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- O negócio é o "desfoco"
De Nelson Botter Junior. De começo recomendo: este texto deve ser lido por inteiro. Por quê? Bem, existem muitos momentos em que é preciso ter foco no “desfoco”. Os olhos - infelizmente - nem sempre percebem tudo, pois em certos pontos de um texto, por exemplo, pode-se esconder um código ou mesmo um jogo. Em certos discursos podemos perceber um outro propósito, como se fosse um segundo objetivo. Dizemos que é subjetivo ou um outro termo desse gênero. Conseqüentemente, um objeto nem sempre é somente um simples objeto. Podem existir mil definições nele, tudo escondido e percebido somente por olhos com pleno foco no “desfoco”. Quer ver? Você consegue descobrir o que se esconde num simples copo? Um copo de vidro pode ser de beber suco, vinho, etc; porém “desfoque” o copo e ele pode ser útil como recipiente de flores, como telefone sem fio, recipiente de pincéis, como lente que distorce o que se vê (ilusões de estilo psicodélico) e outros. Enfim, tudo pode ser brinquedo, pode ser diferente, pode ser um jogo. Um copo nem sempre é somente um copo. E isso serve em tudo, depende do que você percebe com seus olhos e mente. Logo, um texto nem sempre é somente um texto... Você é bom em percepções? Pois neste texto tem um teste. Você conseguiu perceber? Neste jogo, quer dizer, texto, resolvi proibir o uso do “A”. Pode correr com seus olhos e ver que o “A” foi simplesmente esquecido. Nenhum “A” no texto todo. E você, conseguiu perceber isso? “Desfocou” do que leu? “Desfocou” do texto? Pode ser um segredinho tolo, porém é muito útil. Pense nisso, pense no que você tem visto e percebido, no que você tem lido e entendido. Procure sempre o que está oculto no óbvio... Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras. - Amor ao primeiro cheque
De Xico
Sá.
É uma pergunta tão
antiga quanto a humanidade. Uma indagação tão respeitável quanto a clássica "o
que querem as mulheres?''. Segundo o meu pequeno
repertório sobre o caso, uma das melhores respostas sobre o assunto foi a do
monstro sagrado Jack Nicholson. Quiseram saber do velho
lobo da celulóide o motivo pelo qual pagava para que prostitutas o servissem,
sempre em domicílio. Por que, afinal, um cara charmoso, foda e interessante como
ele, capaz de ficar com as melhores mulheres desse mundo, ainda apelava para tal
expediente? Nicholson não titubeou
um segundo sequer. "Ora'', disse, "não pago somente para que
essas respeitáveis mulheres se desloquem até a minha casa. Pago caro, sim, pela
possibilidade de poder mandá-las embora na hora em que eu bem
entender''. Como são lindas!
Mas falo das putas de
verdade, luz vermelha n´alma, olhos que não enganam, tenham qualquer corpo ou
idade, as damas que nos acolhem além do amor possível, além da própria
psicanálise, um colo além-mãe, além do calor dos amigos, outra linguagem,
linguagem própria que vai além do sexo, além do colo, além de dizer coisas, um
dengo parado no tempo, suspenso, um cafunés nos cinco sentidos.
Falo das putas de verdade. Não essas
garotas neoliberais ao extremo, que fodem para pagar faculdade, para comprar
roupa de grife... Parecem mulheres com taxímetros, bucetas de flat, essas não
entram na minha casa nem no lar doce lar do velho amigo
Nicholson. Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. Visite seu blog. - O publicitário de Deus
De Milly Lacombe.
O grande criador estava chateado. Olhando pela janela do paraíso, com plena visão do que estava abaixo, levou as duas palmas das mãos ao rosto e esfregou com força. Não conseguia entender quando exatamente havia perdido o controle sobre a criatura. De onde vinha tanta fome, tanta guerra, tanta arrogância, tanta vaidade? Sentou na cadeira reclinável e jogou o corpo para trás (boa idéia mandar aumentar a amplitude da reclinarem. Agora, ao jogar o corpo para trás, ficava praticamente paralelo ao solo. Bárbaro). Voltando à problemática, trocou o sorriso por rugas de preocupação e concluiu: Erro de cálculo. Tivesse pensado um pouco mais matematicamente e menos filosoficamente durante o processo de criação teria entendido que toda força exige ação contrária. E eis que o amor, a maior de suas criações, a única que, ao contrário das outras, era exclusivamente de sua autoria, sem intervenção da biologia e da evolução, teve como efeito colateral o ódio. E era justamente ódio, essa forma torta de amar, que estava destruindo tudo. Pensou em jogar a toalha, partir para outro universo, começar tudo de novo. Mas sabia que não teria coragem de abandonar o barco. Se as coisas já estavam ruins com sua supervisão, imagine sem. E, a bem da verdade, só agora havia concluído a reforma do paraíso: novas salas, novos sofás, o home-theater de última geração ... não, melhor tentar concertar do que começar do zero. Mas havia um problema: falta de crédito. Tanta destruição e miséria fizeram com que sua imagem ficasse abalada. As palavras de Einstein não saíam de sua cabeça: “Diante de tanta dor, de tanto sofrimento, só a ausência de um Deus poderia desculpá-lo”. Ligou para o fiel escudeiro Ojan e determinou: desça à Terra e me encontre o melhor publicitário que puder. Convença-o a elaborar um plano de ação que seja suficiente para mudar minha imagem. Antes que Ojan pudesse partir, ainda teve tempo de gritar: “Escolha algum brasileiro. Apesar daquela infernal mania de querer levar vantagem em tudo, ainda são os mais criativos.” E lá se foi Ojan para a bagunça humana. Entrar ali era sempre duro. O ar carregado de ego e vaidade era muito pesado e Ojan sentia isso literalmente na pele, que arrepiava ao primeiro contato com o plano terreno. Escolheu a forma de um homem de meia idade, rosto forte, pele morena, quase negra. Bem vestido, lá foi ele tentar encontrar o tal publicitário de Deus. Andando pela avenida Paulista na hora do almoço, estava perdido. Entrou em uma enorme livraria e comprou tudo o que encontrou sobre o mercado publicitário brasileiro. Em algum lugar estava a mulher ou o homem que iria mudar a imagem de Deus. A missão de Ojan era encontrar essa pessoa. Sentado no café da livraria, começou a fazer anotações. Quatro horas depois, saiu de lá com dez nomes no bolso e resolveu ir pessoalmente entrevistá-los. Enquanto isso, lá em cima, Deus estava inquieto. Na cadeira reclinável, jogava o corpo para frente e para trás a procura de idéias que pudessem salvar o mundo. Sabia que precisava da ajuda de uma mente 100% humana, de alguém que pudesse entender das fraquezas e das forças da criatura e, assim, falar sua língua. Mas que inferno, que horas deviam ser? Por que não o chamavam para o jantar? Estava com uma fome dos diabos. Resolveu ir ver o que estava acontecendo. Levantou-se rapidamente, apagou as luzes e, esquecendo o problema, saiu da sala. Lá embaixo, Ojan iniciava sua jornada. Sentado na calçada em uma mesa de bar, o assessor observava a pressa humana enquanto bebericava uma cerveja gelada: ah se eles soubessem que tanta correria não leva a nada. Tomando um gole grande, respirou fundo e lamentou que as coisas tivessem tomado o rumo que tomaram. Pobres criaturas. Tão cheias de traumas, vaidades, medos ... Sabendo que a noite seria longa, pagou a conta e foi cumprir sua missão sabendo que lá em cima, provavelmente degustando seu jantar, Deus já tinha se esquecido dele. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - O código Michelângelo
De Castelo.
Foi há muitos anos no reino da Cornualha do Sul. No tempo em que camiseta era peça íntima. Nosso herói chamava-se Artorius e fazia parte da nobreza. Seu pai, havia pouco, fora aposentado compulsoriamente como bobo-da-corte do rei King. O velho Luriens, devido à esclerose, repetia a mesma piada há anos. - Conhecem aquela do “ménage-a-trois” entre o elefante, a formiguinha e o mouro? Ha ha ha! Um dia, conforme o costume da época, Artorius virou cavaleiro. Num dado momento da cerimônia, o rei anunciou seu novo nome: - A partir de agora, você se chama Gundhwyfar Seikolibur da Silva! Transtornado com essa horrenda revelação, Gundhwyfar decide virar templário e parte para um destino de aventuras. Antes, contudo, faz uma exigência aos colegas de Cruzada. - Por favor, me chamem de Gugu. Rapidamente Gugu torna-se um dos mais audazes guerreiros. Cursa uma faculdade privada e torna-se sábio. Já sabe até diferenciar um alce de uma ponte elevadiça. “A ponte não come capim e não tem chifres”, compara brilhantemente. O rei King então o coloca numa missão fundamental para o reino. - Nosso país está estéril, as plantações não vingam, tudo é sofrimento – diz o rei King. - O senhor ainda não viu como está o Brasil, majestade – completa o templário. - Para que possamos voltar ao viço de outrora, garantiu-me uma pitonisa, precisamos decifrar o Código Michelângelo. E a resposta para ele está em mãos de um ermitão, na floresta de Qualirion. Gundhwyfar indaga ao rei sobre como deve agir para decifrar o Código. - Você deve antes passar pelos perigos da floresta mágica. Se conseguir chegar à presença do ermitão Meguin the Meguine, tem de responder à uma pergunta-chave. Se sua resposta o satisfizer, você traz o Código decodificado. Se não, você será condenado a ouvir eternamente discos de música celta. - Só um detalhe, milorde. Será que poderíamos falar agora sobre aquele aumento salarial? - Estava demorando...passe no Departamento Pessoal e fale com sir Galahad antes de viajar. Com 30% de aumento, fora a inflação, Gundhwyfar entra na floresta. Passa por momentos de grande perigo até alcançar os domínios do ermitão. O pior deles foi quando o dragão Moloc, recém-saído de um longo período de análise reichiana, decide assumir seu lado feminino e lhe passa uma cantada infame. Foi dificílimo convencer o animal mítico de que nunca seriam aceitos numa sociedade conservadora com a Cornualha do Sul. Mesmo assim, Moloc resolve segui-lo na viagem. Por fim, chegam diante do velho ermitão. Muito tenso, Gundhwyfar aguarda a questão que poderá, ou não, salvar o seu reino. - Tem fogo aí? – finalmente perguntou Meguin The Meguine (ele era um fumante inveterado que, por morar só, nunca tinha fósforos para os cigarros). Imediatamente, Gugu ordena que Moloc dê uma baforada na guimba do ermitão. Ele dá uma longa tragada e entrega a senha para que finalmente se decifre o Código Michelângelo. Tudo acaba bem. Inclusive, antes do Natal, sai o jogo com a aventura para o Playstation 2. Castelo é cronista de sábado do Blônicas. Visite seu site. - Ribeirão Preto, São Pedro e o mico
De Henrique Szklo Tudo começou quando fui convidado por uma grande universidade de Ribeirão Preto para dar uma palestra. O convite veio por e-mail, assinado por um simpático professor. O evento em questão era uma semana de comunicação e, após algumas trocas de e-mails, fechamos a minha participação para terça-feira a noite. O professor solicitou, por fim, meu nome completo, RG, essas coisas, para poder comprar a passagem de avião. Na segunda-feira, um outro simpático professor, coordenador do curso de publicidade, me telefonou para passar os dados da reserva. Achei estranho não me mandarem isso por e-mail e sim oralmente por telefone, mas, tudo bem, pensei, não posso ser tão implicante. O vôo saia às 19 horas e chegaria mais ou menos às 20. A palestra era às 21. Achei mais uma vez estranho comprar uma passagem com tanto aperto de horário. Afinal, não é uma coisa difícil avião se atrasar. Mais uma vez pensei em ser flexível e compreensivo. Vai dar tudo certo. Saí de casa às 17 horas com aquela chuva que caiu em São Paulo. Cheguei ao aeroporto às 18 e entrei na fila da Gol. Ao chegar a minha vez, a primeira surpresa. Meu nome não estava na reserva. Dei o número que foi me passado pelo simpático professor ao telefone e a balconista, ao digitá-lo, decretou: “Está em nome de Henrique Carneiro”. “Ah, é meu apelido”, retruquei. “É, mas infelizmente o senhor não vai poder embarcar”. Discuti com ela por algum tempo. Disse que tinha em minha bagagem um livro que mostrava que Carneiro é meu apelido. Disse também que tinha um cartão de visitas que também constava Carneiro. Ela disse que precisava ser um documento oficial. Eu perguntei, então, se ela conhecia algum documento oficial que constasse o apelido das pessoas. Ela, cansada, perguntou se eu queria falar com a supervisora e eu disse que sim. Ela saiu e voltou sem a mulher. “A supervisora está ocupada e não pode vir. Mas ela disse que não vai poder embarcar”. Feliz com a consideração da funcionária da Gol, comecei a engrossar. A balconista me ofereceu outra alternativa: comprar outra passagem. Como eu queria cumprir meu compromisso com a faculdade, aceitei a oferta e fiz a compra, esperando receber o reembolso prontamente ao chegar em Ribeirão. Passado o estresse, fui a sala de embarque, onde percebi que boa parte da população de São Paulo estava esperando seu avião. Isso mesmo, o aeroporto estava fechado. Será que eu vou? Que horas vai começar a palestra? Mas agora já comprei a passagem. Se eu não for, não recebo reembolso. Tentei ligar para a faculdade e ninguém conseguia achar alguém responsável. O simpático coordenador deixou seu celular, mas só caia na caixa postal. Ok, eu vou. O avião só decolou às 20h50 e chegou em Ribeirão Preto às 21h40. Alertado pela balconista paulistana de que teria o mesmo problema do nome na volta, tentei resolver lá a situação. O simpático professor que foi me esperar no aeroporto (na verdade ele foi esperar outro professor e pediram para me esperar também) tentou me ajudar, mas a balconista não podia decidir na hora. Deixamos nossos telefones e fomos embora. Chegamos à faculdade às 22h10. Quando entrei na classe onde daria a palestra, haviam só uns 20 ou 30 gatos pingados, heróis da resistência, que aguardavam minha chegada. Durante a palestra, que tive de dar a toque de caixa pois a faculdade tinha hora para fechar, vários outros saíram. Não poderiam perder carona, o último ônibus iria embora ou não estavam gostando mesmo. Não pude nem vender meus livros no final, não tinha tempo nem gente suficiente para tanto. E pensar que não