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Muralha

De Tati Bernardi.

Com o som certo para as palavras e o cheiro certo para a presença, você amolece o mais duro gosto pela vida. Ainda que nada mereça uma racional lista neste momento, é como se faltasse o mais essencial ar puro e quente da minha saúde. O ar certo. E pela incoerência da vida e o delicioso gosto contrário pelo certo, esse ar, que se disfarça em puro, nada mais é que o velho conhecido gosto dos sonhos vermelhos aveludados e perfumados de cabarés imaginados.
O gosto pesado de erros soltos, expostos, e mais do que de encontro com o que palpita sem coerência mas soa em perfeição dentro de mim. O ar que bombeia as formigas de uma retardada felicidade levando sensações até para as improváveis pontas do cabelo e unhas do pé. Aquele que arrepia até as peles sem vida das camadas mais próximas à morte. As palavras saem querendo ter sentido, mas a boca se morde tamanha a vontade de abocanhar tanta cerimônia e transformar o peso ereto do humano responsável em instinto animal que corre de quatro e morde sem pedir.
Nada que eu não tenha sentido antes, ou escrito, mas mais uma vez, o que pontua minha vida em momentos e me joga para a frente pra cair de cara. Seja para chorar o inferno próximo, seja para me sufocar de você querendo todos os meus ângulos.
De energia presa num interesse congelado que grudei nos seus olhos, ainda me pergunto se minha clareza não te cegou. Minha energia em potencial, louca para cair de um longo prédio de andares divertidos e morrer tristemente no vazio de um fim certo para um sonho improvável, está zerada na espera de um estalar de dedos.
Estale os dedos e olhe para o chão. Eu estarei ali, arrastada em possibilidades e forte em atração para subir até o andar para o qual você me der asas.
Sei, como sempre soube desde que tomei noção de minha existência baseada em vôos com horas marcadas para quedas, que vou me estabacar em pedaços mais uma vez. E sei que os juntarei novamente, me jurando preservação. E, assim que estiver inteira, estarei novamente cheia de vontade de sair dando encontrões com o mundo. Este mundo que insiste em inventar leis, regras, juramentos e instituições. E insiste em perder para seres apaixonados que juram, até para Deus, que nada pode ser mais sagrado do que a fidelidade aos hormônios.
Clichês me embrulham mais o estômago que qualquer podridão que meu ladopuritano oitenta, irmão gêmeo do meu lado safada oito, tente me jogar na cara.
Aqui estou eu aberta até onde se pode rasgar, exposta até onde se pode vender e insinuando até onde se pode explicitar. E ainda que isolada de cúmplices, longe de aplausos e renegada de benção, aqui estou eu novamente servindo com prazer os meus joelhos à divindade do desejo.
Se você não puder esperar, será bem-vindo em minha ansiedade. Se você me quiser embaixo de mangas, será bem-vindo em meu masoquismo feminino nada original.
Por hora lhe agradeço. Voltaram a gritar os teclados espancados de sentidos para traduzir uma alma que já não cabe mais em seu estado natural. Agradeço-lhe o sorriso estúpido que por mais banal que seja. Nos faz sentir negritados em meio a tantos seres e suas aspirações. Agradeço-lhe a vontade de errar, sem ela minha vida não parece certa.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas e aniversariante do dia.

Escrito por Blônicas às 12h24
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Deus, o engenheiro do universo

De Henrique Szklo

Se existe uma faculdade universal, então, com toda a certeza, Deus se formou em engenharia. Não é designer, arquiteto, diretor de arte, personal stylistic, nada disso. Uma vez ou outra Ele até que acertou, tudo bem, mas, no geral, sempre preferiu a função à forma. Isso me lembra até aqueles celulares da Ericsson, excelentes, de alta tecnologia, mas com o design de um tijolo. Ou mesmo os antigos carros da Volvo. Duráveis, confiáveis, seguros, mas perdiam em design até para caixinha de fósforo. Nada contra os engenheiros. O fato é que cada um tem sua função na vida. A maioria dos produtos bem-sucedidos tiveram engenheiros criando sua função e designers cuidando de sua forma. Deus, como o Gurgel (aquele que fabricou automóveis no Brasil) é metido a onipotente, onipresente e outros entes, acha design uma frescura. E deve ser mão-de-vaca também. Ao invés de contratar alguém do ramo, que custa caro, obviamente, preferiu cuidar pessoalmente do negócio. E deu no que deu. Veja o nosso corpo, por exemplo: uma claríssima demonstração do que eu estou querendo explicar. O corpo humano é a maior representação do equívoco criativo do Senhor. Mas aqui cabe uma pergunta: nós somos resultado de seu pragmatismo, de sua incompetência, falta absoluta de critério ou simplesmente do seu mau-gosto? Não, porque a cada pequena parte de nossa estrutura posso enxergar uma total incapacidade de aliar o prático ao belo.Veja alguns exemplos:

