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Mastigando giletes

De Nelson Botter.

 

O mundo é surreal, o texto é surreal, e a menina mastigava giletes como se fossem chicletes. Uma cena horrível e curiosa, tanto que o rapaz não conseguia tirar os olhos da TV. Ficou ali olhando, olhando, tentando imaginar como era o gosto do sangue na boca. Tudo cortado, gengiva, língua, céu da boca, um melado só. Já pensou jogar uma pitada de sal? O apresentador do programa vibrava com a aflição da audiência. Câmeras, luzes, giletes, ação!

 

Mas, vendo aquela cena na TV, o pensamento mais interessante do rapaz foi um beijo com duas bocas sangrando. Uma coisa meio vampiresca, é verdade, entretanto a idéia causou uma certa excitação diferente nele. O arrepio correu seu corpo rapidamente e o beijo grudou em sua mente. As bocas vermelhas se aproximando, um primeiro toque leve, os lábios trocando o calor e o gosto de ferro, as línguas experimentando um abraço dolorido e prazeroso, dançando dentro da boca, um tango sofrido e demorado. Depois vinha a sucção, cada um engolindo o mar de sangue do outro, sugando a língua e o néctar da vida. Então, a sensação se tornou cada vez mais real e o rapaz até conseguia sentir o gosto do sangue no beijo. Era indescritível, uma das coisas mais tesudas que já tinha imaginado. Ficou obcecado imediatamente, precisava experimentar, mas com quem?, onde?, não passava de um punheteiro, nem casinho ele tinha, quanto mais uma namorada que topasse beijar com sangue.

 

Racionalizando, percebeu que o fascínio mesmo estava no gosto do sangue, estava no ato de sugar e não propriamente no beijo. Rapidamente mordeu a língua e começou a chupar seu próprio sangue. Um delícia, a cada sugada a dorzinha na língua o excitava mais. Não demorou para morder a língua em mais três ou quatro lugares, aumentando o fluxo de sangue e - principalmente - a dor. Estava agora ali, em plena luz do dia, quase comendo a própria língua. Divertiu-se com a idéia, até sorriu, e ficou imaginando o que mais poderia fazer. Abriu a porta do banheiro. No armarinho tinha uma gilete velha, que sua avó usava para cortar os pelos das axilas. Quem não tem cão, caça com gato e lá estava ele, mastigando a gilete enferrujada da avó com gosto de sovaco.

 

A cada mordida um corte. A voracidade aumentou e a gilete foi cada vez mais fundo, arrombando a boca do rapaz, que se olhava no espelho satisfeito, com os olhos marejados de dor e um sorriso bizarro e preocupante, onde os dentes eram todos contornados de vermelho. Sangue é vida, e bebê-lo é se fortalecer, pensava o garoto.

 

Mas aos poucos foi perdendo a força. Viu no chão uma poça se formando, que escorria de sua boca junto com um pouco de baba. Estava perdendo muito sangue já havia algum tempo, tinha se descuidado, e agora estava correndo sério perigo. Caiu. Tentou se apoiar e levantar, mas não conseguiu, estava fraco, muito debilitado. Desesperado engoliu a gilete e a dor na garganta foi terrível. A brincadeira estava virando uma tragédia sem volta. Então, sentado e encostado na privada, conseguiu ainda escrever no chão uma mensagem para quem encontrasse seu corpo estirado no banheiro: CULPA DA TV QUE SÓ PASSA MERDA.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 11h48
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Barraqueiros corações

De Xico Sá.

 

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final. 

Sim,  o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar...”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.

Sem reticências...

 Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido  prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem metáforas.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem no Crato...nem na Suécia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.

O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.

 E vamos ficando por aqui, pois já derrapei na curva da auto-ajuda como uma Kombi velha na Serra do Mar... e já já descambarei,  eu me conheço, para o mundo picareta de Paulo Coelho. Vade retro.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 15h35
[]


Sexos blônicos

De Paulo Castro.

 

     Bem, não estou muito preocupado. Pois pra onde eu vou não precisa de dinheiro. Como diz meu querido amigo Nelson Botter, eu sou pop e só gosto de banda que aparece na MTV. Mas “Cachorro Grande” é foda de bom. Deixa pra lá.

     Outro dia a Tati, nossa atual gata ( dançou, Milly ! ), me mandou um scrap no Orkut. Bem legal. Eu estava divulgando o blog da minha filha de 10 anos. Não passo o endereço porque tenho medo que a lindinha pegue meu lugar. Ela escreve melhor que eu e qualquer  um aqui ou ali na Mercearia. A Tati sacou isso e me disse: “Paulo, sua menina sempre vai escrever melhor que você porque ela é mulher. E sempre será. Sempre mulher”. Concordo. Mandou bem, Tati. Foi ótima idéia ter mais mulher aqui. Mesmo sem bunda. E mulher de blônica minha pra mim é homem. Só que homem não escreve bem. Paradoxo das diabas.

     Mas será que a mulher manda mesmo melhor? (“Lá vem o cara bancar uma de iconoclasta-politicamente incorreto, acha que isso dá dinheiro”. Mas pra onde eu vou não precisa de & tal). A mulher tem uma delicadeza que o homem só conquista a posteriori. Ela já nasce Quintana. O homem pega sensibilidade quando pega mal. Daí enche a cara, cai na rua, e vai parar debaixo da ponte, só pra citar finalmente um escritor macho de sensibilidade rara, Charles Bukowski.

     A mulher é sensível e quer que o homem também seja. Mas ela quer que ele também seja uns olhos azuis. E um nariz perfeito, que seja. E se o cara não ser? Daí ele vira um escritor ressentido como eu. Sacaram a lógica? Por falar em ressentimento, volto pro assunto do Orkut. “Hein?”. Isso mesmo. A gente do Blônicas tem uma comunidade legal lá. Não passo o endereço porque tenho inveja. Pois bem. Eu estava fazendo auto-divulgação narcísica no espaço. Como sempre. Espaçoso. O Castelo, moderador, ainda me expulsa.

     Então. Um ser anônimo deixou um recado carinhoso na comuna: “Paulo Castro, você quer ser um escritor marginal e erudito, mas não chegas, guri, nem aos pés dos outros escritores blônicos, guri. Nem nas unhas tu chegas. Quem sabe um dia”. Foi homem ou mulher que escreveu isso? Não senti muita sensibilidade ou tato quentinho. Mas também não achei que fosse homem querendo me comer. Dessa forma, existem três tipos sexuais de escritores: homem, mulher e anônimo. Incluindo sulistas. Cada um com uma intenção artística diferente.

     O lance de poser marginal e erudito. São as duas formas de um feio papar alguém. Ou ser pop e gostar de “Cachorro Grande”. Eu faço as três coisas e minha esposa é uma gata. Pô, até que dá certo. Assim, o escritor-homem, que é um tipo, se divide em três subtipos. A arte literária é mesmo complexa.

     Tem também a espécie bel-letrista que independe do sexo físico, mental, genital, social e verbal. Que á dos puxa-sacos. Mas fica pra próxima. Que eu sei que já sei que estou enchendo o saco dos meus amigos super legais e fofos. Considero pra caramba. Beijos no coração.

 

Paulo Castro é cronista do Blônicas e retrossexual.
Escrito por Blônicas às 12h39
[]


Devaneios dominicais

De Milly Lacombe.

Pensei em escrever sobre o show do U2 em São Paulo – ou, mais precisamente, sobre a palhaçada que tem sido a venda de ingressos para o concerto-vip. Poderia – isso sempre é possível – escrever sobre SuperLula, que teima em continuar nos alimentando de excelente material para deboche (ótimo que agora não sejamos mais acusados de preconceituosos ao criticar o "homem do povo". Descobriu-se que não era preconceito: o sujeito é, de fato, uma anta). Mas como deixar escapar a chance de voltar ao bom e velho Bento XVI?

Essa semana, nosso digníssimo Papa-ex-integrante-da-juventude-nazista resolveu presentear o mundo com sua primeira encíclica. Deve ter se dedicado à labuta de escrever o texto em um domingo qualquer, quando as lojas da Prada – cujos sapatos ele não dispensa – estão fechadas. E o Papa-que-usa-Prada (para quem não sabe, o mais singelo sapato da grife não custa menos do que R$ 1.000,00) disse ao mundo que Deus é caridade, Deus é amor. Incrível. João Paulo II pelo menos foi mais original em sua primeira encíclica e desceu o pau no comunismo. Mas o Papa-Prada parece guardar a originalidade para ser usada nos calçados que compra e saiu falando de amor.

Pois bem. Se Deus é amor, onde estava Ele quando a Igreja Católica fechou os olhos à escravidão? Onde estava Deus quando mulheres que tinham opinião eram queimadas em praça pública? Quando o nazismo não foi combatido pelos cristãos? Onde está Deus agora, quando milhares de crianças morrem de fome na África enquanto o Papa Prada faz compras em Milão? Onde está Deus enquanto a AIDS varre almas em países miseráveis graças a proibição clerical de se distribuir camisinhas e educação sexual? Deus foi tomar um café? Deixou o vaticano às moscas – ou, mais exatamente, aos cuidados dos elegantes e patuscos sacerdotes da Igreja Católica?

Como disse Einstein, apenas a não existência de Deus poderia desculpá-lo de tanta miséria no mundo, que, segundo a crença evolucionistas, Ele criou (em seis dias, olha que ritmo alucinante) e coordena com mãos-de-ferro. Quanta ironia. Quanta contradição. Quanta falta de inquietude. Se Deus é esse cara intervencionista e carrancudo que nos controla pela imposição do medo e da culpa como pode ser Ele, também, o amor? E, sendo Ele esse controlador, como pode deixar que seus filhos morram agonizando de fome e doenças para as quais já existe cura e controle?

Mas essa bronca com o divino só vale, claro, para quem acredita que Deus é esse cara intervencionista, capaz de punir com a fúria do capeta aqueles que não seguem sua cartilha de valores morais. Já para os que, como Platão, acham que Deus nada tem de intervencionista e se revela na harmonia das coisas da natureza – no pôr-do-sol, na plantas, nos homens, no amor, no sexo – não há por que desculpá-lo.

Para esses, Deus é um cara boa praça, risonho, incapaz de punir. Para esses, Deus é um bonachão que, dando uma passada por aqui, não iria a uma loja da Prada comprar calçados novos, ou passar as férias de inverno nos Alpes. Em vez disso, iria para a África, para o sertão do Brasil, para a Palestina, para o Afeganistão. Iria visitar os que dele precisam, colocar a mão em suas cabeças, levar, a essa gente inocente e que sofre, um mínimo de conforto e esperança. E diria apenas para que desculpassem o egoísmo humano, para que perdoassem nossas fraquezas, tanta vaidade, tanto ego, tanta falta de amor ao próximo e excesso de amor-próprio. Diria que não poderia fazer mais do que isso, não poderia fazer mais do que dar colo e confortá-los com palavras, e que, quando fosse preciso se comunicar com Ele, que tentassem encontrá-lo na beleza da aurora, na perfeição das ondas do mar, na diversidade de cores, formas, sons e espécies da natureza. Porque aos que conseguissem fazer isso, enxergar Deus na harmonia da natureza, pertenceria o seu reino.

Mas esse Deus não existe para o Papa Prada. Para nosso Papa Prada o único Deus que existe é um que, em meu imaginário, pela punição, pela raiva, pelos castigos que nos impõe, se parece mais com o diabo. E o diabo, esse sim, seria capaz de deixar crianças morrendo de fome na África para ir fazer compras na Prada.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 18h23
[]


Como abordar um vizinho problemático
De Castelo.

O mundo de hoje tem terrorismo, efeito-estufa, o PT, doenças estranhas e incuráveis.
E, além disso, ninguém tem mais saco de falar com o vizinho.
Ainda mais se ele é do tipo maligno. Ou seja, enche o seu saco vazando, sujando ou estourando seus tímpanos .
Quando acontece um impasse condominial a única saída, a meu ver, é escrever uma mensagem curta e grossa. E afirmar nela, com todas as letras, o quanto essa criatura torra a sua paciência. E ponto final.
Para isso, na qualidade de cronista-traumatizado, escolhi alguns padrões de texto. Todos, claro, primando pela elegância.
Para aumentar o realismo, lancei mão de algumas situações fictícias para oferecer instrumentos ao leitor que, como eu, tem problemas desta ordem.
As pessoas mencionadas não existem. Mas se existissem, sem dúvida alguma, seriam seus vizinhos.

