá essas coisas. Desde cedo, os desprovidos aprenderam que, se o forte deles não é a figura, tem de ser outro, muito mais vital: atender os desejos da mulherada. Onde, neste mundo, um bonitão, com tanta mulher disponível, vai se dar ao trabalho de ser eficiente sobre os lençóis?

Exemplos notórios: Luciano Huck, André Gonçalves.

Conclusão -

Mulheres são mais humanitárias e menos superficiais que os homens. Sem contar que somos possuidoras de um gosto sortido. Um pouco esquisitas, também (mas isso vem de fábrica). O que significa que a gama de marmanjos que podem interessar a nós é muito maior do que a variedade de mulheres que podem chamar a sua atenção. Ruim pra você? Só se você não aprender como transformar estrabismo em algo sexy, careca em visual cool. Porque, se aprender, não vai ter Rodrigo Santoro que te encare (para o seu bem, leia esse exagero como licença poética). Ou, pelo menos, você não vai fazer feio. Mesmo não sendo bonito.

Ailin Aleixo escreve no Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 13h57
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- Para seu namoro (ou o que for) dar certo

De Evandro Daolio.

Não existe uma fórmula exata, é claro. Mas observando atentamente meus amigos e com as cabeçadas que levei durante a vida, anotei alguns procedimentos básicos para melhorar seu relacionamento, evitar brigas inúteis e o terror do desgaste. Existem mais alguns itens para enriquecê-lo de sabedoria, mas infelizmente não cabe no espaço disponível aqui. Então selecionei algumas dicas que estão esmiuçadas nos livros para você e nas próximas semanas vou discutindo alguns itens mais detalhadamente no Blônicas.

Não telefone todos os dias para seu amor, muito menos tenha isso como obrigação. Após alguns meses de namoro o assunto acaba, dando lugar à brigas irracionais. Não marque horário específico para ligações também. Se um dia você não estiver em casa, ou estiver no banheiro na hora marcada, estará perdido. Não a costume a dar "beijinho de boa noite". Muitas vezes ela fará isso só para ver se você não saiu após a última ligação da noite. Cuidado! Se você tiver que diminuir o TNT (Tempo de Namoro ao Telefone), faça-o desde o início.

Tenha e mantenha seus amigos, custe o que custar. Até se custar seu namoro vale a pena (por mais que você esteja cego agora). Não compre presentes fora de época, ou com cheque pré-datado ou cartão. (mais detalhes em breve). Não paparique ou despreze demais. Não use sapatinho da maga patalógica (detalhes, também em breve). Todo excesso atrapalha. Ame, mas permita que a pessoa ame. Faça, mas nunca pelos dois. Se tudo o que você fizer for pelos dois, qual a necessidade da outra pessoa?

Seja pontual, mas não metódico (nerd). Saia da rotina. Não traia (por mais tentador que seja). Mantenha a forma física, mas sem fanatismo. Não se habituem a se xingar mutuamente. Evite isso desde a primeira vez acidental. Não ache que sua profissão é mais ou menos importante que a dela(e). Dê atenção à família dela, sem atitudes forçadas ou se envolvendo demais. Não o(a) corrija na frente de outras pessoas. Seja alegre e divertido(a) apesar das dificuldades da vida. Não ache que o que aconteceu aos outros não pode acontecer a você. Logo falarei mais disso aqui na Teoria da Repetição de Procedimento.

Valorize pequenas atitudes de afeto. Não fique noiva(o) durante muito tempo. Faça sua viagem de lua-de-mel depois, e não antes do casamento. Não aperte espinha da cara de seu parceiro. Evite falar ou ter contato com ex-namorados(as) (Teoria do ex-namorado amigão, em breve). Não deixe seu namorado ou quem quer que seja escolher suas roupas. Não guarde rancor. Discuta os problemas o mais rápido possível. Converse. Saiba ouvir, e escutar principalmente.Vejo muitos casais por aí sentados na mesa de um bar, ambos olhando para o infinito. Somente conversam quando chegam as batatinhas fritas (e ainda conversam sobre as batatas).

Seja humilde. Saiba separar quem é você e quem é ela(e). Distribua seu espaço e organize seu tempo durante o dia. Não seja um grude. Não seja extremamente ciumento ou indiferente. Não provoque ciúme propositadamente. Tente ser espontâneo e original. Não compre presentes fora de época, ou com cheque pré-datado ou cartão (em breve mais detalhes). Progrida intelectualmente sempre que puder. Não se acomode. Conquiste e reconquiste seu amor todos os dias.

Se conseguirmos cumprir apenas dez destes itens, já seremos mais felizes. Pena que sempre esquecemos da maioria...

Evandro Daolio volta no sábado com dicas para quem está solteiro(a).

Escrito por Blônicas às 12h24
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- Às portas do paraíso

De Henrique Szklo.

 

Acredite se quiser, mas acabei de voltar da morte. Estive lá, às portas do céu, e retornei. Não que eu não quisesse ter ficado, o ambiente parecia ótimo. Mas em verdade vos digo, ocorreu um fato extremamente lamentável que me obrigou a tomar uma atitude nada menos que radical contra aquele verdadeiro antro de seres alados metidos a besta. Fui firme na defesa de meus direitos, e como castigo fui barrado no baile celeste. Só não sei se o castigo foi para mim ou para quem convive comigo aqui embaixo, mas isso é lá problema deles.

 

Tudo começou quando morri, o que já me pareceu muito estranho. Sempre achei que tudo acabasse quando a gente morria. Enfim, morri e fui para o céu (acreditem ou não meus desafetos). Chegando lá, entrei numa fila enorme e vagarosa que dava numa imensa e luxuosa fachada de prédio onde se lia heaven. E, para entrar, todos tinham de passar por uma porta giratória exatamente igual àquelas que tanto atormentam e constrangem os clientes que precisam fazer uma visita em seu banco querido. Na minha vez, é claro, ela travou e bati meu nariz profano em seu bem-aventurado vidro.

 

- O senhor carrega algum pecado?

- Uns poucos...

- Bote-os na caixinha e volte para trás da faixa azul céu, por favor.

- Como assim?

- É para sua própria segurança, senhor. Imagine se entra alguém aqui cheio de pecados. Vai roubar a nossa tão valorosa energia positiva.

- Desculpe, mas sou religioso e sempre respeitei as leis de Deus, Não mereço este tratamento.

- Senhor, coloque seus pecados na caixinha, senão não vai poder entrar.

- Que absurdo! Chame o Santo Expedito!

- Está almoçando.

- Mas sou devoto dele! Ele me conhece!

- Tem um santinho aí para provar?

- Não tenho de provar nada! Vocês é que têm obrigação de me conhecer!

- O senhor tem idéia de quantos presuntos, quer dizer, quantas almas passam por aqui todos os dias?

- Problema de vocês. Criaram a demanda e agora não têm estrutura para atender todo mundo! Na propaganda é tudo lindo, somos filhos do Homem e o escambau! Chega aqui e é essa vergonha!

 

Nunca fui tão maltratado em toda a minha morte. Como ninguém me conhece no céu? Fui coroinha, não perdia uma missa, sabia a Bíblia de cor, da escola fui o último a acreditar na teoria darwinista. E tudo o que rezei, que confessei? Os milhões de velas que acendi? Não podia ser um completo desconhecido e ainda ser confundido com um pecador contumaz.

 

Passei a sofrer agressões verbais de pessoas da fila que queriam logo ir desta para melhor e não se incomodavam em ser tratados não como filhos de Deus, mas como o gado Dele. E, para meu espanto, além dos que queriam entrar, havia também os que queriam sair. Resolvi voltar. E prometi nunca mais botar as asas naquele lugar. Ao chegar aqui embaixo, a morte veio me visitar pessoalmente. Envergonhada e atenciosa, pediu desculpas pelo ocorrido e prometeu que da próxima vez eu seria reconhecido e bem tratado. Teria minha passagem liberada sem constrangimentos. Aí eu disse que Inês era morta, para usar uma expressão condizente. Eu acabara de fazer um pacto com um concorrente que, entre outras vantagens, me oferecia prazer em profusão. Sem contar que agora vou poder passar a eternidade num ambiente muito mais caloroso.

        

Henrique Szklo escreve aqui às sextas-feiras, quando não trava. Afinal, quem é vivo sempre aparece. Visite seu site 

Escrito por Blônicas às 11h57
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18/02/2005 - Eu também quero falar de amor

De Edson Aran.

 

Eu também quero falar de amor.
Não quero polêmica, não quero inimigo, vou falar do meu umbigo e evitar encrenca. Não quero desavença, por isso peço clemência. Quero hortências.
Talvez, avencas. Margarida, orquídea e bem querência. Nada de ciência. Não quero me meter em bate boca, chega dessa atitude barroca. É tudo cena, é tudo Sêneca. Nada de discutir estética, meu negócio agora é prosa poética.


Daqui pra frente, só poesia concreta. Inepta, abjeta e até mesmo pateta.
Mas - foda-se! - não sou esteta. Chega de ser proleta, agora sou poeta e quero entrar na patota pra ganhar uma nota. Quero os campos, os décios, os néscios, os antunes, os antúrios, os murmúrios e os entulhos. Chega dessa empáfia, quero um lugar nessa máfia. Quero Mais! Quero meus versos na última página do caderno, quero fama e brilho eterno. Chega desse inferno.


Vou inventar palavrestranha e arrumarelasletra de formatacanha. Nasci mineiro e agora virei baiano. Não vou mais pensar cartesiano. Assumo, sempre fui um joyceano. Quero flanar, não quero falar, quero esquindôesquindôbaticundumprocurundum. Quero a minha turma, quero voto na urna, não quero mais contestar, meu negócio  é rosetar. Nunca mais sarcasmo, ironia e pessimismo. Quero djavanear meu caetanismo, quero mendonçar meu dudaísmo.


Tenho banana na cabeça, adotei o tropicalismo. E não pense que é cinismo. Não pulo mais nesse abismo. Vou me dedicar às rimas fáceis, comer alfaces, queimar fumo, perder o prumo e achar um rumo. Assumo: quero minha parte, depois eu sumo. Quero que tudo saia como o som de Tim Maia, mas não depois de uma feijoada, porque agora não faço mais piada. Vou falar da mulher amada, esta tapada apaixonada, que chora, coitada, feito garoto da Febem debaixo de paulada.


Mas, não, não, não, longe de mim esse engajamento, esse completo fingimento, não ligo pra sorte do pobre, esse jumento. Porra, às vezes nem eu me agüento. Mas eu tento e não lamento. Vou mudar, eu juro. Quero meu lugar no muro. Passado, eu te esconjuro! Vou me engajar em causas sociais, fazer um, dois, três carnavais. Ajudar as vítimas do tsunami. E sem dizer, até por preguiça, "Aí, brôu, mó onda, içaaa!"


Quero ser a Sandy pra dizer sandice. Quero ir ao Saia Justa pra falar tolice. Quero sair na Caras pra assumir a caretice. Vou fazer jiu-jitsu, chega de cretinice. Eu quero é falar de amor, essa dor que não tem cura. E quero uma mulher de cintura fina, perna grossa e bunda dura. Quero fogo e paixão - e logo! Estou com tesão. Não sou, porém, um macho insensível, preconceituoso e risível, pretensioso e sofrível. Não! Quero mais é beleza interior, chega desse rancor, vou mandar beijo no coração e só despachar spam com mensagem. Sem sacanagem. Quero conquistar mulheres lindas, mesmo que seja a prestação. Ou em duas vezes, no cartão. Cansei desse meu mau humor azedo e dessa ironia tola. Cansei de meter medo, agora eu quero é meter a rola.