cobro nada por palestras em faculdades apenas para divulgar meu trabalho e vender livros... Fomos jantar. Eu, o professor simpático que me convidou, o professor simpático que nos recebeu no aeroporto, o professor simpático que veio comigo no avião e participou do mico e mais um outro que eu não sei quem era, comemos um delicioso cupim num restaurante muito agradável. Às 3 da manhã fomos para o hotel. No dia seguinte de manhã, o vôo saia às 8h30, chegamos ao aeroporto às 8h00, levados pelo mesmo professor simpático que nos buscou. Chegando lá, mais uma surpresa. A Gol, inovando novamente a cultura do transporte aéreo, informou-nos que o vôo havia sido cancelado por falta de teto e que iríamos de ônibus para São Paulo. Achamos a piada muito boa, mas não aceitamos a oferta. O pobre professor que foi nos levar, pressionado por nós, conseguiu que nossas passagens fossem transferidas para a TAM, que por alguma traquitana tecnológica consegue pousar seus aviões onde os da Gol não conseguem. Ah, lembram do meu reembolso? Pois é, o simpático coordenador do curso que não foi me buscar no aeroporto, não estava lá na palestra, não me levou para jantar e nem me levou de volta ao aeroporto me ligou para dizer que assim que todos os trâmites burocráticos fossem cumpridos, o dinheiro seria depositado em minha conta. Aí eu surtei. Disse que era o fim da picada. Colocar meu nome errado na passagem, eu ter a presença de espírito de pagar do meu bolso e mesmo assim teria de esperar? Minha conta negativa e tudo? Aí o simpático coordenador botou a culpa no simpático professor que me contatou. Eu disse que não queria saber de quem era a culpa. Alguém deposite “hoje” o dinheiro na minha conta e depois se vire com o reembolso. Ele ficou ofendido e disse que eu era muito radical e que provavelmente não iria mais ser convidado para dar palestras naquela instituição. Arrasado com a ameaça, desliguei o telefone e fui esperar meu vôo que só saiu às 11h30. O avião tinha umas 60 cadeiras livres. Fiquei só pensando nos pobres passageiros da Gol que aceitaram ir de ônibus para São Paulo. Uma viagem de 5 horas, mais o tempo que eles iriam esperar no trânsito caótico provocado pelas chuvas recordes. No final das contas, o que valeu foi ter conhecido o professor simpático que voltou comigo no avião, o Wilson da Costa Bueno, grande figura, que à propósito do mico da Faculdade e da Gol, emendou uma frase que um garçom uma vez disse pra ele: “Tá pagando preço de colchão duro e quer picanha?”. Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas. Leia seu site e o blog da mãe. - O fantasma e os miseráveis
De Marcelino Freire.
Xô, Fantasma da Ópera. Vade retro, diacho! Querem, mais uma vez, desfigurar o nosso teatro. Broadway para brazuca ver. Pode? Tô fora. Não quero nem saber de seus 125 quilos de gelo seco. 100 toneladas de figurinos e cenários. De suas 160 perucas. Nem saber que a sua produção cinematográfica (Hollywood agora é aqui, não o Haiti) emprega mais de cem profissionais. Estou pouco me lixando. Quero mais é saber dos desempregados do Bexiga e da Praça Roosevelt. Por que o espanto? Saber daqueles atores que, às vezes sem dinheiro para a cerveja, fazem o verdadeiro teatro. A duros penachos. Mambemboso. Potentosamente tosco. Dionisíaco. Um teatro que tem sangue vigoroso. Teatro, este sim, que põe medo em patrocinadores e no governo do estado e na prefeitura da cidade de São Paulo. Na estréia, há pouco mais de um mês, fiquei sabendo que, entre Ana Maria Braga e Amaury Jr., estava lá o prefeito Serra. Eta danado! Por que não trocou ele o "Fantasma" pelo Cemitério, ora essa? Falo, aqui, do grupo Cemitério de Automóveis e de grupos outros que mendigam o direito que têm: o do Fomento ao Teatro. Merreca de verba que não compraria um lustre que pesa, na peça norte-sul-americana, 450 quilos. Oh! My God Cristo! Tudo é sempre número fabuloso, notaram? Fórmula de sucesso. Estatística lucianopavorística que faz a festa de jornais e capas de revista. A saber: 10 milhões de dólares de investimentos. Um recorde nacional (com a ajuda do governo federal). 21 países aplaudiram. 18 milhões de pessoas já viram. 37 atores e 19 músicos em cena. Então, se o negócio é número, os meus também hão de valer a pena: estou ao lado, por exemplo, dos 40 espectadores que lotam o Espaço dos Satyros para ver o drama "Cosmogonia". Ao lado das dezenas que se acotovelam para acompanhar os textos do Mário Bortolotto. Dos 40, idem, que jogam pôquer na bem produzida peça "A Escolha do Jogador", essa em cartaz no Teatro Augusta. E tantas outras montagens boas. E tantos atores e autores e diretores, repito, que merecem o nosso respeito. E o que é melhor: o nosso dinheiro. Por que não? É preciso que se diga: queremos viver de arte, não na pindaíba. De fantasmas e cats e belas e feras já estamos cheios. Se é para megaevoluir, que fiquemos com o Zé Celso e Os Miseráveis de Canudos. Esses pelo menos valem a pena. E, de fato, assustam. Marcelino Freire é cronista do Blônicas. Autor, entre outros, dos livros de contos "Angu de Sangue" e "BaléRalé" (Ateliê Editorial). 26/05/2005 - O dia que falta
De Leo Jaime.
Passamos pelo dia das mães e já estamos quase no dia dos namorados. Tivemos a oportunidade de pensar na importância das mamães em nossas vidas e já vamos refletir sobre a importância do namoro, ou da falta dele. Muitas meninas estão revendo seus conceitos para não passar esse dia sozinhas, diminuindo um pouco o nível de exigências, pois é um dia chato de passar sem um telefonema ou cartão. Melhor ainda se vem um presente ou uma noite agradável e inesquecível. Datas. Uns dizem que são invenções do comércio e que não deveríamos nos pautar por elas. Mas experimente passar uma data dessas sem piscar, sem agir, sem mandar um bilhetinho! Todos querem ser lembrados, mesmo que por uma data inventada pelo comércio. As datas vão preenchendo o calendário: dia das mulheres, do índio, da consciência negra, do orgulho gay, pai, mãe, namorados, crianças, dia da pátria... fora natal, carnaval, reveilllon, páscoa etc. Todo mundo tem um dia, ou parece ter. E os homens? Sim, é isso mesmo, os homens? Os homens não tem um dia a lhes homenagear. O que é? Não merecemos nenhuma homenagem? Difícil imaginar namorados, mães, crianças, mulheres sem homens. Tudo bem, você irá dizer que tem o dia dos pais. Pois é, tem o dia das mães e o dia das mulheres, e estou falando dos homens que não são pais. Ou até são pais mas antes disso são homens e mereciam a comemoração. Oras, não é fácil ser homem. Porque é preciso ter coragem, força, seriedade, responsabilidade, discernimento, sinceridade, segurança; porque precisamos saber um monte de respostas, tomar as iniciativas, matar uns bichos, arrumar um monte de coisas, preencher a declaração de imposto, tomar as iniciativas, entender o que não deve ou merece ser entendido (mulheres!), levar, buscar, proteger, amar e declarar isso em voz alta, assumir compromissos e manter a palavra, ter honra e traduzir isso em amizades e alianças, ter humor, metas, vitórias. São duas coisas que precisamos defender, uma delas é a nossa data. Precisam dar mais valor ao homem! A outra é mais íntima e sutil: pau duro não é uma obrigação, tem que merecer. Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. - Corporação
De Rosana Hermann.
Não sei deixe enganar: a palavra corporação apenas parece uma aglutinação de corpo e coração mas é exatamente o contrário. A corporação é uma entidade sem fins afetivos, que diariamente conclama cada um de seus colaboradores mal-remunerados a abandonar o coração em casa, junto com a opinião e o desejo, e depositar o corpo durante dez horas na mesma cadeira sem pensar ou fazer nada que não seja de interesse da corporação. A linguagem interna dessas grandes empresas segue um jargão que mistura inglês, português e telemarketês, gerando frases como ‘primeiro nós vamos estar estartando o processo e depois vamos estar dando prosseguimento para a análise do planning’, o que torna homens e mulheres muito infelizes, já que todos poderiam estar dando coisas bem melhores que um mero prosseguimento interno. Na gramática do corporatês, o sujeito foi abolido para que ninguém seja isoladamente culpado ou responsabilizado por nenhum ato em si, tendo sido substituído pelo objeto direto. Assim, ninguém diz coisas como ‘vou comprar o livro’ mas ‘o livro estará sendo adquirido pelo departamento responsável’. Frases como ‘depois a gente conta o que aconteceu’ transformam-se em ‘as informações pertinentes sobre o sucedido estarão sendo repassadas no momento adequado’. Quando ouço uma frase dessas vinda de uma mulher azeda e mal-amada tenho vontade de propor que seu orifício retal esteja sendo preenchido por um membro intumescido do conselho. Na corporação tudo é controlado, comedido, planejado, organizado e, principalmente, regulamentado. Há regras de conduta para falar, para se vestir, comer, enviar e receber e-mails, abrir e fechar arquivos. Tudo está estruturado, inclusive, para que ninguém questione a corporação, apenas atravesse-a durante trinta anos de serviços prestados como um vegetal para que depois desfrute de sua merecida aposentadoria numa horta orgânica. Por tudo isso, quanto mais conheço as grandes corporações mais tenho vontade de ser apenas uma artista marginal, dona de casa independente, escriba autônoma, qualquer coisa de cunho individual, que me permita acertar e errar sem que o Windows me esfregue uma janelinha de alerta na cara. Todos somos obrigados a conviver com ela, esta deusa fria da corporação. Mas no fundo, não gosto, não. Não dá pra gostar de uma entidade que tem um crachá no lugar do coração. Rosana Hermann é cronista do Blônicas de quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. - Até que a morte nos separe
De Nelson Botter Junior. A esposa entra no quarto e vê seu marido, sentado na cama, com um revólver apontado à cabeça. - O que é isso, amor? Santo Deus! - Querida, eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto... - Mas que ponto? Do que você está falando? - Eu resolvi por um fim em tudo! - Tudo o quê? O que está acontecendo, querido? - Vou me matar! - Pelo amor de Deus! O que aconteceu? Pára com isso! - Eu fiz uma coisa horrível... - Tudo bem, amor. Não há nada que não possa ser consertado. - Me sinto tão envergonhado... - Calma, calma. Tudo se resolve, abaixa essa arma, vai. - Você não entende, o que eu fiz é muito grave, muito! - Seja lá o que tenha sido, tem solução, nós vamos encontrar um jeito de resolver. - Isso você diz agora... - O que aconteceu, querido? Você perdeu o emprego? - Pior, muito pior. - Estamos endividados? - Não! - Então o que foi? - Não consigo contar, não posso! - Confie em mim, amor. Nós vamos enfrentar tudo juntos, vamos superar qualquer problema... Eu te amo, você me ama, podemos achar solução. - Aí que está, querida, é algo que não tem como consertar. Já está feito, agora já era, não tem volta. - Você matou alguém? - Não, não é nada disso. - Já sei... Aquele seu projeto no trabalho foi reprovado. - Não... - Você está me deixando louca! Diz logo o que foi! Eu quero ajudá-lo... - Você jura que me ajuda? - Mas é claro! É tudo que mais quero nesse momento! - Mesmo sendo a coisa mais horrível do mundo o que vou te contar? - Qualquer coisa. - Tá bom... Eu te traí, amor. Te traí com a Lúcia, aquela minha colega do trabalho que você tanto detesta... Um breve silêncio. - Eu sei quem é a mocréia, não precisa ficar me lembrando. - Então, aconteceu, não sei bem direito como foi, mas quando percebi já tinha acontecido. Eu estou tão envergonhado, querida, tão arrependido. Por isso prefiro tirar minha vida a te decepcionar dessa maneira. Me ajude, me ajude a superar isso, amor! - Claro que te ajudo - ela diz, abrindo a porta do armário e pegando algumas toalhas. - Pra que essas toalhas? - É pra forrar o chão. Suje o quarto de sangue o menos possível, pois a faxineira só vem na outra semana. Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas toda terça-feira. - Para reabrir o apetite das moças
De Xico Sá. Época chata essa. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface. A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, uma massa, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um bife à milanesa, um torresmo decente. Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ''Os Desajustados'', quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato. E elogia a atitude da moça. Toda preocupação feminina está voltada para a estatística das calorias, as quatro operações da magreza absoluta. É como se todas fossem posar para a ''The Face'' do dia para a noite. Mal sabem que isso não tem, para homem que é homem, quase nenhuma importância. François Truffaut, o cineasta, padrinho sentimental deste cronista, já alertava, em depoimentos registrados em suas biografias, o valor insuperável das mulheres normais e o seu belo mundo de pequenas imperfeições. Além do prazer de vê-las comendo, pesquisas recentes mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol, costumam ser mais nervosas, dão mais trabalho em casa ou na rua. Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las nesse crime perfeito. Às fogazzas, aos pastéis, ao sanduíche de mortadela, ao lombo, de lamber os lábios, do bar e lanches “Estadão”... Ao prato do dia: hoje, virado à paulista; terça, dobradinha; quarta, feijoada; quinta, rabada; sexta um peixinho, mas com muito purê, arroz e molho na fartura; sábado, mais uma feijuca; domingo, bem, aquele macarrão com frango, um clássico. O importante é reabrir o apetite das moças, pois homem que é homem não sabe sequer _nem procura saber_ a diferença entre estria e celulite. - Diálogo com o silêncio
De Paulo Castro. Esse seu silêncio vem de onde? A quietude é
originada de algum lugar ou é apenas a expressão irônica do
nada? " Mesmo a maneira mais suave mediante a qual uma nação pode receber um
senhor estrangeiro, por casamento ou testamento, não é extremamente honrosa para
o
povo." Paulo Castro é cronista do Blônicas. Visite seu blog. - O dia de Jefferson
De Milly Lacombe.
