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- Conduza-me a seu líder

De Leo Jaime.

 

Vai que um marciano desce numa pracinha, com sua nave indetectável e invisível, e resolve fazer contato. As primeiras figuras que ele vê são um cão e um homem unidos por uma coleira. Um vai à frente, faceiro e empolgado, e o outro segue com cara de tacho levando nas mãos um saco em que vai recolhendo as fezes do primeiro. Quem é o líder? Sería difícil para o amiguinho interplanetário entender como o animal que não tem o polegar opositor domesticou o que tem. Bom, falo nessa hipótese mas sei que nem sempre é assim.

 

Não sou um profundo conhecedor da alma canina mas sei que se há um sentido na vida do melhor amigo do homem esse sentido é o da rua. Passear, essa é a questão. Cães são engraçados, em sua maioria. Você desce para buscar algo que esqueceu no carro e quando volta ele faz a maior festa, como se você estivesse voltando de uma guerra, cinco anos depois. Com a mesma alegria ele comemora o convite para dar um role. Se você levar o cachorro vinte vezes à rua, na última ele não há de comemorar menos. Passear é preciso, viver não é preciso!

 

Dia desses eu ia pelo parque do Ibirapuera quando reparei em algo que incomodava: vários cães eram arrastados pela coleira por donos que nem carregavam saquinhos e nem olhavam para seus amigos peludos. A cena se repetiu inúmeras vezes. Eram muitos os casos de cães que não estavam passeando, mas sendo arrastados por um dono distraído. O cachorro não podia cheirar nada, não podia escolher nenhuma direção, não podia fazer suas obras ensacáveis em paz ou com pressa, isso mesmo, não podiam! Os donos estavam passeando e o cachorro era só uma coisa pendurada na ponta da coleira. Sem direito a nada. Será que estava gostando? Duvido.

 

Fiquei pensando na hipótese de isso ser uma orientação pavloviana para traumatizar os cães até que eles nunca mais quisessem passear. Isso mesmo. Vamos supor que um cidadão sofra por não ter tempo para passear com seu amiguinho e depois de consultar especialistas recebe a orientação do tratamento: arraste seu cão fazendo com que seu passeio seja a coisa mais frustrante do mundo. Depois de umas dez repetições seu cão vai pedir pelo amor de Deus para ficar em casa e nunca mais sair. Vai virar um consumidor voraz de prozac e viciado em assistir ao mundo animal pela TV por cabo. Só se for.

 

Podia ser também apenas uma demonstração de quem é que manda. Sim. Sempre pode ter um marciano olhando, não é mesmo? Mas, isso é que indagava ao ver as cenas de arrastamento público: amarrar um skate na ponta da coleira não seria mais apropriado? Levar uma coleira sem nada na ponta? Pra quê arrastar o bichinho? Pois é, pra quê.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas toda quinta-feira.

Escrito por Blônicas às 12h36
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- Cet pays

De Rosana Hermann.

 

Tom Jobim resumiu a questão morar no Brasil ou fora dele de forma magistral, como cabe a um maestro genial como ele foi. Ele dizia que morar fora do Brasil é bom mas é uma merda enquanto morar no Brasil é uma merda, mas é bom. Ontem, achei bom morar nesta merda, especialmente ao ver todo esse conteúdo orgânico sendo espalhado ao vivo nas CPIs, didático, elucidativo e inspirador, pois mais interessante do que o teor revelador das respostas eram as formulações das perguntas por parte dos inquiridores.

 

A primeira lição daquela inspeção da merda toda com transmissão ao vivo, me fez sentir numa aula online direto de um laboratório de análises clínicas, pois começava bem do começo, ou seja, entrevistando um dos envolvidos na merda que era, por assim dizer, perdoe a falta de finesse, o rei do cagaço. Sem citar nomes para não tomar processos e alternar posição com o dono do esfíncter liberado, sigo dizendo apenas que raras vezes vi alguém que diz não se sentir culpado, agindo com tanto medo. Ao longo de suas palavras fui sentindo coisas como pena, compaixão, nojo, raiva, ódio mortal, desprezo, empatia, simpatia e até afeto maternal, não necessariamente nesta ordem. Fato é que em coisa de meia hora o Brasil pode ver com quantos caras de pau se faz uma canoa furada.

 

Em seguida vi uma outra pessoa, a secretaria e senti no ar um clima geral de bolsa de apostas e palpites, todo mundo querendo pré-julgar a partir da intuição intestinal se a moça é culpada, inocente, mentirosa, idealista. Ouvi sugestões de que seria uma vingança passional, financeira, política e outras combinações de alcinha com renda que nem vale a pena mencionar. Não vou comentar a participação da moça mas sim os inquiridores da mesma. Um show de horrores com raras intervenções de lucidez me pareceu uma sessão de um tribunal da Santa Inquisição. Fiquei esperando ver se alguém ía entrar com uma balança de pratos, tamanho gigante, como aquela que representa a justiça e, colocar a secretária num prato e um ganso no outro e, caso o prato da moça pendesse mais ela seria declarada como bruxa e queimada na fogueira.

 

Teve gente que insinuou que ela reage ao susto de uma forma estranha e se recupera rápido demais. Discutiu-se o absurdo que é não anotar a chapa de uma moto durante uma ameaça no trânsito, já que, como todos sabemos, toda moto pilotada por alguém que o ameaça de morte tem placa enorme e visível, pronta para ser anotada. Não sei se o fato aconteceu, se a moto tinha placa, se era ou não visível, mas uma coisa eu garanto: nenhuma pessoa normal consegue achar uma bic que funcione e um papel em branco dentro do carro pra anotar nada! Onde vive essa gente? Na terra do nunca?


Sei que ainda há muito para ser dito, mostrado, provado, discutido, mas eu estou aqui torcendo pelo Brasil. O Brasil alegre, feliz, moreno e gostoso, o Brasil trigueiro, fagueiro, o meu Brasil brasileiro, do signo de touro. O Brasil varonil, cheio de recursos naturais, bem situado no centro de uma placa tectonica, sem terremoto nem cataclismas. Torço pelo Brasil que tem cintura, aquele que ninguém segura. E se pra que esse Brasil acorde e a corrupção adormeça, torço pra que o melhor aconteça. E se tiver que espalhar merda pra todo lado, que D'us, que é sabidamente brasileiro, não deixe falta merda pra ninguém. E que todos os corruptos morram com a boca cheia de formiga, amém.

 

Rosana Hermann escreve no Blônicas toda quarta, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h39
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- Como seria a vida sem Internet?

De Nelson Botter Junior.

 

Como seria a minha vida hoje se a Internet não existisse? Resposta: um horror. A Internet faz tanto parte da minha vida que nem imagino ficar sem. Ao mesmo tempo, me espanto com a quantidade de gente que ainda nem descobriu essa poderosa ferramenta, que por resistência ou falta de oportunidade está fora dessa rede; ainda mais porque a web tem como principais funções viabilizar informação e vencer distâncias. Enquanto isso já tem criança de 2 anos usando a Internet, ouvi na CBN, pasmem! Inclusão e exclusão digital já virou tema de programa feminino da tarde, tipo Mulheres em Desfile (ainda existe?).

 

Ter acesso fácil à informação é importantíssimo, mas precisa de cuidado, pois a Internet é um veículo sem editoria, ou seja, qualquer um pode escrever qualquer coisa (inclusive eu), o que compromete muito a credibilidade e qualidade da informação. O jeito é procurar fontes confiáveis e não qualquer site "mandrake".

 

Meu preferido na web é o e-mail. A agilidade na comunicação ficou espantosa, apesar do número de "malas-diretas" também ter ficado qualquer coisa de insuportável... Nunca gostei de escrever cartas e o e-mail solucionou isso. Tudo rápido, fácil e confiável. Basta ver quem fazia intercâmbio ou morava no exterior antes do e-mail. Eram semanas sem notícias de casa, meses sem saber nada do Brasil, e tudo que se conseguia era ligar para cá bem de vez em quando (tarifas caríssimas) ou então mandar cartas, que podiam levar até um mês para chegar ao destino. Agora com a web o sofrimento que a distância traz é amenizado, pode-se acompanhar tudo como se estivesse morando aqui mesmo. Fala-se com parentes e amigos em tempo real pelo ICQ e o MSN, sem pagar um tostão. Cada um numa ponta do mundo.

 

Sem a Internet muitas notícias não seriam em tempo real, pois as próprias TVs e rádios teriam sua agilidade comprometida. O Fantástico ainda seria a principal revista eletrônica semanal, os celulares só serviriam para fazer e receber chamadas (OK, teriam os joguinhos também), os contatos com os amigos seriam mais esporádicos, você só ficaria sabendo que aquele seu primo que mora distante teve um filho quando acontecesse um casamento na família, sua mesa de trabalho teria muito mais papéis e memorandos, xavecar seria muito mais complicado, as fotos digitais só poderiam ser vistas na câmera ou celular de quem as tirou ou depois de impressas em papel, as empresas precisariam gastar fortunas em mais portfólios e impressos cheios de explicações, não haveria o Blônicas - logo, você não estaria lendo esta crônica - etc e etc e tal.

 

Por falar nisso, na semana passada vi como a Internet realmente pode aproximar as pessoas. Minha crônica contando a experiência que tive na UTI gerou uma chuva de e-mails e comentários que me tocaram. Pessoas e mais pessoas que não conheço pessoalmente, mas que escreveram com o coração, se apresentando e dizendo que são meus leitores, que gostam muito do que escrevo, desejando uma pronta recuperação. Nada disso teria acontecido sem o poder da Internet, que dentre muitas características positivas e negativas tem o dom de aproximar as pessoas, de formar novos laços de amizade, de abrir caminhos para relacionamentos interpessoais na chamada "vida real".

 

Isso é importante: sair da tela e partir para o olho no olho. Realmente espero poder conhecer pessoalmente todas essas pessoas que me escrevem e acompanham meus textos, todos esses novos amigos que faço a cada dia. Dessa maneira ratificaremos nossa amizade e me sentirei muito honrado com isso. É por essas e outras que não consigo imaginar minha vida sem a Internet. Quando penso nisso me vêem à mente a imagem de uma ilha. Acredito que sem a web somos como ilhas, um lugar em que existe acesso, mas nem sempre é fácil. Já com a Internet, nos tornamos continentes, ganhamos fronteiras, nos aproximamos mais das informações e das pessoas.

 

Agora me diz você, internauta, como seria a sua vida hoje se a Internet não existisse?

 

Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas nas terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 10h33
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- Dedinho de prosa no proctologista

De Xico Sá.

 

Era chegada a hora. Mesmo com todo desleixo, com recomendação médica não se brinca.

Ai avexei-me, mesmo precocemente, para viver, na pele, a minha segunda experiência do gênero. Segura na mão de Deus e vai, encorajei-me.

 A primeira vez, muito antes dos 40, havia sido tão rápida e indolor que resolvi, agora, senhor dos meus 42 verões, tirar a contraprova. Chegou a hora de, na margem do rio Piedra, como diz Paulo Coelho, sentar e chorar.

 De lambuja, pensei, ainda sirvo de agente encorajador, num país de altos índices de câncer de tal natureza, aos machos que tremem diante de um rápido toque nos seus indevassáveis fiofós ou fogareiros, como no glossário da minha terra.

Lá vamos nós, destemido cavaleiro e seu orgulhoso “Eu profundo”, ao respeitável e imparcial proctologista. Para não me acusarem de escolha fraudulenta _poderia eleger o doutor pelas medidas dos indicadores, fura-bolos e cata-piolhos_ promovi um sorteio do médico, entre vários do meu convênio, durante nobre sessão no botequim.

Pereira, amigo tão macho que usa dois sabonetes durante o banho _um para a frente e outro para a assepsia na retaguarda_, benzeu-se. “Não faço um troço desse nem morto, nem a pau”, salivou testosterona no ambiente. Separado da mulher da sua vida por causa de uma tímida e educada tentativa de fio-terra, Pereira acha que não pode haver a mais remota comunicação, nem mesmo via sabonete, entre as suas partes pudendas. “Começa assim a pouca-vergonha, na própria higiene pessoal”, apelou, enquanto estalava mais um torresmo no dente de ouro que substitui o canino.

Que se dana a retaguarda do atraso de Pereira. Chegou a nossa hora lá no consultório. Miro as mãos do amigo de branco... E confesso, leitores: não poderia ter sorteado médico mais bem dotado nas suas falanges, falanginhas e falangetas. Vixe! Ele pôs civilizadamente a luvinha. Esperei, resignado.

Só lembrei, ali, de novo, na bucha, da velha e surrada piada, na qual um proctologista indaga o cliente: “Sente-se alguma coisa?” Ao que a criatura alvejada solta um delicado sussuro: “Sinto que te amo!”.

Ora direis, nada de ver estrelas bilaquianas, como queixou-se outro dia um deputado baiano. Sensaçãozinha de nada. Pena que tantos machos empedernidos morram por falta desse simples dedinho de prosa com a medicina. “Volte sempre”, ainda se despediu o doutor. Também não carece exagerar, né, meu amigo?! 

 

Nesta quarta, 29/06, às 19h, Xico Sá faz em Campinas (SP) festa pela 3ª edição de “Modos de macho & modinhas de fêmea (ed.Record) e relançamento da “Divina Comédia da Fama” (ed. Objetiva). Mapa: rua Duque de Caxias, 524. DJs Peixe & Bit.cho 

Escrito por Blônicas às 13h08
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- Eu não estou nem aí
De Milly Lacombe.

