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- Coisinhas estúpidas do dia-a-dia

De Rosana Hermann.

 

Ontem, na sala de espera da minha aula de Pilates, descobri que há mais de um mês tenho tomado chá de camomila  usando como recipiente o pequeno suporte plástico dos copinhos descartáveis. Juro que desde a primeira dose achei o recipiente por demais rasinho para uma xícara mas poderia ser uma forma de desestimular o consumo excessivo de bebidas quentes. Também notei, à época, que toda vez que todas que eu ia me servir as outras xícaras estavam todas sequinhas. Inclusive, depois de usá-la, achava estranho deixá-la ali, molhadinha, ao lado das outras todas enxutas. Mas continuei tomando chá semanalmente  sempre do mesmo jeito. Até ontem, quando vi uma pessoa normal colocando o copinho plástico descartável sobre o suporte e servindo o chá dentro do primeiro. Quis morrer de vergonha por um mês de cretinice.

 

Mas já fui pior. Você já foi a algum lugar onde as pessoas colocam as colherinhas dentro de uma xícara com água, uma espécie de banho para colher de cafezinho? Pois depois que todos retiraram as respectivas colheres, eu tomei a água turva restante pensando que era uma xícara já servida para mim. Nojento.

 

Não se preocupe, eu sou forte e tenho sobrevivido a mim mesma com galhardia. Mas eu vivo fazendo coisas estúpidas onde quer que eu vá. Há coisa de um mês, num restaurante, fiz o que sempre faço em lavatórios molhados, seja em terra firme ou no avião: faxina. Digo a mim mesma que, se minha passagem pela Terra não tiver servido para mais nada, ao menos, posso dizer orgulhosa que todas as pessoas que entraram depois de mim no banheiro, encontraram-no melhor do que eu. Mesmo nas casas que visito, caso seja a última a usar o rolo, troco o canudinho vazio de papelão por um rolo novo. Detesto ver aquela pia molhada; assim, sempre enrolo a mão direita em muito papel toalha e seco tudo. Deixo a pia um brinco.Ao terminar de limpar a pia pego todo o papel da mão e amasso bem o cesto de papéis da pia, pro lixo baixar e não cuspir tudo pra fora. Estava terminando minha limpeza no banheiro do restaurante quando uma mulher entrou com a amiga e gritou bem alto: “Olha! Ela faz faxina no banheiro igual a mamãe!” Morrendo de vergonha, só consegui responder com humildade : “Diga para sua mãe que ela tem uma fiel discípula.”

 

Já fiquei com vários trincos na mão, já puxei cordinhas que caíram sobre minha cabeça, já apertei coisas que não devia,sempre com resultados dignos do Peter Sellers no genial filme Um convidado bem trapalhão. Mas uma das coisas mais imbecis que fiz foi fazer xixi  num banheiro da polícia rodoviária num dia de tempestade e levar , direto do carro, uma caixinha de lenços de papel. Mentolados. Não vou entrar em detalhes mas não tente fazer em casa.

 

Claro, tem gente muito pior. Dizem que o Paulo Francis, uma vez, ao visitar uma senhora, sentou-se sobre seu mini-poodle esmagando-o até a morte. Não sei se é folclore mas dizem que ao perceber o ocorrido jogou o cachorro morto pela janela. Tem muito folclore por aí. Fato é que, fazer coisas estúpidas, além do óbvio lado ruim, tem um lado bom: a gente lembra que é humana, que erra feio como todo mundo e que portanto, devemos ser humildes.  E, mesmo sem querer seguir conselhos severinos, resignarmo-nos a nossa insignificância.

 

Rosana Hermann escreve no Blônicas às quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h15
[]


- Tráfego de influência

De Nelson Botter.

- O senhor está estacionado em local proibido.
- Eu?
- Sim.
- Você quer dizer meu carro...
- Sim. Terei de multá-lo.
- Mas é só um minutinho. Coisa rápida mesmo. Só tô aqui pra esperar uma pessoa sair do prédio e...
- É sempre assim. Todo mundo diz a mesma coisa, que é só um minutinho, que já vai sair. No final, fica horas e horas.
- Ah, não vamos exagerar, né? É sério, no meu caso é verdade. Já saio.
- Lamento, mas terei de multá-lo.
- Quebra essa, meu chapa! Não precisa multar, já vou ligar o carro agora e sair.
- Mas o senhor já cometeu a infração. Terei de multá-lo, mesmo com o senhor saindo agora.
- Não, péra aí. Você não pode me multar! Já disse que tô saindo, cara.
- E eu já disse que a infração foi cometida, portanto não faz diferença se o senhor vai sair agora ou não. Terei de multar e ponto final.
- Mas... mas... como assim? Você não pode fazer isso comigo!
- Claro que posso. Inclusive é o meu trabalho. Ganho pra isso.
- Mas isso é abuso de poder. Quem você pensa que é?
- Sou um guarda de trânsito.
- Guarda nada! Guarda é policial. Você é um simples marronzinho!
- Dá na mesma. Está vendo este bloco de multas na minha mão? Pois é com ele que vou te multar, sendo guarda, policial, marronzinho, amarelinho, verdinho ou azulzinho.
- Isso é um absurdo! Você não pode me multar... Você não vai me multar!
- Infelizmente terei de multá-lo. Agora se o senhor continuar com esse desacato, terei de tomar outras medidas também...
- Ah, desacato? Desacato é um sujeito como você vir aqui dizer na minha cara que vai me roubar dinheiro! Desacato é eu pagar meus impostos em dia e ainda ter que agüentar um babaca, com toda essa empáfia, me dizer que terá de me multar. Você veio aqui pra me dizer isso por quê? Pra tirar um sarro da minha cara? Pra me desafiar? Pra me deixar com cara de merda? E ainda vem me ameaçar dizendo que vai tomar medidas... Você tá me ameaçando, é? Quem você pensa que é pra me ameaçar?
- Senhor, não estou...
- Qual é o seu nome?
- Senhor...
- Qual é o seu nome?
- Por que o senhor quer saber o meu nome?
- Pode me multar. Vai, escreve aí no seu bloquinho que você carrega com tanto orgulho. Escreve aí que eu escrevo aqui. Vai, diz, qual é o seu nome...
- Eu não tenho que lhe dizer meu nome, senhor.
- Ah, tem sim! Da mesma maneira que você tem que me multar, você tem que me dizer seu nome!
- Olha, não quero arrumar confusão, o senhor não entende que é o meu trabalho?
- Não quero saber! Me dá o seu nome agora que vou fazer umas ligações e falar com seus superiores. Vou dizer que você é abusado, que abusa do bloquinho... Isso é abuso de poder!
- Senhor, não estou abusando de nada.
- Está sim! Me diz seu nome já!
- Tá bom, vou dizer! Mas já aviso que vou multá-lo também por estar com a lanterna traseira esquerda queimada. Ah, e também por dirigir sem cinto de segurança!
- Como é que é? Nem estou dirigindo!
- Ah, mas vem no pacote... Anota aí: Reinaldo Azevedo Gretz.
- Gretz?
- É.
- Com "Z" no final?
- Sim.
- Não acredito! Você é o Gretz da faculdade?
- Que faculdade?
- De engenharia. Estudamos juntos porra! Sou o Mané, não lembra?
- Mané...
- Putz, Gretz! Você não lembra de mim, cara? Éramos dupla no truco lá na faculdade! Cabulávamos sempre a terceira aula. Truco, vagabundo! Truco safado! Lembra?
- É verdade! Eu sabia que sua cara não me era estranha!
- Que legal te reencontrar, Gretz! Pô cara, abandonou a engenharia?
- A crise, sabe? Difícil arrumar trampo nessa área. Mas de alguma maneira tô ainda na engenharia, mas de tráfego...
- Ah... tá.
- Porra, cara, sai daí, vamos tomar uma cerveja no bar ali da esquina. Quanto tempo, rapaz! Tem uma cerva geladinha muito boa lá no bar. A gente aproveita pra jogar uma conversa fora.
- Vamos, claro... Mas e o carro?
- O que tem?
- Está estacionado em local proibido. Você até ia me multar...
- Ah, não tem problema, Mané. É só um minutinho...

Nelson Botter escreve no Blônicas às terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h33
[]


- A superioridade das balzacas

De Xico Sá.

 

Desde a “Lolita” de Nabokov, livro lindamente filmado por Kubrick, que o encontro de um homem maduro com uma gazela em flor rende bons dramas, teatro, cinema, novelas...  além de riscar, num bater de cílios, o fósforo do desejo no cocoruto de mocinhas, senhores grisalhos ou “cafas” propriamente ditos.

Reparem no caso do tio-mauricinho (Edson Celulari) e a viçosa Lurdinha (Cleo Pires), no folhetim de Gloria Perez. Lurdinha é boa porque não é simplesmente uma ninfeta, é mesmo uma lolita. Para ser ninfeta, basta ter pouca idade e frescor; para ser uma lolita é preciso ser uma menina má, impiedosa, de modo a ferver a testosterona no juízo alheio, como no modelo clássico e nabokoviniano.

Uma ninfeta pode ser tão-somente uma menina chata, cri-cri, cheia de nove-horas e catchup até na alma. Raramente uma ninfeta se torna uma lolita, são poucas, embora muitas acreditem que estão sendo o máximo.

Jamais vale a pena trocar uma linda afilhada de Balzac, com seu ritmo e o seu luxo de existência, por duas de 17,18, 20...

Muitos homens caem nesse conto óbvio da pouca idade, largam precipitadamente as suas mulheres, enfiam-se debaixo dessa arapuca amadora do desejo como um pássaro faminto. Seria o inconsciente incendiado pela invenção do incesto?

Nada mais irritante do que a pressa de viver e o sexo fast-food das ninfetas.

A menos que seja à vera uma lolita, cuja sabedoria precoce e a maldade inata superam o cheiro do leite dos poucos aniversários. N´outras palavras: “Por esse jeito de menina/E esse gosto de mulher”, como traduz a lírica brega e genial de “mon amour meu bem ma femme”, na voz sábia de Reginaldo Rossi.

Ah, chega de lengalengas e nove horas, troque agora mesmo as suas ninfetas ou lolitas por uma linda mademoiselle acima dos trinta.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas nas segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h12
[]


- Tem alguém aí?
De Milly Lacombe.

O lugar parece escuro e pequeno, mas, ao mesmo tempo, confortavelmente familiar. Consigo, com algum esforço, esticar minhas mãos e meus pés, até mexer a cabeça se quiser, e isso me deixa mais à vontade. Pra falar a verdade, não tenho muito do que reclamar. Alguém está me alimentado, e isso, mais um pouco de movimento, me basta por hora. Às vezes me pergunto quanto tempo ainda ficarei aqui. Ouço as respostas, mas elas não são muito claras.
As vozes que vêm lá de fora também me dizem outras coisas. Coisas que, muitas vezes, não entendo. Outras, entretanto, fazem sentido. Antes cedo do que tarde, a porta vai se abrir, sussurraram. E é nessa hora, não sem dor, vão me tirar daqui.
Dor, aliás, me explicaram, é uma coisa boa. Sentir é uma coisa boa. Tudo isso me disseram. Porque eu não posso saber agora. Me foi dito também que, quando sair, conhecerei outros como eu. Não, não foi isso que me disseram. Me disseram, agora lembro, que quando sair conhecerei outros, e que todas serão como eu.
Mas que, e isso foi o que eu não entendi direito, seríamos todos ao mesmo tempo incrivelmente diferentes. Como vai ser isso? E que eu deveria valorizar tanto as igualdades quanto as diferenças. Que a igualdade nos fazia comuns, e isso era bom. E que a diferença nos fazia especiais, e isso era melhor.
Disseram ainda para que eu nunca me esquecesse disso. Para que eu nunca me esquecesse de celebrar essas diferenças. Para que eu não perdesse tempo, energia e disposição tentando ser igual, porque ser igual era uma coisa que aconteceria naturalmente. Mas para que eu deixasse que minhas diferenças viessem à tona.
Foi quando a voz mais forte me pediu para prestar atenção no barulho ritmado que estava ao meu redor. Era mesmo bastante ritmado, e, olha que coisa, se não tivessem me alertado, eu nem teria reparado no barulho. A voz explicou que aquele seria meu guia. Que o barulho estava sendo feito para me orientar. E que, se eu permanecesse, nas horas difícies, bastante calma e tranquila, conseguiria saber por onde ir. Me disseram ainda para que eu tentasse não gritar, porque, quando se grita, nada se escuta. Quando se grita, me explicaram, ninguém ouve. E para que eu não tivesse medo, porque o final é igual ao começo.
Estou tentando guardar tudo isso comigo. Mas parece que, quando eu sair, o choque vai ser grande, e boa parte do que me disseram vou esquecer. Esquecer, não: guardar muito no fundo, a ponto de parecer que esqueci.
A voz mais forte ainda disse uma outra coisa. Pediu para que eu, se tivesse que lembrar de apenas uma mensagem, que fosse essa: “Quando a porta se abrir, vou dar a você um presente. E, em troca, peço apenas uma coisa. Que você seja feliz.” Foram essas as palavras. A voz mais forte me explicou que a minha felicidade era o que bastava. E que, por isso, eu fizesse tudo, sempre, para ser feliz.
Não sei o que me espera do lado de lá, mas acho que se eu souber apreciar a dor, me guiar pelo barulho e nunca perder a felicidade de vista tudo vai ficar bem. Por hora, me espremo nesse canto quente, molhado e escuro, mas muito confortável.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 14h38
[]


- Desejos tardios
De Castelo.