NARIZ
De cara a gente vê que deve ser algum tipo brincadeira ou sacanagem mesmo. Tudo bem que a gente precisa de um equipamento eficiente para respirar, mas existe coisa mais feia e desproporcional que um nariz saindo pelo meio da cara? Michael Jackson que o diga.

ORELHAS
Tecnicamente é perfeito. Uma espécie de concha acústica que capta os sons do ambiente. Do ponto de vista estético, uma calamidade! Deve ter sido uma das últimas coisa que Ele fez, o toque final. Já não estava mais com saco, na alta madrugada, com sono, e moldou o troço de qualquer jeito. “Ah, fica assim mesmo!”, deve ter pensado com seus botões celestiais. Talvez por isso é que nossas orelhas se pareçam com um par de esfihas mal-ajambradas. Só pode ser.

OLHOS
A janela da alma. Mas êta janelinha pequena essa, não? Se a gente olha pra frente, não vê nada atrás e vice-versa. São duas, mas olham sempre pro mesmo lado (salvo no caso dos vesgos). Se o Criador tivesse parado para pensar um pouco mais teria imaginado um sistema de câmeras que nos proporcionasse uma visão ampla e completa a toda nossa volta. Seriamos todos uns big brothers ambulantes.

PEITOS
Principalmente no caso das mulheres, Ele abusou do improviso. Precisava de um reservatório para o leite que amamentaria os bebês. Como já não cabia mais nada para dentro do corpo e Ele ficou com preguiça de redesenhar tudo, resolveu colocar os tanques de combustível maternos do lado de fora. E que ainda ficam pendurados, balançando sem parar e na velhice despencam. Ora, tenha santa paciência.

MÃOS
Aqui Deus pecou pelo excesso. Pra quê tanto dedo? Poderíamos viver perfeitamente com muito menos dedos. Veja o Lula, por exemplo: tem apenas 9 e chegou à Presidência da República.

BARRIGA
Se Ele não tivesse feito nossa barriga de um material tão flexível, a gente não sofreria tanto com a obesidade. Mas o que aconteceu? Bem, é óbvio. Quis usar o mesmo material em homens e mulheres para baratear os custos. A mulher precisa da flexibilidade em sua barriga para quando fica grávida. O homem não precisa, mas como o material é o mesmo, qualquer cervejinha é a sua desgraça.

ÓRGÃOS INTERNOS
Aqui podemos dizer que Ele varreu a sujeira pra baixo do tapete. Pegou os órgãos, suas ligações e instalações, jogou tudo pra dentro e tampou com carne e pele. A confusão, o feio, o mal-cheiro, tudo ficou escondido dentro da nossa carcaça. Quem olha de fora nem percebe o caos que nós somos por dentro.

BUNDA
Dá vontade até de rir. A nossa bunda é uma excrescência em matéria de design, para usar um termo que vem bem a propósito. Ou seria melhor dizer que é um design bunda. E o pior: o projeto é tão mal feito que às vezes os elementos se trocam e se confundem. Quantas pessoas você não conhece que têm cara de bunda?

ÓRGÃOS SEXUAIS
No caso masculino, a lógica foi a mesma dos peitos femininos: acabou o espaço e Ele precisou colocar o equipamento para o lado de fora. Por pura preguiça de redesenhar algumas partes do nosso corpo. Aí surgiu o problema: é preciso desenvolver um sistema que faça o equipamento escamoteável. Se ficar o tempo no tamanho ideal para a copulação, vai correr diversos riscos, como, por exemplo, enroscar numa linha de pipa com cerol. É o que dá. Quando você desenvolve um produto nas coxas, vai tendo que criar mais e mais correções para tapar os buracos do projeto.

