![]() |
|
COLUNISTAS
MILLY LACOMBE XICO SÁ CLÉO ARAÚJO NELSON BOTTER JR TATI BERNARDI LEO JAIME ANA REBER HENRIQUE SZKLO GIOVANA MADALOSSO CARLOS CASTELO BIANCA ROSOLEM LUSA SILVESTRE EDSON ARAN SILVIO PILAU
AQUI VOCÊ TAMBÉM ENCONTRA:
Ailin Aleixo Antonio Prata Carol Marçal Cristiana Soares Evandro Daolio Gisela Rao Marcelino Freire Rosana Hermann Paulo Castro E MAIS: Alexandre Heredia Ana Paula Ganzaroli Analice Alves Edgar Costa Neto Felipe Soares Machado Helena Marcolini Isadora P. Szklo Klauss Klein Lívia Venina Lu Paiva Luís Couto Luis Gonzaga Fragoso Marcelo Ferrari Marcelo Sguassábia Mauro Judice Ricardo Campos Soares Ricardo Prado Thaís SBA Thaty Hamada
ARQUIVO
|
A miséria é linda
De Henrique Szklo A pobreza é a coisa mais linda do mundo. Supergráfica, com aquele num-sei-quê de trágico, de uma dinâmica estagnada, um caldo de cultura preparado com sofrimento, suor e lágrimas. É realmente deslumbrante. Eu, quando me aproximo da pobreza, sinto um arrepio percorrendo todo o meu corpo. Meus chácras se acendem e eu quase sou capaz de soltar raios pelas pontas dos dedos. É uma energia pura, vital, visceral, pseudo-cívico-antropológica. A pobreza tem sido muito mal-aproveitada pela elite pensante deste mundo ego-globalizado que se resigna a ficar com pena e a fechar os vidros de seus carros blindados, estereótipos de frieza e exclusão sócio-automobilística. Não, um rotundo não! Temos obrigação de ter orgulho da nossa pobreza, festejar a desgraça que toma conta deste planeta tão rico em diferenças, tão multifacetadamente miserável, tão oligopolicamente falido, uma verdadeira aldeia arqui-global egotrípica. Os intelectuais de todos os países precisam reinventar o seu apoio à pobreza. Precisam reconhecer finalmente que se existe um patrimônio mundial que merece ser preservado é a miserabilidade de nossa gente e a sua extraordinária beleza. Não existe nada mais deslumbrante que esgoto a céu aberto, casas construídas precariamente, utilizando material alternativo como placas de madeira, papelão, zinco e plásticos. Crianças raquíticas são o must. E a sujeira é bela. A sujeira é tudo. É linda. É maravilhosa. É a mais retumbante e misógina linguagem universal. É através da sujeira indivisível que o ser humano se comunica. Que se atrai e se repugna. Eu, se pudesse, seria miseravelmente pobre só para me converter em um orgulhoso protagonista da precariedade subestigmatizada, arquiteto da penúria zéninguémniana. Seria genial. Mas eu tenho um compromisso maior com a cultura contemporânea, com a desintoxicação visual de nossas mentes, com a desconstruturação verbal e sintática de nossa língua para uma futura pragmatização helênica do objeto falado. Tenho de estar livre para desempenhar meu papel cognitivo de artista de vanguarda e porta-voz do novo mundo multi-orgasmático, da nova arte pluri-enviesada, do novo homem espiritualéxico, intelectualardeando o grande hip-hop new-evangélico. Mas aqueles que quiserem se embrenhar corajosamente nesta proposta tão radical-micho terão todo o meu apoio artístico, mental e cogni-cívico. Mas apenas isso. Porque se vier pedir dinheiro eu vou meter a mão no desgraçado. Detesto pedinte. Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e queria ser o Arnaldo Jabor. Conheça seu site, o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. Anacrônica
De Leo Jaime. Eu não sei mais escrever. Não sei mais. Será que soube um dia? Será? Não sei. Talvez fosse só o amor ao que lia transformado em desejo de ser também bom com as palavras. Talvez fosse só vontade. Talvez. Não sei. Preciso confessar isso. Será que alguém me lê? Não tenho mais o olhar fixo do interlocutor imaginário em minha mente, quando começo a preencher o vazio com palavras. Não sei mais quem é o interlocutor e escrever sem saber para quem é como navegar sem saber para onde: não há vento que ajude. Temo as idéias comuns, mal aparadas, os clichês, a ausência de um sentimento que perpasse o texto ou lhe confira sentido. Vai ver é isso: não quero dividir meus sentimentos com o interlocutor que não distingo. Onde é o trema nesta porra de teclado? Não sei a merda do português e nem como mexer nesta engenhoca. E engenhoca é uma palavra velha, de velhos e eu devia aposentá-la. Alguém lê o que escrevo? Você aí, seja bem vindo a esta crise. Sincera e imbecil. Talvez seja importante saber: escrever por quê? E, sempre, só porque, e se, alguém lê. Antes, quando era movido pela ilusão de que produziria algo importante para mim ou alguém, havia a sensação de brincar com as palavras. E os significados iam surgindo, surpreendentes, reveladores. Driblando a língua, trapaceando. Qualquer instante era uma história pra contar. Não precisava ser uma argumentação, muito menos fazer sentido. Que conferisse um pouco de sabor à leitura e pronto. Um efeito, um sentimento, uma frase que fosse. Há uma parte em mim que ainda continua acreditando. Que percebe as ausências, os hiatos, a dureza e a pouca profundidade. Sou eu que não estou lá. E há uma parte de mim que ainda percebe isso. Que o texto fosse um espelho, ou uma janela. Que jorrasse nele um pouco de sangue ou porra, ou que fosse cheio de gritos e risadas. O silêncio é o grito que dói mais no ouvido. Talvez o que doa seja não ver alma no que escrevo. Vai ver é isso. As idéias não sustentam nada. Não há argumentação interessante que possa sobreviver sem um vislumbre d’alma. Agradeço ao leitor se me acompanhou até aqui. Textos atuais pedem brevidade. Pedem muitas coisas. Não sei se as tenho para oferecer. Sinto o impulso de escrever, mesmo sem saber. Sigo indagando. Oras, também não sei viver. Tenho, ao menos, uma meta: achar a própria alma na próxima linha. Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas e está em crise. Hora do almoço
De Rosana Hermann. Uma coisa é comer, outra coisa é almoçar e outra coisa é a hora do almoço. Pelo menos par Amim. Eventualmente posso almoçar, sentada à mesa e comer, justamente neste horário, em algum momento depois do meio dia. Mas nunca associei as coisas de maneira direta. Pelo contrário, durante muito tempo usei este período para fazer reuniões de trabalho, caminhar, resolver problemas bancários, fazer uma compra rápida ou praticar esportes. Lembro de muitos períodos da minha vida em que a hora do almoço significava pegar a mochila e ir nadar. Depois do banho, feliz da vida, eu tomava um iogurte, uma vitamina ou comia um pão de queijo, mas sempre em pé ou em algum balcão, raramente me sentava oficialmente para comer. Sei que há pessoas que usam o mesmo horário para a prática de sexo alternativo. Pelo menos é que concluo ao ler cartazes nas portas de motéis oferecendo um certo tipo de almoço executivo que, suponho, envolva mais de um tipo de comida. Mas acho que a prática já está démodé. Atualmente, por acaso, freqüento um restaurante self-service por quilo diariamente. Quando o programa Pânico na rádio Jovem Pan termina, todos nós vamos juntos almoçar. Como pouco, mas não falto às conversas sempre ligadas ao trabalho. O momento é prazeroso e a comida é saborosa, mas se eu tivesse opção, preferia nadar dois mil metros e comer um pão de queijo na saída, meu ideal olímpico para a hora do almoço. Talvez por esta interpretação flexível sobre a principal refeição do dia feita à luz do sol eu tenha ficado tão impressionada com o jeito de um senhor que conheci, um caseiro em Campos do Jordão, de quase oitenta anos de idade, o Seu Vicente, que sempre repetia uma história com indignação. Ele contava que um amigo seu acordara normalmente, numa segunda feira e depois de trabalhar, tinha voltado para almoçar em casa. O homem, dizia Seu Vicente, pegou o prato, serviu-se de arroz e feijão nas panelas do fogão, colocou a farinha, colocou o prato sobre a mesa e, ao pegar os talheres, antes mesmo de começar a comer, foi atingido de forma fulminante por um raio e morreu. Mas o que deixava Seu Vicente inconformado não era a morte em si, algo que fazia parte da vida, mas o fato do homem ter morrido sem tocar no prato. “Dona Rosana”, repetia ele, “ele morreu sem almoço. Sem almoço, nem tinha encostado no prato...” Não sei se o fato de ir para a vida eterna em jejum é tido como um castigo ou se a refeição seguinte custa a chegar, só sei que Seu Vicente nunca aceitou esta tragédia de partir desta para uma melhor com o bucho vazio. Isso foi há muito tempo e imagino que hoje Seu Vicente não esteja mais entre nós. Mas sempre me lembro dele quando chega a hora do almoço e por acaso estou com um prato servido de arroz e feijão, pronto para ser colocado à mesa e saboreado. Nesses momentos, fico torcendo para que Seu Vicente tenha ido para o céu com a fome bem saciada e que esteja em alguma nuvem macia desfrutando de sua merecida siesta , logo depois do almoço. Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. A cônica du tio Botti