Vizinhos com cães problemáticos

Seu beagle é adorável.
Seu poodle é uma graça.
Seu collie é meigo.
Seu airedale é simpático.
Seu setter é fogoso.
Seu fox paulistinha é inteligente.
Seu afganhound é majestoso.
Sua mãe é uma vaca.
Atenciosamente, seu vizinho do 142.


Problemas de Vazamentos

Solicitamos a V.S. que providencie o pagamento dos seguintes ítens
enviando o valor para o Bradesco, agência 0279, c/c 205 7777-7:

- 4 pés-de-pato
- 4 snorkel
- 4 cilíndros de oxigênio
- 4 máscaras de mergulho
- 1 barco de cabotagem médio
- 1 remo
- 1 caixa de protetor solar
- 1 caixa de vacina anti-leptospirose

O material acima é essencial à permanência de minha família em sua própria casa, já que - como é de sua ciência - o seu apartamento apresenta um vazamento contínuo - e sem solução - há sete meses. Sem mais,

P.S.: Para seu conhecimento, compramos ainda duas pranchas de surfe para nossos filhos. Não incluímos no orçamento por achar que eles podem usá-las em finais de semana na praia por bastante tempo.

Opção de Bilhete Minimalista

Prezado Vizinho:

Toquei fogo no seu varal, matei seu papagaio e embarquei sua mãe num vôo para Palmas.
Anexo cheque para as devidas despesas.
Grato.

Telegramas

Outra maneira simples e direta de expressar seu descontentamento com o vizinho são os telegramas. Eis um exemplo, elegante, educado e direto ao ponto.

Gato cagou meu carro pt Gato bateu meu cachorro pt Gato mijou minha varanda pt
Gato subiu no telhado pt


Fax

Outro método bastante eficiente. Veja:

De: Seu Vizinho
Para: Vizinho do 31
Ref: Comentário s/ sua festa de ontem à noite.

AHHHHHHHHGGGGGGGGGHHHHHIIIIIIIIIIUUUUUUUUUUUUU-UGH -IIII!!!!!!

E-Mail

O mais eficiente de todos, se você possui o endereço eletrônico de seu vizinho.

From: ninguém@ninguém.com.br

Message: (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus) (Vírus)

Castelo é autor do livro “Vizinho – o pentelho mora ao lado” (Nova Alexandria)
Escrito por Blônicas . às 09h29
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In dog we trust

De Max, o cachorro intelectu-au (Henrique Szklo volta na semana que vem)

O homem não foi feito à imagem e semelhança de Deus. O cachorro é que foi

Acredite, o conteúdo deste artigo vai deixar você de quatro. Não que seja tão ruim assim a posição, mas acredito que vocês, humanos, não estão muito acostumados. Quer dizer, alguns até estão, mas isso não vem ao caso agora. Enfim, o que eu gostaria de dizer é que, infelizmente para vocês da raça humana, toda a sua teoria religiosa e teológica é equivocada. Receio que Deus, como vocês conhecem e cultuam, é apenas uma invenção de suas mentes eminentemente criativas e sonhadoras. O fato é que o Senhor não é um homem barbudo e meio rechonchudo, com cara de Papai Noel vestindo bata branca. Não. Deus na realidade tem a aparência de um belo, imponente e poderoso cão da raça pastor alemão que comanda o universo e tudo o que nele existe direto de sua casinha de madeira. O que comprova isso é a passagem da Bíblia Sagrada que diz "o Senhor é meu pastor e nada me faltará". A expressão “Deus é fiel” também converge para a mesma óbvia conclusão. Alguns de nossa espécie acreditam, inclusive, que Deus seja um fila brasileiro, mas isso é severamente questionável pela elite pensante de nossa espécie. Coisa de cachorro provinciano que quer demonstrar aos outros que é superior em alguma atividade. Acredite, sendo pertencente a uma raça dominante como a dos bull terriers, eu seria o primeiro a desacreditar esta informação se ela não fosse indubitavelmente verdadeira. Acima de qualquer questionamento. O importante é que temos muitas provas.

Pense bem: a maioria de vocês não vive reclamando que Deus é como táxi, que nunca está nem onde nem quando você precisa? E quando chove, então, é um deus-nos-acuda, e Ele não acode? Não há um bocado de gente que diz que se Deus existisse não existiria fome, violência, miséria e injustiça no mundo? Pois é. Agora veja os cachorros. Quantos cães você conhece que passam fome, sofrem com a violência, que vivem na miséria, que são atacado por injustiças, quantos? Muito poucos. Quase nenhum eu diria. Agora vejam vocês. A maior parte da humanidade vive em permanente flagelo, passando por necessidades dos mais diferentes padrões. Quantos humanos, como nós, tem garantido água, comida, moradia, amor, vacinas, bolinhas de borracha e coleiras anti-pulgas? Isso em si já seria uma prova cabal e incontestável da existência de um Deus cachorro, único e poderoso. Um argumento inatacável de que todo cachorro é filhote de Deus.

Provavelmente você não tem conhecimento, mas nós, cachorros, somos muito religiosos. Mesmo eu que sou intelectu-au, defensor ferrenho e intransigente do cinofilismo dialético, me curvo aos preceitos mais elevados e gloriosos da fé religiosa. Cachorros rezam com muita freqüência, principalmente o “Pau Nosso” e a “Late Maria”. Além disso temos nossas festas religiosas, principalmente o Dia do Ossão de Graça. Vocês, pretensiosamente devo afirmar, se auto-denominaram nossos donos e acreditam realmente que abanamos nosso rabo quando estamos felizes com sua presença e atenção. Pobres iludidos. Abanar o rabo para nós é um gesto litúrgico, para afastar de nosso corpo físico toda e qualquer energia negativa que eventualmente vocês tragam para perto (e vocês trazem sempre uma quantidade impressionante). Enfim, é a versão canina para o sinal da cruz que vocês usam para se benzer, se proteger dos maus fluidos que existem por aí e etc.

Outra ilusão alimentada por vocês é de que sua Bíblia contém verdades universais e inquestionáveis. Falácia. Não quero aqui demonstrar desrespeito à fé de ninguém, mas não há como negar que o Livro Sagrado desfila uma lista interminável de equívocos. Vocês não sabem, mas a versão correta da criação do mundo anuncia que no princípio Deus fez o mundo, criou o dia e a noite e depois vieram os postes, informação vergonhosamente omitida em sua Bíblia. E, heresia das heresias: pelo amor de Deus, o diabo não é o cão. É o gato. É tão óbvio que até dói.

Enfim, eu poderia continuar aqui desfilando toda uma sorte de fatos e argumentos irrefutáveis que não deixariam a menor dúvida em suas cabeças grandes de que Deus está ao nosso lado. Tenho certeza, porém, de que estamos todos nas patas de Deus, que Ele urina certo por linhas tortas e que sangue de Rin-tin-tin tem poder.

Lamento se causei algum desconforto aos leitores, mas a verdade precisava ser, finalmente, proclamada. Não podíamos continuar mais nos fingindo de mortos, como vocês tanto gostam de nos ordenar. E saiba que não tenho medo de cara feia. Tenho fé em Deus, uma extraordinária proteção divina. Deus sabe que eu estou fazendo isso com a melhor das intenções. Claro, Deus tá vendo. E farejando também.

Max é o melhor amigo de Henrique Szklo que escreve no Blônicas todas as sextas e é um cachorro. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas.. às 11h33
[]


O túmulo do Rock

De Leo Jaime.

A frase é reeditada, eu sei. A reciclei, endereçando-a ao Rio de Janeiro, mirando na imprensa carioca que insiste em negar a existência, ou importância, daquilo que lançou para o Brasil. Bom, é preciso lembrar que Roberto e Erasmo são da Tijuca e a onda dos 80 nasceu em Ipanema. Lancei a frase e esperava uma discussão que não houve. Em seu lugar, a represália. Talvez seja melhor contar o caso com alguma lógica cartesiana. Vamos lá.
Em 2003 quis fazer um show no Morro da Urca, reaberto para eventos e palco onde comecei a carreira, e recebi uma negativa. Disseram que eu não tinha cacife para tanto e que a mesma negativa tinha recebido a Blitz. Indagaram se eu topava dividir uma data com eles. Claro! Depois acharam que nem assim o lugar encheria. Resolveram que, talvez com o Leoni junto, quem sabe. Sugeri o Kid Vinil e o Ritchie e estava fechado o primeiro elenco. Os ingressos foram postos à venda e venderam todos nas primeiras duas horas. Com tal interesse, a noite se repetiu por mais três vezes naquele ano de 2004.
Em 2005 resolvi produzir um evento assim em São Paulo e o resultado de público foi o mesmo. Chamei o Roger do Ultraje em substituição ao Evandro Mesquita, impedido por agenda, e a imprensa paulistana abriu muitas páginas favoráveis, assim como o noticiário da TV. Marcamos uma noite no Rio. Assim como das quatro vezes anteriores nada tinha sido noticiado, imaginei que nada sairia. Oras, o editor do segundo caderno do Globo assiste novelas todas as noites pois as comenta em suas crônicas. Ele supõe que seus leitores as assistem também, e que os galãs das novelas são os ídolos máximos de seu universo cultural e que, oras, é isso o que o povo quer ler: o que rola em torno da vida dos galãs dentro e fora das telas. Tá bem, pode ser. E de fundo musical? Ah, coisas de bom gosto. Rock não é de bom gosto. Não mesmo.
Tivemos algum destaque em nossa quinta incursão nos palcos cariocas. Mas nada como em São Paulo ou qualquer outra cidade brasileira. Nos balanços de fim de ano a nossa apresentação foi considerada um aluguel pois foi, somada à gravação do mesmo show, uma invasão dos mesmos caras dos anos oitenta, gravando as mesmas músicas de novo, numa rentável e chata reedição dos lançadores dos mullets e das calças bags etc. Nas críticas idem: oportunismo, comida requentada etc. O que será que vão dizer dos Stones?
Curiosidades históricas: vinte anos depois você regrava PELA PRIMEIRA VEZ uma música e é um absurdo que ela seja regravada? Que você faça um disco depois de dez anos sem gravar nada, é um aluguel? Que a história encontre-se de novo em perspectiva achando atuais aqueles mesmos temas que, afinal, não são mesmo velhos, é oportunismo? Querer trabalhar é oportunismo? Querer ganhar dinheiro com o próprio trabalho coerentemente, independentemente, sem apoio de nenhum órgão governamental, multinacional, contando apenas com a demanda popular, em uma única apresentação anual pode ser considerado um aluguel?
Bom, agora vamos analisar o poder do editor que vê novelas e acha que não é de bom gosto ir em shows de rock. Ainda mais os clássicos. Engula: passou de 20 anos, não toca em rádio  e o povo ainda canta  é clássico. Ele prefere aquelas programações mais suaves, de rádios adultas, músicas calminhas,  de bom gosto. coisas mais educadas. E no Rio, observe, todo mundo gosta de coisas assim. Pega mal gostar de coisas mais "agressivas". Todo mundo, em entrevistas,  faz ioga, todo mundo come comida muito balanceada, todo mundo é politicamente correto, todo mundo é lindo ou gostaria muito de ser lindo ou está pensando em entrar na faca pra ser lindo e contribuir para o Rio ser cada vez mais a Lindolândia. É isso? Tem que ser assim? Alguém acredita nesse projeto? De verdade? Conheço os caras que pensam o jornalismo carioca e gostaria de debater este tema com eles. Metade das matérias dos jornais no final de semana são sobre ginástica e dieta. Ou como ser cool. O resultado é que o Rio cada vez mais se distancia das outras cidades brasileiras.
O Rock não é para lindos. Não necessariamente. Essa cara mais democrática eu conheci no Rio. Indo à praia e vendo que todo mundo sentava na mesma areia e conversava igualmente, não importando onde morava ou tinha nascido.
Não tenho nada contra novelas brasileiras. Acho que são maravilhosas e nossos galãs são mesmo excepcionais. Mas não vejo a cara do Brasil restrita a essa figura, Há uma outra expressão que o Rio não quer dar espaço mas que não deixa de existir. Há gente fazendo rock no mundo inteiro, e no Rio também. Só que lá a turma do bom gosto não quer deixar. Não vai dar nem pra ser remexer dentro do túmulo.
Bom gosto, como diria Nélson Rodrigues, é uma qualidade de quinta categoria.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 17h05
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São Paulo da janelinha

De Rosana Hermann.