“Pronto”, disse Ele, “terminei minha obra”. Todo feliz e pimpão ele já ia começar a produção em escala quando se lembrou de uma coisa: “como é que esse troço vai descarregar seus detritos?”. No caso dos detritos sólidos Ele resolveu logo: dividiu a bunda em duas partes e fez um furo no meio, pra ficar bem escondidinho. Mas quando precisou descobrir como resolver a vazão de detritos líquidos, o bicho pegou. Começou furando a barriga, fazendo ligação direta com a bexiga. Ainda bem que ele desistiu desta idéia, senão hoje teríamos todos que fazer xixi deitados de bruços na privada. Mesmo desistindo desta idéia, Ele deixou o furo, por puro descaso. Depois pensou em usar o mesmo encanamento dos sólidos, mas viu que o resultado seria uma meleca total. Pensou, pensou, pensou e concluiu que já tinha gasto muito tempo num projeto tão medíocre e que não valia a pena despender mais grandes esforços. E colocou a descarga de líquidos onde está até hoje. “Pro que é, tá muito bom!”. E foi dormir com a sensação de missão cumprida.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e detesta trabalho mal feito. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas às 16h29
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Aniversário

De Leo Jaime.

Fiz anos no domingo passado. Em geral estes reveillons particulares não provocam muitos balanços anuais e são recebidos com alegria, muita gente liga, comemoramos, o básico.

Neste, em especial, o quesito comunicação ficou prejudicado, e este foi um dado surpreendente. Há tempos não me encontrava em algum lugar em que o celular não dava sinal. Pois é, a empresa de telefonia do meu celular não tinha antena na cidade quem que estive atendendo a um compromisso profissional, próxima a uma capital aqui no sudeste do país. Sem poder falar com os amigos nem por telefone, sem conhecer quase ninguém onde estava, fiquei um pouco isolado, e,  no palco, estive em casa. Mesmo não sendo uma daquelas apresentações mais calorosas. Fiz uma apresentação só com dois violões em uma praça pública onde tinha acabado de se apresentar uma banda cover que só tocava música dançantes e uma banda de forró. O povo vinha dançando há horas e, de repente, violões...

Recordo-me de uma comemoração ao lado de Guilherme de Brito e da Velha Guarda da Mangueira, todos em um show homenageando aquele que seria o centésimo aniversário de Pixinguinha. Pois é, sopro minhas velinhas no mesmo dia que o velho mestre mangueirense. Na Mangueira tinha outros figurões do mesmo dia: Tia Ciata e Geraldo Pereira. Foi bacana festejar com eles, tomando chá-de-macaco e cantando aqueles hinos. Voltando da tal  viagem soube que Guilherme de Brito tinha morrido e lembrei da comemoração com a velha guarda. Foram muitos os aniversários no palco. Nem sempre shows muito calorosos, curiosamente. Coincidências, efemérides, o universo trama suas conjunções. Nesta semana o Universo On Line também faz aniversário. Dez anos, e isso me serviu de reflexão.

Há coincidências em torno de aniversários, não sei porquê. Mortes e nascimentos. Shakespeare, que também nasceu no dia 23 de abril, como eu e a turma toda que mencionei, também morreu no dia 23 de abril. Nabokov também nasceu no mesmo dia. Somos todos filhos de São Jorge. No Rio é feriado, por causa do santo.

Fiz 46 anos. O Universo fez 10. On line. Isso serve para reconfigurar as coisas. Quando era criança o rock era uma novidade, hoje é uma pilastra da cultura pop. Na minha casa, na infância, vi fogões de lenha sendo substituídos por fogões a gás, vi a televisão em preto e branco que só entrava no ar no final da tarde, ferros de passar roupa tinham brasa dentro e depois foram substituídos por ferros elétricos em que se passavam mica embaixo, ou cera, ou sei lá o quê. Tinha os telefones em que se falava com a telefonista, e depois eram cinco, seis, sete e depois oito números, depois os celulares, tinha o rádio-amador, depois os computadores, os cartões perfurados da loteria, os vídeo-games, os atari, os computadores, foram tantas as mudanças ao longo da vida, tantas coisas, tantos processos, governos, estilos de vida que parece que os últimos 50 anos foram mesmo 5 séculos. Vivi muito e sinto que sou ainda muito jovem. On line.