Eu não estou nem aí para a biografia do Lula. Que se dane o fato de ele ter nascido entre o nada e o lugar nenhum, ter passado fome, ter vindo para São Paulo num pau de arara, ter perdido o dedinho da mão esquerda em acidente de trabalho, ter ajudado a fundar o Partido dos Trabalhadores, ter superado tudo isso para ser eleito presidente há dois anos. Não tô mesmo nem aí para que se preserve a imagem de herói desse homem. Porque, a bem da verdade, a chance de se tornar herói começou em 2002 e, até agora, tem ido latrina abaixo.
O que eu quero saber é quem vai se preocupar com a biografia dos Josés e Marias que vivem sem ter onde dormir e o que comer pelas ruas das capitais, dos Joãos e Anas que não tem oportunidade de estudar, trabalhar, ser alguém na vida e moram em locais tão inóspitos que nem água, nem luz elétrica os alcança.
Sério mesmo – que se dane a biografia do presidente. Quero mesmo é que parem de tratá-lo como se ele fosse café-com-leite. Afinal, se ele não sabia que o congresso estava “vendido” para seu partido, então é, definitivamente, um incompetente. Se sabia, não é quem imaginamos que era. É a típica situação ingrata para uma biografia que se pretendia imaculada.
Gostaria é de poder contar histórias de vida que realmente valessem alguma coisa. Como a de alguém que nasceu pobre, miserável, sem chance nesse país estranho e que chegou ao posto de líder de uma nação para acabar com a pobreza e a miséria. Conseguiu, ao custo de muito trabalho, diminuir o ridículo lucro dos bancos e distribuir riquezas. Fez escolas, universidades, deu saúde a quem precisava. Um cara que se cercou de especialistas, e não de partidários. Um sujeito que, sabendo de seus limites intelectuais, construiu um ministério de técnicos, os melhores em suas áreas, e não de companheiros de luta, amigos desempregados e perdedores. Um homem que nunca perdeu de vista sua origem e que, por isso mesmo, jamais se deixou seduzir pelo poder.
Mas talvez querer que esse sujeito exista seja querer mudar a essência humana, e isso eu não sei se é possível. Passo então a olhar em volta e a me perguntar quem de nós nunca ofereceu propina ao guarda que nos ameaça multar, quem nunca furou fila, quem nunca sonegou imposto, quem nunca se deixou encantar pela promoção a ponto de esquecer amigos sinceros, quem nunca achou que aquele morador de rua cuja presença tanto incomoda não é culpa única e exclusivamente nossa, de cada um de nós, de cada político corrupto, de cada presidente omisso? Chego então à incomoda pergunta: quem de nós recusaria uma mala de dinheiro no valor de 30 mil reais todos os meses se em contrapartida nos pedissem “apenas” para mudar de ideologia?
Quando cada um de nós entender que não somos assim tão diferentes dessa corja de corruptos e corruptores que nos comanda e a quem elegemos talvez estejamos prontos para começar a mudar.
Saber distinguir entre o certo e o errado não é assim tão difícil. Acreditar que podemos ser, cada um de nós, a mudança que gostaríamos de ver, também não. Basta apenas que comecemos a praticar. Basta apenas que deixemos de ser hipócritas e façamos valer nossa cartilha de valores. Todos os dias. E em qualquer circunstância.
Só assim poderemos construir biografias realmente imaculadas e histórias pessoais que de fato valham a pena ser contadas e perpetuadas.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 20h13
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- O "I-Pod"

De Castelo.

O I-pod é uma maquininha do tamanho de um maço de cigarros que vicia mais que nicotina.

Com razão: naquele singelo aparelhinho podem caber até 15 mil músicas.
(Até a bem pouco tempo, só era possível andar com um repertório musical tão extenso assim se se colocasse o Nelson Ned dentro de uma mochila).

Todo esse universo melódico pode agora ser ouvido no carro, no escritório, em casa, em qualquer lugar – menos durante o banho que o modelo à prova d’água ainda não foi inventado.

Trata-se de uma invenção extraordinária. Mas, como tudo na vida, tem seu lado ordinário.

Ninguém se surpreenda, por exemplo, quando as filas de banco e os congestionamentos começarem a aumentar vertiginosamente. Afinal, quando e onde vai se ouvir 15 mil músicas?

Outra coisa que o I-pod vai acabar alterando é o meio-ambiente.

Bater um papo com uma pessoa conectada a esse mini-tocador de mp3 é como falar com uma velha de 97 anos completamente surda.

Agora, imagine 1 bilhão de pessoas curtindo suas milhares de músicas e outras 1 bilhão tentando dizer alguma coisa pra elas. O número de decibéis emitidos pelos berros dessa galera pode começar a demolir muita coisa importante pela aí. Tipo Coliseu, Machu Pichu, os pólos.

Tudo bem, trata-se de um cenário pessimista, mas factível.

Ainda bem que, com o I-pod, até o catastrófico acaba virando alto astral.
Os oceanos provocando lindos tsunamis no litoral do seu país e você curtindo “Ride of the Valkyries” direto nos tímpanos.

Outro dia ouvi um amigo lidando com o seu modelo de 60 gigabytes e cheguei à uma importante conclusão: estamos mesmo diante de uma mudança de paradigmas musicais.

Ele havia ligado o I-pod no som de casa e iniciávamos uma conversa ouvindo sua infindável seleção favorita. Entrava uma determinada canção, ele queria outra diferente, apertava o controle remoto. Surgia outra, ele repetia o gesto. Afinal, 15 mil músicas ali dentro, é opção que não acaba mais.

Durante alguns minutos o que pude depreender foi mais ou menos o seguinte:


“The answer my friend is blowing…BIP…Hey Jude, don’t be…BIP…Coração americano, um sabor de vida e…BIP…Joga pedra na Geni…BIP…Cantei, cantei, até ficar com dó de…BIP…

Charlie Parker e Dizzy Gillespie nunca imaginariam que, no século 21, surgiria esse novo ritmo: o Bip-bop.

Castelo escreve aqui todos os sábados.

Escrito por Blônicas às 10h57
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- Fora do ar

 
Henrique Szklo está em viagem e retornará na semana que vem. Visite o site da sua mãe com a cobertura do Festival Internacional de Publicidade em Cannes. Clica aqui.

Escrito por Blônicas às 11h25
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- Paradoxo: cai, senta, levanta

De Paulo Castro.

     Depois de uma noite e madrugada de febre, em que só fui conseguir agarrar o sono depois das quatro, acordo estranhamente sadio e feliz.
     Principalmente feliz. Levanto da cama e faço uma série de coisas boas, dou telefonemas de amor, mando telegramas aos amigos apaixonantes, beijo demoradamente minha esposa no centro da sala. Mesmo com a empregada varrendo o chão dos nossos pés, pigarreando em reprovação. Isso não importa. A grande questão é que nada importa.
     Você só se apega ao mundo quando o abandona totalmente. Não que eu goste de paradoxos, não, eu não gosto deles. Eu os adoro. Vibrei na época do colégio, quando um professor provou, através de equação matemática, que um mais um é igual a um. Claro que havia no paradoxo na lousa, uma sabotagem escondida. Mas só conseguimos sacar quando ele nos apontou. Então tudo ficou claro. E que potência de felicidade há nisso ! Quantas outras sabotagens não estão aí escondidas, atrás dos discursos, da beleza, da correção, da certeza ?
     Eu amo o sabotador, contanto que assuma-se como demiurgo da mentira e da infâmia. Ninguém entendeu a piada do Zé Dirceu, por exemplo. Ele disse que a crise política do Brasil está sendo causada por forças que desejam minar as aspirações socialistas do governo petista. Acharam que ele estava falando sério, estando deslocado historicamente, bancando um papel ridículo e cínico. Não julguem errado o gênio. Ele foi perfeito. Ele mostrou onde estava o engodo desde o início, mas agora o fez no picadeiro do circo de monstruosidades. Merece palmas e pipocas ! Língua de sogra e confetes. Eu adoro o Zé Dirceu ! Eu quero beijar a boca mental do Zé Dirceu ! Ele disse, em outras palavras:
     - Ô, seus bobocas...foi aqui que vocês acreditaram ? Socialismo ? Ética materialista ? Esquerda ? Forças que aspiram deter a Revolução ? Olhem para mim e digam se ainda é possível falar desse jeito ! Quanto é mesmo um mais um ? - e tudo isso com aquele falso e saudoso sotaque piracicabano. Dirceu, você é meu gato !
     O que é a crise ? É a doença. O sintoma agudo. A febre.
     Faz sentido ? É o momento que antecede o gozo de ver o paradoxo sendo revelado no quadro negro. É quando estamos no máximo do nosso solilóquio interno :
     - Não. Não. Não pode ser !
     Por que raios repeti a palavra "não" três vezes, quatro com essa ?
     Pois ela é essencial. Negar, aí está o mistério da fé. "Dizei uma só palavra e sereis salvo." O que foi a minha febre ? Foi o corpo dizendo não, quando eu ainda queria dizer sim e acreditar que é possível suportar certas coisas. O corpo é sábio . A alta temperatura me obrigou a dizer não. "De jeito nenhum, você não vai trabalhar, não vai aceitar essa barganha, não vai topar essas condições, vai faltar na reunião, vai dar bolo na ladainha, vai delirar alegremente numa cama banhada de suor e cheiro". Minha avó costuma mesmo dizer que a febre alimenta. Velhinha batuta. Por esse motivo acordei tão cheio de graça. Se fosse domingo eu dançaria a Avenida Paulista inteira. Negar até a máxima potência, depois ver que tudo não passou de uma piada, isso sim que é gozar ! Esperar pela morte e encontrar vida do outro lado da manhã.
     Vejam aí outro paradoxo milenar: ao niilista falta esperança. Que bobagem ! O descrente é o único que ainda pode fazer alguma coisa. A ele cabe a verdadeira alegria, o verdadeiro investimento libidinal na vida. É o Marquês de Sade, é Erzsébet Bárthory, é o Conde de Lautréamont. É o palhaço Arrelia. É o Zé Dirceu. Sou eu.
     Todos que se banham no sangue de virgens por não mais acreditarem em virgindade. Para espanto e repulsa dos que ainda estão presos e inertes. Tolos. Vacas de passeata. Bichinhos de pelúcia. Que os professores da minha filha pudessem ser verdadeiros niilistas, eu dobraria com gosto o preço absurdo da mensalidade escolar. O futuro reside em quem não acredita nele. A melhor saúde reside na febre. A alegria inaudita do melancólico !
     Quem sabe um dia, o ponto tangente do excêntrico se transforme em núcleo, a palhaçada em aula. Do caos: a ordem.
     Não passem bem, é o meu desejo para todos vocês.
                  
                  "Quero que a minha poesia seja lida por raparigas de catorze anos."
                                                              ( Conde de Lautréamont )

Paulo Castro é cronista do Blônicas. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 09h35
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- 7 cm.

De Leo Jaime.

 

Estou muito curioso! Recebi milhões de spams anunciando a possibilidade de meu pau crescer até 7 centímetros em duas semanas. Realmente não gostaria de ver o meu pau crescer assim. Prefiro que ele cresça bem mais do que sete em segundos. Rs. Como tem sido. Bem, você entendeu. Apesar de não desejar isso pra mim, fiquei curioso em saber qual a panacéia oferecida. E é óbvio que para haver tanto spam anunciando a tal maravilha deve haver um monte de gente querendo mais 7 centímetros de possibilidades, não é?

 

Tudo é tão relativo! Na peça "Na medida do possível", na parte do texto que escrevi, tem uma fala assim: "Todo mundo fala de pau pequeno mas ninguém fala de buceta grande!". Pois é, dependendo do tamanho da buceta qualquer pau é pequeno! E vice-versa. Com isso posso afirmar que, em breve, teremos um spam anunciando "fique virgem outra vez em duas semanas!", ou ainda, "Tá larga? Flácida? Ele sai toda hora? Use nosso produto e fique apertada como nunca!". E assim a possibilidade de uma vida sexual melhor será anunciada e fará dinheiro rolar sem que muitos incautos. Percebam que não é olhando para fora, arrumando o externo, que a coisa pode esquentar. É preciso descobrir os pequenos detalhes, as pequenas particularidades que torna cada um de nós especial nesta área. Todos somos diferentes e únicos. E é por causa de nossa sexualidade. O desejo muda, migra, cresce e se exaure. Todo desejo é um desejo de morte. Todo desejo quer se saciar e morrer.

 

A forma mais simples e análoga de perceber isso é observar como muda o nosso paladar ao longo da vida. Embora alguns nunca experimentem novas possibilidades e prefiram, lato e estrito, comer sempre a mesma coisa.

 

Quem me lê e já testou o tal produto? Tá bem, vou refazer a pergunta: quem tem um amigo que já experimentou o produto? O que é, uma pílula mágica? No anúncio diz que fica mais grosso e duro, além de aumentar o prazer. Será uma maromba para o pau? A gente pendura uns pesos nele e fica tentando levantar? Depois de duas semanas dá pra pendurar uma toalha molhada? Será que fica maior por causa da musculatura? Um pau halterofilista? Um pau Xuarzeneguer? Que coisa mais esdrúxula, né?

 

Estou eu aqui falando em pau com a maior naturalidade pois é assim que me refiro ao dito cujo. com naturalidade. Mas sei que tem gente que não consegue se referir ao próprio órgão com tanta intimidade. Principalmente mulheres. Ontem, numa mesa do Spot, perguntei para as 3 presentes e todas a chamavam de buceta. Um recorde. Em geral elas dizem: lá em baixo, nela, lá, em mim, ou usam nomes infantis como pepeca, pipiu, perereca etc. Mulher que fala buceta não é tão comum assim. Ou xana, ou xoxota, ou xereca. Vagina e pênis só pra consulta, né? Na hora não dá! Quer que eu ponha o pênis na sua vagina? Corta a onda geral.

 

Estou aqui, com paus e bucetas na cabeça, no bom sentido, imaginando o que anda pelas cabeças mundo afora. Sei o quanto é difícil e fundamental para a felicidade uma boa e desreprimida vida sexual. Sei que as plásticas, as academias, lojas de roupa e tudo o mais são alguns acessórios que visam aumentar o nosso poder ou nossa cotação na bolsa do desejo. Pra quê seduzir a todos quando não se deseja a todos? Por que não procurar alguém que sirva direitinho para nossos desejos e sonhos mais profundos? E não será a cor do cabelo o mais importante nessa hora. Juro. E, de repente, nem os tais 7 centímetros a mais. Agora me lembrei de uma amiga linda que sofria por querer ter 7 centímetros a mais. Nas pernas. De altura.

 

Leo Jaime escreve no Blônicas toda quinta-feira.

Escrito por Blônicas às 11h59
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- Direita, esquerda... volver!

De Rosana Hermann.

