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Seu Porra

De Lusa SIlvestre

Há quatro tipos de uso do palavrão: a) para intensificar um fato, b) para adjetivar, c) para localizar e d) os palavrões vocativos. Como intensificador, um bom exemplo é o "cacete". Fulano joga bola pra cacete (ou caceta, também muito aceito). O palavrão adjetivador é mais comum: fulano é um merda - no sentido de ser um pária, um filha da puta. O localizador é fácil: vai pra puta que pariu, imaginando-se que então a puta que pariu é longe como Xangri-lá. E, finalmente, o vocativo, o chamamento, o alcunhador: Seu Bosta. "Ô seu bosta, me passa o sal". "Ô seu bosta, vem ver a merda (adjetivador) que você fez" e por aí vai. Até aí tudo bem. Mas veja a graça da coisa: sabendo a dinâmica correta do palavrão, ele adquire independência, possibilitando outros significados. Pegue por exemplo o "caralho" - hipoteticamente falando. Caralho pode intensificar uma ação (fulano joga pra caralho), pode adjetivar ou qualificar algo (fulano é do caralho) e pode ser um palavrão localizador (ex: casa do caralho, ou - menos comum - vai pro caralho). Pode até ser um vocativo: Ô seu caralho ! Embora seja menos comum, não podemos desprezar a eloquência de um "seu caralho" na hora do apuro.

Outro grande segredo do uso da linguagem de beira de cais é a junção de vários palavrões formando expressões complexas. Acontece muito em campos de futebol, verdadeiros laboratórios de pesquisa da linguagem. Ali o xingamento ganha vida; a criatividade supera a correção gramatical. Misturam-se palavrões localizadores com vocativos. Exemplo: "Ô seu juiz bicha do caralho". Um uso diferente do léxico. No calor do jogo é comum até  misturar os quatro tipos de palavrão na mesma frase, com evidentes ganhos na ofensividade: "Ô juiz escroto da peida, vai foder com o bandeira, filho da puta". Nesta frase, são tantas as ofensas que chega até a ser difícil saber exatamente quem faz o papel de quem. Tudo bem, avilta-se o português, mas permanece a graça do xingamento. Note inclusive o uso livre da palavra "peida", uma corruptela de "peido", aqui usado como intensificador ou localizador - sabe-se lá.

Porém, há que se tomar cuidado para não exagerar no uso liberal dos palavrões. Quando se busca demais a criatividade, surge o perigo de se
perder o caráter ofensivo das palavras. Um bom exemplo eu ouvi no trânsito. Uma mulher tentava entrar à direita, e - não conseguindo - chamou o outro motorista de "Seu porra !". Porra é somente uma expressão genérica, usada para alívio das raivas ou generalizador de objetos (ex:"quanto custa esta porra?"). Quando usada como vocativo - seu porra - ela perde impacto justamente porque o palavrão em si não é agressivo. Só podemos usar palavrões com liberdade quando o palavrão possui força. Ainda mais no trânsito.

Enfim, palavrão é uma instituição; mantém a evolução do português. Além disso, o seu uso garante a saudabilidade das pessoas. É a melhor maneira de extravasar as raivas do cotidiano; limpa as veias e previne o enfarte. Só ter cuidado. Sabendo usar, não vai faltar.

O porra do Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas.. às 00h47
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Leve a sua cachorrinha pra passear

De Tati Bernardi

Esqueça o seu cérebro numa gaveta cheia, e de saco cheio, e o seu coração num canto aconchegante de uma estante onde bata sol, pra tirar o mofo. Dê um beijinho neles antes, igual você fazia com o pão na hora do recreio, e os descanse um pouco. Descanse um pouco deles também.

Deixe a merda do seu celular no fundo falso da sua bolsa, aquela parte rasgada que engole pra sempre tudo o que você não precisa como, por exemplo, uma moeda de cinco centavos. Afinal, a essa altura do campeonato, uma ligação dele seria uma esmola e quem dá a alma, como você, não precisa de esmola.

Num ataque de fúria, enquanto a nova música do Franz Ferdinand berra "I'm gonna make somebody love me", arranque toda a sua conexão com a internet. Ele que enfie todos os e-mails no meio do rabo, os amigos dele que enfiem todos os e-mails no meio do rabo e o resto do mundo, que é tão sem magia quanto ele e os amigos dele, que enfie qualquer tipo de contato no meio do rabo.

Você não precisa da merda do celular, da merda da internet, da merda do telefone, da merda das pessoas. Você não precisa, por enquanto, das marteladas freudianas do seu cérebro querendo racionalizar tudo: por quê? Por que, se a gente se amava tanto, ele pegou uma puta na beira da estrada e cagou para a sua tristeza? Esqueça, seu cérebro está numa gaveta com contas a pagar, comprovantes de pagamento e todas as fotos que imortalizaram momentos que um dia pagaram para ver.

Você não precisa do seu coração pulando baixo, manco e atravessado, você não precisa ficar pingando no mundo o seu inconformismo, você não precisa mais ter medo de viver sem amor e mais ainda de viver com amor. Chega, pra estante, seu gordo cansado, assustado, doente e surrado, durma um pouco e me deixe sair sem hora para voltar.

Enquanto isso, sua cachorrinha está lá, esquecida, querendo tanto dar uma arejada, um passeio, ver gente nova, identificar novos mijos, latir para novos cheiros, correr atrás de pauzinhos.

Compre lacinhos coloridos, apare as franjas, passe perfume, jogue fora a coleira. Sem olhar para trás, bata a porta de casa. Sim, você está livre neste momento, ninguém para pensar e repensar todos os prós e contras, ninguém para querer se sentir acolhido e estragar tudo. Ninguém para franzir a sua testa de incertezas e nem comprimir o seu peito de covardias.

Você está vazia, sim, mas quer saber? Como é bom estar vazia. Como é bom não esperar nada e nada poder te magoar, como é bom não sentir nada, e nada te fazer sentir demais. Só você e ela, você e o animal.

O farejado da noite mora num verdadeiro "abatedor" de mulheres. Mas você nem percebe isso, afinal, quem não tem cérebro não percebe nada. Ele coloca Nina Simone, sua música predileta, sim, mas nada de emoção, você deixou o coração em casa, lembra?

A única coisa que você percebe é que a cachorrinha gostou, e muito, do desconhecido ter trabalhado até tarde e não ter tido tempo de tomar banho, ela gostou do jeito com que ele confundiu as espécies e disse, de olhos fechados: "gata, você é linda". Gostou que "transar" parecia "traçar" por causa da dificuldade dele em pronunciar o "z" e, sobretudo, gostou de não ter gostado dele.

De volta pra casa, minha gaveta estava estourada, papéis para todos os lados, fotos espalhadas, meu cérebro não tinha agüentado e explodiu. Assim que vi as fotos, meu coração pulou da estante e se suicidou.

Eu morri pela sua falta, sua traição, sua existência. Eu morri pelo excesso de te querer tanto e morri pela perdição de me esquartejar inteira para dividir a dor. Eu morri de nojo do novo mundo que quer me engolir e não respeita você, eu morri pela sua falta de respeito. Eu morri porque começar de novo é morrer.

Ela dormiu feliz e sorridente, coberta por sua própria natureza. Alguém tem que se divertir nesta vida de cão.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas.. às 12h09
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Endorfina, meu amor

De Êsquilo (Henrique Szklo volta (?) depois do carnaval)

Minha profunda e torpe depressão
Precisa ser aniquilada
Mas com remédio não quero não
Uma droga não vale é nada
Vou atrás é de uma paixão
Alguém estimulante, liberada
Quero acelerar meu coração
Oh, Endorfina, minha amada!

Pra te ter dentro de mim eu corro
Feito uma besta quadrada
Mas sem você eu quase morro
Oh, Endorfina, minha amada!

Se fico triste, amargurado
Vou logo fazer um tour
Ando muito, fico todo suado
Oh, Endorfina, mon amour!

Sem você sou capaz de me matar
A vida sem você não faz sentido
Você é água, fogo, terra e ar
A sua ausência me deixa deprimido
Sua energia me comove
Então, venha logo, Endorfina, my love!

Quero senti-la em todo meu corpo
Quero ser inundado por você
Quero ficar de pé, no topo
Feito um cabelo cheio de laquê
Sem você não sou nada, não me deixa
Seja bem-vinda, Endorfina, minha gueixa!

Tu és a minha vida
Tu és o meu vício
Mesmo eu detestando a corrida
Mesmo eu abominando o exercício
Mesmo doendo tirar a bunda da cadeira
Oh, Endorfina, tu és minha paixão verdadeira

Endorfina venha logo
Se encontrar com seu amor
Em seu prazer eu me afogo
Fico num certo torpor
Quero você sem camisinha
Nossos corpos em ardente fusão
A escolha não é sua, é minha
Oh, Endorfina, meu grande tesão!

Eu sou aquele que te adora
Eu sou aquele que te venera
Eu sou aquele que te implora
Eu sou aquele que te espera
Quero você dentro de mim, toda hora
Oh, Endorfina, minha quimera!

Oh, Endorfina
Endorfina, meu amor
Com você minha tristeza termina
Com você se extingue o horror
Mas talvez seja minha sina
Estar sempre assim, de mau-humor
Não quero ser um suicida
Oh, Endorfina, minha vida

Mas nem tudo na vida é amor
Você tem uma concorrente forte
Eu luto contra ela, com ardor
Mas ela sempre vence, que sorte
Se sinto que preciso de outra dose urgente
Quando seu efeito, Endorfina, acaba
Apesar de achar você ótima, excelente
Vence sua rival, a preguiça braba.

Oh, Endorfina, minha doce amada
Vou entrar na academia
Vou dar uma marombada
Pra te encontrar tudo que é dia
E poder dizer-lhe sempre assim:
I’ve got you under my skin

Oh, Endorfina, minha vida!
Eu corro pra te encontrar
Mas você não faz nada, só espera
Não dava pra fazer alguma coisa, me ajudar?
Não, fica aí, como uma rainha megera
Mas tudo bem, eu agüento
Me esforçar feito um jumento
Só por uns minutos de alegria
Me sinto um palhaço, um Arrelia
Você é uma folgada, hein, beleza?
Hein, Endorfina, minha triste princesa?

Não consigo evitar, porém
De me irritar de vez em quando
Queria ter um grande harém
De endorfinas me esperando
Mas esse seu jeito difícil de ser
Deixa minha vontade nula, sem eficácia
Como ter você sem me mexer
Não dava pra ser vendida na farmácia?

