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Perdão no Ano Bom

De Castelo

Era uma tradição.
Todo santo ano, no réveillon, tia Conceiça fazia um círculo com os familiares de mãos dadas. Dizia umas palavras do Evangelho e abria pra quem quisesse dar a sua mensagem pessoal.
Antes do evento, cada parente recebia um papelzinho onde estava escrito: “eu perdôo”. Pensava-se em alguém que nos havia ofendido e ficava-se de bem. Para tanto, bastava queimar a folhinha, com o nome correspondente escrito, no lume de uma vela.
Aquele 31 de dezembro, por volta das quinze pra meia-noite, não foi diferente. Depois de citar Eclesiastes, tia Conceiça perguntou se alguém queria se manifestar. Pediu a palavra tia Maroquinha.
 
- Que o ano que nasce agora seja como uma janela aberta para um tempo de felicidade, paz, entendimento e... 

Nesse instante, Acácio cutucou Iêda.

- Tu me perdoa?
- Lá vem...
- Aproveita o momento e faz essa caridade, minha linda...
- O que foi que te falei antes de vir pra cá, Acácio?
- Que esse foi o último ano que a gente passou junto...
- Pois então, tchau...
- Só que você diz isso todo ano e, na hora do papelzinho, acaba escrevendo "Acácio". Escreve agora também!
- Mudou tudo, meu filho. Eu não te perdôo mais, não. O réveillon passado foi teu último ano bom.
- E o espírito cristão, Iêda. Foi parar aonde? Virou crente, foi?
- Que crente, Acácio. Tá maluco? Olha tão rezando o Pai- Nosso... e não nos deixei cair em tentação e livrai-nos do mal...

- Amém! Agora me diz, é tão grave a minha falta contigo? Chegar em casa com uma cueca escrita com lápis de rímel “Eu quero é rosetar” por acaso não pode ter perdão?
- Na minha opinião é imperdoável...
- E essa bandalheira na política? Os caras roubando na cara-dura, pintando os canecos na televisão, e tudo perdoado? Pra eles têm misericórdia? Fala já, Iêda! Espera, fala agora não, a Ave-Maria...
- ... agora e na hora de nossa morte, amém!
- Amém! Diga na minha cara então: por que perdoam ladrão e eu não?
- Te benze, Acácio! Olha a minha tia te olhando!
- Tô me benzendo, pô...
- E o “sinal da cruz”?
- Pronto, pronto, amém, amém. Ô, meu Deus.
- Se fosse só essa da cueca, eu até que fazia um esforço e desculpava. Mas e o negócio dos filmes?
- Filmes?
- Ai, Acácio, não se faz de besta. A encomenda que tu fez pela internet: três caixas com não-sei-quantos filmes pornográficos. Pensa que não vi o canhoto na tua carteira?
- Era pra revender, amor. Comprei no Paraguai junto com umas caixas de cigarro, pra fazer dinheiro na Galeria Pajé e te dar o carro que prometi.
- O carro era zero?
- Zerado, juro. Olha o beijo no dedinho...
- E você se arrepende?
- Estou mudando de ramo, vou vender bíblia, santinho. Ó, tô até ajoelhado.
- Então reza uma Salve-Rainha, reza...

Acácio ficou orando, de olhos fechados, enquanto Iêda queimava o papelzinho do perdão na vela. Ao fundo, fogos de artifício.

Castelo é www.castelorama.com.br 

Escrito por Blônicas . às 10h53
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Será que vai dar?

De Leo Jaime.

Sempre tenho essa pergunta, obsessivamente, rodeando todos os meus projetos, mesmo os mais simples. Sei, estou sendo óbvio. Todo mundo guarda alguma reserva de dúvidas para seja qual for o projeto ou sonho. Refiro-me, porém, ao projeto mais cotidiano, como dar cabo das tarefas do próximo dia.

Será que vou conseguir escrever o texto? Cantar a canção? Ser claro na hora de expor as idéias? Os sentimentos? Não que considere todas as tarefas difíceis, separadamente, mas o conjunto é complicado. Viver é muito cheio de detalhes, de pormenores, de curvas. É preciso ser profissional.

Para não viver tenso, a maior parte do tempo, aceito a idéia de que não preciso ter uma atuação brilhante na vida. Ninguém precisa. Com isso, sei que a voz vai falhar, as palavras vão fugir, vou esquecer onde deixei a carteira, perder o retorno, o fio da meada, o saco, um monte de vezes. Diariamente. E, é sério, é com esforço pra dar capricho que tudo sai mais ou menos.

Fico pensando se terei condições de pagar as contas. Não há garantias. Tenho vivido do prazer que dou aos outros com minhas performances cênicas, e de vez em quando com o que batuco no teclado do computador. Do mesmo modo que não sei se vai sair alguma coisa na próxima vez que tentar escrever ou encenar, como posso garantir que vai ficar interessante aos olhos de quem tem tanta oferta de diversão? A conta do padeiro depende disso: é preciso que queiram ver, ler ou ouvir alguma coisa que tenha feito. É preciso que eu faça, que continue querendo e sabendo fazer.

A cada dia vai ficando mais intrincado o equipamento básico de viver. São necessários muitos acessórios. É preciso aprender muitos manuais, fazer upgrades e investimentos. Muitas senhas pra decorar. Será que vou aprender e lembrar de tudo?

Pode ser besteira, mas quando paro pra pensar na quantidade de coisas que tivemos que domar nos últimos anos, na dificuldade em equilibrar vida profissional, cultural, política, intelectual, sexual, espiritual, afetiva com suas atribuições acho que somos heróis do dia-a-dia. Heróis mais ou menos.

A vida vai dragando nossa atenção para tantas coisas e a sensação de que não temos dado atenção suficiente a nada é permanente.

Alguém vai lhe convencer a fazer ioga, a mudar a alimentação, a virar budista. É a moda. Não quero polemizar e muito menos criticar nenhuma destas opções. Mas, algo me diz: não vai adiantar. Tudo esfria. Tudo cai. Tudo escapa à compreensão.

E os dias fogem como cavalos selvagens descendo a colina.

Feliz ano novo.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h49
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Aceite

De Rosana Hermann.

Não, não é azeite em espanhol. É do verbo aceitar menos, muito menos saboroso e muito mais complexo. Aceitar é difícil. Deveria ser mais fácil para as mulheres, equipadas com um órgão reprodutor receptivo. Deveria mas não é. Aceitar as coisas é difícil pra todo mundo, todo mundo. Porque aceitar é parecido com desistir, perder, dar o braço a torcer, todas essas coisas que ego não gosta. Aceitar parece coisa de quem leva desaforo pra casa. Pois leve. Em último caso é melhor levar um desaforo para o domicílio do virar um presunto no IML.

Para aceitar as coisas como elas acontecem, as pessoas como elas são, os fatos da forma que ocorrem, é preciso antes conformar-se. No sentido lato, conformar-se é tomar a forma de alguma coisa, como acontece com os fluidos. Quando você despeja água na panela, ela se adapta à forma da panela. O mesmo acontece se você jogar suco na jarra, fizer xixi no penico ou lembrar que o ar ocupa todos os espaços, conformando-se com tudo. A gente, não. A gente não é fluido. O pensamento é rígido, a idéia é fixa e o corpo é travado. E aí, ninguém se conforma com nada. A gente não se conforma com nada. Nem com o semáforo que fecha, com a porta fechada, com o salário que ganha, com um telefone que dá ocupado. Nós, neuróticos, queremos que o mundo entre em conformidade com a gente. Coisa de louco mesmo.

Depois de aprender a se conformar, a entrar em sintonia com a forma do mundo, figurativamente falando, aí sim, podemos passar para o segundo grau, a aceitação do conteúdo. Aceitar não é de forma alguma ficar parado sem ir para frente, desistir de lutar para melhorar ou mudar o que não está bom. Ninguém precisa aceitar o fato de ser obeso e morrer de sobrepeso, mas para emagrecer é preciso aceitar que tudo o que é gostoso engorda, por exemplo.

Aceitar, em última instância, ou em primeira, é não negar o óbvio. É não fechar os olhos para a realidade porque o que vemos não é o que gostaríamos de estar vendo. Aceitar é não se enganar, é não enganar os outros, é ser maduro. Gente infantilizada não aceita a verdade e fica ofendida por qualquer coisa. Aliás, gente infantilizada ainda não é gente, é só um projeto em desenvolvimento.

Pode ser que tudo isso seja uma grande bobagem, que um ser humano consiga ser feliz, viver em equilíbrio sem ter que aprender a aceitar o mundo ou a conformar-se com a vida. Mas uma coisa é certa, quem se conforma é fluido, é flexível. E é muito melhor viver de forma flexível do que de forma rígida. E quem aceita as coisas como elas são, vive leve. Porque não aceitar a realidade vira um fardo, um peso morto a ser carregado em vida.

Portanto, se você tiver alguma coisa para decidir em 2006, aproveite para incluir esses dois conselhos: conforme-se e aceite. Ao parar de lutar contra o inevitável e repudiar o óbvio, você economizará energia para poder fazer o que realmente vale: viver a sua vida.

Feliz ano novo.

Rosana Hermann escreve aqui toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 18h36
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Ano novo, vida nova?

De Nelson Botter.

Tive alta do hospital psiquiátrico em pleno reveillon. Esperei isso por mais de dois anos e cinco tentativas de fuga. Estava feliz pelo fato de sair, mas já viu, reveillon, só podia dar merda mesmo. Na porta do hospital estava meu pai, me esperando com um balão na mão. Isso mesmo, uma porra de um balão daqueles de porta de restaurante de polenta e frango assado. Era prata, com a cara de um bicho qualquer. Aliás, cara de bicho tem o meu pai, com aqueles óculos ridículos de fundo de garrafa que mais parecem o telescópio Hubb. Inclusive, pra que gastar dinheiro com uma porra de um telescópio desses? De que interessa saber de outro planeta se não conseguimos dar conta nem do nosso. Que o Spock cuide de sua vida sem atrapalharmos. Mas, lá estava meu pai. Dei uma boa olhada no indivíduo e num piscar de olhos acabei descobrindo de quem eu tinha puxado toda a minha loucura. Pior, se eu não fosse louco de nascença, acabaria ficando depois de quinze anos com aquele cara que eu tinha de chamar de papai.

"Vamos para a nossa casinha, Juninho?", ele perguntou como se eu fosse um debilóide. Bem, sou louco, mas não sou retardado, é diferente porra! Ele abriu a porta do carro e me colocou no banco de trás. E não é que o desgraçado ainda veio e me colocou o cinto de segurança? Cerrei meus punhos e só não o soquei no queixo porque ainda estávamos muito perto do hospital psiquiátrico.

Chegando em casa minha mãe estava na porta com um sorriso amarelo de ponta a ponta. Poupe-me desse seu teatro ridículo, velha coroca. E não me olha muito não, minha paciência não anda das melhores. Ela ficava acenando de longe enquanto meu pai estacionava o carro na garagem. Não via a hora de tomar meu coquetel de Gardenal com Lexotan para esquecer dos problemas... e dos meus pais.

Meu quarto estava a mesma coisa, intocável, inviolável, inexplorado. Era um auto-retrato do dono. Até o pacotinho de maconha continuava escondido no fundo da cômoda. Será que essas porras têm prazo de validade? Por via das dúvidas, fumei tudo de uma vez, observando da minha janela a noite que caía seca e quente. Detesto esse clima, prefiro tudo úmido. Às vezes, quando faz muito calor de noite, mijo na minha cama pra ficar mais agradável. Refrescante como Halls.

Minha mãe me trouxe uma roupa branca, dizendo que eu deveria me trocar rápido, pois os convidados para o reveillon já deviam estar chegando. Por que esses putos não foram para a praia? É tão mais agradável pegar aqueles congestionamentos gigantes, cidade lotada com falta d'água, cheia de gente se roçando com o corpo cheio de areia. Sabe, roçadinha à milanesa. Supimpa! E os fogos? Tanto corre-corre com a galera se queimando com aqueles Caramurus fajutos que explodem na sua cara e você ainda tenta sorrir com o último dente que te restou, só pra não ficar ruim na fita com os amigos. Mas o melhor mesmo é ir até a praia à meia-noite. Apesar de ser um programa de índio, você não encontra nenhum por lá, só gente vestida de roupa branca. Doutores da alegria. Todos num fogo desgraçado. O cheiro de álcool fica mais forte do que o do esgoto que dá no mar. O mais engraçado é que ainda têm a cara-de-pau de dizer que estão andando torto por causa da areia que é muito fofa. E a sujeira que esse pessoal faz? Branco é sempre sinônimo de limpeza, mas nesse caso os "roupas brancas" fazem questão de emporcalhar tudo. Uma beleza. Um enorme cesto de lixo revestido de areia e água salgada. Até fiscal do Ibama faz questão de jogar alguma coisa no chão. Uma vez um tio meu pisou na bosta e ficou furioso. "Quem é que traz o cachorro pra praia?". Mal sabia ele que aquela bosta não era de cachorro e sim de gente. Daquele tamanho, nem um Mastim Napolitano consegue fazer. Família desgraçada, por que não foram pular sete ondinhas bem longe da minha casa?

Tomei o coquetel. Não tem Coca-Cola? Gosto para acompanhar. Minha mãe fez cara de satisfeita, passou o guardanapo na minha boca (estou babando?) e me olhou. Peguei um copo de cidra que uma tia deixou dando sopa. Mandei pra dentro, escondido, mas mandei. Gosto horrível, mas não tão horrível quanto agüentar meus primos vestidos de cowboy com arminhas de plástico correndo pra lá e pra cá. E eu que sou o maluco.

Tomei um pouco do uísque do meu pai. Ele me pegou no pulo, mas não fez nada, nunca faz. Comecei a ver umas bolinhas estranhas. O mundo de repente ficou mais divertido. Cores, música distorcida, imagem tremendo. Senti-me uma TV sem antena. Subi para o quarto. Quero ficar sozinho, não me encham o saco! E, finalmente, tudo ficou escuro.

