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- Abanar o rabo e dar a pata

De Leo Jaime.

 

Em suma, trocar sexo por amor é dar o que se pensa não ser amor em troca do que se pensa não ser sexo. E mais! Há nisso uma profunda e dilacerante dissociação. Alma e corpo, dentro desta perspectiva, são como dia e noite: se esbarram e parecem se fundir, por instantes, mas são uma eterna e delirante perseguição do cachorro em busca do próprio rabo.
Cazuza dizia: - "Amar é abanar o rabo e dar a pata". Bem que, sem prejuízo algum, pode também ser o contrário. O amor desconhece o juízo e outras temporalidades. Para o amor, até o eterno é só mais um detalhe.
O homem brasileiro vive confundido em suas emoções e urgências. Ele ainda vive a ilusão de ter "conseguido" comer uma mulher sem compromisso; e vive isto como uma vitória. Orgulha-se do sexo vazio, como se isto pudesse ser suficiente, e se esquece de, como dizia Nelson Rodrigues, que é preciso alma até para chupar um chicabon.
A brasileira, mesmo a mais oferecida, ainda finge "consentir", quando o desejo é evidente e até solitariamente seu. Ela finge que dá só para ver se ele acaba por amá-la; ele come fingindo que um abraço terno, um sorriso complacente ou ainda um profundo e desesperado gemido d'alma não superam a delícia da novidade. Os dois se iludem e não percebem o amor correndo ao lado, como um riacho manso, enquanto suas almas e corpos permanecem sedentos.
Assim vamos em nosso permanente desencontro: o homem se casa e pensa que ela não vai mudar e ela muda; a mulher casa pensando que assim vai conseguir mudá-lo e ele não muda. Oscar Wilde dizia que homens casam por cansaço e mulheres por curiosidade e os dois se arrependem. Esta é uma questão universal.
Casados invejam solteiros que, por sua vez, vivem sonhando e planejando o casamento. Crêem que o casamento seria como uma espécie de promoção, como se fosse o podium amoroso, e lá na frente ficam a se perguntar: "Mas é só isso?"
Ser casado ou solteiro é uma questão não de qualidade, mas de estilo de vida. É como morar em apartamento ou casa. No meu entender casamento é como morar em casa: muito espaço, aconchego e muita mão de obra. A vida de solteiro é como num apartamento: querendo viajar é só trancar a porta e se mandar, embora seja mais devassado, mais apertado e mais barato. Mas já estou divagando. Onde é que estava mesmo? Ah, lembrei, falta concluir.
Sendo as coisas assim tão opostas e contraditórias, pode-se perfeitamente dizer que o homem brasileiro é escancaradamente romântico, enquanto a brasileira é obsessivamente, do amanhecer até os estertores da madrugada, atormentada pelos escaldantes apelos da carne. E os dois, é óbvio, findam por ser completamente ignorantes em relação à própria natureza.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 13h44
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31/03/2005 - Controle

De Antonio Prata.

 

Dentre os vários mistérios deste mundo, um tem me intrigado especialmente (pelo menos desde que voltei do 95, onde fui discutir com a dona Marlene uns pormenores à respeito das vagas na garagem): por que diabos algumas pessoas enrolam o controle remoto com magipac?

Quem, como a dona Marlene, embrulha o controle como se fosse uma sardinha a ser congelada, deve acreditar que o está protegendo. Mas protegendo-o de que, meu Deus? De nossas mãos imundas? Se é assim, se com o simples toque macularemos a suposta pureza do objeto, teremos de enrolar tudo em folhas de plástico: do teclado do computador ao papa. Não seria mais fácil, de uma vez, usarmos luvas cirúrgicas?

Talvez não sejam de nossas mãos, no entanto, que as zelosas donas Marlenes desse mundo protejam o controle, mas de algo pior. Quem sabe um tornado passe sobre o bairro justamente quando minha vizinha do 95 for comprar peito de peru na padaria, deixando as janelas abertas? A sala é inundada: perde-se o sofá, o abajur, a tv, o tapete de sisal, anos e anos de economia, mas o controle remoto, oh!, santa precaução, o controle remoto sobreviverá, incólume, em meio aos destroços. E agarrada ao pequeno e lustroso sobrevivente, chorando, descabelada, a boa Marlene se ajoelhará entre os destroços e agradecerá aos céus por ter tomado seus cuidados impermeabilizantes.

Tento evitar o preconceito, tenho terror à discriminação, mas devo confessar que jamais seria capaz de uma relação mais íntima com uma pessoa que fosse adepta de tais exageros, digamos – ou suponhamos - assépticos. Desconfio que quem embrulha um controle remoto é capaz de coisas muito piores. Flores de plástico, por exemplo.

O terror que representa uma flor de plástico é facilmente compreendido por qualquer sujeito que já tenha visto uma flor de verdade, dessas que abrem, cheiram bem, depois morrem – e só por isso, oras bolas!, são belas. Uma flor de plástico é como uma mulher de plástico, um bife de plástico, um pôr do sol de plástico.

A essas pessoas que, se pudessem, faziam-se todas poliuretano, pergunto: se as flores são de plástico, porque não também uma boneca inflável no lugar da esposa, umas Barbies no lugar dos filhos e uma dessas amostras de vitrine de restaurante japonês para o jantar? Sim, eis o caminho inexorável: primeiro o magipac no controle, depois as flores de plástico e, quando vamos ver, George Orwell dominou geral.

Sei que é preconceito. Sei que depois de publicada essa crônica virão cartas e e-mails furibundos. Pessoas idôneas e acima de qualquer suspeita surgirão, brandindo seus reluzentes e protegidos controles e promovendo abaixo assinados, onde constarão políticos de passado ilibado, artistas de cinema e esportistas olímpicos, um ou outro santo até, quem sabe (por procuração de um descendente), dizendo que nunca deixaram seus controles ao alcance do orvalho, da gordura, dos tufões ou do sereno. E que isso não é da minha conta. E que eu deveria me preocupar com as crianças abandonadas, o desmatamento da Amazônia, a alta dos juros ou com meus próprios assuntos.

Vocês têm toda razão. Eu é que estou errado, anacrônico, impuro e besta. O mundo, como a vaga de frente para a rampa, sempre será das donas Marlenes. Quando, no ocaso de meus dias, eu tiver que apertar com todas as forças o já gasto botão on/off do controle da televisão, cercado por flores murchas e crianças barulhentas, olharei no fundo dos olhos cansados de minha esposa e murmurarei, arrependido: “magipac”. “O que foi que você disse, meu amor?”. “Nada, querida, nada. Já é tarde e acho que vou dormir”.

 

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h38
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- Vícios

De Rosana Hermann.

 

Viver vicia. Desde o primeiro dia. Por isso é tão difícil largar um vício, um sacrifício, quase como morrer: todo vício dá prazer. Da clássica jogatina, do álcool à cocaína, do chocolate ao chiclete, da tubaína ao Grapette: tudo que se repete, com ganas de compulsão, é vício sem solução.

 

Vício a gente não larga como se tomba uma carga no meio da rodovia: vício se negocia. Na compasso do todavia, na base da troca, do escambo, na ginga do senão-eu-sambo. Do que mata mais, pra menos; os grandes pelos pequenos, bezerro em lugar da vaca, o louco pelo babaca, a pistola pela faca. Um ano por alguns meses. O sempre, por só às vezes.

 

Cada um deveria ter direito a um talento por defeito, a um vício por virtude. Um ócio pra cada atitude. E pra manter a saúde, um desejo manifesto: uma preguiça por gesto. Mas não, o mundo condena como se fosse obscena cada delícia carnal. Só pode no carnaval, depois, é tudo imoral. Depois, o mundo te nega. Depois, a polícia te pega. 
 

Viver sem vício qualquer, nem sexo, homem, mulher, roer unha, ver novela, raspar fundo de panela, riscar fósforo, pingar vela, seria um porre geral. Viver, é um vício ilegal.

 

(Fui fazer uma crônica e assim, na lata, saiu poesia barata, logo no dia da blônica.
 - Garçon, suspende a batata e me traz um outro gin tônica!)

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas, com uma crônica de quinta, até segunda ordem.
Escrito por Blônicas às 11h07
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- O mundo dos negócios

De Nelson Botter Junior.

- Quanto você cobra pelo programa?
- Pra você, garoto, faço por R$ 200,00.
- Tudo isso! Não tem desconto?
- Desconto? Olha pra mim, vê se eu tenho cara de quem dá desconto. Sou de luxo!
- Mas é prostituta.
- Olha como fala comigo, garoto. Não sou prostituta, sou acompanhante.
- Ganhou promoção é? Tem plano de carreira?
- Saiba você que sou mercadoria de primeira, do tipo que não se encontra em qualquer esquina.
- Realmente não é em qualquer esquina, é sempre nesta.
- Bom, é R$ 200,00 e ponto final.
- Não, calma aí. Vamos negociar.
- Que negociar, garoto? Não tenho tempo pra isso! Se não quer, não empaca, pois tenho outros pra dar atenção. Igual a você, eu tenho mais uns duzentos clientes que não me pedem desconto algum.
- Eles são eles. Eu sou diferente.
- Diferente... como?
- Se eu te fizer um cafuné, você dá desconto?
- Cafuné?
- É, faço cafuné.
- Tá louco, garoto? Vê se pode...
- É sério, faço cafuné em você.
- Mas... é... faz assim, com a mão? Na minha cabeça?
- Claro.
- Nossa, ninguém fez isso antes.
- Eu disse que sou diferente.
- Tá bom, se você fizer um cafuné em mim, eu faço por R$ 150,00.
- E se eu te encher de beijinhos carinhosos antes, durante e depois da transa?
- Beijinhos? Estaladinhos?
- É, bem gostosos.
- Bem... é... bem carinhosos?
- Os mais carinhosos que você já teve.
- É... R$ 120,00 tá bom?
- Digamos que eu também possa dar umas lambidinhas na sua orelha...
- Ai garoto doido! R$ 110,00.
- E se eu também falar umas sacanagens no seu ouvido?
- Até me arrepio! R$ 100,00.
- E se eu te abraçar bem forte no final?
- R$ 50,00!
- E se eu te pedir em casamento?
- Eu caso, garoto! Eu caso!
- Hmm... aí não, fica muito caro. É, vamos fechar em R$ 50,00 mesmo.

Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras e avisa que apesar desse texto estar rodando anonimamente pela Internet, ele faz parte do livro "Acepipes, textos que a terra há de comer", que será lançado em breve.

Escrito por Blônicas às 10h36
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- Paraíso/Consolação

De Xico Sá.

 

A moça chora no metrô.

Por que chora aquela moça?

Sempre acho que todo choro é ou deveria ser por amor, que me perdoem a pobre rima que reverbera aqui embaixo, nos subterrâneos, underground, tantas linhas depois daquela criatura deslizar o inferno rolante, lá no primeiro batente, e cair aqui, passos que conto como o rapaz do crime russo, degraus que ignoro para esquecer o tamanho da queda, deus, vixe.

Dela?

Quase nos meus braços, quem terá caído?

Posso tão bem sentir aquele baque, terei descambado eu ou o meu alvo móvel?

Uma grande dívida nunca nos põe a chorar de verdade. Por um familiar, choramos diferente. Desemprego? Não. Se não teríamos um Tietê, um Capibaribe, um Paraíba, um São Francisco a cada segunda-feira, cada esquina, lágrimas que manchariam a tinta dos classificados e seus quadradinhos lógicos, portas na cara, quem sabe da próxima, projeto ilusões perdidas...

A moça tenta não soluçar, mas soluça. Terá discutido a relação, a velha d.r., à boca da estação Paraíso? Veste roupa de trabalho sério, e chora. Daqui a pouco estará sentada na sua cadeira de secretária, exímia, bilíngüe, a serviço do capital da avenida Paulista.

Mas por enquanto chora a moça do metrô e é o que nos importa. Se não for por amor, eu morra. Terá levado um pé-na-bunda? Terá visto o casamento pelo binóculo do sr. Nelson Rodrigues?

Perdoa-me por me traíres?

Estação Consolação.

Salta a moça que chora no trem veloz.

Sempre há uma criatura a chorar no ônibus, também, ou again, dores pra amolecer o asfalto, sopra minha amiga Claudia Leal, que sempre pensa oferecer um ombro, um olhar de conforto, na linha Campinas/São Paulo.

O amor é sempre assim, começa no paraíso e termina na consolação.

Como no metrô.

A mesma CL desconfia: quem chora em público acaba de chegar ao terminal da dor, baldeação, vírgula, pausa, descanso, pastel, caldo-de-cana, refresco, desamor.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h28
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- Jacinto

De Milly Lacombe

 

   Quando Jacinto nasceu, no interior do Piauí em 1956, o médico disse a sua mãe que, com o coração mal formado, ela não esperasse que o menino fosse muito longe na vida. A mãe, sabendo que o rebento poderia ir embora a qualquer minuto, deixou que Jacinto crescesse com toda a liberdade do mundo para que, assim, pudesse tirar um gostinho maior da vida. E Jacinto, precocemente conformado com seu destino, transformou-se no mais destemido rapaz da minúscula cidade de Formosa. Era o único que pulava da ponte no rio, o único que faltava à missa só para explorar um pouco mais a região, o único que não tinha medo de ir à casa da dona Zica que, diziam, virava mulher-lobo em noites de lua cheia. Ele e dona Zica, aliás, ficaram amigos e, embora Jacinto preferisse confirmar os boatos aos amigos (“quando a lua ilumina sua casa, os pêlos e as unhas crescem com uma rapidez incrível”) ele nunca havia visto nada que justificasse a fofoca.

   Todas as manhãs quando abria os olhos Jacinto se lembrava de que, talvez, aquele fosse seu último dia. Sem perder tempo, decidia fazer alguma coisa que ainda não tivesse feito, alguma coisa que pudesse, de alguma maneira, celebrar sua passagem por aqui.

   Foi com esse espírito que, em seu aniversário de 12 anos, arrumou uma pequena mala e se mandou para Teresina; precisava conhecer uma cidade grande antes de morrer. Jacinto era o primeiro cidadão de Formosa que ousava cruzar o sertão rumo ao mar. Caminhou por quase 15 dias antes de chegar à capital, onde conseguiu emprego como feirante.

   Em seu aniversário de 14 anos, resolveu que era hora de ir um pouco mais longe e se mandou, de carona, para São Paulo, onde virou assistente de pedreiro. Um ano depois de chegar à metrópole, foi para o Rio de Janeiro. Lá, ficou por quase três anos, trabalhando como jardineiro em uma casa no então distante Recreio dos Bandeirantes. Antes de completar 20 anos, e sabendo que estava vivendo agora em tempo emprestado, decidiu que era hora de ir ainda mais longe e se mandou de carona para a Argentina. Foi em Mendonza que conheceu Javier, rapaz humilde, fanático torcedor do Boca Juniors, que trabalhava numa vinícula da região. Juntos, decidiram economizar para passar uma temporada nas vinículas californianas, que, Javier jurava, eram as mais modernas e bem cuidadas do mundo. Em seu aniversário de 25 anos, Jacinto embarcou para São Francisco e, depois, para Napa Valley, onde, com Javier, ficou até conseguir juntar dinheiro para conhecer a Europa. Quando competou 28 anos, Jacinto se mandou para a Itália e, pela Europa, vagou livremente até decidir que, antes de morrer, gostaria de conhecer a Austrália. Trabalhando como garçom em um pequeno restaurante de San Sebastian, litoral espanhol, juntou dinheiro e, em seu aniversário de 30 anos, se mandou para Sidney. Foi lá que conheceu Tomiko, uma pequenina japonesa que trabalhava em uma agência de viagens. Tomiko e Jacinto foram morar juntos e, quando Jacinto completou 33 anos, Tomiko anunciou que estava grávida.

   Jacinto percebeu então que era hora de voltar para Formosa e apresentar Tomiko à família. Foi o que fizeram. O que Jacinto não sabia é que, ao chegar ao Piauí cinco meses depois, Tomiko entraria precocemente em trabalho de parto. Jacintinho nasceu no mesmo hospital em que Jacinto havia vindo ao mundo 34 anos antes. O médico que fez o parto disse a Tomiko que não esparasse muito do menino: como o pai, ele tinha o coração mal formado. Ao ouvir a sentença, Jacinto, pela primeira vez na vida, chorou: como ele, Jacintinho teria, abençoadamente, uma outra perspectiva da vida.

   O destemido Jacinto morreu ontem, aos 49 anos, enquanto dormia ao lado de Tomiko na pequena casa que construíram no litoral de Pernambuco. Para o filho, deixou um terreno na Bahia e um bilhete com a frase que gostaria de ter em sua lápide: “Aqui jaz Jacinto, um sortudo que sempre viveu perigosamente bem”.