 

A viagem de volta foi terrível a começar com o trajeto. A única justificativa deve ser o lucro das companhias aéreas porque nada explica um vôo que sai de Porto Seguro em direção a São Paulo e começa a rota subindo centenas de quilômetros até Salvador, antes de começar a descer de fato até a capital paulista. E com escala em Ilhéus.

 

Juntando-se o fato de que a Bahia não tem horário de verão, o vôo que na ida durou duas horas e meia fez com que saíssemos do hotel em Trancoso a uma da tarde e chegássemos no aeroporto de Congonhas às dez da noite. E tudo isso com dois saquinhos de amendoim e um sanduíche no estômago.

 

Mesmo já tendo morado aqui e ali, São Paulo é a cidade onde nasci, cresci, casei, tive filhos, vivo e trabalho. Sou paulista, paulistana e são paulina e minha única irmã nasceu no dia do aniversário da cidade. Por tudo isto, como legítima descendente de imigrantes pobres, sinto-me totalmente credenciada para sentar na janelinha do avião e esperar que a cidade surja no meu campo de visão, momento em que cravo os olhos sobre a cidade até voltar para seu chão.

 

Já vi São Paulo da janelinha muita vezes, mas desta vez, foi diferente. Não porque a cidade tivesse algo de novo mas porque eu estava vindo do sul da Bahia depois das férias mais maravilhosas de que tenho memória. A família toda em paz, dias esplendorosos de sol nos azuis do céu e verdes do mar, onde a imensidão da linha do horizonte se impõe sobre as curvas da praia, sob aplausos de coqueiros e palmeiras dançando com a brisa.

 

O sul da Bahia é um daqueles lugares onde todo ser humano questiona suas reais necessidades materiais para ser feliz e cogita a possibilidade de largar tudo e ficar para sempre, mesmo sabendo que já tem bilhete aéreo marcado para a volta.

 

Pois foi este contraste entre a paisagem natural, horizontal  e ensolarada da pequena Trancoso e a imensidão noturna do concreto vertical artificialmente iluminado de São Paulo que causou tanta turbulência em meu coração. Ali, da janelinha, São Paulo eu ia reconhecendo tudo. Os bairros, os complexos viários, os rios, viadutos. Os prédios, os cartazes luminosos, a pressa dos carros. O avião descendo, a sensação absurda de pousar no meio dos prédios da maquete se agigantando e antes que as rodas do trem de pouso tocassem o chão, ouvi a voz de meu filho ao meu lado:

 

- Eu amo essa cidade.

 

E foi assim, com os flaps das asas já baixados, sentindo a resistência intensa do ar parando o avião que segurei as lágrimas de alegria por ter tudo que tenho: uma família para amar e um lugar para onde voltar.

 

Feliz Aniversário, São Paulo, meu chão, meu céu, meu lar.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas todas as quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 10h00
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A fabulosa história de Celina

De Nelson Botter.

Ah, Celina, minha menina, ainda me lembro, como se fosse hoje, que tu me contaste, lembras?, da tua amorosa sina, querida, da peça Shakespeareana que tua vida virou, e me pediste um conselho, um ombro amigo, uma palpite, uma profecia, um final feliz, e eu te ouvi, e me falaste que saíste ainda ninfeta à procura de um homem que se encaixasse direitinho no teu sonho encantado, casinha de bonecas, castelinho com cavalo branco estacionado na garagem; por isso, menina, saíste apertando e provando quem teu caminho cruzava, igual quando se vai à feira e apalpa os mamões para saber qual está bom para comer, coisa de lamber os beiços, chupar os dedinhos e deitar sob uma sombrinha boa, sono dos justos; lembro sim, Celina, que tu já comeste intelectuais, drogados, modernos, psicóticos, caretas, esquizofrênicos, crentes, gente de bem, gente do mal... e sofreste, nossa como sofreste, praticamente o pão que o diabo amassou; mas eis que um belo dia, largaste a louca vida e voltaste à calmaria, pois a boa filha pródiga à casa torna, e encontraste um rapaz, amor à primeira vista, embora tu tenhas me confidenciado que não acreditavas nisso e, se te conheço bem, isso não mudou nem um tiquinho; mas, então, o danado era difícil, escorregadio, quanto mais ele fugia mais tu te apaixonavas, e olhe que nem era um cara brilhante, que nada, metaleiro, desses travessos moleques; e todos te alertavam: vais acabar mal, muito mal, e de ouvidos fechados tu iniciaste o namoro, lembras o dia, Celina?, e ele que não aceitava teu passado, tua alta quilometragem, tua independência, aiaiai, teu príncipe metaleiro era acostumado com menininhas bobocas do interior, e te pisava, te fazia chorar amargamente... lembras?, pois eu lembro; teu namoro ia de mal a pior, Celina, o príncipe cada vez mais príncipe e tu cada vez mais plebéia; terminaram, entraste em depressão, ficaste mal, inclusive me disseste que nunca te recuperarias, estavas vestida de preto, luto da alma, com os olhos marejados de Lexotan e outros psicotrópicos; e foi nesse ínterim que apareceu o namorado dos sonhos: inteligente, endinheirado, independente, atencioso, educado, cavalheiro, carinhoso, formado e, de quebra, bonito; fogos de artifício, todo mundo se apaixonou pelo novo rapaz,a família aplaudiu em pé, tua avó, que bonitinha, chorou quando viu que teu novo namoro dava certo, sorrisos, fantasia; e os meses passando, Celina, e tu tens coração juvenil, é Cinderela sem sapatinho, eis que logo o brilhantismo do novo príncipe não te atraía mais, te lembras?, nem a beleza tocava teu coração; e agora tudo te irritava, até o jeito carinhoso de ser do rapaz te punha a subir o sangue; é, não tinha jeito, sentias falta do anterior, o príncipe metaleiro, o traste que te fazia rir com suas loucuras; aí veio a merda toda, mandaste um e-mail, ele respondeu, dizia que no fundo, bem no fundo, lá ainda longe e distante, também sonhava com aquela casinha de cerquinha branca, com três molequinhos correndo pelo quintal... pensaste imediatamente que estavas fodida e mal paga, e não deu outra, querida, estavas mesmo; um era tudo o que tu sonhavas, entretanto, apesar de todo o carinho, faltava a liga, a paixão de arder no peito e assar corações vadios, já o outro não valia porra nenhuma, Celina, nem um centavo furado, mas por esse tu eras capaz de qualquer loucura; e cá estamos, presente momento, andando na corda bamba da incerteza, não sabes o que fazer, que rumo tomar, mas olhe, chegue aqui menina, vou falar soprando na tua orelhinha: a lei divina da vida é bonita, assim como tu, Celina, tem olhar matreiro, assim como tu, Celina, tem jeito de moleca levada, assim como tu, Celina, e diante de tantas afinidades a vida não te abandonará num momento desses, e para resolver tudo a vida chamará o tempo; cavaleiro errante de sábia sobriedade e fina estampa, que a tudo vê, sente e absorve; logo, ele te acolherá, te mostrará o verdadeiro caminho; então, hoje largo minha fantasia de guru das paixões, de escritor da ficção mais que real, e me revelo teu amigo, aquele que espera que teus caminhos se iluminem, e digo que não tenho teu final feliz, Celina, pois o final de cada história habita somente o coração de quem a escreve; portanto, escuta bem o que ele te diz, teu único e solitário coração, pois só ele conhece finais que escritor nenhum pode imaginar.

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 10h22
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Paixões platônicas e outras nem tanto

De Milly Lacombe

Aprendi a sofrer muito cedo na vida. Mais exatamente, aos 13 anos, quando me apaixonei pela primeira vez por uma pessoa real. Real mas completamente inatingível. Quase tão inatingível quanto meus primeiros objetos de desejo: Nadia Comaneci, a incrível ginasta romena que fazia loucuras naquela barra paralela; Sabrina, de As Panteras, que fazia loucuras com aquela arma na mão; Chris Evert, a tenista engomadinha que fazia loucuras com aquela bolinha por perto. Mas foi apenas quando meus desejos mais carnais se manifestaram por alguém de três dimensões, e que me chamava pelo nome, que conheci o verdadeiro gosto da dor maior: a dor da alma. E, com o sofrimento precoce, uma lição também precoce: a de que sofrer é, antes de depois de tudo, muito bom. Fazer o que se eu desenvolvi esse gosto esquisito pelo sofrimento? Claro, tem mais gente como eu por aí (para citar apenas um grupo, toda a torcida do Botafogo, um povo que saboreia com enorme satisfação e deleite o gosto bom e único que a melancolia tem), mas somos, os amantes da dor do espírito, uma comunidade em extinção.     

Porque o lema hoje é não sofrer. O objetivo é passar pela vida sem sentir, sem precisar levar as mãos ao rosto para tentar aplacar aquele pranto que vem da víscera, sem ter a necessidade de se trancar num quarto e passar ali horas ouvindo uma música ainda mais triste do que a sua dor, deixando que a melodia ajude a lavar um pouco desse sofrimento, sem que tenhamos que passar uma noite em claro, entregue aos pensamentos mais dilacerantes e penetrantes, esses que fazem uma viagem de volta ao passado e, portanto, à dor. Sem que precisemos relembrar as minúcias das cenas que nos aguçam a dor para que, com essa memória, sintamos um pouco mais funda essa cruel penitência que é sofrer, e sem que consigamos mastigar a dor como um prato grande e saboroso: muito lentamente para, só assim, sentir a totalidade do gosto. Tudo isso caiu em desuso. Sofrer virou doença social e, como tal, deve ser combatida. Um viva à indústria farmacêutica, essa que ganha milhões para nos fazer não sentir. A nossa disposição, em qualquer esquina, vários artefatos químicos que aplacam a dor da alma. Tudo legal. Tudo permitido. É ir ao médico, pedir uma receita e, bum, adeus sofrimento. De volta à vida monocromática. Nem vivo, nem morto: moribundo.

O psicanalista francês Michel Schneider escreveu que o sofrimento e a morte têm a cruel virtude de nos restituir a nós próprios. Mas, pelo visto, não queremos mais nos restituir. Não via sofrimento. Esperamos a morte para isso. Só que eu, já tendo sofrido por amor mais vezes do que talvez seja necessário em uma vida, tenho essa mania estúpida de querer me conhecer um pouco mais a cada viagem ao subsolo da dor. A cada novo sofrimento, inauguro mais um andar desse edifício subterrâneo da aflição, da melancolia e da angustia. E, a cada novo andar inaugurado, mais consigo perceber que sofrer, estar sozinho com sua própria dor, com sua história, com seus medos e anseios, é uma grande oportunidade. Oportunidade de colocar a alegria em perspectiva, de pegar o elevador e, no tempo certo, inaugurar mais um andar acima do nível térreo - essa sim a mais perigosa das zonas, uma região onde nada se sente, local habitado por almas anestesiadas.

Mas não se enganem. Eu também acho que, como disse o poeta, é melhor ser alegre que ser triste. O diabo é que não existe alegria que não tenha conhecido, antes e (inevitavelmente) depois uma boa dose de tristeza. Fazer o que? Essas são as regras desse jogo. E, embora eu não seja muito de seguir regras, pareço ter me adaptado muito bem a essa especificamente.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e está com novo artigo no BlogGol.

Escrito por Blônicas.. às 16h45
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Vinicius no século XXI

 

De Castelo

 

Com toda certeza foi o porre depois de assistir ao documentário “Vinicius” (humanamente impossível ver aquilo e não se afundar num copo duplo de uísque).

Fazia tempo que não me aventurava pelos destilados e deu no que deu: dormi no táxi e sonhei que era o Vininha.

Bom, na verdade, era eu mesmo, só que com um longo cabelo branco encimado por uma boina anos 70.

Lá estava a minha pessoa, fumando feito uma chaminé, tendo ao lado Toquinho, oito ex-mulheres e meia-dúzia de filhas de colo.

