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A miséria é linda

De Henrique Szklo

A pobreza é a coisa mais linda do mundo. Supergráfica, com aquele num-sei-quê de trágico, de uma dinâmica estagnada, um caldo de cultura preparado com sofrimento, suor e lágrimas. É realmente deslumbrante. Eu, quando me aproximo da pobreza, sinto um arrepio percorrendo todo o meu corpo. Meus chácras se acendem e eu quase sou capaz de soltar raios pelas pontas dos dedos. É uma energia pura, vital, visceral, pseudo-cívico-antropológica.

A pobreza tem sido muito mal-aproveitada pela elite pensante deste mundo ego-globalizado que se resigna a ficar com pena e a fechar os vidros de seus carros blindados, estereótipos de frieza e exclusão sócio-automobilística. Não, um rotundo não! Temos obrigação de ter orgulho da nossa pobreza, festejar a desgraça que toma conta deste planeta tão rico em diferenças, tão multifacetadamente miserável, tão oligopolicamente falido, uma verdadeira aldeia arqui-global egotrípica.

Os intelectuais de todos os países precisam reinventar o seu apoio à pobreza. Precisam reconhecer finalmente que se existe um patrimônio mundial que merece ser preservado é a miserabilidade de nossa gente e a sua extraordinária beleza. Não existe nada mais deslumbrante que esgoto a céu aberto, casas construídas precariamente, utilizando material alternativo como placas de madeira, papelão, zinco e plásticos. Crianças raquíticas são o must. E a sujeira é bela. A sujeira é tudo. É linda. É maravilhosa. É a mais retumbante e misógina  linguagem universal. É através da sujeira indivisível que o ser humano se comunica. Que se atrai e se repugna.

Eu, se pudesse, seria miseravelmente pobre só para me converter em um orgulhoso protagonista da precariedade subestigmatizada, arquiteto da penúria zéninguémniana. Seria genial. Mas eu tenho um compromisso maior com a cultura contemporânea, com a desintoxicação visual de nossas mentes, com a desconstruturação verbal e sintática de nossa língua para uma futura pragmatização helênica do objeto falado. Tenho de estar livre para desempenhar meu papel cognitivo de artista de vanguarda e porta-voz do novo mundo multi-orgasmático, da nova arte pluri-enviesada, do novo homem espiritualéxico, intelectualardeando o grande hip-hop new-evangélico.

Mas aqueles que quiserem se embrenhar corajosamente nesta proposta tão radical-micho terão todo o meu apoio artístico, mental e cogni-cívico. Mas apenas isso. Porque se vier pedir dinheiro eu vou meter a mão no desgraçado. Detesto pedinte.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e queria ser o Arnaldo Jabor. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas.. às 12h06
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Anacrônica

De Leo Jaime.

 

Eu não sei mais escrever. Não sei mais. Será que soube um dia? Será? Não sei. Talvez fosse só o amor ao que lia transformado em desejo de ser também bom com as palavras. Talvez fosse só vontade. Talvez. Não sei. Preciso confessar isso. Será que alguém me lê? Não tenho mais o olhar fixo do interlocutor imaginário em minha mente, quando começo a preencher o vazio com palavras. Não sei mais quem é o interlocutor e escrever sem saber para quem é como navegar sem saber para onde: não há vento que ajude.

 

Temo as idéias comuns, mal aparadas,  os clichês, a ausência de um sentimento que perpasse o texto ou lhe confira sentido. Vai ver é isso: não quero dividir meus sentimentos com o interlocutor que não distingo. Onde é o trema nesta porra de teclado? Não sei a merda do português e nem como mexer nesta engenhoca. E engenhoca é uma palavra velha, de velhos e eu devia aposentá-la. Alguém lê o que escrevo? Você aí, seja bem vindo a esta crise. Sincera e imbecil. Talvez seja importante saber: escrever por quê? E, sempre, só porque, e se, alguém lê.

 

Antes, quando era movido pela ilusão de que produziria algo importante para mim ou alguém, havia a sensação de brincar com as palavras. E os significados iam surgindo, surpreendentes, reveladores. Driblando a língua, trapaceando. Qualquer instante era uma história pra contar. Não precisava ser uma argumentação, muito menos fazer sentido. Que conferisse um pouco de sabor à leitura e pronto. Um efeito, um sentimento, uma frase que fosse.

 

Há uma parte em mim que ainda continua acreditando. Que percebe as ausências, os hiatos, a dureza e a pouca profundidade. Sou eu que não estou lá. E há uma parte de mim que ainda percebe isso. Que o texto fosse um espelho, ou uma janela. Que jorrasse nele um pouco de sangue ou porra, ou que fosse cheio de gritos e risadas. O silêncio é o grito que dói mais no ouvido. Talvez o que doa seja não ver alma no que escrevo. Vai ver é isso. As idéias não sustentam nada. Não há argumentação interessante que possa sobreviver sem um vislumbre d’alma.

 

Agradeço ao leitor se me acompanhou até aqui. Textos atuais pedem brevidade. Pedem muitas coisas. Não sei se as tenho para oferecer.

 

Sinto o impulso de escrever, mesmo sem saber. Sigo indagando. Oras, também não sei viver. Tenho, ao menos, uma meta: achar a própria alma na próxima linha.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas e está em crise.

Escrito por Blônicas às 13h08
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Hora do almoço

De Rosana Hermann.

 

         Uma coisa é comer, outra coisa é almoçar e outra coisa é a hora do almoço. Pelo menos par Amim. Eventualmente posso almoçar, sentada à mesa e comer, justamente neste horário, em algum momento depois do meio dia. Mas nunca associei as coisas de maneira direta. Pelo contrário, durante muito tempo usei este período para fazer reuniões de trabalho, caminhar, resolver problemas bancários, fazer uma compra rápida ou praticar esportes. Lembro de muitos períodos da minha vida em que a hora do almoço significava pegar a mochila e ir nadar.  Depois do banho, feliz da vida, eu tomava um iogurte, uma vitamina ou comia um pão de queijo, mas sempre em pé ou em algum balcão, raramente me sentava oficialmente para comer.

 

         Sei que há pessoas que usam o mesmo horário para a prática de sexo alternativo. Pelo menos é que concluo ao ler cartazes nas portas de motéis oferecendo um certo tipo de almoço executivo que, suponho, envolva mais de um tipo de comida. Mas acho que a prática já está démodé.

         Atualmente, por acaso, freqüento um restaurante self-service por quilo diariamente. Quando o programa Pânico na rádio Jovem Pan termina, todos nós vamos juntos almoçar. Como pouco, mas não falto às conversas sempre ligadas ao trabalho. O momento é prazeroso e a comida é saborosa, mas se eu tivesse opção, preferia nadar dois mil metros e comer um pão de queijo na saída, meu ideal olímpico para a hora do almoço.

 

         Talvez por esta interpretação flexível sobre a principal refeição do dia feita à luz do sol eu tenha ficado tão impressionada com o jeito de um senhor que conheci, um caseiro em Campos do Jordão, de quase oitenta anos de idade, o Seu Vicente, que sempre repetia uma história com indignação. Ele contava que um amigo seu acordara normalmente, numa segunda feira e depois de trabalhar, tinha voltado para almoçar em casa. O homem, dizia Seu Vicente, pegou o prato, serviu-se de arroz e feijão nas panelas do fogão, colocou a farinha, colocou o prato sobre a mesa e, ao pegar os talheres, antes mesmo de começar a comer, foi atingido de forma fulminante por um raio e morreu. Mas o que deixava Seu Vicente inconformado não era a morte em si, algo que fazia parte da vida, mas o fato do homem ter morrido sem tocar no prato. “Dona Rosana”, repetia ele, “ele morreu sem almoço. Sem almoço, nem tinha encostado no prato...”

 

         Não sei se o fato de ir para a vida eterna em jejum é tido como um castigo ou se a refeição seguinte custa a chegar, só sei que Seu Vicente nunca aceitou esta tragédia de partir desta para uma melhor com o bucho vazio. Isso foi há muito tempo e imagino que hoje Seu Vicente não esteja mais entre nós. Mas sempre me lembro dele quando chega a hora do almoço e por acaso estou com um prato servido de arroz e feijão, pronto para ser colocado à mesa e saboreado. Nesses momentos, fico torcendo para que Seu Vicente tenha ido para o céu com a fome bem saciada e que esteja em alguma nuvem macia desfrutando de sua merecida siesta , logo depois do almoço.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h46
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A cônica du tio Botti

De Nelson Botter.

Cuticuticuti; o que é isso?, você fala assim com seu(sua) namorado(a)?, igual nenê, sabe?, aquela coisa de bancar a criancinha, imitando um bebezinho ou simulando a fala de uma pessoinha de 2 ou 3 anos, axim bein bunitinhu, pedindo colo e tudo mais?; pois é, essa coisa meiguinha e ridícula é termômetro para saber se uma relação tem um carinho a mais ou não, é sério, verdade!, quem não brinca assim intelectualiza demais, deixa com um ar muito adulto a relação, algo se perde, vão querer discutir James Joyce na cama, no jantar a dois vão falar da queda na Nasdaq; mas espera aí, não estou dizendo que suas conversas precisam ser fúteis, tampouco que se você não tiver esse tipo de cumplicidade boba com seu(sua) parceiro(a) sua relação não será afetuosa, nada disso, apenas será tudo muito mais sério do que deveria, muito mais, fica meio chato, e seriedade demais é um pé naquele lugar, é sério; saiba que falar como bebê é sadio, apesar de parecer extremamente tolo e fútil; estudos comprovam que falar assim com os recém-nascidos é importante, desenvolve o afeto, é uma linguagem que estimula sei lá o que sei lá onde, fazendo do bebê um indivíduo mais feliz, logo, isso apenas se repete, pois a vida é repetição graças ao inconsciente que sempre busca saciar suas carências e coisa e tal - já dizia o Sigmund - portanto concluímos que no amor é necessário ser infantil, ridículo e brega; aliás, no amor ser brega é ser chique, é o que conta pra valer, e esse é o ponto, deixe seus conceitos e preconceitos de lado e embarque nessa, pinte o sete, volte ao jardim da infância, mal pronuncie direito as palavras, mas divirta-se, crie uma cumplicidade gostosa e não tenha medo de parecer um bocó, pois no final das contas todos somos, de um jeito ou de outro; então vai lá, proponha uma regressão casalzística, voltem a ter 5, 6, 7 anos, podem até brincar de médico, e depois me diz: foi bom pra você?; eu to iperando aqui pá sabê.

Nelson Botter é o cronista das terças por aqui, escrevendo também ali: BlogGol.

Escrito por Blônicas às 10h01
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Ela ainda está lá

De Tati Bernardi.

Você passa fio dental, bochecha três vezes, cora as bochechas dando umas beliscadinhas. No fundo dos seus olhos você a vê, tudo bem, ontem ela estava lá e eu não morri, hoje também não vou morrer.

Você volta pra sua mesa, o e-mail diz que hoje é dia de frutas e você vê a empresa inteira se debatendo pra descolar uma banana. Você quase, quase ri, mas a tempo ela te lembra que o luto ainda não acabou, felicidade mesmo seria ligar para ele e dizer "a galera tá se degladiando por uma banana" e rir com ele, era muito melhor rir com ele.

Seus amigos te chamam para almoçar, você dirige até lá, se senta, pede a mesma massa ao funghi, faz as mesmas piadas a respeito da louca, do gay, do bafento e do carrasco. As mesmas piadas que antes você fazia e tinha o peito leve, o peito que pertencia a alguém. Agora você é livre e pesada.

Uma ou outra batida mais feliz da música te faz querer balançar a cabeça, quem sabe mexer os ombros, por que não sair pra dançar? Por que não esquecer tudo isso? Ela grita, ela esperneia, ela te lembra de novo: olha, se você não me deixar viver agora, eu vou viver pra sempre. O que você prefere?

Tá bom, dor, tá bom. O que você quer de mim, então? Semana passada eu deixei você chorar com aquele showzinho musicado do iPhoto vendo todas as nossas lembranças, desde ele saradão escovando os dentes na primeira viagem, até ele já barrigudo lendo seu livrinho na última viagem. Não tá bom?