 

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 10h35
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- O presidente e o torneiro mecânico

De Henrique Szklo

Não sei se você ficou sabendo mas o FHC passou por sérias dificuldades. Tudo começou quando pararam de chamá-lo para fazer palestras. A alegação é de que ele fala muito e agora que não é mais presidente ninguém tem obrigação de aturar.
Logo depois a justiça seqüestrou seus bens por estar investigando uma denúncia que afirma que o nosso ex tem mais milhas aéreas acumuladas que o Papa.
Em seguida, um problema no sistema – justo ele que sempre foi tão a favor do sistema - congelou suas quarenta e cinco aposentadorias por tempo indeterminado. E o pior é que nem aos amigos ele pode recorrer. Os velhos caciques do PSDB viram seus cocares desmilinguirem-se à luz da nova ordem política. Sem poder e na oposição eles rumaram inexoravelmente para o ostracismo. Tucanos em frangalhos. Até os banqueiros deram as costas ao ex-amigo, mandando travar a porta giratória toda vez que ele tentasse entrar em uma de suas agências, aqueles ingratos.
Enfim, não havia mais a quem apelar. Sem alternativas a curto prazo para sustentar Ruth e todos os filhos de suas relações extra-conjugais, FHC pôs a beca de lado, controlou seu orgulho e foi fazer um curso no Senai. Aprovado com louvor por conta de suas notas expressivas, em pouco tempo já conseguiu o que tanto buscava: um emprego. A partir daí sua vida novamente deu uma guinada. Feliz com mais esta grande vitória pessoal resolveu compartilhá-la com alguém que certamente se identificaria com ela. A conversa transcrita a seguir foi gravada sem a autorização e o conhecimento dos envolvidos e nos foi cedida gentilmente por Antônio Carlos Magalhães:
- Quem queria falar com ele?
- Fernando Henrique.
- Quem?
- Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente, não é?
- Ex-presidente da onde?
- Do Brasil, evidente!
- Sei... um momentinho que eu vou ver se ele está.
Neste momento, ouve-se na espera telefônica do Gabinete da Presidência da República o hino do Corinthians. Em francês. Então:
- Alonzanfã, grande Maluf! Você não perde essa mania de imitar a voz dos outros, hein, irmão? Agora imita alguém importante, vá. Eu não vale que é fácil demais. Já sei, nosso cardiologista, o Enéas!
- Ô, Lula, aqui não é o Maluf que está falando. Não é o Maluf por que? Porque sou eu, o Fernando Henrique, não é?
- Xi!
Neste momento o presidente coloca a mão no bocal do telefone para abafar sua voz. E é nessas horas que a gente percebe que falta pode fazer um dedo. Cardoso acaba ouvindo tudo o que se passa do outro lado da linha:
- Porra, Delfim, evidentemente que não é o Maluf, é o pentelho do FHC mesmo. E agora o que é que a gente faz?
- Isso tudo é uma asneira monumentaaal. Desliga esta meeerda e bota a culpa na privatização da telefoniiia – comenta, fleumático, o conselheiro do presidente.
- É, mas é preciso que se diga que as teles estatais eram cabides de empregos para funcionários públicos, aquele maldito bando de sangue-sugas do governo.
E o presidente volta a falar com o torneiro mecânico:
- O que é que manda, compagnon FH?
- Olha, não se preocupe. Não se preocupe por que? Porque eu não quero pedir nenhum favor. É verdade. Só estou ligando para lhe contar uma grande novidade, não é?
- Qual? Que a gente não pode aumentar o salário mínimo senão o Brasil quebra? Que sem o PMDB a gente não consegue governar? Que se a gente quiser se reeleger vai ter de comprar uma porção de gente? Que o banheiro do nosso gabinete vive entupido?
- Naturalmente que não. Bom, é que já faz uns dias que eu estou trabalhando como torneiro mecânico em uma grande indústria,não é?
- Que bom! A gente fica muito feliz por você, amigo. Aliás, aproveitando que você ligou, poderia dar uma ajuda pra gente?
- Naturalmente que sim. Quer saber como definir estratégias de governo, não é? Promover desenvolvimento sustentado, criar relacionamentos sólidos com países estrangeiros...
- Não, não, na verdade a gente quer saber como se diz em francês “ô, garçom, esta champanha está choca!”
- Lamentavelmente eu esqueci. É verdade. Mas eu também tenho uma dúvida: como é que se faz o cálculo de desalinhamento do cabeçote móvel?
- Como é que a gente vai saber?
- Ora, é evidente, você não foi torneiro mecânico?
- A gente foi, mas hoje somos Presidente da República. Por isso não confunda as coisas.
- Me perdoe, por favor. Aliás, gostaria imensamente que vossa excelência viesse almoçar comigo na fábrica. O nosso bandejão é excelente, principalmente na quarta. Na quarta por que? Porque na quarta eles servem uma buchada de bode sensacional.
- Infelizmente a gente não vai poder. Estamos indo para Paris receber o título de honoris causa na Sorbonne e evidentemente só vamos voltar depois de comer todo croissant que a gente puder encontrar.
- ULA-LÁ!
- LULA-LÁ pra você também!
- Mudando de assunto, é verdade que você está concorrendo a uma vaga na ABL?
- É preciso que se diga que sim.
- Mas você já publicou alguma coisa?
- Só de medidas provisórias foram...
- Bom, mas você não ia acabar com elas?
- É, mas você, mais do que ninguém, sabe como são as coisas por aqui. A gente pega o gostinho, depois fica difícil largar.
- Não há dúvidas de que sei.
- Quer um conselho? Vire líder sindical. Não é como ser presidente mas tem uma mordomia ou outra que compensa. Sem contar que você nunca mais vai precisar trabalhar na vida.
- Bom, para falar a verdade neste momento sou candidato à presidência em uma chapa do sindicato dos metalúrgicos. Mas o pessoal anda dizendo: olha, é preciso pensar bem porque um candidato tão instruído pode por tudo a perder, não é? Sem contar que o fato de não ter a língua presa vai acabar com uma tradição de anos.
- Que preconceito!
- Evidente que é! E tem até um sindicalista dizendo que se eu ganhar no dia seguinte centenas de operários vão embora do ABC. Bom, mas o meu guru acredita que eu vou conseguir reverter este quadro, não é?
- Seu guru?
- É, o Babá...
- Sei, sei... E qual é a sua agenda?
- Bom, basicamente está sustentada na defesa intransigente da unicidade sindical e na manutenção e ampliação do Imposto Sindical, não é? Sem esquecer a questão das enormes perdas provocadas pelo plano Real.
- Mas isso é um absurdo!
- Absurdo foi você mandar a polícia usar de extrema violência contra o MST, não é?
- Peraí, isso é diferente. É preciso que se diga que aqueles desocupados invadiram o campinho de futebol da Granja do Torto. Isso num domingão de sol e bem ao lado da churrasqueira. Desta vez eles foram longe demais. Evidentemente o ataque do meu time não é dos melhores, mas daí a dizer que a área do adversário é terra improdutiva foi uma provocação inaceitável.
- É, amigo Lula, sinto dizer mas você já não é mais o mesmo, não é?
- Que  bom. Já imaginou se a gente ainda fosse torneiro mecânico?
- Não há dúvida de que nem consigo imaginar.
- Bom, FH, a gente precisa desligar. O Quércia está aqui para o nosso joguinho de pôquer e não podemos deixar ele sozinho na mesa com aquele monte de fichas, você sabe, né?
- Claro, claro, Lula, fique a vontade. Olha, passando em São Bernardo, apareça lá em casa. Apareça lá em casa por que? Porque vai ter um cafezinho fresquinho esperando por você, não é?
- Obrigado. Você também quando passar por Brasília, venha tomar uma taça de champagne aqui com a gente. Mas liga antes, tá?
- Evidente que sim.
- Adieu, mon ami.
- Até breve, companheiro.
 
Henrique Szklo escreve aqui às sextas-feiras. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 10h13
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- Ficar em casa

De Leo Jaime.

 

Depois de uma semana estafante, com o braço machucado, comecei o sábado ainda no ritmo acelerado. Queria cortar o cabelo, comprar umas coisas pra casa, fazer o ultra-som para avaliar a gravidade e o possível tratamento. Não deu nada muito certo. Voltei pra casa e resolvi relaxar.

 

Fui pra cozinha, ouvi música, vi filmes, dormi em cima dos meus óculos (vai para oficina na segunda), recebi amigos e não fui muito além disso. Só sai para ir até a Liberdade, o bairro oriental. Adoro comer lá, assim como dá pra encontrar umas coisas que não se vê com facilidade. Trouxe um bule para preparar chá, lichia em calda, sakê, sopas coreanas fast-food (apimentadas à beça), coisas assim.

 

Ouvi algumas canções que he tempos não ouvia. Tomei umas doses, ri, dormi, descansei. Nestes dias a vida faz sentido. Nos outros por mais que eu sinta que há uma certa coerência no que faço, a sensação é do caos. Pensando nisso a impressão é a de que a vida existe para que sejamos felizes, para o ócio,  para a vadiagem com os amigos, para o amor e a observação do belo. Mesmo adorando trabalhar, e o meu trabalho é muito gratificante até porque eu faço exatamente o que quero e só o que acredito, o que me permite sinceridade e entrega, e, no entanto há sempre aquelas conjunturas que nos colocam em situações desagradáveis. É uma selva, ganhar o pão. Não devia ser.

 

Trabalho sempre aos finais de semana. Raro ter um livre. Há sempre tanta coisa pra ver, tantos compromissos a cumprir. O meu, neste que passou, até mesmo porque não programei nada, serviu para me mostrar o sentido da vida. Neste momento. Vejo nessa reflexão a imagem de um ser humano profundamente simples. E há algo de patético na completude ou na felicidade. Talvez por isso os felizes não sejam nunca levados à sério.

Talvez.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras e sempre arruma um tempinho pra escrever aqui.

Escrito por Blônicas às 14h55
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24/03/2005 - Sexta-feira, santa

De Castelo

 

O pai do Antonio Prata era mais freqüentador do que eu. E não vai me deixar mentir: o Spazio Pirandello, ali na Augusta, era o bar-ícone dos anos 80. Antigo “matadouro” de Oswald de Andrade, mistura de restô, botequim e antiquário,  aglutinava artistas e candidatos ao estrelato de todos gêneros.
Numa sexta-feira de 1987 sai de um show do meu grupo, o Língua de Trapo e fui direto pra lá. Naquela noite - na linguagem dos humoristas de “stand-up” - “bombardeamos” a platéia.
Cerca de 1000 almas tinham se esbagaçado de tanto rir com aquelas músicas escrachadas, paródicas e politizadas – uma novidade no finalzinho dos anos de chumbo.
Os críticos de São Paulo eram unânimes: aquela bizarrice humorístico-musical era a sensação da temporada. Depois de muito pagação de sapo, experimentávamos o doce mel do sucesso. Eu, por exemplo, me senti o Billy Cristal abrindo o Oscar quando adentrei nos salões do Pirandello.
Olhei à esquerda. Caio Fernando de Abreu bebia vinho na companhia de duas jovens cantoras do Sul e me cumprimentou. Mirei a direita, Arrigo Barnabé me acenava.
Nossa mesa ficava bem no centro. A algazarra era forte. Cada componente da banda tinha uma “groupie” correspondente a seu lado. Pedi o de sempre (Red Label no copo alto) e acendi um cigarro. Luiza, uma candidata à cantora, sentou-se a meu lado. Depois de me dar um beijinho, a “starlet” sussurrou em meu ouvido:

- Posso te pedir um favor?

- Deve – respondi, arrepiado.

- Quero te apresentar um amigo… Ele está no outro salão, esperando.

- O que ele toca? – indaguei, com ironia, já imaginando mais um “promissor” músico.

-  Ele é escritor. Queria que você o ajudasse no jornal.

(Por essa época, eu era colaborador do “Estadão”).

- Tá, Lú. Mas tem que ser hoje?

Ela sabia que eu odiava falar de trabalho quando estava bebendo.

- Ué, por que não…hoje? – teimou ela.

- Porque hoje é sexta-feira, santa…

Ela fez biquinho. Sabia que eu não agüentava quando ela promovia aquele “rictus” com os lábios gorduchos.

- Tá bom. Mas deixa primeiro eu falar com o…

Na próxima meia-hora empurrei o tal amigo escritor com a barriga. Mas Luiza era persistente: acabou trazendo o escriba à mesa. O sujeito era um tipo: bem mais velho que nós, usava um cavanhacão e uma gigantesca bolsa de couro cru. Luiza continuava elétrica.

- Apesar dele agora escrever livros, já fez letras de música como você…

Ela falava, falava - o escritor de pé, copo de Old Eight na mão esquentando - e eu tendo que interromper a conversa toda hora pra receber parabéns dos freqüentadores pelo sucesso do show.

À certa altura, o cara se tocou. Abriu a bolsa, tirou um livro de dentro e me entregou.

- Dá uma força pra mim então? – pediu, já saindo.

Na dia seguinte, levei a brochura para o jornal. Entreguei-a ao editor. Só então li o que havia na capa: “Diário de um Mago – Paulo Coelho”.

Moral: esse papo de lenda pessoal é lenda. O que manda mesmo é o “quem-indica”.

 

Castelo escreve no Blônicas às quintas. Sua lenda pessoal o trouxe ao Blônicas. Mas quem o indicou foi o Henrique. Visite seu site.

 

Escrito por Blônicas às 10h53
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- O fim do fim do mundo

De Rosana Hermann.

 

Caetano cantou que alguma coisa está fora da ordem. Arnaldo Jabor disse que o mundo está às avessas. Um amigo meu acredita piamente que estamos vivendo a época mais negra da história da humanidade. O motorista de táxi que me trouxe pra casa tem certeza que as pessoas estão mais violentas e o que o trânsito já foi melhor. Mesmo sem concordar com os apocalípticos que pregam que o fim está próximo, não é difícil perceber que o mundo piorou muito de uns passados pra cá. Se já não se faz mais futuros como antigamente, podemos dizer também que o mundo não é mais aquele, olha a cara dele.

 

Mas não creio que seja o caso de sair por aí divulgando a idéia de que o mundo piorou a ponto de sair de linha. Pode ser muito perigoso e gerar desde ondas de saques entre os americanos, cuja lógica calórica os induz a estocar alimentos para serem consumidos depois que o mundo acabar, até servir de inspiração para um comercial de varejo de móveis e eletrodomésticos propondo uma queima de estoque antes do final dos tempos. Por isso, pode ser interessante analisar as análises, de forma clínica, pra não dar merda.

 

Caetano, pregador do alguma coisa fora da ordem também não é dos mais ordenados. Nem quando samba com graça dizendo-se neguinha nem quando treme os lábios cantarolando em espanhol. Jabor, sabido sábio nacional, ainda que coberto de razão e recheado de sensatez é também um dramático profissional. Meu amigo, que vê a época como negra, é daltônico. O motorista de táxi tem razão quanto ao trânsito, cada vez mais caótico e, a sensação de que a violência aumentou é real. Mas certamente, a violência é sempre ampliada pela mídia, cujo interesse em fazer com que tudo pareça pior pode estar paranoicamente ligado à queima de estoque do patrocinador.


Mas uma coisa é certa, o mundo não vai acabar. Não agora. Não tão cedo. Não antes de todos nós. Não sem o meu consentimento. Tenho dois filhos em fase de crescimento, tenho uma obra inacabada, um post em andamento e, convenhamos, hoje é quarta-feira, dia de publicar a crônica no Blônicas. Compromisso é compromisso, com ou sem mundo.

 

O nosso planeta Terra, que é o mundo pra nós, terceira bola de quem vem do sol, azulada e úmida, vive num sanduíche-iche entre Marte e Vênus, conflitada entre a Guerra e o Amor, Tânatos e Eros, impulsos de morte e de vida. Gira louca e severinamente, levemente achatada, cumprindo suas obrigações cíclicas diárias, semanais e anuais, consigo, com a lua e com o sol. Balança levemente no eixo entortado, roda de carro velho mal balanceada, o que acaba proporcionando lindas férias de inverno e verão pra boa parte da população inserida no consumo. E, sim, acoberta e promove injustiças incontáveis, das sociais às climáticas. Mas é a Terra, nave-mãe, mãe-natureza, mãe que é uma só. E mãe, como todo mundo sabe não acaba. O mundo, como a mãe, transcende a existência física: é um dogma de fé, a fé na continuidade das coisas, a representação do tempo indestrutível, que sempre foi e sempre será.

 

Então, é isso: anote aí, o mundo não vai acabar.
Em outras palavras, vamos mesmo ter que fazer a declaração do imposto de renda.
Saco. Isso sim é o fim do mundo. 

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas, com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 10h57
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- Colinho de mamãe

De Nelson Botter Junior.

 

Fico besta de vê-la assim, deitadinha, rainha da cama. Ela está sorrindo. O lençol tocando gentilmente sua pele mulata, chocolate que me faz babar. É, essa menina me deixou louco. Contemplá-la agora pelo espelho, enquanto não me encaro, é fantástico. Linda, dormindo feito um anjinho, após fazer coisas que nem o diabo imagina. Apesar da pouca luz no quarto, a paz que vem de seu corpo é confortante e ilumina minha visão tão turva e confusa. Há tempos não enxergo bem, não enxergo os outros, não enxergo almas, só pele, carne, osso, sangue, putrefação. Vejo apenas meu umbigo, quer dizer, acho que nem ele. Quando me olho no espelho, me sinto transparente. Não sou eu, não sei quem é, não sei porra nenhuma. Prefiro olhá-la, contemplar seu corpo nu, suas coxas firmes e salientes, seu peito vistoso, me chamando, deita aqui nenê, vem pro colinho da mamãe, bebe o leitinho bom que eu tenho pra você.  Ah, quanta loucura.

 

Uma tragada forte no cigarro, meu olhar foge, procura agora o teto, depois a cômoda. O cheiro de sexo meio azedo ainda está no ar, mas outro cheiro, além da fumaça do cigarro, começa a invadir as narinas. Não quero sair daqui, não quero me mexer. Sentado nesta cadeira bamba, quase se despedaçando, posso admirar minha querida pelo espelho, cortejá-la ao inverso, ver seu lado esquerdo se tornando o direito, o direito se tornando o errado, tudo ao contrário, procurando algo além daquele sorriso e daquela beleza que me dói o peito.

 

Mas não tem jeito, preciso apagar o cigarro, me levantar, ir até ela. Estragar a pintura, tela abençoada, pecado imperdoável. Beijá-la de maneira doce e delicada, com pitadas de ódio e indignação. Tomá-la em meus braços, saboreá-la, amá-la como nunca fora por homem algum, digo convicto. Vida triste a dessa menina. Lembro, coisa de minutos atrás, dela dizendo que eu era tudo, enquanto eu a engolia com minha boca voraz, que seríamos felizes para sempre, enquanto o coito se tornava mais e mais violento, que estava grávida, carregando meu filho em seu ventre, enquanto eu ia me desfigurando.