 

Edson Aran é cronista do Blônicas e é brincadeira, ele não quer ser a Sandy.

Escrito por Blônicas às 11h51
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- Antonioni e a minha virgindade

De Gisela Rao.

 

Não, não. O cineasta italiano não tem nada a ver com meu ingresso no mundo dos prazeres da carne, mas que ajudou, ajudou.

 

Eu tinha 19 anos naquela época e estudava Farmácia numa faculdade na Barra Funda. O moço estudava Engenharia Química, era uns cinco anos mais velho e, como eu, fazia parte do movimento estudantil. Nos conhecemos numa invasão à sala da diretoria, pleiteando por algo que parecia muito importante naquela ano, não me lembro bem o quê.

 

Começamos a namorar e a coisa foi esquentando. Num sábado à noite, ele me convidou para assistir “Blow-Up”, do Antonioni, no Cine Clube do Bixiga.

 

“Blow-up” é mesmo um filme bem sugestivo para um começo de namoro. Em uma determinada hora, tudo começa a explodir: a TV, a máquina de lavar, o sofá… Acho que as explosões inspiraram o moço e ele teve a idéia de me levar para comer um taco mexicano, no Jack’n the Box, e depois me levou a um motel com nome de pata de cavalo (“El Casco”, “El Ferradura” ou coisa que o valha).

 

No motel, eu pedi uma caipirinha. Detalhe: eu nunca tinha bebido na vida e fiquei completamente balão. O rala e rola começou ao som da música “Blowin' In The Wind”, do Bob Dylan.

 

Eu estava tão pra lá de Bagdá, na hora da penetração, que comecei a recitar - “Ora direi ouvir estrelas, certo perdeste o senso”. E acabei vendo estrelas mesmo, porque doeu para diabo. Até aí eu gostava do moço e o moço gostava de mim, mas meu estômago não pôde dizer o mesmo do taco mexicano. Passei mal para caramba, enquanto ele (o moço) roncava na cama redonda com lençóis de estampa de zebrinha. Graças a Deus, quando ele acordou, me poupou do “Foi bom pra você?”.

 

Mas posso dizer que a coisa toda valeu a pena. Valeu pela transa e pelos três “Blows” que aprendi naquela noite: o “Blow-Up”, o “Blowin' In The Wind” e o tal do “Blow job”.

 

Gisela Rao escreve aqui no Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h36
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- Eu preciso dizer que te amo

De Leo Jaime.

 

Quantas coisas já não foram ditas, escritas, cantadas sobre o amor? O amor já foi dançado, pintado, chorado e vivido milhões de vezes, e continua uma incógnita. Um assunto interminável, um mistério nunca desvendado. Talvez nem haja como desvendá-lo de fato. Talvez seja só o estar desvendando. Como a vida. Desde a primeira célula se reproduzindo ao universo se expandindo, é preciso que o amor esteja presente.

 

A gente ama muito na vida. A gente ama o peito da mãe quando é um bebê, e declara nosso amor incondicional à nossa mãe e cobra isso dela muito antes de aprender a dizer gugu - dadá. A gente vai crescendo e formando nossa personalidade através dos nossos amores. As coisas que a gente gosta e as que a gente não gosta. Assim encontramos os nossos limites, e em nossos limites encontramos o nosso contorno, o nosso jeito. Quando a gente descobre o amor, descobre também a tristeza. Uma tristeza profunda e permanente que vem do fato de que tudo é transitório, tudo nasce e morre, e o amor também, arrancando pedaços. “A única coisa que a gente quer na vida é ser amado. Nós olhamos no espelho e pensamos: “Será que alguém vai gostar de mim de verdade? ” Gostar aquele amor intenso, profundo e infinito, capaz de nos matar a fome de amor para sempre? E é assim que nos deparamos com a paixão. Quando estamos apaixonados por alguém que não quer nada com a gente, é a morte. Quando alguém se apaixona pela gente e não temos o mesmo sentimento para retribuir também é a morte. E quando nos apaixonamos por alguém perdidamente, achando que o outro nunca vai nos notar e, de repente, percebemos ou descobrimos que o outro está perdidamente apaixonado por NÒS também. Aquela pessoa que para você é o máximo dos máximos, que quando te dá um oi te faz sentir orgulho em ser cumprimentada, aparentemente tão distante, se revela alguém que só pensa em você, e que tem vergonha de dar bandeira, pois igualmente não imaginava ser objeto de sua paixão. Isso é o céu.

 

O primeiro sinal da paixão é a estranheza. A gente vê e fica sem graça. “Até que um dia os olhares se cruzam e é como se uma explosão colorida tomasse conta de tudo.”  É impossível fazer um momento durar para sempre. Os sonhos podem durar muito, mas chega uma hora em que a gente quer acordar e ver a nossa vida inteira de novo; por mais que tenha sido gostoso passar um tempinho vendo uma coisa só na nossa frente  - a nossa paixão. Normalmente essa separação é fatal. Quando nos apaixonamos só enxergamos o que queremos, o que sonhamos, o que precisamos. E quando volta a vontade de enxergar a vida sem as lentes cor-de-rosa da paixão, nem sempre encontramos ali, ao nosso lado, quem esperávamos encontrar.

 

O amor é, em essência, movimento. E vale a pena tentar. Quando estamos há anos com alguém, aprendemos o seu jeito. Sentimos saudade da sua risada. Sabemos a hora certa de desviar para não causar atrito. Conhecemos os seus defeitos e qualidades e gostamos desse certo alguém sem tirar nem pôr, do jeito que ele é. Até que um dia um dos dois por algum motivo vai embora. O que fazer? Quando a vida parece não fazer sentido sem ela, mas sabemos que temos de nos separar. Ainda que a alma chore, seu corpo inteiro sinta essa dor e o futuro seja uma escuridão sem a luz do amor a te conduzir.

 

Perder alguém é estar perdido. A gente nunca sabe se o amor vai voltar a sorrir em nossos lábios. A gente vê alguém sofrendo, alguém cuja felicidade costumava ser a coisa mais preciosa de nossa vida, e somos a única pessoa que não pode fazer nada. Quando um amor, um namoro, uma história termina, pode-se discutir o quanto for que não se encontrará  o culpado. Por mais que um seja totalmente errado, os dois dançaram juntos  uma música que só pode ser dançada a dois. E quando perceberem que a alegria foi feita por esse encontro, descobrirão que a dor também foi. “Eu quero muito ser amado. Quero amar muito também.” Quero muito fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Quando vejo duas pessoas se amando de verdade, sorrio, meu time está ganhando. Quando dois amigos se separam dói pra caramba. Porém,  eu sempre digo que, embora tenha, acabado nunca foi um fracasso. Tocar a felicidade junto a alguém é sempre uma vitória.

Por um momento ou por uma vida. Amar é o que importa. Ou estar amando.

 

Leo Jaime escreve no Blônicas às quartas-feiras. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 12h57
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16/02/2005 - A grelha

De Rosana Hermann.

 

Quando você dá um presente de casamento, toda sua vida, obra e imagem pública ficam eternamente associadas a este objeto. Mesmo que o casamento acabe dois meses depois ou dure toda uma vida, seu nome estará presente no dia-a-dia dos cônjuges em expressões como 'me passa a molheira que a Ana Maria deu ', 'o liquidificador que o Roberto mandou quebrou ontem' ou 'pode ficar com o vaso horroroso da sua tia.'

 

Incomodada com a possibilidade de me tornar para sempre a 'Rosana do processador de carne', resolvi comprar um segundo presente, fora da lista oficial, algo que representasse a minha pessoa com a dignidade e galhardia que aspiro ter. Assim, disposta a arrombar o orçamento mensal em prol da ascensão da minha imagem pessoal, fui a uma loja de eletro-eletrônicos de última geração, algumas horas antes da cerimônia. Selecionei a faixa de preços que arrancaria menos lágrimas, o tamanho e o peso que pudesse carregar até em casa de salto alto e cheguei a uma bela grelha, redonda, negra, antiaderente, com o suporte em metal branco e uma imensa tampa de vidro em forma de bolha, parecendo uma espaçonave. Linda mesmo. A vendedora deu duas ou três informações, paguei e fui retirar o meu embrulho.

 

Qual não foi meu choque de 220 mil volts quando vi na embalagem, entre rodelas de cenoura e fatias longitudinais de abobrinha, o ex-campeão de boxe na categoria peso-pesado George Foreman. 'Faux-d'ime', pensei em francês. Serei eternizada como a fulana na grelha do 1406, a amiga do noivo que comprou no Polishop e mandou entregar no Morumbi. Talvez fosse o caso de pisar na jaca e mandar também as facas Ginzu e as meias Vivarina.

 

Emergindo do hiato existencial que parou o tempo e comprimiu o espaço naqueles breves segundos de contato com George, pedi para o rapaz do embrulho nocautear o Foreman. Ficou a grelha num imenso isopor branco. Medi a caixa às palmadas e sai correndo pelas papelarias em busca de uma caixa neutra, sem sorrisos nem couves-flores. Voltei com uma caixa linda, imensa, perfeita.

 

Ou quase. Evidentemente o Foreman mandou fazer a medida da embalagem em polegadas estratosféricas de forma que nenhuma caixa de um país com sistema métrico comportasse a maldita grelha. Cortamos o isopor à golpes de tesoura, cientes de que ficaria uma merda mas, pelo menos, entraria dentro da porra da caixa nova. Enquanto o rapaz fazia a cirurgia eu me livrava dos folhetinhos com fotos para deixar apenas as instruções de uso em texto.

 

A tarde caiu e, quando finalmente meu jab de esquerda fez a grelha cair dura dentro da caixa nova, o padre já devia estar entre o sim, o cruz-credo e o amém. Perdi a cerimônia. Mas fui à festa, levei o presente e aparentemente tudo deu certo, já que o noivo nunca tocou no assunto e continua falando comigo normalmente.

 

Eu guardava este segredo de estado até o fim de semana passado quando meu amigo Ballona me chamou pelo MSN dizendo: "comprei uma Grelha do George Foreman! a melhor compra de 2005! é genial! compre uma também!"

 

Quase desmaiei. Ballona é um cara chiquérrimo, moderno e muito querido. E foi só com o aval dele que percebi a carga de preconceito que tenho com produtos do 1406. Perdi meu tempo, a cerimônia, por uma babaquice sem tamanho, fruto do meu complexo de inferioridade social advindo uma infância pobre somado a uma longa vida universitária de muito sexo livre e luta ideológica teórica contra o imperialismo americano.

 

Agora que venci mais um round contra minha idiotice, resolvi comprar uma grelha também, a melhor, a mais bacana, a mais peso-pesado, do George Foreman, ainda esta semana. Não vejo a hora de receber na minha casa a imensa caixa com os geniais dizeres "As seen on TV".

 

Se bobear, compro a Flat-Hose, o Invisible-Bra e o Air-o-Space-Sofa-Bed. Vai que o Ballona resolve dormir com a esposa em casa antes do nosso jantarzinho na grelha.