Acordei na cama, com os fogos. Uma barulheira infernal. Não tinha forças, mas minha vontade era abrir a janela e xingar o mundo. Virei de lado e arrotei. Saiu um jato de vômito. Apenas dei risada ao pensar que não seria eu que limparia aquela sujeira toda. Senti-me por instantes um dos porcos de branco que deviam estar acabando com a praia uma hora dessas.

Desci a escada e meu pai veio me abraçar, todo sorridente. Idiota, só percebeu que eu estava todo vomitado quando me soltou. A cara de nojo foi geral. Ótimo, ninguém vai me abraçar. É o reveillon que pedi a Deus, obrigado Senhor. Minha mãe fez a cara de sempre: sorriso amarelo. Às vezes me pergunto se ela faz essa cara enquanto caga.

Abri a porta, ninguém me impediu, e saí andando pela rua. Quando começaram a vir atrás, corri e me perderam de vista. Ainda tonto, comecei a tomar o rumo do hospital psiquiátrico. Esse pessoal todo que se entenda com o seu mundo dos normais. Eu quero mais é a minha caminha lá, com a plantonista peituda, o Seu Geraldo (que trabalha há mais de vinte anos no hospital e opera a máquina de choque como ninguém) e o meu coquetel de Gardenal, Lexotan e Coca-Cola (para desentupir). Eu era feliz e não sabia.

Nelson Botter é cronista do Blônicas e deseja um delicioso 2006 para todos!

Escrito por Blônicas às 10h04
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Bacanal cristão

De Milly Lacombe.

Ah, o Natal. Essa maravilhosa festa cristã. A celebração máxima da religião mais popular do planeta. Uma época de confraternização entre os que se amam, como um dia Jesus – o homem de cuja existência não se tem prova histórica – deve ter sonhado: a família em volta da mesa, comida farta, gula praticada a nível máximo. Jesus, quando saía por aí pregando a paz entre os homens, certamente imaginou essa cena. Pão e vinho em doses miseráveis o escambau! Tragam o pernil, a farofa, a batata, massas, doces, bebidas várias. Que os homens se unam pelos laços abençoados do sal-de-frutas. O dia é para exageros. A ordem é comer até passar mal. Nada mais adequado às tais normas cristãs.

Normas, aliás, que vêm sendo adaptadas à conveniência dos patuscos cardeais que regem essa milionária instituição chamada Igreja. Patuscos, sim. O que é quase uma contradição de termos porque cardeais patuscos deveriam ser, por princípio, expulsos da instituição, junto com os homossexuais. Afinal, eles pecam igualmente: gula e luxuria. São, até onde aprendi, pecados de mesmo peso.

Mas falemos da cobiça. Uma semana antes do natal, lá estão todos os bons cristãos se entregando ao consumismo desenfreado. Nas calçadas, nossos vorazes consumidores passam por mães e filhos largados à sarjeta, implorando por uma esmola. O que fazem os imaculados cristãos? Os muito culpados jogam moedas e saem dali orgulhosos de tanta bondade. Os menos culpados – porque culpa todos os que fomos criados sob esse manto cristão temos em doses maiores ou menores – se convencem de que o problema não é deles – é um mal social, culpa do Governo (que, diga-se, é sim também culpado). Mas o governo não é o único diabo dessa história. Vilões somos todos, todos os que formamos uma sociedade que se divide em corruptos e corruptores. Mas não temos tempo para ver nada disso porque temos que sair desembestadamente por aí comendo e comprando. A época pede isso. Um verdadeiro bacanal cristão.

Fomos criados para acreditar que Jesus existiu e foi casto. Para acreditar no pecado original. Para acreditar que a mulher veio da costela de Adão. Isso entre outras carochinhas. Tudo sem questionar. Questionar é pecado porque pressupõe a negação da mais genial de todas as grandes sacadas cristãs: o conceito da fé. Fé: acredite sem refletir. Acredite sem questionar. Sem sequer pensar a respeito. Simplesmente acredite. Só assim você demonstrará que é um verdadeiro cristão e entrará o reino de Deus. Sim porque sim. Não porque não.

Como pode haver vida criativa sem que abandonemos o limitado, sem que questionemos? Como teria Colombo chegado as Américas se não tivesse questionado a retidão do mundo? E Galileu pensado em um sistema regido pelo sol e não pela Terra? Durante quantos anos a escravidão foi verdade absoluta, com selo de qualidade da Igreja? Quem ousou questioná-la?

Mas o fato é que eu também sou capaz de ter fé. Fé em que um dia todos nos libertemos do manto limitador do cristianismo. Que questionemos tudo. Que nos aventuremos por mares nunca antes navegados. Que rasguemos a atual cartilha de crenças que nos rege. Que construamos uma sociedade mais justa, mais feminina – sensível e intuitiva – e sem surtos maniqueístas. Que não nos deixemos corromper por dinheiro e poder. Que não corrompamos em nome do dinheiro e do poder. Que, finalmente – como deve ter desejado Jesus, se um dia ele existiu – aprendamos a nos amar e respeitar. Feliz natal?

Milly Lacombe escreve aqui aos domingos.

Escrito por Blônicas às 21h48
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O natal é vermelho

De Castelo.

Fazia aquele friozão tradicional na Lapônia quando Papai Noel pegou o celular. A ligação era para seu gnomo-auxiliar de confiança:

- Alô, Tatix? Dá uma chegadinha aqui em Napapiiri. Preciso de você numa missão especial…

Como um raio, o gnomo adentrou na sala de Santa Claus. O bom velhinho não perdeu tempo.

- Quero que você vá ao Brasil, fiel amigo. Vasculhe o país, do Oiapoque ao Chuí, se necessário – mas me volte trazendo um esquerdista de verdade.

- Esquerdista? – estranhou Tatix.

- Fui informado por uma de minhas renas, que o lugar seria um dos poucos onde ainda se acharia essa rara espécime viva.

Tatix coçou a cabeça:

- Mas por que o senhor precisa de um esquerdista aqui?

Uma lágrima rolou pelas róseas bochechas do ancião:

- Entra ano, sai ano, e nenhum adulto acredita em mim: dizem que não existo. Quero me aproximar dos meus iguais. Solidarizar-me. Sei lá, coisas da idade...

- Seu desejo é uma ordem! – disse Tatix.

E se desmaterializou para reaparecer na avenida W-3 em Brasília - disfarçado de executivo.

Imediatamente, deu início à busca.

Parou numa banca e comprou dezenas de publicações. Depois se sentou num quiosque de ônibus e, com sua visão megablaster eficiente, leu todo o material em poucos minutos.

Pronto. Já estava falando Português e tudo sobre esquerdistas estava armazenado em seu hardware.

Descobrira que estes usavam barba, bigode, gritavam palavras-de-ordem e se concentravam não muito longe dali. Sem perda de tempo, se picou para o Planalto.

- Onde acho um cara chamado Aldo Rebelo? – perguntou ao segurança.

- Tá em reunião – respondeu o guarda carrancudo.

Tatix já ia se mandando para outro ponto do Distrito Federal – a fim de localizar Oscar Niemeyer - quando saiu de um prédio o esquerdista modelo.

Tinha barba grande, usava um terno ensebado e vociferava palavras-de-ordem pelas calçadas da capital.

Tatix foi até ele. Cumprimentou-o e, ao tocar sua mão, os dois se desintegraram rumo a Lapônia.

Um décimo de segundo depois estavam diante de Santa.

O seqüestrado ainda estava tonto quando Papai Noel lhe pespegou uma pergunta:

- Ho, ho, ho! Como é seu nome, amigo?

O barbudo então deu um berro que fez todas as renas, assustadas, darem coices:

- MEU NOME É ENÉAAAASSSSSS!!!!!

Castelo é uma fortaleza e tem um site: www.castelorama.com.br

Escrito por Blônicas às 11h13
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Cria muenstros (O criador e a caricatura - 2a. parte)

De Henrique Szklo

   - Meu caso é grave, doutor?
   - Por enquanto não posso afirmar nada com certeza, mas me parece que o senhor sofre de um distúrbio que chamamos de personalidade fragmentada. Não consegue ver as coisas como um todo, só em partes isoladas. E mesmo quando tenta agregá-las, o faz de maneira confusa e desordenada.
   - Então o senhor concorda com todos os que dizem que sou maluco?
   - Absolutamente, Barão... Barão...
   - Frankenstein, mas pode me chamar de Frank, Doutor... Doutor...
   - Freud, Sigmund Freud. Mas continuando, Frank, seu caso é perfeitamente controlável.
   - Desculpe, Sig, mas acho que meu caso não é patológico. Meu problema é estar à frente do meu tempo, enxergar o futuro com mais clareza que todos os homens e costurar muito mal. Tive uma idéia espetacular e só porque não consegui realizá-la da melhor maneira, o que é que eu recebi em troca? Pedradas, pauladas, destruição de meu castelo pelo fogo e ainda estou tendo de morrer com uma grana preta com psiquiatra. Você acha isso justo?
   - Entendo você perfeitamente, Frank. Passei por algo bem parecido quando desenvolvi a minha teoria da psicanálise.
   - Também queimaram seu castelo?
   - Metaforicamente, sim. De qualquer maneira, como no seu caso, minha criação provocou reações violentas da opinião publica.
   - Pelo amor de Deus, Sig, como diria Nelson Rodrigues, a opinião pública é débil mental.
   - Tudo bem, Frank, mas, por favor, tire este bisturi do meu pescoço e volte para o divã.
   - Desculpe, Sig, mas o que é que estes celerados entendem de reanimação de corpos. Eu é que sou o criativo da história. Eu é que sei fazer, eu que sei ligar os pedaços de várias pessoas e criar o homem perfeito, quer dizer, sei mais ou menos. Mas esses idiotas não têm estatura intelectual para entender o alcance de minhas experiências.
   - Mas todo criativo deseja e necessita de aprovação. Quer platéia, quer pessoas aplaudindo seu desempenho. Querendo ou não, dependo do público. Não é verdade?
   - Me admira você fazer esta pergunta. Você não acabou de dizer que passou pela mesma coisa?
   - Para isso eu também gasto uma nota preta com análise. Mas, no momento, quem está gastando é você. Portanto vamos nos concentrar no seu problema.
   - Tem razão, claro.
   - Tome um lenço e limpe sua gravata. Está toda babada. Agora, fale-me mais de sua infância, Frank. Me parece que o fato de seu pai ser açougueiro e sua mãe costureira teve influência direta sobre a sua criação.
   - Pode ser. Até porque eles eram separados e eu vivia tentado juntá-los. Em vão, claro.
   - Escute, Frank, não é que eu queira interferir na sua criação, acredito até que conceitualmente estava perfeito, mas na parte estética...
   - Mas você pensa que ele ficou do jeito que eu queria? No papel era sensacional, moreno, alto, forte, bonito, inteligente, simpático, esportista, mestre em oratória, campeão de biriba. Iria até escrever livros de auto-ajuda, fazer workshops em spas, criar uma igreja evangélica...
   - Então, o que houve, Napoleão? Quer dizer, Frank.
   - Fui mal orientado. Eu tinha um assistente, o Igor.Eu estava deprimido e precisava de um ombro amigo. Mas ele só me deu a corcunda. Depois, ele insistiu e me convenceu a fazer uma pesquisa para ver o que as pessoas gostariam de ver num homem e deu no que deu.
   - Como assim?
   - Eu fui atrás do resultado da pesquisa: cabeça de bagre, testa de ferro, queixo de vidro, ouvidos de mercador, olho gordo, nariz de cera, costas quentes, ombro amigo, peito de aço, barriga de aluguel, mão de vaca, cintura de vespa, pernas de garça, tornozelo de miss, bunda mole, pé no saco...
   - Mas isso foi um erro estúpido. Qualquer um sabe que pesquisa é uma ferramenta da criação e não sua prisão. É para ser interpretada e não aplicada literalmente.
   - Peraí, Sig, não engrossa. Lembre-se que eu sou o cliente. Estou pagando para você concordar comigo.
   - Desculpe, Frank, tem razão. É que não tenho andado muito bem ultimamente.
   - Puxa, que chato, Sig. Será que eu posso ajudá-lo? É meio difícil com esta camisa-de-força, mas eu posso tentar.
   - Sei lá, só sei que um dia desejei matar meu pai por ele ter relações com minha mãe. Oh, meu Deus, não suporto mais este trauma.
   - Não chore, Sig. Tudo bem, todo mundo é apaixonado pela mãe em algum momento da vida.
   - Mas eu vivia tendo fantasias eróticas com ela.
   - Ai, que nojo! Que espécie de monstro é você?

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e pensa que todo mundo é filho de Papai Noel. Leia seu site,  o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas às 22h51
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Como é que eu faço?

De Leo Jaime.

Estávamos lá, autografando os livros no lançamento, quando resolvi compartilhar uma pequena angústia com uma das minhas parceiras de blog e livro: "Como é que você faz? Escreve a mesma dedicatória pra todo mundo? Fica constrangida com isso?". Até certo ponto, incomoda a possibilidade de um ficar lendo a dedicatória do outro pra ver se escrevemos a mesma coisa. E se for? A amiga disse que a uma certa altura, para ser criativa e fazer algo de muito pessoal para uma pessoa amiga escreveu assim: foda-se! E depois ainda teve que dar explicações. Eu acho que compreendo.

E então? Tentamos ser criativos e bolar uma coisa minimamente interessante pra cada um ou dizemos, ou escrevemos, aquele textinho decorado mas eficaz? É uma escolha. Cada um quer uma coisa pessoal e intransferível daqueles segundos em que o encontro se deu. O fato é que estar lá no dia do lançamento e ter a assinatura do autor, ou dos autores, é bacana. Mesmo sem uma dedicatória muito espalhafatosa. Mas já que somos autores, que estamos vendendo nossas habilidades com a palavra, não seria mais correto dar um capricho e escrever um parágrafo ou frase originais para cada um? Pois é. E, vamos supor, sendo cem o número de livros para serem autografados, com cem nomes diferentes e grafias às vezes insondáveis, eu juro!, num prazo de uma hora: como é que fica?