Na época em que eu fui estudante na USP, não ser de esquerda era inimaginável. Em alguns casos, era até risco de vida. E nequeles anos, oito ao todo, dos dezessete aos vinte e quatro, formei meu sentimento sobre pessoas de direita, vivendo paixões, fazendo provas, matando aula pra fazer sexo, jogando truco, misturando cachaça com fanta uva, cantandos os bares mas sempre passando de ano, terminei o bacharelado em física,  fiz o mestrado em física nuclear e entrei na ECA pra fazer comunicação.

Na minha cabeça universitária, fugindo da polícia em manifestações, ficou uma sensação de que gente de direita não tem humor, não lê entrelinhas, não tem sutileza. Direitistas são sempre pessoas tacanhas, lineares, sem beleza na alma, sem doce na mesa. Gente que não sente prazer, não se dá prazer, não permite o prazer. Gente que não trepa e, se trepa, não goza. Gente que geme pra constar nos autos. Gente que está sempre brava, que repete clichês como 'prabandidotemdireitoshumanos'. A direita pra mim sempre foi a condenação ao inferno em vida, uma vida de correções eternas, de tudo organizado, uma pasta com todos os recibos e notas ficais desde 1945. Sinto falta dessa organização, quisera eu ter alguém que guardasse todos os documentos pra mim. Mas sabe, a direita não gosta de pobre, odeia tudo o que coletivo; a direita só tem a ambição individual.

Hoje, quando vejo uma imensa onda de jovens inteligentes e bem nascidos, profetizando tudo isso, fico assustada. Sinto que nada deu certo, que os ideais morreram mesmo. Sei que os partidos são formados por pessoas que se corrompem, seja lá qual for a tendência , direita, esquerda ou ...volver. Mas acho que voltamos todos pra estaca zero. Porque não sabemos mais o que é direita ou esquerda. Não sabemos mais quem é quem, que partido é o que, como se o poder político fosse uma força do mal que homogeniza todas as intenções numa massa nojenta e cor de cocô de bebê, como aqueles alimentos de ficção científica, aquela vida futura em que os vivos se alimentam dos corpos processados dos mortos, uma coisa que parece um mar de lama.

Ninguém sabe mais o que é o quê e se sabe, não consegue explicar. Eu, por exemplo, perdi totalmente a noção, fiquei burra, ignorante. Direita, esquerda, volver. Vou voltar a pensar. Vou começar a estudar. Vou tentar entender. Não sei mais em quem votar, em quem confiar, mal consigo pensar.

Mas trago dentro de mim, algumas certezas atávicas, que podem ser úteis na hora da reconstrução. Vigas éticas, alicerces genéticos que me dizem que toda vida quer viver. Toda vida precisa viver, o máximo que puder. Toda viva precisa se salvar. Porque tudo o que é vivo quer continuar, quer se perpetuar, existir. E para que isso aconteça é preciso que exista o amor, a compreensão, a colaboração mútua, o respeito incondicional, a coragem, a lucidez, o prazer. E mais todos os gatos, cachorros, cenouras, baobás, oceanos, crianças sorrindo, chuvas de verão, a água, o ar, a terra, o fogo. As estrelas.

Hoje, acordei assim, militante do PA, partido dos que amam. E que não tem vergonha de amar.

Rosana Hermann escreve no Blônicas toda quarta, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h44
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- O retorno de Botter
De Nelson Botter Junior.

Segunda-feira eu estava em casa, sentado no sofá, lendo um livro quando meu coração começou a bater forte e descompassado. Na hora percebi que se tratava de uma arritmia cardíaca. Será que é grave? Devo correr para o hospital? Isso passa rápido ou tem que tomar remédio? A resposta para todas as minhas auto-perguntas era "sei lá". Corri para a Internet à procura de informações. A arritmia continuava, uma batedeira no coração. Duas ou três homepages depois eu desisti e disse para minha mulher: "que tal passarmos uma noite super romântica no pronto-socorro?"

Chegando lá, mal me deixaram preencher a ficha do convênio médico. No que eu falei a palavra "arritmia" uma enfermeira já foi me buscar, no melhor estilo 5 estrelas, medindo minha pressão e pulsação enquanto ainda nos dirigíamos à uma salinha de pronto-atendimento. Me senti cliente VIP. "Freqüência cardíaca variando de 160 a 180. Devemos colocá-lo numa maca?", ela perguntou para uma outra enfermeira. A resposta foi de gelar a alma: "DEVE". Sabe um "deve" que no inglês é must e não should? Pois é, desses... Então, dois médicos já vieram prontamente. Mas não é só tomar uma pílula qualquer e voltar para casa?

"Você já teve isso antes? Bebe? Fuma? Usa drogas? Viagra? Toma algum remédio continuado?". Meu Deus, estou tão broxado assim pra acharem que tomei Viagra??? Respondi a verdade: não pra tudo. É isso aí, sou um caretão beleza. "Sua vida é estressante?", "E existe alguém nesse mundo que não tenha uma vida estressante, doutor?". "Você estava fazendo atividade física no momento da arritmia?", "Não, eu estava lendo um livro... e nem era tão ruim assim pra me deixar estressado por ter gasto 35 paus nele. Aliás, livro no Brasil é meio caro e escritor não ganha quase nada disso. Não é só no meu coração que tem alguma coisa errada, né doutor?".

Tentaram reverter a arritmia sem sucesso com um remédio na veia. Eles chamam isso de ataque. Me senti no River Raid do Atari (OK, estou velho mesmo) quando a droga agiu, era um ataque aéreo, que me fez ver um túnel com uma luz distante. Como não passou o tal filme da minha vida, logo imaginei que ainda não era hora de morrer. "É, não reverteu... Olha, está tudo bem, Nelson, mas você precisa ir para a UTI". Eu nunca tinha ido a um hospital como paciente, não sabia nem o que era ser internado em quarto. Isso é o que eu chamo de estréia em grande estilo. "Bem, eu tinha outros planos para hoje a noite, doutor, mas já que você insiste..."

Fiquei lá, passando uma madrugada cheia de pim, pim, pim, que vinha do monitoramento cardíaco. Até desenvolvi uma contagem para me distrair: 1, 2, 3, pim, 5, 6, 7, pim, 8... ah, errei. Fora isso, tinha o incômodo de ficar recebendo remédio na veia. Para encurtar a madrugada e a história toda, dormir em UTI é pior que dormir em avião. Tudo atrapalha e você fica pescando, pescando, e quando vai cair no sono acorda por algum motivo. Resumindo: uma merda.

Na manhã seguinte, depois de umas duas horas de sono mal dormidas, acordei e a freqüência continuava alta. "Se não reverter com o remédio a gente te dá um choquinho e fica tudo bem", "Um choquinho, doutor?", "É, coisa leve. Você toma um negócio pra te apagar e damos o choque. Na sua idade as chances de sucesso são altas", "Choquinho, daqueles com desfibrilador? Igual do programa Plantão Médico? Na minha idade as chances são altas?". A coisa estava ficando cada vez mais estressante, o mesmo stress que produz a arritmia, ou seja, círculo vicioso!

Então, lá pelas duas e meia da tarde chegou a hora da visita. Minha freqüência estava beirando os 180. Nada de reverter, tudo na mesma. Ver a família nessas horas é tudo de bom. Se um dia algum parente seu estiver num hospital, visite-o, é muito importante. Mas também não fique muito tempo, pois começa a encher o saco do paciente. Bem, coincidência ou não, minha freqüência começou a se normalizar. Quando minha mulher apareceu, a última da fila, pois as visitas eram individuais, como num conto de fadas nos beijamos e meu coração destrambelhado ficou "bunitinhu", sossegado e compassado. Juro! Então, quando as visitas terminaram, descobri que aquele quarteto de Liverpool estava mais do que certo quando cantava que "all you need is love". Pois é, pode parecer piegas, pense o que quiser, mas naquele momento tive certeza que o amor move montanhas, nos deixa cegos, nos faz voar nas alturas e cura arritmias.

Apesar dessa crônica não ser um episódio do antigo desenho He-Man (estou anos 80 total hoje - deve ser o remédio), a historinha de hoje nos deixou uma lição: ame, mas ame MESMO. Deixe o sentimento de gostar das pessoas te possuir e acredite que isso pode contagiar aos outros. O vírus de "ser do bem". Não se trata de uma crônica auto-ajuda ou um discurso religioso, é apenas uma constatação. Ah, e até onde sei não fiquei maluco. É sério, dê importância às pessoas que convivem com você, parentes, amigos, colegas, vizinhos, conhecidos. Muita gente acha que não pode perder 5 minutinhos dando atenção às pessoas. Que bobagem! Na verdade não estão perdendo minutos na "correria" do dia-a-dia e sim GANHANDO um sorriso do outro lado. Telefone, mande e-mails, ouça a quem precisa desabafar, brinque com seus filhos, sei lá o que mais. A vida muda em segundos, camarada. Num minuto você está no sofá, no outro pode estar numa cama na UTI. Vai por mim, depois dessa experiência que passei, eu recomendo amar e se deixar ser amado. Isso faz a diferença. Portanto ame, enquanto ainda dá tempo...

Nelson Botter Junior agradece a todos que mandaram mensagens e estiveram presentes nesse momento. Ah, e também à toda equipe do Oswaldo Cruz em SP.
Escrito por Blônicas às 11h29
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- Apelo aus intelequitual
De Edson Aran.

Meu amigo Otomano Pascácio é um intelectual petista. Tem dois livros em casa. Um deles é o álbum “Grande Figurinhas do Socialismo” (falta o cromo do Ho Chi Min, que é carimbado e dá direito a um autógrafo do Hugo Chávez.) O outro é um livro de colorir.
Como todo intelectual petista, Otomano Pascácio está perplexo com a “zelite nacional”, que insiste em denunciar a corrupção no governo Lula. Para resistir ao “istabríchimenti”, como ele diz, Otomano está recrutando outros intelectuais petistas. Ontem ele me ligou:
“Aí, Aran, dá uma força pra nóis lá no Brônicas. Ocê é o único cara que eu conheço que sabe iscrevê.”
Resolvi dar uma força. Afinal, o PT, Partido dos Trambiqueiros, não pode naufragar para sempre na enxurrada de lama. Sem o PT, o que será do sebastianismo? O mito do líder iluminado, cachaceiro e predestinado, condutor deste povo explorado e que sempre se dá mal, viva o Maurício de Nassau! Bumbum baticundum procurundum.
Desculpa aí. Me deixei levar, feito um eleitor iludido pelo Duda Mendonça. Como eu dizia, antes de ser rudemente interrompido por mim mesmo, Otomano Pascácio quer fazer uma passeata com todos os intelectuais petistas do país. Ele, inclusive, coloca o fusca dele à disposição. Para ser um intelectual petista é preciso saber assinar o próprio nome. De preferência, num papel em branco. Também é de bom tom ter lido algum livro na vida. Pode ser “450 receitas de caipirinha”, o favorito do Lula, e “Como fazer amigos e traficar influência”, o preferido do Zé Dirceu. Ter o primeiro grau completo ajuda, mas não é item obrigatório. O mais importante é se mostrar absolutamente alheio aos fatos e continuar afirmando que a lambança generalizada é invenção da “zelite”. Os interessados em aderir à causa devem procurar Otomano Pascácio na delegacia mais próxima. Ele foi preso semana passada quando tentava revender dois deputados de segunda mão.

Aran é cronista do Blônicas e amigo do Roberto Jefferson./
Escrito por Blônicas às 09h33
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- Hoje eu faço 100 anos

De Milly Lacombe.

Hoje eu faço 100 anos. Lá fora, minha família espera que eu saia do quarto para comemorar. Mas eu não vejo o que celebrar, prefiro continuar deitada na cama na qual dormi com meu companheiro por 38 adoráveis verões. O que há para ser celebrado fora o relacionamento imaculado, intenso e visceral que tive com meu homem? O fato de Deus ter me esquecido aqui? De eu ter dado à luz a três incompetentes, machos sem escrúpulos, sem moral, sem coragem? Minhas noras que só pensam em comprar, viajar, na próxima lipo? Meus netos oblíquos, patuscos, preguiçosos? Todas as pessoas de bem que conheci há muito se foram. Me deixaram perdida, em meio a essa gente de valores tortos. Gente que só pensa no próximo milhão, em frequentar restaurantes caríssimos, em construir adegas com vinhos que jamais beberão.

E eu, que já vivi o suficiente para fazer compêndios sobre a podridão moral do homem, vou partir sem deixar legado. Eu, que nunca quis passar dos 50. Eu, que nunca me apeguei ao físico, ao rosto sem rugas, ao corpo esteticamente equilibrado. Já não há mais livros que queria ler, filmes que queira ver, músicas que queria ouvir. Já não me dá prazer comer, beber, dormir. Por que continuar a ser testemunha dessa degradação que me rodeia? O que vejo no espelho hoje seria um reflexo do espírito dos que me cercam? Herdeiros de nada, capatazes do amor.

Aos 40 anos, tinha esperança. Achava que o ser humano, antes tarde, acabaria percebendo que estava sendo guiado por valores errados. Bens materiais, poder, a capacidade de oprimir, a felicidade efêmera encontrada em uma peça de roupa nova. Tentei, como pude, passar essas idéias a meus filhos. Para quê? Um advogado, outro economista, o terceiro empresário. Ricos, riquíssimos. Me cercam de luxo, motorista, médicos, enfermeiros. Incapazes de passar mais do que 15 minutos a meu lado, falar sobre o que já vivi, sobre os que se foram, sobre amar e ser amado. Nada disso importa. O que vale é ostentar a amigos tudo o que já conquistaram. O carro novo, o barco capaz de chegar ao Caribe, a fazenda no Mato Grosso, o filho que fala seis línguas. Pobres farrapos humanos. Tão solitários dentro de seus cofres milionários, tão isolados dentro de seus carros blindados. Tão inadequados, tão despreparados para o que vem depois. Constroem impérios com a mesma desenvoltura com que demolem espíritos – o deles mesmos inclusive. Pequenos exemplares do pior. Um abraço, um carinho, uma palavra amiga, olhar no olho de um menino de rua, no olho do próprio filho, fazer amor várias vezes ao dia, como meu homem e eu fazíamos, passar a noite em claro batendo papo com amigos sinceros, olhando o céu, contando estrelas, imaginando o que há além. Nada disso faz parte de suas vidas. Ah, meus pobres filhos, almas tão perdidas, tão pequenas, tão miseráveis. Vou abrir a porta do quarto e me deixar misturar a essa podridão. Assistir de meu trono a decadência da espécie. A decadência de meus descendentes, de parte do que sou e do que fui.