O curioso é que, no sonho, eu era um Vinicius vivendo nos dias de hoje.

Fazíamos um som no metrô.

Sentado na guia, eu cantava “passar uma tarde em Itapoã/ ao sol que arde, Itapoã” e os passantes distraídos, jogavam moedinhas de cinco centavos na boina.

Perder o emprego no Itamaraty estava atrapalhando pacas a minha vidinha no século XXI. De mais a mais, as pensões alimentares estavam pela hora da morte.

Pior: grana minguando e nenhum teatro legal querendo fazer show com um poetinha barrigudinho e amante do cachorro engarrafado.

O empresário desistira de mim naquele sonho. Foi logo depois de tentar me colocar na programação de uma “rave” e me ver preterido por um DJ australiano, duas picks-ups e um iPod.

Ah, são demais os perigos dessa vida…

E bem nesse ponto, o delírio começava a virar pesadelo. Percebo, desesperado, que ninguém quer mais se casar comigo.

Vejo uma mulher linda na praia, faço um soneto pra ela.
Quero entregar em mãos, escrito em letra cursiva, redigido em caneta tinteiro.

Ela pede que eu mande por e-mail.

Para viver um grande amor, sou capaz de tudo.
Aprendo até a mexer na Internet.

Mando, assim mesmo, de forma impessoal.
Ela responde que vai me encontrar.

Sugiro um bar intimista.
Ela prefere o restaurante natural de uma academia de ginástica.

Vou flanando feito um fauno obeso.

Ansioso, acendo um cigarro ao lado de uma bicicleta ergométrica.
Depois, pra compensar a gafe, peço um suco de laranja com cenoura pra agradá-la.

O nojo que aquilo me causa é recompensado logo depois. Ela me beija, beija, beija.

Apaixonado, peço a sua mão no dia seguinte. Durante uma corrida de 12 quilômetros na orla.

Antes de ouvir sim ou não, o coração fraqueja e eu vou parar numa clínica de desintoxicação.

Duro, e sem plano de saúde, procuro uma editora. Proponho fazer um livro de poesias novo pra poder pagar o hospital.

O editor, com jeito pernóstico, me diz:

- Vinicius, poesia não tá com nada. O negócio agora é livro de auto-ajuda.

Foi quando o motorista do táxi me sacudiu. Acordei assustado, em frente de casa, todo babado de tanto dormir.

Foi um sonho eterno, enquanto durou.

Castelo é www.castelorama.com.br

Escrito por Blônicas . às 14h24
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Frases de efeito do retardado

De Henrique Szklo

Devo tudo à minha mãe. Ela, inclusive, já entrou na justiça para tentar receber alguma coisa.

Eu amo o dinheiro mas não sou correspondido.

“Meu filho, um dia tudo isso será seu”, disse o banqueiro ao seu herdeiro, apontando para a casa de um cliente.

Meu complexo de inferioridade é tão grande, mas tão grande, que, provavelmente, é o menor do mundo.

Acredito em Deus, mas a recíproca não é verdadeira.

É claro que não acredito em outras vidas. Não acredito nem nesta.

Será que existe vida inteligente em outros planetas ou são todos como o nosso?

Ele parecia um peixe fora d’água. Principalmente por causa do cheiro.

O problema do Michael Jackson é que ele não sabe onde enfiar o nariz.

Tudo o que eu tenho hoje eu devo aos bancos.

Não gosto de mulher casada. Por isso me separei.

O bom da democracia é saber que um dia você pode ganhar muito dinheiro e finalmente deixar de praticá-la.

Ele tinha uma visão muito particular do dinheiro público.

Não existe nada mais parecido com o governo Fernando Henrique do que o governo Lula. Na verdade, tem só um dedinho de diferença.

Quero fazer um clone de mim mesmo e botar toda a culpa nele.

Não posso meditar. Se sair do meu corpo, corro o risco de ele não me deixar voltar.

Multiplicar números primos entre si é considerado incesto?

Esta história de vegetarianismo está tão disseminada que vai acabar virando carne de vaca.

Não é que eu me ache feio. Eu só não faço o meu tipo.

Às vezes minto aos meus amigos. Mais importante que dizer a verdade é preservar uma amizade sincera.

Todo homem é cafajeste. Menos a minha mãe.

Foi só quando chegou ao seu primeiro milhão de dólares que percebeu como seria impossível consegui-lo honestamente.

Só a verdade ofende.

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e é meio retardado. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas.. às 17h21
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A dança do Pinto

De Marcelino Freire.

 

       De batina? Que nada! Padre agora veste parangolé. Cheio de penas de arara. Pomba da paz, quem disse? Pomba que gira, gira. Rodopia em frente aos fiéis, incrédulos. O Carnaval começou. A festa pagã é só alegria.

       Só vendo para crer, quem diria? O Padre Pinto na TV. "Soltando as frangas", como bem disse o Macaco Simão. "Queremos o Pinto no altar". De volta. Porque a Igreja já tratou de enclausurá-lo. Longe das câmeras e dos holofotes, Meu Deus, o que será do coitado?

       Explico: para quem não viu, Pinto é um padre de Salvador que aproveitou a semana de Reis, em janeiro, para se fantasiar e pintar os lábios e usar turbantes. E coreografar durante a missa. Atire a primeira pluma quem nunca ressuscitou. Bem-aventurado é aquele que procura. Algo assim, dentro de si, como um cego quando vê a cura. "Eu só quero é morrer dançando", disse ele. Que já teve um sonho: "ser bailarino".

       O Bailarino do Senhor. Ora, por que só os atletas podem ser de Cristo, pô? Por que Jesus não pode ser Cristina? Abaixo a batina e viva a purpurina! A ceia não foi sempre santa, menina? "Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso", disse Jesus ao bom ladrão. O beijo de Judas pode ou não pode ter outra significação?

       Confesso: virei fã do Padre Pinto. E rezo para que envelheça assim, por exemplo, o Padre Marcelo. Fazendo a festa. Não feito aqueles padres que, na surdina, se travestem de coisa pior. Rebolam em camas de motel. Prometem o céu àqueles que nada têm. Pintam e bordam. Ohhh! Mas não pintam como o Padre Pinto pinta.

       Amém!

 

Marcelino Freire é cronista do Blônicas. Visite seu blog.

Escrito por Blônicas às 11h47
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Coragem para ser feliz

De Nelson Botter.

 

Juntou seus trapos numa mala velha, surrada, levantou a cabeça e partiu em direção à porta. O medo da incerteza corroia cada centímetro de seu corpo, mas sabia que aquilo era necessário. Há momentos na vida que ou você vai ou tudo racha, e aquela era a hora.

 

De canto de olho ainda pôde vê-lo dormindo no sofá, aquele maldito, sempre bonito e tentador, cafajeste, músculos perfeitos, pele bronzeada, quanto ódio, um demônio travestido de anjo. Não quis saber, momentos de recaída já faziam parte do passado. Mirar para frente, vislumbrar o futuro, se desprender das teias do passado, essas eram as palavras de ordem, esse era o seu novo objetivo de vida. Ordem e progresso.

 

Ele era um imã, mas ela estava decidida a mudar de pólo. Conhecia casos e mais casos de amigas que mesmo infelizes permaneciam na zona de conforto em seus relacionamentos, presas como moscas, buscando no companheiro algo que nunca iriam encontrar. Isso não, chega de sofrer por sofrer. Rompeu-se ali, naquele momento, a cadeia do conformismo.

 

Ela pensou muito antes de tomar a decisão de abandoná-lo. Enquanto passava pela sala do apartamento em direção àquela porta, tudo lhe voltava à mente, as lágrimas derramadas, a incompreensão recebida, as decepções de dia após dia descobrir um estranho a seu lado, alguém muito diferente da primeira impressão, alguém incompatível com o que ela procurava, o que ela desejava e precisava. Até tentou, como as amigas, trilhar a falsa esperança de um amanhã melhor, aquela velha ladainha de que um dia ele mudaria, ah mudaria sim, mas não mudou. Todo amor, por mais forte e jovial que seja, não resiste à dor de não ser espelho.

 

Abriu a porta, o hall de serviço silencioso, mãos suadas, coração disparado, pernas bambas, a espinha quase congelada, mas seguiu em frente sem olhar para trás. Nada de elevador, precisava andar, largar o medo naquele hall, embriagar-se de liberdade, ter poder de escolha. Lá se foi, ciente de que ao ouvir o estalo da porta se fechando estaria tudo acabado, ou melhor, se encontraria com um novo e desconhecido começo, a maior das certezas na grande incerteza... O tempo todo ela soube que a felicidade a aguardava na escada.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

 

Obs.: Hoje no Rio e sábado em São Paulo tem o lançamento da revista literária Bagatelas. Saiba mais aqui.

Escrito por Blônicas às 11h03
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O último carinho do mundo

De Tati Bernardi.

O amor com hora para acabar é o único que me interessa, é o único que sei amar, é até onde posso ir.
Imagine que um avião cheio de mágoas e crianças envelhecidas pela dor vai bater no seu mundinho perfeito e estratégico e fazer explodir pelos ares o que você acreditava que era uma vidinha feliz e romântica.
Já eram ombros largos, já era porta-retrato de sorrisos endurecidos pra sempre, já era o seu ódio pela imperfeição.
Por isso, antes de dormir hoje, imagine que, no meio da noite, aquele cara de todos os dias, que já lhe causou alguma emoção mas agora se concentra apenas em roncar, vai se levantar de farda e marchar para uma inexistência de honra e se perder num tempo distante.
Sei lá, acho que tô lendo Herman Hesse demais e estou com a temática guerra na cabeça, mas imagine qualquer outra coisa, então: que ele vai espirrar e a força do espirro será tão forte que ele vai se despedaçar em moléculas pelo universo e adeus olhos grandes e boca pequena.
De qualquer maneira, o jogo é esse: por um segundo, toque a pele dele como se fosse a última vez. Olhe com carinho dobrado aquela esquininha entre a coxa e o saco, repare como é perfeito o diâmetro lisinho e virgem entre o cabelo e a orelha e concentre-se com a maior dor do mundo, a dor do presente que nunca mais voltará, no quentinho ingênuo da sua nuca.
Importa mesmo que ele não corte a unha do pé ou que faça xixi sentado por preguiça? Importa que ele se dedique tanto às plantinhas e tenha a horrível mania de berrar palavras estúpidas quando fala com algum amigo menos inteligente?
Você tem uma piedade melancólica que disfarça seu medo quando as fotos antigas te encaram e lembram: vai acabar, minha amiga, uma hora vai acabar mesmo você sendo tão legal em só levar a vida e carregar uma alma eterna. Essa porra toda, boa ou não, vai acabar.
E você, fechadinha no seu mundo seguro de rotinas e roteiros estipulados, esquece da fragilidade das horas, esquece do fim de cada segundo a cada segundo, você ignora o encantamento de agora porque pensa que agora faz parte de uma longa vida igual que ocorrerá de agoras em agoras, sem que isso seja percebido.
Pois muito bem, esqueça que daqui a um ano vocês vão morar juntos, esqueça que daqui a dois se casarão, que daqui a três farão juntos um lindo bebê e que daqui a quatro mudarão para uma casa maior, esqueça que daqui a dez, se ele continuar roncando, cuidando tanto das plantas e berrando idiotices para idiotas, sua vida será um inferno. Esqueça o script e neste exato segundo olhe com a frieza de quem encara o absurdo da morte desprovido de mantas, chás e palavras quentes e lembre-se o que foi que você sentiu a primeira vez que ele encostou em você e, por fim, sinta a mesma emoção pela última vez. A última.
Desamarre da sua carcaça o peso do destino programado no Excel, tire a corcunda de gordura cheia de certezas das suas costas, deixe de ver a vida com um peso da vida toda e veja a vida como se, por um segundo, Deus te deixasse ver o que é a vida.
Amanhã pela manhã ele já terá ido embora, sua calça não estará mais do avesso, seu tênis não estará mais tão longe do seu par que se perdeu atrás da porta, suas moedinhas não estarão mais acumuladas em cantinhos inúteis, seus detalhes não serão mais pequenos detalhes deste mundo.
Amanhã pela manhã o lado dele da cama será tão limpo e liso quanto a sua vida chata e vazia, o bafo matinal dele deixará espaço no ar para um nada que seca do nariz até a alma, a mania dele de abrir os olhos ainda fraco para encarar a vida naquelas primeiras frestas de sol deixará espaço para que o sol te cegue e te enfraqueça sem nenhum pára-raio.
Importa tanto que vez ou outra ele solte uma gíria qualquer e se perca, autista, desfocando de você? Importa que ele não saiba quem é Jamie Cullum e John Fante?
Coloque agora aquela música que você pula toda vez, porque sabe que daqui a cinco minutos vai tocar novamente, e a escute de joelhos, sinta cada pó de grafite de cada nota e saiba que é a última vez que ela tocará. Quando a música acabar, deixe o som da pá, da terra e da tampa aterrorizar você. Acabou tudo, tudo morreu. Imagina como seria poder socar o fim e agarrar-se novamente à vida?
Ame, não sempre porque se fôssemos sempre poetas não teríamos racionalidade para construir alturas mais próximas do céu, sem saber se você terá coração na próxima batida.
Neste último respiro do homem que você pensava que veria pelos próximos mil anos, tente zerar todo o seu preconceito e tente zerar seu corpo de qualquer orgulho. Esteja mais pelada do que nunca e ainda que o frio seja insuportável se concentre em apenas não correr, em apenas não fazer uma piada para disfarçar, em apenas não olhar no relógio como se a adrenalina fosse mais uma coisa com a qual você já sabe lidar e está entediada. Tente morrer junto com aquele segundo que durou pouco mas foi demais para continuar, só assim você saberá como é bom renascer no próximo segundo, e só assim você saberá que morrerá novamente e que estamos morrendo, vivendo ou não.
Este carinho é o último, então que se dane que ele tenha uma pinta com cabelo nas costas. Este carinho é o último, então que se dane que aquela coluna já tenha se curvado e ainda possa se curvar por outras reboladas que não sejam a sua. Este carinho é o último, então que se dane a sua posse, a sua necessidade quase espiritual de controle, a sua felicidade só verdadeira quando existe comando. Este carinho é o último e tente enxergar como é eterno e perfeito mesmo tendo a falha fatal da interrupção.
Eu só sei te amar hoje, se eu tiver que te amar hoje para sempre eu vou me soterrar tanto que ficaremos sem o carinho de agora.
Este é o último carinho para sempre e, mesmo você não me completando, não dizendo o que eu quero ouvir, não ficando até tarde comigo quando sou engolida pelo silêncio e pelas marteladas do meu cérebro, eu te amo como se este fosse o único carinho. E então amo como se fosse o último amor e então amo para sempre.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 13h05
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Ontem eu morri