Jefferson não sabia quem era seu pai. Até aí, tudo normal. Metade de seu colegas de também não sabiam e sequer pensavam nisso. Tinha mãe, que ele mal via porque ela trabalhava fora e só voltava muito tarde, quando Jefferson já estava dormindo. Mas tudo o que importava era acordar e sair pela rua, à cata de diversão. E a grande diversão era, além de cheirar cola, pedir dinheiro nos sinais. Parecia tão simples. Aqueles carros enormes de vidros escuros, normalmente com uma pessoa dentro, vez ou outra abriam um teco da janela e deixavam uma nota de um real meio solta no ar. O pequenino Jefferson ficava na ponta do pé e a alcançava. Moleza. Diante disso, quem preferiria ir para a escola perto de casa? Não ele, e certamente não seus colegas de sinal. Estudar para quê? Para virar office-boy como o irmão mais velho? Para ser isso não era preciso estudar, pensava o pequeno Jefferson. Para ser office-boy basta crescer e comprar uma moto. Enquanto isso, ia ficando pelos sinais da vida. Mas um dia o pequeno Jefferson achou que não bastava se esticar todo para alcançar a nota. Ele queria ver quem eram essas pessoas dentro dos carros. Ele queria que abrissem o vidro, que o olhassem nos olhos. Por mais que batesse nas janelas escuras dos automóveis, não era atendido. Os motoristas continuavam imóveis, o pescoço nem se mexia, seus olhos inexpressivos fitavam um horizonte que não existia. Aquilo começou a deixar Jefferson cabreiro. Por que não olhavam para ele? Ele queria apenas um olhar, que diabo. Diante da dificuldade de obter atenção, passou a não dar mais bola para o dinheiro. Quando ofereciam a ele uma nota pela fresta, recusava. Batia forte no vidro e dizia: “Olha pra mim, tio!”. Ao verbalizar o desejo, notou que as pessoas ficavam assustadas. Algumas chegavam ao ponto de avançar o sinal, semipanicadas. O franzino Jefferson passou a se divertir com aquilo. Se eles não queriam olhar, então ele iria assustá-los. Era tão simples. Quanto mais novo, maior e mais escuro o carro, mais divertido. Ele recusava o dinheiro (quando lhe ofereciam algum), batia no vidro com força e gritava: “Olha pra mim! Olha pra mim!”. Os amigos começaram a achar que Jefferson estava caducando. Corriam para pegar a nota que ele havia recusado e mandavam que ele parasse com aquilo. Que brincadeira boba. O que importava era pegar a grana. Que o motorista continuasse olhando pra puta que o pariu, contanto que desse um troco. Jefferson não dava bola e ia embora para casa com a certeza de que, no dia seguinte, faria tudo outra vez. Mas um dia tudo mudaria. O carro se aproximou lentamente. O vidro não era escuro, o carro não era tão novo nem tão limpo. Jefferson arriscou a batida no vidro. Em poucos segundos, ele se abriu. Do lado de lá, uma menina bonita, cabelos claros, lisos, olhos de jaboticaba. Ela não ofereceu dinheiro, apenas olhou para ele e sorriu. Jefferson sorriu de volta. Assim ficaram até que o sinal abriu. E ela acelerou. Jefferson não lembra de ter sentido nada parecido na vida. Estava invadido de felicidade. No olhar da moça bonita ele havia se reconhecido. No olhar da moça rica ele finalmente entendeu que existia. Saltitando e assobiando, voltou para casa. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - Fernandez, o esquerdista burguês
De Castelo.
Toda noite aqueles sonhos. A invasão do “aparelho” na Lapa. Meganhas desencapando fios amarelos e vermelhos. “Telefone” nos ouvidos. A cara inchada do delegado do DOPS crescendo, querendo engoli-lo. Depois Fernandez acordava lívido, em cima de lençóis de linho branco, geralmente sacudido pelos braços malhados de Cheyenne, sua jovem segunda esposa. - Vou falar com a Pitty na Confraria do Champanhe. O marido dela é médico no Einstein. Arruma um especialista em nervos pra você, Fernã. Impossível esquecer os “Anos de Chumbo”. Mesmo com a boa vida de agora. O ex-guerrilheiro - codinome Silveirão - tinha se dado bem desde o abandono da militância em 1975. Aos 60 anos, chegara quase ao topo da carreira no funcionário público. Comandava a poderosa R.I.R: Repartição dos Inadimplentes Reincidentes - com 80 servidores concursados e 937 nomeados. Naquele sábado, depois de mais um pesadelo, Cheyenne, fez uma proposta ao marido. - Que tal se a gente desse uma volta, pra arejar. Ah, já sei! Vamos naquela concessionária ver o carro que você falou… Meia hora depois estavam numa loja de carros analisando o interior de uma perua Porsche Cayenne. - Que linda – comentou a esposa – rima com o meu nome! Fernandez não perdera a antiga mania de pensar em termos materialistas dialéticos. Olhava o carro e argumentava: - Não seria uma contradição levar esse veículo, meu amor? - Contradição? - Exatamente. Ainda não superamos a fase BMW. - Ai, Fernã, de novo esse linguajar marxista! Você é um alto funcionário do Estado. Merece o melhor. - Calma! Vamos fazer uma análise mais científica e ver se há consenso lá em casa sobre a compra. Cheyenne pegou seu Motorola Razor V3 adquirido no shopping Bal Harbour de Miami – escala da viagem que fez com seu Fernã para Havana – e ligou para o filho dele, Stalinir. - Talinho? Seu pai quer conversar com vocês antes de fechar um negócio. Almoço? Avisa a tua irmã… Foram ao francês “Alice”. Fernandez tomou a palavra. - A madrasta de vocês está propondo a aquisição pelo nosso núcleo de uma Porsche Cayenne. A justificativa para a operação é a de que o utilitário é potente, confortável e de grande valia para nossos deslocamentos em grupo. - E tem uma caramelo di-vi-na! – reverberou a madrasta. - Quanto é o carro? – quis saber a filha, Rosa de Luxemburgo. - 158 mil pesos cubanos – confirmou Fernandez. Os filhos concordaram. Stalinir fez apenas uma pergunta. - Continuo vendo aquele lance do meu curso de chef na Toscana, pai? - Claro! – berrou Fernandez – isso é verba alocada para educação familiar. A Rosa também continua estudando Moda em Paris. Educação e Saúde é revolucionário! Brindaram com uma Brut escolhida por Cheyenne. - Nasdrovie! – gritou o ex-agitador, taça flûte para o alto. Mais tarde, na concessionária, Fernandez sentou-se na mesa do gerente e sentenciou: - Aquela perua caramelo ali. Vamos encampá-la! Castelo é autor de “Faça Sexo Agora. Pergunte-me Como” (Matrix) e escreve ao sábados no Blônicas. Visite seu site - CAFÉ THOTO
De Henrique Szklo Não seria genial se existissem prostíbulos para cães? O Max, meu cachorro, chegou naquela idade chave na existência de qualquer macho, quando seu principal objetivo é conhecer os prazeres da vida, as delícias do amor carnal. Chegou a hora dele abandonar as pernas das visitas e partir para uma relação mais profícua. Por isso ele não olha mais para as cachorrinhas com aquele olhar de desprezo e nojo. Não, mesmo sem ele próprio saber direito o que está sentindo, seu olhar subitamente se encheu de cinismo e lascívia ao mirar de longe um belo par de ancas ou irresistíveis quatro pares de peitos. Você já viu um olhar canino de lascívia? Provavelmente não. Esse é o tipo da coisa que só um pai enxerga num filho. E eu, como pai, me vejo numa situação complicada, numa encruzilhada: acho ele muito novo para se envolver emocionalmente com uma cadelinha, mas ao mesmo tempo sinto-me na obrigação de introduzi-lo no orgasmático mundo do sexo adulto. E como dizem que cachorro não pensa, ensiná-lo a agir instintivamente com duas cabeças. Como espectador acho que ele já ficou meio cansado e quer experimentar por si só. E como todo pai, encho-me de culpa e remorso. Tanto que cheguei até a sonhar um dia desses com o que seria uma solução sensacional para o meu problema e o de milhões de outros felizes, mas preocupados, progenitores de animais de estimação. Tudo começou quando dormi, coisa meio óbvia já que eu disse que foi um sonho. Mas tudo bem, não importa. Adormeci e em pouco tempo lá estávamos nós, eu e o Max, em frente à uma casa absolutamente suspeita chamada “Latitude”. Só não tinha uma luz vermelha porque dizem que os pobres animais enxergam em preto e branco. Mas de qualquer maneira uma luz se acendeu em minha mente. Sim, era essa a grande solução. Como não havia pensado nisso antes? Resolve todos os problemas: um lupanar canino. Além da enorme dificuldade de se encontrar cadelinhas bull terrier que sejam de família e tenham um pedigree respeitável, é preciso levar-se em conta que o sexo possui duas claras vertentes: o que se faz com uma prostituta não se faz com uma namorada. Isso, lógico, na cabeça irracional dos cães. Voltando ao sonho, o Max estava ansioso e disse para a gente entrar logo (era sonho, por isso o Max falava). SÓ AS CACHORRAS! Terminado o show começamos a passear pelo local para dar uma geral. O Max já estava se sentindo o gostosão do pedaço. Não havia uma fêmea que não abanasse seu gracioso rabinho para ele com uma expressão lânguida e impudica, prometendo silenciosamente minutos de devassidão e volúpia. Elas eram um pouco vulgares, mas quem estava ligando? Foi quando se aproximou dele uma “garota” muito interessante. Acho que era vira-lata (todas ali eram, ingenuidade minha). O Max se engraçou logo com a pequena meretriz e após cafungar em locais estratégicos e enfiar o nariz onde certamente ele não foi chamado, disse para mim que seria com ela que ele perderia a virgindade. A grande vantagem do puteiro canino eu percebi neste momento do meu sonho: não há necessidade de quartos. Os enamorados resolvem suas questões de foro íntimo ali mesmo, na frente de todo mundo. Antes, porém, tentei convencê-lo a pôr a camisinha. Você já tentou convencer um bull terrier a por camisinha na hora em que ele está prestes a consumar um ato sexual? Não queira. Ainda bem que aquilo era um sonho. Eu sentiria muita falta da minha mão na vida real. MUNDO CÃO Num desdobramento do negócio, logo poderiam surgir as primeiras casas de massagens para cães, com banho, tosa e cruza. Daí para surgirem os primeiros anúncios classificados em jornal seria um pulo. Cães solitários ou a perigo poderiam encontrar acompanhantes para saciar suas necessidades fisiológicas. “Cadelinha safada. Discrição total, completíssima, com acessórios, atende em canil, pet shop, hotelzinho ou na rua mesmo.” e por aí vai. Enquanto não levo adiante este estupendo projeto, o Max continua a perigo e não existe uma perspectiva próxima de que ele irá tirar o atraso tão cedo. Portanto, se você conhecer alguma fêmea bull terrier bonita, sincera, de bom nível social, que queira travar conhecimento para realizar fantasias ou iniciar compromisso sério mande um e-mail para max@operabufa.com.br. O Max, subindo pelas paredes, agradece. Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas. Leia seu site e o blog da mãe. - Perfeição