Depois a gente encontrou juntas aquele bilhetinho dele "Amorzinho, vai passar rápido." de quando ele foi viajar, lembra? Poxa, a gente olhou para o bilhetinho e chorou tanto, e sofreu tanto, e se contorceu tanto, não tá bom? Não chega?

Eu já fiz muito por você, agora queria algo em troca, será que pode ser? Eu queria comer um prato inteiro de nhoque ao sugo sem querer vomitar tudo depois, eu queria dormir a noite toda, sem despertar assustada, vazia e perdida. Eu queria, de verdade, colocar dentro de um saco as três perguntas "Por quê?", "Pra quê?" e "Até quando?" e pedir para uma criança bem fofa, bem pura e bem feliz fazer aquela brincadeira de encher, encher, encher, até estourar.

Eu estou cheia desse assunto, será que podemos estourá-lo? Sabe, dor, depois de passar anos evitando você, nesses últimos dias eu descobri que, por mais insuportável que você seja, eu sou maior do que você, eu até consigo conviver com você.

Tá bom, vai, eu deixo você morar aqui mais um pouquinho, afinal tão cedo você não tem para onde ir. Mas não se acomode, não se acostume, não faça raízes. Essa casa em que você mora é alugada e eu nunca vou vender.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 16h40
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Virtual, demasiado virtual

De Henrique Szklo

Ano 2015.

Mais de 10 bilhões de seres humanos compartilham este pequeno e combalido planeta. Não existem mais governos. As empresas resolveram assumir publicamente o que já faziam há anos por debaixo do pano, ou seja, mandam em tudo.

Não existe mais dinheiro físico. Apenas virtual. Os documentos seguiram o mesmo caminho. Agora, ao nascer, a pessoa tem implantado um chip em seu organismo que controlará todas as atividades do indivíduo até sua morte. Morte esta que foi adiada a níveis nunca vistos, já que o chip também controla as funções orgânicas e está ligado à uma central médica que alerta o cidadão em caso de alguma doença ou deficiência.

As pessoas não sabem mais escrever. Os computadores reconhecem voz e fazem este serviço por todos. Não existem mais HDs nos computadores ou qualquer tipo de mídia. Gigantescos computadores, ou os Grandes Servidores, como são conhecidos,  guardam todas as informações que existem. Servidores estes que são controlados, óbvio, pelas grandes corporações. Daí o seu poder.

Não existe mais privacidade. O tal do chip que todos têm em seus organismos está ligado à sistemas GPS que localizam qualquer pessoa em qualquer lugar. Registram sua voz, o som ambiente, temperatura e até odores. Este último item em particular causa um certo desconforto tanto no emissor quanto no receptor por razões óbvias.

O consumo foi amplamente facilitado neste momento. Como todas as informações estão centralizadas, basta a pessoa ir a uma loja, pegar o produto que deseja e na saída passar por um aparelho que registra o número de seu chip e os produtos que levou. O dinheiro é automaticamente transferido da conta do cliente para a conta do comerciante. Não há mais vendedores, caixas, nada.

Numa evolução recente e extraordinária desta tecnologia, um novo chip é capaz de ler pensamentos. Resultado: as pessoas estão rapidamente deixando de falar, fato que está contribuindo decisivamente para a diminuição de conflitos e mal-entendidos (é assim que escreve?). É claro que ninguém lê o pensamento alheio sem autorização, já que cada um controla o que é compartilhado e o que não é. Exceção feita às grandes corporações que lêem o pensamento de quem bem entender sem pedir licença pra ninguém. Vantagens de se ter o poder.

Os celulares não existem mais. A capacidade de ler pensamentos associada aos Grandes Servidores tornou o homem capaz de se comunicar com quem quer que seja, apenas com a força de seu pensamento.

Acabaram-se as escolas. Todo conhecimento é transmitido wireless, para o chipizinho. Dizem até que os Grandes Servidores tem capacidade de interferir no pensamento das pessoas, incutindo idéias, formando opiniões, enfim, controlando mentalmente os portadores de chip. Mas ninguém nunca conseguiu provar isso. Até porque quem tentou, inexplicavelmente desistiu e mudou de opinião num piscar de olhos. Estranho...

No final das contas, os Grandes Servidores se transformaram numa espécie de consciência coletiva, acumulando todo o conhecimento humano. Os cidadãos agora são terminais de um grande computador. Como não poderia deixar de ser, boa parte da humanidade passou a adorar os Grandes Servidores como Deus. Santa tecnologia!

Não há mais guerras nem qualquer tipo de conflito, já que o poder está centralizado e não há razão para se disputar nada.

Há quem acredite que, em breve, o chip, como nos antigos celulares GSM, poderá ser retirado de um corpo defeituoso e ser instalado em outro novinho em folha, sem perda de informações. A tão sonhada reencarnação digital.

O ser humano, portanto, alcançou um nível de desenvolvimento jamais imaginado. Nunca uma espécie em todo o universo evoluiu tanto em tão pouco tempo. Que maravilha!

Um belo dia, por razões ainda desconhecidas, ocorreu uma crise energética de grandes proporções e os Grandes Servidores desligaram. Shut down, baby! Os que sobreviveram à hecatombe, se instalaram em cavernas e voltaram a estabelecer uma comunicação analógica, através de grunhidos incompreensíveis. Próxima parada: descobrir o fogo.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e tem duas bolas de cristal. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa (agora pela internet, inscreva-se já!).

Escrito por Blônicas.. às 10h21
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A água do mundo

De Leo Jaime.
 
Vou correndo, como se isso me fizesse escapar dos pingos da chuva que se inicia. Menos tempo na chuva, pode ser ilusório, mas tenho a impressão de que ficarei menos molhado, de que chegarei menos ensopado. Com o canto do olho observo o senhor que com a mangueira termina de limpar a calçada, mesmo sabendo que a chuva há de modificar todo o cenário nos próximos instantes. Ou vai trazer de volta toda a sujeira que ele está tirando ou vai lavar outra vez o que ele acabou de lavar.
 
A água que cai do céu cai purinha, purinha, é o que penso enquanto corro dela. A água que cai do céu. Lembro-me do livro da Camille Paglia em que ela afirmava, ou pelo menos foi o que me recordo de ter dali subtraído, que o homem havia optado por viver em grupo por temor aos fenômenos naturais: chuvas, clima, terremotos etc. Foi preciso se unir contra as forças da natureza. As forças amorais na natureza. Quando passa um furacão levando tudo, bons ou os maus, estão todos ameaçados. Quando chove muito e tudo começa a inundar, anjos e demônios poderão estar, em breve, igualmente submersos. Quando a água falta, senhores e escravos morrem da mesma sede. Há forças mais poderosas que a maldade humana.
 
Os destinos turísticos são, em sua maioria, lugares interessantes por causa da água. Praias, lagos, rios, cachoeiras: somos naturalmente atraídos pela água. A simples vista para o mar ou rio já torna um ambiente mais interessante. Parece óbvio o que digo mas se levarmos em conta que grande parte do planeta é tomado por água isso passa a ser, sim, digno de nota: vivemos em meio a tanta água e ainda somos tão fascinados por ela! Nosso organismo é também, em sua maior porção, água. Somos água, viemos da água, para a água voltaremos e, enquanto tivermos como aproveitar a vida, queremos fazê-lo perto de alguma fonte de água límpida, na beira de um rio ou mar. Navegando, que seja. Queremos água.
 
Vivemos, porém, sob o alerta de que a água pode acabar. É preciso economizar. Parece absurdo pois a água é absolutamente indestrutível! Se você toca fogo ela vira fumaça e depois volta  a ser água, se congela ela derrete e volta a ser água, seja lá o que se faça com ela, a água volta a ser água depois de um tempo, pura e cristalina. E na mesma quantidade! Pois é. Mas pode voltar salgada. Sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar? O prejuízo maior que a água pode sofrer é a poluição. Uma vez poluída a água pode demorar muitos anos para voltar ao seu estado natural, potável, como os pingos da chuva lá do início.
 
Volto ao início e ao senhor que tentava varrer uma folha de árvore, pequenina, da porta de seu prédio, segundos antes da chuva começar. Quantos litros de água pura ele desperdiçava naquela tarefa imbecil? Não seria mais fácil varrer a folhinha ou pegá-la com a mão? Aquela água correria para o bueiro e se juntaria ao esgoto cheio de substâncias químicas e de lá iria parar sabe-se lá onde, mas, poluída, demoraria um tempo enorme para voltar para o reservatório d'água da cidade. Este tempo é que pode ser o suficiente para uma cidade entrar em caos por não ter o que beber. A água não vai "acabar" nunca, mas talvez, um dia,  não possamos usufruir dela onde e como gostaríamos. Talvez as grandes desgraças naturais não nos metam tanto medo porque o que nos vai derrotar mesmo sejam as folhinhas nas calçadas. Aguadas de estupidez.

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 14h56
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Gangue gay

De Paulo Castro.

Mantenho aqui as abreviações, eliminei trechos, fui arbitrário, isso não é um estudo científico, temos aqui peixes, amostras, eu começo a fala, os outros orkutianos seguem e eu vou debatendo de maneira agradável:

1) Saí com umas pessoas gays que não sabiam da minha opção. Lá no bar, fiz trejeitos, desmunhequei, ri jogando a cabeça pra trás. Quando um deles pegou e apertou minha coxa, eu disse :- Sou heterossexual. Apenas estou me comportando de uma forma alegre. E acho vcs legais. Só não quero comer vcs ou ser comido por vcs. Amigos? Ficaram bravos.Todos me deram as costas. Preconceito?

2) Vc riu, "trejeitou", desmunhecou, virou o pescocinho...E não queria ser cantado? De certo viraram as costas pois não gostaram da brincadeira. Ah! Inventa outra história para justificar a homofobia. Essa não colou.

1) ...vcs não acharem nada disso.Não querem igualdade ? Estranho mesmo.Acho que vou publicar minha coluna sobre isso.

3) Realmente, vc representou um personagem que não é totalmente verdadeiro. Vc pôs na cabeça que todo gay desmunheca, ri com cabeça para trás, etc., o que não é verdade! Deve ter sido por isso que eles ficaram com raiva!!! Porque vc não foi vc mesmo? Por que interpretar esse personagem?

1) Baby : eu sou assim.Não representei nada.Eles que interpretaram meus gestos como gestos exclusivamente pertencentes aos gays. O que é homofobia sentida pelos próprios gays. Que também falam muito pouco. Para não cair em contradição. E porque, o que importa, no fim das contas, é o final da madrugada.

4) Interessante o seu relato. Só não entendi uma coisa... desde o princípio, vc fingiu para realizar um tipo de pesquisa? Se sim, acho que isso incomodaria em qualquer ambiente porque rompe com uma questão ética que sequer tem a ver com isso. Por exemplo, eu sou professora universitária e estou fazendo minha pesquisa de doutorado. Suponhamos que eu fosse a campo e fingisse ser para o meu grupo de pesquisa (que não está ciente disso) se eu fingisse ser parte deles, com características do grupo (que não são minhas pq as finjo), por exemplo, se investigo um terreiro do candomblé e danço nos atabaques simulando incorporações, nada mais natural que quando descubram minha tradição declarada posteriormente cristã, nada mais natural que se sintam traídos. Não pq são do candomblé, mas por causa do mascaramento da minha identidade. Nem sei se concordo com isso que acabei de escrever, só estou querendo pensar com vcs.O q vc acha?

1) Primeira coisa : A pesquisa bacaninha, aquela que a FAPESP aceita e não só o CnpQ, tem uns termos éticos.O que é ética ?O lugar interessante de onde uma pessoa fala. Só isso. Aristóleles in "Retórica".E eu não fingia nada. Me deu vontade de agir daquela forma, vontade e potência, estava "feliz" da vida e o corpo expressou isso. Só significantes. Foram os gays que fecharam o significado, o que é uma ditadura discursiva.E gostei disso: uma coincidência: A colocação mais sóbria é a de uma HETERO( vi seu about me). Isso prum homofóbico é prato cheio.Deus nos livre! Mas o negócio não é botar a boca no mundo, se organizar?Lutar pelos direitos ? Então por que o joguinho nerd-gay tem trocentos participantes aqui, a propaganda de livro gls (que existe, aliás, desde Homero), enfim, coisas sem impacto? Que não "causam".Beijinhos modernos.

