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- A vida é breve, a D.R. é longa

De Xico Sá.

"Ai naquele maior barraco, ele, rapaz acadêmico, vem com uma citação de Delleuze (o Gilles, filósofo francês) pra cima de mim, vê se pode uma coisa dessas?!!"
Pior é que pode.
 Sim, como o desabafo da amiga N. não nos deixa mentir, intelectual (ou metido a) bota Delleuze & Sartre até no meio de uma D.R., a sigla como é conhecida hoje a mitológica "Discussão de Relação" , mesmo a mais breve.
Embora seja escritora de mancheia e conhecedora do mundo afrancesado, N. não se conteve diante do mancebo-dos-rizomas. Deu "download" na brava cabocla Iracema que mora na sua alma cearense e sapecou: "Diabeisso?!", corruptela alencarina de "que diabo é isso?!"
Ela não concebia que naquelas cinzas das horas, a casa caindo, alguma criatura esquecesse de mirar o próprio teto e convocasse Delleuze para resolver o drama de alcova. Como se a vida a dois fosse uma tese, como se desconsiderasse o conhecimento do belo inferno dos lares.
D.R. com intelectual ou artista envolvido é assim mesmo. Não tem jeito. D´onde classificamos alguns embates com os seus respectivos padrinhos, além do Delleuze já citado da cumeeira desse texto:

D.R. Kurosawa - Outro noite adiei a saideira por horas, reparando num embate de casal que imitava a arte deste cineasta. Uma discussão lenta, imagens lindas, arrozais sob montanhas, silêncios que falam coisas, uma peleja quase em ideogramas.

D.R. MPB -  Indecifrável e incompreensível como o "zum de besouro ímã" do verso do Djavan. Muita onomatopéia e nem uma idéia os males da D.R. são.

D.R. Erística _ Como na corrente homônima herdada dos gregos, a arte de triunfar no barraco oral mesmo sem ter razão.

D.R. punk-rock _ Três acordes e vai cada um pro seu lado, dormir na casa da mãe, de um(a) amigo (a), hotel, flat, amante, homeless...

D.R. Paulo Coelho _ Depois de "Onze minutos" de sexo, o barraco sempre começa com uma parábola bíblica ou uma lenda árabe.
 
D.R. Bartleby _   "Prefiro não discutir", diz uma das partes, repetindo o mantra do escriturário do livro homônimo de Melville.

D.R. free-style _ É a discussão rimada, estilo rap, passionais MC´s:  "Assim você me afunda/ com esse pé-na-bunda/ com essa insensatez.../ meu barquinho já naufraga/bossa nova é uma praga/veja só que a vida fez!"

D.R. brechtiana _ A arte de enfrentar o público, seja num botequim seja numa festa, com o distanciamento do personagem, como se dissessem do palco, a cada golpe, "não é nada disso que vocês estão pensando, controlem-se".

D.R. Abaporu ou D.R. arte moderna _ Típica discussão sem pé nem cabeça, que para nenhum dos dois interessa.

D.R. metalingüística _ A D.R. da D.R., tipo roteiro de Kauffman ("Adaptação", o filme), exercício das cabeças requentadas ou das mentes ressentidas.

P.S. da D.R. ou existencialismo de cabeceira _ Melhor uma D.R. com Gisele Bündchen ou um sexo com Simone de Beuavoir?

Xico Sá é cronista do Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 16h40
[]


Minha avó quer vir a São Paulo
De Milly Lacombe.

Minha avó quer vir a São Paulo. Um desejo singelo não tivesse ela 96 anos e o ímpeto de nunca mais andar de avião, sabe-se lá por que. Então, minha avó, que mora no Rio, diz que quer vir, mas tem que ser de carro. E de carro, com minha avó, o Rio parece ficar a 30 horas de São Paulo. Porque ela tem que parar para ir ao banheiro de vinte em vinte minutos, para comer uma coisinha de meia em meia hora, para esticar as pernas de quarenta em quarenta minutos ... transportá-la é trabalho para um budista aposentado. Até porque, parcialmente surda, ela uiva, em italiano, tudo o que quer dizer. Trata-se de uma travessia que poucos têm a capacidade de fazer. Mas ela diz que aos 96 anos não se tem pressa para nada e que, portanto, só vem se for de carro.
E, como a velha tem uma teimosia ancestral, a viagem será feita pelo solo. Para isso, minha mãe foi ao Rio. E de lá vai voltar com Nonna no carro.
Tudo porque minha avó, que continua mais lúcida do que muitos de nós, quer ver a bisneta recém-nascida em São Paulo. Ao todo já são seis bisnetos. E ela não dá sinais de que faltará ao nascimento do sétimo, que nem planejado foi ainda. Existe uma forte suspeita na família de que Nonna talvez dure mais do que se supõe. Aliás, corre um bolão para saber quem vai primeiro: ela ou Picsy, a poodle de minha irmã, que já tem uns 20 anos e ainda saltita pela casa. Surda e semicega, mas saltitante.
Fico imaginando como é ter 96 anos e não poder mais divagar sobre o futuro. Fico imaginando como é ter 96 anos olhar em volta e não achar nenhum de seus amigos e conhecidos da juventude. Olhar em volta e pensar que todos os que me cercam neste momento já deixaram de existir, se retiraram da festa, e eu ficarei sozinha, sem esses que tão bem me conhecem e me percebem. Nem pais, nem irmãos. Apenas descendentes. Como é ter 96 anos e não saber se o amanhã chegará? Não seria essa a fórmula da vida? Viver aqui e agora, sem pressa de chegar? Mas teríamos nós que alcançar os 96, perder o controle sobre a bexiga e, parcialmente, a capacidade de ver, ouvir e andar para sacar isso?
Nietzsche, que uma amiga minha recentemente me proibiu de citar ("por que você não lê Schopenhauer, Platão, Epicuro, qualquer outra coisa que não seja esse insuportável Nietzsche? Não aguento mais suas referências a ele!"), tem a receita. Seu eterno retorno fala exatamente disso: esta vida, conforme se vive agora e se viveu no passado, terá que ser vivida novamente, e inúmeras outras vezes. Todas as dores e alegrias se repetirão eternamente. Retornaremos, portanto, para sempre. Mas o grande barato dessa teoria é que você não precisa de fato acreditar nela para tirar proveito. Você pode simplesmente fingir que acredita. A lição é: escolha cada uma de suas ações imaginando que ela se repetirá para a eternidade.
Minha avó certamente não sabe que está vivendo sob a filosofia de Nietzsche. Mas ela, aos 96, sabe, sem dúvida, muito mais coisas do que você e eu. Sabe, inclusive, que o segredo da vida é a morte e, sem pressa de desvendar esse mistério, vai vivendo cada momento como se fosse o último.
A essa altura, deve estar em algum posto da Dutra comendo, bebendo, olhando a paisagem, assistida por minha mãe, que provavelmente está batendo os pés no chão em sinal de impaciência, olhando o relógio e implorando para que a mãe dela entre no carro e dê sequência a viagem. Porque, aos 65, ainda se tem pressa de chegar.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 13h13
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- O preâmbulo

De Castelo.

Alberto e Justina tinham se conhecido na agência fazia dois meses. Justina era filha de um dos clientes, um importador de frutas exóticas. Alberto era o diretor de arte responsável por criar um sofisticado catálogo para melhorar as vendas dos produtos da empresa do pai de Justina. Ela, como estagiária de Alberto, o ajudou a encontrar imagens, referências tiradas de revistas.
Depois de semanas de trabalho, a peça ficou pronta e foi aprovada pelo marketing da empresa. Neste dia, quando Justina deixava a mesa de trabalho, Alberto a chamou e disse:
- Depois de falar de frutas por 15 dias, que tal se você me convidasse pra almoçar num lugar bem carnívoro?
Foram a um restaurante argentino.
Nervosa, Justina disparou a falar dela. Alberto ouvia, com jeito distante. Foi assim durante quase o tempo todo. E, só no final, resolveu abrir a boca.
- Seu riso é lindo - disse quase tecnicamente.
Justina corou. Não pensou que ele sequer prestasse atenção nela. Era um sujeito superocupado, ligado em marcas, briefings, reuniões.
Marcaram um encontro para o fim de semana. Justina escolheu dessa vez um japonês.

No restaurante bebeu meia garrafa de saquê. Saiu trançando as pernas e entrou no carro de Alberto gargalhando.
Ele lhe deu um beijo no pescoço. Justina não deixou por menos: enfiou-lhe a língua na boca.
Na volta para o apartamento, à cada semáforo, se beijavam demoradamente.
Na subida do elevador, Justina começou a fantasiar o que o chefe pediria para ela fazer na cama.
Passaram pelo closet de Alberto, típico de um diretor de arte - as roupas organizadas impecavelmente do claro para o escuro - e entraram no quarto.
Justina deitou-se.
O chefe voltou com um copo baixo de uísque e gelo. Bebeu uma golada ao mesmo tempo em que, subindo na ponta da cama, acertava um dos spots do teto na direção de Justina. Ela engoliu em seco, o coração palpitava como uma bomba relógio. Alberto ordenou:
- Tire a roupa.
Ela obedeceu maquinalmente.
Só a imaginação corria solta. Alberto a amarraria? Colocaria cravos em suas mãos e martelaria? Chamaria mais alguém para dividir a cama?
Alberto prosseguia com as ordens:
- Vira um pouco mais para a direita. Não, não. Vamos mudar. Dá uma girada só no rosto.
Deixa o corpo no lugar onde está. Ok.
A estagiária, dócil como sempre, seguia as instruções, como se fosse uma referência de layout. Ele corrigiu o spot de modo que a luminosidade recaísse toda sobre as costas dela.

- A bundinha mais na luz, pra cá, isso, lindo…

O preâmbulo já durava meia hora quando Justina caiu num sono ferrado.
Só foi despertar na manhã seguinte, bem cedo, a cabeça girando.
Alberto dormia na chaise long em frente à cama. Segurava o copo de uísque, ainda cheio de gelo, por sobre as pernas.
Justina saiu na ponta dos pés.
Foi a última vez que viu Alberto.
Na semana seguinte, passou a trabalhar como assistente do pai na empresa de importação de frutas exóticas.

Castelo escreve aqui no Blônicas todos os sábados.

Escrito por Blônicas às 13h23
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- O gênio sem lâmpada

De Henrique Szklo

Confissões de um arrivista incompreendido

Quando nasci, algum anjo sarcástico e galhofeiro quis me sacanear e me ungiu com a marca da vaidade não justificada. Me tocou e decidiu que eu seria um ninguém com aspirações interplanetárias. Um qualquer com presunções megalômanas. Um néscio com pose de gênio. Desde então minha vida tem sido uma seqüência de equívocos, um mar de desencontros, tempestades em copos de coca-cola.

Apesar de a culpa não ser minha, devo reconhecer que também não é só do anjo. Minha mãe, por exemplo, tem a sua parcela. Ficou a vida inteira me botando na cabeça que eu era uma espécie de reencarnação do Einstein. Me pedia toda hora para botar a língua para fora. Eu queria ser veterinário, como meu pai, mas conclui que cuidar de animais seria um desperdício de talento, por isso acabei escolhendo como profissão a publicidade, o lugar para onde naturalmente os gênios se encaminham.

Mas minha sina não se restringiu aos limites de minha casa. Bastou eu começar a trabalhar e ganhei um prêmio logo de cara. Medalha de bronze no Clube de Criação, o que apenas confirmou a opinião de minha mãe. Não tinha jeito, eu era mesmo um gênio. Fui ficando cada vez mais convencido de que era um talento excepcional e que cedo ou tarde o Washington e o Giba precisariam ser desmascarados.

Fui para a Lage, Stabel/BBDO, uma das agências mais legais da época, trabalhar com minha querida amiga Magy. A época mais feliz da minha vida profissional. Além de sucessivos aumentos salariais espontâneos, fui finalista do prêmio Abril com dois anúncios. Não estava mais cabendo tanta genialidade num corpo só.

De repente entediei. Não havia mais desafios para uma mente tão brilhante por isso resolvi viajar. Fui para a Europa e fiquei seis meses vivendo na maior dureza. Não gostei nem um pouco da viagem. Me trataram como um qualquer. Ninguém enxergou meu talento e inteligência, por isso minha bola baixou um pouco (não muito), mas continuava firme na minha postura de craque.

Quando voltei, não demorei muito para ser contratado pela melhor e maior agência da época, a MPM. Olha aí as coisas voltando ao normal. Pouco tempo depois, mesmo sem fazer parte da turma que mandava na criação, fui promovido à diretor associado de um grupo de contas. Aí eu tive a comprovação definitiva de que era gênio. Aos 27 anos estava em meu auge. Por isso é que a queda foi mais sofrida. Deslumbradinho com o cargo, meti os pés pelas mãos e acabei brigando com todo mundo. Minha genialidade não resistiu ao meu gênio.

Acabei saindo da agência e fiquei os sete anos seguintes amargando um ostracismo nada genial. O Enio Mainardi até me disse: “você é uma promessa que não deu certo”. Na época não gostei, mas depois continuei não gostando, porém contra fatos não há argumentos. Neste momento de escuridão profissional o que me salvou foi ter criado um anúncio para me vender ao mercado que me introduziu no mundo do humor. Me fantasiei de judeu ortodoxo e o escambau, mas não adiantou nada. Todo mundo achou genial, ganhei prêmios, etc., mas o meu objetivo, que era me lançar no maravilhoso mundo das agências criativas, falhou. Novamente o gênio fora vencido. Abri então uma confecção de camisas que as pessoas achavam geniais, a Ópera Bufa, mas minha admirável inaptidão administrativa sepultou o negócio em pouco tempo. Cheguei até a ter uma loja e publicava um jornalzinho idiota que as pessoas adoravam, o Tribufa da Ópera. Tem gente que até hoje diz tê-los guardados. A maioria nunca comprou uma camisa sequer, mas adorava o Tribufa. Genial, diziam. Tempos depois comecei a escrever na Revista da Criação e apesar de achar que ninguém lia minha coluna, podia ao menos sentir um pouco do gostinho de uma sutil genialidade.