De Milly Lacombe

Três coisas me deixam em pânico: a idéia de que eu um dia vou morrer, a idéia de que aqueles que eu amo um dia vão morrer e, acima de uma e da outra, a possibilidade real de topar com uma barata em algum canto da casa. Quanto à barata, não há o que fazer a não ser selecionar as companhias de vida eliminando do convívio aquelas incapazes de matá-las. Não existe, para mim, amor que resista à falta de disposição para tascar o chinelo no diabólico inseto (e, na sequência, me mostrar o cadáver – exigência que surgiu depois de ter sido enganada várias vezes). Mas, para tentar driblar esse paranóico medo de morrer  não pude contar com a ajuda de terceiros. Fui então obrigada a desenvolver uma técnica que depois de um tempo se mostrou invejável: me convenci de que jamais morrerei. É muito simples, na verdade. Basta acreditar que a morte não existe e que, mesmo que alguns de seus entes queridos aparentemente já tenham sido supreendidos por ela, isso jamais acontecerá com você. Você dá à morte uma conotação parecida com aquela de ganhar na loteria: até sabe que alguns conseguiram, mas sabe também que isso jamais acontecerá com você. Funcionou perfeitamente. Até a semana passada.

Pobres daqueles que acham que a morte é um acontecimento único e derradeiro. Morremos um pouco a cada dia, a cada rompimento, a cada perda. Ontem, morri várias vezes. Morri quando abri a porta do armário e, lentamente, tirei dele minhas calças, camisetas, sapatos, casacos ... morri um pouco mais quando peguei meus livros e cds. Mais ainda quando fechei a mala e arrastei-a para perto da porta. Já cadáver de mim mesma, consegui morrer um pouco mais quando coloquei a mala no elevador e, sozinha, apartei o botão da garagem, que me levou ao subsolo da minha dor. Morri, e, morta, escrevo este texto. Morta, olho em volta e vejo vida. Vejo o sol, pessoas indo ao cinema, ao supermercado, ao shopping – ignorando minha condição.

Mas, ainda morta e respirando, percebo que nascemos um pouco quando o telefone toca e a voz do outro lado da linha, há pouco cheia de dor, transcende o próprio sofrimento e faz você rir e lembrar de uma época em que eram vivas e felizes. Faz você lembrar - em perfeitas cores, tons, cheiros - porque por ela se apaixonou perdidamente numa tarde de verão californiano. E nascemos um pouco mais quando nos damos conta de que estamos rindo de coisas que deveriam ser apenas tristes. Mas, mortas-vivas que agora somos, já não sabemos mais sobre essas patéticas regras mundanas e, assim, nos permitimos rir – e gargalhar – de nossa própria miséria. Juntas, como nos velhos tempos. Juntas, como um dia foi, e como para sempre será.

E nascemos mais ainda quando começamos a resgatar nosso passado, tão recente, cheio de cenas divertidas. Um pouco mais quando percebemos que tudo valeu a pena, que fomos felizes e que faríamos tudo outra vez, exatamente igual: mesmas lágrimas, mesmos encontros e desencontros, mesmos erros e acertos. E nascemos mais ainda quando nos damos conta de que não é preciso ter medo da morte, porque é ela, afinal, o grande segredo da vida.

E então entendo que o grande problema não é temer à morte, mas sim à vida. Medo de morrer é quase nada se comparado ao medo de viver, esse sim o grande vilão. E é assim, aos poucos, que vamos renascendo até que um dia, quando menos se espera, abrimos a janela para perceber que tem sol lá fora. E que a vida, finalmente, nos pegou pela mão outra vez. É esse o ciclo. E, a cada ciclo, uma outra jornada, agora cheia de novas referências, memórias, dores e prazeres. É assim que nascemos e morremos. Várias vezes.

Isso tudo para os que têm sorte, é claro. Porque os menos afortunados passam por aqui para morrer apenas uma vez. Pobres almas.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Henrique às 23h47
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Que infância dourada, que nada

De Castelo

Somos seres complexos. Passo a maior parte do ano como um ferrenho agnóstico, mas quando chega a semana pré-natalina se insurge o meu lado metafísico. Invariavelmente me dirijo à Paróquia de São João Vianney, na Lapa.
Apesar de ser um leitor contumaz da Bíblia, especialmente do Livro de Jó e de Tobias (textos dramáticos bem melhores do que os compêndios de "script" de Syd Field), nunca aprendi a rezar. O meu "religare" é de outra ordem; prefiro venerar o intangível. Quer dizer, eu quero é rosetar.   
E ali, em dois ou três quarteirões contígüos à praça Cornélia está quase toda minha infância. As voltas de bicicleta em torno da praça, o grupo escolar, a velha lojinha de brinquedos, a casa de minha professora de piano Zulmira Franchini.
A graciosa igreja, em meus tempos de guri, era comandada por Monsenhor Moura, um velhinho gordote, bonachão que oficiou minha primeira - e quase única - comunhão.
Isso foi em 1968, ano que ainda não terminou – pelo menos na minha memória capenga.
Volto ao cenário em dezembro de 2005. A praça continua igual, a igreja nada mudou, a não ser os arranjos natalinos da fachada todos feitos de latinhas de alumínio recicladas.
Entro na nave principal e olho para a mesma imagem de São João Vianney. Num dos altares laterais também estão meus velhos conhecidos São Judas Tadeu, Santa Teresinha do Menino Jesus (de quem a minha mãe é fervorosa devota). O curioso é que os santos parecem bem menores do que quando eu usava calças curtas. Mas me são bastante familiares.
Fico ali, naquela penumbra religiosa-uterina, só me retirando depois de colocar algumas notas numa urna onde lê-se:“DÍZIMOS”.
Ao sair na pracinha repleta de mendigos e catadores de lixo, pego um táxi. Uma mulher já bem idosa o dirige.
Ela tem mãos enormes, calejadas e um sorriso otimista de “gente do povo”. Pergunto-lhe desde quando mantém ponto na região.
- Desde 1987 – ela diz, amarrando o cinto de segurança.

Digo-lhe que passei a infância ali. Ela inicia um relato bem diverso dos meus anos dourados.

- Essa praça só tem maconheiro, moço. Maconheiro, ladrão e cabra safado. Se o senhor passa de noite é uma catinga de erva lascada. Os caras que puxaram cana, acabam de sair dos presídios, já vem tudo pra essa igreja aí.

-  Pra fazer o quê? – quero saber.

-  Esse negócio de reciclar lata pra enfeite. O padre paga esses malandros pra trabalhar nisso.

- Mas não é um jeito – pondero - de tirar esse pessoal do crime?

A motorista dá um sorriso irônico e completa:

- Faz é piorar, seu moço. O padre deu dinheiro prum ex-detento novato que apareceu. E sabe o que ele fez? Sabe? Pois eu lhe digo. Roubou uma peixeira do boteco, pagou uma corrida prum colega meu e lá em Parada de Taipas surrupiou ele.

O carro me deixa de volta no escritório. A mulher se despede de mim efusivamente, me desejando um “2006 do bicho”.

E a imagem que eu tinha da praça, da infância e do país nunca mais será a mesma.

Castelo é www.castelorama.com.br

Escrito por Blônicas . às 10h25
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Tecnologia a serviço do homem

De Henrique Szklo (pronuncia-se "xczsqkclwóh")

- O Hospital Robert Blaumstein agradece a sua ligação. Tecle “1” para administração, “2” para diretoria, “3” para departamento financeiro, “4” para contas a pagar, “5” para contas a receber, “6” para cafeteria, “7” para serviços gerais, “8” para departamento pessoal, “9” para maternidade ou “0” para emergência.

 “0”.

- Digite “1” para problemas intestinais, “2” para problemas glandulares, “3” para problemas dermatológicos, “4” para problemas ortopédicos, “5” para problemas cardiovasculares, “6” para acidentes ou “7” para outros problemas.

 “6”.

- Digite “1” para acidentes de trabalho, “2” para acidentes domésticos, “3” para acidentes de trânsito, “4” para...

“3”.

- Digite “1” para acidentes com escavadeiras, “2” para acidentes com tratores em geral, “3” para acidentes com ambulâncias, “4” para acidentes com trens, “5” para acidentes com aviões, “6” para acidentes com automóveis de passeio, “7” para...

 “6”.

- Digite “1” para automóveis nacionais ou “2” para automóveis importados.

“1”.

- Para sua segurança, digite o código RENAVAM do veículo.

“5-6-1-5-2-2-3-5-5-5-1”.


- Digite “1” para pequena colisão, “2” para colisão forte, “3” para capotamento, “4” para incêndio, “5” para perda total, “6” para...

“5”.

- Digite “1” para perda total na opinião de transeuntes, “2” para perda total na opinião da polícia, “3” para perda total na opinião da companhia de seguros, “4” para perda total na sua opinião, “5” para perda...

“4”.

- Digite “1” para colisão traseira, “2” para colisão frontal ou “3” para colisão lateral, “4” para...

“3”.

- Digite “1” para colisão lateral direita ou “2” para colisão lateral esquerda.

“2”.

- Digite “1” para esquerda de quem vem ou “2” para esquerda de quem vai.

“1”.

- Digite “1” para sangramento, “2” para fraturas expostas”, “3” para dores lancinantes, “4” para pedaços de gente por todos os lados, “5” para todas as alternativas.

“5”.

- Obrigado. Aguarde um minutinho. Nosso atendentes estão todos ocupados e logo você será atendido. Você é o terceiro da fila.

Trilha sonora.

- Não desligue. O Hospital Robert Blaumstein já vai atendê-lo. Você é muito importante para nós. Possuímos o sistema de atendimento mais moderno da América Latina. Nossa missão é atendê-lo com qualidade, carinho e principalmente rapidez...