5) naum entendi kual foi a sua, mas vc teria toda razão se vc tivesse sido vc, e ele tivessem ti ignorado"! O ponto q vc se passou, por uma outra pessoa! claro evidente q eles agiriam contigo de acordo com oq vc estava se passando ser! talvez seja por isso, vc se passou por um outro alguém, e foi isso q xateou eles. Creio q se vc tivesse sido vc mesmo, dexando claro oq vc é, naum todos, mas muitos naum virariam as costas pra ti!

1) ok.mas eu me passei pelo o que eu sou.não fingi nada.Tentei entender tua argumentação, apesar dos signos estranhos, e se entendi vc ( eu tb. uso signos entranhos ) diz :- não deveria ter desmunhecado pois isso é coisa de gay.É isso?Alguma patente sobre gestos? Uma informação é um signo.O que é um signo? É um significante + um significado.Quem oferece o significante é o emissor,quem oferece o significado é o receptor.O signo é livre por definição.Se eu digo o significante "cadeira",vc imagina a deliciosa cadeira que bem lhe apetecer. Não posso te obrigar a imaginar a minha cadeira. Nem vc pode ficar chateado (esse termo é interessante) por eu não ter imaginado a sua cadeira. Só com esse respeito, o signo não é desviado de sua referência.

6) Acho que o gay ao ser deixado de lado tem que respeitar,eu vou em balada gay,eu danço,tiro a camisa,meus amigos jogam bebida em mim ,passam a mão,me zoam,eu morro de rir.... Mas quando chega algum de fora eles logo falam"Cara,O cara aqui ´pe nosso amigo,mas ele é HT nem tenta q ñ rola!". Ou seja,acho que se os caras são seus AMIGOS mesmo,eles te conhecem,se eles viraram as costas p/vc pq vc ñ quis ficar ou dar atenção aos desejos deles,eles ñ eram seus amigos....

1) Então tem no mundo gay um "gente de fora" e um "gente de dentro". mas mesmo não sendo gay ( com vc não rola), vc é "de dentro". como vc entrou no meio deles ?Fiquei curioso.

6) Eu tive 14 anos de carreira internacional,fui modelo por todo o mundo....e vc faz idéia de como rola essas paradas gay e esses lances aí nesse meio da moda???!Nem falo nda...E tbm pq eu fiquei com um carinha qdo eu tinha uns 20pocos anos e sempre curti baladas e as melhores eram gls,nunca tive problema com isso,minha curiosidade já passou,provei,foi legal,mas ñ é a minha praia,simples.

7) Simplesmente patético.

8) Patético não, atual e necessário. Todos seres humanos, independente de sexo, religião, raça, classe social ou opção sexual. Todos humanos, carne e osso... e alma, muita alma.

1) Obrigado, gente.Espero ter sido útil de alguma forma, como uma cara legal, gostoso, elegante, pau no rabo, sacado, mente aberta, homofóbico, homosarro, heterohomo.Vocês foram muito úteis e vão ajudar muita gente que precisa ver a luz do sol brilhando no céu. Nos vemos nas baladas. Beijos.

Paulo Castro é cronista do Blônicas e arqueólogo orkutiano.

Escrito por Blônicas às 11h43
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A saga dos mistérios - parte 4 - a sorte

De Nelson Botter.

 

Existe sorte? Alguns afirmam que não, que tudo na vida é uma simples combinação de competência e oportunidade. Outros deixam nas mãos do destino, está tudo escrito em algum lugar, seja nas estrelas ou no manual da geladeira, sabe-se lá, é como um quebra-cabeça, as peças vão se encaixando conforme o momento e no final tudo fica do jeito que deveria ficar, como se a vida fosse um jogo de cartas marcadas, do tipo que nem precisa ser jogado. Tenho sérias dúvidas, acho essa de destino uma opção muito conformista, e eis que a sorte ganha a vez na saga dos mistérios da vida.

 

O último filme de Woody Allen (Match Point) fala de sorte, mostra que ela existe, tanto que a frase final é a de um pai desejando ao filho não ser bom em algo e sim ter sorte. Eis o ponto, quem tem sorte vai longe, supera até os melhores. Faz sentido, pois na competição do dia-a-dia qualquer fator pode influenciar diretamente uma vitória ou derrota, entre ser escolhido ou preterido, entre ter portas abertas ou fechadas. Assim, pode-se dizer que a sorte é fator determinante na vida, apesar de não ser isolado, pois depende de outras ações que permitam sua influência. É o mistério agindo, é a explicação para tantos medíocres se darem bem, tanta injustiça divina. As coisas não caem do céu, é obvio, mas muitas vezes elas simplesmente acontecem, mesmo sem você fazer muito para que elas aconteçam. Detalhe: eu disse sem fazer muito, ou seja, é necessário fazer pelo menos um mínimo.

 

Um cara no World Trade Center, na torre 1, estava descendo as escadas quando o prédio veio abaixo. Cento e poucos andares de prédio caindo e ele no 21o andar. Morreu? Que nada, de alguma forma o andar em que ele estava ficou praticamente a céu aberto, por cima dos destroços, com algumas coisas por cima, mas rapidamente foi resgatado. Aquele prédio todo caiu na cabeça dele e o saldo foi uma perna quebrada! Combinação de competência e oportunidade? Acho que não. Ele fez aquilo acontecer? Tampouco. Não era o destino dele morrer ali? Ninguém sabe. A única coisa que podemos dizer com certeza é que ele teve sorte, muita sorte, aliás, muuuuuuuuuita sorte.

 

Quantos competidores segundos colocados, que de longe viam o primeiro se distanciar cada vez mais, foram beneficiados por uma súbita contusão desse primeiro? Medalha de ouro no peito mesmo não sendo o melhor dos melhores. E isso se aplica para tudo, até para um emprego. Você não era a primeira opção, mas o outro candidato por algum motivo desistiu. Pronto, sorte sua... ou dele, vai saber, quando o assunto é emprego o mistério é maior ainda... E uma aposta? Será simples probabilidade, simples matemática, coisa que qualquer Pitágoras sabe a resposta de letra? Não creio. Para jogar com as probabilidades é preciso ter sorte, escolher o certo e não o errado, e isso nem sempre é lógico.

 

Enfim, mais um dos mistérios que sempre continuará mistério, pois não existe explicação palpável, só suposição, e essa é a beleza da coisa, o charme da escolha, do "no que devo acreditar?". Só sei que quer você acredite em sorte, quer acredite em destino, me despeço de mais esse capítulo da saga dos mistérios da vida levando a dúvida comigo. Talvez, quem sabe?, alguém nos comentários nos brinde com a resposta. Será pura sorte.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol (atualizado).

Escrito por Blônicas às 11h07
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O beijo, o “xêro” e os seus arredores

De Xico Sá.

Do cheiro ou simplesmente "xêro", como se diz na lexicografia caseira e no fonema nordestino.
Pense numa coisa diferente do beijo. Donde o beijo é simples e universalíssimo. O cheiro é mais para os esquimós e seus narizes gelados, encostam um no outro e cheiram, cheiram nos iglus...
Nos modos de macho & modinhas de fêmeas do Nordeste, idem ibdem, o cheiro é mais importante até mesmo do que o beijo na boca.
No pescoço, de preferência.
No cangote, na seqüência.
Aspirar até o pó das almas que escorre feito ouro em Serra Pelada no gogó das existências.
Sugar, sugar o cheiro do sabonete barato e genérico de supermercado ou o Lancôme das negas mais ricas.
Às vezes nem carece encostar o nariz de Gogol, sempre suspeito, sempre perdido depois do corte epistemológico do barbeiro russo.
Basta passar por perto.
Como no ônibus.
No corredor da repartição,na firma, na fila do banheiro, no bar, no basfond, onde a abelha sentir o bafo de uma alma de flores.
Fungar...
Eis o verbo.
Gastar todos os sentidos num só olfato, como um Marcel Proust que, em vez de ser platônico, pode ser homérico.
Em vez de bolinhos franceses, madaleines, lindos pescoços.
Em vez de bolinhos para a merenda, tapiocas pós-cheiros.
Quase vampiros, mas sem caninos, só a fungada mais lírica, as incandescências das quais me falava o poeta Jaci Bezerra nos nossos porres no Espinheiro.
O cheiro, ao contrário do beijo, velho Augusto dos Anjos, jamais será a véspera do escarro.
O cheiro é a memória afetiva, caro Walter Benjamin, o faro a favor do encontro no mapa das cidades depois de perdições cartográficas.
O cheiro, amigo Jomard Muniz de Brito, é o prazer do texto, como dizia nosso Roland Barthes, de quem te roubei alguns livros.
Tenho uma amiga, Flavia Guerra, de São Paulo, que educa um sobrinho aqui criado para não perder o encanto do cheiro. Para ser um bom homem, diz ela.
Os mancebos perderam o prazer do cheiro.
Logo agora, numa era de cosméticos tão avançados.
Como nunca precisamos reabilitar o cheiro ("xêro") com toda a força desse mundo, nada como um cangote cheiroso num baile ou numa pista de dança. Cabelos presos ou soltos.
É pela fungada que sentimos o cheiro da alma, o Cashmere Bouquet da existência.
Sem se falar naqueles cabelos molhados no elevador, aquele Neutrox de fim de tarde na padaria, aqueles aromas todos a perseguir, debaixo dos caracóis dos seus cabelos ou derretendo-me qual manteiga na sua chapinha mais quente.

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 14h52
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Um dia de pura diversão

De Milly Lacombe.

 

Vi que o dia seria divertido quando abri a gaveta para pegar meu passaporte e percebi que ele estava vencido. Ou seja, para quem pretendia viajar para fora do país dali a quatro dias, momentos de pura correria e adrenalina apontavam no horizonte como tsunamis. A diversão começou quando soube que precisava da cópia da passagem para conseguir que o passaporte fosse confeccionado em 24 horas. Achei muito conveniente. Pois eu só pretendia pagar pela passagem quando o passaporte estivesse renovado e em minhas mãos. Mas o sistema, o adorável sistema, manda que você primeiro gaste, e depois, emoção à flor da pele, saia freneticamente pela cidade atrás dos documentos que lhe renderão um novo passaporte.

Bilhete emitido, é hora de reunir num envelope (porque sou uma pessoa extremamente organizada) toda a papelada necessária: CPF, RG, título de eleitor, comprovante de votação da última eleição, documentos preenchidos, fotos e a taxa paga no banco. Míseros 90 reais. E lá fui eu, ainda com o batimento a 140 por minuto, para um dos maravilhosos postos da Polícia Federal. A imagem era delirante: um mar de pessoas, todas organizadas de forma caoticamente controlada, esperando por atendimento. E é nessa hora que tem início um exercício que provavelmente irritaria Buda: você pega uma senha e senta (com sorte, porque o número de assentos é sempre menor do que o número de almas suplicando por atendimento). Mas com agilidade você consegue chegar à cadeira antes da senhora de bengala.

Quatro fileiras de assentos são colocadas estrategicamente em frente aos cinco guichês onde exercem o ofício nossos bem humorados funcionários públicos. Ah, a estabilidade empregatícia. Soubesse eu que nunca poderia ser demitida, trabalharia de forma ainda mais carrancuda, só pela diversão. Seu número é o 56 e você percebe que o placar eletrônico chamou o 30. Nada mau.

E aí, de frente para os guichês, a diversão de fato começa. São cinco, e apenas dois estão funcionando. Os outros três, solenemente vazios. Você, muito curiosa, levanta, perde o lugar para a velhinha de bengala, e vai se informar onde estão os outros três funcionários. “Almoçando”. Claro, faz todo o sentido. Porque é na hora do almoço que nós, os civis, podemos ir renovar o passaporte. Então, por que não diminuir, bem nessa hora, a quantidade de funcionários trabalhando?