Oh, Endorfina, Endorfina
Endorfina, meu grande amor
Desisto de você, sua cretina
Me dá um Prozac, por favor.

Leia outros poemas de Êsquilo

 Êsquilo, o poeta grego que é uma tragédia foi traduzido por Henrique, que aparentemente escreve no Blônicas todas as sextas. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas.. às 14h36
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Eu não fui ao show do U2

De Leo Jaime.

Não fui ao show dos Stones também. Soube que tanto um quanto o outro foram excelentes e, embora seja do ramo, perdi ambos. Pra dizer a verdade nem cheguei a os cogitar. Alguns amigos vieram de longe ver os irlandeses aqui em São Paulo e outros amigos foram ao Rio ver os ingleses. Até batalharam para fazer parte da lista dos quatro mil vips. Pois é, nunca fui sondado para uma destas listas também, o que, de certa forma me obrigaria a pensar no assunto.

Recordo-me de uma circunstância em que isso foi motivo de reflexão: quando houve um show da Madonna no Rio. Nesta época eu gostava de assistir aos grandes shows, achava importante ver o circo passar, e sabia que a cantora fazia um dos espetáculos mais comentados do planeta. O fato é que fiquei na casa de um amigo ouvindo discos e conversando, em companhia de Renato Russo, esperando dois amigos que tinham ido ao show chegarem pra contar como tinha sido. Renato e eu não fazíamos parte da lista de 1500 vips do show, e naquela época isso foi, a um só tempo, chateação e consolo.

Nunca fui de ficar bajulando promoter pra ganhar convites e na época achava, perdoe a arrogância,  que devia fazer parte de uma lista de 1500 convidados para aquele show. Como o Renato também não fazia, percebi que tínhamos em comum o hábito de não irmos em badalações e por isso não nos enviavam convites. Ou não nos julgavam mesmo importantes. Ou não me julgavam importante e a ele não convidavam porque ele não costumava ir, sei lá. Sei que, a propósito do evento, conclui que eu era um Not Important Person, ou seja, um NIP,  o contrário de um VIP, Very Important Person, um outro nome para  arroz-de-festa.

Um dia, numa pelada do grandioso Polytheama, contando a piada para o Chico Buarque, ganhei o título definitivo, dado pelo próprio: VUP, Very Unimportant Person. Nem VIP, nem NIP, mas VUP. Oras, VUPs não freqüentam eventos deste porte. Nem, como no caso do show dos Stones, quando a lista de convidados tem o alcance de 4 mil. Ser VUP é uma distinção muito incomum.

Brincadeiras e ironia à parte, não sou mesmo chegado a festas deste porte. Algo me diz que o som vai ser baixo, o palco vai estar longe, o artista vai ficar pequenininho para meus olhos pouco potentes e como eu não gosto de estados alterados de consciência, traduzindo, como não vou estar chapado, não sei se vai ser essa coca-cola toda. Não sei se gostaria de ficar no meio da muvuca, na beira do palco, 4 horas antes do show começar, em pé. Não tenho mais idade, sei lá. Acho que nunca tive idade. Já nasci com mais de 30.

Tenho que confessar, porém, que fico muito entusiasmado com a vontade que eu vejo nos olhos dos outros. Com a felicidade que ir a um show pode promover nos corações. Lembro de estar no Maracanã ouvindo I saw her standing there com Paul McCartney e ter uma epifania e sei o que as pessoas devem ter sentido no Morumbi. Gosto disso. Fico muito feliz em ver a multidão em êxtase. E, de alguma forma, lamento não gostar mais de ser multidão.

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 09h37
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A filha do lago

De Rosana Hermann.

 

A culpa é a diferença entre o que você sente e o que você deveria sentir. Ou o que o mundo acha que você deveria. É um sentimento disseminado, doloroso, arrasador, que transcende o mundo da razão e devasta a organização interior de todo o seu ser. Estou me sentindo horrível, neste instante, nesta linha; nesta crônica de quarta-feira sou eu a carne dilacerada na feijoada completa.

 

Não sou a Suzane envolvida no assassinato dos pais, não sou os irmãos Cravinhos que executaram o crime, nem a mãe da Pampulha que jogou o bebê nas águas. Sou a filha do lago. A filha que nunca teve uma relação boa com a própria mãe, que saiu de casa antes de ser adulta, que criou-se como uma erva daninha. Sou a frustração do sonho jamais alcançado por minha mãe de dar um filho homem a meu pai. Quando nasci, a decepção de ter mais uma menina traduziu-se na má notícia: ‘é outra’. Sou a figurinha repetida. Sou a outra. Até hoje choro quando vejo uma velha foto entre minhas primas e minha irmã, numa festa junina: todas de vestidos de chita, lindas e eu, uma menininha de poucos anos fantasiada de homenzinho. A foto simbólica de tantas atitudes reais.

 

Sei que minha mãe também teve suas dificuldades e se não faz melhor é porque não pode. Minha mãe nunca foi uma Medeia consciente, nunca quis meu mal, nunca fez mal a mim de forma intencional. Mas há tantas formas de matar alguém que só os que morrem é que sabem. A menina, a mocinha, a mulher em mim, passaram a vida sob risco de vida. Só as palavras e os olhares podem matar sem deixar provas.

 

Tenho problemas até hoje com minha feminilidade. Desde que me entendo por gente, ouvi de minha mãe a mesma maldição: “nenhum homem vai te querer”. No dia mais feliz da minha vida, quando soube que estava grávida e seria mãe, ouvi dela a sentença: “coitada desta criança”. Ela não sabia, mas ao me tornar mãe dei à luz a prova definitiva de que eu era mesmo uma mulher. E tinha um menino.

 

Tenho dores infantis, tenho medos patológicos. Tenho quase cinqüenta anos e não consigo ficar sozinha com minha mãe. O desconforto me deixa sem ar, um cordão umbilical me sufoca.

 

Não espero que ninguém me entenda. O fardo é meu, o karma é meu. Para todas as pessoa uma filha tem obrigação para com a mãe e pronto. E não vou faltar com minha obrigação, como não faltei até aqui. A de prover, a de resolver, a de cuidar. Mas só se pode dar o que se tem. Vou fazer o que tem que ser feito, vou assumir o cargo de provedora de tudo. Hoje, sei, como talvez muitos homens e mulheres também já tenham descoberto na vida, há muitas maneiras de se jogar uma filha para morrer, às vezes num lago, às vezes, na vida. Mas a vida, que só quer viver, sempre nos resgata. Aqui estou eu, afogada em minhas águas, lutando para sair do meu saco de lixo.

 

Me fez lembrar de um velho poema tolo que escrevi, mais ou menos assim:

Quem chove?  Quem chora? Pra onde vai a mágoa, depois que a água, evapora?

 

Rosana Hermann escreve aqui às quartas, sempre uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h14
[]


Não me leve a mal, hoje é carnaval

De Nelson Botter.

Abel vinha desolado pela rua, cabisbaixo, e nem se deu conta dos batuques do bloco carnavalesco na rua que cruzava o quarteirão. Aquilo só o perturbaria mais. Como Renata pôde fazer isso comigo?

De repente, um carro em alta velocidade passou próximo ao distraído rapaz, que assustou-se e perdeu o equilíbrio numa dolorosa torção de tornozelo. Caiu no jardim de uma das casas da rua. Com a grama recém-regada e adubada, Abel sujou toda sua roupa, ganhando um aroma nada agradável. Sentia também a dor dos espinhos das rosas cravados em sua mão direita na queda.

- Está tudo bem, garoto? - perguntou uma senhora idosa que apareceu na janela da casa.
- O que a senhora acha? - respondeu irritado. - Além de tomar um cano da namorada, ainda gasto meu dinheiro com flores para ninguém, torço meu pé e caio aqui no seu jardim. Fico todo sujo e cheirando à bosta. Pra piorar tudo, eu ainda odeio carnaval e pra onde vou tem algum bobo fantasiado pulando feito um idiota. Tirando isso, tá tudo bem!
A senhora sorriu simpaticamente, como se entendesse a revolta do rapaz.
- Pense que poderia ser pior - ela falou.
- Pior? Duvido muito. O que poderia ser pior que isso?
Novamente o olhar sereno e o rosto angelical da miúda senhora permaneciam intactos. Ela aparentava ter, pelo menos, uns 70 anos.
- Você quer entrar para se limpar, mocinho?

Abel relutou um pouco, mas aceitou o convite, afinal, ele não conseguia suportar aquele cheiro forte de esterco.
Entrou na casa e reparou que tudo ali parecia um museu. Vários quadros enfeitavam as paredes velhas e manchadas. Alguns bibelôs completavam a estranha decoração da sala, e o detalhe era uma grande e bizarra coleção de latas de cerveja.

- Tire a camisa e me dê aqui - disse gentilmente a senhora.
Abel não respondeu nada, apenas tirou a camisa e a entregou para ela, que dirigiu-se ao quintal. Ele ficou na sala, sentado, aguardando.
- Tome, beba essa água com açúcar. Ajuda a acalmar - ela sorriu, trazendo um copo cheio d'água.
- Obrigado. Muita bondade sua - e bebeu o líquido.
- Que nada, gosto de ajudar. Sabe, na minha idade tudo que precisamos é ser úteis.
- Entendo. Por acaso a senhora mora sozinha?
- Há mais de vinte anos.
- Nossa, e a senhora permite que um desconhecido como eu entre assim fácil na sua casa? É muito perigoso, dona...
- Angela. Desculpe, esquecemos as formalidades.
- Sou Abel, muito prazer, Dona Angela. Mas, então, com a violência maluca do mundo, uma senhora de idade sozinha deve tomar muito cuidado! Não pode deixar qualquer estranho ir entrando na sua casa.
- Ah, mas no momento que o vi, pude ver o seu bom coração.
- Tudo bem, Dona Angela. Mas já pensou se eu não fosse o que aparento ser? Se eu... eu...
- O que foi, Abel?
- Uma tontura... nossa, de repente tudo começou a girar...
- Calma, já vai passar - ela falou com uma voz doce e suave, típica das vovós.
- Não estou bem... muito tonto... tonto... - o copo vazio caiu de sua mão.