Quando tudo parecia estar perdido em 97 voltei a ser diretor de criação de uma agência. Meu retorno triunfal. Diretor de criação, colunista da Revista da Criação, comecei a ir para Cannes escrever também de lá, enfim, o gênio estava de volta. O que comprova que o ego é como a dengue. Sobrevive anos encubado.
Mudei de agência para ser novamente diretor de criação. Lá lancei meu primeiro livro, comecei a escrever na Exame e depois lancei meu segundo livro. O gênio dentro de mim estava tão inflado que parecia que iria arrebentar minha pele e tomar o meu lugar. Saí da agência e resolvi abandonar a profissão. Afinal, minha genialidade nunca foi reconhecida pelos queridos colegas.

Escrevi outros livros, abri e fechei uma agência e hoje trabalho como freelancer, dei aulas na Panamericana, tenho milhares de projetos para TV, rádio, livros, revistas, internet, costas de figurinha. Quatro anos depois de minha diáspora profissional estou falido, quebrado mesmo, mas não me arrependo. Depois de tanta batalha, tanta grama ingerida, tanto sapo engolido, tanta energia desperdiçada estou fazendo o que gosto. Estou devendo até a alma, mas quem tem de se preocupar com isso são meus credores.

O complexo de Einstein não me persegue mais. Até minha mãe já jogou a toalha e assumiu para ela mesma que me acha um medíocre. Mas eu ainda acredito. Eu ainda tenho fé. Veja o Max, por exemplo. Pelo jeito que ele me olha e abana o rabo tenho certeza de que pelo menos alguém no mundo ainda acredita na minha inquestionável genialidade.

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas, deve uma fortuna aos bancos e tem um gênio péssimo. Leia seu site,  o blog da mãe e participe da Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas às 11h51
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- O que precisa ser dito

De Leo Jaime.
 
Ele acende um fósforo entre  seu rosto e o dela. Sustenta-o ali até que a chama se acalme. Valoriza o instante, o efeito, o clarão que antecede a nuvem de fumaça da primeira baforada. Talvez ela não perceba que aquela expressão angustiada em seu rosto, todas as vezes em que ele acende um cigarro, seja absolutamente desnecessária. Não é que a fumaça o incomode - afinal ele é um fumante! -, mas há algo de canastrão em sugerir um inexistente pensamento angustiante a lhe maltratar feições e formar rugas que a idade ainda não conferiu. Inconscientemente ele sempre usa o mesmo golpe. Ela cai? Nunca comentou nada. Vai ver acha sexy. Talvez imagine que ele sinta muitas coisas que não consegue expressar. Pausas são boas para isso: fazem a imaginação do interlocutor acelerar em busca de significados. E ela, com o coração disparado, não conseguia parar de procurar sentidos com os olhos. A fumaça subiu lentamente.
 
Ela se parecia com alguém. Alguém que tinha as mesmas promessas no olhar. Aquele olhar que agora estava nublado e sujeito a pancadas no final do período. Ele se parecia com alguém que achava ter sido. Alguém escolhido em meio a milhões. Aquela cena se parecia com alguma outra que não lhe ocorria naquele instante. O instante da pausa antes da próxima palavra, antes da próxima cena. O momento exato em que ele compreendeu que ela não era, e nem ele, quem ele imaginava que seriam. E nem aquilo era o que parecia ser. Algo estava se rompendo naquele momento mas não era com a dona daqueles olhos em que ele se refletia. Diante da enorme crueldade da revelação, era preciso imaginar o que dizer.
 
Alguém transformara seu jardim do amor em um deserto e era com esse fantasma, com essa imagem que, ali, ele encerraria as contas. Os olhos vermelhos que adivinhavam seu vazio eram só a alma exposta de uma mulher que acreditara em algo que ali estivera, muito tempo atrás. Guardou os fósforos de hotel no bolso do paletó. Virou o rosto. Sim, era melhor evitar qualquer sinal irreal de compaixão, e começou.
 
A arte de partir corações não exige muito preparo.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h19
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- Regras de conduta

De Rosana Hermann.

 

Moisés atravessou o deserto durante quarenta anos em busca da terra prometida. E, claro, com seiscentas mil pessoas paranóicas, cansadas, desconfiadíssimas sobre a existência ou não de Canaã, com problemas até a tampa, não faltaram críticas e ataques de todos os lados. O que foi uma grande maldade com Moisés porque ele estava fazendo isso de graça, cumprindo ordens bem superiores e, enfim, estava na mesma situação de todos.  O Todo-Poderoso, que acompanhou Moisés de perto, vendo aquele bando de mal-agradecidos, chegou a se arrepender de ter criado a raça humana. E Lhe ocorreu que, ora bolas, se ele tinha criado aquela criatura tão deselegante e agressiva, de mente tão nefasta, o ser humano, um poço de queixas e ingratidão, Ele bem que poderia destruir tudo e fazer uma gente mais gentil. Veja bem, D’us não quis destruir Moisés, mas o povo que ele liderava. Nem sempre a maioria tem razão. Mas aí veio Noé e fez a arca pra salvar um par de cada exemplar de criaturas e foi aquela água.

 

         E o que temos agora? Um novo povo? Não. Somos todos descendentes dessas mesmas pessoas que reclamam o tempo todo. Até hoje. A diferença é que naquela época todo mundo dava a cara pra bater. Não tinham endereço, porque ninguém sabia o CEP do deserto do Egito, mas todo mundo tinha nome. E rosto. Eram filhos de alguém. Bem diferente de hoje, quando a Internet possibilita que todo mundo atravesse as urls dos vários desertos da rede, xingando e criticando no anonimato. Mesmo que você leve a pessoa para a terra prometida, ele vai criticar você. Mesmo que você trabalhe de graça, leve-a para links maravilhosos. Mesmo que você escreva cinqüenta mil posts úteis, se ela encontrar um com o qual não concorda, dirá que você não é mais o mesmo, que o blog virou uma merlin e a partir daí, xingará você sempre. Por isso, é preciso ter algumas regras.

         Para sobreviver num blog, tenho uma regra particular: não aceito insultos de pessoas que se conectam com meu, com seu, com nosso dinheiro, o dinheiro público. É sempre melhor a convivência pacífica, a crítica construtiva. Mas se alguém quiser escrever críticas destrutivas ou ofensas leves, tem que pagar a própria conexão pra fazer isso. Acho o fim da picada uma pessoa que está numa repartição pública, uma autarquia, um órgão municipal, estadual ou federal, em horário de trabalho e usa a conexão para pelo povo, pra ficar ofendendo pessoas em blogs. Porque ela não está estudando, pesquisando ou buscando informação, está apenas praticando a encheção de saco bíblica. Até D’us se arrependeu de ter criado o homem, imagine se os blogueiros já não passaram por esta sensação de arrependimento de publicar abertamente para levar pedradas.

         O que eu faço? Pego o IP da criatura, ligo pra ouvidoria do órgão em questão, mando email pra todo mundo, boto a boca na rede. Eu não fiz nada contra a pessoa, não a conheço, não sei quem é, não posso vê-la atrás de seu anonimato. E recebo dela um bando de xingamentos, ameaças a outros leitores, ofensas pessoais, agressões gratuitas, avulsas, sem motivo algum. Então, se tudo o que eu tenho é um IP é através dele que faço justiça com meus próprios cliques. Para que ela aprenda que para cada ação há uma reação. Que aqui se faz, aqui se paga. Que a gente colhe o que planta. E todos esses outros chavões sobre os feitiços virando contra os feiticeiros.

 Eu voto, eu luto, eu quero um país democrático e não vou sustentar funcionários da máquina pública que usam meu dinheiro pra me ofender anonimamente online. Como? Se eu aceito ofensas de conexão privadas? Ah, no caso das privadas, é mais fácil. É só apertar o botão e deletar. Com a ajuda de D’us.

 

Rosana Hermann escreve aqui de quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h30
[]


- Agora eu quero um revólver de natal

De Nelson Botter.

 

Semana passada mataram uma vizinha de rua na frente do prédio dela. Um ladrão pediu a bolsa, ela se assustou e esboçou um movimento defensivo. O cara, armado, não esperou pra ver o que ela ia fazer. Bang! Na cabeça. Morte instantânea, a calçada cheia de sangue, o ladrão correndo e as pessoas apavoradas na rua. Sim, foi em plena luz do dia, mais precisamente às 17 horas, ou seja, tinham várias testemunhas de olhos arregalados, boquiabertas com tal selvageria. Aquela arma não era uma AR-15, nem uma bazuca, era apenas um revólver como os que todos continuarão comprando após o resultado do referendo. Arma legal ou fria, é arma. Aí eu me pergunto: e se ela estivesse armada? Teria ela sacado e atirado? Teria ela exercido o direito de se defender? O tiro foi rápido e cruel, sem chance alguma de reação. Um simples movimento fez com que o ladrão, na dúvida do que ela poderia fazer, atirasse sem hesitação. Só há uma certeza nessa história: além da bolsa, o ladrão teria ganho mais uma arma.

 

O cidadão de bem no domingo deu uma resposta aos governos estaduais e federais. Disse que não está contente com a política de segurança pública e que quer continuar com o direito de poder se armar. Motivos para isso não faltam, aliás, muito bem explorados pelos profissionais que produziram a campanha do "não". Um 'case' fantástico para a publicidade brasileira. Reverteu-se um quadro de 76% do "sim" no início da pseudo-discussão. A virada foi incontestável, baseada nos argumentos mais fortes e mais bem explorados da campanha do "não".  Quem bancou, leiam fábricantes de armas, deve estar rindo até agora. Talvez se a campanha do "sim" fosse mais eficiente, manteria a larga vantagem do início, mas isso não ocorreu.

 

Agora, existe o outro lado da moeda, pois o mesmo cidadão de bem que votou pelo não desarmamento votou pela manutenção dessa sociedade caótica de hoje, em que uma mulher é executada num assalto sem ter feito nada. O desarmamento não daria solução para isso, eu sei, só se combate a violência com punições rigorosas, educação e equivalência social. Entretanto, o fato de haver menos armas seria um primeiro passo para acabar com toda uma cadeia de acontecimentos que faz com que o bandido fique cada vez mais armado. "O desarmamento era uma forma de deixar o povo desprotegido contra os bandidos", dizia a campanha do "não". Mas a pergunta que eu faço é: e ela hoje está protegida?

 

Levou-se muito em consideração essa coisa "bandidos x sociedade", mas e a "sociedade x sociedade"? Falando sério, é um perigo deixar um monte de louco poder andar armado por aí. E não são bandidos não, estou falando do tal cidadão de bem. Comprar uma arma legal é difícil, precisa até de teste psicológico, mas arma fria tem em qualquer esquina. Com a proibição, a arma fria seria mais crime ainda. Ajudaria a diminuir esse comércio ilegal. Meu vizinho pode ser louco e ter uma arma. Um dia posso discutir com ele e tomar um tiro. A sociedade é doente e o referendo apenas evidenciou isso. Espero ter escrito um monte de bobagem, espero estar muito errado, caso contrário... salve-se quem puder.

 

Nelson Botter escreve aqui todas as terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h30
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- Na fachada está escrito: isso é um muquifo de solteiro

De Xico Sá.

 

Noves fora o “homem de predinho antigo”, aquela criatura que adora um pé-direito alto, um sofá de época e uma luz indireta, o macho solteiro é um desastre no capítulo decoração. Tem lá o seu sofá velho, a sua tv, uma cama barulhenta, três ou quatro panelas _sem cabo_ encarvoadas pelo tempo, e copos de requeijão, muitos copos de requeijão, alguns deles ainda com um pedaço do papel do rótulo. Se brincar, o cara coleciona também os velhos copos de geléia de mocotó, um primor de utensílio “vintage”.

E quando a fofa, toda fina e fresca, nova namorada, chega lá no “muquifo”  com a sua garrafa de champanhe?! Procura, procura as taças, para fazer uma graça com o marmanjo, e nada. O jeito é beber Veuve Cliquot em copo de extrato de tomate. Quem mandou apaixonar-se por um macho-jurubeba autêntico, que vem a ser justamente o avesso do metrossexual, aquele mancebo da moda que se lambuza de creminhos da Lancôme e decora o loft, sim, ele mora num loft, de acordo com as tendências da revista “Wallpaper”.

“Uó-o-qué, rapaz, seje homi”, diria meu amigo Rinaldo, lá no sítio Acauã, de Chã Grande. 

Pior é quando ela tenta mudar tudo. E põe aquele seu quadro caríssimo e de grife numa sala que não tem nem mesmo um sofá que preste?!

 Um desastre.

A fofa, toda classe média metida a besta, não desiste nunca. Ai presenteia o bofe _sim, ela está doida e perdidinha pelo cabra!_ com uma batedeira prateada ultramoderna com 600 funções, que nunca será usada. Ai fica aquela batedeira high-tech fazendo companhia aos três pratos chinfrins e aos garfos tortos _como se o Uri Geller, aquele parapsicólogo que aparecia no “Fantástico” das antigas, tivesse jantado por lá ou feito faxina na área.

Ela começa a revirar geral, um deus-nos-acuda, numa casa onde ninguém havia mudado sequer uma planta de lugar. O reino vegetal, aliás, é outro ponto fraco do macho solteiro. Jarros, flores? Nem de plástico.   

Na casa do homem solteiro típico, a utilidade triunfa sobre a estética. O cúmulo do utilitarismo. Sofá da tia-avó vira cama, como diz a minha amiga D., co-autora dessa crônica.  A cama vira sofá, a rede vira sofá e cobertor, o cobertor vira cortina preso à persiana...

A falta de cortina é outra marca registrada do desmantelo do cavaleiro solitário. Quando muito, papel filme.

 Abajur? De jeito maneira. Tosco no último, ele não tem cultura de luz indireta, nem nunca terá, esqueça.

Outro traço de personalidade do macho solteiro: tudo que chega até a cozinha vira tupperware _aquelas embalagens plásticas de lasanha comprada pronta, caixinha de entrega de comida chinesa ou japonesa, potes de sorvete...