Essa mesma indagação já me ocorreu em filas de cumprimento de noivos. Dizemos a eles um rápido e burocrático "sejam felizes" ou elaboramos um breve e intrigante período sobre as peripécias do amor e os augúrios de uma nova família? Pior ainda quando o assunto são as condolências. Dar os pêsames. Aquela fila, a viúva se esvaindo, nosso coração encolhido de compaixão e a dificuldade em escolher palavras que não façam a fila emperrar e nem sejam de uma superficialidade formal que invalide todo o sentimento. O que dizer? Ou, e a questão inicial volta à cena: decoramos uma passagem magnífica e mantemos a frase qual seja o defunto? Deixamos a poesia decorada cumprir nossa missão ou improvisamos?

A amiga vem e me apresenta: "essa é minha companheira.". Muito prazer! A companheira sai e eu comento que é legal ela apontar a mulher dela e apresentá-la assim. Alguns amigos gays apresentam os namorados como "amigos". Oras, amigos muitos são e não gozam, perdoe o sentido enviesado, das mesmas intimidades. A amiga aponta seu desconforto com o termo "companheira". Parece coisa de petista. Concordo. Depois de alguma deliberação chegamos à conclusão de que as melhores opções são: essa é minha nega ou essa é minha patroa. Claro que tem tons de diálogo de sambista ou adjacências. O que é melhor. Mas como é que ela apresenta a mulher dela?!

Escrever é tentar domar as palavras. Nem sempre domáveis.

Leo Jaime escreve no Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h00
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Quem pensa não casa

De Rosana Hermann.

 

Enquanto não inventarem aquele sistema do filme Matrix de fazer download de conhecimento, aprender será sempre um processo demorado. Leva tempo para cair a ficha, para entender a vida e até interpretar um simples ditado da sabedoria popular. Depois de todos esses anos compreendi uma frase que detestava: quem pensa não casa.

 

A primeira interpretação foi a mais óbvia. Casar deveria ser uma bobagem tão grande que qualquer pessoa com a mínima capacidade de raciocinar ficaria solteiro eternamente. Mas a vida mostrou que a todo instante o desejo de encontrar um par e ter alguém com quem ficar aninhado provava que o instinto humano era pró acasalamento. E o instinto não pode ser tão imbecil assim. E assim, abandonei a vida solitária e comecei a pensar em casar com alguém.

 

A segunda interpretação foi a de que casar deveria ser um ato impulsivo sem grandes requisitos de reflexão. Achei interessante a proposta de casar sem pensar. E assim, fui casando impensadamente pela vida afora.

 

Passados alguns erros e muitas tentativas comecei a suspeitar que o ‘quem pensa não casa’ poderia ser um alerta para o excesso de importância que a civilização dá ao intelecto em detrimento do corpo. E acreditei que, enfim, a proposta fosse a de ter uma vida mais carnal como solução para a vida a dois. Matriculei-me numa academia, passei a fazer atividades físicas cinco vezes por semana, fiz uma dieta de muitas restrições, fiquei magra e linda. E nunca fui tão infeliz na vida conjugal.

 

O tempo passou, construí uma família e uma vida estável, esqueci o provérbio. Até que o insight aconteceu. Depois de uma rara discussão que acabou em briga de casal, com direito a acusações, lista de defeitos e ameaças de rompimento, finalmente entendi que a frase é na verdade, um koan, aquele tipo de proposição zen budista que contém uma verdade inacessível para o intelecto mas compreensível para a intuição e que, ao ser usada na meditação, pode levar a pessoa a iluminar-se. Não sei se me iluminei mas entendi que pensar é o mais solitário e egoísta dos atos humanos enquanto casar é exatamente o oposto, é a idéia de dividir a vida e o afeto com outro ser humano.

 

Pensar é masturbação mental, casar é vida sexual. Pensar é a ante-sala da paranóia, casar é a sala de estar do equilíbrio. Para pensar é preciso ter cérebro, para casar é preciso ter coração. Quem só vive pensando não aprende a conviver, a chave do casamento, um exercício diário de negociação, prática constante da adaptação. Quem não consegue flexibilizar o pensamento, quem não é capaz de abrir mão da teimosia, quem tem dificuldade aceitar o outro, não fica em qualquer tipo de casamento. Porque você pensa sozinho mas casa com o outro. Porque casar é pra fora, pensar é pra dentro.


Casar é pra sempre, pensar é um momento.
Pensar não casa com sentir. 
E casamento é exercício de sentimento.

 

Rosana Hermann escreve aqui toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h32
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Bilhete suicida de um duende

De Nelson Botter.

No momento em que você estiver lendo essa minha carta, Belinha, já devo estar morto. Sim, a decisão de cometer suicídio foi barra pesada, precisou de muita coragem da minha parte, mas é definitiva. Simplesmente não agüento mais. Pois é, Belinha, a única coisa boa que me prendia neste maldito mundo era você, e depois que entrei no almoxarifado da fábrica de empacotamento de presentes e te vi bulinando o Papai Noel de calças arriadas, nada mais me resta. Pior que isso foi saber pelo Willow, em plena bebedeira de fossa lá no bar da rena do nariz vermelho, que não era o primeiro par de chifres que você colocava nesta minha pequenina testa. Ele me contou, Belinha, que você já saiu com metade da Lapônia, que até já fui chifrado com um boneco de neve que vivia se derretendo por você. Agora entendo aquela sua tara por cenouras...

E o que fazer numa hora dessas? Comprar uma briga com o mundo ou simplesmente abandoná-lo, tirando meu time de campo e me recolhendo à nítida insignificância do meu nanico ser? Preferi a segunda opção. Então saiba, sua vaquinha, que a culpa de minha morte é sua. É isso aí, você vai carregar na sua consciência pelo resto da vida essa minha decisão. Cada vez que você fechar os olhos na cama com outro duende, ou até mesmo com aquele velho broxa do Papai Noel, vai se lembrar de mim, vai recordar que minha morte foi decorrência desse seu fogo insaciável, esse vulcãozinho que você carrega no meio das perninhas... que delícia! Ah, Belinha, serei o fantasma da sua vida, sua putinha, esse meu desejo nem praga é, já se tornou uma maldição. Prepare-se, pois você terá de conviver com isso para o resto da sua mundana vida.

Mas é claro que os motivos que me levam ao suicídio não são relacionados só a você, sua vaca de presépio. Não fique se achando tão importante assim, você é apenas uma pequena parte de toda a minha tragédia. Pior que a sua perversão, só mesmo a triste condição de vida dos duendes. Quanta injustiça! Pra começar, ninguém acredita em duendes. Se nossa autoestima já é baixa por natureza, o que dizer depois dessa constatação? Além disso, não temos inclusão social, só arrumamos emprego na época do natal, ou ajudando aquele velho pederasta do Noel a empacotar e distribuir presentes ou então em shoppings, como ajudante daqueles falsos e patéticos papais noeis, que fedem a cachaça vagabunda, usam aquela barba de algodão amarela toda babada, que já foi utilizada por uns dez outros caras em vinte e oito natais, e aquela roupa vermelha cheia de ácaros, exalando cheiro de naftalina. Tudo isso pra ficar levando cuspe na cara daquelas crianças mimadas que ficam passeando no shopping com as mães que não têm muito o que fazer, a não ser estourar o limite do cartão de crédito. Você sabe, Belinha, ser duende é broca. As pessoas acham que podemos ganhar o suficiente em novembro e dezembro para nos mantermos pelo resto dos meses. Que idiotice! Nem ticket-panetone nós ganhamos. E o transporte coletivo, então? Está o olho da cara a passagem de trenó! E os gastos com roupas? Acham que só porque usamos tamanho PP as nossas vestes são baratas? Esquecem que aqui faz um puta frio e que precisamos usar roupa sobre roupa! E nosso chapeuzinho, que é feito por encomenda? E nosso sapato com a ponta viradinha pra cima, uma fortuna! Quero ver alguém achar isso naquelas lojas de tênis vagabundo ou então nos 1,99 da vida. É, Belinha, sua tratante, minha desgraça é muito mais do que os chifres de alce que você me pôs. Comida nem entra na questão. As renas comem melhor que a gente. Para nós só sobra aqueles doces em forma de bengala, brancos com listas vermelhas. Até bola de árvore de natal já tive que comer pra matar a fome. Você bem deve lembrar que meu primo Patrick morreu com uma estrela entalada na garganta. É o desespero da fome! E me lembro de ver você diversas vezes chupando os bonequinhos do presépio. Aquela sua desculpa de que você estava treinando novas técnicas era só pra disfarçar sua visível fome. É, eu nunca engoli, quer dizer, você também não. Agora você pode entender porque naquelas noites de frio, em nossa cabaninha, antes de usar as cenouras em você, eu sempre comia um pedaço...

Nossa, me ocorreu uma coisa agora: como sou burro! Estava tudo tão escancarado na minha rosada cara e eu nunca percebi! Você sempre reclamava que eu tinha pinto pequeno, e eu respondia que eu não podia fazer nada, que duendes são inteiramente pequenos... E aí, sua putana, você dizia que nem todos os duendes eram assim. Estava lá na sua resposta a prova maior de toda a sua traição! Como você poderia saber isso se não tivesse visto vários? Como fui tolo. E como me dói saber que existem duendes de pau grande! Nem nisso tive sorte, puta merda...

Entretanto, o que me fez tomar a decisão de cometer suicídio foi te pegar com o bastardo do Noel. Já disse isso, né? Desculpe, é que a eminência da morte me deixa confuso, Belinha, estou atordoado e cada vez que lembro daquela cena dantesca meus sentidos ficam mais confusos. Eu deveria ter desconfiado. Aquele velho traidor me boicotava abertamente! Quando ele me tirou da chefia do departamento de laços e fitilhos eu já deveria ter notado que algo estava acontecendo. E quando fui pedir aumento e ele riu na minha cara: "ho ho ho!".

Escrever um bilhete suicida é mais difícil do que eu pensava, a gente vai lembrando das coisas e vai percebendo que é mais idiota do que achava no começo da carta, e aí a vontade de se matar só vai aumentando. Agora vejo o quanto fui ingênuo, o quanto fui prejudicado naquela fábrica. Por isso o traíra do Noel queria me transferir para a filial de Campinas, onde fazem o treinamento dos veados do trenó. Tudo tão claro e eu não vi! No final das contas, se eu me matar vocês vão se dar bem, caminho livre para sua putaria com o velho! E eu pensando que aquele carregamento de Viagra lá no fundo da fábrica fosse pro ridículo do Noel usar com a mamãe Noel, a Dona Nóia... É, vocês planejaram tudo isso, querem se ver livres desse baixinho invocado aqui! Pois saiba, Belinha, que resolvi mudar meus planos enquanto escrevia essas últimas linhas. Agora, enquanto você estiver chegando no final desse bilhete, saiba que já tive tempo suficiente para chegar na casa do velho. Sim, vou matá-lo e você nunca mais terá aquela coisa murcha nas mãos. Vou fazê-lo tomar tanto Viagra de uma vez só que a roupa dele de vermelha vai ficar azul. Pois é, Belinha, minha doce vaquinha, seu castigo será viver com outra culpa, pois saiba que a essas horas o barbudinho já era! De hoje em diante, queridinha, diga a todos que Papai Noel não existe...

Nelson Botter escreve aqui de terça e é um dos autores do livro Merreca Christmas, com textos de 14 escritores sobre o lado engraçado do Natal.

Escrito por Blônicas às 11h13
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Mais uma sobre as duas melhores coisas do mundo: a mulher e o garçom

De Xico Sá.

 

Numa mesa de bar, claro.

Se não, não teria graça. Eu nem contaria.

Confesso que bebi.

Deus deveria parar o cronômetro, como um juiz de basquete, quando a vida não tivesse como locações a cama ou o boteco.

Mas nada é tão justo assim nesse mundo. Sabemos.

Numa mesa de bar. Exterior, calçada, noite.

A nega indaga:

“Por que será que garçom só decora nome de homem?”

A nega é mulher de amigo, Jotabê Medeiros, compadre torcedor do glorioso Santos Futebol Clube.

De mulher de amigo também não sei sequer o batismo, o sagrado nome. Vê se pode uma coisa dessas!

Garçom só decora nome de homem?

Arrisco uma tese, PhD de botequim que me prezo. Com ajuda da amiga Ana Weiss, linda mulher do lado.

O bar é minha UFPE, minha universidade católica, meu doutorado da USP, minha filosofia, minha cachaça, minha cátedra, minha nota de rodapé, minha escolástica...  Meu bar, meu mar...

Desde o “Robertão 70”, onde eu bebia no Recife ao som do Rei e sob às vistas do sósia-proprietário, grande homem.

Desde o bode, o arco e a lira, naquele bar do Espinheiro, mesmas plagas, na companhia do lírico-mor, saudoso amigo Jaci Bezerra.

A tese, sem mais torresmos mentais: ora, homem confia e trata bem o garçom, faz favor.

O garçom é o cúmplice, o ombro amigo, o divã que anda e traz o Freud, o Reich engarrafado. No tempo em que se fazia mais sexo, o chique era Reich, lembram?

Mulher contesta o garçom.

Mulher é que confere as contas.

Mulher é Procom, homem é fraude e festa.

Mulher acha que o garçom é aquele quarto árbitro que sempre levanta a placa do acréscimo, na beirada do campo, pedindo mais tempo, mais uma saideira.

Seu garçom faça o favor!

Mulher é uma praga. E como amo.

Mulher mata mais do que coração e varíola. Ainda morro disso, seu Evaldo, garçom-proprietário daquele bode da Encruzilhada, onde monto no White Horse e discuto Blow-Up,o filme, com Luciana Araújo, Hilton Lacerda e Dolores.

