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- O suicídio de Etevaldo
De Castelo.

Etevaldo estava de saco cheio.
Da existência besta.
Mas, curioso, nada havia acontecido de tão grave assim.
Ao contrário, quem olhava Etevaldo de fora via um cara como milhões de outros - acalentando meia-dúzia de sonhos num mundo globalizado e injusto.
Fazia faculdade, freqüentava as baladas, bebia sua cerveja, dava uns tapinhas de lei.
Como explicar a inapetência para o ser e estar?
Etevaldo não era dos que temia a morte física.
O mais difícil no suicídio (já planejado e re-planejado por ele) seria deixar de conviver com aquele pessoalzinho do peito.
Ah, meu Deus, a Mari Pequenina. Já estava com saudades da baixinha do coração! Quantas vezes, no meio da tarde, se falavam.
Assuntos os mais “nada a ver”.
Só pelo prazer da besteira pela besteira.
Os temas beiravam o ridículo: “por que a feijoada é servida às quartas e sábados e não às segundas e sextas?”
Perdiam horas teorizando sobre tais bizarrices.
E o Jim Jones? O maluco-beleza da moçada, sempre querendo chocar a sociedade.
(Um dia tentou reunir os amigos para um “happening” na avenida Paulista contra o estupro de mulheres na Bósnia. Ninguém apareceu e Jim Jones foi em cana.
Pior: apareceu no Jornal Nacional segurando um cartaz com pinto gigantesco e um “x” riscado em cima).
Se houvesse uma outra vida e eles não estivessem lá ia ser a maior deprê.
Venina, Tatão, Mojo, Prizinha, Cafaldo, Zé Orbital, Karine, Biu, Vane, Romerinho, Gomelino, Cardá…só pra lembrar os mais presentes.
O que dizer então da Madu?
Bem, aí a coisa entrava no campo sentimental.
Foram se conhecendo devagarzinho, com muito tato, via e-mail.
Um “oi” aqui, um “beijinho” ali.
Hoje, essa coisa forte.
Paixão mesmo, registrada nas mensagens dela, guardadas por Etevaldo como relíquias.
(“Etezão: você é meu maior amorzãozão”. Ou ainda: “Etê: phone home aqui na minha casa!”).
Quando pensava na Madu, o desejo de partir diminuía.
Mas não se encerrava por completo.
No frigir dos ovos, por pequena margem, a náusea venceu.
Era chegada a hora. A mensagem de despedida acabou ficando pronta.
E dizia o seguinte:
“Não vou mais com vocês. Cansei, podem ir em frente que eu fico por aqui.
Caminhem rápido, sem olhar pra trás.
Caretas de Paris e New York, sem mágoas, estamos aí. Fui”.
Depois de escrever o ponto final, respirou fundo e clicou o botão “encerrar conta”.
Estava consumado o orkuticídio de Etevaldo.

Castelo é cronista do Blônicas aos sábados.
Escrito por Blônicas às 12h33
[]


- As 7 mortes de Sculaccio

De Henrique Szklo

“Sculaccio está morto”, dizia a manchete do jornal. Uma das maiores revelações da pintura contemporânea quis usar um tubarão como modelo vivo e acabou virando modelo morto do próprio. Ninguém foi capaz de explicar como é que ele pretendia pintar embaixo d’água nem como o tubarão conseguiu comê-lo inteirinho, não sobrando nem um pincel para contar história. Mas a mídia não está muito preocupada com estes pequenos detalhes, e sim em fazer uma cobertura sensacionalista e espalhafatosa, a altura do grande talento do sujeito. Carregar nas tintas, como se diz.

A morte do grande mestre Sculaccio comoveu o mundo. Foi uma grande perda na opinião de todo mundo (menos na do tubarão). O que ninguém sabia, ou quase ninguém, é que o tubarão levou a fama de comedor sem tirar proveito. Nem sequer chegou perto de conhecer o delicioso sabor de um pintor em su tinta. O pobre predador sanguinário não sentiu nem o cheiro do verniz.

Sculaccio era um gênio. Não só como artista, mas como salafrário. Bolou um plano tão genial que jamais ninguém poderia desconfiar. Logo cedo descobriu que tinha um grande talento para a pintura. Eclético, inventivo, completo. Não demorou muito para que o mercado de artes voltasse suas atenções para o jovem talento emergente. Durante alguns anos trabalhou como um louco. Realizou centenas de obras de excelente qualidade. O mercado porém preferia aguardar o amadurecimento do artista para colocá-lo numa posição de maior destaque. Mas justamente quando ele acabara de realizar uma grande exposição onde se consagrou internacionalmente, o tubarão papou ele. Quer dizer, todo mundo achou isso. Na verdade o corpo nunca foi encontrado. Isso porque não existia nenhum corpo. Sculaccio estava vivo, mais vivo do que muita gente. E por ser um artista dado como morto seus quadros atingiram rapidamente cifras estratosféricas. E como ele possuía muitas obras, seu fiel assistente, a quem deixou tudo em testamento, rapidamente vendeu o lote inteiro, levantando uma pequena porém indecente fortuna.

Mas Sculaccio era ambicioso. Queria mais, muito mais. Mesmo após sua morte oficialmente declarada pelas autoridades, ele continuou pintando e assinando como Sculaccio, quer dizer, falsificando a si mesmo. Seu plano, porém, era mais ambicioso. Fez uma operação plástica, mudou de identidade e alguns meses depois apareceu em outro ponto do planeta para iniciar um trabalho completamente diferente daquele que o havia consagrado. Seu talento era realmente espantoso. Em pouco tempo Nascôsh, seu novo nome, passou a se destacar com seus trabalhos arrojados e vibrantes. E o pintor repetiu o mesmo plano anterior: ao atingir uma posição de destaque no mercado simulou sua própria morte e mais uma vez amealhou uma quantidade abestalhada de dinheiro.

Repetiu o plano seis vezes até que foi descoberto. Primeiro por causa daquela mania besta de pintar assinando com o nome dos mortos. Exames feitos por computador comprovaram que as obras foram realizadas pela mesma mão, mesmo aquelas que haviam sido pintadas após o passamento declarado do autor. Segundo, porque um dia alguém descobriu um cirurgião plástico boca-mole que declarava aos quatro ventos que possuía uma invejável coleção de obras-primas. Coincidentemente sendo constituída de pelo menos um quadro de cada pintor incorporado por Sculaccio. Mas a prova final, aquela que desbancou o sujeitinho, entregou o ouro pro bandido foi ter sido reconhecido numa praia de nudismo por alguém que algum dia o havia comido. E não foi um tubarão.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas às sextas e quer morrer só uma vez. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 12h48
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- Meus ossos de estimação

De Marcelino Freire.

 

Nunca tive um bicho de estimação.

Pelo menos, assim, bicho tradicional, normal etc. e tal.

Se todo mundo teve cachorro e teve gato. Eu não. Nenhum rato, nenhum peixe no aquário. Nenhuma tartaruga.

Meus bichos eram bichos mortos.

Que saudade!

Explico: bichos só ossos.

Explico: nasci no alto sertão de Pernambuco. Minha diversão era pedra e perna de passarinho.

Verdade.

Ligamentos miudinhos. Que eu encontrava enterradinhos. Que eu via morrer. Que eu matava para comer.

Eu brincava com ossos, a saber: asa de galinha, bico de guiné, unha de preá. Couro de cabra virava casaca de cangaceiro.

Olha só, pai, que barato este meu carro. A direção, um chifre onde eu me agarrava, velozmente.

Carro?!! Essa não.

Sim, eu tinha um tio que tinha um carrão. E que vinha da cidade para levar a gente. Mostrar que a vida não é nada mole, essas coisas.

É preciso trabalhar duro, moço. Para não morrer feito esse povo.

Eu também encontrava osso de gente. De repente, uma cabeça que mais parecia a de um macaco.

Quando a gente morre vira macaco, eu pensava.

E eu encontrava espinhas de peixe também.

Nunca mais mexa em ossada assim, disse minha mãe. E eu não mexi mais. Até que veio alguém e mexeu. E levou tudo embora, dentro de um caminhão.

Eu corri chorando, atrás do caminhão, lembro.

Meus bichos de estimação eram também aqueles dinossauros.

Mas isso já faz muito tempo.

Marcelino Freire é cronista do Blônicas. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 09h52
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- O cachorro

De Leo Jaime.

    Avenida larga e movimentada. Duas pistas, um canteiro no meio, muitos quilômetros. Eu ia em uma mão, o trânsito fluindo lento mas andando. Do outro lado, na calçada, observei a chegada de um cachorro pequeno. Desses de apartamento. Não sei o nome, mas uma raça dessas bem amorosas, que adora ficar no colo, em especial de mulheres. Schnauzer? Yorkshire? Um desses, de pelo meio acinzentado e comprido.
Ele apontou na esquina, olhou para um lado lado e para o  outro e parecia ansioso em tomar uma decisão. Não sei se alguém o chamou, ou se o barulho da avenida sugeria sentenças gravíssimas. A decisão veio rápida e como um raio: o cachorro começou a correr. Escolheu a contramão, ou seja, fomos na mesma direção. Eu, com os olhos grudados nele, e ele, se desviando das pessoas que tentavam detê-lo, na calçada, atendendo a meus apelos. Pelo que podia observar ele não estava se poupando. Imprimia toda a velocidade que seu pequeno porte possibilitava. Não havia razão para poupar o fôlego, mesmo que ele não soubesse para onde estava indo. E certamente ele não sabia. em um determinado momento resolveu se livrar das pessoas e das ruas transversais que tinha que atravessar e que o obrigavam a diminuir o passo e escolheu o asfalto.
    E lá ia, o cachorro levando os meus olhos com ele. Não devia ser afeito a passeios em avenidas. devia, quando muito, descer de coleira para perambular pelas ruas tranquilas do bairro. Bairro residencial, quase sem tráfego. E lá estava ele, metido na contramão, driblando ônibus, motoboys e senhoras ao volante. Contra tudo, naquele mar de gente e máquinas barulhentas. Sem rumo, sem lógica, sem sentido e com muita pressa. E corria, corria, corria.
    Lembrei-me da primeira noite em que saí, depois de uma longa e triste separação, para vencer o claustro e tentar uma sessão de meia-noite, só, e para ver um filme que não empolgava. Cheguei no shopping center e tive a sensação que imaginava o cachorro tendo: tudo em volta era inóspito e todos eram inimigos. Aquela gentalha que meus olhos nublados viam naquele dia, e que imaginava serem todos eleitores do Collor, gente que bota fogo em índio e bate em viado, gente que adora ver as criancinhas dançando na boca da garrafa, gente que debocha de gordos e feios e pobres, gente má perdoada pelo senso comum, pelo fato de suas pequenas maldades serem comuns, serem banais, serem ordinárias. Gente com defeito de fábrica, desvio padrão, produto de marketing michuruca e vulgar. Gente que vem como uma correnteza arrastando tudo, empurrando tudo para dentro dos bueiros da insanidade.
Desperdiçando suas vidas e atrapalhando a minha. Gente. Indiferente à minha dor. Rindo do meu desespero.
    O que parecia impossível ficava cada vez mais evidente. A morte passava tirando fino e o cachorro, a cada susto, aumentava mais a velocidade. Já não via, já não ouvia, já não importava mais nada: corria. As coisas todas que faziam parte de seu cotidiano, de seu aprendizado, diluíam-se com a velocidade. NAda mais era certo: a vasilha com comida, a hora de dar o passeio, os braços e afagos da dona, as brincadeiras e os latidos, diligentes, a quem tocava a campainha. A realidade era outra, agora, e ameaçadora. Tudo tinha a nitidez do átimo, do que passa quando nós passamos em velocidade. tudo tinha a incerteza do impulso que não sabe em que vai dar. A vontade sem o ponto. O medo. E o desespero.
    Mais de dois quilômetros tinham sido vencidos sem que ele arrefecesse. Levava a minha alma o cachorro. conhecia o amor naquele momento. Quando lhe faltava todas as certezas. Quando tudo o que ele conhecia perdia o sentido, encontrava o amor. E para ele corria. Cego. Em busca daquilo que, antes, nunca soubera existir. E é horrível conhecer o amor. Saber o amor, pensar no amor, desejar o amor é de todos, o maior dos horrores. Só há amor quando não se pensa o amor. Quando é como o ar, uma presença contínua e invisível. Um estado basal, uma realidade tácita e dominante. Pensar o amor é diagnosticar sua ausência. E as ausências preenchiam os olhos do cachorro e completavam-lhe o desespero. Haveria alguma lata a ser virada mais à frente. Haveria. Sempre há. O cansaço ia lhe tomando o corpo ao mesmo tempo que o fôlego lhe fugia. A impotência iria se apresentar, uma hora ou outra, não importa o quanto corresse. conheço a fome. Sei o que ela faz. A fome tem tanta pressa quando o desespero. Conheço os dois. Já fiquei um, dois,  três, quatro, cinco, seis dias sem comer nada. Várias vezes. Nunca passaram de seis, os dias, longos e absurdos. E sei a humilhação que é estar com fome e não ter dinheiro para comprar um pão.
    Lembro-me do dia em que parti para o Rio, depois de uma semana só comendo um pão com um copo de leite por dia. tinha uns comprimidos para dormir e tomei vários ao entrar no ônibus. Viagem longa, o ônibus quebrou várias vezes e durou quase umas 40 horas de Salvador ao Rio. Na décima sétima hora desci pela primeira vez e fiquei cercando as mesas da churrascaria rodízio de beira de estrada esperando algum desavisado deixar o prato com algo intocado. sempre, em rodízios, pedem mais do que conseguem comer. E era isso o que eu tinha em mente. Os excessos alheios. Nada feito. Sem sorte naquela vez. Fui ao balcão e pedi uma pedacinho de alguma coisa para provar, não convencendo também o churrasqueiro. A sorte foi que um cara me assistiu e, por fazer a mesma viagem, notara também que eu não tinha comido nada desde que a viagem começara. Chamou-me e perguntou se eu estava com fome. Estou. O que mais poderia dizer. Ele falou que se eu tivesse avisado ele dividiria os prato que ele e a mulher haviam comido com os dois filhos pequenos. Onde comem quatro, comem cinco. Era a lógica dele, um nordestino indo para o Rio ser assistente de eletricista em obras. Um generoso e humano pau-de-arara. Salvando minha barriga com, adivinhe, dois pães e um copo de leite. Ele ofereceu uma média com um pão com manteiga mas eu observei que com o mesmo dinheiro poderia comer um pouco mais , e assim se fez. E assim aprendi que a ajuda vem de onde menos se espera, mas vem.
    O cachorro ainda iria encontrar alguma lata, algum provável novo dono. Alguém. Era o que eu dizia a mim mesmo quando vi nossos caminhos se separando. Eu, impotente, torcia para que ele tivesse a sorte de fazer parte de uma família amorosa. Quem sabe o encontrariam? Às vezes acontece de você ser amado pelos seus. Nunca do jeito que quer, que precisa, que deseja, que merece. Mas o amor acontece. Para alguns. Alguns. Algumas famílias. Há que se crer nisso, se não as crianças param de nascer. Há que se fiar no absurdo. No improvável, e, como o cachorro, seguir cegamente os impulsos amorosos.  O amor era a única certeza daquele animal. O amor que ele já não sentia.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h05
[]


28/04/2005 - Mega Sena acumulada

De Evandro Daolio.

 

Hoje eu resolvi que vou ganhar na Mega Sena. Só assim mesmo. Não dá. Eu fico fazendo planos aqui para juntar dinheiro e pegando aqueles folhetos nos faróis de apartamentos à venda. Eu não consigo juntar dinheiro para comprar nada quanto mais esses apartamentos. Aí você vai lá e o corretor fala que quase tudo já está vendido. Aonde esse pessoal arruma dinheiro? Pode ir em qualquer um, mesmo esses que custam mais de um milhão, está tudo vendido. Deve ser uns cinco ou seis caras que compram tudo, só pode ser. Ou então os corretores mentem, o que não é difícil, pois sempre falta uma unidade para vender e quando você passa lá cinco meses depois ele sempre dá um jeito de te arrumar uma.