Foi assim o acontecido.
Aniversário de 75 anos de vó Zizi. Na mesma data, comemoração das bodas de ouro com vô Nofrinho.
Sobrado cheio de filhos, netos, bisnetos - bacalhoada.
Chegou o momento de cortar o bolo.
Todos falavam ao mesmo tempo:
- Corta o bolo de baixo pra cima, vó!
- Não fala o “desejo” senão ele não acontece, hein?
Foi aí que vô Nofrinho surpreendeu a todos:
- Esse ano precisamos contar a todos o nosso “desejo”, meus filhos…
Protestos, assobios, gritos. Mas vô Nofrinho não se abalou:
- Sua avó e eu queremos experimentar um baseado.
Um silêncio sepucral envolveu o ambiente. Vó Zizi continuou:
- Tudo que a gente vê é falando dessa erva. É filme, é música, é artista fumando. Agora, com essa idade redonda, nós queremos provar. O quê é que tem?
A turma do deixa-disso tentou dissuadir o casal – maconha era pésssimo para saúde, levava a outras drogas, podia cegar etc - mas não houve acordo.
- Não morro sem conhecer esse tal de beck – sentenciou Vô Nofrinho e saiu da sala.
Lilita, a filha mais velha, virou-se para o marido e perguntou, atônita:
- E agora, Conrado?
- É fazer o desejo dos velhos…
- É, mas quem vai arrumar o fininho?
- Dentro daquela tua caixinha de maquiagem não tem um?
- Tem, Conrado, mas é pra quando eu tô com cólica.
- E você tem cólica menstrual todo dia, Lilita?
- Cada um com seus problemas. E você? Não arruma um lá dos seus?
- Meus?
- Os que estão naquela lata, no teu cofre, que eu sei.
- Aquilo é skank, mulher. Se a dona Zizi fumar aquela bomba ela vai ver Santa Rita de Cássia dançando bolero!
Nesse momento, o caçula Joquinha, gritou do quarto:
- O biso caiu!
A emoção levara Vô Nofrinho à uma brusca baixa de pressão.
Formou-se um rebuliço. Lilita chamou logo o vizinho, dr. Levy, cardiologista recém-formado. O médico entrou no quarto e fez um longo exame no vovô. A família ficou impaciente.
- Todo esse tempo! Será que aconteceu alguma coisa grave?
Conrado resolveu bater na porta. Dr. Levy saiu e acalmou a todos:
- Dei uma ponta das minhas pro seu Onofre e outra pra Dona Zilá. Os dois agora estão na paz.
E, antes de voltar para o quarto enfumaçado, disse:
- Alguém podia trazer um prato de pudim que os dois estão numa larica forte?

Castelo é cronista do Blônicas aos sábados.
Escrito por Blônicas às 15h07
[]


- O rei dos reis

De Henrique Szklo

Religião de Pelé será a salvação da humanidade

Do jeito que o ser humano tem se comportado desde os seus primórdios, já dá para imaginar o que vai acontecer daqui a alguns pares de séculos. Bastou um cara ser um pouco mais esperto que a maioria para sua fama ir crescendo, na base do boca a boca, até níveis extraordinários e improváveis de atuação. Por isso gostaria de me adiantar e propor desde já a criação de uma religião toda baseada nos ensinamentos, vida e obra de Edson Arantes do Nascimento, ou melhor, do nosso rei Pelé. Um santo homem. Exatamente, entende.

O carisma inacreditável deste cidadão afro-brasileiro, que mantém a majestade mesmo tendo deixado o trono há mais de 30 anos, sugere que realmente há alguma coisa de divino no sujeito. Para começar, não é por acaso que ele só jogou em dois times: um chamava-se Santos e o outro Cosmos. Aí tem.

Além disso foi responsável por vários milagres como o da multiplicação dos gols. Sua simples presença foi capaz de interromper guerras sangrentas e foi recebido com honras de chefe de estado por presidentes, reis e rainhas. E por que tudo isso? Porque era um bom jogador de futebol. Ora, o fato de possuir grande intimidade com a pelota não daria a qualquer um este legado. Veja o Edmundo por exemplo. É, realmente tem algo de celestial no Negrão.

Em primeiro lugar vamos falar de um dos principais símbolos da nova religião: a bola, verdadeira protagonista do espetáculo. Seu significado será elevadíssimo, transcendente. Será comparada à alma do peleista. “Que Pelé proteja sua bola”, dirão os seus seguidores em louvor à gorduchinha. Já a expressão “fazer um gol” será mais que uma bola atingindo às redes. Terá forte conotação filosófica e demonstrará toda a devoção e o caráter do praticante, pois significará “fazer uma boa ação”. E, é claro, se constituirá no objetivo primeiro de todo peleísta praticante. Cada boa ação representará um tento a favor. E as más, representarão gols contra. Quem ficar muito tempo sem fazer gol, ou jogar muito contra as próprias redes, irá para o banco – uma espécie de penitência que se constituirá em sentar em cadeiras desconfortáveis na beirada do templo e assistir ao culto sem poder participar dele. Só poderá entrar caso algum fiel se machuque numa dividida de bênção ou esteja em má fase litúrgica. Aquele que alcançar os mil gols atingirá a maioridade espiritual e passará a ser um membro efetivo na hierarquia religiosa, titular absoluto em sua posição clerical.

O peleísta será um indivíduo vencedor e buscará sempre os bons resultados em sua vida, driblando as dificuldades com categoria. Para tanto treinará incansavelmente orações ensaiadas visando fortalecer seu espírito esportivo. E certamente Pelé atenderá todas as preces de seus seguidores, oferecendo-lhes vitórias em profusão.

O símbolo físico desta religião não será uma cruz ou uma estrela, mas a famosa pose do rei fazendo uma bicicleta. Portanto, os devotos de Pelé estarão sempre fazendo o sinal da bicicleta, seja lá como isso for. A doutrina do peleísmo ensinará também que Deus criou o mundo em duas etapas: dois tempos de quarenta e cinco minutos, sendo que descansou por quinze minutos entre eles. Ninguém vai “conversar” com Deus e sim bater uma bolinha com ele.

A batina dos sacerdotes será uma roupa toda branca com o número 10 em suas costas. Precisarão saber bater com as duas, cabecear com precisão e fazer lançamentos espirituais de mais de 50 metros. O maior artilheiro (aquele que fizer mais “gols” no ano) entre os clérigos da bola será considerado o sumo-pontífice do peleísmo. O Pelé dos papas ou o Papa dos pelés, tanto faz. Mas para assumir tão elevada posição deverá obrigatoriamente ser casado, cultivar várias relações extra-conjugais e ter filhos em todas as partes do mundo, assumidos ou não. Caso contrário, estará em flagrante impedimento. A regra será clara. Falando nisso, o sexo apenas por prazer será francamente abençoado pelos preceitos do peleísmo, sendo entretanto obrigatório o uso da tabelinha.

Os templos terão a forma de estádios e os ritos serão realizados em gramados. O altar será uma baliza e o púlpito a meia lua da grande área, mais conhecida como santuárea (desculpe). Haverá uma cerimônia sagrada em que o fiel será convocado à entrar no campo santo e partir para cima dos adversários da fé. Apesar de não ser uma religião de orientação espírita um passe bem dado será muito apreciado pelo peleísmo. Quem não comparecer aos cultos poderá ser punido, mas só se fizer falta. Um júbilo: ao final das cerimônias, para celebrar a bem-aventurança em suas vidas, os fervorosos peleistas correrão pelas laterais do templo e darão socos no ar.

Como o maniqueísmo é fundamental numa religião que se preze, o inimigo número um do peleísta será uma criatura medonha, antipática e agressiva toda vestida de preto ou com uma camisa amarela portando um apito em sua boca profana. Filhos de mães pouco sérias, este ser repugnante povoará os pesadelos mais aterrorizantes dos discípulos do Rei.

Esta será a única religião que terá transmissão ao vivo dos cultos, a não ser aqueles realizados na mesma praça, que só poderão ser vistos por quem tiver o pray-per-view (desculpe de novo). A noite várias mesas redondas serão realizadas com o intuito de analisar as principais jogadas eclesiásticas.

Provavelmente algumas distorções ocorrerão. Não há como evitá-las. Por exemplo: além de todo mundo achar que Ele possuiu três corações, Pelé certamente será lembrado neste futuro distante como um homem branco, fruto de uma resistente personalidade racista da humanidade ou apenas uma pequeno equívoco de seus biógrafos, confundindo-o com Michael Jackson.

As dez mandamentos do peleísmo serão:
1) Amarás a bola sobre todas as coisas
2) Não escalarás o santo nome do Negrão em vão
3) Guardarás domingos e feriados para assistir ao futebol
4) Honrarás pai e mãe. Juiz não precisa.
5) Não pecarás contra a castidade, mas poderás enfiar no meio das pernas
6) Roubarás a bola
7) Não levantarás falso testemunho, mas poderás cavar faltas e pênaltis
8) Matarás só no peito
9) Não desejarás a mulher que entra no vestiário enquanto tomas banho
10) Não cobiçarás o bicho alheio

Enfim, apesar de ser uma religião extremamente ofensiva, ninguém vai se sentir insultado por ela, ao contrário, o peleísmo terá tudo para ser uma verdadeira paixão em todos os lugares do mundo, menos na Argentina onde reinará o maradonismo. O único perigo é que, em nome de Deus, as torcidas organizadas de várias religiões entrem em guerra para tentar impor sua doutrina aos inimigos. Uns querendo um evangelho mais bonito e vistoso e outros clamando por uma religião de resultados, que alcance as graças, mesmo rezando feio. Por isso será de extrema importância que todos os povos do futuro dêem as mãos, façam uma reflexão profunda e falem claramente com suas consciências. Eu falaria.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas, é judeu, mas acredita em Pelé. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h26
[]


- I was a teenage shithead

De Edson Aran.

 

Tem coisa que só dá pra fazer na adolescência. Acampar. Beber vodka até enfiar a fuça no chão. Fazer viagens místico-alucinógenas. Ser do PT. Fiz tudo isso e só me arrependo da última. Felizmente, saquei muito cedo que o PT era (risos) uma roubada. O que eu descobri foi o seguinte:

 

O PT não é de esquerda.

O partido é avesso ao pensamento, sempre foi. Um leninista poderia dizer que o PT privilegia a práxis à teoria. Mas pensamento de esquerda se constrói...dããã... pensando. O marxismo nasce do iluminismo, da idéia de que uma sociedade pode ser construída sobre bases racionais, em vez de crenças absurdas. Mas o PT sempre foi irracional e regressista. A expressão “intelectual petista” é uma contradição em termos, feito “inteligência militar” e “igreja progressista”.

 

O PT cultua a ignorância

Lula é o protótipo do Bom Selvagem, orgulhoso da própria ignorância. O modelo se reproduziu no partido, gerando lideranças que, quando caem de quatro, não levantam nunca mais. Toda a “esquerda” do nosso subcontinente miserável cultua a ignorância também. Vide Chavez, Sendero Luminoso etc. Como a ideologia é uma ferradura, os extremos se tocam e o esquerdismo fica cada vez mais parecido com o fascismo. Nada irrita mais um ignorante do que a livre circulação de idéias.

 

O PT é sebastianista

Você já reparou como o PT está cheio de “freis bettos”, “padres roques” e “bispos sardinhas”? É simples: o PT, como a igreja católica, é regressista. A utopia que o PT persegue não está no futuro, mas no passado, numa sociedade semi-feudal dominada por um rei ungido por deus. Lula sempre fez o papel do “predestinado”, do “líder iluminado”, do Dom Sebastião ressuscitado cuja eleição mudaria a “história da humanidade sobre a face da Terra” e, quem sabe, o próprio Universo. Religiosos sem fé encontraram no partido o substituto perfeito. Problema deles. O diabo é quando essa fantasia sebastianista é vendida pro país. A espera eterna pelo líder “iluminado” é que deixa o Brasil deitado eternamente em berço esplêndido. E com a bunda descoberta.

 

O PT acha que o mundo é a novela das oito

Como ninguém no PT leu um livro na vida, a formação ideológica dos militantes foi feita pela novela das oito, que é a única coisa que eles vêem e entendem. O núcleo pobre (Dona Jura) é sempre bacana. No núcleo rico (Odette Roitman) só tem canalha. Nada mais justo, portanto, que o núcleo pobre tome o controle da trama. É por isso que o programa eleitoral do PT foi montado feito comercial de sabão em pó (Lula lava mais branco!) e o presidente, quando eleito, foi correndo pro Jornal Nacional. Também é por isso que o Lula faz vista grossa para todas as falcatruas dos aliados e correligionários. Ele acha que no final, o Grande Autor (Glória Perez, Manoel Carlos, Deus, a História?) vai livrar a cara dele. Má notícia, Lula: não vai.

 

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h06
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- Tem alguém aí?

De Rosana Hermann.


Você fala ao vivo, ao telefone, no microfone. Você escreve emails, posta em blogs, publica artigos. Infelizmente todas essa manifestações pessoais de comunicação não significam, necessariamente, que alguém esteja recebendo sua mensagem, ou, em linguagem dos seguranças de walkie-talkie, isso não quer disser que tenha alguém copiando você, QSL?

 

Isso porque a comunicação necessita de dois pólos, o emissor e o receptor. No caso da mídia eletrônica, mesmo que em tempo real, o receptor pode estar distraído, dormindo ou simplesmente, ausente. Até ao vivo, numa reunião, numa aula, rodinha de bate-papo ou em conversas entre amigos e familiares, tem sempre alguém viajando no sauce bernaise, mirando você nos olhos e com a mente em outro sistema solar. O resultado é que, muitas, muitas vezes, você pensa que está falando com alguém, mas está, de fato, falando sozinho.

 

Quando isto acontece no seu círculo pessoal de relações, não é tão grave. É só dar uma solene bronca reclamando que ninguém dá a menor bola pra você. O problema é quando isto acontece numa mídia aberta. Nada no mundo pode ser pior do que entrar no ar, numa rádio, numa tv e, sentir, nas profundidades abissais do seu âmago, nas fossas marianas do seu ser, que não tem ninguém do outro lado. É horrível ter a certeza de que naquele momento a medição de audiência, pra todos os efeitos, é zero. Traço. Na Internet isso acontece quando você entra mil vezes no próprio site, blog, moblog ou flog e vê que todos os comentários ainda estão no zero. Por mais que você escreva só para si próprio há sempre uma expectativa de que alguém responda. Nessas horas, a sensação de vazio é tão desesperadora que até os spams da caixa de entrada passam a ser bem-vindos, mesmo que você nem tenha um pênis para aumentar.

 

Digo isso por experiência própria. Você não tem idéia de quantas vezes eu entro no blonicas para ver se alguém comentou o texto. Racionalmente eu sei que o número de comentários não é o número de leitores, já que muita gente lê e vai embora. Mas o comentário é sempre uma prova. E mesmo que ninguém confesse, as pessoas estão medindo alguma coisa sobre você quando vêem o número de comentários recebidos. Da mesma forma, entro no meu blog para ler o que os queridos leitores escreveram e entro na administração do contador de visitas. Eu, você, todos nós, estamos sempre assolados pela dúvida: tem alguém aí? E se tem, quem é este alguém? Quem é esta pessoa que ama, odeia, adora, curte, detesta, despreza o que você diz, o que você faz, o que você é? Quem é esta pessoa, o interlocutor, leitor, ouvinte, telespectador, que recebe o seu conteúdo?

