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- Deus e o diabo
De Milly Lacombe.

Deus e o diabo faziam o costumeiro brunch de domingo. Deus, o visitante, observava, sentado à mesa da cozinha (que até no inferno é o coração da casa) o diabo fazer panquecas enquanto bebericava uma xícara de café.

Diabo: Você chegou mais cedo hoje.
Deus: É que tenho me sentido muito sozinho.
Diabo: As coisas não andam mesmo muito boas para o seu lado, não?
Deus: Pois é. Às vezes penso que não posso mais fazer nada, meus objetivos viraram pó.
Diabo: Você sabe perfeitamente bem que nunca teve, ao contrário de mim, objetivos claros. Seu plano de marketing é um lixo, te digo isso há milhões de anos.
Deus: E eu tento fazer você entender que as religiões, essa veneração politeísta à imagens de santos que eu nunca vi e a propagação das Igrejas como instrumento de fé não faziam parte de meu plano original. Nada me tira da cabeça, aliás, que isso tudo é coisa sua.
Diabo: Ora, assim você ofende minha inteligência. Jamais perderia tempo bolando um plano tão tosco. Dízimo? Bem x mal? Confissões? Padres? Ah, por favor. Mais café?
Deus: Por favor.
Diabo: Você sabe perfeitamente bem que minha única criação chama-se ódio.
Deus: Isso outra vez não. Você só foi capaz de criar o ódio depois que eu inventei o amor.
Diabo: E daí? Tanto faz quem foi inventado primeiro. O que conta é quem é mais forte. Toma, fica com a primeira panqueca.
Deus: Está queimada, meu chapa. Vá lá, me dá ela aqui. Onde está o maple syrup?
Diabo: Pega ali na geladeira. E aproveita me serve um copo de suco de caju, por favor.
Deus: Vamos discutir isso durante toda a eternidade? Tome aqui seu suco.
Diabo: Obrigado. Meu caro, reconheça pelo amor de Deus ...
Deus: Menos, por favor.
Diabo: Desculpe. Reconheça que minha criação superou a sua. Veja o que está acontecendo: pessoas se explodindo, crianças sendo bombardeadas ...
Deus: Nada disso me preocupa. Sempre disse que o ódio, embora se manifeste de forma dolorida e muitas vezes grotesca, tem lá sua poesia. Ou você acha que eu não vejo um certo romance em morrer e matar por um ideal? Não se trata disso.
Diabo: Três panquecas está bom pra você?
Deus: Ótimo. E venha se sentar à mesa.
Diabo: Qual o problema então?
Deus: A hipocrisia. Quando mesmo você criou essa merda?
Diabo: Puta que o pariu. Pare de me subestimar. Não fui eu quem criou essa porra. Aliás, pode haver sentimento menos hipócrita do que o ódio? Não! O ódio ocorre em ambientes esterilizados de hipocrisia. É a manifestação de um sentimento original. A hipocrisia é o oposto disso. O homem, esse ser de quem você tanto se orgulha, é o pai da hipocrisia.
Deus: O que fazer? O que fazer?
Diabo: Eu adoraria que algo pudesse ser feito. O fim da hipocrisia daria mais espaço para manifestações de ódio. E isso seria excelente.
Deus: Concordo. Porque o ambiente seria também bastante rico para que o amor se manifestasse com mais intensidade e pudesse, como manda minha cartilha, ofuscar o ódio.
Diabo: Podemos pensar juntos numa solução. Que tal?
Deus: Esplêndido, desde que não hoje. Vamos comer em paz. Mais café?

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 14h18
[]


- James Enéas, agente secreto
De Castelo.

Meu nome é Enéas. James Enéas.
E, como todo mundo quer saber como uma pessoa comum vira agente da Abin, vou contar o meu caso.
Sou lotado no Ministério do Turismo.
Motoristava lá, levando gringo do aeroporto pra nossa sede federal.
Dali, às vezes, ia com esse povo pra um tour pelo Plano-Piloto, Catedral de Brasília, Senado, Alvorada, Pirenópolis.
Um dia, o deputado que me indicou, disse pro meu superior no Ministério.
“De tanto levar esses caras, o Jaime Enéas até já aprendeu a dar uns tiros em inglês. Estão até chamando o homem de James! Por que a gente não manda o poliglota pro Itamaraty?”.
A chefia concordou, em termos.
“Itamaraty não tá mais precisando de quem fale Inglês, diplomata agora só fala em Português lá. Mas a Abin quer gente que saiba dizer mais do que “the book is on the table”.
Foi então que me emprestaram pra Agência, com o cargo de “auxiliar de motorista bilingüe – sem licença, nem verba, para matar”.
Ganhei o número de matrícula AI-005.
Como a Abin estava quebrada, comecei ficando em casa, como agente freelancer.
E, apesar do meu cargo original ser motorista, não havia carro oficial disponível pra eu motoristar.
Estou nessa até hoje.
Quando sou chamado pra alguma missão, sempre recebo um envelope no meu barraco na Ceilândia com uns trocados pra pagar o busão.
E me viro.
Já fiz um monte de missões.
Uma das mais espetaculares foi a “Operação Peido”.
Edelmar, o contínuo da Abin, e eu prendemos o gerente de um posto que adulterava GNV, abastecendo os carros com gás metano engarrafado do mictório.
Depois disso, me arrumaram um 38 sem bala, pra eu impressionar nos flagrantes. E também pude passar a expropriar veículos ou objetos dos outros em caso de “perigo real contra o Patrimônio Público”.
É um começo.
Só me chateio quando tem operação grande, eu sou convocado e não consigo chegar a tempo.
Na Operação Narciso, a que prendeu a dona da Daslu, aconteceu isso.
Eu estava bebendo uma gelada na laje quando minha mulata Gérsan gritou:
“James Enéaaaas! Corre que tu foi intimado!”.
Desci do telhado tão rápido que quase esmaguei o pobre do Agepê, nosso cãozinho sem raça definida.
Tinha chegado um telegrama do Coronel N. me ordenando a participar da parada.
Pra quem só tinha investigado punguista na Feira do Paraguai, aquilo era a glória.
Sai de Brasília no primeiro Itapemirim.
Mas choveu e o bicho caiu numa ribanceira.
Expropriei uma Besta na estrada, mas quando cheguei em São Paulo já tinham botado a madame e o contador na rua.
Tudo bem. De qualquer jeito, eu ia entrar naquela Daslu nem que fosse pra tomar um copo d’água morna.
- Um cafezinho – ordenei à uma dasluzete.
Educadinha, ela preparou um expresso maravilhoso, que até Nero Wolfe tomaria com gosto. Quando terminei, ela disse:
- 27 reais, senhor.
Tô até hoje esperando o reembolso da Abin.

Castelo é cronista do Blônicas aos sábados.
Escrito por Blônicas às 11h44
[]


- A primeira noite de um homem

De Leo Jaime.

 

    Uma amiga me contava uma história verídica e pitoresca sobre um vigoroso e sólido caso de amor. Disse que a tal história começara com a moça já muito desestimulada pelo fim de um relacionamento, seguida de uma boa temporada alone. Descrente da possibilidade de encontrar alguém, já nem saia mais. Pra piorar o quadro, se viu às voltas com um problema de saúde que, se não grave, trouxe-lhe bastante transtorno: hemorróidas. A tal moça, se é que se pode dizer assim, acabou tendo que operar. E quem é que ela conheceu na tal cirurgia? O amor de sua vida: o médico. Este a conheceu nas condições em que mulher nenhuma espera ser conhecida. Profundamente. Ouso dizer, até,  que foi amor à primeira vista. E estão juntos e felizes. Pois é.

    Esta história pode parecer engraçada mas não é. Digo sempre: siga o seu caminho, o que for realmente seu nele estará.  Não adianta se desesperar. Se a natureza criou mais mulheres que homens, alguma deve haver nisto. E o queixume feminino é constante: - "Falta homem, falta homem!" . Pode ter certeza que isso tem remédio.

    As estatísticas dizem que as mulheres querem homens mais velhos e os homens desejam mulheres mais jovens. Até aí tudo se encaixa. O problema é que as tais mulheres não tão jovens ficam sem muitas opções, uma vez que os homens maduros querem as mocinhas; além do fato de que homens, em geral, morrem mais cedo que as mulheres, ou seja, existem muitos mais mulheres maduras que homens. Aí é que está o problema: as mulheres querem sempre o homem ideal, alguém que elas possam admirar, um cara mais experiente, alguém que seja "mais" que ela em alguma coisa. Para quê?

    Outro problema é que a mulher não quer compartimentar. Ao invés de ter um amigo para os cinemas, um amante para as noites tórridas e um pau-para-toda-obra que lhe resolva os assuntos domésticos, ela prefere ter um homem que seja uma espécie de três-em-um. É complicado.

    Faltam homens ou elas é que são muito exigentes? Falta homem para quê? Para que se possa escolher? Ou são os homens legais que estão em falta? Não dá para imaginar um homem legal quando todas as mulheres que ele teve na vida foram "menos" que ele. É preciso amar a professora, a viúva, a desquitada, a coroa do 802, a tia do amigo - alguma mulher mais velha e que nos inspire admiração e respeito, numa época em que somos todos entusiasmo e curiosidade a respeito do assunto. Durante um período, que seja, as mulheres maduras deviam se envolver com um rapaz 10 ou 20 anos mais jovem. Assim como os homens fazem. Educando para o amor e para o sexo. Rapazes aflitos por uma experiência assim não faltam. Jovens despreparados e que não tiveram tempo de serem bem ou mal sucedidos. Desperte sua Ms. Robinson. Admita ensinar.

    Existem muito mais mulheres nas universidades; esse é outro ponto. Se as mulheres estão em busca de alguém mais culto ou preparado estão se candidatando ao celibato. Homens com um bom potencial temos aos montes, mas o exemplar encadernado, ilustrado e paginado, este será raro. Há que se fazer algum investimento. Você dirá: - "Ninguém muda ninguém." . Concordo. No caráter e nas capacidades somos todos imutáveis. O aprendizado é outro papo. Ninguém aparece pronto. Foi isso o que o tal médico deve ter pensado quando olhou para a sua paciente na mesa de operação. E mãos à obra.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas toda quinta-feira.

Escrito por Blônicas às 13h31
[]


- Da bondade besta

De Paulo Castro.