De Nelson Botter. Cuticuticuti; o que é isso?, você fala assim com seu(sua) namorado(a)?, igual nenê, sabe?, aquela coisa de bancar a criancinha, imitando um bebezinho ou simulando a fala de uma pessoinha de 2 ou 3 anos, axim bein bunitinhu, pedindo colo e tudo mais?; pois é, essa coisa meiguinha e ridícula é termômetro para saber se uma relação tem um carinho a mais ou não, é sério, verdade!, quem não brinca assim intelectualiza demais, deixa com um ar muito adulto a relação, algo se perde, vão querer discutir James Joyce na cama, no jantar a dois vão falar da queda na Nasdaq; mas espera aí, não estou dizendo que suas conversas precisam ser fúteis, tampouco que se você não tiver esse tipo de cumplicidade boba com seu(sua) parceiro(a) sua relação não será afetuosa, nada disso, apenas será tudo muito mais sério do que deveria, muito mais, fica meio chato, e seriedade demais é um pé naquele lugar, é sério; saiba que falar como bebê é sadio, apesar de parecer extremamente tolo e fútil; estudos comprovam que falar assim com os recém-nascidos é importante, desenvolve o afeto, é uma linguagem que estimula sei lá o que sei lá onde, fazendo do bebê um indivíduo mais feliz, logo, isso apenas se repete, pois a vida é repetição graças ao inconsciente que sempre busca saciar suas carências e coisa e tal - já dizia o Sigmund - portanto concluímos que no amor é necessário ser infantil, ridículo e brega; aliás, no amor ser brega é ser chique, é o que conta pra valer, e esse é o ponto, deixe seus conceitos e preconceitos de lado e embarque nessa, pinte o sete, volte ao jardim da infância, mal pronuncie direito as palavras, mas divirta-se, crie uma cumplicidade gostosa e não tenha medo de parecer um bocó, pois no final das contas todos somos, de um jeito ou de outro; então vai lá, proponha uma regressão casalzística, voltem a ter 5, 6, 7 anos, podem até brincar de médico, e depois me diz: foi bom pra você?; eu to iperando aqui pá sabê. Nelson Botter é o cronista das terças por aqui, escrevendo também ali: BlogGol. Ela ainda está lá
De Tati Bernardi. Você passa fio dental, bochecha três vezes, cora as bochechas dando umas beliscadinhas. No fundo dos seus olhos você a vê, tudo bem, ontem ela estava lá e eu não morri, hoje também não vou morrer. Você volta pra sua mesa, o e-mail diz que hoje é dia de frutas e você vê a empresa inteira se debatendo pra descolar uma banana. Você quase, quase ri, mas a tempo ela te lembra que o luto ainda não acabou, felicidade mesmo seria ligar para ele e dizer "a galera tá se degladiando por uma banana" e rir com ele, era muito melhor rir com ele. Seus amigos te chamam para almoçar, você dirige até lá, se senta, pede a mesma massa ao funghi, faz as mesmas piadas a respeito da louca, do gay, do bafento e do carrasco. As mesmas piadas que antes você fazia e tinha o peito leve, o peito que pertencia a alguém. Agora você é livre e pesada. Uma ou outra batida mais feliz da música te faz querer balançar a cabeça, quem sabe mexer os ombros, por que não sair pra dançar? Por que não esquecer tudo isso? Ela grita, ela esperneia, ela te lembra de novo: olha, se você não me deixar viver agora, eu vou viver pra sempre. O que você prefere? Tá bom, dor, tá bom. O que você quer de mim, então? Semana passada eu deixei você chorar com aquele showzinho musicado do iPhoto vendo todas as nossas lembranças, desde ele saradão escovando os dentes na primeira viagem, até ele já barrigudo lendo seu livrinho na última viagem. Não tá bom? Depois a gente encontrou juntas aquele bilhetinho dele "Amorzinho, vai passar rápido." de quando ele foi viajar, lembra? Poxa, a gente olhou para o bilhetinho e chorou tanto, e sofreu tanto, e se contorceu tanto, não tá bom? Não chega? Eu já fiz muito por você, agora queria algo em troca, será que pode ser? Eu queria comer um prato inteiro de nhoque ao sugo sem querer vomitar tudo depois, eu queria dormir a noite toda, sem despertar assustada, vazia e perdida. Eu queria, de verdade, colocar dentro de um saco as três perguntas "Por quê?", "Pra quê?" e "Até quando?" e pedir para uma criança bem fofa, bem pura e bem feliz fazer aquela brincadeira de encher, encher, encher, até estourar. Eu estou cheia desse assunto, será que podemos estourá-lo? Sabe, dor, depois de passar anos evitando você, nesses últimos dias eu descobri que, por mais insuportável que você seja, eu sou maior do que você, eu até consigo conviver com você. Tá bom, vai, eu deixo você morar aqui mais um pouquinho, afinal tão cedo você não tem para onde ir. Mas não se acomode, não se acostume, não faça raízes. Essa casa em que você mora é alugada e eu nunca vou vender. Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados. Virtual, demasiado virtual
De Henrique Szklo Ano 2015. Mais de 10 bilhões de seres humanos compartilham este pequeno e combalido planeta. Não existem mais governos. As empresas resolveram assumir publicamente o que já faziam há anos por debaixo do pano, ou seja, mandam em tudo. Não existe mais dinheiro físico. Apenas virtual. Os documentos seguiram o mesmo caminho. Agora, ao nascer, a pessoa tem implantado um chip em seu organismo que controlará todas as atividades do indivíduo até sua morte. Morte esta que foi adiada a níveis nunca vistos, já que o chip também controla as funções orgânicas e está ligado à uma central médica que alerta o cidadão em caso de alguma doença ou deficiência. As pessoas não sabem mais escrever. Os computadores reconhecem voz e fazem este serviço por todos. Não existem mais HDs nos computadores ou qualquer tipo de mídia. Gigantescos computadores, ou os Grandes Servidores, como são conhecidos, guardam todas as informações que existem. Servidores estes que são controlados, óbvio, pelas grandes corporações. Daí o seu poder. Não existe mais privacidade. O tal do chip que todos têm em seus organismos está ligado à sistemas GPS que localizam qualquer pessoa em qualquer lugar. Registram sua voz, o som ambiente, temperatura e até odores. Este último item em particular causa um certo desconforto tanto no emissor quanto no receptor por razões óbvias. O consumo foi amplamente facilitado neste momento. Como todas as informações estão centralizadas, basta a pessoa ir a uma loja, pegar o produto que deseja e na saída passar por um aparelho que registra o número de seu chip e os produtos que levou. O dinheiro é automaticamente transferido da conta do cliente para a conta do comerciante. Não há mais vendedores, caixas, nada. Numa evolução recente e extraordinária desta tecnologia, um novo chip é capaz de ler pensamentos. Resultado: as pessoas estão rapidamente deixando de falar, fato que está contribuindo decisivamente para a diminuição de conflitos e mal-entendidos (é assim que escreve?). É claro que ninguém lê o pensamento alheio sem autorização, já que cada um controla o que é compartilhado e o que não é. Exceção feita às grandes corporações que lêem o pensamento de quem bem entender sem pedir licença pra ninguém. Vantagens de se ter o poder. Os celulares não existem mais. A capacidade de ler pensamentos associada aos Grandes Servidores tornou o homem capaz de se comunicar com quem quer que seja, apenas com a força de seu pensamento. Acabaram-se as escolas. Todo conhecimento é transmitido wireless, para o chipizinho. Dizem até que os Grandes Servidores tem capacidade de interferir no pensamento das pessoas, incutindo idéias, formando opiniões, enfim, controlando mentalmente os portadores de chip. Mas ninguém nunca conseguiu provar isso. Até porque quem tentou, inexplicavelmente desistiu e mudou de opinião num piscar de olhos. Estranho... No final das contas, os Grandes Servidores se transformaram numa espécie de consciência coletiva, acumulando todo o conhecimento humano. Os cidadãos agora são terminais de um grande computador. Como não poderia deixar de ser, boa parte da humanidade passou a adorar os Grandes Servidores como Deus. Santa tecnologia! Não há mais guerras nem qualquer tipo de conflito, já que o poder está centralizado e não há razão para se disputar nada. Há quem acredite que, em breve, o chip, como nos antigos celulares GSM, poderá ser retirado de um corpo defeituoso e ser instalado em outro novinho em folha, sem perda de informações. A tão sonhada reencarnação digital. O ser humano, portanto, alcançou um nível de desenvolvimento jamais imaginado. Nunca uma espécie em todo o universo evoluiu tanto em tão pouco tempo. Que maravilha! Um belo dia, por razões ainda desconhecidas, ocorreu uma crise energética de grandes proporções e os Grandes Servidores desligaram. Shut down, baby! Os que sobreviveram à hecatombe, se instalaram em cavernas e voltaram a estabelecer uma comunicação analógica, através de grunhidos incompreensíveis. Próxima parada: descobrir o fogo. Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e tem duas bolas de cristal. Conheça seu site, o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa (agora pela internet, inscreva-se já!). A água do mundo