De Leo Jaime. Há no amor que se descobre um encantamento. Cruzaram os olhos e já se amavam. Dois mais dois já eram quatro antes da invenção da aritmética, e os dois já se amavam muito antes de se encontrarem e perceberem isso. Juízo sintético a priori, sejamos gratos ao Kant, é o que nos explica o amor à primeira vista. Este é o encanto: perceber naquela pessoa, um universo inexplorado, a própria casa. O amor só é amor se for uma forma doce de loucura, se for irracional e incondicional, se for eterno. Fala-se, atualmente, muito em relacionamento e pouco em amor. Já não há quem se mate por amor. Sim, ninguém jamais matou por amor. Mata-se por ódio e ignorância, e ódio é uma forma doente de amor mas não é nem o oposto de amor; este seria o desamor. Por amor não é possível matar, mas morrer. Morria-se de tristeza, de dor, da falta do amor, da impossibilidade do amor, da perda do amor. Morria-se de amor porque não se pode viver sem ele, uma vez que seu corpo e alma estão preenchidos e dominados pelo sentimento. Hoje o assunto é relacionamento. É mais importante ter um relacionamento que um amor. O amor, evidente, em uma de suas formas, pode prescindir do relacionamento. Platão deu conta disso. O amor altruísta que torce e ajuda a felicidade do outro sem nunca se impor, sem nunca se oferecer, sem nada esperar. Acontece. Há o amor pelas coisas, pelos bichos, pelas emoções, mas nada supera o amor que há entre um homem e uma mulher. Ou entre casais de qualquer tipo, posso vislumbrar, uma vez que o desejo é acessório ao amor. A diferença é simples, o amor é inexplicável e não se planta onde se quer, ele nasce e existe alheio aos nossos planos. O relacionamento é fruto do resultado de nossas experiências, em destaque a última: se tivemos alguém que era temperamental fazemos questão de alguém que seja calmo, por creditarmos o fim do relacionamento ao gênio desmedido. Isso é apenas um exemplo entre milhões possíveis. O relacionamento é uma forma e não um conteúdo, é um conjunto de regras e de negociações que podem ser positivas ou não. O relacionamento existe quando existe o amor, mas as regras, neste caso, são resolvidas com ética, ou seja, cada um sabe como deve se portar tendo como parâmetro o belo, o ideal, a longevidade e grandeza do amor que o motiva. Relacionamento é a estrutura social.Por isso muitos relacionamentos começam e às vezes acabam sem que o amor lhes faça visita. Estar com alguém é aprender algo sobre o amor, mesmo quando não seja amor. É educação sentimental. É quando a pessoa ensaia, se prepara para o que pode vir. É triste admitir, mas podemos passar uma vida sem que a flecha do cupido nos acerte. É bem recomendável que estejamos no nosso caminho, fazendo o que nos dá prazer, cumprindo nossas missões diárias, e não procurando por ele feito doido nas baladas noturnas, no baile dos desesperados. A flecha o acha se você estiver na sua. Mas pode não achar. Ainda assim valerá ter se preparado para ele como quem se arruma para uma festa. Muito melhor do que passar a vida sem nem sonhar com o amor. Mas, voltando ao início, há no amor um encantamento. E o relacionamento é sempre o culpado quando esse encantamento se quebra. A dificuldade em se permitir falível ou aceitar as falhas e limitações do outro acabam por nublar tudo com a perspectiva da decepção ou com as vozes ganhando volume por motivos fúteis. Sim, há diferenças. E dar um voto especial, amoroso e indefeso de confiança quando o outro está aparentemente errado é fundamental. Mas não é assim que lidamos em relacionamentos comuns! No amor, se há um embate os dois perdem. Não importa quem está certo ou errado. No entanto, se os dois percebem um problema, não importa quem o tenha trazido, e os dois com cumplicidade o superam, a união e a força se apresentam e isso é fruto e resultado do amor. Vencer é muito mais difícil que perder. Cansa mais e dá mais trabalho. Ser feliz é muito mais cansativo do que ser triste! E é esquisito, uma vez que relacionamentos difíceis e infelicidade moderada são a condição, o estado basal de quem não tem um verdadeiro amor. O amor não exige que você seja perfeito. Apenas que você dê o seu melhor.Essa é a forma, diária, de alimentar o encantamento. É só aproveitar bem o dia. A chance. Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras. - Cruzado de direita
De Edson Aran. Ridley Scott fez alguns filmes interessantes e depois desandou. Isso é comum em Hollywood. Aconteceu com Robert Zemeckis e James Cameron. Scott está se especializando em épicos históricos que possam ser compreensíveis para os nativos do Arkansas. Cruzada (Kingdom of Heaven) segue a formulinha história falseada-herói idealista-vilões arrogantes. Deu certo em Gladiador. O fator complicador aqui é que o herói enfrenta o Islã. Para evitar nova chuva de aviões, convém pegar leve. Sou meio fanático pelo tema cruzadas e em verdade vos digo: os fatos são melhores do que a xaropada do Scott. Olha só. A história se passa em 1189, ano da queda do reino cristão de Jerusalém. Balian de Ibelin, herói da trama, existiu de verdade. Ele não era o filho bastardo de um nobre, mas um descendente dos barões franceses que migraram para a Terra Santa em 1095, data da primeira cruzada. Não era viúvo porcaria nenhuma, mas casado com Maria Commena, mãe da rainha Sibylla de Jerusalém. Os livros garantem que a coroa dava um bom caldo. O irmão dele, Baldwin, foi quem teve um caso com Sibylla e, ao levar um pé na bunda, deixou as propriedades nas mãos de Balian e foi para Antióquia, um principado cristão. Guy de Lusignan foi importado da França para casar com Sibylla, depois da morte do primeiro marido dela. Ele só virou rei quando o filho da rainha, Balduíno V, morreu aos sete anos. O rei infante, sucessor do rei leproso do filme, era tutelado por Raymond de Trípoli (Tiberias, vivido por Jeremy Irons, é o personagem mais próximo desta figura histórica). O poder, de fato, estava na mãos dele. Coroada, Sibylla entrou numas e transformou Guy em rei. A escolha do soberano de Jerusalém, caso não houvesse herdeiros, era atribuição do Papa, do Imperador de Bizâncio, e dos reis da França e Inglaterra, mas a rainha era marrenta que só ela. A maioria dos barões locais se opôs à coroação, mas preferiu aceitá-la a mergulhar o reino numa guerra civil. Guy não era o porralôca inconsequente mostrado no filme, mas apenas um líder incompetente e incapaz. E sem apoio, claro. O único a dar uma força a ele foi mesmo Reynald de Chântillon, mostrado no filme como um bufão psicótico. Não era bem isso. Reynald era o viúvo da princesa de Antióquia. Sua filha, Agnes, era a rainha da Hungria. Sua enteada, Maria, era a imperatriz de Bizâncio. O exército que botou as tropas de Saladino pra correr em 1117 e que, segundo o filme, teria sido comandado pelo Rei Leproso e pelo pai de Balian de Ibelin, foi, na verdade, liderado por Reynald de Chântillon. Mas o cara, embora fosse guerreiro de primeira, era mesmo um mau caráter. Pilhava constantemente as caravanas para Meca e afrontava todos os acordos de paz. Tinha boas relações com os Templários e Hospitalários, as duas ordens militares que, por razões ideológicas e comerciais, também defendiam a guerra total na região. Balian de Ibelin não foi o “cavaleiro perfeito” mostrado no filme. Depois que o exército franco foi dizimado na batalha de Hattin, ele resolveu negociar com Saladino um salvo-conduto para sua família até Tiro. Quando chegou à cidade, descobriu que a impetuosa rainha Sibylla e o bispo da cidade haviam resolvido resistir. Impedido de cair fora, Balian obrigou ambos a nomeá-lo “Senhor de Jerusalém”. Depois mandou negociadores até Saladino e, sem ninguém entender porquê, começou a cunhar moedas de ouro. Treze dias depois, ele enviou o resgate até o sultão: 10 dinares por homem, 5 por mulher, 1 por criança e 300 mil dinares por todos os servos. Saladino, um bom comerciante árabe, permitiu que todos os pagantes abandonassem a cidade. Balian foi tão prestativo que o sultão o cobriu de jóias. O heróico defensor de Jerusalém chegou à ilha de Chipre montado no dinheiro. Guy de Lusignan continuou com o título de rei de Jerusalém, embora exilado em Antióquia. Tentou retomar a cidade três anos depois com a ajuda do rei inglês Ricardo Coração de Leão e do alemão Frederico Barba-Ruiva. Não deu. A rainha Sibylla morreu exilada em Chipre quatro anos depois. Ridley Scott vive até hoje, embora seu talento tenha morrido há muitos e muitos anos. Edson Aran é cronista do Blônicas e professor de história nas poucas horas vagas. - Eu não usava óculos
Rosana Hermann. Olhos de lince. Visão vinte por vinte. Esses eram os mais belos chavões que descreviam minha capacidade de enxergar. O mundo era lindo. O mundo era totalmente visível. Eu era capaz de distinguir uma formiga macho de uma fêmea usando a técnica Disney: pelos cílios. Fazia pequenos shows no trabalho, na escola, na família, encontrando brincos perdidos no carpete. Era eu que trocava os pequenos parafusos das pernas de óculos de sol que insistem em veranear em outras paragens. Eu era jovem e via tudo. Até que fui para Portugal e perdi a visão. Não é culpa de Portugal mas acho que cai dentro de uma piada estúpida, só isso. No último dia de viagem, com quatro horas para queimar até o horário de ir para o aeroporto, fomos a um shopping center. Um imenso cartaz oferecia medição da acuidade visual e óculos em uma hora. Me pareceu perfeito para passar o tempo. Fui fazer o exame. Por causa da barreira da língua devo ter confundido as palavras a serem lidas ou talvez, tenha me expressado mal no nosso português brasileiro. Só sei que depois de uma hora e meia, escolhi uma belíssima armação e vesti meus óculos. Lindos. Tirei-os. Eu não enxergava mais. Desde então, vivo aquela vida do tira e põe, põe e tira, entremeado de conselhos de amigos para fazer cirurgia, usar lente, aumentar a fonte. O medo de perder os óculos que nos leva a ter duas cópias e mais três óculos descartáveis em todas as gavetas. Há dias e momentos em que nem com óculos eu consigo ver. A menos que minha paranóia esteja se concretizando e ‘ele’s venham mesmo me pegar, antes disso passaram pela minha casa e fecharam todos os buracos das agulhas de costura, razão pela qual meu marido esperou dois meses pra que eu pregasse um botão em seu pijama. Todas as manhãs, para ler o jornal, tenho que me distanciar tanto das notícias em busca da luminosidade da janela que estou praticamente tomando café com o porteiro do prédio. O nome dele é Flávio e ele é muito gente fina. Ontem à noite, exausta, quando meus olhos estressados já não distinguem o shoyo do figo, por razões que não cabem numa crônica, tive que tirar quatro pontos cirúrgicos da pálpebra do meu filho. Além da tesourinha sem ponta, da pinça sem garra, tive que usar uma lente de aumento e faltou mão pra tirar a sutura. Foi um sacrifício. Quando eu via não pinçava, quando eu pinçava não via. Decidi comprar uma daquelas lupas de ouvires, instaladas no crânio e que pendem diante dos olhos. E fazer um curso de cirurgia à distância. A solução? Adaptação. Não enxergo mais o menu, portanto, peço fetuccini al sugo ou salada Caesar e pronto. Não leio as bulas, portanto, parei de tomar remédio. Não sei o que tem dentro dos cosméticos e mal consigo maquiar os olhos, portanto, só passo batom. Passo fio dental em Braille. Digito olhando pro infinito. O lado bom? Enxergo tudo de longe. É só manter a distância, de tudo e de todos. Vai ser melhor. De longe, todo mundo parece normal. Rosana Hermann escreve no Blônicas de quarta, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem. - O mal do século
De Nelson Botter Junior. A superficialidade dos relacionamentos modernos é de apavorar qualquer poeta. O mais engraçado é que as pessoas nem se espantam com certos fatos, como a separação relâmpago daquele casal galáctico do castelo de chantilly. Virou rotina, casamento já é visto como uma bomba-relógio, ou seja, uma hora vai explodir. Oras, mas isso não é nada comparado a ser demitido por fax e e-mail, como anda acontecendo por aí... Amizades virtuais são a última moda. Aliás, estão querendo fazer do mundo virtual uma dimensão paralela, coisa no melhor estilo "Além da Imaginação". Besteira, é preciso ter consciência que a Internet faz parte do mundo real e que tudo que é feito lá tem conseqüências em nossas vidas, que - até onde me lembro - é muito real e nada virtual. What is the matrix? Outro dia um amigo estava triste porque terminou um namoro virtual. O que era isso? Ele disse que namorava com uma menina pela Internet. Detalhe: nunca se viram pessoalmente. Hein??? É, para esse tipo de coisa você precisa ser bom no manejo do mouse com a mão esquerda. Cuidado para não respingar na tela! Tem mais, o tal mundo virtual é o melhor lugar para se roubar ou clonar identidades. Qualquer um pode produzir ovelhas Dolly. Muita gente acha que a Internet é uma máscara, onde podemos ser quem quisermos, do jeito que bem acharmos, desrespeitando as pessoas a torto e direito, sem correr o risco de sermos descobertos. Basta ver o Orkut, em que "celebridades" aparecem distribuindo sorrisos e mensagens aos "meros mortais". Muitos desses artistas nem sabem o que é Orkut. Quem está lá, usando o nome e a imagem deles é algum "mero mortal" recalcado. Com os e-mails Yahoo ou Hotmail da vida, qualquer um pode ser o Silvio Santos. Perigoso. Ah, mas é só uma brincadeirinha! Sei, isso o camarada diz enquanto não é a identidade dele que está sendo roubada. Insisto: o mundo da comunicação em rede não é virtual. É preciso respeito. Ah, talvez seja isso que esteja faltando para que os relacionamentos de um modo geral não sejam tão superficialmente high-techs: respeitar ao outro como você quer ser respeitado. Quem sabe assim os casamentos serão melhores e mais duradouros, as amizades serão verdadeiras e não emailzeiras, os namoros serão todos olho no olho e não olho na tela, e daí por diante. Mas falta tempo! Estamos sempre correndo! Essa é a melhor desculpa do mundo moderno: "estou na correria, cara". Oras, gerenciamento de tempo não é nenhuma mágica, nenhum poder exclusivo dos Jedis... Organize-se, as coisas melhoram, aos poucos, mas melhoram. Precisamos ser sinestésicos, procurar o contato com os outros, mostrar importância. Torço piamente para que isso tudo aconteça, inclusive porque aí poderei falar de outros assuntos mais agradáveis, que não incomodem a quem escreve e a quem lê. O poeta contemporâneo não morre mais de tuberculose, mas sim de desgosto. Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras. - A arte de espremer cravos e espinhas