Por uma lógica que nos foi incutida na infância, deveria entender que sou um homem de meia-idade, que a vida deveria se parecer com uma parábola do u invertido e que eu deveria  agora estar partindo do cume para o início da descida. Será que me faço claro? Quero dizer que na semana do meu aniversário bateu aquele bode que alguns aniversários costumam promover, o da crise previsível da vida adulta. Não sei exatamente o porquê mas fazer quarenta e seis causou a sensação de que já tinha chegado ao cume da montanha e daqui pra frente era tudo ladeira abaixo, ganhando velocidade. Comecei a indagar.

Qual o modelo devo seguir? Os caras que tinha a minha idade, quando era criança ou adolescente, não tinham vivido nada do que vivi e nem tinham a perspectiva que tenho hoje, de longevidade, estilo de vida etc. Passamos por tanta mudanças, aprendemos a lidar com tantas coisas, estamos no limiar de um novo modelo de vida e sinto que estou criando um novo modelo, e não me sinto ainda no auge. Sinto-me, assim como o Universo, ON LINE, ou seja, contínuo, funcionando, um dia de cada vez, cheio de novidades e aprendendo com cada dia uma nova forma, um novo jeito, uma nova tecnologia, a refazer rotas, a refazer destinos, a refazer a própria vida.

Assim, fazendo uma analogia com o UOL, consegui achar um parâmetro legal para minha idade: não sou mesmo velho, mas não posso dizer que não tenha uma boa experiência. Tenho muito ainda a descobrir e muito fôlego. Muitas coisas não duraram dez anos no mundo virtual, e não há a menor perspectiva de obsolescência para o UOL, porque ele foi navegando com o ar dos tempos, vivendo um dia de cada vez e aprendendo com a interação, com os outros, com o mundo. Acho que minha vida tem sido assim. Não me sinto ainda no auge. Não sei se vai haver auge. Sinto que há um aprendizado e uma interação contínua. E comunicação. Muita comunicação. O visual vai mudando, evidente, mas não sinto que tenha hoje a cara de alguém que está na curva descendente. Não vejo a curva. Vejo a linha.  E o universo de possibilidades. E comemoro isso.

É tudo uma questão de onde se ligar. E permanecer ligado.

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas.

Escrito por Blônicas às 16h27
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Paixão de ódio pela mídia

De Rosana Hermann.

 

O telespectador é, antes de tudo, um estressado que busca na tv uma forma barata de entretenimento para distrair-se, divertir-se e, quem sabe, aliviar um pouco da tensão diária. Além de dores no corpo e do saco cheio, este estresse também torna o consumidor de mídia um alvo fácil para provocações porque a tudo, ele reage, imediata e ferozmente, exatamente como fazem todos os torcedores durante o jogo de futebol. O famoso cara ‘da poltrona’, levanta, grita e só não quebra o aparelho porque sabe que o prejuízo será dele. Se ele fica indignado com o rádio, telefona e, se a provocação vier da web, ele comenta e manda e-mails e protesto com letras maiúsculas e uma coleção de pontos de exclamação.

 

Além desta tensão o telespectador, ouvinte ou internauta, também tem sentimentos reprimidos em relação a profissionais que aparecem na tv e até às próprias emissoras. Veja o caso de Clodovil, por exemplo.Durante anos acreditou-se que ele era amado por todos, apesar dos pesares. Mas basta alguém levantar uma bandeira contra ele e a adesão é total. Maria, como sempre, vai com as outras.

 

Agora é a vez da Rede Globo. Amada, adorada, venerada e tida por muitos mais como uma religião do que uma empresa de comunicação, a Globo vem sendo abalada em sua hegemonia pela segunda e pela terceira colocadas, alternadamente, o SBT e a TV Record. Pois para surpresa geral da nação, muita gente torce muito para que a Globo perca, não importando quem fique em seu lugar. Não é que essas pessoas sejam a favor da Record ou da emissora do tio Silvio, elas apenas torcem para que a Globo perca sua posição de líder eterna.

 

Ao que parece, existe uma paixão nacional de ódio por todos os que chegam ou ficam no poder. Não é apenas uma extensão do se ‘hay gobierno, soy contra’, mas uma vontade de torcer contra todos os que estão no topo. A paixão nacional é sempre pelo pobrezinho, pelo coitadinho, pelo pequeno. Claro que é compreensível do ponto de vista humano mas é possível que ao nos penalizarmos pelos menos favorecidos pela sorte estejamos advogando em causa própria.