     Me incomoda ler crônicas. Escrevo aqui e em outros lugares, com raras exceções é sempre a mesma coisa. O escritor acha que a crônica é o lugar de flores, passarinhos de Deus e humanismo ingênuo, onde se comemora a morte do estúpido Olavo Bilac.
     Acham que a crônica é o lugar de ser bonzinho.
     Afinal, muita gente vai ler, é necessária a propaganda sobre si mesmo, não ousar, fazer tricô com as velhotas. Quem sabe comprem meus livros e compareçam até minha palestra. Então acaricio todas as cabeças, direita, esquerda, centro e a minha própria, numa masturbação politicamente correta e capilar.
     Me interessa a escrita peluda, que não faz a barba, que dorme até tarde, que esquece o que é compromisso, que faz barulhos indecentes durante os cultos mais sagrados. Quem quer alguma parada com Olavo Bilac ? Nem para se ler sob a luz do abajour serve. Crônica não é conversa de salão, não é papo para as cruzadas do bingo. A gente tem mesmo é que chutar cadáver. O PT morreu definitivamente e ainda assim merece bons ponta-pés na altura do tórax. O cronista não presta. Veja João Do Rio, veja Charles Bukowski. O cronista é uma espécie de suicida social, e isso não é pouco. Escalda-pé se faz com água fervendo, para tirar a mucosa, deixar tudo vermelho, o resto é bobagem e não cura, só é gostosinho. E esfria rápido.
     Eu me dano cada vez para escrever alguma crônica. Tenho que amputar uma parte  minha e embrulhar em papel jornal. Sangue espesso. Artérias. Veias. Alma. Minha carne é que está ali. Desce o machado ! De Assis eu deixo, que esse também entendeu muito bem a idéia.
     Meus familiares e amigos ficam preocupados, mesmo chateados comigo, quando falo de mim nas páginas. Quando coloco minhas alegrias e tristezas, quando choro de joelhos e peço a um Deus que mal conheço, quando me exponho na linha de tiro. Não sei fazer de outro modo. O conceito de preservação e sucesso age aí. Não faço a mínima idéia do que vai ser da minha vida. E isso não significa estar perdido. Significa uma resistência à imbecilidade.
     Me lembro agora de um ex-professor de redação. Na última, que antecedia os vestibulares, escrevi algo que se chamava "Dinossauro com pés de grafite.". Eu confiava nesse tio. Tinha cabelos loiros compridos e sempre falava com lentidão. Leu os textos de todos os alunos e depois me chamou no canto:
     - Paulo, esse texto está ótimo.
     - Valeu, cara. Também te amo. 
     - Mas desse jeito você não vai passar nas provas. O início está no fim e o fim está no meio.
     - A idéia era essa. Um dinossauro que devastasse tudo sem lei nem regra. Uma força da natureza. Se você entendeu, outros também vão sacar. Não corrijo uma linha sequer.
     - Sem orgulho, Paulo. Precisamos de um material que seja funcional. Que o examinador possa fazer rapidamente a parte dele e passar para a próxima. Quero que você escreva agora um texto adequado. Ou te bombo. Falo sério.
     - Pode ser uma dissertação ?
     - Pode. Eu já te ensinei como fazer.
     E fiz. Com premissas maiores e menores. Com dialética. Hipóteses e conclusões. O título: " Da imbecilidade acadêmica.". O professor riu, aceitou e me desejou boa sorte, bom futuro, apesar de tudo. Ele sabia que eu não iria ceder, ainda que mediante ameaça. Ele parecia um Jesus óbvio. Foi um momento iluminado quando ele se deu por vencido. Lascou no alto da página: "dez".
     Orgulho? Só um tantinho. Quem não tem um pouco de orgulho e vaidade só escreve besteiras lineares. E, aproveitando, meto outro chute na cara do PT. Morre, desgraçado! Se contorça aos meus pés. Você nunca me tratou bem, me enfiou em um buraco escuro e mofado. Eu trato pior. Sou cronista, caramba ! Aqui não há lugar para fracos.
     O Marquês de Sade foi preso em sua própria casa. Eu sou treinado na arte da antiga espada oriental. Podem vir que estou esperando. Quando escrevo contra a bobagem de ser cronista fofinho em vários espaços, recebo e-mails querendo meu couro-papiro. Inclusive de amigos. Perco a amizade mas não perco a crônica.
     Se for para morrer sozinho, que seja em uma agradável casa de praia, tomando dry martini diante do mar, as ondas levando para o oceano infinito meus pedaços felizes. Onda a onda. Na cadeira de balanço, de acordo com a maré. Cobertor sobre as pernas. E um sorriso indecente nos lábios.
     Liberdade, mesmo que tardia.

 " O que acontece na literatura não é diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrigível plebe da humanidade."
                                                     ( Schopenhauer )


Paulo Castro é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h24
[]


- Julieu e Rometa

De Nelson Botter.

Duas casas, iguais em dignidade - na formosa Verona do Agreste vos dirão - reativaram antiga inimizade, manchando mãos fraternas, sangue irmão. Do fatal seio desses dois rivais um par nasceu de amantes desditosos, que em sua sepultura o ódio dos pais depuseram, na morte venturosos. Os lances desse amor fadado à morte e a obstinação dos pais, sempre exaltados, que teve fim naquela triste sorte, aqui vereis representados. Se emprestardes a tudo olhar atento, supriremos as faltas a contento.
Nossa história se inicia em pleno cenário do sertão... E se Shakespeare visse o que farei agora com sua obra-prima da emoção, daria três piruetas dentro do caixão...

- Julieu! Julieu! - gritava Mercúrio, que ganhara o apelido quando criança por ter bebido do tal líquido... e sobrevivido, o que é pior, pois lhe deu uma cor de pele muito estranha, meio prateada. Além disso, não conseguia desenvolver frases longas, o que fez dele um escritor moderno.
- Diga cabra safado...
- Julieu, venha rápido, homi! Um duelo de peixeiras! Na praça central. Seu primo. Mais Teobaldo Capeletti!
- Teobaldo? Malditos Capelettis...
- Venha! Vamo rápido! Antes que se assusseda uma tragédia!

Ele correram e viram uma grande confusão. Julieu não dispensava uma briga, muito menos um bom rabo-de-saia. Quando viu uma linda jovem, com expressão de horror diante daquela briga toda, correu acudi-la... e apalpá-la, claro.

- Tá tudo ólraiguiti, galeguinha? - perguntou o galanteador.
- Sim... - respondeu ela, subitamente hipnotizada pelo olhar do jovem. - Qué dizê, não. Minha pressão foi lá pra cima por causa desse aperreio todo. Pior: num trouxe remédio na bolsa e Lacraia Mocreiúda, minha criada, tá no meio da briga!
- Pobre donzela da gota serena... - disse ele, tocando as mãos da jovem.
A moça, ao sentir o toque da mão de Julieu recolheu a sua e, disfarçadamente, limpou-a no vestido de xita.
- Mai neime é Julieu, galega.
- Rometa, muito prazer. Tu tem uma Aspirina ou outro analgésico?
- Anal... o quê?
- Analgésico... Tô com uma dor na moleira que tá danada! Deve de sê pressão baixa...
- Num era alta?
- Tanto faz, é tudo ruim, num sabe? E pode ser minha sinusite tumbéim... Ou virose, que ainda num peguei, mas tenho certeza que vou pegá.
- Que lindo - Julieu suspirava.
- Será que tem boticário nessa área?
- Conheço um, sabe? É um cabra-da-peste! Tu vai ficar nos trinques.
- Vamô que tô com "vertingens". Tô com um enjôo danado. E devo de tá com febre tumbéim. Será que foi a buchada de bode?
- Vamo embora, Rometa. Não suporto ficá perto desses Capeletti indigesto.
- O quê??? - ela gritou, assustando Julieu. - Desculpe, é a danada da TPM. Ando atacada...
- O que foi que eu disse, mai darlingue?
- Sou Rometa Capeletti...
O jovem Romeu ficou transtornado com a notícia bombástica.
- Oh, não... Como pôde o destino sê tão traiçoeiro? Que farei agora, meu padim Cícero? Mai gódinhu! É Capeletti? Oh, conta cara! Minha vida é dívida, de hoje em diante, no livro do inimigo.
- Como do amor a inimizade me arde! Desconhecido e asnado muito tarde. Como esse monstro, o amor, brinca comigo: apaixonada ver-me do inimigo! Visse?
- Oh, não... E agora, galega?
- Tu tem uma pastilha pra dor de garganta? A minha tá arranhando que só...
- Vem cá mais eu, Rometa, minha cabrita de Verona do Agreste. Vem fugí e vivê nosso amor proibido. Jetéme mai lóve, ai lóve iu tumati. Vamo fugí pra Sum Paulo!
- E é?
- É...
- E lá chove?
- Vixe, e como!
- Então, vamo sinbora, abestado! Mas preciso passá no boticário e fazê umas comprinha. Num posso andar por aí desabastecida. Coisa básica, num se preocupe... Pensando bem acho que vou não. Sabe, vai dar bolha no pé, quero não.
- Venha ou vou me matá!
- Tu é lesado é? Vai se matá a modo de quê?
- Sem o teu amor gostosinho, teu buchinho bunitinhu, enfim, aquelas coisa toda a la Xico Sá, prefiro as portas do inferno. Brasa quente, róti réu, róti faire!
- Faça isso não, homi. Vale a pena não...
- E por que não?
- Porque de dia sou Rometa, mas de noite sou João!

Rometa mostrou o grande volume que carregava no meio das pernas. Julieu não agüentou a decepção e teve um enfarte fulminante. Na queda, acabou levando Rometa junto, que caiu sentada na afiada peixeira de Julieu, falecendo após um longo sorriso, junto ao corpo do finado.

Dizem, talvez os mais maldosos, que as últimas palavras de Rometa para as pessoas que tentavam lhe salvar foram: "Vai, que eu daqui num sairei jamais. Oh! Seja bem-vindo, punhal! Tua bainha é aqui. Repousa aí bem quieto e deixa-me morrer".

Hoje, os mais velhos de Verona do Agreste dizem que essa manhã trouxe paz sombria: escondeu o sol, de pesadume, o rosto. Agora  ide; falai a todos dos fatos deste dia; serei clemente, ou rijo, a contragosto, que há de viver de todos na memória de Julieu e Rometa a triste história. E lembrai-vos todos que, por mais formosa que seja sua amada, por mais doce, meiga e encantada, é sempre bom dar uma conferida antes...

Nelson Botter é cronista do Blônicas às terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h31
[]


- A pedagogia da manga

De Xico Sá.

 

Uma das queixas recorrentes sopradas pelas mulheres, sejam raparigas em flor ou lindas afilhadas de Balzac, diz respeito à pratica milenar do sexo oral por parte dos homens.

 Além de displicentes e pouco devotos, os rapazes, em particular os da novíssima geração, não estariam voltados para tal cerimônia como necessário. “Ou como antigamente,” suspira o bloco da saudade.

 O protesto do megafone do mulherio faz lá o seu sentido. Maria do Carmo, aquele rapaz que comprei do escriba Tarso de Castro e infiltrei nos banheiros femininos, anda espantado com o volume de reclamações neste tema tão nobre. “Os cabras estão chegando aos 30 anos sem saber sequer dar um bom dia a uma mulher”, diz o meu assessor esquisitão.

Foi ai que lembrei de uma lição das antigas: a pedagogia da manga. Os mais velhos, sobretudo nas cidades e vilarejos do interior, aconselhavam os mancebos a chupar a fruta da mangueira como educação sentimental para o futuro homem na alcova. Além de saudável, o exercício evitaria queixas femininas como as que hoje reverberam nas nossas oiças atentas.

Outro dia lembrei do conselho e o retransmiti, rapidinho, no programa de rádio “Trip Eldorado”, comandado por Paulo Lima, SP. Foi um estrondo. O que devo ter vendido de manga nas feiras do dia seguinte não está no gibi. A produção em Petrolina, terra que exporta a danada para servir de pedagogia além-mar, também foi nas alturas.

Olha a manga, olha a manga!

Chupar manga com gosto, lambuzando-se todo, como nas descrições feitas por Gilberto Freyre.

Não como o cão chupando manga, feio, mal-assombrado e sem jeito.

Jamais com assepsia ou nojo, como um “mauricinho” diante da vida. Como o medo do goleiro diante do pênalti.

Chupar manga com a devoção que devemos às mulheres.

O “amarelo manga” tingindo, tingindo de cor a face pálida dos amores.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h59
[]


- O fim do 'plurar'
De Milly Lacombe.