 

Rosana Hermann escreve aqui às quartas, uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h26
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- A última crônica do Botter

De Nelson Botter Junior.

 

Eu morri ontem. Pois é, parti desta para uma melhor. O detalhe inevitável é que fui para o inferno. Até aí nenhuma surpresa, apesar de que tenho algumas reclamações com relação a meu julgamento, o tal do purgatório. Só apareceram advogados da parte do capeta, o paraíso não mandou ninguém. Argumentaram que essa categoria anda em baixa lá pelos jardins do Éden. Ah, tanto faz, eu não teria como escapar mesmo.

 

Mas o inferno é um paraíso, acreditem. Dizem até que os resorts foram inspirados nele. Nada a ver com aquela coisa de caldeirão e almas sofrendo eternamente. Que nada, é tudo no sossego, na diabólica paz. Aquele inferno descrito por Dante só existe mesmo na cabeça dele. Insano! Na verdade, a coisa é cinco estrelas, pois estão acostumados a receber gente importante, como políticos ilustres, artistas famosos, banqueiros sorridentes, militares do alto escalão, empresários badalados e até alguns Papas, pastores e bispos. Dá pra fazer um networking dos diabos. Coisa fina, de primeira, gente quente. Tenho quarto privativo com todas as mordomias possíveis, inclusive ar-condicionado, pois o calor é realmente infernal. Acho que só isso me incomoda, ah, e também o cheirinho de enxofre que ronda pelo ar, se bem que ainda não sei se esse cheiro é característico do lugar ou se é o meu vizinho que sofre de flatulência. É fogo...

 

Talvez eu vá sentir falta da chuva. Aqui não cai uma gota, evapora antes de chegar no chão. Para a mulherada isso é ótimo, pois a chapinha dura mais. Aliás, já aviso de ante-mão que as mulheres aqui são calientes. Andam com o mínimo de roupa possível. Do jeito que o diabo gosta. E não é para menos, pois é verão o ano inteiro e as praias vivem lotadas, muito bem vigiadas e protegidas pelos chefes do narcotráfico, que ano após ano chegam com emprego já garantido. Nada de arrastão, o crime é organizado. E por falar em praia, no inferno também tem o Mar Vermelho, mas não tem Moisés. Esse conseguiu se salvar, era amigo íntimo do Homem lá de cima.

 

O diabo até apareceu na TV dizendo que vai fazer umas melhorias. Querem dar um jeito na alta temperatura. Projeto "Calor Zero". Bobagem, todo mundo sabe que o demônio é o maior marketeiro da paróquia. Só aumenta os impostos, mas solução que é bom, nada. Ah, quase esqueço: vou conhecê-lo pessoalmente hoje, pois já que estou no inferno, o negócio é dar um abraço no diabo. Tanto aí como aqui as coisas são iguais: o que vale é ter costas quentes.

 

Amigos, preciso ir. A Lan House aqui está fervendo, mais superlotada do que o Carandiru nos seus áureos dias. Um inferno! Só resolvi dar um alô e escrever esta minha última crônica para dizer que estou numa boa. Inclusive já encontrei vários amigos por aqui (até mais do que no Orkut) e fui muito bem recebido e acolhido. Não se preocupem, quando vocês vierem para cá, vão se enturmar rapidinho. Já aviso que poucos passam na peneira do purgatório. É, e não demorem muito, estou aqui no inferno esperando por todos vocês... todos mesmo.

 

Nelson Botter Junior escreve aqui às terças. Visite seu blog.   

Escrito por Blônicas às 11h09
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- Amores sujos

De Xico Sá.

 

“A mulher amada/ quando mija/ é só refresquinho/ de graviola” Marcelo Mário de Melo, poeta do Recife 

 

...tudo é lindo na mulher amada, melhor ainda os cheiros fortes, fedores e sujeirinhas da mulher amada, o suorzinho das axilas da mulher amada, quase uma bucetinha a mais as axilas da mulher amada, meu deus, lá está a danada, sob o solzão veranico se derrete a mulher amada, gosto de apreciar a merdinha bem esculpida da mulher amada, tão minha e tão íntima, o suorzinho de todas as juntas e dobradiças, ali debaixo do joelho, eu quero,  e quando a perna dobra, o salzinho sobre ozolhos quando a gente beija, o pescocinho suado, lindamente grudento,  por favor, amigos do comércio, não vendam desodorantes à mulher amada, não vendam condicionados, não refresquem a costela amada, tudo é perfume  francês na mulher amada, o mijo é licorzinho dos deuses, sob o céu que nos protege, golden shower que traz bonança, sustança, chega meu rosto sertões-vereda refloresce, os pássaros cantam na caixa torácica, derrama, derrama, derrama, amor da porra a descer pela perna esquerda, da mulher amada, lambuzamentos que encobrem as feridas doutrora, tudo lindo a escorrer, tsunami da porra, farejo todos os cheiros da danada, o olho do cuzinho, velho bataille, é lirismo só, rapaz, exala o sentido da vida e mais um pouco, resume o mundo, guarda os segredos dela inteira, mulher é metonímia, cada partezinha uma giganta, ali, sim, no cuzinho, again, está o silêncio mais lindo da mulher amada, donde tudo é lindo, tudo é sorte, tudo delírio, o cuzinho em flor da mulher amada, coxas, o pezinho sujo nas havaianas, poeira das ruas, marcas, cerimônia do lava-pés da mulher amada, lambendo os dedinhos, descoberta dos segredos dos seus passos, direito de ir e vir entre seus rins, como na canção, assim assim como na vida, agora o cheiro da foda por toda a casa, a atrair os pássaros lá de fora, que encontram os pássaros da caixa torácica, que, como a capa da música do Rei, assistem a tudo e não dizem nada, tudo é lindo e belamente dramático na foda, mecânica da carne que se enrosca, o pau come até a alma, paudurescência ad infinitum, o amor é mesmo o viagra do espírito.

 

Xico Sá escreve aqui no Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h53
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14/02/2005 - Outro mundo é impossível

De Castelo.

 

Pontualmente às 13 horas, do dia 13 de janeiro, no estádio Mané Guarrincha, teve lugar o Primeiro Encontro da Associação Brasileira de Angustiados, Deprimidos, Desanimados e Niilistas (ABADN), seção Brasília.

Tomou a palavra, o senhor presidente.

Respirou fundamente e tentou dizer algo. Mas, segundo ele mesmo relatou, “uma nuvem negra nublou-me os olhos e uma opressão no peito impediu-me de comunicar qualquer frase conexa àquela gigantesca platéia”.

Em seguida, a senhora vice-presidente apanhou o microfone das mãos de seu superior hierárquico e, tomando ar, disse:

 

- Hã...

 

Após o breve vagido, sucumbiu num choro descontrolado tendo de ser medicada ali mesmo com uma injeção de Prozac na veia.

O secretário-geral da ABADN, bastante compungido e com poucas esperanças de que o evento pudesse ter lugar naquela data, num esforço hercúleo conseguiu sair de sua prostração e pregar no palco o cartaz-tema do “meeting”: “outro mundo é impossível”.

Como os painéis de debates não se iniciavam (“A luta para que o mundo acabe em barranco continua”; “Não adianta: nunca ninguém vai respeitar os pobres”), os milhares de associados começaram a se angustiar.

Um grupo de deprimidos capixaba passou a se autoflagelar com os grampos do bloco de programação do Encontro. Enquanto isso, não longe dali, a seção piauiense inteira desmaiava de inanição e desânimo. Nas arquibancadas, os deprimidos paulistas suspiravam em uníssono.

Com suores frios e taquicardia, o presidente da ABADN tentava, de alguma maneira, controlar a situação. Mas toda vez que saía do escuro do vestiário tinha  crises de labirintite e precisava voltar para dentro novamente.

A vice-presidente já deixara o Estádio: síndrome do pânico.

Algo precisava ser feito imediatamente. Mesmo com a farta distribuição de comprimidos de lítio e Red Bull, o astral não se elevava a um mínimo necessário para que algo acontecesse.

Num fio de voz o presidente ordenou a seu secretário-geral:

 

- Joguem o show da Ivete Sangalo, em 45 rotações, no telão agora!

- Mas o senhor não está ouvindo, já está no telão!

- E ninguém está se mexendo?

- Nada - respondeu o secretário, olhando para o centro do campo – nenhuma rebolada sequer, senhor presidente...

 

Era o fim.

Bem nessa hora ouviu-se o ruído do helicóptero do presidente da República. Chegava com atraso, mais ainda em tempo de prestigiar a nova agremiação e seu público.

Acompanhado de forte esquema de segurança, o primeiro mandatário passou no meio da multidão, logo chegando ao tablado. Colocou na cabeça o boné cinza da ABADN, pegou o microfone e saudou a todos.

Ninguém teve ânimo para vaiar.

 

Castelo é cronista especialmente convidado no Blônicas e aparece de surpresa.  

Escrito por Blônicas às 11h48
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- O legado do Homem-Tatu

De Ailin Aleixo.

 

O mundo seria um lugar mais feliz se os homens só adquirissem o direito de ter pau depois de aprender todas as possibilidades eróticas da língua e dos dedos.

Essa não é uma crítica ao falo. De forma alguma. Ele é útil, a gente usa e gosta. Bastante. É realmente envaidecedor vê-lo reagindo aos nossos estímulos e se transformando de tímido e assustado em suntuoso e implacável. Aliás, só uma coisa dá mais tesão numa mulher do que causar tesão: ser excitada. E aqui entram a língua e os dedos. Literalmente.

Esqueça o  priapo por uns instantes. Acredite se quiser, mas não somos uma seqüência de buracos dispostos ao seu bel-prazer (eles também servem ao nosso). E é exatamente assim, bonecas infláveis, que nos sentimos quando tratadas feito pizza fria: comida às pressas. Temos pele, cabelos, pernas, braços, virilha, uma série infindável de territórios pouquíssimo explorados pela maioria dos machos e, vou te contar, é uma delícia sentir a mão de um homem passando por nossas coxas, ultrapassando a barreira do elástico do sutiã, puxando de leve o cabelo perto do pescoço. E é aí que nos sentimos vistas, exploradas, únicas.

E então nos invade a vontade incontrolável de virarmos a mais competente das devassas, utilizarmos sabiamente sua ereção e fazê-los (e a nós também) gozar feito loucos. O melhor círculo vicioso do universo.

Depois de vislumbrar a miríade de possibilidades que o encontro de dois corpos (inteiros) nos reserva, beira o impossível compreender qual o raciocínio tortuoso que leva um homem a resumir o sexo ao bate-estaca. Não tiro o mérito da penetração porque, serei justa, é um momento crucial. Se sexo fosse cardápio, meu pedido seria o combo número 1: língua + dedos + falo. A ausência de qualquer um dos itens causa a mesma sensação de ir ao Mc Donal's e não pedir refrigerante e batata frita: parece que nem estivemos lá. Ser penetrada é gostoso, íntimo, invasor, impactante. Mas, se isso fosse suficiente pra satisfazer as mulheres, os homens teriam, há milênios, sido substituídos pelos pepinos.