Três minutos depois...

- O Hospital Robert Blaumstein agradece a sua ligação. Tecle “1” para administração, “2” para diretoria, “3” para departamento financeiro, “4” para contas a pagar, “5” para contas a receber...

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas, salvo em caso de acidentes. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Henrique às 12h48
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A primeira vez a gente sempre esquece

De Leo Jaime.

Cena 1: Caio, 13 anos, vê uma moça  rebolando na TV e sente umas coisas estranhas, começa a suar e ficar zonzo.
Cena 2 : Daniel, 14, olha sonhador para uma menina, no recreio, que aparenta a mesma idade; em seguida ela é abraçada por um garoto mais velho.
Cena 3 : Murilo, 15, vê uma menina linda passando no calçadão, lança um olhar provocante, ela debocha como quem diria "coitadinho!".
Cena 4: Fernando, 16 , dá uns apertos na namorada e quando tenta avançar ela corta como quem diz "ainda é cedo".
Cena 5, epílogo: Eduardo, 17, conversa com uma moça (ou será um rapaz?) na Av. Atlântica, combina o preço e seguem para um hotel; ele aparenta nervosismo, ela ri.

Todas estas cenas acima caberiam em um comercial de televisão de 30 segundos, que poderia terminar com a imagem de uma camisinha e os dizeres:"A primeira a gente sempre esquece". Valeria para a camisinha, que nunca é usada por quem transa pela primeira vez, como para a iniciação sexual dos meninos, em geral com alguém que será esquecido.

Fala-se muito sobre a importância da iniciação feminina. Não há indicações de que a masculina seja tão importante. As meninas passam anos elaborando a primeira vez, em etapas lentas e graduais, com toda a preocupação em fazer com que as coisas saiam conforme o imaginado. O que nem sempre dá certo, pois é difícil planejar o que não se conhece. Já os meninos, ficam anos tentando se livrar da virgindade como se esta fosse uma doença. E no caso deles acaba por ser.

Ao desabrochar de sua sexualidade, de seu desejo, de sua afetividade madura, o homem experimenta a rejeição, e só a rejeição. São anos tentando "conseguir" transar. Tentando seduzir e colecionando insucessos. Quando acontece, acaba sendo com quem "deixou" e não com quem ele queria. Ou é com quem ele desejava mas, ao invés de sentir-se confortável em sua própria ignorância, ele tem de provar que é bom, que dá conta, que não tem medo ou dúvidas, que é homem, enfim. E sem saber nada, acaba por fingir-se professor.

Quando é mais frágil, exatamente neste momento, a sexualidade masculina sofre toda a sorte de solavancos. E não há como reclamar ou declarar-se confuso e com medo: homens tem pressa em abater sua primeira caça, em fincar sua bandeira no primeiro território conquistado. O amigo, quando abordado pelo incauto, simplificará ao máximo as orientações e mandará o garoto meter bronca.

Desta forma crescem os homens, com o esqueleto de um menino - entupido de hormônios e colecionador de desaforos íntimos - enterrado fundo no peito. Não saberá nunca quando foi o primeiro beijo, mas se lembrará da pressa e da preocupação com possíveis e violentadoras risadas. Performance, julgamento.

Desta primeira vez  lembrará que foi engraçada, e não saberá mais o rosto ou o nome da moça. Vai ver nem era jovem! Para alguns, ali estará rompido o cordão que uniria sentimento e desejo: se consultasse seus sentimentos, ao invés da primeira transa, teria, certamente, uma crise patética de choro. Dramática, legítima, romântica. Seria muito mais fácil sabendo-se amado. Muito mais.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 09h12
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A moça da louça

De Rosana Hermann.

 

Durante onze meses por ano trabalhando na frente de um PC, o Personal Computer e, no mês restante, quando tiro férias, fico trinta dias ali, atrás da PC, a pia da cozinha. Preparo e sirvo o café, tiro a mesa e lavo a louça. Enquanto todos vão à praia eu preparo o almoço e vou também. Mas chego antes, para preparar e servir o almoço pra valer. Todos chegam e tomam banho, enquanto eu sirvo a mesa. Almoçamos e aí, tiro tudo, lavo e, bingo, acertou, vou preparar o lanche ou jantar. E a coisa toda se repete. A cozinha só fecha tarde da noite, quando toda mulher pendura o pano de louça na tampa do fogão. E aí, só na manhã seguinte, sem choro. A sorte é que a família é pequena, o casal e dois filhos. O azar é que todos foram devidamente mal-criados por suas respectivas mães. Para você ter uma idéia, só em 2006 meus filhos aprenderam a levar seus pratos sujos para a pia, mesmo ano em que meu marido aprendeu a empurrar a cadeira de volta para junto da mesa. Felizmente, tenho grandes planos até 2010, quando espero, todos já tenham aprendido a cortar seus bifes sozinhos.

 

Convenhamos, por mais que seja gostoso cozinhar e servir os seres amados, férias pra valer não é assim. Por isso, desde o ano passado, decidi contratar uma moça para lavar a louça. Lavar a louça, dar uma arrumada nos quartos, passar uma vassoura no chão. Mesmo sendo a rainha do lar, abri mão da exclusividade do avental todo sujo de ovo e passei a meiar meu reino com uma ajudante local.

 

A primeira moça que contratei só faltava voar na piaçava. E foi assim, voando, que demitia-a logo depois. Tinha todos os defeitos que uma mulher mais abomina em outra: era porca, preguiçosa e revoltada. A segunda, era a abusada travestida de vítima. Chegou combinando trinta reais por duas horas de trabalho diário, dizendo-se religiosa, subiu para quarenta no dia seguinte e para cinqüenta no terceiro dia. Tudo com efeito retroativo, claro. Agüentei uma semana. Mas quando ela pediu dois mil reais de adiantamento por todas as próximas vezes que eu viesse a solicitá-la durante o ano, mandei-a para o lugar quente que ela tanto teme, o meio do inferno.

 

Finalmente, depois de muito sofrimento, caiu um anjo do céu, a Verônica, a moça que lava a louça. Verônica é simpática, gentil, ordeira e, como dizem as nossas mães, muito ‘trabalhadeira’. Limpíssima, é do tipo que lava a louça, a pia, o fogão, a geladeira, o armário, o chão e depois ainda dá banho na vassoura e alveja o pano. Não sossega enquanto não vê todas as cadeiras com as pernas pro ar e o piso desobstruído pronto para a limpeza pesada. Com um sorriso branco e apaixonante, ela expulsa todo mundo de casa para limpar melhor. Pai, mãe, filho, filha, cadeiras, livros, todos são colocados pra fora junto com os cestinhos de lixo, esteiras e chinelos.

 

Nesses doze dias de praia, ela só faltou uma vez. Mas telefonou, avisou que não chegaria a tempo. Hoje, no último dia, paguei-a pelo seu serviço durante a temporada. Paguei em dinheiro, com gosto e agradecida. Pois este ano, meu bronzeado foi patrocinado por ela, a moça que lava a louça.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas todas as quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h53
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Caninos afiados

De Nelson Botter.

 

Desde que foi pela primeira vez na casa da namorada se encantou com a cadela da família. Chegava lá, bom dia, boa noite, e já ia logo brincar com a dita cuja, melhor dizendo, a Laika, nome comum e sem criatividade para uma cadela, entretanto, ele adorava repetir o nome da bichana o tempo todo, chegando a doer nos ouvidos de quem estava do lado.

 

Não demorou para a namorada começar a apresentar os primeiros sintomas de ciúmes. Mulher é bicho matreiro, milhões de anos-luz na frente de homens e cães. Primeiro reclamou com a mãe que o rapaz dava mais atenção para a puta da Laika do que a ela. Depois começou a ficar marrenta, fazer bico, greve de tudo, até que - finalmente - sempre que ele ia lá, prendia a cadela no quarto dos fundos. Passava a chave na porta com um sorriso diabólico, competição feminina é jogo duro, mas mesmo assim, o rapaz aproveitava o primeiro descuido da garota e corria soltar a cadelinha.

 

Até que um dia a namorada resolveu dar um basta naquela situação, o amor-próprio lhe gritava para fora do peito, havia de chegar junto no rapaz, menina, e tirar logo as devidas satisfações! Ele, por sua vez, negou a torto e direito a preferência pela companhia da cadela, que absurdo!, era apenas uma forma de tentar agradar aos pais da moça, que tanto gostavam de Laika. Após longa conversa, a menina se convenceu, o jovem namorado não mais perderia seu escasso tempo com a cadela e poderiam aproveitar com mais freqüência a nova cama Queen Size instalada em seu quarto cor-de-rosa.

 

Acontece que nem tudo corre conforme planejamos - ou prometemos - e não houve o que segurasse o rapaz no dia seguinte. Lá estava ele de novo a brincar com a danada da Laika. Eis que algo mudou. O namorado chegou no dia seguinte e se deparou com a terrível notícia: Laika havia fugido. Tragédia! Estava mais do que claro que a garota tinha dado um sumiço na cadela, mulher ciumenta é capaz de tudo para se dar bem, um terror. Nos dias seguintes o rapaz ficou cabisbaixo, um tanto triste, meio deprimido até. Ela o beijava, tirava sua roupa, o jogava na cama, lençóis vermelhos, fazia carícias e nada do garoto comparecer. Murchinho de tudo.

 

Durante uma semana a situação foi se arrastando e a garota se desesperando, não sabia mais o que fazer, situação dos diabos, ou ela ou eu, pensava. Mas como Deus é pai e sempre ilumina as cabecinhas nas horas mais difíceis, surgiu a grande idéia. Estavam no quarto, o rapaz olhando pela janela, suspiro profundo, quando a namorada o chamou. Virou-se e seus olhos começaram a ganhar um novo brilho. Mal podia acreditar, lá estava ela, na cama, latindo e abanando o rabinho. O rapaz não conteve a excitação. Olhava boquiaberto para a namorada completamente nua, de quatro, dizendo: "vem me comer, sou sua cachorrinha, vem". Nunca tiveram um sexo tão bom como aquele. E depois disso viveram felizes para sempre.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h05
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Estou pedindo: me pede o impossível

De Xico Sá.

 

Uma das maiores virtudes de uma fêmea é arte de pedir.

Como elas pedem gostoso.

Como elas são boas nisso.

Resistir, quem há de?

Um simples “posso pegar essa cadeira, moço?” vira um épico, como a cena que serviu de espoleta para esta crônica.

É o jeito de pedir, o ritmo safado da interrogação, a certeza de um “sim” estampado na covinha do sorriso.

Quantos segredos se escondem na covinha de uma mulher.

Pede que eu dou.

Pede todas as jóias da Tiffany´s, minha bonequinha de luxo!

Estou pedindo: pede!

Eu imploro, eu lhe peço todos os seus pedidos mais difíceis.

Pede a bolsa de cerejas da Louis Vuiton, pede o shopping inteiro, pede a Daslu.

Pede que eu compro nem que seja uma pirata no Promocenter ou no camelô.

Não me pede nada simples, faz favor.

Já que vai pedir, que peça alto. Você merece.

Como é lindo uma mulher pedindo o impossível, o que não está ao alcance, o que não está dentro das nossas posses.

Podemos não ter onde cair morto, mas damos um jeito, um truque, um cheque sem fundos.

Até aqueles pedidos silenciosos, quando amarra a fitinha do Senhor do Bonfim ou de Nossa Senhora do Carmo no braço, são lindamente barulhentos.

Homem que é homem vira o gênio da lâmpada diante de uma mulher que pede o impossível.

Ah, quero o batom vermelho dos teus pedidos mais obscenos.

Quero o gloss renovado de todas as vezes que me pede para fazer um pedido, assim, quase sussurrando no ouvido: “Amor, posso te pedir uma coisa? Posso mesmo?”

Um castelo na Inglaterra?

Sim, eu dou na hora.

Que o Íbis seja campeão este ano?

Sim, eu opero o milagre.

Como no pára-choque, o que você pede chorando que não faço sorrindo?!

Um papel de estrela no novo filme de Paulo Caldas (“Deserto Feliz”) ou Cláudio Assis (“Baixio das Bestas”)?

Deixa comigo que já tomo uma com eles e consigo.

Pede, benzinho, pede tudo.