O plural está oficialmente morto. Aliás, a pópria (p-ó-p-r-i-a, assim mesmo) palavra plural hoje deve ser pronunciada plurar, com erre. E a partir deste momento está também decretada a supressão da letra "s" ao final das palavra. (Das palavra, por favor não caiam na tentação de corrigir esta frase). O hotel Maksoud Plaza já providecia a mudança de sua razão social para Maksoud Praza. Pleito virou preito. Problema é pobrema. E quem quiser entender o que se passa na nossa cena política faz favor de começar a falar (e a pensar) dessa forma anti-acadêmica. A poprósito, que se danem os acadêmico. Os sociólogo de hoje, gente que atende pelo nome de Silvinho, fala desse jeito que se vê na televisão todas as noite. É a voz do povo, da gente que nasceu de mãe analfabeta. Mãe que, aliás, também nasceu analfabeta, ô desgraçeira de vida. É o discuro das massa, a retórica que qualquer um é capaz de entender. Qualquer um, evidentemente, que tenha a mesma lógica de raciocínio dessa cambada de político ladrão. Para tanto, é preciso ter dois neurônio (e só um deles necessita estar ativo).
Há três anos, quando dizia que me recusava a eleger para presidente um homem que não sabia falar corretamente e que não tinha diproma universitário, meus amigos me chamava de preconceituosa. Está provado que não era preconceito. Quem hoje se espanta com a esquizofrenia e com a falta de coerência do discurso do presidente precisa fazer uma rápida pesquisa e ver que nada mudou em seu discurso - ele nunca fez sentido.
As analogia com futebol, a farta de começo, meio e fim, a adoção da nova fórmula meio-meio- e meio, o assassinato do plurar, a farta de conteúdo, refrexões sociológica e política que poderia ter sido escrita por minha sobrinha de quatro anos... Sempre foi assim. E a conta é exata: quem não consegue falar com um mínimo de linearilidade, tampouco pensa de forma inteligível. E quem não consegue pensar linearmente é porque nunca leu um livro na vida. E quem nunca chegou ao fim de um capítulo de um livro (qualquer livro, não é necessário que seja de Machado de Assim ou Karl Marx, pode ser Monteiro Lobato) não é capaz de ler documentos e contratos.
Como um sujeito com esse nível intelectual pode querer comandar um país? Sentar com Lula numa mesa de bar e falar de futebol deve ser das coisas mais divertidas do mundo. Mas deixar que ele nos dirija não tem sido assim tão divertido. Um país jogado aos leões, uma nação à deriva, e o presidente, no centro da crise, dizendo que encontrou uma maneira de minimizá-la: não lê mais jornais ou revistas. Ora, mas que arrogância. Ou algum dia ele leu?
Ah, por favor, é hora de deixarmos o faz de conta para lá. O sonho acabou. O sonho de colocarmos no poder um homem do povo, de consolidarmos nossa história democrática elegendo um sujeito que veio do nada, que passou fome na vida e que, no último capítulo, nos salvaria, acabaria com a excrusão social, diminuiria o abismo econômico entre as classe, tiraria as criança das rua, daria educação para todos. Em vez disso, ele preferiu dar vida ao maior esquema de corrupção já visto neste país. E não em nome da tal revolução, o que já seria inaceitável, mas deixaria um cheiro de romance no ar. Não. Esquema de corrupção para enriquecimento pessoal, de sua prole, de seus amigos marxista, comunista, esquerdista. Já dizia meu pai que todo o bom comunista é, como o badalado Niemeyer, riquíssimo. O povo não quer saber de ideologias, quer apenas viver decentemente, com comida, educação e um mínimo de divertimento. Mas quem se interessa por educar esses milhão de brasileiro que está fora de nosso mercado consumidor? Ninguém. Porque no dia em que formos todos minimamente letrado, os discurso esquizofrênico do presidente "escolaridade-zero" não farão mais sentido. E o plural voltará a ser popular.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas todos os domingos.
Escrito por Blônicas às 15h39
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- Bula
De Castelo.

CORROMPIX

NOME GENÉRICO: Semancolina

APRESENTAÇÃO:

Caixa contendo 28 supositórios tamponados em tamanho Megatronic.

USO ADULTO EM POLÍTICOS PROFISSIONAIS ENVOLVIDOS EM MARACUTAIAS.

COMPOSIÇÃO:

Cada supositório contém Semancol, Vergonhol (em solução), Neutralizador de Óleo de Peroba e mais Semancol.

AÇÃO ESPERADA DO MEDICAMENTO:

CORROMPIX deve ser guardado em lugar onde não receba luz, calor e verbas provenientes de Caixa 2. Em alguns casos, os sinais de melhora surgem rapidamente, fazendo com que o político corrupto, venal e hipócrita, transforme-se num Tiradentes em questão de horas. Em outros casos é necessário um período maior de aplicação do produto para que se dê o efeito esperado.
Este medicamento só pode ser administrado no momento em que o político estiver sendo amamentado por uma autarquia, empresa privada ou órgão ligado ao Judiciário.
A interrupção repentina dos supositórios tamponados é ALTAMENTE DESACONSELHÁVEL. O paciente em estado de corrupção aguda poderá voltar a prevaricar ficando resistente à Semancolina e ao Vergonhol, o que o tornará um picareta crônico ou, em estado mais graves, um consultor para depósitos em dólar no Exterior.

POSOLOGIA:

Está demonstrado que 90% dos pacientes com corruptite estão infectados por uma bactéria de nome "Real avida" e que a sua erradicação reduz o índice de aparições dos estados de canalhice ou vontade incontrolável de se apropriar do patrimônio alheio.
Na prática, iniciar o tratamento com 1 supositório megatronic ao dia. Se o desejo de se locupletar prosseguir, ir aumentando as inserções, aos poucos, sem nunca exceder 17 supositórios/dia.
A duração do tratamento será de acordo com o efeito terapêutico, devendo prosseguir enquanto a porção retal do paciente oferecer condições satisfatórias de operacionalidade.

REAÇÕES ADVERSAS:

As reações adversas relacionadas com o uso de Semancolina aliada ao Vergonhol mais freqüentemente relatadas foram discreta dor no local de aplicação e vermelhidão.
Foram descritos raros casos de surto de benevolência, onde pacientes corruptos entregaram seus patrimônios à instituições de caridade e asilos. Mas a incidência desses casos é de 1 em cada 3.783.000 de indivíduos velhacos submetidos à medicação.

OUTRAS INDICAÇÔES:

CORROMPIX está indicado para corruptos que estejam passando por processos criminais, de acareação, renúncia de cargo, quebra de sigilo bancário ou investigação junto ao FBI.

CONTRA-INDICAÇÕES:

Este medicamento não deve ser ministrado em laranjas, esposas, cunhados e parentes de políticos corruptos nem em marqueteiros ligados ao paciente.

SUPERDOSAGEM:

Em caso de superdosagem, o corrupto em tratamento com CORROMPIX deve procurar a Delegacia da Polícia Federal ou a Promotoria da República mais próxima e se entregar munido de uma lista com todos os nomes de pessoas envolvidas em seus cambalachos.

VENDA SOB PRESCRIÇÃO JURÍDICA.

MANTENHA AO ALCANCE DE POLÍTICOS.



Castelo aparece aqui aos sábados e é autor do livro "Faça sexo agora. Pergunte-me como" entre outros.
Escrito por Blônicas às 10h21
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- Duas cabeças pensam pior do que uma

De Henrique Szklo

O homem é este ser confuso e perturbado por falta de um comando intelectual central

O maior problema do homem é a falta de foco. Pensa com duas cabeças. E, diferente do que professa o ditado popular, seu desempenho é bastante comprometido por conta disto. Duas cabeças, neste caso específico, tiram qualquer possibilidade de coerência e equilíbrio. Diferente da mulher, que pensa apenas com a bolsa, por isso é mais resolvida, objetiva e prática. O homem não. Duas cabeças controlam este ser primitivo, ordinário e atavicamente equivocado. Ou seria melhor dizer que descontrolam? É, porque cada uma segue uma direção diferente e toma o comando conforme a situação assim o exija. E saiba que jamais na história da humanidade algum homem chegou perto de conseguiu unir suas duas cabeças para o seu próprio bem. A pobre alma masculina fica sendo um mero joguete nas mãos destas duas entidades notadamente maquiavélicas. Um mero títere, incapaz de manter um comportamento minimamente digno e aceitável.

Mas não sejamos maniqueístas. O que mais surpreende nesta história, porém, é que o homem pensa com duas cabeças, mas nenhuma delas é confiável. Trapaceiras de primeira ordem, freqüentemente deixam seu hospedeiro em maus lençóis. Até porque uma delas só pensa mesmo em deixá-lo em algum tipo de lençol. São como partidos políticos de oposição que nunca fazem qualquer tipo de aliança. Só lhes interessa o poder absoluto. E quando de fato assumem o poder e empreendem alguma lambança deslavada ou praticam algum ato execrável, mais do que depressa passam a bola para o adversário afim de que ele possa levar a culpa e arcar com as conseqüências. E o mais curioso disso tudo é que toda essa luta sanguinolenta serve para que? Para controlar o corpo de um merdinha qualquer. São cabeças realmente sem nenhum critério.

Veja agora um exemplo de como as cabeças masculinas prejudicam e denigrem a já combalida imagem do macho contemporâneo. A cabeça principal, aquela onde se encontra o cérebro do homem, chamaremos de cabeça número um. E a cabeça que fica sobre os ombros, chamaremos de cabeça número dois. Imagine, então, um homem ambicioso e bem preparado. Sua situação financeira, entretanto, não enxerga sua ambição nem de binóculo. Mas, por conta de um lance de astúcia e inteligência, está prestes a fechar o maior negócio de sua vida, que vai mudar os rumos de sua existência transformando-o num homem rico, poderoso e de grande prestígio. A cabeça número dois está com tudo. Dando todas as cartas. Cada passo deste homem indestrutível é milimetricamente medido por ela. Já a cabeça número um afoga-se no ostracismo, sem representatividade, desprestigiada, estagnada e encolhida num canto qualquer, até porque anda fazendo um frio dos diabos. Mas, não se iluda. Como a dengue, a cabeça número um é um mal que se desenvolve em águas paradas.

O homem está prestes a assinar o tal contrato. Entra no prédio confiante e inquebrantável. Tudo parece encaminhar-se para um final feliz para o varão até que ele encontra uma mulher como outra qualquer no elevador. “Como outra qualquer” para a cabeça número dois, porque para a cabeça número um é um verdadeiro monumento erigido em homenagem à testosterona. Bastou o sensível e delicado nariz masculino sentir aquele perfume que deve ter sua fórmula baseada em essências utilizadas em antigos rituais de acasalamento, para que a cabeça número um despertasse de sua longa hibernação. A cabeça número dois, ingênua, bobinha, continua devaneando. Enquanto isso, a cabeça número um já começa a botar suas manguinhas de fora. Começa com as manguinhas. Depois o negócio fica bem mais sério.

Além do nariz, a cabeça número um, sorrateiramente, começa a controlar também os olhos do sujeito. A partir daí ele não consegue mais desviá-los das insofismáveis cavidades daquele colo espetacular. A cabeça número dois é muito sonsa mesmo. Continua fazendo contas, planejando passos e contabilizando resultados futuros. Para ela, aqueles seios protuberantes não passam de representações dos altos e baixos de um gráfico de faturamento. Mas os ouvidos desse bicho de duas cabeças passam a captar apenas o som da doce respiração produzido pelos motores daquele avião de duas pernas. E que pernas. Duas colunas romanas, esculpidas à perfeição, abrigando o portão de um majestoso e acolhedor castelo encantado. Portão que a cabeça número um fará questão de romper, triunfante.