Melhor assim do que as frescuras do ex da minha amiga D., a mesma rapariga acima citada. Ela entrou na casa dele e logo ouviu a advertência, em altos brados: “Não pisa de salto no meu carpete de madeira!”

“Nooooosssssa!,” arreganharia a bocarra o velho Costinha, se vivo fosse.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 14h51
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- Crendices dominicais
De Milly Lacombe.

Não acredito em coisas como vida após a morte, ou em um Deus controlador que se preocupa com o destino e a ação de cada homem e mulher sobre a terra. Mas acredito piamente em café-da-manhã. Acredito tanto que domingo é o único dia em que acordo voluntariamente cedo. Para nada além de fazer o café e pegar o jornal na porta dos fundos. E o ritual de sentar, beber, comer e ler, sem hora para ser interrompida, é uma de minhas crenças mais inabaláveis.
Mas tenho outras crenças. Acredito, por exemplo, em Nietzsche e Eça de Queirós. Acredito em torta de limão, em Lennon e Bonno Vox. Acredito em Che e Clarice. Em Machado e Nelson. Acredito em estádios lotados para uma boa partida de futebol e que existam entre nós, hoje e sempre, profetas que passam, pela arte, o recado que vem de um Deus que, como disse Einstein, está revelado na harmonia de tudo o que existe. Acredito em suchis e sachimis, no Deus de Espinosa, aquele que se manifesta nas coisas materiais, e no de Platão, presente em todo e qualquer homem e mulher.
Acredito também em doce-de-leite e em Einstein quando ele afirma que o comportamento ético dos homens deveria se basear na simpatia, na cordialidade, na educação e nos laços sociais. E que, para isso portanto, não é necessário base religiosa. “Os homens estariam em péssima situação se tivessem que ser controlados pelo medo da punição divina ou pela esperança de salvação após a morte”, escreveu o físico em 1930. Estamos, portanto, em péssima situação.
Somos, ainda, animais profundamente imaturos. Não conseguimos nos aceitar, nos celebrar, nos amar pelo simples respeito que deveríamos ter à vida e ao divino. Somos orientados pelo medo da punição. Estamos dispostos a trocar liberdade por segurança. Sempre. E a qualquer preço.
Vivemos em um dos países geograficamente mais abençoados do mundo. Somos, acima de tudo, um povo gentil e bondoso. É essa nossa índole. Mas não basta. Porque insistimos em nos odiar, em nos agredir, em nos cutucar, em nos violentar diariamente.
Para justificar o português Eça: “O Brasil pode contar com um soberbo futuro histórico, desde que se convença que mais vale ser um lavrador original do que um doutor mal traduzido do francês”. Ainda não nos convencemos disso, e talvez por conta dessa falta de delicadeza observatória tenhamos aqui uma das elites mais cafonas do mundo. Aliás, nada pode ser mais cafona do que ser milionário em um país miserável.
Mas nem sei como cheguei aqui se tudo isso era para dizer apenas que eu acredito piamente mesmo em café-da-manhã.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 14h37
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- Aluga-se espaço aconchegante
De Castelo.

- Alô? Por favor é daí que estão alugando um útero?
- Viu nos classificados de Negócios e Oportunidades? Ao lado do anúncio do homem que está trocando a carótida por um casal de curiós?
- Isso, isso.
- Então é aqui mesmo.
- Agora me diga, como é o seu útero?
- Ah, muito acolhedor. Até hoje meus inquilinos só falaram bem dele.
- Espaçoso?
- É um útero duplex. Dois ambientes completamente independentes. O de baixo, em L, pode ser usado como living. Em cima, fica o dormitório.
- A vizinhança é...
- Sob controle. O único problema é quando as trompas ensaiam. No mais é um sossego.
- Qual seria o valor do aluguel?
- Econômico ou flat?
- Como?
- Explico. O aluguel flat tem serviço de hotelaria. O senhor não precisar se incomodar com nada. Estarei à disposição 24 horas por dia. Qualquer coisa, basta que me dê um chute na barriga.
- E o econômico?
- Se o senhor me chutar, devolvo o chute. Mas o útero é o mesmo. Para o flat cobro dois mil reais por mês, o econômico é a metade. Fora o condomínio.
- Condomínio? Por acaso, o seu útero tem porteiro, playground, piscina?
- E o senhor acha que, com esse arrocho da economia, eu tiro minha margem de lucro de onde? Do Caixa 2?
- Justo, justo. Uma outra dúvida: se um inquilino precisa ocupar o útero por mais de nove meses, ele tem opção de compra?
- Teria, em termos. Mas geralmente a proprietária consegue o alvará de despejo alegando ao juiz que vai usar o útero para fins particulares.
- Que tipo de fins particulares?
- Eu lhe garanto que usar pra salão de festa é que não é, meu senhor.
- Seu útero está vago no momento?
- Está vago.
- Então, como poderíamos formalizar contrato, essas coisas.
- Basta o senhor vir até aqui e assinar a papelada.
- Irei à tarde.
- Desculpe perguntar, mas o útero é para o senhor mesmo ou pra outra pessoa?
- Eu mesmo vou morar. Após anos de análise, concluí que nunca deveria ter saído de um útero. O mundo aqui fora anda afetando bastante os meus nervos, sabe?
- Muito bem. Aguardo o senhor para a assinatura do contrato.
- Perfeito.
- Até logo.
- Até. Ah, só mais uma coisinha: daqui pra frente, posso lhe chamar de mamãe?

Castelo escreve aqui no Blônicas aos sábados.
Escrito por Blônicas às 10h39
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- Por que SIM?
De Antonio Prata.

Ontem fui ao xérox da PUC e ouvi um aluno dizer pro outro que iria "votar NÃO, claro, porque esse referendo era o primeiro passo pra uma ditadura que o LULA estava preparando e que se o SIM ganhasse ele iria comprar um lança pregos numa loja de construção". Aí, bom, percebi o tamanho da encrenca e resolvi botar a boca no mundo.

Sei que você, mesmo que pense em votar NÃO, riu da frase do biruta da PUC. Acontece que essa é só a posição mais extremada de alguns dos argumentos que estão rolando contra o desarmamento. Se tiver paciência, boa vontade e estiver realmente interessado no assunto (assunto que mata 40 mil pessoas por ano), por favor, continue a ler esse texto. Vou tentar refutar alguns dos argumentos do NÃO, enquanto falo das razões para se votar SIM. (O argumento da ditadura do LULA, acho, não precisa de resposta, né?)

Legítima defesa: muitos defensores do NÃO dizem que o Estado quer tirar do "cidadão de bem" (depois falamos desse cidadão aí) o direito de se defender. Se os dados mostrassem que uma pessoa armada está mais protegida do que uma desarmada no caso de um assalto, eu concordaria. Acontece que, num assalto, uma pessoa armada tem 57% mais chances de ser assassinada (Dados do ISER, um grande instituto de pesquisa do Rio). Segundo o FBI, pra cada vez que o "cidadão de bem" se salvou sacando uma arma contra o bandido, 187 vezes o bandido levou a melhor.

Estão me tirando um direito!: Sim, meu caro, estão te tirando um direito, mesmo! A vida em sociedade é assim, a gente abre mão de algumas liberdades individuais em prol da coletividade. Há mais de cem anos, se você não gostasse desse meu texto, poderia me chamar pra um duelo. Era legal. E eu, como não poderia amarelar, teria que aceitar. Aí isso foi proibido. Era o Estado metendo seus terríveis tentáculos na vida privada? Era! Que bom. Até umas décadas, se eu descobrisse que minha mulher transou com outro cara, poderia matar os dois e ser absolvido alegando "legítima defesa da honra". Agora não posso mais. Tiraram um direito meu?! Sim, tiraram.

Cheguei a ouvir de um cara inteligente que ele iria votar NÃO porque sua geração havia cantado pelas ruas "É proibido proibir". Bem, imagino então que depois do referendo todos aqueles que apóiam o NÃO sob esse argumento anarquista vão abolir a constituição, a polícia, o Estado e sairão todos pelados cantando Geraldo Vandré pela Paulista. Quem diria que um dia veríamos, lado a lado, Foucault e Cel. Ubiratã, Henry David Thoreau e Erasmo Dias, Thomas Jefferson e Fleury...

São 40 mil mortes por ano. Os EUA bombardearam o Iraque e ainda não conseguiram tanto em mais de dois anos. Vamos deixar que isso continue porque nosso imenso narcisismo não permite que nos "tirem um direito"???

Vão desarmar o "cidadão de bem" e não os bandidos: Bem, chegamos a esse tópico complexo. O cidadão de bem. Hum... Hum... Vamos lá. Sabe quantos por cento das pessoas são assassinadas pelos bandidos? 5%, segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública. Ou seja, 95% das mortes por arma de fogo no Brasil são causadas pelo... Cidadão de Bem! Mais ainda: se você tem uma arma pra se proteger daquele ladrão que veio lá de longe te matar, saiba que em 60% dos crimes por arma de fogo, vítima e agressor se conheciam e moravam a menos de 500 metros um do outro.

O problema maior não é a bandidagem e o desarmamento não vai, nem pretende, resolvê-lo. O problema é que as pessoas estão brigando e estão armadas. A diferença entre o olho roxo e a morte é a arma de fogo.

Outra coisa: 90% das armas apreendidas pela Polícia Federal nos últimos dez anos nas mãos dos bandidos foram, primeiramente, compradas pelo "cidadão de bem". Quer dizer, o "cidadão de bem" vai feliz com a família ao shopping, domingão, chinelo rider no pé. Aí entra na Bayard, compra seu 38 e volta pra casa, sentindo-se o próprio Bruce Willys. O "cidadão de bem" é assaltado, levam a sua arma e pronto, o três oitão do Batman está nas mãos do Coringa...

Não vai adiantar, ninguém respeita lei no Brasil, nem adianta: É claro que vai ser possível comprar arma no mercado negro, assim como já é. Mas vai ser mais difícil, e mais caro também. Se o argumento é que nenhuma lei "pega" no Brasil, então voltamos pro tópico anterior, queimamos a constituição e vamos lá, pelados, cantar Geraldo Vandré...

O efeito Fagner: "Esses artistas que tão fazendo campanha pro SIM são os mesmos que falaram pra votar no LULA. Agora olha só". É uma maneira curiosa de olhar as coisas. Sob a ótica de "toda unanimidade é burra", fazer sempre o contrário da maioria. Nelson Rodrigues, quando escreveu a frase acima, não imaginava que ela iria, também, virar uma unanimidade e, assim, tornar-se burra. É a mentalidade Revista Veja. Não importam muito os fatos, os dados, as questões que estão sendo debatidas. Se uma boa parte do povo acadêmico-artístico-de-esquerda apoiar, soy contra. Soy contra porque quero ter a opinião supostamente mais inteligente, soy contra porque a esquerda tá fora de moda, soy contra porque o Caetano é chato, soy contra porque não tenho saco de ver o Zé Celso pelado, soy contra porque soy contra, que saco!

Votar NÃO não protege a sua vida nem a da sua família, pelo contrário. Votar NÃO não abala as bases do ESTADO rumo a um mundo mais livre. Votar NÃO não é a opção de quem "vê mais longe do que esses chatos da esquerda". Votar não é garantir que o Brasil continue a ser o país em que mais gente morre assassinada por armas de fogo em todo o mundo (UNESCO). Votar SIM nos tira desse caminho? Há muitas razões para se acreditar que SIM. E nenhuma que garanta que NÃO.

Boa sorte para nós todos.

Antonio Prata é cronista do Blônicas
Escrito por Blônicas às 10h37
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- Sexta-feira da paixão

De Henrique Szklo

Estou perdidamente apaixonado por duas mulheres ao mesmo tempo

Às vezes tenho a nítida sensação de que se for verdade que a vida conspira a nosso favor, o que seria de mim se ela conspirasse contra. Cada coisa que me acontece que eu vou te falar. Minha última aventura é essa que está descrita no subtítulo do artigo. Não é ridículo? Como é que pode uma pessoa estar realmente apaixonada por duas pessoas ao mesmo tempo. É um contra-senso. A paixão pressupõe foco total e absoluto num outro indivíduo. Nada mais importa, nada mais faz sentido, nada mais se justifica. Portanto como é possível uma pessoa conseguir dividir o indivisível? O último que conseguiu isto criou a bomba atômica. Pois é, é o que está acontecendo comigo neste exato momento: dois lindos raios caíram no mesmo lugar ao mesmo tempo, ou seja, no meu coração. Estou eletrocutado de amor. Desculpe, mas não tenho como evitar uma certa babaquice típica dos apaixonados. Saiba que apesar disto resisti bravamente para não dar o título deste artigo de “Entre dois Amores”. Parece que consegui.

Meu coração, que já não é muito avantajado, está dividido em dois. Uma se chama Meu Número e a outra é a Nora que Mamãe Pediu a Deus. Não são seu nomes verdadeiros. Além de querer preservar minha intimidade, uma delas tem um marido que anda por aí com a orelha toda amassada puxando um pitbull. Vamos simplificar e chamá-las apenas de Número e Mamãe. Não, acho melhor chamar esta de Deus. Quer dizer, vamos ficar com Nora e não se fala mais nisso.

Fica até difícil pra mim, que sou muito honesto, conseguir dizer aquelas coisas que toda mulher gosta de ouvir. Na verdade quando eu me declaro para uma delas sou obrigado pela minha consciência a dizer coisas como “você é 50% pra mim”. “Estou meio apaixonado”, pois que “completamente” seria mentira. “Penso em você 12 horas por dia, ininterruptamente”. “Minha vida sem você perderia metade do sentido.” Em vez de dizer “fico meio bobo na sua presença” tenho de dizer “fico ¼ bobo...” e por aí vai. Acabei desistindo de me declarar às duas.