De Xico Sá. Aqui nos pegamos, numa sessão de nostalgia com testosterona, para lembrar os tempos em que as mulheres espremiam nossas espinhas e tiravam todos os cravos do nariz e arredores _inclusive aqueles na ponta da napa, motivo suficiente para gritaria e espirros tantos da nossa parte. Reclamávamos nesse momento, éramos chamados de frouxos. Inevitáveis comparações com a dor do parto e outras dores femininas ecoavam no ar nessa hora solene. E quando elas escolhiam justo a hora do futebol, o ataque do time deo coração... Como não acreditamos nos milagrosos creminhos usados pelos metrossexuais _esse novo tipo de homem moderno gerado da costela de David Beckhan_ preferimos incentivar o resgate da prática feminina de tirar cravos e espinhas, essa bela e útil mania praticamente extinta nos dias que correm. Não tem a menor graça, nesse mundo tão imbecilmente profissionalizado, a limpeza de pele dos salões de beleza. Seu rosto ali entregue a amistosas funcionárias sem nenhuma intimidade, mulheres que nunca ouviram os nossos roncos de noite na cama. É o tipo de serviço que exige histórico de intimidades. Tal arte carece de pelo menos um mês de namoro ou acasalamento. Não é tarefa para qualquer uma. É tão delicado quanto tirar a roupa pela primeira vez na frente de outrem - e, pensando bem, uma reveladora prova de devoção. Xico Sá é cronista do Blônicas todas as segundas-feiras. - A vaidade é a pele da alma
De Milly Lacombe. Judith acordou mais cedo do que o normal. Estranho, ela nunca abria os olhos antes do despertador tocar. Gastou alguns minutos olhando o teto sem pensar em nada e só então, preguiçosamente, jogou os pés para fora da cama e, muito devagar, foi ficando de pé. Esticou os braços para cima, o cabelo para trás com as mãos e foi se arrastando até o banheiro. Sentou na privada e ali ficou por mais tempo do que o necessário, pensando no dia que teria pela frente. Corajosamente, jogou o peso do corpo nas pernas e, apoiando na parte de trás do vaso, pela segunda vez no dia, ficou de pé, agora para escovar os dentes. No vai e vem da escova, fitou-se no espelho. Os anos não haviam passado de graça. Ao virar o rosto de um lado para o outro notou a pele do pescoço mais solta, mais enrugada, mais cheia de marcas. Os olhos também entregavam: menores, mais fundos, vermelhos, cheios de vincos por todos os lado. A barriga, que o espelho gentilmente não alcançava, impedia que ela visse a vagina e a parte superior da coxa. Isso, encolhida. Soltando um pouco, lá se iam canela e dedos do pé. Precisou de um pouco mais de coragem para voltar ao quarto e escolher a roupa do dia. Abriu a porta do armário e sentou na cama para contemplar as opções. Nessa hora, o despertador finalmente tocou. Judith esticou o braço e desligou-o. Não havia o que vestir. Quem, aliás, havia comprado aquelas roupas? Não pareciam ser dela, não eram a cara dela e a maioria não era sequer do tamanho dela. Cansada, deixou que o corpo caísse para trás. Para que sair de casa? Onde iria? Visitar a neta recém nascida? O túmulo do marido recém falecido? O filho recém separado? Quase meia hora depois, Judith, pela terceira vez no dia, ficou de pé. Tirou do armário o vestido de sempre e calçou o sapato da véspera. Na cozinha, ligou a cafeteira e, sentada na cadeira, olhou a rua completamente vazia do lado de fora da janela. Ficou assim por alguns minutos até lembrar de pegar o jornal lá fora. Coisa que ela não fez por pura preguiça. Encheu uma xícara de café e tomou seu conteúdo lenta e melancólicamente. Nada, absolutamente nada, a prendia àquela circunstância, àquele lugar, àquela casa. E mesmo assim ela parecia estar para sempre amarrada àquele estado de espírito débil. A cozinha havia sido, um dia, o local mais visitado do lar. Crianças correndo, o marido lendo o jornal, o telefone, que nunca mais tocou, repicando freneticamente. Mas tudo isso fazia parte de um passado distante, era um filme de personagens que se foram, uma vida que parecia não ter sido a dela. Um passarinho apareceu na janela, olhou Judith com ternura, bateu asas a voou. Pela primeira vez no dia, na semana, talvez no mês, Judith, invadida por um pensamento inusitado, sorriu. Por que não? O que a impedia? Pela quarta vez no dia, ficou de pé. Esticou o vestido, abriu a janela e, olhando para baixo, viu a liberdade. Apoiando-se na pia da cozinha, fez um esforço tremendo para conseguir sentar no balcão que dava para a janela. Valeu a pena: ficou ali sentada, apreciando o céu, a rua ainda deserta, o horizonte de pedra. Tudo ficara mais bonito agora. Sorrindo, respirou fundo e, dando um passo para fora, pela última vez no dia, ficou de pé. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - O obrador
De Castelo.
(homenagem aos 80 anos de Rubem Fonseca) Na placa do restaurante um pato segurando uma laranja, no rodapé está escrito "Le Canard à L'Ananas". Lá dentro, pessoas que sabem usar os talheres jantam em silêncio. Olho os pratos. Mais parecem quadros de uma exposição de tão coloridos. Entro. A mesa fica bem no meio do salão. Peço uma sugestão de entrada, prato principal, sobremesa, vinho. Eu entendo disso, já vi milhões de vezes os granfas em jantares na televisão. A bichona do garçom recita o menu fazendo biquinho. Não entendo patavina. Pergunto se a coisa é da boa Ele se arrepia todo pra responder que tudo ali é "soberbo". Engulo a comida, muito rápido, lambendo os beiços e mamando a garrafa de vinho da Alsácia. Depois, dou um arroto e peço um palito. Vem o maître, com uma cara enojada, me apresentando a conta numa bandeja prateada. Conta o caralho, digo. O restaurante inteiro vira o pescoço na minha direção. No ato, um segurança entra na casa. Resolvo puxar a Magnum e botar na goela do safardana de cabelo gomalina à minha direita. Bem quietinhos, seus playboys embucetados, ameaço. Vou então abaixando as calças, com a classe que o lugar merece. E, me apertando um pouco, dou um cagalhão federal no piso de mármore. Daqueles que tolete faz trancinha. Limpo a bunda com um guardanapo de linho e saio andando calmamente pelos Jardins. Estão me devendo arroz, feijão, filé à Camões, coxa creme, pão com mortadela, arroz biro-biro, picanha de búfala, suco de laranja com acerola, bomba de chocolate, quindim. Não tenho de quem cobrar, então vou obrar. Churrascaria "Bombacha dos Pampas". Elegância e esmero no espeto corrido. Vejo o letreiro de dentro do ônibus e resolvo fazer o almoço de domingo lá. Sento perto do bufê de saladas colocando o disquinho verde em destaque na mesa. Começa o festival. Aceita lingüiça calabresa apimentada, vai o cupinzinho, javali, senhor? Mando para dentro tudo o que me oferecem. Até arroz branco. Para fechar, meia garrafa de Amarula do carrinho de bebidas. Num salto, me instalo em cima do bufê com a Magnum engatilhada. Ouve-se um "ohhhh" e um eco do "ohhhh" ainda mais alto. Eu sou o Obrador!, berro. Há um princípio de pânico no ambiente. Pum, pum, pum. Cago em cima da salada de almeirão com bacon. Sou justo. Ainda me devem muito purê de mandioquinha, churros, bife à parmegiana, feijoada, frango com creme de milho, ambrosia, goiabada com queijo, café com chantilly. Enquanto não acertam o meu lado, continuo cagando e andando. No telejornal falam que o atentado ao pudor no restaurante francês foi obra do marginal Bunda Larga. Povo doido. Em seguida, uma propaganda mostra a XXI Feira de Gastronomia, recém-inaugurada no Anhembi. Carnes, aves, peixes e vegetais dos mais finos preparados pelos maiores "chefs" do mundo. Tudo regado ao melhor da produção vinífera da Europa e América. Uma festa dessas é perfeita para mostrar a esse povo doido do que é capaz o Obrador. Coloco a Magnum, o Colt Cobra, as granadas e o vidro de Agarol dentro da mochila. Um sentimento de dever cumprido somado a um leve arrepio na nuca me invadem. Um longo comichão percorre minha barriga. Agora vejo claramente: vai dar merda. Castelo é cronista do Blônicas aos sábados. - Rebelde com asas
De Henrique Szklo - O que é isto? Henrique Szklo estará no dia 15, domingo, na Feira Cultural da Pompéia para um bate-papo com leitores, às 17 horas, na Rua Maringá em Perdizes, São Paulo. - As velocidades
De Leo Jaime. Sigo com meu carro pelas ruas negociando. Alguns querem ir na velocidade estipulada, no fluxo, fazendo parte, enquanto outros querem impor seu ritmo. Há aqueles que querem sempre ir mais devagar do que o necessário, do que o indicado, do que o razoável. Esses, uma vez que se auto-intitulam prudentes, vão atrapalhando todo mundo, bem no meio das ruas, sempre querendo frear antes de um sinal verde, que de acordo com sua habilidade em mover-se em câmera lenta, pode acabar ficando amarelo, o que já é um bom motivo para parar. Ou para dar aquela aceleradinha e ser o último, deixando todo mundo parado no sinal vermelho. Todo mundo, quero dizer, são aqueles que vinham impacientes tentando fazer com que o 'prudente' parasse de atravancar. É impressionante como grande parte dos engarrafamentos em São Paulo são causados por motoristas assim, que insistem em ralentar ao máximo o trânsito e desfilar pelas ruas como se fosse um Dragão da Independência, de queixo erguido e ar severo. Esses são os medrosos. Outra turma que incomoda é a dos agoniados. Aqueles que acham que devem fazer uma ultrapassagem pela direita, aproveitando um pedaço da calçada, só pra ficar meio carro à sua frente na hora em que abrir o sinal. Ele está sempre em zigue-zague e achando que todo mundo tem que adivinhar. O trânsito é uma corrida e ele está tentando tirar um segundo por volta. Esse adora buzinar para aqueles que estão na velocidade máxima permitida ou no fluxo, como se abrindo passagem para ele tudo fosse evaporar daí em diante, todos os carros, todos os sinais, todos os obstáculos. Isso mesmo: é só ele buzinar que o mundo abre alas. E quem está imediatamente na frente do agoniado é seu obstáculo ante o sonho. Ele quer chegar 5 minutos antes de todo mundo. Vai sofrer e fazer sofrer por conta disso. E aproveitará esses 5 minutos sentado no sofá zapeando a tv. Tudo bem que um ou outro pode ter uma razão razoável para a pressa mas o agoniado está sempre com pressa. Sinais vermelhos são tão verdes quanto os verdes e vice-versa. Todos os sinais para ele, assim como os gatos noturnos, são pardos. Quando bebe fica um pouco mais agoniado. A felicidade não chega e ele acha que precisa provar alguma coisa a alguém. Só não sabe o quê e para quem.Esse é o imortal. Prudentes e imortais desperdiçam suas vidas atrapalhando a minha. E no entanto consigo desvencilhar meu pensamento deles, ainda que o tempo no trânsito seja grande e haja aquele cansaço com gosto de tempo perdido. Aproveito o tempo para pensar em outras velocidades. Quanto tempo para um luto? Quanto tempo para se refazer de um relacionamento findo? Quanto tempo para que se faça o laço da amizade, do dia em que se conhece o amigo até o dia em que se constata a amizade? Qual o ritmo ideal do amor? É uma dança e os passos podem variar com os ritmos. A questão é: estão os dois no mesmo andamento? Estão os corações batendo no mesmo ritmo? A velocidade dos sentimentos é igual ou equivalente? Se não for a ameaça é grande? E a vida? Em que velocidade vai? Quando era criança achava que um ano demorava mais ou menos uns dez anos de hoje. O tempo foge como cavalos selvagens descendo a colina. Os dias fogem. E como controlar essa velocidade? Há os aniversários! E eles vão ganhando velocidade ano após ano. O que pode remediar isso? Fazer menos coisas e essas fazer com mais cuidado? A vida e suas decisões mais importantes podem depender de um átimo, de um lampejo, de uma faísca, de um instante mágico que acontece ou não. A velocidade como as coisas mudam, mesmo depois de muito tempo estagnadas, é impressionante. E fica a dúvida: sabemos lidar com as velocidades? Com que velocidade podemos resolver as dúvidas mais bobas ou as mais sérias angústias? Será verdade que podemos resolver as coisas mais difíceis em um piscar de olhos? Claro que sabemos que problemas muito simples podem cruzar nossa vida vagarosamente, empoeirando tudo. Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras. - O bem do mal e o mal do bem