A cabeça número dois continua pensando na banda cambial enquanto a cabeça número um só pensa naquela bunda sensacional. Os olhos do ex-competente passam a produzir um brilho diferente. Não são mais cifrões que refletem em sua íris, mas claves de sol, prenunciando melodias orgiásticas. Subitamente a cabeça número dois, em meio à um business plan muito bem concatenado, toma uma rasteira desleal e sofre um golpe de estado. A cabeça número um agora tem controle total do indivíduo. Sendo assim, decide investir pesado no marketing de relacionamento. Ele parte para cima de sua consumidora em potencial. Confiante e de cabeça erguida, logo a convence de ir para um motel onde ele poderá finalmente por em prática todo seu talento estratégico. É claro que, por não aparecer à reunião, o vassalo das cabeças irresponsáveis perde aquele grande negócio e a chance de mudar de vida. Isso não seria nenhum problema se depois de gozar a cabeça número um não fizesse questão de devolver o pepino para a cabeça número dois resolver. O cara olha para o lado e não entende porque trocou milhões de dólares por uma garota tão vulgar, que não passa de nota cinco em qualquer critério de avaliação. Mas bastam uns quinze, vinte minutos para ele começar a entender tudo de novo. E de cinco, a moça passa para sete, sete e meio.

Existe, porém, um terceiro núcleo de poder na vida do macho moderno: a cabeça número três, esta sim poderosíssima, intangível, atroz, desumana. Tanto que, quando aparece, passa a governar com plenos poderes todos os atos do homem, anulando completamente suas cabeças originais de fábrica. Estas atrofiam e começam a servir apenas de enfeites vagabundos, penduricalhos barulhentos, adereços cafonas, símbolos falidos de um tempo de glórias que já não voltam mais. A cabeça número três geralmente inicia seu reinado com uma grande festa, quando veste véu branco e grinaldas e derrama lágrimas que ainda não se sabe se são de felicidade ou simplesmente de alívio. Além disso, entre outras violências, o homem é tocaiado na saída e alvejado covardemente por uma enxurrada de arroz cru. A partir desta data festiva, portanto, ele se transforma em um mísero corpo célere sem vontade própria. O que, sejamos honestos, faz um bem danado para ele.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas e não sabe onde estava com as cabeças quando fez este texto. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 12h28
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- O Rock'n'roll salvou minha vida

De Leo Jaime.

 

Eu não sou um colecionador. Não sou daqueles que lêem todas as biografias e nem mesmo posso dizer que tenha algum ídolo. Não ando por aí fantasiado de roqueiro, não escuto só rock, não falo disso quase nunca e estou longe de me comportar em relação a ele como um torcedor fanático, apaixonado. Escuto tudo o que é tipo de música, gosto de muitos outros programas além de ouvir música ou ir a shows, não consumo drogas ou tento fazer da minha vida uma imitação da biografia de algum clichê de roqueiro. Demorei muitos anos para escolher uma tatuagem e não tenho piercing. Não sou de seguir modas ou de achar que essa ou aquela onda é mais ou menos. Demorei muitos anos para perceber que tinha sempre optado por uma atitude punk, embora nem sempre estivesse usando uma estética punk nos meus trabalhos.

 

Como se vê, eu não sou um fanático pelo rock. Sou apenas um roqueiro. Independente, marginal, bem-humorado, sincero até as raias dos mau-modos, estou longe de ser um purista ou um bicho com pedigree. Sou vira-latas de carteirinha. E sempre tive no fundo, no tom, no sangue o ritmo do rock. Pra mim o rock está mais para o ar que eu respiro do que para o time que eu torço, se é que dá pra entender. Não é uma escolha, é um jeito de ser. Rock não é nem um resultado estético e nem uma cartilha comportamental: é o jeito mais simples e direto que tenho para me expressar. É o jeito que eu falo e faço as coisas. É a trilha sonora e o roteiro da minha vida, embora nem sempre seja o assunto. Não me esforço para ser roqueiro, e nem evito, Não dá pra evitar.

 

Durante algum tempo quis brigar com o rótulo. Achava que se me chamavam de roqueiro é porque queriam reduzir, simplificar, enquadrar e limitar. Talvez seja. Foda-se. Chamem do que quiser, vou continuar sendo eu mesmo e fazendo as coisas do meu jeito.

 

A liga das senhoras católicas do rock, sempre a cobrar coerência e fidelidade ao catecismo da trindade sexo, drogas e rock´n´roll vai sempre se desapontar comigo. Não nasci para ser enquadrado e nem fazer parte de clubes e panelas. E nem corro o menor risco de me levar a sério. Esse é, a meu ver, o maior risco que correm os que vivem para e da cultura pop e mais precisamente do rock. Como dizia o Keith Richards, Art no que me diz respeito, é abreviação de Arthur.

 

O que eu faço não tem e nunca vai ter a menor importância, e isso não me chateia nem um pouco. Uma risada, uma noite feliz, uma vida boa também não terão importância nenhuma. É anônimo e ainda assim eterno em significado. O que marca a história são as tragédias. Datas felizes só guardam significado para quem foi feliz com elas. Canções tolas e divertidas servem para os momentos felizes e ninguém respeita alguém feliz. Quando dizem que uma pessoa é séria já apontam: quem é sorridente, leve, divertido não merece confiança.Os sérios e sisudos é que são os tais. Roqueiros não cabem ou não pleiteiam um lugar neste clube. E quando começam com aquele papo de campanha para isso e para aquilo, vamos salvar o mundo e o escambau é porque perderam a noção. Viraram celebridades e deixaram de ser roqueiros.

 

Não estou aqui querendo dizer o que pode ou não fazer um roqueiro mas apontando que não é lá uma das coisas mais importantes ou notáveis do mundo, embora seja um caminho muito divertido embora nem sempre saudável. Quando penso na minha vida e tiro o rock do cenário não enxergo nada. O rock salvou minha vida. Desde quando era pequeno e fui ver a um filme dos Beatles e fiquei com vontade de fazer aquilo, filmar, cantar fazer sucesso e coisa e tal. Ali achei meu rumo. Fui e sou um grande fã do Erasmo desde garotinho. Isso também foi uma escolha fundamental. Tô pra ver alguém que seja mais roqueiro e mais admirável que Erasmo. E ser parceiro do Rei não é, de lambuja, o maior charme?

 

Ouço rock desde garoto. Toco rock desde garoto. Comecei a compor e era rock. Não nasci para a música, é certo. Também não posso dizer que tenha talento para ser escritor, embora tenha facilidade para escrever. Estudei muito tudo o que faço no palco e em hipótese alguma serei virtuoso ou mesmo merecerei um prêmio por seja lá o que for que eu faça, e sempre faço o melhor que posso. Não estou falando de vocação, mas de rumo. Vocação eu tenho para duas coisas; ser pai e fazer cafuné. De uma semana pra cá já fiz cafuné em leão, tigre, chimpanzé, papagaio, gato, cachorro, falcão, arara, ganso, crianças etc. O cafuné é bom mesmo, só vendo. E pai fica para muito em breve, aproveitando que a maré tá boa e vai dar para garantir o leito dos nenéns. E que eles venham logo.

 

Na minha tatoo tem uma figura muito feliz de uma pin-up, sentada em cima de um coração em que está escrito Rock´n´roll, e tem umas notas musicais e estrelas espalhadas aqui e ali entre rosas e corações e naipes de baralho. É meu tributo.

 

Hoje é o dia de dizer isso: o rock me deu tudo. Nada mais justo do que eu dedicar a ele a minha vida.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 09h09
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- O homem que não sabia mudar

De Nelson Botter Junior.

 

Ramiro Barbosa, 42, não tinha família e morava num subúrbio de Belo Horizonte. Em breve completaria 22 anos de Subame, uma empresa fabricante de peças automotivas. Começou office-boy, mas em pouco tempo virou auxiliar administrativo... e assim ficou por mais de 20 anos. Os colegas o chamavam de Ramiro Vaso, pois ficava o dia inteiro sentado naquela mesa, como se fizesse parte da decoração do escritório.

 

Foi então que o bilhete azul chegou. Uma tropa de consultores uniformizada com belos ternos aportou na empresa. Ramiro não entendia: "não são engenheiros, mas lidam com uma tal de reengenharia". O chefe explicou que iriam cortar custos. Logo imaginaram que as mordomias dos executivos iriam acabar, assim como as verbas gigantescas para pagar propina ao governo, mas não, o foco era redução no quadro de funcionários. "Hoje um bom funcionário deve produzir por três", falou o chefe após uma reunião com os consultores.

 

A guilhotina veio grande. Todos considerados dispensáveis foram demitidos. Não houve papo, apenas comunicado. "A empresa está passando por uma série de mudanças e infelizmente você não estará mais conosco", disseram a Ramiro. Ele foi até sua sala, pegou o paletó amarrotado e saiu. Todos estranharam ele não ter pego nenhum de seus pertences, talvez não quisesse lembranças daqueles 22 anos. Mas algo estranho aconteceu...

 

No dia seguinte, lá estava Ramiro Barbosa, sentado em sua mesa, como se nada tivesse acontecido. O chefe veio decidido a enxotar Ramiro do escritório, mas foi em vão. Por mais que gritasse, tentasse explicar, fosse estúpido, enfim, bancasse o chefe, nada resolvia. "Essa é minha sua vida, minha casa, o que eu sei fazer", dizia Ramiro. No dia seguinte, proibiram sua entrada, mas ele conseguiu pular um muro nos fundos do edifício. A segurança foi chamada e, após longa discussão, Ramiro ficou na sua mesa. Foram feitas várias reuniões para decidir o que seria feito com ele. Alguns eram intolerantes, outros de coração mole. "Leva a mesa dele lá pro almoxarifado. Ninguém nem vai notar. Deixa o coitado lá, gente. Vocês não têm coração?"

 

E assim, foi. Primeiro ele foi para o almoxarifado. Nada pra fazer, nem salário recebia, mas ficava ali, sentado, Ramiro Vaso. Depois, o pessoal do almoxarifado, achando que ele era espião da chefia, resolveu empurrar a mesa para perto do banheiro. Cada dia mais perto, até que já estava lá dentro. Várias vezes viram Ramiro Barbosa dormindo na mesa. O uso da mesma roupa todos os dias indicava que ele estava vivendo lá, não ia mais para casa. Mais reuniões da cúpula, e nada foi decidido, pois a bondosa diretoria deixou o ex-funcionário ficar. "Eu vi o Ramiro comendo papel", falaram. Pelo visto a fome era grande, mas ele continuava ali, Ramiro Vaso.

 

Até que apareceu a fiscalização. Correram esconder Ramiro Barbosa dentro de uma das cabines do banheiro. Encontrar um homem trabalhando sem registro poderia dar multa pesada. Foi quando alguém disse: "Ele não quer acordar de jeito nenhum, deve ter bebido todas ontem à noite". Mas sabiam que ele não bebia, logo só podia estar morto. Quando o fiscal chegou no almoxarifado, notou uma planta grande. Parecia que tinham juntado umas dez samambaias. "Precisa podar isso aí, acaba dando mosquito", disse o fiscal, tentando se livrar de algumas moscas. "Esse cheiro horrível é do banheiro? Comeram urubu, é?", ele perguntou. Todos riram, mas o que o fiscal não sabia é que ali, por trás das samambaias estava Ramiro Barbosa, mortinho da silva, desempenhando a função de sempre: sendo Ramiro Vaso. 

 

Nelson Botter Jr. escreve no Blônicas toda terça-feira.

Escrito por Blônicas às 11h41
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- Gay, mulher e formiga

De Xico Sá.

