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- Em defesa do coçaholic

De Henrique Szklo

Está na hora de fazer alguma coisa pelos que não querem fazer nada
 
Detesto trabalhar. Acho desnecessário, degradante e abominável. Um castigo divino que se abateu sobre minha cabeça. Não devo ter sido um bom menino em vidas passadas. E, como punição (veja só a tragédia pessoal) fui condenado a passar toda a minha vida adulta trabalhando para me sustentar. É triste mas não precisa chorar. Não quero sua compaixão. Sou adulto e sei muito bem o que devo fazer: nada, claro. Sou um coçaholic convicto.

Mas conheço muita gente que tem a péssima, a ultrajante mania de trabalhar obsessivamente. Me irrita de um jeito! É uma compulsão que não é sadia. Uma doença que só se cura com repouso absoluto. Gostar de trabalhar? Tenha a santa paciência. Esses indivíduos pervertidos apresentam claros sinais de insanidade. Sociopatas que além de se matar de trabalhar, ainda conseguem arranjar um tempinho para patrulhar quem não fez nada para eles. Para esses intolerantes xiitas do labor, fazer nada é crime. É por isso que o coçaholic jamais assume sua condição. Nunca sai do armário funcional com medo de não ser compreendido, de ser hostilizado, agredido. Pior: tem medo de ser descoberto e ter de finalmente trabalhar de verdade. Bate na madeira! Mas não precisa ser agora. Mais tarde.

Onde está o direito à escolha? À democracia? E curioso: o coçaholic nem minoria é. Uma imensa horda silenciosa cujo único desejo é poder viver com dignidade e conforto sem precisar pegar no batente. Será que é pedir muito?

Se você acha que nunca viu um coçaholic é porque talvez esteja trabalhando demais. Bem-feito, quem mandou? Somos muito discretos, silenciosos e inativos. Somos a favor da livre-iniciativa, mas preferimos mesmo a não-iniciativa. Tomamos 350 cafezinhos por dia e lemos todos os jornais logo que chegamos ao escritório. Por isso o coçaholic é sempre muito bem-informado. Afinal, temos que ter assunto para nossas conversas intermináveis.

Nosso maior aliado é o computador, que nos oferece nossa mais importante ferramenta de trabalho: o jogo de paciência virtual. O coçaholic joga paciência o dia inteiro e aos olhos dos outros e principalmente do chefe ainda fica com fama de que trabalha muito. Chega mais cedo que todo mundo e vai embora mais tarde. Só pra jogar paciência. Agora então que existem alguns jogos que se disputam pela internet, a legião de coçaholics está muito mais unida, interligada, com know-how, talento e expertise, preparada para os cada vez maiores desafios dos jogos virtuais. A internet, aliás, é outra excelente ferramenta. Simulando pesquisas profissionais, podemos ficar o dia inteiro em salas de bate-papo ou sites de sexo. Todo coçaholic, por definição, adora ficar na rede. Falar ao telefone também é uma atividade fundamental na vida do coçaholic. Horas, horas e horas discutindo importantes, complexos e estratégicos assuntos de cunho pessoal com amigos que torcem sinceramente para que dê tudo certo. Como é importante a força dos amigos nesses momentos.

Conclamo, portanto, a todos os que têm aversão à labuta para lutar juntos pelos nossos direitos. Se bem que lutar pelos direitos dá uma preguiça danada. Vamos fazer o seguinte: vocês vão na frente que eu vou logo em seguida. Já, já.

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e por isso está muito cansado. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h48
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De Leo Jaime.

 

  algo de errado com o espelho? Cirurgias plásticas nao são baratas ou indolores mas se tornaram uma mania nacional. Somos o segundo país no mundo em cirurgias estéticas embora nao sejamos nem ricos e, ao meu gosto, monstruosos. O risco e a dor, no entanto, nao parecem frear nosso desejo de ter uma melhor aparência. Melhor comparado com o quê?, resta saber.

Arquitetura da destruição é o nome de um filme realizado por um judeu sueco, se nao me engano, há alguns anos. O filme é, se nao me falha a memória, uma tese de doutorado sobre o nazismo, por isso vale mencionar o fato de ter sido realizada por um de seus perseguidos. Nesta tese, muito bem fundamentada e exposta brilhantemente de forma que qualquer um possa entender (o filme é bastante acessível, longe do que chamam por aí de "filme cabeça"), o autor sustenta que o projeto nazista não era político ou econômico mas, sim,  estético.

Toda a propaganda nazista tinha um apelo e cuidado visual evidentes, a começar pelo seu símbolo principal, a suástica. Fazer o mundo mais bonito, de acordo com seus parâmetros era a meta do Reich. Aquilo que se pode chamar de apolíneo, clássico, de medidas regulares e proporcionais, linhas retas e arquitetura majestosa, isso era o que deveria permanecer. Posters de propaganda nazista exibiam figuras de pintores clássicos em oposição a figuras cubistas ou surrealistas como a sugerir o mundo ideal em detrimento dos horrores propostos pela estética dionisíaca de formas irregulares e caóticas. A matança de milhões era a clara sugestão de quem deveria herdar a terra. Os que nasciam com defeitos, os judeus, os negros, os índios, provavelmente os orientais e árabens. Todos, enfim, que nao fossem arianos deveriam sucumbir. E o mundo belo seria habitado pelos lindos.

Voltamos ao Brasil, coincidentemente um dos pontos prediletos para a fuga e repatriação de derrotados nazistas. E, com essa referência, podemos vislumbrar o que há de errado com nosso espelho. Todas as cirurgias são feitas para que tenhamos medidas e formas arianas. O ideal que nos leva às mesas de cirurgia são, será coincidência mesmo?, a necessidade do nariz fino, do corpo longilíneo, dos traços simétricos e da eliminação paulatina de toda latinidade. Quadris menores, seios maiores, lentes azuis, cabelos louros e lisos, profundamente lisos, irremediavelmente lisos, inegavelmente lisos. E dá-lhe chapinhas e alisamentos e escovas. Sim, cabelo não dá pra mudar com cirurgias.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas e escreve aqui às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h43
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- O poder da musa

De Rosana Hermann.

 

Imagine a cena: um gênio da lâmpada aparece e oferece a você a chance de ter o corpo que você sonhou, de ter a aparência que você queria. Dificilmente uma mulher recusaria a proposta. Talvez, todos os homens também aceitassem. Não só porque a beleza dá auto-confiança mas porque concede um poder quase sobrenatural, comparável apenas aos  super-heróis dos quadrinhos. Pra começar, a beleza encanta.

 

Tenho presenciado este efeito diariamente, com Sabrina Sato na sala de trabalho, na sede da rádio Jovem Pan FM onde o programa Pânico na TV é produzido. Sabrina tem um corpo desenhado a bico de pena, perfeito, do dedão do pé ao cabelo liso, pontos extremos entre os quais todos os olhares masculinos derrapam de desejo e os femininos capotam de inveja. Criticar sua forma física por causa de  em qualquer defeito mínimo é tão tolo quanto reclamar da pizza porque a azeitona tem caroço.

 

Sabrina é realmente linda e expõe sua beleza sem nenhum pudor. As pernas de bailarina, belíssimas, costumam ficar escondidas sob a calça, mas a parte coberta termina por aí. Desafiando o inverno paulista, Sabrina está sempre com blusas decotadas e os seios de fora, em geral sem nada por baixo. Talvez ela tenha um chip com controle remoto pois toda vez que seus faróis se acendem os meninos se iluminam. Mas tudo no maior respeito porque lá, todos são amigos do peito. Ontem, porém, a novidade era mais embaixo.

 

A moda, já sabemos, é manter a barriga sempre de fora, mesmo com bota, casaco e cachecol. O umbigo feminino da geração mais jovem virou uma espécie de semáforo, sempre ligado, sempre à mostra, sob pena de causar um caos no trânsito caso seja coberto. Mas Sabrina vai mais além do umbigo: ou ela está com uma cueca provocante saindo por cima da cintura ou está com uma calcinha recordista do Guinness no quesito miniaturização pulando pra fora da lordose. A física não explica como um microfio azul saltitando para  fora do jeans consegue hipnotizar mais de vinte olhos numa sala, mas as reações fisiológicas são evidentes. As vítimas ficam hipnotizadas, de quadro e, não  raro, babando. Se alguém der o comando, fingem de morto, latem e dão a pata.

 

Muita gente vem só para vê-la, conhecê-la de perto, tirar uma foto, conferir o tom da pele, comparar a proporção real com a imagem da tela. Na rua, quando ela passa, deixa um rastro de admiradores polarizados, pois é este o poder da musa magnética, o de alinhar os spins com seu campo. Felizmente, para todos os outros mortais, esta força cai com o quadrado da distância e depois que ela vai, voltamos ao caos, onde cada um pode ser o que é, onde cada um tem um lugar para ser feliz, onde cada homem e mulher, feio ou bonito, pode exercer sua força vital e atrair para seu mundo os desejos e as paixões.

 

(Ah, sim, antes que eu me esqueça, o anti-vírus contra os invejosos que partem pra ofensa: sapatão é a vovozinha.)

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas todas as quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h06
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- Conversa de botequim

De Nelson Botter.

- E aí, Zé! Que coincidência te encontrar.
- Fala Fred! Quem diria que você também estaria por aqui, rapaz.
- É, eu estava passando aí na frente. Sei lá, estava meio zonzo e resolvi entrar pra tomar um suco. Deve ser pressão baixa. Mas o que te traz aqui, Zé?
- Veja só você, Fred. Eu estava na fila do banco, plantado feito um pé de feijão, quando apareceram uns caras sei lá de onde e começaram a gritar que era um assalto e coisa e tal.
- Não brinca!
- Pois é, coisa desagradável, não?
- O que aconteceu depois?
- Ah, começou uma discussão, o besta do vigia tentou ser o herói do dia e sacou a arma. Foi tiro pra tudo quanto é lado, todo mundo se jogando no chão, uma loucura. Ainda bem que não precisei presenciar muito daquela cena.
- Conseguiu fugir?
- Não, tomei um tiro.
- Tiro?
- É, tiro... Sabe? Revólver, bala, bang... tiro.
- Como assim tiro? Você tá bem?
- Sim, claro. Foi rápido, pegou em cheio, nem senti dor.
- Que isso, Zé? O tiro pegou em você?
- Por que o espanto? Fred, não estou entendendo. Já disse, nem senti dor, foi morte instantânea.
- Ah, cara! Eu aqui preocupado pra cacete e você fazendo piada.
- Piada? - ele estava muito sério.
- Não é uma piada?
- Claro que não, Fred.
- Então, espera aí. Você está querendo me dizer que morreu num assalto de banco?
- É porra! Foi o que eu disse, não?
- Zé... você está morto...?
- O que tem de mais nisso? Normal, normal. Só pra você ter uma idéia, com 16% da população brasileira, o Grande Rio e a Grande São Paulo concentram 42% dos crimes de morte registrados anualmente no Brasil, cerca de 18 mil num total de 43 mil homicídios. Isso quer dizer que as probabilidades de você ser assassinado são bem consideráveis. Normal, normal...
- Então... Zé... você é uma porra de um fantasma? Eu estou aqui conversando com um cara morto?
- Fred... - ele fez uma pausa. - Me diz uma coisa: como é que você veio parar aqui nesse bar?
- Já falei, eu estava na rua, meio zonzo e resolvi entrar pra tomar um suco. Não me lembro muito bem do que aconteceu antes, não sei, estou meio confuso. Acho que eu estava com a Lucinha, sabe?
- Sei, aquela sua amante.
- Isso. Então, estávamos juntos no meu carro. Espera, eu estava de carro, como vim parar aqui a pé...? Eu não consigo me lembrar... Ah, eu estava no carro com ela quando... Caramba, Zé! Eu estava no carro com a Lucinha quando a Marta abriu a porta!
- Sua esposa?
- É, a Marta... E ela tinha um revólver! Não me lembro de muita coisa, apenas de um estrondo e um clarão. Puta que o pariu, Zé. Eu também morri? É isso, estamos ambos mortos?
- Normal, Fred. Só pra você ter uma idéia, 88% dos casos de assassinato registrados envolvem arma de fogo e a cada 25 mortes, 24 são de homens. Isso quer dizer que as probabilidades de você ser assassinado nessas circunstâncias são bem consideráveis.
- Puta merda, Zé. Estamos mortos, porra, mortos!
- Pensei que você já soubesse Fred. Por isso que você se espantou tanto, né? Já vai se acostumando, nego, a coisa por aqui também não é muito fácil. Cada um por si. Mas ainda bem que te encontrei, assim vou te dar umas dicas. Deixa que eu pago a conta.
- Conta?
- É, você não tomou o suco?
- Sim, mas aqui tem dinheiro também?
- Fred, aqui é igualzinho a lá. Cópia fiel, sem tirar nem por. E quer saber? Não dá mole com sua carteira, senão acabam te assaltando.
- Aqui no céu tem assalto? - ele se espantou.
- Fred, que céu porra nenhuma. Acorda, camarada, olha à sua volta. Tudo igualzinho ao mundo que estamos acostumados, né?
- Sim, mas o que isso quer dizer?
- Só pra você ter uma idéia, 99% dos seres humanos infringem pelo menos 3 dos 10 mandamentos. Isso quer dizer que as probabilidades de todos irem para o inferno são bem consideráveis.
- Sério? Putz, se eu soubesse disso teria aprontado mais. Acho que fui meio comportado.
- Ainda está em tempo, Fred. Afinal, o inferno é aqui.