 

No fundo, por muitas razões históricas que explicam mas não justificam, nós temos pena de nós mesmos. Nós, brasileiros e brasileiras, nos sentimos apequenados, fragilizados, coitadinhos. E só quando temos certeza do primeiro lugar, como nas copas do mundo, é que vamos com tudo para cima dos adversário. Aí sim, acreditamos na nossa capacidade e na nossa garra. Aí sim, somos duzentos milhões em ação, salve a seleção.

 

Mas o resto do tempo, ao que parece, torcemos contra todos os vencedores porque temos ojeriza ao sucesso alheio, como já preconizava Tom Jobim.

 

Somos um povo afetivo, sentimental e emotivo. Mas nossa principal paixão é a paixão de ódio. Talvez só isso explique o fato de sermos tão moralistas e imorais, tão conservadores e liberais, tão agressivos e sentimentais, sempre prontos para usar a incoerência para destruir tudo o que nos causa esta insuportável inveja pelo que tanto admiramos.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h02
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Beijo-me a si mesmo

De Nelson Botter.

 

Lamento profundamente isso tudo. No começo é sempre uma brincadeira, frenezi, mas com o tempo não sei o que se torna, só sei que fica sério. Muito sério. Choros e velas. E depois que passa, acontece de novo. De novo. É uma idiotice tremenda não se policiar quando a coisa toda começa. Dá pra sacar onde tudo vai parar, mas mesmo assim é tentador dar corda, fazer com que o corpo ganhe forma, tamanho, rigidez. É um prazer filho da puta que podemos controlar, mas não queremos. É a pura destruição da alma, é querer acabar com sua paz, seu equilíbrio, é ter a respiração dificultada, tatuar a culpa no travesseiro todas as noites, é ver-se perdido e completamente ciente de tudo. Ciente de tudo-tudo. Ninguém precisa de explicação nessas horas, a balança do bem e do mal é atirada no fundo do Tietê, para simplesmente adormecer no meio da mesma merda que a cercava. O pior de tudo é sentir no peito toda a hostilidade que cresce sem parar, de ambos os lados, é ver que sua ladainha se torna negativa, idiota, dispensável. A hostilidade é a mãe da ansiedade, que por sua vez é irmã da loucura. Todos loucos, no mesmo barco, navegando no oceano de sandices humanas, de brincadeiras perigosas, inconseqüências juvenis, da doação condicional, pobres de nós que abdicamos da maturidade. Abdicamos e desprezamos essa porra de maturidade. E não é porque crescer é chato, nada, é para poder ferir os outros, continuar desrespeitando limites, acabar com a confiança e - de quebra - a esperança. É para lamber o proibido só porque parece mais gostoso, diferente, quando se sabe que é mentira, pois a tentação se disfarça mal. Queremos machucar, arrancar lasquinhas de carne, sorrir com a desgraça alheia, nos sentirmos mais do que os outros somente por sabermos que não passamos de uns bostas insatisfeitos. Mas tudo vira, assim como o mundo gira, e a mesa capota na mente, rodopia na frente de todos e cá estamos de novo. Ainda há quem se respeite, quem se beije de verdade, quem se toque com prazer, quem se queira e se doe, quem diga "eu te amo" sentindo isso e não somente como slogan de campanha. Hoje o Pierrô (leiam: palhaço) não tem mais sua Colombina. Preferiu ter todas as mulheres do mundo e não ter nenhuma ao mesmo tempo. E eu... bem, eu peço desculpas por falar demais. Demais. Peço sinceras desculpas por falar assim, tão abertamente, de você, Pierrô, de você.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas toda terça e está no livro homônimo com outros textos. Veja aqui.

Escrito por Blônicas às 11h25
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Um gay é tudo na vida de um cabrón

De Xico Sá.

 

Nada como um gay nas nossas pobres existências sobre a terra, “essa passagenzinha de nada”, como me sopra aqui no cangote o velho e bom Kardec.

Sim, um gay de verdade, com toda a sua riqueza de alma.

Agora falando mais sério ainda: um gay é tudo em nossas vidas.