 

          Das pequenas questões da natureza masculina: por que homem gosta menos de doces, sobremesas etc., do que as mulheres? [Aqui já consideradas as exceções de praxe e tome etc etc etc.]
         Certamente não é pelo medo de engordar ou avariar os caninos. Como não existe, creio, literatura científica para discutir o assunto, vamos correr solto para tentar compreender o fenômeno.
           Para Millôr Fernandes, o caso sempre foi muito simples e não carece de nenhuma frescura teórica. O filósofo de Ipanema disse, nas suas definições definitivas, que macho que é macho não bebe o mel, mastiga as abelhas. Taí o eco também ouvido nos botequins e visto na filosofia de pára-choque.
           Despencando ladeira abaixo, para a sociologia dos costumes, damos de cara com "Açúcar'', de Gilberto Freyre. É o grande tratado nacional do doce, embora a prosa bem corrida seja abalroada por expressões pedantes como "simbiose eurotropical'', por exemplo.(Mas, como disse Nina Horta, delicada moça de sabença gastronômica, o cabra precisa ser muito macho para escrever um livro com receitinhas de doces e bolos, em pleno Nordeste de 1939, como fez o homem de Apipucos).
         Ao lê-lo, o menos chegado dos homens pega a sua amada pelo braço e desaba para a mais farta banca de doces da cidade de São Paulo: aquela montada aos sábados na praça Benedito Calixto. Para encontrá-la, basta ir em direção a uma roda de choro e samba que fica bem no centro da feira. As lágrimas como guia.
         O melhor do local, para quem não é mesmo voltado para a doçaria, é observar o semblante de culpa (pura tolice) das raparigas que se deliciam com uma ambrosia, uma barriga de freira (é isso mesmo?) e outros prazeres do velho, bom, e claustrofóbico Portugal. Como são belas as mulheres culpadas, a conferir no espelho da vitrine mais próxima, sem necessidade, as silhuetas.
         Largando a sociologia de lado, voltemos à baixaria propriamente dita, para tentar descobrir uma explicação sobre o nosso desgosto diante dos doces. Pereira, amigo e consultor e laranja deste ignorante que vos fala, tem a resposta. Para o nosso monstro,  doce é coisa apenas para três espécies nesse mundo: gay, mulher e formiga.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.
Escrito por Blônicas às 12h12
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- Teoria da conspiração
De Milly Lacombe.

Tenho um amigo que se chama Teoria da Conspiração. O nome que consta da certidão de nascimento é Eduardo. Mas Teoria da Conspiração, ou mais popularmente TC, foi o que pegou. Para ele, tudo é conspiração. Algumas de suas idéias são estapafúrdias, como a que diz que a NASA não só tem provas de que extraterrestres já vieram nos visitar, mas que também mantém seres de outros planetas presos em suas instalações. Que Ets circulam entre nós, não resta a menor dúvida (ou então como explicar fenotipos como o de Severino Cavalcanti?), mas achar que a NASA tem um cárcere de marcianos, plutaneanos ou seja lá o que for já é demais.
Outras, entretanto, são intrigantes. TC, por exemplo, acha que nosso ativíssimo presidente da república, assim em minúscula mesmo, perdeu o dedinho da mão esquerda propositalmente; “apenas para parar de trabalhar e viver de seguridade social”.
“Para que serve o dedinho da mão esquerda? Pra quê”, pergunta ele insistentemente. “O cara, como ficou provado, odeia trabalhar. Não posso culpá-lo por isso, mas tenho todo o direito de achar que ele tascou o dedo na prensa apenas para se ver livre daquela rotina de labuta diária e ganhar uma graninha no mole todos os meses”. O curioso é que, mesmo achando isso, TC votou no companheiro a vida inteira. “Há que se admirar alguém que corta a própria carne”, justificava.
Nunca dei bola para essa teoria e sempre achei graça quando TC falava dela em rodas de bares e era linchado moralmente pelos amigos. “Cala a boca, TC. Você tá completamente maluco”. O fato é que nunca havia dado bola para essa teoria até ler a Veja da semana passada e constatar que a foto do homem dos dólares na cueca registra que ele também não tem o dedinho. No caso do homem dos dólares na cueca, o dedinho que falta é o da mão direita. Um pouco mais útil do que o da outra mão para a circunstância de ele ser destro. Mas sabe-se lá se ele é canhoto, o que só daria ainda mais cor à teoria de TC.
Horas depois de ter visto a imagem recebo uma ligação de TC: “Você viu a foto do cara da cueca na Veja? Viu que ele também não tinha o dedinho?”. E aí, completamente embestado verbalmente, TC começou a dizer que tinha feito uma rápida investigação e descoberto que é praticamente impossível perder o dedinho numa prensa. “Parece que você pode perder outros dedos, mas o dedinho é aquele que primeiro sai da máquina”, disse. “Escuta, na melhor da hipóteses, esse cara não foi capaz de operar uma prensa. Na pior, está nos enganando há muito mais tempo. Por que ninguém investigou isso ainda?”, bradou.
Faz alguma horas, TC baixou aqui em casa com a Veja desta semana nas mãos. Me pegou largada na sala lendo o jornal. “Diz se eu tô maluco ou se o João Paulo Cunha tem o dedinho da mão direita mutilado?”, e abriu a revista na página que tem a foto do ex presidente da câmara segurando uma bandeirinha do PT nas mãos. De fato, falta ali um pedaço de dedinho. “Quer saber? Acabo de criar uma outra teoria da conspiração”, fuzilou meu amigo. “Que se trata de uma seita, de uma maçonaria. A seita dos que cortam a própria carne. Mais especificamente, o dedinho”. TC acaba de sair daqui de casa, rindo de suas próprias idéias. Foi e me deixou com essa coluna.
Como o absurdo parece ter virado regra nesse país, já não duvido de mais nada. Aliás, diante dos fatos, o País das Maravilhas de Alice parece coisa mais real do que o nosso. Nas palavras de um outro amigo, só bebendo. Um brinde aos dedinhos da mão esquerda. E direita.

Milly Lacombe escreve no Blônicas todos os domingos.
Escrito por Blônicas às 10h22
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- Terror à brasileira
De Castelo.

O presidente podia ser militar, bêbado, playboy, cientista, esquerdista que a confusão era sempre igual, não importava como era o manda-chuva.
Não tinha saída. Só restava pegar pesado.
Foi pensando assim que Jesuíno, Macaxera, Cidão e Botelho tomaram um decisão conjunta e definitiva: fazer um atentado à la Al Qaeda.
O plano foi traçado durante semanas numa mesinha de alumínio do bar do Neno.
Aos goles de Itaipava e beliscos em cubinhos de mortadela, o grupo decidiu explodir sincronicamentre quatro estações de metrô: Paulista, Jabaquara, Vila Mariana e Vergueiro.
Como em Londres, usariam jaquetas e debaixo delas bananas de dinamite (Cidão era encarregado numa empresa de demolição e tinha facilidade em desviar TNT).
Por celular, falariam entre si pra combinar o momento exato do disparo fatal.
Jesuíno foi escolhido o líder da ação na madrugada anterior ao atentado, através de uma partida de porrinha eliminatória. Ficaria na Estação Avenida Paulista coordenando os movimentos dos outros colegas-bomba.
Às 6h30 da manhã de uma sexta-feira especialmente chuvosa e de trânsito congestionado, Jesuíno se postou num ponto de ônibus defronte ao teatro de guerra.
Ligou pra Botelho, o braço da Vila Mariana.

- Alô, Botelho?
- Opa.
- Tudo em cima?
- Médio.
- Como assim?
- A lotação enguiçou. Ainda tô aqui na via Anhangüera…
- Pô, avisasse então, meu!
- O telefone não tá pegando direito, tamos num túnel faz meia hora…
- Porra, vamos ter que atrasar a parada.
- Tô no aguardo.

Jesuíno chama em seguida Cidão, posto avançado da Estação Vergueiro.

- E aí? Tudo beleza?
- Tuuuuuudo bão.
- Cê tá aonde, cara?
- Eu?… Coooomo assim, tá aonde?
- Chegou na Estação?
- Eu…ic…Estaç…?
- …Vergueiro, rapaz.
- Hum…ic…peraí, ô, chegado. Vou dar um…arroooooout!!! Huuuuugo!

Cidão exagerara de novo na canjibrina, já podia ser considerado carta fora do baralho. Mas o combinado ainda previa a deflagração dos explosivos com um mínimo de dois membros. Jesuíno se explodiria na Paulista, ponto nevrálgico da cidade, e Macaxera no Jabaquara.

A liderança ainda faz uma última tentativa com Botelho.

- Tá a caminho?
- Tô não.
- Por que?
- Acabaram de assaltar a bagaça aqui no túnel. Levaram as carteiras do povo e a dinamite foi no angu.
- Volta pra trás, Botelhão. Queimou o filme.
- Oquei.

O negócio agora era contactar Macaxera e executar o Plano B - duas explosões ao mesmo tempo.

- Macaxera?
- Oi!
- Tá na Estação Jabaquara?
- Aqui mesmo.
- Posição combinada?
- Em cima da pinta.
- E as bananas?
- Tô com elas.
- Quantas?
- Duas nanicas e uma prata.

Jesuíno desligou o telefone, deu um longo suspiro e entrou na estação do metrô.
Dali até o boteco do Neno eram duas paradas, sem baldeação.
No banheiro, jogou as bananas de TNT na privada e deu descarga.
Ia explodir, sim.
Mas de beber cerveja.

Castelo escreve no Blônicas todo Sábado e é autor do livro Faça Sexo Agora, Pergunte-me Como (Matrix Editora) e pode ser lido e ouvido também em seu site .

- Como ficar rico em São Paulo

De Henrique Szklo

Há quem diga que se eu soubesse como se fica rico estaria ficando rico e não escrevendo neste blog. Mas isso são maledicências de invejosos. Eu sei como ficar rico, sim! Só tenho um pouco de preguiça de levar as idéias adiante. Mas conto com você, leitor ambicioso, para empunhar bravamente esta bandeira colorida e cheia de brocados que é o desejo desmedido pela riqueza fácil.

Na verdade, para o observador atento, a capital paulista é uma gigantesca e um tanto cafona cornucópia de perspectivas de negócios. Basta enxergar o óbvio. Como toda grande metrópole, São Paulo tem problemas sérios que, por outro lado são verdadeiras minas de ouro para quem é criativo e ousado. No trânsito, por exemplo. Tanta coisa pode ser feita para aliviar o pobre motorista de seu desconforto. Criar um aparelho que, conectado ao automóvel, despeja uma descarga elétrica descomunal ao menor toque em seus espelhinhos proveniente de uma moto em alta velocidade e baixo juízo.

Outra boa: uma empresa de pedintes de rua. Mas não estes mal-ajambrados que se vê por aí. Pedintes de primeiro mundo. Todos limpos, bem-vestidos, cheirosos, educados, selecionados em agências de modelos, falando várias línguas e com carta de referência. Ainda nos faróis: ao invés daqueles desequipados garotos com seus rotos rodinhos e sua água imunda, um aparelho portátil de lava-rápido. O sujeito pára no farol e uma equipe bem treinada em poucos segundos arma aquela traquitana toda e põe para funcionar. É o lava-rapidíssimo.

Muitos motoristas em São Paulo têm enorme dificuldade em utilizar um equipamento tão sofisticado como o pisca-pisca. Por isso um produto de grande sucesso seria o pisca-pisca telepático: o motorista pensou em virar e o pisca é acionado automaticamente.

Essa é sensacional: uma oficina especializada em riscar toda a pintura dos carros. Ao utilizar este serviço o motorista poderá deixar seu carro na rua sem se preocupar com os “tomadores de conta”. O carro já vai estar todo arranhado mesmo.

E para enfrentar os buracos nas ruas, seria muito útil um produto que, instalado no automóvel, diminuiria a raiva do motorista: a cada buraco atingido, um sistema de som seria acionado emitindo um grito proveniente do fundo da alma do tipo “prefeito filho da puta!” ou coisa assim.