Nelson Botter é cronista do Blônicas e escreve aqui todas as terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h26
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- Hipocrisia desvairada

De Xico Sá.

 

Embora seja uma cidade com uma das noites mais interessantes do mundo, a cidade que nunca dorme, a cidade de todos os povos, São Paulo também cai fácil na tentação do moralismo rasteiro. A mais recente recaída do granizo da hipocrisia desabou sobre a Paulicéia nestes dias frios: os jornais denunciavam a exibição de outdoors de casas noturnas de garotas de programa.

Um fim do mundo, meu Deus. Eta, que novidade! ORA, ORA, ORA, quanta indecência e pouca vergonha!!! Dá-me vinho e exclamações, velho Nelson Rodrigues, que a vida é nada.

Nos seus cartazes, algumas boates, esses velhos parques de diversões de gente grande, tentavam, da maneira mais criativa possível, chamar a atenção dos marmanjos que visitam SP por ocasião do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1. Ora, que mal há nisso?

Por que um anônimo e faminto mecânico da Ferrari, depois do dever cumprido no autódromo de Interlagos, não poderia muito bem sucumbir às tentações da carne, às delícias do sexo? Ainda mais ao final da estafante temporada de corridas. Nem só de gnochi vive uma pobre criatura dessas, senhoras da liga católica de todas as plagas.

O pior é que a prefeitura tucana da cidade caiu no conto moralista. E lá vai a turma do Serra a destruir os cartazes e interditar casas noturnas onde se exerce, dignamente, e com a maior elegância, a mais antiga profissão do mundo.

Motivo alegado: ultraje público ao pudor.

Vossas excelências, quanta hipocrisia. Parece que voltamos aos tempos das Senhoras de Santana. Neste momento a megalópole cosmopolita, o berço da modernidade, não passa de uma Sucupira, com as suas irmãs Cajazeiras, como na ficção televisa de “O Bem Amado”.

Ultraje público ao pudor?

Mal sabem o importante papel social que essas garotas exercem numa cidade estressante e sem atrativos naturais. Deveriam receber medalhas e homenagens pelos serviços prestados à comuna.

Santo Agostinho que o diga. Ele via nas prostitutas as salvadoras de muitos casamentos, o que constituía uma vantagem até para os preceitos mais conservadores da Santa Igreja Católica.

Desde que o mundo é mundo que nós, os machos de todas as naturezas e lugares possíveis, procuramos essas belas moças para momentos de prazer e entretenimento. As velhas casas da luz vermelha são templos sagrados, merecem mais respeito do que a maioria das repartições e igrejas abertas por ai.

Como diria Oswald de Andrade, renomado freqüentador dos lupanares, as trabalhadoras do sexo são verdadeiras agentes de saúde pública.

Enquanto a brigada moralista ataca em São Paulo, o ídolo brega Odair José volta com tudo a fazer sucesso sob a garoa. Aproveito a histeria tucano-cristã para lembrar o trecho de uma das suas mais belas canções, justa homenagem à mais antiga das profissões: “Eu vou tirar você desse lugar/ eu vou levar você pra ficar comigo/e não interessa o que os outros vão falar”.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas e escreve aqui às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h59
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- Tudo mentira
De Milly Lacombe.

José Dirceu, o chefe da quadrilha, tá lá: descalço, descontraído, cara lavada, na capa do jornal. Isso, hoje. Ontem, era o juiz que manipulava resultados dos jogos. Há três dias, outro comprovadamente safado, Severino Magoo Cavalcanti, desfilava sua cara-de-pau pela mídia e invadia o limite de nossa maltratada tolerância, que a cada dia, coitado, é mais espichado. Há uma semana, tudo girava em torno de Maluf, finalmente enquadrado, mas flagrado com damascos e champagne em sua supercela.
Isso tudo se nos concentrarmos apenas nas imagens. Para quem tem estômago, vale ler algumas linhas. Severino, mesmo diante de todas as evidências possíveis, diz que está sendo caluniado. Dirceu, repentinamente humilde e atencioso com a imprensa, que era só caixa 2, nada além disso. E, pela leve escorregada, declara que o partidão tem que pedir desculpas. Afinal, quem não faz caixa 2 que atire a primeira moeda. Tentativa infame e patética de se igualar ao cidadão, e ao crime, comum. Não menciona Celso Daniel, a compra do parlamento, Toninho do PT, suas idas regulares a Cuba, Waldomiro Diniz, Bingos, uso pessoal do patrimônio público ... Apenas o tropeção que, colocado em perspectiva diante de tanta escrotidão, parece, de fato, menor.
O juiz de futebol primeiro conta que manipulou resultados porque sua família estava sendo ameaçada. Bem, mas diante disso, até eu faria o Corinthians perder. Não era, claro, nada disso. Meia hora depois o safado confessa que foi por grana apenas. Dez mil. E você na frente da TV, se esgoelando por seu time sem saber que a partida estava decidida antes de começar. Sua válvula de escape semanal, o pequeno refúgio de suas paixões, rara zona que sobrevivia sem a presença do cinismo nosso de cada dia, jogada no esgoto. Suas ilusões - e Cazuza nunca foi tão atual - todas vendidas.
Você decide sair de casa, ir ao supermercado comprar cerveja, deixar gelar para, mais tarde, ver se consegue escapar de tanta realidade. Na prateleira, dezenas de opções. Olhando mais de perto, todas feitas por um mesmo CGC. Dois, talvez. Você acha que tem escolha, mas a observação mais atenta mostra que não é bem assim. O mesmo vale para pães, produtos de limpeza, enlatados ... aparentemente, você, o consumidor, pode escolher entre dezenas de produtos, ver o que melhor convém, tirar proveito da concorrência. Engano. Não há concorrência. Há meia dúzia de homens nos observando e manipulando. Estamos em 1984, enfim. Até a cadeia de supermecado em que você agora se encontra pertence a um mesmo felizardo. Muda o nome, a cor, a frequência, a fachada, mas não o destino da grana.
O que resta? Talvez o mais importante. Só nos resta, com o perdão do lugar-comum, amar. Só isso importa, só isso parece ser verdadeiro, só isso não foi contaminado pelo cinismo, pela fraqueza, pelo ego, pela vaidade, pela força suja da grana.
E, ainda assim, insistimos em não nos amar. Insistimos em sonegar sentimentos, em não dizer o que sentimos, em não nos entregar, em não fazer mais amor, em não passar mais tempo na cama. Uma perda de tempo viver assim. Porque o resto, todo ele, olhem em volta, é mentira.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 22h09
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- O Apolo de fim-de-semana
De Castelo.

Sempre fui um cara influenciável.
Especialmente quando as premissas pra me convencer são claras e diretas.
Por exemplo: duas aspirinas curam sua dor de cabeça na hora.
Viro fã de aspirina no ato.
Foi essa propensão que me induziu recentemente a fazer uma seqüência de absurdos numa loja de departamentos recém-inaugurada.
Entrei na espécie de megamercado de artigos esportivos num sábado à tarde.
A premissa clara e direta ali era: “pegue umas sacolas, encha com esses maravilhosos artefatos e vá para o parque amanhã como um atleta profissional– e em cinco vezes sem juros”.
Bateu forte em mim.
(Não sou um consumista de manual, pelo contrário. Mas, certa vez, li “em cinco vezes sem juros” e comprei uma casinha de cachorro sem ter cachorro em casa…).
A bem da verdade, é preciso que se diga uma coisa. Além de ter ultrapassado a barreira dos 40 há tempos, estou seis quilos acima do peso, fumo tabaco ocasionalmente e meus triglicérides estão mais descontrolados que os advogados de Maluf.
Mas o apelo era forte e não houve jeito: segundos depois de adentrar no templo ao desporto mundial, me metamorfoseei num Apolo do materialismo.
Comecei a encher carrinhos com tênis, calções, casaquinhos de Gore-Tex pra triathlon, caixas de barras de cereal. Pedi até pra reservarem uma mesa de ping-pong tamanho oficial.
Detalhe: nunca pratiquei triathlon, não jogo ping-pong e não faço a mínima idéia do que seja Gore-Tex.
Como eu, dezenas de grisalhos/carequinhas/barrigudinhos faziam o mesmo papel.
Havia até uma certa excitação no ar (“Quarentão sedentário? Alguém aqui viu um quarentão sedentário?”).
Continuei alimentando meu sonho de correr a maratona de Paris com pulsação de 142 bpm por um bom tempo.
Até que fui ao provador.
Ao vestir a primeira calça de jogging, reparei desolado que minha numeração era desconhecida na loja.
Para completar, o atendente foi de uma crueldade atroz. Era preciso uns três X antes do G pra eu sair dali vestido num pano de neoprene, disse ele arrumando os cabides.
Suspirei, devolvi a montanha de compras e voltei pra casa. Não sem antes tomar uma cerveja, que ninguém é iron man.

Castelo é cronista do Blônicas aos sábados.
Escrito por Blônicas às 11h28
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- É muito chato ser chato

De Henrique Szklo

Estou transtornado. Acabado. Destruído. De repente me dei conta de que sou chato. Um mala. Sem alças e sem rodinhas. E, a menos que eu esteja enganado, esse é um dos piores defeitos que pode atingir um ser humano. Acho até que é pior ser chato que ser desonesto, que ser mentiroso, que ser serial killer. Meu Deus, neste momento o que eu mais queria era ser um serial killer. É condenável, mas ninguém fica apontando para você na rua e rindo debochadamente. Ninguém fica fazendo piadinha nas suas costas e ironizando seu comportamento.

Até porque se fizer isso pode ser o próximo da lista de assassinatos. De qualquer maneira a minha situação é patética. Calamitosa. Não existe remédio, não há cura para a chatice. Não existe ex-chato. Você nasce para aquilo. Cada um nasce para alguma coisa e o chato nasce para encher a paciência dos outros e vai assim até o fim da vida. Eu sei porque todos os chatos que eu conheço são chatos desde que os conheço. E parece que o tempo vai passando e vai ficando pior. Mais chato, mais chato. Quando você acha que o cara não poderia ser mais chato ele inventa uma chatice nova que te surpreende. E te enche o saco, claro. Aliás o chato é sempre um sujeito muito criativo. Está sempre inventando alguma coisa para atormentar os outros. E, via de regra, atinge plenamente este objetivo.

Só para conferir: este texto está chato? Está incomodando? Poderia ser diferente, mais divertido, mais leve? Qualquer coisa, me avise, tá? Eu não quero ser inconveniente, aborrecido, cacete, inoportuno, monótono, enfadonho, maçante, incômodo, desagradável, cansativo, tedioso, pentelho. Aliás, não tem coisa mais chata do que chato que não quer ser chato. Chato arrependido. Chato politicamente correto. O famoso falso chato.

Hoje, subitamente, me dei conta do porquê de ter uma vida assim, solitária, do porquê de não ter tido uma carreira profissional compensadora e vitoriosa. Eureka! Era isso o tempo todo e não sabia. Chatice é que nem mau hálito. Afasta as pessoas, mas ninguém tem coragem de alertar o sujeito. Até porque, provavelmente se o fizer, ele não vai gostar. Vai se sentir ofendido e injustiçado. E, claro, vai ficar enchendo o seu saco pro resto da vida. Eu sempre achei que minha diferença com o mercado era porque eu sempre fui considerado um cara “difícil”. Puta merda, difícil é uma maravilha. Acontece que esse “difícil” estava só na minha cabeça. Os caras sempre falaram que eu era chato mesmo.

Tem certeza de que não estou sendo chato? Pode falar, eu já não tenho mais nada a perder. Fica a vontade, hein!

Até meus amigos me acham chato, o que lhes confere um grau de paciência e desapego extraordinários. São pessoas especiais, que abrem mão de seu conforto para trocar alguns momentos de sua vida com um cara que é chato. Não é má pessoa, mas é chato demais. E isso é um problema muito sério. Aliás, a dor de se descobrir chato é profunda e lancinante. Mas você não pode procurar ninguém para desabafar, já que vai encher o saco da pobre alma que lhe oferecer o ombro. E os amigos já não agüentam mais. É melhor não forçar a barra.