Em ambos os casos, porém, nada ainda aconteceu. E talvez nem aconteça. Tanto com Número quanto com Nora estamos só naquela fase do flerte, do xaveco, do olhar prolongado e silencioso, da tentativa idiota de esconder os sentimentos, do platonismo. É uma fase gostosa mas muito desgastante. Tenho de ficar o tempo todo interpretando gestos, palavras e olhares. Tudo a meu favor, claro. É lógico que Número está a fim. Ela só me despreza totalmente para me provocar. Nora deu um tapa na minha cara porque me ama. Número estava lá aos beijos com aquele cara só para me fazer ciúme. Nora está planejando ter um filho com o marido porque não pode viver sem mim. Não é fácil ser tão desejado, mas até que eu administro isso bem.

Os problemas operacionais, porém, são dos mais sérios. Tenho de gastar o dobro em presentes e jantares. Tenho de tomar o maior cuidado para não misturar os assuntos que converso com uma ou outra. Não posso confundir aniversário, nomes de parentes, tamanho do pé e das roupas. Resolvi facilitar as coisas e contar para as duas o que está acontecendo. Eu disse facilitar as coisas?

O pior é que não dá para escolher. Ambas são lindas, inteligentes, gostosas, realmente maravilhosas, para casar, e têm qualidades que me atraem profundamente. Já tentei até buscar um outro tipo de ajuda. Consultar os oráculos para ver qual seria a melhor solução. Se depender da astrologia, minha afinidade é muito maior com a Número. Já o tarô acha que o meu negócio é a Nora. Um amigo meu acha que eu deveria tentar ficar com as duas ao mesmo tempo. Já o Max, meu cachorro, acha que eu deveria ficar sozinho. Aliás, o Max está muito estranho desde que contei para ele esse meu problema. Anda calado, chorando pelos cantos da casa, macambúzio, rabo entre as pernas. Acho que ele está com ciúmes. Fazer o que? Nunca prometi nada para ele. Se ele tinha alguma esperança foi fantasia da cabeça dele.

O que o Max por ser cachorro não sabe também é que para se esquecer um amor, só com outro. Isto significa que eu vou ter de me apaixonar mais duas vezes se eu quiser esquecer as duas ao mesmo tempo. Parece uma missão impossível. Mulheres assim a gente não esquece por que quer. Aliás quanto mais a gente quiser esquecer, mais vai lembrar.

É claro que tem as suas vantagens. Eu tenho o dobro de chances que uma pessoa normal tem de ser feliz e encontrar a sua companheira. Todo mundo passa vida procurando sua metade e eu encontrei duas. Dificilmente eu vou levar um pé na bunda, no máximo em uma banda de cada vez. Quando Número está de TPM a Nora está no auge da empolgação, e vice-versa. Quando uma me magoa, eu corro para os braços da outra. E quando as duas estão meio chatinhas eu vou passear com o Max. É perfeito.

No fundo acho que não quero que dê certo com nenhuma delas mesmo. Com certeza a fantasia de tê-las é muito mais interessante que qualquer realidade. Detestaria ter de escolher e abrir mão de Número ou Nora. Parece até que elas já fazem parte de mim, são minha carne, meu sangue, minha alma, não sei mais viver sem elas e... que curioso, enquanto eu estou escrevendo estas linhas passou aqui na rua uma moça bem interessante, do jeitinho que eu gosto. Ela ainda me olhou de um jeito que me deu até frio na espinha, mexeu comigo. Espera um pouquinho que eu já volto...

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas, está inseguro, vulnerável, mas acredita que o amor é lindo. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h16
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- A caminhada aos domingos

De Leo Jaime.

    A humanidade é acometida, de tanto em tanto, por severas alucinações coletivas. Seja na forma de crenças - e me recordo de alguém que dizia que a fé era a crença ilógica na ocorrência do improvável -, de comportamentos ou de simples e genuínas neuroses. Por exemplo: de uns tempos para cá todo mundo resolveu que caminhar é uma coisa fundamental. E não é um caminhar qualquer, tem que ser na beira da praia e aos domingos. Ou no Ibirapuera e equivalentes.
    Sou daqueles que acha uma tarde no centro um dos melhores programas para as férias. Muito melhor do que o zoológico, o passeio no centro da cidade, nas ruas apinhadas e em meio ao povaréu me dá um prazer imenso. Gosto de observar o lento escoar das massas, de ver os tipos e imaginar suas cenas, suas histórias, suas falas, seus dramas. Como se fosse um autor a quem os personagens chegassem prontos como brindes numa caixa de biscoitos, invento histórias. Nas praias ou parques, aos domingos, posso dizer que o deleite é ainda maior.
    Desde que existe mar existe, também, a beira do mar. Me perdoe se estou grifando o óbvio. Parece-me alucinatório que só de uns tempos para cá a massa tenha se dado conta disso. Andar na beira-mar sempre foi bacana e, no entanto, só virou moda recentemente. A moda de sair correndo, sem mais nem menos, no que se apelidou de "fazer cooper" é outra maluquice do gênero. Mas não se pode sair correndo em qualquer lugar ou com qualquer roupa. Tem que ser na hora e do jeito que todo mundo vai. Como num baile a fantasia.
    O que me delicia nesses desfiles pela orla ou parques é a quantidade de personagens interessantes e tipos esquisitos. Se na cidade todos parecem envolvidos em alguma missão, e estão apressados, na praia parece que estão perdidos, sem saber ao certo o que os trouxe ali ou como aproveitar o tempo livre. Vão seguindo a boiada e fazendo aquilo que se denominou como sendo lazer. É absurdo, mas talvez o que me fascine nas pessoas que passam seja a impessoalidade delas.
    No consumo acontece o mesmo: de repente aparece mais um eletrodoméstico que todo mundo tem que ter. O freezer, o DVD, o fax, a TV de 29, o CD, o microondas etc. Tem coisa que todo mundo tem e ninguém usa. E um detalhe: ninguém lê os manuais. O camarada exige um aparelho de dvd que faz tudo, menos beijar na boca, e a única função utilizada será a reprodução pura e simples do filminho alugado. Mas é assim que a multidão age, é assim que ela se comporta, e é assim que eu gosto de observá-la.
    Vejo na madame que passa com o cachorrinho e que vira a cara enquanto o animal suja a calçada, uma brasilidade incrível. Séculos de brasilidade.

Leo Jaime escreve todas as quintas no Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h31
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- Somos todos inocentes

De Rosana Hermann.

 

O problema de tentar compreender todos os fatos em profundidade é que em última instância, somos todos inocentes. Todos, sem exceção. Pegue um exemplo recente, do estudante de jornalismo que assassinou o colega dentro da rádio USP. Ele premeditou o crime, levou a faca, golpeou o jovem, que veio a falecer. Mas o assassino tem problemas mentais. Estava em tratamento e tinha suspendido a medicação voluntariamente. E fez isto durante um surto. Como todos sabemos, problemas mentais tornam as pessoas inimputáveis. Não se pode imputar culpa a um doente mental. E, partindo-se do princípio que todo mundo que mata alguém é definitivamente louco, ninguém seria culpado.

 

E não falo só de crimes fatais, de assassinatos, de homicídios dolosos. Todo mundo tem um motivo, todo mundo tem uma explicação, todo mundo faz coisas erradas em momentos de descontrole. E, convenhamos, ninguém tem culpa de se descontrolar.

 

Sim, porque, a loucura, o descontrole, as manias, as obsessões, são todas doenças involuntárias. Ninguém escolhe ser doente, ser maluco. O assassino também é vítima da própria doença. O mesmo acontece com os viciados. O viciado já nasce com uma pré-disposição ao vício. É uma vítima também. E enquanto muitos podem beber sem tornarem-se alcoólatras, a pessoa que nasce com esta tendência precisa ficar se policiando para não virar um dependente. A pessoa não tem culpa.

 

Não é ironia, é fato. Boa parte do que somos já vem na carga genética, como a tendência à obesidade. Não tenho culpa de engordar facilmente, já veio no meu DNA.

 

Ninguém tem culpa de ser o que é, ninguém tem culpa do que lhe acontece. Até mesmo um idiota que pega um automóvel para tirar um racha e atropela um inocente, pode ser visto como um inocente. Ele nasceu idiota, tem um parafuso a menos na cabeça. Senão, não sairia por aí tirando racha com um carro, uma coisa sem sentido.

 

Eu também acho isso assustador e muito imbecil. Mas veja, eu não tenho culpa. Hoje é quarta-feira, é dia de blônica pra mim e eu só consegui pensar neste assunto. Eu poderia ter pensado em outra coisa, mas não tenho culpa, não consegui, estou com TPM, minha cabeça não está funcionando bem, é horário de verão e eu não durmo direito desde domingo. O Botter, o zelador do Blônicas também é inocente. Ele não tem culpa de eu estar aqui, foi idéia do Carneiro, que também não é culpado. Carneiro é meu amigo, é um sujeito bacana e talentoso, nasceu assim.

 

E apesar de toda a nossa inocência, de toda nossa falta de culpa, vou me render às evidências deste texto tão estranho e pedir, com todo o coração, desculpas.

 

Rosana Hermann escreve aqui às quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 16h57
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- A saga dos mistérios - Parte III

De Nelson Botter.

NA CORRERIA

Por que quando perguntamos para uma pessoa como ela está, a resposta é sempre aquela: "Tô na correria". Eu fico me questionando se essa resposta padrão é dada porque virou moda ou se as pessoas vivem correndo, batendo recordes da maratona. Talvez elas tenham voltado do parque naquele momento, mas não, depois me lembro que estavam trabalhando... Hmmm, talvez esteja aí a explicação...

Trabalhar estressa e enche o saco. Até quem trabalha com o que gosta (uns 400 em 6 bilhões de pessoas) acaba desse jeito. O trabalho diário provoca altos piques, tanto para sua mesa quanto para a do chefe, fazendo escalas na caixa de e-mail, telefone e um ou outro colega que tem piada nova para contar, mas que você nunca consegue escutar até o final porque tem sempre outra pessoa de nível hierárquico maior que te chama antes da anedota terminar, causando um certo sentimento de frustração na pessoa que estava contando, "aquele idiota nunca me dá atenção", criando assim um ambiente de trabalho não muito favorável e harmonioso para você, que  contribui diretamente para que quando o relógio marque 18 horas você saia correndo de lá, apesar de que você já estava na correria... ufa, cansei.

Pois é, depois por causa dessa correria toda, ainda tem quem pegue a hora do rush (mais correria, só que em inglês). Mas além disso, precisa passar no supermercado, pois o papel higiênico de casa acabou, depois pegar o filho na casa da mãe, afinal com a correria do dia-a-dia fica impossível pegar o filho na escola. Mais do que isso, precisa voar para fazer o jantar e aí você descobre que já está muito tarde para correr na esteira, mas na verdade você nem precisaria, pois já está na correria o dia todo. E por aí vai, até o dia seguinte, quando você acorda atrasado (na hora do sono não há correria) e tem que sair correndo, mesmo sem vestir tênis, camiseta e shorts.

Pensando bem, agora entendo o motivo das pessoas sempre trocarem o "está tudo bem" pelo "estou numa correria danada". E entendo mais ainda que esse estilo de vida é algo meio que obrigatório nos dias de hoje, o que faz com que todo mundo diga que está na correria, mesmo não estando, pois senão vai ficar "out", deslocado, com fama de quem não faz nada, um baita desocupado. Estar na correria é a última moda, de Paris a Nova Iorque.

Quem não está na correria se sente inferiorizado a ponto de correr para a livraria e comprar livros de auto-ajuda sobre qualidade de vida e uma rotina menos estressante, pois poderá parecer aos outros (começando pela menina do caixa) que está na correria. Comenta com os vizinhos sobre os capítulos do livro, dá conselhos aos amigos, fala para os colegas de trabalho que as dicas do capítulo 11 tem dado resultado lá na sua casa, passeia com o livro no metrô para que todos vejam o título em letras envernizadas, enfim, vive na correria para mostrar o livro a todos e diminuir a culpa de ser mais tranqüilo, ter mais tempo para fazer o que quer, o que acha importante, o que lhe dá prazer, mesmo que seja o ócio criativo ou o ócio da oficina do diabo. Qualquer coisa, menos não estar na correria, valha-me meu Jesus Cristinho!

Portanto, meus queridos, está aí mais um mistério a ser desvendado: a correria. Nem todos estão nela, talvez ninguém esteja, pois um pouco de administração do tempo já resolve o problema de muita gente, mas todos fazem questão de dizer que estão. E ficamos por aqui, pois é claro que eu e você estamos na correria e não podemos perder mais tempo com este texto.

Nelson Botter escreve aqui todas as terças em que dá tempo.

Escrito por Blônicas às 11h09
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- "V" de vingança, "V" de vestido

De Xico Sá.