Duas ou três coisas que deveríamos saber mesmo sobre eles: toda grande mulher tem um gay como principal e inseparável amigo; festa sem gay não decola, não emplaca, não orna; o mundo sem estas alegres criaturas teria muito menos delicadeza e graça.

Festa sem gay não tem liga, nossas mulheres sem eles não são as mesmas...

São sentenças bíblicas. Deveriam constar de lei federal, nas tábuas de Moisés, em todos os testamentos.

Você já viu uma festa sem gay animada? Também não.

A pista não pega fogo, as mulheres não têm com quem fuxicar sobre o modelito da perua de vermelho... Seja forró, tecno, dub ou um sambinha esquema noise de novo.

Seja em Nova York ou no Crato.

A mesma lição da festa perfeita vale para a amizade das nossas gazelas. Mulher sem um amigo gay nos arredores não tem graça. Com um gay como melhor amigo, ela fica mais inteligente, mais bem-humorada, mas faceira, acerta a roupa que veste, pinta o cabelo pra sair da rotina, o diabo-a-quatro.

E você, cabrón, enquanto a amada vai ver o filme-cabeça com a biba amiga, ainda pode ficar em casa curtindo tranqüilamente aquele Santos x Atlético/PR, aquele Fortaleza X São Paulo, aquele Figueirense X Palmeiras... Aquele Íbis X Itapipoca...

Ora, nada melhor para nos livrar daquele filme iraniano, paquistanês, islandês, chinês, norueguês, siamês...

Uma beleza, uma mão-na-roda!

Sem esquecer, claro, que você, cabrón, também terá um grande amigo, normalmente brilhante, pra quebrar um pouco a rotina da testosterona à milanesa do boteco, pra quebrar a eterna ignorância da sinuca, pra quebrar a monotonia das peladas, pra dissolver o colesterol dos nossos torresmos mentais, pra saber das últimas tendências, pra livrar-se dos preconceitos mais banais e mais e mais e mais.

 

Xico Sá é cronista às segundas e está no livro Blônicas com outros textos. Veja aqui, cabrón.

Escrito por Blônicas às 13h18
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Nossa doce rotina

De Milly Lacombe.

 

Eu digo que te amo. Você me pergunta, deitada em mim, sorrindo aquele sorriso que é só seu – e, em meus devaneios egocêntricos, também meu – por que. E são tantos os motivos que eu não sou capaz organizá-los em uma lista, como pede sua apaixonante sensatez. Ainda mais quando sou desafiada por esse tal sorriso que desarma – e, na seqüência – arma. Ainda mais quando tenho você em mim, só para mim, mais minha do que jamais alguém foi – cabelos descansando sobre o meu peito, mãos passeando pelo meu corpo, olhos vasculhando minha alma. Como raciocinar com um barulho desses? Então, para seu entretenimento, e para manter esse sorriso me olhando, vou jogando motivos no universo, sem método ou lógica. Mas, sozinha no silêncio do meu quatro, pensando em você, e nos motivos que me levam a te amar desse jeito tão puro, tão forte, tão sincero, fica muito fácil responder.

 