A vida é 90% inspiração e 10% garçom.

Garçom é a encarnação do anjo da guarda dos machos.

Garçom mantém o respeito e guarda a sete chaves o batismo das nossas melhores costelas.

Num bar, a simples pronúncia do nome de uma mulher já é o maior dos pecados. Ele sabe.

E se for mulher dos outros, meu Deus, cem anos de inferno.

Não há a menor réstia de machismo, minhas queridas, nessa elipse de gravata borboleta. Não é falha. O garçom não vos chama pelo nome por excesso de zelo, omissão sagrada, amém.

Garçom não é dez, é 100%, garçom está acima de homem e mulher, garçom é a ONU da existência, mais uma, faz favor, e pergunta ai ao freguês de lado de quanto o meu time apanhou!

Xico Sá é cronista do Blônicas e manda avisar aos amigos do Recife e de Curitiba que todo sábado (Diário de Pernambuco) e domingo (O Estado do Paraná) tem crônica inédita, como esta. Próxima parada será Fortaleza (Diário do Nordeste). Interessados nos serviços do cronista, encomendem o bolo-de-rolo aqui www.brpress.com.br

Escrito por Blônicas às 17h21
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Como escolher um deus

De Edson Aran.

 

Talvez o deus que você esteja usando no momento seja surdo, mudo e nunca o socorra em momentos de real necessidade (“Oh, Poderoso Kahuma, permita que esse seu indigno servo passe o rodo na gostosa do marketing!”).

 

Mas antes de sair por aí cultuando bezerros de ouro, certifique-se de orar à divindade certa. Pedir abundância a um deus da destruição ou chuva a um deus do submundo só vai complicar a sua vida. E tenha sempre em mente que muitas deusas do amor também são deusas da fertilidade. Você até vai passar a vara na gostosa do marketing, mas pode ganhar uma ninhada de mini-marqueteiros de fraldas sujas.

 

Deuses omissos acabam com a fé de qualquer um, mas deuses hiperativos são uma fonte interminável de problemas. Sim, eles atendem às suas preces, mas enchem o saco com arbustos flamejantes, chuvas de fogo, estátuas de sal e anjos batendo na sua porta às três da manhã.

 

Um anjo na sua porta às três da manhã nunca é notícia boa: ou é pra você sacrificar o próprio filho ou o Poderoso Congamonga está de olho na sua mulher.

 

Escolha um deus que você sabe pronunciar o nome. Se você não consegue dizer “Quetzalcoalt”, arrume outra divindade ou seus rituais vão ficar ridículos. “Seu indigno lacaio o saúda, oh grande Qeatlz... Quoatlz... Qwertyuoip...ah, foda-se!”

 

Deuses são caprichosos e exclusivistas. Tenha muito cuidado com deidades ególatras que se acreditam únicas, permitem apenas o monoteísmo e punem os faltosos com enchentes de rãs e terremotos de gafanhotos. Se puder optar, prefira o politeísmo. Se não puder, experimente pelo menos o catolicismo.

 

Deuses onipresentes são como parentes chatos que nunca vão embora. Deuses oniscientes são como vizinhos bisbilhoteiros que não têm o que fazer. Deuses onipotentes são como argentinos: pensam que são grande coisa, mas é só pretensão e água benta.

 

Deuses nórdicos são ok, mas você terá de enfrentar e matar de dois a seis gigantes por dia para manter o panteão feliz. Além disso, os nórdicos são obcecados por martelos, ragnaroks e brigas de rua. São uma espécie de Gaviões da Fiel no mundo dos deuses.

 

Deuses gregos são muito mais divertidos, mas tenha cuidado. Se você for mulher, não dê mole para cisnes tarados, por mais sedutores que eles pareçam. Você pode acabar mãe de um semi-deus e eles dão sempre muito trabalho. Doze, na média.

 

Cuidado com deuses que têm caras de elefante. Onde eles pisam não nasce na grama. Deuses de muitos braços nunca dão o braço a torcer. Deuses incorpóreos são os primeiros a tirar o corpo fora. Deuses do vinho são ótimos, mas te deixam em péssimo estado na manhã seguinte.

 

E lembre-se: deuses que exigem sacrifícios humanos prometem mundos e fundos, mas nunca explicam como esconder os corpos.

 

Edson Aran é cronista do Blônicas. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 13h30
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Eu divido tudo

De Milly Lacombe.

Eu divido tudo: cama, jornal, livro, guarda-roupa e até mulher se for para o bem de todos. Mas tem uma coisa que, no meu mundo, é indivisível: comida. Desde pequena. Quando tinha dois anos, assim conta a matriarca, e vinham me roubar um gole de alguma coisa eu categoricamente negava. Odeio o som das palavras "Posso dar um gole?", "posso dar uma mordida?", "posso experimentar?". O diabo é que, em certas situações, a pergunta é imediatamente seguida do gole ou da dentada e aí não há mais nada a fazer a não ser abandonar o que se estava comendo. Por que você é assim?, perguntou a matriarca durante toda minha infância e adolescência. A pergunta, naturalmente, tinha intenções mais profundas do que saber os motivos pelos quais eu me negava a compartilhar alimentos. E, da forma como deveria ser ouvida, era: "Por que você é assim esquisita, minha filha? Onde foi que eu errei?". Hoje, me vendo falar sobre homossexualiade der forma pública, minha mãe deve achar que se minhas esquisitices tivessem ficado restritas a fúria em proteger o alimento isso teria sido uma verdadeira bênção.

Como, durante os primeiros anos de minha vida, só me deparei com pessoas que davam goles e mordidas sem ver nisso qualquer problema, incluindo nessa lista meus três irmãos, acabei achando que essa minha característica, por mais que me parecesse a correta, era de fato esquisita. No recreio era um tal de dentada pra cá, gole pra lá que eu comecei a querer ser como eles. E, num certo dia, disse a mim mesma que, se alguém me pedisse gole ou mordida, eu daria. Dei. E joguei o sanduíche fora na sequência. Era mais forte do que a vontade de ser igual.

Por causa desse incorrigível nojo pela saliva alheia sempre soube que só seria dentista se minha vida dependesse disso. Não há como, no meu mundo, alguém optar, voluntariamente, sem que sua vida esteja sendo ameaçada, por ganhar dinheiro metendo a mão na boca dos outros. Nesse meu mundo encantado, dentistas, só com recrutamento forçado. Mas também, por causa dessa minha nobre esquisitice, não me imaginava beijando um outro ser humano.

Por isso, quando Flávio, na quarta-série, me agarrou atrás do armário, corri como uma besta enfurecida. O menino, onde já se viu, queria grudar a boca dele na minha. Se gole e mordida estavam fora de cogitação, trocar saliva era ocorrência inimaginável. Acabamos, é verdade, namorando. Mas, beijo, beijo, não me lembro de ter dado.

Tudo mudou quando, aos 16 anos, beijei uma outra mulher. Foi nesse dia, na tarde de 12 de dezembro de 1983, que perdi definitivamente o nojo pela saliva alheia. E descobri que não há no mundo sensação igual a essa do beijo demorado e apaixonado na pessoa amada. Não há, para dizer a verdade, lugar mais confortável e aconchegante do que esse para onde nossa alma é enviada durante um beijo movido por amor. Ainda assim, gole e mordida eu não dou.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 12h32
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Nova Iorque - MA

De Castelo.

Veio para São Paulo, com filho e marido do Maranhão.

Tinham perdido o patrimônio por causa da seca.

Ao chegar, pegou as economias - que trouxera costurada na calcinha - e foi depositá-las no banco.

Muito tímida, colocou o RG no balcão.

Um atendente passou, pegou a identidade, e falou, com naturalidade, em voz alta:

– Nova Iorque – MA?

Ela tinha sido nascida e criada numa cidade maranhense que é xará da Big Apple. E mal sabia a confusão que isso ia dar.

Logo depois chega o gerente. Disse, num sotaque macarrônico:

– What can I do for you?

Avexou-se com aquilo. Como é que falavam em inglês com ela, uma criatura tão evidentemente pindoramense.

Indagou ao gerente se havia algum erro.

Ele:

– Ah, fala tão bem o Português…

Insistiu:

– Moço, olhe aqui, eu sou brasileira! E da gema!

Ele, já quase gritando:

– Mas está escrito aqui no seu documento: a senhora nasceu em Nova Iorque – MA! – e MA quer dizer MASSACHUSSETS!!!

Ligou chorando para o marido. Quando ele chegou, a mulher estava com o mapa-múndi aberto sobre a mesa, e ainda teimava.

– Fica aqui, pertinho de Pastos Bons!

O gerente não se conformava:

– Fica no Hemisfério Norte!

Foi assim durante horas. Até que resolveram guardar o dinheiro em casa mesmo.

Castelo (www.castelorama.com.br) é uma espécie de palácio e visita Nova Iorque, no Maranhão, a convite de sua avó.

Escrito por Blônicas às 10h49
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Papai Noel filho da puta

De Henrique Szklo

Querido Papai Noel:

A minha mãe mandou escrever esta cartinha para o senhor, mas eu devo confessar que foi contra a minha vontade. Ela me obrigou, aquela chata. Eu disse pra ela que não acreditava no senhor e ela quase me bateu. Eu disse, então, que na melhor da hipóteses, o senhor era um filho da puta sem tamanho, já que nunca trouxe nada do que eu pedi.

Durante anos fui um menino exemplar, só tirava nota boa. Eu era o mais bonzinho da classe e o mais simpático do bairro. Todo mundo gostava muito de mim. E me pergunta se adiantava alguma coisa. É claro que não e o senhor sabe muito bem, como um filho da puta que é. E todo ano era a mesma coisa: muita bondade, muita educação, muita disciplina, mas presente que é bom, nada.

Cansei de escrever cartinhas pro senhor contando como fui um bom menino e prometendo melhorar sempre. No final, como de praxe, eu fazia uma pequena lista de presentes que gostaria de ganhar. Nada muito oneroso, nada que um Papai Noel de classe média não pudesse comprar. Nada que um filho da puta de classe média não tivesse condições de adquirir. E, o senhor sabe muito bem, jamais recebi nenhum destes presentes. Nadinha! Zero! Que bom velhinho, que nada! É um bom filho da puta, isso sim!

Na verdade, se eu fosse o senhor, preferia mesmo não existir. Porque, do contrário, não sobreviveria cinco minutos lá na minha quebrada. O que tem de neguinho querendo pegar o senhor de pau não é brincadeira. Seu nome tá bem sujo por lá, viu, seu filho duma puta!

Aliás pra mim o senhor é boiola. Fica só sentado colocando a molecada no colo. Eu, hein? Se a polícia investigasse sua vida, garanto que ia descobrir que o senhor é um pedófilo nojento. Nojento e filho da puta. E bebum, ainda por cima. É, porque essas bochechinhas vermelhinhas e essa cara de bobo alegre nunca me enganaram. Pensa bem: quem em sã consciência sairia por aí com essa roupinha ridícula, parecendo uma cereja gigante com chantili? Só se estiver mamado, não é não, hein, seu filho de uma puta?

E essa barriga indecente? Chega a ser uma afronta num país onde tanta gente morre de fome. Mas o senhor não tá muito preocupado com esse pessoal não, né? O seu negócio é aparecer na televisão, todo metido a besta. Se achando artista de novela, fazendo comercial de tudo quanto é shopping center. Pensa que eu não sei que é tudo mentira? Me disseram até que quem inventou o senhor foi a Coca-Cola. Não me espantou nada, afinal, pra mim o senhor não passa de um arroto. Um arroto filho da puta.

Mas, fala a verdade, Papai Noel: o senhor não se incomoda nem um pouco em ser tão filho da puta? Não mexe com seu orgulho, sua auto-estima? Eu, se fosse metade do filho da puta que o senhor é já teria me matado. E enforcado aquelas renas boiolinhas antes.

Mas voltando ao assunto, a minha mãe mandou eu escrever esta cartinha pro senhor pra dizer que eu fui um bom menino este ano e queria ganhar de presente a diminuição da minha pena aqui na detenção. Mas como eu sei que o senhor é um grandessíssimo filho da puta, se bobear, a pena até aumenta. Bem, já fiz o que minha mãe pediu, agora o senhor pode pegar esta cartinha e enfiar no cu. E um Feliz Natal pro senhor.

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e pensa que todo mundo é filho de Papai Noel. Leia seu site,  o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas às 13h32
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De que lado você fica?

De Leo Jaime.

Vamos supor que em sua rua tenha um supermercado e que você faça suas compras lá, regularmente. Já cumprimenta os funcionários, conhece as prateleiras, sabe que o preço não é o melhor mas como é próximo e tem bons produtos é um cliente fiel. Fiel até ser surpreendido com a notícia, espalhada aos quatro cantos do planeta, de que o gerente da loja resolveu tocar fogo em uma família de mendigos que tinha se mudado para a marquise do supermercado dias atrás. Pois é, todo mundo dormindo ele chega, sorrateiro, joga gasolina nos cobertores e ateia fogo, fazendo um churrasco daquela família que, aos olhos de todos, exibia sua miséria ali, de forma inconveniente, incomodando os usuários e espantando a freguesia. Isso mesmo, você não era a favor daquela família residir na frente daquela loja mas ficou horrorizado, com justiça, com a medida escabrosa que o seu gerente arranjou pra resolver o assunto.

Qual sua atitude? Espera que a lei seja cumprida e nunca mais volta no supermercado? Provavelmente. Mas, afinal, o erro foi do gerente ou da empresa? Será que a empresa merece perder o cliente por ter tido um gerente maluco que tomou uma atitude criminosa por conta própria? Você pode nem querer saber. Mais provável é o supermercado predileto da vizinhança fechar as portas vendendo a loja para uma grande rede. O consumidor costuma ser radical nestes casos. Ainda mais quando é um caso desta gravidade, envolvendo assassinatos de crianças de forma tão hedionda.