Outro dia fui ver um que custava cento e vinte mil reais (mesmo sem dinheiro para comprar, claro) e era tão pequeno que se eu tropeçasse na sala era bem capaz de sair pela janela e cair lá embaixo. Em outro, a sacada era tão pequena que fiquei tirando sarro que meus pés tinham que ficar virados para fora, como pé de palhaço, para caberem. A corretora ficou até com vergonha. Outro, um banheiro que se você deixasse cair o sabonete, tinha que sair do box para poder agachar para pegá-lo.

O pior é que eu tenho tanto azar na Mega Sena que eu sempre consigo não acertar um número sequer. Então pensei no seguinte: vou fazer nove jogos escolhendo seis números diferentes em cada. Aí eu chego no caixa e na hora que a menina for registrar eu puxo da mão dela e rasgo tudo, entregando em seguida os últimos seis números que não ia jogar. Quem sabe assim eu ganho.

Sabe o que acho. Só pessoas más ganham na Mega Sena. Você conhece pessoalmente algum ganhador? Na verdade, é como enterro de anão... só se ouve falar. Pior, você já ouviu falar de algum ganhador que ajudou alguém ou fez algo de bom para muita gente?

Um cara de ganha 30 milhões, se ele não souber aplicar ganha no mínimo meio milhão por mês só de juros. Só com o juros ele resolveria a vida de umas cinco mil famílias por ano, a dele incluída. Eu pintaria a cidade inteira, colocaria outdoor “se a prefeitura não faz eu faço”, mandava cortar a grama de todas as praças, encheria a cidade de galpões distribuindo sopa, mutirão de limpeza das margens dos rios, trocaria todos os barracos por casas e.... finalmente seria assassinado por alguém da prefeitura... mas eu seria uma espécie de Mister M para me camuflar e dar tempo de ajudar antes disso.

Vai ver também que não ganhamos porque acabaríamos ajudando um monte de gente que não merece... Uma vez ajudei um primo meu, comprei um Palio arrebentado para ele arrumar e iniciar uma empresa, uma espécie de mecânica/funilaria da vida. Adiantei três mil reais. Dois meses depois descobri que ele pegou uma Kombi, lotou de mulher, foi para praia e torrou todo o dinheiro. Na cabeça dele, o dinheiro não ia acabar nunca.  Pessoas boas....

         É... é mais fácil cair um raio na minha cabeça em dia de sol (estatisticamente é mesmo) que eu ganhar na Mega Sena. Não tem jeito de ganhar dinheiro... Por isso é que acho que vou começar a jogar na Lotofacil viu...

 

Evandro Daolio é cronista do Blônicas. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 11h54
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- Unplugged

De Rosana Hermann.

 

Passei quatro dias sem computador, sem blog, sem ligar a tv, sem ouvir rádio, sem ler jornal, sem celular. E não fiquei no meio do mato, numa choupana sem energia elétrica vivendo de caça e pesca, ao contrário, matei o trabalho e fui com a família para Buenos Aires. Nem a câmera eu tive vontade de usar, voltei com pouquíssimas fotos, o mínimo necessário para aplacar o delirium tremens da abstinência digital. Fiquei mesmo unplugged.

 

Olhei o céu, vi a lua, senti o cheiro do vento, conversei com meu marido e meus filhos. Ri muito. Há muito tempo não ria assim, bobeira de adolescente, daquelas que duram horas, gás hilariante de abobrinhas que imita velas de aniversário, aquelas que se reacendem do nada.

 

Não fui ver show de tango, não visitei a Plaza de Mayo, não fui à Casa Rosada. Nem tomei café no Tortoni, nada. Apenas caminhamos, comemos, olhamos gente, conversamos com taxistas, examinamos vitrines. Entrei sim, em algumas lojas, como uma linda papelaria. Fizemos coisas tolas como usar a piscina do hotel e comer uma banana. Ir até uma estação de trem, dar com a cara na porta e ficar perdido no meio do nada. Comprar meia em outlet. Ver um musical de mágica e comer um misto quente num boteco, desses que servem carne com presunto no mesmo sanduíche.

 

Foi uma viagem para fora do mundo opressivo e escravizante da informação constante, do bombardeamento de notícias que nos obriga compulsivamente a formar opiniões o tempo todo. Foi uma trégua mental maravilhosa. O maior problema da viagem, foi a família toda ter pisado no cocô de cachorro, que gerou muitos risos e a compra de uma escovinha de limpeza na farmácia. Coisa de turista, que olha pra cima. Na cidade, a gente não olha pro céu, porque não tem nada lá.

 

Esta semana em que o mundo tenta pifiamente promover a campanha ‘desligue sua tv’, que será seguida em agosto pelo ‘desligue seu PC’, é um bom momento para fazer um primeiro simulado. Muita gente já faz isso, claro, tem seus momentos de desligamento e leitura. Mas ampliar este tempo unplugged é uma necessidade tão básica quanto comer menos e exercitar-se mais.


Passei quatro dias na versão acústica. Removi um chip de dentro de mim. Desliguei um fio que me acorrentava a alma. Amei melhor. Gargalhei gostoso. Fiquei amorosa. Saboreei a carne e o vinho. Durante 96 horas voltei a ser gente.

 

PS – Quanto é o próximo feriado? :-/

 

Rosana Hermann escreve no Blônicas todas as quartas, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h34
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- Uma lição

De Nelson Botter Junior.

Prefiro omitir o meu nome. Vou apenas dizer que sou pastor, mas também não quero citar de qual igreja. É uma das grandes e não convém entrar nesses detalhes, pois o assunto aqui não tem a ver com religião... ou será que tem? Acho que não.
O fato é que apesar de ter comprado, graças a Deus, uma bela BMW 2003, de vez em quando gosto de andar de metrô. Não que eu precise do contato com o povo, mas é que quero observar certos tipos de pessoas para poder captar alguns temas, a fim de usá-los em meus sermões.
Outro dia, lá no vagão, havia um menino, tinha seus doze ou treze anos. Eu estava perto e vi sua expressão alerta. De repente, numa dessas brecadinhas que o metrô costuma dar, acabei esbarrando na mochila do garoto. Ele virou-se rapidamente, num reflexo instantâneo, deu uma olhada, não viu nada de suspeito e virou-se para frente de novo.
Pode? O idiota do moleque achou que eu estava tentando roubar a mochila dele. Que paranóia que essa cidade cria! Ainda bem que eu não tenho cara de ladrão. Isso me ajuda muito no dia-a-dia. Fico imaginando se eu fosse um tipo suspeito... o que o menino não teria feito?
Aquele pensamento me incomodou. Chegou a estação em que eu iria fazer a baldeação para pegar a outra linha e o garoto também desceu. Notei que ele, de vez em quando, me procurava com o canto dos olhos. Me irritei, pois o moleque estava suspeitando de mim. Idiota!
Desci as escadas até a outra plataforma e para minha surpresa o garoto lá estava. Não acredito em coincidências, portanto concluí que tratava-se de um sinal para que algo fosse feito. Resolvi perturbar o garoto para ensinar-lhe uma lição. Onde já se viu duvidar da minha pessoa?
Pois bem, fiquei esperando o trem na plataforma, bem perto do menino. Absorvia a sua aflição por se sentir perseguido pelo homem que havia esbarrado em sua mochila no vagão do outro trem. Eu comecei a me deliciar com aquilo.
Entramos no vagão e ele correu para o outro lado, virando-se de frente para mim e encostando sua mochila contra a porta. O espertinho não me encarava, mas estava protegendo sua "tão cobiçada" mochila. Fiquei ali, olhando, como se estivesse esperando o momento certo para atacar. Ele não me olhava, mas eu podia sentir que estava preocupado.
Mais duas estações e ele fez menção de descer. Não era a minha estação e a brincadeira parecia estar chegando ao fim. O que fazer? Desci.
A cada passo que o garoto dava, eu o acompanhava mantendo uma certa distância, querendo ver onde esse moleque desconfiado iria, o que ele faria ali, acuado e amedrontado.
Na rua, apertou o passo. Acompanhei e percebi que ele olhava para trás diversas vezes, tentando ver se eu ainda estava lá. Seu olhar era cada vez mais angustiante.
O menino até usou o velho truque de parar na banca de jornal para que eu passasse, mas eu não caio nessas. Parei do lado dele e fingi estar observando as revistas. O garoto, desesperado, se pôs a correr. Eu ri, mas então pensei que teria uma chance de pegá-lo cortando o caminho por uma viela. Se ele virasse à esquerda na avenida, eu o interceptaria. Contaria com a sorte, mas como eu estava certo de que aquele momento se tratava de algo especial, resolvi tentar.
Eu atravessei a viela e esperei o garoto. Ele já vinha ofegante, mas não correndo. Olhava para trás e se distraiu quando apareci na frente dele. O coitado não me viu. Foi o suficiente para puxá-lo para a viela. Suas expressões de espanto e surpresa me petrificaram. O garoto, pálido, caiu no chão devido às pernas bambas. Eu não sabia o que fazer ou dizer. Ele me fitava, até que resolveu dizer que me entregaria a mochila, mas que pelo amor de Deus não o machucasse.
Eu não me mexi e ele estendeu a mochila até mim. Peguei-a e um verdadeiro turbilhão passou pela minha mente. O garoto levantou-se e correu. Fiquei ali, parado, sem ação, até que resolvi correr... na direção contrária à dele. Eu ficaria com a mochila, pois ele havia me dado e agora era minha.
Você deve estar se perguntando por que eu fiquei com a mochila, né? Não sei dizer ao certo. Talvez eu já esteja acostumado a tomar coisas dos indefesos, talvez tenha sido uma lição para o garoto, talvez não seja nada disso. Não me importa. Só sei que gostei da experiência e acho que farei mais vezes. Preciso ensinar outras lições a muitas outras pessoas.

Nelson Botter Junior escreve no Blônicas todas as terças-feiras e não é pastor (graças a Deus).

Escrito por Blônicas às 11h54
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- Faz de conta que sou o primeiro

De Xico Sá.

 

Ailton não é apenas um bom garçom. É especial. Criatura abençoada. Especialíssimo. Do tipo que cria laços de estima e consideração com os fregueses. Do tipo que ouve, aconselha, amansa os traídos, acalma as mulheres de bêbados infiéis, bota ordem na casa, devolve uma certa paz ao universo.

Melhor ainda, Ailton é do tempo em que garçom sempre sabia o resultado do futebol. Do tempo em que torresmo não fazia mal, do tempo em que os homens não tinham medo da sorte nem do colesterol.

Toda essa “sabença”, como ele trata a  soma de sabedoria com experiência, é servida de bandeja à freguesia.  

No boteco, ele é tudo ao mesmo tempo: sócio-proprietário, caixa, segurança e DJ _e só toca vinilzão de samba antigo. Adora João Nogueira. “Oh, minha romântica senhora tentação/ não deixes que eu venha sucumbir/ neste vendaval de paixão”. Essa toca até furar o disco. Principalmente quando tem alguém chorando as pitangas amorosas. Entre tantas serventias, esse negócio de amor e dor é com ele mesmo. É mestre, rima e solução da parada.

Eu mesmo já fui perdidas vezes consolado pelo cara. Dor de corno, daquelas que não passam com cachaça ou aspirina, é com ele mesmo. Vai no ponto, na veia, um neurocirurgião do amor. Primeiro o afago, a compreensão e o ouvido ao alcance do freguês. No fundo musical, põe logo o vinilzão com “Peito Vazio”, de Cartola _``Procuro afogar no álcool a tua lembrança/ mas noto que é ridícula a minha vingança...” Dois, três conselhos depois a gente está pronto para outra, digo, outro chifre.

Numa dessas sessões “macho em crise”, Ailton me deu uma dica genial. Notou, sensível que é, a minha dificuldade em descolar uma nova costela, uma nova deusa para enfeitar o meu pobre muquifo em desalinho. Uma dica importantíssima. Simples, simples de tudo, até boba, mas de uma sabedoria e tanto. Uma beleza de estratégia.

“Seguinte, meu amigo, chega de saudade... Senta aqui, nessa primeira cadeira do boteco, que a vida vai sorrir pra ti”, disse, arrumando uma mesa bem na calçada, quase na rua, de frente para o crime.

Sem deixar a bola cair, emendou:

“Ora, compadre, todo dia tem uma mulher que sai para o bar, revoltada, muito revoltada, e diz para ela mesma: ´HOJE EU VOU DAR PRO PRIMEIRO QUE ENCONTRAR”.

Desde então procuro sempre ser esse `primeiro´ homem estrategicamente bem localizado que pode tirar proveito, com toda delicadeza desse mundo, da fúria justa e caseira de uma mulher.

 

Xico Sá escreve no Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h27
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- Meu pai nunca dirigiu

De Milly Lacombe

Meu pai nunca dirigiu. Nunca quis, nunca gostou, nunca levou jeito. Não é preciso ter doutorado em Freud para entender porque, mesmo sendo gay, tenho um fraco por homens que não dirigem. Mas essa é uma outra história. O que quero mesmo dizer é que, porque o sujeito jamais se sentou no assento do motorista em toda a sua vida, também nunca foi solicitado para dar dicas sobre como conduzir um automóvel, ou sobre qual o melhor modelo disponível no mercado, onde fazer uma boa manutenção etc etc etc. Só um completo imbecil utilizaria meu pai como fonte para esse tipo de informação.

Pois a lógica desse raciocínio vale para aqueles que esperam do clero uma posição minimamente pertinente sobre o casamento. E olha que não me refiro ao polêmico casamento gay. Estou justamente falando do casamento hétero, aquele que já vem com o selo de qualidade da Igreja, o realizado entre um macho e uma fêmea.

Vejamos: os bem-vestidos senhores católicos não podem, pela lei divina que eles mesmos criaram (vamos passar ao largo de seus motivos) casar. Ou seja, em tese, não fazem a menor idéia do que é dormir e acordar ao lado de uma mesma pessoa por dias a fio. Não têm noção do que é aguentar a cara-metade de mau-humor sem motivo aparente, lidar com a mulher de tpm, com criança chorando as três da manhã etc e tal.

Bem de vida como eles só, também não sabem o que é ter que driblar a falta de grana para pagar contas no fim do mês e fazer com que o grande amor sobreviva a esses problemas mundanos.

Como então, por nossa senhora, se colocam eles na posição de conselheiros e senhores das leis matrimoniais? Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, saem exigindo sem conhecimento de causa.

Talvez os tais senhores patuscos e católicos pudessem servir para palpitar sobre vinhos, pães , túnicas, arrecadação de patrimônio alheio, lucro, truques para driblar a receita federal e até, como recentemente veio à tona, sexo. Mas casamento, bom, casamento não faz o menor sentido.

Não é preciso enxergar além da foto do ex militante hitleriano Joseph Ratzinger para sacar que o mundo, à beira do colapso moral, precisa mais do que nunca de um revolucionário, um perturbador da ordem, um profeta moderno – um Jesus Cristo esterelizado da hipocrisia cristã.

É hora de pintar por aí um sujeito carismático que derrube dogmas, tabus, proconceitos. Que rasgue o livro sagrado que rege o falso moralismo social de hoje e pregue apenas e simplesmente o amor, a tolerância, a distribuição de riquezas (atenção coroinhas de plantão: Uma coisa é ser a favor da distribuição; outra bem diferente é distribuir).