Abel olhou mais fixamente para Dona Angela, apesar de toda a vertigem, e viu com dificuldade quando ela foi até a cozinha e voltou empunhando uma enorme faca de açougueiro. Ela foi em sua direção, mantendo o ar pacífico. Nem mais diabólica, nem menos angelical, apenas pacífica.
- Lá fora você me perguntou o que poderia ser pior... - disse ela, se aproximando com o facão preparado.

A última coisa que Abel viu foi o facão rasgando sua pele na altura da barriga. Nem dor sentiu. Tudo girava, enquanto o sangue jorrava longe, dando novas cores à decoração da casa. Foi um carnaval.

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 12h59
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Cão de guarda do sono da amada

De Xico Sá.

“Amar, além de muitas outras coisas, quer dizer deleitar-se na contemplação e na observação da pessoa amada”, sopra o velho escritor Alberto Moravia,  sempre aqui na cabeceira.
Uma das melhores coisas da vida é observar a pessoa amada que dorme,entregue, para além dos pesadelos diários.
Como bem disse Antônio Maria, o grande cronista que aparece com ciúmes até da própria sombra no livro da Danuza , um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.
Experimente você também, sensível leitora, vê o seu homem quando dorme. Há uma beleza nessa vigília que os tempos corridos de hoje não percebem.
Amar é... vê-lo(a) dormindo.
Cada mexidinha, cada gesto. O que sonha nesse exato momento? Tomara que seja comigo, você pensa, pois o amor também é egoísmo.
Gaste pelo menos meia hora por semana nesse privilegiado observatório.
Psiuuuuu!
Ela dorme.
Mãozinha no ar, como se apanhasse pássaros, que coisa mais linda. Uns 23 minutos assim, mirei no rádio-relógio. A mão desce ao colchão, quase dormente, formigamentos. Coça o nariz. Põe a mãozinha direita entre as coxas. Agora vira de lado, como os antigos LPs quando gastavam as seis músicas do A. E me abraça como nunca fosse partir, corpos viciados, almas em busca de um acerto.
Dorme, meu anjo.
Ela obedece.
Vigio o sono dela como um soldado zapatista.
Como um cão zela o sangue do dono.
Como se fosse um homem-exército e pronto.
Amar, no início era o verbo intransitivo da alemã professora de amor de Mario de Andrade. O idílio tem sobrevida, não como gênero, mas como vício, vício de amar. Amar de muito.
A mão desce agora sobre o meu peito, como se medisse meus batimentos.
A mão direita volta para a arte de apanhar pássaros, que beleza, que diabos!
O ideal é que você, amiga leitora, durma do lado esquerdo da cama, o do coração, sempre.
Mãozinha no ar catando pássaros. Até se acalmar de vez.
Calmaria danada de horas, sem coreografias ou narrativas. Sonha, sonha, sonha, minha menina.
Como é lindo a vigília ao sono dela.
Coça o nariz. Sussurra umas onomatopeiazinhas lindas de sonhos de besouros.
Ela arruma os cabelos como algas, entorpeço num mergulho.
Observar o sono do(a) amado(a) é a melhor maneira de mapear a sua beleza.
É a melhor maneira de conhecer o homem ou a mulher com quem dormimos.
E como são lindas aquelas marquinhas deixadas pelos lençóis no corpo dela. Um mapa de delírios! Melhor é lê-las como quem adivinha os sonhos e o futuro no fundo da xícara árabe ou nas cartas.

Xico Sá é cronista do Blônicas e deixa suas impressões por aqui todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h17
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Meu sorriso

De Milly Lacombe.

Não preciso de explicação para tudo na vida. Aliás, preciso de explicações para poucas e boas coisas. Não me faz falta, por exemplo, saber como funciona uma televisão, como a imagem chega à tela, como funciona o motor de um carro, como se constrói um viaduto. Posso perfeitamente viver sem essas explicações. Mas eu preciso saber por que você me deixou. Por que você fez as malas e partiu? Por que acabou com meus sonhos, meus planos, meus desejos? Por que jogar fora nossa casa nova, as viagens que ainda não fizemos, os filhos que ainda não tivemos? Por que escolheu uma segunda-feira de sol para me deixar? Desde quando você planejou isso? Durante quantos dias, semanas, meses me olhou pensando em me deixar enquanto eu te olhava pensando em te beijar? Quando exatamente nos perdemos? Quando minhas piadas deixaram de ter graça? Quando minhas manias, durante tanto tempo tão apreciadas por você, começaram a irritar? Quando o fato de eu demorar a pegar a chave na bolsa para abrir o carro começou a tirar sua paciência? Quando o jeito que eu mastigo começou a enervar você? Quando eu deixei de ser a mais bonita, a mais engraçada, a mais espirituosa? Alguma coisa você precisa me dizer. Porque não se destroem sonhos impunemente. Você pode destruir carros e viadutos, mas não sonhos. Não sonhos os sonhos que sonhamos juntas. Então tem alguma compaixão e diz aí por que você foi embora. Pára de me enrolar, pára de me torturar e simplesmente diz alguma coisa que sirva para me fazer voltar a viver. Não tô pedindo para que você me faça novamente sonhar, mas apenas para que eu volte a respirar. Não há no mundo pedido mais singelo. Porque, sem você do meu lado, o ar fica escasso, o peito dói, a respiração encurta. Por que essa coisa que nos dá vida é a mesma que nos mata? Por que o agente do prazer é também o agente da dor? Por que preciso de você para ser feliz? Nada parece justo na dor, e tudo faz sentido fora dela. Preciso sair e voltar a ser eu. Preciso ver o sol, a lua, o mar. Preciso não precisar de você. Existe algum antídoto para você? Existe uma forma de libertação? No fundo, quero mesmo é te xingar, te punir por parar de me amar. Como você ousou? Como era tão minha numa terça-feira e absolutamente estranha na quarta? Como perdi o livre acesso ao seu corpo, a sua boca, a sua alma? Você entende que essas perguntas sem respostas são as que fazem o ar me faltar? Será que pelo menos isso você consegue entender? Ah, que vontade de te bater, de te torturar, de te espancar, de te beijar, de te amar. Não quero mais sofrer - não por você. Quero um sofrimento novo, uma dor original, uma melancolia que não tenha a imagem de seu rosto sorrindo em cima de mim na cama. Quer mesmo saber? Vai embora e me faça o favor de não olhar para trás. Porque, se você olhar, talvez acabe vendo uma cena que, à distância, poderá parecer chocante. Uma cena que, vista do lugar em que você está, desse pedestal para onde vão todos os que matam os sonhos compartilhados, poderá perturbar e até, pode ser, constranger. Uma cena que, no mínimo, vai assustar: a imagem nítida e clara de meu rosto sorrindo. E agora me dá licença, dor estúpida, porque preciso abrir a janela e deixar a luz entrar.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 23h03
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Salva, deleta

De Tati Bernardi.

Era meio caipira e tinha aquela cara de que a qualquer momento mandaria ver num momento machista dos mais estúpidos. O fato é que quando eu já estava desistindo daquele fim de tarde sonso dentro de um carro que chacoalhava tanto que chegava a ser indecente para um primeiro encontro, ele me disse: “já reparou que na calada da noite tem sempre um louco que grita desesperado?”
Me apaixonei na hora, namoramos quase meio ano. Um belo dia ele implorou minha fidelidade, quando estava indo visitar a família no interior, como se fosse o terceiro filho de Francisco, “jura que comporta, Tatinha?”, e minha ficha caiu, terminamos.
Era a quinta vez que eu refazia uns roteiros para comercial de banco quando o atendimento entrou na sala do meu chefe e disse que não dava mais para adiar a reunião, teria que ir com o que tinha e fim de papo. Meu chefe, que tinha as sobrancelhas muito longe dos olhos e já estava a um passo de me encantar apenas por este fato, levantou e disse: “se quiser levar merda, então tá pronto”.
E eu caí de quatro. Sim, ele estava falando que meus roteiros eram uma merda, sim, eu preciso muito de terapia porque adoro sadomasoquismo intelectual. Naquele dia eu estava fadada a virar namoradinha do chefe e foi o que aconteceu por alguns anos.
Eu me aproveitava do fato de ele ser mais velho e pai de meninas para virar uma criancinha pidona, mas em vez de fazer escândalo em lojas de brinquedo eu aterrorizava para ganhar elogios. Um dia eu estava no auge da minha alegria pura, deitei no colo dele e pedi que ele falasse de mim, ao que ele prontamente atendeu: “você se acha mais esperta do que é, faz mais drama do que deveria e compete o tempo todo”.
Nenhuma mentira, mas totalmente dito no momento errado. Se eu tivesse um pinto naquela hora, ele teria diminuído tanto de tamanho que viraria uma verruga. Naquele exato momento olhei bem pra cara dele, contei mais de cem rugas e achei um absurdo aquelas sobrancelhas serem tão longe dos olhos. Estar ali virou uma merda muito maior do que os meus roteiros.
O amor para mim é um botão de salva e deleta, totalmente movido por panes no meu sistema, infectado por vírus que são causados por essa soma da magia das pessoas e do cosmos. Eu passo de apaixonada a entediada, e vice-versa, em um toque, ou melhor: em uma frase, uma respirada, um cheiro, uma saliva.
A última vez que me apaixonei foi num jantar que não existiu. Passei horas me arrumando e, quando finalmente cheguei ansiosa e atrasada na casa dele, ele havia acabado de chegar da academia e estava todo suado e perdido. Sentou no sofá, olhou igual a uma criança de seis anos pra mim e disse: “e agora?”
Eu senti vontade de responder: “e agora, mesmo você sendo um bombadinho playboy indolente, que tal se a gente pedisse uma pizza e ficasse junto até os 98 anos de idade?”
Ainda faltam muitos anos, até lá meu computador pode ser contaminado mais uma vez pelo vírus do tempo que fode tudo e exterminar meu amor, só que uma coisa engraçada acontece: todos os dias a gente se dá motivo para apertar o botão de deletar, mas alguma coisa maior faz a gente salvar tudo a tempo.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 16h23
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Pelos ares

De Henrique Szklo

"Senhoras e senhores passageiros, o Comandante Kamikaze e sua tripulação, apresentam-lhes as boas vindas a bordo do vôo 171 com destino à Bagdá.