 

Imagino que seja universal, que aconteça com o escritor que visita a livraria e fica rondando a prateleira onde seu livro está à venda, com o ator que confere a platéia no teatro, com o cidadão que entra no Orkut para saber se, pelo menos, alguém o odeia e deu-se ao trabalho de criar uma comunidade para ofendê-lo, com o político que pesquisa para descobrir onde estão seus redutos eleitorais.

 

A explicação? Não sei mas, tenho uma teoria. Como nascemos sem aviso prévio, por mais que o papai ame a mamãe, temos uma sensação de ilegitimidade em relação a nossa existência. Precisamos ter a certeza de que podemos estar aqui, ou, como já disse em outros textos, queremos carimbar nosso passaporte no mundo. E quem carimba, é sempre o outro. O carimbo é o olhar, o comentário, a palavra, a reação do outro. É a garantia de que, enfim, aleluia!, você não está falando com as paredes.

 

Eu, pelo menos, espero que, enfim, você esteja aí. E, se estiver, desde já, meu muito, muito obrigada. Volte sempre, tá? A crônica é simples, mas é limpinha. E, se eu nunca disse isso antes a você, digo-o agora: sem você, meu amor, eu não sou, ninguém.

Rosana Hermann carimba seu passaporte no Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 13h35
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- Uma nova lei

De Nelson Botter.


"Prezado Deputado,

Estou enviando esta mensagem para que o senhor leve em consideração o pedido de uma fiel eleitora (votei no senhor nas últimas duas eleições e pretendo continuar votando...), que se encontra num difícil período. Difícil mesmo. Vou procurar ser bem clara e objetiva, ainda mais que minha paciência não anda lá essas coisas. O fato é que venho por meio desta propor que seja feita uma nova lei que impeça qualquer mulher de trabalhar no primeiro dia de menstruação. Sabe o que é, senhor deputado? Ninguém merece!
Graças a Deus, tenho o meu próprio negócio e nunca tive problemas em me enfiar debaixo das cobertas nos dias de cólica, mas e quem não tem esse privilégio? Entenda, caro deputado, que não se trata de um pedido pessoal e sim de uma manifestação coletiva. Pense nas milhares de eleitoras que o senhor ganharia com esse novo projeto-lei!
O que as pessoas (leia homens) não entendem é que não se trata de frescura. Não estou falando só de TPM, que com certeza é o maior vilão dessa história, mas também de cólica, inchaço, indisposição, hipersensibilidade em determinadas regiões do corpo, o constrangimento e desconforto de ficar, literalmente, vazando pelo meio das pernas... (desculpe se estou sendo muito direta, mas é que as pontadas da cólica estão me matando e preciso extravasar)
Até me dei ao trabalho de separar dez argumentos do por que essa lei deve ser super aprovada (o senhor até pode se utilizar dos tópicos abaixo, sem problema de direitos autorais):

1 - Você se sente o ser mais feio do mundo.
2 - Sua irracionalidade chega ao ponto de tomar dois Atroveran em jejum.
3 - Seus hormônios estão totalmente fora de órbita.
4 - Uma pessoa ao seu lado, respirando fora de compasso, é motivo para você querer matá-la.
5 - Sua cabeça parece que vai explodir.
6 - Você está, pelo menos, dois quilos mais gorda ou, se não quisermos exagerar, está dois quilos mais inchada. 
7 - Suas pernas doem, doem, doem, doem muuuuuuito!
8 - E os peitos? Misericórdia... Qualquer vaca holandesa ficaria com inveja. E não pode nem encostar, senão a dor consome até a alma.
9 - Espinhas, então, brotam aos montes e sempre nos piores lugares, como na ponta do nariz, queixo, testa, etc.
10 - Inconstância emocional. Você chora até vendo desenho animado, acha que seu namorado ou marido não te deseja mais, que seus filhos vão fugir de casa, que todos no seu trabalho são uns idiotas (apesar disso quase sempre ser verdade), etc.

Para mim, deveríamos ter uma plaquinha escrito: ATENÇÃO! ESTOU DE TPM. PENSE CINCO MIL VEZES ANTES DE AGIR.
Eu, deputado, procuro sempre avisar. Peço desculpas para as pessoas antecipadamente e digo que estou irracional... Eu toparia até ser cobaia de qualquer laboratório farmacêutico para amenizar os efeitos da TPM. Ah, e para tirar minha cólica também! E ainda tem os imbecis (leia homens) que acham que é frescura, corpo-mole, coisa de "sexo frágil"!!!! Que suas avós não tinham... E por quê nós temos??? As coitadas não tinham direito nem ao voto, o que dirá de ter TPM???
Agora, chego à conclusão que todas as mulheres devem ter jogado pedra na cruz em outra encarnação. Quem mandou nascer mulher? E ainda temos de depilar, no mínimo, metade da perna, a virilha (ai!) e as axilas (cruzes!). Fazer a mão toda semana, o pé a (pelo menos) cada quinze dias. Aiaiai. Comprar calcinha e sutiã (os homens só precisam de cueca e quem acaba comprando para eles somos nós também!). Cosméticos aos montes: cremes pra isso e pra aquilo, xampu, condicionador, mais cremes, esmalte, batom, mais alguns cremes, etc e tal. Sandálias e sapatos de diversas cores, combinando com as bolsas...
E ainda temos de ter TPM e cólica????? Por quê????
Bom, deputado, espero que você leve em consideração esse pedido da nação feminina. Ah, se não levar também, quer saber? Vai você e esse bando de falsos assessores que você colocou nesse cabide de empregos para a puta que os pariu!!! Ah, fala sério!!!

Atenciosamente,

Daniela."

Nelson Botter escreve no Blônicas às terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h13
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- Dos melhores inimigos

De Paulo Castro.

     A psicanálise nos ensina que toda vez que atacamos alguém, nos sentimos perseguidos em paranóia, pois o ataque se volta contra nós. Nunca topei muito com essa teoria. Não existe melhor possibilidade do homem ocidental se conhecer, através da própria dor, que a psicanálise. Mas ela também tende a ajustar o ser humano a um padrão civilizatório burguês, medíocre, vitoriano. Tenho anos de divã, e os momentos que guardo com maior carinho são aqueles em que meu analista foi incisivo comigo, me colocou contra a parede, enfiou a mão terapêutica dentro do meu tórax e apertou pra ver o que saía.

     O mesmo se dá na vida cotidiana. Não tenho grande paciência para com os puxa-sacos, tudo bem, fazem carinho no ego, dizem que somos os melhores, que nos apreciam, que escrevemos muito bem, que somos seres humanos altamente dignos de confiança e brilho. Mas fico um tanto sem palavras pra lidar com essa gente. Sou monossilábico, acho que as frustro. Não me impressionam, não me pressionam. Não colocam o espelho na minha frente, imagem que veria borrada, sem contornos, com falta de continuidade.

     Melhor é o bom inimigo. Mesmo que jogue baixo. O que saiba mostrar como não sou ninguém além da média, que meus escritos precisam melhorar, que sinceramente não se importa com minhas vitórias, que tento gritar, berrar, mostrar as medalhas e troféus, enquanto ele discorre calmamente sobre a minha pequenez. Masoquismo ? Não. Verdade. Nada pode provar que ele esteja certo em suas críticas, mas gera movimento, não me masturba, faz com que me questione sobre os rumos daquilo que eu tinha como certo. O que era minha identidade, meu imaginário. Também ensina a psicanálise, que o imaginário é a construção que fazemos de nós mesmos, sem se olhar para o mais dentro do dentro, internas burrices. Aí que gosto.

     Voltemos para a imagem do espelho e nele. Algumas tribos indígenas não permitem fotografias, uma espécie especular. Acham que a figura captada leva também um pouco da alma. Eles estão absolutamente certos. Não há nada de "selvagem" nesse pensamento. Eu no espelho me vejo inteiro, sorridente, caras, bocas, treinos sociais. Porém, no retrato do bom inimigo me vejo cheio de falhas, o nariz enorme, a barriga saliente, o olhar algo idiota, a risada vazia, o mar lá trás todo cinza, meu mar, meu  barco naufragado de madeiras rachadas, que eu ainda acreditava poder conduzir, apenas sob ondas que eu mesmo crio, na medida do medo.

     E quando sou atacado, fujo, uso socos de boxe, ligo o filtro de e-mails do meu computador. Minha vaidade expulsa o inimigo de casa, tenta modera-lo, opta pelo banimento, rasgo a folha da lista telefônica.

     Caio deprimido no sofá, agora duro. Melancolia, vai embora, quero de novo meu prumo, que direito teve ele de me fazer doer ?

     - Tudo bem que era sincero...que eu não consigo lidar com o orgulho...que meus versos são baratos...mas para que ferir a auto-estima ? Eu estava tão bem, enganado sobre mim mesmo! Não gostei do que vi, minha alma não é tão nobre, precisava ele ter levantado o véu ? Agora eu sei que é apenas minha carência que me faz assim, carência tamanha e irrestrita, que encho de comida, vinho, risadas na mesa de bar ! Ele não precisava ter roubado meu sono, que até de sonho agora tenho medo, ficar acordado na janela, como criança, apostando na cor do próximo carro que cai virar a esquina. Alguém me ensina como reconstruir ! Não vem me dizer que tenho que fazer isso só, os tijolos são tão pesados, desse jeito avacalhado, pedreiro raquítico sou. Ah, mas espero que esteja se sentindo culpado lá na casa dele, consciência pesada, decerto, que desse jeito não se faz, disse que queria me fazer pensar, mas que pense ele na ferida que causou, quem ataca se sente perseguido, ah sim, não vai esquecer o que fez para mim, assim tão duro, o quanto me dói supor que ele pode estar em paz, ouvindo música, uísque, fumando um Fonseca cubano...não faz assim, Deus !

     Nem me passa pela cabeça reler Oscar Wilde, "O Retrato de Dorian Gray", longe de mim, não quero ler, assistir, tomar, penetrar. Foi um vácuo que ficou. Tanto que não tem outro jeito. É mesmo reconstruir, ou vou apodrecer nessas almofadas, colocar a lasanha para degelar no micro-ondas, ligar para alguém, talvez bater um papo, dá trabalho, mas alguma coisa a gente tem que amar. Para que seja a si mesmo, um dia. Melhorado. Cura não existe. Para nenhum mal. Coloco umas azeitonas pretas e cogumelos sobre a massa ? Acho que pode ficar bom. Acendo as luzes da sala ? Acho que pode ficar bem.

     Tenho que sobreviver. Mesmo assim desse jeito, que amanhã será outro, novo, não o de antes, mas o que começa agora.

 

" Eu zanguei numa cisma, eu sei/ tanta birra é pirraça e só/ que essa teima era eu, não vi/ e hesitei, fiz o pior(...)"

                                                       ( Los Hermanos )

 Paulo Castro é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 16h42
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- Troque o celular por uma galinha gorda

De Xico Sá.

 

As emoções e o telefone celular. Emoções nada baratas. A cada comemoração, o massacre é maior. Dia das mães, dia dos namorados, dia dos pais, dia de são nunca, dia do amigo, dia do amigo novo... Daqui a pouco irão incentivar a prática de falar muito _e de graça, como se tivesse almoço gratuito na vida!_ até com a sogra, aproveitando o dia delas, a folhinha do 28 de abril.

Na moral da guerra publicitária, o celular resolve os problemas de afetividade e da falta de dengo e cafuné que vivemos agora, quando as pessoas andam mais estúpidas e grossas do que papel de embrulhar prego.

O glorioso inventor da ansiedade, Alexander Graham Bell (1847-1922), deve se arrepender até hoje da sua patente. Como Santos Dumont, dândi brasileiro em Paris, que maldisse do seu próprio brinquedo ao vê-lo nos céus da guerra.

Nestes tempos em que celular virou brinco, eternamente colado às "oiças" de todos, uma reflexão de dona Maria do Socorro, brava sertaneja, mãe deste que vos berra, vem como pílula mais do que apropriada: "Conheci teu pai, namorei, casei, engravidei de todos vocês, criei minha família, cuidei de tudo direitinho, graças a Deus não morreu nenhum... E nunca precisei dar ou receber um telefonema, nem unzinho mesmo!".

Mulher do sertão, que só pegou em um telefone depois dos 50 anos, anda revoltada com parentes e amigas que vivem grudados ao celular: "Tá todo mundo de pescoço torto por aqui, meu filho, cabeça decaída para um lado, tudo penso, por causa dessa moda nova”, diz.

Tudo bem que ela seja do tempo em que se trocava idéias ou confissões numa cadeira de madeira e couro na calçada. O alvo da hipérbole materna, no entanto, é apenas o exagero que se faz do uso do aparelho, verdadeiro brinco falante.

A lamúria da falta do telefonema do dia seguinte, protesto do novo código do bom-tom das moças, também é situação nunca dantes vivida. Se a paranóia já era grande apenas com o telefone fixo, agora com o móvel,a histeria segue os passos da criatura por onde ela for.

Sem a invenção do velho Graham Bell, o dia seguinte nascia sob aurora mais sossegada. Tudo dependia mesmo da dramaturgia do encontro. A onipresença amorosa e/ou comercial instaurada com o celular não era coisa deste mundo. Uma carta, no máximo, poderia ser uma estratégia, garrafa atirada ao mar de tantas Penélopes. Um recado pelo rádio também valia, mas para casos de sumiços amorosos de verdade -cheguei a ser sub-do-sub-redator de programa do gênero, comandado pelo locutor Gevan Siqueira, na rádio Vale do Cariri, em Juazeiro, com recados amorosos e dramas à moda de "Tia Júlia e o Escrevinhador", a bela novela de Vargas Llosa.

Deixemos de ser plantonistas do celular, principalmente no amor. No caso dos pais, por exemplo, o telefonema é um péssimo jeito de dizer eu te amo ou coisa que o valha, como sugere o reclame da TV. O que vale é o dengo da rotina, o cozido dos domingos, a cerveja esclarecedora de broncas e companheirismos tantos.

Quer jogar conversa fora ao celular, faça como a eficiente recomendação das antigas: "Mate uma galinha gorda no domingo e me convide para comer".

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h27
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- Cazuza está mais vivo do que nunca
De Milly Lacombe.