O irônico, ou a justeza poética, é que um ser humano com essas características pode estar em qualquer lugar, menos dentro do mármore profano, masculinizado e viciado do Vaticano. Até porque, se lá dentro o coitado estiver, é certo que não vai durar muito (que o diga o pobre João Paulo I).
E enquanto o mundo hipócrita celebra o papa que um dia eurgeu o braço direito para saudar Hitler, eu torço para que, em algum lugar do planeta, o novo profeta esteja saindo de casa para vir nos salvar.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 11h55
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- O personal trainer do Piauí e o metrossexual

De Castelo

A vida de Zé Arimatéia mudou muito desde que passou a ser chamado de “personal trainer do Piauí” pelos “habitués” do Ibirapuera. Por ser um fiel observador dos hábitos dos atletas no parque, esse gari da prefeitura começou a colecionar dicas sobre qualidade de vida. Hoje, num conjunto comercial no Chora Menino, aconselha políticos e celebridades. Mas há quem diga que seu estilo sertanejo, muitas vezes choca a clientela. Como aconteceu recentemente com um executivo que o visitou depois de ler uma reportagem sobre seus métodos não-ortodoxos. Vestindo terno Armani, o “self-made-man” (35 anos, mas aparentando 28) foi recebido pelo “personal” com a sua clássica indagação:

- Que-qui-há?

O executivo se manteve em silêncio, com expressão taciturna.

-  Tá com alguma curuba? - indagou Zé Arimatéia.

O engravatado permanecia do mesmo jeito.

-  Cadiquê o calundu?

Silêncio. O “personal” então berrou:

- Rapáize, que fuleragem é essa?!

Só então o homem se acomodou melhor na cadeira e começou a falar.

- Não vim aqui para melhorar meu desempenho esportivo. Todo ano participo de provas de pentatlo e me saio muito bem. Tenho outro problema…

- Vixe, desembuche!

- Apesar de estar muito bem profissionalmente, quero mudar de país. Por uma razão muito simples: aqui não tem os produtos que necessito pra ter uma vida normal.

- Êita lasca! E o que diacho lhe falta?

- Coisas básicas. Um esfoliante de boa qualidade, uma máscara facial que deixe meu rosto com expressão suave. Um filtro solar de baixa adstringência. Seu Arimatéia, nem o Listerine brasileiro presta!

 Zé Arimatéia fez uma cara pensativa. O executivo então perguntou:

- O que o senhor pode fazer por mim?

- Vá no reservado - respondeu o “personal” - tire seus pano de bunda e apois se deite por riba daquela maca.

- Sim, senhor.

- Óli - completou Zé Arimatéia - de bruço, visse?

Minutos depois, conforme fôra ordenado, o homem voltou nu.

Quando deitou na maca, Zé Arimatéia puxou da gaveta um enorme relho chiquerador de couro cru.

O executivo se sobressaltou. Arimatéia o acalmou.

- Se apoqüente não, moço. O seu mal se cura lá em Peri Peri com uma pisa cantada das boas. Vai doer um tiquim, mas o decente sai daqui bom, bom, bom. Rumbóra…

E, segurando o relho com firmeza, passou a distribuir chicotadas, ora numa nádega, ora noutra, versejando.

- Essa aqui, cabra safado/ é pra tu aprendê/ a deixar de bestagem/ de frescagem e fuzuê.

- Aiiiiiiiiiii

- Tome uma bem nos quartos/ e outra nos costado/ mó de deixá de sê/ um caboclo abirobado!

 - Ahhhhhhhhh!!

Depois da peia, Zé Arimatéia acrescentou:

- Peça à dona Bebela, na recepção, uma lapada de cana Mangueira pra acabá com o tremelique.

O executivo bebeu a cachaça ainda soluçando. E marcou outra hora, por vontade própria, já para o dia seguinte.

Castelo é cronista de Blônicas aos sábados, nasceu no Piauí e foi deseducado em São Paulo. Conheça seu site.

Escrito por Blônicas às 10h36
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- Só porque criou o mundo pensa que é Deus

De Henrique Szklo (com preguiça de escrever um texto novo por causa do feriadão)

Para mim não resta a menor dúvida: Deus trabalhava como free-lancer para uma agência de propaganda e criou o mundo por pura necessidade ou por simples obrigação profissional. A troca de fax entre os dois deve ter sido mais ou menos assim:

De: Agência
Para: Deus
Favor criar um mundo.

De: Deus
Para: Agência
Informações insuficientes. Solicito briefing mais detalhado.

Agência
O cliente solicitou que o mundo fosse redondo, colorido, que fosse claro durante o dia e escuro pela noite. Pediu muita água nos rios e mares e nenhuma nos desertos. Quer que no verão faça calor e frio no inverno. Quer plantas que cresçam na terra e animais que respirem. Montanhas altas, depressões baixas e planícies planas. O cliente não quer acontecendo ao mesmo tempo chuva e sol, a não ser por ocasião de casamento de espanhol. Ele pretende fazer uma inserção deste mundo no sistema solar e deixá-lo rodando lá por tempo indeterminado. Provavelmente até o próximo “boom”. P.S.: Fizemos o possível para demovê-lo da idéia, mas ele bateu o pé: quer também que tenha gente no mundo.

Deus
Ah, essa não! Como é que Eu vou trabalhar deste jeito? Não vai caber tudo isso. É muita informação para um mundo só. O ideal é fazer um mundo e uma lua para dividir as informações. Além do mais, gente no mundo Nós sabemos que não dá certo. Nós podemos deixar as pessoas na lua e para o mundo a Gente retoma aquela Nossa idéia dos Incas Venusianos.

Agência
O cliente aceita a lua, mas só para enfeitar, controlar marés, orientar cortes de cabelo e fazer agendas. Todo o resto ele continua querendo ver dentro do mundo. Inclusive gente.

Deus
Já estou vendo que este cliente é do tipo buraco negro. Absorve toda a luz que passa por ele.

Agência
Também não é assim. É que ele nunca fez um mundo antes. Ele não tem idéia de como toda essa coisa funciona. A gente peita, mas até um certo limite. Se ele quer por gente no mundo, é problema dele. Ele está pagando e acha que o ser humano pode dar certo. O que é que se vai fazer?

Deus
Tá bom, tá bom! Eu faço o trabalho. Estou cheio de conta pra pagar e não posso me dar ao luxo de dispensar nenhum trabalho.

Agência
Ah, graças a Você!

Deus
Mas qual é o prazo?

Agência
É, este é outro problema. O prazo está estourado. Você só tem 7 dias para criar o mundo.

Deus
Impossível! Não dá! Isso aqui não é linha de produção de planetas. Eu preciso de mais prazo. Em 7 dias ninguém consegue fazer um mundo decente.

Agência
A questão é que se não estiver pronto daqui há uma semana o cliente vai perder o espaço. Infelizmente não há outra alternativa. Precisamos faturar. Deixe para ganhar o Globo de Ouro em outros trabalhos. Pode deixar que mais pra frente Você vai poder criar um mundo melhor.

Deus
Isso é um absurdo! Um mundo não se cria assim, como quem apaga uma estrela. É um processo delicado, que exige tempo e maturação. Ou a Gente faz como tem que ser feito ou este mundo está perdido.

Agência
Você está exagerando. É só um mundo. Coisa besta. Se fosse um sistema solar, uma galáxia, vá lá, a gente podia caprichar mais. Mas um mundinho sem-vergonha deste? É querer gastar energia demais numa poeira cósmica.

Deus
Bem, lavo as Minhas mãos. Mas quero deixar registrado aqui o Meu protesto. E é bom que não se esqueça mais para frente, que se alguma coisa der errado foi porque, desde o princípio, era o caos. Até Eu duvido que vá sair alguma coisa boa disto.

Agência
Você me livre, vira Essa boca pra lá. Se Você quiser, vai dar tudo certo. Aliás estamos tão confiantes que resolvemos fazer um making off escrito. Você sabe, um livro contando como tudo começou e etc. E é bom Você caprichar, já que vai ficar com todos os créditos. E não esqueça, hein? Você só tem 7 dias.

Deus
Olha, pra ser franco, esse cliente não merece coisa melhor. Vou matar esse trabalho rapidinho e tirar da frente. Em 6 dias Eu crio o mundo e ainda vou ter um dia pra descansar.

Agência
Você é que sabe. Ah, mais uma coisa. Será que já não é bom a gente ir pensando na campanha de manutenção?

Deus
Nem quero pensar nisso agora. Se precisar, depois Eu mando Meu filho lá para dar uma olhada.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas às sextas, acredita em Deus mas a recíproca não é verdadeira. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 10h50
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- Os nomes

De Edson Aran

 

Conclave parece nome de ficção científica vagabunda. Com Jean Claude Van Damme – ou  Dolph Lundgren – e três inevitáveis seqüências, todas mais toscas que a produção original. Conclave 2 – O Código Fênix e Conclave 3 – A Fuga de Ônix.

Fênix também é legal. Tudo quanto é trash tem Fênix no meio. Ou Ônix. Ou Ômega. Alfabeto grego é danado de bom. Projeto Alfa, Força Delta, Código Pi, tudo funciona. Quando esgotar as letras, acrescente números. Projeto Alfa Três. Código Delta Cinco. E vamos que vamos.

Mitologia grega também é bom demais da conta pra batizar coisas. Projeto Apolo. Operação Cavalo de Tróia. Síndrome de Medusa. Clube do Minotauro. Os Filhos de Plutão.

Muito tempo atrás, assistindo a um Globo Repórter, vi a entrevista de um fabricante de jangadas. Havia aprendido o ofício com o pai e agora ensinava ao filho. Qual era o nome do cara? Posidônio, óbvio. O nome determina o destino, não tenha dúvida.

Kelly Cristina, por exemplo. Ou é participante do Big Brother ou mulher de jogador de futebol. Sebás: cabeleireiro. Tião: motorista. Emmanuel Kant: estilista (Dior by Kant). Madonna Spielberg: travesti.

Você quer mudar de time e sair por aí de salto alto e batom, mas ainda não escolheu seu novo nome? É simples. Pegue o prenome da sua cantora favorita (Britney, Jennifer, Beyoncè, Marina) e junte ao sobrenome do seu diretor de cinema favorito (Godard, Von Triers, Herzog, Truffaut).

Funciona melhor com diretor europeu, claro, e não dá certo com diretor brasileiro. Britney Diegues e Jennifer Jabor é outra coisa. São duas mocinhas que acabaram de abrir um brechó descolado nos Jardins e posaram pra Mônica Bérgamo. O brechó fecha em seis meses. Uma delas vai namorar herdeiro de supermercado. A outra fica em Paris até dezembro. Dando, evidentemente.

Nome é um perigo. Ratzinger, sinto muito, é nome de vilão de filme de guerra. B, claro. Coronel Ratzinger, este é o famoso Jean Claude, líder dos maquis no sul da França. Oh, bom dia, herr Claude, você vai me dizer o nome dos seus companheiros ou teremos de usar o – música de suspense - soro da verdade?

Ratzinger e Conclave juntos? Vai dar em vilão de filme do Van Damme, não tem por onde. Sim, eu sou um homem de pouca fé, mas não me importo. Só não consigo remover montanhas, é vero. Se for preciso, eu compro um 4X4.

 

Edson Aran é cronista do Blônicas. Visite seu site

 

Escrito por Blônicas às 11h37
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- Está escrito?

De Rosana Hermann.

Caem duas torres, morre um papa, o fluminense ganha um campeonato e pronto, saímos todos atrás das profecias de Nostradamus, do Código da Bíblia, procurando o verso, a linha, com o texto rocambolesco que já previa a ocorrência do pelo no ovo.

Mapa astral, quiromancia, leitura na borra de café, adivinhação pelas cartas ou nos miúdos do carneiro. Desde que o mundo é mundo e o tempo é tempo, o ser humano suspeita que tudo já esteja escrito (Maktub!) e que é só uma questão de alfabetizar-se na língua certa para ler o futuro, seu e da humanidade.

Racionalmente, é incoerente, já que aqui neste planeta azulado e tortinho onde passamos a vida, ninguém sabe quem fez a reserva nem de quanto tempo será a estada. Racionalmente, sabemos se alguma força divina tivesse mesmo escrito tudo em linguagem cifrada não faria sentido que D’us tivesse escondido um código sobre nosso futuro nas linhas de azulejos do banheiro.

É duro encarar, mas essa mania de procurar sinais, de buscar somas de números para saber se ele ou ela o ama é só uma loucurinha da nossa mente infantil, tadinha, que em busca de segurança neste imprevisível mundo, tenta desenhar uma figura familiar ligando os pontos do nosso cotidiano.

Ninguém vai resolver seus problemas de forma mágica, ninguém vai tomar as decisões sobre os rumos da sua vida, o número da loteria que salvaria sua situação financeira não é necessariamente o número na placa do carro que está na sua frente na hora que você pensou nisso.

Mesmo assim, é bom procurar oráculos que nos inspirem, palavras que não as nossas que nos desviem momentaneamente das nossas rotas de pensamentos. É gostoso ler o quadradinho do seu horóscopo, consultar o livro dos dias de aniversário, ir com aquela amiga num bairro a três mil léguas de distância pra conhecer uma pessoa ‘fantástica’ que adivinha tudo sobre você. Vá, leia, curta, procure. Mas sempre lembrando que as ocorrências da vida podem ser tão aleatórias que, no final, o conselho da vovó, as cartas do tarô ou o papelzinho do periquito do realejo podem ter todos o mesmo efeito.

Por isso, já que o mundo é aleatório e não dá pra saber o amanhã, desejo a você, hoje, agora, terminando essas duas linhas, um tolo pensamento mágico: ao chegar à última palavra você sentirá uma onda de sorte, muita sorte. A sorte de estar vivo, a sorte de estar bem, a sorte de saber que sorte não é pra quem quer mas, pra quem tem. Sorte, muita sorte. Hoje e sempre, pra você.

Rosana Hermann escreve no Blônicas às quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h16
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- Yes, nós temos história!

De Nelson Botter Junior.

 

Já diz o ditado popular que "um povo sem história é um povo sem memória". Isso sempre me preocupou no Brasil: a falta de interesse das pessoas em preservar nossa história, em se interessar pelo passado para entender mais o presente e planejar melhor o futuro. Se não aprendermos nada com o passado, os erros sempre se repetirão. É batata!

 

Acredito que um país sem história é um país desfigurado, sem tradição, limitado a modismos do presente e um nebuloso futuro, repleto de paradigmas. Isso é um perigo. Realmente, nunca entendi porque há um certo desleixo e deboche do povo brasileiro com sua tradição, uma certa vergonha do passado. Existe um consenso de que nossa história não é muito gloriosa, que não devemos preservar o que se passou. Países colonizados de maneira exploratória, como nós, têm grandes cicatrizes de sofrimento e injustiça, mas quem não tem? Mesmo os países de sabedoria milenar, como Japão e China, têm manchas no decorrer das épocas.

 

Semana passada, pude constatar em Paraty e Petrópolis o quanto a preservação da história, além de ser um registro importante de nossa identidade social e cultural, é geradora de empregos, fazendo o turismo girar. Que banho de cultura é o Museu Imperial de Petrópolis, que coisa linda é viajar no tempo e voltar ao século XVIII nas ruas de Paraty. E fiquei espantado com a quantidade de turistas estrangeiros nessas pequenas cidades, que em grande número demonstram um enorme interesse em saber mais sobre o Brasil Colonial e Imperial. E que loucura pensar que os gringos se interessam mais em saber de onde viemos do que nós mesmos...

 

É claro que nosso problema maior está na educação, na desvalorização do professor (profissão das mais nobres e importantes), que como verdadeiros Dom Quixotes, armados apenas de paixão, travam incríveis batalhas contra a falta de recursos e estrutura. Sim, identificar o problema é fácil, apresentar soluções nem tanto. Seria muito simples eu descer a lenha no governo, dizer - por exemplo - que o dinheiro gasto no novo avião do presidente poderia ser revertido em educação, etc e tal, mas não quero cair nessa mesmice. Quero ser diferente, quero propor que você, sempre que puder, diga a alguém sobre a importância de se preservar a memória do nosso país, de se pesquisar e estudar a história de nosso povo, nossas raízes, nossas origens, nossa espinha dorsal. Faça isso, saiba mais sobre nossa história, visite museus e pontos históricos, discuta e transmita esse conhecimento, conte como foi e como é, de qualquer forma, seja numa roda de amigos, num blog, na sua casa, enfim, em qualquer lugar, até mesmo - e tão somente - numa simples crônica.

 

E aí, topas?

 

Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h07
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- O desgosto da depiladora

De Xico Sá.