Pedimos a sua atenção para demonstração do nosso equipamento de emergência. Em caso de seqüestro, máscaras individuais com a cara do Osama Bin Laden cairão automaticamente dos painéis acima de seus lugares. Neste momento, puxe a máscara mais próxima (sem gestos bruscos, por favor), aplique-a sobre o rosto, ajuste o elástico a volta da cabeça e tente respirar normalmente. Estas máscaras servirão para diminuir o ímpeto explosivo e sanguinário dos seqüestradores, oferecendo-lhes uma imagem que lhes é familiar e agradável. Passageiros viajando com crianças ou alguém que necessite de ajuda, devem mandá-los calar a boca, já que basta a tensão natural da situação, ninguém merece ficar ouvindo choro de criança ou gritos de pessoas histéricas.

Esta aeronave possui 6 saídas de emergência, mas se uma bomba explodir não vão servir para nada, portanto comportem-se e finjam que está tudo bem. Recomendamos a leitura da bíblia que se encontra a frente de seus lugares, para buscar alguma forma de conforto espiritual, já que no mundo físico as possibilidades não serão nada favoráveis. Observem os avisos luminosos de apertar cintos e calar a boca. Mantenham sua respiração normal e seus respectivos ânus fechados e travados. Lembramos ainda que os assentos de suas poltronas poderão ser utilizados como escudo caso algum seqüestrador avance com uma faca em sua direção.

Informamos que por determinação do Departamento de Aviação Civil, DAC, é proibida a utilização a bordo de qualquer tipo de explosivo, bem como revólveres, facas, granadas ou qualquer outro artefato que possa provocar mortes horríveis, sujando toda a aeronave de sangue. Os celulares, principalmente aqueles utilizados como detonadores de bombas, deverão permanecer desligados durante todo o vôo.

A TAM-TAM agradece a preferência e deseja ver todos vivos, ou pelo menos a maioria, ao final deste vôo. Pela sua atenção, muito obrigada e tenham todos uma boa viagem... Ladies and gentleman, welcome to..."

Henrique Szklo escreve no Blônicas todas as sextas e morre de medo de andar de avião. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa (próxima turma: de 20 a 24 de fevereiro).

Escrito por Blônicas.. às 13h55
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Eu sou seu amigo?

De Leo Jaime.

Recebo um email curioso, leio em meio a tantos outros e deixo pra responder depois. Preciso pensar. O tema surpreende. Um rapaz quer comprar uma moto e precisa citar, no cadastro da loja, referências pessoais, amigos, e pede que dê meu telefone para que ele me cite no negócio. O problema  é que, segundo ele, nós nos  "conhecemos" no orkut. As aspas vão por conta de que é possível até que alguém se conheça e inicie algum tipo de amizade no orkut ou por intermédio de algum outro mecanismo de Internet. Não era o caso.

Antes do referido bilhete - era mais um bilhete, do que uma carta, - o tal jovem nunca tinha tentado se corresponder comigo. Aquela era a primeira abordagem. Um pedido para citar-me como  referência em uma compra, ou seja, alguém para ser procurado caso o negócio fosse para o pau.  E o bilhete terminava com a patética indagação: será que eu não tenho amigos? Pois é. Uma vez que ele se permite fazer um pedido desses a alguém com quem nunca falou antes, é compreensível. E triste.

Como foi que ele escolheu o meu nome e mais: o porquê! Essa dúvida é que vale a reflexão. Ter um pedido aceito para ser admitido na minha lista de orkut, beleza, é um sinal de simpatia. Se me pedem para tirar uma foto ou comentam qualquer coisa na rua, em geral, a recepção é a mesma. Gosto de tomar café na padaria batendo papo com os cidadãos, e quase sempre não sou reconhecido. Ou não mencionam. Prefiro pensar que sou um cara comum que gosta de falar com os outros na rua. Mas recuo quando me oferecem negócios da china, e muito mais quando pedem coisas íntimas sem haver intimidade.

Talvez seja esta a questão: a dificuldade em estabelecer, nos novos padrões, o que seja intimidade. Trepar pode ser tão banal quanto teclar num Chat. E teclar num Chat pode ser tão íntimo quanto trepar. Tudo é muito relativo. Dá pra abrir o coração num blog e, a um só tempo, permanecer anônimo sob um nick. Quem  é de fato amigo?  Os que freqüentam? Evidente! Desde que não traiam! Os que participam da nossa  felicidade e dela se regozijam. Sim, os que estão interessados em nossa infelicidade, mesmo os que ajudam, podem estar apenas curtindo um pouco do sentimento de superioridade que nossos infortúnios produzem em si. Gente que fica feliz com nossas vitórias é que são os amigos, e os que são generosos. Os que oferecem coisas. Os que oferecem companhia, humor, tempo, idéias, ouvidos etc.

Há um charme propagado do cinismo. Chamam de atitude o que em outros tempos era ser mascarado. Ser frio pode ser confundido com ser cool. Amar  é e sempre foi uma coisa meio obsoleta e nem um pouco hype. Diz um belo poema que toda carta de amor é ridícula. E o amor tem um traço de cafona. Pois é, a amizade é o momento sublime do amor. Chamam de amizade de amor subtraído do sexo. De um amor que falta alguma coisa. Acho que não, que é perfeito, absolutamente transcendente a tudo, até ao desejo, e perfeitamente incondicional, como deve ser o amor.

Mesmo que a gente tenha alguém pra mencionar como referência em uma compra, ou nove mil e tantos adicionados com o título, não significa que a gente tenha de fato um amigo. Não há garantias. E, no entanto, não há nada que mereça mais uma festa do que o amigo. Por isso pareceu-me tão dolorosa  a pergunta. Pra quê comprar uma moto? O rapaz, se é que um conselho meu vale alguma coisa, deveria era sair de casa, imediatamente, e procurar um amigo. Já pensou: morrer e não ter um amigo no enterro?

Leo Jaime é cronista do Blônicas e escreve aqui todas as quintas.

Escrito por Blônicas às 11h25
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O sucesso da berinjela

De Rosana Hermann.

 

O sucesso é uma das coisas mais incompreensíveis para qualquer ser humano. Embora ninguém possa definir o sucesso, todo mundo reconhece quando ele acontece, quando chega, quando pega. Você pode gostar ou não de uma pessoa que faz sucesso, de uma maldita música que faz sucesso, de  um filme que é sucesso de bilheteria. Mas o sucesso vem e se instala. E às vezes, fica mesmo.

 

Aqui no trabalho, no Pânico na TV!, o sucesso do momento é o Homem Berinjela. Ninguém sabe dizer como a idéia aconteceu. Já tínhamos usado um homem batata, que colocava uma batata doce na sunga e saia fazendo sucesso. Resolvemos mudar o legume e, entre chuchus e mandiocas acho que sugeri a berinjela, meu favorito na horta. E o homem berinjela, interpretado pelo redator Fabio Embu, nasceu. Devidamente vestido com uma sunga verde pela figurinista, adereçado com correntes e óculos de cafetão, o Homem Berinjela foi lançado às praias do litoral paulista, distraído, displicente, sempre falando ao celular. Ele não se mobiliza pelo rastro de olhares e risos que sua imensa berinjela na sunga, no calção, na bermuda, na calça de moleton, desperta. Há quem se assuste, morda os lábios de inveja, babe de desejo, gargalhe até cair. Fato é que aquela desproporção monumental não passa despercebida aonde quer que vá.

 

A trilha sonora que marca o quadro sem falas é sucesso também. Muito bem escolhida, o “Because I got high” parece ter nascido para acompanhar o Homem Berinjela em suas aparições públicas. As pessoas pedem a letra, o mp3, o ringtone, tudo. Mais um pouco e vamos ter a griffe berinjela vendendo produtos como camisinha GG.

 

Depois que o sucesso acontece, todos nós temos vontade de analisar o motivo. Será que neste mundo de Viagras e spams de aumento de pênis, descobrimos que o membro grande é o sonho de todos os machos? Será que é o equivalente masculino dos exagerados seios de silicone? Será que o sucesso é a simplicidade óbvia do humor infantil? Ou será que a berinjela seria uma manifestação catártica da nossa origem animalesca, perdida neste mundo de informação intelectual?

 

Não sei, não sabemos, ninguém sabe. O que sabemos é que, há quase um mês, produzindo humor para um programa de duas horas, o que mais ouvimos como feedback é 'Eu morro de rir com o homem berinjela!'. Não há dúvida, ele é o sucesso do momento.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h58
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Mas será o Benedito?

De Nelson Botter.

Antes de mais nada peço emprestado o título dessa crônica ao pai do nosso blônico Antonio. Com sua licença, Seu Mário...

Meninos e meninas, só pode ser brincadeira - e de mau gosto! - eu grito: "socorro, valha-me meu jesuis cristinho", não creio no que meus olhos vêem e a mente capta, quem nos salvará agora?; me vê uma dose de Lexotan com gotinhas de conhaquinho bom, daqueles do tio Bach e seus florais mágicos!

Vi agora, abriu na tela, eu juro, tava dizendo lá no blog do Rodrigues, vizinho do Blônicas: "Lula passa Serra em 10 pontos na pesquisa Sensus"; será?, como pode coisa mais non sense, Mr.Sensus?; olhe lá, antes das acusações já me defendo: não sou tucano; e também não sou PT, sou da honestidade, partido inexistente, portando vou como a grande maioria brasileira: na falta de boas opções, procuro a menos pior!

Mas me assusta, puta como me assusta essa coisa de pesquisa, sou profissional de marketing, sei do que falo, e não gosto do que vejo, tenho medo de manipulação em massa, essas coisas têm efeito, funcionam e por isso é que me assustam tanto; simplesmente não consigo imaginar o barbudinho reeleito, não merece, já disse que não sou tucano, mas não podemos simplesmente fechar os olhos pra toda bandalheira escancarada, pro homem que não sabia de nada que se passava debaixo de sua barba grisalha, a promessa de mudança jogada fora, a última esperança do brasileiro atirada no lixo, e não reciclável... oras bolas, está escrito "bobo" na testa do brasileiro? Hmmm...

Cada vez mais me enojo com o poder; essa semana vi no cinema o filme Syriana, fala das conspirações que envolvem o petróleo, líquido tão precioso que nos fazem descer goela abaixo; juntou com O Jardineiro Fiel que eu tinha visto outro dia, mais bolo de filhadaputagem da grossa, indústria (ou máfia) farmacêutica, poder que não respeita vidas, dinheiro que transforma seres vivos em cobaias, etc e tal; assistam aos dois filmes e se desesperem mais ainda com o mundo em que vivemos, eu recomendo o desespero, o nojo, o asco, estamos falidos e na mão de meia dúzia, a raça humana está extinta e não sabe, somos marionetes com fiozinhos, show de horrores, fodeu.