De Leo Jaime. Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras. Gangue gay
De Paulo Castro. Mantenho aqui as abreviações, eliminei trechos, fui arbitrário, isso não é um estudo científico, temos aqui peixes, amostras, eu começo a fala, os outros orkutianos seguem e eu vou debatendo de maneira agradável: 1) Saí com umas pessoas gays que não sabiam da minha opção. Lá no bar, fiz trejeitos, desmunhequei, ri jogando a cabeça pra trás. Quando um deles pegou e apertou minha coxa, eu disse :- Sou heterossexual. Apenas estou me comportando de uma forma alegre. E acho vcs legais. Só não quero comer vcs ou ser comido por vcs. Amigos? Ficaram bravos.Todos me deram as costas. Preconceito? 2) Vc riu, "trejeitou", desmunhecou, virou o pescocinho...E não queria ser cantado? De certo viraram as costas pois não gostaram da brincadeira. Ah! Inventa outra história para justificar a homofobia. Essa não colou. 1) ...vcs não acharem nada disso.Não querem igualdade ? Estranho mesmo.Acho que vou publicar minha coluna sobre isso. 3) Realmente, vc representou um personagem que não é totalmente verdadeiro. Vc pôs na cabeça que todo gay desmunheca, ri com cabeça para trás, etc., o que não é verdade! Deve ter sido por isso que eles ficaram com raiva!!! Porque vc não foi vc mesmo? Por que interpretar esse personagem? 1) Baby : eu sou assim.Não representei nada.Eles que interpretaram meus gestos como gestos exclusivamente pertencentes aos gays. O que é homofobia sentida pelos próprios gays. Que também falam muito pouco. Para não cair em contradição. E porque, o que importa, no fim das contas, é o final da madrugada. 4) Interessante o seu relato. Só não entendi uma coisa... desde o princípio, vc fingiu para realizar um tipo de pesquisa? Se sim, acho que isso incomodaria em qualquer ambiente porque rompe com uma questão ética que sequer tem a ver com isso. Por exemplo, eu sou professora universitária e estou fazendo minha pesquisa de doutorado. Suponhamos que eu fosse a campo e fingisse ser para o meu grupo de pesquisa (que não está ciente disso) se eu fingisse ser parte deles, com características do grupo (que não são minhas pq as finjo), por exemplo, se investigo um terreiro do candomblé e danço nos atabaques simulando incorporações, nada mais natural que quando descubram minha tradição declarada posteriormente cristã, nada mais natural que se sintam traídos. Não pq são do candomblé, mas por causa do mascaramento da minha identidade. Nem sei se concordo com isso que acabei de escrever, só estou querendo pensar com vcs.O q vc acha? 1) Primeira coisa : A pesquisa bacaninha, aquela que a FAPESP aceita e não só o CnpQ, tem uns termos éticos.O que é ética ?O lugar interessante de onde uma pessoa fala. Só isso. Aristóleles in "Retórica".E eu não fingia nada. Me deu vontade de agir daquela forma, vontade e potência, estava "feliz" da vida e o corpo expressou isso. Só significantes. Foram os gays que fecharam o significado, o que é uma ditadura discursiva.E gostei disso: uma coincidência: A colocação mais sóbria é a de uma HETERO( vi seu about me). Isso prum homofóbico é prato cheio.Deus nos livre! Mas o negócio não é botar a boca no mundo, se organizar?Lutar pelos direitos ? Então por que o joguinho nerd-gay tem trocentos participantes aqui, a propaganda de livro gls (que existe, aliás, desde Homero), enfim, coisas sem impacto? Que não "causam".Beijinhos modernos. 5) naum entendi kual foi a sua, mas vc teria toda razão se vc tivesse sido vc, e ele tivessem ti ignorado"! O ponto q vc se passou, por uma outra pessoa! claro evidente q eles agiriam contigo de acordo com oq vc estava se passando ser! talvez seja por isso, vc se passou por um outro alguém, e foi isso q xateou eles. Creio q se vc tivesse sido vc mesmo, dexando claro oq vc é, naum todos, mas muitos naum virariam as costas pra ti! 1) ok.mas eu me passei pelo o que eu sou.não fingi nada.Tentei entender tua argumentação, apesar dos signos estranhos, e se entendi vc ( eu tb. uso signos entranhos ) diz :- não deveria ter desmunhecado pois isso é coisa de gay.É isso?Alguma patente sobre gestos? Uma informação é um signo.O que é um signo? É um significante + um significado.Quem oferece o significante é o emissor,quem oferece o significado é o receptor.O signo é livre por definição.Se eu digo o significante "cadeira",vc imagina a deliciosa cadeira que bem lhe apetecer. Não posso te obrigar a imaginar a minha cadeira. Nem vc pode ficar chateado (esse termo é interessante) por eu não ter imaginado a sua cadeira. Só com esse respeito, o signo não é desviado de sua referência. 6) Acho que o gay ao ser deixado de lado tem que respeitar,eu vou em balada gay,eu danço,tiro a camisa,meus amigos jogam bebida em mim ,passam a mão,me zoam,eu morro de rir.... Mas quando chega algum de fora eles logo falam"Cara,O cara aqui ´pe nosso amigo,mas ele é HT nem tenta q ñ rola!". Ou seja,acho que se os caras são seus AMIGOS mesmo,eles te conhecem,se eles viraram as costas p/vc pq vc ñ quis ficar ou dar atenção aos desejos deles,eles ñ eram seus amigos.... 1) Então tem no mundo gay um "gente de fora" e um "gente de dentro". mas mesmo não sendo gay ( com vc não rola), vc é "de dentro". como vc entrou no meio deles ?Fiquei curioso. 6) Eu tive 14 anos de carreira internacional,fui modelo por todo o mundo....e vc faz idéia de como rola essas paradas gay e esses lances aí nesse meio da moda???!Nem falo nda...E tbm pq eu fiquei com um carinha qdo eu tinha uns 20pocos anos e sempre curti baladas e as melhores eram gls,nunca tive problema com isso,minha curiosidade já passou,provei,foi legal,mas ñ é a minha praia,simples. 7) Simplesmente patético. 8) Patético não, atual e necessário. Todos seres humanos, independente de sexo, religião, raça, classe social ou opção sexual. Todos humanos, carne e osso... e alma, muita alma. 1) Obrigado, gente.Espero ter sido útil de alguma forma, como uma cara legal, gostoso, elegante, pau no rabo, sacado, mente aberta, homofóbico, homosarro, heterohomo.Vocês foram muito úteis e vão ajudar muita gente que precisa ver a luz do sol brilhando no céu. Nos vemos nas baladas. Beijos. Paulo Castro é cronista do Blônicas e arqueólogo orkutiano. A saga dos mistérios - parte 4 - a sorte