 

INSTITUTO DE BELEZA VÊNUS CACHORRA TURBINADA.

Perna: R$ 12, virilha R$ 10, meia perna R$ 6... Cera negra, cera espanhola, manicure, pedicure, francesinha, dia da noiva, servir bem pra servir sempre...

Beco estreito, depois da Praça Sans Peña. Só se morre de amor de lá por diante, disse o Cara. Ninguém mais morre de amor na Zona Sul. O amor acaba, no Rio, na futilidade, assim falou Paulo Mendes Campos. Balela, fuleiragem, o amor acaba pra latir pra outro e cantar “Tive Sim...”

Salão lotado.

-Rosângela, nega, capricha no cuzinho...

-Ih, já vi que hoje tem festa na parada!

Rosângela não anda tão feliz assim, mas negócio é negócio. É, quem diria, o neoliberalismo também chegou depois da Sans Peña.

-Dá um trato do jeito que ele gosta, tu já sabe,né?

Rosângela prepara todos os cuzinhos da área e nunca conseguiu dar o próprio anelzinho de couro.

Tem um desgosto danado.

Seu macho não aprecia um cuzinho.

Ela conta as histórias que escuta das freguesas, algumas até conhecidas dele, e nada.

Nada anima Feliciano.

Ele já chegou inclusive a desconfiar que o rapaz era gay.

Raciocínio que não procedia. Apenas um rapaz evangélico, boa formação moral.

“Ah, tu reclama de barriga cheia, isso é que é homem, não esses indecentes que a gente tromba por ai”, aconselha a colega Verônica, amigada com um safado, alcoólatra, maconheiro,  que não deixa o seu juízo em paz.

Rosângela capricha no cuzinho da freguesa.

-Hoje é o aniversário dele, sabe...

-Sei...

-Quero dar presente de cuzinho...

Rosângela fica puta, maltrata um pouco a freguesa. “Ah macho frouxo o meu!”, pensa mordendo os beiços.

-Ai –reclama a freguesa fogosa.

-Dói? –pergunta Rosângela.

-Dói nada, só na primeira vez, depois...

-Ele bota...

-KY só da primeira vez...

-Agora é a seco mermo?

-Basta um cuspezinho de nada, KY tá os zolhos da cara!

-Mas ele bota tudo?

-Até o tronco, ai mulê, pára de perguntar, que já tô ficando...

Rosângela sente-se cada vez mais infeliz. Imagina-se no caixão, no velório, morrer de cuzinho virgem não! So faltava essa. “Nossa Senhora me defenda”, reza.

A freguesa fogosa sai rebolando o cu enorme, saltitante pela calçada.

Rosângela se tranca no banheiro e chora.

Com o dedinho indicador ainda molhado de lágrimas procura o próprio rabo. A outra mão na buceta.

Liga a torneira para disfarçar.

Sai dali resolvida: vai dar o cuzinho para o primeiro católico que encontrar pela frente, de preferência o padre que a bolinou na última quermesse.

Cuzinho enquanto mais linda e feminina oferenda, generosidade, alteridade, entrega... Afinal de contas, homem que é homem já sabe essa mínima etiqueta do ramo: cu não se pede, cu se oferece!

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 12h21
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- Marketing do divino

De Milly Lacombe

Em matéria de marketing, nunca haverá um visionário como o sujeito que um dia decidiu explorar a imagem de Cristo de braços abertos e sangrando na cruz. Fico imaginando a circunstância em que foi estabelecido que a cena do homem crucificado era a melhor para agasalhar a propaganda cristã. A cruz, aliás, virou, desde então, o símbolo máximo da fé, mesmo sendo objeto de tortura de uma época. Faz sentido: o importante é comunicar o sofrimento porque só ele salva.

Se fosse eu a marqueteira daquela época, teria sugerido que a melhor imagem da propaganda cristã talvez fosse a do homem pregando – e não a dele pregado. Sei lá, pensando alto, uma cena de Jesus de braços abertos, falando para multidões e com um simbólico pôr do sol no fundo. Mas isso só revela minha incapacidade publicitária, é evidente. Porque a cena do sofrimento, do sujeito crucificado e moribundo, foi a que pegou.

Dada a milenar estratégia de comunicação clerical, é de espantar que haja quem não tenha entendido a foto de capa da Veja da semana retrasada: um close de João Paulo II completamente torto e debilitado tentando emitir uma única sílaba para se dirigir aos fiéis na Piazza San Pedro.

Trata-se apenas de uma variação do mesmo tema. O importante é oferecer aos fiéis o sofrimento daquele cristão e tratar de divulgar, via agências internacionais, a imagem. O Vaticano tem, certamente, um time de marqueteiros que herdou de seus ancestrais o talento para a propaganda. Uma gente que nada tem contra usar o choque para dar o recado. Isso, e um business plan muitíssimo bem elaborado.

Claro que, para a campanha funcionar, é preciso que veículos de massa os ajudem a divulgar a mensagem – o que exige a elaboração de um plano de mídia também de outro mundo.

Mais uma vez, fosse eu a marqueteira, teria, na semana retrasada, divulgado fotos de Karol Wojtyla jovem e forte, esquiando, quem sabe. Porque acho que preferiria que meu garoto-propaganda fosse lembrado como um sujeito forte e saudável e não como um velho sofredor e todo torto. Mas é aquela história: meu talento para publicidade é verdadeiramente nulo.

Para o céu ou para o inferno, apesar dos esforços publicitários da Igreja, o próximo papa já sentará no trono com a missão de recuperar o número de clientes perdidos na gestão anterior. O business plan deverá ser reavaliado e, quem sabe, adaptado. É dobrar os joelhos e orar para que o alto clero perceba que, a menos que o Vaticano tope dar o braço a torcer, a cruzada pela reconquista da alma alheia será longa.

É claro que, com um pouco de fé, sempre pode aparecer por aí algum outro cristão importante que comece a agonizar em praça pública e, sem ser consultado, empreste sua imagem contorcida para a posteridade cristã.

Aí, é sacar do bolso a estratégia milenar: clicar o homem em agonia e, pela salvação da Instituição, sair divulgando.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 11h45
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- Interferência Divina

De Castelo

Caro concessionário da Rádio Nacional Gospel, ZYK 775 - AM 920 Kilohertz:

Num mundo competitivo como o de hoje é compreensível a preocupação das empresas com a eficiência.
Especialmente se elas pertencem ao segmento das Comunicações ou ao da Religião.

No primeiro ramo, porque surgem para o consumidor, a cada minuto, novas e atraentes opções de divertimento e informação.

No segundo, porque há cada vez mais alternativas de se morrer e ir para algum lugar melhor do que a Terra.

Sua rádio é uma empresa de Comunicação com conteúdo religioso.

Posso imaginar então o quanto os senhores se preocupam em estar onipresentes na vida de seu público/rebanho.

Faz parte do negócio pastoral-radiofônico.

Só isso explicaria o fato de suas antenas transmissoras - localizadas ao lado de  minha casa - estarem funcionando tão acima da freqüência permitida que posso acompanhar sua programação, com grande clareza, até em meu telefone.

É mais ou menos assim:

- Alô?

- (…Maria Madalena aproximou-se Dele e ajoelhando-se entendeu o Mistério da fé que…)

- Alô? É da residência do seu Alberto?

- (… Nosso Senhor então entrou na Galiléia e vendo Simão levantando o olhar para os Céus, disse, tomai e comei…)

- É o Alberto! Quem fala?

- (…todos cantando a canção da página 17: Senhor! Eu te amo, Filho de Deus, com toda minha devoçãooooooo!!!…)

- Fiho de quem? Repete! Repete se for homem, Alberto desgraçado!

Tudo bem, subentende-se que o deus-gospel – se quiser consenso - precisa ser mais convincente que o deus-cristão (ou que os deuses-afro, deuses-asiáticos etc).
Sem contar que, sem audiência, não há anunciantes. E sem anunciantes, em pleno pós-neoliberalismo, é a barbárie.

Mas ouvir um pastor cantando, às vezes, até no interfone de sua residência não me parece razoável.

Se vocês continuarem nessa potência, logo vão pegar (e pregar) em microondas, lavadoras ou outros objetos elétricos inusitados.

- Viu que está tudo congestionado na Marginal?
- Ué, como você sabe?
- Acabei de ouvir no meu marca-passo. Deu na Gospel.

Ou ainda:

- Manhê, a torradeira tá dizendo que amanhã vai ter uma frente fria…

Desafortunadamente, meu problema com a transmissão turbinada da Rádio Nacional Gospel tem sido ainda mais bizarro.

Há meses instalei quilos de filtros na rede telefônica doméstica e a interferência divina melhorou.

Só que agora meu telefone toca de meia em meia hora.  De manhã, à tarde, de madrugada. E, ao atendê-lo, ninguém diz nada.

Imaginei que talvez fosse uma mensagem cifrada dos Céus. Mas como as ligações se repetem e nenhum vozeirão bíblico se pronuncia, lamentavelmente perdi a fé.

Mas não a esperança. Eu sei que Deus narra certo por ondas tortas e vai me ajudar.

Por isso, senhor concessionário da Rádio Nacional Gospel, ponha a mão na consciência e - em alto e bom som - peça perdão pelos seus pecados.

Mas numa freqüência bem baixinha, pelo amor de Deus.

Cordialmente,

Castelo.

Castelo é cronista de Blônicas aos sábados e garante que a crônica acima é baseada em fatos reais. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 12h02
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- Sucesso

De Henrique Szklo

John Doe é um ator extraordinário. Não fez escola, não fez nenhum tipo de curso, detesta teatro, nunca passou perto do Actors Studio e muito menos ouviu falar no “método”. Em sua vizinhança, entretanto, ele é o maioral. As mulheres o acham extremamente charmoso, os homens o invejam, as crianças o consideram um herói de verdade.

Ele nunca teve um papel principal, nem secundário, muito menos terciário. Não fez uma ponta sequer. John Doe é um extra. Ou, como se diz aqui no Brasil, um figurante. Mas não pense que ele é um figurante qualquer. Não, de forma alguma. Doe é talvez o mais famoso figurante da indústria do cinema mundial. Para seus pares, ele é um mito. No sindicato dos figurantes é tratado como uma estrela de primeira grandeza. Na padaria na esquina de sua casa, nunca paga o cafezinho. Contracenou – de longe – com os maiores atores e atrizes do cinema e foi dirigido por assistentes dos assistentes dos assistentes dos principais diretores contemporâneos.Em todas as lojas da Rede Planet Hollywood existem fotos onde ele aparece. Quer dizer, é preciso um pequeno esforço para reconhecê-lo já que está sempre no fundo da foto, misturado com a paisagem, escondido atrás de um ator famoso. 

John Doe começou bem cedo. Pode-se dizer que ele foi um figurante-mirim, fazendo aparições ainda bebê em vários filmes de sucesso como no “Poderoso Chefão’. Foi uma criança no primeiro filme da saga de “Guerra nas Estrelas” (episódio IV), foi um jovem inocente na praia do “Tubarão” e uma criança entre dezenas num parquinho em “Kramer x Kramer”. Aliás, John Doe provavelmente é o ator que mais participou de filmes que ganharam Oscars. Só não trabalhou em “Out of Africa” porque os produtores não acreditavam que ele seria capaz de fazer o papel de um jovem negro. A prova de que ele podia encarnar quem bem entendesse se deu ao fazer uma participação especial no papel de um chinês numa multidão de milhares de figurantes em “O último imperador”. Seu primeiro nu ocorreu no inesquecível “A lista de Schindler”, onde ele fez o papel de um judeu numa fila quilométrica. Foi crescendo como ser humano e como ator participando de multidões e aglomerações de curiosos. Fez “Titanic”,“Gladiador” e, mais recentemente, “A paixão de Cristo”, onde chegou a xingar o filho de Deus.

Entre suas principais virtudes, sabe conversar sobre nada como ninguém. Por isso sempre é convidado para trabalhar em cenas de bares, restaurantes e festas. Teve participações marcantes em vários seriados e filmes de sucesso. Foi cliente do Central Perk em “Friends” mais de 20 vezes, sendo que apareceu em cena, em décimo-quinto plano pelo menos umas três. Foi um morto em “Law and Order”, num desempenho que mereceu elogios da Associação Americana de Médicos Legistas, chegando a receber um prêmio como “Melhor postura cadavérica”. Este seu desempenho foi tão marcante que acabou virando sua especialidade: papel de morto. Sua agenda lotou. Chegou a recusar trabalhos, tamanho era o seu sucesso.

Porém, jamais parou de fazer outros tipos de aparições. Em “Independence Day” ficou quase cinco segundos em quadro, ao lado de outros duzentos figurantes que corriam feito loucos para fugir do ataque dos alienígenas. Foi um dos milhares de motoristas que participaram da cena de perseguição de “Ronin”, pelas ruas de Paris. Foi um corpo cortado ao meio em “O resgate do Soldado Ryan” onde chegou a proferir algumas falas marcantes: “Socorro! Socorro! Me ajudem! Não quero morrer! Eu quero a minha mãe!” (Essa última, um caco de sua autoria). Mas apesar de toda a verdade e emoção transmitidas, o Spielberg, por absoluta falta de sensibilidade, acabou cortando a cena. Mas, para aproveitar todo o seu talento, apareceu uns dois segundos como morto, claro.

Mas seu grande momento como ator foi no seriado “E.R.”, conhecido aqui no Brasil como “Plantão Médico”. Ele praticamente foi o protagonista de um episódio inteiro. Sua entrada foi triunfal. Em uma maca, sangrando aos borbotões. E como sangrou bem. Era tão real. Não disse nada, mas chegou a dar uns gritos muito bons. Foi um papel que realmente exigiu muito de John. Primeiro, simulou uma convulsão. Depois, mastigou uma massa estranha para imitar um vômito nojento que jorrou na roupa do Doutor Kovac. Mas o grande momento ainda estava por vir: quando as batidas do coração de seu personagem se tornaram irregulares ele precisou tomar choques elétricos. Foi magistral. Nunca ninguém havia interpretado tão bem aquele pulo que o paciente dá quando recebe a carga do desfibrilador. Ao final da cena, em que ele inevitavelmente morre, foi aplaudido de pé por toda a equipe.

E a tecnologia não abalou nem um pouco o trabalho de John. Trabalhou em vários blockbusters, com desempenhos nada menos que marcantes ao lado de milhares de colegas reais e virtuais: “Matrix”, “O Senhor dois anéis”, “Harry Potter” e mais uma extensa lista.

Seu trabalho mais recente foi no episódio 3 de Guerra nas Estrelas, sinal inquestionável de que George Lucas aprovou sua participação no primeiro filme na década de setenta e jamais esqueceu seu rosto. Rosto que não aparecerá na tela, já que fará o papel de um soldado do império numa cena em que milhares deles lutam numa batalha feroz.

Recentemente, recebeu da Academia um prêmio especial pelo conjunto de sua obra. O trabalho do melhor morto da história do cinema vai viver para sempre.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas às sextas, mas é apenas um coadjuvante no meio de tantas estrelas. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 10h57
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- Certas coisas são melhores quando não são ditas

De Leo Jaime

Dizem que não devemos conversar sobre futebol, religião, política, essas coisas em que dificilmente alguém muda de posição ou vê com boa-vontade o ponto de vista alheio. Eu, da minha parte, posso dizer que me preocupo muito mais em comentar a gravidez alheia. A não ser que esteja muito evidente, ou seja, do sétimo mês em diante, eu me nego a fazer qualquer observação. E mesmo assim acho imprudente, em alguns casos. Já aconteceu de eu perguntar quando ia nascer e a mulher responder: nasceu há quase dois meses. Sei que ela guardará um ódio profundo e rancoroso de mim e de todos os meus possíveis descendentes. Assim como sei que o marido também deve me odiar, pois a minha frase deve ter causado um hiato em sua vida sexual. Melhor dizendo: em suas vidas sexuais. Dizem que essa é uma cilada fatal: quando a mulher pergunta para você se ela está gorda. Em geral não está. Ou está. Mas a pergunta é, sem dúvida,  o pretexto para uma briga pois não há resposta satisfatória. Se você disser que não ela pode dizer que: 1- você não presta atenção nela; 2- está sendo piedoso além de mentiroso; 3- Você nem olhou antes de responder porque não se interessa pelos problemas dela e por aí vai. Se você disser que ela está gorda, um pouquinho, mas que não importa porque seu amor é incondicional, aí ela ficará com ódio do mesmo jeito afinal, ela sabe que está gorda, você precisa ficar esfregando isso na cara dela????