Machos estão pouco se importando com o orgasmo feminino? Se somos assim tão independentes, a gente que se resolva? Se gostamos tanto de dedo e língua, por que não viramos lésbicas? Ora, ora, que imaturo dizer essas besteiras. Amigo, se você transa com a única intenção de botar pra dentro, sugiro que desista dessa coisa chata, repetitiva e reclamona chamada mulher e entregue-se sem culpa ao reino vegetal: bananeiras e mamão morno são ótimas opções - macios, molhadinhos, não conversam depois de transar, não pedem pra ficar abraçados nem questionam seus sentimentos por eles. Fácil e econômico.

A verdade é uma só: homem que não curte preliminares não gosta de mulher, gosta de buraco. Sendo assim, que tal um tórrido momento a dois com uma estonteante mesa de sinuca?

 

Ailin Aleixo escreve por aqui aos domingos. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 09h04
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12/02/2005 - Teoria da simulação de danças (Parte 2)

De Evandro Daolio.

 

Brincadeiras à parte, mulheres, acreditem: nós nunca vamos a lugar nenhum somente para dançar. Talvez o único lugar em que não vamos atrás de mulher seja o estádio de futebol (por enquanto). Entenda melhor através de nossos diálogos. Quando um homem pergunta para o outro: "E aí?! Como é que estava lá ontem?"

O diálogo seguirá sempre uma das alternativas abaixo:

 

Alternativa 1:

— Estava ótimo! Você precisava ver a quantidade de gostosas que tinha! Você ficaria louco. Cara, tinha muita mulher! Nem espalha para ninguém...

— Ah é!? Onde fica? Por que não fui meu Deus do céu?!

 

Alternativa 2:

Ainda bem que você não foi. Estava um lixo. Você precisava ver a quantidade de homens que tinha. Parecia o inferno...

— Humm... Bom, ainda bem que não fui! O Sandro me falou de um outro lugar que só dá mulherada. Quer ir comigo lá amanhã?

 

Observe, antes de mais nada, que a pergunta não era sobre mulher, mas já estava no subconsciente dos dois. Tenho amigos que brincam dizendo que o local pode ter apenas uma sala com teto, paredes e chão pintados de preto, um sofá e uma vitrola tocando qualquer lixo, que se tiver bastante mulher, a noite será ótima. E para nós, isso é a mais pura verdade. Nunca reparamos na decoração, na cor das paredes, na música ou em outras banalidades. No máximo, nos incomodamos com o preço.

 

Usamos táticas também. Aguardamos sempre um pouco na porta para vermos quem entra na casa. Por isso você encontra na porta de bares e discotecas multidões de homens simulando que está faltando algum amigo para chegar. Se entrar mulher, ótimo; do contrário, só entramos se for algum tipo de comemoração, despedida ou aniversário de um amigo. Você dificilmente vê mulheres paradas na porta. Quando elas marcam para ir em algum lugar, normalmente chegam e entram direto. Nós ficamos na porta para ter certeza de que escolhemos o lugar certo, independentemente de o Papa, a Xuxa, o presidente e o Ayrton Senna ressuscitado estarem lá dentro nos esperando para conversar. Agora sim, mulheres, vocês estão mais espertas e sabem do nosso segredo. Quando olharem um cara paquerando-as em uma danceteria e ele estiver balançando a cabeça e o corpo feito bobo, saibam que não é por causa da música e sim por causa de vocês. Quanto mais ele estiver balançando, mais pode ser que esteja interessado. O ritmo pouco importa. Se vocês ainda tiverem dúvidas sobre isso, perguntem para ele o seguinte: "Você vai ficar aí dançando ou gostaria de sair comigo para um local mais calmo?"

 

Tente adivinhar o que ele responderá se não for bailarino ou daqueles caras suspeitos que agacham e levantam no meio de uma música... Acredite... É a pura verdade.

Evandro Daolio escreve no Blônicas todos os sábados e deve estar simulando uma dança em algum canto do globo neste momento.

Escrito por Blônicas às 09h00
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- Os segredos do cofrinho

De Lusa Silvestre.

 

É naquela região meio-termo - onde ainda não é bem a bunda, mas já deixou de ser costas - que fica o rêgo. Também conhecido como cóccix, osso-do-pai-joão, sobre-cu ou mesmo o popular cofrinho. É o pedaço de bunda que, sem querer, o usuário coloca em domínio público, visível. Cofrinho, sem estar exposto, não é cofrinho; é somente a periferia de uma bunda, escondida dentro da calça.


Há dois tipos de de cofrinho: o cofrinho do bem e o cofrinho do mal. Começando pelo cofrinho do mal, o cofrinho masculino. Não tem nada de sexy; é somente um pedaço vergonhoso do bumbum peludo e normalmente suado. Não conheço uma moça em toda história do xaveco - e lá se vão milênios - que tenha se interessado por um homem por ter-lhe visto o cofrinho. Não imagino duas amigas uma cotovelando a outra e apontando um cofrinho desastrado. Descontenta mulheres e homens. Uma vez deixei de comer num restaurante porque tive a oportunidade de conhecer o cozinheiro antes, e ele ao abaixar pra pegar um pedaço de papel no chão, mostrou o cofrinho pra mim. O quê ? vou comer num lugar cujo cozinheiro é adepto do cofrinismo ? Cofrinho masculino é que nem o air bag do carro: ele está ali, mas você não precisa saber que ele existe. Pior que cofrinho masculino só mesmo o fio dental masculino, que não só revela o rêgo como também as bundas, os pelos indecentes e até as marcas de furúnculo.

Normalmente, os cofrinhos femininos são cofrinhos do bem. Dividem-se em dois: os cofrinhos sexy e os cofrinhos de americana. Sexy, fácil: a moça tem atrativos, não necessariamente estéticos. Porque calha às vezes da moça ser meio balofinha, mas é tão interessante, tão divertida, tão inteligente, que vale a pena conferir a qualidade do cofrinho. Se for bonita, melhor: o cofrinho é revelador, como a barriga cheia de penugem lourinha. Incita a imaginação. Se tiver uma tatuagem de tribal por ali, cuidado. Rêgo com tatuagem de tribal é um rêgo datado e duvidoso; começou sua carreira artística numa época que se fazia tatuagem assim. O rêgo tem que ser atemporal, eterno, sem sazonalidade.


Tem outro cofrinho do bem: o cofrinho da mulher estado-unidense. Normalmente a gente aqui do Brasil - graças a Deus - tem contato com esta modalidade via email de amigo. São poucos os brasileiros vivos que viram um cofrinho desses ao vivo e estão dispostos a comentar; é uma experiência muito traumatizante. São aqueles restos de bunda que aparecem quando a gordinha americana senta-se no fast food pra comer. Ela senta, é plá: o cofrinho surge, feito a falha de San Andreas, na Califórnia. O resultado é parecido: terremotos, dor, destruição, cada um correndo pra um canto. E, pior: o cofrinho de americana aparece sempre associado a uma desastrada calcinha vermelha entuchada. Mas, mesmo assim, o cofrinho de americana serve a um propósito do bem: diversão. Não tem como segurar o riso diante de um semi-fioco gringo.

Cofrinho é  uma invasão de intimidade, um troço comprometedor. Muitas vezes é preferível a nudez completa que só o mero vislumbre do resto de bunda. Gente de bem avisa do cofrinho alheio. Daí, vem a dúvida:  deve-se avisar o outro ? Cofrinho é como alface no dente: tem gente que sempre avisa. É questão de cunho pessoal. Eu, Lusa, tanto faz o tipo de cofrinho, eu aviso. Aviso os outros, para que todo mundo possa compartilhar. Faço mal ? É ruim ser assim, trabalhar pelo bem do grupo ?

 

Lusa Silvestre é cronista especialmente convidado e não mostra o cofrinho no Blônicas.   

Escrito por Blônicas às 12h05
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11/02/2005 - O ódio de quem ama a gente

De Henrique Szklo.

 

Dia desses recebi um e-mail de uma amiga querida dizendo que me odiava. Achei que era brincadeira e resolvi telefonar pra ela e saber o que estava acontecendo. E, de fato, ela estava me odiando. Com todas as suas forças. Estava nervosa, dava pra sentir sua pressão arterial explodindo do outro lado da linha. Ela espumava. Babava no telefone. Eu não podia ver, mas sentia seus olhos faiscando, emitindo uma energia nada positiva em direção à imagem mental que ela tinha de mim. Tive a sensação de que tamanha hidrofobia deve ter feito a ligação custar bem mais caro do que o normal. Afinal, as ondas de rádio do meu celular encontraram imensa dificuldade em penetrar naquela verdadeira bomba atômica de ódios incontroláveis.

 

Mas o que será que eu fiz? – foi a primeira pergunta que me veio à cabeça. Uma pessoa tão querida, que eu sempre penso com ternura e que inclusive é parte importante de meu repertório de conversas e pensamentos... onde foi que eu errei? (Resposta na crônica de 21/01).

 

Eis a história: fui convidado por um amigo para participar de um projeto que incluía a participação de outras pessoas.  Mas como eu sou um eremita vocacional, incrustado em minha casa, escrevendo solitariamente e abarrotado de trabalho, acabei não convidando ninguém para participar deste projeto com a gente. O amigo que me convidou ficou responsável por recrutar ou aliciar (como queiram) os outros participantes e cuidar da parte operacional. Quer dizer: ele faria tudo. Eu só entrei com o “sim”. Não era também nenhuma descoberta da pólvora. Um projeto interessante, simpático, mas sem grandes pretensões ou expectativas.

 

Minha amiga raivosa, quando soube do tal projeto, se sentiu a última pessoa do mundo porque eu não a convidei para participar. Ficamos horas ao telefone até que ela se acalmasse. Ela não aceitava o fato de eu não pensar automaticamente nela quando diante de um projeto daqueles. Sutilmente, jogou na minha cara que tinha me ajudado em outras ocasiões e que portanto eu tinha obrigação moral de lembrar de seu nome. Sempre. Quer dizer, acho que não foi sutilmente, ela disse isso na lata mesmo. E mais: informações desencontradas deram a ela a impressão de que eu era um dos cabeças do projeto, o que aprofundou ainda mais a sua fúria desenfreada.

 

Entendi o ponto de vista da minha amiga zangada, mas a fiz entender que sua reação era absolutamente desproporcional à gravidade da situação. Ela não precisava daquele projeto. Seu trabalho pessoal é muito maior que ele. Eu não estava escondendo o leite dos meus amigos com intenção egoísta de sobrepujá-los profissionalmente. Cheguei até a oferecer o meu lugar para ela. Mas ela não aceitou. Disse que o problema era eu não ter lembrado dela, que eu jamais poderia ter cometido tamanha injustiça.

 

Achei graça da situação. Primeiro, em função da já mencionada desproporcionalidade. Depois por sentir que minha amiga destemperada na verdade estava me dando uma prova incontestável de que me ama profundamente e que a simples idéia de eu não pensar nela desencadeou essa tsunami emocional absolutamente devastadora. Amor nos tempos da cólera. Passou pela minha cabeça, rapidamente, a idéia de que eu deveria ter ficado ressentido com a situação. A insinuação de egoísmo e ingratidão, a cobrança exacerbada, a acusação implícita de falta de caráter, etc. Lembrei, inclusive, que ela, antes de me conhecer, havia dito cobras e lagartos sobre mim e meu trabalho num site de grande visitação. Mas eu preferi relevar tudo isso e ficar mesmo com o amor. Mesmo que incontido e desembestado. Preferi ver o lado positivo deste sentimento que de tão profundo, se tornou desgovernado. E acho que fiz uma boa escolha. Até porque, a despeito de tamanha crise, somos amigos recentíssimos. Temos muitas afinidades e nos tratamos com respeito e carinho, porém só nos vimos pessoalmente uma vez na vida. Mas isso não importa. Agora sei que nos amamos. E o amor supera qualquer barreira. Ah, o amor...