Por isso vou fazer figas, torcer como se fosse copa do mundo, não quero o Lula lá, sei que as opções de mudança não são muito animadoras, mas continuísmo não pode ser, é passar o aval, assinar o cheque em branco pro Jefferson, tô fora, preciso encostar a cabeça no travesseiro e dormir, quero interpretar meu sonhos como fazia Freud e não passar as horas noturnas fritando na cama; voto no menos pior, e o atual não está nessa lista, por mim ele já era, sou oposição futebol clube, 8 anos no mesmo bolso nem pensar!; e de antemão já aviso aos navegantes: se o Lula ficar eu é que vou.

Fui.

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h52
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Tudo por uma bela mãe

De Xico Sá.

Você já namorou mulher com filho? Filhos? É lindo, são lindos, meio sobrinho(s) meio filho(s) mesmo(s). Você tem, não tem. Tão longe, tão perto. Até resolve um pouco a sua carência por essas criaturas.

Mas... e o trabalho?! Às vezes cansa. Sempre cansa. É preciso ter vários programas na manga, ser um homem de boa vontade, jogar nas onze, cobrar escanteio e correr para fazer de cabeça.

Melhor: é preciso saber cansar os meninos. O jogo é esse. Fazer o jogo deles. Quer(em) pular de cima da geladeira no chão? Vamos lá, o tio dá mó força.

Tempos atrás este cansado cronista à beira de um reumatismo enfrentou um performático Igor, 2, que queria colocar um ovo dentro de uma garrafa de Coca-Cola. Um diabinho que unia o vigor de Hércules com as graças da arte pop americana. Pegamos o ovo e tentamos enfiar goela abaixo da garrafa. Não deu. O pequeno Andy Wahrol/Colombo se contentou em pôr o ovo dentro de um copo com Coca-Cola. Bem mais simples.

Quando é do tipo atlético, que pretende revirar a casa de cabeça para baixo, bater 80 pênaltis tendo como gol os dois pés da mesa... Tudo bem. O tiozinho arranja fôlego e cansa a criatura. O mais difícil é o menino ''cabeça'', do tipo viciado em livros, exposições... menino assombrado, expressionista, que ja viu até o "Gabinete do Dr. Calligari". Vixi. Aí não tem diabo que canse.

Ele é aparentemente mais calmo, embora cem mil vezes mais teimoso. Tem até o tal do senso crítico, que para uma criança pode ser um desastre. Ecológico, não vai deixar que você matar nem aquele besouro de lâmpada que enche o saco.

Você pode até se encantar com a inteligência da criatura. Menos quando ele, qual Pasquale precoce, resolve corrigir todas as suas orações subordinadas. Em público. Só para humilhar o tio na frente da formosa madre. Um vexame, meu velho Édipo, um vexame. E quando você cita um autor errado? O pequeno ser cabeçoso corrige ajeitando os oclinhos na ponta do nariz.

E quando é uma menininha, uma Alice mais bela? Voce está passeando sozinho com ela e a pequena chora para ir ao banheiro... Como faz para acompanhá-la no WC das mulheres? Pede favor a alguém que passa? Que fazer nessas horas? E pôr aquela fitinha, com jeito, no cabelo dela? 

De qualquer forma, deixa o menino brincar, pois homem que é homem morre de medo no trem fantasma e pode até vomitar no Playcenter no domingão-ponta-cabeça, mas não larga a mão de uma linda e gostosa mãe que nos chega, de presente dos deuses, com o seu pacote completo.

Xico Sá é cronista do Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 16h37
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Baby, prometi uma blônica pra ti

De Paulo Castro.

     Ok, gentes. Eu não quero ser gente assim que diz ok. Outro dia me chamaram de charlatão, de escritor que acha que tem o rei na barriga, ou mais, que é a própria barriga do rei, por onde ele pensa flocos de merda literária.
     Editora "Rouco". Mandei meus troços. Ela disse que não. E veio com o argumento de sempre que sempre me usam pra que eu seja gente que diz ok:
     - Cara, super adoramos você, já ouvimos falar, mas tem que ser um pouco menos ousado.
    Vamos lá. Um rei pode ser ousado? Só se for um rei charlatão. Saca, rei pegador ? Que brinca com as palavras para lavras de ovacionais escravas...não, não, isso é poesia, e poesia não tem graça. Graça ? Isso ! Rei da Graça. Esse é charlatão.Que se for vivo é Momo, que se for Momo, morto na quarta mórbida. Comecei bem, mas o "mórbida" ficou forçado. Se eu percebo isso e eu mesmo me acuso, de que charlatanismo posso ser acusado ? Veja, até repetir palavras eu tenho usado ! Isso não é literatura. Charlatão é a puta que te pariu, minha filha. Eu que não tenho nome, pois já está dito acima, maldito seja o que em busca de fama cede ao gravar disco na charmosinha Trama. Ou naquela editora sobre ex-porrada.
     Hoje, ok gentes, estamos trabalhando com um conceito chamado "metalinguagem". É quando um artista fala sobre a própria arte através da arte. Três vezes : "artista", "arte" e "arte". É tanta repetição, que o público acaba convencido que está diante de uma obração. Filmes sobre o cinema, livros sobre a literatura, até minha genial crônica no livro "Blônicas", em que falo que todo cronista é um babaca. Isso dá a ilusão de autenticidade. Acho que é tal, gente ok, que a moça falou quando falou que eu era um charlatão. O uso abusivo da metalinguagem. Que além de tudo é sedutora. Pois toda mulherzinha(que pode ser homenzinho, homúnculo, ursão) quer se ver retratada um dia por um escritor. Então, barzinho, cervejinha, motelzinho. E ela não espera flores, só se forem de Baudelaire. Espera aparecer no próximo livro, até post,  com pseudônimo, mas aparecer.
     O pseudônimo. Ele pode ser usado pra 30 mulherzinhas. Essa é a sacada do apartamento charlatão. Exemplo : "GUMERCINDA tinha cabelos ruivos curtos ( Sofia), era engenheira civil ( Tatiana ), adorava contar histórias sobre seu pai ( Beatriz), na hora do sexo sempre tapava a boca com a mão quando sobrevinha o gozo( Geralda ), etc...". Em um texto de duas páginas você vai receber bom número de telefonemas melosos. A metalinguagem, ok gentes, aliada ao uso de pseudônimo, cria uma tremenda pança "per" rei. Daí o que faz o charlatão ? Come o dono da editora, a crítica do caderno 2, a esposa do cara que faz a capa, a mina do portal literário na Internet. Entende? Concentra a energia libidinal com a energia publicitária.
     "Ah, mas ele é tão gato que todo um, uma, OM, vai abrir as coxas ?". Nada. Feio pra ok, gentes. Mas tem voz que diz: __você vai brilhar, fofura ! Gatinha, rapaz esbelto, pessoa inteligente. Depois passas lá no meu blog e faz um elogio flog e deixa a propaganda do seu MSN space e eu indico, sacou ? Pois amor é importante__.
     GUMERCINDA!!! Me ouve, mulher do padre ! Percebeu como eu não sou rei, nem barriga, nem charlatão? Não te como, serelepe, mesmo que das letras você faça companhia.
     Ok, gentes ?

Paulo Castro é cronista do Blônicas e se auto-intitula um paranóico filho da puta.

Escrito por Blônicas às 13h37
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Quanta manipulação...

De Milly Lacombe.

Querem nos fazer engolir JK. Querem que acreditemos que o sujeito foi herói, ícone, político-sensação de uma safra que acabou. O homem achou por bem construir uma cidade no meio do nada, elevou a dívida pública, a externa, a inflação, criou o Distrito Federal da corrupção e, ainda assim, acaba como herói. Claro que haveria corrupção sem Brasília, afinal somos o país dos espertos, do jeitinho, do fura-fila, do pagou-passou – eternamente divididos entre corruptores e corruptos.

Mas quem precisava de Brasília? Quanto nos custa – a nós, contribuintes – mandar semanalmente essa gente para a Capital? Quanto nos custam os apartamentos funcionais? Nossos ilustres delegados vão e vêm sem restrição de verba. E quanto custou construir a cidade-Niemeyer? Pagamos por esse surto megalomaníaco até hoje? O arquiteto-comunista, como todo comunista que se preze, ficou milionário fazendo Brasília. Alguém acha de fato bonita a esplanada dos ministérios? Mas tá certo: o homem-croqui é mundialmente famoso, internacionalmente celebrado. Então, quem sou eu para criticá-lo? Só posso dizer que, do baixo de minha pequenez estética, acho Brasília uma cidade medonha.

Aliás, sugiro que quem não foi a Brasília, por favor, vá. A passeio. Vá ao congresso, ao senado, veja nossos políticos dando duro, veja como as sessões são cheias, como a cidade é agradável, colorida, receptiva, fresquinha. Veja como aqueles homens e mulheres trabalham ferozmente para o progresso da nação. Mas marque na agenda: o expediente é de terça a quinta, isso quando não é cancelado. De terça a quinta porque todos esses bravos senadores, deputados e ministro também são filhos de Deus e precisam visitar seus eleitores. Quero ver um levantamento de quem vai para onde entre quinta e terça. Solte-se a lista real e teremos destinos como Cuba (muito em alta na atual gestão), Caribe, Bonito, Lençóis ...

É a TV arrastando detritos morais, a serviço de nossa ingenuidade. Para que acreditemos que celebridades são heróis, que seremos todos milionários, que encontraremos o par perfeito, teremos uma família absolutamente funcional e adequada ao sistema: dois filhos, casa própria, cachorrinho. Para que acreditemos, com uma boa e doce música de fundo, que nossos políticos são todos honestos, todos movidos por um só desejo: o de fazer o Brasil crescer, acabar com a miséria, diminuir a desigualdade social. É muita gente boa e decente trabalhando por nosso futuro. Desonesto, só o político do gabinete ao lado: os que vão à TV, ah, esses, francamente, tá na cara que são bem intencionados. Com tanta gente boa olhando por nós é incrível que ainda não tenhamos conseguido sair do lugar.