E alarmes de carros silenciosos para não incomodar as pessoas à noite? Ou até um lançador de granadas acionado automaticamente ao som de “Pour Élise” dos caminhões de gás ou ao mais leve sinal de “Pamonhas, pamonhas, pamonhas...”

A grande aglomeração de pessoas mal-educadas também cria dissabores. Então porque não criar uma empresa de segurança contra usuários abusivos de celular? Basta contratar alguns gorilas mal-encarados e oferecer seus serviços a restaurantes e casas de espetáculos em geral. Treinados em relações públicas, arranjos florais e artes marciais, ao primeiro toque de um celular estes amantes da encrenca renderiam o proprietário do aparelho e o colocariam para fora do estabelecimento a pontapés. Prático, limpo, rentável.

E o dissolvedor de filas? Que serviço maravilhoso. O cliente contrata um acompanhante para ir com ele ao banco, ao cinema, teatro, enfim, onde quer que hajam grandes filas. Especialista em piadas sem graça, informações inúteis e mão pegajosa, este indivíduo insuportável ficará atormentando a pessoa que estiver à frente do cliente até que a pobre criatura desista e vá embora. Não é útil?

O comércio ainda oferece boas oportunidades para quem é ousado: por exemplo, uma rede de marreteiros de primeiro mundo. Uma nova categoria de camelôs: os dromedariôs. Entrega a domicílio, financiamento, programa de milhagem, site na Internet, aceitação de todos os cartões de crédito, serviço de manobristas e etc. Tudo isso em barracas projetadas por João Armentano.

Ficar rico é uma arte. É preciso desenvolver um pensamento não-linear. Água na gasolina todo mundo põe. Mas nunca ninguém pensou em por gasolina na água. Viu? As oportunidades estão aí. Basta estar atento que o dinheiro vem. Olha só: ração de cachorro com chiclete para eles não sujarem as ruas, empresa de táxi para dias de chuva, estacionamento que assume quando dá uma raspadinha no carro do cliente, fábrica de placas de carro de cristal líquido para dias de rodízio, tinta spray anti-pichador que espirra também para trás, locadora que tenha filmes legais no fim de semana, portas giratórias de bancos que travem com o dono do banco, etc, etc, etc.

Só mais uma coisinha: se você chegou até aqui, sinto dizer que jamais será rico. Ninguém que perde minutos preciosos de sua vida lendo artigos idiotas como este tem a menor vocação para a riqueza. Desculpe a franqueza.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h01
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- Malditos

De Leo Jaime.

 

A idéia de que alguém que vive no limite - só por ser auto-destrutivo - forçando a saúde e flertando com o perigo é uma pessoa que merece respeito me parece risível. Há essa constatação. Olha-se para o suicida com um certo ar de patriotismo. O que se droga ou bebe até ficar zerado de possibilidades é tido como alguém que viveu intensamente. Dez anos a mil é melhor do que mil anos a dez, dizia uma canção em louvor a esse estilo de vida.

 

Pensando bem, para mim, alguém só porque é triste e auto-destrutivo merecer respeito é o mesmo que alguém virar ídolo só por não cortar as unhas do pé.

 

Viver a vida com intensidade e no limite é bem o contrário disso: é estar para o amor, as idéias, as experiências com alma entregue. Criar o mundo e inventar o seu lugar. E isso tem a ver com melhorar a vida e não acabar com ela. Ser largado, desleixado, cheio de vícios e tiques não torna ninguém especial.

 

Pode pegar um gênio drogado e tirar a droga; ele continua genial por mais tempo. Pegue um imbecil e drogue-o por anos consecutivos: ele continuará cada vez mais imbecil, progressivamente. É assim a vida. Se alguém tirar onda porque faz coisas destrutivas que você acha idiota, mande pentear macaco. Se é que você precisa de conselho.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 15h49
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- Use o verso se necessário

De Rosana Hermann.

 

Favelaqui, daslulalá,
em se plantando aqui tudo dá.
daslulalá, favelaqui.
dá muita laranja e abacaxi.

 

só quem tem alma de ladrão não sabe
só quem é cruel jamais admite
o elo que liga a corrupção à miséria
entre a fome do povo e o luxo da elite.

 

sim, todo mundo quer viver bem
sim, é um direito melhorar de vida
mas basta parar, pensar e entender
que sonegação é desvio de comida.

 

favelaqui, daslulalá
em se plantando aqui tudo dá.
daslulalá, favelaqui.
dá muita laranja e abacaxi.

 

o Brasil é corrupto, o Brasil não tem jeito?
político não presta, indicado ou eleito?
presidente, governador, deputado, prefeito?
não vale nem a pena ser cidadão direito?

 

claro que sim, claro que vale,
vale ser reto, vale ser boa
vale o verso de pessoa, vale sim, vale a pena
contanto que a alma não seja pequena.

 

tem dias que realmente, certamente, de fato
dá vontade de desistir da honestidade,
trocar de nome e de nacionalidade
abandonar o circo e deixar de ser pato.

 

favelaqui, daslulalá
em se plantando aqui tudo dá.
daslulalá, favelaqui.
dá muita laranja e abacaxi.

 

estamos chocados, tontos, perdidos
com nossos valores totalmente invertidos
o sonho se acaba, a esperança seca.
no dinheiro da bolsa, da mala ou cueca.

 

os versos são pobres, como pobre é o brasileiro
que estuda, trabalha, dá duro o dia inteiro.
chama carne de mistura, transporte de condução
e só conhece o mundo pela televisão.

 

as rimas são tolas,a métrica é sem noção
mas deixam no fim, uma nobre lição,
no meio da lama, da crise sem precedente:
- como é duro ficar rico trabalhado honestamente!

 

Rosana Hermann escreve no Blônicas toda quarta, sempre um texto de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h35
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- Igreja: o melhor empreendimento

De Nelson Botter.

 

Num país onde o empreendedor só leva na cabeça, descobri uma solução. Quer ficar rico? Pois então monte uma igreja daquelas que recolhem dízimo. É, irmãos, de grão em grão o bispinho enche o papo! Pude ver isso na apreensão das malas de dinheiro da Igreja Universal do Reino de Deus, pois os 10 milhões transportados pelo presidente da igreja (deve ter plano de carreira lá) e também deputado federal (vejam só que coincidência, é político!) João Batista (com esse nome só pode ser protegido do Homem) estavam em notas de R$ 100, R$ 20, R$ 10 e até R$ 5. E viva os fieis que depositam no cofrinho, quer dizer, na malinha seu mísero dinheirinho! Deus salve a todos que contribuem com o que não têm para os que já muito têm. Maravilha, meu Jesuis Cristinho, ó pá.

 

Mas o melhor desse empreendimento chamado "igreja" é o fato de você poder arrecadar altas somas de dinheiro e ainda ser isento de impostos. É isso mesmo, você nem precisa gastar muito em marketing de relacionamento com seus clientes, pois já são fieis, e ainda não precisa ter o governo de sócio! Então, no caso, temos 10 milhões livres para o Senhor. É, enquanto isso os donos de pequena empresa no Brasil vendem o almoço para comprar a janta. Deus os ajude...

 

Certo, você evangélico vai me dizer que esse dinheiro é revertido em obras assistenciais, sociais e outros "ais" quaisquer. Sim, com certeza. Mas quanto em percentual? 10%? 20%? Te garanto que não deve ser muito mais do que isso, pois a Universal - por exemplo - ostenta um verdadeiro império, que vai desde templos colossais, até cadeias de comunicação (várias rádios e até a TV Record) em vários países. Trata-se de um plano de expansão de causar inveja em qualquer empresário. Portanto, caro fiel, é bom saber que sua contribuição serve também - indiretamente - pra pagar o salário do Raul Gil, Milton Neves, Tom Cavalcanti e outras estrelas da Record.

 

Em clima de terrorismo londrino, só nos resta dizer: "God save the Queen... and the rest of us".

 

Nelson Botter escreve no Blônicas todas as terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 09h35
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- Crítica de peidarias
De C'stelo.

A nossa crítica gastrunómica d'hoje bai ritrataire u'a das peidarias mãis vadaladas da cidade. A peidaria Floire du Minho, lucalizada nu vunitu vairro di M'Voi Mirim. U'a das milhores coisas desti estavelecimento, muderno, igiênico - e, purquê num dizeire, supimpa, é tamvém u urário d'atendimento ao púvlico. A sabeire, das binte pás seis da matina à mãia-noute.

Muito bãem, dãixando-se di lado outrus purmenores minores, bamos cumeçaire falando da d'curação. D'fronte ao valcão di vividas, há um painéle di azuléjos cum mutivus purtugas, ebidentemente. Estão ali u'as carabelas muitu vãim dispostas. Ao lado du painéle, há um rulógio de parede (um cucu qui, bira e mexe, culoca a cavecita pá fora i grita: "cucu, cucu") e u'a flâmula du Basco da Gama.

Abaixo da rifirida flâmula há u'a futugrafia da finada mãezita - qui São Vartumuleu a tenha - du senhoire Bicente Manuéle da Graça, qui bãem a seire u pruprietário du estavelecimento.

Vãim abaixo disto, nu valcão, 'stá u senhoire Bicente Manuéle da Graça, gajo já citado nesta crítica como sendo u pruprietário da peidaria. Él custuma sirbire pissoalemente u'a veveragem negra e di grande amargore di nome "Caracu cum obo" a friquentadoires anónimos du vairro.

A tale "Caracu cum obo", apesaire de teire pruvucado acessos di bômito a este jurnalista, é nutadamente u'a das vividas prifiridas da casa. Vatida ao liquidificadoire cum us obos mitidos lá sem suas rispectivas cascas, transforma-se nu'a iguaria di alto tiore inergético.

Outru must - usando cá u'a ixpressão vretã pá milhore difinire u ispírito desta vivida - é a pupulaire isprimidinha. Vãim a seire u'a cumbinação d'aguardente cum limões galegos isprimidos e jugados nu copo atrabés dum cuadoire.

A seção di frios da Floire du Minho tamvém é s'ptaculare. I di u'a avundância! Toucinhus, tremoçus, churiçus. Tudo frigórificado pur u'a cámara cum turmómitro industriale.

Mãis u milhore da Floire é u surbiço. Um berdadeiro pereíso tirréstre. O petrício pede lá a um dus paraívas du valcão u'a vatata frita, um volinho de vacalhau, um ravo de galo, um viotónico Funtoura, qualquiére purcaria, e aquilo vãim mãis rápido qui u'a nabe espaciale. Quando u petrício menus 'spera u pidido 'stá vãim à frente di suas bentas.

O prublema é u qui pidire. O senhoire Bicente Manuéle da Graça diz qui as ispicialidades di sua peidaria são: volinho d'obo, frança na c'noa cum manteiga Aviação, mixto frio, murtadela na chapa, muela ou curacãozito à binagrete, om'letes (o de bagem é dilicioso), turresmu (tamvém na bersão low fat , sem gurdura) e u afamado galéto na vrasa - feitu na tuluvisão di cachorro.

Pá manteire a tradição brasuca, o senhoire Bicente Manuéle da Graça faiz u'a bersão purtuga du vovó di camarões vaiano, onde us camarões são trucados pur paio.

Si o friguês preferire pode ricebere us pididos em casa. O senhoire Bicente Manuéle da Graça tem um sirbiço d'livery faito de vicicléta.