De Nelson Botter. Existe sorte? Alguns afirmam que não, que tudo na vida é uma simples combinação de competência e oportunidade. Outros deixam nas mãos do destino, está tudo escrito em algum lugar, seja nas estrelas ou no manual da geladeira, sabe-se lá, é como um quebra-cabeça, as peças vão se encaixando conforme o momento e no final tudo fica do jeito que deveria ficar, como se a vida fosse um jogo de cartas marcadas, do tipo que nem precisa ser jogado. Tenho sérias dúvidas, acho essa de destino uma opção muito conformista, e eis que a sorte ganha a vez na saga dos mistérios da vida. O último filme de Woody Allen (Match Point) fala de sorte, mostra que ela existe, tanto que a frase final é a de um pai desejando ao filho não ser bom em algo e sim ter sorte. Eis o ponto, quem tem sorte vai longe, supera até os melhores. Faz sentido, pois na competição do dia-a-dia qualquer fator pode influenciar diretamente uma vitória ou derrota, entre ser escolhido ou preterido, entre ter portas abertas ou fechadas. Assim, pode-se dizer que a sorte é fator determinante na vida, apesar de não ser isolado, pois depende de outras ações que permitam sua influência. É o mistério agindo, é a explicação para tantos medíocres se darem bem, tanta injustiça divina. As coisas não caem do céu, é obvio, mas muitas vezes elas simplesmente acontecem, mesmo sem você fazer muito para que elas aconteçam. Detalhe: eu disse sem fazer muito, ou seja, é necessário fazer pelo menos um mínimo. Um cara no World Trade Center, na torre 1, estava descendo as escadas quando o prédio veio abaixo. Cento e poucos andares de prédio caindo e ele no 21o andar. Morreu? Que nada, de alguma forma o andar em que ele estava ficou praticamente a céu aberto, por cima dos destroços, com algumas coisas por cima, mas rapidamente foi resgatado. Aquele prédio todo caiu na cabeça dele e o saldo foi uma perna quebrada! Combinação de competência e oportunidade? Acho que não. Ele fez aquilo acontecer? Tampouco. Não era o destino dele morrer ali? Ninguém sabe. A única coisa que podemos dizer com certeza é que ele teve sorte, muita sorte, aliás, muuuuuuuuuita sorte. Quantos competidores segundos colocados, que de longe viam o primeiro se distanciar cada vez mais, foram beneficiados por uma súbita contusão desse primeiro? Medalha de ouro no peito mesmo não sendo o melhor dos melhores. E isso se aplica para tudo, até para um emprego. Você não era a primeira opção, mas o outro candidato por algum motivo desistiu. Pronto, sorte sua... ou dele, vai saber, quando o assunto é emprego o mistério é maior ainda... E uma aposta? Será simples probabilidade, simples matemática, coisa que qualquer Pitágoras sabe a resposta de letra? Não creio. Para jogar com as probabilidades é preciso ter sorte, escolher o certo e não o errado, e isso nem sempre é lógico. Enfim, mais um dos mistérios que sempre continuará mistério, pois não existe explicação palpável, só suposição, e essa é a beleza da coisa, o charme da escolha, do "no que devo acreditar?". Só sei que quer você acredite em sorte, quer acredite em destino, me despeço de mais esse capítulo da saga dos mistérios da vida levando a dúvida comigo. Talvez, quem sabe?, alguém nos comentários nos brinde com a resposta. Será pura sorte. Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol (atualizado). O beijo, o “xêro” e os seus arredores
De Xico Sá. Do cheiro ou simplesmente "xêro", como se diz na lexicografia caseira e no fonema nordestino. Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. Um dia de pura diversão
De Milly Lacombe. Vi que o dia seria divertido quando abri a gaveta para pegar meu passaporte e percebi que ele estava vencido. Ou seja, para quem pretendia viajar para fora do país dali a quatro dias, momentos de pura correria e adrenalina apontavam no horizonte como tsunamis. A diversão começou quando soube que precisava da cópia da passagem para conseguir que o passaporte fosse confeccionado em 24 horas. Achei muito conveniente. Pois eu só pretendia pagar pela passagem quando o passaporte estivesse renovado e em minhas mãos. Mas o sistema, o adorável sistema, manda que você primeiro gaste, e depois, emoção à flor da pele, saia freneticamente pela cidade atrás dos documentos que lhe renderão um novo passaporte. Bilhete emitido, é hora de reunir num envelope (porque sou uma pessoa extremamente organizada) toda a papelada necessária: CPF, RG, título de eleitor, comprovante de votação da última eleição, documentos preenchidos, fotos e a taxa paga no banco. Míseros 90 reais. E lá fui eu, ainda com o batimento a 140 por minuto, para um dos maravilhosos postos da Polícia Federal. A imagem era delirante: um mar de pessoas, todas organizadas de forma caoticamente controlada, esperando por atendimento. E é nessa hora que tem início um exercício que provavelmente irritaria Buda: você pega uma senha e senta (com sorte, porque o número de assentos é sempre menor do que o número de almas suplicando por atendimento). Mas com agilidade você consegue chegar à cadeira antes da senhora de bengala. Quatro fileiras de assentos são colocadas estrategicamente em frente aos cinco guichês onde exercem o ofício nossos bem humorados funcionários públicos. Ah, a estabilidade empregatícia. Soubesse eu que nunca poderia ser demitida, trabalharia de forma ainda mais carrancuda, só pela diversão. Seu número é o 56 e você percebe que o placar eletrônico chamou o 30. Nada mau. E aí, de frente para os guichês, a diversão de fato começa. São cinco, e apenas dois estão funcionando. Os outros três, solenemente vazios. Você, muito curiosa, levanta, perde o lugar para a velhinha de bengala, e vai se informar onde estão os outros três funcionários. “Almoçando”. Claro, faz todo o sentido. Porque é na hora do almoço que nós, os civis, podemos ir renovar o passaporte. Então, por que não diminuir, bem nessa hora, a quantidade de funcionários trabalhando? Nem tudo está perdido. Você percebe que um terceiro funcionário volta do almoço. Agora a fila vai andar. A funcionária chega, cumprimenta muito amigavelmente seus colegas e mostra que é, afinal, capaz de sorrir. Para os colegas. Anda até o seu guichê e quando você imagina que ela vai chamar o próximo da fila percebe que ela, na verdade, vai fazer algo muito mais fundamental: verificar se há grampos no grampeador. Com a agilidade de movimentos de um homem na lua, abre o grampeador e constata que há grampos. Mas não em número suficiente. Então ela vai até os outros guichês, procurar por mais grampos. Enquanto isso, você já toureou um novo lugar na fileira de assentos e está assistindo ao show bem de perto. Ela finalmente acha os grampos e volta ao seu lugar. Movimentando-se como se não houvesse mais gravidade no recinto, abre o grampeador e coloca ali três grampos. Parece satisfeita com a quantidade agora. Finalmente chama uma próxima alma, que se arrasta até o guichê, posição de humilhação, porque, a essa altura você está disposta a beijar qualquer pé pelo passaporte novo em mãos. Depois de quase duas horas, seu número é chamado. Você sabe que reuniu todos os papéis necessários, então, fora o cansaço, está tranqüila.. O homem que não sorri e que parece não ter expressão verifica seus documentos. “Onde está o comprovante de votação na última eleição?”. “Está aí”, você diz, sorrindo, parecendo ser simpática, quase gaguejando. “Você não votou no plebiscito do desarmamento?”. Merda. Então era essa a última eleição! “Votei, votei.”. “Então onde está o comprovante?”. Você não tem a mais remota idéia de onde pode ter colocado aquele papel de medidas microscópicas que jogam na sua mão assim que você exerce seu dever democrático. Mas nessa hora uma constatação importante: o home é capaz de sorrir. É um riso contido, de canto de boca, mas é um sorriso. “Você precisa de uma certidão que prove que você votou”. “E onde eu consigo um desses?”, agora você parou de sorrir e está querendo esganar o cara. “Na banquinha lá embaixo”. “É uma banquinha da Policia Federal?”. “Claro que não”. “Mas então por que eles conseguem emitir isso e vocês não?”. “Próximo!”. Querendo chorar, você atravessa a rua e vai à banquinha. Em dois minutos um pequeno estabelecimento privado emite o tal documento. Você é bem tratada, bem atendida, o homem sorri fartamente, é gentil. E nessa hora você volta a ter fé na humanidade. Privada. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. Toca