Mas tão miserável quanto essa safra de políticos que nos manipula há décadas somos nós, os que só fazem reclamar. Por que não nos metemos na vida pública? Por que não lutar por uma causa? Por que não se candidatar? Porque não colocar a mão na massa para mudar o cenário? Por que não levar essa nossa inquietude para o palanque? Por que não questionar o sistema com ações e não apenas com palavras? Preguiça, comodidade, egoísmo. Mais fácil criticar do que fazer. Tudo isso claro. Mas também deve contar o fato de que, cedo ou tarde, se essa vida pública for bem-sucedida, acabaremos tendo que frequentar Brasília, essa maravilhosa e agradável vila enfiada, para bom uso da grana pública, no meio do nada.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 11h20
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Respire, relaxe, medite e se mate

De Tati Bernardi.

Estou de férias há duas semanas. A primeira passei no Bonete, em Ilhabela, e agora, em reta final de terminar meu intencionado descanso, estou em João Pessoa, na Paraíba.
No Bonete fiquei numa pousada confortável e bem decorada que dava de frente para uma praia tranqüila de pescadores. Fui com meu namorado que, além de ter um sorriso magnífico, me faz rir, me atura e pagou toda a viagem.
Aqui em João Pessoa, para onde vim sozinha com o intuito de mergulhar em mim e entrar em contato com o meu eu mais profundo, os dias têm sido cheios de um mar verde-água, sol e novos amigos bacanas.
Ahhhhhh férias, que momento mágico, não? Não. Passo cada segundo dos meus dias fazendo as contas de quanto tempo ainda falta para eu chutar a porta do meu apartamento em Perdizes, dar toda a roupa suja para a Maria lavar, tomar um banho de duas horas no meu chuveiro com a melhor ducha do mundo, me enfiar num pijama mais fechadinho porque em São Paulo não faz tanto calor e dormir no meu, meeeeeeeu, edredon antialérgico laranja (segundo a cromoterapia a cor laranja faz dormir melhor).
Eu até seria menos infeliz se achasse que todo mundo é louco assim, mas o pior é que, de verdade, eu acho que está todo mundo se divertindo.
Eu queria de verdade entender qual exatamente é o meu problema com a falta de problema. Me dá um mau humor incrível pensar que eu não tenho nada pra pensar pelas próximas horas de deslumbramentos e preguiças. Calor me dá uma moleza chata que me transforma numa corcunda de cara apática e olhos quase sofredores, insetos me enlouquecem e pequeninos grãos de areia perdidos no lençol no meio da noite tiram meu sono.
Com todo esse calor os hotéis e pousadas ainda vêm com aquele papo de "salve os oceanos, tome menos banho, economize toalhas", não dá, preciso de uns três banhos por dia porque tenho pavor de ficar muito tempo salgada ou à milanesa. Fora a minha neura por sovaco, preciso ter certeza absoluta de que não estou com cheiro de ser humano.
Sim, sim, sou a típica urbaninha neurótica estressada que não entra no clima. Mas sabe o que é? Meu problema é gente.
Explico.
Ontem acordei e fui fazer uma longa caminhada pelas praias de João Pessoa, passei por verdadeiros infernos cheios de quiosques-bar com axé e funk no último volume e um monte de gente loira, com berebas de calor e picadas de inseto, querendo ter gingado nordestino. Quase vomitei, desmaiei ou metralhei todo mundo. Isso é entrar no clima? Então prefiro minha casa.
Andei, andei, até que encontrei um pedacinho vazio de praia, com o mar calmo que nem piscina, morninho, e uma vista para um lago, fiquei horas ali e quase chorei de emoção, confesso que entrei no clima e finalmente curti minhas férias.
O que não dá para agüentar é esse deslumbre com o verão, as pessoas falando tudo abreviado porque muito sol na cabeça interrompe pensamentos, esses hits de verão berrando no seu ouvido em qualquer canto que você esteja, e a multidão, não suporto a multidão. Não suporto esse fenômeno "barata que sai de baixo do móvel", as estradas cheias, as tarifas altas, os tios barrigudos falando alto na praia, as poses de ladinho para fotos nos coqueiros tortos, as meninas ripongas com seus namorados surfistas tentando filosofar a respeito do quanto eles amam muito tudo isso mais do que amam o Mc Donald's. Cara, gente é um saco.
Poderia até achar que tirei férias na hora errada mas a verdade é que a errada sou eu. O acesso ao Bonete não é dos mais fáceis e por isso a praia não estava cheia, a pousada tinha poucos quartos e meu problema lá estava longe de ser a superlotação, muito pelo contrário: meu problema era sossego demais.
Eu acordava e pensava: até o final do dia, tudo o que eu tenho que fazer é contemplar o mar, tomar sucos variados de frutas fresquinhas, ler um livrinho, caminhar até uma cachoeira, dormir, me bronzear, beijar na boca, dormir, contemplar o céu, ler um livrinho, dormir, contemplar um cachorro brincando com um bebê enquanto o sol se põe, dormir.
E de verdade essa possibilidade infinita de ser feliz me deixava de bode, a felicidade é algo para ser conquistado durante o dia, não pode vir assim de bandeja logo que você acorda e se prolongar até o final do dia. Dá tanto medo de perdê-la que você acaba perdendo de tanto pensar nisso.
Tanta paz abria espaço na minha mente para pensar que o peixe do almoço podia estar estragado e o único jeito de tomar um soro no hospital era fazendo cinco horas de trilha ou pegando um barquinho que demorava duas horas para atravessar o mar e chacoalhava demais. O helicóptero era só para casos muito graves e piriri não chega a ser caso de morte.
Sim, certeza, meu namorado acabou de olhar para a bunda daquela infeliz com uma tatuagem de Shiva no culote, aliás, algo me diz que é a décima oitava bunda que ele contempla por cima dos seus óculos escuro enquanto finge ler.
E por falar em ler, ele está com esse livro que ensina como andar e meditar pelo sétimo verão consecutivo, claro, é outro título, mas o livro continua o mesmo, o desgraçado não lê outra coisa, não tem outro assunto.
Quer saber? Não tô mais achando legal esses cachorros na praia, isso não traz doença? E esse esquema "comer em casa de pescador" já me encheu, como eu queria agora as entradinhas com pães e manteguinhas e as frescuras todas da minha cidade querida. Como eu queria agora poder reclamar que já pedi o prato há mais de uma hora e ser atendida por um gerente simpático que não fala mole, como eu queria agora fazer uma hidratação e uma escova neste meu cabelo, colocar um belo decote, um sapato bacana e mostrar para essas sonsas maconheiras com tatuagem de Shiva no culote quem é que manda no quesito charme, quem é que arrasa quando a passarela é outra. Quem é que pára ruas quando o assunto é assunto.
Sou urbana, claro, adoro um cinema com filme europeu, um restaurante com jazz ao fundo, uma festa fechada só para amigos muito interessantes e cheios de manias. Ainda meio dormindo escuto o comandante dizer "tripulação, preparar para o pouso" e meu coração se enche de alegria e paz, de volta a São Paulo, de volta à minha cama que só tem o meu cheirinho, de volta à comidinha da mamãe que nunca me deu dor de barriga, de volta à segurança de saber que, se eu precisar de um carro, de um amigo, de um bom filme ou de um médico, sei exatamente onde encontrar.
Chega de insetos, chega de areia, chega de roupas amassadas dentro da mala. A Marginal está completamente parada, a primeira visão da cidade é uma favela e um céu cinza. Milhares de caminhões na minha frente me tiram qualquer visão do horizonte.
Que saudade do silêncio do Bonete, que saudade do axé do Nordeste.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 13h32
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Bifútil People

De Henrique Szklo

Filho bonitão e desocupado de famoso industrial foi visto trocando carícias apaixonadas com uma atriz carente e problemática da novela das oito. Dizem até que o casamento já está marcado. E, por via das dúvidas, a separação também.

Socialite casada com um magnata três vezes mais velho que ela, acaba de voltar de uma viagem pela África onde, segundo ela, tomou contato profundo e gratificante com uma maravilhosa vida selvagem. As línguas afiadas de plantão afirmam, porém, que o responsável por toda esta selvageria era ninguém menos que o segurança da moça.

Conhecido político, famoso pelos escândalos de corrupção em que vive envolvido, tentou ficar sócio de um clube de milionários mas recebeu bola preta. Dizem amigos mais próximos que ele não se abateu. Até porque levar bola é com ele mesmo.

Self-made-woman do ramo de escravas brancas quer por que quer ser reconhecida como grande intrapreneur. Seu primeiro passo é tentar se associar à Federação dos Empresários que, naturalmente, se posiciona contra sua filiação. Diretor que não quis se identificar explica tal resistência por entender que os empresários brasileiros não podem se comparar à moça. São democráticos e repudiam qualquer forma de preconceitos. Prova disto é que escravizam homens e mulheres de todas as raças.

Uma amiga desta coluna diz que foi muito mal-tratada em uma boca de fumo onde costuma comprar suas drogas. O traficante não quis aceitar cheque, foi grosseiro, coçou o saco na frente dela, cuspiu no chão e parece que até soltou um pum. Quando é que as autoridades vão enquadrar estes maus comerciantes?

Publicitário premiadíssimo tem planos para ampliar o sua badaladíssima cobertura triplex. Vai comprar três andares abaixo e fazer um sextuplex. O primeiro do gênero no mundo, para desespero de seus concorrentes que têm no máximo, apartamentos de 5 andares. Pobres bastardos.

Médico de celebridades está escrevendo um livro sobre a doença da fama. E pela postura do sujeito, ele o faz com total conhecimento de causa.

Curador de um importante museu de arte moderna, em visita à fazenda de um poderoso empresário, sofre um acidente, cai do cavalo e fratura seu braço. Fratura exposta, claro.

Esposa de um jogador de futebol com problemas financeiros é vista nos braços de outro jogador, este em ascensão meteórica. Perguntado sobre a traição da mulher, não demonstrou mágoa. Disse que nunca foi fominha e sempre procurou um companheiro em situação melhor para finalizar a jogada.

Lobista de grandes empresas multinacionais do ramo tabagista é o mais cotado para receber um prêmio da Associação dos Médicos Pneumologistas pelos relevantes serviços prestados. Mas não será o primeiro de sua extensa lista, já que o competente profissional conta em seu currículo com outros prêmios importantes, oferecidos por oncologistas, publicitários e donos de padaria.

Ex-banqueiro que foi à bancarrota e deixou uma legião de clientes a ver navios, para não ser incoerente, saiu em cruzeiro de dois meses around the world. First Class, of course.