Nem tudo está perdido. Você percebe que um terceiro funcionário volta do almoço. Agora a fila vai andar. A funcionária chega, cumprimenta muito amigavelmente seus colegas e mostra que é, afinal, capaz de sorrir. Para os colegas. Anda até o seu guichê e quando você imagina que ela vai chamar o próximo da fila percebe que ela, na verdade, vai fazer algo muito mais fundamental: verificar se há grampos no grampeador. Com a agilidade de movimentos de um homem na lua, abre o grampeador e constata que há grampos. Mas não em número suficiente. Então ela vai até os outros guichês, procurar por mais grampos. Enquanto isso, você já toureou um novo lugar na fileira de assentos e está assistindo ao show bem de perto. Ela finalmente acha os grampos e volta ao seu lugar. Movimentando-se como se não houvesse mais gravidade no recinto, abre o grampeador e coloca ali três grampos. Parece satisfeita com a quantidade agora. Finalmente chama uma próxima alma, que se arrasta até o guichê, posição de humilhação, porque, a essa altura você está disposta a beijar qualquer pé pelo passaporte novo em mãos. Depois de quase duas horas, seu número é chamado. Você sabe que reuniu todos os papéis necessários, então, fora o cansaço, está tranqüila.. O homem que não sorri e que parece não ter expressão verifica seus documentos. “Onde está o comprovante de votação na última eleição?”. “Está aí”, você diz, sorrindo, parecendo ser simpática, quase gaguejando. “Você não votou no plebiscito do desarmamento?”. Merda. Então era essa a última eleição! “Votei, votei.”. “Então onde está o comprovante?”.  Você não tem a mais remota idéia de onde pode ter colocado aquele papel de medidas microscópicas que jogam na sua mão assim que você exerce seu dever democrático. Mas nessa hora uma constatação importante: o home é capaz de sorrir. É um riso contido, de canto de boca, mas é um sorriso. “Você precisa de uma certidão que prove que você votou”.  “E onde eu consigo um desses?”, agora você parou de sorrir e está querendo esganar o cara. “Na banquinha lá embaixo”. “É uma banquinha da Policia Federal?”. “Claro que não”. “Mas então por que eles conseguem emitir isso e vocês não?”. “Próximo!”.

Querendo chorar, você atravessa a rua e vai à banquinha. Em dois minutos um pequeno estabelecimento privado emite o tal documento. Você é bem tratada, bem atendida, o homem sorri fartamente, é gentil. E nessa hora você volta a ter fé na humanidade. Privada.

 

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 09h02
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Toca

De Tati Bernardi.

Eu tenho um beijo que alterna do calmo pro intenso, você iria gostar. Acho que você tem olhos iguais ao meu beijo.

A gente poderia ser interessante andando com suas mãos longilíneas e eu tão pequenininha. De repente as pessoas poderiam olhar e pensar: lá vai mais um casal que não combina mas por isso mesmo dá certo. Seria lindo.

Eu olho tanto meu celular que já decorei de quanto em quanto são cinco minutos. Eu tenho vontade de jogar meu celular numa parede qualquer. E me libertar da vontade de ouvir sua voz.

De novo, de novo, eu não canso. De novo fazendo romance em cima de um conto

breve. Dois jantares e um almoço. Só isso. E lá estou eu achando que você pode ser um forte candidato a homem da minha vida. Lá estou eu acreditando que exista um homem da minha vida.

Se você não ligar, nunca mais, eu vou ficar triste, igual fiquei semana passada porque outro não ligou, igual fiquei semana retrasada porque outro sumiu. Igual eu vivo ficando chateada e vive passando. Eu tenho prostituído demais a minha espera. E as coisas parecem perder a importância toda hora. O problema é que, para perder a importância toda hora, toda hora vivem ganhando importância, e eu estou ficando cansada.

Ah, se você me ligasse, a gente poderia ver aquele filme do Bertolucci que eu tô louca pra ver e, se no filme tivesse cena de sexo, eu iria morrer de vergonha. Depois você poderia me fazer alguns elogios, afinal eu passei o dia inteiro com uma touca de creme no cabelo esperando a sua ligação.

Os grampos estão me machucando, mas eu agüento a dor, eu agüento esperar.

O seu beijo poderia ser daqueles calmos e profundos e a gente poderia combinar tão obviamente quanto é óbvio o silêncio do meu celular. A gente poderia acabar de se beijar e cair na risada, uma risada tão ensurdecedora quanto o silêncio do meu celular.

Liga, vai, me dá uma chance. Me dá uma chance de ser extremamente sensual apesar do meu braço torto e das celulites da minha bunda. Ser extremamente sensível apesar de todas as ironias que eu te falo pra você não achar que pode me ganhar.

Eu aprendo a gostar de Nick Drake, Velvet, e se bobear até divido um ácido com você. Não, esquece, tô fora do ácido e quer saber de uma coisa? A Britney Spears vai continuar me dando uma vontade louca de dançar. É como você mesmo disse: eu tenho o ouvido burro.

Mas eu tenho uma mão esperta, me liga vai?

Olha eu mais uma vez me vendendo sexualmente, não, não compre. Compre meu coração, compre minha alma. Recuse minha incapacidade de me achar amada e me ame.

Se você me ligasse a gente poderia ter uma conversa séria a respeito da solidão e do tédio do mundo e resolver ser feliz pra sempre. A gente poderia resolver isso e depois resolver que o mundo tem suas limitações e depois resolver que não tem limitação coisa nenhuma. A gente poderia mudar de opinião juntos e tornar a vida menos solitária e tediosa.

Olha, é simples, são sete números e uma única chance de conhecer uma mulher super bacana. Que, sim, tem chulé às vezes, tem bafo às vezes, tem ataques de histeria, ciúme e infantilidade às vezes. tá bom, é mais do que às vezes, mas se você me ocupar com bom papo e carinho, eu juro que esqueço um pouco meu lado que não sabe se relacionar.

Peraí, tá tocando aqui. tem que ser você, tem que ser você. tem que meeeeeeerda, pena que não dá para processar o "Vivo Informa" por propaganda enganosa.

Tati Bernardi é colunista aos sábados e está a procura de um novo amor.

Escrito por Blônicas às 09h33
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Obrigado, Senhor (2° round)

De Henrique Szklo

Obrigado, Senhor, por me fazer carequinha e barrigudinho.

Obrigado, Senhor, por me fazer exalar odores insuportáveis e incontroláveis, por todo o perímetro de meu miserável corpo.

Obrigado, Senhor, por me entortar os olhos e fazer enxergar tudo duplicado e fora de foco.

Obrigado, Senhor, por me fazer tão sem sal e sem carisma que até as putas mais rampeiras me ignorem solenemente, sendo também desprezado por todos os mendigos do bairro.

Obrigado, Senhor, por me fornecer um nariz que mais parece uma baked potato.

Obrigado, Senhor, por me fazer suar em profusão, deixando a minha pele sempre sebosa e grudenta.

Obrigado, Senhor, por me dar um pinto pequeno, mal ajambrado e torto. E para completar o trabalho, me oferecer a impotência sexual, me enchendo de desejo e esvaziando de sangue.

Obrigado, Senhor, por me fabricar com uma pele tão fina e sensível que até a palavra sol me cause queimaduras profundas.

Obrigado, Senhor, por me fazer um ser estúpido, que jamais passou de ano direto, ficando sempre de recuperação, segunda época, obrigando meu amoroso pai a cancelar a viagem para a Disney.

Obrigado, Senhor, por fazer nascer pelos em profusão em minhas orelhas enormes, que de tanta cera, acaba escorrendo pelo pescoço.

Obrigado, Senhor, por me capacitar com incontinência urinária.

Obrigado, Senhor, por não me incentivar a tomar banho, lavar a mão e muito menos escovar os dentes.

Obrigado Senhor, por me fazer canalha, mentiroso e mal-caráter.

Obrigado, Senhor, por me fazer acreditar que sou um gênio, mesmo sendo uma besta quadrada.

Obrigado, Senhor, por me fazer usar o dedo para limpar os dentes, tirar caca de nariz e coçar o saco na frente de estranhos.

Obrigado, Senhor, por me fazer um estelionatário e golpista, pedindo dinheiro emprestado para amigos e parentes e nunca pagando.

Obrigado, Senhor, por desejar a mulher de meus amigos e às vezes até a mãe deles.

Obrigado, Senhor, por me obrigar a bater nos meus filhos por qualquer bobagem.

Obrigado, Senhor, por nunca ter conhecido a Jeniffer Aniston.

Obrigado, Senhor, por me dar uma voz de taquara rachada.

Obrigado, Senhor, por me fazer brasileiro, paulista e palmeirense.

Obrigado, Senhor, por me fazer invejoso, carente, mentiroso e mal-amado.

Obrigado, Senhor, por me fazer adepto fervoroso do onanismo.

Obrigado, Senhor, por me deixar exposto a comentários agressivos e demeritórios de leitores do Blônicas.

Obrigado, Senhor, por ter inventado o Viagra. Fico te devendo mais essa.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e acredita em Deus, mas a recíproca não é verdadeira. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa (agora pela internet, inscreva-se já!).

Escrito por Blônicas.. às 10h21
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Tudo o que seu mestre mandar

De Leo Jaime.

Tinha aquela música que dizia:"Se oriente, rapaz!". Parecia um conselho. Parecia um velho sábio dizendo à classe que era importante prestar atenção às coisas  do oriente, fazer o que ele estava fazendo, ele que estava no caminho certo. O orientado. Bom, aquilo me irritava. Eu não achava que era um conselho, achava que era uma ordem e não tenho muita vocação para obedecer. Sei lá, era ditadura, tinha palavra de ordem pra todo lado, a música popular não devia dar ordens às pessoas.
Quando, no palco, alguém começava a pedir para o público cantar, orientando um coral, ou bater palmas, eu podia entrar na onda, mas quando a coisa vinha em tom de ordem eu tinha vontade de ir embora, sempre.
Algumas coisas, porém, foram virando clichês, ao longo do tempo. Músicas que dão ordem são a receita do axé music, por exemplo. "Sai do chão", "dá uma abaixadinha", "põe a mão no joelho" e por aí em diante. Coreografias ensaiadas, ou, como um amigo definiu, parece um professor de aeróbica dando aula à multidão que obedece mansamente. Acho que, melhor que a imagem da aula pública de aeróbica, o show de axé se parece mais com lazer dirigido, aquele troço chato que monitores aplicam à criançada em resorts, clubes, hotéis-fazendas e que-tais. Lazer dirigido, pra mim, é contradição em termo. Ou é lazer ou é dirigido.
Lembro daquela letra cantada por uma moça de nome curioso, acho que Des're ou coisa que o valha. Um jeito moderninho de escrever Desirée. Na canção, um enorme sucesso, ela diz que "you gotta do this, you gotta do that", você tem que fazer isso, aquilo, tem que ser assim, tem que ser assado, enfim, ela passa tanta tarefa que ao fim da letra eu preciso de férias.
Pode ser um detalhe em que ninguém preste muita atenção mas se um artista me convida a cantar junto ou se me ordena pode ser determinante para que eu goste ou não dele. Zé Ramalho falava em Admirável Gado Novo, em sermos tratados como gado. Ou será que alguns de nós gosta da idéia de fazer parte da boiada. Sim, há quem procure um cowboy que o guie. Com chicote e esporas.
Vestir-se como a maioria, fazer o que todo mundo faz, conhecer o senso comum, não dar opiniões muito disparatadas daquelas que a média vai digerir: isto pode ser compreensível quando há a ameaça da solidão. Mas obedecer sem refletir, será mesmo tão divertido?
Eu vejo esse pessoal com calças justas no meio das canelas, camisetas regatas, óculos escuros na cabeça, quero dizer no cocuruto, vinte e quatro horas por dia, e lamento que esta estética seja tão massificadora. Mas compreendo que exista um lado de liberação sexual no lance do axé. E, sabe como é, ninguém assume a responsabilidade de nada: lazer dirigido é só fazer o que o mestre mandar.  Mais sem graça que dançar com a irmã.

Ps- Quando vejo as multidões prestigiando Stones ou U2 fico torcendo para que os caras da indústria cultural percebam que há uma multidão de brasileiros que curte rock e coisas de bom nível. Quem sabe, assim como estes shows e tantos outros estão sendo trazidos, artistas para este mesmo público também possam gravar e ganhar destaque na nossa mídia. 

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h52
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Passeata

De Rosana Hermann.