De Tati Bernardi. Eu tenho um beijo que alterna do calmo pro intenso, você iria gostar. Acho que você tem olhos iguais ao meu beijo. A gente poderia ser interessante andando com suas mãos longilíneas e eu tão pequenininha. De repente as pessoas poderiam olhar e pensar: lá vai mais um casal que não combina mas por isso mesmo dá certo. Seria lindo. Eu olho tanto meu celular que já decorei de quanto em quanto são cinco minutos. Eu tenho vontade de jogar meu celular numa parede qualquer. E me libertar da vontade de ouvir sua voz. De novo, de novo, eu não canso. De novo fazendo romance em cima de um conto breve. Dois jantares e um almoço. Só isso. E lá estou eu achando que você pode ser um forte candidato a homem da minha vida. Lá estou eu acreditando que exista um homem da minha vida. Se você não ligar, nunca mais, eu vou ficar triste, igual fiquei semana passada porque outro não ligou, igual fiquei semana retrasada porque outro sumiu. Igual eu vivo ficando chateada e vive passando. Eu tenho prostituído demais a minha espera. E as coisas parecem perder a importância toda hora. O problema é que, para perder a importância toda hora, toda hora vivem ganhando importância, e eu estou ficando cansada. Ah, se você me ligasse, a gente poderia ver aquele filme do Bertolucci que eu tô louca pra ver e, se no filme tivesse cena de sexo, eu iria morrer de vergonha. Depois você poderia me fazer alguns elogios, afinal eu passei o dia inteiro com uma touca de creme no cabelo esperando a sua ligação. Os grampos estão me machucando, mas eu agüento a dor, eu agüento esperar. O seu beijo poderia ser daqueles calmos e profundos e a gente poderia combinar tão obviamente quanto é óbvio o silêncio do meu celular. A gente poderia acabar de se beijar e cair na risada, uma risada tão ensurdecedora quanto o silêncio do meu celular. Liga, vai, me dá uma chance. Me dá uma chance de ser extremamente sensual apesar do meu braço torto e das celulites da minha bunda. Ser extremamente sensível apesar de todas as ironias que eu te falo pra você não achar que pode me ganhar. Eu aprendo a gostar de Nick Drake, Velvet, e se bobear até divido um ácido com você. Não, esquece, tô fora do ácido e quer saber de uma coisa? A Britney Spears vai continuar me dando uma vontade louca de dançar. É como você mesmo disse: eu tenho o ouvido burro. Mas eu tenho uma mão esperta, me liga vai? Olha eu mais uma vez me vendendo sexualmente, não, não compre. Compre meu coração, compre minha alma. Recuse minha incapacidade de me achar amada e me ame. Se você me ligasse a gente poderia ter uma conversa séria a respeito da solidão e do tédio do mundo e resolver ser feliz pra sempre. A gente poderia resolver isso e depois resolver que o mundo tem suas limitações e depois resolver que não tem limitação coisa nenhuma. A gente poderia mudar de opinião juntos e tornar a vida menos solitária e tediosa. Olha, é simples, são sete números e uma única chance de conhecer uma mulher super bacana. Que, sim, tem chulé às vezes, tem bafo às vezes, tem ataques de histeria, ciúme e infantilidade às vezes. tá bom, é mais do que às vezes, mas se você me ocupar com bom papo e carinho, eu juro que esqueço um pouco meu lado que não sabe se relacionar. Peraí, tá tocando aqui. tem que ser você, tem que ser você. tem que meeeeeeerda, pena que não dá para processar o "Vivo Informa" por propaganda enganosa. Tati Bernardi é colunista aos sábados e está a procura de um novo amor. Obrigado, Senhor (2° round)
De Henrique Szklo Obrigado, Senhor, por me fazer carequinha e barrigudinho. Obrigado, Senhor, por me fazer exalar odores insuportáveis e incontroláveis, por todo o perímetro de meu miserável corpo. Obrigado, Senhor, por me entortar os olhos e fazer enxergar tudo duplicado e fora de foco. Obrigado, Senhor, por me fazer tão sem sal e sem carisma que até as putas mais rampeiras me ignorem solenemente, sendo também desprezado por todos os mendigos do bairro. Obrigado, Senhor, por me fornecer um nariz que mais parece uma baked potato. Obrigado, Senhor, por me fazer suar em profusão, deixando a minha pele sempre sebosa e grudenta. Obrigado, Senhor, por me dar um pinto pequeno, mal ajambrado e torto. E para completar o trabalho, me oferecer a impotência sexual, me enchendo de desejo e esvaziando de sangue. Obrigado, Senhor, por me fabricar com uma pele tão fina e sensível que até a palavra sol me cause queimaduras profundas. Obrigado, Senhor, por me fazer um ser estúpido, que jamais passou de ano direto, ficando sempre de recuperação, segunda época, obrigando meu amoroso pai a cancelar a viagem para a Disney. Obrigado, Senhor, por fazer nascer pelos em profusão em minhas orelhas enormes, que de tanta cera, acaba escorrendo pelo pescoço. Obrigado, Senhor, por me capacitar com incontinência urinária. Obrigado, Senhor, por não me incentivar a tomar banho, lavar a mão e muito menos escovar os dentes. Obrigado Senhor, por me fazer canalha, mentiroso e mal-caráter. Obrigado, Senhor, por me fazer acreditar que sou um gênio, mesmo sendo uma besta quadrada. Obrigado, Senhor, por me fazer usar o dedo para limpar os dentes, tirar caca de nariz e coçar o saco na frente de estranhos. Obrigado, Senhor, por me fazer um estelionatário e golpista, pedindo dinheiro emprestado para amigos e parentes e nunca pagando. Obrigado, Senhor, por desejar a mulher de meus amigos e às vezes até a mãe deles. Obrigado, Senhor, por me obrigar a bater nos meus filhos por qualquer bobagem. Obrigado, Senhor, por nunca ter conhecido a Jeniffer Aniston. Obrigado, Senhor, por me dar uma voz de taquara rachada. Obrigado, Senhor, por me fazer brasileiro, paulista e palmeirense. Obrigado, Senhor, por me fazer invejoso, carente, mentiroso e mal-amado. Obrigado, Senhor, por me fazer adepto fervoroso do onanismo. Obrigado, Senhor, por me deixar exposto a comentários agressivos e demeritórios de leitores do Blônicas. Obrigado, Senhor, por ter inventado o Viagra. Fico te devendo mais essa. Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e acredita em Deus, mas a recíproca não é verdadeira. Conheça seu site, o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa (agora pela internet, inscreva-se já!). Tudo o que seu mestre mandar
De Leo Jaime. Tinha aquela música que dizia:"Se oriente, rapaz!". Parecia um conselho. Parecia um velho sábio dizendo à classe que era importante prestar atenção às coisas do oriente, fazer o que ele estava fazendo, ele que estava no caminho certo. O orientado. Bom, aquilo me irritava. Eu não achava que era um conselho, achava que era uma ordem e não tenho muita vocação para obedecer. Sei lá, era ditadura, tinha palavra de ordem pra todo lado, a música popular não devia dar ordens às pessoas. Ps- Quando vejo as multidões prestigiando Stones ou U2 fico torcendo para que os caras da indústria cultural percebam que há uma multidão de brasileiros que curte rock e coisas de bom nível. Quem sabe, assim como estes shows e tantos outros estão sendo trazidos, artistas para este mesmo público também possam gravar e ganhar destaque na nossa mídia. Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. Passeata
De Rosana Hermann. Trezentos metalúrgicos fizeram uma manifestação na Av. Paulista contra a proibição do engate nos automóveis. Não sei em que medida a liberação daquelas bolas metálicas acopladas ao pára-choques do carro poderá afetar o emprego desses profissionais, mas a passeata me pareceu sem sentido. Tão sem-sentido quanto uma manifestação de mulheres contra a proibição da acetona para retirar o esmalte das unhas ou a ilegalidade do formol na aplicação da escova definitiva. O que certamente faria sentido seria uma passeata composta por todos nós, cidadãos brasileiros, contra o absurdo da corrupção caudalosa deste país, cujos incontáveis afluentes desembocam num mar de carências na educação, na cultura e, principalmente, na saúde. Nos últimos dias estive em peregrinação por hospitais e pronto-socorros públicos e pude conviver com combinações inesperadas de esforço e sofrimento, miséria e dedicação, resignação e desesperança. Se por um lado ficamos todos revoltados com a falta total de estrutura por outro, aprendemos que basta olhar para o lado para descobrir que nosso problema é sempre menor do que supomos. E que sempre há algum médico tentando compensar a carência do hospital com paciência divina. Entre amputados, atropelados, enfaixados e doentes de todos os tipos, espalhados pelos bancos e corredores e intermináveis filas serpenteando até a rua, a solidariedade nos salva. São pessoas que ajudam, conversam e consolam-se, trocam esperanças, emprestam celulares, dão recados ou buscam ajuda. É incrível ver como a vida se sobrepõe à possibilidade da morte. Mas há também a dor, o medo e, principalmente, a revolta. As horas de espera que não passam, a fragilidade dos doentes e o esforço dos médicos. Para mim, era uma visita ocasional, mas para os funcionários, é o dia a dia. Dá para entender porque o alcoolismo é tão alto entre os jovens médicos. Se eu tivesse que conviver com aquele mundo todos os dias eu também ia terminar a noite enchendo a cara num boteco da esquina.
Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem. Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós
De Nelson Botter. Mais uma vez não colou, quer dizer, até colou, mas teve que descolar. Estou falando do outdoor com o beijo gay. Se você não sabe, eu conto, e desconto. Um fabricante de preservativo bancou uma campanha em que um casal gay aparecia se beijando. A empresa responsável pela colagem do outdoor colou e quando viu do que se tratava, mandou descolar. Assim, sem mais nem menos. Parece até aquela história do beijo gay na novela, anunciaram que ia rolar, os peões ali se olhando, se olhando, todo mundo esperando, tinha até torcida organizada, mas beijo que é bom nada! Os peões da Barretos global, Boiadeiros, nada fizeram de mais concreto, ficou no abstrato. Outro duro golpe foi o Oscar. Tinha gente com o rojão na mão, literalmente, esperando o resultado de melhor filme - o gay - do ano. Acontece que a tal Academia ficou enrustida, pois Hollywood é gay, e puseram o prêmio atrás da moita e não na montanha de Brokeback. Mas tudo bem, foi derrota com cara de vitória, veja, isso é um retrato de que a sociedade está mudando, os conservadores já toleram ouvir abertamente as discussões sobre a sexualidade das pessoas e a homofobia diminui gradativamente. Aliás, como psicanalista, vejo todos os dias várias pessoas que são gays e não sabem, melhor, até sabem, mas inconscientemente, e por não aceitarem tal situação se defendem vestindo uma capa de homofóbicos. Péssimo.
Pois é, a sociedade ainda está dentro do armário, mas isso está mudando. É preciso paciência! Se formos ver como as coisas eram há 10 anos, melhorou bastante, o tabu é bem menor. Os gays estão assumindo sua condição, apesar de ainda correrem certo perigo pela ignorância de meia dúzia de imbecis que adoram espancamentos para liberarem sua raiva de serem enrustidos. A parada gay é um grande exemplo, a feiras especializadas, as mídias específicas. O mercado consumidor gay hoje é enxergado pelas empresas. Pessoas famosas e notáveis assumem seu homossexualismo sem neuras. Em todo lugar tem gays, todos temos amigos que são gays, aqui no Blônicas tem gays, na sua família provavelmente tem algum gay (mesmo que você não saiba) e por aí vai. Aquela ignorante exclusão social já quase não existe mais. Quase.
Pra se ter uma idéia, outro dia aqui da janela do escritório eu vi duas meninas, de uns 15 anos, se beijando apaixonadamente no meio da calçada, com todo mundo passando. Elas estavam lá, mãozinha na cintura, meigas, se beijando com vontade, mas gentilmente, aquela coisa bem feminina, trocando olhares cúmplices e murmurinhos. As pessoas passavam e ficavam olhando como se fosse atração de circo. Alguns até paravam para rir na cara delas. Outros, mais discretos, passavam olhando e ficavam virando a cabeça de cinco em cinco segundos, inconformados, até o final da rua. Mas as lindas meninas nem se incomodavam, estavam ali exercendo seu direito de serem livres e de poder assumir ao mundo sua condição. Viviam a paixão do momento, exalavam felicidade, coisa que a maioria daquelas pessoas que caçoavam da situação nunca puderam viver, tenho certeza. Antes todos os gays fossem assim, ou pudessem ser assim. No parque do Ibirapuera vejo vários casais gays juntos, sentados lado a lado, mas não se tocam, não se beijam. Medo da reação dos outros. Deve ser horrível viver assim, não poder expressar sentimentos em público. Muito triste e repressor. E atitudes como as do outdoor e a da novela só contribuem com isso, é lamentável.
Entretanto, sempre há quem faça o contrário. A MTV colocou o beijo gay escancarado, uma ficou com a outra, teve língua, beijaço, era um programa de boa audiência, desses com apresentadora bonitinha, e ninguém morreu, a sociedade não desmoronou, nada aconteceu, apenas uma manifestação de carinho entre duas meninas. E só. Um murro no fígado dos moralistas homofóbicos.
Enquanto isso, ninguém impede que a TV mostre a CPI que acaba em pizza, os conchavos de governo e oposição para livrar a cara de deputados safados, gente matando gente, consumindo drogas pesadas... Isso sim é motivo de constrangimento, é a vergonha da nossa sociedade, é o que "corrompe a juventude". Nessas horas dá vontade de chamar a polícia, pois é, eu sei, eu sei, o Robocop é gay. Nelson Botter é cronista do Blônicas às terças-feiras. Muito além daquela fresta
O fim do amor está ao seu lado
De Tati Bernardi. Ele acorda, te beija meio porque te beija mesmo todas as vezes que acorda e corre para o telefone: perguntar a algum amigo qual é a boa do dia. E você deseja que ele te olhe por alguns minutos ininterruptos, só te olhe e isso baste. Afinal, ele basta tanto para você, não é? Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados. Obrigado, Senhor!