Cazuza está mais vivo do que nunca. Afinal, transformaram o país inteiro num PuTeiro. Nada contra sexo, muito pelo contrário, mas sexo alheio financiado com o meu dinheiro não dá para engolir. E até entendo que, diante daqueles rostos e corpos de nossos maravilhosos homens do executivo e legislativo, sexo só mesmo pagando. Porque não imagino que haja mulher nesse mundo que, sem estímulo financeiro, tope ir para a cama com Lulla (não sejamos hipócritas a ponto de excluí-lo, por favor), Palocci, Genoíno, Dirceu, Delúbio, Silvinho e demais companheiros bem aparentados. E, no fim das contas, ainda mais em épocas tão tensas, é necessário aliviar. Cada um goza como pode, tô mesmo nem aí pra isso. Mas a coisa passa dos limites quando a gente descobre que tem neguinho gozando às nossas custas. Aí é baixaria por demais, como diria meu amigo mineiro.
Para continuar com Cazuza, o Brasil está aí mostrando a cara para quem tiver coragem de ver. E ela é, como nem nossos mais horrorosos pesadelos poderiam supor, medonha. Se o que somos é isso que estamos vendo, não vale a pena continuar. Tudo pode morrer porque, de um jeito ou de outro, nada se acaba. Mas quando matam nossos sonhos, aí a coisa fica feia.
Quando olho para a estrada à frente, vejo um caminho cheio de neblina, no qual formas e rostos não podem ser descritos com precisão. Mas se me concentro e aperto os olhos na tentativa de fazer com que as imagens adquiram algum significado, vejo, lá na frente, a silhueta de uma mulher. Uma não, várias. Talvez não seja a solução, mas certamente viveremos em um lugar diferente se nos permitirmos ser guiados por mulheres. Se até agora deixamos que homens nos comandassem, fazendo e executando leis, e deu no que deu, por que não deixar que o gênero oposto tome a rédea por alguns anos?
Vejo as deprimentes fotos de nosso congresso em ação e só encontro homens. Todos de aparência grotesca, um mais mal encarado do que o outro. Uma gente que pensa com o pau, que trabalha três dias por semana e passa o restante do tempo em putaria financiada com dinheiro público.
Vamos todos gozar, sim, porque a vida só se justifica assim. Mas sem fazer um bacanal com a grana do povo, por favor. Que a partir de agora vivamos kamassutricamente, mas que cada um financie a própria orgia.
E, na próxima eleição, pensem comigo, talvez seja hora de dar preferência às mulheres. Eu sei, eu sei, tivemos que engolir Dona Marta, que em nada contribuiu para a melhoria de nossa imagem. Mas pensem em Luiza Erundina e Soninha, exemplos do que de melhor temos a dar. Sem trocadilho.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 14h27
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- Baco é brasileiro
De Castelo.

“Conhecedores” de vinhos, como é insuportável essa gente.
A categoria se multiplicou no Brasil desde que algumas adegas gaúchas resolveram criar uns vinhozinhos bem medianos e bem metidos à besta.
Logo os metidos à besta de plantão passaram a achar que Garibaldi e região virara um grande filme Sideways, só que feito em videotape.
Foi então que o prosaico (propaganda subliminar de um dos best-sellers de Henrique Szklo) ato de sorver vinho virou um rito mais engravatado que um conclave papal.
Não se pode mais ir à uma reunião social sem que apareça um mala com aquelas conversas de retrogosto, cor amadeirada, aroma rescendendo a frutas do bosque e confeitaria.
Dizem isso bebendo - digo, degustando - um Château Duvalier Seleção – dos que tem até
uva-passa na fórmula – e abrindo as ventas pra aspirar e expirar com grande formalidade aquela Fanta Uva com 14 graus de álcool.
Ridículo dos ridículos.
Sejamos razoáveis: a maioria dos vinhos a que os mortais como nós têm acesso não passa de commodity. Não tem diferença nenhuma de uma banana.
E alguém compra uma penca assim na feira?

- Qual a denominação da fruta?
- São Tomé.
- E a safra dela?
- Ranquemos ônti do pé, sinhô.
- Como ainda está verde imagino que precisaria de um tempo maior de maturação…
- Que nada. É só o sinhô botá a penquinha dentro anssim de um jornal. Amadurece que é uma belezura, viu?…
- Posso degustar uma?
- Quer um teco da bananinha?
- Sim, por favor.
- Ói que duçura.
- O tanino do fruto ainda está muito presente. Eu o sinto bem aqui na parte central do pálato.
- Qué isso, dotô? Eu lhe dou a banana e o sinhô me dá a língua!!! Safadeza é essa?!

O pior é aquele papo eterno de vinho combina com o quê. Toda vez é o mesmo lenga-lenga:
- Sou ortodoxo: pescado pra mim, só com vinho branco.
Aí vem o dono da casa, um carequinha de cavanhaque, fazendo-se de blasé. Inicia-se ali o grande must da discussão enóloga:
- Perdão, mas bacalhau se bebe com vinho tinto! Eu li na última resenha do Parker.
O outro expert revida:
- Mas bacalhau nem peixe é! É crustáceo.
A polêmica ganha corpo e segue até o final da ceia, quando o anfitrião pergunta aos convidados que digestivo vão preferir.
- Clarete, cognac, poire?
A esposa de um dos polemistas, já meio bebaça, pede em tom esganiçado:
- Um Amarula!!
É largada sozinha na mesa por todos.
É que, além de pedante, o clã dos “conhecedores” é implacável com quem resolve seguir seus próprios caminhos.

Castelo agora também pode ser encontrado em www.aboboral.zip.net
Escrito por Blônicas às 10h45
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- Desordem e progresso

De Henrique Szklo

Esperança para o Brasil, a capital italiana é um exemplo de que a bagunça também pode dar certo.

Roma é uma cidade cosmopolita, mas ainda sim italiana. Estive lá em junho de 2002 e me surpreendi. Minha visita anterior, em 1987, havia me deixado uma péssima impressão. Deprimido, sozinho e com pouco dinheiro, Roma me pareceu frívola, decadente e com cara de poucos amigos. Nesta minha volta, porém, com a depressão controlada por remédios, ainda sozinho, mas com dinheiro emprestado de amigos, a cidade me pareceu maravilhosa. Mas o tempo foi muito mais gentil com ela que comigo. Nestes 14 anos perdi muita coisa (principalmente cabelos), ganhei outras tantas (principalmente quilos) e Roma renasceu, apresentando sinais claros de modernismo, crescimento, riqueza e até uma certa boa vontade.
Porém sofri um certo choque cultural logo na chegada: o motorista da van que me levava ao hotel, ao parar em um sinal, chamou um rapaz para lavar seu pára-brisa. Isso mesmo. Não gritou, não bateu no vidro, não ligou o limpador, não xingou, desceu do carro ou fez cara de mau para que o rapaz fosse embora. Não, foi ele mesmo quem quis que o rapaz viesse. Que povo esquisito, pensei.

E hotel? Acabei escolhendo um de poucas estrelas que ficava perto da estação de trem. Mas tive uma grande dificuldade para encontrar as tais estrelas. Onde estavam? No banheiro, foi a resposta. Mais precisamente no box com cortininha de plástico, cujo diâmetro era o mesmo que do meu corpo. E a privada era tão perto que ela quase servia de banheira. Foi quando escorreguei e bati a cabeça na pia e descobri afinal que estava em um hotel de 215 estrelas. Por 100 dólares ao dia, foi uma verdadeira pechincha.

A globalização passou como um trator sobre a sociedade italiana e produziu efeitos curiosos num povo tão afeito à pândega, como nós, seus mais fiéis seguidores. Hoje em Roma todos falam inglês e quase não se ouve ninguém gritando na rua, ninguém brigando por causa de bobagem. É triste ver isso. Até a fé do povo romano cedeu à invasão estrangeira. Na famosa igreja Santa Maria Maggiore, ladeando toda a sua área interna, existem dezenas de cabines de confessionários com placas avisando a língua falada em cada um: inglês, espanhol, francês, italiano, alemão. Daqui a pouco vão oferecer absolvição pela internet.

Aqui e ali, porém, ainda vemos pequenos focos de resistência à pasteurização internacional. Vemos isso nas placas luminosas presas às fachadas de hotéis, restaurantes, hospitais, etc, que não são dupla face, ou seja, se você está de um lado da rua você as lê corretamente, se está do outro, vê tudo ao contrário. Um pequeno símbolo, ou melhor, restos mortais da cultura radical romana: ou se é a favor das coisas ou contra. Meio-termo é coisa de boiola. Mas o bom-mocismo está vencendo esta batalha sangrenta. Vemos isso quando os carros param nas faixas para o pedestre atravessar. Muito de má vontade, mas param. A consciência de civilidade os massacra tão violentamente que eles não tem outra alternativa a não ser pisar na própria consciência e, conseqüentemente no freio.

Não existe outra cidade com mais monumentos históricos que Roma. Aliás, é por conta deste patrimônio extraordinário que o turismo talvez seja a maior fonte de riquezas da cidade. Obras impressionantes como o Fórum, as Termas de Caracala e o Coliseu, aquele estádio do tempo em que o leão ganhava (atenção leitor: fiz esta viagem, Émerson Leão ainda era técnico da seleção, portanto não quero e não vou desperdiçar essa piada). Como e por que eles conseguiram manter por tantos anos o que nenhuma outra cidade conseguiu? Enquanto outras civilizações demoliam seus prédios antigos para construir novos, os romanos, escrachados como nós, olhavam para aqueles arcos, aquelas colunas, aquelas paredes e dava a maior preguiça. Deixavam lá e construíam novos edifícios em cima. Só pode ser isso.

Nestes vários dias que andei por lá nenhuma mulher sequer olhou para mim, o que me fez pensar que existia um sério problema na cidade. Mas analisando melhor a situação lembrei que aqui no Brasil também ninguém olha para mim, portanto o problema era mais sério que eu imaginava. Mas os italianos também reclamam de suas mulheres. Quando estava indo para lá, no avião, sentei ao lado de um que dizia amar o Brasil, e que tinha toda a pinta de ser um turista sexual. Não consegue comer ninguém na terra dele, vem comer na nossa. O Brasil que se cuide, além da vaca louca é bom ficar de olho também no peru louco.

Roma me fez pensar seriamente na idéia de que o Brasil tem jeito. Se aquela baderna globalizada, aquela civilização anárquica está dando certo, a gente também pode dar. Eu sei, estamos a milhares de quilômetros do ideal, mas hoje em dia uma passagem de avião não está tão cara assim.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas, foi à Roma mas nem sabia que o Papa morava lá. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 12h56
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- Eu gosto, mas eu não gosto

De Leo Jaime.

 

Eu gosto de viajar dirigindo, durante o dia, ouvindo música. Eu não gosto de dirigir em estradas à noite. Eu gosto de flores. De gente que fala baixo e que diz coisas engraçadas. Não gosto de gente que faz qualquer coisa pra chamar a atenção, incluindo falar aos berros e com senso de humor duvidoso.

Não gosto de música de academia de ginástico e de boate. Poperô. Gosto de música ambiente se for baixa,  se não tiver que competir com ela ao falar. Não gosto de quem masca chiclete de boca aberta e anda com a gola levantada. Não gosto de gente que faz cara de mau e tensiona todo o rosto pra puxar a fumaça do cigarro, segurando-o como se fosse um baseado. Não gosto de cigarros e penso que, em geral, os fumantes acham que está faltando fumaça no mundo. E cinzas de cigarro; eles batem cinza em qualquer lugar! Não gosto de chegar em casa tardão e ter que tomar banho por estar fedendo a cigarro.

Também não gosto de bêbados ou chapados de qualquer espécie. Os altinhos são divertidos, os bêbados são invariavelmente chatos. Gosto de listas, de gostos e não gostos, e sou um colecionador de eu gostos. Não gosto de não gostar mas uma vez que não gosto, não gosto mesmo. Falta de educação, por exemplo, é difícil de aturar. Não dá pra resolver nada sem o mínimo de tato! Não gosto de gente que só critica, ou fala mal, por trás.

Por exemplo: tem um palhaço aí que diz que ficou aborrecido com algo que eu teria dito mas se negou a conversar comigo em duas circunstâncias que eu o procurei para esclarecer. O mané fala mal de mim pra todo mundo, menos pra mim. É covarde e burro pois se tivesse conversado das duas uma, ou tiraria a pulga de trás da orelha ou simplesmente pediria para que eu não falasse determinada coisa sem precisar fazer uma inimizade. Eu não gosto desse cara.

Não mesmo. São poucas as pessoas que eu não gosto e não consigo desejar mal a elas. Só desejo mal ao Eurico Miranda, aquele dirigente esportivo carioca que faz tudo para destruir o futebol. Desejo que ele e o time dele passem para a segunda divisão e nunca mais voltem. Até que ele morra ou resolva se aposentar.

Não gosto de gente que trata mal aos animais, crianças e velhos. Não gosto de gente que acha que o homem  branco é o culpado de tudo no planeta. Não gosto de petista pentelho dono da verdade, principalmente quando eles querem explicar que a corrupção do PT é melhor do que a do Collor, por exemplo.

Bandido é bandido, não existe, obrigado melhor, atenuante por alegação de bandeira ideológica!

Não gosto de pensar no Brasil como o país que tem um escândalo por dia. Gosto de pensar no Brasil como o país do brasileiro que se destaca em tudo, principalmente em pesquisas, trabalho intelectual, exportação de produtos de ponta (embraer), trabalhador e bem-humorado, solidário, honesto e democrático. Odeio o Brasil do jeitinho.

Gosto de frutas, de pistache, pamonha, de chopp preto e vinho, de primavera e outono, de frio, de neve, de música de boa qualidade, de ouvir jazz jogando poker com os amigos, de bons livros e filmes e peças e balés e shows, de rir até doer tudo, de amor sincero e eterno, de lealdade e fidelidade, de liberdade e confiança, de jogo aberto. Detesto confusão, rolo, complicações, coisas mal explicadas e conversas pela metade. detesto gente que acha que a gente tinha que ter sacado. De gente que acha que a gente tem que adivinhar. De gente que espera dar errado pra depois dizer. De quem gosta de ver o circo pegando fogo. De baixo-astral e seus seguidores.

Gosto de escrever e ler. Sobretudo gosto de papo-furado. As coisas fundamentais são aquelas das quais esquecemos em seguida. Com isso nomeio esse texto fundamental. O legítimo e inconteste papo-furado.