Tomara-que-caia, tubinhos, pretinhos básicos, com e sem alça, os brejeiros de chita.
Ei, você ai, de cabelos brancos na fronte do artista, você mesmo, rapaz, deve se lembrar muito bem daquele que Sonia Braga vestia quando escalou o telhado, em Gabriela Cravo e Canela, no tempo em que rolava novela das dez, sabe?
Alvíssaras, meus camaradas, os vestidos voltaram com tudo. A vingança. Não que tivessem sumido da história, das ruas, das festas, repartições e firmas. Mas andavam em baixa, suplantados pela praticidade das Evas modernas e suas calças, suas saias austeras e seus tailleurs, essas peças apolíneas que batem a carteira de Vênus, roubam a alma de Eros...
De tão neoliberais, os tailleurs são capazes de sair sozinhos para o trabalho....
Talvez tenha sido necessário, fazer o quê?, a onda recente de desfiles de moda de Nova York, Londres, Milão e Paris, para alertar para uma necessidade mais do que extremada: o retorno do vestido como peça sagrada e quase segunda pele das mulheres.
Tudo fica mais estranho ainda quando as passarelas começam a entender um pouco os homens héteros. Mas não deixa de ser um ótimo sinal dos novos tempos.
Talvez a indústria da moda esteja pagando por todos os pecados anteriores. Redime-se lindamente do quanto enfeiou as belas mulheres.  
Nada nos cai tão bem ao desejo quanto um vestido.
Todo homem ama passear com uma mulher com a mais linda dessas peças. Mesmo os mais machões, que fingem ignorar a vestimenta da fêmea _reservando-se apenas a dar chiliques quando as vestes são muitas curtas.
Seja um Versace, que custa os olhos da cara, seja um baratinho de chita.
Homem que é homem, seja de Paris, Nova York ou do sertão dos Cariris, como o meu avô João Patriolino, vai à Maison ou à feira do seu município, e traz uma bela peça ou um corte de tecido de presente para a amada. Até mesmo o Fabiano, que mal tinha um centavo no bolso, personagem do livro "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, voltava da cidade com um corte de pano estampado para a sua mulherzinha magra, uma fêmea só osso.
Mas mesmo que nos falte a devoção do presente, tudo indica que vocês, belas fêmeas, irão desfilar nos próximos tempos com "feminilíssimos" vestidos.
Será lindo!
Até o velho e bom pretinho básico, que está em voga desde 1926, quando Chanel o desenhou pela primeira vez para a revista "Vogue", agora  reaparece revigorado.
Vestido deixa mais faceiras as gazelas, dá graça às mais cheinhas, ressalta a beleza das afilhadas de Balzac...
Vestido, sobretudo, nos põe, homens de todas as gerações e gostos, mais românticos.
Se for uma peça que deixa à mostra as saboneteiras, meu Deus, que lindo vexame!
E uma mulher com o joelho à mostra, nas cidades mais frias ou mais práticas que sempre exigem roupas mais compostas?
Um deus-nos-acuda!
Ora, você nem carece ser a mais bela por completo, isso é utopia e ditadura estética, você carece ter uma linda parte pelo todo, como aquela figura metonímia, que aprendemos no colégio.
Uma linda omoplata, um pescoço, ombrinhos, pés, calcanhares mais lindos, batatas de pernas invejáveis, belos braços...
Aí ficará ainda mais linda de vestido, ao contrário das calças e outras tantas armaduras que escondem o que nos enlouquece, o melhor dos nossos mundos.
Esconder, achando que pode ser vantajoso depois, é besteira. O charme é mostrar-se, ter a coragem, mesmo com o que você supõe ser uns quilinhos a mais. Na balança das nossas retinas e trenas, isso pode ter importância de menos, quase nada, alguns gramas de preconceitos na cabeça de homens que nem valem a pena.

Xico Sá escreve no Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h02
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- Chega
Milly Lacombe.

Você diz que acabou e me pergunta se vou sentir sua falta. Eu digo que vou sentir falta desse curto espaço de tempo durante o qual pude provar seu gosto, seus cheiros, seus sentidos. Mas eu minto. Porque vou sentir falta mesmo de tudo o que não seremos. Saudade do que jamais viveremos juntas, das coisas que jamais experimentaremos.

Saudade de nunca ter ido com você ao supermercado, de nunca ter brigado pelo sabor do sorvete, pela marca da pasta de dente, pelo rótulo do vinho. Saudade de nunca ter lido com você ao meu lado na cama, de nunca ter escolhido com você o filme que iríamos ver, ou restaurante no qual jantaríamos e beberíamos depois. Saudade de nunca ter sentado com você no sofá da sala para conversar sobre a viagem de fim de ano, de nunca ter acordado do seu lado num sábado de manhã, levantado para tomar café na cozinha, e voltado para cama. Saudade de não ter a chance de ler o jornal de domingo com você e de depois sair para correr no parque. Saudade de nunca ter decorado com você a nossa casa, de nunca ter brigado com você por ciúmes, de nunca ter feito as pazes apaixonadamente na cama, de nunca ter comemorado nosso aniversário. Saudade de nunca ter voltado para casa e encontrado você me esperando na sala, de nunca ter visto você chorar, de nunca ter tido a oportunidade de entender porque você gosta de Basquiat. Saudade de não ver você envelhecer, de não saber como seriam nossos filhos, de nunca ter conhecido sua família ou as pessoas que marcaram sua vida. Saudade de nunca ter mexido no seu rosto em público, de nunca ter beijado sua boca em público, de nunca ter tocado seu cabelo em público. Saudade de nunca ter ouvido você dizer que me ama; de não poder ser quem você gostaria que eu fosse.

Mas, principalmente, saudade de nunca ter olhado dentro dos seus olhos naquela noite que você gozou. Porque teria sido nessa hora, no momento em que meus dedos e sentidos fariam o abençoado trabalho de conduzir você, doce e apaixonadamente, ao melhor lugar do mundo, que eu poderia ver muito de perto - a ponto de poder tocar se quisesse - sua alma.

E assim, quem sabe, me seria dada a preciosa chance de reescrever nossa história – talvez uma das mais belas histórias de amor jamais escritas - e agora para sempre interrompida.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 10h25
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- Novas profissões de futuro
De Castelo

O mercado de trabalho está, a cada dia que passa, mais carente de profissionais diferenciados. As carreiras tradicionais, como médico, advogado, engenheiro e cafetão não conseguem mais preencher as necessidades das empresas, cada vez mais especializadas.

É por isso que algumas profissões, nascidas muito recentemente, vêm obtendo índices altíssimos de contratação.

É o caso do pedreiro trilíngüe. Este profissional pode, ao mesmo tempo que levanta uma parede, traduzir um texto em inglês, atender o telefonema de um espanhol e ditar uma carta em japonês. Tudo isso ganhando um salário-mínimo sem direito a tíquete-refeição.

Outra carreira muito procurada hoje pelos head-hunters é o diretor-financeiro-segurança. Esse executivo deve ter sólida formação em Economia, ter MBA no exterior e, além disso, saber manejar armas pesadas, rádios walkie-talkie e ter habilidade no preenchimento e distribuição de crachás.

A vantagem do diretor-financeiro-segurança é que ele pode usar a agressividade policial na hora de negociar com os fornecedores e ganhar o mesmo que um PM aposentado...

Ao lado da secretária-psiquiatra e do ascensorista-contador, o cargo dediretor-presidente-gari é ainda, de longe, o mais requisitado pelas grandes multinacionais. Muitos executivos de alto escalão têm feito estágio como catadores de papel para poder pleitear a vaga.

As novas exigências da alta gestão, como manter o Caixa 2, demitir levas de empregados e corromper políticos, provaram que um presidente não é completo se não souber meter a mão na sujeira com classe e sem manifestar nojo ou ânsia de vômito.

Para finalizar, não podemos esquecer da nova carreira que está se transformando no grande filão da temporada. É a função de temporário-palhaço, também chamado de terceirizado-arrelia. Ele costuma ser contratado ganhando menos que os outros e, na primeira oportunidade ou queda da Bolsa, o que acontecer primeiro, é demitido sem justa causa.

Para se dar bem, é necessário saber contar piadas, dar cambalhotas e ter muito, mas muito bom humor.

Em compensação, tem direito a 30 passes de metrô por mês.

Castelo escreve aqui todos os sábados.
Escrito por Blônicas às 10h03
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- A boa guerrinha

De Henrique Szklo

Quem é contra a guerra do Iraque ou é ruim da cabeça ou não ama o Brasil de verdade. Basta ter um mínimo de bom senso para perceber que um conflito generalizado será a solução de todos os problemas brasileiros e só nos trará alegria e júbilo. Veja bem: os Estados Unidos, que recentemente sofreram uma derrota em casa e desde a segunda guerra não ganham uminha sequer na casa do adversário, tentam quebrar este tabu invadindo o Iraque. A França e a Alemanha, que se mordem de ciúmes pela liderança yankee vão acabar mudando de lado, enviando tropas invejosas para defender o ex-país dos bigodudos de roupa verde. Tony Blair, o Rubinho do Bush Schumacher, intervém com violência, relembrando os bons tempos de colonização sanguinolenta. A Rússia, que já foi o símbolo máximo da esquerda e hoje não passa de uma zero a esquerda, mete o bedelho onde não foi chamada e para não ficar mal com ninguém envia metade de suas tropas para um lado, metade para o outro. A versão norte-coreana do Don King resolve dar vazão à sua vocação belicista. A China, que não sabe mais onde pôr tanta gente, resolve entrar no conflito só para ver se consegue algumas baixas expressivas. A partir daí toda a Europa começa a se estapear, a Ásia tem chiliques e a Oceania envia seus cangurus-bomba para o front. Não vai demorar e todo mundo que tiver a sua bombinha atômica guardada na garagem irá arremessá-la nos cornos de seu maior inimigo, que via de regra é o vizinho de porta. Isso irá deflagrar um festival pirotécnico de ogivas nucleares e em poucos segundos o mundo civilizado (sic) não mais existirá.

Você por acaso ouviu eu dizer o nome do Brasil? Claro que não. Um país privilegiado, terra abençoada, com praias, montanhas, florestas, clima tropical, cenário paradisíaco, palmeiras onde canta o sabiá, que não tem terremotos, não tem vulcões, não tem guerras e não tem importância nenhuma no cenário internacional. Não tem agora, mas graças a Deus e seu procurador legal George Bush, ele terá, e muita. O Brasil irá, em poucos segundos, saltar da condição de país miserável de terceiro mundo direto para o topo, sem escalas. Um país miserável de primeiro mundo será a maior e mais influente potência internacional.

Pense bem: de uma hora para outra não vamos mais dever nada para ninguém já que nossos credores estarão divididos em milhões de pedacinhos radioativos. As dívidas em dólar serão todas perdoadas, até porque o dólar nem vai mais existir. E a Libra e o Euro idem. Então qual será a moeda mundial? É o real, oba! É o real, oba! Assim, a atividade econômica internacional só deslanchará depois do carnaval e os investidores serão muito suscetíveis aos rumos tomados pela novela das oito.

Nosso alto astral e alegria de viver irão tomar conta do mundo inteiro, ou o que restar dele, e todos terão de se curvar à nossa conhecida boa índole, por bem ou por mal. A alma brasileira finalmente poderá se libertar dos grilhões que a oprimem e soltar o seu grito de liberdade: “Eu sou foda!”. Poderemos olhar para outros países com ar de superioridade e nojo. Imporemos nosso modelo de democracia a todos os países amigos, nem que para isso tenhamos de quebrar alguns pescoços fraternos. Nossa obrigação como império mundial será assumir o papel de polícia do planeta, uma truculenta e prepotente defensora do mundo livre. E como o mundo livre seremos nós mesmos, vai ficar tudo em casa.

Nossa primeira atitude será encontrar um antagonista, alguém que seja nosso inimigo de plantão para manter o povo unido em épocas de crise. Alguém aí falou em Argentina? Pois é, se preciso for, nossa pátria, ultrajada, lançará mão do uso da força para que aqueles cabeludos mal-educados parem de nos chamar de “macaquitos” e desistam desta história estapafúrdia de que o Maradona é melhor que o Pelé.

E se alguém ousar dizer que a nossa capital é Buenos Aires, faremos com que engula suas palavras levianas enviando toda a nossa poderosa esquadra de 15 aviões Mirage ano 65, modelo 66, segundo dono, desferindo um ataque fulminante e sem piedade. Além disso impingiremos rigorosos bloqueios comerciais que os impedirão de comprar pedras brasileiras, caipirinha em lata ou, pior, miniaturas do cristo redentor em pedra-sabão. Uma lição que eles jamais esquecerão.

O American Way of Life será substituído pelo exuberante Brazilian Little Way. Apesar de o português se transformar na língua mundial não haverá como negar que além de o inglês ser muito mais sonoro e prático, não é de um dia para o outro que a gente vai abrir mão da nossa cultura, conquistada com tanto suor após anos e anos de Yásigi. Falando nisso, passaremos como um rolo compressor sobre as pobres e frágeis culturas alheias com nossas novelas, livros, filmes, reality shows, pagodes, loiras bundudas, pegadinhas fajutas, programas mundo cão, merchandising deslavado, descarregos em programas evangélicos, violência gratuita e cenas de sexo em horário infantil.

Seremos também exemplo de desenvolvimento, organização, política, economia, tecnologia e, é claro, futebol. Ai de quem fizer um golzinho sequer na seleção canarinho. Mas como os países africanos vivem botando as manguinhas de fora, ganhando vários campeonatos, empresários brasileiros começarão a pressionar o governo a intervir nesta delicada situação diplomática e acabar com a festa destes abusados. Sem poder assumir a real motivação do conflito, o presidente Lula I anunciará ao mundo que lutaremos com todas as nossas forças para eliminar o “eixo do mar”: Guiné Equatorial, Gabão e Tanzânia. Que eles acabem com este negócio de ficar tocando batuque até altas horas da noite ou sentirão o peso da mão brasileira. Que antes desta história toda, por sinal, era bem leve.

E é claro que a nossa pacífica superioridade despertará a ira de países frustrados e mal-comidos. Não vai demorar e terroristas treinados nas Ilhas Malvinas tentarão destruir o maior símbolo do poder e da pujança brasileira, jogando um avião na Daniela Cicarelli, mas seu plano falhará já que usarão um avião de uma conhecida empresa brasileira, que certamente irá cair antes de os terroristas se darem conta do problema de falta de manutenção ou de excesso de horas de trabalho dos pilotos.

Todo mundo vai querer estudar no Brasil, que será um sentro de ecelênssia educaçionau, a Amazônia finalmente será nossa, todos os papas serão brasileiros, ganharemos todas as olimpíadas, comeremos todas as mulheres, todo mundo vai conhecer o nosso hino nacional, ou no mínimo o do Corintians, e o mais importante de tudo, finalmente teremos a nossa própria e tão sonhada bomba atômica, se Deus quiser.

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e adora jogar War. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 12h42
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- O mundo é dos chatos

De Leo Jaime.
 