Outra condição que acentua a minha chatice é o meu perfil independente. Mais chato que um chato normal é um chato metido a independente. Não está nem aí com os outros, não tenta se enturmar e não pede favores. Mas, de alguma forma, mesmo assim, consegue ser chato. É um talento nato. A chatice está no DNA. Uma vez escrevi um dicionário eufemístico que dizia que chato é um indivíduo cuja presença provoca ausência. Achei que estava dando um parecer divertidíssimo sobre um assunto distante. Mas hoje eu sei que sou este indivíduo. E, de repente, não acho mais a menor graça nesta frase.

Mais chato que um chato chato é um chato que não quer ser chato. E fica mais chato ainda. Mas no meu caso é diferente. Olha, gente, não me levem a mal, eu posso explicar. Eu não quero ficar aqui me defendendo ou justificando demais o fato de ser chato, mas vocês precisam acreditar que eu não quero ser chato. Sou assim por algum problema psicológico que foge à minha compreensão e que, portanto, escapa à minha capacidade de resolvê-lo. Juro que eu não quero ser chato. Não é minha intenção. Eu mesmo detesto gente chata, quero distância e sempre que posso, meto o pau neste bando de malas sem alça que não sabe se comportar em público. Mas eu sou diferente. Eu sou legal. Eu acho que eu posso mudar. Eu acredito que existe vida após a chatice. É tudo uma questão de treino, de prática. O problema é que o chato nunca sabe quando está sendo chato. Não existe um alarme que toca quando a chatice começa. Não tem um aparelhinho que dê um choque conforme o cara vai enchendo os outros. Conforme o grau de chatice, aumente ou diminua a intensidade do choque. Mas eu acho que não seria capaz de usar uma geringonça destas. Teria medo de morrer eletrocutado na primeira esquina. E ainda fazer uma piada antes de dar o suspiro final. Porque também tem essa: a grande maioria dos chatos é metida a fazer graça de tudo. Não pode acontecer nada que ele já tem uma piadinha na ponta da língua, cara chato. Chatonildo. Chato de galochas. Vai ser chato assim na puta que o pariu.

Só mais uma coisinha: esse trauma está acabando comigo. O mala comum, vocacional, não sabe que é mala. Pelo contrário, se acha um sujeito 100%. Os outros é que são chatos. E a pior coisa que pode acontecer com o chato é tomar consciência de sua chatice. Eu descobri que vivia num mundo de ilusões, de mentirinha. Um verdadeiro Chatrix. Eu achava que era um cara legal e que o fato de ninguém nunca me convidar para nada era apenas porque eu me faço de difícil. Mas, lamentavelmente, isso me bastava e eu era feliz assim. Agora que sei toda a verdade, não vejo caminhos, não tenho alternativas. Estou num beco sem saída. Sou chato e não há o que fazer. Sou um penta-positivo em avançado estágio de aborrecimento. Sou chato e estou com medo até de sair de casa. Tenho medo de ser chato com o porteiro do meu prédio e com o chapeiro da padaria. Tenho medo de ser chato com o frentista do posto. Tenho medo de ser chato com qualquer pessoa que cruze o meu caminho. E agora? Se você tem uma solução para me dar, me mande um e-mail. Quem sabe você tem uma resposta? Eu não quero ser chato! Eu não quero ser chato! Prefiro a morte! Chato suicida também é dose, né? Que saco! Por favor me ajude, me ajude. Mas só se não for encher muito o seu saco.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas e é chatiiiiinho... Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 12h02
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- O problema de nascer pobre

De Rosana Hermann.

 

Venho de uma família que classifico como classe pobre alta, para evitar a overdose de mediocridade do termo classe média-média ou o termo quase ofensivo que encerra o termo classe média baixa. Em termos práticos isso significa, em escala macro, dormir com todos os irmãos num mesmo quarto, ter um único banheiro na casa inteira, só tomar guaraná em festa de aniversário e sair uma vez por ano para comprar sapato novo, caso não tenha sobrado nenhum sapato das primas naquela safra para você herdar. No universo micro, os sintomas clássicos de pobreza são aqueles criados por meu amigo humorista Oscar Pardini, como esquentar a ponta da caneta bic pra que ela volte a funcionar, costurar buraco na meia, lamber a tampa do requeijão e colar os óculos quebrados com durex.

 

Apesar das vantagens inenarráveis que este tipo de criação nos traz, como a vontade de subir na vida, o desenvolvimento da criatividade para inventar o que não se tem e aprender a rir da própria desgraça, as seqüelas que a privação de conforto, infra-estrutura e acesso à cultura e saúde nos trazem são eternas, começando com a dentição. Pessoas que tiveram uma infância como a minha sabem muito bem que dentista era sinônimo de Tiradentes, porque a opção mais fácil, rápida e barata para qualquer problema dentário era, literalmente, a de extrair o mal pela raiz. A perda dos dentes acontecia também porque a escova era um bem eterno, uma pra cada vida; a água não tinha flúor, a pasta era vagabunda e fio dental não fazia parte da cesta básica de sobrevivência. As privações cosméticas eram totais. Desodorante, só depois da puberdade, quando os hormônios assim o exigissem. Shampoo era só de ovo, 1010 da Bozzano e condicionador era chamado de creme rinse. Quando tinha.

 

Em geral, como diz minha amiga Yara Grottera, evidencia-se um adulto que foi pobre facilmente: é aquele executivo que não fala inglês, não sabe nadar. Por acaso falo inglês e nado bem, mas por nunca ter tido uma bicicleta sou péssima nos pedais. Sem contar que pobre só toca música de for de ouvido. Mas é a falta de acesso à cultura que mais se evidencia na vida adulta de quem se insere no mercado de trabalho. A falta de intimidade com facas para peixe, o total desconhecimento da existência de um talher para comer escargot, a surpresa ao saber que existe um copo para cada bebida, são apenas alguns exemplos gastronômicos.  Os aspectos que mais me fazem falta são os culturais. Não ter tido livros na infância, não ter ido ao cinema na puberdade, não ter lido os clássicos na adolescência, não ter viajado na fase de jovem adulta, deixam lacunas imensas na alma de quem tem sede de conhecimento. Ainda hoje, para fazer uma analogia com o mundo da informática, vejo-me em situações em que a vida me oferece um arquivo mas eu não tenho o aplicativo correspondente para poder abrí-lo. Não basta ter dinheiro para comprar os esquis, tem que saber esquiar. Tem que ter visto neve. Tem que não ter medo de avião.

 

Claro que é pior ficar pobre por toda vida, claro que a miséria verdadeira não é esta que descrevo, claro que do pó nascemos, ao pó voltaremos e desta vida não vamos levar nada. No final, não vai fazer diferença. Mas estamos no durante. E aqui, é fácil ver que o caminho de quem começa parece ter menos pedras e mais sombras para descansar. Claro que hoje choro de barriga cheia. É que de tanto fazer esforço, a gente acaba conseguindo uma graninha extra para pagar a ginástica e tentar esvaziá-la.

 

Bom dia. Válido para qualquer ocasião. E classe sócio-econômico-cultural.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.
Escrito por Blônicas às 12h09
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- O gato na ponte

De Nelson Botter.

 

- Ei, moleque, o que tem aí nesse saco?

- Nada.

- Como nada? To vendo alguma coisa se mexendo aí. Tem algum bicho aí dentro?

- Tem.

- O quê?

- Um maldito gato.

- Por que maldito?

- Sei lá. Minha mãe sempre disse que gatos são traiçoeiros.

- Que bobagem moleque... aliás, o que um menino do seu tamanho faz com um gato dentro de um saco em cima de uma ponte? Não creio que você vai atirar o bicho daqui de cima.

- Vou, qual o problema?

- Qual o problema? Menino, que crueldade você querer atirar o gato daqui!

- Ah, tio...

- Que tio o cacete! Não tenho idade pra ser seu tio... e me dá esse saco aí.

- Mas aí o gato vai fugir.

- Essa é a idéia. Pra que judiar do pobre bicho?

- Já expliquei. Minha mãe disse que gato é traiçoeiro.

- Ah, moleque. Esse foi o segundo erro da sua mãe. O primeiro foi te parir.

- O que é parir?

- Ah, me dá essa merda!

O homem puxou o saco com força, arrancando-o das mãos do menino. O gato pulou para fora num salto performático. Arisco com toda aquela situação, o gato saltou em direção ao homem, cravando suas unhas no peito dele e mordendo-o no queixo com muita força.

- Gato filho da puta! - gritou o homem.

- Tá vendo, eu avisei.

O homem, num surto de raiva, puxou o gato pelo rabo, girou-o no ar e lançou-o ponte abaixo. Pôde-se ouvir o grito do bichano em plena queda livre e depois o barulho dos ossos se quebrando no choque com a água.

- Nossa, o gato tá boiando! Deve ter morrido... Que legal, tio!

- Tio o cacete! E que se dane esse gato idiota! Não pára de sair sangue do meu queixo!

- E agora quem é o cruel da história, tio?

- O gato...

- Ah, tá. Achei que jogar o gato da ponte era crueldade.

- Mas no meu caso é diferente! Ele me atacou primeiro.

- E daí?

- Oras... e daí que eu me defendi. Vai saber o que essa gato poderia fazer com a gente... Esse puto desse gato é mais malvado que nós dois juntos!

O menino olhou para o homem, olhou para o corpo do gato boiando no rio, olhou de novo para o homem e concluiu:

- Mais malvado que nós dois juntos? Nem ferrando,tio! Atirar a gente da ponte ele não ia.

 

Nelson Botter escreve no Blônicas às terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 17h07
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- Um feirante é tudo na vida de uma mulher

De Xico Sá.

Nada melhor que uma mulher que acabou de chegar da feira.
Sacola na mão, fome de viver, sorriso de princesa.
Os vendedores de frutas, peixes e verduras são mestres na arte de reconhecer talentos e animar as moças com os seus adjetivos. Adjetivos às pencas, elogios às dúzias, mimos, dizeres, samba exaltação, graças.
Meia hora de uma mulher na feira vale mais do que um mês de análise, do que a onda de orientalismos tantos do mercado, do que a yoga, do que o mestre japonês das agulhas, do que uma banheira de sais...
Nem mesmo quando as mulheres estão acompanhadas, os feirantes dão sossego. Esperam você, jovem mancebo, se distanciar um pouco, dois, três passos, e tome gracejos e flertes na baciada.
''Olha a manga, gostosa!'', bradam, administrando com malícia a vírgula e o duplo sentido na ponta da língua.
"Ovo e uva boa!", arriscam para as elegantes damas de preto.
"Essa é modelo!", capricham para as gazelas saltitantes.
''Se eu fosse um peixe, eu seria um namorado!".
É a boa guerra dos mascates. Eles vão no ponto, exatos como neurocirurgiões do desejo. Sabem de longe, por exemplo, quando uma mulher tem alguma ''encanação'' com a idade. Em um segundo, sapecam um tratamento carinhoso:  ''Pra mulher nova, bonita e carinhosa, eu não vendo... eu dou!" E mais: "Só vendo pra menores de 18 acompanhada pelos pais".
Em dias de chuva, mandam ver de acordo com o meteorologista: ''Essa é enxuta até debaixo d'água'', alardeiam.
Um bom feirante reduz até os efeitos de uma TPM, de uma dívida nunca paga, de uma culpa que corrói o juízo, de um regime ainda sem resultados _elas ainda não sabem que uma polegada a mais, uma a menos, pouco importa para quem tem gosto de fato por mulher.
Nada como incentivar o caminho da feira mais próxima da sua casa para as mulheres.
No Ceagesp, então, os adjetivos saem a grosso e a varejo, na bacia ou nos caixotes.
Os feirantes não mentem jamais. Eles sabem, mais do que ninguém, que em toda mulher, seja quem for, existe um traço ou um aspecto de beleza.
Afinal de contas, mulher é metonímia, parte pelo todo, você passa a apreciá-la por uma boca, um pé, uma orelha, uma mão, uma omoplata, um belo ilíaco ressaltado, uma saboneteira, uma marca sulcada de vacina, um corte no joelhinho esquerdo, uma cicatriz de artes de infância, uma bela bunda faceira, uma falsa magra, um umbiguinho do mundo, aquele tom cinza dos cotovelos da espera...
Na passarela dos feirantes, a insegurança feminina, mesmo naqueles dias em que o cabelo acorda brigando com as leis do cosmo, dissolve-se em segundos, num suspiro, na velocidade de um pastel com caldo-de-cana.

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h05
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- Maria João
De Milly Lacombe.