 

Tudo junto, nem sei direito, quem sabe? Apertei seu pescoço, fino, frágil, perfeitinho. Ela achou um tesão, pediu mais. Vem pra mamãe, vem. A dificuldade de respirar a excitava. Que delícia o toque bruto de minhas mãos naquele pescocinho de bronze, que visão do paraíso aquele colo, me chamando, bicos duros, apontados rijos pra minha boca, mamadeiras do nenê, água de coco em canudinho. Ela apertava o travesseiro com a força de uma leoa. Por um instante pensei em matá-la, ali, no gozo, estrangulando-a, mas sou covarde demais pra isso. Nunca consegui nem matar mosca, são muito rápidas pra mim. O que importava naquele instante era o prazer, não o ódio por carregar um futuro bastardo. De repente eu fiquei cego, ela sorriu, eu apertei seu pescocinho, ela morrendo de prazer, eu confuso, ela desmaiou, eu continuei apertando, ela estava tão linda, o sorriso continuou, nunca fui tão forte, que loucura. Ela foi jogando sua língua matreira e sabida pra fora da boca, de lado, achei uma cena maravilhosa, digna de fotografia, olhinhos virados, pele roxa e ela ainda sorrindo... A mão largou o travesseiro, a leoa não mais estava lá. É, foi assim. Agora me afasto do espelho, volto ao presente, vou até a cama, me aproximo e a olho com amor puro e incondicional. Tudo que eu quero é o seu colinho de mamãe, mesmo que esteja mais geladinho. Em nossas vidas não há espaço para dois nenês, só um, só eu. Saiba, meu amor, que sou tão vítima quanto você. Mas pus um fim em nossos problemas, nos seus problemas e nos meus... quer dizer, mais ou menos, pois agora eu preciso arrumar um jeito de me livrar do seu corpo.

 

Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras. Visite seu finado blog.

Escrito por Blônicas às 10h29
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- E segunda-feira ninguém sabe o que será

De Xico Sá.

 

Condomínio atrasado, débito automático que não responde, prestações na salmoura dos juros altos, amores correspondidos só pelas beiradas e metades, costuras pra fora, frilas, demandas, segundona de São Paulo, respiro chumbo por cima e bala perdida por baixo, correspondência de tantas semanas, e na bagunça do meu outlook o coração errou de vez e se perdeu, escreveu não mandou, mandou, se arrependeu...

 

Extrato para simples conferência, o banqueiro me engole no cheque especial, o telefone toca, desculpa, foi engano, nunca aquela moça com quem nadei no seco, depois o credor, a fiança, o bina me livra do pior, esqueço, vou dar uma volta, o celular me segue a perturbar o juízo, não entendo, preciso ir no meu terreiro, dançar com os deuses que dançam.

 

A segunda, principio de todas as coisas reais no quengo, o regime, os quilos, o colesterol,  a imersão no francês sempre adiada, de noite a festa, o Junior Barreto no Grazie a  Dios, “se vê que vai cair deita de vez, ô nego!”, os amigos queridos na pista, a coreografia linda de Petra, e tudo mais fica pra depois, e talvez esse seja o lucro da vida, não obedecer a todos os pedidos nem aos gritos mais internos...

 

“Sossega, o amor é assim mesmo, hoje beija, amanhã não beija, depois é segunda-feira e ninguém sabe o que será...”

 

Boto lá Goran Bregovic, bem alto, com Iggy Pop, Arizona Dreams, já em casa, abro as janelas, solto a fumaça pra responder aos canos de escape que soltam monóxidos lá fora, aumento o volume, faço novas promessas de amor, lua de mel, reservei o sarapatel em Salvador... Mentira!

 

O não-cumprimento das coisas talvez seja o que se leva de bom dessa vida, o não-estrago demasiado da caveira, a mais-valia que fica de sobra n´alma, será?  No creio, creio, toca a campainha, recreio. Não se estrague, não faça agora o que você pode deixar pra São Nunca, de tarde.

 

Acordar às 6 horas. Acordo às 10, risco a promessa, ponho lá: acordar quando der... A vida é só um truque de caneta na agenda...

 

Agonia de segunda, mas vai chegando a tardinha, não fiz nada, me adio pra terça, e nem morri por isso... Chove, saio sem guarda-chuva por isso mesmo, e vejo as contas a serem pagas derretendo na chuva, que lindo, me sinto naquele filme do Frank Capra, felicidade não se compra, e vou me molhando, como diante dela, no sexo, e vou gozando na buceta das ruas e do mundo, água renovada na sarjeta, que daqui a pouco terá a lua e o crime, menina, vamos tomar um doce, pois a crônica sozinha, sozinha esmoreceu, esmoreceu, caiu na tentação da prosa poética, `cabou-se.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras e avisa que já está nas livrarias a segunda edição de seu “Modos de macho & Modinhas de fêmea” (editora Record), com crônicas sobre a educação sentimental do homem. 

Escrito por Blônicas às 10h52
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- Juarez contra 007

De Edson Aran.

Com dedos ágeis e precisos, James Bond digita os números do telefone. Toca, toca e ninguém atende. O agente secreto tenta de novo. Nada. Na terceira vez, uma voz grave e ríspida responde: "Eita, cacete de telefone da porra! Alô? Autoelétrica, funilaria e mecânica do Juarez a seu dispor, bom dia."

"Bom dia, Juarez. Aqui é Bond. James Bond."

Há uma breve pausa. Quando o silêncio começa a incomodar, a voz grave do outro lado continua: "Ah... oi, seu Jáime. Tudo bem com o senhor?"

"Não, Juarez, não está nada bem.", responde o agente com licença para matar. "Você não me prometeu o carro pra quinta-feira? Hoje é terça, Juarez, terça! E até agora nada!". Outra pausa.

"Ah... sei... é o Aston Martin, né, seu Jáime? Sabe o que é, seu Jáime, esse carro do senhor tá cheio de problema. A parte elétrica tá toda em curto. Não tá fácil não."

"Eu sei, Juarez. Foi por isso que eu levei o carro aí."

"Pois é, seu Jáime, mas o senhor podia ter avisado que tinha metralhadora atrás do farol dianteiro. O Mirtinho, um rapaz que veio lá de Minas, foi consertar a seta, tava tudo em curto, a metralhadora disparou e acertou o Juvenal, que tava lá atrás. O Juvenal é um moço que veio do Ceará. Moção bom, seu Jáime. Trabalhador, só vendo. Mas sem o Juvenal aqui, o serviço atrasou tudo."

"Olha, Juarez, eu entendo o seu problema, mas eu preciso do carro. Tem um milionário megalomaníaco chamado Eric Blowjobber querendo jogar uma bomba atômica em Londres, Juarez! Eu preciso impedir isso até amanhã, Juarez!". Longa pausa.

"Juarez? Você está me ouvindo?"

"Pois é, seu Jáime, mas o problema não é só o Juvenal. O Mirtinho ficou preocupado quando a metralhadora disparou, aí ele quis sair do carro correndo, o assento ejetor disparou e jogou ele pra cima. O coitado do rapaz atravessou o telhado aqui na oficina e ele foi cair na lavanderia do china aqui do lado. E agora o china quer que eu pague a lavagem das roupas que o Mirtinho sujou, seu Jáime. O senhor devia ter feito essas modificações numa autorizada. Quem fez essa porcaria no carro do senhor, seu Jáime?"

"O ‘Q’."

"Quem fez essa porcariada, seu Jáime? No carro?"

"O ‘Q’!"

"A porcariada, seu Jáime, a porcariada! O senhor, além de gringo, é surdo, caralho?"

"Ô Juarez, você me respeite, eu sou estou a serviço da Coroa..."

"Ah, eu pensei que o carro era do senhor mesmo. Nesse caso, diz pra coroa aí que tá tudo enrolado e depois eu te pago uma cerveja."

"Juarez, eu preciso desse carro!"

"Eu tô sem mão de obra, seu Jáime! Caralho de gringo chato da porra!"

O agente respira fundo e conta até 10: "Olha, Juarez, cada um com seus problemas. O meu é reaver uma ogiva nuclear roubada e impedir a terceira guerra mundial. O seu é consertar meu carro, you bastard! Dá pra ser ou tá difícil?"

"Olha aqui, seu Jáime, não precisa engrossar comigo não. Se o senhor não tá satisfeito, pode pegar o carro e levar pra outra oficina. A gente teve que desmontar, então vai demorar um pouco. Mas se o senhor não tá satisfeito, eu monto ele até sexta que vem."

"Sexta que vem?! Sexta... Tá bom, Juarez, tá bom. Minhas apologias. Quando é que fica pronto o carro?"

"Deixa eu ver... hoje é terça? Na sexta, sem falta, seu Jáime. No mais tardar na segunda tá na mão do senhor."

"Segunda, Juarez?"

"Garanto pro senhor, seu Jáime."

"Tá bom... segunda, então...", resigna-se o agente e desliga o telefone.

Impossível. Na sexta, Blowjobber já teria lançado o foguete nuclear da sua base secreta na floresta Amazônica. Londres culparia Pequim e retaliaria. O mundo estaria em chamas antes do final de semana. O jeito era esquecer o Aston Martin e ir ao encontro do vilão de outra maneira. James Bond faz uma nova ligação.

"Meu nome é Bond. James Bond. Preciso de uma passagem área para Belém do Pará."

Uma voz feminina responde: "Pra quando seria?"

"Hoje, minha senhora, hoje!". Longa pausa.

"Senhor, nossos vôos estarão todos sendo cancelados até o final desta semana. Nós estaremos tendo um problema com duas aeronaves que vão estar sendo consertadas até domingo. O senhor gostaria de estar reservando uma passagem para segunda?"

Edson Aran é cronista do Blônicas. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 17h42
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- O Blônicas está me fazendo mal

De Henrique Szklo.

 

Ou bem, depende do ponto de vista. Antes dele, levava o meu trabalho pessoal com solidão e isolamento. Me considero um eremita vocacional e não escondo que a proximidade com as pessoas me aflige um pouco. Quando recebi o convite generoso para participar desta verdadeira confraria cultural, confesso que o aceitei apenas por acreditar que precisava de um pouco de companhia, mesmo que fosse apenas virtual. Precisava parar de fazer as coisas sozinho e devia me preparar para o convívio humano. Pelo menos às sextas-feiras. Me surpreendi com os nomes convidados e me senti privilegiado em estar participando de um projeto tão promissor. Muitos dos meus companheiros aqui do Blônicas eram ilustres desconhecidos para mim, como certamente eu o era para eles. Ocorre que o tempo foi passando e eu comecei a sentir um estranhamento, um incômodo persistente, como um zumbido que não passa nunca em seu ouvido e que não lhe deixa dormir. Em alguns casos provoca até a loucura. Meus pares neste blog são muito melhores que eu ou, na pior das hipóteses, são tão bons (ou ruins, depende, mais uma vez, da referência) quanto eu. Eu, que sempre sonhei com um lugar no olimpo, que, em meu isolamento patológico, vivia prometendo a mim mesmo glórias futuras e reconhecimentos unânimes. Eu que nunca desejei nada menos do que a imortalidade, nunca admiti pra mim mesmo a possibilidade insuportável de ser apenas mais um. Mais um que escreve, mais um que faz humor, mais um que se acha o rei da cocada preta, ou como ouvi outro dia, a balinha que matou o Kennedy. Este blog está me dando duras provas de que todos esses meus devaneios de glória e celebridade não têm o menor fundamento na realidade, não fazem sentido nem em sonho e só podem ser alguma brincadeira do destino. Não, eu não sou e jamais serei aquilo que sonho. E mesmo sabendo que isso não tem importância nenhuma, me abate. Tenho pensado muito em um poema do Fernando Pessoa que eu gosto muito e que diz exatamente isto. “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” E por aí vai. Fala exatamente desta viagem do autor de querer atingir os píncaros da glória, mesmo sem se atribuir talento para tanto. “O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.” Esse é daqueles poemas que parecem que foram escritos especialmente pra gente, que o autor nos observou atentamente e resolveu escrever sobre nossas vidas. “Génio? Neste momento cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, e a história não marcará, quem sabe?, nem um...”

Por outro lado, quem sabe este sentimento que me assalta não seja positivo? Quem sabe se esta súbita e cruel consciência de minhas limitações não me faça um escritor mais profundo, mais intenso, mais qualificado? Quem sabe eu não me transformo num escritor melhor? Melhor que os outros? Oba!

 

Henrique Szklo é cronista do Blônicas e convida a todos para o lançamento de seu livro "Minutos de Estupidez", terça-feira (22/03), a partir das 19:30h, no Bar Balcão - Rua Dr. Melo Alves, 150 - Jardim Paulista - São Paulo. Pegue seu convite.

Escrito por Blônicas às 11h29
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18/03/2005 - Who's your daddy?

De Lusa Silvestre.

 

Nunca entendi direito porque nos filmes pornôs, instados pelo calor da jogada, os atores soltam um "Who's your daddy?" pra empolgar a parceira. Imagino que, se eles dizem nas cenas mais inspiradas, é porque deve acender algum relê na moça ainda não catalogado pela Unicamp. E não é que eles falam na lanchonete, passando manteiga de bolinha no pão francês. Necas: O "Who's your daddy?" vem na hora do vamovê, no auge do dois-vira-quatro-acaba. Algo como chegar pra uma brasileira e falar "Faz de conta que eu sou o Rodrigo Santoro!" no momento que o céu começa a cair e a terra vira gelatina de mocotó Colombo.

Agora, catso, porque justo o lance com o papai? Não faz sentido. Mesmo as mulheres com bodas de prata nas costas escondem do pai que já fizeram o mais popular dos esportes. Pra quê, Deus meu, pra quê trazer a família pra discussão? Bom, a não ser que seja pra atrasar o ponto final da história. Isso, sim, eu entendo: pensar na tia Palmira pra não dar o nosso tirinho prematuramente. Mas isso tem razão de ser pra nós, homens, que temos um cartucho na arma a cada hora. Pras mulheres, tanto faz. Aliás, no que diz respeito aos homens, chamar o pai pro jogo é mexer num vespeiro psicológico que pode muito bem esfriar o frenesi do teretetê, e portanto, dificultar o acesso dela aos acme do ato sexual. Coisa que, realmente, não queremos; ninguém aqui tem dezoito anos ou é assinante de Viagra pra ficar horas a fio suando.

Daí eu pergunto: e o que os americanos entendem de cópula, de assanhamentos e descarações? Eles têm que tocar repenique uma hora e meia com a Luma peladinha ali na frente tremelicando? Eles inventaram o maiô fio dental? Eles passam água oxigenada na coxa, barriguinha e região? Eles tomam Caracu com ovo? Eles vão no Praia do Pepê? O que eles entendem do assunto? Então: tanto quanto de Iraque.

Uia ! Chamei Abraham Lincoln de empadinha.

 

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas e fã de uma Caracu com ovo.

Escrito por Blônicas às 11h27
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- O crime do padre Eulálio

De Castelo.

 

Não dá outra. Se um cara nasceu no Piauí, ele foi educado debaixo do cristianismo.

Você conhece, por acaso, algum piauiense muçulmano?

Já viu um vaqueiro usando quipá?

É bom que se diga: o fervor papista do piauizeiro não é esse catolicismozinho diletante de agora.

O cabecinha chata passa por uma lavagem cerebral apostólico-romana linda de Deus.

As más línguas dizem até que o sucesso dos Evangelhos no Meio Norte se deu porque a única refeição que os sertanejos faziam era hóstia: com farinha, é claro.

Até meus sete anos eu respeitava mais a Igreja do que um afiliado do Al Qaeda venera o mulá Omar.

Deus pra mim era divino mesmo, não o Antônio Fagundes de barbas brancas.

Pra completar esse quadro metafísico, meus pais despencaram no Sul Maravilha e continuaram praticando os mesmos rituais de lá.

A saber, missas de domingo, confissões, “pedir-a-benção” e rosários apressados em casos de emergência.

E em nossa família ainda havia um “plus”. Manteve-se a tradição dos tataravós de alimentar e hospedar um padre-viajante em casa.

Isso vinha de longe. Os cônegos e bispos, levando a palavra de Deus aos confins do sertão, eram recebidos pelos meus ancestrais à base de leitoa, capão e bode assado. Com farinha, é claro.

O padre Eulálio adentrou em nosso modestérrimo apartamento da Lapa de Baixo em nome da mesma tradição. E veio estiloso do Norte. Uma batina de primeira, com aqueles colarinhos roxos saindo do santo pescoço e um tipo de anágüa surgindo quando ele cruzava as beatas pernas.

Ao vê-lo surgir no meio de nossa sala e benzê-la, não tive mais dúvidas: Deus existia, eu me sentia bem e um dia seria papa.

(“Monsenhor Castelli, está vendo a fumaça branca? O senhor agora é Carolus I, o primeiro papa piauiense da história da Igreja. Oremos….”)

Nem é preciso dizer que comeu-se à tripa forra. Minha mãe fez um empréstimo no Banco do Brasil, mas serviu do bom e melhor. Lembro-me até que saiu o raro doce de

casca-de-limão, fina receita em homenagem à imperatriz Teresa Cristina, padroeira do Piauí.

Depois do licor de jenipapo, padre Eulálio bocejou discretamente. Mamãe foi rápida:

- Sua cama está preparadinha no quarto do menino.Vá, meu filho, leve o padre pra dormir mais você.

Dividir o quarto com padre Eulálio era como dormir com um daqueles apóstolos que eu só via nas iluminuras de catecismo.

Sentei-me à beira da cama e fiquei admirando o cura tirar a batina - que classe eclesiástica!

Já de cuecas, ele se ajoelhou (fiz o mesmo) e rezou um pai-nosso em voz alta.

Persignamo-nos.

Apaguei a luz.

- TREEEIMMMMMMMMMMMMM!! PSSSH!! TREIMMMMMM!!! PSSSHH!

Santo Deus, não acreditei no que ouvi em plena treva. Padre Eulálio peidara!

Mas não havia sido uma emanação de gases qualquer. Aquele tinha sido o traque mais espetacular que eu escutara em minha curta vida. Esperei alguns segundos para ver se viria algum comentário.