O avião pára e no mesmo instante, antes que as luzes de apertar cinto se apaguem, a turma toda se levanta e começa a procurar a bagagem. O avião dá aquela freada e algumas malas grandes ou mochilas começam a bater nos que ficaram sentados. Os que estão de pé fazem tudo frenéticos, como se a segurança definitiva, a garantia que não foi mesmo desta vez só seja garantida quando seus pés pisarem o chão ou o "finger" pelo qual o desembarque é feito em alguns aeroportos. A verdade, a dura realidade é que a porta do avião vai demorar uns cinco minutos para abrir. Toda esta ansiedade só vai significar mesmo estes mesmos cinco minutos serão passados em pé, com o peso da mala, apertado por outros passageiros e alguns pequenos percalços por abrir o bagageiro com a nave em movimento. As bagagens sempre se movem durante o vôo e o ideal seria só abrir aquele compartimento com o avião parado. Mesmo com o pescoço torto, em pé entre as poltronas, os apressados preferem esperar em pé e com o peso da mala nas mãos. Contar para eles que a bagagem vai demorar o mesmo tanto, que a pressa é infundada, isso acho que não ia adiantar.
 
O trânsito vai se arrastando. Em São Paulo a qualidade de vida está intimamente relacionada ao tempo em que se passa preso no tráfico. Se o morador não costuma pegar engarrafamentos sua vida é muito melhor do que a dos que pegam. É um dado realmente importante. Mais  à frente, nada aparece para justificar a lentidão vencida. Gente que gosta de andar devagar: este é o principal malda capital paulista. Faça o teste: na marginal, onde a velocidade permitida e recomendada é de 90km/h, imprima esta velocidade em seu carro e observe. Vai se sentir um piloto de Fórmula Um tentando tirar um segundo por volta. Ninguém, eu digo nenhuma viva alma, vai andar mais rápido ou igual a você! Talvez exista na alma paulistana alguma nostalgia de paradas militares, de desfiles de 7 de setembro, de Dragões da Independência. Desfila-se, de queixo levantado e expressão altiva, ao invés de fazer com que o fluxo escoe rapidamente pelas veias cruciais da metrópole.
 
Final de tarde, praia, algo de romance e paz se instala com a luz rosada do sol que se põe. Porém, o mar quebrando suavemente com sua sonoridade mágica não pode compor a paisagem. Um carro popular com o porta-malas aberto, transformado em caixa acústica mono e de graves desagradáveis, ocupa todo o mapa sonoro da beira-mar. Desnecessário dizer que a turba é obrigada a ouvir o que o dono da engenhoca gosta de ouvir pois o volume é, invariavelmente, estratosférico. Fácil é imaginar a qualidade do que ali é executado. O que há de errado com o som do mar ao ponte? Com qual garantia alguém se arvora a DJ, determinando o quê e em que volume o som dele rolar sob o céu, subvertendo a natureza?
 
Há ainda os fumantes a supor que o mundo precisa mesmo é de mais fumaça, assim como todo o mundo pode ser configurado como um enorme cinzeiro, já que toda parte é adequada para se bater as cinzas? O fumante educado afasta o seu cigarro para longe dos convivas de sua mesa, em restaurantes, e quase o encosta na cabeça de quem está na mesa ao lado ou atrás. Em uma pista de dança cada cigarro aceso queima umas 3 pessoas. Deve ser difícil ficar com uma garrafinha de cerveja em uma mão, o cigarro na outra e um chiclete antigo na boca sendo mastigado com a mesma aberta. Deve ser duro para quem tem que administrar tudo isso. Assim como é para quem fica ao lado ou assiste à esdrúxula performance. Pelo que posso depreender a tripla combinação são parte da composição do figurino que quem vai à balada. O paladar da mistura chiclete/cerveja não parece interessante. Cerveja e cigarro misturados não deixam um cheiro bom na boca, daí a necessidade do chiclete. Tudo, claro, segundo o meu ponto de vista em momento de intolerância.
 
Observar os outros e, mais dramático, dividir a vida e o mundo com todos é tarefa que exige paciência. E mesmo que a verdade seja outra ou insondável, a percepção que tenho em alguns momentos é a de que chatos são os outros.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h06
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- Sim: o que significa?

De Paulo Castro.

     O ato governamental populista é aquele caracterizado por uma aparência de cunho social. O povo acha que está sendo ouvido, que está fazendo parte do jogo, que é essencial para o avanço democrático. Apenas acha. É enganado.
     Um ato populista é realizado por um governo populista.
     Fico cheirando rapé, espirrando e pensando nessas coisas, enquanto assisto televisão. Tenho saudade da minha época de inocência. Proibir a venda de armas de fogo nas bocas de José Mayer, Chico Buarque, entre outras estrelas, golpe baixo. Deixando bem claro que os artistas não cobraram nada para gravarem a propaganda, assim sendo, o fazem por puro diletantismo, por acreditarem na "causa". E o programa do "Não" é apagado, sem graça, mal feito. Chega a dar raiva. Insistem sempre nos mesmos argumentos: o homem que mora longe e precisa se defender, a proibição enquanto um forma de tolher a liberdade de escolha e não passa disso. Nenhum ator global. Claro que não. É feio ser favorável às armas. Não pega bem e nem é compatível com o discurso "cabeça" do paz, amor e vida. Nossa classe artística e intelectual ganhou essa pose com a ditadura. Principalmente os que não foram diretamente atingidos por ela. Não é fruto da inteligência, mas da máscara-sambinha.
     Me pergunto: - O que o governo quer com esse referendo exatamente agora, nesse  exato momento ?
     Inicialmente que dê "Sim". Com isso, traz para si, indiretamente, toda a identificação positiva daqueles simpáticos formadores de opinião que aparecem nas propagandas. Já estou até esperando o discurso do Lula, bem engendrado nesse sentido. Daí se conclui que a pergunta verdadeira está camuflada atrás de algo de cunho politicamente correto. O Estado quer a resposta para usá-la em favor próprio, como sendo apoio. Ele ofereceu o direito de escolha( que bonito!), e o povo disse "Sim". Essa afirmativa será deslocada para outra questão, essa que não pode ser feita de forma alguma, sob pena e risco :
     -Você acha que o governo petista ainda tem alguma moral para governar o país ?
     Lembram-se daquele programa do Sílvio Santos, em que a pessoa ficava dentro de uma cabine, sem ouvir o que se passava, respondendo apenas "sim" ou "não" quando uma luz se acendia ?
     - Quer trocar essa bicicleta por um carro importado ?
     - Sim !
     - Que trocar esse carro importando por um jatinho particular ?
     - Não !
     ( O público, em uníssono : "ah !").
     O apresentador ria, babacão.
     - Quer trocar o seu carro por uma banana murcha ?
     - Sim !
     - Muito bem, muito bem, abram a cabine, meu amigo, olha só o que você ganhou com seu "Sim", uma banana murcha! Viva! - O apresentador ria, sádico.
     ( O público sentia ódio do participante, como se a escolha tivesse sido consciente, como se ele fosse uma anta absoluta e reconhecida em cartório).
     Pois é exatamente isso que está acontecendo nesse momento da História brasileira. Estamos com os ouvidos da Razão tapados por fones gigantescos. Não temos a mínima idéia do que estamos aceitando. É o levante ético do PT às nossas custas.
     Convenhamos. Não vai mudar nada. Ninguém deixa de fumar maconha por ela ser proibida. Dificulta ? Claro, o que a torna ainda mais saborosa ao paladar e às idéias. Vou querer uma arma? Oras, subo o morro e compro meu deleite. Essa  pistola será especial, com gostinho de proibido. Fetiche absoluto em formato fálico. O "Sim" não vai melhorar os índices de violência, pelo contrário, vai deixa-los ainda mais apetitosos. E o governo sabe disso e pouco se lixa. O que ele quer é roubar o significante lingüístico da aceitabilidade social dentro de uma conjuntura perversamente populista. Até a maneira como a pergunta foi construída indica que o desejável é a palavra "Sim", mas deslocada, como se o povo aceitasse o governo que aí está. É incutir na cabeça das pessoas, ratos de laboratório, a afirmação, não por ser fala viável diretamente, pois já está mais do que provado que o PT está muito mal das pernas na defesa verbal, porém através de um estratagema de propaganda  altamente esperto. Eu quero mudar a maneira como a questão está colocada no monitor. Tentemos assim:
      "Você acha que o comércio legal de armas de fogo deva continuar ?"
     A resposta do Chico Buarque e da estupidez intelectual pós-ditadura seria negativa. Nesse caso, o PT não teria uma palavra afirmativa a seu favor. Não poderia fazer uso disso. O esquema é tão hipócrita que preciso de um rapé mentolado para suporta-lo. Espirro com força. Isso é bom, colocar para fora.
     Se o governo é tão aberto assim, tão transparante e democrático, eu quero reverendo para tudo. Como manda o figurino e o socialismo ideal. Quero decidir o destino do Zé Dirceu. Quero escolher a justiça. Quero saber se ainda desejo o Lula lá. Por que essas questões, as essenciais, não são dadas à nossa escolha, mas ficam apenas  como visão irreal de um realty show em que não tenho acesso aos bastidores e suas mesadas ?
     Cheira mal como a banana murcha.
     Na hora de votar, vamos saber a que estamos dizendo "sim", vamos sair da cabine da ignorância, vamos exigir que tudo seja claro, ou que não seja.
     Quem sabe, quando tudo ficar sobre a mesa, berremos um destruidor "Não, sai fora mané!".
     Democracia? Só rindo e dando mais uma mentolada no nariz.
 
"Não existem então dois tipos de língua, mas dois tratamentos possíveis de uma mesma língua."
                                   ( Gilles Deleuze e Félix Guattari)

Paulo Castro é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h57
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- Manifesto pela cozinha punk

De Xico Sá.

Pela cozinha punk. Três acordes: arroz, feijão e bife.
Senhores mestres cucas, senhores(as) chéfs metidos(as), por favor, devolvam meu arroz com feijão, tenho pressa.
No máximo um bife por cima. Pela gastronomia punk, três acordes, na pressão.
Projeto Orígenes Lessa: o feijão e o sonho, ou  contrário... Deu gorgulho na utopia mas o feijão ainda está são e salvo.
E aquele ovinho estrelado, quente, que nossas mães tão bem colocavam por cima de tudo, como um cobertor sobre as nossas pernas, hoje bem maiores e correndo abestalhadas.
Chega de molhos tantos, tomates verdes, secos, fritos.
Tantas invenções gastronômicas, novíssima fisiologia do gosto, argh, basta.
Chega de nouvelle cuisine, essa cozinha pós-tudo, esse fetiche da classe média por qualquer fraude.
Esses molhinhos, vôte! Qualquer canto que a gente chega, nego vem com nove-horas, até nos piores botecos já temos molhinho de manga sobre nosso pobre bife.
Devolvam o meu bife ileso.
É molhinho de tamarindo em cima do nosso sagrado cabrito ou carneiro. É molhinho agridoce, é uma tal de cozinha-fusion, vôte!!!
Temos até costela no bafo light!
Pela cozinha três acordes.
Pela cozinha faça você mesmo, em estados de larica ou em estado de invenções tantas.
Querem sofisticação? Pois apreciem a buchada de bode, que de tão nobre está mais para a alta costura, estilo Galliano, do que para a arte dos pratos. Nesse item do cardápio, a linha que tece o bucho, que por sua vez veste os miúdos, é pura classe.
Arroz.
Feijão.
Bife.
No máximo um ovo por cima.
A harmonia estrelada, materna ou da moça que ainda acredita nos dotes. Aceita tíquete?
Contra o restaurante por quilo, meu velho Câmara Cascudo!, essa praga acabou com o apetite besta e básico. Diante de tanta oferta, querido amigo Erasto, sou todo fastio, embora ainda goste daquilo, daquilo mesmo que tu gostas, sabes?!
Devolvam meu arroz com feijão, meus instintos primários, depois eu posso até comer aquele molhinho de tamarindo, aquele agridoce que a nega gosta, aquela fraude da coluna midiática, aquele pato cheio de bossa, aquela pizza verde, aquela pasta...
Pelo feijão com arroz, clássico, e batata frita ou macaxeira <mandioca, para os sudestinos), no máximo. Clássico como um jogo de domingo nas oiças do porteiro, vozinha fanhosa do rádio, gol, música ao longe, gol de letra.
Chega de molhinhos enganosos. Cozinha é feito mulher: ou molha por desejo ou aplica o orgasmo fingido em todos!
Pelo almoço de sábado e domingo em nossos lares, fugindo um pouco da enganação dos molhinhos ordinários, do afrancesamento falso dos pratos mais frugais, das fraudes que custam cifrões, das sogras que reclamam das nossas posses!
Ah, se eu vou na feira, compro de tudo, se eu cozinho, se eu cozinho, s´eu cozinho é meu!, ou é como se fosse.

Xico Sá escreve no Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h21
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Armas, pra que te quero
De Castelo.

Antes de começar, já vou avisando: sou a favor da proibição de armas de fogo e munição no Brasil.

Não tenho argumentos pra fazer ninguém mudar de lado. Mas se a revista Veja foi contra, sou a favor.

E ponto.

No entanto, admito: há um aspecto negativo na proibição.

Se a moda pegar no mundo inteiro, no futuro, certos tipos de literatura e filmes vão perder muito do seu charme atual.

A coisa já andava sensaborona com o “politicamente correto”, imagine somado a isso a proibição internacional aos armamentos.

Duvida?

“O detetive Smith Nero estava sentado havia horas em sua mesa de trabalho num prédio tosco do centro da cidade. A clientela não o procurava havia semanas. Nesse meio tempo, Nero desenvolvia alguns de seus hábitos favoritos. Fazer palavras cruzadas “Série Difícil” do jornal The Chicago Chronicle, sair para beber no bar do Tony talagadas de Toddy frio e enfiar compulsivamente na boca, um atrás do outro, cigarrinhos de chocolate.
Foi quando o piso de madeira frouxa do gabinete estremeceu e adentrou pela porta uma estonteante dama de negro, acompanhada de um prejudicado vertical.
Smith Nero fez sua tradicional expressão de bonomia, típica de quando recepcionava novos clientes e ofereceu o sofá.
O estranho casal não emitia um som. Pareciam, em verdade, dois prejudicados vocais.
O acompanhante da dama tirou do bolso um pirulito de framboesa. Deu uma longa e nervosa chupada nele.
Quando ela ameaçou esboçar uma fala, Smith Nero percebeu um movimento estranho do homenzinho. Ele jogara o pirulito recém-chupado no cinzeiro e levara a mão trêmula à algibeira do paletó.
Foi quando a luz vinda das persianas delatou a realidade.
O prejudicado vertical estava sacando um revolverzinho de espoleta e o apontando perigosamente na direção do detetive.
Nero foi mais rápido.
Puxou da gaveta sua metralhadora de água, carregada até a boca e aplicou um jato no pequeno malfeitor, que caiu molhado feito um filhote de pato no chão”.