E pedir para que a agonia termine. Para que eu possa rever meu meu cúmplice, meu homem. E que, onde quer que nos reecontremos, possamos, pelos próximos 500 anos, fazer amor como fazíamos aos 30: como bichos, tocando nossas almas com a boca, com as mãos, com a pele. E, só depois, falar do resto. Porque o resto é apenas isso: resto.

Milly Lacombe escreve em Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 14h58
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- Concheta, vita mia

De Castelo.

Meados dos anos 80.

Cassiano Roda, colega da faculdade de jornalismo, e eu visitando bancas de jornal na Avenida Paulista. (Fazíamos esse "footing" uma vez por mês pra deixar em consignação um jornalzinho de humor que editávamos – "O Matraca").Numa dessas caminhadas matinais, me veio a idéia da "extravaganza" musical. Seria uma canção italianada, cafona, daquelas que o cantor fala com a amada como se estivesse ao telefone ("stô a te ligare/pra te convidare…"). A graça, contudo, estava na letra "romântica" ser toda construída em cima de nomes de pratos das cantinas do Bexiga.Estava eu, à época, vidrado nos poemas satíricos de Juó Bananére e queria escrever alguma coisa naquele palavrório dele.Gostaria também de fazer conexões com o léxico de Adoniran, com o "Caldo Berde" de Furnandes Albaralhão e com todos aqueles humoristas que redigiram em macarrônico, incluindo-se aí o Barão de Itararé. Cassiano sugeriu o contrabaixo de "Oh! Darling", bem marcado.Voltei pra casa, mesclei Beatles com Pepino di Capri e compus primeira e segunda parte da "obra". Na caminhada do dia seguinte, saiu o recitativo. O resultado nos pareceu bastante esculhambado, mas mostramos aos vocalistas do Língua de Trapo e Concheta teve quórum. Mais: foi furor desde a primeira audição. As pessoas formavam corais espontâneos e cantavam "ô, ô, ô, ô!" durante a parte falada. Mais tarde, fãs montaram bandas só pra cantá-la no bis dos shows. Virou uma tradição. Agora, tanto tempo depois, Marcelo Cafaldo – fã do Língua, fotógrafo e amigo radicado em Roma – e Marco Paoletti me mandam de presente essa curiosa versão para o dialeto romanesco da velha "extravaganza" musical. Vida longa para Concheta!

PS: Confira a versão original da Concheta, em macarrônico, na Rádio Castelo, em www.castelorama.com.br

Concetta em dialeto romanesco:

Cara Concetta/te volevo chiamà/pe invitatte/a magnà co me/magari, magnamo le braciole/e pure er provolone/mentre a la radio/canta Rita Pavone/e poi, quarche pizza/forse california/oppuro meta'meta/Mah, che brutta sbornia:

"Concetta , vita mia, Te ricordi quella sera, che noi stavamo a quer ristorante "grupo Sergio" e tu m’ hai detto; puttana, cornuta, maledetta, disgraziata,tu m’ hai detto: Famo l'amore, famo l'amore ner letto mio a castello e io t'ho risposto: ma proprio adesso c’ho’ magnato er cocomero co l’ alice, me parli di fà l'amore? Mah...ciò n’ dolore incredibile all’'intestino, e tu ancora dichi: Macché!!.'Prenni un’ digestivo sale de frutta ! e l'intestino me faceva sempre più male Concetta, e de più, de più....a quer punto urlai ar cameriere":

Basta co la pasta/scancella la scarola/porta via li cappelletti/via er gorgonzola!/portame er sale de frutta/Dio, me sento male/stà pasta asciutta/m’ ha fatto veni’ la cagarella".

Castelo escreve no Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 11h36
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- Confissões de um bundólatra (Uma banda)

De Henrique Szklo

É possível analisar em uma profundidade atordoante a personalidade de um indivíduo apenas observando a sua bunda. Isso mesmo, a bunda, que você sempre achou que servia apenas para sentar, tomar injeção e outras atividades que não convém aqui ficar relatando, irá finalmente assumir uma posição de destaque no desenvolvimento e na formação do homem contemporâneo. Em resumo, a bunda fala. A bunda diz coisas sobre você que você nem imagina. A bunda, como o cachorro, é a cara do dono. Claro que em alguns casos é o contrário, mas isso não é novidade pra ninguém. Se os olhos são a janela da alma, a bunda é a porta de entrada. Ou de saída, depende do referencial.

Mas eu não sou um cientista, muito menos um estudioso da mente humana. Foi um acidente. Na verdade, tudo começou em função de um leve distúrbio de personalidade que eu carrego desde os meus anos de juventude. Não sei como dizer, é difícil assumir assim um problema íntimo diante de tanta gente. Não quero ser apontado na rua, mas preciso confessar o quanto antes. Não agüento mais esconder. Aí vai. Um, dois, três e já: é que... ãhn... quer dizer... bem... éééé... tá bom, vai, sou um bundólatra. Puxa, que alívio, parece que tirei um peso enorme de minhas costas (sem piadinhas idiotas, por favor). Anos e ânus guardei este segredo e agora que assumi minha condição de viciado, sinto que minha vida irá mudar.

Finalmente consegui sair do armário. Estava apertado lá dentro. Minha bunda já estava quadrada. E antes que você me entenda mal, é preciso esclarecer: quando digo bundólatra, não vai aí nenhuma conotação sexual. Bem, na maioria das vezes vai, mas agora não vem ao caso. O meu transtorno, que só pode ser de ordem psicológica, faz com que eu não consiga evitar de olhar para a bunda das pessoas. Insistentemente. Sem isso, a minha visão do indivíduo não estará completa. Um filósofo diria que estou em busca da bunda perfeita. Acho que não. Afinal eu já vi a Luise Altenhofen de costas e não me afetou em nada. Quer dizer, afetar afetou, mas não refreou meu ímpeto bundólatra nem um pouco. Provavelmente até aumentou.

Não acho necessariamente que seja um desvio de personalidade. Está mais com cara de desvio ocular, já que parece que meus olhos tomam vida própria quando pressentem a presença de uma bunda nas proximidades. Mas eu tenho vergonha na cara. Uma moça bonita cruza comigo na rua e eu faço o maior sacrifício para não olhar para trás. As pessoas não iriam entender. Pensariam que sou um tarado, um homem comum com seu olhar libidinoso. Não entenderiam a minha paixão inocente pelas partes traseiras de uma pessoa bem torneada. Sempre que estou passeando com o Max, torço para que ele dê uma paradinha na árvore mais próxima para que eu possa, sutilmente, olhar para aquela linda padaria que passou por mim e sentir a serotonina invadir cada célula do meu corpo, me inundando de tranqüilidade e paz interior. O fato é que meus olhos passeiam pelas bundas onde quer que eu esteja e o que quer que esteja fazendo. Sou capaz de enxergar uma bunda bonita do outro lado da rua, a mais de cem metros de distância. A minha preferência são as mulheres, mas tudo o que tiver nádegas é alvo de minha curiosidade insaciável: homens, velhos e crianças. Foi assim que acabei desenvolvendo, empiricamente devo dizer, a bundologia, que trata justamente de definir e estudar a personalidade de uma pessoa tendo seu rabo como ponto referencial. É uma ciência, diria, de retaguarda, na acepção da palavra. Uma ciência que gosta de ver todo mundo pelas costas. Bunda caída, bunda empinada, bunda seca, bunda introspectiva, bunda relaxada, bunda tímida, bunda cumprida, bunda larga, sem-bunda (coitados), ninguém escapa aos olhos clínicos e precisos da bundologia moderna.

Continua abaixo...

Escrito por Blônicas às 14h48
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- Confissões de um bundólatra (Outra banda)

De Henrique Szklo

Tudo aconteceu tão naturalmente. De repente comecei a catalogar mentalmente todas as bundas, banda por banda, que passavam por mim e quando vi já estava distinguindo os vários tipos de buzanfas e relacionando-as com a personalidade de seus proprietários. Inconscientemente acabei desenvolvendo esta matéria que define a psique da pessoa num exame detalhado de seu traseiro. E não fica só nisso. Sou um obcecado. Não me satisfaço olhando apenas uma vez e pronto. Olho o tempo todo. Mesmo aquelas bundas que eu já estou careca de conhecer. A bunda, na verdade, é meu elo de ligação com as outras pessoas. É através dela que eu me relaciono com o mundo. E, por favor, deixa de ser mente suja. Me relacionar com o mundo não quer dizer esta bobagem que você pensou. Até porque não uso a minha bunda para tanto. Uso a dos outros. A sua, por exemplo. Portanto, cuidado, se você me encontrar pessoalmente e não quiser que eu o conheça a fundo, que eu saiba absolutamente tudo sobre você, invadindo o seu âmago, sua alma, sua essência, seu eu interior mais profundo, não deixe sua bunda a vista. Mostre-me tuas bandas e te direi quem és.

E se existe uma coisa em que o brasileiro pode se orgulhar em ser primeiro mundo, essa coisa é a bunda da mulher nacional. Desde pequenas já se ensinam nossas moças a valorizarem seu patrimônio. São verdadeiras poupanças, rendendo juros e correção monetária para um auspicioso porvir. Basta vislumbrar uma menina jeitosinha, com seu corpo ainda em desenvolvimento e com aquele bumbum já revelando um destino inexoravelmente promissor para que o brasileiro pense: essa garota tem um grande futuro pelas costas.

Uma de minhas grandes frustrações, aliás, é não poder estar em contato mais direto com meu próprio popô, para usar um nome mais carinhoso. Assim eu estaria apto a realizar uma auto-análise mais profunda. Tão perto e tão longe. Deus, se Ele existir, cometeu um erro de projeto ao desenvolver o ser humano. A bunda deveria ser virada para frente, claro. Assim, certamente a humanidade seria muito melhor. Entraríamos em contato mais direto com nosso self. Com nossos gases também, mas tudo bem, não se pode ter tudo. Bastaria você olhar no espelho e enxergar seus defeitos e suas virtudes e, a partir daí, corrigir o seu comportamento. Não, se alguém quiser se conhecer, precisa usar dois espelhos e fazer o maior malabarismo para ter apenas uma pequena mostra de quem ele é de verdade. Até porque, no espelho, parado, atingimos apenas uma pequena parte do que podemos analisar em uma estrutura anatômica tão complexa como a bunda. Você faz idéia de quantos músculos tem uma região glútea? Eu também não, mas adoraria saber. De qualquer maneira, o fundamental é vermos a bunda em movimento. O movimento das bandas, a velocidade, o ritmo, tudo é passível de análise. Só sim estaremos diante de uma visão completa de um ser humano. E do que ele é por dentro.

E como nem tudo são flores, principalmente quando se fala de bunda (a não ser nos papéis higiênicos perfumados), existe o lado desagradável deste meu desvio. Sofro demais quando tento dar um tempo no meu vício e olhar as pessoas só da cintura para cima. Amigo, não é fácil. A vida sem bunda é dura. A crise de abstinência é pesada. Insuportável. Começo a ficar inquieto, irritadiço, passo a procurar meu objeto de desejo em tudo. Fico olhando traseira de carro, bunda de cachorro (cuidado Max!), costas de figurinha, o que for. Aí, não resisto mais e corro meus olhos para a primeira bundinha bonitinha que passar e tudo se acalma novamente dentro de mim.

Tenho certeza de que não estou sozinho no mundo das bundas, por isso estou até pensando seriamente em fundar a ABUNDA, Associação dos Bundólatras Anônimos. Se você for um dos meus e estiver interessado em se abrir com outras pessoas, discutir francamente um tema que esconde por timidez ou vergonha, junte-se a nós. Mande um e-mail com seus dados e uma foto. Da bunda, claro.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas e estará com sua mãe fazendo a cobertura do Festival Internacional de Publicidade em Cannes. Leia tudo no Blog da Sarah.

Escrito por Blônicas às 14h46
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- Quem fala?

De Leo Jaime.

Alguém atende ao telefone e me pergunta, ao ouvir-me dizer com quem quero falar: quem deseja? Logo me vejo transportado para o mundo das idéias, para o que o populacho chama de papo cabeça. Quem deseja? Tem prêmio se disser a resposta certa? Há resposta? Tento, um tanto acanhado: o homem, ou o sujeito - caso a abordagem seja mais psicanalítica; o indivíduo deseja; é inerente ao indivíduo desejar. Fico aguardando um longo instante para que do outro lado da linha se confirme a compreensão do que disse bem como a aprovação da resposta.

Alguns segundos se passam até que a voz longínqua tenha tempo para reformular a pergunta: quem quer falar com fulano? Ah, então era isso! Nada de indagações existencialistas, o que se quis dizer com o 'quem deseja' estava longe de ser uma charada, senha ou tentativa de aprofundamento da relação. Era só preguiça de dizer o necessário, ao meu ver, complemento: 'quem deseja falar com fulano?'.

Digo o meu nome e volto ao mundo das dúvidas. A voz me pergunta simplesmente: 'De onde?'. O que será que devo dizer? Onde nasci? Onde conheci o tal fulano? Onde estou no momento? Onde moro? Enquanto as possibilidades vão se multiplicando divido o pensamento com a possibilidade de estar mesmo sendo sondado para uma possível amizade afinal a pessoa com quem falo se interessa mesmo por mim, minha estória e opiniões. Sorteio uma das possíveis respostas e fico aguardando o que virá em seguida.

A voz, sem manifestar alguma emoção, quase automática, antes de silenciar ordena: 'calma aí'. Percebendo que estou falando com alguém que não fala a mesma língua que eu, embora fale português desde que nasceu, assim como eu, compreendo que a ordem substitui o ultrapassado 'um segundo', ou o mais sincero 'um momento, vou ver se fulano está' que costumava ser dito em tais ocasiões. Concluo isso por fazer uma rigorosa auto-análise e me certificar de que não estou nem um pouco nervoso, portanto a ordem para que me acalmasse não era para ser seguida ao pé da letra.