Meu nome é Maria João. Maria João Garcia dos Anjos. Eu trabalho na carceragem da polícia federal, na Lapa. Trabalho aqui há mais de vinte anos. No caso, 24. Comecei quando eu tinha 20. Não é que eu ache esse emprego ruim. Não acho não. Eles me pagam em dia. São dois salários mínimos. Dá pra eu comprar comida pra mim, para o Clécio, meu filho, e para o Bião, nosso cachorrinho que a gente achou na estrada perto de casa. Tadinho, tinha sido atropelado. A gente cuidou, ele manca de uma pata, a de trás. Mas abana o rabo e corre mesmo assim. Se eu pudesse escolher, só gostaria que carceragem ficasse mais perto de casa. Porque para chegar aqui eu tenho que pegar três conduções: dois ônibus e um trem. Então, no caso, eu acordo às quatro todos os dias, menos sábado. Porque no sábado eu não trabalho e fico em casa, vendo televisão com o Clécio, que mês que vem vai fazer 13 anos. E também vou à Igreja dar ao padre um pouco do que eu ganho, porque ele dá o dinheiro para os pobres mais pobres do que eu. Porque tem pobre mais pobre do que eu nesse mundo de Deus. Eu tenho geladeira, televisão, emprego. No caso, tem gente que não tem.
O que eu mais gosto de fazer na vida é cozinhar. Eu cozinho um arroz e feijão que é de fazer chorar. Muito bom mesmo. Também faço rabada, bucho e um bife de fígado temperadinho que fica uma delícia. O Clécio adora. E eu tenho é sorte na vida. Porque meu emprego é justamente esse, cozinhar. Eu cozinho aqui na carceragem para os bandidos que ficam aqui. A Leidinha, minha vizinha, acha que essa gente nem comer deveria. Mas eu acho o contrário. Acho que todo mundo, bom ou ruim, tem direito a uma refeição gostosinha. Então, é isso que eu faço. Eu faço com carinho, como se fosse para o Clécio. E eles, os bandidos, até elogiam. Já até me chamaram lá, para saber quem tinha feito aquela rabada, aquele feijão. E eu, se eles me chamam, vou. E fico feliz.
Mas ontem, no caso, teve um bandido que falou mal da minha comida. Nunca tinha acontecido. Ele é bandido importante, porque o que ele falou veio até repórter aqui saber o que era. E foi para o jornal o que esse bandido disse. Foi para o jornal que minha comida é ruim, que não serve nem para cachorro. Mas, no caso, o Bião adora. Ele come, mais eu e o Clécio, e adora. A comida não é ruim não. No caso, esse bandido aí é que não gostou. Mas você precisa experimentar para ver que ela não é ruim mesmo.
Esse bandido ganha comida de fora para ele. A minha ele não come mais. Isso me deixa chateada, mas eu fui para casa ontem pensando que era só ele que reclamou. Os outros gostam. Teve bandido ontem que me mandou recado de que o tal homem que não gostou não sabe de nada. Ele me disse que a comida tava ótima. Eu acredito nesse bandido aí. Mas, no caso, vou ver se amanhã tempero melhor. Tomara que esse bandido que falou mal da minha comida fique bastante tempo aqui, porque aí ele se acostuma e vai até gostar, vocês vão ver. Vocês vão ver.

Milly Lacombe escreve no Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 13h29
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- Imprima, antes de ler
De Castelo.

Acordei suado mais uma vez aquela manhã.
Há dias sonhava que o mundo era dominado por um gigantesco computador.
E que, os pobres humanos desse mundo completamente virtual, tentavam desligá-lo. Mas em vão: a máquina era tão perfeita que não permitia que a puxassem da tomada.
Corri ao banheiro e enxuguei as faces numa toalha de papel.
Em seguida, fiz minhas costumeiras necessidades matinais, usei do papel higiênico e parti pro banho.
Ao chegar à sala, abri o jornal.
Dei uma sapeada nas manchetes de sempre (“Presidente esqueceu seu papel social”).
Tomei o café da manhã de pé, mania antiga, limpei a boca com um guardanapo de papel e sai (não sem antes pegar meia dúzia de contas em cima da escrivaninha e uma lista de supermercado feita pela empregada numa folha de caderno pautada).
No meio do caminho, parei no posto e mandei encher o tanque de gasolina. Pedi nota.
O frentista me apresentou o papelzinho com a maior presteza.
Ao entrar na avenida que dá em meu escritório, tocou o celular.
Era meu filho.
– Tem um papel aí, pai?
Eu devia anotar o nome do livro que ele precisava pra fazer um trabalho de origami na escola.
Eu já ia desligando, quando o menino falou:
– E, ó, pai, traz umas folhas de papel almaço, tá?
Quando olhei pro canteiro, vi um amarelinho com um papel daqueles de multa canetando minha placa.
Eu já estava com uma caixa cheia dessa papelama em casa por teimar em dirigir falando ao telefone.
Parei o carro, peguei o ticket do estacionamento e entrei no prédio.
A recepcionista disse:
– Deixaram esse papel pro senhor.
Era um corretor da Bolsa que insistia pra que eu investisse em determinados papéis.
Ao entrar minha secretária, esbaforida, mal deixou eu entrar na sala.
– Assine agora esses papéis! Pro boy pegar aqueles outros papéis que o senhor pediu ontem, eu preciso deles agora…
– …
– E olhe, por favor, dê uma lida nos papeizinhos post-it que deixei em sua mesa. Tem reunião daqui a pouco.
Li as mensagens enquanto abria vários envelopes de mala-direta e coligia algumas folhas do balanço de uma empresa concorrente.
Durante a reunião, uma de minhas auxiliares entrou na sala e me deu um recadinho anotado num papel pardo: “preciso sair mais cedo para assinar os papéis dos reclamas do meu casamento”.
Foi um dia cheíssimo.
Voltei às nove da noite pra casa, muito cansado.
Quando ia pegando uma dose de uísque e me sentando em frente à tevê, minha mulher berrou:
– Nã, nã, nã! Antes o senhor vai arrumar os papéis que deixou largados no chão do quarto! E não bota esse copo em cima da mesa, põe um folhinha de papel embaixo senão mancha tudo!
Arrumava placidamente o quarto, quando meu filho perguntou:
– Trouxe as folhas de papel almaço?
O sangue me subiu à cabeça, sai rasgando revistas, livros da biblioteca, listas telefônicas, blocos de anotação, agendas, tudo de papel que encontrava pela frente.
Minha mulher só dizia, num fio de voz, deprimida:
– Que papel, que papel…
Sai andando pela rua, cismático, e acabei dormindo sob uma marquise, numa cama de papelão improvisada.
Desde então, nunca mais sonhei com aquele gigantesco computador.

Castelo é cronista do Blônicas ao sábados.
Escrito por Blônicas às 13h26
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- Não basta ser pai

De Henrique Szklo

Se deus existe, ele está de sacanagem com a gente

Deus não existe. E posso provar. Juro por tudo o que é mais sagrado. Quero que um raio caia na minha cabeça se eu estiver enganado. Durante anos tenho estudado a possibilidade de sua existência e a conclusão a que cheguei é que tudo não passa de uma armação de grandes editoras para vender bíblias. Sem contar com os adereços, roupas e materiais adjacentes. Já imaginou a grana que isso movimenta no mundo inteiro? Meu deus...

E existem várias perguntas que não querem calar. Por que tanta gente acredita em deus, que nunca ninguém viu, e quase ninguém acredita em duendes, que tanta gente já viu, inclusive a Xuxa? Se nós fomos feitos à sua imagem e semelhança porque ele tem tanta vergonha de aparecer? Ele é homem ou mulher? Preto, branco, amarelo ou o que? Por que ele é tão endeusado? E como é que o ovo kinder consegue criar tanto brinquedinho diferente?

Mas não tem jeito, as provas estão todas contra ele. Se deus existisse mesmo o pão jamais cairia com o lado da manteiga para baixo. Se deus existisse computador não dava pau e os homens seriam todos iguais perante a lei. Se deus existisse haveria mais vagas no estacionamento dos shoppings e uma multa por excesso de velocidade não valeria tantos pontos na carteira.

Se deus existisse mesmo eu não estaria na penúria em que estou neste momento. Se deus existisse eu não seria careca nem broxaria com tanta freqüência. Se deus existisse eu seria rico, poderoso e bonito, o Palmeiras não teria caído para a segundona e a Fernanda Lima seria apaixonada por mim. Se deus existisse o peido do meu cachorro não seria tão fedorento. Aliás, na minha opinião, o peido do meu cachorro é a prova definitiva da não existência de deus.

Eu já acreditei em deus. E ele mesmo é testemunha disto. Mas nunca me ajudou. Sempre quando precisei dele, fiquei a ver navios. Quantas e quantas vezes joguei na loteria e pedi que ele me ajudasse? Quantas e quantas vezes cheguei no cinema e a lotação já estava esgotada? Quanto dinheiro já perdi vendendo meus carros por preços abaixo da tabela e comprando outros com preço acima? Ou aquela vez – a pior – que perdi meu bonequinho do Topo Gigio e, a despeito de meus desesperados apelos ao todo-poderoso, não o encontrei? Não, amigos, eu me recuso a acreditar que exista tal figura.

Acho que o que mais me incomoda nisso tudo é a sensação clara de uma overpromise. Talvez ele até exista, mas ficam exagerando demais os seus feitos e qualidades. Fica difícil de acreditar que alguém seja tão perfeito assim. Tão bondoso e justo. Pelo amor de deus, alguma cagadinha ele deve ter feito, deve ter cometido alguma injustiça e certamente tem alguém de quem ele não goste, não é possível. Quem ele pensa que é?

E não adianta ter esperança. Mesmo que numa hipótese remotíssima deus exista, não há a menor possibilidade de ele ser brasileiro, como muitos afirmam. Senão a cotação do dólar não estaria onde está, principalmente agora que eu não tenho nenhum. Os pedágios não estariam tão caros, não teria tanto cocô de cachorro na rua e não passaria novela mexicana na tv. Se deus fosse brasileiro o investidor estrangeiro ia ser meio estúpido e aplicaria todas suas economias em nosso país. Se deus fosse mesmo brasileiro os políticos iriam roubar, mas a gente não ficaria sabendo de nada, a gente teria ganhos as copas de 50, 78, 82 e 98 e o Canadá não ficaria enchendo tanto o nosso saco por causa dos aviões da Embraer. Se deus fosse brasileiro não colocaria a Argentina como nossa vizinha, não deixaria o córrego Aricanduva alagar toda vez que chove nem permitiria que nossa cultura fosse tão influenciada por um país que faz torta e chama de pizza. Se ele for mesmo brasileiro, no mínimo deve ter dupla cidadania.

Se ele existe de verdade é um relapso. Criou o mundo depois largou tudo, nos deixando ao deus-dará, e foi viver em algum planeta paradisíaco. Ou então é tão ambicioso que criou uma quantidade tão grande de mundos que agora não consegue dar conta. Se ele existe mesmo é o cara mais vaselina que existe. Para cada povo ele inventou uma história. Para cada crença ele tem uma cara e um nome diferente. Não quer ficar mal com ninguém, agrada todo mundo. Se deus existe, não é pai nem padrasto. Tem mais um jeitão de sogra mesmo. Deus me livre de um deus assim.

Aqueles que acreditam em deus podem até argumentar: e a Gisele Bundchen, o que eu acho da Gisele Bundchen? E eu responderei com todas as letras: é... pensando bem, Deus existe!

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas, foi pro inferno e abraçou o diabo. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 18h50
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- Os Malufistas do PT

De Edson Aran.

 

Esse negócio de humor não dá pé. Escrevo uns textos bacanas, engraçados, e ganho três posts no máximo, sendo que um deles por engano (“Você é linda, Milly Lacombe!”). Aí escrevo um texto chato e pretensioso sobre o PT (I was a teenage shithead, procura aí nos arquivos) e chovem comentários. Nem sempre favoráveis, verdade, mas isso faz parte. Gozado é que os posts escritos por petistas e/ou simpatizantes me fizeram lembrar os malufistas. Quem mora em São Paulo sabe como é. Você diz: o cara é ladrão, tem conta em paraíso fiscal, a avenida Águas Espraiadas custou mais que a rodovia Bandeirantes! E o malufista responde: ah, todo mundo rouba.

É lamentável assistir aos petistas aderirem à mesma argumentação: todo mundo rouba, todo mundo sempre roubou e – minha favorita – “a corrupção no Brasil existe faz 500 anos”.

Sou mais radical. Acho que a corrupção existe desde que o primeiro hominídeo desceu da árvore. Aí, Gronk, me descola um teco desse dinossauro que eu voto em você pra xamã. Mas o fato de a corrupção ser intrínseca ao ser humano, este animal inviável, não nos dá o direito de aderir a ela. Afinal, ao usarmos a mesma dialética, poderíamos afirmar que todo ser humano é violento, portanto, matar, estuprar e depredar torna-se aceitável. Tem mais: pelo que leio e vejo, a prática corruptora petista é altamente inovadora e supera, em montante e alcance, qualquer falcatrua anterior.