Silêncio.

Padre Eulálio tinha virado para o lado e dormido.

E eu tinha virado ateu e perdido o sono.

 

Castelo escreve no Blônicas às quintas. É papista por tradição e ateu porque Deus quis. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 12h56
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17/03/2005 - O carro ao lado

De Leo Jaime.

 

Sete da manhã e já estou na rua em busca do ganha-pão. O trânsito é lento, faz com que alguns carros me acompanhem por boa parte do trajeto. Vou da Barra até Botafogo,  no mínimo quarenta minutos. Ao meu lado, observo um carro em especial. Dentro dele, parte deste tempo e caminho, um casal vai quebrando o pau. É uma guerra. Sete da manhã e ela grita e movimenta os braços freneticamente. Quer ganhar a discussão, é evidente, ou simplesmente fazer parecer aos outros que, como eu, assistem à cena que é ela quem tem a razão. Como se isso diminuísse sua dor. Como se algo melhorasse instantaneamente. Como se nas contas de amor houvesse lucro ou perda de uma só das partes. Dança-se o tango.


Fiquei imaginando a noite anterior daqueles dois. Ele estava possesso, mas sua tentativa era a de cortar o papo, conversar não adiantava. Virava o rosto, tentava freiar o assunto, queria estar em outro planeta. Ela usava a língua como metralhadora e não ficava um segundo sem atirar, com medo de dar a brecha e ser varada pela bala fatal. Todos condenam o tapa na cara, a bolacha, o corretivo braçal. A tortura psicológica, emocional, feita pelo inimigo íntimo, esta é comum no uso doméstico. Pais, esposas, irmãos, todos lançam mão.  As marcas ficarão para sempre na alma, e isso não pode ser comprovado pelo IML. Não dá processo e vizinhos não vêem. E iam os dois magoando-se. A noite anterior nada tinha  a ver com aquilo. Aquela dor era antiga, ancestral.

O sol impunha-se nesta manhã, indiferente. E meu peito, apunhalado por esta cena, sangrou tristeza por todo o dia. Cheguei em casa e vi a Nara, minha gatinha, com o Punk, seu filhote, adormecidos no sofá. Abraçadinhos como  namorados. Cúmplices de um amor irracional. Em paz.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 12h50
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- Por um triz

De Rosana Hermann.

 

Você diz que dá esmola para crianças no semáforo, eu digo que você não deveria. Você quer saber por quê acho isso, eu explico que a esmola vai para o pai-de-rua e alimenta a exploração infantil. Você argumenta que nem sempre é assim, que vale a pena correr o risco para que uma criança faminta ao menos pegue o dinheiro e compre um pão. E assim vamos com nossa argumentação, saudável discussão, que pode terminar com um brinde à vida na mesa de um bar ou num balcão. Isso, na vida real. Mas na rede, não.

 

Na Internet, o distanciamento físico, a substituição do olho-no-olho pelo olho-na-tela-tela-no-olho, o anonimato garantido, podem transformar a menor divergência de opinião num ataque bélico que vai da ofensa pessoal à praga familiar, passando pela ameaça à integridade física e tentativa de invasão do seu computador. A impressão que se tem é que no mais democrático dos meios de comunicação, aquele que não depende de concessão governamental ou de dinheiro público, não se pode ter liberdade de expressão sem pagar o preço da tentativa de destruição. Porque há assuntos que não podem ser comentados.

 

Falar do papa, por exemplo, é polêmica na certa. Milly Lacombe que o diga. Não pode falar do papa, da igreja, da religião. Em nome de D’us e da vida um monte de gente estará pronto para matar você com as próprias unhas pintadas à francesinha. Não pode criticar instituições ou unanimidades, como a Globo, a novela das oito, o Big Brother ou a Xuxa. Experimente criticar a Xuxa para conhecer a ira virulenta de mulheres que sonhavam em ser paquitas prontas para furar seus olhos com a seringa de botox. Não se pode falar de carnaval, axé, música sertaneja, muito menos do Roberto Carlos. Se você é mulher e discorda de uma mulher bonita, você é despeitada. Se você elogia a mulher bonita você é sapata. Se você critica um milionário, é invejoso. Se critica um pobre, é cruel. Se o criticado pertencer a qualquer minoria, mesmo que você não se atente para isso, você é preconceituoso. É incrível mas nesta vasta muralha da China onde milhões de equilibram esperando que a mídia os conduza para a próxima opinião, ter e divulgar uma postura pessoal e um ato de sincericídio rumo a destruição.

 

Talvez porque a equação peculiar da rede ligue duas coisas impensáveis no mundo real, o anonimato e a intimidade. Assim, o mesmo fã que via o cantor na tv sem que o artista soubesse de sua existência, passa a freqüentar seu blog, materializa-se num nick, sente-se íntimo e na primeira oportunidade em que for contrariado, transformará o desequilíbrio da idolatria em ódio. Muita gente no Brasil usa o Orkut não como uma rede de relacionamentos pessoais mas como instrumento de vingança. Fulana publica algo com o qual o internauta discorda e ele imediatamente abre uma comunidade no Orkut ‘eu odeio fulana’, ‘fulana é vaca’, e daí pra baixo.

 

Pode ser que esse movimento resulte em um novo aprendizado, uma diminuição dos egos, um fortalecimento do caráter diante das virulências. Pode ser que algumas pessoas desistam de seus diários, mudem de email, percam o tesão pela rede. Pode ser que tudo vire um campo de guerra catártico para seres que precisam de uma personalidade alternativa atrás de um nick para agredir e detestar. Pode ser. Mas uma coisa é certa, não importa sua origem, cor, orientação sexual ou credo: sagrado é o direito de se expressar, da mais primitiva pintura rupestre ao mais elaborado avatar.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h55
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16/03/2005 - Acidente

De Milly Lacombe.

 

Quando viu o caminhão vindo na direção de seu pequeno automóvel já sabia que estava frito. Na melhor das hipóteses, despencaria serra abaixo. Na pior, seria esmagado por aquele monte de metal. Curioso que tenha tido tempo de pensar em tudo isso enquanto pisava histericamente no pedal do freio. E ainda conseguiu lembrar dos irmãos brincando na praia no Guarujá, da voz da mãe mandando ele lavar as mãos e sentar na mesa e do casamento marcado para o fim do mês. Ao fechar os olhos e endurecer todos os músculos esperando pelo choque medonho, foi surpreendido pela absoluta falta de gravidade. Não houve barulho, nem porrada, nem dor. Era isso? Ele escapara? Que puta sorte. Nessa hora, sentiu alguém com as mãos em seu ombro. Que doideira: Lá estava seu irmão mais novo, que morrera de câncer aos dez anos. Abraçaram-se e passaram uma eternidade sorrindo até que o irmão falou:

- Vamos?

- Vamos pra onde?

- Para o outro lado.

- Que outro lado? Cadê meu carro? O que aconteceu?

- Aconteceu o pior. Ou o melhor, dependendo do ponto de vista: Você morreu.

- Morri e tô aqui falando com você. Que diabo?

- Eu vim te buscar. Você entenderá tudo do lado de lá. Vamos?

- Eu não quero ir pra lado nenhum. Quero voltar.

- Não tem volta, João. Não agora. É hora de conhecer o sentido da vida e da morte.

- Você tá querendo me dizer que estou prestes a ser julgado?

- Não exatamente. Vamos e você vai ver.

- De jeito nenhum. Não vou.

- Olha só: você nasceu chorando e morreu sorrindo. Sacou? Não precisa ter medo.

- Rafael, eu só fiz besteira minha vida inteira. Não posso ser julgado, vou me foder.

- Já disse que não é assim que acontece. Não posso te explicar mais nada enquanto ainda estivermos desse lado.

- Por que? Eu só vou se você contar o que vai acontecer do outro lado.

- Seus cinco sentidos não são suficientes para entender o lado de lá. É preciso cruzar a fronteira, ganhar novo status. Mas garanto que você vai ficar bem. Todos ficam.

- Todos? Assassinos? Pedófilos?

- Todos. Não vai acontecer nada.

- E se eu contar que traí a Gabriela pelo menos uma dúzia de vezes, que transei com o Guto no colégio, que paguei para a Leticia fazer um aborto de um filho que seria meu?

- E daí? Tudo bem.

- Que me masturbava pensando na tia Cecília.

- Quem é a tia Cecília?

- Amiga da mamãe.

- Aquela de pernas longas e olhos verdes? Rafael, por mulheres assim até os anjos se masturbam.

- Eu não quero ir para o inferno. Eu só tenho 30 anos. Minha alma tem salvação.

- O inferno eram mesmo os outros, João. Sartre estava certo. Do outro lado não existe isso. Nem pecado, tudo bobagem.

- Com o que tenho que me preocupar então?

- João, você amou?

- Amei.

- Demonstrou?

- Nem sempre.

- Foi amado?

- Acho que sim, sei lá.

- Soube apreciar esse amor?

- Às vezes.

- Bom, teria sido melhor que você tivesse amado mais, demonstrado mais, apreciado mais. Só tem uma coisa que deixa os caras do outro lado meio putos: encontrar uma alma que tenha feito pouco caso da maior das criações Dela: o amor.

- Viu? Tô ferrado.

- Deixa de ser ridículo. Já disse que isso não existe. Vamos?

- Um último pedido? Eu preciso ver o jogo do Timão essa tarde. Por favor.

- João, presta atenção: do lado de lá, até Paulo é corintiano. Além do que, a vista do Pacaembu é qualquer coisa. Agora podemos ir?

Escrito por Blônicas às 11h34
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- Congelamento de corpos: daqui a pouco, nem morrer pode mais

De Nelson Botter Junior.

 

Já não é de hoje que morrer é um grande negócio. Basta conversar com um dono de cemitério, funerária ou o pessoal da floricultura. Isso sem falar no governo, que sempre arruma um jeitinho de abocanhar nosso dinheiro, seja aqui ou no além. Mesmo depois de morto, o Estado continua sendo seu sócio majoritário. E nesse contexto de business pos-morten, uma notícia me chamou a atenção: a moda de congelar cadáveres está voltando nas terras do Tio Sam.

 

É isso aí, a coisa toda me parece uma grande fria, mas se a moda pegar por aqui também, quando morrer, em vez de ser comida de minhoca ou queimar até virar carvão de churrasco, você vai se transformar em sorvete! E tem mais: você pode escolher congelar seu corpo inteiro, só a cabeça ou então apenas o cérebro. Tudo isso sem o perigo de pegar um resfriado. Que maravilha! E vale dizer que o marketing dessas empresas é muito bom, pois garantem os melhores preços do mercado, além de afirmarem que um dia a ciência descobrirá uma maneira de curar a doença que levou a pessoa congelada à morte. Ah, não acaba por aí: vão descobrir um jeito de descongelar você! Éééé!

 

Quanto você pagaria por tudo isso? Não responda ainda, pois o melhor vem agora: você ainda ganha uma ressurreição totalmente grátis! Isso sem falar no implante de cabeça ou no transplante de cérebro. Doutor Frankenstein na área! Só depende do pacote escolhido pelo freguês, que vai do plano básico até o pacote luxo, com geladeira duplex individual cinco estrelas, tendo direito a um pingüim em cima e uma imagem de São Tomé (que não é o das letras, apesar da coisa ser muuuuito louca).

 

Para ser um associado do frigorífico humano, você primeiro faz o chequinho da matrícula que vai de 80 mil dólares (nesse caso é só a cabecinha, amor) até 150 mil dólares (corpo inteiro). Você paga essa quantia antes de morrer, claro, além de uma taxa anual de uns 400 dólares até a sua morte. Depois que você bater as botas acabou, não precisa pagar mais! Ah, vale avisar que estudante nesse caso não paga meia. Bom negócio, hein? Pelo menos os familiares não vão te dar uma gelada antes da sua morte, pois vai que você resolve aparecer depois de alguns anos de falecido. E dizem que os necrófilos é que vão adorar: comida congelada. Tudo sem perigo de intoxicação, pois não vai formol na receita. Basta colocar no microondas e "voilà"!

 

É mole? Fico aqui petrificado, só imaginando como deve ser ótimo estar congelado ao lado de cérebros “on the rocks” tão iluminados e bem utilizados, que em vida se dispuseram a pagar tão caro por esse fantástico serviço. Fora isso, tem também o status de você fazer companhia a ilustres personalidades congeladas, como Walt Disney e Austin Powers.

 

Na verdade, acredito que a versão tupiniquim será um pouco diferente, pois abrir empresa aqui é complicado, burocracia dos invernos, ainda mais para negócios onde os preços também devem ser congelados. Aqui a coisa vai ser mais simples, sem calafrios na barriga, mantendo a tradição do cemitério. Como não somos o Canadá e estamos longe do Pólo Norte, provavelmente os corpos serão enterrados na região mais fria do país, mais precisamente na serra de Santa Catarina, em São Joaquim e Urubici, para permanecerem congelados (pelo menos até o verão). Não precisa nem gastar com segurança, basta por um boneco de neve lá, no melhor estilo espantalho. O Procon que se prepare, vai nevar reclamações!

 

Quer pagar quanto? As Casas Bahia vão vender congelamento em 36 vezes sem juros no carnê. O Samuel enxerga longe! Pensam que só rico vai virar cubo de gelo? Pois é, esse papo de congelamento é sério, no duro, coisa de visionário, melhor que vender terreno na lua ou no céu. É só a ponta do iceberg. Seremos sorvetinhos humanos, com ou sem palitinho. Se eu fosse a Kibon, Yopa ou a Haggen Daz começava a ficar preocupado.

 

Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras e congelou seu finado blog (vai que um dia ele ressuscita...)

Escrito por Blônicas às 11h14
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- Oração à Nossa Senhora dos que Amam Sozinhos

De Xico Sá.

 

Nossa Sra. Dos que Amam Sozinho, perdoa-me pela insistência, nem mais é por tanto quere-la, é por deixar claro, nega que sopra das intimidades dessa oração, que só ela me faz passar da conta, perversa, cair no abismo mais lindo do gozo sem volta, como naquele encosto de beira de estrada, como na rodovia estrangeira de Sam Shepard, crônicas de motel, simbora

 

Nossa Sra. Dos que só pensam Nela, cotovelos lanhados de tanta espera, tantos sustos nas ruas, nos bares, “é ela!!!”, Nossa Sra. Dos Cotovelos da Surpresa e das janelas, tão gastos, cinzas, peles, dobras, e tanta fome de viver aqui dentro, megalomaníaco, épico, terá sido a força do desprezo???

 

Não creio, velho Moravia.

 

É mesmo a paudurescência, nostalgia precoce das grandes fodas, o tempo inteiro, pensando, pensando, pensando, mas no fundo gostas!

 

O pau lanhado de tantas punhetas monotemáticas!

 

Nossa Sra. Da Buceta Alongada que Consegue Apertar a Pica como se Fosse a Coisa Mais Sagrada.

 

Nossa Senhora!!!

 

Paudurescência sem viagras ou pílulas milagrosas.

 

Paudurêscência por tê-la, rara.

 

Chupar delicadamente aquele cuzinho como um cristão que dissolve na boca uma hóstia.

 

Chupar a buceta por horas, riachinhos d´águas que não se sabem donde, cada cantinho dum mapa que inventou-se só pra se perder depois, sentimento é a verdadeira bússola dum homi, perdido docemente lá embaixo, lá embaixo, daquelas tuas vestes modernas que nunca te escondem.

 

Lua cheia, pau crescente.

 

Caralho.

 

Oxe.

 

Escuto Lê Déserteus, Boris Vian, leste?.

 

Nossa Senhora deste pobre Nordestino de Pau Duro.

 

Nossa Senhora dos que só pensam naquela gostosa que encontrei certo dia à margem esquerda do Capibaribe. Nossa Sra. Dos que só pensam naquela gostosa que encontrei certo dia no Baixo Gávea, Nossa Sra daquela gostosa que levei ontem pra casa. Nossa Sra. dos que pensam naquela gostosa que vi por acaso na estação Paraíso, SP, metrô!

 

Nossa Senhora dos que fodem muito e amam sozinho, Nossa Sra. Dos que amam, perdoai os que apenas fodem, os que apenas gozam, gostam!!!!

 

Xico Sá é cronista do Blônicas e estará amanhã, dia 15/03, num debate-papo com outro blônico, Antonio Prata, no Sesc Consolação em SP, às 20 horas.

Escrito por Blônicas às 12h20
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12/03/2005 - Você acha que o mundo vai acabar?

De Evandro Daolio.

 

Depois de mais um dia de trabalho, envolvido com pedreiros que me deixam maluco em uma obra que estou fazendo; colando alegremente azulejos tordos, fazendo paredes tortas, nivelando portas tortas, estragando granitos, quebrando vidraças, despencando e arrebentando caixas d´água, fixando vigas em lugar errado, indo embora cedo, não conseguindo fazer um buraco de ralo em um azulejo sem quebrar uns 30 antes e enfim, me deixando maluco, resolvi ligar a TV e assistir as últimas tragédias. Mas algo incrível e inusitado aconteceria em minha vida...

Começou quando ouvi a notícia de que a Rússia colocou fim ao embargo da nossa carne. Pensei: —Bom... Muito bom...

Logo em seguida o jornal comentou de uma espécie de super-herói novo do congresso, um tal de Severino, que ele tinha voltado atrás em sua decisão ridícula de subir ainda mais o altíssimo e absurdo salário dos deputados. Eu havia escutado sobre isso de manhã no rádio e fiquei revoltado, xingando sozinho, no trânsito. Mas pelo que vi, não somente eu fiquei inconformado.  Eles receberam um turbilhão de mails revoltados no congresso. Ou seja, notaram que não agradariam muito uma população já cansada dessas palhaçadas e resolveram ficar quietinhos, quietinhos... pelo menos naquele dia (sei que vão tentar por outros meios).

Pensei: —Bom... Muito bom...