 

Trezentos metalúrgicos fizeram uma manifestação na Av. Paulista contra a proibição do engate nos automóveis. Não sei em que medida a liberação daquelas bolas metálicas acopladas ao pára-choques do carro poderá afetar o emprego desses profissionais, mas a passeata me pareceu sem sentido. Tão sem-sentido quanto uma manifestação de mulheres contra a proibição da acetona para retirar o esmalte das unhas ou a ilegalidade do formol na aplicação da escova definitiva.

 

O que certamente faria sentido seria uma passeata composta por todos nós, cidadãos brasileiros, contra o absurdo da corrupção caudalosa deste país, cujos incontáveis afluentes desembocam num mar de carências na educação, na cultura e, principalmente, na saúde.

 

Nos últimos dias estive em peregrinação por hospitais e pronto-socorros públicos e pude conviver com combinações inesperadas de esforço e sofrimento, miséria e dedicação, resignação e desesperança. Se por um lado ficamos todos revoltados com a falta total de estrutura por outro, aprendemos que basta olhar para o lado para descobrir que nosso problema é sempre menor do que supomos. E que sempre há algum médico tentando compensar a carência do hospital com paciência divina.

 

Entre amputados, atropelados, enfaixados e doentes de todos os tipos, espalhados pelos bancos e corredores e intermináveis filas serpenteando até a rua, a solidariedade nos salva. São pessoas que ajudam, conversam e consolam-se, trocam esperanças, emprestam celulares, dão recados ou buscam ajuda. É incrível ver como a vida se sobrepõe à possibilidade da morte.

 

Mas há também a dor, o medo e, principalmente, a revolta. As horas de espera que não passam, a fragilidade dos doentes e o esforço dos médicos. Para mim, era uma visita ocasional, mas para os funcionários, é o dia a dia. Dá para entender porque o alcoolismo é tão alto entre os jovens médicos. Se eu tivesse que conviver com aquele mundo todos os dias eu também ia terminar a noite enchendo a cara num boteco da esquina.


Uma coisa é certa: tudo está interligado. Os acidentados, a loucura do trânsito, a desigualdade social, a corrupção, a falta de estrutura, são fatores dependentes da nossa economia, da vida política, do nosso voto na urna e, quem sabe, até mesmo da lei que proibiu os engates nos automóveis. Se for para o bem, que seja. Se não for, então, viva a passeata!

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h01
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Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós

De Nelson Botter.

 

Mais uma vez não colou, quer dizer, até colou, mas teve que descolar. Estou falando do outdoor com o beijo gay. Se você não sabe, eu conto, e desconto. Um fabricante de preservativo bancou uma campanha em que um casal gay aparecia se beijando. A empresa responsável pela colagem do outdoor colou e quando viu do que se tratava, mandou descolar. Assim, sem mais nem menos. Parece até aquela história do beijo gay na novela, anunciaram que ia rolar, os peões ali se olhando, se olhando, todo mundo esperando, tinha até torcida organizada, mas beijo que é bom nada! Os peões da Barretos global, Boiadeiros, nada fizeram de mais concreto, ficou no abstrato.

 

Outro duro golpe foi o Oscar. Tinha gente com o rojão na mão, literalmente, esperando o resultado de melhor filme - o gay - do ano. Acontece que a tal Academia ficou enrustida, pois Hollywood é gay, e puseram o prêmio atrás da moita e não na montanha de Brokeback. Mas tudo bem, foi derrota com cara de vitória, veja, isso é um retrato de que a sociedade está mudando, os conservadores já toleram ouvir abertamente as discussões sobre a sexualidade das pessoas e a homofobia diminui gradativamente. Aliás, como psicanalista, vejo todos os dias várias pessoas que são gays e não sabem, melhor, até sabem, mas inconscientemente, e por não aceitarem tal situação se defendem vestindo uma capa de homofóbicos. Péssimo.

 

Pois é, a sociedade ainda está dentro do armário, mas isso está mudando. É preciso paciência! Se formos ver como as coisas eram há 10 anos, melhorou bastante, o tabu é bem menor. Os gays estão assumindo sua condição, apesar de ainda correrem certo perigo pela ignorância de meia dúzia de imbecis que adoram espancamentos para liberarem sua raiva de serem enrustidos. A parada gay é um grande exemplo, a feiras especializadas, as mídias específicas. O mercado consumidor gay hoje é enxergado pelas empresas. Pessoas famosas e notáveis assumem seu homossexualismo sem neuras. Em todo lugar tem gays, todos temos amigos que são gays, aqui no Blônicas tem gays, na sua família provavelmente tem algum gay (mesmo que você não saiba) e por aí vai. Aquela ignorante exclusão social já quase não existe mais. Quase.

 

Pra se ter uma idéia, outro dia aqui da janela do escritório eu vi duas meninas, de uns 15 anos, se beijando apaixonadamente no meio da calçada, com todo mundo passando. Elas estavam lá, mãozinha na cintura, meigas, se beijando com vontade, mas gentilmente, aquela coisa bem feminina, trocando olhares cúmplices e murmurinhos. As pessoas passavam e ficavam olhando como se fosse atração de circo. Alguns até paravam para rir na cara delas. Outros, mais discretos, passavam olhando e ficavam virando a cabeça de cinco em cinco segundos, inconformados, até o final da rua. Mas as lindas meninas nem se incomodavam, estavam ali exercendo seu direito de serem livres e de poder assumir ao mundo sua condição. Viviam a paixão do momento, exalavam felicidade, coisa que a maioria daquelas pessoas que caçoavam da situação nunca puderam viver, tenho certeza. Antes todos os gays fossem assim, ou pudessem ser assim. No parque do Ibirapuera vejo vários casais gays juntos, sentados lado a lado, mas não se tocam, não se beijam. Medo da reação dos outros. Deve ser horrível viver assim, não poder expressar sentimentos em público. Muito triste e repressor. E atitudes como as do outdoor e a da novela só contribuem com isso, é lamentável.

 

Entretanto, sempre há quem faça o contrário. A MTV colocou o beijo gay escancarado, uma ficou com a outra, teve língua, beijaço, era um programa de boa audiência, desses com apresentadora bonitinha, e ninguém morreu, a sociedade não desmoronou, nada aconteceu, apenas uma manifestação de carinho entre duas meninas. E só. Um murro no fígado dos moralistas homofóbicos.

 

Enquanto isso, ninguém impede que a TV mostre a CPI que acaba em pizza, os conchavos de governo e oposição para livrar a cara de deputados safados, gente matando gente, consumindo drogas pesadas... Isso sim é motivo de constrangimento, é a vergonha da nossa sociedade, é o que "corrompe a juventude". Nessas horas dá vontade de chamar a polícia, pois é, eu sei, eu sei, o Robocop é gay.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas às terças-feiras.

Escrito por Blônicas às 10h44
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Muito além daquela fresta

De Xico Sá.

 

Sim, a grande arte de brechar. Ou, como quer o dicionário, o vício de espreitar, espionar, observar.
O brechador não é apenas um voyeur comum. Não é apenas um homem que olha, como no romance homônimo de Alberto Moravia.
Brechar é olhar além das lunetas e das janelas indiscretas. É aproveitar uma fresta mínima da existência, é o alumbramento quem vem aos olhos naquele banheiro de palha dos quintais das antigas, a moça nuinha de tudo, a primeira visão de Manuel Bandeira, lembra?
Brechar não se trata de espiar a vulgaridade devagar,baixaria-slow, do Big Brother.
A arte da brecha é sofisticada.
Contou-me outro dia o bravo Jones Melo, em pleno set de filmagem de "Baixio das Bestas", novo filme de Cláudio Assis, que existiam verdadeiras "gangues" de brechadores no Recife e Olinda.
Coisa dos anos 70,80, pelo que me lembro.
Os rapazes, em bandos, saiam à procura das melhores brechas por sobrados & mocambos.
Claro que sempre arriscavam tomar uns pipocos de espingarda de sal ou chumbo nas costas. Pais e maridos brabos que não permitam tamanha safadeza nos seus códigos de honra.
Nostalgia precoce à parte, bendita época em que o crime era tão delicado quanto um olho numa fresta.
Brechar está para os pobres e menos aquinhoados dos subúrbios como a arte do voyeurismo está para os ricos que freqüentam clubes especializados no assunto.
Se bem que fica difícil botar luta de classes e definir a diferença entre um e outro. É mínimo o limite entre quem brecha e quem voyeuriza.
Um particularidade da arte de brechar, que vai além do voyeurismo, consiste, por exemplo, no flagrante da cor da calcinha, num simples lance de pernas, polaróides do desejo, frações de segundos.
Outro dia, na novela "Belíssima", o Silvio de Abreu quase acertou em uma cena do gênero. Um rapagão de cujo nome não lembro brechava a atriz Maria João, aquele amor de rapariga, lembra?
Brechar é sobretudo a arte da paciência.
O cinema, por exemplo, é uma brecha e tanto. Como no clássico nacional "O Olho Mágico do Amor" (1981), filme de Ícaro Martins e José Antônio Garcia, uma coisa!
Brechar é...
Esperar por horas o momento em que ela se despe, no edifício em frente, e passa correndo pela janela onde fixamos as retinas. Horas postado por apenas 15 segundos de nudez, nudez que mais parece um vulto, mas vale por sabemos que se trata da doce nudez de tudo.
O brechador ou brecheiro obsessivo é capaz de qualquer coisa por apenas uma visão de uma perna, uma meia lua de bunda, um peito, um umbigo que bem poderia ser visto na rua _mas ao brechar vira outra coisa, outro tipo de beleza, como dizem estes viciados plantonistas.
O brechador é capaz de deixar um casarão em goteiras, apenas para roubar a impagável visão da casa de uma bela adormecida.
Olhos não se compram. Quem brecha tocaia a beleza, essa promessa de felicidade à toda prova. 

 

Xico Sá é cronista do Blônicas todas as segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 09h59
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O fim do amor está ao seu lado

De Tati Bernardi.

Ele acorda, te beija meio porque te beija mesmo todas as vezes que acorda e corre para o telefone: perguntar a algum amigo qual é a boa do dia. E você deseja que ele te olhe por alguns minutos ininterruptos, só te olhe e isso baste. Afinal, ele basta tanto para você, não é?
Ele te abraça depois do sexo, mesmo você querendo tanto que tivesse durado mais, e comenta pela milésima vez que foi a melhor e emenda, também pela milésima vez e mesmo sabendo que para você é importante mais alguns minutos abraçada, a frase doída "quem vai tomar banho primeiro?".
Você deixa de almoçar e resolve ir até o shopping comprar roupas novas para ficar linda para o homem mais lindo do mundo, gasta que nem uma vaca louca.
Depois passa correndo - e correndo o risco de chegar muito atrasada do almoço e perder o emprego que vai pagar as roupas novas - na manicure, onde você aproveita para fazer uma hidratação, uma escova, umas luzes e tirar a sobrancelha. Resumindo: você gasta uns 487 paus para ficar bonita, afinal, ele vai te levar para jantar.
Aí ele chega com a camiseta cinza furada, que comprou no Extra Supermercados num pacote que vem com outras quatro camisetas vagabundas, e te diz todo contente que descobriu o restaurante do ano: bom e barato. "Barato" dói cada linha da porra do seu vestido e cada fio esticado da porra do seu cabelo.
Ele tenta, ele ainda tenta mesmo você reclamando tanto, e te manda uma poesia do Vinicius, mas no subject ele escreve: "você tinha razão: Chico Buarque é mesmo irado".
Você passa horas montando o seu "case" e leva para as montanhas as músicas mais românticas e descoladas de todos os tempos. Você calcula que em duas horas e meia, doze cds devem dar e sobrar.
Ele passa as duas horas e meia reclamando que preferia estar indo para a praia, porque praia é muito mais irado, sabe? Reclama que Billie Holliday dá sono (mesmo "All off me" sendo o ar que você respira), Los Hermanos são uns chatos de galocha e Jamie Cullum um viadinho novato qualquer.
Ele coloca, mais uma vez, seu cd riscado do Bob Marley, o mesmo que ele escuta desde os 14 anos, alternando com algum dj gringo do momento, que ele, obviamente, sabe o nome (e você não tem nada contra música eletrônica, mas acha o fim saber nomes de djs e a morte curtir um som underground num trajeto cheio de passarinhos e borboletas).
Vocês chegam a tempo para o café-da-manhã! Que alegria! Você ama tomar café-da-manhã com seu amado, longe de tudo e de todos, você ama ter a grande preocupação do milênio ao lado dele, "geléia de morango ou de framboesa?".
Mas aí, você se depara com a fria realidade do mundo: na mesa ao lado, estão todos eles. Sim!!!! Os amigos dele! Ele chamou os amigos para serem cúmplices da sua brilhante idéia de se afastar de todos! Seu namorado é um gênio.
E ele, com sua ansiedade frenética por aceitação do meio, se esquece da importância idiota que você dá para as refeições em paz e a dois, e resolve juntar as mesas. Claro! Por que não? Tudo o que você mais precisa é ouvir sobre caganeiras, meninas com peitos muito grandes que têm um cheirinho de sovaco embaixo deles e videogame, muito videogame, mas muito videogame mesmo!
Tudo bem vai, ahhhhhhhh, ele é tão lindo assim meninão! Imagina só como seria chata a sua vida com um coroão só a fim de te levar para restaurantes bacanas e viagens a dois? É, um saco realmente, voltemos ao sovaco de teta, por favor!
Fim de tarde, o céu lilás como na canção, você esquece tudo e olha para aquele rosto perfeito, ele tem a boca pequena e os olhos grandes, ele tem uma mão linda, ombros largos e um sorriso branquinho e cheio de dentes, ele é realmente lindo, forte, gostoso... Ele te interrompe com o rosto sério e diz "eu não acredito no amor", como se dissesse "eu não acredito em duendes".
Você sente um azedo subir do seu cu até a sua goela, você quer rolar de chorar na grama verdinha mas também quer que ele saia rolando montanha a baixo, até que você descobre que ele acha tudo isso porque está lendo uma edição especial dessas inteligentes revistas de fofocas sobre casais famosos ao estilo "Paris Hilton" que se separaram.
Você respira fundo, lamenta a morte e, finalmente, olha para o caminho sem volta: o lado.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 15h00
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Obrigado, Senhor!