Os malufistas do PT podem sempre argumentar que a mídia é controlada pela “zelite” e que tudo não passa de uma campanha orquestrada para desestabilizar um governo de esquerda. Mas isso também não convence, malufistas. Primeiro, porque o lulismo não é de esquerda: ele é mais subserviente, conservador e ortodoxo que o governo FHC. Segundo, porque a “zelite” é quem vive pedindo calma e evita, sempre que pode, falar em impeachment. Quem pede impeachment é a esquerda – a de verdade, não a massa de manobra do lulismo (UNE, CUT, MST etc).

Não adianta “esconder o sol com a paineira”, feito diria o Silvinho (aquele do Land Rover): o petismo virou uma versão mais moderna do malufismo. Não por acaso, as duas tralhas foram-nos vendidas pelo mesmo publicitário. O problema é que o produto veio bichado e a gente só pode jogar a porcaria no lixo no ano que vem.  

 

Edson Aran é cronista do Blônicas. Visite seu site.  

Escrito por Blônicas às 15h18
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- Ponte aérea

De Leo Jaime.

 

Estou no Rio, gravando um programa que o Frejat apresenta na TV e reencontrando um pessoal com quem já toquei, gente muito talentosa e amiga.
Indagações sobre o meu sumiço e a confirmação de que vivo mesmo em São Paulo há anos. Alguém pergunta se não tenho mesmo um endereço carioca. Não, moro em São Paulo. Perguntam, com um certo ar de espanto, se fico em hotel. Fico. Ou na casa de amigos, dependendo da situação. Vejo-me diante da mesma estupefação com que constantemente sou assaltado quando dou o veredicto: preferi morar em São Paulo.
Alguém comenta não conseguir entender como é que consigo morar em um lugar em que metade das frases começam com "então". Confirmo que é mesmo dureza. E acrescento que existem outras coisas esquisitas como, por exemplo, falarem Tátuape ou tato a pé quando o nome é Tatuapé, oxítona. Ou dizerem Paquembu, quando é Pacaembu. Ou a curiosa frase "vou me trocar" quando na verdade é a roupa e  não a pessoa que será trocada. Sim, tem esquisitices. E comecei a apontar outras piores. As cariocas.
Não encontro a menor dificuldade em São Paulo por ter vivido boa parte da vida e ser identificado como carioca. Não sou, de fato, pois nasci em Goiânia e fui criado em São Paulo mesmo. De alma posso dizer que sim, pois sou muito identificado com o que o Rio foi e deveria ser. No entanto, se não há o preconceito em São Paulo com os que se originam do Rio, há o evidente preconceito carioca por ter escolhido a vida paulistana, como há preconceito sim com os que tem sotaque diferente. Há sim a presunção de que todos adorariam viver no Rio e que sair de lá é uma espécie de loucura. Ao que sempre advirto: são muitos os que deixaram de viver no Rio escolhendo São Paulo ou outras cidades.
E se o Rio vai se esvaziando em importância política, cultural e econômica, a justificativa para ser a cidade mais importante recai sempre sobre a beleza natural da cidade. Oras, isso não justifica nenhum preconceito.
Em 5 minutos de conversa com os amigos, no camarim carioca, ficou fácil a compreensão de que não há vantagem nenhuma em se alimentar preconceitos. Não há vantagem nenhuma pra ninguém em haver esse clima de competição. Tem muita gente no Rio que viveria melhor aqui em São Paulo e vice-versa. Sou muito
bem recebido aqui e gostaria de imaginar que o mesmo aconteceria com quem fosse morar lá.
Frases que começam com "Aí" são tão estranhas como as que começam com "então". Falar imitando a linguagem dos bandidos ou exagerando no sotaque também é estranho. Cultuar a beleza visual como a mais sagrada das qualidades, é estranho. Há estranheza em tudo. Mas nada é mais esquisito do que a intolerância com as diferenças. E deveriam ser as diferenças o aspecto mais interessante dos relacionamentos. Ou será que só o espelho é atraente?
Sempre fazem questões do tipo, o que vc prefere serra ou praia? Piquet ou Senna?
Lennon ou McCartney? Stones ou Beatles? Europa ou América? Seja qual for a pergunta eu respondo sempre: os dois. A mistura. A soma.
Eu prefiro a ponte. Preconceitos e etnocentrismo são muito chatos. Lembro-me de um amigo sociólogo falando de um estudo que apontava o estrangeiro, ou seja, o homem que migrou ou imigrou como sendo responsável pelos grandes avanços em todas as áreas, Tal estudo sugeria que alguém que vivia em sua terra natal tinha menos motivações. Verdade ou não eu saúdo os "estrangeiros". Mesmo os que não sendo, se sentem estrangeiros dentro do próprio corpo.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 15h15
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- Bom dia, bactéria

De Rosana Hermann.

 

Não são apenas os mistérios entre a lito e a exosfera que excedem nossos cálculos, o número de micróbios e microorganismos entre nossos pés e cabeças está muito além do que podemos supor. Segundo dados da ciência, são alguns trilhões de micróbios que habitam nossos corpos. O que impressiona mais, porém, não são os valores em trilhões, mas o equivalente em peso do total de micróbios: cerca de um quilo e duzentos gramas. Assustador? Nem tanto. É um alento saber que  você não é tão gordo quanto pensa. Além disso, assim como nem todo hospedeiro é mau, nem toda bactéria é nociva. Muitas, são essenciais, imprescindíveis mesmo.

 

Com isso, podemos concluir que ter saúde não é eliminar todos os micróbios do nosso corpo e do ambiente, mas conviver em equilibro com eles, mantendo uma boa higiene. E daí, tirar um aprendizado para o mundo macro da nossas relações com as outras pessoas.

 

Assim como os micróbios estão ao nosso redor, sobre e dentro de nós, o tempo todo, por toda a vida haverá incontáveis seres humanos que estão permanentemente invadindo, consumindo, julgando, observando você, proliferando opiniões sobre tudo o que você é, faz e produz. Agora mesmo, enquanto você lê, outros seres podem estar sonhando com você, pensando em você, falando de você, escrevendo sobre você, o que não é nem bom nem ruim, em princípio, mas que é,  ertamente um fato fora do seu controle. Não há como impedir e nem é para gastar energia tentando. Se isso já é perceptível no mundo físico muito mais claro fica no mundo virtual. Haverá sempre quem persiga você injustamente, odeie você sem motivo aparente, ou encha seu saco sem que você faça nada por merecer.

 

A idéia, no mundo real, não é eliminar os inimigos ou neutralizar todos os desafetos, mas manter a higiene mental e espiritual para ter saúde, saúde para conviver com tudo isso sem adoecer, sem sofrer, sem se deixar abater. É o equilibro interior, no plano mais elevado, que manterá seus exércitos fortes, esses que combatem as doenças, esses que garantem uma vida longa e feliz. É a higiene mental, a alimentação do espírito através das boas energias amigos e familiares, das fontes de cultura e lazer, da prática de meditação e exercícios, que podemos manter essa harmonia que assegura nossa força.

 

Textos, por piores que sejam, são apenas caracteres. Palavras, por mais duras que sejam, são apenas sons numa determinada língua. Tudo, enfim, que é real, são apenas moléculas numa determinada configuração. E o estado de felicidade não é, enfim, a eliminação da infelicidade, mas o aprendizado diário de convivência com aquele um quilo e duzentos gramas que a gente nem lembra que existe.

 

Bom dia pra você.
Bom dia pras bactérias.

Rosana Hermann escreve no Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h42
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- Compartilhar bobagens e sentimentos rarefeitos

De Paulo Castro.

 

     Sabem o que eu acho foda na escravidão? Não é o branco, o rico, o dono das terras, o vilão que coloca o cabresto no pobre neguinho a ser comido por formigas.
     É a auto-escravidão. A garota casa. Era uma safada quando solteira. Continua uma louca sexual, mas precisa se tolher para que exista a instituição. E pior que muitas vezes o marido nem é ciumento. Mas Hegel estava certo. Geralmente quem gosta de ser escravizado procura um mestre. Alguém a quem delegar as correntes e a chave do cinto de castidade.
     Você percebe que é com sofreguidão que se tratam com carinho genuíno. Ainda mais na presença de outros, daí é teatro de amor. Já que na fantasia da escrava, todo homem é um amante em potencial. E o mestre fica tenso, também sabe disso, faz parte do contrato psicótico. Enlace hipócrita.
     Casal assistindo filme pornô :
     Cena de papai e mamãe.
     Apenas abraçados na cama.
     Cena de "gang-bang" ( uma garota e uns vinte caras)
     A moça fica excitada, aperta as coxas, geme baixinho fingindo tosse.
     Tem que guardar o próprio tesão. Não pode se entregar diante do proibido.
     Quando aparece outra cena "doméstica" e aceitável socialmente, ninguém segura a tarada. É orgasmo Foz do Iguaçu.
     OK. Podem falar que eu não tenho sensibilidade. Que sou um cara vagabundo e tosco. Um Marquês de Sade cibernético. Eu aceito. Nem pretendo escrever essa crônica com ares sapientes ou artísticos. É de sacanagem mesmo. É que a hipocrisia me irrita.
     A casa desse tipo de gente : luxuosa, cheia de fotos de momentos românticos, viagens, beijinhos em bailes do Lions Club, pedalinhos. Ou seja, manifestações de um amor que ainda não existe, mas que precisam estar lá aos próprios olhos e aos alheios com segundas intenções  surubeiras. Acendem a lareira, servem conhaque, conversam sobre o último lançamento literário e as cores de Miró.
     Ah, eu vou embora. Juro que vou. Dou uma cuspida no chão e agradeço pelo show. Corro prum bar, encho a cara, volto e vomito no portão. Claro que deixo minha assinatura em adesivo colado sobre uma semente de milho verde, muito verde.
     Não. Não sou bonzinho. Não pretendo. Não me seguro.
    Nenhum vulcão entra mesmo em extinção, esse é o problema. Ele apenas se segura, mas não resiste a uma cheirada no cangote, se derrete em lavas entrecoxas . Reza, pede um refrigerante, treme, o carnaval forçando a barra na membrana irrisória da bondade. Básico Instinto, amém Sharon Stone, amém.
     Outra coisa : adoram trocar torpedos celulares. Vinte, trinta por dia. Cheios de "eu te amo", "estou com saudades", e principalmente "pare o que você estiver fazendo e pense em mim". Precisa lembrar. E lembrar de lembrar. E isso sem ter fim, de uma maneira compulsiva.
     Uma, duas ligadinhas de "te adoro" cai muito bem em qualquer relação. Mas não. Escrava e mestre precisam de muito mais.
     E pior que um saca o outro. Não conseguem tapar todos os buracos do desejo. Por isso piram. Se isolam. Se proíbem. Nenhum controle é absoluto, antes, é patético.
     Ele percebe que ela exala sexo. Ela percebe que ele exala baixa auto-estima.
     Solução ?
     Sim.
     Continuar seguindo Hegel. Ela tomar a posição de mestre e ele a de escravo. Tentar assim. Já que não existe conformidade uniforme. Isso deixaria a relação mais divertida, a transa mais gostosa, o medo subjugado, sem espaço para existir. Ele teria que aprender a ter força. Ela teria que ajudá-lo. Jogar fora as fotos exibicionistas de Buenos Aires e baterem polaroids sexuais de coleção particular, diversão pura. Parar de testar o amor e se amarem de verdade, sem perder tempo no concluio perverso. Pois no fundo, sério, se amam. Apenas são babacas demais para perceberem isso em amplitude. Ela ter coragem de exigir "aquilo forte, atrás" na hora e por qual motivo que lhe der vontade, o pedreiro que assobiou. Ele ter coragem de pedir desculpas, e se negar a oferecer se não estiver afim, sem achar que com isso que ela vá pegar o primeiro que encontrar na rua. Obrigado a confiar no próprio taco, mesmo que não acerte sempre na caçapa. O jogo foi feito pra isso mesmo. Ganhos e perdas.
     Juro que até limpo o portão.

 

Paulo Castro é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h41
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- 11 de setembro
De Milly Lacombe.