 

Henrique Szklo escreve aqui às sextas-feiras, é um amor de pessoa e dá um workshop de redação criativa chamado Oficina do Diabo

Escrito por Blônicas às 11h56
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- A velha que não queria sambar

De Edson Aran.

 

Dona Lucíola tem 104 anos. Mora no morro da Mangueira mas nunca frequentou muvuca na quadra da escola. Mesmo assim, coitada, foi enfiada numa cadeira de rodas e arrastada para a Marquês de Sapucaí. Disse que foi insistência dos netos. Até imagino a cena.

 

“Vamos lá, vovó, você precisa mostrar que a Mangueira tem tradição!”, diz o primeiro neto.

“Não vou! Não vou! Eu detesto carnaval!”

“Vamos, vovó, você vai gostar!”, assegura o segundo.

“Faz 104 anos que eu não gosto, por que vou gostar agora?”

“Porra, vovó, a senhora vai aparecer na televisão...”, reforça o primeiro.

“Com aquele monte de vagabunda pelada? Não vou!”

Um neto olha pro outro e deixa a idéia no ar:

“E se a gente amarrasse essa velha chata na cadeira de rodas?”

 

E assim saiu dona Lucíola, de cara amarrada, com a obrigação de ser feliz na marra. Legal foi ouvir os comentaristas da Globo: “São 104 anos de dedicação ao samba! É toda uma vida ligada ao carnaval. Quando dona Lucíola mudou pro morro da Mangueira, o lugar ainda nem era um morro. Foi ela quem começou a carregar terra pra fazer um montinho. O montinho virou um morrinho e, hoje, é o morro da Estação Primeira de Mangueira! Que beleza!”

 

Aí entra o Sérgio Cabral - ou será a Leci Brandão? – e manda essa: “O genial Cartola foi vizinho de dona Lucíola. Toda vez que organizava um pagode, Cartola comentava: ‘Caraio, lá vem aquela véia fedaputa mandar parar o samba outra vez!”

 

“Globo e você, tudo a ver!”  

 

E lá vai dona Lucíola, com algodão no ouvido para não escutar a barulheira, rebocada pela Marquês de Sapucaí. Leva uma boneca na mão para dar mais assunto ao comentarista da Globo. A boneca tem 615 anos. É feita de porcelana. Pertenceu a uma princesa russa. Qualquer coisa assim. Tanto faz. Ninguém vai checar mesmo.

 

Dona Lucíola, a velha que foi obrigada a ser feliz, vem se juntar às figuras típicas e tradicionais do nosso carnaval: o crioulo que solta sangue pelo nariz em cima do bumbo, a bicha vestida de Ascensão e Queda da Babilônia Misteriosa que bate em fio de alta tensão e se esborracha no chão e a modelo-manequim-atriz que deixa cair o tapa-sexo e é obrigada a acenar com uma mão só. Seja bem vinda, dona Lucíola.

 

Edson Aran é cronistas especialmente convidado. Visite seu site.       

Escrito por Blônicas às 12h28
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10/02/2005 - Chico no carnaval é sacanagem

De Gisela Rao.

 

Deus é um cara legal. Gosto dele. O cara foi capaz de me dar uma semana com tudo pago em New Orleans com direito a acompanhante. Hotel pago. Aliás, um tesão de hotel estilo francês. Avião pago. Rango pago. Aliás, comida de primeira, ardida como eu. Birita paga. Ganhei tudo num prêmio sei lá porquê. Agora, o que Deus tem de legal, Murphy tem de sacana. Tinha que ter descido o Chico no carnaval, bem no meio da folia, dos lençóis chiques do hotel no French Quarter. Tem homem que não liga de dar uma de Moisés no Mar Vermelho, mas a gente sempre liga. É chato, é estranho, é psicodélico. Não sei quanto a você, mas eu, quando bebo, viro uma tarada de mão cheia, doida pra cabritar com meu namorado. E New Orleans ainda tem o diabo de um drink chamado Hurricane, então você imagina o estrago e a tara que dá. E, fora o furacão alcoólico, ainda tem o mulherio mostrando as peitolas toda vez que alguém joga um colar de miçangas, no carnaval de Mardi Gras. Americanada doida de morrer. Mas que dá tesão dá. Sou hetero, mas dá tesão do mesmo jeito. Mas e aí, como fica? Como fica com a história do chico?

 

- Tô louco pra te comer.

 

- Não dá!

 

- Por que não dá?

 

- Porque tô no vermelho!

 

- O Brasil inteiro tá no vermelho, amor.

 

- Tô de chico!

 

- Ah…

 

- Mas tô com tesão também.

 

- Então, dá o brioco, o asterisco…

 

- Murphy filho da puta…

 

Gisela Rao escreve aqui no Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h21
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- O sabonete

De Rosana Hermann.

 

Nove entre dez pessoas que entram no banho usam o sabonete que estiver no chuveiro, não importanto a cor, credo, raça, perfume ou procedência do mesmo, o que parece ser um bom começo para a construção de um mundo mais justo, democrático e livre de preconceitos ou, pelo menos, pobre mas limpinho.

 

Embora a maioria dos usuários acredite que os sabonetes brotem nas saboneteiras por geração espontânea, todos eles foram comprados, desembalados e colocados lá, um a um, para uso de todos os freqüentadores do banho-box, por algum membro da família, em geral, a mulher. O marketing do banho de espuma das estrelas de cinema  é tão eficaz que até hoje existem mulheres que acreditam que um dia um influente produtor de Hollywood vá aparecer no banheiro, entre a privada e o bidê e levá-las para o estrelato. Alguns levam, mas é só para mostrar o que a Maria Chiquinha estava fazendo atrás da horta.

 

O sabonete mereceria mais atenção da mídia em geral, já que trata-se do produto mais coletivo do ambiente doméstico. Nenhum outro item da casa freqüenta tantas reentrâncias íntimas da coletividade como o sabonete que só não é estigmatizado como promíscuo justamente por ter uma conduta impoluta.


Hoje em dia, além da grande variedade de marcas, cores, sabores e formatos, dos geométricos aos freudianos, existem lojas especializadas em sabonetes e afins, lojas essas que não necessitam de divulgação do endereço pois é só você entrar num shopping e cheirar seu caminho até lá, no sentido lato e não maradoniano da coisa, evidentemente.

 

Há sabonetes sensíveis, que desmancham na água, que viram mingau, que tentam o suicídio jogando-se no ralo. Há sabonetes ideológicos, duros e rígidos, de extrema direita, que não se rendem à sedução do banho, assim como também existem aqueles que são rejeitados pela família, que acabam ficando ali, na saboneteira, para sempre, secando e rachando como a esquerda no Brasil.

 

E, para encerrar esta crônica de higiene pessoal, um último conselho: não importa qual seja seu sabonete preferido, compre-o. Mesmo que seja caro, raro, estranho, renda-se a este capricho. Tenha o seu próprio sabonete, aquele que tem sua cara, seu cheiro, sua textura. Este pequeno mimo, um companheiro diário de seu momento mais íntimo e solitário, talvez seja o últimos dos prazeres acessíveis, o bálsamo aromático que vai fazer você feliz, do começo ao fim, de fio a pavio, de cabo, a rabo.

 

Sabonete já.

          

Rosana Hermann escreve aqui todas as quartas uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h53
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09/02/2005 - Lances

De Leo Jaime.

 

A semana foi passando, os contratempos todos pontuais, os compromissos cumpridos e finalmente sexta de carnaval. Meus planos? Ficar em casa vendo TV. DVDs, pra ser mais exato. Acabei de ver um filme e vou ver outro agora mesmo. Esse mês acho que vou bater o recorde de tempo solitário. Por uma ou por outra acabo sempre ficando a maior parte do tempo comigo mesmo. Tem sido bom. Tem sido chato. Normal. Acho que eu deveria estar escrevendo. As músicas estão pedindo para serem escritas e os textos passeiam pela cabeça e, como agora, de vez em quando coincide de eu ter como anotar.

 

O problema de escrever é sempre um: começar. Esse texto, por exemplo, poderia ter começado com uma cena peculiar que presenciei. Mas era uma cena e talvez não rendesse tanto, se fosse o assunto principal. Deixo para que você avalie. E assim mudo o parágrafo, para dar uma chance ao provável início.

 

Passava de carro pela cidade em dia de festa. A cidade em festa era o cenário perfeito para o novo mendigo. Sim, mendigos têm data marcada, hora exata, para começar sua trajetória de mendigo. Esse, que vi do carro, na cidade em festa, era um raríssimo mendigo em flor, se é que dá pra florescer na mendicância. Perdão. Parece brincadeira de mau-gosto. Era um mendigo de dias. Sim, o homem perde as estribeiras e fica na rua, tomado pelas alucinações da bebida, e não voltando mais para casa a roupa começa a sujar, o corpo, a cara incha, o cabelo desgrenha e aos poucos ele vai tomando aquele tom cinza chumbo que dá um ar de estátua, e até uma sórdida nobreza, a todos os mendigos. Esse devia estar na rua há, no máximo, coisa de dois dias. Era um mendigo peculiar, um mendigo de poucos trajes, um mendigo de verão. Sim, o que marca a estranha elegância dos mendigos é a criativa superposição de peças, mas esse tinha um calção florido e era tudo o que ele vestia. Estava sujo. O calção tinha sujeira em todas as flores. E ele devia estar dormindo na praia. O verão e o litoral são gentis com os mendigos. Esse foi o meu primeiro mendigo iniciante. Desde criança eu indagava e dava tratos à bola imaginando como é que alguém virava mendigo. E nunca tinha visto um recém assumido, por assim dizer. Acho que alguns têm um mendigo na alma. Alma de mendigo. Eu tenho. E isso é o que me fixa o olhar nos mendigos que cruzo no caminho. Sei que o mendigo é mais vítima da dor do que da pobreza. Abandono e desamor. Ser mendigo é quando a dor faz esquina com a loucura.

 

Eu no carro e o mendigo na esquina. E na beirada da calçada, sob o olhar do meu protagonista, uma macumba. Ele olhava cambaleante, olhar fixo, e dava para ver os pensamentos passando diante dos seus olhos. A vela acesa, a garrafa de cachaça aberta, um charuto, alguma coisa num prato com um guardanapo cobrindo. Pra dizer a verdade era uma macumba mixuruca. Devia ser daquela pra fazer o homem voltar em 3 dias, que a gente vê em anúncios distribuídos em papeletas, flyers, nas principais avenidas. Macumba de gente pobre. Ou não. A cidade de veraneio era das freqüentadas por gente fina e naquele dia tinha uma festa milionária, a maior festa do estado, mais de 50 mil pagantes. Pois era esse o cenário em volta do dilema. E o carro ficou parado um longo instante, engarrafamento por causa da festa, e nesse longo instante a mente e o corpo do mendigo surfista oscilavam entre suas possibilidades. A vida estava ruim, o quanto podia, afinal ele ia assumindo as formas, cores e poses de um mendigo, talvez o único naquela freguesia, o que lhe conferia ainda mais distinção. E aquela pinga de macumba? Pioraria o que já não ia bem? Será que dava pra piorar? Sim, uma dor de dentes poria a ressaca no chinelo! Será que ele pensava em dor de dentes? Será que alguém com a cara inchada de cachaça tem dor de dentes? Esquece a dor de dentes, o problema dele era existencial. Ele estava diante de um limite. O último traço de dignidade estava por ruir. Já tinha colhido restos no lixo do restaurante, evidente, e agora estava diante da cachaça gratuita e perigosa. A cachaça de significados e agouros. De possibilidades sombrias. Seu rosto espelhava as trevas que ele imaginava no fundo daquela garrafa.