De Henrique Szklo

Obrigado, Senhor, por me fazer depressivo. Um indivíduo com sérios e inatingíveis problemas de relacionamento.

Obrigado, Senhor, por me fazer lutar cada dia da minha vida, apenas para sobreviver, sem direito a descanso.

Obrigado, Senhor, por me proporcionar este defeito de fabricação que atrapalha a minha vida e a de quem convive comigo.

Obrigado, Senhor, por me fazer irritadiço, impaciente e por surtar violentamente nos momentos de pressão.

Obrigado, Senhor, por me equipar com um humor tão volátil, que parece o clima de São Paulo: as quatro estações do ano em um dia só.

Obrigado, Senhor, por me dar esta capacidade quase que divina de pensar negativo, estragar tudo o que estiver dando certo e por nunca ver uma saída minimamente digna para minha vida miserável.

Obrigado, Senhor, por não me dar alternativas, por me fazer tomar as decisões erradas nas horas erradas, sempre me prejudicando e às pessoas de quem eu gosto.

Obrigado, Senhor, por me dar o dom da escrita, mas não conseguir sobreviver dela.

Obrigado, Senhor, por colocar tantas pedras no meu caminho, por me fazer indolente, preguiçoso e relaxado.

Obrigado, Senhor, por me dar a oportunidade incrível de chegar sempre perto dos meus sonhos, para no final morrer na praia.

Obrigado, Senhor, por me fazer solitário, desconfiado e arrogante, mantendo o meu isolamento cada vez maior. Por me deixar cada vez mais sozinho e inseguro. Mais desiludido e carente.

Obrigado, Senhor, obrigado mesmo, por fazer com que meu relacionamento com as pessoas seja sempre difícil e incômodo, por me fazer sofrer a cada dia por algo que fiz ou que não fiz e deveria ter feito.

Obrigado, Senhor, por me fazer consciente de minhas desgraças pessoais, sem o atenuante de sofrimento, ao contrário: quanto mais a idade avança, mais problemas encontro em mim mesmo e mais angústia sinto.

Obrigado, Senhor, por me fazer incapaz de ter uma vida normal, tranqüila e pacata. Por nunca me fazer satisfeito com o que tenho e me deixar sempre achando pelos em ovos.

Obrigado, Senhor, por fazer com que cada passo dado tenha o peso de mil toneladas, que mesmo as coisas óbvias tomem rumo diferente na minha vida, que até o infalível falhe, inapelavelmente.

Obrigado, Senhor, por me testar todos os dias, me fazendo acreditar que agora tudo vai dar certo, para depois me tirar o chão e me deixar em  queda livre de alturas inimagináveis.

Obrigado, Senhor, por me dar um corpo e um espírito que jamais se sentiram parte da humanidade, que jamais se sentiram pertencendo a algo ou alguém.

Obrigado, Senhor, por me tratar com desprezo, desdém e desconsideração ímpares.

Obrigado, Senhor, por me dar a vida e fazê-la um fardo imenso para se carregar.

Obrigado, Senhor, por inventar o Prozac. Fico te devendo essa.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e só acredita em Deus quando é conveniente. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa (agora pela internet, inscreva-se já!).

Escrito por Blônicas.. às 14h38
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Assistindo ao Oscar

De Leo Jaime.

O cinema americano foi responsável por grande parte do domínio americano depois da segunda metade do século passado. O american way of life ganhou os lares do mundo todo pelo fascínio da silver screen, ou tela prateada. Hoje, e o parágrafo que você está lendo é um exemplo, o inglês está em tudo e em todo lugar, e em parte a música mas primeiramente o cinema americano foi o principal instrumento desta grande conquista.
Vendo o Oscar eu imaginava que um bilhão de pessoas deviam estar fazendo a mesma coisa em lares de vários países. Em alguns devia estar gelado, em outros a mobília devia ser um tanto primitiva, em muitos não devia ter nenhum compatriota concorrendo. É como olhar para o céu no reveillon. Imaginar uma corrente, uma conexão, uma fantasia ou  possibilidade de interação? Pensar junto, emocionar e reagir a estímulos e idéias, ao zeitgeist, talvez. Indústria. Tv.
Vi com orgulho um argentino ganhar.
Fiquei pensando se seria estupidez comemorar o prêmio de um argentino, afinal ele estava concorrendo pela trilha do filme favorito, totalmente mainstream. Como será que chegou lá?
Teve um prêmio para a África. O melhor diretor do ano é chinês. A atriz coadjuvante era de um filme dirigido por um brasileiro; isso não faz o prêmio um pouco nosso? Não.
Sempre gosto de ver as premiações mas nunca depois de ter assistido a todos os filmes para poder avaliar as premiações com parcimônia. Como se adiantasse.
Eles ficam mudando os atores, os técnicos e subalternos de lugar? Sei que tem modelos que ocupam os lugares de quem se levanta para ir ao banheiro. Mas e os atores que perderam no ano passado e não foram indicados este ano? Última fila? Vai ver nem isso.
Ganhou um rap cujo titulo era : "Como é dura a vida de um cafetão". Vai ver a letra é muito boa. Só pode ser. As outras canções não eram inesquecíveis. E nem esta.
Os discursos. Eu já imaginei um discurso para a noite de Oscar. Mesmo tendo a certeza de que nunca correrei o risco de ser convidado para ser manobrista do evento. Acho que todo mundo já deve ter feito isso. É como brincar de planejar o que fazer quando ganhar a megasena.
Oscar é para o cinema o que a copa do mundo é para o futebol. Só que saem muitos campeões e todos eles, ou quase, são do mesmo país. Tínhamos que ter algo que nos ajudasse assim. Como o carnaval baiano se ajuda fazendo, inclusive, com que o carvanal dure o ano inteiro e a Bahia tenha sucursais nos quatro cantos do país. Sem nunca ajudar ninguém que não seja baiano, sem nunca reverenciar quem não seja baiano.
O Oscar, assim como a sociedade americana, já está ficando com o rosto multifacetado. Meio gay, meio africano, meio latino, meio oriental. Este ano.
Uma brasileira estava lá, trabalhando no evento. Ela tinha 8 limusines entre as duzentas que atendem ao evento. Uma empresária bem sucedida no ramo. Algumas celebridades devem andar em seus carros e dizer um "hi, thanks". É o Brasil no Oscar!
O Fernando Meirelles devia estar lá. Levo fé que ele ainda fatura uma estatueta. Aí fica a dúvida, se não for um filme brasileiro ou sobre o Brasil, se for falado em inglês mesmo que seja história e direção dele, é um filme brasileiro? Acho que não.
Para a nossa auto-estima, melhor competir na copa do mundo. Artes industriais não são um terreno ainda possível para a gente deslanchar. Tom Jobim fez com que o Brasil tivesse uma imagem linda e sofisticada no mundo inteiro, mas quando a TV Record seleciona dez cidadãos brasileiros para que se eleja um cidadão padrão entram o Eder Jofre, o Airton Senna, o Duque de Caxias mas o Tom nem é cidado. Quem é a grande rua ou praça com o nome dele? Enquanto Garota de Ipanema faz com que imaginem um Brasil maravilhoso e inteligente mundo afora.
Mas o argentino tava lá, dedicando o prêmio a nós latinos. E nós, somos latinos? Acho que ele se referia aos hispânicos.
Ganhou o filme que ninguém achou que ia ganhar. Bom, o filme, mas não tinha nem uma direção brilhante, nem atuações arrebatadoras. Ganhou só por causa do roteiro? É um bom roteiro, sem dúvida, e a história é bem contada, mas o do Woddy Allen é tão bom quanto e muito mais bem dirigido. Com atuações impactantes.
Durante uma época tive um grupo com alguns amigos. Chamávamos o grupo de Amantes da sétima arte, AMA, e nos reuníamos uma vez por semana para ver filmes e falar sobre eles. Para amar os filmes e quem os fazia.
Sinto falta dos meus amantes. Compartilho com quem ler estar linhas,  os comentários que sei  que faria ou ouviria nesta noite. Ditos por ou para alguns que se foram para sempre, que se perderam na vida, que perdi de foco.
Um Oscar aos amantes. A estes que no escurinho do cinema, glorificam o sagrado  em 24 quadros por segundo.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h47
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Elas...

De Nelson Botter.

 

Pois é, hombres, e elas chegaram lá!, conquistaram seu devido espaço, cabeça a cabeça com os amigos, namorados, maridos, vizinhos, conhecidos, colegas, primos, tios, etc; E olha, digo mais, nós do clube do Bolinha estamos todos confrontados e assustados, rabinho entre as pernas, pois sabemos que elas têm muito mais garra, mais comprometimento, mais responsabilidade, enfim, dão de dez em qualquer um de nós, barbados, pobres gaiatos, ai, ai, ai, coitados de nós, os confrontados e assustados!

 

É que pensávamos que dominaríamos o mundo para sempre, meninos tolos, não percebemos que ao darmos a mão - ha ha ha! -  nos arrancariam logo os dois braços!, espertinhas, que dor mais necessária, deliciosa, que veio em boa hora, loucas!, que levem tudo de meu corpo e me tragam alegria e sensibilidade, lindas!, benditas sejam, criaturas perfeitas, diabólicas, geniais, obra divina do Divino... ou será da Divina? A essas alturas já nem sei, ou melhor, até sei, mas não sou doido de afirmar em praça pública, sabe como é, devo lealdade ao corporativismo masculino...

 

O segredo delas? Quem souber fica milionário, nem quem as criou sabe, Eva levou para o túmulo. Quando Jung inventou a palavra "complexo" com certeza tinha acordado de salto alto. Elas são a definição exata da complexidade do universo, são as que complicam tudo de maneira bela e ímpar, que sentem profundo, mas profundo mesmo, que são a flor (da pele), o choro e o gozo, mães que lambem e protegem as crias, cheirosas e macias como só elas podem ser. O mistério absoluto se encontra dentro de cada uma delas, nove meses, uma mais linda que a outra, procurando um novo charme a cada olhar, uma nova conquista a cada penteado, unhas, pés, roupas, sapatos, bolsas, brincos, etc e etc e etc; combinações e caprichos de verdadeiras deusas da beleza.