Que eu largue a raparigagem, pare de beber e me regenere???

Pede, minha nega, que o amor tudo pode.

Que eu suba na pedreira Paulo Leminski e declame os mais lindos poemas de amor verdadeiro?

Só se for agora, estou indo.

Os melhores cremes da Lancôme? Vou a Paris agora, nem que seja a nado.

Eu lhe peço, me pede.

Não pede mimos baratos...

Pede ATENÇÃO!!!!!!!!, essa mercadoria tão cara nos dias que correm.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas e avisa, com um certo sensacionalismo barato, opa: seu ultimo livro, “Catecismo de Devoções, Intimidades et Pornografias” está quase esgotando. Corra, Lola, corra e ache os últimos aqui www.editoradobispo.com.br
Escrito por Blônicas às 13h25
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Últimas palavras

De Milly Lacombe.

A notícia correu a cidade inteira em questão de minutos. Segundos talvez, porque a cidade era bem pequena. A velha ia finalmente morrer. Estava lá na cama, moribunda, prestes a balbuciar as últimas palavras. E era atrás dessas palavras que, agora, disparavam todos. A sede por aquela derradeira prosa era tanta que ninguém lembrou de chamar o padre. Mas, vendo o santo homem aquela correria desembestada que rompia pela rua da Igreja, teve o bom senso de pegar o terço e a Bíblia e seguir o rebanho em busca de um pouco de trabalho. A velha era muito provavelmente a velha mais velha do mundo. Era nisso que todos acreditavam. Nunca casou, não tinha filhos, nunca deixou aquela casa, onde, dizem, havia nascido 103 invernos atrás. Passava dia e noite sentada na varanda, com uma xícara de café na mão, olhando os cidadãos daquele vilarejo pra lá e pra cá. Tinha momentos em que se dignava a responder, com leves movimentos de cabeça, as saudações que eram a ela dirigidas. Em outros, simplesmente ignorava e continuava olhando o horizonte – assim como ela, árido, seco e impiedoso. Viu, daquela varanda, gerações passarem. Viu casais serem formados e, com a mesma rapidez, destruídos. Viu amores se transformarem em ódio ou, pior, em indiferença. Viu corações dilacerados, crimes, tapas, beijos, furtos, estupros, afagos, traições, confabulações. Testemunhou, na calada da noite, único momento em que as almas se revelam por inteiro, as melhores e piores manifestações da condição humana – suas inclusive. Era esse seu alimento. Era essa sua sabedoria.

Na varanda de seu casebre não havia bravo que ousasse pisar. A não ser Demétrio, o mestre de obra, que, segundo se dizia, tinha um parentesco distante com a velha. E assim ele fazia pelo menos duas vezes por semana, com café, um saco de pão e algumas fatias de queijo. Entrava, ficava por uns 15 minutos, e saia. Demétrio, que também era de poucos amigos, e nunca havia se casado, tinha lá seus 70 anos. Foi ele quem espalhou pela cidade a lenda de que a velha falaria tudo o que sabe quando estivesse prestes a partir. Nem um minuto antes. Seria como um legado para aquela cidade, a suma de tudo o que viu e aprendeu em mais de um século de observação. Desde então, o momento da morte passou a ser aguardado como o grande acontecimento histórico daquela vila onde dia e noite pareciam se suceder com a mesma agitação provocada por uma folha seca que cai do galho de uma árvore numa quarta feira de abril.

E era atrás disso que todos agora disparavam: donas de casa, crianças, trabalhadores, adolescentes. Na porta da casa da velha, a multidão se apertava atrás de um bocadinho de audição. Lá dentro, apenas Demétrio, que prometeu anunciar as palavras em voz alta e em tempo real, conforme elas eram ditas. O padre finalmente chegou e, com a benção de Deus, foi entrando, temeroso porque era a primeira vez que pisava naquela casa. Mas na porta foi barrado por Demétrio, que disse que a velha não queria extrema-unção. Incrédulo, o representante de Deus tentou argumentar, mas foi interrompido por um gemido da velha, que disse apenas: "Saia, se não conto tudo o que sei a seu respeito". Diante da ameaça, o pobre padre rompeu dali sem sequer olhar para trás.

Era chegado o momento. A velha, já completamente sem forças, puxou Demétrio mais pra perto e babuciou as tão aguardadas palavras, um enorme legado para aquela pequena e esquecida cidade. E Demétrio foi repetindo, conforme havia prometido. Disse ele, voz firme, alta, carregada de emoção: "Há centenas de outras frutas além de laranjas e bananas, seus otários!". E, com isso, a velha se foi. Dizem, com um certo riso contido no canto da boca.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 16h29
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E-mail aberto do Ministro Gilberto Gil a Caetano Veloso

 

De Castelo

 

Meu leãozinho:

 

Magoe, não, meu bichim. Ói teu e-mail aí, viste? Respondi!

Se quiser venha comer um abará mais a gente aqui no ministério que repito a ti de viva-voz tudim. E em si-bemol sustenido.

O que, na verdade, eu proponho é fazermos juntos um ritual olodúnico-dessacralizante com o Leitão.

Chamamos Ferreira Gullar, Dona Canô, Gal, Bethânia, Daniela e o Carlito Marrom num terreiro. Ali pedimos ao Caboclo Cocada Branca pra baixar o Bispo Sardinha e comemos o Leitão simbolicamente. Melhor: oswaldianamente.

Como diria o Wally: uma festa cage-duchampiana com pitadas do uivo primodial de ginsberg.

Ou seria uma festa duchamp-ginsberguiana com pitadas do uivo primordial de cage?

Sei lá, porra. Poesia é excrescência, cada dia me convenço mais disso.

A idéia principal é estancarmos essa polêmica arretada, meu parabolicamarada.

O Gullar fica feliz e o Leitão fica no cargo.

E vamos cuidar de nossas propostas histórico-baianizantes. Tu escrevendo música pra trilha de filme em italiano, francês, servo-croata e querendo ser o João Gilberto. E eu tocando embolada em Paris para Kofi Annan.

Quer política cultural melhor que essa, meu rei?

A Bahia já nos deu régua e compasso e agora está dando euro.

Nós podemos retomar os ideais pagão-caymmicos, misturá-los com a poesia dos irmãos Campos e às letras do Peninha e fazer showmícios pelo mundo, agora com o apoio do Minc, do Bndes e das Casas Bahia.

Vamos nos pegar em público pra quê, meu Caê? Só se for pra retomar aquele nosso lance nos doces bárbaros. Mas, dessa vez, sem aquele trio elétrico enorme atrás da gente.

Tu sabes ao que estou me referindo. Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo. Mas cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também, serás meu parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar.
Agora, se não quiseres topar minha proposta de calçar as alpercatas da humildade e paz, tu já ouviu falar da pílula de alho? É uma pílula amarela. Cê toma uma daquela nem sabe o que é que sente, mas a dor-de-cotovelo já era.

 

Aquele abraço,

 

G.Gil

 

(Leia abaixo "Carta aberta de Caetano Veloso ao Ministro Gilberto Gil", de Edson Aran).

 

Castelo é www.castelorama.com.br

Escrito por Blônicas . às 10h55
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Carta aberta de Caetano Veloso ao Ministro Gilberto Gil

De Edson Aran

Minha preta divina e maravilhosa,

Tô muito magoado com tu. Com tu mais Leitão. Com tu mais Lula. Eu pensei que tu ia ser o coração tropicalista olodúnico desse governo petista. Mas não. Tu até foi no comecinho, quando financiou tradução da obra do grande Wally Salomão para o sânscrito e o aramaico. Pensei que depois vinha verba para antropólogos desconstruírem Djavan, fonoaudiólogos estudarem Gal, cubistas redesenharem Bethânia, sociólogos decifrarem Carla Perez, zoólogos estudarem axé music. Mas não. Tu largou o tropicalismo e se juntou ao petismo. Tu trocou a geléia geral pelo lamaçal geral. Entendo não, Preta. Populismo por populismo, o nosso era mais autêntico. Ilusionismo por ilusionismo, o nosso tinha mais swing. Embuste por embuste, o nosso era mais limpinho.

Minha única explicação, Preta, é saudade do Chacrinha. Tu devia estar nostálgico de se apresentar no Velho Guerreiro e aí, como o governo Lula é direitinho o programa do Chacrinha, tu aderiu. Só pode de ser isso.

Tô muito decepcionado com tu. Tu era meu chiclete e eu era tua banana. Tu era meu atabaque e eu era teu agogô. Tu era meu dodô e eu era teu osmar. Tu era minha cheila morena e eu era tua cheila loira. Mas não. Tu agora prefere é chafurdar com o Sá Leitão. Tu prefere ancinavar essa nação.

Não sei o motivo da briga tua com Ferreira Gullar. Só sei que tem dinheiro no meio e não me amarro a dinheiro não. Tudo que sei é que tu não escreve, tu não telefona, tu não manda flores. Tu não manda nem e-mail, descarado. Ordinário. Cafajeste. Aproveitador. Tá pensando o quê? Eu sou jovem ainda, acha que vou te esperar pra sempre?! Acha?!

Opa, desculpa, meu rei, me empolguei no debate cultural.

O que eu tenho a dizer pra tu é o seguinte: ou tu manda e-mail ainda hoje, ou tô de mal de tu e é pra sempre.

Bilim belém, nunca mais fica de bem.

Caetano Veloso

Edson Aran escreve aqui de vez em quando e pensa que é o Caetano Veloso. Visite seu site.

Escrito por Blônicas às 11h56
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O sábio e a besta quadrada

De Doutor Carneiro (espírito que Henrique Szklo recebe contra a vontade)

   Era uma vez, no reino distante da Escrotolúrdia, um homem muito sábio chamado Drywucz. Ele era tão extraordinariamente douto e erudito que sua fama percorreu o mundo e peregrinos de todas as partes vinham visitá-lo para sanar suas dúvidas mais profundas. Mas o povo era muito burro, sem noção. Só fazia pergunta idiota e sem importância.

   Até que um dia Drywucz se enfureceu, ficou de saco cheio mesmo com tanta estupidez e decidiu fazer um voto de silêncio, revelando que só falaria novamente se ouvisse uma pergunta realmente inteligente e relevante. A partir deste dia, milhares de pessoas foram visitá-lo e perderam a viagem. Suas perguntas eram tolas, idiotas, sem importância. O sábio coçava sua longa barba cor de jerimum e permanecia em seu silêncio atordoante. Até que um dia foi visitá-lo um rei de uma nação muito poderosa conhecido como Dôydjo, o celerado. Ele tinha uma dúvida atroz que o consumia. Era preciso que Drywucz lhe acendesse uma luz, lhe mostrasse o caminho. Mas Drywucz só abriria seus sábios e iluminados lábios se a pergunta do mané fosse inteligente e relevante.

   Dôydjo, o celerado, chegou com seu séquito à porta da casa do sábio e entrou sem bater na porta nem pedir licença. Perguntou a Drywucz uma vez e só obteve o silêncio como resposta. Perguntou uma segunda vez e o silêncio foi ainda maior. Perguntou uma terceira vez e o silêncio foi quase insuportável. Puxou sua espada e matou o barbudinho, pra ele deixar de ser mal-educado.

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas, mas estava com preguiça de fazer um texto novo. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa que começa nesta segunda-feira, dia 09 de janeiro.

Escrito por Blônicas às 11h12
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Abanar o rabo e dar a pata

De Leo Jaime.