 

Com um ar decidido, sem titubear, lançou mão da garrafa e levou-a à boca para um gole demorado e farto. Enxugou a boca com as costas da mão e tomou fôlego para, dessa vez, ir até a metade da garrafa. Em seu semblante a certeza e um certo ar altivo de herói de tragédia. Era clara a sua avaliação: para ele já não havia deuses. Também não deveria mais haver demônios. E, bolas, era dia de festa.

 

E assim acabaria a minha narrativa. Mas, sendo uma cena de minuto ou pouco mais, será que daria uma estória? Os dias passam e nada fica escrito. Há algo de errado nisso.

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quartas-feiras. Visite seu blog.        

Escrito por Blônicas às 12h48
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- Eu não gosto de carnaval!!!
De Nelson Botter Junior.

É, eu não gosto de carnaval. Chego a odiar. Meu corpo todo se arrepia só de ouvir a palavra. Pior que carnaval, só mastigar papel alumínio com a boca cheia de obturações de amálgama. Antes, calma lá, explico a situação: gosto de samba, não sou do tipo que despreza a cultura nacional, adoro festas, sou a favor da alegria geral, não sou nenhum puritano e muito menos desprezo uma boa sacanagem. Longe disso! Sabe, talvez eu já tenha gostado de carnaval, mas cansei. É tudo muito igual, ano após ano.

Antigamente eu até freqüentava a coisa, entrava na brincadeira, com olhos atentos em busca de uma bela comissão de frente e porta-bandeiras. Eu, de mestre-sala, me enfiava em bailes e até carnavais de rua, simulando a dança, como diz nosso amigo Evandro Daolio, apenas armando o bote. Hoje eu quero é mais, corro de confetes e serpentina, salão abarrotado, com gente suando álcool, pulando com os indicadores para cima, cantando “Se você fosse sincera, ooooh, Aurora”. Ah, fala sério!

Chato de galochas? Pode ser, mas é que não entendo, parece que se decreta uma nova lei: a do liberou geral. Já teve estrangeiro me perguntando como era andar pelado nas ruas, sambando e traçando a mulherada, na frente de todos, com camisinhas distribuídas gratuitamente pelo governo. Sim, se faz a maior propaganda pelo mundo que o controle da AIDS no carnaval brasileiro é rigoroso e eficiente. Viva o país dos pervertidos! Baseado nisso, tome cuidado ao sair na rua, você comerá alguém ou será comido!

E o que dizer do festival de “celebridades” peladas? Ficam lá, com um sorriso de cera, mostrando suas novas tetas turbinadas, sambando igual uma dinamarquesa, com a flacidez e as estrias disfarçadas pela maquiagem de purpurina (pois na avenida não tem Photoshop), todas brigando por uma câmera, um minuto de fama, um close com o sacana do pandeirista, coleiras com os nomes dos maridos queridos e traídos, e por aí vai.

Sou da turma do refúgio, prefiro os dias de carnaval para descansar. Eita, bendito feriado! Vamos fugir deste lugar, baby. O Brasil pára como se fosse dia de jogo da seleção na copa do mundo (aliás, o país só costuma funcionar depois do carnaval). Vou para o mato, me isolo, não quero escutar samba, não quero saber de “Mamãe eu quero”, pois já tenho onde mamar. Acho um porre ficar sentado na frente da TV, em plena madrugada, arrotando pipoca, vendo com palitinho nos olhos sei lá quantas escolas, uma atrás da outra, com sambas enredo que se repetem na fórmula, vendo os bailes de salão ou o carnaval de rua, trios elétricos num mar de gente, são iguais ao coelhinho da Duracell, não páram de pular um minuto sequer, muitos (nem todos) com sangue no álcool, trêbados, clientes VIP dos ambulatórios das cidades, glicose na veia é jóia camarada, chamando urubu de meu Louro José. Quero distância da “folia”. Prefiro descansar e recarregar as energias, isso sim é DEEEZ, NOTA DEEEZ!

Ah, não gosto mesmo de carnaval, tudo isso me estressa, preciso de sossego, silêncio, ninguém nas ruas. Quero paz! Acho que vou para Salvador nesse carnaval...

Nelson Botter Junior escreve no Blônicas todas as terças-feiras.
Escrito por Blônicas às 13h34
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05/02/2005 - Ex-u tranca rua: ex-mulher é dos infernos
De Ailin Aleixo.

Ex-mulher é igual micose: fácil de conseguir e difícil de ir embora. Ela também parece não ser de nada— não passa de uma coceirinha chata. Mas, bobeou , daqui uns tempos estará comendo o seu pé. O vão dos seus dedos ficarão em carne viva, seu cérebro começará a derreter e vazar pelas orelhas. Fique feliz se a sua for daquelas de dar barraco só porque você esqueceu de devolver a chupeta do júnior: é muito mais fácil lidar com inimigos declarados e descontrolados. O essencial é não se iludir com possíveis sorrisos ou voz meiga: ex-mulher é tudo vaca. É intrínseco a categoria. Da mesma forma que é inviável separar bigode de petista, é impossível ignorar a semelhança da ex com o demo. E não adianta rezar, ela só deixará de te infernizar quando você tiver cumprido seu carma. Ou seja, daqui dez encarnações. Eu sou ex e sei bem do que estou falando. Por isso, é melhor identificar o tipo que lhe é cabido e aprender a lidar. E, claro, jamais sucumbir a uma transadinha de recordação porque, daí, já é ser muito imbecil. Então, já sabe: escolha bem sua atual mulher porque ela pode virar ex. E daí sim vai ser pra sempre.

A PSEUDO-BOAZINHA
Incidência: duas em dez - Grau de periculosidade: 8 - Riscos à sua pessoa: Esvaziamento dos bolsos

Como age: Se é do tipinho que te deseja felicidade, não é por compaixão ou, tadinha, amor. Nenhuma mulher (exceto as elevadas) quer que o homem que usufruiu de seus aparatos sexuais e sentimentais fique saltitante com outra. Ou sem ela. A pseudo—boazinha é uma dissimulada que não mede esforços, nem tempo, para vê-lo de fuça na sarjeta. Ela fica sua amiguinha daí, quando você acha que as coisas não poderiam ser melhores, ela pede revisão do processo de divórcio, resolve incluir até os presentes de casamento na divisão de bens e, pra calcular a pensão, faz previsão da mensalidade da faculdade de medicina que seu filho, de um ano, vai cursar.

Como se defender: Não retribua sorrisos. Jamais aceite elogios. Diga que virou gay. Transfira o máximo possível dos seus bens para o nome do seu pai, sobrinho e cachorro.

A VAGABUNDA
Incidência: quatro em dez - Grau de periculosidade: 10 - Riscos à sua pessoa: virar tema de pagode

Como age: Ela nunca foi lá essas coisas: bunda nota cinco, uns peitinhos legais mas meio pequenos, e sempre com uns quatro quilos a mais. Daí, de repente, você a encontra e quase tem um enfarto: ela virou uma tremenda gostosa. De uma hora pra outra, essa mulher que vivia com dor de cabeça e sem se depilar, começa a querer, insistentemente, dar pra você. Mas pinta uma dúvida porque, afinal, você está saindo com uma garota legal e, no mais, já cansou de comer esse prato e sabe o gosto de cor e salteado—mas e a curiosidade pra comprovar se o tempero continua o mesmo?

Como agir: Sai dessa, mermão. Tudo o que ela quer é esmerdear sua vida e, pode apostar, assim que conseguir isso, vai sair dando pra todos os seus amigos, só pra te deixar com fama de corno. Corno de ex-mulher, o que é muito mais humilhante.

A ELEVADA
Incidência: meia em dez - Grau de periculosidade: menos dois - Riscos à sua pessoa: ver a ex virar o próxima Deepak Chopra

Como age: Essas pertecem ao 0,1% da população feminina que incorporaram o espírito santo e realmente desejam a felicidade do ex . A elevada já traz em si o motivo do casamento ter ido pro ralo: ela tá mais pra ser canonizada do que pra se vestir de Pantera e rastejar de quatro pelo quarto—não dá pra transar, muito menos ser casado, com a Irmã Dulce. Com essa aqui, você não precisa ter medo: a única coisa que essa criatura iluminada vai te desejar é harmonia, paz e outras coisas meigas que só pessoas desse tipo sabem o que significa.

Como se defender: Assoprando

A PSICOPATA
Incidência: dois em dez - Grau de periculosidade: onze - Riscos à sua pessoa: lacerações, perfurações e enxaqueca

Como age: Ela adora fazer aparições tão medonhas quanto as do Brinquedo Assassino. Liga no seu celular sábados à noite, domingos no almoço e em todos os momentos em que vc, certamente, está transando com alguém. Vai dar um jeito de conhecer a sua atual, ficar amiga dela, aquelas coisas. Na hora em que ela souber da existência da Vagabunda na sua vida (esse será o nome dela por muito tempo, e não adianta explicar que não é assim que se pronuncia Roberta), ela vai imaginá-lo enfiando a boca (e tudo o que pode ser enfiado) nos orifícios alheios e daí a vontade de fazer salame do seu membro ficará tão forte quanto maquiagem de velha em dia de casamento.

Como se defender: Pegar o cartão de um psiquiatra próximo, fazer aulas de kick boxing e direito. E jamais mostrar uma foto da roberta pra ela—ou qualquer coisa que torne mais fácil a ex armar uma emboscada pra vagabunda.

Ailin Aleixo escreve no Blônicas todos os domingos.
Escrito por Blônicas às 13h29
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05/02/2005 - Teoria da simulação de danças (Parte 1)
De Evandro Daolio.

Eu adoro essa teoria porque é uma das que mais causam indignação e surpresa nas mulheres. Mas, pelo contrário, é a mais óbvia para os homens. Ela baseia-se no fato de que todos os homens que você, mulher, observar dançando, com exceção de alguns poucos, na verdade, estão tentando enganá-la. O que eles estão fazendo, no fundo, no fundo, são simulações de dança. Nós simulamos porque vamos a uma discoteca (ou a outro local qualquer que exija dançar) por vários outros motivos. Como o que interessa para nós são as mulheres e não a música que está tocando ou mesmo o local, aprendemos, com a evolução através dos tempos, a tirar proveito desse horrível ato que nos obriga a ficar balançando a cabeça, os braços e as pernas, feito idiotas. Para não ficarmos parados dando bandeira ao lado de uma mulher interessante qualquer, utilizamos a dança para nos aproximar e ter uma justificativa plausível para estarmos o tempo todo ali, como um vaso ao lado dela e até aproveitando para esbarrar de vez em quando. Convidar alguém para dançar é tortuoso para nós. Simbolicamente seria como dizer:

— “Oi, eu queria conhecê-la porque adorei a sua aparência... mas na verdade a achei gostosa mesmo. Vamos conversar para ver se consigo beijá-la, apesar de não querer somente isso.”