Aí vieram os comerciais e fiquei esperando as notícias ruins. O jornal volta e aparece um fiscal da prefeitura em uma fila de banco em Salvador. Aguardou 15 minutos olhando no relógio, saiu da fila e multou a agência em R$ 200,00. Na próxima, fecha a agência. Isso porque lá (e em breve isso vai se alastrar pois já ouvi muito gente comentando que gostou da idéia), foi aprovada uma lei que ninguém pode ficar mais de 15 minutos na fila do banco. Resumindo: que os banco contratem mais gente. É uma vergonha você ir ao banco, com o lucro que eles têm, e ver cinco ou seis caixas vazios. Que se virem! Pensei: —Bom... Muito bom! Finalmente! Palhaços!

E para completar, fim da consumação no estado de São Paulo. Não... isso não! Aí já é notícia boa demais. Logo eu que já gastei mais de dez mil reais em consumação procurando a mulher da minha vida, quebrado a cara em bares, discotecas, festas, navios, feiras, encontros às escuras e tudo mais...  Isso é bom demais!!

Mais um comercial e esperei a notícia ruim. Sei lá... quem se explodiu mais uma vez no oriente, o Bush fazendo arte, tudo como sempre.

“Aprovado pelo congresso o uso das células-tronco... Severino... absteve-se blá...blá aprovando o uso dos trangênicos”, e no rabo do cometa tudo o que você imaginar de não-sei-o-que-lá-gênicos também.

O fato é que alguém esperto aproveitou-se da confusão dos deputados  considerarem tudo o que acaba com “gênicos” a mesma coisa, colocando tudo na pauta para ser aprovado ao mesmo tempo. Na confusão aprovaram. Não era essa a intenção dos governantes, mas mesmo assim finalmente tiraram o Brasil da pré-história e salvarão milhares de vidas em conseqüência dessa aprovação.

—Meu Deus do céu. Que bom!! Jesus, Maria, José... que bom...

Mas de repente, senti um frio na barriga e o medo me assolou... Eram muitas notícias boas. E comecei sinceramente a ficar assustado... Por que tanta notícia boa? Que esquisito? Acho que está acontecendo alguma coisa errada...

Abri a janela da sala e olhei para o céu. Estrelado! Em São Paulo, o céu nunca está estrelado! Conheço amigos meus que só viram estrelas em filmes.

E a TV continuava... “tropas Sírias começam a se retirar do Líbano...”

— Ai Jesus... Será que o mundo vai acabar? pensei comigo mesmo;

Nunca, jamais assisti a um jornal que só tivesse notícia boa. Isso não podia estar acontecendo. Comerciais...

Sentei-me em frente a TV e esperei minuto a minuto o jornal voltar. Achando tudo muito estranho. Será que um sinal? Não pode ser... O papa morrendo... ai... ai...

Quando já estava pensando em pegar minha agenda para ligar para o pessoal e me despedir, vem a notícia... “Dois três se chocam não sei lá aonde...”

— Ufaaaaaaaaaaaaa! — gritei de joelhos e com os braços para cima. Desabei aliviado no sofá... De repente meu irmão telefonou e berra arrancando os cabelos:

—Você viu onde os retardados cimentaram a viga da loja! Vai cedo ver amanhããã!

Desliguei o telefone e pensei: — Ahhhh bom. Tudo de volta ao normal.

E fui dormir feliz da vida. Que alívio! Quase achei que o mundo fosse acabar.

 

Evandro Daolio é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 07h50
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- Amor de guita é amor que fica

De Henrique $zklo

 

Não existe amor mais sincero, verdadeiro e profundo que o amor pelo dinheiro.

 

Amo o dinheiro. É a única e verdadeira paixão da minha vida. Nascemos um para o outro. Almas gêmeas, dirão os místicos. O dinheiro pra mim é tudo e um pouco mais. Uma linda história de amor que começou muito cedo. Eu ainda engatinhava quando meu pai chegou em casa com uma nota de cruzeiros novos. Bastou eu botar os olhos nela para imediatamente me levantar e dar os meus primeiros passos, triunfante, em direção a Santos Dumont. Foi amor à primeira vista. Olhos nos olhos do pai da aviação, esqueci meu próprio pai. O chapéu, o bigode, o olhar para o infinito, a raiva contida contra os irmãos Wright, o relógio de pulso, as orelhas que poderiam tê-lo feito voar sem o 14 bis... desde então não parei de me apaixonar. Tive  relacionamentos duradouros com Cabral, Tiradentes, Getúlio, Dom Pedro I e II, Deodoro, Castello, Barão, Rui Barbosa, Juscelino, Villa, Machadão, Portinari, Drummond, Câmara Cascudo (quem?) e muitos outros. Hoje sou par constante da família real brasileira.

Cresci aprendendo a apreciar as cores, os desenhos, a textura, o cheiro maravilhoso e inigualável do dinheiro. O inconfundível estalido de cédulas novas, o som das moedinhas caindo umas sobre as outras dentro de um cofrinho. Melhor ainda, o som do cofrinho sendo destroçado para o usufruto de seu precioso recheio. Aliás, foi com os cofrinhos que aprendi a apreciar a beleza interior.

Na puberdade, vivi aquele momento mágico que mudou minha vida para sempre. Foi quando pela primeira vez fiquei frente a frente com uma linda, escultural e deliciosa nota de dólar. Coleguinhas da escola haviam me falado sobre o assunto, mas estar ali foi extremamente excitante. Naquele momento inesquecível, aprendi a confiar em Deus, mas, principalmente, no tesouro americano.

Meu instrumento predileto é gaita. Pra mim, o melhor jogador de futebol sempre foi o Tostão. Meu time do coração era o Cruzeiro, mas com a chegada do Real fiquei sem time. A comida que mais gosto: o tutu. Minha viagem inesquecível foi um passeio pelo rio da Prata. A parte do corpo que mais gosto nas mulheres é a poupança. Sempre gostei de morar nos fundos. Minhas construções prediletas são os depósitos. Quando estava na escola, fazia questão de sentar no banco central e vivia querendo levar a carteira pra casa. Sempre adorei fazer boas ações, principalmente ao portador. Tentei ser poeta, mas sem conseguir uma rima rica, abandonei a pena. Meu signo é Libra (esterlina) com ascendente em Euros. E quando durmo não faço ZZZZZ, faço $$$$$.

Tenho saído constantemente com o dólar, com o franco, com o marco, mas nunca dispensei o dracma grego, o manat azerbaidjano, nem o ngultrum do Butão e muito menos o pa’anga de Tonga. Às vezes, até arrumo tempo para encontros fortuitos com o hryuna ucraniano e, Deus meu, o cuacha malauiano.

Dinheiro, money, argent, danaro, geld, dinero, kessef. Em qualquer língua, a grana é um poderoso mantra. Uma palavra mágica que abre todas as portas, reais e imaginárias. Quem tem dinheiro não pede por favor. Quem tem dinheiro não pede desculpas. Quem tem dinheiro não pede licença nem entra em fila, passa na frente de todo mundo. Quem tem dinheiro fala grosso. Quem tem dinheiro tem pinto grande. Quem tem dinheiro não tem depressão, não tem dor de cabeça e não tem problemas. Quem tem dinheiro é feliz.

O dinheiro é a minha razão de viver. Comprou tudo o que amo e prezo em minha vida: minha casa, meu carro, minha mulher, meus amigos, meu prestígio, minha moral, minha ética, minha dignidade. O dinheiro comprou a minha felicidade. E o que eu não posso comprar não tem valor pra mim. Detesto o pôr-do-sol, as amizades sinceras, o cheiro de chuva no asfalto quente, a brisa da primavera, o sorriso de uma criança, tudo isso me dá calafrios.

Amo o dinheiro e tudo o que o cerca, principalmente as pessoas interesseiras. Um dos meus projetos atuais é a construção de um parque temático para amantes do dinheiro como eu. Só estou em dúvida com o nome: Dinheirândia ou Cheque&Wild.

O dinheiro já faz parte de mim. É minha outra metade. Minha razão de viver. Tire o dinheiro de mim e me verás morto. Falando nisso, quando eu bater as botas vou querer o seguinte epitáfio: “Nem todo dinheiro do mundo poderá trazê-lo de volta. Mas não custa nada tentar”.

 

Henrique Szklo escreve aqui às sextas-feiras e não ganha nada! Leia seu site, o blog da mãe e sua oficina de criatividade.

Escrito por Blônicas às 12h35
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- Não consigo

De Leo Jaime.

 

Não li o manual do telefone celular. Não dá seis meses ele fica obsoleto e eu, nesse mesmo período, não achei ainda a oportunidade de ler o manual para aprender a usar no aparelho as coisas que em seis meses ficarão obsoletas. Não li o manual da máquina fotográfica também. Nem sei cadê o cabo que liga ela ao computador para baixar as fotos. Comprei na viagem e pensei, tenho que tirar um dia para aprender a usar as coisas novas que estou levando. Cadê que tirei esse dia.

 

Não consegui manter a rotina dos exercícios, fazer todas as aulas que tinha programado. Contratei um personal-trainer porque senão não faria nenhuma aula. Mesmo com ele em cima não tive mesmo condições de fazer todas as aulas. Muito trabalho à noite, o dia fica menor, e muitos compromissos acabam impedindo que eu tenha a um só tempo fôlego e tempo.

 

Não fui ao Rio ver os amigos. Morei lá mais de 25 anos e deixei muitas amizades eternas. Preciso ir com calma, com tempo, com a agenda livre apenas para o papo-furado tão saudável com os velhos amigos. Talvez eu devesse levar os manuais dos novos equipamentos para ir aprendendo no vôo ou nas horas vagas dos dias vagos. Quem sabe?

 

Comprei um novo laptop e não consegui vender o velho. Velho? Nem acabei de pagar ainda! As prestações continuam chegando,  o outro comprei à vista, e nada de arranjar tempo para colocá-lo à venda. Máquina boa, com tudo em cima, só comprei um último modelo porque o HD era o dobro e para quem pretende fazer música e gravar no laptop isso é fundamental. De resto a mesma máquina. Mas precisava chamar um técnico e instalar tudo, deixando ele pronto para rodar. Inclusive o becape que fiz um dia antes do hard-disk pifar em Nova York me deixando sem as letras, os textos, os endereços e tudo o mais. Nunca coloque um ímã sobre um laptop, em especial sobre o HD. Dá merda.

 

Nem colocar em uso uma máquina nova? Pois é, no meio do caminho comprei um PC para deixar de ser exclusivo do mundo Macintosh e é com ele que estou escrevendo agora. Não sei usar muito. Nunca usei muito o PC. Aprendi alguma coisa, pouca, e é com ela que tenho me virado.Mas as mensagens ficam atrasadas, os pedidos de inclusão no Orkut ou convites para Gazzag e tudo o mais, tudo acumula. De vez em quando demoro para mandar os discos que o pessoal compra no site, ou mesmo para responder as mensagens que enviam por email assim como os comentários no blog.

 

Sou um cidadão falho em completamente tudo. Precisava ser outros 4 de mim para dar conta de tudo. Alguém reclama, nos comentários do blog, que mandou um monte de mails e eu não o transformei automaticamente em amigo. Toda hora alguém vem me lembrar que eu podia ter feito um pouco mais, tentado um pouco mais, oferecido um pouco mais, aprendido, dedicado, sacado,  entendido, lido, escrito, falado, sentido, pensado etc.

 

Eu não estou a altura de mim mesmo. Gostaria de pedir demissão de ser eu mesmo. Gostaria de viver alguma das maravilhosas vidas alheias. Uma cujo dia dê tempo para ver os filmes que eu não vi, dar as trepadas que eu não dei, passear onde não fui, descansar o que mereço e ficar à toa, com a sensação de estar em dia com tudo. Cansei de ser o homem dos pratos no circo. Aquele que quando acaba de por um prato para girar em cima da vara tem que correr porque no fim da fila o outro prato começou a bambear. Deixo cair todos os pratos, como se fosse um grego feliz, e vou partir para outra. Quem quer ser eu aí? Tô trocando.

 

Leo Jaime escreve no Blônicas às quintas. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 12h42
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10/03/2005 - Vamos ver o lado dos plutocratas

De Castelo.

 

Você é muito rico, não é?

Em certos casos, nem sabe de onde veio toda essa bufunfa aplicada em fundos nas Ilhas Cayman.

A imprensa fica soltando matérias desfavoráveis à sua categoria social.

Um Governo, que se diz de esquerda, vive apregoando que os conservadores não valem uma goiaba podre.

Coitado de você.

Mesmo com toda a trufa e a champanhe derramada sobre sua mesa assinada, nunca foi tão difícil entender o que vai por essas plagas.

Alguém precisaria explicar melhor, by the book, alguns tópicos da nova ordem mundial a pobres plutocratas como você.

Senão vocês acabarão passando de abastados a abestados em pouquíssimo tempo.

Comecemos, portanto, do básico.

Você tem alguma idéia do que é fome?

Claro que não sabe, dá pra imaginar.

Também, como haveria de saber?

Desde o primeiro minuto de sua existência você foi alimentado com um leite - cuja parte líquida era água San Pellegrino ingerida por sua adorável genitora durante a primeira infância.

E bota primeira infância nisso. A dos outros, perto da sua, era a última.

Quando parou de sorver e deu pra mastigar, babás e empregadas uniformizadas lhe encheram o bandulhinho de proteínas, carboidratos, sais minerais e vitaminas – todas compradas nos mercados e drogarias mais engravatadas da cidade.

Como é que você teria a menor noção do que é desnutrição?

O problema é que você precisa entender o que vem a ser isso. E logo.

Senão, quando for a um desses programas de tevê para celebridades e lhe perguntarem o que é “Fome Zero” você dirá: “é um spa novo na Sardenha?”.

Portanto, atenção: fome, escassez de víveres, miséria são… 

(Pelo amor de Deus, pare de mexer no seu relógio Breitling e leia com atenção!!)

A partir de agora jatos Golfstream, Carmel, Saint Moritz e fome tem a mesma importância para sua nobre pessoa.

Por que você acha que tantos “artistas” hollywoodianos deixaram o conforto da Avenue Foch e foram ao Fórum de Davos pedir esmola para aqueles famélicos da Somália?

Pra divulgarem seus novos longas-metragem?

Se liga, tubarão.

Pobreza hoje é bluechip.

Você precisa abrir uma creche, criar um programa de apoio a desvalidos, promover algum tipo de assistencialismo já!

Ou vai deixar que um outro plutocrata rival o faça antes?

A saída então é vivenciar imediatamente o que é ter um buraco no estômago crônico.

Mande sua governanta parar de comprar essas iguarias finas e passe uma semana a arroz, feijão, farinha e quiabo frito.

(Não vale colocar pó-de-ouro na mistura!!)

Além de deixar a sua silhueta in shape, vai ajudá-lo a tomar pé do que é comer mediocremente e fazer com que fale com conhecimento de causa sobre o assunto até no chás do Country Club.

Depois vá para a Fase 2.

Pegue seu avião e dirija-se à uma clínica em Zurique. Interne-se uma semana à base de soro.

Claro, aproveite o jejum e peça pra colocarem todas aquelas enzimas de rejuvenescimento na solução, que ninguém é de ferro.

Sentir fome é mais ou menos isso.

Agora pode continuar tomando sua Perrier-Joüet.

 

Castelo escreve no Blônicas todas as quintas. Não tem propriedades, mas é dono de um site e de um blog

Escrito por Blônicas às 12h36
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- Super, super mercado

De Rosana Hermann.

 

A ciência já clona seres vivos, produz órgãos a partir de células-tronco mas ainda não encontrou uma solução definitiva às compras de supermercado. Não sei se o leitor é provedor de sua própria infraestrutura doméstica ou se vive aquela vida mágica de jogar meias sujas no chão e encontrá-las limpas na gaveta dias depois. Mas acredite, um dia você vai ter que comprar seu próprio suprimento, nem que seja só miojo, churrasco e carvão na praia.

 

O primeiro dilema, quase um koan indecifrável é sobre a ordem de colocação das coisas no carrinho. Claro, todo mundo sabe, os produtos mais pesados vão no fundo, como arroz, feijão, açúcar e, as coisas mais leves, como alface, tomate, batata palha, por cima. Porém, assim que você termina as compras, empurra seu carrinho com aquela rodinha nojenta, cheia de fios e cabelos e chega até o caixa de olhar distante, você percebe o erro: ao passar as coisas mais leve primeiro, elas vão sendo empacotadas e colocadas no fundo de outro carrinho, onde alfaces, tomates e bolachas serão esmagados por todas as coisas mais pesadas do fundo. Bem que o provérbio alertava, os últimos, serão os primeiros.

 

Isso, se houver algum ‘simplezinho’, um menino pequeno, um velhinho cansado, um ajudante pouco graduado para empacotar suas compras. Em geral, é com você mesmo e aí, surge o segundo dilema. Quem é o filhodaputa que fica economizando o dinheiro do dono da rede de supermercados diminuindo o tamanho, espessura e qualidade daqueles malditos saquinhos plásticos? Ou muito me engano ou aquilo é brinde do demônio, tentando aliciar adeptos. Não reparei, mas talvez tenha o email do cão impresso no cantinho do saco. Sim, porque o saco não comporta uma jaca, uma melancia, um couve-flor ou sequer uma dúzia de bananas sem se arreganhar inteiro. Tente também colocar uma única embalagem de tetrapak com aqueles cantinhos cartesianos com eixos x, y e z, sem rasgar a maldição. Bebida então, esqueça. Assim que você coloca a garrafa pet o saquinho abre a bunda, cantando Festa no Apê, pronto pra mais um bundalelê.