FAROL CHIC
SINAL VERDE PARA: BISBILHOTAR A VIDA DOS FAMOSOS
SINAL AMARELO PARA: MULHERES SEM BUNDA
SINAL VERMELHO PARA: POBRE

Henrique Szklo tem direito de escrever no Blônicas todas as sextas. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa (próxima turma: de 20 a 24 de fevereiro).

Escrito por Blônicas.. às 11h25
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De Marcelino Freire.

 

Assim: misturar os dois filhos de Francisco aos caubóis de Ang Lee. Sim, estamos no Oscar. Digo assim: todos aqueles que vão deixando um amor pelo caminho. Os brutos também amam e não estão sozinhos.

Fui ver neste final de semana O Segredo de Brokeback Mountain. Belo filme, tirando, aqui e ali, um galope em falso, uma música melosa. Ora, ora. Fiquei pensando numa trilha sonora, mais brasileira. Mesmo que eu deteste Zezé de Camargo e Luciano. Nem vi o filme deles e nem vou ver.

A piada é exatamente essa: saber que estamos no mesmo rebanho. Cafona. Todo amor é ridículo. Tipo: "Um tiro certo no meu coração". E ainda: "Que derrubou a base forte da minha paixão". E mais (quem disse que essa agonia termina?): "Fez eu entender que a vida é nada sem você".

Nossa!

Estou me sentindo uma bosta. Até rodeio tem neste mais recente sucesso do cinema americano. E tem, idem, cena que lembra a festa de peão de Boiadeiros. Tudo a serviço - ainda bem - de uma história gay de amor e abandono.

Para quem não sabe: dois peões se conhecem, isolados que estão pastoreando ovelhas, e se apaixonam. Perdidamente. E tentam esconder. Mantêm um casamento hetero e se desgraçam. Só uma vez por ano é que se encontram escondidos, à beira da mesma montanha onde, pela primeira vez, um enrabou o outro.

Perdão.

O verbo, aqui, "enrabar", é só para deixar essa crônica menos piegas, o ritmo mais viril, o sentido mais grosso. A bem da verdade, o filme me deixou cheio de culpa. Causou-me um alvoroço. O que fazer? Era eu vendo O Segredo (quem não tem um?) e cantarolando sem querer. "Eu não vou negar que sou louco por você / Tô maluco para te ver / Eu não vou negar". E negam.

Porra!

É o que a gente faz a vida toda: põe o sentimento para debaixo da sela, na sola da ferradura. Para que ser a ovelha negra da família, não é mesmo? Melhor é o lar doméstico e crianças no pé, fraldas para trocar. Troca-troca, nem pensar.

"Vamos morar num rancho?", propõe um deles. E nada acontece. E nada vai acontecer. Tudo se demora. Na hora de nossa morte, baby, quem puxará a pistola?

Sei não.

Torci para que os dois filhos de Francisco não fossem à festa do Oscar. E lá eles estão. Para minha maldição. Eta vida brega! Alguém ainda vai fazer um clipe com ela, você vai ver.

Escute só:

"É o amor / Que faz eu lembrar de você e esquecer de mim / Que faz eu esquecer que a vida é feita pra viver".

 

Marcelino Freire é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h04
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João Bobo

De Rosana Hermann.

 

É muito chato. Tudo bem, a gente entende, todo mundo é assim, todo mundo balança. Até a terra, que gira, também dá lá suas balançadinhas. Mas é cansativo conviver com pessoas que vivem num eterno equilíbrio instável, como um João Bobo.

 

O João Bobo, você sabe, é um brinquedo composto por uma base sólida bem pequena e um ego inflado de ar. Aos olhos de quem vê o João Bobo parece imenso, mas basta um sopro pra ele sair do prumo.

 

E os habitantes do planeta terra neste século XXI parecem estar atacados por uma síndrome do João  Bobo. Base sólida ninguém tem, nem de caráter, nem de ética, só um saquinho de areia no fundo. Sobre ele, constroem egos inchados de vento, achando que alcançaram o topo do mundo. Mas na primeira buzinada no trânsito, na primeira frustração num guichê, perdem a cabeça. E saem gritando, xingando,atirando. As mulheres atacadas pelo efeito João Bobo, ficam histéricas e oscilam pendularmente  pela menor bobagem.

 

Se fosse só no plano pessoal, não seria tão grave. Mas o que dizer de uma guerra deflagrada por charges num jornal? De histerias de fãs e fanáticos que culminam em mortes? É triste, mas estamos muito desequilibrados. Não que a solução seja ficar sentado sob uma figueira mas um pouco de silêncio e meditação pode ajudar na busca pelo equilíbrio.

 

O silêncio acalma a mente, esvazia a ansiedade, desincha o ego, lava a alma. Aplaca os desejos. E ficar quieto, sentado sobre os ísquios, respirando pausadamente, fortalece a musculatura, corrige a coluna e tonifica o corpo. Muito melhor do que viver balançando como um João bobo.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h47
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A escolha

De Nelson Botter.

 

- Vai, escolhe, em qual delas eu atiro?

- Não, por favor, não faça isso...

- Se não escolher, eu mato as duas!

- Olha, vamos conversar, não posso escolher...

- Escolhe logo, seu merda. Atiro na sua esposa ou atiro na sua amante?

- Quanto você quer para esquecermos tudo isso? Pago em dólar.

- Vou contar até dez. Se não escolher uma, mato as duas. Dez!

- Pára com isso!

- Nove.

- Não posso...

- Oito.

- Isso é absurdo.

- Sete.

- Olha, faz o seguinte, me mata, tá bom?

- Seis.

- Prefiro eu morrer a ter que escolher uma das duas.

- Cinco.

- Santo Deus, você está falando sério mesmo?

- Quatro.

- OK, OK...

- Três.

- Me perdoa, nenê.

- Dois.

- A amante...

- Um.

- Atira na minha amante. Poupe minha mulher.

- Por que a amante?

- Porque esposa a gente só tem uma, né? Amante arranja-se aos montes.

 

Os quatro ficaram se olhando após a resposta. Três olhares indignados e apenas um confuso (o do marido, é claro).

 

- Como você é cretino! - falou o assassino. - Depois dessa quem merece essa bala é você!

 

Bang! Tiro certeiro na testa do marido.

Plac, plac, plac! Eram as palmas das duas mulheres ao assassino.

 

Nelson Botter é cronista aqui e ali: BlogGol.
Escrito por Blônicas às 12h46
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A gente se vê

De Xico Sá.

 

“A gente se vê.”  Pronto, phodeu, eis a senha para o nunca mais, o “never more” do corvo do tio Edgar A. Poe.

A gente se vê. Corta para uma multidão no viaduto do Chá.

A gente se vê. Corta para uma saída de estádio lotado em dia de decisão do campeonato.

A gente se vê. Corta para “onde está Wally”.

Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre.

Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam.

Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o desprezo propriamente dito, o desprezo on the rock´s.

A gente se vê uma ova. Seja homem, torque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora.

Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só.

Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.

A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.

Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MAS, como na camiseta mexicana que ganhei. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.

 A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a vovozinha, ora!

Seja homem, diga na lata.

Não engane a moça, que a nega é fino trato, que não merece desdém.  

A fila anda, jogue limpo.

A gente se vê. Corta para uma multidão no show do U2. A gente se vê. A gente se vê. Corta para a festa do Círio de Nazaré. A gente se vê. Corta para a festa do Morro da Conceição. A gente se vê. Corta para o dia de Iemanjá em Salvador. A gente se vê. Corta para o reveillon na praia de Copacabana.

A gente se vê. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas e a gente se vê toda segunda-feira por aqui.

Escrito por Blônicas às 15h15
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O grande problema

De Milly Lacombe.

 

Eu achava que o irredutível era o sexo. Ou seja, quando conseguíssemos eliminar todas as camadas de sentimentos, ações, reações, atitudes, sensações - absolutamente tudo o que nos faz ser quem somos -, chegaríamos então à redução máxima: o sexo. É ele que nos move, sempre, mesmo que, à primeira vista, não consigamos perceber. Por trás de nossas mais despretensiosas ações, lá está ele: firme, intenso, mostrando sua cara, zombando de nossas atitudes mais patéticas e infames. Mas talvez o sexo não seja a redução de tudo. Talvez a redução de tudo seja essa enorme contradição de quem somos feitos.

Deus – partindo-se do princípio que uma força única nos amoldou por essas bandas, e que ele, para uso de nossa limitação intelectual e sensorial, tenha a forma de um homem ou de uma mulher – tem que ser um tremendo gozador. Não há outra explicação. Lá do alto de sua onipotência, entediado, como devem ser entediadas as pessoas que podem tudo, ele decidiu brincar de Mundo. E, para sua eterna zombaria e deboche, aqui estamos nós: metendo os pés pelas mãos, correndo de um lado para o outro sem entender por que, em busca de alguma coisa que não sabemos o que é, feitos de pura contradição. E o cara, lá em cima, sem ar de tanto rir.

Vejamos: somos das coisas mais insignificantes por aqui. Seis bilhões de insetos de Deus. Tão insignificantes para Ele quanto uma formiga dentro de um formigueiro para cada um de nós. Somos as formigas do divino. É essa a relação. Há, no Universo, bilhões de estrelas e planetas. Para colocar em perspectiva: se o universo fosse a areia do Leblon, nossa adorada Terra seria um grão de areia. Que tal essa comparação para nos acharmos insignificantes? Se eu morrer hoje, por exemplo, meia dúzia de pessoas chorarão, cuidarão de meu enterro, passarão uns dias, meses talvez, entristecidas, mas, mais cedo do que tarde, terão suas vidas retomadas: cinema, jantares fora, festas de aniversário. Eu fui, a vida continua. Almas vêm e vão com a velocidade de raios sobre a Mata Atlântica. A vida não vale nada. Termine de ler esse texto, abra a porta de casa, atravesse a rua pensando em quanta idiotice acabou de ler e, distraído, acabe arrastado e dilacerado pelo ônibus que vinha acelerando. Fim da festa. Simples assim.