Nada na história acima parece irregular, nem mesmo o exagero que parece ser culpar o CNPJ de uma empresa por um erro pontual e imprevisível de um funcionário. Vamos agora transferir a mesma situação para a realidade carioca e tentar compreender um dilema que lá se estabelece e que aqui será exposto.

São muitos os entorpecentes, a maioria deles liberada e fabricada por laboratórios confiáveis ou fábricas vigiadas e controladas pelo serviço de saúde pública. Álcool incluído, em suas milhares de formulações.

Vamos, porém, admitir que o seu favorito, o que você gosta de usar, não esteja na lista. Digamos que você prefere ficar mutcho loco com algum bagulho fabricado por pessoas honestíssimas e muito criteriosas com relação a métodos de higiene e controle de qualidade. Que este seu bagulho costuma ser transportado com muito carinho por pessoas igualmente ciosas, muitas vezes em suas cavidades mais íntimas, e que estes portadores tenham por hábito acrescentar com generosidade substâncias que visam enriquecer o mesmo bagulho, tão sagradas que a este ato se dá o nome de batismo. Diante de tudo o que aí se apresenta é naturalíssimo que você tenha a mais cega confiança no produto e em quem o serve. Eu compreendo: o bagulho não tem a função de alterar o estado de consciência? Quem disse que é pra melhor? Quem sou eu pra julgar? Vá lá! Você tem a maior confiança no seu vapor e na origem do bagulho "dubão" que ele costuma trazer em sua casa. Ou é você que passa no barraco dele pra buscar? O que importa?

Ai acontece a surpresa: aquele pessoal de índole sem jaça está com todas as digitais impressas na autoria de um crime bárbaro. O cara que vende seu bagulho é funcionário de uma boca que mandou queimar um ônibus com todos os passageiros dentro vivos, incluindo criancinhas. Não me pergunte o porquê de achar que o fato de ter criancinhas faz este churrasco humano mais bestial.

Eu apenas reservo-me ao direito de achar que crianças de dois anos, viajando com a mamãe de ônibus, são menos hábeis para lutar pela própria vida diante da surpresa terrorista desta natureza.

Pois é. O seu gerente mandou tostar o ônibus sem permitir que ninguém saísse de dentro. Um colega do cara que você recebe em sua sala ficou lá, impedindo que o pessoal escapasse à morte horrorosa. Um ou mais. Vai ver ele mesmo estava lá. E agora? Você deixa de comprar bagulho com ele e vai comprar com aquele pessoal que assou o jornalista com os pneus em volta do corpo?

Talvez você prefira tentar compreender que todo mundo perde mesmo a cabeça um dia e que, pô, os traficantes são muito perseguidos: qualquer um faria a mesma coisa se estivesse no lugar deles. É provavelmente você vai indagar, em meio ao consumo de uma presença dada pelo seu vapor, que ele passou da conta desta vez mas que não deixa de ser um cara super gente fina. E que o bagulho dele é bom e não vem malhado.

A sociedade do Rio tem feito suas escolhas. Tem que fazer. Em todas as cidades grandes, corrompidas pelo crime organizado, a escolha é proposta cotidianamente: de que lado você fica?

Com tanto jeito de alterar seus estados de consciência sem comprar nada de bandido você vai continuar fazendo questão do bagulho produzido pelos criminosos? Já lhe ocorreu que os lugares em que há maior injustiça social no planeta sejam exatamente os grandes centros de produção e escoamento de drogas? Seu traficante queima criancinhas vivas e você continua comprando bagulho dele como se nada houvesse? Você compreende? Acha um absurdo, mas nem por isso vai deixar de ficar doidão do mesmo alucinógeno ilícito?

Neste caso, caro leitor, só posso dizer uma coisa: tomara que o próximo bebê assado por um destes animais seja filho seu e não de alguém que, como eu, sabe muito bem de que lado está. Do outro.

Não dou um centavo em mão de bandido. Não alimento a corrupção.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h38
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Eu, mulher

De Rosana Hermann.

 

Uma mulher não é um mistério, é uma confusão. E aproveito a ocasião para mandar o Freud à merda. Por causa dele não se pode falar de mulher sem que alguém na rodinha mencione alguma coisa sobre histeria, inveja do pênis ou a dificuldade de compreender a fêmea humana. E, por favor, a menos que você queira ir no lugar dele, não tente me convencer sobre a genialidade de Freud neste momento. Depois eu mudo de idéia. Agora eu quero que o Freud se foda.

 

Uma mulher não é um flor, é uma couve-flor. Carnuda, comestível e, para alguns, indigesta. E, sim, já notei, a analogia não presta, porque mulher se come crua e couve-flor, cozida. Mas dane-se, a coerência não é a primeira das virtudes femininas. E assim é: quando a gente acerta é por ser mulher e quando erra é porque somos humanas. E quer saber, quer comer couve-flor crua, que coma. Estou de tpm.

 

Uma mulher não é um avião, é uma caixa-preta; não é uma equação é uma função de muitas variáveis. Pra mulher, tudo depende. De tudo.

 

Um homem pode ficar a fim de uma mulher e imediatamente querer comê-la. A mulher pode estar com o mesmo tesão, a mesma vontade e, ainda assim, não ir para a cama naquele dia por motivos que qualquer homem consideraria como torpes, com requintes de crueldade. A calcinha pode não estar combinando com o sutiã ou simplesmente, pode não ser a calcinha certa; o sutiã pode estar um pouco velho; o jeans pode deixar uma marquinha indesejável na cintura; ela pode estar se sentindo inchada naquele instante; pode estar encanada com a falta de uma meia depilação na virilha; um neurônio pode estar avisando que a escova se desmancharia no travesseiro, escova esta que precisa estar inteira na manhã seguinte para um compromisso. A mulher sabe que esses detalhes podem impedir que ela goze bem. Porque gozar bem requer uma cabeça vazia de preocupações. Gozar é entregar-se à maravilhosa pororoca do tudo com o nada.

Para o homem vale a velha piada da cabeça de baixo que se impõe sobre a de cima mas, a mulher, abriga tudo numa cabeça só. Qualquer compromisso na agenda, pode atrapalhar o tesão. A mera lembrança de uma ligação telefônica esquecida ou um boleto bancário que não foi pago, pode arruinar a apreciação de uma mão no peito, uma língua na coxa. Talvez o homem consiga administrar melhor as coisas e deixar a matrícula da filha na escola de inglês na cabeça superior enquanto a inferior (anatomicamente falando, claro) realize com sucesso a matrícula do desejo no curso de foda.

 

Há homens que já vão logo sodomizando a mulher na esperança de que a truculência rasgue todas as agendas femininas de uma vez. Pode ser que funcione e crie dependência. Pode ser que a mulher fique com ódio e não volte nunca mais. Mas não é estuprando a couve-flor ou esmagando a caixa-preta que o homem vai decifrar a complexidade de uma mulher.

 

Rosana Hermann escreve aqui toda quarta, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem.
Escrito por Blônicas às 11h49
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Escrito por Blônicas às 10h40
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O perigo das fantasias sexuais

De Nelson Botter.

 

Se achavam um casal moderninho de namorados, desses que fazem de tudo para manter as chamas da paixão e do tesão acesas. Kama Sutra na cabeceira da cama, revistas femininas sobre duzentas e tantas maneiras de enlouquecer seu parceiro, últimas novidades do Sex Shop, transas em lugares públicos, gelzinho comestível, contos do Marquês de Sade, loucuras e sacanagens a todo momento,etc. Ele até se vestiu de Zorro certa vez...

 

Vale dizer que desde o início eles fizeram um acordo, tipo um contrato, em que ambos teriam de satisfazer as fantasias sexuais do outro. Fariam uma lista e apresentariam uma fantasia de cada vez, toda sexta-feira. Não havia regras, quer dizer, quase. Só tinha uma coisa: ambos deviam concordar. Daí por diante foi um festival de prazer: piscina, elevador, carro em movimento, parado, lava-rápido, cozinha, banheiro, cama dos pais, laje, sítio, escritório, escada, varanda, em frente à lareira, enfim, tudo que se pode imaginar. Até numa pequena viagem do Rio para São Paulo eles arriscaram o banheiro do avião, mas não deu muito certo, pois quando pousaram ainda estavam nas preliminares e pra terminar tudo teriam de seguir viagem para Brasília (aliás, onde a sacanagem rola solta).

 

Todavia, com o tempo as coisas a dois começaram a perder um pouco a graça e um ménage com uma amiga dela acabou rolando naturalmente, sem que houvessem planejado, bem casual, numa viagem. Não deu três semanas, ela pediu o contrário, os dois com um outro cara. Ele relutou muito, mas depois dela ameaçar terminar o namoro e outras chantagens mais que só as mulheres sabem fazer, ele cedeu... e até gostou, tanto que ela ficou muito brava, pois por várias vezes foi esquecida de lado e só ficou assistindo os dois machões se atracando. Terrivelmente decepcionante pra ela, foram meses de terapia para superar a cena. Desde então, acharam melhor não mais envolver terceiros em suas fantasias, ou seja, fecharam a S/A e voltaram para a Ltda.

 

Lá foram novamente para as delícias a dois, um remake em que a cumplicidade e a intimidade do casal estava a mil. Até que numa sexta-feira, como de costume, ela propôs uma fantasia e ele respondeu com um sonoro: "Nem fodeeendooooo!". O brilho no olhar dela se apagou rapidamente com aquela resposta, pois nunca esperava aquilo do namorado. Tudo ia tão bem... "Mas por que não, amor?", ela ainda insistiu. Ele, transtornado, pegou suas coisas e foi embora, sendo seguido até a rua. "Não tenho dinheiro pra isso, você enlouqueceu!", ele gritava. A mocinha ainda sustentou a idéia de que ele não pagaria sozinho, poderiam rachar as despesas, mas o rapaz foi irredutível: "Até com homem já transei para te fazer feliz (sic), mas não me peça isso... Agora você foi longe demais, acho melhor darmos um tempo".

 

Enquanto ele partia, ela sentou-se na calçada, desolada, sem entender direito a reação do namorado. Tudo aquilo só porque ela propôs transar vestida de noiva. O aluguel do vestido nem era tão caro assim, ela pagaria metade, eles teriam dinheiro pra realizar essa fantasia. Se fosse o caso ela até pagaria sozinha... Então, de súbito, percebeu o que havia ocorrido: ela não tinha dito que não precisavam casar, que era apenas alugar o vestido! Era isso, bastava ir até ele e explicar direito a fantasia, falar que não era um casamento real, que ele não precisava se assustar daquela maneira. Entretanto, levantou-se e foi embora, certa de que nunca mais o veria, afinal, ela tinha prioridades e continuar com aquele filho da puta nitidamente significava ficar para titia pro resto da vida. Ah, nem fodeeendooooo!

 

Nelson Botter escreve aqui no Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 10h37
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Festa de firma é um perigo

De Xico Sá.

Meninos e meninas, nos meus tantos anos de carteira assinada, já vi de tudo em festa de firma. É um capítulo à parte da nossa existência sob o domínio das 365 folhinhas do calendário.
Tão importante quanto a Missa do Galo.
Quase  um dia das Mães sem as nossas mães, ainda bem, ufa.
Um dia dos namorados sem  namorado(a)s por perto. A menos que vocês desrespeitem aquela verdade bíblica do pão e da carne _ onde se ganha o primeiro, não se desfruta do segundo, amém.
 Festa de firma. Tédio para uns, celebração dionisíaca para outros.
 Fim de ano, aquela animação, aquele queijo coalhado no juízo, nervos à flor da pele, a vida assim meio Roberto Carlos, meio Almodóvar, meio Nelson Rodrigues, enfim, a vida simples, brega como ela é, a vida sem mistificação ou assepsia, a vida que não lava as mãos à toa.
Alguém querendo bater no chefe que o humilhou o ano inteiro,  alguém querendo comer a gostosa do telemarketing _``vou estar te cantando para estar te conquistando... blábláblá..."
O cenário certo,  na graduação alcoólica certa, na boca-livre perfeita para um elemento cometer alguma desgraça ou crime de primeira página, seis colunas, manchete. Com direito a story-board.
Festa de firma.
Pequenas histórias acumuladas o ano inteiro. Alguém sempre jurado de morte.
Tanto no terreno amoroso como na violência física de fato, tentando tirar na base da ignorância a mais-valia de uma vida inteira.
O acerto de contas.
Todo cuidado é pouco, caros bebedores amadores, com a festa da firma.
Sério.
A melhor cena que vi foi numa farra do "Notícias Populares", o glorioso e sanguinolento "NP", de saudosa memória, que bateu as botas gutenberguianas como os presuntos que exibia em suas páginas.
Imaginem uma linda e desgostosa (com o marido canalha!) secretária.
Pensaram?
Terceira caipirinha. De alguma fruta exótica. Mulher adora uma novidade.
Música, maestro.
 Toca uma faixa capaz de fazer de uma madre superiora uma Madonna, capaz de fazer de qualquer entrevado um Elvis, um Elvis em Acapulco cantando na beira da piscina do Hilton Palace .
Toca algo assim como aquele "chabadabadá" da trilha de "Un Homme et Une Femme", filme das antigas, "Um Homem, uma Mulher", de Claude Lelouch, grande película.
Quarta caipirinha.
O chão é pouco para os passos da pecadora.
Ela sobe numa mesa.
Antes, beijara na boca, sem discriminação de classe, do diretor ao contínuo. Eu, um reles cronista folhetinesco daquele diário, também locupletei-me, claro, mas meio tímido, juro.
Quinta caipirinha.
A blusa não resistiu ao primeiro gole. O sutiã foi parar na cabeça do tiozionho do arquivo.
Sexta caipirinha acompanhada de uma cerveja mexicana: foi-se quase tudo. Belas saboneteiras, omoplatas geniais, observei.
Coube ao marido _a quem mais caberia?_, enquadrar a "vadia", como ele berrava sem economizar nas exclamações! Chegou para apanhá-la e acabou testemunhando o que não queria.
A festa acabou.
E agora, José, fica ai o alerta: não há inocentes em uma festa de firma. Numa festa de firma, o mais tímido e sonso dos mortais dubla Carmem Miranda e passa a mão na bunda do chefe, só pra quebrar a hierarquia pelo seu ponto mais, digamos assim, inviolável. 