Eu te amo porque você chegou sorrateira, como quem não quer nada, mas vestida desse sorriso que é capaz de parar indústria e comércio. Te amo porque você me lê, me dá bola, me embala. Te amo porque você tem mãos lindas, cabelo brilhante, pele cheirosa. Porque você é alta, inteligente e sarcástica. Te amo porque você sabe meus truques, porque você tem olhos de jabuticaba, porque você gosta dos meus piores defeitos. Porque você é adoravelmente arrogante, porque você mexe a cabeça quando dança, porque você dorme com os pés para fora do cobertor. Porque você gosta de Pearl Jam, Ben Harper e Paul Van Dyke, mas também de Chico, Ivone Lara e Roberto Carlos. Porque você torce para um time que eu odeio, porque você acha que meus olhos são os mais bonitos do mundo e porque você entorta a boca de um jeito sapeca quando fala alguma coisa para me provocar. Porque você não precisa de ninguém e, ainda assim, vive rodeada por várias tribos. Porque você mudou de casa para deixar que nossa história pudesse acontecer, porque você nunca teve medo de me deixar entrar, porque você considera me deixar ficar. Porque você ouve a música da vida, e é a mesma que eu ouço, e não vê outra forma de passar por aqui que não seja com ritmo. Porque você inventou a chubby dance, tem um creme para cada ocasião e lê os livros que eu recomendo. Porque você beija como ninguém, mexe no meu cabelo e faz amor olhando nos meus olhos. Porque você me coça, coloca o despertador para tocar uma hora antes do necessário só para poder me namorar enquanto eu ainda durmo, porque você toma banho de manhã e, logo depois, volta para a cama papar me beijar mais. Porque você liga várias vezes ao dia para dizer que me ama, para saber se eu estou bem, para me contar sobre sua rotina. Te amo porque você usa salto, tênis e chinelos; vestidos, bermudas e calças jeans. E porque você combina com todos esses estilos. Porque você chora quando fazemos amor, porque você pergunta sobre o meu pai, ri das besteiras que eu falo e gosta de ficar vendo fotos da minha infância deitada ao meu lado. Porque você quer ter uma casa de campo comigo, um lugar onde a gente possa passar a noite olhando o céu e bebendo vinho, porque você respeita minhas neuroses. Porque você gosta de alterar quimicamente a realidade das coisas, porque você adora experimentar, porque você não sabe viver sem flores. Porque você gosta de deitar e colocar minha cabeça no seu ombro, porque você acha que assim me protege, porque você sabe que eu preciso de proteção. Porque de manhã você adora yakult e danoninho, pão na chapa e queijo branco, Calvin e mamão. Porque você ri quando eu vou fazer café e me sujo inteira, porque você vai trabalhar muito cedo e deixa ao lado da cama meus cadernos preferidos do jornal, porque você me deu a chave da sua casa. Porque você cuida da Joaquina, é charmosamente desajeitada e volta e meia escorrega no tapete da sala. Porque quando eu chego na sua casa e você está no banho você passa a mão no vidro do box para tirar a água e me ver melhor, me chama mais perto, abre a porta e me beija molhada. Porque você acha que um dia a gente pode, quem sabe, desafiar o sistema e casar. Porque pensar nisso faz seus olhos se encherem de água, porque você também sabe que normas e padrões podem nos afastar. Porque você comprou um caderninho no qual a gente escreve as besteiras que fala e porque você se diverte muito com isso. Porque você acha que a felicidade está nos detalhes, em passar uma noite comendo peixe, bebendo vinho, colando figurinhas no álbum da Copa, que você me deu de presente, e ouvindo Tom e Elis. Porque, nessa noite, colando figurinhas, ouvindo Elis e bebendo vinho, seus olhos brilharam como nunca. E então você parou tudo, colocou a mão no meu rosto, me olhou bem fundo e me beijou do jeito mais carinhoso do mundo. Porque você entende que o sentido da vida é esse: é amar, ser amada, e criar uma doce rotina. Nossa doce rotina. E que nada mais importa. Porque você sabe que nossa história pode ser precocemente interrompida, e que, mesmo assim, ela já terá valido a pena. Porque ela talvez seja, agora e para sempre, a história mais bonita das nossas vidas.

 

Mas, se eu tivesse que pegar um motivo apenas, eu diria que te amo porque você é a mulher com quem eu sempre sonhei, mas nunca achei, de verdade, que pudesse existir. Por isso. E também, meu amor, porque você mexe a cabeça quando dança.

 

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos e escreve também no BlogGol.

Escrito por Blônicas às 10h29
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Mais um par de tênis velhos

De Tati Bernardi.

 

Até que enfim, pensei, quando o sol entrou de leve pela janela e fez os cachos dele brilharem. Eu olhei tão apaixonada que ele sorriu, um sorriso do tipo "eu sei que eu sou foda".

Não, eu estava louca novamente, ele estava sorrindo para uma piada idiota qualquer que alguém havia mandado por e-mail. Ele nem me via daquele ângulo com seus olhos pequenos, profundos e da cor dos cabelos, mas eu via seus cachos nunca penteados brilhando o dia todo.

"Novo editor, muito prazer. Vou tentar empurrar aí umas colunas de cinema."