Sou um colecionador de palavras e alegrias. São as coisas que gosto de colecionar. Palavras e seus significados. Um acinte dizer que existem sinônimos para quem, como eu, procura a peculiaridade de cada palavra. As alegrias também, são todas diferentes e particulares. Só se vive uma alegria uma vez. Enquanto ninguém volta ao telefone para dar continuidade à conversa, fico pensando nisso. No quanto a palavra vai perdendo o seu valor.

Os vocabulários vão aumentando e não há como detê-los e, ainda assim, é muito comum a percepção de que cada vez mais é comum encontrar ou papear com quem usa o mínimo de palavras. A língua evolui, se modifica, as palavras vão sendo metamorfoseadas e, no entanto, quando vejo o povo da internet escrevendo naum quando escrever corretamente o não seria possível e igualmente trabalhoso, sinto os diálogos terão de ser cada vez mais breves e superficiais. Começo a perceber como é possível ser estrangeiro para com a própria língua vivendo no país de origem. Lamento isso como lamento que haverá uma geração cuja trilha sonora seja música instrumental sem melodia e feita em série, de modo industrial, o que impossibilita a memorização. Não haverá para estes as canções de sua história ou as marcas, os ícones de cada fase ou romance.

Será o fim da literatura? O fim da poesia? Será que ninguém mais vai escrever uma carta de amor? Será que ninguém saberá escrever aquele bilhete que enche os olhos de quem os lê? Aqueles que fazem os olhos ficarem molhados enquanto a mente voa?

Fico distraído pensando nisso tudo e desligo rápido antes que alguém fale do outro lado. Esqueci para quem tinha ligado.

Leo Jaime escreve no Blônicas toda quinta-feira.

Escrito por Blônicas às 09h11
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- As putas e as amadoras

De Rosana Hermann

Não sei qual a palavra se qie opõe a 'puta', a mulher que presta serviços sexuais mediante remuneração. 'Mulher honesta', já perdeu o prazo de validade além de ser cafonérrimo. Por falta de um termo melhor, vou usar a palavra amadora, para descrever a mulher não-puta, até pela multiplicidade de interpretações.

Definido o termo, vamos ao postulado: amadoras não gostam de putas.

As prostitutas de rua, as que vendem serviços corporais para sustentar o filho, as meninas que foram abusadas sexualmente, engravidaram e foram expulsas por pais ignorantes, essas, as mulheres amadoras compreendem e a elas demonstram apoio e solidariedade. Há muitas prostitutas que despertam afeto e admiração por parte das não-putas, por diferentes motivos e histórias de origem. Mas há uma certa categoria que as amadoras odeiam: a putinha.

A putinha, ou garota de programa, é aquela mulher bonita, gostosa, atraente, safada, sem-vergonha, comedora, que só de descrever aqui já faz muito homem ficar com tesão e muita mulher ficar com ódio mortal. (Meninos, por favor, contenham-se e mulheres, larguem as facas. ) É aquela jovem que só quer pegar no duro no sentido fálico, que acha que estudar e trabalhar são atividades que exigem muito esforço para pouco resultado, que  prefere a rapidez do dinheiro diário ao salário mensal, mesmo que para isso tenha que trocar a carteira de trabalho pela carteira do cliente. A garota de programa quer desfrutar depressa do bom da vida, a qualquer preço, talvez porque saiba que o produto que vende também acaba em pouco tempo.

Engana-se, no entanto, quem acha que a puta é mulher de vida fácil. Por mais clichê que seja a colocação a maioria das pessoas ainda comete este equívoco de intepretação. A dificuldade, ao que tudo indica, não vem do fato de ficar nua, fazer sexo e tirar a roupa, ao contrário. Não só  não há dificuldade para uma mulher jovem e bonita em mostrar ou usar seu corpo,como é até motivo de orgulho, razão pela qual toda puta adora se expor, embora nem todo mundo que adore se expor seja necessariamente uma puta ativa. O problema é o outro, quem paga. Porque o dinheiro nivela a clientela por baixo, literalmente. Os feios, os nojentos, os sujos, os depravados, os fedidos, os asquerosos, os podres, os que tem bafo, os desagradáveis, tem os mesmos direitos de consumidor dos gostosos, dos cheirosos, dos libidinosos malhados, dos bonitinhos e dos bonitinhos mas ordinários. Deve ser muito difícil, especialmente para a puta contratada, explorada, que não tem o direito da autônoma de dizer 'não', enfrentar essas carnes do ofício. Como disse uma puta numa entrevista, "o dinheiro que eu ganho não é fácil, é só rápido". Rápido, sim, o tempo de tomar um banho, chorar de nojo no chuveiro, secar o cabelo, fazer uma chapinha e ir torrar a grana comprando um jeans apertado e um sapato de salto, por exemplo.

Na categoria de amadora, se é que represento alguma mulher, acho que deveríamos ser mais humanas e condescentes com todas as putas, de todas as modalidades, superando o medo feminino eterno de perder (ou dividir) seu homem com uma profissional. As mulheres que lidam diariamente com homens na intimidade, sempre tiveram papéis relevantes na história humana, de espiãs à delatoras, de concubinas à mães de herdeiros poderosos.

Agora, por exemplo, precisamos de todas as mulheres. Neste momento histórico à beira-mar, em que os corruptos saem pelos buracos da areia e da lama, em que as denúncias transbordam pelo ladrão (ehehe...), quanto a transparência da política só nos revelam as pelancas escondidas durante anos debaixo das cintas da mentira, as putas teriam um papel fundamental na sociedade. Se todas as putas, putinhas, garotas de programa, amantes, teúdas e manteúdas, amadoras e profissionais, se unissem às esposas, namoradas, noivas, e também as prestadoras de serviço como lavadeiras,copeiras, cozinheiras, secretárias, assistentes, com a missão de lavar as cuecas sujas destes governos de bundões, revelando tudo o que sabem, mostrando jóias, bens móveis e imóveis comprados por corruptos com o dinheiro público, trazendo à público os segredos de alcova, o Brasil mudaria pra valer.

Seria a glória e salvação da pátria. Mas isso, só se as mulheres se amassem, a si próprias e umas as outras. Isso, só se as mulheres descobrissem que o poder de procriar é o mesmo de criar, destruir e recriar. Isso, só se todas as mulheres liberassem a energia mitológica, atávica, arquetípica da puta, contida em todas nós, e abrissem as imensas bocas de batom vermelho para contar tudo como o mesmo prazer que abrimos nossas caixinhas de prazer.

Mas isso, não vai acontecer.
Não vai, mas seria um momento inesquecível da história do Brasil:

- o dia em que cada puta mandou cada filho da puta  de volta, pra puta, que o pariu.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 18h53
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- Em defesa dos solitários

De Xico Sá.

 

Aproveito o barulho da efeméride de ontem, o dia dos pombinhos, para tratar das vantagens da solidão _essa pantera inseparável, como dizia Augusto dos Anjos_, que nunca teve direito a um segundo de comercial na tv ou qualquer foguetório publicitário do gênero.

Vender celular, por exemplo, essa febre que virou brinco em todas as orelhas de jovens e madames, não combina bem para o mundo das damas e cavaleiros solitários.

 A alma do negócio é outra, mesmo que falsa: o apelo é feito para quem tem amores, quem tem muitos amigos... Cadastrem os casos, as amantes, as namoradas, o papagaio... e fale mais barato o minuto...

O massacre é tanto que alguns solitários se trancam dentro de suas casas em finais de semana como este que passou. A vergonha de ser sozinho(a) depois de tanto samba-exaltação e “felicidade” publicitária em torno da data.

Imagina sair por ai e almoçar solamente só, melar os beiços com a solidão de um galeto, e voltar para casa chupando o frio chicabon dos desamparados?

Vexame!

Como cantarolava o Jorge Ben das antigas, “mas que nada, saia da minha frente que eu quero passar...”

Nada mais elegante do que a solidão tranquila, um trago no balcão do bar, ninguém para encher o saco _a não ser os chatos que se multiplicam por ai, onipresentes, malas, malas, malas. Esses, porém, a gente se livra fácil, não voltam para os nossos lares doces lares.

  Não que o amor não seja lindo. Nada disso. “Te amo porra”, bem sabes, como diria o Pereio.

É obvio que vivemos grandes momentos envenenados por Cupido. O que faço nestas mal-traçadas linhas é uma defesa da decência solitária, o direito até de esnobar com um "I want to be alone" à Greta Garbo.

De não deixar-se adoecer pela ditadura da falsa felicidade publicitária!

De chegar em casa feliz, botar um disco novo, tomar um uísque...

De cantar Antonio Maria da forma mais irônica, como ele também hoje cantaria: “Ninguém me ama/ ninguém me quer/ ninguém me chama/ de Baudelaire...”

De adolescentemente “ficar”, ficar, ficar, ir ficando... O amor que fica.

Não se deixe intimidar pelos coraçõezinhos de vento que tomaram conta ontem dos tetos das churrascarias, cantinas e restaurantes.

Lembre-se das falsas promessas, dos chifres, das ilusões perdidas...

O amor é assim mesmo, como nos disse Carlos, hoje beija, amanhã não beija... agora é segunda-feira, dia de Santo Antonio, e ninguém sabe o que será.

Solitários e solitárias, cantemos com os jovens mancebos do grupo pernambucano Mombojó, esse é o reino da alegria, tudo pode acontecer, não temam!

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 12h30
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- Somos todos otários

De Milly Lacombe

Você é um otário. Ao seu lado tem mais um otário. Lá fora, vai ver, tem mais um monte de otários no ponto de ônibus. Eu? Eu também sou uma idiota. Aliás, vá lá, somos todos imbecis. Pois quem, a não ser um bobalhão acreditaria em tudo o que andam contando pra gente?
“Não tenho medo de ninguém, vou apurar isso até o fim”, bradam os homens honestos da capital. “É uma vergonha, nunca vi nada parecido”, ecoam aqueles monumentos de integridade moral do Distrito Federal. E o que se faz? Um escarcel midiático porque prenderam o sujeito que gravou a corrupção enquanto ela acontecia. Como quem diz: “Viu como estamos investigando? Prendemos o irresponsável que detonou a crise”. E nós, os panacas, pensamos: “Cruzes, como eles agem rápido!”. E então, num raro surto de lucidez, divago: do que me interessa saber quem gravou e por que as fitas foram gravadas? Aliás, no meu mundo, esse homem que gravou as fitas bem podia ser condecorado. Mas isso no meu mundo, e, como já ficou claro, sou uma imbecil.

Pensando bem, onde estão os desonestos da capital? Em entrevistas, esses beatos são todos imaculados: “Isso é um absurdo. Temos que investigar!”, repetem a exaustão, muito preocupados com o povo. E do outro lado da linha tem sempre um apatetado como você e eu que pensa: “Ah, finalmente, agora sim. Acabou a roubalheira.” Aí, ô bobão, presstenção: tua grana foi usada pra dar mesada pra político votar emendas. Agora, vota-se movido por grana, fodam-se as crenças. Se nas atuais circunstâncias democráticas não dá pra bolchevista que veste Armani instalar uma ditadura nos moldes da de Cuba, então por que não pegar a contribuição fiscal do povo e sair comprando ideologias? Uma ditadura seria menos pesada aos nossos bolsos, isso sim.

A propósito: quais foram mesmo as emendas “compradas” se há dois anos e meio não se vota nada que seja relevante para o povo. Devem ter votado em coisas do tipo: “Hoje, em pauta, a liberação de trocentos hectares de terra para o prefeito da base governista de Picaretagem do Sul. Quem é contra?” Por 30 mil extras por mês, ninguém move um fio de cabelo. “Aprovado”. Numa conta rápida, se chutarmos que cada picareta de Brasília é o responsável direto pela miséria de 50 mil pessoas no Brasil, então eu talvez comece a acreditar em inferno.
Com o PT no poder conhecemos o caldo que dá quando se mistura corrupção com incompetência e soma-se à receita doses cavalares de arrogância. Já tínhamos visto isso antes, mas a coisa agora é bem pior. Porque nesse filme é o mocinho que está metendo a mão na gente. E eles estão lá agora, trancados em uma sala, fingindo que vão investigar, mas, no fundo, rindo da nossa cara. Ou você acha já viu bandido investigar bandido? No meio de tanta podridão não dá mais pra saber quem é o ladrão.

Meus caros colegas otários, preparem-se para a nova engabelada marqueteira: vão usar mais grana do nosso suor para dar para o milionário da rinha de galos criar campanhas pró-Governo. “O Governo federal faz maravilhas por você”, tudo com um fundo musical bem poético, pra levar você e eu, os idiotas, às lágrimas. Nosso carismático presidente disse que nunca sofreu tanto na vida como durante aquele primeiro tempo do jogo Brasil e Argentina. Pois pelo andar das Harley Davison zerinho de sua frota de batedores, sofrimento maior está a caminho. Se não para ele, certamente pra gente, os otários.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 21h46
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- Irreflexões de um escritor de humorescos

De Castelo

Segundo mestre Paulo Rónai, humoresco é um pequeno texto de humor.
Nem tão minúsculo quanto uma piada, nem tão grande quanto um conto.

Depois de tentar um romance sobre um publicitário decadente, um livro infanto-juvenil, produzir contos inacabados e até me meter a fazer poesia, descobri que tinha vindo ao mundo para escrever humorescos.

Não podia ter feito escolha pior.

Pra se ter uma idéia de como humoresco está por fora, uma agente literária ao ouvir que eu queria reunir os meus num livro me aconselhou a afogá-los numa privada.

“Editor não publica essas patacoadas que vocês jogam na internet ou em revistas desconhecidas”.

Indignei-me: “Se o material tivesse qualidade, por que não o publicariam?”

Ela deu uma tragada no seu baixos teores de nicotina e foi bem direta: “Porque você não é o Dostoievski. Ou é?”

Olhei para o pacote com 200 laudas em minhas mãos e tive ganas de socar cada uma das folhas na goela daquela ordinária, entuchando o Free junto, faringe abaixo.