Xico Sá escreve no Blônicas toda segunda-feira.

Escrito por Blônicas às 14h35
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Coragem da ignorância

De Milly Lacombe.

O motoqueiro passou zunido do lado direito do meu carro e levou com ele meu espelho retrovisor. Eram oito e meia da manhã, eu parada no trânsito diabólico da 23 de maio, com o habitual mau-humor das oito e meia da manhã. Porque oito e meia da manhã, para quem tenta ganhar a vida escrevendo, é madrugada. Foi, portanto, o que bastou para que eu me armasse do que meu pai chamaria de a coragem da ignorância e resolvesse ir atrás do motoqueiro. Desafiando as leis da física, fui metendo meu carro numa faixa imaginária, entre as faixas reais, buzinando feito uma mulher histérica (que de fato eu, naquele momento, era) e pedindo passagem como se se tratasse de um caso de vida ou morte. Mais para morte do que para vida. E eis que eu vejo o motoqueiro saindo da 23, indo em direção à rua Tutóia. E eu, já completamente fora do meu caminho e guiada por uma fúria cega, em minha perseguição implacável, agora xingada por uma horda de motoristas que se sentiam ofendidos quando eu enfiava meu carro milimetricamente entre os deles e os dos vizinhos. Paciência. Eu precisava ir fazer justiça. Dois faróis adiante, consegui alcançar o desgraçado. Encostei na moto dele e, sem pensar, abri meu vidro e disse:

- Ô folgado, coloca meu espelhinho no lugar.

- Eu hein.

- Foi você que fez isso com ele, folgado. Devolve ele pro lugar, anda!

- Faz isso você!

- Não tá vendo que eu não alcanço, ô otário. Você tá ao lado dele, e foi você que fez essa palhaçada com ele. Coloca, vamô!

Essa tal coragem da ignorância, quando bate, é o diabo. Pois o rapaz, agora já nos mesmo níveis de ódio em que eu me encontrava, tirou o capacete e grudou os olhos nos meus. Nessa hora, e só nessa hora, a coragem da ignorância finalmente me abandonou. E agora éramos, naquele duelo regado a buzinas de automóveis enfurecidos, que mandavam com que saíssemos do caminho imediatamente, apenas eu, em pânico e trazida de volta à realidade, e ele, senhor de seus domínios e pronto para me fazer virar moela. Tentei acelerar, mas meus pés já não me obedeciam. E foi sob esse manto de covardia que eu vi o rapaz, alheio ao buzinaço, desligar a moto, baixar o cavalete, apoiá-lo no asfalto, colocar o capecete muito calmamente no assento e vir na direção do meu carro. Ele parou na janela do passageiro, colocou a cabeça dentro do meu carro e disse:

- Pois não, madame.

Fez isso, ajeitou o espelinho, deu uma piscadinha, voltou para sua moto e foi embora. E eu fiquei ali, atônita, tentando calcular se aquele episódio tinha valido a pena. Meu espelhinho, a bem da verdade, estava no lugar. A perseguição, outra verdade, tinha sido memorável. Ter olhado dentro dos olhos do motoqueiro, uma classe de gente que normalmente não tem face, foi também uma lição. Claro, eu poderia ter morrido, mas, como diz o Severino, que trabalha no meu prédio, pra morrer basta estar vivo. Então, feitas as contas, estava tudo certo. Como escreveu Pessoa, tudo vale a pena se a alma não é pequena. E, depois da aventura, ainda fiquei com o troco: eram oito e quarenta da manhã e eu estava totalmente acordada.

Milly Lacombe escreve aqui aos domingos e também no BlogGol.

Escrito por Blônicas às 22h34
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Escrito por Blônicas às 13h08
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Era só o que faltava

De Castelo.

Velhacarias, trambiques, maracutaias, baixarias, mentiras, cafajestagens.
Agora só falta voltar o apagão. Lembra?

…EM CASA

- Pode vir, Noeli, vem…
- Vem como? Com esse armário na minha frente…
- Não é armário. É teu pai que também tá perdido. Faz o seguinte: passa pela direita dele e depois segue em frente.
- Direita? Mas se eu tô confundindo meu pai com um armário, como é que eu vou saber o que é direita, o que é esquerda, o que é centro, Rosalvo.
- Tenta dar um pulinho.
- O pai tá dormindo de pé, se eu pular derrubo a tua canja.
- Então respira fundo, escolhe um lado e anda, mulher.
- Tá, Rosalvo, já vai.
- Vem devagarzinho, um pé, depois o outro, lembra que tem o aparador no meio…
- …
- Noeli? Tá vindo?
- …
- Que barulho é esse, Noeli?
- É o pai.
- O pai o quê?
- O pai pegou a canja.

…NO ESCRITÓRIO

- Dona Estela, sabe aquela máquina copiadora nova que o doutor Braga mandou instalar no corredor?
- Sei, doutor Jordão.
- A senhora poderia tentar juntar o pessoal do Almoxarifado, do RH e dos Serviços Gerais e pedir pra eles virem até a máquina?
- Mas nessa escuridão, doutor?
- É urgente, dona Estela. A copiadora está em cima de mim e do Cintra, do Jurídico. O Cintra não está falando mais nada, só está respirando fundo e rezando baixinho.
- Mas como é que essa copiadora foi parar em cima dos senhores?
- O Cintra confundiu a copiadora com aquela máquina da Karine, a cavalona do Arquivo. Quando apagou a luz, ele agarrou a cintura dela e puxou. Mas era a xerox, entende?
- E agora, o que é que eu faço nesse escuro?
- Conta uma história.
- Como, doutor Jordão? O senhor acha que eu…
- Conta uma história pra mim, dona Estela, EU ESTOU MANDANDO!
- Era uma vez uma floresta mágica cheia de bichos e duendes, um caçador…

…NO DENTISTA

- Acabou a pilha da lanterninha. Mas dá pra acabar o serviço. Vamos só tentar de novo, aqui pelo lado.
- HÃ!
- Opa, no nervo, desculpa. Só mais uma pontadinha e…
- HÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃ!!!!!

…NA CAMA

- Sabe de uma coisa. Nunca é tarde pra gente descobrir que o amor - me refiro ao amor físico - pode ser sublime, espiritual. Apesar do lado material dele: carne, osso, músculo, sabe?
- Hum, hum.
- O que a gente acabou de fazer aqui é a prova dos nove.
- É.
- Você também teve a mesma impressão que eu?
- Tive.
- Foi bom?
- Foi.
- Sei lá, te pergunto por que, às vezes, sou romântica demais. E ter feito assim, no breu, foi sublime e inédito. Sem lâmpadas, abajures, candelabros. Essência com essência. Alma com alma…
- Hum, hum.
- Não queria estragar um momento tão belo assim sendo melosa, Ênio.
- Ênio?
- Ênio, é claro, meu amor.
- Mas meu nome é Zeco. Vim trocar um soquete aqui no quarto, deu o apagão e…
- Zeco?
- Zeco, sim senhora.
- Muito prazer, Zeco.
- O prazer foi todo meu, dona.

Castelo é uma casa grande e tem um site: www.castelorama.com.br

Escrito por Blônicas . às 12h45
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O criador e a caricatura
De Henrique Szklo

   – Igor, Igor, venha cá. Olhe só, acabei de criar o homem perfeito.
   – Sim, mestre.
   – O que é que você achou? Não é o máximo? Bonito,inteligente – fala mais de 6 línguas -, forte, esportista, simpático, articulado, orador  brilhante, politicamente correto, charmoso, bem-dotado, loiro, olhos azuis, pele bronzeada, fiel, amigo, bom caráter, coração de ouro...
   - Sim, mestre.
   - Que foi? Não gostou, é?
   - Não, mestre, não é que eu não tenha gostado, mas...
   - Anda logo, desembucha, criatura-
   - Honestamente? Posso dizer assim... na lata?
   - Vai, fala de uma vez e acaba com essa angústia.
   - Sabe mestre, eu achei sinceramente uma idéia genial, realmente. Digno de seu talento e brilhantismo. Mas um homem tão forte, belo e com tantas qualidades nem precisa falar nada. E digo mais: se falar pode até estragar. O mestre sabe como é a natureza, principalmente a natureza morta. Logo ele vai estar fazendo sucesso nas rodas sociais, nos sarais, vai começar a ser convidado para padrinho de baile de debutante, para comentar jogos da Copa do Mundo, fazer programa infantil, ser jurado em Cannes. Não dou um ano e ele vai começar a falar mal do mestre, vai querer negar sua paternidade, vai dizer que não precisa dos seus conselhos, de seu carinho, de sua semanada, vai querer pedir salário, 13°, férias remuneradas...
   - Será mesmo? Um filho não faria isso com seu próprio pai.
   - Mestre, numa boa, filho o cacete. O senhor juntou um monte de pedaços de cadáveres com superbonder e agora quer chamar de filho? Ora, tenha santa paciência. Me dá até dor na corcunda só de ouvir falar.
   - Tá bom, tá bom, você me convenceu. Afinal, como se diz por aí, o silêncio é de ouro. Então, corta a língua do homem.

«««»»»

   - E então, querida baronesa? O que achastes?
   - Maravilhoso, estimado esposo. Realmente maravilhoso. Apenas creio que você o concebeu muito bondoso e correto, dono de uma honestidade que chega a irritar. Com certeza ele vai se sentir deslocado, já que será o único na espécie humana a possuir tais características. Além disso ele é muito ingênuo. E o prezado barão sabe como são as pessoas, principalmente as vivas. Vão abusar do infeliz. Vão se aproveitar de sua bondade. O pobrezinho será feito de gato e sapato por todos. Vai sofrer muito, tadinho.
   - Tens razão. Uma pequena falha de caráter vai deixá-lo mais real, mais humano. Além do mais, nunca se soube de ninguém que tivesse morrido de desonestidade, prevaricação ou de mau uso de verbas públicas. Então, substituição: sai servil e entra ser vil.

«««»»»

   - Vejo que o nobre colega, conde de Stupidstein, torceu seu eminente nariz diante de tão inusitado feito científico.
   - Não há dúvidas, ilustre barão, de que trata-se de uma obra de inegável pujança estética e extremo vigor criativo. Mas como seu particular amigo, obrigo-me a alertá-lo para um ponto que me parece fundamental: a beleza excessiva em subalternos do sexo masculino é como criar cobras venenosas dentro de nossos próprios travesseiros. É fazer ouvidos moucos à natureza das mulheres. E sabe como são as mulheres, principalmente as nossas. O insigne barão não preza a fidelidade de sua generosa esposa?
   - Sim, claro. Só não entendi o "generosa".
   - Apenas um elogio, meu caro, com todo respeito. Mas como eu ia dizendo, se o barão não abre mão da fidelidade de sua seriíssima esposa, para que então colocá-la à prova?
   - É, em nome do meu casamento, da minha felicidade e de minha testa inexpugnável, meu homem perfeito vai levar uma trombada de caminhão.

«««»»»

   - Meu filho.
   - Sim, padre.
   - Estou profundamente lisonjeado e orgulhoso de possuir entre meus fiéis um membro tão inteligente e criativo no seio de nossa comunidade. É verdadeiramente inspirador e motivo de alegria para todos nós. Mas permita a este velho e antiquado servidor de Deus oferecer humildemente uma insignificante sugestão à tão elevada e fausta figura? Afinal, quem sou eu diante de tão garbosa e excelsa personalidade da ciência?
   - Que isso, padre? Pode falar o que o senhor quiser.
   - Meu filho, na minha modesta opinião, a inteligência em um ser tão desprovido de qualidades pode ser verdadeiramente desastroso. A consciência de sua condição irá levá-lo inexoravelmente à depressão profunda de onde dificilmente conseguirá sair. Sabe como são as criaturas de Deus: mesmo as mortas nunca estão satisfeitas com o que possuem. Aliás, as mortas são as mais insatisfeitas de todas. Ouça o meu conselho e faça uma caridade a este pobre diabo: destitua-o de inteligência e estará fazendo mais uma pessoa feliz no mundo.
   - É... faz sentido... Igor, instale uma TV no quarto da criatura.
   - Mas mestre...
   - Anda, faça logo o que eu estou mandando.

«««»»»

   - Quem é o senhor?
   - Sou Mano.
   - Que Mário?
   - Aquele que...quer, dizer, Mario, o encanador. Estou consertando a pia da sua cozinha.
   - Ah, que bom. Por favor, siga-me até meu laboratório. E então, o que é que você acha desta minha criação?
   - Eu?
   - E, o senhor mesmo.
   - Sei não, doutor.
   - Pode falar.
   - Sei lá, eu fico meio sem jeito, afinal de contas o senhor é um cientista famoso...
   - Não, não se incomode, pode falar.
   - Mas é uma situação muito delicada.
   - Delicada nada. Somos dois adultos.
   - Mas o senhor sabe como são as opiniões, principalmente as alheias. Pode ser que o senhor se aborreça...
   - Não existe a menor possibilidade.
   - Mas eu sou apenas um encanador, como eu vou opinar sobre um feito tão extraordinário da ciência?
   - Ora, ora. Pois é justamente isto que eu quero: a opinião do povo.
   - É, mas o senhor é uma sumidade.
   - Imagine, eu não tenho essas frescuras.
   - É necessário mesmo que eu fale?
   - Faço questã.
   - Então tá. Já que o senhor insiste. Achei...
   - ...sim...
   - ...achei...
   - ...ahã...
   - ...simpático.
   - O quê? Ponha-se daqui pra fora! Seu indecente, invejoso, mesquinho, ridículo. Não pode ver um trabalho brilhante que logo vem botando defeito. Ora, onde já se viu tamanha petulância deste sujeitinho! Proletário!