De Henrique Szklo Obrigado, Senhor, por me fazer depressivo. Um indivíduo com sérios e inatingíveis problemas de relacionamento. Obrigado, Senhor, por me fazer lutar cada dia da minha vida, apenas para sobreviver, sem direito a descanso. Obrigado, Senhor, por me proporcionar este defeito de fabricação que atrapalha a minha vida e a de quem convive comigo. Obrigado, Senhor, por me fazer irritadiço, impaciente e por surtar violentamente nos momentos de pressão. Obrigado, Senhor, por me equipar com um humor tão volátil, que parece o clima de São Paulo: as quatro estações do ano em um dia só. Obrigado, Senhor, por me dar esta capacidade quase que divina de pensar negativo, estragar tudo o que estiver dando certo e por nunca ver uma saída minimamente digna para minha vida miserável. Obrigado, Senhor, por não me dar alternativas, por me fazer tomar as decisões erradas nas horas erradas, sempre me prejudicando e às pessoas de quem eu gosto. Obrigado, Senhor, por me dar o dom da escrita, mas não conseguir sobreviver dela. Obrigado, Senhor, por colocar tantas pedras no meu caminho, por me fazer indolente, preguiçoso e relaxado. Obrigado, Senhor, por me dar a oportunidade incrível de chegar sempre perto dos meus sonhos, para no final morrer na praia. Obrigado, Senhor, por me fazer solitário, desconfiado e arrogante, mantendo o meu isolamento cada vez maior. Por me deixar cada vez mais sozinho e inseguro. Mais desiludido e carente. Obrigado, Senhor, obrigado mesmo, por fazer com que meu relacionamento com as pessoas seja sempre difícil e incômodo, por me fazer sofrer a cada dia por algo que fiz ou que não fiz e deveria ter feito. Obrigado, Senhor, por me fazer consciente de minhas desgraças pessoais, sem o atenuante de sofrimento, ao contrário: quanto mais a idade avança, mais problemas encontro em mim mesmo e mais angústia sinto. Obrigado, Senhor, por me fazer incapaz de ter uma vida normal, tranqüila e pacata. Por nunca me fazer satisfeito com o que tenho e me deixar sempre achando pelos em ovos. Obrigado, Senhor, por fazer com que cada passo dado tenha o peso de mil toneladas, que mesmo as coisas óbvias tomem rumo diferente na minha vida, que até o infalível falhe, inapelavelmente. Obrigado, Senhor, por me testar todos os dias, me fazendo acreditar que agora tudo vai dar certo, para depois me tirar o chão e me deixar em queda livre de alturas inimagináveis. Obrigado, Senhor, por me dar um corpo e um espírito que jamais se sentiram parte da humanidade, que jamais se sentiram pertencendo a algo ou alguém. Obrigado, Senhor, por me tratar com desprezo, desdém e desconsideração ímpares. Obrigado, Senhor, por me dar a vida e fazê-la um fardo imenso para se carregar. Obrigado, Senhor, por inventar o Prozac. Fico te devendo essa. Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e só acredita em Deus quando é conveniente. Conheça seu site, o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa (agora pela internet, inscreva-se já!). Assistindo ao Oscar
De Leo Jaime. O cinema americano foi responsável por grande parte do domínio americano depois da segunda metade do século passado. O american way of life ganhou os lares do mundo todo pelo fascínio da silver screen, ou tela prateada. Hoje, e o parágrafo que você está lendo é um exemplo, o inglês está em tudo e em todo lugar, e em parte a música mas primeiramente o cinema americano foi o principal instrumento desta grande conquista. Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras. Elas...
De Nelson Botter. Pois é, hombres, e elas chegaram lá!, conquistaram seu devido espaço, cabeça a cabeça com os amigos, namorados, maridos, vizinhos, conhecidos, colegas, primos, tios, etc; E olha, digo mais, nós do clube do Bolinha estamos todos confrontados e assustados, rabinho entre as pernas, pois sabemos que elas têm muito mais garra, mais comprometimento, mais responsabilidade, enfim, dão de dez em qualquer um de nós, barbados, pobres gaiatos, ai, ai, ai, coitados de nós, os confrontados e assustados! É que pensávamos que dominaríamos o mundo para sempre, meninos tolos, não percebemos que ao darmos a mão - ha ha ha! - nos arrancariam logo os dois braços!, espertinhas, que dor mais necessária, deliciosa, que veio em boa hora, loucas!, que levem tudo de meu corpo e me tragam alegria e sensibilidade, lindas!, benditas sejam, criaturas perfeitas, diabólicas, geniais, obra divina do Divino... ou será da Divina? A essas alturas já nem sei, ou melhor, até sei, mas não sou doido de afirmar em praça pública, sabe como é, devo lealdade ao corporativismo masculino... O segredo delas? Quem souber fica milionário, nem quem as criou sabe, Eva levou para o túmulo. Quando Jung inventou a palavra "complexo" com certeza tinha acordado de salto alto. Elas são a definição exata da complexidade do universo, são as que complicam tudo de maneira bela e ímpar, que sentem profundo, mas profundo mesmo, que são a flor (da pele), o choro e o gozo, mães que lambem e protegem as crias, cheirosas e macias como só elas podem ser. O mistério absoluto se encontra dentro de cada uma delas, nove meses, uma mais linda que a outra, procurando um novo charme a cada olhar, uma nova conquista a cada penteado, unhas, pés, roupas, sapatos, bolsas, brincos, etc e etc e etc; combinações e caprichos de verdadeiras deusas da beleza. Homens, o que será de nós? Nem reclamar dos gastos delas podemos mais! Piadas de cartão de crédito estão com os dias contados. Hoje as serelepes ganham seu próprio dinheiro, não dependem de ninguém, são chefes-de-família, doces provedoras, mães absolutas, líderes independentes, auto-suficientes, arrojadas, destemidas, competidoras vorazes, vitoriosas no mundo cão... Ah, sou fã número um delas! Essas meninas são irresistíveis. Nos resta, companheiros, a rendição. Joguem suas armas e entreguem-se ao amor de uma pequena, aos afagos meigos que só elas sabem dar e esperar, e retribuam; nossa, como é bom!; beijem-nas como rainhas, acariciem-nas como Cinderelas, mimem-nas como princesas, embalem-nas como Belas Adormecidas, respeitem-nas como cúmplices de nossos crimes perfeitos. Sim, caros amigos, apesar de toda a atual independência feminina, essas nobres senhoras serão sempre meninas, sempre esperarão por um colinho quente, um abraço carinhoso e apertado, um chameguinho gostoso e protetor, um desses meninos confrontados e assustados com quem possam dividir uma vida, uma casinha, uma cerquinha, filhos correndo no jardim, propaganda de Margarina, vários "oh, happy day!", na constante busca pela verdadeira felicidade. Afinal de contas, ser mãe é cuidar e ser cuidada, e isso é amar, e isso é uma delícia, e isso é ser mulher... e isso é perfeição. Nelson Botter é cronista do Blônicas nas terças-feiras e parabeniza todas as mulheres pelo 8 de março. Troque o celular por uma galinha gorda
De Xico Sá. O glorioso inventor da ansiedade, Alexander Graham Bell (1847-1922), deve se arrepender até hoje da sua patente telefônica. (Como Santos Dumont, dândi brasileiro em Paris, que maldisse do seu próprio brinquedo ao vê-lo nos céus da guerra). Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras. Abaixo os agradecimentos