Mas preferi dizer que ela tinha razão. E, mais tarde, quebrar as falanges dos dedos socando  a parede do meu quarto.

À noite baixei num bar da Vila Madalena – reduto de escritores fracassados, de humorescos ou não – e tomei uma carraspana no “Filial”.

O garçom deu uma sugestão. “Por que o amigo não contrata uma assessoria de imprensa? Todo artista agora tem uma”.

Sou daqueles que dá ouvidos aos leigos em Literatura. Especialmente quando bebo caipiroska.

Fui atrás.

Uma jornalista, bastante versada na área literária, me recebeu.

“Humoresco, mas o que é isso?” – nossa conversa começava mal.

“Crônicas de humor” – expliquei.

Ela esboçou interesse.

“Alguma com temática que dê Jô Soares?”

Eu não me via novamente no programa daquele gordo.

Viro um mudo em “talk-shows”. E ninguém entende como um vivente que escreveu um livro chamado “Faça Sexo Agora - Pergunte-me Como” possa ser uma pessoa reservada.

De mais a mais, minha derradeira incursão ao velho “Jô Onze Meia” foi surreal.

Parecia um escritor de obituários sendo entrevistado pela Vovó Mafalda.

(Pra ser franco, nunca aceitei a idéia de que pra ser escriba é preciso ser “show-man”).

Acabei confessando à assessora que não possuía nenhum gancho para o Jô.

“Mas tenho uma personagem forte. Ela poderia dar título ao livro e amarrar as crônicas”, argumentei.

“Quando mudar de estilo ou fizer um romance, me avise – concluiu ela me entregando o cartão social.

A carraspana daquela noite no “Pasquale” deve ter entrado para o “Guiness Book”.

Castelo escreve todo sábado aqui e tem um site que merece visitação.

Escrito por Blônicas às 11h20
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- Oficina do Diabo

De Henrique Szklo

“A cabeça vazia é a oficina do diabo”. Provavelmente você já ouviu esta expressão antes. Se não ouviu, aproveite para refletir sobre ela. Também não quer refletir? Tudo bem, então deixe que eu reflita por você. Ninguém melhor que eu para compreender a profunda lição contida em tão poucas palavras. Uma outra maneira de dizer a mesma coisa seria: “Pára de pensar em merda e vá fazer alguma coisa que preste, seu vagabundo!”. Muito menos poético, claro. Mas, talvez, mais eficiente. Eu, que sou um exímio pensador de merda, tenho autoridade suficiente para interpretar esta frase como uma tentava ignominiosa de se fazer com que todas as pessoas tenham sempre a cabeça ocupada com algum tema relevante para que não comecem a fazer bobagem. Pensando bem, tem bastante gente que eu conheço muito mais gabaritada que eu para interpretar essa jóia do pensamento contemporâneo.

De fato, o ser humano evoluiu muito e sua cabecinha complicada não conseguiu acompanhar essa evolução. Nós fomos criados para sobreviver, não para viver. Apenas isso. Calma, eu explico. Nossas ferramentas mentais e físicas foram desenvolvidas com o único propósito de procurar comida, comer, dormir, nos proteger de predadores, procriar, realizar necessidades fisiológicas e só. Quando descemos da árvore (alguns, porém, ainda permanecem lá em cima. Metaforicamente, quero dizer) começamos a fabricar ferramentas e desenvolver métodos para facilitar nossa vida e conseguir tempo livre para viver. Talvez o que não nos damos conta é que “viver”, pelo menos do ponto de vista de todas as outras espécies de animais, significa apenas procurar comida, comer, dormir, nos proteger de predadores, procriar e realizar necessidades fisiológicas. Movimentar o ciclo natural. A medida em que estes problemas praticamente não podem mais ser chamados de problemas (pelo menos para uma boa parcela da população mundial), a nossa cabecinha passa a se defrontar com um vazio existencial impreenchível. Não fomos feitos para “curtir a vida”. Não fomos idealizados para ter férias, guardar bastante dinheiro ou precisar arrumar atividades para ocupar nosso tempo. O homem luta desesperadamente para ganhar tempo e depois não tem o que fazer com ele. O homem não precisa de tempo livre. E é isso que nos torna sedutoramente inviáveis. Portanto, a oficina do diabo é um terreno mais do que fértil. Talvez por isso mesmo que o mundo está do jeito que está. Talvez se voltássemos ao básico, voltássemos para cima das árvores e nos preocupássemos apenas com nossa subsistência, talvez nossa vida fosse melhor. Mas como ninguém é idiota a ponto de levar uma idéia dessas a sério, tudo vai continuar como está. É, mas também não está tão mal assim.

Bem, já que não conseguimos decodificar a frase feita do início do texto, vamos à outra: “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Essa é mais fácil de entender. Ou não? Bem, não importa. O que eu quero dizer, trocando em miúdos é que resolvi tirar proveito destas duas pérolas da cultura popular e ver se eu consigo ganhar alguma graninha.  É isso. Curto e grosso. Simples e direto. Mais fácil de entender, impossível. E para atingir meu nobre objetivo criei no ano passado um workshop de redação criativa que pretende, entre uma centena de outros desafios intransponíveis, trazer para alguns escassos e corajosos interessados, um pouco daquilo que aprendi na marra, com sangue, suor e lágrimas. Ou seja, em apenas 5 dias (de segunda a sexta) ensino alguns atalhos muito interessantes e enriquecedores do oficio de juntar palavras e construir pensamentos, idéias, conceitos, enfim, nos comunicar. É incrível, mas isso é possível sim.

Aliás, as palavras também são um elemento completamente alheio ao desenvolvimento natural das coisas. As palavras são frias, vazias, ocas. Elas, em si, não expressam nada. Comparadas à linguagem do corpo, dos olhos, dos cheiros, das energias, elas são praticamente nada. Foi outra ferramenta que o homem inventou para facilitar sua vida e não precisar se comprometer com ela. As palavras são aquilo que seu criador quiser que elas sejam. São vis mercenárias, capangas contratadas, fazem apenas o que são mandadas fazer. Eu, se fosse você, não confiaria nelas. Porém, não estamos aqui para desestruturar todo o pensamento filosófico moderno. Estamos apenas tentando vender algumas vagas para um workshop. Então vamos a ele.

AGORA PELA INTERNET
O nome escolhido, OFICINA DO DIABO, foi apenas uma maneira de chamar atenção, nada de especial. Mas, de qualquer maneira, serviu como referência para eu falar esse monte de bobagens que você acabou de ler. Cheguei até a mudar de nome para Oficina de Neurônios em função de algumas reclamações e processos na justiça, mas a procura pelo curso despencou, então estou voltando com o diabo. E tem mais novidade por aí. Agora o curso é pela internet, em formato e-learning!

É claro que ninguém vai aprender a escrever em um mês (cinco aulas – uma a cada 5 dias) e nem é essa a proposta. Na verdade o que eu pretendo é compartilhar minha visão e minhas técnicas de redação e tentar, através de exercícios divertidos, vivências inusitadas e rituais pagãos, ajudar as pessoas a desbloquear e, conseqüentemente, desmistificar a arte de escrever.

Mas se engana quem pensar que é apenas mais um workshop de redação criativa, como tantos outros que existem por aí. O nosso tem alguns componentes que considero fundamental para o perfeito funcionamento do desbloqueio durante as vivências e exercícios propostos. Não consigo lembrar de nenhum agora, mas pode acreditar que eles existem. De qualquer maneira, a OFICINA DO DIABO é uma experiência única. Uma aventura deliciosa no mundo das palavras. Ritualística, lúdica, litúrgica, divertida, transcendental.

Quem estiver interessado ou quiser maiores informações, clique aqui

Se você tem a intenção de participar precisa correr. Porque como você sabe, de boas intenções o inferno está cheio. Portanto, pára de pensar em merda e vá fazer alguma coisa que preste, seu vagabundo!

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h04
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- Eu sou uma pessoa

De Leo Jaime.

 

Quantas coisas você já leu na internet com esse princípio. Essa é a frase inicial com a qual as pessoas, em geral, se descrevem. sim, se colocando na terceira pessoa do singular, virando um ele ou ela, mas certamente crendo que é assim que se deve falar de si. Eu sou aquele que, sou uma pessoa que , e por aí vai fechando  as possiblildades de discurso íntimo. O que se está apresentando é uma imagem pública, um no meio do povo.

 

    O que pretende alguém que compra a roupa que todos estão usando? Ser alguém como os outros. E quando se quer fazer o que todos fazem ou ir onde todos vão? A segurança de ter algo que já foi aprovado, experimentado e que não vá ser motivo de chacota. Destoar é, e esse é o medo, isolar-se e destacar-se da massa. Mas como perceber uma individualidade sem se destacar da família, do grupo, do público e comum? Mas será que não é exatamente para aplacar a angústia de possibilidades existenciais que existem todos esses subterfúgios?

 

    Dia desses conversava com alguém que exaltava a qualidade de quem sabia sua serventia. A afirmação era contundente: ninguém sabe para o que serve! E não pude contestar. Claro que por mais que alguém seja útil e faça um monte de coisas não está claro que ele sabe para o que serve, qual sua vocação e chance de estar fazendo o que é a sua vocação é remota. Você sabe qual a sua vocação? Está praticando ela? Sois um felizardo!

 

    Ao longo da vida vamos mudando, e assim mudam o cabelo, os figurinos, os amigos ou parte deles, os hábitos, os gostos. Mudamos muito! Esse percurso pode ser rumo à própria identidade ou pode ser apenas um rodízio de corpos e funções pelas quais uma alma vai pagando suas provações. É muito possível chegar ao fim da vida sem saber direito o que é que veio fazer ou se veio fazer alguma coisa específica. Quero dizer: se era pra ter feito algo em especial. Quem se pergunta? E, uma vez que se pergunte, o que acontece caso a resposta nunca venha?

 

    Ao meu ver, enquanto as respostas não aparecem é difícil dizer eu sou. Seja lá o que for. É mais fácil dizer "eu sou uma pessoa que..." Na terceira pessoa. Eu sou aquele lá. E não faço idéia de quem seja a voz que diz isso.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h13
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- O único assunto do Brasil

De Rosana Hermann.

 

Denúncias de corrupção pipocam em fogo alto. Acusados jogam merda no ventilador decididos a irem para o inferno arrastando um mar de companheiros. A estabilidade política titubeia, o mercado se assusta, o país vacila. Vejo uma rodinha de pessoas conversando e me aproximo, buscando alento contra o medo de um colapso geral no governo. E a primeira coisa que ouço é: “você já soube que a Cicarelli beijou o advogado dela na boca?”.

 

Vou para uma reunião de trabalho, com empresários envolvidos com exportação e me preparo para debater sobre o futuro próximo, buscar uma previsão para a queda da bolsa e a alta do dólar e discutir os rumos do país. Mas eles atacam primeiro e à queima-roupa, disparam no peito: “o que você acha que vai acontecer se o Vesgo e o Ceará saírem do Pânico?”

 

No meio dessa sala de estar tropical à beira mar, não foram colocados bodes e cabritas quaisquer para distrair a família brasileira, mas sim, caprinos famosos que agitam a vida nacional pela televisão. É sobre eles que falamos o tempo todo, são eles os únicos interesses da nação. Não se fala em outra coisa além da vida dos famosos. Não há outro interesse.

 

Hoje, para que uma revista venda, seja ela de negócios, computador ou artesanato em macramé, é preciso ter uma celebridade na capa, senão, não vende. Para que alguém visite um site, há que se falar alguma coisa sobre um famoso em algum lugar, de preferência com fotinha. O sucesso de um evento, convenção ou prêmio, depende do ator global que vai apresentá-lo. O próprio Pânico, bola do momento, começou com um repertório de quadros de humor próprios, mas só explodiu quando Vesgo e Ceará começaram a perseguir os famosos. Seja em situação de humor, de vexame, de constrangimento ou horror, o interesse que temos, real, genuíno, intenso e mobilizador, é sempre pelas celebridades.

 

Está acontecendo em muitos lugares do mundo, mas no Brasil é flagrante. A literatura de folhetim que gerou a novela de tv, formato simpático e bem produzido em alguns casos, elimina a etapa da leitura e reafirma a tradição áudio-visual de contar histórias. Seria só uma possibilidade de entretenimento, mas como só temos isso, depois de cinqüenta anos diários de capítulos que se seguem sem trégua, o Brasil acabou sendo instalado nesta plataforma e hoje, só somos capazes de acompanhar a vida dos personagens das telas, numa interminável novela. Se não for assim, não interessa.

 

Não sei se é bom, ruim, péssimo, triste ou catastrófico, mas assim é, ou me parece. Quem se importa se grandes bandidos não forem presos, que interessam as denúncias de corrupção, quem quer ler sobre o desmatamento da Amazônia diante da possibilidade da Cicarelli ter beijado o próprio advogado, depois de uma separação tão recente e ainda por cima... na boca? Não sei se Ceará e Vesgo vão sair, mas eu, já entrei, em Pânico.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h49
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- Eu já sabia! Filma nóis rede grobo!

De Nelson Botter Junior.

 

Desde os tempos do descobrimento, as patifarias são marca registrada dessa terra tão rica e próspera. Deveríamos requerer patente e processar outros países corruptos por se utilizarem de algo tão nosso. Acredito ser tudo graças à colonização exploratória que sofremos, responsável por cicatrizes grotescas no caráter dos homens que detém o poder aqui. Cruz credo!

 

Desde as capitanias hereditárias a coisa anda de mal a pior. Então, anos depois, a chegada de Dom João VI fez com que o país se desenvolvesse... e a corrupção - que não é boba nem nada - pegou carona. Colônia, império, república, ditadura, democracia, seja lá qual for o regime, os donos do poder estão sempre engordando.

 

Quis o destino - ironicamente, é claro - que dessa vez fosse um magrinho que jogasse a bosta toda para o alto, para cair na cabeça de quem estivesse com ou sem carapuça. Mas verdade seja dita, um magrinho que já foi bem gordinho. Salve a tal cirurgia de estômago, que amputa o seu receptáculo de alimentos e faz de você uma pessoa mais feliz, pois vai emagrecer pacas!!! Mas será mesmo? Xiii, e o prazer de comer, onde fica? A libido é importante gente, não a satisfaz, dá nisso... fica infeliz. Não pode comer comida, resolve comer dinheiro. Aí se ferra e quer ferrar todo mundo junto. É, camaradas, cuidado com os ex-gordinhos.