Tá bom, a piada nem é nova e nem é tão justa assim, embora seja evidente que mulheres estejam sempre muito mais preocupadas com isso do que homens. Exatamente porque mulheres são mais tolerantes com as imperfeições masculinas do que os homens com as coisas delas. Se bem que eu sou daqueles que acha que mulher sem celulite não dá nem pra conversar. Falar sobre o quê? É preciso ter história!

No entanto a maioria há de convir que melhor é não falar sobre isso. Encontro com uma ex de um amigo que diz que ainda gosta dele. Assim, na lata. Eu digo, o tempo vai consertar o que tiver que ser consertado e tudo ficará melhor. Não consigo imaginar nada mais vaselina pra dizer. Se digo que ele está mais feliz agora, sou cruel. Se dou esperanças ela pode amanhecer na porta dele, pronta pra recomeçar, e estarei sendo cruel do mesmo jeito.

São tantas as coisas pra gente dizer. E tantas que não precisam ou devem ser ditas. Difícil é saber escolher.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 19h16
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De Rosana Hermann

   - O que você faz?
   - Eu sou atriz de teatro.
   - Ah, que legal! Mas além de teatro, você faz o quê?

   Este diálogo foi contado e interpretado pela atriz em questão, durante uma gravação e mostra que, pra muita gente ser atriz não é um trabalho é diversão. Não ocupa nenhum tempo, além daquela hora no palco. Não tem pré-requisito a não ser um corpo bacaninha.

   Durante dez anos escrevendo humor para a rádio Jovem Pan FM,(aulas de inglês, Maguilla, boi na linha, Djalma Jorge,etc) eu ouvi a mesma ‘piadinha’: “Você faz humor com aqueles loucos da Jovem Pan? E ainda pagam você pra isso!??!” Pagavam mal, mas pagavam.

   Recentemente, numa entrevista, o crítico gastronômico Josimar Melo contou que há quinze anos também ouve a mesma reação a sua profissão: “Isso é que é emprego! Recebe pra comer no Fasano!” O que ninguém pensa é que quando você lê o guia Josimar Melo, pode escolher só entre os restaurantes bons, mas para selecionar os bons ele teve que almoçar e jantar em centenas de restaurantes ruins. Sem contar os péssimos. Sem contar tudo o que vem antes, o estudo, as pesquisas, o trabalho de escrever um guia completo há treze anos, sempre atualizado.

   No maior país católico do mundo, boa parte da população herdou a visão judaico-cristã de que dinheiro é pecado e trabalho é sofrimento físico. Assim, as atividades culturais, ou qualquer uma que não envolva um machado, martelo ou britadeira, são quase sempre mal-interpretadas. Vida de modelo é só passarela, teatro é palco, televisão é estúdio, livro é digitação, produção de evento é só festa. Bailarino só fica dançando por lazer. E educação física então? Moleza o cara arruma um emprego pra se manter gostoso.

   Fato é que muitos trabalhos são invisíveis aos nossos olhos. O preconceito contra o trabalho intelectual, artístico, cultural, é muito triste. Desvaloriza o profissional, desqualifica a categoria e faz com que qualquer um se ache credenciado para fazer qualquer coisa. Justamente por achar que o apresentador de um programa semanal de meia hora só trabalha meia hora por semana é que tanta gente quer ser apresentador de tv, ator ou humorista. A idéia de que as atividades não exigem preparo, estudo, formação, técnica, sustenta até o nepotismo, assunto em pauta no momento.

   Como eu apresento um programa que pauto, produzo e escrevo só uma vez por semana, que é só televisão, como eu trabalho numa agência de comunicação da qual sou sócia que é só coisa de publicitário bem pago, como eu tenho um blog atualizado dezenas de vezes ao dia que é apenas uma coisa de adolescente, como eu escrevo crônicas aqui só às quartas-feiras só pra aparecer, quando alguém me pergunta o que eu faço, eu digo que sou dona de casa, a mais trabalhosa e invisível das atividades humanas. Ninguém me valoriza por isso, mas, pelo menos, não me pedem mais dinheiro emprestado.

Rosana Hermann escreve no Blônicas às quartas, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 10h42
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- MULHERES, CHEGAY

De Nelson Botter Junior

Os homens preferem ver a mulher apenas como um pedaço de carne. Eu prefiro mais observar os contornos da alma, que são igualmente estimuladores do apetite. Me fazem lamber os beiços e todos os dedos, desde os das mãos até os dos pés. Com esmalte, pois dá mais barato. Ah, e de preferência com o cantinho da unha sujo, pra ficar mais salgadinho. Camarão na moranga, coisa nobre.

É isso aí, não quero mais saber de pepino na minha feira. Lésbica? Não gosto, palavra feia. Me chame apenas de mulher, pois não há lei no mundo que diga que uma mulher que gosta de outra mulher não é mulher. Quem não chora não mama e quero mesmo é um peito de uma vaca profana pra poder mamar até me engasgar e arrotar na cara dos puritanos, que enchem o mundo com suas fétidas idéias castradoras. Quero cuspir coalhada neles, la leche buena toda en mi garganta, la mala leche para los puretas.

Já sei que sou excêntrica, vistosa, bem feita e estudada. Grande merda. De que vale o conhecimento e a estética se a alma está aprisionada, calada e definhando? Minha amiga me chamou no quarto, me dizendo que teria a solução para meu tédio continuado. Sim, doença crônica. A vaca pôs um comprimido colorido na boca e disse "pega". Sei lá onde parou a porra do comprimido, vai ver até engoli, mas junto com a língua dela, a saliva e todo o tesão do momento. Mãos, peitos, coxas, aranhas... Safada, me mostrou as chaves das algemas. Me liberta, puta, me liberta.

Agora estou aqui, cheia de comichões. Tinha um namorado, mandei passear. "Vá comprar cigarros!". Mas justo quando precisamos que o dito cujo não volte mais, ele aparece. Cachorro pidão, sem dono, com a coleira na boca, babando e velando a minha porta. É por isso que prefiro os gatos, melhor, as gatas. Independência agora é o meu lema. Não gostou? Fazer o quê, querido? Sua raça não me apetece mais, chega de abraços brutos, pêlos e músculos. Não quero coito, quero caldo. Vou beber todas as mulheres do mundo de colher, briga de convexos, com pétalas de rosa e adoçante, nada de açúcar. Ah, refrigerante também nem pensar. Afinal, mulher que é mulher liberta sua alma, sai do armário, mas nunca abandona suas neuras de estimação... Aliás, você acha que eu estou muito gorda?

Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras. Visite seu finado blog.

Escrito por Blônicas às 11h03
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- Quem quer casa... casa

De Evandro Daolio

   Outro dia um amigo meu apareceu desesperado porque já havia comprado um apartamento para se casar e agora sua noiva tinha desistido de tudo. Contou-me, desiludido, que sua dor era tanta que o colocou à venda na mesma semana. Não queria nunca mais pisar lá....
Eu havia o avisado várias vezes que ficar noivo durante muito tempo é um erro básico, mas ele não me ouviu. Fazer o quê?

   Há milhares de anos, lá estavam dois homens das cavernas encolhidos atrás de uma rocha aguardando alguma presa fácil passar. Um era menos feio (se é que isso era possível) e outro, muito mais feio. Foi quanto o tempo fechou e parecia que um dilúvio estava por vir. Assustados com os relâmpagos, trovões e a escuridão, saíram correndo. O mais feio correu direto para dentro de uma caverna, mesmo ela sendo um pouco longe e o outro, o menos feio, se encolheu covardemente debaixo da primeira árvore que apareceu.
   Também correndo desesperada, apareceu uma linda mulher das cavernas (se é que isso era possível). Ela parou e viu o homem encolhido atrás da árvore. Sem pensar duas vezes, disparou para ele, em busca de proteção. Mas bastaram mais dois trovões e ela não teve dúvidas. Desvencilhou-se dele e saiu aos berros em direção à caverna. E lá se atirou nos braços do homem das cavernas mais feio, toda feliz em troca da proteção oferecida.
   Milhares de anos depois, lá estava eu, com meus 32 anos e morando com meus pais, solteiro, e desfrutando de um jantar que nem sequer fazia idéia de como tinha ido parar na mesa. Estava passando um filme na TV onde um rapaz com a mesma idade que eu estava paquerando uma moça ao telefone. Ela a havia conhecido na noite anterior. Uma hora ele brincou de tirar a roupa e pediu para ela fazer o mesmo. Ela aceitou e brincava descrevendo as peças que estava tirando. Quando a paquera estava no auge, o pai do rapaz de repente abriu a porta do quarto sem avisar e o pegou pelado ao telefone. De susto, ele gritou:
   — Pai!!!
   Sem entender,  a menina do outro lado perguntou:
   — Pai? Você está fazendo isso junto com o seu pai?
   — Não! Claro que não! É que eu moro com meus pais e...
   Antes que ele pudesse continuar ela o cortou:
   — Mora com seus pais? Com a sua idade? Nossa... Muito pior!  — e plaft, desligou.
   Parei meu garfo no ar... Foi então que pensei pela primeira vez nas mulheres das cavernas. Seria eu o cara da árvore? Não sei se foi coincidência, mas três meses depois lá estava eu morando sozinho e pagando aluguel. Claro que morar para sempre com os pais pode fazê-lo um homem rico e despreocupado.  Mas tudo tem sua hora. E a minha chegou.
   O bom disso tudo, fora as contas, é que baseando-se nessa história marcante da evolução, comecei a reparar na eficiência de todos (com mais de 30 anos) que moravam sozinhos e a comparava com a dos que ainda moravam com os pais. Notei que, seja feio o quanto for, quem tem teto próprio faz mais sucesso com as mulheres... Seria uma herança genética do tempo das cavernas?
   Meu amigo não conseguiu vender o apartamento e foi morar nele, contrariado. Pergunta se hoje ele vende? Disse que a melhor coisa que aconteceu na vida dele foi ter desmanchado e ido morar lá. Pretendentes não faltam (mesmo no prédio) e sua cabeça virou do avesso. Vive rindo à toa e cada dia aparece com uma história mais incrível que a outra.
   Acho que aquele ditado: “quem quer casa, casa”, deveria ser: “quem tem casa, é que casa!”
   Observe você também, a eficiência de quem tem caverna e pense nisso se você ainda está debaixo da árvore dando bobeira, como eu estava.

Evandro Daolio é cronista do Blônicas. Visite sua caverna, quer dizer, seu site

Escrito por Blônicas às 14h32
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- Tratado geral dos chatos _o remake

De Xico Sá

   Sem nenhuma pretensão de atualizar a brochura “Tratado Geral dos Chatos”, que o homem de teatro _sim, existem, habemus homens de teatro!_ Guilherme Figueiredo pôs no mundo há mais de meio século, cá estamos com uma nova lista destas criaturas capazes de nos subtrair a paciência e nos deixar tão inquietos quanto as vítimas do Pediculus púbis, como são conhecidos cientificamente os insetos homônimos que atacam as partes mais baixas e indefesas de um cristão de fé.

   Bons e inocentes tempos aqueles em que os chatos se resumiam aos tipos agrícolas,  como o chato-pra-chuchu, ou às criaturas crentes na meteorologia, como os chatos-de-galocha, que já saíam de casa prevenidos contra qualquer enchente, vento ou maré. Haviam ainda os menos ofensivos, como os da espécime aforismática _sempre com uma filosofia de pára-choque na ponta da língua para importunar a vida alheia.
O certo é que eles se multiplicaram como os invertebrados homônimos e hoje dominam o país, os lares, as repartições, os logradouros públicos, as salas de espera... Estão em todas as partes. Existem os chatos-24 horas, estes vampiros da paciência alheia, como diria o bruxo do Cosme Velho _só para citar outro tipo fenomenal de chato, que é aquele que sempre inicia uma conversa com a inseparável locução “como diria...”

   Enfim, só nos resta ser mais chatos ainda, o que tenho buscado nestas linhas, afinal de contas ainda não nasceu o ser humano capaz de chatear um chato sem que portasse a mesma peçonha. Como perdemos, nesses tempos corretos, o gosto pelo assassínio e maltratos do gênero, sobra a este cabeça-chata que vos impacienta mapear os maçantes mais visíveis e contemporâneos. Ei-los:

   Megasuperultrahype –  O chato mais veloz do Oeste. Trata-se da criatura atualizadérrima nas últimas tendências e apostas do mundinho dos modernos da noite e da mundanidade em geral. Sabe a nova gíria dos clubes de Londres e já baixou no computador a última faixa do DJ paquistanês pós-electro que será a sensação no inverno novaiorquino. Na hora de falar, apresenta-se como um Guimarães Rosa clubber, ninguém compreende um só vocábulo.

   Fêmea sitcom – Aquele tipo metropolitano metido a chique que acha que a vida é um seriado americano, um Sex and City sem fim. Nos salões, principalmente nas bocas-livres, está sempre com um prosseco à mão. Adora vernissages.

   Chatos de época -  Rabugentos,  inconsoláveis, sempre a resmungar pelo borogodó que se foi. Não é uma questão de idade, ataca também raparigas em flor, como as gazelas que fazem um tipo “virgens suicidas” e ouvem Renato Russo e Smiths como se fossem mademoiselles do século XIX.

   Garçonete-cabeça – Aqui encarno um rápido chato de época para lembrar o tempo em que garçom vestia preto e branco, com gravatinha borboleta, o chopp chegava gelado, ele sabia o resultado do futebol e ainda nos servia de ombro para uma dor amorosa de ponta. Hoje, nos bares de moda, as garçonetes são lindas, descoladas, podem passar a noite a discorrer sobre cinema coreano, mas o serviço que é bom... nécaras, como diz o meu amigo Sabião Bestunes, o monstro de Sabará.

   Mario de Andrades digitais – Pessoas que escrevem e-mails enormes, como as famosas cartas do modernista paulistano. Esse homem matou muitos pobres e desnutridos carteiros de tanto fazê-los gastar sola de sapato,  pois se correspondia com o país inteiro... Embora desse a impressão a cada interlocutor que aquela troca de cartas embutia uma linda e única afinidade eletiva. Todos os anos vem à tona um novo carregamento de missivas do gênero. Escreveu para tocadores de coco do Nordeste, índios, mitos amazônicos, gorilas...

   Núcleo do bem de Gilberto Braga – A essa altura algum bonzinho pode até ser revelado como assassino de Lineu Vasconcelos, mas como é chata a turma “gente fina” do Shakespeare carioca! Aquele documentarista, então, é de envergonhar o meu amigo Simião Martiniano, cineasta-camelô de filmes de kung-fu de Pernambuco. Pior somente a sua estagiária-amante, um dos personagens  mais cri-cris da TV desde “2-5499 Ocupado”, de 1963.
   (A lista continua ad eternum... E lembrem-se: toda chatice é de nascença).

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h03
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- Olegário

De Milly Lacombe

 

   Olegário veio de outro mundo, mandado para entender o brasileiro. Foi deixado, numa madrugada quente de verão, na esquina da Ipiranga com a São João. Havia nos estudado detalhadamente, mas muitas coisas não faziam sentido. Era hora de se misturar.


   No dia seguinte, foi ver um jogo de futebol. Calor infernal, notou que o ingresso mais caro dava direito à sombra. Comprou um desses. Aí se deu conta de que o ingresso mais barato obrigava o torcedor a assitir o jogo debaixo do sol escaldante. Não fazia sentido. Se o sujeito é pobre, nada mais justo que, em seu momento de prazer, seja presenteado com a sombra. O rico, que tem grana para boné, protetor solar e sombinha, poderia ficar sob o sol. Anotou em seu caderninho.