De Rosana Hermann. Eu não reconheceria o Darth Vader se o visse à paisana, mas certamente sentiria a emanação do seu mal nas entranhas. A vibração do mal pega no basal, dá dor de barriga, pontada no estômago, nó nas tripas. Desarranja a configuração digestiva. Já o bem, não. O bem sempre esteve relacionado com o norte do equador da cintura. O bem romântico é o amor, o coração, a alma, a cabeça, o olhar e o sorriso, a respiração. (Isso, em tese rococó, porque na real, amor do bem que contém também o bom do mal, vai do cabelo em pé até o pé do dedão, tudo com muita paixão.) O problema não é o bem do mal, que bem administrado, rende bons aprendizados. O ruim é o mal do bem. O mal do bem é a nossa mania socialmente aceita e considerada politicamente correta de dar força e atenção pra tudo que é ruim. Ninguém se interessa em saber se ontem um empresário em Taipei doou dez mil dólares para uma ong, mas basta descarrilar meio vagão de trem em Dudinka pra dar na CNN. E não é pela surpresa de saber que Dudinka não é apenas um ponto no mapa do jogo de War, é porque desgraça internacional tem sempre lugar garantido no jornalismo. É velho dizer que notícia boa não vende e que por isso a mídia se concentra em notícias ruins, mas como a mídia é feita por humanos podemos concluir que problema está em todos nós. Problema, sim, porque nossa sede de sangue, a vontade atávica de conhecer a morte mais de perto, já fez muita gente diminuir a velocidade na estrada pra ver o acidente e causar novos acidentes. Da mesma forma a ofensa nos mobiliza muito mais do que a aprovação. Ninguém muda de caminho por causa de um elogio sincero mas as pessoas são capazes de inverter a rota do domicílio por uma contrariedade. Sendo bem maniqueísta e simplista, a força do mal está na nossa incapacidade de absorvê-lo. Não comemos o mal, não fagocitamos a contrariedade, não levamos o desaforo pra casa. Ao refletirmos o mal, como espelhos, estamos retroalimentando o monstro. O monstro, simbolicamente falando, nutre-se do nosso medo do mal. O melhor seria engolir o sapo, aprender a digeri-lo, desenvolver novas enzimas para destruir seu eventual veneno, criar anticorpos para o próximo batráquio. Comer o mal, expelir o mal do mal e absorver o que de bom ele nos ensina. Claro, tudo isso no plano do simbólico, a menos que alguém queira comer o Darth Vader no sentido lato. Não tenho intimidade com o personagem, mas pelo que vi no cinema, Darth Vader, é espada! Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. - Tamanho é documento
De Nelson Botter Junior. Brasileiro não lê porque tem preguiça. Não adianta dizer que o problema está na educação, pois a coisa é pior do que se imagina. Mesmo pessoas com ótima instrução, cientes da importância da leitura, ao se depararem com um texto longo acabam se desinteressando e desistindo. E olha que, segundo o governo Lula, brasileiro não desiste nunca! Pois bem, nós perdemos a vontade de ler por pura preguiça. E não sou eu quem está dizendo, basta perguntar a qualquer publicitário. Todos dirão que os anúncios devem ter o mínimo possível de texto, pois brasileiro não gosta de ler, sente preguiça. Outra prova? Conta-se nos dedos as pessoas que gostam de pegar um livro grosso pra ler. Todo mundo prefere livros de até 120 páginas, assim acabam rápido. Ler é uma tortura, ainda mais num mundo como o de hoje, cheio de tecnologia, de ação e dinamismo. O mundo moderno é muito mais áudio-visual, tudo pode ser resumido em imagens e sons. Eu não me excluo dessa, confesso que muitas vezes sinto preguiça de ler e, às vezes, levo semanas para ler livros pequenos, por melhor que seja a história. Muita gente pode não concordar, principalmente aqueles que devoram dois ou três livros por semana. Mas saibam que vocês fazem parte de uma minoria tão inexpressiva que é de desanimar qualquer editor. Qual a solução? Estimular a leitura é importantíssimo, mas como combater essa preguiça que está no inconsciente coletivo tupiniquim? Não sei e tenho raiva de quem sabe, pois não conta pra ninguém. Certas coisas simplesmente são assim e acabou. É como o fumante que sabe que o cigarro lhe faz mal, promete a si mesmo diversas vezes durante a vida que vai parar um dia, mas nunca pára e até no caixão pede uma última tragada. Claro, a preguiça não é apenas do brasileiro, é mais globalizada, mais humana, mas aqui se manifesta em excesso. Talvez seja o clima... Entretanto, a preguiça pela leitura é um grande desafio para os escritores modernos, que precisam condensar suas palavras sem perder a qualidade na comunicação escrita. Eis aí o grande truque para os novos escritores: desenvolver mensagens curtas e tocantes, assim como já fazem os publicitários há mais de 30 anos. Fim da literatura? Não, vejo mais como um novo movimento, um novo estilo, que não precisa ser necessariamente inferior, apenas mais adaptado aos tempos modernos. Agora chega, pois se o texto ficar muito grande ninguém vai ler... Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras. - Batendo mó bolão
De Xico Sá. Recentes pesquisas revelaram um dado que sempre pareceu bastante óbvio, mas precisava da aura científica para se eternizar: a quantidade de testosterona produzida por um homem fanático aumenta quando o seu time do coração é vitorioso, mesmo que seja contra o Itapipoca F.C., com todo respeito ao esquadrão da cidade cearense homônima. Ora, sendo a testosterona um hormônio ligado diretamente aos estímulos sexuais, é claro que um homem de bem com o seu time será um animal pelo menos 27,6% mais "animado" nos trapézios e bambuais do Kama-Sutra. O percentual acima representa a quantidade do hormônio produzida a mais no corpo de um homem nos dias de vitórias do seu clube. A pesquisa foi feita pela Universidade da Geórgia (EUA). As mulheres devem tirar proveito desta pesquisa e aprender com os seus parceiros tudo que sempre quiseram saber sobre tiros de meta, meia ofensivos, escanteios e, queira Deus, até mesmo os mistérios da lei do impedimento _uma das coisas mais enigmáticas para as mulheres normais. Mais um dado interessante da pesquisa, aterrorizante para quem torce por times tipo "B", é o seguinte: nas seguidas derrotas, o "homo-fanaticus" perde um tanto da sua capacidade de produzir hormônios (os mesmos 27,6%) e apresenta-se inapetente para o amor ou o sexo propriamente dito. Agora, as mulheres, que jamais compreenderam o banzo sartreano dos machos derrotados no futebol, podem entender aqueles domingões tristes e monossilábicos, como o de ontem para os corinthianos, por exemplo. O pior é que não adianta nada pedir para um sujeito mudar de time e tornar-se mais vencedor. Mesmo com a promessa de 27,6% de testosterona-plus, é mais fácil um homem-que-é-homem mudar de sexo do que de clube. Xico Sá é cronista do Blônicas todas as segundas-feiras. - O dia em que vi minha mãe nascer
De Milly Lacombe. Quando minha mãe nasceu eu tinha quase 10 anos. Lembro do dia como se fosse hoje. Era uma quarta-feira à noite. Mais precisamente, 14 de outubro de 77. Minha mãe nasceu em São Paulo, no bairro do Morumbi. Não, minto. Minha mãe nasceu na rampa de acesso às numeradas, bem ali na minha frente. E se os registros dão conta de que ela veio ao mundo em Terracina, uma pequena cidade perto de Roma, no início dos anos 40, eu pergunto: quem dá bola para os fatos? Para mim, ela nasceu no dia 14 de outubro de 77, minutos antes do jogo Corinthians e Ponte Preta, a histórica final que tirou o Timão da fila de 24 anos, e é isso que conta. O curioso é que não éramos, naquela época, corintianas. Muito pelo contrário. Até o momento em que subíamos de mãos dadas a rampa do estádio eu via apenas duas coisas no mundo: meu pai e o Fluminense. Eram as únicas paixões de minha vida. Minha mãe, naturalmente, fazia parte da fita. Mas ela só entrava no filme quando eu ficava com febre, dor de barriga, de dente, ou com fome, ou com frio. Enfim, ela cuidava para que eu continuasse viva. A parte da diversão, ah, essa era garantida pelo velho. Mas no dia 14 de outubro de 77 meu pai arregou. Mesmo sob meus desesperados apêlos para que fôssemos ao Morumbi ver a grande final (não havia planos de televisionamento e eu não poderia perder aquele jogo por nada) ele não se mexia do sofá. Dizia que era perigoso, que não era um jogo do Flu, que estaria lotado, que não tínhamos ingressos, que enfrentaríamos engarrafamentos colossais etc e tal. Faltava uma hora para o início do jogo e eu ainda estava em casa, agora emburradíssima. Foi quando ela saiu do papel de coadjuvante para virar protagonista. Minha mãe nunca gostou ou entendeu de futebol, muito menos apreciava minha obsessão pelo jogo, mas deixou tudo isso de lado para me pegar pelo braço e, ignorando solenemente os ruidosos protestos de meu pai, depencar comigo rumo ao Morumbi. Lá, negociou duramente com o cambista e, ingressos na mão, me conduziu rampa acima. Firme, determinada, soberana, ia jogando para o lado quem quer que tentasse passar na nossa frente. E eu, pequenina, de boca aberta, me perguntava: Quem é essa mulher? Nem sei se naquela noite assisti à partida ou ao nascimento de minha mãe. Sei que, ao voltarmos para casa, tudo seria diferente: eu tinha visto minha mãe nascer. Hoje, 28 anos depois, ela, um pouco mais encurvada e grisalha, ainda faz das suas. Volta e meia, quando Paulo, o neto mais velho (desgraçadamente são-paulino), não tem com quem ir ao Morumbi e ameaça fazer bico, lá vai a matriarca, ainda sem entender patavinas de futebol, mãos dadas ao descendente, se meter no meio da arquibancada do estádio. Deve ser um sacrifício tremendo, mas ela desconversa, diz que gosta, que o que vale é ver a alegria de Paulo, que é um barato. E assim minha mãe vai passando por aqui, movida basicamente pelo amor que sente pelos seus. E amor mais forte e puro que amor de mãe talvez não haja. Mãe, taí um bichinho difícil de entender. Mas, sem elas, o que fazer? Apenas não nascer. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. - O suicídio de Etevaldo - Parte II
(continuação e conclusão da crônica de 30.04.05) De Castelo. O orkuticídio de Etevaldo chocou a todos. A primeira a notar o desaparecimento foi Karine, uma de suas colegas na Comunidade “Eu odeio odiar comunidades que odeiam alguma coisa”. Ela havia mandado um scrap há dias e não recebera retorno – Etevaldo era pontualíssimo nas respostas. Procurou então o amigo em sua lista. Nem o nome, nem a foto, estavam mais lá. Quando abriu o e-mail, viu a dramática mensagem de despedida do ex-orkutiano. Chorou. Fazia tempo que Etevaldo se dizia cansado de estar ali. Com o saco cheio de receber spams desconhecidos, convites virtuais para baladas bizarras e convocações de parentes distantes para encontros familiares em Poços de Caldas. Karine imediatamente disparou um e-mail para Mari Pequenina, grande amiga virtual do falecido. - Mazinha! Cê viu? O Etê se matou…(no fim da mensagem um emoticon chorando). Mari estava online e foi ligeira na resposta. - Naum é possível! Axo q vô me matá tb! (seqüência de emoticons de morceguinhos e nuvens negras relampejando). Graças ao Messenger, a notícia do passamento atingiu a maior parte dos friends de Etevaldo. Zé Orbital entrou na rede e mudou seu nick para “Etê, meu truta, cê vai ficar em nossos…(seqüência de emoticons com corações pulsantes). O desespero aumentou quando alguns foram matar as saudades lendo o blog do morto (“Eu quero ter um milhão de amigos – o blog”) e não localizaram mais a página no ar. O mesmo acontecia com o correio eletrônico do defunto. Toda e qualquer mensagem enviada voltava, na hora, ao remetente. Era horrível constatar: mas Etevaldo praticara um triplo suicídio. A consternação tomou conta do chat no MSN. Vane e Jim Jones lembravam a liderança de Etevaldo no Orkut, sempre propondo e administrando comunidades criativas. Cardá registrava, para regozijo geral, as melhores tiradas do amigo. Contudo, quem mais sofria com a decisão chocante de Etevaldo era Madu. A eterna amante virtual pranteava sem palavras - apenas através de emoticons lacrimejantes. Foi nesse instante, solene e triste, que um box apareceu nas telas dos participantes do chat: “ETEVALDO ACABA DE SE LOGAR”. O ícone de online surgiu ao lado do nick Etevaldo. E, todos leram, atônitos, um texto surgindo abaixo de suas telas de computador: “ETEVALDO ESTÁ ESCREVENDO UMA MENSAGEM”. A entrada do ressuscitado no ar caiu como uma bomba. - E aê? Tô de conta nova! Agora me xamo Messias!!!! Antes que alguém conseguisse escrever alguma coisa, Etevaldo disparou: - Já tô com 300 amigos evangélicos, me adicionem! Dessa vez vou bombar no Orkut!! Huahuahuahuahuahua!! Castelo é cronista do Blônicas todos os Sábadões. - Antitrust in god