Eu estava dormindo o sono dos justos quando o telefone tocou. Antes de atender, bati os olhos no despertador: 5 horas da manhã. Mesmo estando apenas parcialmente alerta me ocorreu o óbvio. Nenhum telefone toca às 5 da manhã por uma boa notícia. Com o coração disparado, tirei o aparelho do gancho:
- Milly? Você pode cobrir o bombardeio?
De fato, a palavra bombardeio não me soou poética. Ainda com o coração acelerado, entendi que a ligação era do Brasil, mais especificamente da redação da Folha de S.Paulo. Perguntei do que bombardeio eles estavam falando.
- Das torres gêmeas. Você não está vendo?
Como, salvo insônias fulminantes, não tenho o hábito de ligar a TV às cinco da manhã, não estava vendo bombardeio algum. Até porque, estava em Los Angeles, a quatro horas de fuso da costa leste. Tentando não parecer mais ignorante do que o usual, disse que podia, embora não soubesse do que a voz do outro lado da linha estava falando. Porque jornalista tem mania de achar que precisa saber de tudo. Mesmo às cinco da manhã. Desliguei e corri para a TV a tempo de ver a primeira torre despencar. Ainda achando que se tratava de um bombardeio, comecei a mudar freneticamente de canal a fim de entender quem havia conseguido entrar em solo americano para soltar bombas sobre Nova York. E então me interei do acontecimento e percebi que estava, de uma forma bizarra, dentro das páginas de um livro de história. O telefone não parou mais de repicar em minha casa. Entre orientações da redação do jornal, prazos apertados para a entrega de textos e mensagens aflitas da mãe da Tati, minha companheira na época, uma senhora convencida de que havia mais aviões prestes a servirem de mísseis indo diretamente para Los Angeles, mais especificamente para nossa casa, vivi um dos dias mais malucos de minha vida. Na rua, desconhecidos choravam e se abraçavam. No supermercado, filas sem precedentes nos caixas, com carrinhos lotados de água mineral e enlatados. Chorava o moço do caixa, a criança no carrinho, a mãe da criança, o homem do caixa ao lado. O saldo da brincadeira soubemos dias depois: 2700 mortos. E, por eles, choramos até hoje. Aliás, por eles, pelos mortos de Madri, de Londres e, agora, do Katrina. Não há nada que comova mais do que centenas de pessoas mortas por atentados terroristas e cataclismas em países ricos. E, para falar do assunto, dá-lhe espaço na mídia.
Não faz um mês, uma ponte desabou no Iraque e, em um dia, morreram mil pessoas. A guerra no mesmo país já tirou a vida de mais de 100 mil civis, milhares de crianças viraram estatística. Na faixa de Gaza, palestinos são mortos como baratas. Diariamente morrem, na África, outras centenas de crianças vítimas da fome e da AIDS. Ou, mais especificamente, vítimas de um tipo de terrorismo sobre o qual pouco de fala – aquele causado pelo imperialismo e pela arrogância de países ricos. Imperialismo que faz com que a distribuição de renda não chegue a lugares miseráveis. E a arrogância que impede, por parte desses mesmos países ricos, que camisinhas sejam distribuídas e educaçãos sexual difundida. Afinal, Deus não gosta de sexo e, quem desafia Deus, acaba punido.
Americanos e europeus estão convencidos de que não há maior injustiça no mundo do que os atentados terroristas e cataclismas que vitimaram milhares dos seus em anos recentes. De fato, é uma tragédia. Mas nada se fala, ou se publica, sobre as outras tragédias, as que ocorrem agora mesmo, enquanto você lê esta linha, em países miseráveis. Para a mídia, alguns seres humanos valem mais do que outros. Eu prefiro ficar com Nelson Rodrigues: “Todo ser humano vale mais do que a Via Láctea”. Pena que insistamos em não divulgar.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 14h18
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- Praia do Futuro, 11 de setembro
De Castelo.

Ainda era cedo na Praia do Futuro. Mas o sol de setembro estava estourando conchas. A caipirinha da barraca do seu Quirino aliviava a garganta.
Ronaldo deu uma golada comprida e passou o copo para Neysa. Ela era sua assistente. E, como Ronaldo era casado, aproveitaram a viagem de negócios para o encontro às escondidas, bem longe de São Paulo.
A moça loura deu um gole. Depois lançou um grito fininho, mostrando os pêlos do braço eriçados:
- Ui, cachaça, me arrepia todinha, ó!
Ronaldo meteu a mão nas coxas dela e puxou-a para um beijo. Exibicionista por natureza, Neysa fez uma torção exagerada de modo a ficar com a bunda mais empinada que o natural.
A cena logo começou a atrair vendedores de redes, camarão seco, coco verde, tapioca.
Não tardaram a chegar os cantadores.
Dois caboclões pararam diante deles e, sem claquete, passaram a improvisar. Que o doutor era de São Paulo, que o doutor era importante, que o casal era formoso, que naquela praia não havia mais ninguém como o doutor, que ia começar a Terceira Guerra Mundial…
Ronaldo achou o último verso fora de contexto. Como assim, no meio das outras estrofes de pé-quebrado do repentista, saía o verso: "vai começar a Terceira Guerra Mundial"?
Neysa só ria e espichava a bunda para o lado dos cantadores, nem sequer se ligando no curto-circuito poético.
Ronaldo pensou em perguntar ao Ceará o porquê daquilo, mas, já de saco cheio, preferiu estender uma nota de cinco reais e ver os cabras irem embora.
Voltaram para o hotel.
Neysa e Ronaldo, pele fustigada de sol e sal, foram logo entrando na ducha.
Neysa se agachou no box e mostrou como a comunicação não-verbal pode ser eficiente em determinados momentos.
Relaxado, Ronaldo saiu do banho assobiando Vivaldi.
Apanhou a toalha, amarrou-a na cintura e foi ligar a tevê na CNN.
Nesse momento, a primeira torre do World Trade Center ruiu.
Ronaldo berrou:
- Chocante!
Neysa, ainda no box, respondeu:
- O desodorante? Tá em cima do criado-mudo!
Ele olhava o cinza-ratinho do pó subindo e não acreditava nas imagens.
- Que desodorante! O mundo acabooou!
Ela não ouvia, a ducha era forte, dava até eco.
- Olha direito. Comprei dois vidrinhos na farmácia do aeroporto.
Pessoas pulavam da segunda torre. O apresentador da CNN descrevia a cena com voz trêmula. Ronaldo desacreditou. Deu um urro:
- Poooorra!!!
- Calma! Não dá pra eu pegar as coisas agora, tô no banho! - respondeu Neysa, já mostrando irritação.
Ronaldo estava chocado de tal modo que só conseguia praguejar.
- NÃÃÃOOOO, CARALHO!
Neysa perdeu a esportiva:
- Olha, Ronaldo, se tem uma coisa que odeio num cara é ele dar chilique à toa. Se você é o tipo, ME AVISA LOGO!
Depois, partiu para a ameaça propriamente dita:
- Não quero grito comigo, entendeu? Segura a sua onda que EU NÃO SOU A SUA MÃE!
E, no final, com uma voz magoada, aduziu:
- Pra falar a verdade, nem sei quem sou na sua vida. Não sou sua mulher, não sou sua namorada, noiva, não sou NADA!!!
A CNN mostrava o replay dos aviões se espatifando nas torres. A visão fez Ronaldo proferir em alto e bom som:
- VAI SE FODER!!!
Só agora compreendia os versos do poeta improvisador:
“Vai começar a Terceira Guerra Mundial”.
Era o Apocalipse se aproximando a galope.
Só não entendeu quando Neysa saiu do banho e, ainda pingando, pôs a roupa, fez as malas e voltou para São Paulo.

Castelo é cronista do Blônicas aos sábados.
Escrito por Blônicas às 21h52
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- Luta de classes nas alturas

De Henrique Szklo

Os homens não são todos iguais perante as companhias aéreas.

A humanidade tem evoluído político e socialmente de forma incontestável ao longo dos últimos anos. Os direitos humanos e as liberdades individuais caminham a passos largos em direção ao ideal liberal. Porém há uma região do planeta onde, ao contrário, os direitos do indivíduo estão cada vez mais ameaçados e a luta de classes se acirra a cada instante. Estou falando do espaço aéreo comercial. Dentro dos aviões de carreira o despotismo, a plutocracia e a opressão avançam a velocidade supersônica. O bonde da história está sendo atropelado pelo trem de pouso.

O interior de um avião é um ambiente eivado por turbulências. É extremamente elitista e perigosamente excludente. O clima é mais pesado que o ar. As leis são rígidas, impopulares, quase ditatoriais. Nunca houve consulta popular que as legitimassem. Pelo menos para mim a única consulta que me fizeram até hoje é se eu queria frango ou massa. E quando eu disse que queria massa, disseram que tinha acabado. Não existe democracia no céu.

Em um avião a divisão de classes é clara, explícita e perniciosa. Uma sociedade de castas com clara orientação direitista. Começando pelo cockpit, a cabine de comando, capital desta republiqueta voadora. Lá, na escuridão da noite, é que são traçados os rumos, definidos os destinos, tomadas as decisões que interferem na vida de todos a bordo. O poder absoluto está nas mãos do piloto, uma espécie de primeiro-ministro que manda e desmanda, sobe e desce, acelera e desacelera, tudo ao seu bel prazer. Se faz de populista, dizendo palavras agradáveis ao microfone, mas na realidade está sempre nos omitindo os problemas reais e pedindo para que apertemos os cintos. Não consegue disfarçar sua vocação militar. Usa até uniforme. O medo é o seu instrumento de poder. Os passageiros são pessoas frágeis, dominadas pelo pavor de voar e, portanto, facilmente controladas.

O co-piloto, então, é o vice, pronto para assumir o controle se o dever lhe chamar ou se o piloto tiver uma dor de barriga. Uma figura meio apagada cujo sonho é um dia ser piloto para poder também menosprezar seu vice.

Os comissários são a polícia desse regime de exceção. Foram criados para servir, mas na verdade estão lá para reprimir, impor a ordem e proteger o poder estabelecido, usando o que for preciso para cumprir com seus escusos objetivos. Para manter os passageiros sob controle, logo no início da viagem intimidam a todos mostrando portas de emergência, coletes salva-vida, máscaras de oxigênio e saquinhos de vômito. Mexem os braços de forma estranha e agressiva. Movimentos com clara influência em algum tipo de arte marcial.

Na primeira classe encontramos a elite dessa sociedade aérea. Muito espaço, mordomia, atenção total e absoluta dos comissários e é claro, muita proximidade com o poder, já que estão a poucos passos da cabine de comando.

A classe executiva é o grupo emergente. Conseguiu sair do inferno da econômica mas ainda não tem cacife para a primeira. Porém, já pode usufruir de mais espaço e comer uma comidinha melhor. Não posso afirmar com precisão, mas dizem que não tem fila para o banheiro. Dizem.
A classe econômica, então, é a escória que só consegue subir na vida quando o avião decola. Uma massa proletária que vive sob pressão a começar pelo tamanho da poltrona. Sem espaço para nada, são obrigados a comer uma comida indigesta com os cotovelos grudados ao corpo, dormirem sentados e com as pernas dobradas, além de agüentar a falta de paciência dos comissários que sonham em atender às classes mais favorecidas. Também nunca entendi a necessidade de as poltronas ficarem na posição vertical. Por acaso 5 centímetros de inclinação a transformam em horizontal?

Mas o símbolo maior dessa sociedade injusta e despótica é a cortininha que separa as três classes. Um objeto inofensivo e gracioso se avaliado isoladamente, mas que neste contexto representa o preconceito, a exclusão, a opressão das classes menos favorecidas. É a cortininha que define quem é melhor e quem é pior. Acabemos com cortininha e acabará o preconceito de classes nos aviões. Vamos queimar as cortininhas!
E mesmo depois de todo esse abuso, desse desmando, as companhias aéreas ainda têm a cara de pau de pedir a nossa fidelidade. Ao diabo com a fidelidade! Vamos trair todas elas. Aposto que se Santos Dumont soubesse o que fariam com sua invenção se concentraria mais no relógio de pulso e deixaria os créditos para os irmãos Wright.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas, é defensor ferrenho da igualdade de classes, mas seu sonho é um dia viajar de primeira. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 12h22
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- Família

De Leo Jaime.

 

Não acredito que consangüinidade seja o que define. Ter o mesmo sangue não faz de alguém sua família. É preciso mais. E se levarmos em conta que 10% das pessoas não são filhos daquele cara que é o marido da mãe e pai dos outros irmãos, a coisa fica mais evidente. Sim, essa informação, esse percentual, foi averiguado em uma pesquisa feita em 1950 e reiterada em outra de 2000. Mulheres são as únicas fêmeas mamíferas que não exibem publicamente os sintomas de seu período ideal de reprodução. E com isso algumas vezes atendem aos pedidos da natureza  ou de suas próprias fantasias de ter um filho "só seu", com características peculiares que não necessariamente são as do macho provedor.

Mas não é sobre isso que quero falar. Esse é um dado que aponta para um aspecto mencionado: ter o mesmo sangue não é tão importante assim. Os laços se dão com ou sem sangue. São outros fatores. Tenho muitos amigos que ocupam um lugar de família em minha vida e uns tantos parentes que só vejo de tanto em tanto. E tem um monte deles que nunca conheci e nem sei se vou conhecer.

Coisas da vida. Por isso afirmo que lar e família são aqueles que elegemos para as funções. Não necessariamente nosso local de origem ou os parentes próximos.

Lar. Um dia desses um amigo letrado me deu a chave. Lar é fogo. Onde nos aquecemos, onde nos abrigamos, onde fazemos nossa comida. Isso é um lar.

Lareira é um lugar onde se faz lar. O fogo caseiro. É o calor, a luz, a chama,  que determina onde é o nosso canto. Não é um prédio, é o que acontece dentro dele. Intuitivamente eu sempre acreditei que só é nossa casa o lugar em que fazemos comida. E depois que fazemos comida. Por isso acho que morar em hotel ou flats podem não nos dar a sensação de lar embora sejam efetivamente casas. Se lá estamos vivendo, quero dizer.