 

Ah, mas é bom que isso aconteça para que o reizinho de Brasília veja que o trono em que ele está sentado e o do banheiro lá de casa são iguais. E não chora não, reizinho, a coisa fica remexendo aí dentro e até dói um pouco pra sair, mas depois é um alívio fantástico. Então, me vem à mente: será que o ex-gordinho que come pouco também perdeu esse prazer? É fróide, hein, Freud?

 

Fica agora a falsa impressão de que combatemos a corrupção. Temos CPI de tudo quanto é jeito e maneira, verdadeiro rodízio de pizza. Fico imaginando como deve ser para esse pessoal da câmara fazer cara de "nossa, jura que isso está acontecendo?" quando todos que estão ali sabem o que se passa naqueles prédios bonitos, projetados pelo vovô Niemeyer. Um verdadeiro teatro. Vamos brincar de caçar bruxas, quando na verdade todos tentam esconder suas vassouras e caldeirões. Claro, sempre tem um sapo ou outro por aí, mas são poucos, tão poucos.

 

Enquanto isso os vassalos vão tocando o feudinho Brasil, pagando impostos pesadíssimos e medievais, acompanhando de longe o que se passa no castelinho do planalto central... mas isso até as 21:45h, pois depois é jogo da seleção e é isso que realmente interessa. Até ouvi falar de um tal de Impeachment, deve ser argentino, mas pela escalação não vai jogar. Já que o Ronaldo não está no ataque, só o Roberto (dinamite) Jefferson, o jeito é gritar: pedala, Brasil, pedala!

 

Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas todas as terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h28
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- Enquanto ela escolhe a roupa

De Xico Sá.

 

O que fazer enquanto a sua mulher, amante ou namorada se arrumam para sair?

Aí está uma das grandes questões da humanidade. Sorte tinha Adão, que pegou o mundo ainda sem muitas opções no vestuário e longe, muito longe da praga da indústria fashion.

 Mesmo assim, Eva demorava horrores para escolher a parreira mais fresca, a mais enfeitada, aquela com detalhes e nervuras que lembram a costura de um Ronaldo Fraga, de um Hercovitch, nossos modernos estilistas.

O que fazer enquanto ela põe roupa e tira roupa, mulher alterada, doida demais, peça por peça do armário? 

Põe e tira, vai ao espelho, pede a sua opinião... Liga para pedir a opinião da melhor amiga _afinal de contas você, velho macho conservador não entende nada dessas modinhas_, volta ao espelho, muda só a parte de baixo, agora muda só a parte de cima, troca o brinco, o colar novo, “ah, esse não combina”...

Não adianta você, caramigo, dizer que está ótimo, dizer que nunca viu mulher tão linda, dizer que nunca a viu tão deusa, dizer que é a mulher da sua vida, a que se veste melhor, a de gosto estupendo, a mais francesa das francesas, a bonequinha de luxo posando na frente da Tiffanys, a Audrey das Audreys, Catharenin Deneveuve, Juliette Binoche...

De nada adianta. Ficamos falando sozinhos nesse momento ímpar do mulherio.

O que fazer?, então, como perguntava o velho Lênin antes neoliberal e capitalista?

Relax, meu jovem, relax,  caro mancebo, tranquilidade, cabrón. Como não tem remédio e nem nunca terá, o jeito é retomar tempo perdido a nosso favor. Já tive mulheres que demoravam o tempo de um jogo de futebol _com prorrogação e morte súbita_  para escolher a “roupa certa”.  Vi muitas decisões de campeonato graças às dúvidas fashion da costela amada. Gracias.

Putas escritores, como o velho Hemingway, deixaram grandes obras graças às demoras das “patroas”. Grandes inventores, idem. O humorista Grouxo Marx agradeceu publicamente à sua mulher por deixar-lhe livre para criar ótimas piadas nestes intervalos. Os exemplos são muitos. Meu amigo Pereira, velho porco chauvinista, volta à infância e monta castelos e castelos de legos. Rebelo, chapa de Curitiba, aproveita para treinar tirar ao alvo... E assim espera o mundo macho.

E quando ela, além da dúvida da roupa, diz que está gorda?  [Ai já é bronca de mais para uma só crônica. Fica para a próxima].

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 14h30
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Lusa surfistinha

De Lusa Silvestre.

 

Esse meu amigo, Marcão - vai por mim - é tão inteligente que chega a dar a impressão de ter uns cinco parafusos faltando. Um dia, num almoço, me falou do Bit Torrent. Desenhou num guardanapo como fazia, vai nesse site, depois naquele, daí você clica, escolhe, e finalmente, deixa o computador sozinho se entendendo com os outros da rede, e vai fazer coisa melhor. No caso, eu fui dormir. E, enquanto eu mimia totoso, o Bit Torrent baixou o "Songs in the key of Life", do Stevie Wonder. Inteiro. Vinte canções de revirar os zoiinho. Canções pra andar de carro conversível. Confesso que tentei de tudo antes de me render à pirataria internética. Fui ver quanto o CD custava na FNAC. Duzentos conto. Repito: duzentos conto. Fui ver nas galerias do centro. Não tinha. Fui ver na Santa Ifigênia se eu achava um camelô com bom gosto. Achei um CD pirata do Detonautas. Então, vejam bem: eu tentei. Mas Stevie Wonder é Stevie Wonder, e mal consigo escrever porque enquanto batuco aqui as teclas, "Isn't she lovely" come solto nas desprezíveis caixinhas do computador.

 

Próximo passo na minha incursão no universo do Bit Torrent foi fuçar filmes. Tens uns lá que nem nos cinemas da América chegaram. Baixei "Be Cool" do John Travolta e descobri duas coisas: a) existem programas que legendam os filmes que você downloada - mesmo os filmes chineses; e b) Be Cool é tranqueira pior do que o Jumbo 707 que o Travolta comprou pra dar uns rolês. Péssimo no úrtimo. Mas porque não me custou um tostão, não lamentei. Cheguei no vigésimo minuto, e larguei. Larguei mesmo. E daí? Qual é o problema? Na verdade, essa é uma das principais vantagens do Bit Torrent: ver filmes ruins. "Alexander" eu vi no Bit Torrent. "Tróia" também. A cidade resistiu mais do que eu: dormi depois de meia hora de Brad Pitt. Mas depois de três picaretagens em seqüência, cansei. A estratégia era ir ao cinema se o filme tivesse ao menos duas estrelas, baixar da internet se fosse céu de cidade grande, opaco e sem graça.

 

Sabe-se, porém, que os hormônios masculinos convivem de maneira hostil com os neurônios. Pra crá fazer conexão com cré e idéias surgirem, foi cinco minutos. Comecei a fuçar pornôs antigos, dos anos 70. Que foi quando este lance de cinema pornô começou com vontade. Tem uma ou outra putaria ali na década de 20, mas faltavam os recursos cênicos. Som, por exemplo. Gemidos, por exemplo. Salto agulha e brinquinho no umbigo, por exemplo. Baixei dos anos 70 "Behind the Geen Door", "Taboo", "Deep Throat" e "Império dos Sentidos". Baixei também a final da Copa de 70, mas isso ninguém precisa saber. Claro que a levada do pornô é outra. Demora meia hora pra aparecer o primeiro peitinho, e mais uns quinze minutos pra se descobrir como era o mundo Pré-Prestobarba. Marcão, sempre ele, diz que filme pornô é como MacDonald's: uma vez a cada seis meses. Concordo. Ainda mais vendo no computador.

 

Fim de semana passado, entusiasmado com a tecnologia e movido por matérias de jornal, busquei curioso esse "Brown Bunny", do Vincent Gallo. O filme que causou frisson em Cannes em 2003 por causa de uma cena explícita de boq.perdão: de sexo oral. Naisse. Fiz o procedimento todo, baixei o filme, e assisti a comentada cena. Ah, agora sim. Agora sim atingi o auge no uso do Bit Torrent. Arranjei um filme ruim como "Tróia", com uma cena anos 70 de sexo explícito. A única ressalva diz respeito aos atores do "Brown Bunny". Faltou a Angelina Jolie falando com sotaque húngaro e o Brad Pitt vestido de Asterix.

 

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h14
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- Vida longa aos indignados
De Milly Lacombe.

“Por que você acha que eles construíram a capital tão longe?”, me perguntou uma amiga outro dia. Pensei em várias respostas, algumas sendo, inclusive, aquelas coisas que aprendemos na escola, tipo: para levar a população a outras regiões, que não as costeiras e sulistas. Mas não era essa a resposta que ela queria. A resposta correta teria sido: “Para que o povo não vá à rua, não faça manifestações, não exija a saída do safado que estiver no poder”. Faz sentido, pensei. Porque, diante dos atuais acontecimentos, fosse a capital aqui em São Paulo, no Rio, ou em lugar menos remoto, talvez já tivéssemos deixado o conforto de nossos lares de lado para ir à rua bater panela ou fazer coisa que o valha. “Além disso”, continuou minha amiga, agora já vermelha de raiva e com aquela veia do pescoço querendo pular pra fora. “Além disso, quanto você acha que nos custa ficar pagando vôo e apartamentos funcionais para essa corja de bandidos fique indo e vindo de Brasília?”. Eu não tinha idéia. E nem ela. Mas, pelos cálculos que ela rapidamente fez ali na hora, chega perto de um zinzilhão de reais por mês. “Tudo dinheiro nosso, você tá entendendo? Tudo dinheiro nosso”.

Para pessoas abençoadamente indignadas como minha amiga deve mesmo ser o diabo viver num país de faz de conta como o nosso. Para ela, abrir o jornal de manhã e ficar sabendo que o Governo oportunamente liberou mais de 40 milhões de reais para serem usados em emendas (ou em compra de votos para que a CPI seja barrada, porque a gente é desleixado mas não é burro) deve ser o diabo.
“Se eles passaram quase três anos sentados em cima dessa grana, porque liberaram agora? Se uma CPI está prestes a ser iniciada, qualquer país sério deveria proibir a liberação desse tipo de grana até que as investigações sejam concluídas, não? Porque fica na cara que é pra comprar voto. E outra: se essa grana existe e tem gente morrendo de fome logo ali, a conta não é óbvia? Grana em obras sociais e não grana pra deputado safado levar lá pra terra dele e “usar” na construção de uma escola que nunca será erguida. Ou eu é que fiquei maluca?”.

E a veia do pescoço pulsa forte e quase explode quando ela lembra de ver todos os dias fotos de Severino Cavalcanti com algum membro do governo. “Escuta, o que tanto eles têm pra falar? Os três poderes não são independentes? Mas não. Num dia, tá o careca de cara redonda jantando com o Dirceu. No outro, rindo com o Palocci. Ah, vão todos a merda. Que palhaçada. E eu pagando 35% do que ganho em impostos pra esse bando de safado andar de carro importado e ir passar férias na Europa!”

Minha amiga, que tem mania de levar tudo muito a sério, um dia vai ter uma úlcera, coitada. Porque pra gente, que sabe que ser brasileiro é aceitar ser passado para trás, é esquecer de toda maracutaia porque o próximo Carnaval sempre vem aí, ou deixar tudo pra lá porque a seleção ganhou o jogo, bom, pra gente essas notícias de jornal não pegam nada. A gente lê, balança a cabeça, estala a língua nos dentes e vai à praia pegar uma cor.

Mas ela, ô judiação, disse que vai a Brasília fazer um barulho qualquer.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 13h55
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- Os de lá

De Castelo.

Avancemos um pouco no tempo – meados do ano 2006.

Um apanhador de calotas perdidas da Marginal Pinheiros pega uma, lustra e vende a um motorista desavisado.

Os carros começam a freqüentar o local, descolam uma calota faltante, batem um papo com o simpático tiozinho.

Semanas depois, ele monta quiosque.

Depois vem uma senhora paraibana e ergue uma tendinha de cachorro-quente e refri.

Passam-se uns meses, o lugar vira um Stand Center a céu aberto.

Vendem-se dvd’s, cd’s, perfumes, pentes de memória, câmeras digitais, fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim, galinhas, carneiros, automóveis, bicicletas, peças para caminhões. Tudo absolutamente de origem não-controlada.

E, como o ajuntamento comercial fica bem em frente ao augusto megaprédio da Daslu, reza a lenda que os populares passam a chamá-lo primeiro de "Os de Lá" ("bóra comprá nos de lá ?) e depois "Duslá".

Duslá vira referência na cidade.

É espantoso olhar de um lado do rio o prédio da Daslu e, do outro, o formigueiro humano da Duslá.

A onda em torno do ajuntamento informal começa a crescer com a chegada de uma delegação de intelectuais europeus. Eles vêm sedentos por conhecer um fenômeno tão radical de disparidade social.

O pessoal do "Le Monde Diplomatique" banca a vinda de Noam Chomsky. E a notícia ganha destaque internacional.

Logo chega a turma de sempre: Bono Vox e Manu Chao fazem show "in loco", Richard Gere e Dalai Lama oram pelo povo da Duslá, Sharon Stone cruza as pernas para um pelotão de fotógrafos pedindo atenção e respeito por aquele reduto único.

E a Daslu lá, na outra margem do rio, meio esvaziada.

Claro, as matronas não dão ponto sem nó. Contra-atacam convidando Bündchen e Di Caprio para uma visita ao nobre espaço.

O casal estelar vem, posa para fotos e, saindo de lá, escapa até a Duslá para comprar uns badulaques xinguelingues.

O tiozinho bangüela das calotas e a dupla dourada da mídia ganha as capas das principais publicações do mundo.

"Duslá – power to the people" – estampa o New York Times.

Já Il Manifesto cunha: "Duslá: L’arte povera brasiliana" - com uma foto da vovó do cachorro quente preparando um espremidão com ervilha, batata-palha, couve, purê, queijo derretido, bacon e até salsicha.

Surge então o grande babado da hora: o segundo aniversário da Daslu será comemorado na Duslá.