De Henrique Szklo Nem as religiões escaparão da onda de fusões que assola o mundo A crise em que se encontra nosso insignificante planeta atinge um espectro tão amplo de atividades, que não vai ser surpresa nenhuma se, em algum momento próximo, as próprias religiões descobrirem que, para tentar reverter sua desabalada carreira em direção ao ostracismo, brecar a inevitável decadência, espantar esta nhaca desgraçada, exorcizar seu próprio apocalipse, a fusão será a melhor e mais eficiente solução. Imagine só: religiões que vêm ao longo dos anos seu séquito se minguando, seus fiéis abandonando suas hostes – até porque hoje em dia o consumidor não é fiel a nada nem a ninguém. Ah, eu chamei de consumidor? Você acha que este nome não é apropriado para quem segue uma religião? Bem, sinto informar que nenhuma palavra pode se encaixar melhor nesta situação do que CONSUMO. Seguindo uma religião, um culto, uma seita, ou o que quer que seja, o indivíduo não está nada mais nada menos que comprando sua paz, seu equilíbrio e sua sanidade, alguns estão mesmo tentando comprar um lugar no céu e outros apenas cambaleiam em busca de uma referência na vida. Enfim, aquela marca que oferecer produtos melhores sem onerar demais seus consumidores, terá uma fatia maior do mercado. E a concorrência hoje é tão grande, o número de crenças é tão elevado, que o céu não está mais dando conta. É aquela história: Deus é grande, mas não é dois. Ao contrário, sempre foi conhecido por ser Um. Ninguém mandou fazer tanta propaganda de Si mesmo. Na verdade uma religião nada mais é do que um provedor como os da internet. Deus é a rede e as bíblias em geral, os manuais de instrução. Você só precisa escolher aquela religião que ofereça acesso mais fácil e rápido com os preços mais acessíveis. Algumas são grátis, mas sofrem para sobreviver nesta selva de graças. Umas tem mais conteúdo que outras, mas no final das contas o Homem lá em cima é um só e, portanto, não faz diferença nenhuma o provedor que você escolhe. No fundo, as fusões só vão colaborar com a melhoria deste serviço, que, a bem da verdade, anda meio capenga. É claro que algumas religiões mal-intencionadas vão abusar de seu poder econômico e ecumênico realizando fusões só para eliminar a concorrência, mas isso será inevitável. Tem sempre alguém querendo conquistar o céu subindo na cabeça dos outros. Deus que me livre e guarde. Desculpe, acabei me desviando demais do assunto. Como ia dizendo antes de eu mesmo ter me interrompido, as religiões, preocupadas com o esvaziamento de seus templos, serão obrigadas a enfrentar a difícil, mas inevitável realidade de uma “merging”. A união entre religiões, seitas, cultos e crenças será batata. Terão de esquecer suas idiossincrasias, flexibilizar suas crenças, reconstruir seus ritos e adaptar suas histórias e lendas, liberar suas fronteiras, unificar a moeda, falar a mesma língua, dividir seus dízimos. Não é fácil para empresas, não será fácil para religiões. Mas não é impossível. É melhor fundir do que falir. Sem contar que Deus é pai e não deixará ninguém na mão neste momento tão delicado. Seria de se esperar, entretanto, que algumas fusões ocorressem por óbvias convergências filosóficas como, por exemplo, os protestantes de várias linhas se unirem para, posteriormente, se juntar à sua origem, católica. Mas, conhecendo o ser humano e sua cabecinha cheia de minhocas, acredito que essas uniões jamais acontecerão de fato. Pode crer. Mais provável é que as misturas sejam impensáveis e até mesmo grotescas, ridículas, toscas. Os muçulmanos se unirão aos mórmons. Os hare krishna, aproveitando seu hair style e as roupas, farão uma composição acionária com os budistas. O taoísmo poderia se unir ao candomblé. O confucionismo fazer par com as testemunhas de jeová, os espíritas colarem nos maçons, a legião da boa vontade anexar-se ao judaísmo, os espíritas incorporarem a cientologia e a igreja católica mesclar-se ao seicho-no-ie. Já o maradonismo neste contexto ficará certamente meio deslocado, mas tenho certeza que em algum momento encontrarão um parceiro que também acredite que viemos do pó e ao pó voltaremos. Pé na tábua e fé em Diego. E como seriam os novos nomes das religiões? Muçulmórmons, seicho-no-banda, hare cumba, evangélindus, confutaoísmo, New Advensiânica, legião da buda kardecista e outras barbaridades seriam impostas aos seguidores das religiões unificadas. Pobres criaturas. Imagine a situação de duas pessoas se questionando sobre sua religiosidade: Mas quem sabe, ao invés das alianças esdrúxulas, ocorram algumas megafusões, como, por exemplo, entre os católicos e os judeus, que, verdade seja dita, são farinha do mesmo sacro (desculpe). Os judólicos seriam a maior religião do mundo. A primeira grande questão a se discutir, entretanto, seria a adoção de que logotipo? Uma cruz de seis pontas ou uma estrela de quatro? E não demoraria muito para aparecer uma lista infindável de problemas complexos e desagradáveis. Cobrir a cabeça ou descobri-la? Ajoelhar-se ou ficar de pé? Sacerdotes casarem ou permanecerem celibatários? Jesus ou Moisés? Pagar pelos pecados ou apenas assumi-los? Fazer o sinal da cruz ou comprar um lugar no céu sem pagar sinal. Pode usar camisinha? A liturgia será em hebraico, latim ou na língua dos elfos? São tantas questões, tantas dúvidas, meu Deus! O ser humano já pena com o fato de não saber de onde vem e para onde vai, como é que a gente ainda por cima vai ter de decidir se corta o pinto ou molha a cabeça? Não dá. Deus que me perdoe, mas não dá mesmo! E não se espantem, inclusive, se algum dia abrirem os jornais e se defrontarem com a seguinte manchete: “Bispo Macedo compra Vaticano. Sessão de descarrego do Papa será semana que vem”. Pelo amor de Deus, será que isso é possível? Como você vê, todo este processo é muito complicado e demandará um enorme sacrifício das partes envolvidas. Mas quem pode deter o progresso? Quem sabe o que o destino nos reserva? O que é Deus? Quem somos nós? Quanto custa o pão francês? É, meus amigos, meus irmãos, não há como evitar. É o que eu sempre digo: tá no inferno, abraça o diabo. Se este é o preço de nossa evolução, de nosso crescimento espiritual, que assim seja. Mas não se preocupem: no final vai dar tudo certo. Se Deus quiser, é claro. Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas, religiosamente. Leia seu site e o blog da mãe. - Todo mundo quer ser outra pessoa
De Leo Jaime. Não importa quem, todo mundo está insatisfeito. Escrevo lentamente estas palavras para me certificar do que digo; a sentença parece ampla e, por demais, cruel. Vivemos neste país sem grandes transtornos naturais e com essa marca de miscigenação que, aos olhos do mundo, faz do brasileiro um povo bonito. Pode ser o nosso narcisismo, ou o narcisismo às avessas, que cria o mito de que somos um povo quente, sensual. Sabe como é, cão que ladra não morde. E, ainda assim, todos nós queremos, lá no fundo, ou mesmo na totalidade de nossa superfície, ser outra pessoa. A esta altura você só não virou a página porque quer saber em que se baseia essa absurda afirmaçao. E eu chego lá. Pule para o próximo parágrafo e tudo ficará mais claro. Obrigado. Como você vê, até mesmo o autor não está hasteando sua auto-estima no topo do monte. Temos uma péssima imagem de nós mesmos, querido leitor. E é isso o que nos impulsiona a mentir deslavadamente sobre nossa sensualidade, beleza etc. Não que isso seja uma mentira. Só não nos sentimos assim. Veja os exemplos: você sai na rua e vê todas as mulheres de salto alto. Isso não lhe diz nada? Para mim estão todas dizendo que queriam ser um pouco mais altas. Olha que eu nunca vi um homem reclamar da pouca altura de uma mulher. Ao contrário: as baixinhas são, em geral, as preferidas. Você olha o cabelo da mulherada na rua e pode constatar: a maioria muda a cor. Não é nenhuma profecia dizer que toda mulher brasileira será loura um dia. Nem que seja por um dia. Pra vencer a curiosidade e atender à nossa nostalgia sueca. Sim, o brasileiro tem alma sueca. Quer ter cabelo liso, ser alto e louro. Ah, longilíneo também. Não importa que o mundo se curve diante de nossa morenice e de nosso gingado; queremos a cintura dura e a altivez do viking. E tome de escova, alisamento definitivo, plástica no nariz e nos peitos, Somos o segundo país em cirurgias plásticas do planeta. Falando em pesquisa, houve uma que apontou um número espantoso. 98% das meninas cariocas de 22 anos não estavam satisfeitas com seu corpo. E desde João do rio que a carioca de 22 é motivo para largar a família! Pois é, acabou. E os homens? Oras, o viagra é mais vendido em nossas terras do que a aspirina. As propagandas para aumentar o tamanho do pênis são o mais volumoso, perdão, lixo da internet. Parece que aquela pesquisa que aferiu os 15 centímetros médios acabou com nossa auto-imagem. E o viagra tem sido usado por garotos. Inseguros garotos e inseguras garotas que se desnudam em desesperada angústia e inconfessável sofrimento. Vai ver não é nada disso e estou inventando. Mas uma coisa eu garanto. Podem dizer depois que eu estou com um discurso de miss suéter mas é preciso falar de amor. O desejo pode ser mais do que a vontade de estar com o corpo, ou ser o corpo do anúncio. Pode ser uma coisa pessoal e intransferível que toma todos os nosso sentidos. Não existe ser bom de cama. Existe amar e se entregar. E para isso, uma coisa só é necessária; seja você mesmo. Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. Visite seu site. - O sempre nunca
De Rosana Hermann. Tem coisa que a gente sempre faz. Tem coisas que a gente não faz nunca, jamais. E tem coisas que a gente sempre-nunca faz. A categoria do sempre-nunca não é definitiva, não é por princípio, mas uma classificação das possibilidades que apenas sempre acabam não acontecendo. Tenho uma amiga que, por exemplo, nunca foi ao circo. Ela não tem nada contra o elefante, o mágico, o anão, ou o trapezista. Ao contrário. Ela adora dar amendoim pros anões, é amiga de um elefante e sempre visita o mágico no zoológico. Mas sempre que aparece uma oportunidade ela acaba não indo ao circo. E não vai nunca. Então, ela sempre nunca vai ao circo. Minha amiga também nunca comeu jaca e nunca andou a cavalo. Todo mundo, minha amiga, você, sempre nunca fez alguma coisa, simplesmente porque não. Eu, por exemplo, nunca tomei coca-cola. Já dei uns goles, mas nunca comprei uma coca, nem em lata, garrafa, saquinho, caixa tetrapak. Nunca pedi uma coca, nunca bebi o refrigerante. Não é uma filosofia de vida, uma proibição religiosa. Apenas, não aconteceu na minha vida de tomar coca-cola. E fui não tomando, não tomando, até que a coisa se deu. Ou melhor, não se deu. Assim como nunca comprei na Daslu. Deve existir alguma coisa lá dentro que eu precise, goste ou até possa comprar. Mas eu nunca fui à Daslu, não sei onde fica a loja, nunca passei em frente. Isso não quer dizer nada, não faz de mim uma pessoa pior ou melhor. É só um item na minha gaveta dos sempre-nunca. Agora, a nova loja da Daslu, um Partenon do consumo AAA, apareceu na janela da minha sala, pertinho do prédio onde trabalho. Irei lá um dia, porque a Daslu vai ter a primeira loja da Apple no Brasil. Uma outra amiga diz que nunca conheceu uma mulher que quisesse ir à Daslu só por causa de produtos de tecnologia. Ela deveria conhecer um outro amigo meu, que nunca usou uma calça jeans. A vida, embora complexa na largura, é muito curta no comprimento. Quando a gente toma consciência de que está vivo já se é criança, quando começamos a nos preocupar em sermos dono dela já se é adolescente, quando se toma as rédeas da vida já se é adulto e quando menos se espera já se está velho e a conta de quantos anos ainda podemos ter de vida passa a nos assombrar. Por isso, mesmo que ainda restem uns sempre-nuncas no nosso currículo, devemos tentar experimentar um pouco de tudo, sempre que possível, contando que não faça mal a ninguém. Dada ao fato de que tanto meu amigo, quanto minha amiga, quanto eu, já termos passado do meio da nossa média vital, estamos pensando em organizar um grande evento coletivo: meu amigo e eu vamos levar meus amigos ao circo para chupar caroço de jaca no lombo de uma égua adestrada. E, claro, ele vai de jeans, e eu, toda vestida com uma roupinha da Daslu, equilibrada no meu salto alto e chupando canudinho de uma garrafa pet de dois litros de Coca-Cola. É isso aí. Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. - O motorista e a escritora