E, mesmo sabendo de tudo isso, teimamos em nos achar fundamentais. Para os que nos cercam, para o planeta, para o bom andamento da vida. E aí reside a grande contradição: temos todo o direito. Porque somos feitos de espírito, de intuição, de emoção e consciência acima de tudo. Porque nosso organismo é um microcosmo do universo: bilhões de células interligadas funcionando em harmonia e sobrenatural perfeição para que continuemos vivos. Somos feitos, sim, de estrelas. Dentro de cada um de nós, um universo delas. A máquina mais perfeita jamais construída. Querendo, somos capazes de mudar o curso das coisas, de inventar, de reinventar, de tocar – com a arte – a alma de bilhões de outros seres humanos. Em nossa diversidade, somos absolutamente diferentes uns dos outros, ainda que, organicamente, sejamos idênticos - que grande paradoxo. Somos ricos porque somos únicos.

A verdade é que não queremos todas as respostas - queremos mistérios, finais enigmáticos, dúvidas eternas. Nós, esses seres contraditórios. Que criamos armadilhas e distrações mundanas para não nos entregarmos sem culpa ao fundamental: o amor, a maior e menos contraditória das criações divinas. E aí a gente faz a volta completa, porque, de todas as manifestações de amor, o sexo tem que ser a mais original. Tem que ser. E, no final, o começo de tudo. Será possível?

 

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 09h51
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Comentário sobre os comentários

De Castelo

Já notou como os comentários podem ser bem mais interessantes que os “posts”?

(Godofredo Júnior) (godotesperando@directtool.com)

Achei suas opiniões, todas elas, muito idiotas. A maneira de se referir aos animais do período Pré-Cambriano, desculpa, mas aquilo foi absolutamente estúpido. Comparar o andar de um tatu-gigante aos passos de break do Michael Jackson foi, no mínimo, desrespeitoso para com o bicho. No caso, o tatu-gigante. E outra coisa: exceção não é com dois “s” e “z”. E Charles Darwin foi um naturalista, não o primeiro-ministro da Inglaterra.
No mais, amei o texto. Parabéns.

(lola)

Kual é u teu signu, hein?

(uscara)

Legal esse lance das tattoos! Bota uns fotinhos lá pra genti vê o disáine dos bichus! Ae, vai lá nu meu blog www.uscarananite.zip.com. Add nóis!

(Athayde)

Lola? Lolinha? Gostei do jeito como vc escreveu “signo”. Personalidade a tua, menina. C tem msn?

(neide s.)

Me senti devassada, lesada, manipulada e estuprada com seu texto. O senhor é um beócio de um pretencioso e suas teses não resistem à meia hora de metodologia científica séria. Como assim, “o urubu-macho assume uma posição de destaque no bando por ser portador de um falo”? De que site vagabundo de Zoologia o senhor arrancou tal falácia?
Morra com a boca cheia de formigas tanajuras, seu machãozinho de quinta categoria!
(Se alguém quiser ler minha tese sobre o assunto, procure a Secretaria de Antropo na USP. Tá 10 reais com a Zulmira do C.A.)

(lola)

kem é vc, athayde?

(rubão)



(Morgana)

Vai no meu flog: vendo tatus e urubus do Pantanal empalhados. Tá no Mercado Livre também. Palavra-chave: aspirina do urubu.

(Athayde)

Sou um que, sempre que te vê, se admira com teu brilho – apesar de nunca te enxergar, Lola.

(Jon Anderson)

Vai se fudê! Vai se fudê! Vai se fudê! Vai se fudê!

(Zaidan de Capivari)

Godofredo, meu, como tu é cabeção, velho. Cê num viu que o post do cara não é sobre pré-história? Ele tá falando sobre os dinossauros do rock, meu! T. Rex é uma banda, não um gênero de tatu do paleozóico, se liga, cara! Vai se ferrar.

(rubão)

??

(lola)

thayde! thayde, cadê vc? lolaloira@msn.com.

(Pamela)

Seu texto é preconceituoso para com os anões. Mas agora existe uma ONG que defende os interesses da gente: nanonanet.org.br
Cliquem e denunciem!

(Palhacinho Sidarta)

Conheça o Buffet Infantil “Paca-Tatu-Cotia-Não-da-Índia”! A festa de seus filhos vai ser uma tranqüilidade! Leituras de textos vedas, prática de iôga, aromaterapia e massagem profunda em suas crianças para que elas relaxem, durmam e deixem papais e mamães livres para o churrasco, cerveja e pagode. Vendemos incenso soporífero "New Delhi" sabor framboesa. www.pacatatucotianao.com.br

(Jon Anderson)

Vai se fudê! Vai se fudê! Vai se fudê! Vai se fudê!

(Athayde)

Pamela? U-huuuuu! Sabia que sou louco por anãzinhas? Qual a sua altura? Meu msn: atame@hotmail.com
Tô online, vai lá baixinha, vai…

(rubão)

...

Castelo é www.castelorama.com.br.

Escrito por Blônicas . às 10h47
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Declaração Universal dos Direitos do Michael Jackson

Por Henrique Szklo

1) Todo Michael Jackson nasce preto, pobre e com voz fina, até que um dia o pai começa a bater nele e só pára quando ele fica branco e rico. A voz, no entanto, o pai jamais consegue consertar;

2) Todo Michael Jackson tem o direito de acreditar que pode ficar branco sem ninguém achar estranho;

3) Todo Michael Jackson tem o direito inalienável de comer criancinhas, mesmo sem estar vinculado ao partido comunista;

4) Todo Michael Jackson tem o direito de não aceitar ser chamado de Peter-Pan-com-nariz-de-Barbie;

5) Todo Michael Jackson tem o direito de jogar quantas crianças quiser pela janela de seu hotel, desde que, é claro, esteja com as diárias em dia;

6) Todo Michael Jackson tem o direito de fazer escova e chapinha;

7) Todo Michael Jackson tem o direito de fazer quantas cirurgias plásticas desejar, desde que não fique parecido com a Diana Ross;

8) Todo Michael Jackson tem o direito de ter filhos sem praticar sexo. Com mulheres, entenda-se;

9) Todo Michael Jackson tem o direito de ter uma cama bem grande, com capacidade para receber até uma classe inteira do ensino fundamental;

10) Todo Michael Jackson tem o direito de gostar de meninos e dormir abraçadinho com eles, mas se ele chegar perto do meu filho eu encho o desgraçado de porrada.

Conheça mais direitos. Clique aqui.

Henrique Szklo tem direito de escrever no Blônicas todas as sextas. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa (próxima turma: de 20 a 24 de fevereiro).

Escrito por Blônicas.. às 11h15
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Uma ponte para o nada

De Leo Jaime.

Lendo o noticiário, vejo um apanhado de opiniões sobre as obras mais feias de São Paulo. São muitas. Interessante a reflexão sobre o que deve ou não permanecer na identidade da cidade, o que pode mudar, o que deve ser construído e destruído. A conclusão, do embate iniciado pela ameaça do prefeito em demolir o famigerado minhocão, é a de que a tal obra é mesmo a mais feia da cidade e merece o esquecimento. Mas algo me chamou a atenção.
Em meio a várias atrocidades arquitetônicas há uma que destaco. A verdade é que o destaque foi alguém quem deu, e não me recordo mais. Só lembro do comentário: é a coisa mais inútil que já se construiu! O dito se referia a um elevado que existe na Av Nove de Julho, entre o túnel que fica sob a Avenida Paulista e o Vale do Anhangabau. O elevado começa e acaba na mesma rua e tem um objetivo: sobrevoar uma praça.
A idéia, vamos tentar apurar, devia ser a de acelerar o passo de quem ia para o centro. Não tendo que parar no contorno da praça ganharia alguns segundos. Será? Pois é, mas logo neste trecho elevado, ali em cima, há um daqueles malditos radares e a velocidade é proibida para mais de 60 KM/h. Para uma pista livre é muito baixa a velocidade, parece golpe para arrecadar mais, e deve ser, mas como tem hospital na área e é zona residencial, é compreensível que os carros devam passar sem pisar fundo.
É muito feio aquilo. É também inútil. Deve ter ajudado a alguém que fez a obra a conseguir alguns votos no bairro. Obras inúteis são a meta sublime da corrupção. Pode ser que um filho porra-louca de um corrupto tenha ganhado um apartamento com aquela obra insana. Claro, estou divagando. Imagino aquela ponte para o nada como uma cicatriz na cara da cidade. A feiúra de seus traços aponta para nossas principais doenças e defeitos.
É removível.

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h38
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Abaixo a relatividade

De Rosana Hermann.

A mente humana é comparativa, não adianta. E quanto mais egocêntrico mais sofremos com o vício da comparação. Comparamos o que somos e o que temos com todas as pessoas que nos importam, sejam elas do nosso círculo de amizades no mundo real ou no paralelepípedo de ídolos do universo midíatico. E, como comparar é medir, depois da medição, os resultado despertam nossos sentimentos mais básicos: odiamos todos os que têm o que adoraríamos ter mas não temos e amamos todos os que estão abaixo de nós na nossa própria escala da comparação.

Esse pensamento ridiculamente simplista explica muita coisa, por exemplo, por quê é tão fácil ser bonzinho, generoso e ter compaixão pela turma da base da pirâmide social. Por isso é tão fácil e confortável gostar do motorista do ônibus da excursão, da tia da cantina na escola, da faxineira no ambiente de trabalho. Isso explica até por quê todo mundo se encanta com figuras como o Agustinho do Big Brother. É fácil ter afeto por quem não nos ameaça, ou seja, quem está fora da paranóia da nossa competição, seja por status ou beleza. Difícil é conviver com a concorrência.

A concorrência sempre provoca inveja, pois as medidas da comparação podem pender para o outro lado e colocar a gente em desvantagem. Isso nos obrigada à uma vaidade ativa o tempo todo pois se você não faz nada e o outro melhora, na comparação, você é que fica para trás. Por isso as mulheres pedem tanto a D’us que, se não puderem emagrecer, que ao menos suas inimigas engordem. Se você fica como está e todo mundo à sua volta perde peso, imediatamente você passa a ser a mais gorda ou gordo do time. Competição é assim, sempre tem alguém querendo bater seu Record!

A solução? Não comparar, fácil de escrever, difícil de realizar. O vício é grande, o impulso é instintivo. Mas quando o olhar da comparação brotar, quando o pensamento da medição surgiu, tente afastá-lo. Pense que você é absoluto, que nem tudo é relativo; que você é uma Brastemp, que não tem comparação. Quando você descobrir que você só é comparável a si próprio vai entender o que um querido professor de matemática sempre dizia: se duas coisas forem iguais elas não são duas, são uma só. E um só, é o que você é.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h53
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