 

   Esperando que a partida começasse, comprou o jornal e leu que um deputado federal havia sido punido por corrupção e recebido ordem de prisão. Porque tinha curso superior, ia ficar em cela especial, com TV, banheiro e outras comodidades. Também não conseguiu entender. Se o cidadão teve a oportunidade de estudar e se formar na faculdade, deveria estar aparelhado para distinguir o certo do errado, e, ao ser flagrado em delito, acabar duramente punido. Já o sujeito que não pôde estudar, deveria ser castigado com mais complacência e, esse sim, receber cuidados especiais no cárcere. Anotou.

 

   Leu também que o Brasil havia mandado dinheiro para o paupérrimo Haiti. Nobre gesto. Mas aí se lembrou que, ao se dirigir para o estádio, havia visto gente dormindo na rua, jovens sujos e mal cuidados pedindo esmola. Se o País tem condições de presentear financeirante outras nações, por que não usar a grana em obras sociais aqui mesmo? Colocou mais essa no papel.

 

   Leu a notícia de que o presidente-operário gastara bilhões em um avião de fazer inveja a xeque árabe. Soube que o chefe de gabinete-guerrilheiro conseguira barrar uma importante investigação de corrupção federal e que os homens do primeiro escalão do governo foram agraciados com um cartão de crédito para uso pessoal com limites estratosféricos. Nessa hora, viu policiais retirarem a força do estádio um menino franzino que, ilegalmente, vendia saquinhos de amendoim a um real. O garoto implorava para que o deixassem trabalhar. Olegário anotou tudo.

 

   O jogo começou. O alienígena fechou o caderno se concentrou naquele ritual que envolvia 22 humanos. Olhou ao redor viu que já era noite e que o estádio estava completamente lotado. Homens, mulheres, crianças, pobres e ricos, pulavam como pardais.

 

   O tempo ia passando, e a cantoria, os gestos e os chacoalhos, ganhando volume. O time de branco fez um gol. Um sujeito que estava a seu lado soltou um grito primata e tascou-lhe um abraço apertado. A equipe de azul empatou. O silêncio foi cortante. Dez minutos depois, a cantoria recomeçou. Gol do time de branco. Olegário se viu sufocado no meio de três marmanjos que pulavam como se o chão estivesse em brasas. Mais um gol dos brancos e a cantoria ganhou ainda mais volume, como se isso fosse possível. Olegário entendeu que o time de branco ainda precisava de um gol e que o tempo estava acabando. Começou a gritar, como os humanos ao seu redor faziam. Isso devia ajudar. Não demorou para que o gol salvador saísse e Olegário despencasse três fileiras abraçado a um delirante e superemocionado desconhecido.

 

   Olegário não sabia o que estava sentindo, apenas que era algum tipo de êxtase. Agora gritava sem motivo aparente, só para colocar a emoção para fora. Fim de jogo. O alienígena sacou que havia sido invadido por uma energia rara. Dentro de seu corpo temporariamente humano não conseguia fazer caber tanta alegria. Saiu abraçando estranhos e cantarolando pelas ruas cobertas de bandeiras em branco e preto. Chegou ao hotel e mandou a mensagem à torre de controle. “Posso ficar aqui mil anos e não conseguirei entender este país. Mas o corintiano, esse sim faz sentido.”


Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 16h24
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- 7UYKWS

De Castelo

Foi um dia difícil para T.
Logo ao sair da garagem de casa, o carro foi engasgando até pifar por completo.
Segundo o mecânico, a correia dentada tinha ficado bangüela.
Trezentos e tantos barões depois, T. resolveu tomar um café da manhã com calma.
Assaltaram a padaria.
(Um dos meliantes tomou o seu pão na chapa e saiu mastigando na maior cara dura).
Apesar dos pesares, T. se dirigiu ao escritório com a moral elevada.
Mas o chefe estava na TPM.
Mandou T. refazer pela quarta vez um trabalho e o ameaçou de demissão.
T. foi ao banheiro, lavou o rosto e voltou à sua mesa.
A recepcionista o esperava com expressão assustada. Foi lhe dizendo em voz alta:

- Tem um oficial de Justiça aguardando você na recepção-ão-ão-ão (a voz da colega ecoou por toda sala, todos ficaram olhando para a  cara de T.).

A empresa de TV a cabo o botara no pau por causa de uma conta de 10,90 reais atrasada.
Para evitar mais problemas, T. saiu para o almoço às escondidas.
Pediu um bife à parmegiana. Quarenta minutos depois, o garçom chegou se desculpando:

- Mil perdões, senhor. Aqui está o seu fusili ao sugo.

T. contou até mil. Pegou a massa, deu uma garfada e o conteúdo caiu espetacularmente sobre sua camisa branca.
Antes de explodir, se lembrou que estamos aqui cumprindo uma missão, era necessário calma.
Entrou numa loja e comprou uma camisa nova.
Na hora em que foi pagar, o sistema deu pau e não aceitou seu cartão de crédito.
T. teve que botar a camisa suja de tomate de novo e ir ao banco sacar o dinheiro.
Ao tentar entrar, a porta anti-metais travou.
O guarda falou por um alto-falante:

-  Ponha o celular na gaveta.
- …agora a bolsa.
- …agora o relógio.
- …agora o cinto.

Era a fivela do sapato.
Descalço e semi-nu, foi placidamente até o caixa e fez o saque.
Tudo bem, o banco só dispunha aquela hora de notas de um real, mas faz parte.
Uma tempestade de verão o pegou pela proa quando voltava à pé para a loja.
Molhado como um pato, trocou de camisa e correu para o escritório.
Na mesa encontrou um sucinto bilhete do chefe: “Senhor T., passe amanhã no RH”.
Só restava ir para casa.
Um banho quente, um chazinho, ler alguma coisa na internet.
Parecia uma boa receita para se acalmar de um dia tão conturbado.
Depois de banhado e aquecido, T. procurou um site de crônicas.
Achou um chamado Blônicas.
Leu uma, duas, três, um monte de crônicas.
Gostou.
Decidiu então deixar um comentário.
Redigiu um longo texto e deu ok.
O programa anti-spam lançou a seguinte mensagem.

- Por favor, digite o que você vê escrito na imagem acima.

Apareceu na tela uma seqüência de números e letras diagramadas de modo embaralhado:

- AM2J9B.

T. forçou a vista para entender o escrito e digitou letras e numerais.

O programa anti-spam devolveu:

- Tente novamente, o teste anterior foi inválido.

Outra senha confusa surgiu na tela.

- 7UYKWS.

Ele a escreveu vagorosa e cuidadosamente.

- Tente novamente, o teste anterior foi inválido.

O corpo de bombeiros levou horas para apagar o incêndio no apartamento de T.

Castelo é cronista do Blônicas aos sábados. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 10h06
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- O gênio brasileiro

De Henrique Szklo

   Um americano está no Brasil fazendo turismo sexual quando tropeça em uma lata de cerveja e ouve um grito. Um grito primal vindo de dentro da lata. Chuta de novo e ouve outro grito. Chega perto e olha para dentro. Estava muito escuro para ver alguma coisa. Passada a curiosidade amassa a lata com a mão e, neste momento, sob uma fumaça verde-amarela surge um personagem que habita os sonhos de 11 entre 10 pessoas no mundo. Quer dizer, este em particular não é tão desejado assim, mas se é o que temos para o momento... que assim seja. A figura em questão é Genivaldo, o gênio brasileiro. Ao invés dos tradicionais e esperados paramentos indianos, uma sunga verde, meio manchada de gordura em alguns pontos, uma sandália havaiana azul clara, barriguinha de chopp, um radinho de pilha ligado no Fla-Flu, óculos escuros e uma tatuagem de gosto duvidoso.
   – Vai amassar a lata da puta que te pariu, seu filho da puta!
   – What?
   – Ah, um gringo de novo. Puta merda, o que é que eu fiz pra merecer isso? Mister, uát du iu uânt? Ai émi Genivaldo, iór crieide.
   – What?
   – Sri deseos, mai bróder!
   – What?
   – Fâc iu!
   – Fuck you! – Responde o gringo dando ênfase no "you".
   – Fâc iu!
   – Fuck you!
   – Fâc iu!
   – Fuck you!
   – Pronto, lá se foram seus três desejos, bundão. Agora cai fora, mané,  que eu vou ter de me fuder 3 vezes. Preciso parar de arranjar encrenca com esses gringos de merda.
   E entrou de novo na lata. O yankee, furioso, vai embora sem imaginar que nunca mais terá uma chance tão boa de dar certo na vida e parar de ter de viajar para lugares como este só para comer alguém.
   Genivaldo é assim: um gênio de alma brasileira. Sofre de claustrofobia por ser obrigado a viver em pequenas garrafas por séculos. Impregnado da nossa cultura, é contrário a qualquer disciplina e desenvolveu o dom da ironia. É trapaceiro e quer levar vantagem em tudo, certo? Sem contar o seu verdadeiro ódio por catadores de lata, que o fazem pular de casa em casa o tempo todo. É uma ação de despejo por dia. Ou mais. Certa vez quase foi amassado junto com a sua latinha quando um catador esmagou-a em sua hora da sesta. Só mora dentro de latas vazias de cerveja. De preferência, quase vazias. Ingênuo, acredita que vai acabar se encontrando com aquelas gostosas que aparecem nas propagandas. Zeca Pagodinho é o seu grande ídolo, afinal o cara é um dos maiores fornecedores de moradia. O BNH em pessoa.
   O gênio brasileiro parece funcionário público. Tem horário para atender os pedidos e uma má-vontade crônica. Emenda feriados e qualquer coisa é motivo para interromper o trabalho e ir tomar um cafezinho. E não há nada que se possa fazer contra ele, já que tem estabilidade no emprego e ninguém sabe quem é seu chefe.
   É mal-educado e grosseiro. Anda sempre com um palitinho entre os dentes, arrota na frente das visitas e não perde a oportunidade de coçar o saco até com crianças por perto. É homofóbico até a raiz de sua fumaça. Toda vez que um gay esfrega sua latinha ele se nega a sair. Alega dor de cabeça, mal-estar, cansaço excessivo e essas desculpas esfarrapadas que a gente conhece.
   É o único gênio que se tem notícia que proíbe alguns tipos de pedido por considerar idiotas: ficar famoso, rico, aparecer na mídia, namorar com uma gostosa, entrar no próximo Big Brother, etc. É... neste aspecto não podemos lhe tirar a razão. Após este episódio com o gringo, resolveu, por conta própria, oferecer apenas um pedido por amo. Sua justificativa:
   – Num tô cum saco de dá colher de chá pra essa cambada de filho da puta!
   Às vezes, ele fica impossível. Como da vez em que a fumaça verde-amarela surgiu ao som de uma bateria de escola de samba e o gênio apareceu fantasiado de Clóvis Bornay. Um luxo só, precisa ver. Hors concurs. Do lado de fora, um casal observava aquele espetáculo grotesco com espanto. Ele, um senhor alemão de uns 60 anos. Ela, uma mulata belíssima de corpo estonteante, no explendor de seus 20 aninhos.
   – Diz aí, chefia! Qualé o pó?
   – O senhor ser um gênio de verdade? – perguntou, encantadíssimo, o pobre tedesco.
   – Não, meu bem, eu sou a Fênix Dourada Renascendo das Cinzas Fulgurantes do Reino do Eterno Carnaval, não está vendo? – disse o gênio, afetadíssimo.
   Quando olhou para a mulata, a fantasia de carnaval sumiu como num passe de mágica e surgiu uma asa gigantesca em suas costas, que ele imediatamente arrastou em direção à jovem.
   – O brotinho deseja alguma coisa? – disse o gênio salafrário, com sua conversa de cerca-lourenço. – Madame, seu desejo é uma ordem. Genivaldo ao seu dispor... – e já foi beijando a mão da gata.
   – Ei, ei, o senhor precisa atender meus pedidas – interrompeu o invasor germânico. – Eu que esfreguei o lata.
   – Sai pra lá, moleque! Vai esfregar a mãe, seu porra! E vê se aprende a falar direito,caráio. Meus pedidas! Que meus pedidas, o quê?
   – Eu querer ficar 30 anos mais moça, para poder namorar o meu mulher com mais energia.
   – Tá difícil, hein! Não prefere um Viagrazinho, um chá de carqueja, uma atalaia jurubeba na veia...?
   – Eu querer ficar mais moça, por favor...
   – Tudo bem, chefia, falou tá falado.
   E Genivaldo transformou o turista alemão de 60 numa assustadora enfermeira alemã de 30.
   Ao ver o que tinha acontecido, o coitado, quer dizer, a coitada ficou enfurecida.
   – Mas o que ser isso?
   – Mais moça que isso impossível, meu camarada... Milagre eu também não faço... E sai fora que hoje eu num tô bom.
   Pegou a mulata pela mão e desceu redondo com ela para dentro de sua latinha.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas às sextas e, a despeito da opinião de sua mãe, não é nenhum gênio. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h28
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08/04/2005 - Carta ao pai

De Paulo Castro.

A carta chegou até minhas mãos de maneira estranha: um envelope pelo Correio, em destinatário apenas a palavra "Pai" e o endereço da minha casa. No remetente, como era de se esperar, apenas as letras bem traçadas, fortes, com a grafia firme, "Filho".
Resolvi reproduzir o que li, por me sentir tocado no conteúdo, mudarei algumas coisas, evitando nomes de lugares e datas. Se o autor verdadeiro da carta reconhecer aqui suas linhas, que apareça. Eu me desculparia pela indiscrição que me é característica, além de matar a minha imensa curiosidade sobre esses dois homens, pai e filho, que na minha opinião, representam todos os pais e filhos que conheço, incluso eu mesmo, em ambos papéis. Era algo mais ou menos assim:

Meu amado pai.
Não consigo encontrar motivos para o seu silêncio. Ele me amedronta. Por que não quer mais falar comigo quando telefono ? Avisou a mãe de que não queria mais notícias minhas. Ela também me contou que você tem andado muito estranho, cabisbaixo. Chega do trabalho e já se tranca no quarto, engolindo alguns calmantes. Sempre com as janelas trancafiadas, a televisão ligada no jogo de futebol. Sim, a mãe escuta pela porta, não fique bravo com ela, que também sofre com a situação de seu homem.
Sabe o que mais me assusta ? É não saber o que lhe fiz. Isso me deixa absolutamente desconfiado. Receoso de que não tenha sido uma situação específica a causa de seu descontentamento, de que não se trata de algo que poderia ser resolvido em uma conversa sincera. Aliás nunca nos conversamos muito mesmo. Mas é com carinho extremo que guardo na lembrança a sua falta de jeito, seu rubor, a tratar comigo, sentado sobre sua barriga lá no sofá, sobre os temas relacionados com a sexualidade. Me dizia que não desejava que aprendesse na rua. Mal sabia que de tudo eu já sabia, mas fingi para lhe ver feliz e me fazer feliz, pois estávamos sendo uma dupla, parceiros, amigos.
Me perdoe a divagação. Eu ia mesmo dizendo sobre meu susto. Por não se tratar de nada identificável, só posso supor que você se cansou de mim. Aparentemente, aos olhos dos outros, sempre fui um filho que as pessoas pediriam a Deus. Bom aluno, boas notas, educado, a universidade respeitável. Mas é no interstício que a verdade está depositada. Sim, eu dei trabalho. Muito trabalho.
Minhas noites de pesadelo em que os acordava e impunha a minha lei de criança birrenta sobre a ordem que deveria prevalecer: fiz que fosse construída uma porta ligando o meu quarto ao seu, que deveria ficar aberta toda noite, invadindo assim, de forma imperdoável, a privacidade do casal. Mais tarde veio a minha rebeldia, meus cabelos espetados ao gel, os livros estranhos que eu lia, dos poetas malditos, eu também querendo me tornar um Rimbaud ou Baudelaire. Você tinha outros planos para mim. Eu sabia disso e quanto mais sabia mais queria lhe fazer sofrer com minhas manifestações pseudo-artísticas. Segui seus conselhos, escolhi uma profissão liberal e dourada Mas o fiz com maldade. Daquele ponto em diante eu poderia acusa-lo de ter sido o causador de meus infortúnios. De ter me obrigado, me pressionado. Isso que vim a chamar de "condenação paterna" era o que intimamente me trazia liberdade. Eu não teria, no futuro, peso algum na consciência em lhe telefonar atrás de ajuda financeira. Se eu tivesse sido pintor, nada teria a reclamar. Mas como advogado infeliz, tudo poderia empurrar sobre suas costas, não pedindo, mas exigindo, já que perversamente lhe coloquei no lugar daquele que me sentenciou à frustração. E que eternamente seria o responsável por isso.
Deleguei-lhe uma dívida impagável, que só fazia crescer diariamente. Hoje percebo uma lição que vale para o universo humano: o homem aceita o que lhe é imposto, já que sabe que poderá ser um contumaz reclamante. O fracassado é o verdadeiro tirano.
Voltemos até a minha apreensão sobre seu silêncio e sumiço. Acho que você se cansou de mim. Minha história barroca o esgotou. Minhas chantagens, o jogo baixo. Eu o vejo agora como um náufrago que se entrega às ondas e tubarões por estar cansado demais, por saber que o porto seguro, eu e minhas exigências pueris, não são nada agradáveis.
Confesso que nunca pensei na sua morte. Você deveria ser imortal, para que secretamente o amasse sob a dura casca do meu rancor. Agora penso. Agora sinto que é tarde para que eu possa reparar os danos que causei em nossas vidas. Temo pela sua saúde. Se um vaso do seu coração entupir, sentirei que fui eu mesmo que coloquei ali o tampão assassino. Pai, aprendi também outra coisa sobre o ser humano: sentir-se culpado é a forma de se limpar interiormente das objetivas responsabilidades. Aqui tento ser objetivo, mas escapo sempre para trás do escudo da culpa. Você ainda me ama? Ou quer fugir para longe, onde eu não possa mais lhe incomodar com meus ressentimentos, tão exausto que está ?
Pai, você é todos os pais do mundo. Eu mesmo que já tenho seu neto. Não sei que destino vou dar a essa carta. Talvez no fogo. O esquecimento. Ou pensarei em outro estratagema. Também estou farto, o bastante para não pedir perdão, o bastante para ser extremamente lúcido. Não aguardo compreensão. Também estou náufrago, essa é a verdade. Será que nesse enorme oceano iremos nos cruzar sob a tempestade ? Eu lhe ajudo e você me ajuda a nadar até o território do novo? Buscaremos inauditas forças?
Com amor e beijo, Filho.

Paulo Castro é cronista do Blônicas. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 08h54
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- Escrever uma crônica

De Leo Jaime.

 

Crônica vem do latim chronica, e quer dizer: "Texto jornalístico redigido de forma livre e pessoal, e que tem como temas fatos ou idéias da atualidade, de teor artístico, político, esportivo, etc, ou simplesmente relativos à vida cotidiana". Caso o leitor seja um daqueles rebeldes, que "não  concordam", essa informação foi retirada do Aurélio. Desta forma fica claro que se o leitor rebelde acha o autor uma besta, fica também o nosso querido filólogo à disposição para as devidas cacetadas.

Que nariz de cera estranho, dirá o querido leitor que não se enquadra na categoria citada. Sim, duplamente anacrônico: didático, o que indica que o autor está considerando necessário dizer o óbvio e, ao mesmo tempo, defensivo, pois o autor sabe que as pedradas aparecem mesmo quando o que ele escreve está restrito àquilo que a crônica promete: um texto que paire sobre a realidade, sobre as atualidades.

Será preciso? Sim. Infelizmente sim. Dia desses fiz uma crônica sobre a falta de tempo e a velocidade dos avanços tecnológicos em detrimento da nossa incapacidade de ler manuais e os comentários foram muito interessantes. Alguém dizia para eu parar de reclamar da vida, pois ele lia com o intuito de se divertir e não queria saber dos conflitos e misérias alheias. Com um peteleco nosso jovem leitor jogou na lata de lixo o autor destas linhas, com total desrespeito, e na mesma água enxotou os grandes gênios, como Dostoievski, pois afinal, segundo o leitor, a literatura serve para distrair e não para a narrativa de coisas sofridas. Vou mais, o jovem dizia que os autores têm, todos, a obrigação de diverti-lo como se fosse focas de circo equilibrando bolas. Para ele a literatura toda do universo tinha o valor de um Ronald McDonalds. E ele manifestava sua queixa com veemência e rudeza.

Outra mensagem, de outro leitor rebelde, dizia que se eu era doente mental, afinal estava expondo conflitos que a atualidade propõe a mim e a todo cidadão, que eu deveria fazer um tratamento ao invés de ficar contando isso para os outros que não estavam nem um pouco interessados em saber. E era admirável como o jovem tomava para si a voz dos povos ao mesmo tempo em que declarava que o Poema em linha reta de Fernando Pessoa era resultado de uma mente doentia e pura perda de tempo.

O que querem esses leitores? Eles são minoria, é óbvio. E não sabem ler, o que é mais evidente. Além disso, não guardam nem uma réstia de respeito por quem quer que seja, assim como não admitem a diferença de opinião. O fato de a crônica ser interativa não é novo: Machado de Assis era cronista e todos os nossos principais autores exercitaram seu talento em páginas jornalísticas, exatamente como fazemos aqui. Não que eu me incluía entre eles, mas as cartas dos leitores assim como as crônicas existem desde que o samba é samba. Havia, no entanto, o respeito.

Estou falando sobre nosso tempo. Sobre o efeito interativo dos comentários, sobre o uso deles, sobre o fato de que existe uma noção de rebeldia estapafúrdia que resiste em ser cruel e radical contra tudo aquilo que não reflete o espelho ou que não é ainda compreendido. Será isso? Não quer o leitor que o texto lhe apresente novidades? Guardar uma opinião diferente e, ainda assim compreender outros pontos de vista, não seria enriquecer a visão? E depois, uma crônica não tem obrigação nenhuma, nem de divertir e nem de ensinar.

Não que isso seja uma obrigação, mas se a crônica deseja alguma coisa, é que o leitor chegue até a última linha. E só. Mas, cá pra nós, um tantinho de respeito a quem abre coração e mente aos olhos públicos, isso não é pedir demais.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 11h44
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- Nota Fiscal

De Rosana Hermann.

 

Eu peço, eu imploro, eu digo tanto, ‘não me dê a nota fiscal!’ mas não adianta. Na minha casa, todo mundo acha que eu sou a guardadora oficial e lá vem um me dando o manual, outro me dando a nota, o documento, a garantia, pra ficar sob meus auspícios.E no dia de buscar do conserto, na hora de tirar a cópia, de apresentar no tribunal, de trocar o produto, cadê, cadê a nota fiscal?

 

Agora, por exemplo, tenho que encontrar uma nota fiscal para buscar o Ipod no conserto e não me lembro nem mesmo de tê-la recebido. Mas não, todos lembram com detalhes, o local, o instante, o frame da cena em que ela me foi outorgada. “Foi no quarto, você estava de pijama cheio de letrinhas quando eu te dei a nota fiscal dizendo ‘olha, guarda bem e vê se não perde!”. E desde quando uma pessoa de pijama levantando da cama tem condições psico-físico-químicas de receber tão responsável incumbência?

 

Tentei reconstituir o momento do crime. Voltei ao quarto, procurei no armário, no chão, na arara, até na gaveta de calcinhas. Nada de nota. Nem um papelzinho, lanchinho pra traça.

 

Pois não sei onde a maldita está e nem sei por onde começar a procurar. Sem contar que quando você, a responsável, não encontra algo perdido, o outro, o que a exige, não apenas não procura como fica parado a seu lado, supervisionando seu desespero.

 

Eu sei que a nota não será necessária neste caso específico, o cara conhece a gente, sempre compramos lá e toda essa cantilena e blá blá blá, etcetera e tal. Mas neste exato momento, neste instante em que escrevo, dentro de mim, algo de desespera. Porque o papel, já era. Se ela estiver guardada em algum lugar, ela só vai aparecer quando o inverno chegar.

 

Chama o camburão. A polícia. A ROTA. Os marines. Liga pros ghostbusters. E por favor, mundo mundo, não me entregue mais nenhum papel importante. Eu não gosto de documento,eu não nasci oficial, meu maior sonho social além da paz na terra e do fim da fome no mundo é a eliminação total da burocracia desnecessária. Ir ao cartório, tirar uma cópia autenticada, assinar em 3 vias, para mim, é o calvário. Tenho uma microempresa mas já deixei de receber pagamento de freela porque não ultrapassei a barreira do preenchimento da maldita nota fiscal. É ridículo? É. Mas sou assim. Eu queria a confiança do pelo de bigode, o aperto de mão selando o contrato, o fim imediato de todas as segundas vias, restando só, talvez a Via Dutra e a Anchieta.

 

E agora, neste martírio de culpa, fico aqui, pedindo pra São Longuinho, que me ajude a encontrar o papelzinho. E, em o encontrando, oferecerei a ele três pulinhos. Mas assim, na relação informal. Porque por este serviço, eu não quero nem nota fiscal!

 

P. S. – A cada compra ou serviço, exija sempre a nota fiscal. Só não me peça pra guardar. Ah, e mais uma coisa, dentro de poucos dias, este texto se auto-destruirá...

 

Rosana Hermann escreve no Blônicas às quartas, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h27
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- A Confraria da Vila

De Nelson Botter Junior.

Confraria da Vila, esse era o nome. Pode-se dizer que não passava de uma espécie de clubinho fechado, uma panelinha, pois só havia quatro membros e ninguém mais podia entrar. Acontece que Henrique, Carlos, Edson e Luís gostavam de confraria. "É mais pomposo", dizia Edson. Tudo bem, ficou. E ao longo de quatro anos os encontros semanais no Vila Bar (daí o nome da confraria) se desenrolaram regados a muita cerveja Original e calabresa acebolada "no capricho", como dizia Henrique. Mesmo quando alguém estava doente ou com algum outro compromisso, dava-se um jeito de cumprir o ritual. Ninguém faltava. "A confraria é sagrada", dizia Luís.

Nem as esposas conseguiam atrapalhar as reuniões dos quatro, que aliás tinham como tema central o assunto: mulher dos outros. Essas é que valiam a pena. Todas as mulheres acompanhadas no bar passavam por uma séria observação, estudo geométrico, análise técnica de pesos e medidas, e algumas vezes rendiam até algumas abordagens mais pecaminosas. Sempre venerada e idolatrada, a mulher dos outros era tão ou mais sagrada que a própria confraria. Talvez só as juras de amizade eterna entre os quatro eram mais sagradas que tudo. "Mulher dos outros é uma vez e nunca mais", dizia Carlos. E assim a Confraria da Vila seguia firme e forte.

Mas, então, algo aconteceu...

Carlos parou de ir, assim, do nada. Pior: Luís também. Os dois, sem mais nem menos, simplesmente sumiram. Nem telefone atendiam. Henrique e Edson sentiram o baque já logo na primeira ausência dos dois. Depois, na segunda vez, o assunto era inevitável: o fim do casamento de Luís.

- O Carlos foi o pivô da separação do Luís - disse Henrique.
- Você está querendo me dizer que o Carlos estava saindo com a mulher do Luís?
- Não, Edson, nada disso.
- Então como o Carlos foi o pivô da separação?
- É que... agüenta firme agora, amigo, o que vou falar é muito chocante: o Luís tinha um caso com o Carlos.
- O quê???
- É isso mesmo que você ouviu. Eles tinham um caso e a esposa do Luís descobriu...
- Não pode ser, Henrique, deve haver algum engano nessa história aí.
- Nenhum engano, a mulher do Luís que me contou.
- Estou chocado!
- É, eu também não fazia idéia desse lado dos caras.
- Como isso é possível? Como?
- Acho que todo mundo tem sempre algo a esconder, sei lá.
- Mas espera aí... a mulher do Luís te contou isso? E desde quando vocês se conhecem?
- É... bem... há um tempo já...
- Não acredito, você também comia a mulher do Luís?
- O que você quer dizer com "você também"?
- Eu não disse isso...
- Disse... Porra, Edson, não se faz de santo! Você também comia ela???
- Não, não comia... comi, mas uma vez... sabe, mulher dos outros é uma vez e nunca mais...
- Caraca, tô chocado.
- Somos a Confraria da Putaria, isso sim - Edson se irritou.
- Mas descobrir que o Carlos comia o Luís foi foda. Ou será que o Luís comia o Carlos?
Edson deu um soco na mesa indignado.
- Bom, se acalma aí que vou mijar rapidinho - disse Henrique levantando-se em direção ao banheiro.
Edson aproveitou para pegar o celular e fazer uma ligação.
- Alô, Carlos? Seu filho da puta, miserável, patife! Satisfeito agora? Além de acabar com o casamento do Luís, você acabou com tudo! Que porra de confraria o quê! Tô falando do amor que te dei, dos momentos que compartilhamos juntos, de nossas noites de sexo apaixonado! Como você pôde me trair com o Luís, seu cachorro, como você pôde fazer isso comigo??? Me diz, o que vai ser de mim agora sem você?
 
Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras. Visite seu finado blog.

Escrito por Blônicas às 11h07
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05/04/2005 - O nosso João Terceiro

De Marcelino Freire.

 

Sábado passado, Maria Bethânia não deu a mínima para a morte do Papa. Nem eu. A nossa Roma era outra, negra. Novena, só a de dona Canô.

 

Explico: digo assim, durante o show, entre uma música e outra, dela nenhuma palavra. Meu Deus, para quê? Valha-me.

 

Só a letra que dizia, em voz alta: “Eu sou a chuva que lança a areia no Saara sobre os automóveis de Roma”. Ou ainda mais: “Quem não seguiu o mendigo Joãosinho Beija-Flor?”.

 

Joãosinho, isso mesmo.

 

Bethânia, no palco, mostrava – sem querer – que o nosso João é outro. Temos também um aqui, na boca do Rio, morrendo aos poucos. Veio-me à imagem do carnavalesco, de repente. Convalescente.

 

Eta danado!  

 

Por que nenhum urubu vai à sua janela, esperar por um aceno doente, uma pena de pavão ao vento, uma língua derramada? Depois de dois derrames, hipertensão, pontes de safena. Fala, João, fala. A voz torta do povo. Para milhões de telespectadores, o nosso samba do crioulo doido.

 

– Pobre gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual.

 

Miséria, assim, como a chacina de trinta pessoas nas cidades de Queimados e Nova Iguaçu. Luxo, assim, como vimos à Praça de São Pedro, na capa do mesmo jornal. O povo italiano comovido. E o daqui aflito.

 

Queremos justiça pela morte do Chicão. E do Marquinho do Juninho do Gás. E do João Bolinho. Quem são? Respinguem, aqui para o Brasil, um pouco dessa oração mundial. “A felicidade do pobre parece a grande ilusão do Carnaval”, canta a baiana.

 

Canta para uma bosta de intelectual, como eu, que foi ao DirecTV Hall tentar esquecer que o Haiti é aqui, Meu Deus! Ah, que linda namorada você poderia ser! Linda e linda!

 

Vai ver que era por isso o tanto de flashes saídos do celular. Explico: agora virou mania a platéia empunhar seus Vivos e Claros ultramodernos sem que tenha ouvido o recado explícito: “Você não me pega, você nem chega a me ver”. Ou: “Meu som te cega, careta, quem é você?”.

 

Onde vamos parar? No céu, João Paulo II olhará por nós, será? Misturará Sua Santidade à da Mãe Menininha do Gantois?

 

Assim seja e saravá!

 

Quanto ao nosso João, não quero nem pensar como vai ficar esse mundo quando ele nos deixar.

 

Marcelino Freire é cronista do Blônicas e autor, entre outros, do livro de contos “Angu de Sangue” (Ateliê Editorial). Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 08h26
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- Julia Roberts é a mulher da minha vida

De Edson Aran.