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e às vezes fica de quatro. Leia seu site,  o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas às 14h22
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Mau

De Leo Jaime.

 

Não sou adivinho mas tenho certeza absoluta que daqui a um mês vai estourar nas rádios do mundo todo uma música americana, mais precisamente um hip-hop, com uma melodia tipicamente árabe. Os caras que vão cantar essa música têm uma ficha longa na polícia e se orgulham muito do tempo em que passaram na cadeia. Dizem que aprenderam a ser homens lá. Ah, eles chamam todas as mulheres, e alguns homens, de cachorra. O pior é que as mulheres com quem eles andam gostam.

 

Depois do evento de 11 de setembro, em que alguns árabes derrubaram com canivetes o maior símbolo fálico americano, num gesto de ameaça de vingança, o povo americano começou a fingir que sabe que existem árabes no mundo.

 

Começaram a samplear batidas, melodias e incluir alguns raps. Claro, o objetivo é ser mau e dar um toque do inimigo em seu balanço é uma óbvia alusão ao desejo de transgredir. Transgressão, aliás, é a fórmula, a receita milagrosa do sucesso.

 

Levando-se em conta que o mercado hip-hop é responsável por mais de 40% da fatura milionária do mercado do disco americano, é óbvio que é a bola da vez. É a situação. No entanto, a situação, o  mainstream nunca se fantasiou tanto de alternativo e transgressivo, perdendo até a noção das coisas.

 

Um dia desses eu via o Chris Rock, ator negro, sacaneando os letristas de hip-hop em um stand-up comedy exibido na HBO. Ele falava de uma letra em que o cara dizia que as bolas dele estavam pingando de tão suadas, óbvio, de tanto comer a cachorra. Realmente, a imagem é muito desagradável: suor pingando das bolas do saco não parece um refrão tão interessante assim para uma canção. Mas, sabe como é, não se pode perder a fama de mau.

 

Ser mau caráter, desonesto, porra-louca não necessariamente fazem de alguém um transgressor no sentido " antena da raça " que conferiam aos gênios que estavam à frente do seu tempo. Do mesmo modo que se entupirmos de heroína um cara que toca mal violão ele não vira o Jimmy Hendrix.

 

Será que o povo sabe disso?

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h31
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Escrito por Blônicas às 11h41
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Ficou claro?

De Rosana Hermann.

 

A assessora de imprensa envia um email convidando a todos para o lançamento do livro, já que este será o último do ano da editora . Recebe uma chuva de respostas indignadas perguntando por que a editora vai fechar. Ela responde novamente para toda a lista dizendo que é o último DO ano da editora e não O último ano da editora. Agora sim, todo mundo compreende.

A leitora chama a blogueira pelo MSN, marcada como ocupada. A blogueira diz que está escrevendo uma crônica, que não pode conversar. A leitora insiste, diz que é rapidinho. A blogueira pede por favor, porque está no meio de um texto e a janela fica piscando, o que dificulta o trabalho. A leitora pede pra que a blogueira  responda pelo MSN quando acabar o texto. A blogueira manda a última tela explicando que a leitora pode mandar um email, comunicação não-instantânea que a pessoa pode ler quando puder. A leitora finalmente entende.

 

A overdose de informação está matando a capacidade de discernimento. A pressa é inimiga do conhecimento. E cada vez as pessoas entendem menos o que estão lendo. Ou vendo. Ou simplesmente não conseguem pensar em nada além daquilo que  elas querem, desejam, sentem. Voltamos à teoria egocêntrica da criação do mundo.

 

Para não correr riscos de interpretações errôneas a mídia cada vez mais passa a tratar o consumidor como um idiota, Talvez, estejamos mesmo emburrecendo, como previam os Titãs na letra de “Televisão”.

 

Para reduzir tudo a uma plataforma compreensível os assuntos são transformados no formato de partidas de futebol, casa contra visitante. É só pegar uma notícia qualquer, definir o personagem principal e achar seu oponente. Hoje, podemos acompanhar, por exemplo, partidas como William Bonner X Homer Simpson, Paulo Autran X Gilberto Gil, Vesgo X Netinho, Bang Bang X Prova de Amor, Athina e Doda contra fotógrafos, Cléo Pires X Meningite, Vaticano X Daniela Mercury, ONGs X João Kleber, Diogo Mainardi contra o mundo e o povo contra Larry Flint.

Se faltar assunto, o que é raro, é só falar de Gerald Thomas: ele é contra tudo e todo mundo é contra ele. Se alguém tentar entrevistá-lo ao vivo, ele tira a roupa e mostra com quantos centímetros de faz um yellow submarine. Facinho.

 

Mas, de todos, o Superpop-up é o melhor exemplo maniqueísta desta redução. Toda noite tem uma ex- contra um marido, uma dançarina contra um tchan, uma garota de programa contra o preconceito. Aqui em casa, a partida sempre termina com a vitória do controle remoto.

 

Rosana Hermann escreve aqui toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.
Escrito por Blônicas às 11h32
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Coincidências à parte

De Nelson Botter.

- Acabo de ler uma frase que dizia não existir coincidências. Porra, como assim não existe? Como pode? Se for verdade, pra que existe essa tal palavra "coincidência"? Será apenas uma mera coincidência a palavra "coincidência" existir?
- Não começa com esses papos que não estou com paciência.
- Vixe, você está muito negativo hoje. Usou duas vezes a palavra "não" na mesma frase.
- Não me enche.
- Ih, olha lá, de novo!
- Cara, quer saber? Eu não acredito em coincidências. Na boa? Acho que tudo é parte de um plano superior, um destino traçado meticulosamente para todos nós. Sou daqueles que acredita que o que não é pra ser não será, e vice-versa.
- Ah, tá. "Não era destino"...
- Isso mesmo, não era destino, não aconteceu.
- Muito conformista essa teoria, você não acha? É um ótimo jeito para arrumar desculpas para as coisas não acontecerem. Então, se for assim, o que é pra ser, será?
- Claro.
- Hmmm... se for destino você ganhar na loteria, você ganhará mesmo sem jogar?
- Se for pra você ganhar na loteria, você vai acabar jogando de alguma maneira.
- Tipo uma coincidência?
- Não, não será coincidência. Será destino!
- De novo duas vezes o "não" na mesma frase...
- Mas existe o livre arbítrio. Você pode seguir seu destino ou desviar dele, sacou? Não é uma coisa rígida, pode ser mudado, mas aí você não completa sua missão.
- Eu não sei. Tô achando esse seu argumento muito furado.
- Foi o melhor que pude arranjar. E tenho certeza que todo mundo vai nessa, nem questionam muito, pode ter certeza. A melhor coisa do mundo é arranjar desculpa pra tudo, é ter argumento para se enganar e tapar com a peneira o sol sem brilho de cada um. Eles adoram...
- Falou bonito agora, hein?
- Gostou?
- Mais ou menos. Ainda acho que existem coincidências. Isso vai criar confusão. Acho melhor tirarmos essa palavra do vocabulário, assim ninguém vai questionar. Tudo bem que a maioria não liga pra essas coisas, mas vai que alguém resolve encasquetar com isso.
- Um chato, tipo você?
- É.
- Então faz o seguinte: não precisamos ser radicais. Tira essa frase do livro de regras. Deixa a palavra, mas não afirma que não existem coincidências. Apesar delas não existirem mesmo.
- Isso é o que você acha, já penso diferente.
- Pois é, da próxima vez que formos designados a construir um mundo, vamos falar com Deus para que ele faça as regras. Assim evitamos discussões.
- Concordo, basta ver o que aconteceu lá na Terra. Usam o seu método de pensamento e agora quase todo mundo espera as coisas caírem do céu. Acham que o destino resolve tudo, que tudo é graças a Deus...
- Mas você sabe que assim é mais fácil para controlarmos e administrarmos tudo, cacete! Não consigo entender essa sua mania de querer criar seres vivos racionais e com grande inteligência. Saco! Você bem sabe que por mim lá na Terra só teríamos animais irracionais.
- De uma certa maneira você conseguiu isso...
- Que nada, foi pura coincidência...
- Pensei que você não acreditasse em coincidências, Lúcifer.
- E eu pensei que você me conhecesse melhor, Gabriel.

Nelson Botter escreve aqui todas as terças e também no BlogGol.

Escrito por Blônicas às 11h38
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O que querem as revistas femininas?

De Xico Sá.

As revistas femininas muitas vezes nos assustam, amedrontam ou simplesmente nos afrouxam a mais irônica das gargalhadas. Ando viciado nelas. A patroa já não agüenta mais me ver fugindo com a sua pilha de almanaques para o banheiro.     
Eu não largo o meu vício.
Aprendemos sempre alguns bons truques com estas sábias brochuras. Das balzacas em chamas da "Nova" às  Lolas modernas da TPM -Trip Para Mulheres.
Às vezes nem carece folheá-las, basta uma lida nas manchetes de capa sob o sol na banca de revistas.
Fico meio assombrado quando vejo que descobriram uma nova posição para o sexo. Como se não bastassem as milhares de combinações do Kama Sutra e de todos os outros compêndios.
Tenho medo das leitoras de "Nova", confesso a minha fraqueza. Elas têm mais fogo guardado nas entranhas do que las chicas do óteeeeeemo romancezinho de Almodóvar (Dantes Editora); elas estão descontroladas, elas são a perfeita mistura de cachorras do funk com afilhadas de Balzac. 
O vício das femininas. Chamadas de verão: novos óleos eróticos, novos jogos, novos fetiches,vixe!, os mais poderosos cremes antirugas e anticelulites...
Mas o que dá preguiça mesmo, só de pensar, são as exigências das novíssimas posições. Daquelas que dão câimbra só de vê o desenhozinho didático, tipo "faça você mesmo", na página.
Houve um tempo que estas revistas eram bem menos atrevidas. Repare só nestas chamadas de capa das antigas, priscas eras:
"Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu  carinho e provas de afeto, sem questioná-lo." (Revista Claudia, 1962).
"A desordem em um banheiro desperta no marido a vontade de ir tomar banho
fora de casa". (Jornal das Moças, 1965)
Tem mais, repare só que pérola:
"A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, servindo-lhe uma cerveja bem gelada. Nada de incomodá-lo com serviços ou notícias domésticas". (Jornal das Moças, 1959).
Nem o mais machista dos anúncios de cerva chegaria a tanto.
E o chauvinismo das redatoras _sim, a maioria era escrita por mulheres_ das antigas não ficava só na bebida. O pior vem ai:
"Se o seu marido fuma, não arrume briga pelo simples fato de cair cinzas no tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa." (Jornal das Moças, 1957).
Hahahahahahahaha.
Querem mais um  mandamento de fé? Então lá vai:
"Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas". (Jornal das Moças,1957).
E este aqui: "O noivado longo é um perigo, mas nunca sugira o matrimônio. ELE é quem decide - sempre!" (Revista Querida, 1953).
Agora, juro, vou encerrar, que assim já começou a virar galhofa, escárnio...  Essa última chamada de capa é de chorar:
"Sempre que o homem sair com os amigos e voltar tarde da noite espere-o linda, cheirosa e dócil." (Jornal das Moças, 1958).
Chega!

Xico Sá acaba de lançar "Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias. Folheadas de graça e vendas aqui www.editoradobispo.com.br

Escrito por Blônicas às 12h44
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Papo com taxista

De Milly Lacombe. 

 

Papo com taxista, quando não é sobre o tempo, é bom. E esse não seria diferente. Quem começa é ele, porque eu raramente começo (ou termino) alguma coisa na vida.

- Esse Dirceu sem vergonha foi cassado, viu só?
- Vi. Para melhorar, só se o Corinthians for campeão brasileiro.

Arrisquei, porque o homem podia ser membro da Independente e aí eu ia entrar numa boa. Mas prudência nunca foi meu forte, então, vá lá.

- Tem toda a razão. Agora, cá entre nós, precisava o Lula ser corintiano? Ô desgraça. E sai ele na foto com a camisa do Corinthians, dá entrevista falando do Corinthians ... esse homem vai acabar com a gente.
- É pior do que isso: Esse Dirceu também se diz corintiano.
- Ah, aí é ruim, hein. Toda a quadrilha, então. Porque o Genuíno também é. Seria bom que esse Delúbio não fosse.
- Melhor nem investigar. Vai que é. Vamos deixar assim, sem saber. Mas olha só: o João Paulo Cunha é são-paulino.
- Bom, bom. Esse também é safado. Que bom que não é corintiano. Mas falando sério, tamo numa fria, não é?
- Ainda não. Mas logo, logo. Espera pra ver. Ano que vem tem copa do mundo. Vão encher o povo desse ópio.
- Mas o que eu vou fazer? Tenho dois filhos. Um, acabou de entrar na faculdade. Tenho que pagar metade da mensalidade. E eu pergunto pra senhora, como vou pagar? A senhora sabe? Porque eu não tenho idéia. Mas vou pagar, porque ele quer ser técnico em informática. E eu acho que deve ser uma boa. Então vou trabalhar de sol a sol e vou pagar.
- Mas e a grana que se ganha com o taxi dá pra isso, mais casa, comida, lazer?
- Claro que não. Mas aí você faz dívida e a vida segue. Porque logo mais minha filha também vai entrar na faculdade. E, como a senhora sabe, faculdade, estadual ou federal, nesse país é pra filho de rico. Filho de pobre tem que pagar.
- Bom, mas se o senhor considerar que nosso presidente é quase analfabeto ...
- Pois é, mas eu não quero que meus filhos falem como ele, daquele jeito ridículo. Ou tenham a moral dele. Então, tem que completar os estudos.
- O que também não garante muita coisa a respeito de moral, porque tá cheio de gente aí com doutorado que é tão desonesta quanto os analfabetos que nos comandam.
- Isso é.
- Moral, ética e bom senso a gente aprende em casa.
- Tem toda a razão. Eu tento fazer a minha parte. Mas quero que estudem. Que cheguem até o fim. Depois, solto no mundo e torço para que sejam felizes. Mais não posso fazer.
- Tá certo.  Fico por aqui. E senhor pode ficar com o troco.
- Obrigado. E vamos ver se pelo menos o Corinthians não frustra nossas expectativas.
- Seria bom. Porque um pouco de ilusão não faz mal a ninguém.
- Muito pelo contrário, dona. Tenho vivido de ilusão, futebol e samba há 30 anos. Ou a senhora acha que o povo vive do quê?