 

A terceira estação da via crucis das compras de supermercado é fazer com que tudo chegue até seu domicílio. Se as compras forem poucas você vai sair de lá com doze saquinhos pendurados nos pulsos, cortando a circulação, enquanto você segura o cartão, a carteira, a notinha, os vales-sorteios para jamais serem preenchidos e a chave do carro. Ao chegar no carro, você tem duas opções: ou amarra todas as bocas dos saquinhos ou arruma-os todos no chão do veículo, porque a tendência entrópica da natureza vai fazer com que todas as coisas tentem fugir dos pacotes, parece fuga de menor da FEBEM, debandada geral. Digamos que você sobreviva a isso, que tudo fique no lugar e você finalmente chegue até sua casa a salvo. Vem então o derradeiro sofrimento, levar tudo para dentro.

 

Se você mora num prédio, vai encontrar na garagem aquele carrinho coletivo, provavelmente preso na parede por uma corrente, dez cadeados e um cabo de aço, tudo para que os condôminos não furtem o veículo. A julgar pelo número de correntes, o carrinho deve ser de alta periculosidade. Evidentemente, você vai desistir e, como saúva em dia de mudança de formigueiro, vai carregar tudo nos braços, no colo, com a chave na boca, até o elevador, sempre lembrando de colocar a sacolinha mais pesada como anteparo da porta.

 

Ao chegar finalmente até a cozinha, tem aquele último detalhe: guardar as compras. Gelados na geladeira, biscoitos no armário, bebidas na dispensa. Depois de fazer um relatório das baixas, como frutas amassadas, biscoitos que viraram farinha e iogurtes que ficaram com a cara do Michael Jackson, você finalmente termina sua odisséia. E, se der sorte, quem sabe, encontre um ou uma Penélope esperando por você vinte anos depois.

 

Rosana Hermann escreve no Blônicas de quarta, uma crônica de quinta, até segunda ordem. 

Escrito por Blônicas às 11h37
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- Quando querer é "poder"

De Nelson Botter Junior.

 

- Quem é você?

- Eu sou um juiz.

- Caramba, que coincidência, também sou um magistrado.

- Pois é, dois juizes dentro de uma cela na prisão. Os tempos mudaram, hein?

- Nem tanto, meu caro colega, nem tanto...

- O que você fez?

- Eu matei um vigia de supermercado.

- Não brinca! Por quê?

- Porque ele me irritou. Eu tinha tomado umas biritas e acabei pegando minha arma e pimba! Não lembro direito, mas você deveria ter visto o coitado implorando pela vida. Não tive dó, fiquei meio zonzo, executei, tiro na nuca, sangue escorrendo no chão branco. Contraste bonito de se ver.

- Vixe, rapaz, usou sua arma pra acabar com o pobre diabo? Agora é que o pessoal do desarmamento vai cair matando, vão dizer que essa coisa de juiz ter porte de arma para auto-defesa é balela e coisa e tal. Vai ser um porre. A imprensa vai aproveitar carona, fazer barulho pra vender jornal e revista. No fim, é capaz de tirarem nossa segurança.

- É, mas eu perdi a cabeça. Sabe como é, quem é o cara para desafiar minha autoridade, para dizer que o supermercado já estava fechado e que eu, uma autoridade, não poderia ser atendido? Acho que temos que andar de toga e anel para sermos mais respeitados.

- Ah, seria tudo mais fácil. Nunca fui multado, sabia? O guarda vinha me multar e ao pedir os documentos eu já soltava um: “Você sabe com quem está falando?” Era só mostrar minha carteira do poder judiciário que ele já se cagava todo. “Oh, doutor, me desculpe, eu não sabia, pode seguir em frente”. Agora a coisa mudou, não comandamos mais esta merda de país, a coisa afrouxou demais. Antes a gente mandava e desmandava, agora estão ficando abusados.

- Também, é tanto juiz fazendo merda por aí.

- Se todos os juizes entrassem na nossa dança, no esqueminha do “manda quem pode”, a coisa estaria nas mil maravilhas. Mas não, a maioria é honesta e acaba sobrando pra um ou outro que sai da linha, que arruma uns truques pra facilitar a vida do crime organizado, que desvia umas verbinhas aqui e ali...

- E agora, depois do meu caso, vão dizer que somos assassinos também. No depoimento eu disse que foi fatalidade, que a arma acabou disparando por acidente. Vai que cola, né? E outra, quem mandou ele entrar na frente da arma bem na hora em que ela disparou sozinha?

- É, quanta injustiça, colega. Enquanto isso, tem gente graúda lavando milhões e milhões.

- Tá falando daquela empresa que administra o Corinthians?

- Não, não, tô falando de juiz... apesar que no futebol também tem juiz...

- E, consequentemente, tem lá seus esqueminhas também, hahahaha.

- Pois é, mas não esquenta, quem vai nos julgar é um colega, é outro camarada que usa toga e anel. Nessas horas o corporativismo fala alto, viu. É nego que toma uisquinho lá em casa, que já fumou cubanos legítimos na varanda lá do meu duplex. Não vão nos deixar na mão nessas horas, basta uma assinatura e estamos voando de novo. Fica frio, eu saio daqui e te absolvo.

- Sei não, as coisas mudaram, a mídia tá sedenta por um bode expiatório. Sabe, ranço do tempo do império, aquela coisa de autoridade versus o povo. Não vai ser fácil...

- Relaxa, atirador.

- Mas, afinal, o que foi que você fez?

- Matei um vigia de supermercado.

- Como assim? Também?!?

- Colega, escute bem. Você não matou ninguém, fui eu. Aliás, sem a minha ajuda você nunca teria feito nada. Eu e você somos habitantes do mesmo corpo, mas não somos a mesma pessoa. Você é fraco, eu sou forte, você é covarde, eu sou corajoso. Pode me chamar de sombra, de lado escuro, de segunda personalidade, do que quiser, contanto que saiba que eu existo. E não se preocupe, não vou te abandonar, estarei aqui do seu lado durante todo o tempo. Assim que você for solto, voltaremos a agir juntos, como já fizemos diversas vezes. Demos azar nessa, mas eu tenho esperanças que seremos soltos em breve e as pessoas lá fora que se cuidem. Ou nos respeitam, ou somem do mapa! Que ironia, colega, e pensar que nós somos do time que julga os bandidos, que manda prender os caras maus. Se nós somos os mocinhos, imagine então como são os vilões...

 

Nelson Botter Junior escreve no Blônicas às terças-feiras. Visite seu finado blog.

Escrito por Blônicas às 11h49
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08/03/2005 - Perguntas essenciais

De Paulo Castro.

 

Existem certas perguntas que são raras, mas quando feitas, nos pegam como anzol pelo fígado, puxando até o centro, onde as respostas padronizadas nada podem fazer. Geralmente são questões que deveríamos nos fazer todos os dias, a cada momento besta no trabalho, nas relações íntimas, nas decisões seguras que tomamos diante do extrato no caixa vinte e quatro horas. Toda vez que tentamos ser razoáveis, ou seja, adequados para o meio-termo que o pensamento coerente impõe: ser politicamente correto, não fumante, não comer gordura, doar centavos para o pedinte de mãos enegrecidas, dormir em paz no travesseiro ortopédico, vencer a insônia com fitoterapia.

Essa presença da razão atesta também a superficialidade dos questionamentos que nos cercam no cotidiano. Só um pouco de irracionalidade vai fundo o bastante para penetrar no muro das boas maneiras e adequados modos: como o dia está bonito, será que vai chover, gostei muito da sua última crônica, vote certo nas eleições, tenha dó das baleias que morrem na praia.

Grossa casca do ovo que protege a gema reluzente, algemada, alma, que preferimos esquecer que possuímos. É como se existissem sentimentos superficiais que impedem a ascendência dos sentimentos mais profundos, que são desconexos, contraditórios, desejosos do proibido, paradoxais em essência. Uma proteção com firma reconhecida no Cartório das Concordâncias Públicas. É o que aparece nas pesquisas de opinião, na Carta Magna do IBOPE, durante as conversas de salão, na mesa do Partido Uníssono.

Ontem alguém me desmontou.

Foram apenas duas perguntas, sem recheio, diretas, fisgadas debaixo das costelas. A pessoa queria me conhecer e para isso usou flechas certeiras, bem no lugar onde o cálcio protetor é mais vulnerável, arrepio. Sabia apenas meu nome, tinha lido algumas coisas que eu havia escrito e mesmo com tão pouco material, acertou-me em cheio. A sensação é de que havia pulado etapas, durante as quais eu haveria de produzir anticorpos contra a invasão do meu ser. Foi uma coreografia que começava branda e subitamente se agudizava, violentava com graça e susto. Não havia como oferecer apenas o silêncio. Eu já havia sido pescado, estava na rede, simploriamente seduzido, mas a crueldade do pescador exigiu que eu entrasse em mim através do caleidoscópio infinito das minhas escamas, que me fez ver como coloridas, quando a vida inteira as desejei de cores simples, classificáveis e aceitáveis socialmente. Que eu pudesse continuar levando a existência como médico, casado, pai de uma filha, em dia com o Imposto de Renda. Palatável .Engolido e depois devolvido ainda mais plano, sem dimensões inusitadas, excreta ainda mais adorável no jantar, com bingo, das Senhoras da Liga Católica e Rotary Club.

Mas não, foi assim: - Quem é você? O que lhe faz sorrir?

- Como assim? O que você pergunta? Ai, dói! Isso não tem cabimento! Não deveria me perguntar antes das horas? Do meu signo astral? Entra assim, em mim, sem pedir licença? Como vem, de arroubo, me pedir exagero do que sou? Poderia responder “não sei” para ambas as perguntas, mas isso me faria um tolo fugidio. Você quer me conhecer? Me amar, talvez? Por isso ousa? Calma, ainda temos que conversar sobre nossos empregos, nossas posições moderadamente políticas, contar piadas, rir adequadamente sem incomodar a mesa ao lado...

- Nada disso. Quero ir lá, onde interessa...e não tente escapar olhando para a ponta do sapato de sola italiana. Quem é você? O que lhe faz sorrir? Responda, rápido, o que lhe vier imediatamente na mente.

- Vem uma tela de cinema em branco... não de todo... no centro, várias luzes dançam como fogo-fátuo, condensadas. Na periferia, vejo a bocarra do meu chefe, a água santa do padre, a coesão. Você não acredita na necessária união dos juízos?

E a conversa se estendeu. Sem que eu fosse capaz de responder em poucas palavras às questões. Mas como em Bach, minhas fugas respondiam. Eu era alguém com medo de mim mesmo, porém correndo, ia deixando cair as moedas de ouro de minha identidade. E percebendo a relevância daquelas perguntas, aos poucos fui me entregando. Rompendo a casca. Relevando a lágrima do principal.

Mas e agora, que estou nu? Para a vida de ruas e avenidas lotadas, quem virá me dar o cobertor que protege? Sem jeito, ferida aberta, caminho entre as gentes. As respostas ainda reverberam e me fazem mancar. Que assim seja. De noite, na passagem, agarrarei um desavisado, bom cidadão, e com a boca em sua orelha, fazendo pressão, calor, indagarei, murmurante: - Quem é você? O que lhe faz sorrir?

E sorrirei. Com a crueldade que cura.

 

Paulo Castro é cronista do Blônicas. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 10h40
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- Benção ao Papa moribundo

De Milly Lacombe.

 

Meu caro João Paulo II, sua hora está chegando, mas você não tem o que temer porque nós, os esquisitos, os que não se encaixam, os marginalizados pela intolerância de sua Igreja, estamos prontos para absolvê-lo de seus pecados. Sim, é isso mesmo: nós vamos perdoá-lo. Perdoá-lo por dividir o amor em tipos, por condenar alguns deles, por ridicularizar a paixão entre pessoas do mesmo sexo – enfim, por tentar corromper essa que é a maior força do universo. Por excluir as mulheres, por não permitir que freiras rezem missas ou celebrem casamentos, por não garantir direitos iguais aos dois gêneros – resumindo: por continuar, em pleno século 21, a pregar nossa inferioridade. Por fechar os olhos para as milhões de pessoas que ainda morrem com AIDS em países pobres graças à benevolência dos missionários de sua Igreja, que ganham toneladas de dólares de governos conservadores para sair por essas regiões proibindo a educação sexual e, em vez de distribuir camisinha, ler a Bíblia em voz alta. Por fazer com que seus seguidores acreditem que sexo apenas por prazer é pecado e que, portanto, homossexuais são pecadores, sem lembrar de dizer que, por essa lógica absurda, mulheres na menopausa não poderiam mais se entregar ao ato, e, às estéreis, coitadas, só restaria o inferno. Aliás, por fazer com que seus pobres devotos acreditem em céu e inferno sem conseguir lhes dizer que o purgatório é justamente aqui, criado pela intolerância excludente de seus cordeiros.

 

O perdoaremos agora, como já perdoamos aqueles que sentaram em seu trono antes pela vista grossa que fizeram à escravidão e ao nazismo, e como, antes disso ainda, os perdoamos por assassinar mulheres (bruxas, como sua Igreja as denominou) que tinham a petulância de ter opinião própria e homens que ousaram dizer que a Terra não era o centro do Universo. Perdoá-lo por comparar o aborto ao nazismo sem sequer tentar entender os motivos de uma mulher, por tirar dela o direito de escolha, por querer nos impor verdades que são suas e por continuar colhendo o dízimo daqueles que mal têm o que comer. Por ter, durante sua longa gestão, perpetuado dogmas e tabus, por não ter encorajado seus devotos a pensar e questionar livremente e pela incrível arrogância de não entender que, como disse Nietzsche, a maior inimiga da verdade não é a mentira, mas a convicção.

 

Por fazer com que seus fiéis temam a suposta fúria de Deus mais do que sua intrínseca benevolência, por dar forma ao mal apenas para justificar aquilo que sua crença vê como o bem, e por, sem nenhuma ponta de vergonha, institucionalizar o medo, sentimento que estanca a alma e não conhece o amor. O perdoaremos por apontar seu abençoado dedo para distinguir aqueles que, segundo sua fé, estão certos dos que estão errados, por não ter nos dito, logo de cara, que seus livros sagrados não deveriam ser interpretados literalmente e, principalmente, por ter nos julgado. Por não ter revelado ao mundo que Deus não distingue grupos e que apenas as religiões fazem isso, por sair de seus domínios para impedir pesquisas com células-tronco só porque sua fé não consegue explicá-las, e pela arrogância de não aceitar que possam existir outras verdades e salvações além daquelas que sua crença nos impõe. Por continuar a se opor aos avanços da ciência exatamente como sua Igreja fazia na Idade Média, por se colocar entre cada um de nós e Deus, como se a intimidade com o divino fosse exclusividade sua, e por não entender que a fé não é patrimônio de sua Igreja.

 

Pela hipocrisia de ter gasto milhões de dólares de sua milionária Instituição para calar escândalos envolvendo padres pedófilos e por não ter usado esse dinheiro em obras sociais para povos carentes. Pela falta de vergonha de seguir deitado sobre patrimônio histórico e incalculável, conseguido as custas do dízimo de seus pobres devotos, e por usar esse dinheiro apenas para manter limpo e brilhando o mármore do Vaticano. Por fazer com que seus seguidores acreditem que já nasceram pecadores, por não lhes dizer que pecado não existe, que foi apenas mais uma invenção cristã que visava sedimentar o medo a fim de arrecadar dinheiro dos que crêem cegamente. Por insistir em distorcer a palavra de Jesus, por não reconhecer os profetas que estão hoje entre os homens apenas porque eles não seguem a sua cartilha, por interpretar com lente míope o “amai-vos uns aos outros” e o “não julgarás” e por usar diariamente o nome de nosso Deus em vão. Perdoá-lo por não entender que suas crenças são tão boas e verdadeiras quanto qualquer outra, por não enxergar que só o amor, seja ele de que tipo for, nos salvará e, finalmente, por não ter nos protegido de seus seguidores. Vá que já é tarde e, por favor, não mande notícias do lado de lá.

 

Em vez disso, curta a companhia Dela, que vai ensiná-lo que só existe um tipo de pecado: não ser capaz de abençoar o amor, a maior das criações divinas, em todas as suas manifestações. E que, por esse motivo, meu caro, você não apenas pecou como passou mais de 80 anos procurando o mal no lugar errado. Mas, quando isso acontecer, não se desespere: nem tudo estará perdido. Chegando lá, entregue-se ao primeiro anjo que cruzar seu caminho porque, no paraíso, vá por mim, sexo, seja ele de que tipo for, não é pecado. E então você verá que não existe culpa que uma abençoada apoteose seja incapaz de curar. Divirta-se, meu velho.

 

Milly Lacombe é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h32
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07/03/2005 - O olhar doce e safado que vem lá de baixo

De Xico Sá.

 

Nada como aquela olhadinha que ela dá quando lá embaixo.

Ainda e pra sempre, da série “detalhes tão pequenos de nós dois”. A vida se resume a observar, microscópio de eros, rei roberto e nelson, a mulher e o seu drama.

 

Nada como aquela olhadela, sobrancelhas assanhadas, mirando lá de nossos países baixos cá para cima do nosso cocuruto alumbrado.

Tão lindamente sacana, ah, que nega a minha nega, derreto-me como mantchega!

 

Ela quer saber se estou gostando, claro que estou mortinho ali no pré-gozo. Tem um orgulho, “vê como faço bem feito e com gosto”, ali naquela olhadinha plongé, contra-plongé, depende de quem vê...

Como eu gosto, ela diz, posso?

 

Aperto com força os seus cabelos, resvalando numa fração de segundo para um carinho no rosto, lado esquerdo, com o lado B da mão e dedos, quiromancia e mistérios.

 

Ela desce lá naquele cantinho fronteiriço, desenha a história do olho com riscos da língua em círculos, lambe a última costura da minha pobre existência, nirvaniza-me,  petite mort, e assina nossos  batismos lindos com lambidas góticas, assim  como quem escreve inocentemente na areia, coraçãozinho flechado, e o nome de quem aposta, como se o amor fosse um jogo do bicho.