E nos novos faroestes então?

“Joe Montana agora tinha certeza de que estava com o vaqueiro Billy Blind Boy nas mãos.
A vingança pela prisão de metade de seu bando, denunciado por Billy ao temível xerife Floyd Stew, aconteceria ali mesmo naquele desfiladeiro.
Antes da execução sumária, Joe Montana abriu o cantil e jogou o pó de fibra agar-agar na água (a dieta do Texas, baseada em charque e chilli, estava deixando seu sensível intestino totalmente preso).
Bebeu o conteúdo do cantil, pingou quatro gotas do floral na língua (agrimony e chestnut, para os momentos de decisão) e foi em direção à vítima.
Vendo Billy Boy amarrado numa árvore, Montana pegou seu “Conjunto Cowboy Guardião do Saloon”, da Mattel Toys.
Com o chicotinho de plástico, deu vários safanões na bunda do inimigo e saiu em direção a River Pecos”.

Sem dúvida, a arte sempre imitou a vida.
Mas, depois do politicamente correto e do desarmamento, a imitação deixará pra sempre de ser matadora.

Castelo escreve no Blônicas aos sábados.
Escrito por Blônicas às 15h49
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- Sócio bom é sócio morto

De Henrique Szklo

Quem nunca quis matar o sócio que atire a primeira duplicata.

Dizem que ter um sócio é uma experiência, no mínimo, complicada. Não vejo assim. Costumo enxergar sempre o lado bom das coisas, a parte positiva, as lições que se possa extrair até das tragédias, como, por exemplo, ter sócios. Pra começar, trata-se de uma excelente maneira de fortalecer o caráter e forjar uma personalidade equilibrada. Quem agüenta um sócio é capaz de enfrentar qualquer desafio. Uma espécie de “No limite” onde, ao invés de comer minhocas e olhos de cabra, engole-se sapos. Conseguir manter uma sociedade sem estrangular o sócio, picá-lo em pedacinhos e oferecê-lo aos cachorros é a prova definitiva de que você está preparado para a vida.

Dizem também que sociedade parece com casamento, já que começa em festa e acaba em baixaria. No matrimônio você trata o outro mal, xinga, grita, bate a porta na cara, ofende, faz o diabo, mas pelo menos tem sexo no final. Ou no começo. Até no meio, não importa. Já na sociedade você trata o outro mal, xinga, grita, bate a porta na cara, ofende e faz o diabo. Não tem sexo, mas em compensação tem muita sacanagem. Antes, durante e depois.

Mas admito: sócio é um bicho complicado, incontrolável, com idéias próprias (inevitavelmente diferentes das nossas), implicante, dono da verdade, um chato de galochas que sempre acha que trabalha mais que a gente, o que é um flagrante absurdo, já que é óbvio que é a gente que trabalha mais que ele. Nem se compara.

Quando o assunto é dinheiro, então, a sociedade passa por seus momentos mais espinhosos. Cada uma das partes sempre se acha lesada e acredita que merece um quinhão maior nos lucros. Sua empresa, por exemplo, anda pouco lucrativa? Tem certeza? É o que seu sócio diz ou você viu com os próprios olhos? É bom dar uma checada, só pra garantir. Acho sensato, inclusive, que você dê um jeitinho de ficar com uma parte maior, sem que ele fique sabendo, claro. Não há nada de errado nisso. Você estará apenas fazendo justiça. Aquele cretino merece ser passado para trás.

Uma vez fui a uma festa para comemorar a nova composição societária de uma produtora. De cinco sócios passava para três. Comentei com um dos remanescentes que se a festa era boa daquele jeito por ele ter se libertado de dois sócios, imagine o carnaval que vai ser quando ele se livrar dos outros dois. Seus olhinhos brilharam.

O sócio ganha em importância na falência. Além de contar com alguém para compartilhar as dívidas, você saberá imediatamente quem é o culpado por estar nesta situação ridícula. E se a falência for fraudulenta, então, você poderá de bom grado colaborar com a justiça, delatando o criminoso responsável por toda essa sujeira.

Contrair sociedade é bom, mas há limites. Imagine se Deus, por exemplo, para criar o mundo tivesse arrumado um sócio. Um iria querer o mundo redondo e o outro em forma de donuts. A um apeteceria fazer tudo em seis dias e descansar no sétimo e o outro preferiria fazer em um dia e descansar nos outros seis. Um desejaria criar o homem à sua imagem e semelhança e o outro ambicionaria que ele tivesse a cara da sua mãe. Quando mandassem um representante aqui pra baixo não poderia ser filho de nenhum dos dois, para não melindrar. Sabe como são os sócios.

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e procura um sócio capítalista. Leia seu site e o blog da mãe.

Escrito por Blônicas às 11h52
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- Cabelos lisos 2

De Leo Jaime.

A verdadeira loura é falsa.
Se há algo de estranho no espelho, e parece haver, isto não é a última novidade. Claro que não. Se vamos todos angustiados ao espelho imaginar nosso lugar na hipotética bolsa de valores do desejo, quem imaginaremos como nosso algoz/escolhido? A quem queremos agradar? Há um modelo e na publicidade, nas telas, nas revistas, ele é claro e nítido. Mas será que atrair a todos ou a muitos, o objetivo comum da publicidade, é também o que busca quem quer se embelezar?
Buscar a beleza não é algo que mereça critica. É humano. Criar um padrão estético idem. O leitor que acompanha minhas palavras neste instante não deve precisar ser lembrado de que o mundo não começou quando ele nasceu. Claro que não. Com uma rápida reflexão poderá observar que ao longo da história as figuras consideradas belas, principalmente as figuras femininas, eram todas meio roliças. Marilyn Monroe, a loura mais festejada do cinema, um ícone da beleza feminina do século passado, em seu auge era o que hoje as mulheres chamariam de gordinha.
A primeira obra de arte da qual se tem conhecimento era uma figura feminina. Uma Vênus de formas que, aos olhos atuais, refletiam uma mulher de gordura mórbida. Ao longo da história a beleza feminina não apontou em nenhum momento a magreza ou o corpo atlético como ideais de beleza. Isto é coisa muito recente. Assim como o shopping ou o hábito de freqüentar academias de ginástica.
Marilyn, a loura número um, nasceu ruiva. Loura não é quem nasce com os cabelos louros mas quem se sente loura. É quase que um estado de espírito. E querer ser por fora o que se é por dentro transcende o desejo de beleza. É a necessidade de ser. Parte do processo de individuação.
Nascer homem em um corpo de mulher ou vice-versa é uma fatalidade. Acontece em todos os lugares e tempos. Difícil imaginar conflito maior do que não se reconhecer no próprio corpo, não deseja-lo, não entendê-lo.
É necessário saber identificar o que vai por dentro como desejo de individuação, de auto-expressão, de criação de uma identidade. Perceber a pueril sugestão do que nos tornaria mais agradáveis aos olhos comuns também. Não somos objetos de consumo, não precisamos agradar a todos mas a quem nos agrada, a quem queremos. É preciso saber o que se quer e compreender que somos a soma de nossas escolhas. Isso vale para roupas, cabelo, formas etc.
A indústria de cosméticos, de moda, de cirurgias estéticas, de dietas, de tudo o que se relaciona á conquista de poder por intermédio da  beleza pessoal não há de desejar que sejamos satisfeitos com o que a natureza nos deu. Cada dia mais percebemos a intervenção industrial no corpo. A necessidade do supérfluo acaba por se tornar fundamental para a construção da hipótese de felicidade ou de objetivo de vida. A alma da sociedade de consumo é a insatisfação permanente com o que se tem e a angústia pelo que ainda que ainda não se conquistou.
Pergunte a alguém que vai entrar em alguma cirurgia estética se imagina melhores orgasmos depois de sua transformação. Claro que a resposta será sim. Melhores parceiros, mais segurança ao se apresentar ou despir etc. Tudo isso, ou quase, poderia ser conseguido com auto-conhecimento e não com efeitos estéticos.
Quero dizer que o prazer é percebido pelo corpo e a atração ao corpo físico existe, sim, mas que é o desenrolar das histórias que engrandece os romances ou trepadas. Uma figura sexualmente atraente, um objeto de desejo, é uma imagem pornográfica; uma história excitante é uma narrativa erótica. O erotismo toca partes muito mais profundas do ser. A pornografia, assim como apostar as fichas na aparência, é uma escolha superficial que provoca satisfações de curta duração. Sem trocadilhos, é como comer algo que não alimenta de verdade, que não sacia. O prazer erótico sustenta muito mais os sentimentos. Tanto  pelo outro quanto por si mesmo. Mas talvez isso seja muito mais complicado de realizar.
Ser como a moça do anúncio pode ser um jeito de ter o poder de seduzir a muitos. Mas será que o sacrifício para se chegar até lá será recompensado? Ser milionário pode também ser o caminho do sucesso para quem quer seduzir, mas será que também não há o risco de atrair interesseiros? Riqueza e beleza são formas de poder que, em muito, se assemelham Querer uma vida boa e uma aparência legal é uma boa prerrogativa mas não há vento bom para o barco que não sabe para onde vai. É preciso saber o quanto, quem, o quê, para onde. E isso  implica em se conhecer, antes de qualquer outra coisa.
Minha opinião sobre beleza é muito simplista mas não me furto de expor: beleza é saúde.
Cabelos lisos, porém, não são nenhum indicativo de saúde como, por exemplo: dentes perfeitos e bem alinhados, uma boa pele ou uma coluna ereta e postura elegante. Cabelos lisos são uma padronização cultural e várias mulheres  sentem-se mais bem recebidas, aceitas, quando estão com os cabelos lisos. Aparentemente há algo de nobre no cabelo escorrido, como a evocar uma ancestralidade aristocrática. Convido as leitoras ao teste: mesmo que o cabelo seja belo levemente ondulado ou crespo, a experiência do cabelo liso pode ser reveladora. E não ficarei contrariado se minha afirmação não proceder. Ao contrário, ficarei aliviado.
Ao observar os comentários feitos ao texto aqui publicado na semana passada, Cabelos lisos (acho que o nome foi preterido na edição ou publicação), percebi que há quem leia e comente ou opine, acrescentando idéias novas mesmo que contrárias, e há quem simplesmente julgue. Não as idéias propostas pelo que foi escrito mas o autor. E quando este julgamento é feito não são, repito, as idéias objeto de julgamento mas a imagem física do autor. Ainda que este tema não tenha vindo à baila; ainda que a figura física de nenhum autor devesse ser avaliada, mas seus escritos;  ainda que, por fim, uma crônica  não sugira julgamentos severos sobre a personalidade e muito menos a aparência de quem os escreveu.
Está lá, registrado, o mal que esta preocupação excessiva com as aparências anda provocando. Não é só o desconforto de perceber nos anúncios de empregos que os belos são preferidos, independente da competência. A intolerância é que não é motivo de vergonha embora devesse ser. Poucos defeitos são mais horrendos que este. E quem o tem, pelo jeito, não sente-se constrangido com a exposição da própria monstruosidade.
Há coisas muito mais feias que culote, rugas, celulites ou cachos indomáveis. A falta de saúde, por exemplo. Para a falta de educação, de inteligência, de caráter ou humor não existem cirurgias. E se houvesse? Seríamos, nestas operações, o segundo lugar no mundo?

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h15
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- Uma idéia me teve

De Rosana Hermann.

Idéias não são privilégios de ninguém, não há requisitos de cultura, conhecimento ou formação, é um acontecimento fisiológico que envolve as incontáveis sinapses cerebrais de todo ser humano. Há quem tenha idéias diariamente, como parte de suas atividades profissionais, enquanto outros as têm esporadicamente, por conta de um insight. Há  pessoas que só tiveram uma idéia na vida e muitas se deram bem, porque colocaram toda sua energia nesta criatura única. Fato é que todo mundo tem idéias. É um mercado difícil.
Etimologicamente, idéia vem do grego 'idein', que, significa 'ver', pois a  idéia é isso, uma visão clara, iluminada e imaterial que nos vêm à mente, voluntária ou involuntariamente. Quanto mais forte e mais clara a visão (semioticamente representada pela lâmpada acesa) mais intenso o nosso desejo de materializá-la. É a partir daí que surgem as dúvidas pessoais mais profundas na mente de quem abriga a idéia: o que fazer para que minha idéia aconteça? Devo ou não devo contar minha idéia para os outros? E se roubarem a minha idéia?
Tenho boas e más notícias para quem procura estas respostas e a primeira é não foi você que teve a idéia Sim, ela surgiu na sua cabeça, tudo indica que é de sua autoria, mas foi a idéia que teve você. A idéia é como  a figura formada naquelas brincadeiras de ligue-os-pontos. Você ligou os pontos e montou a visão. Mas cada ponto é uma informações que você absorveu, uma idéia que já existia e que você catalogou em sua mente.
E por que a idéia teve você? Porque a visão que ligou os pontos aconteceu? Porque sua mente estava aberta para isso, havia espaço para a idéia se formar. Da mesma forma que não se consegue desenhar nada numa página toda rabiscada não há como uma idéia, uma visão se formar na cabeça de quem só fica pensando sem parar. Quem fica minhocando, colecionando 'se's e 'será's, quem fica o tempo todo fazendo perguntas na cabeça, não deixa espaço para que uma idéia entre. E se tentar entrar, a coitadinha vai acabar presa nas curvas de tantos pontos de interrogação. Idéias gostam de mentes limpas, arejadas, pois elas são feitas de clareza. A idéia é uma luz. A idéia é A luz no fim do seu túnel.
E o que fazer no mundo real para que um projeto, uma idéia, aconteça? Bem, para isso, só posso dar conselhos pessoais. Na minha lida diária com idéias já vi de tudo, de idéias geniais morrendo precocemente na praia até idéias aparentemente estúpidas que encontraram seu lugar no mundo real. Elaborei um pequeno decálogo sobre a realização de idéias, para quem quiser tentar:

1.Ninguém vai se entusiasmar tanto por sua idéia como você. Exponha-a com alegria, mas não culpe o outro por não partilhar da sua excitação. Excitação demais não gera movimento, apenas dissipa energia.