 

Homens, o que será de nós? Nem reclamar dos gastos delas podemos mais! Piadas de cartão de crédito estão com os dias contados. Hoje as serelepes ganham seu próprio dinheiro, não dependem de ninguém, são chefes-de-família, doces provedoras, mães absolutas, líderes independentes, auto-suficientes, arrojadas, destemidas, competidoras vorazes, vitoriosas no mundo cão... Ah, sou fã número um delas! Essas meninas são irresistíveis. Nos resta, companheiros, a rendição. Joguem suas armas e entreguem-se ao amor de uma pequena, aos afagos meigos que só elas sabem dar e esperar, e retribuam; nossa, como é bom!; beijem-nas como rainhas, acariciem-nas como Cinderelas, mimem-nas como princesas, embalem-nas como Belas Adormecidas, respeitem-nas como cúmplices de nossos crimes perfeitos.

 

Sim, caros amigos, apesar de toda a atual independência feminina, essas nobres senhoras serão sempre meninas, sempre esperarão por um colinho quente, um abraço carinhoso e apertado, um chameguinho gostoso e protetor, um desses meninos confrontados e assustados com quem possam dividir uma vida, uma casinha, uma cerquinha, filhos correndo no jardim, propaganda de Margarina, vários "oh, happy day!", na constante busca pela verdadeira felicidade.

 

Afinal de contas, ser mãe é cuidar e ser cuidada, e isso é amar, e isso é uma delícia, e isso é ser mulher... e isso é perfeição.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas nas terças-feiras e parabeniza todas as mulheres pelo 8 de março.

Escrito por Blônicas às 11h20
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Troque o celular por uma galinha gorda

De Xico Sá.

O glorioso inventor da ansiedade, Alexander Graham Bell (1847-1922), deve se arrepender até hoje da sua patente telefônica. (Como Santos Dumont, dândi brasileiro em Paris, que maldisse do seu próprio brinquedo ao vê-lo nos céus da guerra).
Nestes tempos em que celular virou brinco, eternamente colado às "oiças" de madames, de moçoilas, de executivos e das gentes em geral _seja na metrópole seja nos grotões e veredas_, uma reflexão recente de dona Maria do Socorro, brava sertaneja, mãe deste que vos berra, vem como pílula mais do que apropriada: "Conheci teu pai, namorei, casei, engravidei de todos vocês, criei minha família, cuidei de tudo direitinho, graças a Deus não morreu nenhum por milagre... E nunca precisei dar ou receber um telefonema, nem unzinho, nem por esmola mesmo!".
Mulher do sertão, que só pegou em um telefone depois dos 50 anos, anda revoltada com parentes e amigas que vivem grudados ao celular. "Tá todo mundo de pescoço torto, cabeça decaída para um lado, parecendo frei Damião, por causa dessa moda nova. Ora, voltem a botar as cadeiras nas calçadas, na frente das casas, e vão conversar sem o diacho desses penduricalhos."
A máxima aceleração de ansiedade à qual dona Socorro submeteu o seu batimento cardíaco foi o berro do carteiro, a esperança que veste amarelo.
A lamúria da falta do telefonema do dia seguinte, protesto do novo código do bom-tom das moças, também é situação nunca dantes. Sem a invenção do velho Graham Bell, o dia seguinte nascia sob rubra aurora sossegada.
Antigamente, tudo dependia mesmo da dramaturgia do olho-no-olho.  A onipresença amorosa e/ou comercial instaurada com o celular não era coisa deste mundo. Uma carta, no máximo, poderia ser uma estratégia, garrafa atirada ao mar de tantas Penélopes, como a carta de Cortázar que vira conto de sereia sob as águas.
Um recado pelo rádio também valia, mas para casos de chás de sumiço de verdade -cheguei a ser sub-do-sub-do-sub-redator de programa do gênero, comandado pelo locutor Gevan Siqueira, na rádio Vale do Cariri, em Juazeiro, com recados amorosos e novelinhas à moda de "Tia Júlia e o Escrevinhador", de Vargas Llosa, aquela coisa chorosa toda e haja loas e loas.
Deixemos de ser plantonistas do mundo. No amor, assim como nos negócios, não somos tão importantes a ponto de alimentar essa onipresença digital. Casanova amou centenas de mulheres sem precisar de um telefonema sequer; Carmem, a cigana matadora, idem ibidem.
No mundo dos cobres e acúmulos, muita gente fez fortuna sem telefone, acreditando apenas no olho do dono como engorda do caixa da bodega.
Quer jogar conversa fora?,  faça como dona Maria do Socorro: "Mate uma galinha gorda, de capoeira, daquelas puxadas pelo pescoço, apure a cabidela na tijela, e me convide para a prosa domingueira".

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h30
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Abaixo os agradecimentos

De Milly Lacombe.

Noite de Oscar pra mim sempre foi especial. Quando eu era pequena, funcionava como a desculpa ideal para ficar acordada até tarde. "Mas que interesse você pode ter nisso, Maria Emilia?", perguntava minha mãe, antes de emendar. "Você nem tem idade para ver esses filmes, que história!". E eu tentava negociar, implorava para ficar vendo, para ouvir as piadas, assistir aquela gente importante ganhar (ou perder, porque o interessante mesmo é deixar essa nossa crueldade humana aflorar e rir de quem não ganhou) a estatueta. O cenário era também ideal para uma comidinha fora de hora, Coca-Cola, enfim, festa. E lá ficava eu sozinha, na frente da TV, assistindo a tudo. Era um acontecimento.

Mas aí eu cresci e fiquei mais chata. Junto com minha chatice, cresceu também a chatice da festa. Aliás, tudo ficou mais chato. As pessoas, as roupas, a caretice, a burocracia, as piadas. Até que, finalmente, na cerimônia do ano passado, eu descobri o que deveria ser feito para que meu interesse fosse resgatado. A palavra "obrigada" deveria ser proibida durante as quase quatro horas da festa. Simples assim. Ninguém mais agradece a porra nenhuma. O desafio: quem ganhar a estatueta pega o microfone e fala coisas relevantes. Porque hoje, com idade para ficar acordada até a hora que eu bem entender sem precisar de desculpas e, por isso mesmo, louca para ir pra cama cedo, eu quero ouvir essa gente de Hollywood dizer coisas que justifiquem uma noite praticamente em claro. Não quero que dois terços da cerimônia sejam gastos com puxasaquismo, agradecimento ao diretor, ao produtor, ao contra-regra, aos maravilhosos concorrentes que fazem esse prêmio ficar ainda mais especial, ao figurinista, ao copeiro, ao marido sem o qual não teria conseguido, à mãe que já não está mais entre nós, mas que foi a primeira a apoiar a carreira ... pelamordedeus. Um microfone e transmissão ao vivo para mais de não sei quantos países, com milhões de seres humanos ligados, simultaneamente, naquilo que o cidadão vai dizer deveria ser motivo mais do que suficiente para que coisas úteis, significativas, criativas, inusitadas e reveladoras fossem faladas nessa noite.

Porque o que acaba acontecendo é que o sujeito que fez aquele filme incrível, que nos levou às lágrimas, que atuou magistralmente sobe ao palco e se revela um completo idiota. Saca do bolso uma lista enorme de nomes que ele pretende agradecer e só diz bobagem. Melhor que não tivesse tirado a máscara, você pensa. Melhor que tivesse ganho o outro cara, aquele do filme chato, que você odiou. Pelo menos não seria tão frustrante o momento em que ele se revelasse um completo imbecil.

Assim, essa é minha singela idéia: proíbam o chatíssimo "I´d like to thank ..." Fim. The end. Chega de agradecimento. E olha que eu não estou pedindo para que se troque o "obrigada" por um discurso social. Não necessariamente. Estou apenas incentivando essa gente que se acha tão inteligente e importante a usar a criatividade. Que o sujeito xingue a mãe, que abaixe a calça, que fique ali parado chorando sem dizer nada. Não me importa. Só não abra a boca para dizer "obrigada".

Se vivêssemos no mundo maravilhoso de Hollywood, com farta distribuição de renda, sem que pessoas morressem de fome, de doenças para as quais já existe cura, sem guerras, atentados terroristas ... vá. Agradeça ao cachorro da vizinha que eu tô pouco me lixando. Mas com tanta coisa precisando ser dita, com tantos preconceitos ainda arraigados, tanta desigualdade que precisa ser alardeada, passar a noite ouvindo essa gente poderosa, armada de um microfone, falando para milhões de pessoas, das mais variadas etnias, classes sociais, idades etc dizer bobagem, blablablando frases sem sentido, agradecimentos pífios .. ah, não, isso não é mais para mim. É muito poder desperdiçado. Então, hoje à noite, prefiro fazer o que minha mãe dizia que eu deveria fazer todas as noites: comer o prato inteiro, ler um capítulo de um bom livro e dormir cedo. Obrigada.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 13h04
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O decote

De Tati Bernardi.