 

Não resisto à olhadinha lá de baixo, vem cá, estou longe e perto, meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo, como na canção do 2 e 2 são cinco. Como nosso universo é tão perfeito aqui na cama, só na cama, lá embaixo, na cama zen, japão do amor,  horizontalizo-me, para sempre, viro réptil, nunca mais me levanto, nunca mais me levanto e ando, odeio meus Lázaros internos, agora eu quero mais é nadar no seco, melhor jeito de navegar aos teus pés, e de vez em quando, quer saber?, afundo as mãos nos arrecifes e te dou um peixinho, como aquele do conto de Virgílio Piñera, que aprisiono nas profundezas sujas das nossas existências.    

 

Xico Sá escreve no Blônicas todas as segundas-feiras. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 13h21
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- Aceito doações

De Ailin Aleixo.

De repente, assim, no meio de uma manhã ensolarada, depois do toque do telefone e de um "oi" pro gerente do banco, dinheiro se torna a coisa mais importante da vida. Ou numa noite: jantar delicioso, a conta na mesa, o cartão de crédito na mão do garçom, o retorno embaraçado e a frase fatal: "Senhor, sinto muito, mas foi recusado".

Dinheiro e saúde têm uma grande semelhança: só percebemos quão importantes são quando faltam. Durante a partida de futebol ou correndo na esteira, não ligamos como nossas válvulas e artérias funcionam, nem sequer se existem – mas pensamos em cada centímetro do nosso pulmão quando ficamos entrevados na cama com gripes colossais; com dinheiro é exatamente igual.

Sempre defendi que existem muito mais itens relevantes na vida de alguém além do extrato bancário: amor, amizade, diversão, humor. Continuo achando isso. Mas tudo fica temporariamente suspenso pelo vermelho-sangue do saldo; é como a distância de quem a gente gosta: não deixamos de nos importar porque a pessoa não está perto, simplesmente deslocamos por ora nosso foco de atenção.

Dinheiro influencia tudo: humor, literatura, valores. Por exemplo: você já viu alguém normal sorrir e tratar bem o balconista da padaria enquanto os juros do cartão de crédito crescem mais que a população de ratos? Ou presenciou um ataque fulminante de libido em alguém que não conseguiu pagar o aluguel? Isso prova que o humor está intimamente atrelado ao fluxo de caixa. E o amor também, de certa forma. Não dá. Pra ser feliz, precisamos ter dinheiro. Ou, pelo menos, não dever. Falemos de literatura: sabe qual é a leitura mais reconfortante do mundo? Esqueça Paulo Coelho, Roberto Shinyashiki ou Zíbia Gasparetto: o símbolo de positivo na frente do limite disponível deveria ganhar o Nobel. Ele me deixa mais feliz do que o reconfortante fato da reencarnação.

Dinheiro é lindo, traz felicidade, manda comprar e entregar com lacinho. Mas também não é equação matemática. Não é assim. Dinheiro é delicioso não por ser acumulável e dar status, mas por produzir prazer. (A propósito: pouco me lixo pra glamour, badalação e Monsieur Louis Vuitton – quero mais é curtir a vida, na minha). E permitir dar presentes a quem se gosta, comprar um vinho gostoso, conhecer lugares belos, ficar estirado numa praia linda e silenciosa. As sensações que ele traz são melhores que ele em si. É por isso que fico tão fula quando não o tenho: sou taurina e adoro boas sensações. Vivo por elas. E, quando me sinto privada, quase tenho um treco.

Quer saber? Tirando o que tá ruim, tá bom. E, no mais, é nos consolarmos com o fato de que nada dura pra sempre, nem a pindaíba, e pensarmos que tem gente pior – desculpe a sinceridade, mas saber que nossa desgraça não é a mais feia sempre facilita o processo de recuperação. E, acima de tudo, não passear em shopping, quebrar qualquer tipo de cartão com tarja magnética e esquecer aqueles desgraçados donos de iate – senão, além de quebrados, ficaremos deprimidos. E Prozac é caro pra caramba.

Ailin Aleixo escreve no Blônicas aos domingos e lança o livro "Só os idiotas são felizes" em abril.

Escrito por Blônicas às 14h31
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- Para quem não tem namorado(a)

De Evandro Daolio.

 

Não há uma fórmula exata para encontrarmos nosso grande amor. O que existe é um conjunto de fatores que observei ao longo dos anos e que podem ajudar a errarmos menos em nossa busca. Aqui, coloquei apenas alguns tópicos para você ter uma pequena idéia, sempre com humor e bom senso, sem nenhuma pretensão de ser o dono da verdade. Começando pelas mulheres e depois expandido. Algumas servem para mulheres, outras para homens, outras para todos. Falaremos muito mais nas próximas semanas.

Orelhas: Nunca, nunca coloque os cabelos atrás das duas orelhas ao mesmo tempo

Bigode: Suma com o bigodinho

Pernas: Mostre-as sempre que puder.

Perfume: Use sempre que puder, menos na praia. Não use perfume de homem, que para vocês mulheres, podem aparentar serem melhores justamente porque são fabricados para agradar ao olfato feminino. Isso significa que aquele perfume masculino que você adorou e passou, agradará mais as mulheres que a nós

Calcinhas: Use calcinhas mesmo, e não calçolas

Não use sapatinho da Maga Patalógica: Odiamos (detalhes no livro 3)

Não fale que nem neném:  Uma vez eu e um amigo fomos a uma casa noturna. Ele havia conhecido uma garota há poucos dias e a levou com ele. Assim que saímos de lá escutei a moça lhe perguntar:

(leia com voz choramingando de neném)

— Eu góto de vochê. Cê gostô de miiiiimmmm?

Fechei meus olhos e ri, aguardando a tragédia anunciada:

— Quêêê? —  perguntou meu amigo, inconformado.

Sem notar que ele não gostou, a menina repetiu, dessa vez prolongando o “mim”:

— Eu góto de vochê. Cê gostô de miiiiiiiiiiiimmmm?

Ah meu Deus, que tragédia que isso é para nós. Ele já foi emendando:

— Mas que diabos... (já me encolhi, pois quando ele fala “que diabos” lá vem pedrada)... Mas que diabos você está falando que nem neném?

E ela, ainda sem notar o sarcasmo, teve a coragem de dizer:

(leia com voz aguda de neném implorando por comida)

— É que eu xô neném!

Pronto, a moça evaporou.

 

Dicas gerais: Lembre-se de que o charme e a sensualidade são tão ou mais importantes que a beleza, desenvolva sempre sua mente, lave e penteie os cabelos, não fale gírias, use sua criatividade, evite fumar, seja autentica(o) e espontânea(o), tenha o mínimo de educação, não seja “mono-assunto”, não viva em função dos outros, fale em tom moderado de voz, goste de música, tenha fé, não use perfume de homem (se for mulher), estude sempre, seja alegre e divertida(o), seja sensual mas não vulgar (se for mulher), tenha postura masculina mas com cavalheirismo (se for homem), cuidado para não ser engomado demais ou largado demais (homens), cuide dos dentes, trabalhe, tenha sonhos, lembre-se de que é melhor ser detestada pelo que é do que ser amada pelo que não é, abomine macho-pagadores ou não seja um, use roupas sensuais e adequadas a cada ocasião, use calça branca (nós homens adoramos), quando marcar um encontro vá ou avise que não vai - horas - e não segundos antes, não fique horas no celular na frente dos outros e evite atendê-lo em encontros, preocupe-se com as pessoas e com o mundo, interesse-se por novidades, ande com pessoas construtivas, seja simples e humilde mas não boba(o), faça ginástica mas sem fanatismo, evite excessos - não coma de menos - consulte sempre um nutricionista e tente não perder a noção do que é ser saudável, não use drogas, vá à sua própria festa de aniversário, não role na lama que não faz bem para a pele, tente (na medida do possível) ser independente financeiramente, cumpra suas promessas, tenha objetivos de vida e tenha certeza que esses itens ainda são poucos.

Acima de tudo, liberte seu coração das amarras do passado e deixe seu amor chegar a você. Ame-se, para permitir ser amado. Veja nas próximas semanas muitas teorias que exploram muito mais sobre todas essas dicas.

 

Evandro Daolio é o guru do amor no Blônicas, aos sábados. Veja seu site.

Escrito por Blônicas às 17h12
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- Sociopatias

De Henrique Szklo.

 

Invejo os que sabem fazer amigos. Ou mantê-los, caso já os tenha. Pra mim é um talento absolutamente fora da minha compreensão. Tampouco compreendo quem quer ser meu amigo e insiste neste inexplicável devaneio. Não tenho nada a oferecer e mesmo se tivesse preferiria guardar pra meu próprio deleite. A propósito, porque você está lendo este texto? Aqui não tem nada pra você. Tem tantos outros colunistas melhores, com mais conteúdo, mais graça, mais educação. Eu vivo no conflito eterno de querer agradar desagradando. Atrair pela repulsa. Quero ser diferente, mas quero fazer parte de alguma coisa, como todo mundo. Não é fácil ser eu. Mas acho que mais difícil que isso é conviver com este eu. Para quem está de fora, quero dizer.

 

Não consigo sair ileso de um emprego. Jamais consegui. E olha que trabalhei em mais de... mais de... muito mais de... ah, sei lá, perdi até a conta.

 

Tive a idéia de escrever este texto hoje enquanto passeava com o único que vive esta triste experiência de convivência forçada comigo: o Max. Pobre alma. Não sei se ele, por ser um cachorro, não esteja pagando por alguma sacanagem que fez em outras vidas. Bom, mas isso também é problema dele, não é? Já basta eu sofrer as minhas lancinantes e insuportáveis dores e imaginar as dores dos meus filhos. Ter de me preocupar com a sanidade mental do cachorro é um pouco demais, não? Falando em dor lancinante, semana passada eu acordei a noite com câimbra na batata da perna. Assim, do nada. Simplesmente começou no meio da noite. Que dor insuportável. Durou uns 30 segundos mas pareceu mais. Que nem um bom comercial de TV. Mas, como todas as dores, passou. Ficou só o registro de que ela existiu e não a lembrança física. A dor parece pior quando a gente a imagina. O medo de sentir dor é pior que a própria dor.

 

Sei que estou sendo meio vago, inconclusivo e desinteressante neste texto. Mas e daí? Sou sociopata. Não estou nem aí para a reação dos outros, para a opinião dos outros. Eu sou mais eu. Quer dizer, como tenho complexo de inferioridade deveria dizer “eu sou menos eu”. Enfim, você está começando a entender o que é estar à margem da sociedade? Gostar disto e ao mesmo tempo sofrer por isto? Bom, se você entender me avise, porque eu mesmo não entendo nada. Vim ao mundo a passeio e me pegaram pra Cristo. Não repararam na minha camisa florida, na minha câmera digital, meu chapéu de panamá, minha camisa enfiada pra dentro da bermuda com cinto, meus chinelos, óculos escuros e cara de paspalho. Quero meu dinheiro de volta!

 

Gosto de escrever assim. Sem compromisso, sem preocupações. Será que vão gostar de ler? Será que vão se interessar pelos meus assuntos desinteressantes? Será que vou angariar mais admiradores ou mais críticos? Meu pai teria orgulho de mim ou vergonha? Tanto faz. Acredito que quando a gente consegue abrir o canal da nossa consciência e escrever exatamente o que passa pela nossa cabeça, a repercussão é maior. As pessoas, não sei bem porque, percebem quando um texto é verdadeiro. Um júri sem provas, mas que jamais comete injustiças. Não é uma utopia? Na minha Oficina tenho um exercício que é assim. Chama-se Textoterapia. Os alunos ficam escrevendo por dez minutos tentando fazer ligação direta do pensamento com a mão que escreve. Sem censura, sem julgamento. Funciona bem. Acho legal fazer isso.

 

Ando preocupado demais em agradar. E não existe nada que desagrade mais as pessoas. Um sujeito como eu, que nunca teve muitas papas na língua, de repente vira bonzinho. Todo mundo olha pra mim hoje com desprezo. Preferiam o pária ao insosso. É, eu também prefiro. Acho que deveria retornar à minha forma original. Pelo menos alguma coisa em mim é original. Quem não gostar, que se lixe. Fazer o quê? Estou ficando velho para virar santo. Sem contar que o vilão é sempre um personagem muito mais interessante que o herói. É o vilão malvado que tem coragem de ser ele mesmo, se render aos seus próprios instintos, que assume a solidão e o rótulo de “diferente”, mesmo sabendo que não existe tal coisa. Ninguém é diferente. Mal-regulado, talvez, diferente não.

 

Mas voltando à minha sociopatia, gostaria de dizer que acho mesmo muito bacana quem foi ungido com o talento da amizade fácil. Eu, nem quando quero consigo. Aliás, quando quero fica pior. Forçado. Como disse lá atrás, sempre arrumo encrenca por onde passo. Acho que sou uma boa pessoa, mas tenho este pequeno desvio de comportamento. Eu não desgosto das pessoas, mas não sei como tratá-las. Sou um ignorante relacional. E isso causa sérios problemas em minha vida. Amigos são importantes, mesmo os desimportantes. Mas não se pode ter tudo. Eu queria que isso fosse natural, que eu não precisasse ficar os dias inteiros tão preocupado em não melindrar os outros, e, a despeito de tamanha preocupação, melindrar mesmo assim. Talvez seja melhor eu desistir. Assumir minha incapacidade. Sou sozinho mesmo. O que pode piorar? Arrumar amigos? É, acho que vou deixar tudo como está.

 

Henrique Szklo escreve aqui às sextas-feiras. Leia seu site, o blog da mãe e sua oficina de criatividade.

Escrito por Blônicas às 13h15
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04/03/2005 - Ordinelson Peçanha e a maconha

De Edson Aran.

 

Ordinelson Peçanha, 45 anos, motorista de caminhão, foi pego pela Polícia Federal no Mato Grosso. Levava 200 quilos de maconha debaixo das toras de madeira. Na salinha de interrogatório, o caminhoneiro era só mágoa. 

 

“Eu sou inocente, doutor. Juro por Deus. Os caras ficaram carregando o caminhão em Cuiabá e eu saí pra comer um rango, que eu estava morto de fome!”, contou Ordinelson. “Como é que eu ia saber que aqueles desgraçados fidumaputa ia botar maconha no meio das toras, meu deus do céu?! Que culpa tenho eu, doutor?”

 

Doutor Edelver Gentil, delegado da PF, ficou desconfiado.

 

“Isso nós vamos averiguar, seu Ordinelson. Enquanto isso, o senhor tem direito a fazer uma ligação telefônica. Pode fazer daqui mesmo.”

“Vou ligar pra minha mulher, se não ela fica preocupada, coitadinha.”, gemeu Ordinelson.

 

O delegado deixou o telefone no viva voz e ficou na sala enquanto o caminhoneiro ligava.

 

“Alô? Valdirene? Oi, minha santinha, é o Ordinelson, seu marido.”

“Onde tu tá, traste? Já era pra ter chegado ontem, criatura!”

“É que aconteceu um imprevisto, meu amor. Eu estou aqui na Polícia Federal...”

“Ai, minha nossa senhora! Eu falei que ia dar merda, Ordinelson! Eu falei pra você não levar aquela carga!”

“Pois é, amorzinho, mas era só madeira, né? Só madeira, você sabe!”

“Por cima, né, Ordinelson? Por cima! Porque por baixo era pura maconha. Eu falei que esse negócio de levar maconha ainda ia dar merda. Mas você me escutou? Não! Claro que não! Tem dez anos que eu falo pra você parar e você não pára!”

“Alô? Aí é 47-65224412? Não, né? Ih, acho que eu liguei errado.”

“Não ligou não, traste. Sou eu mesmo, a Valdirene!”

“Valdirene?! Mas então é engano mesmo. O nome da minha mulher é Valdette. Valdette com dois Ts. Desculpa, dona Valdirene. Até logo. Passar bem.”

“Valdette?! Ainda tem vagabunda nessa história, seu desavergonhado filho de uma égua? Quem é essa? É aquela perua que você conheceu no Ceará na época que levava cocaína? É ela, seu filho de uma égua?”

“Desculpa, dona Valdirene, foi engano. Eu disquei errado.”

“Você é errado desde que nasceu, seu trem a toa. Bem que a minha mãe falou: ‘minha filha, esse homem não vale nada, ele já matou e já roubou e não vai ser bom marido’. Mas eu escutei? Nãããããõooo! Agora tô nessa merda!”

 

Ordinelson Peçanha desligou o telefone e acabou em cana, coitado. Uma vez por semana ele tem direito a fazer uma ligação, mas nunca telefona pra Valdirene. Ela não se conforma. Sempre foi boa esposa mas, sabe como é, homem não vale nada mesmo.

Edson Aran escreve aqui no Blônicas e também no seu site, que está voltando de longas férias. Confira aqui!

Escrito por Blônicas às 13h12
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- Mulher de TPM: encaro ou saio correndo?

De Gisela Rao.

 

Bom esse assunto é mesmo complicado, né? Eu diria que a TPM feminina é um dos maiores karmas do homem, assim como o da mulher é ter que ler manual de instrução.

 

Não é mesmo fácil lidar e o que é pior: é todo mês. Mas veja bem: existem dois tipos de Tensão Pré-Menstrual: a “TPM Das Profundezas do Inferno” e a “TPM Você Não Me Ama”. Na primeira opção a mulher vira um verdadeiro belzebu. É uma coisa assim tipo a “Monga, a mulher macaca”, uma hora ela tá um doce e na outra te arranca o nariz fora com o cortador de unhas. Tudo a deixa irritada: buzina, latido de cachorro, sua cervejinha, seu futebol, o porteiro, o taxista, o trabalho, até o pequinês da mãe dela que ela chama de - “piluquinho fofo” – a tira do sério. Manja a Salomé, a que serviu a cabeça do João Batista na bandeja? Pois é, tinha “TPM das Profundezas do Inferno”. A gente sugere que você fique bem pianinho nesses dias, principalmente se preserva aquelas coisas que você traz penduradas no seu corpo ao nascer.