Família são aqueles que dividem o fogo. Os que comem a mesma comida e se protegem sob o mesmo teto. São os que nos aquecem e por nós são aquecidos. Os de casa. As caras familiares.

A família, a parentada, nem sempre representa isso. Em várias circunstâncias convivem por achar que devem, para não desprezar um laço que existe e não precisa ser rompido, ainda que não tenha também tanta chama. É um vínculo social mas não tão íntimo. Não familiar, ainda que o nome contradiga. São parentes. Não quero, com isso, apontar descaso ou desprezo. É que não temos tempo, desejo, afinidade em igual com todos aqueles que a nós se relacionam por parentesco e amigos são amigos, são íntimos e foram por nós escolhidos e não reunidos por um acaso da natureza.

Com isso percebemos que os familiares nem sempre são aqueles com quem dividimos nossas alegrias. Nem sempre são aqueles para quem ligamos quando estamos muito felizes. Mas se há algum problema sério, por que não ligar para aquele primo do seu pai que pode dar uma orientação? Sim, não há porque não fazer isso.

Curiosamente os parentes acabam sendo aqueles com quem contamos nas horas difíceis. E isso é muito valorizado, e tem que ser. Mas será que quem nos atende quando estamos mal é tão importante quanto aqueles que festejam nossas alegrias? Será que uma notícia boa mobilizaria os próximos/distantes?

Um acidente de carro atrai mais atenção que um casal se beijando e se declarando em cena despudorada de amor verdadeiro aos olhos públicos. Achar quem se interesse por nossas mazelas, creia, é mais fácil.

Qual nome devemos dar aos que torcem, se interessam e comemoram nossa felicidade? Aqueles a quem queremos o bem e que nos alegram com suas vitórias ou alegrias, por menor que sejam?

Família é um termo meio sacralizado. Há algo de sagrado no nome. Deveria ser, como o lar, aquilo que protege nossas maiores alegrias. E não um corpo de bombeiros ou pronto-socorro, necessários e importantíssimos mas nada sagrados.

O que está errado: o nome ou o significado?

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas e escreve aqui todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 14h23
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- Seu passado... te condena?
De Rosana Hermann.

Tomei coragem, subi no banquinho bamboleante, alcancei o armário e abri as portas duplas que estavam fechadas desde o governo FHC e, na ponta dos pés, alcancei a imensa pasta amarela e obesa, atoladinha de textos de humor dos anos 80 e 90. O primeiro sinal foi positivo: duas traças passaram às gargalhadas. Desci, sentei e comecei a ler textos escritos á mão, textos datilografados, textos impressos em formulários contínuos, com incontáveis paródias, quadros de humor, roteiros, adaptações, um pot-pourri de criações que fiz para o Glug-blug, X-tudo (na TV Cultura), textos e quadros para o Faustão, Xuxa e uma resma de folhas amarelas com textos para a Jovem Pan Fm.
Djalma, aulas de inglês, Sabichona, Maguila, Boi na Linha, you name it. Entre tantos trabalhos profissionais, mal pagos mas ainda assim, remunerados, encontrei uma ou outra crônica pessoal, coisas que nunca foram publicadas ou veiculadas. Tive medo. Fiquei me perguntando se eu teria coragem de ver como eu escrevia há vinte anos. Eu era uma jovem em busca de um estilo, vivendo uma relação com a língua pátria, ora flertando com o verbo ora fodendo com o sujeito e o predicado.
De qualquer forma, selecionei duas tentativas de ficção, datilografadas, do começo dos anos 80. O primeiro parece texto do Leon Eliachar e o segundo, nem sei, parece coisa de garota de vinte e poucos anos querendo ser mulher-moderna. Eu sei, é meio cabotino, mas da mesma forma que é melhor cuspir no prato que se comeu do que comer no prato que se cuspiu, é melhor fazer uma auto-homenagem em vida do que receber uma coroa de louros póstumos. Vamos lá, para a guilhotina. Solta a corda.

TRANSITOTAL (circa 1980)
Ninguém me ensinou a dirigir, aprendi sozinha. Uma verdadeira auto-escola.
Um belo dia eu achei que estava pronta para fazer o exame de habilitação. Eles não acharam. Não acharam o exame e fiquei completamente perdida.
No escritório do examinador ofereci-lhe um cafezinho. Abri o açucareiro, com a colher na mão e perguntei:
- Quando o senhor quer?
- Quinhentos paus.
Paguei e passei. Passei a desconfiar de todos os instrutores e examinadores.
Recebi minha carta de motorista e comprei um automóvel que, ao contrário do que o nome propõe não se move por si só. Em compensação, por serem visíveis, os carros são todos veículos. Já os carros engraçados são ridículos, os automóveis mais quadrados são cubículos e os carros de teste, não me lembro o nome.

No trânsito insano da cidade tive problemas acidentais com orientais e situações infernais que até D'us duvida. Minha primeira batida, por exemplo, me deixou totalmente tonta. Era de maracujá. Desnorteada, rumei para o sul. Perdi a direção e fui ao encontro de uma demolição: uma lição dos diabos. Aprendi a nunca mais dirigir alcoolizada.
A polícia me parou e examinou detalhes diminutos, de minuto em minuto.
Terminada a ocorrência, esperei o carro-guincho, que faz um barulho alto e irritante.
O guincho veio e levou meu carrinho, me deixando à pé, na rua da amargura, sem número, fundos. Levei o carro para uma oficina onde um mecânico dinâmico me atendeu automaticamente. Quando o carro ficou pronto o dono da oficina, muito engraçadinho, passou a nota dizendo:
- De agora em diante D'us te guie!
Olhei-o nos olhos e disse:
- Pois então, D'us lhe pague.
Engatei primeira e fugi num segundo.

UM EPISÓDIO DE UM DIA QUALQUER (circa 1983)
- Vira.
- Como assim?
- Virando, ué. Vai, vira, mulher.
- Vira o quê? Vira lobisomem?
- Vira de costas.
- Pra quê?
- Adivinha? Prá chegar mais pertinho da sua bundinha, gracinha...
- Ah, não! Meu patrão me põe na bunda, meus parentes me põem na bunda e agora, você??
- Seja democrática, todo mundo põe na sua eu também quero. Vai, vira.
- Por quê?
- Porque eu quero te foder por trás, precisa ser mais claro? Ou quer que eu mande um pedido com cópia em duas vias?
- Ah, sei lá, sabe, você coloca as coisas de uma forma tão vulgar...
- Tá bom, querida. Eu prometo que vou te enrabar sem vulgaridade, vou fazer uma coisa intelectual, prometo.
- E depois?
- Depois eu tiro.
- Não, não é isso. Depois, com que cara que eu fico?
- Com a tua carinha linda de sempre... vai, vira, gostosa...
- Ah, mas vai doer.
- Não vai, não, eu tomo cuidado, papai sabe tudo.
- É perigoso.
- Perigoso coisa nenhuma, é natural. Vira, meu bem.
- Mas é um pouco humilhante.
- Não é humilhante não, é um ato de entrega, uma prova de amor.
- Quer dizer que você acha que eu ainda preciso provar meu amor por você, é ? Será que a nossa relação precisa de algum tipo de prova só porque você não acredita em mim?
- Vai, chega, cala a boca e vira, porra!!!!
- Agora é que eu não viro mesmo.
- Mas por quÊÊEÊ???
- Você gritou comigo.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, com uma crônica de quinta, até segunda ordem.
Escrito por Blônicas às 13h15
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- A saga dos mistérios - Parte 2

De Nelson Botter.

 

Dando rápida continuidade à nossa borbulhante saga dos mistérios dessa intrigante existência humana, falaremos hoje sobre a misteriosa lei de Murphy. Poucos são os eventos que intrigam mais que os relacionados ao tal filósofo de plantão. Aliás, coitado do cara, tudo é sempre culpa dele, o maior bode expiatório da história mundial. A lei do camarada Murphy é muito simples: "Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de forma que cause o maior dano possível".

 

Não acredita nessa teoria mais comprovada que a do caos? Pois então explique por que quando você está atrasado todos os sinais de trânsito estão fechados? Por que sua fila no supermercado anda menos que as outras? Por que a faixa de carros que você está anda menos que a do lado e quando você muda a que você estava começa a andar mais? Por que quando você está louco pra ir embora o seu chefe aparece no final do dia querendo falar sobre algum assunto besta, te prendendo até altas horas da noite? Vai, me explica! Por que quando uma mulher maravilhosa resolve te dar bola a sua esposa está do lado? Por que sua amiga mais chata e feia consegue namorados mais bonitos e interessantes que você? Bom, e por aí vai...

 

O Murphy é o cara que tem a orelha mais quente desse planeta, depois do Bush (claro), pois tem sempre alguém falando mal dele. O que ninguém sabe é que Murphy, assim como Deus, é brasileiro. Mais precisamente, seu nome é Estanislau Murphy da Silva, mas lá em Juquitiba do Norte, sertão de Pernambuco, ele é conhecido como Calanguinho Seca Pimenteira. Já pequenino, o barrigudinho era mal falado. Dotado de uma extrema capacidade de negativismo latente, Murphy sempre dava palpite na hora errada. Alguns até achavam que ele era um tipo qualquer de profeta do sertão, mas no fundo era apenas um agente da desgraça alheia. Safado! Tudo que ele falava dava certo... ou errado (dependendo do ponto de vista): "Num sobe aí que tu vai cair", "Hoje chove não", "Tu vai morrê de fome desse jeito, homi", "Essa água vai acabar" etc e tal.

 

Começou, então, uma onda de medo das ladainhas do rapaz e um belo dia resolveram costurar sua boca, feito sapo macumbado. Murphy, dotado de grande sabedoria, arrumou um caderno Tilibra com a capa do Menudo, um toquinho de lápis HB e profetizou num garrancho pior que letra de médico: "O que se sabe de concreto é que toda solução cria um novo problema. Isso é pior que filme de aventura". Esse era o início dos dez mandamentos de Murphy. Alguns dizem que eram vinte, mas ele acabou perdendo uma das duas folhas de regras, afinal alguma coisa sempre dá errada.

 

Hoje ninguém sabe o paradeiro do moço. Outro mistério. Há quem diga que ele mora em Brasília, mas é muito óbvio, pois lá nada dá certo. O que se sabe, ou não se sabe, é que a regra é clara e que Murphy e sua lei são uma das maiores manifestações de sabedoria da história moderna. Com a boca costurada, mas com o lápis afiado, o profeta continua urubuzando a todos, favorecido pela inexplicável força que rege o universo, que muito simpatiza com suas leis. O mistério de Murphy nunca terá explicação, assim como o fato de você ter chegado até aqui, no fim dessa crônica escrita da pior maneira possível, no pior momento e de forma que cause o maior dano. Se alguma crônica pode dar errado, dará. Liga não, é a inexorável lei do Calanguinho Seca Pimenteira.

 

Nelson Botter escreve aqui no Blônicas todas as terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 10h57
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- Homens mentem, mulheres iludem

De Xico Sá.