Gosto de saber o que os outros gostam e não gostam. Não gosto que tomem meus gostos e não gostos como julgamentos. Isso eu não gosto. Eu gosto de dizer eu gosto. E gosto de saber o que eu gosto. Gosto mesmo.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h27
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- As enfezadas

De Rosana Hermann.

 

Sou a primeira a me censurar por tocar neste assunto. Detesto falar de coisas escatológicas e fisiológicas, da mesma forma que não gosto de gente que fica o tempo todo falando sobre sua dieta. Para mim, os inputs e outputs de um ser humano são de ‘forno íntimo’ e, tirando o médico homeopata, a nutróloga e o profissional do laboratório de análises clínicas, poucas pessoas querem saber detalhes do trajeto completo do seu fluxo alimentar. OK, os inputs a gente comenta, mas cada um que cuide dos seus subprodutos.

 

Infelizmente a indústria alimentícia e farmacêutica não pensa assim e, para atender um imenso e crescente contingente de mulheres que praticam muito mais vida do que obra, os comerciais de produtos para estimular os outputs ocupam cada vez mais espaço na mídia. Não adianta gostar ou não gostar, querer ou não querer, basta ligar a TV pra ver um os depoimentos reais da turma do retém-tudo falando sobre suas teorias constipatórias do caos.

 

É um desfile de iogurtes e seus clichês sobre ‘intestino preguiçoso’, ‘funcionar como um reloginho’, e ‘sentir aquele alívio’ e ‘a calça ficou mais larga’. Isso sem contar todos os laxantes em gotas, pastas de ameixa preta, fibras que varrem você por dentro como uma ‘vassourinha’. Os intervalos comerciais parecem os jornais internacionais, como se as entranhas fossem uma imensa faixa de Gaza onde a maioria é a favor da evacuação de todos os colonos, independente de credo, cor ou origem. O que não pode é ficar. Tem que botar todo mundo pra circular.

 

Claro que o problema é sério, que o incômodo é grande. Todo mundo que já passou por mudanças de hábitos alimentares, climáticos, como em viagens, sabe o tamanho do desconforto de ficar dia após dia sem nenhuma produção, sem uma única visita satisfatória ao real trono. Mas a impressão que se tem é que hoje, todas as mulheres do mundo estão assim de forma permanentes, sempre enfezadas.Mas o marketing exagera, provocando mais estresse do que o necessário, gerando distúrbios graves em garotas que querem emagrecer. Hoje há uma febre de consumo de laxantes e diuréticos, consumidos por adolescentes que querem se livrar de qualquer coisa para diminuir o marcador da balança.

 

É verdade, as mulheres são mais afetadas por este fantasma da comida que não se descome, mas a vida moderna, afeta homens também, de forma avessa. Enquanto as mulheres ficam enfezadas, convivendo com um fluxo digestivo que tem a velocidade de uma tartaruga, os homens convivem com o incômodo dos cágados. Boa parte dos homens sofre do que é hoje elegantemente chamado de Síndrome do Intestino Irritável, vulgo KH-neira. Nem sempre o problema é só de cunho emocional, mas o estresse tem muito a ver com isso.

 

Em suma, estamos todos doentes. As crianças ficaram mal-criadas e agitadíssimas, adolescentes têm distúrbios alimentares e emocionais, adultos têm problemas para comer e descomer. A questão é tão grave, que muitos homens e mulheres trocariam o melhor dos orgasmos para voltar a ter uma relação saudável e prazerosa com seu sistema digestivo.

 

Não sei a solução, mas minha intuição me diz que temos que resolver nossa relação com o tempo. Ou a gente leva uma vida que permite um tempo para caminhar, tempo para mastigar, tempo para digerir, tempo para dormir, tempo para amar, tempo para jogar tempo fora, ou vamos acabar nos transformando num exército de enfezadas e cagões, mulheres irritadas e homens medrosos, perdendo a oportunidade de viver a glória que é viver.

 

Bom dia, boas refeições. Mastigue bem, coma com prazer, que no final, tudo vai dar certo!

 

Rosana Hermann escreve no Blônicas toda quarta, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h10
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- A saga dos mistérios - Parte 1

De Nelson Botter.

 

Mistério maior que o do sentido da vida só mesmo o mistério do amor. Apesar do sentido da vida (tão procurado por cientistas e o Monty Python) poder explicar questões existenciais de alta relevância para nós seres vivos e pensantes, como: "quem sou?", "de onde vim?" e "para onde vou?", o mistério do amor continua inabalavelmente indecodificado em nossas mentes, tornando-se parte dramática e inquietante de nossa existência, mais até que o tal sentido de tudo.

 

O amor, antes de ser entendido como o mais nobre dos sentimentos que um ser vivo e não necessariamente pensante pode ter, é uma palavra que todos nós conhecemos o significado, mas não sabemos explicar. Só uma outra palavra de todo o nosso vocabulário de ser vivo e pensante é tão difícil de definir quanto o amor: liberdade. Aliás, muitos acreditam que não existe liberdade sem amor, mas que só existe amor sem liberdade. Eis o primeiro dos mistérios...

 

Dizem os mais estudados que o amor é pura química, combinação de substâncias produzidas no corpo, como se uma injeção dessa complexa fórmula, quando bem aplicada na veia, pudesse fazer com que os fundamentalistas islâmicos passassem a amar loucamente os diabólicos americanos. Há também os que acreditam ser uma coisa de alma, holística, esotérica, com raízes em existências anteriores, posições dos astros, destino, pirâmides, Paulo Coelho, almas-gêmeas, etc; como se a cadela ao lamber sua cria estivesse fazendo isso devido ao retorno de Saturno e à presença do sol na casa 11 do mapa astrológico do pequeno cão recém-vindo ao mundo dos seres vivos e não pensantes. Pode ser também um comportamento, do tipo ação e reação ou até uma questão de fé, dogma, algo divino, fruto de Deus ou qualquer força superior. Amém!

 

Com base nessas teorias brainstormicas, podemos dizer que tudo é uma vã tentativa de entender o que é esse bichinho amor, afinal os seres vivos e pensantes sempre precisam buscar razão na emoção. Esqueçam, ninguém tem o mapa e isso pouco importa. O que faz a diferença é vivenciar o amor e não procurar a lógica da coisa. Veja, ouça, sinta. Praticar o amor é a razão da existência, pois é a maior emoção da vida. Amar é ser bom, mas também ser mau, é procurar o equilíbrio, mas se permitir pender para um dos lados de vez em quando, enfim, o amor é o sentimento vital para aflorar o que necessitamos exercitar para crescermos como seres vivos e pensantes: felicidade, ciúme, raiva, paixão, tristeza, ansiedade, cumplicidade, angústia, posse, egoísmo, vaidade, fraternidade e muito mais. Viver o amor é experimentar, é fazer aula no laboratório prático da vida sem avental para se melecar todo, é aprender e transmitir conhecimento. Somos alunos e professores, que maravilha é o amor!

 

Na saga dos mistérios da vida destaco este como um mistério que sempre será misterioso, pois se um dia o código da Vinci do amor for decifrado, nós - seres vivos e pensantes - corremos o risco de nos tornarmos como o manequim de fibra de vidro da loja de roupas, um ser morto e não pensante, que fica lá observando a todos, frio, inanimado, alheio aos que o cercam. "Olá, tudo bem, meu nome é Nelson, gostei de você. Seu nome completo e data de nascimento, por favor. Só um minuto, estou calculando nossa sinastria numerológica. Bom... hmmm. Agora vou tomar meu elixir do amor que comprei no camelô ali na esquina. Ah, não se preocupe, é pirata mas também é bom. Já estão fabricando genérico, é tiro-e-queda. Sim, tome você também um pouquinho e seremos felizes para sempre... letárgicos e assépticos à vida".

 

Nelson Botter escreve no Blônicas todas as terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h00
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- CPI do amor e do sexo

De Xico Sá.

 

Uma amiga entrou na caixa postal do correio eletrônico do marido.

Um desastre.

Entre cantadas e semi-cantadas ou apenas bobagens virtuais, entrou em desespero, gritou, berrou, discutiu a relação por uma semana, e quase acaba com aquela vida sob o mesmo teto até então reconhecida no seu grupo de amizade como exemplar.

O marido tinha algum caso para valer? Não. Algum namorico mais a sério? Nada. Havia transado com alguém e comentava que foi bom? Nécaras.

Tudo espuma flutuante e virtual, sem lastro de verdade.

Mas foi o bastante para uma baita crise.

Por estas e por outras é que não é nada recomendável quebrar o sigilo postal do companheiro ou da fofolete que te aquece neste inverno.

Ora, quem, entre nós, resistiria a meia hora de quebra do sigilo amoroso ou sexual?

Como na arrecadação de recursos para campanhas eleitorais, todo mundo, até mesmo no mais escondido dos conventos de devotas beneditinas, já teve o seu “caixa 2” do desejo. Em pensamentos, atos ou omissões.

Em telefonemas, emails ou declarações bêbadas.

Ninguém resiste a meia hora de quebra de sigilo. No amor, somos todos, em alguma ocasião, corruptos. Em maior ou menor grau, todos damos nossas “pisadas de bola”.

Menos naquela hora em que a paixão por alguém nos toma 100% do cérebro e a febre amorosa é capaz de quebrar termômetro. Depois passa.

Nosso destino é pecar, como disse o pudico Nelson, padrinho espiritual deste cronista. Por estas plagas, até a virtude prevarica.

Às sextas-feiras,então,já repararam como o cheiro de pecado toma conta dos bares e é mais forte até do que o odor que vem dos ralos e bueiros?

Quem, entre nós, machos & fêmeas, resistiria a uma CPI do amor ou do sexo?

Este cronista ficaria rico, na pele de um camelô de álibis. Ah, as lindas e impagáveis fraquezas da carne.

As despesas com jantares à luz de vela denunciariam os amantes pelo cartão de crédito ou no extrato para simples conferência. Os porteiros de prédios e motéis seriam os mais perseguidos dos depoentes. Seria um inferno.

A melhor amiga ou o melhor amigo, estas instituições supostamente vestais, também seriam convocados a depor. Na CPI do amor sobraria até para o entregador de pizzas, que também sabe muito sobre os segredos de alcova.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 15h26
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- Dia dos pais

De Milly Lacombe.

Faz cinco anos que o dia dos pais perdeu o sentido para mim. No dia 13 de julho de 2000 meu velho foi embora e eu deixei de sair para almoçar fora em domingos como esse para celebrar a data. Embora nunca tenha dado muita bola para essas ocasiões criadas para nos fazer consumir antes de mais nada, fato é que, hoje especificamente, eu gostaria de poder almoçar com meu mestre. O assunto, como quase sempre acontecia quando saíamos para almoçar ou jantar, giraria em torno de política e futebol.

Nos encontraríamos no Jóckey Clube de Cidade Jardim, como fizemos quase todos os fins de semana por mais de 20 anos. E passaríamos a tarde numa mesa ali na varanda, almoçando, tomando café, vendo as corridas, com um radinho de pilha na mesa para acompanharmos a rodada do Brasileiro.

Para começar, explicaria a ele que, desde que ele se foi, eu acabei me apaixonando pelo Corinthians. Ele ficaria chocado. "Mas, Bilu [era assim que ele me chamava], e nosso Flu?". E eu diria: "Pai, nosso Flu sempre será nosso Flu. Mas acontece que finalmente topei com o amor da minha vida e ela me apresentou ao amor da vida dela, o Corinthians. Me deixei seduzir pela Fiel e agora vou ao Pacaembu uma vez por semana torcer pelo Timão".

Ele, depois de relutar um pouco, acabaria aceitando. Era, como eu, um apaixonado, e, como tal, sabia que o amor justifica tudo. Até viradas de casaca. E então, falaríamos de política.

"Pai, e esse governo, hein?". "Bilu, eu não disse que esse homem era um boçal? E boçal do pior tipo: o que se acha esperto. Me surpreende que as pessoas estejam estupefatas com o que ele tem feito". "Pois é, pai. Mas é que a gente tentou colocar lá um homem do povo, um cara que finalmente pudesse diminuir a desigualdade social deste país". "Ora, Bilu, que conversa fiada. Como é que se pode achar que um sujeito que não sabe falar, que não tem lógica de raciocínio, que não é especializado em nada, pudesse nos salvar? Demagogia podre. Pior: quando eu estava vivo era uma heresia falar mal desse idiota. Porque todos diziam que era preconceito, só porque ele era muito pobre, nunca estudou, veio de baixo. Mas que estupidez! Imbecilidade não é um privilégio de uma determinada classe social. Olha em volta, veja quanto rico imbecil nos cercam agora. Mas não se pode achar que não haja analfabetos imbecis. E, para nos incluir todos nessa imbecilidade, não se pode eleger um completo idiota para comandar o país."

"O que você acha que vai acontecer?". "A verdade virá à tona, pode ter certeza. Vai demorar, mas essa gente, Dirceus, Genoínos, Mercadantes, todos entrarão para a história como os ladrões que sempre foram." "Mas o Mercadante não está envolvido, pai". "Ora, Bilu. Claro que está. Ou ele também não ajudou a fundar esse partido? Não vai sobrar um". "E o que minha geração pode fazer?" "Pode, para começar, deixar a hipocrisia de lado. Pode ser mais autêntica. Pode construir sua própria cartilha de ética e moral e colocá-la em prática. Todos os dias. E não apenas quando convém. Pode se candidatar. Tudo isso pode." "Pai, quanto tempo temos até que você tenha que voltar?" "Temos tempo, Bilu. Vamos ver mais um páreo e você me leva ao Pacaembu para que eu possa conhecer essa tal torcida Fiel de perto." "Feito. Vamos deixar toda essa podridão moral pra lá e fazer o que de melhor essa vida terrestre tem a nos oferecer. Ou você vai me dizer que, do lado de lá, tem coisa melhor do que isso?". "Do que almoçar com quem se ama e depois ir a um bom jogo de bola? Não, não tem nada melhor do que isso, Bilu."

Milly Lacombe é cronista do Blônicas ao domingos.

Escrito por Blônicas às 15h20
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- In vídeo veritas
De Castelo.

As locadoras faturariam em dobro se existissem mais famílias como a minha.
Numa de nossas mais recentes incursões à uma loja, a balconista sentenciou:
- 35 reais de multa por atraso, senhor.
Era a quarta pisada no mês. Olhei para minha mulher, para o Tiago e a Clarinha.
Os três voltaram os pescoços para a prateleira de lançamentos e fingiram que não era com eles. No carro, fiz o escarcéu.
- Na próxima, um minuto de atraso e não se pega mais nada. Combinado?
Firmou-se um acordo de cavalheiros. Durante o fim de semana, assistimos à uma penca de filmes - de ficção científica ao "Shrek" da Clarinha.