Em suma, trocar sexo por amor é dar o que se pensa não ser amor em troca do que se pensa não ser sexo. E mais! Há nisso uma profunda, evidente e dilacerante dissociação. Alma e corpo, dentro desta perspectiva, são como dia e noite: se esbarram e parecem se fundir, por instantes, mas são uma eterna e delirante perseguição do cachorro em busca do próprio rabo.
Cazuza dizia: - “Amar é abanar o rabo e dar a pata”. Bem que, sem prejuízo algum, pode também ser o contrário. O amor desconhece o juízo e outras temporalidades. Para o amor, até o eterno é só mais um detalhe.
O homem brasileiro vive confundido em suas emoções e urgências. Ele ainda vive a ilusão de ter “conseguido” comer uma mulher sem compromisso; e vive isto como uma vitória. Orgulha-se do sexo vazio, como se isto pudesse ser suficiente, e se esquece de, como dizia Nelson Rodrigues, que é preciso alma até para chupar um chicabon.
A brasileira, mesmo a mais oferecida, ainda finge “consentir”, quando o desejo é evidente e até solitariamente seu.
Ela finge que dá só para ver se se ele acaba por amá-la; ele come fingindo que um abraço terno, um sorriso complacente ou ainda um profundo e desesperado gemido d’alma não superam a delícia da novidade.  Os dois se iludem e não percebem o amor correndo ao lado, como um riacho manso, enquanto suas almas e corpos permanecem sedentos.
Assim vamos em nosso permanente desencontro: o homem se casa e pensa que ela não vai mudar e ela muda; a mulher casa pensando que assim vai conseguir mudá-lo e ele não muda. Oscar Wilde dizia que homens casam por cansaço e mulheres por curiosidade e os dois se arrependem. Esta é uma questão universal.
Casados invejam solteiros que, por sua vez, vivem sonhando e planejando o casamento. Crêem que o casamento seria como uma espécie de promoção, como se fosse o podium amoroso, e lá na frente ficam a se perguntar: “ Mas é só isso?”
Ser casado ou solteiro é uma questão não de qualidade, mas de estilo de vida. É como morar em apartamento ou casa. No meu entender casamento é como morar em casa: muito espaço, aconchego e e muita mão de obra. A vida de solteiro é como num apartamento: querendo viajar é só trancar a porta e se mandar, embora seja mais devassado, mais apertado e mais barato. Mas já estou divagando. Onde é que estava mesmo? Ah, lembrei, falta concluir.
Sendo as coisas assim tão opostas e contraditórias, pode-se perfeitamente dizer que o homem brasileiro é escancaradamente romântico, enquanto a brasileira é obsessivamente, do amanhecer até os estertores da madrugada, atormentada pelos escaldantes apelos da carne. E os dois, é óbvio, findam por ser completamente ignorantes em relação à própria natureza.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 14h05
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Egocêntrico

De Rosana Hermann.

 

Não era um cara egoísta. Ao contrário, fazia caridade com freqüência. O problema é que até quando comprava um sanduíche para um garoto faminto estava, na verdade, alimentando seu ego insaciável. Passaria o dia todo, talvez a semana, contando a todos sobre seu gesto generoso e desprendido. Ao auto elogiar-se, não raramente, era levado às lágrimas pela emoção.

 

Passava o dia todo pensando em si, em seus problemas, em seu corpo, em suas refeições, em sua agenda, em seus desejos. Não aceitava ser desobedecido, desrespeitado, rejeitado ou contrariado. E, por ter-se na mais alta conta, ofendia-se com facilidade e levava tudo para o plano pessoal. Até no trânsito, o mais coletivo dos eventos urbanos, via cada motorista a sua frente como uma afronta pessoal e reagia à altura, aos berros e buzinadas. Depois de cada ultrapassagem ainda ruminava a ira gerada pela petulância do motorista que ousou ficar a sua frente.

 

A hora mais pitoresca de observar o egocêntrico era durante o noticiário da TV. Para cada notícia ele buscava uma relação consigo. Se uma cidade era atingida por uma catástrofe, buscava a região mais próxima onde já estivera para dizer que quase esteve lá. E se não tivesse estado nem no continente em questão, diria que chegou a pensar em viajar exatamente para lá em um determinado período de férias. Se a notícia era sobre um político comentava que se já havia ou não votado em seu partido. Se um latrocínio, relembrava qualquer evento de perigo similar que já tivesse vivido. Tudo e todos tinham alguma relação com ele ou com alguém das relações dele. Na pior das hipóteses conhecia alguém muito parecido com aquele senhor da tv. Nos esportes, claro, a brincadeira era projetar-se no lugar do técnico, diretor, presidente do clube, para dizer que teria feito melhor. Tudo era de, para, sobre, ele, o centro do universo.

 

Um dia uma mulher apaixonou-se por ele. E imediatamente, apaixonou-se pela paixão que ela sentia por ele. Viviam conversando sobre ele, suas idéias, suas conquistas, seus projetos e sonhos. Quando olhava para os olhos dela, sua alma se iluminava ao ver a própria imagem refletiva. E assim, a paixão pelo amor que ela tinha pro ele, crescia. A relação foi ficando cada vez mais forte, porque tinha um elo indissolúvel em comum: eram apaixonados pela mesma pessoa: ele.

 

Os anos passaram, eles construíram uma vida. Até o dia em que ela, velhinha e cansada de servi-lo, dormiu e não mais acordou. O egocêntrico ficou revoltado com aquela falta de consideração da parte dela. Como ela ousava morrer e abandona-lo? Quem iria servir-lhe as refeições, cuidar de suas roupas, ouvir suas queixas contra o mundo injusto que não reconhecia sua superioridade? Ficou tão contrariado que pensou em não ir ao enterro da mulher. Mas foi.

 

Sisudo, de cara amarrada, mais revoltado do que triste, ficou ali, parado, mudo, enquanto o ritual seguia junto a amigos e parentes da falecida. Foi quando ouviu a conversa de um casal ao lado que chamou sua atenção. Ele elogiava a tenacidade da falecida em enfrentar a vida mesmo sendo muda. Muda e surda, emendou a moça, mas muito inteligente e sensível. Atônito, ele percebeu que, de fato, havia um grupo de surdos-mudos chorando ali perto, conversando com a linguagem de sinais. Ficou chocado. Surda-muda? E como ela nunca lhe disse nada? Revoltado, saiu pisando firme do cemitério, disposto a nunca mais se relacionar com nenhuma mulher. Minutos depois, tomaria a decisão definitiva de sua vida, a de viver totalmente só, pois no fundo, tinha a certeza  que ninguém, mas ninguém neste mundo mereceria ter a seu lado, um homem tão maravilhoso como ele. E ao pensar isso, sorriu.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 16h38
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Água na cara, babaca

De Paulo Castro (em retiro físico-espiritual, férias terapêuticas).

 

Ao redor da piscina de água sulfurosa estavam o oncologista, o arquiteto, o psicanalista, o advogado, o escritor e o barman: rapaz simpático, pobre, mas de unhas limpas( o escritor lembrou de seus tempos de criança, ficou excitado.). As mãos em concha colhiam goles abundantes, que escorriam pelos cantos daquelas bocas falantes, quando o assunto se tornava ainda mais interessante - eu guardava a distância permitida aos ex-fumantes, pelo cartaz de uma enfermeira com o indicador entre os lábios, semi-abertos por um cigarro em brasa, taradinha. Que me processem. Enfermeiras adoram processar as insinuações sexuais. As pedras que imitavam o som de uma cobra no interior do meu copo de rum eram da mais pura água magnesiana, conforme indicado no cardápio medicamente estabelecido e adequado para meu caso: "O magnésio está plenamente indicado, desde Galeno, para os casos de degenerescência física, moral e religiosa". Foi o que o barman sublinhara com seu dedo de unhas limpas ao me servir a dose, antes de se unir com o oncologista, o arquiteto, o psicanalista, o advogado e o escritor:
- A sociedade civil cresce como um tumor, espalhando metásteses de opiniões leigas por todos os cantos.
- Erza Pound escreveu os "Cantos" e depois foi mantido em uma jaula para macacos...
- A cidade cresce verticalmente, como uma ereção maravilhosamente sádica...
- Do ponto de vista mental, o crime é uma imposição dos instintos mais naturais do ser humano...bem como a homossexualidade e a sodomia.
- O ser humano cresce como um tumor preso em uma jaula de macacos verticalizados, porém ainda naturais, como esse belo rapaz que nos traz a alegria de sua existência fugaz...
- Sou apenas um barman, mas entendo perfeitamente que a luta de classes é uma coisa do passado e com um bom tanto de contra-indicações para a saúde...
- Alguém poderia coçar minhas costas?
- Que contribuição...
- Social...
- Mental...
- Estética...
- Justa...
- Artística...
- Aquele sujeito embriagado, perto da sauna, tem a nos oferecer?
- Ele é um paciente, como os senhores.
- Rapaz, você, antes de nos trazer as fritas, coce minhas costas, bem forte, com energia e saúde, vamos lá!
- E eu quero um cafuné.
- E na volta, convide o outro paciente, contanto que ele pare de acender um baseado após o outro.
- São cigarros ecológicos, bronco-dilatadores.
- Que ótimo! Fritas e um maço desses cigarros, e, se possível, alguma cocaína politicamente correta, cada carreira cheirada salvará um animal em extinção. Isso me fará tão bem quanto um cafuné erótico, meu belo jovem de belos gregos pés.
Quando o garçom pré-púbere passou por mim, eu esticado na cadeira reclinável de irritação e preguiça, ele com a roupa impecável e os bonitos joanetes-pés-descalços   recendendo a charuto de preto-véio, tomo coragem e me jogo na água, salto bomba; do fundo do universo piscina, ouço reclamações, onomatopéias, mas eles não retiram suas canelas varicosas do meu mundo subaquático. Estarão na mira do inominável degenerescente.

 

Paulo Castro é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h26
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Como eliminar um amante

De Xico Sá.

 

O leitor aflito me escreve. Quer ajuda, conselhos, alguma filosofia de consolação, ombro, ouvidos... Qualquer adjutório serve. Uma alma penada. Ainda mais no apagar das luzes do ano velho, quando a vida veste os seus bicos e babados mais bregas e sentimentalóides.

Havia aposentado a Miss Corações Solitários que acode as vítimas dos infortúnios e tsunamis do amor. Diante do apelo do amigo, não há como deixá-lo a mascar o jiló do abandono neste “já vai tarde” de 2005.

Está desconsolado, como o Sizenando de Rubem Braga, que viu a amada cair nos braços de um playboy. Um idiota que não sabia sequer uma palavra de esperanto.

A vida é triste, Sizenando, como soprou-lhe o cronista.

Com Amaro, chamemos assim o nosso ensaio de Bentinho, não foi diferente.

Quis o destino parafusar-lhe objetos pontiagudos à testa.

Sim, ela tem um amante. Daqueles amantes que se encontram à tarde, num intervalo qualquer, no recreio da vida chata.

Nem foi preciso contratar o detive particular, conta-me o nosso Amaro. Ele mesmo fez as vezes de cão farejador de sua própria desgraça.

Que fazer?, indaga, num email no qual até a arroba bóia em poças de lágrimas.

Mato o desgraçado?

Tiro a vida da desalmada?

Vou-me embora pra Tegucigalpa?

Salto mortal da ponte Buarque de Macedo?

Um trágico, esse rapaz. Como os de antigamente. Amaro é do tempo em que os homens coravam. Ainda tenho vergonha na cara, envaidece-se o próprio.

Sossega, Amaro.

O melhor que fazes, respondi ao marido em fúria, é sumir por uns dias, inventar uma viagem, e dar todo tempo do mundo ao infeliz desse amante.

Banalizar o amante, meu caro e bom Amaro.

Entendeste?

Deixar que eles durmam e acordem juntos. Que tenham seus problemas, que percam o luxo dos encontros fortuitos e vespertinos.

É necessário deixar a Bovary sentir o bafo matinal da rotina.

A vida dos amantes dura porque eles só vivem as surpresas e valorizam cada minuto do relógio que põem sobre a cabeceira daquele motel barato.

Nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. A rotina é o cavalo de tróia do amor.

Amaro, nada de violência ou besteiras desse naipe.

Ao amante, todas as chances do mundo. Ao amante aquela D.R., a famosa discussão de relação, em plena TPM.

Um amante nunca sabe o que venha ser uma mulher sob o domínio da TPM. Ela faz questão de reservar todos os direitos desse ciclo ao pobre marido.

Ao amante, Amaro, a tapioca fria e sem recheio da rotina do calendário.

Ao amante, Amaro, a falta de assunto.

Ao amante, os cabelos revoltos da mulher, naqueles dias em que nem mesmo ela se agüenta ou encara o espelho. Naqueles dias em que os cabelos brigam com as leis do cosmo e não há pente ou diabo que dê jeito.

Some, Amaro, depois me conta.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas. Essa crônica foi publicada neste sábado no Diário de Pernambuco e o Estado do Paraná. Distribuição da agência  BrPress/SP - www.brpress.net

Escrito por Blônicas às 15h31
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