Foi um tanto estranho o início da paquera: desviando de cocôs de cachorros milionários da Oscar Freire, nossos olhares se encontraram.
Duzentos e quinze reais. Por duzentos e quinze reais ela poderia ser minha. Linda, preta, cheia de detalhes malucos e um pouco de brilho. Putz, que dinheirão por uma blusinha. Muita grana mesmo. Eu não poderia gastar tanto numa blusinha. Seria total falta de maturidade, controle e senso de realidade. Jamais. Loucura. Não, nem parcelando, sei lá do dia de amanhã. Vá embora agora!
Em casa experimento minha nova blusinha (que agora que é minha, já não mais me causa a força de uma paixão platônica) e esqueço do valor: só vai cair mês que vem mesmo, até lá algo de extraordinário já terá acontecido em minha vida e esse valor será insignificante. Sim, eu fico linda com ela e ela é realmente muito diferente. Mas a diferença não está nos detalhes malucos e tampouco no brilho: está na gola.
Ela tem uma gola, e isso me faz lembrar aquele branquelo meio loiro por quem eu fui tão apaixonada: no meio de tantos morenos lindos, um loiro branquelo. Ela era uma blusa de gola no meio de milhares de blusas com decote. Eu não tenho bunda, eu não tenho pernas torneadas, eu não tenho um rosto exótico, mas eu tenho peitos bonitos. Eu acho e muita gente também. Adorava mostrar os seios. Era a minha maquiagem, estava pronta. Era a minha segurança, estava preparada.
A blusa tem gola, e a gola é alta. Seria esse um passo positivo para a minha auto-estima? Estaria eu agora me bastando o suficiente para abandonar minha principal muleta de sensualidade? Havia acabado a minha tardia adolescência cheia de inseguranças e medos e eu seria agora uma mulher mais séria e confiante?
Sim, sim, eu estou linda com aquela blusa, mesmo com os peitos sufocados ali dentro. Eu não preciso ser sempre apelativa e sexual, eu posso, com todo o meu charme experiente, ser atraente sem mostrar nada. Eu estou pronta, inclusive para a vida.
Aniversário do amigo do meu amigo. Chego, entro soberba (toda mulher babaca chega soberba quando está usando uma roupa nova, toda mulher é babaca quando está usando uma roupa nova). Ninguém me olha. Quer dizer, meu amigo me olha, e comenta: você está diferente hoje, está triste?
Não, claro que não, como uma mulher com uma blusa daquelas poderia estar triste? E nem só por isso também, por que eu estaria triste? Sou uma mulher linda, madura e confiante em mim, não preciso de decotes.
Reparo que meu amigo, que sempre reparou em mim de uma maneira diferente, começa a reparar na mulherada da noite, se distanciando um pouco para que ninguém pense que estamos juntos. Reparo que os amigos do meu amigo fazem o mesmo.
Jesus! Que foi que eu fiz! A gola começa a me pinicar e eu começo a imaginar quanto tempo eu perderia indo até minha casa e colocando um mega decote de fazer aqueles insensíveis se ajoelharem aos meus pés.
Calma, calma. Eu sou uma mulher formada, que trabalha desde novinha, que pinta quadros, que faz análise, que destrói lares e que escreve textos interessantes, eu não preciso de um decote. Arrisco uma conversinha com um dos amigos do meu amigo: adoro essa mistura de música eletrônica com bossa nova, é tão inovador e ao mesmo tempo não passa de uma arte revisitada e...
Não acabo de falar, ele pede licença para mim e puxa de maneira selvagem (tenho nojo daquilo, mas ao mesmo tempo a percepção de estar de frente para um homem das cavernas me excita) o cabelo de uma mulher decotada que passa se incomodando falsamente com o sucesso.
Chega! Chega! A gola agora me pinica de uma forma insuportável. Meu rosto esquenta, meu pescoço arde. Que foi que eu fiz da minha vida! Uma noite perdida! Essas mulheres todas, esses homens todos não imaginam o meu poder, não imaginam o quanto eu exalo sensualidade, o quanto eu posso ser provocante, o quanto eu posso ganhar de todos e ganhar todos. Tá aqui, aqui dentro, sufocada, a minha sexualidade está sufocada!
Calma, não, não é possível, eu sou uma mulher completa e não me resumo a um par de tetas. Não posso ser só isso. Sou muito mais. Tenho que provar pra mim, meu charme não se resume aos meus seios. Tenho que provar pra mim.
Na tentativa desesperadora de ser sexy, começo a dançar forçando uma impossível naturalidade sexy. Cada movimento é duro, é sofrido, é infeliz. Rebolo e pareço uma criança, gorda e maltratada pelo colegas, tentando girar um bambolê. Levanto os braços naquela expressão máxima de liberdade, mas pareço estar pedindo para que alguém me tire dali. Faço beiço sexy, mas parece aquele beiço de criança mimada que antecede o choro carente.
Socorro, socorro, socorro. Vou me matar. Está decidido. Vou me matar. Não sei se quero enforcar a existência daquela gola estúpida ou a pessoa estúpida que a comprou (e ainda pagou duzentos e quinze por ela).
Estou sufocando, estou sufocando. Não consigo respirar. Um quase desmaio somado a luzes e sons alucinantes transformam minha realidade em flashes embriagados, nesses flashes eu sou pisoteada por peitos, chicoteada por peitos, enterrada por peitos. Preciso acabar com aquilo.
Saio correndo num impulso de sobrevivência (ninguém percebe porque ninguém percebe uma mulher com aquela gola maldita), agarro os ombros de um garçom magrelo, esbugalho os olhos e falo, como num último suspiro de socorro: me arruma uma tesoura, não agüento mais, não agüento mais, quero acabar com isso. Me arruma uma tesoura? Ele estranha e fala que não tem tesoura, mas que eu posso pedir ao segurança. Usando o resto de minha lucidez, imagino que ele tenha falado isso para que o segurança fique sabendo que uma suicida de gola alta quer acabar com a sua vida.
Quero acabar com ela e não quero mais perder tempo, ignoro a dica para falar com o segurança e vou direto à recepcionista do hotel (estava no Cambridge), tento ser calma tal qual os loucos espertos tentam ser normais para fugir da prisão: oi, a senhora poderia, por favor, me arrumar uma tesoura. Estou com uma etiqueta que está me matando e preciso...
Ahhhh, eu consegui, vibro. Eu consegui. Mal sabe a feiosa de uniforme que não é etiqueta coisa nenhuma. Eu vou acabar com esse sofrimento, não posso mais viver nesse mundo em que a minha presença não é notada. É o fim.
Caminho até o banheiro, tranco a porta porque aprendi cedo que minhas desgraças são ainda mais dramáticas se não tiverem platéia e começo a me degolar.
A serenidade volta no primeiro golpe de ar que sinto entrar. A beleza aos poucos se revela. Linda, linda. Atiro a gola nojenta numa lata de lixo.
Ainda com a tesoura na mão e o gosto do assassinato por legítima defesa no sangue, meço um exagerado comprimento e dou-me um presente que vale mais do que quaisquer duzentos e quinze reais: um super decote.
A mulher que sou, pra sempre menina, volta e agradece. Sou mulher e muito mulher. Mulher do meu jeito, com as minhas necessidades. Cada um tem as suas e das estranhezas nasce deliciosos charmes pessoais.
Que seja pelo fato de que seios fartos significam, na mente primata do homem, mulher fértil e boa amamentadora. Que seja porque os seios, de personalidade atrevida, imploram para serem chupados. Que seja pela saúde que exibem. Que seja pela felicidade que eles trazem, iluminando minha auto-estima e, portanto, me fazendo mais bonita. Seja pelo que for, voltei e arrasei. Não houve um puto naquela noite que não tenha me desejado. Não houve uma puta naquela noite que não tenha se intimidado.
Balada é guerra e agora eu tinha minhas armas.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 11h29
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Entrevista comigo mesmo

De Henrique Szklo

1) Qual é sua graça?
- Não sei, acho que nenhuma...

2) De onde o senhor veio?
- Acho que foi daquela direção...

3) Quem é o senhor?
- Como assim?

4) Eram os deuses astronautas?
- Eu não acredito em astronautas...

5) Qual é a sua?
- Aquela ali, azul marinho...

6) Por que tá me olhando com essa cara?
- Por quê? Esse não é um país livre?

7) Qué morrer, mano?
- Não particularmente...

8) Qual a sua relação com a máfia dos ladrões de bic?
- Ãhn?

9) Onde o senhor estava no dia 7 de setembro de 62?
- Saindo de dentro da dona Sarah...

10) E qual a sua relação com essa tal de Sarah?
- Ela é minha mãe, pô!

11) Ahá! Então o senhor a conhece intimamente?
- Mais intimamente impossível...

12) O senhor é gay?
- Posso pedir ajuda das cartas?

13) Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
- O dono da granja...

14) O senhor pertence à alguma organização?
- Não, sou muito desorganizado...

15) Que número o senhor calça?
- Quarenta e poucos...

16) Quantas vezes por mês faz sexo?
- O que é sexo?

17) Lava a mão depois de ir ao banheiro?
- Precisa?

18) Já tomou algum remédio para depressão?
- Pergunte qual eu ainda não tomei...

19) O senhor é feliz?
- Claro que não!

20) Já sorriu hoje?
- Só se foi involuntariamente...

21) O senhor acredita em Deus?
- Não, mas garanto que ele também não acredita em mim...

22) E no amor, acredita?
- Acredito. Eu vejo sempre nas novelas...

23) Qual seu signo?
- Virgem, mas nunca fui santa...

24) Qual seu prato predileto?
- Um que eu tenho todo decorado de flores...

25) Quem são seus ídolos?
- O porteiro do meu prédio, o chapeiro de uma lanchonete aqui perto de casa e o guarda que me multou hoje cedo...

26) Já teve relações sexuais com outro homem?
- Que outro homem?

27) Estado civil?
- Reservista...

28) Tá meio gordinho. Quantos quilos o senhor pesa?
- Posso pular?

29) Escreve porque gosta ou por necessidade?
- Porque eu gosto da necessidade...

30) Quem matou Salomão Ayalla?
- Não me lembro, faz tanto tempo. O sinhozinho Malta talvez?

31) Existe vida depois da morte?
- Essa pergunta quem pode responder melhor é o Doutor Carneiro

32) Se o senhor fosse um bicho, qual seria?
- Cachorro quente...

33) Se o senhor fosse uma fruta, qual seria?
- Uma alface crespa...

34) Dá pra viver de livros no Brasil?
- Não, mas dá pra morrer...

35) O que você achou da minha roupa?
- Depois você me dá o endereço do seu alfaiate pra eu mandar dar uma surra nele...

36) Quer ver minha tatuagem?
- Estou sem meus óculos de perto...

37) O senhor vive de quê?
- De favor...

38) Todo bailarino é gay?
- Não sei, não entendo de balé...

39) O que o senhor acha de mulher usando coturno?
- Deixa a bunda meio caída...

40) Tem horas?
- Tenho, mas são poucas...

41) O senhor sabe onde fica o correio?
- The post office?

42) Elvis não morreu?
- Só ele é quem pode responder...

43) Michael Jackson é branco ou preto?
- N.d.a.

44) Já foi num enterro de anão?
Já, mas quando cheguei lá já tinha todo mundo ido embora...

45) Acredita em bruxas?
- Quais?

46) E em duendes?
- Só nos maiores de 1,80...

47) Qual é seu sonho dourado?
- Ler o Pequeno Príncipe e entender...

48) De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da vida?
- Peço ajuda aos universitários...

49) Tem programa pra hoje a noite?
- Tenho. Dormir...

50) Tem troco pra 50?
- Estou sem trocado...

51) Aqui passa ônibus para o Jardim Pirajuçara?
- Passa, mas só de vez em quando...

52) Existe vida inteligente em outros planetas?
- Se não existe neste aqui, porque vai existir em outro?

53) O senhor me acha sexy?
- Não faz o meu tipo...

54) Já viu um adulto nu?
- Não, não tenho espelho em casa...

55) A zebra é branca com listras pretas ou preta com listras brancas?
- Zebra tem listras?

56) O senhor acha que eu estou gordo?
- Não, gordo você estava há uns 30 quilos...

57) Qual sua cor predileta?
- A do Michael Jackson...

58) Já levou mordida de tubarão?
- Não gosto de frutos do mar...

59) Será que vai chover?
- Um dia vai...

60) O senhor acredita em orgasmo feminino?
- Claro, eu mesmo já tive vários...

61) Posso chamá-lo de você?
- Não, eu tenho nome...

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas (Não pergunte porquê). Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas.. às 13h28
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Acabou o carnaval, podemos começar o ano.

De Leo Jaime.

Teremos muitos feriadões este ano. Daqueles em que o feriado cai na segunda ou terça, ou quinta ou sexta e, óbvio, as semanas viram pequenos oásis em meio ao calor da labuta. A dúvida é sobre a temperatura da tal labuta: vai dar pra aquecer? Estamos em março e o ano ainda não engrenou. Os feriados serão muitos. Longos. A copa do mundo acrescenta mais alguns dias de folga a esta agenda já repleta de datas em branco e as eleições bloqueiam umas tantas outras. Eu, que preciso ganhar a vida a cada mês, mesmo sendo daqueles que trabalham nos feriados, não acho graça nenhuma. Muito oásis e pouco deserto. As contas não tiram folga nunca!

Vi nos jornais que nos últimos 3 anos os bancos tiveram a maior lucratividade de sua história e são, por assim dizer, os eleitores mais felizes do atual governo. Ninguém tem o direito de estar mais feliz com tudo o que acontece. Justificam os juros altos que cobram, e as tarifas altas, que a alta lucratividade não vem da esfolação contínua do correntista. Vem de esfolar o correntista, o dono do pequeno negócio que pede uma grana para o capital de giro etc. Esfola aqui e ali, cobra juros estratosféricos e dobra a fortuna em um ano. Eu, que depois de ver o governo do PT bater recordes de corrupção, fiquei muito desinteressado em ler o noticiário, um pouco enojado, posso estar dizendo asneiras, mas me parece que os bandidos estão ganhando e os eleitores do PT entendem que a corrupção petista não é para comprar bens pessoais, é para ajudar o partido, e, portanto, é "a corrupção do bem". Seguindo a tendência sectária de todo discurso petista que não admite críticas etc. Quero dizer que, pelo jeito, vamos ter que engolir isso, essa argumentação: corrupção sempre houve, agora ela só é mais divulgada porque o PT é mais transparente e o PT não rouba para si mas para uma causa nobre: o programa do partido. E como o programa do partido é o bem de todos...

É chato meter o pau e não oferecer solução. Pois eu não tenho solução. Sinto-me num mato sem cachorro. Não acredito em soluções imediatas e nem em salvadores da pátria. Acreditava que trabalhar sério, ser honesto, ter um bom coração, eram coisas básicas, obrigatórias, para se construir uma vida digna e feliz. Não sei se são valores tão importantes hoje. Os professores mais qualificados da PUC foram demitidos e o valor das mensalidades não baixaram. Quem se forma arranja emprego fácil? Cresci acreditando que tirando um diploma tudo ficava fácil. Tenho o tal  diploma, uma ficha limpa, um currículo cheio, trabalho muito e nunca acho fácil. Não é pra mim e não é pra muita gente. Por quê?

O ano está começando e a  minha impressão é de que o placar está favorável aos bandidos. Mas tem um monte de feriados.

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h07
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