De Milly Lacombe. Noite de Oscar pra mim sempre foi especial. Quando eu era pequena, funcionava como a desculpa ideal para ficar acordada até tarde. "Mas que interesse você pode ter nisso, Maria Emilia?", perguntava minha mãe, antes de emendar. "Você nem tem idade para ver esses filmes, que história!". E eu tentava negociar, implorava para ficar vendo, para ouvir as piadas, assistir aquela gente importante ganhar (ou perder, porque o interessante mesmo é deixar essa nossa crueldade humana aflorar e rir de quem não ganhou) a estatueta. O cenário era também ideal para uma comidinha fora de hora, Coca-Cola, enfim, festa. E lá ficava eu sozinha, na frente da TV, assistindo a tudo. Era um acontecimento. Mas aí eu cresci e fiquei mais chata. Junto com minha chatice, cresceu também a chatice da festa. Aliás, tudo ficou mais chato. As pessoas, as roupas, a caretice, a burocracia, as piadas. Até que, finalmente, na cerimônia do ano passado, eu descobri o que deveria ser feito para que meu interesse fosse resgatado. A palavra "obrigada" deveria ser proibida durante as quase quatro horas da festa. Simples assim. Ninguém mais agradece a porra nenhuma. O desafio: quem ganhar a estatueta pega o microfone e fala coisas relevantes. Porque hoje, com idade para ficar acordada até a hora que eu bem entender sem precisar de desculpas e, por isso mesmo, louca para ir pra cama cedo, eu quero ouvir essa gente de Hollywood dizer coisas que justifiquem uma noite praticamente em claro. Não quero que dois terços da cerimônia sejam gastos com puxasaquismo, agradecimento ao diretor, ao produtor, ao contra-regra, aos maravilhosos concorrentes que fazem esse prêmio ficar ainda mais especial, ao figurinista, ao copeiro, ao marido sem o qual não teria conseguido, à mãe que já não está mais entre nós, mas que foi a primeira a apoiar a carreira ... pelamordedeus. Um microfone e transmissão ao vivo para mais de não sei quantos países, com milhões de seres humanos ligados, simultaneamente, naquilo que o cidadão vai dizer deveria ser motivo mais do que suficiente para que coisas úteis, significativas, criativas, inusitadas e reveladoras fossem faladas nessa noite. Porque o que acaba acontecendo é que o sujeito que fez aquele filme incrível, que nos levou às lágrimas, que atuou magistralmente sobe ao palco e se revela um completo idiota. Saca do bolso uma lista enorme de nomes que ele pretende agradecer e só diz bobagem. Melhor que não tivesse tirado a máscara, você pensa. Melhor que tivesse ganho o outro cara, aquele do filme chato, que você odiou. Pelo menos não seria tão frustrante o momento em que ele se revelasse um completo imbecil. Assim, essa é minha singela idéia: proíbam o chatíssimo "I´d like to thank ..." Fim. The end. Chega de agradecimento. E olha que eu não estou pedindo para que se troque o "obrigada" por um discurso social. Não necessariamente. Estou apenas incentivando essa gente que se acha tão inteligente e importante a usar a criatividade. Que o sujeito xingue a mãe, que abaixe a calça, que fique ali parado chorando sem dizer nada. Não me importa. Só não abra a boca para dizer "obrigada". Se vivêssemos no mundo maravilhoso de Hollywood, com farta distribuição de renda, sem que pessoas morressem de fome, de doenças para as quais já existe cura, sem guerras, atentados terroristas ... vá. Agradeça ao cachorro da vizinha que eu tô pouco me lixando. Mas com tanta coisa precisando ser dita, com tantos preconceitos ainda arraigados, tanta desigualdade que precisa ser alardeada, passar a noite ouvindo essa gente poderosa, armada de um microfone, falando para milhões de pessoas, das mais variadas etnias, classes sociais, idades etc dizer bobagem, blablablando frases sem sentido, agradecimentos pífios .. ah, não, isso não é mais para mim. É muito poder desperdiçado. Então, hoje à noite, prefiro fazer o que minha mãe dizia que eu deveria fazer todas as noites: comer o prato inteiro, ler um capítulo de um bom livro e dormir cedo. Obrigada. Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos. O decote
De Tati Bernardi. Foi um tanto estranho o início da paquera: desviando de cocôs de cachorros milionários da Oscar Freire, nossos olhares se encontraram. Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados. Entrevista comigo mesmo
De Henrique Szklo 1) Qual é sua graça? 2) De onde o senhor veio? 3) Quem é o senhor? 4) Eram os deuses astronautas? 5) Qual é a sua? 6) Por que tá me olhando com essa cara? 7) Qué morrer, mano? 8) Qual a sua relação com a máfia dos ladrões de bic? 9) Onde o senhor estava no dia 7 de setembro de 62? 10) E qual a sua relação com essa tal de Sarah? 11) Ahá! Então o senhor a conhece intimamente? 12) O senhor é gay? 13) Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? 14) O senhor pertence à alguma organização? 15) Que número o senhor calça? 16) Quantas vezes por mês faz sexo? 17) Lava a mão depois de ir ao banheiro? 18) Já tomou algum remédio para depressão? 19) O senhor é feliz? 20) Já sorriu hoje? 21) O senhor acredita em Deus? 22) E no amor, acredita? 23) Qual seu signo? 24) Qual seu prato predileto? 25) Quem são seus ídolos? 26) Já teve relações sexuais com outro homem? 27) Estado civil? 28) Tá meio gordinho. Quantos quilos o senhor pesa? 29) Escreve porque gosta ou por necessidade? 30) Quem matou Salomão Ayalla? 31) Existe vida depois da morte? 32) Se o senhor fosse um bicho, qual seria? 33) Se o senhor fosse uma fruta, qual seria? 34) Dá pra viver de livros no Brasil? 35) O que você achou da minha roupa? 36) Quer ver minha tatuagem? 37) O senhor vive de quê? 38) Todo bailarino é gay? 39) O que o senhor acha de mulher usando coturno? 40) Tem horas? 41) O senhor sabe onde fica o correio? 42) Elvis não morreu? 43) Michael Jackson é branco ou preto? 44) Já foi num enterro de anão? 45) Acredita em bruxas? 46) E em duendes? 47) Qual é seu sonho dourado? 48) De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da vida? 49) Tem programa pra hoje a noite? 50) Tem troco pra 50? 51) Aqui passa ônibus para o Jardim Pirajuçara? 52) Existe vida inteligente em outros planetas? 53) O senhor me acha sexy? 54) Já viu um adulto nu? 55) A zebra é branca com listras pretas ou preta com listras brancas? 56) O senhor acha que eu estou gordo? 57) Qual sua cor predileta? 58) Já levou mordida de tubarão? 59) Será que vai chover? 60) O senhor acredita em orgasmo feminino? 61) Posso chamá-lo de você? Henrique escreve no Blônicas todas as sextas (Não pergunte porquê). Conheça seu site, o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa. Acabou o carnaval, podemos começar o ano.
De Leo Jaime. Teremos muitos feriadões este ano. Daqueles em que o feriado cai na segunda ou terça, ou quinta ou sexta e, óbvio, as semanas viram pequenos oásis em meio ao calor da labuta. A dúvida é sobre a temperatura da tal labuta: vai dar pra aquecer? Estamos em março e o ano ainda não engrenou. Os feriados serão muitos. Longos. A copa do mundo acrescenta mais alguns dias de folga a esta agenda já repleta de datas em branco e as eleições bloqueiam umas tantas outras. Eu, que preciso ganhar a vida a cada mês, mesmo sendo daqueles que trabalham nos feriados, não acho graça nenhuma. Muito oásis e pouco deserto. As contas não tiram folga nunca! Vi nos jornais que nos últimos 3 anos os bancos tiveram a maior lucratividade de sua história e são, por assim dizer, os eleitores mais felizes do atual governo. Ninguém tem o direito de estar mais feliz com tudo o que acontece. Justificam os juros altos que cobram, e as tarifas altas, que a alta lucratividade não vem da esfolação contínua do correntista. Vem de esfolar o correntista, o dono do pequeno negócio que pede uma grana para o capital de giro etc. Esfola aqui e ali, cobra juros estratosféricos e dobra a fortuna em um ano. Eu, que depois de ver o governo do PT bater recordes de corrupção, fiquei muito desinteressado em ler o noticiário, um pouco enojado, posso estar dizendo asneiras, mas me parece que os bandidos estão ganhando e os eleitores do PT entendem que a corrupção petista não é para comprar bens pessoais, é para ajudar o partido, e, portanto, é "a corrupção do bem". Seguindo a tendência sectária de todo discurso petista que não admite críticas etc. Quero dizer que, pelo jeito, vamos ter que engolir isso, essa argumentação: corrupção sempre houve, agora ela só é mais divulgada porque o PT é mais transparente e o PT não rouba para si mas para uma causa nobre: o programa do partido. E como o programa do partido é o bem de todos... É chato meter o pau e não oferecer solução. Pois eu não tenho solução. Sinto-me num mato sem cachorro. Não acredito em soluções imediatas e nem em salvadores da pátria. Acreditava que trabalhar sério, ser honesto, ter um bom coração, eram coisas básicas, obrigatórias, para se construir uma vida digna e feliz. Não sei se são valores tão importantes hoje. Os professores mais qualificados da PUC foram demitidos e o valor das mensalidades não baixaram. Quem se forma arranja emprego fácil? Cresci acreditando que tirando um diploma tudo ficava fácil. Tenho o tal diploma, uma ficha limpa, um currículo cheio, trabalho muito e nunca acho fácil. Não é pra mim e não é pra muita gente. Por quê? O ano está começando e a minha impressão é de que o placar está favorável aos bandidos. Mas tem um monte de feriados. Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras. |