Sabe como é, dividir para reinar.

Castelo escreve no Blônicas aos sábados. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 12h56
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- O inventor de piadas (O anônimo mais famoso do mundo)
De Henrique Szklo

Era um desocupado. Vivia pendurado nas tetas de sua mãe que o sustentava desde sempre. Já tinha mais de 30 anos e nunca havia experimentado o gostinho amargo e nauseabundo do batente. Não conhecia o formato, a cor, o tamanho, o cheiro nem o gosto de uma carteira de trabalho. Parou de estudar (se é que a gente pode parar algo que nunca começamos) na 3a. série, aos 18 anos, quando sua mãe desistiu completamente e se conformou com a porcaria que havia posto no mundo. Mas ele tinha um talento. Sim, caro leitor, o seu preconceito já estava pronto para aniquilar o pobre rapaz em função de seu estilo de vida reprovável (oposto ao seu, não tenho dúvida alguma), mas agora você terá que rever sua posição. O rapaz tinha, de fato, um talento extraordinário: ele inventava piadas. E das boas, engraçadíssimas. Passava o dia inteiro bolando aquelas que seriam as piadas nacionais. Algumas, mais globalizadas, chegavam a atravessar fronteiras e se espalhar pelo mundo. Ele não tinha a menor idéia, mas era mais traduzido que o Jorge Amado.

Bastava acontecer alguma coisa memorável para ele fazer uma piada. Seu grande momento, quando ele apareceu para o mundo, mesmo que anonimamente, foi quando morreu o Senna. Nesta hora de sofrimento e dor para o povo brasileiro ele fez seu grande repertório. Criou mais de dez piadas com o assunto. E você, provavelmente, conhece todas. Não podemos dizer que ele torce para que alguma celebridade morra ou cometa uma gafe, mas ele não perde a chance de criar a sua piada. O inventor de piadas não se preocupa com paternidade. Todo mundo fala pra ele que ele deveria escrever um livro, gravar um CD, montar um site, mas ele não quer saber de nada disso. “Dá muito trabalho”, ele sempre responde. Se ele soubesse a mina de ouro que seria vender merchandising em suas piadas, ele poderia tranqüilamente cobrar mais caro que a Hebe Camargo e o Faustão. Até porque suas piadas tem muito mais audiência do que os dois juntos. Muito mais.

O criador de piadas nunca precisou se concentrar em nada. As piadas simplesmente surgem em sua cabecinha fértil e desocupada. Ele passa o dia vendo TV, conversando com os amigos de bar e jogando botão. Aí, de repente, a piada vem, não se sabe de onde. Aí ele conta pra quem estiver por perto e confere a reação. Se sentir que é engraçado, conta para todo mundo que encontrar naquele dia. Depois esquece. Nunca anotou uma linha para registro. “Dá muito trabalho”, diz. Não é raro ouvir uma piada que ele mesmo criou e achar a maior graça, lamentando com espírito esportivo não ter sido ele o autor.

O inventor de piadas é uma fonte inesgotável de humor popular. Atinge à todas as camadas da sociedade: pobres, ricos, jovens, velhos. O inventor de piadas é um tradutor ambulante do inconsciente coletivo popular. E o mais engraçado é que ele não faz a menor idéia do que isso represente.

O inventor de piadas ignora totalmente sua força e capacidade de comunicação. Ele não sabe, mas tem o poder de criar e derrubar mitos. Ele tem a linguagem do povo e sua rede de divulgação é poderosíssima. Se ele usasse esse poder para o mal poderia alterar os rumos políticos de um país, quebrar empresas, derrubar regimes, mudar o capítulo final da novela das oito. Mas, como ele mesmo diz: “Dá muito trabalho”.

O inventor de piadas é muito bem informado. Na verdade é uma condição sine qua non para sua atividade. Ele precisa estar sempre por dentro de tudo o que está acontecendo. Ele não pode perder tempo e a oportunidade de deixar um fato relevante não ser transformado em chiste. Suas principais fontes de inspiração são a política nacional e internacional. Ele, por exemplo, é um grande fã do George Bush. Torceu que ele fosse reeleito para que pudesse ficar mais quatro anos sendo alimentado por esta fonte inesgotável de motivos para se fazer piada. Mas o nosso presidente Lula, que criou a categoria novo-deslumbrado, também não fica atrás. O inventor de piadas ficou muito triste com a derrota da Marta em São Paulo, mas tem esperanças de que o Serra não o decepcionará.

As celebridades também não param de oferecer subsídios para a invenção dos mais diversos tipos de piada: o Rubinho é o primeiro colocado nesta área. Informação que por si só já é uma piada.

O inventor de piadas não tem preconceito, por isso também gosta de inventar piadas sobre etnias e minorias. E apesar de algumas serem fortemente preconceituosas, o inventor de piadas não tem uma conotação pessoal, nem alimenta mágoas por ninguém. Ele apenas quer fazer rir. E para isso às vezes se vê obrigado a carregar um pouco nas tintas do politicamente incorreto. Mas ninguém fica bravo com ele. Todo mundo gosta de rir, menos o Clodovil. Por isso o inventor de piadas evita utilizá-lo em seu repertório. Tudo o que ele não quer é ter problemas de relacionamento com alguém.“Dá muito trabalho”.

Eu adoraria contar aqui uma ou duas das piadas geniais que este baluarte da cultura nacional criou, mas esqueci de todas. Sou péssimo para lembrar de piadas.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 13h36
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- Cangaceiros mortos-vivos no espaço exterior (a saga)

De Edson Aran.

Capítulo 1: Bagdá, abril de 2003

Eu abri os olhos e dei de cara com Saddam Hussein. E o pior é que ele tinha sotaque de maranhense.
"Os iánques estão aí, Érmenegildo! E agora, hómi de deus?", gritava ele debaixo daquele bigode sarneyzento e cheio de caspa.
Minha mente estava mais confusa que letra do Carlinhos Brown. Não dá pra misturar haxixe com vinho barato e acordar decentemente. Eu estava deitado num monte de almofadões coloridos. Senti alguma coisa pressionando meu braço direito. Olhei de lado. Era uma gorda vestida de odalisca me olhando assustada.
"Sai, mocréia!", disse, educadamente, empurrando o tribufu. Um barulho ensurdecedor de bombardeios entrava pelas janelas escancaradas. Noite. Fresca, não muito fria, nem muito quente. Fiquei de pé e dei uma geral no ambiente. Era uma sala ampla, circular. No meio tinha uma fonte. Sem água. Várias odaliscas gordas corriam e gritavam de um lado pro outro. Do lado de uma das janelas abertas reconheci meu brother Raulzito, um sósia surtado do Raul Seixas. Ele tinha um pano de prato enrolado na cabeça e segurava uma AK 47.
"Sintam a fúria de Alá, americanos vacilões do caralho!", berrava Raulzito mandando bala pra fora da janela.
Olhei pro outro lado e avistei o silvícola canalha que eu havia encontrado no Mato Grosso havia três anos. O aritana, completamente alheio à confusão provocada pela Nova Ordem Mundial, tentava agarrar uma das odaliscas semi-nuas.
"Índio querer amorzinho gostoso! Índio ter pandorga descomunal!", gritava, ensandecido, o projeto de paiakan.
Eu chamo o nativo de Bom Selvagem. Só pra sacanear o retardado do Rosseau.
Saddam, percebendo minha dispersão, me puxou pelo braço.
"Que que eu faço, porra?!"
"Fica frio, ô do bigode...", respondi enquanto me arrastava até a janela.
Olhei pra fora. Bagdá explodia em chamas e tiroteiros. Na margem oposta do Tigre, projéteis coloridos rasgavam o céu. Parecia São João só que era pra valer. Prédios e carros aos pedaços enchiam a rua abaixo de nós. Pessoas corriam apavoradas, enquanto alguns malucos, feito o Raulzito, disparavam na escuridão, como se fosse possível acertar alguém.
"Essa é a mãe de todas as batalhas, mano! O sangue de Maomé tem poder!", berrou Raulzito, antes de disparar a porra da AK pela janela.
"Vai gritar no ouvido da vaca da tua mãe, desgraçado!", eu falei.
Raulzito se invocou:
"Não põe minha mãe no meio, que eu ponho no meio da tua, aquela piranha ocidental decadente! Prostituta da Babilônia!"
"Prostituta da Babilônia é a piranha da tua irmã, retardado!", argumentei.
"Aí, mano, tu tá me tirando?", devolveu Raulzito, apontando a AK pro meu peito.
Saquei a Makharov que estava presa no meu cinto, atrás da camisa, e apontei pra cabeça do cretino.
"Por quê? Vai encarar, ô seu bosta?"
"E se eu for?"
Saddam, desesperado, choramingava:
"Por favor, companheiros, os iánques tão chegando..."
Estávamos neste momento de tensão insuportável quando ouvimos um silvo ardido. De repente, um pedaço do teto explodiu e um monte de tijolos e telhas despencou em cima da gente. As odaliscas gordas caíram fora pela primeira porta que viram aberta. Eu peguei umas almofadas pra proteger a cabeça dos cacos de telhas. Levantou uma poeira brava, mas o projétil, pelo visto, não tinha acertado o prédio em cheio. Ainda estávamos inteiros.
Bom Selvagem, todo empoeirado, resumiu a situação:
"Conflito de civilizações chegar. Índio agora se mandar."
Saddam concordou, balançando o bigode pra cima e pra baixo.
"Ok, vamos cair fora!", eu disse.
Raulzito, ainda com a AK apontada pro meu lado, falou:
"Aí, mano, a gente tem que resistir à porra do imperialismo, tá ligado?"
"Amanhã a gente resiste. Hoje não vai rolar não.", eu falei, enquanto a gente se espremia por uma escada em caracol.
Raulzito ainda tentou voltar para a janela. Uma saraivada de balas vinda do lado de fora fez com ele desistisse do martírio. Saímos para um pátio onde vários bigodudos uniformizados corriam desesperados de um lado pro outro. Uma limusine branca estava estacionada no meio da bagunça.
"Diz aí pros teus machos segurarem as pontas que daqui a pouco a gente volta...", ordenei ao Saddam.
Saddam saiu repetindo minhas ordens naquela língua enrolada dele. Bom Selvagem, folgado como sempre, entrou numas.
"Índio dirigir limusine! Índio dirigir limusine!"
"Nem fodendo!", respondi. "Raulzito, pega o volante!"
O dublê de Osama gostou. O aritana entrou no banco de trás, reclamando. Saddam também. Sentei na frente, junto com Raulzito e falei:
"Enfia o pé!"
Raulzito saiu atropelando bigodudos. Saddam tremia mais que vara verde.
"E agora? Que a que a gente faz?", gemeu o quase-ex-ditador-iraquiano.
"Fica frio, bigode. A gente vai descolar um buraco pra você se enfiar!"
Bagdá era uma desolação só. Parecia o Capão Redondo, só que tinha mais incêndios, mais tiroteios e mais explosões. Hummm. Pensando melhor, era exatamente igual ao Capão Redondo.
(continua)

Aran é cronista do Blônicas. Esta saga é seqüência do romance "A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos". O livro ainda pode ser encontrado nas más casas do ramo. Veja os novos capítulos da saga no site do Aran (lá já está no capítulo 3).

Escrito por Blônicas às 11h02
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- O pessimismo

De Rosana Hermann.

 

Péssimo, você sabe, é a prova superlativa de que tudo o que é ruim pode sempre piorar, assim como o ótimo, é o melhor do tudo-de-bom, com direito a brinde, cinquenta por cento de desconto e almoço pago.

 

O pessimismo, embora assim pareça, não está diretamente ligado ao conceito de péssimo. Pessimista não é a pessoa que acredita que tudo de pior vai acontecer, mas aquele que tem tanto medo que qualquer coisa ruim ocorra que acaba impedindo que até o fato mais minimamente razoavelmente tenha espaço de vir-a-ser.

 

Ouvi um exemplo claro de pessimismo crônico no comentário de uma ouvinte de rádio, recentemente. O tema da discussão era a mudança do nome do bairro Vila Buarque para Vila Chico Buarque, em homenagem ao artista. Da forma mais clichê do mundo, a ouvinte comentou que era contra usando o seguinte argumento: "já pensou se a moda pega? (pessimistas adora dizem isso). Todo mundo vai querer mudar o nome do seu bairro também e aí, vai virar uma bagunça!"

 

É curioso. De onde o pessimista tira a idéia de que algo que nunca ocorreu, ao ocorrer pela primeira vez, vai imediatamente contaminar o todo e acontecer em massa? Se num estádio de futebol uma pessoa soltar um pum, o estádio inteiro explode em gás sulfídrico? Ao acender um palito de fósforo toda a caixa se incendeia? Os engradados de cerveja nos bares, abrem todas as garrafas assim que uma é servida à mesa?

 

Também chama a atenção esta expressão dos pessimistas, 'aí vai virar bagunça.' Pessimista não estuda física na escola? Nunca ouviu falar em entropia? Não sabe que tudo tende mesmo ao caos? No começo era o caos, lembra? Então, fez-se o mundo e rapidinho voltamos pro caos de novo. Aqui estamos nós, otimistas, esperando um mundo novo.

 

O pessimismo para alguns, é só uma das muitas possibilidades do estado de espírito mas para os que sofrem cronicamente deste mal, não. Essa  pessimista é antes de tudo, um solene cagão, do tipo que prefere que o tempo pare, o mundo pare, a vida pare. Não para ele descer, mas para que ele possa empurrar as pessoas que gostam do movimento. Em termos de Mecânica Clássica, o ideal do pessimista é um mundo em Movimento Retilíneo Uniforme, onde tudo fica sempre como está, seguindo curso, sem mudança de velocidade, sem alterações. É o sentimento estruturado no ruim com ele, pior sem ele, o acomodamento, a inércia.

 

Por que o pessimismo faz sucesso? Porque tem gente que lucra com ele. O medo é uma das maiores fontes de renda do capitalismo. Dá pra vender céu e inferno, perdão e proteção, redenção e armamento. O pessimismo, enfim, o combustível dos oportunistas, o portal da exploração, a morte em vida, o nada que a tudo destrói.

 

E xô urubu.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h16
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