Se já é difícil dançarmos, imagine quanto tem que valer a pena para convidarmos alguém para dançar? E o mico é tão grande que na primeira entrevista na TV que participei em minha vida, queria falar dos meus livros e o Jô Soares me pediu para eu simular danças, para meu desespero total (assista a palhaçada no site). Então somos obrigados a fingir que estamos gostando da música quando na verdade nem notamos direito o que está tocando. Atualmente, os casos de simulação de dança se alastram de forma desesperadora porque não existe mais a “hora de música lenta” nas discotecas. Antigamente, podíamos até mesmo dançar de verdade com as mulheres. Sabíamos que nossa hora do ataque chegaria de qualquer forma, para nos alegrar. Mas não é mais assim... Existem, é claro, algumas exceções, que podem chegar ao absurdo de 1% de homens que realmente saem para dançar, como por exemplo os bailarinos e afins, adoradores de DJs, os que já estão namorando e os casados – quando estão acompanhados. Uma coisa que nos ajuda bastante a disfarçar nosso ódio à dança é comprar bebida para termos como ficar imóveis em formato de vaso. Já reparou que é raro você encontrar algum de nós homens sem um copo na mão em uma festa? Agora você já sabe o porquê. Se alguém por acaso perguntar por que não queremos dançar, podemos responder que precisamos terminar a bebida. Às vezes, passamos a noite inteira com o copo na mão, mesmo quase vazio (para não termos que gastar mais ainda, à toa). Se aquela garota que queremos agarrar muito insistir em dançar, levamos nosso copo mesmo assim, para que possamos ficar tranqüilos, sem nos mexermos muito.

As danças atuais são de corpos separados, o que nos irrita profundamente. Somente nos forrós e derivados atuais das antigas lambadas da vida nos divertimos um pouco. Mesmo assim, as mulheres são capazes de nos deixar plantados feito idiotas se não soubermos dançar. Pegam o primeiro mané suado e dançarino que estiver na frente para sair rodando no salão. Não importa se ele só faz isso na vida ou que tenha um grupo de pagode e treine o dia inteiro em um porão a mesma música. Não importa se a amamos, se somos um astronauta, nem nada. Ela nos deixará lá plantado até a música acabar e ficará se esfregando com o mané. Para que isso não aconteça com você homem, sugiro, apesar da tortura, que aprenda a dançar. Ela pensará duas vezes antes de deixá-lo feito um vaso encostado na parede. O que há de interessante nisso tudo é que as mulheres, realmente, muitas vezes saem somente com a intenção de dançar. Como isso nunca acontece conosco, achamos difícil entender como é que nossa mulher sairá com as amigas só para dançar. Daí aquelas eternas brigas entre os casais. É dificílimo entendermos algo diferente do que somos por constituição genética.

Evandro Daolio volta aqui no próximo sábado com a segunda parte dessa revolucionária teoria.
Escrito por Blônicas às 10h56
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- Um lugar chamado Messenger

De Henrique Szklo.

 

O MSN Messenger é um espaço extraordinário. Digno de ser estudado por pessoas que não tem mais nada o que fazer como eu. E você. Vivo imaginando se tudo aquilo fosse real. Imagine só se o Messenger, na verdade, fosse uma sala. Um aposento onde você passa todos os dias. Um cômodo privê, onde encontram-se apenas amigos, camaradas, parceiros e pessoas que você permite que estejam ali. Não há estranhos, caras desconhecidas, desafetos, bicos. Se você não gostar de alguém, ou deixar de gostar, simplesmente impede sua entrada. Sem saia-justa, sem violência, nada. Basta apertar um botão. Melhor: seus amigos estão na sala, mas os amigos dos seus amigos não. Cada um tem sua própria sala. Enfim, um lugar perfeito. Uma espécie de maçonaria digital, uma confraria de amizade utópica, uma irmandade virtual, o paraíso da fraternidade computadorizada, uma assembléia de colegas USB, uma associação de amigos cibernéticos, uma sociedade de camaradas sem fio, uma congregação de... ah, chega! Enfim, um local onde você pode trocar informações, arquivos, vírus, pode jogar, conversar ou, simplesmente, jogar conversa fora. Para usar um trocadilho em inglês, a friendchip place. A despeito da proximidade e intimidade que você eventualmente tenha com seus contatos, às vezes não dá vontade de falar com eles ou vice-versa. Imagine-se entrando numa sala onde estão seus amigos e você os ignorando. Chega lá, senta na poltrona do lado e não lhes dirige um bom dia, um olá, um eae! Estranho, não? Todo dia, aquelas pessoas queridas se encontram na mesma bat-sala e muitas vezes ninguém se dispõem a dar o primeiro passo. Ninguém quer incomodar o outro. Afinal, são amigos. Às vezes até saem da sala de novo quando vêem alguém que não querem falar.

 

Felizmente, existe um jeito de dourar esta pílula. Diferente da vida real, é você quem decide quando e como mudar de status: ocupado, ausente, em horário de almoço, ao telefone, volto logo ou offline, situação na qual você fica confortavelmente invisível, apenas observando, como uma mosquinha wireless, o vai-e-vem de seus amigos queridos. Big brother. E nem fica vermelho. Quer dizer, fica sim.

 

O Messenger poupa as amizades. Você está com ódio dela e escreve “Te adoro, amor!” E ainda coloca um emoticon com um sorriso aberto, um coração ou qualquer outra falsidade lúdica. Você odeia aquele cara que escreve “naum”, “blz”, “aki”, “oie”, “kd vc” e você sempre responde com um sonoro “kkkkkkkk”, um “heheheheheh”, um contido “rs” ou um espalhafatoso “ahuahuahuahuahua”.

Veja que situação incômoda: você e seus amigos segurando plaquinhas onde está escrito seu status naquele momento. Na internet cada um põe o status que quiser e ninguém consegue saber se é verdade ou não, mas na sala seria bem diferente.

 

a) O sujeito não poderia usar o status OCUPADO se sua única ocupação fosse coçar o saco.

b) O gordo teria de ser sincero e deixar o dia inteiro o status EM HORÁRIO DE ALMOÇO.

c) Alguém em permanente viagem de ácido não teria moral para usar um VOLTO LOGO.

d) O pai que não quisesse teclar com seus filhos deveria ir embora ao invés de usar o AUSENTE.

e) A secretária praticando um caprichado felatio em seu chefinho querido, não poderia usar o AO TELEFONE, já que o certo seria lançar mão do ainda não-criado AO MICROFONE.

f) O idiota, sempre ele, usaria uma máscara de George Bush e o status de OFFLINE, crente que com este disfarce passaria despercebido.

 

O ideal mesmo é que toda a nossa vida social se transportasse de vez para o maravilhoso mundo virtual e nós não precisássemos mais fingir descaradamente, dissimular, mentir, quer dizer, faríamos tudo isso mas sem olhar nos olhos, sem contato físico, e viveríamos felizes para sempre, com aquele emoticon de sorriso escancarado. Isso sim seria uma vida boa. Vou acender umas velas e rezar para o Bill-Gates-Todo-Poderoso pra ver se ele nos ajuda e cria mais esta maravilhosa utopia. Alguém tem o e-mail dele?

 

Henrique Szklo escreve aqui às sextas-feiras e dá um workshop de redação criativa chamado Oficina do Diabo

Escrito por Blônicas às 11h04
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- O ataque dos vibradores

De Gisela Rao.

 

Cuidado, amigão: eles estão invadindo a sua praia! São branquelos, pontudos, fosforescentes, mas não falam “ET, Phone Home”.

 

Imagine você, chegando em casa com uma garrafa de vinho e um buquet de flores bem vermelhas. Você procura a sua mina na sala… e nada. Você procura a sua mina na cozinha… e nada. Aí, começa a ouvir uns gemidinhos de filme pornô, mas – ops! -  vocês não têm nenhum filme pornô em casa. Você sobe as escadas pro quarto com a boca seca, o estômago gelado e o sangue nos olhos. Ela está lá, toda linda e toda nua na cama, mas está sozinha. Como assim sozinha? Você desconfia e vai direto pro armário e fica cara-a-cara com o amante da sua mulher. Não, herói, o Ricardão já era, quem tá traçando a patroa é ele: o vibrador!

 

Você pira na batata e não sabe o que fazer, se bota o vinho no jarro e bebe as flores, se vai embora ou se enche o objeto comprido e esbranquiçado de porrada.

Você olha para ela com aquela cara de chifrudo pedindo explicação. A gata vira e diz tranqüila, enrolando o dedinho nos cachos do cabelo:

 

“Calma, amor, é só um vibrador… Ele não significa nada pra mim e, além do mais, nada substitui o seu Pininho”.

 

“Pininho”? Ainda por cima ela chamou o seu Tiranossauro Rex de “Pininho”? Danou-se. Você está moralmente aniquilado. A tecnologia japonesa invadiu a sua casa e só falta o desgraçado do objeto abraçar a mina após a transa, porque nos “5 sem tirar” ninguém é páreo pra ele.

 

Muita calma nessa hora,  nem tudo está perdido. Você tem outras vantagens sobre o “incansável”. Quem vai levar a gata pra passear? Por acaso você já viu alguma mulher abraçada com um vibrador no cinema? Ou comendo sushi com um? Quem seguraria os “hashis” dele? Ela? O garçom? O molequinho mala que vende flores?

 

Acho que o vibrador tá vendendo à rodo porque o mulherio está mesmo cada vez mais liberado e porque, pra tua sorte, elas pararam de jogar a responsabilidade do prazer delas nas suas mãos. As moças encontraram o mapa da mina, ou seja: estão se auto-conhecendo melhor. O que te resta fazer? Menáge à trois sem medo de ser feliz! Não esquente a cabeça e lembre-se: nada substitui um bom homem. Só dois!

 

Gisela Rao escreve aqui no Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h11
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03/02/2005 - Just (don't) do it

De Castelo.

 

Existe um preconceito muito forte em alguns setores da sociedade relacionado às pessoas viciadas em academia.

Nem todo malhador é limitado intelectualmente,  como se apregoa em certos meios pseudocultos.

Uma parte considerável não está ali apenas por vaidade. Nem por se achar o último Gatorade da geladeira.

Alguns até gostariam de experimentar uma vez na vida a leitura de um livro – mesmo que fosse “O Código da Vinci” -, assistir a um filme iraniano, entrar numa exposição de arte contemporânea senegalesa.

Mas andam tão viciados em endorfina que só conseguem ler rótulo de MegaMass, assistir a vídeos da maratona de Nova Iorque na ESPN e ir a exposições de fotos do último “Open de Bóia-Cross de Potirendaba”.

Justiça seja feita, essas pobres vítimas do “no pain, no gain” não passam de zumbis manipulados pelo marketing esportivo internacional.

De tanto ver tais seres pela vidraça de uma academia na Avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo, correndo e suando nos horários menos britânicos, decidi levantar uma bandeira.