 

Milly Lacombe escreve aqui e no BlogGol.

Escrito por Blônicas às 09h50
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O passaralho

De Castelo.

- Ó lá! 
- Ó lá, o quê?
- Doutor Mota, Otávio, dona Marina e o Pompeu entraram na sala de reunião.
- Xi!
- Isso tá me cheirando a corte de Natal.
- Outro passaralho? Mas acabou de rolar um em Finados.
- Pois é, agora virou “default” - como diz o metido do Pompeu.
- "Default"? Isso é sem-vergonheza mesmo.
- Tá um zum-zum-zum aí dizendo que, do nosso Departamento, só fica a Noca.
- Mas a Noca é a tia do café.
- Deve ser um jeito da Diretoria dizer que a nossa área não interessa mais à empresa.
- E vão botar a Noca pra ser gerente de marketing, Jair?
- Vai saber. Nessas paradas de reengenharia tudo é possível.
-  Queria ser uma mosquinha pra ver o que estão falando naquela sala...
- Ó lá!
- Que foi?
- Dona Marina saiu de lá com a cara inchada. Foi chorar no toalete.
- A Marina chorando? Ih, então tá russo. Essa não chora nem em casamento de filha.
- Quer saber? A coisa não vai ser só aqui no marketing, não. Pela cara da mulher, é fechamento do escritório de São Paulo e da filial de Ribeirão Preto.
- Vira essa boca pra lá, meu chapa.
- Naquele período do dólar a quatro reais a firma queimou capital-de-giro demais pra se manter de pé. E até hoje não vendeu o suficiente pra cobrir o rombo.
- Mas faz três anos...
- Por isso mesmo. Pega os juros de 36 meses pra cá. Faz as contas. No mínimo 200 caras na rua, meu velho.
- Ó lá! Agora foi o Otávio. Saiu da sala, pegou uma pilha de papéis e levou de volta pra reunião.
- Deve ser o “nerd” do Dr. Mota pedindo o “cash-flow”.
- Ou então é o relatório de metas por setor. Nós não atingimos as nossas, você sabe melhor que eu, né?
- Se sei. Agora ferrou mesmo.
- Vou no fumódromo.
- Que é isso no bolso?
- Um isqueiro.
- Que isqueiro nada, isso é um rosário.
- E daí? Não posso ter uma crença?
-  Opa. Mas aproveita e pede pra São Judas me ajudar. O meu tá mais na reta que o teu, senhor supervisor...
- Volto já.
- Espera: ó lá!
- Que foi?
- Saíram da sala...vão anunciar alguma coisa...
- Passaralho?
- Não. Vão dar...
- Rescisão?
- Porra! Vão dar décimo-quarto salário!!
- Ó lá! Ó lá!
- O que foi dessa vez?
- A Noca desmaiou...

Castelo é www.castelorama.com.br

Escrito por Blônicas . às 13h44
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Quatro textículos

De Henrique Szklo

A carne é fraca
Eu sempre acreditei que o importante é o que a gente tem por dentro. Mas esta minha teoria romântica, este meu devaneio ingênuo, esta minha fantasia simplória ruiu inapelavelmente quando assisti pela internet a autopsia pública que um médico alemão realizou recentemente para uma mórbida platéia de mais ou menos 300 corpos, quer dizer, pessoas. O morto era um senhor de 72 anos, fumante inveterado e beberrão, que havia batido as botas em março deste ano e estava sendo conservado para este evento especial. Conservado em álcool, certamente.
Fiquei morto de curiosidade, mas no final foi uma grande decepção. Devo admitir que o que a gente tem por dentro é nojento. Quer dizer, não sei se o que o bebum tinha por dentro é o mesmo que todo mundo, mas é um negócio de virar as tripas. É de embrulhar o estômago. O sujeito cortou a barriga do presunto no meio depois abriu como se fosse um vendedor de tapetes. Foi tirando seus órgãos um por um para pesar e analisar. Não ouvi palmas, mas é provável que a cada órgão extirpado a platéia estremecia num orgasmo funesto. Aqui está o estômago... sim... o pâncreas... yes... o coração... bravo.... bravíssimo...
Este médico, inclusive, ficou famoso e rico por fazer esculturas com pedaços de corpos humanos de verdade que ele plastifica com uma técnica especialmente desenvolvida para isso. Um legítimo artista plástico.
Terminado o espetáculo, foram todos alegremente matar a fome numa churrascaria próxima ao local.

Nunca fui Santa
Para várias escolas infantis na Austrália Papai Noel é persona non grata. A alegação destes estabelecimentos é de que eles não querem ofender minorias que não acreditam no bom velhinho como celebridade absoluta do imaginário infantil ocidental. E não estão falando dos judeus, na verdade os que mais acreditam em Papai Noel. Basta ver o volume de vendas nesta época do ano.
O que estas lânguidas escolas estão com medo é dos muçulmanos radicais. Vai que um Papai Noel desavisado queira dar um presente para uma criança muçulmana, aí a heresia estará deflagrada. Já imagino a manchete: míssil anti-aéreo atinge trenó e mata 4 renas. Duas estão em estado grave, mas Papai Noel, milagrosamente nada sofreu, já que caiu de barriga para baixo. O problema é que ao invés de uma guerra santa eles vão deflagrar uma guerra ao Santa. E eu tenho certeza que Papai Noel não vai deixar barato. Vai querer retaliar este ato de terrorismo contra sua bochechuda figura. O saco dele é grande mas tem limite. E aí os radicais não terão a menor chance. Duendes, ao invés de brinquedos passarão a fabricar artefatos bélicos. E a quantidade de bombas que cabe na barriga de um Papai Noel não é brincadeira. Sem contar com o poder de destruição dos trenós-bomba. Mas não precisamos nos preocupar. Um representante da Al Qaeda, organização de Osama Bin Laden já se apressou em tranqüilizar a população mundial: ele garante que homem-bomba não existe.

Sorte na política
Prefeito de cidade peruana de 9 de Julio é eleito no cara-ou-coroa. É o que eu sempre digo: mesmo na política não adianta apenas ter talento, é preciso ter sorte. Houve empate de 127 votos para cada um e o presidente do tribunal eleitoral não teve outra alternativa. Eu já tinha ouvido falar que o dinheiro decidia eleições, mais isso já foi demais.
Imagine o prefeito eleito, muito feliz com o resultado declarando que estava surpreso por que nunca havia ganhado nenhum sorteio na vida, nem em bingo de quermesse. E se perguntassem a ele sobre qual seria seu primeiro ato depois da posse ele revelaria que ainda estava em dúvida e que decidiria no palitinho. A equipe de secretários seria escolhida no par ou impar, as prioridades no dois ou um e as concorrências públicas decididas num acirrada disputa de jó-quem-pô.
Provavelmente já deve haver alguém da oposição querendo impugnar esta legítima modalidade de sufrágio. Vai por fogo na opinião pública com perguntas difíceis de responder. De onde veio o dinheiro usado para o sorteio? Estava declarado por algum candidato? E se a moeda fosse falsa? Ou pior, e se fosse viciada? E onde esta ela agora? Quem  ficou com o dinheiro? 
O maior problema é que o presidente do tribunal eleitoral queria guardar a moeda como lembrança, numa flagrante apropriação indébita de dinheiro público. Mas ninguém pode provar por que as discussões foram tão acaloradas que ele acabou ficando com sede e comprou um refrigerante.

Tudo culpa da mardita
Vocês vejam o mal que a bebida faz. Um grupo de delinqüentes invadiu um armazém na Índia e se esbaldou em dezenas de litros de pinga. Até aí não seria nenhuma novidade se os tais delinqüentes não fossem elefantes. Não, não era um grupo de adolescentes obesos. A turminha da pesada era mesmo de elefantes que adoram água que passarinho não bebe. Bêbados que nem gambás, eles saíram do armazém trançando as pernas e as trombas, derrubando tudo o que viam pela frente multiplicado por três. Seis pessoas morreram e várias ficaram feridas nessa noitada. A manada de biriteiros acabou cansando e terminaram a madrugada deitados na sarjeta com vários cachorros lambendo suas presas.
Apesar de sua propalada memória, no dia seguinte, numa ressaca colossal, os elefantes acordaram e se comportaram normalmente. Aparentemente eles esqueceram o que fizeram na noite anterior. Muito conveniente. O pior não foi isso. A bebedeira deixou os elefantes brancos e com um bafo que não era brincadeira. Só aí já devem ter morrido mais umas duas ou três pessoas.
Não se sabe ainda a razão deste porre paquidérmico, mas psicólogos de animais acreditam que os elefantes estavam estressados com o excesso de trabalho, tendo de matar um leão por dia. Sem contar que já não agüentavam mais as constantes cobranças das elefantas em suas orelhas. Imagine o quanto não cabe de reclamação ali.

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e às vezes fica de quatro. Leia seu site,  o blog da mãe e conheça a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas às 11h15
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Só Deus sabe...

De Paulo Castro.

     Começou com falta de ar. Sou meio boiola, justo, suspeitei que fosse algo, como é que se diz, "psicossomático". Tipos, era só deitar que começava o sufoco, e isso bem que Freud poderia explicar: a reação seria uma conversão física de um bloqueio de ordem sexual, possivelmente indicativo de núcleos estruturais histéricos. Como eu já disse, viadagem.
     Mas a meleca complicou insidiosamente, passou a ser deitado, em pé, no kama sutra, comendo torta de queijo, suor molhando frio. Em resumo, fui pro hospital, tiraram Rx, eletro, fizeram "xi" em uníssono, me sentaram na cadeira de rodas, elevador, cama, fura a veia, coloca pijama azul uniformizado, deita, toma remédio, "seu coração está inchado", minha mulher pode ficar comigo ?, escova de dentes, o  tiozinho na cama ao lado:
     - Eu interno aqui todo mês. Uma hora você vai preferir a morte do que a vida...
     Caralhas me mordessem.
     As enfermeiras e seus sorrisos bondosos, eu estava ligado, aprendem no curso, é fazer de conta que tudo está bem, e que a coceira no cangote não é da ceifadeira. Perguntaram se eu tomava algum remédio. Claro que sim. E listei a tonelada de psicotrópicos, antigos companheiros de luta.
     - Que absurdo ! Vamos tirar tudo isso ! É veneno.
     - Mas eu não fico sem, não durmo, tenho alucinações...
     - Bebe ?
     - Bastante ?
     - Fuma ?
     - Vários. Filtro amarelo.
     - Gordura ?
     - Vizinho de churrascaria.
     - Pressão alta ?
     - Sim, mas nunca tratei.
     Uníssono:
     - Xiiiii !!!!
     - Vou morrer logo ?
     Colgate fiat lux:
     - Claro que não, senhor. Tudo está muito bem !
     - Eu sou médico. Podem me dizer exatamente do que se trata.
     - A janta está chegando.
     - Eu estou armado. Sob o travesseiro. Taurus. É sério. O que eu tenho ?
     - Insuficiência cardíaca extremamente grave. A chance de voltar ao normal só Deus sabe.
     - Gosto assim. Sinceridade.
     -...
     - Alguém pode me dar uma injeção leão-soninho-três-dias ?
     Fiquei uma semana hospitalizado. Saí roxo. Picadas. Barba enorme. Olheiras. Trêmulo. Passos curtos. Toda uma mudança no estilo de vida descrita no receituário. Miojo sem tempero. Repouso. "Não precisa transar, sabe, namorar de leve é muito mais gostoso, cafunés, um filminho, você vai se acostumar, o importante é existir o afeto, né ?"
     Alguns dias ouvindo apenas "Canção Pra Você Viver Mais" do Pato Fu, chorando de auto-piedade e infâmia existencial. Não conseguia mais escrever. Não atendia o telefone. Não olhava no espelho. Mesma cueca por dez dias. O lançamento do livro Blônicas estava se aproximando. Para o cardiologista :
     - Posso ir na festa ?
     - O que você acha, Paulo ?
     - Bem, lá vou ver pessoas bebendo, fumando, se divertindo, sendo felizes, tendo esperanças...é perigoso, vai que eu recaia em algum desses vícios novamente...melhor não aparecer, é assim ?
     - Estou gostando de ver. Que discurso saudável ! Assim você vai longe. Estou animado com seu prognóstico, se essa mentalidade continuar.
    - Oba. Legal. Supimpa. Posso pedir pra minha mulher desfilar pelada, kimono aberto, seda, ai, na minha frente, juro que não me levanto...
     - O que você acha, Paulo ?
     - Tudo bem, eu entendo. Obrigado, amigo.
      Enfim, caminhando direto e reto pra  lápide.
     O que me deu que ainda não apareci no obituário ? Aí é que está. Também só Deus sabe. Talvez aquela menina que me mandou um e-mail, pedindo que eu a ensinasse a escrever. Talvez perceber a tristeza linda do Botter, quando contei que não iria para o lançamento do livro. Ou as "Bachianas" do Villa-Lobos, que eu desenterrei, trocando a Fernanda Takai pela Bidú Sayão. Um vento. Um anjo. A saturação do desespero.
     Voltei com tudo. Ontem repeti alguns exames. Não melhorei em nada. O coração continua enorme e muito fraco. Hoje decidi mudar o estilo de corte e penteado. Comprei um gel descolado e, oras, obviamente um perfume. Daqui uma semana minha filha se forma na quarta série. Festa colorida. Vai ser um barato.
     Já está sendo.

Paulo Castro é cronista do Blônicas e ainda vai escrever por muitas décadas neste planeta.

Escrito por Blônicas às 11h16
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