No varejo ou no atacado, quase todos nós já fomos ou continuamos corruptos. Independentemente de gênero e de classe. Não carecemos nem citar aqui a sociologia mais picareta ou os grandes cronistas de usos e costumes, como o nosso venerado Padre Carapuceiro, para chegar a estas pobres conclusões. Quando à mentira, que tem pernas curtas mas bem torneadas como as de Lurdinha, também não há dúvidas: todos somos mentirosos.
A diferença, porém, ai porém, é que as fêmeas não mentem simplesmente, elas têm o dom de iludir, coisa mais sofisticada, como na canção. Os machos, coitados, simplórios, abusam amadoristicamente deste recurso tão natural quanto a água e o óleo de peroba.
É isso mesmo, até os melhores exemplares da raça masculina cometem as suas trapaças, dissimulações, subterfúgios, maquiagens na face da quase sempre insuportável realidade. Do presidente da corte superior ao trombadinha. A diferença é que uns ainda coram, enquanto outros nem se incomodam com as faces infestadas por cupins.
Toda esse nariz de cera, esse lero-lero da cumeeira dessa crônica, para dizer que folheei dia desses, na espera do dentista, "101 mentiras que os homens contam _e por que elas acreditam" (ed. Ediouro), da norte-americana Dory Hollander, um clássico da psicologia mais elementar. Aliás, nem no dentista foi, o fato deu-se no consultório do homeopata, quer dizer, no analista...
Minto. Comprei mesmo o livro no sebo, por dever de ofício, e o devorei feito traça. Que mentira que lorota boa, seu intelectual de meia tigela, seu Zelig, que fica inventando desculpa para as leituras mais vagabundas.
Dane-se, comprei, li e gostei, pronto. Melhor assim. E quer saber, é um clássico da psicologia popular universal. São frases que podem ser ditas tanto em Manhattan como no sertão do Cariri. Dona Hollander fez uma pesquisa séria, ouvindo muita gente, sobre nossas mentiras, nem sempre sinceras, e nossas piores promessas.
Vai de um inocente "estou cansado demais" a um irresponsável "eu te amo" _dito na hora errada à mulher errada, no lugar errado". Começo, meio e fim e a nossa cuca ruim, como na canção do príncipe Ronnie Von.
Por que elas acreditam, então? A psicóloga arrisca várias respostas. Uma delas: as mulheres acham que ceticismo e romantismo não podem andar juntos, sob pena de estragar as coisas.
Dona Hollander nos separa em dois blocos: os perigosos e, digamos, aéticos, que abusam da mentira, que enganam por "esporte e lucro", de forma inescrupulosa; os mentirosos ocasionais, que se mostram dissimulados sob pressão e desviam a realidade com pequenas lorotas, artifícios para se livrar da "fúria feminina".
Nessa categoria estão também aqueles que poderíamos chamar de canalhas líricos, inocentes galanteadores como o personagem Bertrand Morane, no filme "O homem que amava as mulheres", do velho Truffaut, padrinho sentimental deste cronista.
Dublês de d. Juans, os Bertrands apenas enfeitam, douram a realidade nas suas peregrinações em busca das mulheres.
Seja qual for a sua classificação, a leitura do livro pode ser feita de forma séria e compenetrada, na linha auto-análise, ou apenas como um delicioso chiclete para a mente, ora.
À guisa de tira-gosto, ficam ai algumas casquinhas e caldinhos de fraseado:
"As únicas fantasias sexuais que tenho são com você".
"Você é maravilhosa, merece alguém melhor do que eu".
"Relaxe, é apenas uma amiga".
"Vou deixar minha mulher".
"O que me atrai em você é a sua mente".
"Não, não acho você gorda".

Xico Sá escreve no Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h29
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- Os pecados do domingo
De Milly Lacombe.

De todos os pecados capitais, meu favorito é, sem dúvida, a preguiça. Mas não posso ser injusta com os demais. Adoro quase todos eles: luxúria, gula, soberba ... Certo, deixemos a inveja de lado. De fato não se trata dos mais nobres dos pecados. Aliás, pensando bem, é uma grande sacanagem comparar a inveja com indulgências d’alma como preguiça, gula e luxúria. Nem ira e avareza são tão infames, tão miúdas. Tiremos portanto a inveja dessa lista. Quanto aos demais, impossível funcionar sem eles.
Mas, como ia dizendo, nada se compara à preguiça. Nada se compara a acordar domingo de manhã e simplesmente continuar na cama, rolando de um lado para o outro, revezando travesseiros para que o mais gelado seja sempre aquele a ser abraçado, ocupando todos as partes do lençol, encoxando a pessoa amada de todas as mil e uma maneira possíveis, esticando os braços nas mais variadas direções.
Como é bom estar vivo em uma manhã de domingo, consciente de que o tempo não é, afinal, um inimigo implacável. A bem da verdade, se um dia tivermos que vencer nossa eterna luta contra o tempo, a apoteose acontecerá certamente numa manhã de domingo, quando o inimigo, cansado de tantas batalhas semanais, está mais fraco.
E, finalmente, levantar da cama quando a gula for maior do que a preguiça. Ir até a cozinha, esquentar o pão francês e os croissants de chocolate comprados na véspera, ligar a cafeteira, pegar os jornais na porta dos fundos, se jogar no sofá da sala, pernas para cima, abastecida de uma xícara de café e dos gordos periódicos, que só são tão gordos nas manhãs de domingo.
Assim, permitir que preguiça e gula iniciem uma transa intensa e apaixonada, revezando-se no topo. Mas não deixar de pensar em tudo o mais que se poderia fazer em um dia sem compromisso – visitar os sobrinhos, comprar os produtos de limpeza pelos quais a incansável Maria implora há dias, trocar o óleo do carro, correr no parque – e simplesmente continuar estatelada no sofá.
Só permitir que a transa entre gula e preguiça termine quando a luxúria entrar em cena e nos levar de volta à cama. Passar ali horas exercitando talvez o mais misterioso e rico dos pecados, repleto de soberba por todos os lados, sabendo que, findo o ato, a preguiça novamente voltará a rondar, seguida da sempre bem-vinda gula. E que esse revezamento não terá mais fim. Pelo menos não enquanto ainda for domingo.
Que droga seria a vida sem as manhãs de domingo.
Que inferno seria essa nossa insignificante jornada sem o pecado.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 10h51
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- Do churrasco
De Castelo.

Fui numa churrascaria ontem.
Olhando bem, a gente vê que elas deixaram mesmo de ser algo apenas gaúcho para representar o Brasil todo.
Afinal, misturar sushi, javali e contra-filé argentino no mesmo prato é a nossa cara.
Você não vê uma baiana servindo acarajé com molho à bolonhesa acompanhado de fritas (e se servir, termina atropelada por um trio elétrico e jogada na Lagoa do Abaeté). E o mais interessante é que as churrascarias são dos poucos lugares onde se respeitam os contratos.
Como num prostíbulo, você paga um preço fixo e come o que, e o quanto quiser.
Evidentemente que toda regra tem exceções.
Lembro-me uma vez de ter visto um cara comer tanta carne numa mesa que o dono da churrascaria teve de lhe oferecer sociedade.
Mas isso é raro.
E os tipos da churrascaria então?
Um dos que me chama mais atenção é o garçom do arroz.
Ele passa pelas mesas, olhar tristonho, oferecendo aquele prato sempre cheio e ouvindo: “não”, “não”, “não”, “cadê a picanha!”.
Poucas pessoas agüentam tanta rejeição sem cometer suicídio.
Nem mesmo o cara do peixe pintado ou o sempre paciente moço do carrinho de bebidas (coitado, ninguém aceita tomar aquele licor de ovos e menta que ele serve de cortesia).
Outro a ser mencionado é o homem do carrinho de sobremesa.
A missão dele é impressionante.
Precisa convencer quem comeu uma arroba de carne a atochar mais um prato de torta holandesa com creme de chantilly.
Se o próximo secretário-geral da ONU fosse um homem do carrinho de sobremesa, finalmente teríamos a paz no Oriente Médio.
A churrascaria é esta experiência única. E ela não faria o mínimo sentido sem este clima, uma determinada arquitetura e, claro, sem aquelas peças de carne feitas para atender a todos os gostos: fraldinha(para crianças), bife-de-tira (para policiais), cupim (para ecologistas ), bife-de-chouriço (para os GLS) e até contra-filé (para os macrobióticos).
Claro, uma churrascaria vegetariana estaria fadada ao fracasso.
Pra começar a tragédia, o clássico bufê de pratos frios seria abolido.
E tudo viraria uma gigantesca e estrambótica salada servida randomicamente em espetos.
- Aceita nabo, primeiro corte?
- Bardana no alho?
- Olha o repolho na brasa!
- Vai a picanha de berinjela, uma delícia, doutor.
A versão vegetariana só teria uma vantagem em relação à tradicional: o garçom do arroz seria o mais feliz de todos os atendentes.

Castelo escreve no Blônicas todos os sábados.
Escrito por Blônicas às 11h38
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- Empresa também é gente

De Henrique Szklo

Alguém precisa deter esses consumidores insanos

Sempre achei injusta a relação entre empresas e consumidores. Não existe relacionamento mais desigual, parcial e arbitrário. Principalmente agora quando os consumidores se autodenominam “conscientes”. Só eles têm direito. Eles podem tudo, sabem tudo e fazem o que bem entendem. As empresas não, coitadas: têm milhares de restrições e impedimentos que fazem com que sofram injustiças insuportáveis.

Em primeiro lugar: quem foi o idiota que inventou esta história de que cliente tem sempre razão? Com certeza foi um cliente. É estatisticamente impossível que alguém tenha tanta razão. Até porque, comparativamente, as empresas são muito mais idôneas e habilitadas a ter razão. Seus funcionários são profissionais preparados, treinados, estudaram muito para chegar onde estão. E os consumidores, que formação têm? Nenhuma, claro. Amadores, incompetentes, autodidatas presunçosos e intratáveis, isso é o que eles são.

O consumidor é um chato. Sujeitinho mimado e metido a besta. Pensa que o mundo gira a sua volta. Quer trocar tudo, quer devolver tudo, nunca está satisfeito, tem sempre uma reclamação, ora, tenha santa paciência. Assim não há quem agüente. É engraçado: ele contrata um plano de saúde e quer usar quando fica doente. Mas é plano de saúde ou de doença? Coloca um monte de dinheiro no banco e depois reclama quando o banco tira só um pouquinho pra ele, e ainda acha ruim quando bate o nariz na porta giratória que trava para sua própria segurança. Compra um telefone e quer que ele funcione o tempo todo, nunca ouviu falar que o silêncio vale ouro. O consumidor é um tirano, um déspota nada esclarecido que não hesita um segundo em usar todo seu poder para conseguir o troco em dinheiro ao invés de balas. Quem ele pensa que é? Deus? Dono do mundo? George Bush?

Os jornais deveriam abrir uma seção de cartas especialmente para empresas que queiram reclamar publicamente do tratamento recebido por consumidores inescrupulosos. Um serviço telefônico também deveria ser colocado à disposição para que elas pudessem fazer denúncias de maus-tratos e quando se sentirem vítimas de ataques espúrios e exigências descabidas como troca de produtos simplesmente por estarem apenas aparentemente estragados ou com o prazo de validade ligeiramente vencido.

Mas as empresas precisam se unir e fazer seus direitos serem respeitados. É claro que o poder econômico dos consumidores fará forte pressão contra, lobby no Congresso, e o que for necessário para manter suas benesses de marajás do consumo. E, não tenha dúvidas, eles vão jogar sujo. Vão passar a exigir nota fiscal por qualquer comprinha besta.

Proponho, então, que as empresas se unam e criem o Código de Defesa da Empresa. Um conjunto de regras que, de uma vez por todas, defenda os interesses das empresas já cansadas de tanta injustiça, tanta falta de educação, tanta arrogância e de tanto consumidor que não compra nada e quer o selinho do estacionamento. Um mecanismo legal que freie o ímpeto destes consumidores selvagens. Chega de neoliberalismo de consumo. Abaixo a globalização de grosserias. Vamos esquecer o recall. Basta de tanta cobrança e tantas trocas só porque “ganhei de presente e não gostei”.

Guerra é guerra. Portanto toda linha filosófica do novo código partiria do conceito: O CLIENTE NUNCA TEM RAZÃO. O consumidor desavisado que infringir o código será preso em flagrante na presença da imprensa e terá sua imagem seriamente prejudicada perante a opinião corporativa. Outras empresas não o aceitarão mais como cliente, preferindo trocá-lo por outros mais confiáveis. Ele terá de mudar de cidade ou será sua falência como consumidor.

Com o novo código entrando em vigor, esses consumidores irão voltar para o lugar de onde nunca deveriam ter saido: a fila do caixa. E das bem grandes.

Henrique Szklo escreve no Blônicas às sextas, é consumidor de carteirinha mas hoje, excepcinalmente, foi comprado por um grupo de empresas. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 13h37
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- Coisas da vida

De Leo Jaime.

 

Há um vírus no ar. O ar é de todos e o vírus que nele está também. Todo mundo parece gripado mas não está. Diarréia, dores pelo corpo, vômitos. É o vírus. Ele é novo, dizem os médicos, apareceu aqui faz uns 5 anos. Rotavírus. Tem nome mas não tem remédio. E está no ar.

 

Fragilidade. Se estamos vivendo algo especial, se é um dia qualquer e rotineiro, não importa: a chegada de um vírus pode centralizar toda a nossa atenção em sua presença. São presas dezenas de trambiqueiros em Goiânia.

 

Eles espalhavam vírus pela internet. Outro tipo de vírus, é bem verdade, mas se o nome é o mesmo há de haver semelhanças. Os golpistas mandavam aqueles e-mails dizendo que seu nome estava no serasa, que seu título de eleitor seria cassado, que havia débitos pendentes em sua conta etc. Os incautos abriam os e-mail, baixavam os vírus inocentemente e deixavam os malandrinhos limparem suas contas.

 

Triste pensar nisto. Em como há um lado sujo, sórdido, infecto na alma humana. Há a correspondência nisto na natureza que crias esses vírus que de tanto em tanto aparecem para nos tirar a alegria e outras coisas igualmente valiosas.

 

Há um dia para sentir o corpo todo impotente, dolorido, machucado. A saúde é um bem silencioso, invisível. Há um dia para ver que mesmo avanços maravilhosos como a Internet também servem muito bem ao espírito de porco, ao desonesto, ao infame.

 

Coisas da vida.

 

Leo Jaime escreve no Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h00
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