Alguém precisa libertá-los das nefastas engrenagens das bicicletas ergométricas, dos “steppers”, dos Abtoner da vida.

Minha contribuição é singela e vem na forma de aconselhamento.

Se você malha sete dias por semana e tem vontade de abandonar essa vida, inicie imediatamente um programa muito simples. Confira.

 

Dia 1: Vá à academia, dê uma corridinha leve de meia hora na esteira e tente ler uma revista Caras durante o treino – mas nada de muito pesado, comece pela parte de receitas.

 

Dia 2: Suba numa bicicleta ergométrica e fique lendo a Veja – agora no noticiário Geral - sem pedalar.

 

Dia 3: Para compensar o esforço do segundo dia, corra o percurso equivalente à meia-maratona no Parque. À noite, tente ler trechos de “O Pequeno Príncipe”.

 

Dia 4:  No caminho da academia, pare numa padaria e peça um torresmo. Engula com a ajuda de um copo de água. Arremate com a leitura de um poema da última fase do Vinícius de Moraes.

 

Dia 5: Falte no treino e comece a estabelecer metas mais ambiciosas. Dirija-se até a porta de um cinema de arte, com um Le Monde Diplomatique debaixo do braço, e tente entrar. Se conseguir suportar o filme até o final, nem precisa ler o jornal.

 

Dia 6: Pegue um DVD de Sergei Eisenstein e assista andando de esteira em casa.

 

Dia 7: Parabéns, você chegou lá, campeão! Agora relaxe e fume um cigarro.

 

Castelo é cronista especialmente convidado. Visite seu castel-o-rama.

Escrito por Blônicas às 11h10
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- Homens, mulheres e cabelos

De Rosana Hermann.

 

O drama do homem com seu cabelo não é uma questão de tratamento mas de abandono. Todo homem adulto sofre edipianamente ao testemunhar a partida, fio a fio, do que um dia foi a cabeleira pela qual mamãe passou os dedos carinhosamente, antes de dar beijinho de boa noite e arrumar a mochilinha para a faculdade.

 

Este abandono definitivo, parcial ou integral, provoca reações adversas, que vão do desespero à vingança. No caso de desespero, ao perceber a irreversibilidade da calvície, há quem adote o implante homeopático, um método gradual de reconstituição do crime que evita que a careca fique com aquele aspecto de reflorestamento de eucaliptos. A vingança é mais radical, um raciocínio mais sado-maso-macho-quista. Se os cabelos se amotinaram com a intenção de partir, é melhor raspar o mal pela raiz, máquina zero. Assim, se alguém acusar o homem de ter ficado careca ele pode negar dizendo que ele é que decidiu assumir seu lado Roberto Justus demitindo um a um seus aprendizes incompetentes.

 

Com as mulheres a questão não é de abandono já que é raro uma mulher ficar careca. O problema da mulher com o cabelo é a relação. O cabelo feminino é um eterno insatisfeito, um ingrato traidor. Não se pode contar com ele. Por mais que a mulher se dedique, cuide, zele, ame e invista na relação, assim que surge a primeira oportunidade, ele volta para seu pior estado fundamental.

 

O cabelo feminino é uma criatura mimada, malcriada e birrenta. Quando ele quer, acorda de bom humor, trigueiro e sensual, exalando beleza e sedução. Quando o cabelo acorda com o shampoo de ovo virado, amassado como um capacete depois do atropelamento da moto, não tem água da pia, óleo da tia nem macumba do meio-dia que faça com que ele se comporte. Nesses dias de cabelo ruim, a mulher entra em fashion-depression. Sem poder contar com o cabelo como aliado, sem poder escondê-lo sob um chapéu, uma boina, um guarda-chuva ou uma barraca de camping com avancê, a mulher não consegue achar uma roupa pra vestir, joga-se na cama, chora, perde a hora e o emprego. O governo esconde mas parte do desemprego da mão de obra feminina nacional é causado por cabelos rebeldes.

 

Cuidar dos cabelos custa caro, demora, dá trabalho e dói. A pia de mármore onde os cabelos são lavados foram cuidadosamente desenvolvidas para destruir sua coluna de forma permanente, muito provavelmente uma parceria intencional entre o salão e o massagista do mesmo shopping. O processo de tintura gera desconforto, coceira e ardência no regaço, em geral, acompanhado de uma manicure com Ph.D em tortura em Abu Graib.  A pós-produção também não é nenhum pic nic, como na hora da escova. Pra quem não sabe, a escova é uma espécie de festa da Xuxa à temperatura do inferno pois além de todo estica e puxa, o secador turbinado no máximo torra as pontas da orelhas por aproximação dezenas e dezenas de vezes.

 

Em compensação, quando tudo termina e o cabelo sobrevive às escovas progressivas, japonesas e lusitanas, banhos de óleo de amêndoa, mamona, óleo diesel e extra virgem com pistache, depois de alisamentos, relaxamentos e chapinhas, o resultado é o mais alto clichê da baixa literatura: uma moldura para seu rosto. E assim, com a juba em dia e as garras envernizadas, a leoa sai pelas savanas urbanas pronta para seduzir os machos, sejam eles carecas ou cabeludos, pelados ou peludos, não importa: para haver sexo feliz e seguro, basta uma mulher com a cabeleira tratada, uma camisinha lubrificada e um homem que lhe abra a porta.

 

Rosana Hermann escreve aqui toda quarta uma crônica de quinta, até segunda ordem. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 11h39
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02/02/2005 - Vergonha

De Leo Jaime

 

No corredor do supermercado reparo em uma promoção na seção de papel-higiênico, leve oito e pague cinco, e pego logo dois pacotes. De repente me vejo com uma montanha indiscreta de papel-higiênico nas mãos e todos os olhos pregados em mim. Que situação! Papel, absorventes, camisinhas, são coisas que se compra com discrição, falando baixo, quando não tem ninguém olhando. E lá ia eu, resoluto e pimpão, merecendo a desaprovação alheia. Um sem-vergonha.

Revista de mulher pelada é a mesma coisa: todo mundo compra para ler a entrevista (juro, só comprei uma nos últimos anos e por trazer a entrevista de um amigo!) e ainda pede para o jornaleiro colocar no saco. Às vezes são mais de um milhão de exemplares vendidos na moita e malocados no fundo das gavetas e pastas. Que situação!!

Para as mulheres, então, é dificílimo comprar camisinhas. Dizem que quando pedem na farmácia sentem logo um milhão de olhos acusadores a provocar-lhes um calor súbito, como se o inferno estivesse a lamber-lhes as pernas feito cachorrinho pidão.

A vergonha transcende e se instala, em geral, em meio ao mais prosaico, regular e cotidiano da vida do homem comum. Veja só os casais: brigam em público na boa, mas se são flagrados transando no banheiro do restaurante, isso é que é a vergonha. Beijos são para a privacidade, tapas podem ser em público mesmo.

É tão curioso esse aspecto que mesmo na hora de uma mulher se referir ao próprio órgão, não é raro, falta-lhe a palavra. E surgem coisas como "lá embaixo", "nela" e coisas assim. Bom, o papo tá ficando meio salgado e eu vou parando por aqui. Estou com vergonha.

 

Leo Jaime escreve aqui às quartas-feiras. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 11h30
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- Bar ruim é lindo, bicho

De Antonio Prata.

 

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. “Ô Betão, traz mais uma pra gente”, eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.

 

Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

 

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz. 

 

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil! Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que agente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).

 

- Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

 

Antonio Prata é cronista especialmente convidado e escreve no Blônicas meio de surpresa, meio sem avisar.

Escrito por Blônicas às 10h58
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01/02/2005 - Apenas um homem

De Nelson Botter Junior.

 

A madrugada se vai como que levada por uma correnteza. Frio. O burburinho da cinza cidade invade o dia úmido da gente seca. O sol incomoda o sono forçado do homem que se encontra estirado na calçada, um mendigo, protegido pela fina camada de um salvador papelão, gravado com o nome de uma empresa cuja marca é estimada em bilhões de dólares. A barba coça, o corpo gelado dói, incomoda, tanto quanto a coceira. Abre os olhos, não limpa as remelas dos olhos, não faz diferença, já não há distinção entre sujeira orgânica e química, é tudo uma crosta só. Pra que limpar minha pele se a sujeira também vem de dentro?

 

Com a dignidade aprisionada a sete palmos, o homem que mais parece um profeta desenganado, de visual “Beato Salu”, ainda arranca risadas diabolicamente angelicais de duas crianças que se aproximam, arrastadas pela apressada mãe que enfrenta o sereno para não perder a serenidade. Batalhadora essa aí, mas solitária feito poeta sem lua. O cheiro da pinga que os poros do mendigo cospem é suficiente para apressar o passo da mulher. A barba ainda coça, as mãos tremem. Nenhum cão para lambê-lo, para acompanhá-lo, para notá-lo. Pior que não ter dinheiro nessa maldita vida é não existir para os outros, é não ser notado em plena luz do dia.

 

O álcool, seu único amigo, é amargo e má companhia. Arde, engana, ilude, traz falso alívio, como amigo que nega ajuda, como parente que é serpente, como um filho chamado Édipo. Corrói o estômago e, principalmente, a puta da alma, cheia de lama, como se extraída de um mangue qualquer, coberta de caranguejos que beliscam e arrancam pequenos pedaços de sua existência, dia após dia. A barriga ronca, pede mais um gole da pinga medicinal, o estômago quer se afogar, as pernas se arrastam até mais uma lata de lixo. Um vira-latas, sem dono, sem pedigree. Revira, se humilha. Pouca gente tem o que comer, muita gente come o que tem.

 

Observa, sentado, os transeuntes transados, em roupas, plumas e paetês. Donas bem trajadas, vestido, bolsa, sapato. Capitães da seriedade, terno, gravata, loção pós-barba. Verdadeiros soldados em marcha, mas nem fantasiados se tornam mais alegres, mais divertidos. São espectros humanos de uma escravidão desumana. A barba coça sem parar. O homem já reconhece rostos na multidão. Essa aqui sempre passa nesse horário, aquele vive comendo, aquele outro está sempre dormindo em pé, aquela nunca sorri. Tem gente que troca de roupa todo dia, todo dia, todo dia, quero ver quando morrer, como vai fazer...

 

Um menino chora porque o pai não quer comprar um aviãozinho. Berreiro, escândalo, vergonha. O pai cede, o menino pega o brinquedo, olha bem, não gosta muito, faz careta. Vai fazendo todas as vontades, vai. Depois vira um leão. Animal mimado nunca será adestrado. O menino se vai e o dia também. A fome é convencida pela bebida a desaparecer. Os trocados arrecadados são bebidos freneticamente. No bar, o homem é mal atendido, mas como tem um dinheirinho, pelo menos olham para ele.

 

O mendigo sabe que certamente um dia vai dormir e não mais levantar. E ninguém vai perceber. Quem passa pelo caminho do homem, estirado em qualquer chão, está pouco se importando se ele respira ou não. Talvez percebam sua morte quando o cheiro estiver mais do que insuportável, ou quando os primeiros urubus vierem lhe fazer alguma companhia, em plena metrópole, velando a pureza de sua alma e a podridão de sua carne. Mas, que diferença isso faz? Sou um homem, humano, mas não sou gente... sou indigente.

 

Nelson Botter Junior escreve aqui todas as terças-feiras. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 10h57
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