Segunda-feira, trabalho, reuniões, abstraí por completo. Só lá por quarta, resolvi dar um pulinho na locadora - afinal, eu também sou um devedê-maníaco-fiho-de-Deus.
Peguei um filme expressionista alemão mudo pra ver sozinho, pois a insônia me ataca freqüentemente. Ao passar no balcão, ouvi da moça:
- Vai pagar a multa dos filmes que pegou no sábado e não devolveu?
Não havia dúvida: eu tinha sido traído pela própria família.
Chegando em casa, fuzilei:
- Amanhã quero todos os devedês devolvidos e pagos - por vocês - na locadora. E não se pega mais nada aqui até segunda ordem!
Desorientada, minha mulher se recolheu ao quarto. Clarinha e Tiago tentaram argumentar, mas me tranquei no escritório de casa pra assistir ao meu filme alemão sem som. A coisa permaneceu assim durante um mês. Só eu vendo meus filminhos, mas escondido. Durante o período, estranhei apenas um detalhe: a família andava conformada demais com a “pena”.

Resolvi investigar. Revirei armários e pertences de todos: nada de filmes alugados.
Enfim, uma vida sem multas… Dias depois, meu filho chegou da escola com uma sacola estranha.
- Deixa eu ver isso, Tiago - gritei.
Ele tentou correr. Fui atrás e nos engalfinhamos. Depois de enorme esforço, tomei dele o saco plástico. Eram vídeos.
- Posso explicar, pai.
Agarrei-o pelo pescoço e fui apertando:
- Pai, esxses vídxeos sãox da...ESCOLA!!!!
Ele precisava assisti-los pra fazer uma prova… Desculpei-me. Ele aceitou meu abraço. Mas, naquela noite, eu provaria o fel de sua vingança.

Tiago me dedurou. Fui flagrado, por toda a família, durante uma de minhas sessões-privê clandestinas no escritório de casa. Clarinha disse, chorosa:
- Papai mentiu pra gente...
A esposa foi mais direta: esfregou o Clint Eastwood no meu nariz. Choramos todos por quase meia hora.
- Tenho sido rígido demais - conclui, fungando.
E, pra reconhecer que errei, amanhã vamos todos à locadora. Acabou o castigo...
Fui perdoado. E dormi como um anjo desgarrado recolocado no Paraíso.
Na manhã seguiu fui despertado com o toque do telefone.
- O senhor alugou Shrek?
- Aluguei, faz mais de dois meses.
- Mas não devolveu até agora, senhor...
- Como?
- São 198 reais de multa por atraso...
Depois de botar a casa de cabeça pra baixo, descobrimos o "Shrek", cheio de teias de aranha, debaixo da caminha, decorada de Pequenas Sereias, da Clarinha.
Vida ogra a minha.

Castelo escreve no Blônicas de sábado.
Escrito por Blônicas às 13h22
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- Marketing de relacionamento amoroso

De Henrique Szklo

A ligação íntima entre um cliente e uma empresa

Simão era um homem casado. Coitado. Já estava em seu calvário matrimonial há mais ou menos 12 anos quando um fato novo mudou sua vida. Até então, apesar do relacionamento insosso, inodoro e insalubre, ele nunca havia traído sua mulher. Nem traído e muito menos a atraído. Ela era fria, egoísta e nunca o elogiava. Simão jamais conseguia um sorriso, mesmo que mínimo, vindo de seus lábios carnudos, secos e cruéis.

Ah, esqueci de dizer: Simão também era chato. Chato não, um porre. E de cachaça vagabunda. Provavelmente sua mulher tinha razão em não suportá-lo. Pobre mulher. E ainda levava fama de fria. Mas ela tinha espírito. No aniversário de Simão lhe deu um presente muito sugestivo: um par de belas e anacrônicas galochas. Mas Simão também era meio fraquinho das idéias e não entendeu a mensagem subliminar da esposa. Adorou o presente. Foi aí que tudo começou. Se ele não fosse uma figura de linguagem ambulante nada disso teria acontecido e o chato Simão nos teria poupado de uma história tão idiota.

Logo na primeira chuva Simão calçou orgulhoso suas galochas e foi para a rua. Pisava n´água com vontade, com alegria. Sentia naquele calçado ridículo o amor inquebrantável da mulher que nunca o amou. Tinha vontade de dançar. Era um Gene Kelly chutando poças enormes. Com a diferença que no filme não havia ninguém sendo atingido pela água. Ter corrido de um monte de gente furiosa e ensopada não foi o pior. Mais grave foi quando, ao chegar em casa, percebeu que o presente que sua querida esposa havia lhe dado como prova de total falta de amor e carinho estava despedaçado. Primeiro ficou arrasado, logo depois furioso. Pensou em ir aos jornais, às rádios, tvs, ao congresso nacional, ao palácio do governo, à ONU ou pior: ao Programa do Ratinho. Mas como ele além de chato, era preguiçoso, se conformou em ligar apenas para o serviço de atendimento ao consumidor da fábrica de galochas.

Foi quando do outro lado atendeu uma voz suave, confiável, terna. A voz mais doce e meiga que Simão jamais ouvira. Uma voz chamada Rita. Simão nunca havia sido tratado daquele jeito por uma voz antes. Deu-lhe tudo o que ele não tinha em casa: atenção, carinho, paciência, importância. E mais que tudo: deu-lhe um par de galochas novinhas. Simão desligou o telefone já infinitamente apaixonado. Naquele instante se deu conta de que nunca havia amado sua mulher. Aquela voz era a mulher de sua vida.

Passou a ligar para o SAC da fábrica de galochas todos os dias. Mas além de casado e chato, Simão era tímido. Jamais abriu o jogo com a voz. Vivia inventando desculpas para procurá-la e ela sempre fingia que não percebia e o tratava da forma carinhosa e atenciosa de sempre. Ligava e ficava horas conversando com Rita sobre controle de qualidade, cheiro de borracha, design de galochas e impermeabilização em geral.

Um dia ele ligou e não encontrou Rita. Ela não trabalhava mais no SAC da fábrica de galochas. Quem lhe deu essa notícia foi uma voz chamada Martha, que, sensibilizada com a tristeza inesperada do cliente, lhe deu uma atenção especial. Simão desligou o telefone e concluiu que seu coração era grande o suficiente para amar eternamente quem quer que atendesse suas chamadas.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas e tem uma voz horrível. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h05
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- Uma pequena

De Paulo Castro.

     A garota só veste preto, tem cinco tatuagens, piercings nos mamilos, adora rock pesado e satanista, sonha em fugir da sua cidadezinha e ir ser moderna lá na capital. Está dando carona para o ex-namorado e sua melhor amiga. Apertada da bexiga, acha bastante engraçado estacionar o carro e ir fazer seu xixi no meio do mato, é bacana e o excesso de vodka ajuda na perda da inibição. Vai, já rindo e se molhando. Grita bem alto o nome de uma música de "black metal", enquanto urina de cócoras. Se limpa com folhas grandes.
     Quando volta ao carro, essa é a cena que vê: o ex-namorado e a melhor amiga atracados no banco de trás, roupas no assoalho, uma transa. Desesperada ela ainda tenta ser a terceira, inventar um "menáge à trois", mas é rechaçada pelo casal. Assiste  tudo, sentada no banco do motorista. Quando a farra sexual chega ao fim, o rapaz vomita e a melhor amiga cai na gargalhada. A garota dirige silenciosa até o centro da cidade, onde larga os dois. Chega em casa, deita na cama, tudo gira. Nessa mesma cama já teve um sem número de amantes, que chama de amigos. Inclusive foi flagrada pelo pai no meio de um ato, adorou a cena, achou transgressão pura. Nessa mesma cama já se recuperou de dois abortos, alegando gripe. Agora tudo gira. E antes de pegar no desmaio, decide que irá romper com a amiga e com o ex-namorado, com quem ainda mantinha sexo esporádico e livre.
     Quando acorda, mantém a resolução. E se odeia. Acende um cigarro e se queima propositalmente,os braços. Se ela fosse realmente tudo que acha que é, não deveria se importar com a cena no carro. Mas se importa e está doendo muito. O peito aperta, percebe que ainda tinha esperanças com o ex-namorado. De casar. De ter filhos. De molhar as plantas na frente de casa. De brincar com o cachorro fofo. Ouvir Bach e Mozart. Ter estofados de couro branco. Acender incensos. Fazer dieta. Comprar produtos anunciados na televisão vinte e nove polegadas, tela plana, cristal líquido.
     Ela se odeia.
     Se veste com os mesmos trapos-botique de sempre. Faz de conta que nada aconteceu. Altiva, se dirige para a "lan house" mais próxima. Ela é boa nos jogos virtuais, vai tomando Coca-Cola e matando os adversários, mas hoje não está se saindo bem. Dizendo a verdade, acha todo aquele lugar bastante besta, em que todos a conhecem por apelido, em que o cheiro de gases corporais se mistura com o de salgadinhos empacotados. A música que toca ali é a mesma das que tem guardada em formato mp3 no seu computador pessoal, presente do pai. Vai embora.
     Recado na secretária eletrônica do celular:
     - Hoje tem festa no Márcio ! Não falte, sua vaca ! Vamos bombar.
     É comum que as meninas se chamem de vaca, galinha, piranha, vagabunda e troços piores. São tratamentos pessoais carinhosos.
     Claro que ela vai na festa, volta por cima, sua idiota ! Resolveu virar romântica depois de velha, sua anta ?
     Escolhe o melhor vestido, obviamente negro, e pega pesado na maquilagem. Força o lápis no contorno dos olhos. Quer parecer uma vampira. Adora vampiros. Eles são tão charmosos ! Consegue ficar com a pele branca, apesar da coloração natural ser indígena.
     Tira o carro da garagem, presente da mãe. Dirige em alta velocidade, canta os pneus nas curvas, sua triste obesidade abdominal segue a força centrífuga. Quando chega na casa do Márcio, já está tudo lotado, mas vai beijando, mesmo sem saber de quem se trata. Pega uma garrafa de vinho tinto(como se fosse sangue) e vai bebendo no gargalo. Os pais de Márcio são separados, a mãe está fazendo pós-graduação em História da Arte na Inglaterra e o pai vai dormir no apartamento da namorada. A nossa garota já transou com o pai do Márcio. Ele é ruim de cama, mas dá presentes como ninguém.
     No salão principal, alguns cheiram, outros fumam, ela é contra drogas ilícitas e por isso investe na segunda garrafa de vinho. É apenas no segundo afoito gole que ela vê o enorme sofá. Lá estão, o ex-namorado e a ex-melhor amiga. Já não estão  juntos, mas com parceiros variados. No pega-aqui, pega-ali. Alguém aparece por trás e lhe tampa os olhos:
     - Adivinhe quem é, sua galinha !
     "Adivinhar quem eu sou ? Por Deus, eu não faço a mínima idéia, eu quero morrer, mas não tenho coragem para tanto. Eu queria ser idosa numa cadeira de balanço, eu queria estar em coma, eu queria...".
     Sai correndo da festa. Levando a garrafa. Dirige em alta velocidade. Altos goles que escorrem pelos cantos da boca, saliva grossa. Canta pneu. Não. Ela não bate o carro. Nada de errado acontece. Termina a noite no quarto, diante do computador, presente dos tios, me contando a sua história e dizendo que eu posso fazer o que bem entender com ela.


                                     "- Nesse caso,entre que folhas adormeceu ?
                                       - As flores me queimam."
                                                  ( Ferreira Gullar)

Paulo Castro é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h04
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- Biológicas, exatas e desumanas

De Rosana Hermann.

 

Não terei tempo de procurar na rede o nome do culpado pela divisão das disciplinas de educação em três vertentes, mas de alguma forma o conhecimento formal ficou dividido em ciências biológicas, ciências exatas e ciências humanas. Acho lindo que tudo seja tratado de forma cientifica e organizada mas temo que esta tripartição não tenha sido um bom negócio, especialmente hoje, vendo que duas pernas se desenvolveram e uma ficou atrofiada. O homem passeia em Marte com seu robô e envia imagens ao vivo, com exatidão tecnológica surpreendente. Aqui na Terra, clona-se seres vivos e as esperanças de cura se renovam com o desenvolvimento de pesquisas com células-tronco. O tripé do conhecimento desenvolveu pernas longas e bem torneadas para as exatas e biológicas. Infelizmente, com o crescimento das outras duas, a terceira perninha, as ciências humanas, que incluem coisas como a filosofia e a ética, ficou ali, atrofiada e penduradinha como um bilauzinho no inverno polar. E isso, tem tudo a ver com a crise humana do mundo atual.

 

Estamos todos mais grotestos, mais rudes, mais estúpidos. Somos bem informados mas nos tornamos ignorantes. Temos automóveis com GPS mas dirigimos como trogloditas neuróticos. Viajamos pelo mundo inteiro mas temos preguiça de procurar o baldinho de lixo para jogar o papelzinho da bala. A falta de finesse é geral. Isso tudo, se não for coisa do demo, se não for a prova definitiva de que o projeto ‘ser humano’ não deu certo, só pode ser atribuído à falta de atenção que demos às ciências humanas, justamente aquelas mais sutis, que não dependem de equações, que não se baseiam nas medições matemáticas e não podem ser testadas em laboratório.

 

O vórtice vicioso que nos suga ralo abaixo passa por todas as estatísticas de descaso com as disciplinas que podem desenvolver o refinamento das pessoas. Não existem empregos para filósofos, sociólogos, pedagogos, historiadores, cientistas sociais. E, por não ter mercado, os estudantes não optam por estas matérias na hora de fazer o vestibular. Como a procura é pouca, há poucos cursos e etc. e tal.

 

O que fazer? Bem, esta é uma resposta para as ciências humanas também. Quem tiver sobrevivido na área terá que formular as soluções para esta crise de humanidade que vivemos hoje. Não sei onde o flower power murchou, onde o amor livre foi preso ou como a vida em fazendas cooperativas se transformou nesse mar de prédios de escritórios neuróticos baseados na competição. Só sei que temos que voltar até a bifurcação onde tomamos a trilha errada. Nesta trilha, ansiedade e depressão nos matam, o estresse e a má alimentação engordam, a ira destrói toda nossa capacidade de sentir e amar.