 

Já a “TPM Você Não Me Ama” é, digamos, mais “light”. A mina não te bate, só chora. E você é sempre o culpado de tudo. Ela chora porque você não ama ela. Chora porque você ama. Chora porque o vilão se dá bem no final da novela. Chora porque o vilão se ferra no final da novela. Vai entender…

 

Ok, muita calma nessa hora. Veja bem, ninguém pode ficar mesmo muito feliz sabendo que, em alguns dias, vai ser obrigada a usar uma almofadinha, discreta como um dinossauro num mosteiro zen.

O lado bom da coisa é que, pelo menos nesses dias ela não engravida. O lado ruim é que ela não quer transar. Hahahahahaha.

 

O que não falar pra ela nesses dias (a menos que você seja louco de pedra):

 

. Você tá naqueles dias?

 

. Se eu gostei da sua calça nova? Ficou meio apertadinha, né?

 

. Nossa que cara é essa? Você tá com retenção de líquido?

 

. Você é igualzinha à sua mãe.

 

. Você quer guiar o meu carro? Ainda bem que tenho seguro…

 

. Por que você não começa a fazer academia?

 

. Tira a roupa e me espera na cama

 

. Esse cabelo branco na pia é seu?

 

. Gostosa essa tua amiga, hein?

 

Gisela Rao escreve aqui no Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h23
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03/03/2005 - Estatuto do movimento "Falidos e Mal Pagos do Brasil" (FAMAPA)

De Castelo.

 

Inadimplentes do mundo, uni-vos!

 

Artigo 1º

O Brasil quebrou, estamos todos falidos, Deus não é brasileiro e eu não estou me sentindo bem.

 

Artigo 2º

Da Definição do Movimento.

O Famapa é o movimento dos sem-tostão. É uma sociedade sem nenhum fim lucrativo (até porque seus membros estão todos em concordata).  O Famapa não é um movimento de cunho alimentar, e sim de conscientização falimentar. Revogam-se as disposições em contrário.

 

Artigo 3º

Da Maledicência com os Portenhos.

Fazer piada com a desgraça argentina é gargalhar do miserê brasileiro.

 

Artigo 4º

Do Grito de Guerra e seus Apensos

O grito de guerra do movimento será "falido unido, jamais será vencido!" permitindo-se a inclusão de um "olê, olê, olê, olá" ao início e/ou ao final de cada urra.

 

Artigo 5º

Das Lideranças

O Famapa não possui líderes, ícones, comandantes, timoneiros porque não tem dinheiro para pagar salário a ninguém. Apesar disso, orienta seus associados a elevarem seus pensamentos à memória de Tião Macalé, um famapiano paradigmático.

 

Artigo 6º

Do Pagamento da Diretoria e Conselho

O pagamento dos membros do Conselho de Segurança Falimentar se dará através de ticket-refeição e/ou cupons do Fome Zero.

Se algum diretor ou conselheiro quiser batalhar proventos de outras fontes - como apanhar guimbas na calçada - uma assembléia extraordinária deverá ser instaurada na oportunidade para a devida deliberação.

 

Artigo 7º

Da Comprovação de Falência

Para ser um militante ou simpatizante do movimento, o candidato não precisa comprovar sua condição de atrolhado.  Basta ler ou colaborar com o sítio do Famapa na internet: http://www.famapa.hpg.ig.com.br - antes que ele saia do ar por motives óbvios.

 

Apenso ao Artigo 7º

O Famapa é um movimento materialista idiossincrático. Em outras palavras: falência é arriar o rabo no chão. Esse papo de "falência moral" é frescura.

 

Artigo 8º

Dos Objetivos do Movimento.

O poeta Guilherme Arantes já dizia: "se há uma crise lá fora/ não fui eu que fiz". Desse modo, e com a economia do jeito que anda, todo brasileiro tem direito a não pagar suas contas até que o Brasil acerte as suas com o FMI.

 

Parágrafo Único Final

Devo, não nego, pagarei com pré-datado sem fundo.

 

Castelo é cronista do Blônicas e diz o que pensa por aqui às quintas. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 13h05
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- Escrever

De Leo Jaime.

 

Escrever? Escrever o quê? Para quê? Alguém vai ler? E se ler, vai ler o quê? O que eu escrevi ou o que lhe parecer que escrevi? Como saber se vale a pena?

 

Semana passada escrevi uma pequena defesa da educação amorosa. Parecia óbvio que um assunto tão importante merecesse atenção, dedicação e, por que não?, aprendizado. Depois li os comentários e fiquei um pouco apreensivo. Nem todos lêem o que está escrito. Ouso dizer que entre os sofisticados leitores desse blog há os que lêem o que não está escrito. Serão muitos? Legião?

 

Argumentei, ao final do texto, que um assunto tão fundamental como o amor, para a felicidade humana, era algo que não despertava muito o interesse do estudo por parte do cidadão mediano, esse que fazia ginástica e estudava inglês. Aí vai o trecho: “E depois, um pouco mais tarde, estudar junto com outras coisas, é claro, o amor romântico. O enamoramento,  o ciúme, o desejo, a pequena morte ou orgasmo, a linguagem do amor.... tanta coisa fundamental para se saber e todo mundo estudando inglês ou fazendo ginástica.” E vem um comentário simpático mas um tanto estarrecedor de um de nossos respeitáveis leitores. Acompanhe: “Só achei inadequada a posição em que foi colocada a ginástica nesse texto. Quase como contraponto ao amor. Acho que o amor está nela também e fanatismo em qualquer coisa é ruim, inclusive no amor que se torna desgastante e destrutivo”.

 

Outro comentou que amor é como pizza. Achei a frase intrigante. Amor pode vir com manjericão ou azeitonas, com mussarela ou à portuguesa. Verdades irrefutáveis. Mas o amor é uma circunferência? Vai ao forno? Não consigo compreender o que o leitor expõe. Não consigo mirar em que ponto da reflexão ele depreendeu o que aponta sucinto. Fico pensando que perdi alguns capítulos ou tomei alguns ácidos a menos. Serei inviável para a convivência humana? Será que eu não entendo ninguém e ninguém me entende?

Outros comentários: “Bom, creio que se o amor pudesse ser ensinado em escolas já teria perdido sua importância e virado uma matéria, da qual todos se esforçam para atingir a meta. Não é bem assim, acredito que o amor é um meio, pelo qual pessoas devem ensinar, tratar outras pessoas, respeitar e também despertar o amor. Não é algo passivo de métodos, regras, é apenas contagiante e necessário, indispensável, posso dizer”.

 

Falo na importância de ler os textos dos grandes gênios a respeito do tema e parece que estou sugerindo que se aprenda o amor como se aprende a andar de bicicleta ou fazer bolo de laranja. Shakespeare não merece uma leitura, segundo o ponto de vista do nobre leitor, mais apurada. Evidente que o convívio com os textos do grande mestre há de despertar muito conhecimento e reflexões sobre o amor. O amor não é uma coisa acadêmica e nem nunca poderá ser. De onde é que tiraram que eu imaginaria isso? Do texto é que não foi. Veja o outro leitor. Ele imagina que se tiver que estudar o amor o jovem ficará impossibilitado para ele. Não há nada a aprender, segundo o comentário, com os mais velhos nem sobre a forma de se lidar com a natureza ou com os animais. Tudo isso tem que ser improvisado. Cada macaco no seu galho e sem perguntar nada a ninguém.

 

Fico indagando se vale à pena escrever. SE não há nada nas minhas experiências ou nas de qualquer um que escreve que possa significar nada, que possa causar alguma refração, que possa servir de exemplo, a se seguir ou evitar, se nada do que está escrito pelos grandes gênios pode ensinar ninguém sobre o amor e seus detalhes, qual o sentido em escrever?

 

Se nada pode ser trocado, nada pode ser aprendido, nada pode ser despertado, nada pode provocar insights, se cada um está solitário em suas buscas empíricas ninguém pode se valer da experiência alheia, da reflexão alheia, o que é que estou fazendo aqui? Perdendo meu tempo?

 

Encher a folha em branco é mais do que batucar no teclado. Ou deveria ser. Será que alguém que não sabe escrever sabe ler?

 

Será?

 

Leo Jaime escreve no Blônicas todas as quartas-feiras. Visite seu site

Escrito por Blônicas às 14h24
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- Posso fazer uma pergunta?

De Rosana Hermann.

 

Acho curioso quando as pessoas perguntam se podem fazer uma pergunta. Primeiro porque ‘posso fazer uma pergunta?’ já é uma pergunta e, portanto, a formulação correta seria ‘posso fazer outra pergunta?’; segundo que, em geral, a pessoa não cogita a hipótese de ter um não como resposta. O ‘posso perguntar’ é uma mera introdução, um aviso, um equivalente sonoro ao genial sinal gráfico da língua espanhola, aquela cobrinha espelhada e plantando bananeira, parecendo uma rainha de bateria avisando que a ala das interrogações está entrando na avenida.

 

Perguntar é uma arte. Responder, uma arte marcial. Hoje, por exemplo, travei uma luta inglória com a arte de perguntar e perdi a batalha de forma vergonhosa. Eu estava no meio do roteiro de uma entrevista para um programa de televisão e precisava de duas ou três perguntas do tipo ‘o povo pergunta’, algo que viesse de algum cérebro que não o meu. 

 

Com o icq e o MSN abertos, entrei em contato com alguns amigos e conhecidos que estavam online e pedi para que me enviassem uma pergunta para o entrevistado, imaginando que isso agilizaria meu trabalho e em poucos segundos eu teria perguntas frescas e genuínas para colar no roteiro. Foi aí que o contra ataque começou. Assim que as pessoas receberam meu pedido para fazer uma pergunta, a guerra teve inicio.


‘Por que você está perguntando isso pra mim? Pra que é essa pergunta? É pra perguntar agora ou pode ser depois? Quando tempo eu tenho para pensar? Aproveitando que você está online, posso perguntar uma coisa que eu sempre quis saber? Você está escrevendo um roteiro,é ? Quando grava? Quando vai passar? É pra usar meu nome mesmo ou você quer que eu invente um? Você está perguntando só pra mim ou pra mais gente? Quantas? Quais? O que elas perguntaram?’

 

Em dez segundos eu estava soterrada por janelinhas pulsantes e mensagens em pop-up. Ninguém mandou uma única pergunta, nem os amigos mais chegados. Fiquei me perguntando se havia algum programa equivalente ao ‘Fala que eu te escuto’, como um ‘Peça que eu Pergunto’ ou talvez, um ‘Pergunta que eu respondo’. Nada.

 

A reação é compreensível. Perguntar é invadir. Mesmo a mais banal das perguntas como um simples ‘que horas são’, desvia a pessoa da sua rota, obriga-a a gastar tempo vital para compreender a indagação, queimar neurônios para formular uma resposta e, neste caso, dispender energia para olhar para o pulso, ler as horas e dar o resultado da medida em voz alta. E nem é tanto pelo dispêndio de energia mas é pelo consumo de banda mental, de energia psíquica, que as pessoas acabam tendo pavor de entrevistas, onde o convidado é atingido o tempo todo por perguntas das mais inesperadas. É comum que antes da entrevista começar, o entrevistado pergunte antes ‘e aí, o que é que você vai me perguntar?’ ou ‘não me pergunte nada sobre minha ex-mulher porque eu não vou responder’.

 

É justo. O mundo seria melhor sem tantas perguntas.  Se houvesse liberdade de expressão, se todo mundo pudesse de fato dizer o que pensa, sente, acredita, não seriam necessários os interrogatórios, nem entrevistas, nem perguntas tolas e inúteis.O mundo seria bem melhor se antes de perguntar, as pessoas procurassem no Google. O mundo seria bem melhor se todos os resultados do Google fossem confiáveis.

 

Rosana Hermann escreve no Blônicas todas as quartas, uma crônica de quinta, até segunda ordem...

Escrito por Blônicas às 12h48
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- As gordinhas do Seu Chico

De Nelson Botter Junior - Visite o blog.

 

Seu Chico estava na varanda, de papo pro ar, se embalando na cadeira. Pestanejava, mas estava alerta, pitando um fumo forte. Viu Maneco chegando. O rapaz tinha alguns boizinhos magros que tocava, resistindo à seca da região. Adorava parar e prosear com Seu Chico, velho sábio e mentiroso de primeira, ou seja, uma companhia perfeita.

- Bom dia, Seu Chico!

- Bom dia, Maneco. Num anda dando de comer pros boi, abirobado? Tão tudo com cara de fome, num vão agüentar mais três dia assim. Olhe, os bichinho tão tudo cibito, com cara de canelau. Parece até que vão descomer as tripa.

- São assim mesmo, Seu Chico. Magro, mas bonito. Igual essas modelo da televisão.

- Olhe, vou lhe dizer uma coisa. As magricela que me adesculpe, mas uma gordurinha bem localizada é bom que só a porra. Mulher boa é aquela que tem buchinho pra homem morder. Quem rói osso é cachorro magro que num sabe o que é bom. 

- Seu Chico dá o maior dez por uma gordinha, é?

- Melhor que meiota! - ele riu e se ajeitou na cadeira. - Caldo de carne é que tem sustância, leso. Gosto de fartura, de sobra pelas beirada. Tu é novo, um dia ainda vai aprender. O Criador deu o grau quando fez a mulher cheinha, sabe não? Mulher pro velho aqui tem que ter umbigo gordo, barriguinha com os pneu calibrado, igual aquelas pochetinha pra carregar dinheiro. E as perna grossa? Respeite! Rapaz, gosto de cambita não, chega a dar gastura quando vejo aquela loira alta que passeia na televisão. Todo mundo baba, mas gosto não. Conheço ela, já veio aqui. Vi com esses olho. É fulerô, presta não.

- Seu Chico conhece todo mundo! - ele riu.

- Foi. Uma vez conheci um pintor que pintava uns quadro. Desses famoso. Um cabra que num me alembro o nome agora, ando meio destrambelhado pela idade. Bottario, Bottero, Buttina, algo assim. Ele pintava aqui nessa varanda. Maneco, tu não acredita os pitéu que o cabôco desenhava. Fiquei abestado! Cada bichinha menina de dar gosto, com as dobrinhas sobrando, as coxas maior que meu quengo, eu embaixo de uma daquelas só ia mexer os olhinho, todo acochado, o velho ia ficar todo zoado com sorriso de fora a fora, deitado dois dias sem sair do lugar, empazinado, num sabe?

- Ah, Seu Chico, não quero apurrinhar, mas mulher magrinha é que se preza. Estrada com muita curva se fosse boa não era sinalizada!

- Maneco, seu baitola, tu não sabe nada de mulher mesmo. Cachorro magro do caraio. Tu gosta é de gente que vai no médico pra chupar as banha com canudinho. Paga pra sofrer! Povo infeliz, Maneco, tudo escravo do espelho.

- Mas Seu Chico deve de saber que as pelanca não apetecem o pessoal. Eu, por exemplo, gosto de barriga lisinha...

- Liso é tu, abiudo. Não me apurrinhe! - pitou mais uma vez. - Tu mal foi parido, não sabe nada, não sabe nem que conheci Lampião...

- Claro que sei! Já ouvi as história. Só não sei ainda por que Virgulino queria acabar com a raça de Seu Chico.

- Pois pronto, seu varapau, hoje te conto. E é tudo por causa dessa minha querência pelas carnudas. Lampião era um cabra danado e gostava de pitar, num sabe? Um dia ele ordenou que eu fosse buscar uma carteira de cigarro. O homem tinha esquecido perto duma boca quente. Lá fui eu e quando peguei a carteira, tive a visão do paraíso. Ali, perto de uma moita, tava Maria Bonita, peladinha, se banhando. Eu disse: agora danou-se! Lampião me capa! Até tentei fechar os olho, mas não teve jeito, quando vi aquelas gordurinha, aquele bucho avançadinho, aquelas duas melancias de derrubar qualquer bode velho, não tive dúvida, fiquei igual pau-de-virar-tripa tirando as remela dos olho pra enxergar melhor. Até que ela levantou e me viu ali, espiando feito um calanguinho. Eu num sabia se corria ou se ficava. Então falei "Eu morro, mas morro feliz que só"! Ah, Maneco, que vontade de triscar aquela mulher!

- Ora, Seu Chico, deixe disso, Maria Bonita nem era gordinha...

- Mas tu é abusado mesmo, seu galalau! Tá duvidando do velho? Eu vi, com esses olho que essa terra vermelha há de comer e arrotar. A ispilicute tava lá, passando a água da quartinha pra tirar a inhaca da perseguida.

- Vixe, com tudo de fora?

- Até o último pentelho penso. Pois te conto agora o que nunca falei pra ninguém. Tu guarda segredo, seu verminoso! Maria Bonita, em muita carne e pouco osso, me chamou. "Venha cá, abestado", disse ela com voz esganiçada. Eu disse: pronto! Tô lascado que só. "Que tu veio fazer aqui?", ela perguntou. "Vim pegar a carteira de Lampião", respondi com o cu na mão. "Não se aperreie, gosto de tu, Chico. Não vou te enredar. Virgulino não vai saber... Gosta?". "Do quê?" quase caguei. "Do que tu tá vendo", ela respondeu com um olhar de tremer defunto. "Olhe, Dona Maria Bonita, se eu disser que não gosto, vai ser uma mentira dos diabos". "Então ande, se acunhe, avia". Como não sou de empalhar, e muito menos de negar fogo, fui logo fazendo o serviço. Já que ela era a mulher do chefe e me deu uma ordem, eu tive que cumprir. Parecia um travesseiro de ganso. As carnuda amoldam no corpo, sabe? Encaixa que é uma beleza. Magra parece tábua de desamassar roupa, num dá quentura.

- Diabeisso??? Maria Bonita gordinha... Lampião corno... Seu Chico endoidou, foi? Quanta falta de respeito e mentira numa história só!!!

- Olhe, Maneco, como diria o cumpadre Chicó que muito já pitou nesta varanda e por uma carnuda também se encanta: "Num sei, só sei que foi assim"...

Escrito por Blônicas às 13h51
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