De Nelson Botter Junior. Aos poucos vai surgindo no Brasil mais uma figura folclórica, daquelas que vomitam pérolas sobre nossas cabeças. O pior é que costumamos dar risadas desses acontecimentos, quando o certo seria se dar conta da tragédia que isso é. Imagine-se dentro de um ônibus em alta velocidade, sendo dirigido por um motorista despreparado, sem habilitação e totalmente despreocupado com o que faz ao volante. A probabilidade de acidente é muito alta. É essa a sensação que o presidente da câmara, Sr. Severino Cavalcanti, me passa. Ontem houve uma sabatina na Folha, aqui em São Paulo, com o ilustre motorista. Ficou evidente o tiro no pé que o congresso deu ao eleger esse homem, na tentativa de diminuir os poderes quase ditatoriais do PT. Dentre as várias frases insólitas do homem, algumas se destacaram, como "casei mais ou menos virgem" ou "Acho que a mulher tem que ser virgem, tem que ser pura. O homem não, muitas vezes quer aprender como fazer o serviço. Tem que aprender com quem estiver disposta a ser professora." Indagado sobre o uso da camisinha, primeiro disse que era uma pergunta indiscreta e que não responderia, depois resolveu dizer que se a igreja católica é contra, os seus seguidores devem agir assim. Sobre aborto, disse que é contra mesmo em caso de estupro, classificado pelo nobre presidente da câmara como um "acidente horrendo". A pergunta que eu faria se estivesse lá é a seguinte: "Se a sua filha, Severino, fosse estuprada e engravidasse, o senhor continuaria contra o aborto nessa situação?" Falou também que é a favor do nepotismo e contra a união homossexual. Pois é, o Sr. Severino nos mostra claramente em sua conduta que a ala conservadora de extrema direita está mais viva do que nunca em nosso país. Mesmo depois que os militares largaram a batata assando, o radicalismo conservador continua em alta. E não só aqui, vide o Bush e o novo Papa Ratzinger, mão forte do Vaticano durante anos, eleito em um dos Conclaves mais armados da história. Se eu estivesse em Roma na eleição, carregaria uma daquelas plaquinhas que a Globo mostra em dia de jogo: "Eu já sabia". E que triste notícia a morte de Lúcia Machado de Almeida, escritora que nos deixou após 94 anos de vida. Quem não viveu os anos 80 provavelmente não a conhece, mas Lúcia é a autora de obras que ficaram marcadas na vida de muitas pessoas (como eu) que curtiram a coleção Vaga-lume, da Editora Ática, voltada para obras infanto-juvenis. Uma pessoa que fez de suas palavras um instrumento para influenciar positivamente vidas jovens e cheias de futuro, exatamente o contrário do nosso Sr. Severino Cavalcanti. Confesso que nunca fui muito de ler na época da escola, apesar de adorar as aulas de redação. Escrever sim, ler não! Mas quando dei de frente com duas das obras dessa maravilhosa vovó mágica, "O caso da borboleta Atíria" e "O escaravelho do diabo" foi paixão aguda, coisa que não se explica, ação de colocar o livro no peito e correr por aí. Que maravilha, que sensação boa, suspense puro, que obra deliciosa! Foi um marco para mim, foi ali que eu percebi que ler podia ser uma experiência incrível. Obrigado Lúcia Machado de Almeida, pois a senhora, mais do que ninguém, despertou em mim o amor pelos livros e a arte da escrita, com cicatrizes imensas e belas. A senhora parte, mas fica. É, sua obra está aí, guardando a sua memória viva, firme, encantada. Então, leve desta para melhor a minha gratidão e a de milhares. Teremos saudades de sua escrita tão importante para a nossa literatura infanto-juvenil. Obrigado um milhão de vezes. Se hoje estou aqui, boa parte da culpa é sua, querida. Mas tudo bem, a senhora agora se vai em paz, não precisará agüentar a mim e nem ao Sr. Severino Cavalcanti... azar dos que ficam. Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas todas as terças-feiras. - Vamos devagar
De Paulo Castro. Fico me perguntando se ela não gosta mais de mim, apesar das férias maravilhosas em São Lourenço, em que me viciei em água sulfurosa. Paulo Castro é cronista do Blônicas. Visite seu blog. - O dia em que virei travesti
De Xico Sá. Enfeiá-la era a receita para esquece-la. Havia me escravizado ao que havia de mais belo. Quando inverti os dedos dos pés, a visão do abismo também foi prejudicada pelo forte cheiro do esmalte. Aos poucos eu também ia me desfigurando, via nas vitrines durante o passeio da hora do almoço. Até que veio aquela abençoada manhã. E naquele dia, tão comum como todas as vésperas, acordei travestido. Minhas feições levemente mantidas, pomo de Adão, pêlos domados, eficientíssimos hormônios, silicone sem exagero, peitinhos pêras, novos, rosas. Tudo no lugar, estranheza alguma, sem carecer raspar o tacho do absurdo. Desprezo às criaturas que exageram no uso diário da expressão kafkiano. Pintei as unhas, aumentei o som do bolero, virei outro tipo de ficção. Bolero 1, Wagner 0, como em Almodóvar. Sentimentos também mudaram. Eu queria ser o próprio disfarce e aquilo muito me animava para contar a vida de outro jeito. Nos primeiros dias elevei a caricatura às últimas, carecia me afirmar e crer no meu próprio desenho novo. Adorava pintar os olhos, arte que aprendi com fantástica rapidez. Que coisa mais delicada que é a pintura dos olhos, o lápis corria em retoques tão fáceis. Minha mãe compreenderia tudo aquilo,eu cismava sozinho à noite, eu e os meus parentes-espelhos. Eu me via o tempo todo, cada minúcia, cuidado, lindo, frágil. Também amarrara meus pés para que atrofiassem. Meus pés eram muito grandes para pisar distraída nos astros do meu novo mundo. Os chineses mais antigos adoravam pés atrofiados. Dispunham de uma técnica avançadíssima, capaz de reduzir um pé a 8 centímetros, o recorde. O “lótus dourado”, como chamavam. “Olhe para eles na palma da sua mão”, teria escrito, conforme os anais fetichistas, o poeta Sung. Li nos mesmos alfarrábios que as mulheres de passos cambaleantes, por causa do tamanho dos pés, eram tidas como nobres. Havia ainda uma relação entre a atrofia dos pés e o apertamento da buceta. Os programas me deixavam confuso. Todos ainda me queriam apenas no papel de um ativo nervo. Senhores tão sérios, largam as suas senhoras nos lares burgueses e aqui caem aos meus pés. Pedem para morde-los quando enfio tudo. É muito confortável e indolor o sexo pago. Não há fissura ou agonia nessa modalidade de amor. Também é amor, amor com vários, a morte do peso do amor. Ao contrário de algumas amigas travestis, eu não era nada melancólica. O disfarce funcionava como um ácido, um Prozac permanente na minha bebida. Eu entretia a todas ao falar em castelhano. Essa é a língua oficial dos travecos. “?Por qué las vaselinas son inadecuadas para la lubrificación íntima?”. Meu melhor número era dizer inteirinha a bula do gel lubrificante K&Y. “Además de dañar el preservativo, las vaselinas em cualquier presentación, son produtos a base de petróleo, non son solubles en água, nin son absorbidas por el organismo, por lo tanto son inadecuadas para la lubrificación intima y presentam incomodidad para la remoción.” Amava o disfarce, minha máquina nova de contar histórias. Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. Esse texto faz parte do livro “Se um cão vadio aos pés de uma mulher-abismo” (editora fina flor), de apenas 150 exemplares. Veja mais aqui. - Eu não consigo...
De Milly Lacombe.
Eu não consigo sentir raiva do Lula. Por mais que suas declarações sejam (agora comprovadamente e sem que possam me acusar de preconceituosa) de uma ignorância atroz, por mais que venham à tona gastos absurdos feitos com dinheiro público em Brasília, por menos sentido que faça usar milhões de dólares para comprar um avião que só xeque árabe tem e que agora serve um dos países socialmente mais desiguais do mundo, por mais que fiquemos sabendo que seus filhos, sobrinhos e agregados usam as instalações do governo como colônia de férias às nossas custas, e mesmo tendo noção de que ele, sem me pedir licença, usou meu dinheiro para mandar buscar em Quito o tal presidente deposto. Mas eu simplesmente não consigo ter raiva do cara. Antes de mais nada, porque trata-se de um corintianíssimo. Depois, porque, acima de tropeços verbais e patetadas político-econômicas, a história de vida dele é comovente e deve ser respeitada. E, para terminar, porque, não há como negar, é um sujeito pra lá de bonachão. Só que nada disso me faz votar nele. Nunca votei e não será agora, campanha para 2006 oficiosamente iniciada, o país vivendo sob o caos controlado, que vou votar. Até porque, se a imagem do presidente me causa simpatia, a do chefe da casa civil me deixa com calafrios. E como o ex guerrilheiro amante da ditadura cubana faz parte do pacote, não há nada nesse mundo que me convença a votar no Lula. Nada a não ser uma reviravolta social que, a julgar pelos gastos federais que o governo em questão desviou para esse tipo de coisa até agora, só acontecerá por milagre. Não entendo patavinas de política e economia. Só sei que todos os dias, quando saio de casa para ir trabalhar, constato o crescimento absurdo do número de pedintes nos sinais. Perto de minha casa existe um núcleo familiar completo que vive ao relento: pai, mãe, filhos, sobrinhos e até cachorro. O trajeto que me leva à redação me obriga a parar em mais de 15 sinais. E não há um deles que não esteja superlotado de pedintes (noves fora vendedores ambulantes). À noite, quando saio tarde do trabalho, posso ver pelo menos uma dúzia de homens dormindo pelas esquinas. Então eu me pego pensando que alguma coisa deve estar muito desequilibrada. Porque se nossos governantes, nos mais variados níveis, ganham muitíssimo bem (e ainda assim vivem se concedendo aumentos), se por essas mesmas esquinas habitadas por famílias de indigentes passam diariamente milhares de carros cujo valor ultrapassa 300 mil reais, e se a carga tributária é hoje equivalente a de países nórdicos (os mais desenvolvidos do mundo, onde ruas não são esburacadas e a saúde é gratuita) não é preciso entender de economia ou política para fazer as contas. 1) Dinheiro entra nesse país. 2) Se ele entra, então não é distribuído corretamente 3) Se ele não chega às camadas mais baixas é porque está estagnado nas mais altas. 4) Se ele ficou parado lá em cima, é porque tem muita, muita gente roubando muito, muito dinheiro. Lula disse, antes de assumir, que resolveria essa desigualdade nojenta. Não resolveu e, de quebra, está aumentando a rachadura. Portanto, porque não desisto nunca e não me canso de ser enganada, em 2006 vou dar chance para outra pessoa, quem quer que seja desde que me convença de estar bem intencionado, resolver o problema. Se esse sujeito não estiver ligado a nenhum ex guerrilheiro amante de regimes ditatoriais, melhor ainda. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. |