 

Eu, lentamente, comecei a voltar. E adoraria contar com todas as pessoas de bem, os irmãos de fé, os companheiros de jornada, os camaradas de ideologia, os humanos de coração, para um grande encontro de volta naquele velho ponto da bifurcação. Onde um dia, alguém colocou uma flor no cano de uma carabina.

 

Humanos, uni-vos.

Rosana Hermann escreve no Blônicas todas as quartas, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem.
Escrito por Blônicas às 12h42
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- A merdamorfose

De Nelson Botter.

 

Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Enquanto ela deixava seu apartamento a passos largos e seguros, batendo a porta com extrema violência, ele permanecia letárgico, sem expressão alguma, deitado na cama. Há muito tempo Vânia ameaçava ir embora se as coisas não mudassem, iria abandoná-lo de vez, mas ele parecia não ter mais forças para mudar sua condição, mal conseguia olhá-la nos olhos.

 

Suspeitou-se de depressão, logo após Gregório abandonar o emprego, mas o médico disse que ele nada tinha. Exames perfeitos, saúde de leão. Mesmo assim passou a dormir mais de 12 horas por dia e quando Vânia chegava em casa, após um árduo dia no trabalho, ainda tinha que fazer todas as tarefas domésticas, pois Gregório estava sempre sentado no sofá, trajando o mesmo pijama, hipnotizado por algum programa na TV sobre a vida dos insetos.

 

Seu dorso duro e suas inúmeras patas estavam mais visíveis do que nunca. Gregório sabia que não duraria muito e estaria completamente transformado numa barata, num ser asqueroso e morfético. Mesmo assim, tudo que ele queria era abraçar aquela metamorfose e assumir sua condição de inseto inútil.

 

Vânia chorava, brigava, queria explicações, cobrava outra atitude, mas Gregório parecia nem percebê-la, sua resposta era sempre um barulhinho estranho, ininteligível. Ele tentava dizer que a vida deles era uma bosta, que eles não passavam de dois escrotos e que tudo que tentavam não dava certo. Mas, de alguma maneira, Vânia parecia não compreender suas palavras, agia como se não entendesse ou se estivesse surda. Gregório achava estranho como sua esposa não desistia de tudo e não de entregava como ele, tornando-se também uma barata.

 

Naquela manhã, ao vê-la saindo com suas roupas, dizendo que a partir daquele dia ela teria uma nova vida, seria uma pessoa muito melhor e que buscaria sua felicidade, Gregório se deu conta que sua metamorfose tinha se completado. Finalmente ele era uma perfeita barata.

 

Enquanto Vânia batalhava e vencia, encontrava um novo homem, uma nova casa e prosperava como profissional e pessoa, Gregório vivia procurando restos de comida, passeando pelos esgotos e procriando com outras baratas. Até que um dia encontrou um monte de bosta maravilhoso, quentinho e macio. Não teve dúvidas, subiu no montinho e resolveu tirar um cochilo. Dormiu, com sempre fazia, e não percebeu que a bosta era muito fofa. Gregório começou a afundar e quando abriu os olhos já era tarde, estava atolado e condenado a morrer na merda. Por um instante quis ter a força e a garra de Vânia, mas então cerrou os olhos e resolveu dormir mais um pouquinho, só que dessa vez para sempre.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas todas as terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h07
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- De uma tal de droga nova e a moral do capim novo

De Xico Sá.

 

Gazelas insinuantes aproveitam as nuvens de testosterona que encobrem a noite dos bares e distribuem folhetos contra a “disfunção erétil” _pois é, nem mesmo a velha e humaníssima broxada escapou dos chatos politicamente corretos.  Uma piadinha bêbada aqui, uma cantada grosseira acolá, e lá seguem as moças na pregação cívico-priápica.  O panfletinho azul nem toca no nome da pílula milagrosa. Nem carece.

  Mal as fofoletes adentram o botequim e a nossa mesa, enfeitada por um magote de cabra safado de Pernambuco e do Ceará, ataca de “Capim Novo”, o clássico da disfunção erétil de todos os tempos: “Esse negócio de dizer que droga nova/ muita gente diz que aprova/ mas a prática desmentiu...”

    Nossa canção de protesto toma conta do ambiente. Um belo fuzuê. “O doutor disse/ que o problema é psicológico/ não é nada fisiológico/ele até me garantiu...”, emendamos. “Certo mesmo é o ditado do povo/ pra cavalo velho/ o remédio é capim novo”. A música de Luiz Gonzaga e José Clementino toca fogo na noite paulistana, longe, muito longe das fogueiras juninas.  

Pianinho, pianinho, como dizia Benito de Paula. Silêncio no ambiente. Aí começa um debate de altíssimo nível. Com participação das gazelas, dos garçons, do tirador de chope... Este mal-diagramado que vos sopra o cangote soltou uma tese na mesa, que teve seus contestadores, mas acabou vingando de alguma forma: pelo direito sagrado à broxada. A demasiadamente humana broxada. Pelo direito de falhar, pelo direito de ouvir um lindo “relaxa, querido, isso acontece...”

Tempos chatos estes da felicidade química a qualquer custo. Como diz uma amiga curitibana, linda afilhada de Balzac, hoje em dia as mulheres não sabem mesmo se são o motivo daquele sexo inspirado ou se tudo não passa de mais um milagre da pílula. Acabou aquele suspense, hitchcockianismo  do amor, diante da possibilidade de um retumbante fracasso na cama. Acabou o orgulho da moça em fazer funcionar algo aparentemente leso e morto.

Com as tais das drogas novas, o camarada é capaz de ficar excitado até num velório. Qualquer coisa que se bula é motivo para o assanhamento mais íntimo. Um desassossego dos diabos.

Esse paraíso artificial só faz sentido para os bons velhinhos. As autoridades poderiam até distribuir umas drágeas por ocasião do pagamento das aposentadorias. Seria o fim geral do fastio. Nada de “vovô viu a uva”. Coisa das antigas. “Vovô viu o Viagra”. Esta sim seria a nova aliteração didática das cartilhas infantis.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h57
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- Parada final
De Milly Lacombe.

Aviso aos interessados: quem quiser descer, é essa a hora; o país parou. Estamos completamente estacionados e não há melhor momento para que pulemos fora dessa barca furada do que esse. Claro que, uma vez fora daqui, ficamos sujeitos a tiros certeiros que podem, numa manhã de quarta-feira, confundir qualquer um de nós com um terrorista e nos tirar a vida. Fazer o quê? Permanecer sentado e ser confundido com um completo imbecil ou sair e passar por terrorista? A segunda hipótese ainda é a mais romântica. Além do que, entraríamos para a história. Assim, nessa coletividade catatônica sentada à frente do monitor assistindo TV Senado, balançando a cabeça e estalando a língua, não iremos a lugar nenhum.
Mas não pretendo influenciar ninguém: a escolha é, como todas, individual. Só gostaria de deixar registrado o aviso: senhores passageiros da agonia, querendo sair desse ônibus sem rumo e que parou por tempo indeterminado, por favor, esta é a oportunidade ideal. E não é preciso ter pressa, podemos sair de forma organizada, sem atropelamentos. Porque a parada promete ser longa. Afinal, o piloto, faz tempo, sumiu. Congresso e senado não pretendem votar nada de importante pelos próximos 18 meses. Nosso presidente "Lula-otário-ou-chefe-de-quadrilha?", que nunca trabalhou na vida (salvo, claro, aquela semana que antecedeu o acidente que lhe roubou o mindinho), está em campanha pelo sertão e não consegue parar de falar da mãe analfabeta. Ministros, sofrendo da síndrome da estagnação do pânico, correm como baratas quando a luz é acesa rezando para não ver seus nomes associados ao mensalão. Brasília, como sonhou Juscelino, finalmente entrou no radar. Movimentação mesmo, só nos corredores da TV Senado.
No sofá de nossas casas, esperamos que os boatos se confirmem: as contas do cartão de crédito de Dona Marisa, supostamente pagas por Marcos Valério, devem pintar no pedaço. Lulla vai entrar de cabeça e barba no escândalo. E aí não haverá analfabetismo materno capaz de salvá-lo. Aliás, como disse minha amiga Patrícia, eu tô é de saco cheio da mãe do Lulla. Vou dar a idéia para que minha outra amiga, Nina Lemos, petista de carteirinha, mas que, como qualquer pessoa inteligente, já se rendeu aos fatos, fazer camisetas com a frase "Tô de saco cheio da mãe do Lulla". Nina adora fazer camisetas com frases contundentes. Nossa mania era brincar de fazer camisetas para o Bush. Não mais. Agora é Lulla.
Mas a verdade é que estamos cansadas de tanta realidade. Queremos um pouco de ficção. Chega de Big Brother. Ninguém consegue viver sem ilusão, sem escapismo. Por isso, quem quiser mais Hollywood menos Tv Senado, favor começar a levantar a bunda da cadeira e se preparar para descer.
Quanto a mim, pretendo ficar. Quero ver a derrocada dos guerrilheiros do ABC de perto. Quero saber quem mandou matar Celso Daniel, quem esquematizou esse babilônico esquema de corrupção, quem orientava Waldomiro Diniz, quem roubava dos pobres para ficar ainda mais rico. O diabo é que todos nós já temos essas respostas. É preciso apenas que a esperança de se provar a verdade vença o medo de se dar vida ainda mais longa aos ladrões e hipócritas.
Quem não descer, verá.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 18h17
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- Slimboy Fat - o pai do "drum'no'bass"
De Castelo.

Conheci Slimboy Fat numa de suas últimas discotecagens. Foi na casa noturna da zona Norte "Chaparral Dreams, Drinks & Pussy"
Aquela era a fase terminal de sua curta carreira de apenas um ano.
Como o próprio nome escolhido por ele revela, aquela pessoa viera ao mundo "disco-trance-techno-pop" pra inverter (e subverter) tudo o que se havia criado anteriormente.
Pra começar o figurino do astro desobedecia qualquer mandamento do "fashion". SlimBoy pesava mais de 10 arrobas e vestia trajes de peão boiadeiro em suas performances.
Mas isso não era nada.
O que mais chamava atenção era o fato de Slimboy Fat ser o primeiro DJ acústico do mundo. Em outras palavras, era radicalmente contra música eletrônica.
Em seus aparições não entravam "pick-ups", nem remixes. Era tudo "na goela", gostava de dizer.
Lembro-me de uma inesquecível "rave" na Cidade Ocian onde, pra fazer o efeito de "scratching" (aquele ruído de um disco de vinil sendo rodado pra trás), Slimboy levou 149 fanhos ao palco e pediu que eles falassem todos ao mesmo tempo.
Era igualzinho à uma vitrola desregulada.
Coisa de um verdadeiro "enfant-terrible" da música contemporânea.
Agora imaginem todos esses fanhos acompanhados de uma banda de olodum, 37 berimbaus afinados em ré menor, 14 pandeiristas, 9 rabequeiros de Olinda, uma tuba, duas harpas, o Tom Zé e mais a seção de cordas da Osesp.
Evidente que a galera foi ao delírio. E a organização do evento à falência.
O mais interessante é que, até hoje, ninguém sabe explicar se o som inventado por Slimboy (chamado pela crítica de "drum'no'bass") conquistara mesmo corações e mentes. Ou se o efeito do ácido na platéia deixava qualquer bizarrice genial.
A única certeza é que a "rave" de Cidade Ocian era o início do fim de Slimboy Fat. Nenhum empresário queria mais ver sua gorda cara, mesmo pintada de Louis Armstrong.
A saída foi fazer "pocket-shows" em puteiros e inferninhos periféricos.
Mas ninguém achava a menor graça num cara imitando uma bateria eletrônica com a boca durante 90 minutos.
Hoje Slimboy Fat pode ser encontrado na Galeria Ouro Fino. Na calçada em frente, segurando uma placa de "Compra-se Ouro".
Berra para que os fregueses o procurem. Mas é frontalmente contra o uso de megafone.

Castelo é cronista do Blônicas todos os sábados
Escrito por Blônicas às 11h47
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- Homo Shoppiens

De Henrique Szklo

O futuro do paulistano será viver em Shopping Centers
Quem diz que o futuro da civilização será determinado pela Internet não conhece São Paulo. Aqui as coisas não funcionam como no resto do mundo. Vejo claramente em uma de minhas bolas de cristal – tenho duas – que o futuro da nossa cidade será o shopping center, uma espécie de útero arquitetônico: um lugar confortável, seguro, com clima agradável, onde o paulista encontra tudo o que precisa para se manter vivo. Lá todo mundo finge que ele é a pessoa mais importante do mundo e ele acredita. De fato, ninguém incorporou tanto o espírito de shopping center quanto o morador de São Paulo.

Com a escalada da violência e o crescente descaso das autoridades, os shoppings começarão a crescer vertiginosamente até se tornarem verdadeiras cidades. As pessoas passarão a viver dentro dos shoppings. Autênticas sociedades de consumo. Haverá ruas, avenidas, praças, parques, plantações, criação de animais, indústrias, escolas, escritórios, estádios de futebol, até praia. Voltaremos aos moldes da idade média, onde cada castelo protegia a população de sua região e tinha seu sistema político-administrativo totalmente independente. Os shoppings paulistas serão, portanto, as novas cidades-estado do consumo.

Não será seguro sair desses baluartes do comércio. O lado de fora será terra de ninguém, sem segurança, sem lei, sem ordem e principalmente sem lugar para estacionar.

Os atuais administradores de shopping tomarão o poder como governadores ou imperadores e o clube dos lojistas será uma espécie de senado. As únicas leis que valerão serão as leis de mercado. Mas como o paulista também é brasileiro, algumas delas não vão pegar. Para manter a ordem, os seguranças tomarão a função de polícia. Imprensa? Só para divulgar as promoções do dia.

Como você sabe, não se pode fumar em shopping, portanto o cigarro será proibido nessa nova sociedade. É claro que surgirão rebeldes que pegarão em armas para defender o direito de se matar lentamente, criando uma seita religiosa radical que pregará o direito a fumar até dentro de berçários: serão os filhos da Nicotina, os seguidores do Alcatrão.

Não haverá mais esta profusão de documentos que as pessoas portam hoje. O que identificará o habitante dessas fortalezas do consumo desenfreado serão os cartões de crédito. A certidão de nascimento será substituída por aquela carteirinha que se tira para participar das promoções. Todos os deveres cívicos serão estimulados por promoções: pague os impostos e concorra a uma BMW. Não tome multas de trânsito e concorra a uma passagem para o Shopping Iguatemi. E quem for pego seguidas vezes pedindo desconto será banido desta cidadela das boas compras.