É di vom-tom adverti-los qui, di quandu im beiz, acuntece u'a piquena vriguinha na peidaria Floire du Minho. Numa bitória da Lusa pur sobre u Timão, binte i três turcedores évrios vateram nu senhoire Bicente Manuéle da Graça até lhe dixarem berde. Bendo qui él se trasformara num ripresentante du Berdão deram-lhe mãis alguns tavefes até qui él ficasse cumpletamente roxo.

Mãis isto só acuntece de binte em binte anus. Quando a Lusa bence.

Castelo é cronista do Blônicas aos sábados.
Escrito por Blônicas às 15h48
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- A bolsa de vida em Londres

De Paulo Castro.

     O que foi esse atentado de ontem ? Desde quando ( 11 de setembro) os líderes mundiais não estão esperando por explosões em vésperas de eventos importantes ? A cúpula do G8 vai ser recebida pelo Blair e ele nem pensou que algo poderia acontecer nos dias precedentes ?
     Quanta ingenuidade do primeiro ministro.
     Será que o rock do Live8 amaciou tanto o coração do homem que ele só está pensando em paz e amor, Sargent Peppers ?
     Será que não é apenas só cara de estúpido que ele tem ? Aquele sorriso perene e irritante.
     Ou devemos pegar outro caminho ?
     Você, isso, você mesmo.
     Quanto vale a sua vida civil ?
     Você se acha muito essencial enquanto médico, engenheiro, advogado, padre, investidor, poeta, vagabundo ? Por quê ? Que falta você faz ? Sua filha vai chorar no seu túmulo, sua esposa joga uma rosa, seu marido engole as lágrimas. Emoção durante a oração. Você só não percebe um detalhe.
     Você está sendo filmado. Sorria entre as coroas de flores. Sorria com algodão dentro das narinas. Sorriso geo-político.
     As lentes do mundo todo estão voltadas para a sua morte, especificamente para o número dela. A estatística. O terror feito efeito quantitativo de emoção histérica. Olha ele lá de novo ! Olha lá o Blair em rede mundial. Olha o nosso Lulinha safado mandando pêsames. Olha lá o Bush se derretendo de tanto rir, como não fazia desde a época de seus uísques e baseados.
     O grupo terrorista assume o atentado.
     Precisava ?
     O assassino já não estava óbvio ?
     Será que o Palácio Real estava desprotegido ? Por quais vistorias os aviões da cúpula do G8 não vão passar, querido Chirac ? Tudo defendido, todos alertas, a Inteligência com as orelhas de seus cães em pé. Soldadinhos de chumbo que não piscam os olhos. Retesados. Bem treinados.
     - Câmbio, suspeito no parque.
     - Deixe-o. Conduza para a concentração de civis.
     - Mas...
     - É uma ordem de cima. Muito de cima. Up.
     - Good Save The Queen.
     Voltemos para a questão crucial, enquanto o suspeito caminha calmamente entre os passantes, a fiação pronta, a massa de explosivo bem condensada. Ele vai em paz e tranqüilidade. Sob satisfeitos binóculos. Sempre as lentes. Sempre as telas. Voltemos :
     - Quanto vale a sua vida, civil ?
     - Minha infância, meus amores, minha profissão, os amigos, minha coleção de gibis de super-heróis...
     - Super-Heróis ? Claro que você só pode estar brincando. E brinque mesmo, se divirta. Pois em minutos você vai explodir. Tudo isso. Tocha Humana. Sua vida pueril ganhando sua verdadeira função.
     - Senhores espectadores do mundo todo ! Terror em Londres ! Mortos e feridos ! Sangue anônimo globalizado ! As carteiras de identidade estão em chamas ! Nossa equipe fará a cobertura completa do incidente. Não ousem levantar de suas poltronas. Não ousem deixar de sentir raiva do Inimigo. Nem pensem em discutir outro assunto no encontro do G8, nada de fome, pobreza, má distribuição, uma criança morta a cada três segundos. Isso é o de menos. Temos que nos importar com o medo. Só ele importa. O medo do outro, do estrangeiro, do diferente, daqueles que esmagamos. Os mortos vão entrar para a História, como valentes úteis desprezíveis. Agora temos um motivo para continuarmos com nossa ladainha paranóica. Para não tocar na ferida ancestralmente crônica. É isso mesmo. Gostaríamos de agradecer veementemente o suspeito pelo espetáculo de carne festiva. Agora sim.
     Do que vale a sua vida ? Ignorante vaca pacífica de abate.

Paulo Castro é cronista do Blônicas. Visite seu blog pessoal.

Escrito por Blônicas às 13h46
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- Cerveja faz bem para a bunda

De Henrique Szklo

Comercias de bebida elevam modelos à condição de estrelas nacionais
O mais novo trampolim para as moças brasileiras com curvas inexoráveis são os comerciais de cerveja. Basta estrelar um filme de trinta segundos para em pouco tempo se tornarem verdadeiras estrelas no pálido firmamento brasileiro. Musas do imaginário masturbatório nacional. Todas, obviamente, possuidoras de uma beleza implacável associada a pequenos detalhes como peitos formidáveis, bundas superlativas, coxas magníficas, rostos inebriantes, olhares inquietantes e barriguinhas maravilhosamente inexistentes. 

O passo seguinte é posar para as revistas masculinas, fazendo fotos artísticas de muito bom gosto. Depois começam os convite para festas, baladas e desfiles descolados. Num determinado momento, que não sei precisar ao certo, todas começam a pensar em fazer um curso de dramatização com o firme propósito de estrelar uma novela da Globo. Em seguida vem o implante de silicone no lóbulo da orelha, o namoro com João Paulo Diniz e daí por diante a musa cervejeira já virou paixão nacional. Nada no país acontece sem que se pergunte a ela sua opinião.

Revistas descobrem o segredo de sua beleza e os programas da tarde insinuam que ela foi cotada para a próxima Casa dos Artistas. A Caras mostra toda sua beleza e simpatia em visita à ilha e os homens comuns ficam imaginando se algum dia uma mulher daquelas vai aparecer na sua vida. Me desculpe a franqueza, mas não vai não. Jamais aparecerá. O Faustão a faz chorar mostrando como foi dura a sua vida e ela vai ao Raul Gil dizer que não tira o chapéu para a pobreza e a fome. No carnaval será rainha de bateria em 45 escolas e apresentará um programa na MTV, já que na Globo não pintou nada.

A cerveja, neste contexto, passou a um papel secundário. Apesar de ser a responsável pelo lançamento artístico das moças, a bebida fica assim meio que de escanteio. Quem quer ver cerveja? A gente quer ver é a gostosona. O lançamento de uma campanha nova ganha mais importância que o capítulo final de uma novela. Provavelmente isso faz parte de um plano perverso das indústrias de cervejas que não querem gastar dinheiro desenvolvendo produtos melhores. Botam as beldades adocicadas no vídeo e ninguém repara mais no gosto amargo das loiras.

Outra pergunta que eu faço é: de onde eles tiram este monte de monumentos que a gente nunca vê na rua? Será que são de verdade ou não passam de pura invenção dos publicitários? Por que não tem morando nenhuma no meu bairro? Alguém aí tem o telefone daquela que aparece no último comercial da Antarctica?

Até os pais de família são afetados por este fenômeno cervejo-bundístico. Antigamente eram zelosos pela moral e bons costumes de suas filhas, mas hoje em dia eles não estão mais nem aí. Pelo contrário, parece que estão torcendo mesmo é que elas tenham um corpão e acabem saindo por aí vendendo cerveja para marmanjo. Imagino a alegria incontida de um pai vendo a filha estrelar um comercial de cerveja. Enquanto ela caminha na direção oposta da câmera com um vestidinho curtíssimo, coladíssimo, desnecessaríssimo, o cidadão pensa alto, sem esconder um orgulho quase que profético: “Esta menina tem um grande futuro pelas costas.”

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas, não bebe cerveja e tem a bunda caída. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h22
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- A revolta dos maridos

De Leo Jaime.

 

    A turma de bigodões reuniu-se como que para maldizer o casamento. Um dizia que o casamento era um câncer contraído com hora marcada, o outro sustentava que aquilo era a pior coisa que se podia fazer a uma moça. Alguém chegou a comparar com a vida na cadeia, dizendo que lá, pelo menos, ninguém te perturbava quando você queria jogar uma pelada no domingo. Estavam mesmo exasperados, e eu participava da roda, atendendo ao convite de um amigo que advoga o amor, e só amor.

 

    Dr. Sérgio ia rebatendo, como um Guga inspirado, a todas as flechas em chamas que contra o casamento eram atiradas. Diziam que o casamento era o túmulo do amor, e ele afirmava que casamento e amor eram assuntos distintos e que um pode perfeitamente viver sem o outro. Assistindo ao embate eu fiquei pensando: sempre me perguntam se prefiro Lennon ou MacCartney, Led Zeppelin ou Pink Floyd, Senna ou Piquet, e por aí vai. Minha resposta é sempre a mesma: prefiro um E outro. De preferência juntos. Enquanto eu pensava nesse assunto, perdia lances imperdíveis da discussão cujo calor só era contido por goles de cerveja gelada como bunda de foca. Assim ouvi dizer. E veio a revelação.

 

    A confissão de um deles justificou toda a polêmica. Estavam todos indignados com o fato e solidários com o amigo que abria o peito como um kamikaze, ou será um samurai suicida? Bom, o homem rasgava o peito e exibia sua dor. A mulher o flagrara no ápice da prática solitária do amor. Constrangido pelo esgar reprovador da patroa, o pobre homem saiu-se com: -"Caramba! Você não morre tão cedo! Tava pensando em você!".

 

    Antes de voltarem para o aconchego do lar, em busca do chinelo e do sofá, concluíram: o que as mulheres mais gostam é fazer as pazes.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h24
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- Silêncio, Brasil!

De Rosana Hermann.

 

O brasileiro gosta de falar. E fala. Sempre. Sem parar. Digo isso como brasileira representante da classe dos muito, muito falantes. Detesto começar textos pessoais pela infância, mas, exceção feita, demorei para começar a falar quando criança, após o quê não parei nunca mais. Procurei uma profissão que comportasse essa compulsão verbal (verbal não é oral, ok?) tornando-me radialista, entrevistadora, apresentadora de tv, garota-propaganda, palestrante.(Estou às ordens e dou desconto). Quando não sou eu que estou falando meus próprios textos estou escrevendo para que outros falem. Fiz programas diários ao vivo, ocasiões em que falei sem parar durante alguns anos. Até que percebi que o problema não era pessoal, mas nacional.


Todo mundo no Brasil gosta de falar muito em volume e intensidade. Entre num restaurante num país latino e num país europeu (ou asiático) e sinta a diferença em decibéis. Somos barulhentos. Não é julgamento, só fato, fazemos muito barulho o tempo todo. Falando. Já somos quase campeões em celulares. As pessoas falam o tempo todo ao celular, é impressionante. Não falam quando precisam, mas porquê precisam. A ansiedade de falar faz com que as pessoas peguem o celular e procurem primeiro alguém com quem falar para depois descobrir o que falar. Porque o assunto não importa, importa só estar falando com alguém.

 

O fato atinge todas as classes. Nas CPIs, os participantes querem discursar sem parar, pegam a palavra e não a devolvem mais, é impressionante. Hoje, antes do Marcos Valério começar a falar, as pessoas, agitadíssimas, queriam falar antes dele. Nem a vez dos outros a gente consegue respeitar. Falamos, inclusive, todos juntos.

 

Na Internet, os blogs crescem porque dão voz aos internautas, ainda que em forma de texto. Mas blog é fala sem áudio. Escrevemos o que estaríamos falando, assim como falar ao celular é quase como postar no ouvido do outro. Na TV, nem se fala, é quase um rádio televisado.