 

Julia Roberts é a mulher da minha vida desde que a vi rebolando de minissaia numa rua de Los Angeles. “Pretty Woman” entra fácil  na minha lista pessoal dos 10 melhores filmes de todos os tempos. “Casablanca”? Não, obrigado. “Cidadão Kane”. Humm. Ok. Pode ser.

 

Apesar de ser uma comédia romântica, “Pretty Woman” foi feito numa época em que o politicamente correto não dava as cartas em Hollywood. Julia é uma prostituta de rua e entra na história com o Richard Gere apenas por dinheiro. Ela não é, nunca foi, uma Meg Ryan mal comida disposta a se entregar ao primeiro bundão (isto é, o Tom Hanks) que vê pela frente.

 

Tem duas cenas que eu particularmente adoro. Uma, logo no começo. Richard Gere está ao telefone destruindo empresas. Julia assiste aos Três Patetas na TV. O Gere finalmente pára de “palocciar” (verbo intransitivo direto), senta e fica olhando a moça. Julia percebe que ele terminou o expediente e, ainda assistindo meio de lado a TV, vai se aproximando, sorrindo, até tocar nos joelhos dele. O olhar da moça diz tudo. A outra: Gere deixa Julia fazendo compras na Rodeo Drive e vai embora. Ela vê uma gravata (num vendedor) e resolve comprar de presente para ele. Tarde da noite, Julia está em primeiro plano usando a gravata. Há uma mesa posta para dois. Ela olha para baixo. Está cansada de esperar. De repente, escuta um barulho na porta. Julia se apruma e coloca os pés em cima da mesa. Percebe-se que ela está nua e veste apenas a gravata. Gere entra, sorri e diz: “Bonita gravata!”. E ela: “Comprei pra você!”. Corta.

 

Isso é muito mais erótico do que a Rita Hayworth despindo a luva, ícone de todo crítico de cinema que não ousa dizer seu nome. O final do filme é adocicado, claro. Julia Roberts não é a Audrey Hepburn roubando bolachinhas na Tiffany’s de Nova York (se fosse na do Shopping Iguatemi, enchiam a menina de porrada). Mas isso não importa. Julia, em “Pretty Woman”, é o sonho erótico de todo homem que realmente gosta da coisa. Tudo o que nós, machos da espécie, queremos é uma mulher que seja a Gloria Kalil na sociedade e a Sue Johansen na cama. Com a Julinha da Rodeo Drive, a metade mais difícil já vem pronta. E ela, cá pra nós é muito mais gostosa do que aquela velha assanhada do GNT.

 

Edson Aran é cronista do Blônicas. Visite seu site que está de cara nova.

Escrito por Blônicas às 13h58
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- Pela via expressa

De Milly Lacombe.

Eu não estava, ao contrário do que muitos pensam, torcendo para que o papa expirasse. Torceria se alguém me garantisse que depois dele não haveria outro. Mas como, salvo o apocalipse ou um surto mundial de iluminismo, haverá mais um, então, tanto faz.

Mas é interessante refletir sobre a comoção mundial que a iminência de sua partida provocou.

Vigílias mundo afora imploravam pela recuperação do homem. E aí eu não pude deixar de me perguntar o seguinte: se seus devotos realmente acreditam que o sujeito é divino e, em sua passagem por aqui, só fez o bem, então não faria mais sentido se todos rezassem por sua morte pronta? Não iria ele, segundo a fé cristã, pela via expressa e sem pedágio, direto para o paraíso? Por que orar para que o homem e seu sofrimento de tubos, máquinas e drogas intravenais se perpetue? Não faz para mim o menor sentido.

O que sei é que, enquanto ele agonizava e seus súditos se ajoelhavam com velas nas mãos, na África, milhares de homens, mulheres e crianças morriam de AIDS porque esse mesmo santo homem nunca permitiu que, ali, se distribuíssem camisinhas.

Mas para essa gente, ninguém faz vigília.

Como também não houve vigília cristã enquanto os fornos de Auschwitz queimavam carne humana. Muito pelo contrário. A Igreja via na atitude algum sentido.

Aliás, não há vigília pelos milhares de civis iraquianos que já morreram durante a invasão americana, fruto da arrogância do capitalismo republicano que esse mesmo papa tanto defendeu.

Mas, pelos iraquianos moribundos, ninguém se ajoelha em praça pública.

Agora, quando o Papa, a personificação de Deus na terra (me perdoe, senhor, por usar seu nome em vão) se aproximou da reta final, aí todos resolveram que era hora de sair de casa, dobrar as pernas e pedir para que ele ficasse mais um pouco entre nós. Mesmo que seja, pelo bem de nosso egoísmo, sofrendo como um pobre coitado.

E aí, do alto de minha ignorância agnóstica, eu me pergunto como exatamente a vida desse homem é mais importante do que a da mulher que, enquanto eu escrevo essas linhas, agoniza em algum lugar sujo e remoto do Zaire vítima de AIDS.

Para mim, são duas vidas igualmente importantes, igualmente divinas.

Por isso proponho que, se o mundo parece estar tão disposto a sair de suas casas com uma velinha nas mãos para se ajoelhar em praça pública, todos os dias nos ajoelhemos e oremos por essa gente anônima que foi esquecida, que foi deixada ao relento, que foi ignorada por todos nós – principalmente pela Igreja que esse santo homem tão divinamente representou por mais de duas décadas.

No mais é se libertar de dogmas, tabus e festejar, porque, por alguns dias, enquanto os patuscos e impecavelmente bem vestidos candidatos a santo padre estiverem reclusos no conclave lidando com suas intrigas e vaidades, ficaremos aqui do lado de fora, abençoadamente esquecidos.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 14h42
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- Está morrendo gente que nunca morreu antes

De Castelo.

Demétrio morreu.

Não sei se vocês repararam, mas isso costuma acontecer todo dia.

Morre-se pra caramba. No mundo todo.

Pois Demétrio, um sessentão até sacudido, pimba: caiu mortinho num sábado como esse, mastigando a costelinha da feijoada que a esposa, Cleonice, cozinhara a seu pedido.

A mulher não esperava que o marido fizesse uma coisa daquelas, assim, no meio de um prosaico almoço familiar, sem dar um toque ao menos.

Mas as surpresas ainda estavam por vir.

Claro que Demétrio, como todo bom brasileiro, não deixou testamento.

Bem, não deixou lá muita coisa também, um apartamentozinho em Cidade Ocian, mas também não oficializou.

Quando Cleonice foi vender o apartamento (pra pagar as prestações atrasadas do Fininvest) viu que a transação era impossível. Só dava pra se desfazer de algum bem do esposo quando saísse o inventário. E podia demorar anos.

O pior é que, sem o maldito documento, ainda era preciso continuar pagando o IPTU, o condomínio e outras taxas do apartamento no litoral.

Cleonice não dizia nada. Era só enxaqüeca atrás de enxaqüeca.

Uma caixa de Neolsaldina por semana.

Outra dor de cabeça foi quando ela soube que precisava encerrar a conta bancária de Demétrio.

Ligou para o telefone 24 Horas e, após 15 minutos de checagens de senhas e contrasenhas, a voz feminina disse a palavra-chave:

- … o inventário. A conta não pode ser encerrada sem este documento.

A cabeça de Cleonice deu uma leve pontada. Ela ponderou.

- Mas já zerei a conta.

- É uma regra, não podemos fechar.

- Certo – Cleonice sussurou, procurando manter a calma – e o que vocês sugerem que eu faça então?

- É só pagar os R$ 15 reais de tarifa da conta.

- 15 reais por mês!! Pra conta de uma pessoa defunta! – outra pontada, agora na nuca.

- Foi o que o senhor Demétrio estipulou.

- Estipulou, mas não estipula mais nada!

- Um minuto, dona Cleonice, transferirei a ligação para o gerente de sua conta.

- … - pontada na testa.

- Alô, dona Cleonice? Gerente Romualdo falando.

- Sim.

- Verifiquei aqui e posso diminuir a tarifa da conta do senhor Demétrio para 5 reais ao mês. É a tarifa mínima que o banco oferece.

- Fazer o quê? - pontada aguda na sobrancelha.

- Nossa conversa está sendo gravada para sua segurança. A senhora autoriza o pagamento de cinco reais por mês pela tarifa mínima da conta corrente do senhor Demétrio da Silva ?

- Autorizo.

- Operação concluída com sucesso. Ah, só mais um detalhe. A tarifa mínima de cinco reais não dá direito a cheque especial, nem a cartão de crédito.

- … - seqüência de "agulhadas" múltiplas na testa, nuca e olhos.

- Alô? Dona Cleonice…O senhor Demétrio da Silva não terá direito a cheque especial e cartão de crédito. A senhora ouviu a informação? Dona Cleonice? Ixe, desligou…

Castelo é cronista do Blônicas aos sábados. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 12h12
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- Só nome feio

De Doutor Carneiro, o espírito de porco agridoce psicografado à contragosto por Henrique Szklo.

 

Esta é a história de um homem estranho com um problema estranho. Cristófaro era um solitário, não conseguia conviver com as outras pessoas, sua vida era um inferno e nada dava certo pra ele. Tudo porque ocorria com ele um fenômeno nunca detectado em outra pessoa em toda a história da humanidade: Peritônio não conseguia ficar com um nome. A cada vez que alguém se dirigia a Leocádio, ele tinha um nome diferente. Robervério sofria demais com isso. Uma hora era Gracilândio e, minutos depois, era Arnovídio. Não conseguia ter documentos, não conseguia se inscrever em nada. O nome não ficava, não colava. Crise de identidade profunda.

 

Certa vez, Arlintolfo procurou um médico. Mas não conseguiu a consulta. Menescôncio marcou a consulta, mas quem apareceu foi Laredésio. Procurou, então, um pai de santo que não exigia nomes na hora de marcar consulta. Chegando lá, Estrovaldo explicou sua situação e o sujeito ficou todo confuso. Nem o preto velho, nem a pomba-gira, nem ninguém da turma da pesada havia jamais visto uma coisa destas. Ficaram até com medo. Eles não tinham resposta. Sugeriram, porém, a Enemercádio que procurasse um famoso curandeiro que lidava apenas com casos raros e idiotas como este. Magrilôncio foi até ele. O sujeito era muito esquisito. Pudera. Misturou líquidos, acendeu incensos, proclamou cânticos incompreensíveis, peidou uma barbaridade. Garcilênio ficou parado, esperando que o maluco desse algum prognóstico. Ao final da sessão, o curandeiro chegou perto de Pritubério, olhou nos seus olhos e disse em tom premonitório:

 

– Fazer o senhor parar de mudar de nome o tempo todo eu não consigo, não. Mas se o doutor quiser posso fazer um esforço para, pelo menos, o senhor usar uns nomes mais bonitinhos. Tá afins?

 

Henrique Szklo é cronista do Blônicas às sextas e autor do novíssimo MINUTOS DE ESTUPIDEZ, nas melhores (e piores) livrarias. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 12h48
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01/04/2005 - A didática do amor

De Paulo Castro.

Estava folhando a apostila de educação sexual que minha filha irá utilizar na sua quarta série. Lá estavam os orgãos reprodutores masculinos e femininos, a fecundação, o desenvolvimento de feto dentro do útero e todas essas informações de bula ou modo de usar.
E apenas isso.
Algo muito importante estava faltando, mas eu ainda não conseguia identificar claramente do que se tratava. Conversei com alguns amigos que foram unânimes:
- Paulo, que bom que agora as escolas estejam oferecendo esse tipo de curso, no nosso tempo não existia isso...você, sempre insatisfeito com tudo, mesmo com as coisas boas, seu chato !
Isso era verdade. Na minha quarta série eu já sentia fenômenos estranhos quando na aula de natação raspava meu corpo contra a pele da menina mais jeitosa, alegre, faceira, a bendita maldosa em mim. E não tinha a mínima noção do que era aquilo.
Foi aí que descobri o que me incomodava na dita apostila:- O que era aquilo que eu sentia na piscina deliciosa da minha memória ? Era prazer, desejo, excitação. Não encontrei um tópico sobre isso no livro.
Já pode haver desenhos de pênis e vaginas nas folhas didáticas, mas apenas se a finalidade é explicar como nascem os bebês. A libido ainda é assunto proibido, fechado, o segredo. E quantas vezes mantemos relações sexuais com fins reprodutivos em nossa vida ?
- Meu amor, vamos hoje gerar uma criança?
- Claro, querida. Vou acionar meu órgão genital , espere apenas um segundo. Ativar testosterona !
- Espero, sim. Câmbio, atenção, óvulo preparado para ser invadido, pressão, temperatura, umidade sob controle do cérebro automático.
A questão do prazer é mesmo muito complicada. Não irei culpar a apostila, acho que no lugar da escola eu teria produzido algo muito semelhante. Mas ainda assim, sem que o desejo seja colocado como função central do coito, o mesmo parece desprovido de sentido. A maneira como a vida sexual é passada para as crianças está contaminada de um cientificismo mecanicista, cartesiano, que por seu lado, está impregnado de religiosidade. Nada contra a ciência e a religião, mas o sexo sempre foi um assunto bastante complicado para ambas disciplinas.
Quando Sigmund Freud disse que a sexualidade era a causa de todas manifestações humanas, foi acusado de pecador, tarado, mistificador. Ainda hoje é mal lido e mal interpretado.
Existencialmente, o que se coloca é o seguinte: somos todos frutos de instantes de prazer. No momento do orgasmo, nossos pais não estavam pensando em nós, nem em nossas almas, nem na genética evolutiva. Eles estavam rindo, gargalhando, misturando salivas, querendo que o mundo explodisse junto com a sensação arrebatadora que lhes fazia tremer a musculatura toda. A nossa formação não está presa na argola dos cromossomos, nem na transmigração das almas. Ela está completamente solta, livre, saltitante dentro da atmosfera do êxtase. Esse que não pode ser reprimido, esse que pode ser escutado através da parede no apartamento ao lado, esse que resfolega em camadas superpostas de enigmas anárquicos, insubmissos, trovejantes.
E que geralmente é feito de forma "pecaminosa" ou "anormal". Toda transa sem fins reprodutivos é pecado. O Papa está lá moribundo, mas ainda assim não dá o braço a torcer. Esse é o dogma e pronto. Toda transa que não seja resultado de hormônios e neuro-transmissores identificáveis nos sexos opostos é cientificamente anormal, uma parafilia, algo moralmente repulsivo e que deve ser tratado como doença, até mesmo como crime.
Recomendo um filme, "Secretária". Você acha em qualquer locadora. É uma linda história de amor, que segue todo curso esperado de um relacionamento: conhecimento, namoro, casamento, lar. Extremamente adequado. Porém, a moça é masoquista e o rapaz, um seguidor ferrenho do Marquês de Sade. E se dão muito do bem, com suas algemas, tapas e outras guloseimas. Respeitáveis socialmente. Muito mais felizes que muitos "papais" e "mamães" saídos das páginas da apostila modelo. Só que devem ir para o inferno ou até a "Classificação Internacional de Doenças". Nas brasas no Capeta serão pecadores, na mesa do especialista serão pervertidos. Cabularam a aula. Rasgaram o livro. Negaram a proibição e a ignorância dos espessos véus nublados.
E vem cá, me diga, quem não faz isso cotidianamente? Não é o anjo Gabriel nem a serotonina que me enchem de fantasias o tempo todo, pode estar certo disso. O prazer mais intenso vem do que é dado como uma negativa. Da transgressão. Da aceitabilidade dos poderes incontestáveis de Eros.
Agora me dê licença. Vou aproveitar que estamos a sós, eu e a mulher que me atrai e vamos escrever, nos poros, um apêndice para a didática edificante. Beijos afoitos para todos.

 "Mas alguém já sentiu prazer na leitura de uma descrição clínica? Será que o velho não sabia que as palavras trazem cores e sons para a carne?"
                                               ( Anaïs Nin)


Paulo Castro é cronista do Blônicas. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 09h47
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