2.Não tente convencer o mundo que você está grávido da coisa mais genial que a humanidade já viu. A humanidade é antiga, você é que está chegando agora.

3.Assim como potência não é nada sem controle, idéia não é nada sem poder. Ou você conquista o poder ou conquista quem o tem. Mas lembre, quem já tem o poder também tem suas próprias idéias.

4.Uma idéia não é boa ou ruim ela é adequada ou inadequada. Toda idéia só faz sentido em um contexto. Em um contexto ela pode ser original e no outro, ridiculamente óbvia.

5.Não tenha medo de jogar uma idéia fora. Idéias são recicláveis. Se ela tiver potencial de existência, ela voltará. Abandonar um projeto pode ser uma ótima idéia também. Também não economize idéias. Praticar idéias é como cavar um buraco. Quanto mais você tira maior ele fica.

6.A pior pessoa para você vender uma idéia é para alguém que vive de criar idéias. Você pode vender seu pão para quem tem fome, mas qual o sentido de querer vender o seu pão caseiro para o padeiro profissional? De onde você tirou essa idéia?

7.Sobre contar ou não contar sua idéia para alguém, a resposta está nesta pergunta: o que você quer? Que a idéia aconteça ou que as pessoas saibam que você teve a idéia? A diferença entre uma idéia que vai e não vai existir está entre a vaidade pessoal e o mercado profissional.

8.Idéias são roubadas o tempo todo, de formas legais e ilegais. Porque as pessoas são antenas e as idéias viajam em ondas pelo ar. Capta quem pode. Sua idéia pode migrar para outra cabeça. Sua idéia pode ter vindo de outra cabeça. A única idéia que ninguém pode roubar é aquela que só você é capaz de fazer.

9.Só existem dois tipos de pessoas que vão apoiar sua idéia genial: as que realmente gostam de você e as que tem interesse nela. Os outros todos serão contra. Do ganhador único da loteria a gente só sente uma coisa. Especialmente se você jogou também.

10.Idéia boa é aquela que melhora o mundo. Porque melhorar o mundo é sempre, uma ótima idéia.

Obrigada pela atenção e perdoe o longo texto. Contrariando meus próprios conselhos, me deixei levar pelo entusiasmo do tema. Não foi por mal. É só que eu não tinha idéia de que fosse ficar tão grande.

Rosana Hermann escreve aqui às quartas, com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h12
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- O poder da propaganda

De Nelson Botter.

- Você pode repetir? - perguntou Anselmo para sua esposa.
- É isso que você ouviu. A partir de hoje, se quiser transar comigo, tem que pagar.
- De onde você tirou essa idéia maluca, Marisa?
- Eu estava conversando com a Cleide e a Sandrinha, e elas me apoiaram na decisão.
- Sim, mas como...
- Eu estava pensando numa forma de ser remunerada. Sabe, não é justo eu fazer tudo aqui nesta casa e ainda ter de passar pela humilhação de ficar pedindo para você deixar dinheiro. Entenda o meu lado, eu preciso de algo para ser remunerada.
- Mas... remuneração por sexo?
- É. Fiquei pensando, junto com a Cleide e a Sandrinha, o que seria o mais indispensável para você. Aí, chegamos à conclusão que lavar, passar, cozinhar e etc não é o mais importante, afinal você pode muito bem pagar uma empregada para fazer isso tudo. Então, concluímos que o sexo seria algo indispensável, pois você já não é mais o mesmo de antigamente e com certeza não conseguiria arranjar nada por fora. Se é que você me entende...
- Não acredito no que estou ouvindo!
- Bem, Anselmo, é isso. Se quiser fazer sexo, tem de deixar comigo R$ 150,00.
- R$ 150,00!
- É, e adiantado.
- Mas isso é o que cobra uma prostituta de luxo!
- E você acha o quê? Que eu iria cobrar pela tabela das prostitutas da boca do lixo? Se oriente, homem! Sou bem melhor que qualquer uma dessas prostitutas por aí. Digamos que era pra ser mais caro, mas no seu caso faço um preço especial, um descontinho.
- Então, quer dizer que é assim? Agora você é uma prostituta?
- Quem disse isso? Onde já se viu! Está me ofendendo...
- Oras, mas é o que você acabou de me dizer. Em outras palavras, mas disse.
- Olha aqui, Anselmo, você me respeite! Sou sua mulher e apenas estou arrumando uma forma digna de ter uma remuneração.
- Não é possível isso. Só pode ser brincadeira!
- Você está duvidando? Vamos ver, então. Sem dinheiro não tem "terecoteco".
- Não tem mais terecoteco? - fraquejou Anselmo.
- É isso aí - Marisa foi firme na resposta.
Ele pensou por alguns segundos e foi incisivo na resposta:
- Então, não tem mais. Boa noite...
Marisa não reagiu. Apenas desejou boa noite para o marido e deitou-se, apagando a luz. Depois de alguns minutos:
- Marisa...
- Hmmm...
- Está acordada?
- Hmmm...
- Vamos parar com essa brincadeira.
- Hmmm...
- Vamos fazer assim: eu deixo para você, todo dia de manhã, uma quantia referente a adiantamentos por seus serviços de dona de casa.
- Não. Eu quero que você me pague pelos meus serviços na cama.
- Mas o que é isso? - Anselmo deu um pulo, ligando o abajur. Estava muito irritado.
- Já disse, não quero remuneração por outras coisas e sim por sexo!
- Por quê?
- Porque seria uma forma de você me pagar de vez em quando. Entenda, eu trabalho todos os dias como dona de casa, mas sexo a gente só faz de vez em quando... bem de vez em quando! Seria uma remuneração variável...
- Remuneração variável é quando o valor muda de vez para vez.
- Podemos pensar nisso também. Estou aberta a negociações.
- Então, você quer virar minha prostituta de luxo? Minha dama da noite particular?
- Isso não te excita?
Anselmo parou um pouco. Pensou... pensou e pensou.
- O que você acha que eu sou? Um depravado?
- Muito pelo contrário. Se eu achasse isso, nunca proporia tal coisa, pois você acabaria gastando esse dinheiro com outras.
- E quem me garante que você não vai gostar dessa coisa e não vai começar a sair com tudo quanto é homem por dinheiro?
- O que é isso? Você está me ofendendo de novo!
- E como você acha que eu me sinto? Sabe o que parece? Que transar comigo é a pior de suas tarefas e que você merece uma recompensa especial por isso!
Marisa parou um pouco. Pensou... pensou e pensou.
- Não, acho que não chegamos a esse ponto. Existem coisas piores, como lavar o vaso sanitário...
- Pois saiba que eu me recuso a dar dinheiro para transar com você! Se você acha que vai conseguir me humilhar a tal ponto, esqueça. Prefiro virar um depravado e pagar para outras que sabem fazer coisas que você nem imagina que existam!
- Será?
- Claro, eu sei.
- Mas o que eu não te falei é que comprei este livrinho aqui: "Como deixar um homem louco na cama. Mil e uma técnicas de sexo com muito prazer".
- Mas o que é isso? De onde veio essa idéia?
- É puro marketing, meu querido.
- E esse tal marketing dá certo?
- É o que precisamos saber - ela disse sorrindo.
Anselmo parou um pouco. Pensou... pensou e pensou.
- Você aceita cheque?

Nelson Botter é cronista do Blônicas todas as terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 10h58
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- Enroladores
De Milly Lacombe.

Somos todos uns enroladores, vivendo sob o manto sagrado da cultura da enrolação. O esporte nacional não é o futebol, mas sim essa mania de dissimular, de deixar para depois, de não falar claramente o que se pensa, de não ter que carregar o pesado fardo da opinião.
Existem provas verbais do fenômeno. Por exemplo, a expressão "a princípio". Usada a fartar, ela não quer dizer absolutamente nada. Vejamos. Sobre a cassação de deputados ligados ao mensalão. Perguntam ao ex presidente da Câmara dos Deputados se ele acha que todos, sem exceção, devem ser cassados. "A princípio, sim". E, com o uso da inócua expressão, ele já tem o direito de, no dia seguinte, responder categoricamente "não" à mesma pergunta.
Trata-se na verdade de um grande limbo verbal que dá chances para que o usuário continue o eterno jogo da enrolação e tenha a oportunidade de sair pela vida agradando a todos os lados, sem a necessidade de ter opiniões concretas.
Seria bom se começassemos a ter mais opinião, e a revelá-las com mais ênfase e segurança. Aliás, não há nada de torto em se ter uma opinião. Muito menos em mudar de opinião. O grande mal desta República talvez seja justamente a falta delas.
Da mesma forma, não existe a opinião certa e a errada. Existem apenas opiniões. Paulo Francis, sempre que era confrontado por algumas de suas polêmicas idéias, respondia ao confrontador: "Calma, essa é apenas a minha opinião".
O único inconveniente em se posicionar é que, a partir de momento que você toma partido, está automaticamente desagradando a um determinado grupo. E como convivemos pessimamente com a rejeição - e no caso de políticos com a perda de votos e, consequentemente, com a maravilhosa oportunidade de desviar dinheiro público - fica mais confortável popularizar expressões como "a princípio": "A princípio, sou contra o desarmanento", dizem alguns. Mas então ele é contra ou a favor? Ninguém sabe.
Aliás, alguém sabe dizer se nosso genial presidente é contra ou a favor do aborto? Da união civil de pessoas do mesmo sexo? Das ridículas taxas de juros praticadas pelo Banco Central? Eu não tenho a menor idéia sobre o Lulla pensa a respeito dessas questões. Mas aqui um atenuante: não se sabe ainda se ele pensa. Portanto, nesse caso, é injusto exigir opinião.
Mas voltemos à questão central. Em prosa, outra prova da enrolação como esporte nacional: "Depois a gente vê". Como quando você pergunta ao amigo arquiteto: "Quanto vai me custar essa reforma?". "Ah, não se preocupe, isso depois a gente vê". De três, uma. Ou a conta vai ser estratosférica, ou essa reforma jamais sairá do papel, ou a amizade está muito perto do fim. Por que não falar logo de uma vez quanto a reforma vai custar?
Seria bastante proveitoso se começassemos a nos posicionar mais a respeito de tudo, a entender que sempre haverá opiniões contrárias, e que não há nada de errado com isso.
Dessa forma, a princípio, viveríamos em um mundo menos hipócrita. Agora, quando começar a praticar? Isso depois a gente vê.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.
Escrito por Blônicas às 15h55
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- Viagens idiotas: Lençóis Maranhenses
De Castelo.

Meu sonho era fazer viagens à la Maurício Kubrusly.
Aquele trota-mundos global vai pra Santa Rita do Grelo Adentro e encontra uma ex-mulher rendeira que faz um camarão flambado no Calvados.
O marido da dita-cuja é ex-barman do Oyster Bar e lhe prepara uma “incrível”– ele adora essa palavra – batida de cupuaçu na vodca russa. E mais: os filhos do casal, mesmo vivendo naquela praia deserta nordestina, criaram um artesanato raríssimo (vendido apenas no Mercado Comum Europeu ou na Daslu) e que está custando, no exato dia da estada, apenas 1 real a peça.
Mas ainda chego ao patamar do colega.
Já é um começo eu me recusar a viajar por essas agências-de-anúncio-de-página-dupla-de-jornal. Porque elas são as verdadeiras profissionais na arte de mediocrizar uma jornada.
Recentemente estive nos Lençóis Maranhenses.
E, no caminho pras dunas, acabei notando a aproximação de um Toyota de agência-de-anúncio-de-página-dupla-de-jornal.
O carro ia para o mesmo local do meu jipe, mas apinhado de turistas.
Detalhe: quase todos de Terceira Idade, caminhando pra Quarta.
O que presenciei deveria ser interpelado por um tribunal de direitos humanos da ONU.
Velhinhos de 75 anos pulando dentro do utilitário feito pipocas numa panela quente. Chamava a atenção porque o decrépito 4X4 passava nas enormes costelas-de-adão formadas no areião maranhense e ninguém fazia um “ô ô ô ô ô ô ô ô ô!” ou mesmo um
“irrráááááááá!”.
Os pobres anciãos não tinham mais energia pra gritar.
O Toyota caia num buraco, o motor roncando feito um cavalo selvagem acuado e:
- …
O jipão corcoveava por cima de uma pequena montanha branca e:
- …
Durante o período de visita às famosas lagoas, caminhei por cerca de meia hora, encontrei uma lagoinha cristalina e lá fiquei me refrescando, dando uns tchibuns.
Os colegas da agência-de-anúncio-de-página-dupla-de-jornal, com aquelas frasqueiras típicas, andavam, de lagoa em lagoa, feito formigas alienadas.
Chegavam, fotografavam, enfiavam os pés na água e saiam buscando outro lugar pra se molhar.
Comecei a pensar que os velhotes não voltariam mais à civilização.
É sol e vento demais pra um cocoruto idoso.
Mas olha só eles de novo, dias depois, no Centro Histórico de São Luís. A mesma correria.
Chegando, fotografando um casarão e saindo logo pra fotografar o do lado. Todos lampeiros e saracoteando, pra lá e pra cá, com suas frasqueiras típicas.
Definitivamente, a felicidade é um estado de espírito de porco.

Castelo é cronista do Blônicas e escreve aqui todos os sábados.
Escrito por Blônicas às 11h09
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