Tudo será comprável ou vendável: produtos, serviços, diplomas, carteira de motorista, votos, dignidade, etc. Bem , alguma coisa teria de continuar igual aos dias de hoje. E atenção, homens, não se preocupem. Sim, vai haver prostíbulos nestes novos templos sagrados do SPC:
– Meu bem, quanto foi?
– Cento e cinqüenta reais.
– Toma. E me dá uma notinha para eu poder participar da promoção? Ah, e não esquece o selinho do estacionamento, por favor.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas e quer morar na Daslu. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h35
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- A velocidade do caos

De Leo Jaime.

 

Os dias fogem como cavalos selvagens descendo a colina. Os seguem, frenéticos, e a vida vai ficando cada vez melhor a medida em que os anos vão durando cada vez menos. Parece anacrônico o que digo, talvez seja. Quando era criança um ano demorava uns quatro anos pra passar. Dos dezesseis aos dezoito, a fase mais lenta, experimentei a sensação de duas décadas. Era doido pra ser maior de idade. A ilusão onipotente da independência.

 

Hoje os anos passam em meses e os dias em minutos. Seleciono, claro! Guardo os melhores momentos e as melhores pessoas. Não há tanta atenção assim para desperdiçar. E vou vendo a velocidade conferindo emoção e síntese. Foco o olhar em algo da paisagem que passa rápida na janela. Assim apreendo o que quero, o que escolho. Sou as escolhas que faço. Sou aquilo em que gasto meu tempo. Somos, em última análise, um tempo. Isto é a vida: um tempo.

 

Penso nisso e começo a avaliar o dia. Viver em São Paulo é uma experiência caótica no sentido contrário da vida. Na contra-mão. Enquanto a vida vai tornando as possibilidades remotas em virtude da velocidade, a maior das cidades vai enlouquecendo lentamente, engarrafando todos as suas possibilidades. Claro que o medo é paralisante e andar lentamente dá a falsa ilusão de segurança. Pois é isso o que ocorre: se quero me sentir em total desalinho e descompasso, é só andar na velocidade permitida. Isso mesmo.

 

Está escrito na placa que dá pra andar a 60  e eu vou a 60. Parece que eu sou um maluco querendo provar alguma coisa ou arriscando a vida a esmo. Isso porque ando como todos deveriam andar para que a vida não ficasse lenta demais. Para não criar engarrafamentos enormes e desnecessários.

 

Fico imaginando o que leva toda uma população a andar devagar ou mais devagar do que o que é sugerido como seguro. O medo é a primeira mas não a única alternativa. Talvez haja o desejo de não passar rápido como a paisagem na janela da vida. De não ser, aos olhos dos outros, um vulto. Talvez seja o desejo secreto do desfile. Algo escondido na alma que sugere uma parada, uma procissão, um escoar suave e inexorável rumo a objetivos imprecisos. Como a vida. Talvez seja o ritmo que se queira para a vida. Para que se possa apreender mais, observar mais, aproveitar mais. De dentro do carro? A minha vida não é uma highway. Auto-estrada cabe melhor na frase.

 

Ou então é outra coisa: cidade grande demais é um saco.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas toda quinta-feira.

Escrito por Blônicas às 11h49
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- Você teria um minutinho?

De Rosana Hermann.

 

No dia 30 de junho abri mão de minha posição como sócia diretora de uma promissora agência de comunicação para me lançar aos ventos incertos de uma vida de freelancer sem rendimento certo. O lugar era ótimo, os sócios são meus amigos, o trabalho era adorável. Mas eu sentia duas coisas horríveis dentro de mim: uma vontade imensa de ser dona do meu tempo e a sensação de culpa de não estar ali de forma integral. Toda vez que eu tirava os sapatos e apoiava os pés sobre a torre do computador embaixo da mesa, eu tinha a impressão de que tinha me acomodado na segurança de um salário ao final do mês em troca da liberdade de ir e vir a qualquer momento. E me sentia culpada por tudo. Culpada por chegar mais tarde, por perder a hora procurando uma roupa para vestir, culpada por blogar durante o horário de trabalho. E infeliz, por não entender a lógica de não poder ficar em casa escrevendo e passar o texto pela rede. Como resultado de todos esses conflitos e compromissos eu não tinha mais tempo. Tempo pra nada. Vivia com pressa. Dirigia com pressa, falava depressa, me relacionava com as pessoas a mil por hora. Uma loucura. Quando eu chegava em casa, tinha tempo, mas a velocidade tinha tomado conta de mim e aí, eu não conseguia me concentrar e relaxar.

 

Um dia, logo depois que vi uns OVNIS no céu de Águas de São Pedro, tomei a decisão de mudar minha vida. Aproveitei a data simbólica da metade do ano para começar a segunda metade da minha vida, supondo-se que o destino me conceda a graça de viver 94 anos. Além disso, eu tinha uma viagem marcada para o mês de julho, no meu aniversário. Juntando tudo, pedi uma reunião e comuniquei aos sócios a mudança. Viajei, voltei, fui ver a agência. Minha sala virou uma sala de reunião. Ainda não peguei minhas caixas com minhas coisas e tenho que pegar os 3 quadros da parede, presente de dia das mães.

 

Mas o que mais mudou foi minha relação com o tempo. Tenho compromissos mas não tenho pressa. Posso conversar com as pessoas e ouvi-las. Posso ser gentil novamente. Posso prestar atenção nos detalhes. Saio bem antes de casa e chego sempre antes dos horários marcados. Organizei minha agenda. Fiz uma lista de tarefas. Tenho ligado mais para as pessoas. Estou mais calma e vejo as coisas com mais clareza. Estou feliz, segura, tenho tido vontade de sorrir mais vezes em qualquer circunstância. Respiro mais fundo e o oxigênio que entra em maior quantidade parece renovar minhas idéias.

 

Hoje, eu tenho um minutinho até para dispensar uma ligação de telemarketing ativo sem ofender a pessoa que está lá trabalhando. Resolvo um problema de cada vez e não me estresso com os problemas que não consigo solucionar. Meu marido disse que eu estou ótima. Meus filhos estão adorando me encontrar em casa e contar comigo para resolver coisas pequenas do dia-a-dia.

 

Sinto uma pequena insegurança em relação ao final do mês, sem salário certo, mas estou mais econômica, trocando ligações no celular pelo telefone fixo, economizando energia elétrica, pechinchando na feira, cuidando melhor das despesas.

 

Agora que eu tenho mais tempo, percebo que a pressa é um vício mortal. A pressa acelera o envelhecimento e embrutece o espírito. A pressa desfoca a beleza, desvirtua o som, deturpa a percepção. As melhores coisas da vida, como o amor, o carinho, o prazer dos sabores, exige tempo e concentração, coisas que a pressa nos rouba. Agora que eu tenho mais tempo, posso afirmar sem medo de errar na conclusão neste mundo imperfeito: a pressa é inimiga do coração.

 

Respire fundo e, se puder, desacelere um pouco o seu dia. Desacelere um pouco sua mente. Desacelere um pouco sua alma. E, se o mundo permitir, recomece seu dia, com calma.

 

Um beijo longo, um lento browse, e um calmo aperto de mouse da Rosana Hermann, cronista do Blônicas todas as quartas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h27
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- A era dAs cafajestes

De Nelson Botter.

Estaria eu deveras equivocado ou com o juízo avariado? Ao longo dos meus 80 anos, que completo hoje, não me recordo de um momento mais oportuno para afirmar que estamos na "era dAs cafajestes". Sim, eu as vejo em todos os lugares, cantos, olhares. São sedução e perdição. Predadoras vorazes, querem sem razão colocar a mulher de outros tempos em extinção. Talvez estejam cansadas de serem devoradas, talvez não queiram mais ser caçadas, não sei dizer, vai saber... Isso também não importa muito, afinal, o que conta é a fome que essas caçadoras têm. E até passo mal, pois na minha época não tinha nada igual. Eram recatadas, distintas, se davam ao respeito. Não usavam saia curta, nem se fosse puta... Perdão, veio de supetão.

Para você ter uma idéia, as poucas que se deixavam ser tocadas por um membro sexual masculino só permitiam que se fizesse o serviço nas coxas. Orifícios nem pensar! Agora, as que se dizem moderninhas, querem mais é trepar. Perdão, fazer sexo sem emoção. Deixam de lado o afeto, só querem tesão. Elas se entregam ao sexo barato - depravação - e reprimem o amor incontido, pensando só na libido. Um horror, meu senhor! Se deixam guiar pela fome perturbadora e não mais pela razão castradora. São assustadoramente terríveis e insensíveis.

O homem virou troféu, dos menos valiosos é verdade. Tudo que elas querem é desfrutar da vitória de tê-lo em mãos durante algumas horas ou - até mesmo - alguns míseros minutos. "We are the champions" já dizia o Fredão com aquele bigodão. Depois de saciada a incontrolável sede de volúpia, nada mais querem com o pobre macho, é o que acho. Viram sucata, matéria-prima barata. Só não fazem como a Viúva Negra, que devora o parceiro sem lamento após o acasalamento, porque isso dá cadeia. Mas a vontade incendeia, direto na veia, e elas devem sentir uma necessidade do cão de pegar o rapaz e passar-lhe o facão! Deixá-lo sem mais utilidade, mergulhá-lo de vez na imbecilidade.

Telefonar no dia seguinte é puro requinte. Se atenderem, dizem que é engano, não te conheço fulano, aqui não tem ninguém com esse nome e vê se some! Flores, chocolates, cartões nada mais são do que coleção. Ficam num canto, numa gaveta qualquer, essa é a nova mulher. Só o chocolate é que fazem questão de usar, ou melhor, de comer, pois sem isso podem morrer.

Li uma pesquisa: 50% das mulheres procuram sexo ocasional na noite. "Oi bonitão, que sagatiba, hein!". Isso em outros tempos seria uma estatística inimaginável e deplorável. Hoje não, tais números são vistos com a mais perfeita naturalidade e cumplicidade. Ainda bem que já tenho 80 e não vou ver muito mais do que esse povo inventa. Essas novas mulheres criaram a era dAs cafajestes.

Nas minhas caminhadas matinais (logo cedinho) eu vejo o olhar de vampiro que habita os pequenos olhos femininos. Para mim não, é bem verdade, pois já passei da idade, mas sim para os machos jovens, garanhões cheios de vitalidade. Tudo que elas querem é uma boa dose de estrogênio, na veia de preferência, e depois nunca mais com aquele. Homem-seringa, já foi usado, hora de buscar um novo, esterilizado. Material descartável, sabe como é?

Aprenderam direitinho com os homens. As meninas da era dAs cafajestes são muito sabidas. Fome de loba, nada de boba. Rezo toda noite para que essa coisa passe, que as mulheres parem de querer ser iguais ao homem em tudo: trabalho, direitos, sexo. Onde já se viu, puta que o pariu! Que voltem a ser esposas dedicadas, solícitas e bem quistas. As benditas Amélias, mulheres de verdade cheias de sanidade. Serão como suas mães, voltadas à família, preocupadas com estabilidade, segurança, prosperidade...

EssAs cafajestes me gelam a barriga! Às vezes acho que tem mais que formiga. E não terá fim, pois enquanto uma se regenera assim, vira flor pura, jasmim, mais três ou quatro novas garotas entram no esquema, rosa com espinhos, complicado teorema. Pode apenas ser um mito, como pode ser também algo maldito, mas por certo estamos na era dAs cafajestes, e tenho dito!

E você, de que lado está? Diga lá...

Nelson Botter escreve no Blônicas todas as terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h19
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- Do orgasmo fingido e outras aflições

De Xico Sá.

 

Diante de cartas e mais cartas de leitores, baixou de novo uma Miss Corações Solitários neste escriba que vos sopra o cangote. Miss C.S. é uma cigana da Andaluzia que hoje habita um quintal do Capibaribe e, com a sua poderosa entidade, socorre machos & fêmeas à beira de um ataque de nervos... ou simplesmente portadores do “inapagável” (sic) fogo nas entranhas _como diria aquele menino Pedro Almodóvar. Às missivas, pois, aqui histericamente resumidas:

 

Querida Miss C.S., o fingimento do orgasmo também pode ser uma prova de amor? (Sonsa de Quipapá, PE)

 

Resposta: Estimada consulente, é preferível a dramaturgia do gozo àquela velha dor de cabeça que te abate justamente na hora em que ele te procura. Há um quê de distanciamento brechtiano no orgasmo fingido. O prazer fingido engrandece o homem, além de ser mais verossímil do aquele espetáculo verdadeiro e exagerado, cheio de caras, bocas e nove-horas. Sim, é prova de amor e caridade cristã. Prossiga. Cariño, M.C.S.

 

Gloriosa Miss C.S., o cachorro que arrumei é um “borratcho”, bebe sempre demais e não funciona quando mais careço. Que fazer? (Vampira de Curitiba)

 

Resposta: Muita calma nessa hora, criatura. Trata-se do famoso tipo homem-tupperware, aquele que você guarda para comer no dia seguinte. Sorte, M.C.S.

 

Bem-aventurada Miss C.S., ele não me procura mais, o que fazer? (Desvalida do meio do mundo)

 

Resposta – Pobre alma em desassossego, nada de apelar para cursos de streptease ou aquelas mil e uma novas posições estranhas que você leu na revista “Nova”. Uma amiga minha, por exemplo, tentou uma daquelas posições inovadoras e acabou com o marido num hospital de fraturas _e de madrugada, o que é pior. Só te resta, pobre alma, seguir o conselho do mago Paulo Coelho: senta-te à margem do Rio Piedra e chora. Tuas lágrimas irrigarão teu caminho e da terra brotarão novos caules. E tem mais: larga esse infeliz que não serve nem mesmo para trocar lâmpadas e abrir potinhos de conservas. Coragem, tua M.C.S.

 

Poderosa Miss C.S., fui vergonhosamente traído por minha mulher, tipo flagrante delito, o que fazer? (Devoto da Gaia Ciência)

 

Resposta: Amigo incoformado, deixo aqui, como filosofia de consolação, a sabedoria de um pára-choque que acaba de me abalroar: “Chifre foi feito pra homem, boi usa de enxerido”.  Sem mais, M.C.S.

 

Escreva você também para Miss C.S.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h35
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