 

E por falarmos tanto, cada vez mais, cada vez mais alto, mais intensamente, começa a faltar assunto. Para suprir a demanda de tanta comunicação, deixamos de falar sobre assuntos para falarmos sobre pessoas. E agora, que já faltam até pessoas sobre as quais falarmos, falamos sobre o que as pessoas falam. Estamos presos, vagando perdidos, num labirinto de blá blá blás, de disse-me-disses, perdendo a capacidade de ouvir, de ler, de compreender, de absorver qualquer informação. A informação não entra mais, ou entra mal interpretada, torta, porque não consegue nadar contra o fluxo de palavras e pensamentos que sai da gente o tempo todo.

 

Por que falamos tanto? Que compulsão é essa? De onde vem tanta ansiedade?

Não tenho a resposta. Mas tenho a mais profunda certeza de que é urgente, meditarmos sobre este assunto. Sozinhos. De olhos fechados. E, sobretudo, calados.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas todas as quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h15
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- Um começo no fim

De Nelson Botter Junior.

 

Na beira da estrada havia um menino. O sol já se punha e a tarde alaranjada se refletia no asfalto. O ar seco cheirava a sangue, a ponto de causar enjôo. Com lágrimas nos olhos, o menino observava seu cão vira-lata. O cachorro estava morto, rasgado ao meio e largado ali, apodrecendo, para o delírio de moscas e urubus. O asfalto da estrada ainda guardava as marcas de borracha negra, provocadas pela súbita brecada do carro que atropelou o cão.


O menino chorava a morte de seu cachorro, Pirata, como nunca havia chorado antes. Era a primeira vez que enfrentava a morte de fato. Anos antes, ficara sabendo do falecimento de seu avô, mas não fora ao enterro. Agora, ele estava ali, sozinho, olhando para o corpo mutilado daquele cachorro.


Com as mãos trêmulas, o menino fazia carinho na cabeça do cão, como sempre o fizera quando vivo. Tinha a esperança de que Pirata iria abrir os olhos, levantar e sair andando, após uma boa chacoalhada para limpar aquele sangue todo. Mas ele sabia que aquilo não iria acontecer... Pensou na falta que seu cão lhe faria dali para frente. Amigo fiel e companheiro como poucos nessa vida. As lágrimas aumentaram.


Pirata nunca havia tomado uma vacina. Não era escovado e nem usava coleira. Também nunca soube o que era Bonzo ou qualquer outra ração. Não tinha o tal do pedigree e não era de raça, o que não fazia dele menos ou mais do que qualquer outro cachorro na face da Terra. “Somos todos iguais perante os olhos de Deus”, dizia a mãe do menino, e isso também se aplicava aos cães.


Com as mãos banhadas em sangue, resolveu cavar uma pequena cova ali na beira da estrada. A terra estava fofa e não foi difícil abrir um bom espaço para depositar o corpo do amigo. Pegou o cão no colo. O corpo mole, fedorento, a língua para fora da boca, os olhos entreabertos e sem vida. Faltava alguma coisa... Faltava o Pirata. Aquele não era mais o seu cachorro, era apenas um monte de carne que serviria de alimento para os vermes. Sentindo isso, jogou instintivamente o corpo na cova, fazendo com que as vísceras saltassem para fora. O menino não se abalou e empurrou a terra, cobrindo o cão. Olhou, então, para suas mãos que não mais tremiam. Estavam sujas de terra e sangue. Sua roupa também não estava das mais limpas. Viu a crosta escura de sujeira debaixo das unhas e pensou que aquilo demoraria a sair. Certas coisas, por mais que se lave, ainda continuam lá.


Mesmo sendo apenas uma criança, percebeu naquele instante que a morte não é simplesmente o fim, é também uma perspectiva de mudança, transformando de diferentes maneiras a vida dos que a cercam, dos que seguem adiante. Naquele dia, sentiu que algo de sua inocência havia se perdido. No fim de tarde alaranjado, na beira daquela estrada, morria um cão amigo, mas nascia um novo menino.

 

Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h21
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- Foder não é lá essas coisas

De Xico Sá.

 

           Dia desses, dentro de um cabriolé de luxo que nos levava para um evento do calendário pop da cidade de São Paulo, cutuquei a memória do inimitável homem de qualidades Tom Zé. Queria puxar na caixola por uma velha crônica de sua autoria, no início do Caderno 2 (Estado de SP) que tratava da inusitada reflexão de um mancebo de Irará, Bahia,  sobre as primeiras conjunções carnais.

        -Rapaz, é Zé Pequeno!

         -Como é mesmo a história? Eu sei que o cabra dizia que foder não é lá essas coisas que todo mundo diz, não era?!

         Enquanto exercitava a goela, qual um sapo que salta de um poema de Manuel Bandeira ("foi, não foi, foi, não foi''), Tom Zé rebobinava os anais de Irará:
         -Isso mesmo. Naquele tempo, todo mundo tecendo loas à primeira vez, às primeiras transas, e aí vem Zé Pequeno, com uma sinceridade danada, e diz que comer moça num é lá essas coisas todas! - narrava o autor de ``Sofro de Juventude'', diante do olhar-retrovisor da bela Neusa, sua companheira, sina e sorte, que viajava uns palmos adiante.

          Contra vento e maré, a reflexão do mancebo baiano, pensata correta perante o desacerto das metidas inaugurais do ser, cai como um meteorito de sabedoria sobre estes papiros virtuais.

 Quantos de nós, Zé Pequenos de noites de sábado, sofremos diante da obrigatoriedade do sexo. Quantos de nós acusamos a nossa inapetência diante da mulher amada?... O nosso rápido fastio diante do melhor dos mundos?... Talvez uma certa preguiça de prazer e amor. Um Zé Pequeno que irrompe d'alma, onze mil varas depois, para "inguiar'', tal filhote de urubu, ainda no ninho, entre locas de pedras, quando avista gente curiosa.

          Mas falamos de uma situação muito passageira, rapidíssima, uma náusea que nem chega a sartreana, uma repulsa que não se filia às doenças de Polansky, um naco de quase nada... Fui! Uma agonia de segundos. O mais, se demora a agonia, meus caros, poderemos dizer que o camarada se "androgenou'', como no decassílabo de hormônios do falecido sambista Agepê – ou será Zé Américo? Agora cantando, pra encerrar: “Esse camarada se androgenou/ a moça deu bola a ele/ e ele nem ligou!”.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 14h44
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- O Iluminado

De Castelo

Era impossível competir com Romualdo, fosse qual fosse o tema.

- Meu filho nasceu – alguém disse uma vez.
- Onde?  – perguntou Romualdo.
- No Albert Einstein – respondeu o outro.
- O meu nasceu no Monte Sinai, de Nova York. Sempre quis o melhor pro meu filho.

Tudo o que o Romualdo fazia ou tinha era mais interessante, espetacular ou inusitado.

Carro:

- Comprei uma Ferrari.

Romualdo entrava com tudo:

- Carro pra mim é Lamborghini Diablo. Quer dar uma voltinha na minha?

Mulher:

- Tô saindo com a Naomi Campbell!

- E eu com a Athina Onassis – cortava Romualdo, com a superioridade de sempre.

Romualdo também peitava qualquer um no mundo das  artes e cultura. Não havia tema sobre o qual ele não tivesse algo mais contundente a revelar.

Dizem que certa vez enfrentou os três maiores sabichões do país: Décio, Haroldo e Augusto - juntos. Discutiram de passagens literárias da Bíblia até a prosa de Faulkner, passando pela vida de Safo.  E Romualdo narrou passagens que até o trio sabe-tudo desconhecia.

No meio de acalorada discussão estético-intelectual, Romualdo ainda soltou essa:

- E, olha: James Joyce  era bicha. Tenho uma carta dele pra um marinheiro irlandês guardadinha no meu cofre.

Romualdo também era íntimo do “grand-monde” internacional: Bono Vox, Tony Blair, Billy Cristal, Príncipe William, Leonardo Di Caprio. Se alguém pagava de amigo de celebridade, lá vinha ele:

- É, mas você não passa a mão na bunda do Jack Nicholson…

Um dia Romualdo morreu.

Rapaz, que morte!

Foi atravessar a Avenida Foch, a mais elegante de Paris, e grudou os sapatos italianos num chiclete suíço. Veio uma carreta inglesa carregando um míssil norte-americano e o atropelou.

Depois de perder o controle, o gigantesco caminhão explodiu metade da rede elétrica da cidade.

Nunca se viu uma morte daquelas. A Cidade-Luz ficou 48 horas completamente às escuras. A data virou até feriado nacional: o “Le Romualdô”, dias depois da “Fête du Travail”.

O enterro então foi imbatível.

A celebração ficou a cargo de um papa, um pai-de-santo, um pastor evangélico, um rabino e o Dalai Lama no cemitério Père Lachaise – o mais, mais do mundo. 

Madonna cantou a música favorita de Romualdo enquanto o caixão, com design Pininfarina, descia seguro por cordas folheadas a ouro.

A cova ficava ao lado da de Jim Morrison, mas a de Romualdo tinha vista para a Rive Gauche.

Durante o velório alguém disse:

- Deus que se cuide. Já, já o Romualdo passa Ele pra trás.

Castelo é autor de “Faça Sexo Agora. Pergunte-me Como” (Matrix Editora).

Escrito por Blônicas às 14h19
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- Um negócio chamado publicidade

De Henrique Szklo

O Festival de Cannes é uma delícia. Um clima de euforia toma conta dos milhares de publicitários que desembocaram nesta semana passada nesta aprazível cidade da Costa Azul francesa. É muito bom estar na Europa e conhecer o que de melhor – e de pior também – foi feito na publicidade de todo o mundo. A troca de idéias, conceitos e fluídos é inevitável. A cidade não é espetacular, mas simpática o suficiente para receber o evento mais importante da propaganda mundial.

Mas engana-se quem pensa que a propaganda é uma brincadeira, um devaneio de criativos irresponsáveis e que o Festival de Cannes é apenas um evento corporativista e festivo que distribui prêmios entre os próprios publicitários. O Festival de Cannes se tornou uma espécie de investimento das agências.

Só os ingênuos criativos acreditam que de fato o que está sendo feito ali é a aferição da criatividade dos talentos vestidos de preto. Na verdade, as agências botam dinheiro, e muito, para que a vitrine do Festival coloque seus produtos em destaque. Que os clientes se encantem não com o brilhantismo de uma idéia, mas com o brilho fácil de uma estátua cafona. O ser humano é assim mesmo. Se deixa levar por tudo o que parece dourado.

Uma agência que levar algum felino para casa, terá em seu poder, uma moeda forte que poderá ser negociada de forma muito favorável, se souber trabalhar direito. Aquela que não ganha, também não terá por que se desesperar. Poderá reclamar e fazer birra, alegando que foi uma grande injustiça aquele seu filme não ter pego nem short list. E dizer que o Festival de Cannes não é mais o mesmo.

No final das contas, o que está valendo nesta história toda é o que sempre vale em todas as histórias humanas: grana. No frigir dos ovos o que as agências de hoje querem certamente não é produzir uma boa propaganda, e sim faturar. E o Festival de Cannes é um excelente campo de prospecção e fomento de negócios. Negócios, eu falei. Não de idéias. As idéias tomaram, neste contexto cruel, um segundo ou terceiro plano. O sonho acabou. A época do romantismo já se perdeu há muito. Os publicitários que amam a propaganda acima dos prêmios ou do dinheiro estão quase todos perdidos por aí, trabalhando em alguma agenciazinha vagabunda só para conseguir pagar suas contas. O negócio hoje é encarar a propaganda como business. A alma do negócio, mais do que nunca.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h33
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