Aquela frase ficaria imortalizada na minha mente, não só porque ele era novo, editor, ia empurrar e entendia de cinema. Mas porque para cada terminação de palavra um resto de vogal rouca e sexy demorava a desaparecer no ar. Vou tentaaaaar, empurraaaar... aquilo entrava dentro de mim, goela abaixo, corria pelo sangue, saía na calcinha. A voz dele era rara, baixa, firme, rouca e madura. E pra piorar sua boca era um desenho perfeito perdido num emaranhado estranho de pelos que se interligavam em bigode e cavanhaque. Eu só conseguia olhar para a sua boca e pensar em tipos de arrepios e cócegas em partes de mim que eu nem lembrava que existiam.

Um dia ele demorou pra voltar do almoço e eu não resisti, quis saber um pouco mais daquele mundo. Em cinco minutos descobri um universo perfeito. Em cima da mesa ele tinha cinco CDs: Tim Maia em sua versão Racional (o que prova que ele deve ter amigos legais que já fumaram muita maconha mas agora trocam dicas de móveis e pôsteres bacanas para a casa em que moram sozinhos), Cartola (o que prova que ele já sofreu por amor, mas superou e está pronto novamente porque a vida sem amor é uma merda), Frank Sinatra (ele sabe ser um pouco mafioso e levar uma mulher elegante em um restaurante chiquérrimo, pedir um bom vinho, obviamente pagar tudo e depois mostrar a pistola), Strokes (ele é jovem e moderno, só romance a moda antiga enche o saco) e um CD rabiscado, de caneta própria para CDs, que trazia escrita a palavra "livro" (sem comentários, eu poderia bater uma punheta agora sentada sozinha naquela mesa). Sua proteção de tela era uma foto P&B de um nenê olhando para o pinto, mas eu sabia que ele não tinha filhos, logo, ele ainda era um tio bacana que gostava de crianças, o que torna um homem sempre ainda mais bacana.

O típico leonino volta com sua juba iluminada, reclama que depois de comer massa o sono impera no rei  e vira um touro preguiçoso entregue à luxúria da contemplação mundana. Espreguiça de leve e eu consigo ver um pouco da sua cueca xadrez. Xeque-mate, esqueço que sou dama, não tem como ganhar de um encantamento porque já se ganha só por estar encantado.

Se ele quiser, sumo agora daqui e enfio minha mão com toda a força do planeta naqueles cachos, beijo todos os emaranhados com a pressa de quem tem medo do fim do mundo. Olhar pra ele é o fim do mundo, o fim da rotina, o fim da dor, o fim da espera. Ele é vida nova e tudo vai dar certo.

"Tô triste hoje", ele solta no meio da tarde. Sim, claro. Ele é profundo, ele é intenso, ele é sensível, um homem desses fica triste no meio da tarde, um horário entre o começo do nada e o fim do nada. O meio do nada é ainda mais nada do que tudo. Ele sofre por estar aqui sentado, mas ao mesmo tempo sofre porque estar agora sem ter onde sentar também é angustiante. Viver é angustiante. Senhor, sim, ele me entende.

"Por que você está triste?"

"Minha mulher jogou meu tênis velho fora."

 

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 10h27
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Quando uma taça é só uma taça

De Leo Jaime.

Começará a febre da copa do mundo e a obsessão tão simbólica, de marmanjos de todo o mundo em busca da taça erguida.Quem poderá ostentá-la? Há uma sutil relação entre os jogos esportivos e as danças acasaladoras? Será o drible do Ronaldinho a versão sublime da dança da salamandra doida?
Veja só que coisa espetacular: em 58 na Suécia, Garrincha foi convidado por uma bela e virgem sueca, que não lhe sabia o nome, para inaugurar o placar. Era o "dia das virgens", um hábito local, e neste dia as moças que ainda não conheciam os prazeres do sexo escolhiam alguém nas ruas, ou chamavam um amigo, e resolviam o problema. Será que ainda é assim? Garrincha compareceu de bom grado, indo até a casa da moça que, inclusive, o apresentou aos pais na entrada. Na saída, só não parou para tomar uma cervejinha com o pessoal pois em sueco, ou em inglês, o nosso craque era mudo. Pois bem, esta é uma estória de sedução? Teoricamente não, mas marcou tanto que a reproduzo aqui e você acabará por contá-la a alguém. Sexo é amor, e essas coisas, nas quais um não sabe o nome do outro, também podem ser inesquecíveis.
Em geral, já disse isso antes, a coisa é muito mais difícil para o nosso garoto. O menino brasileiro só conhece a rejeição, nada além da rejeição, do início da puberdade até o serviço militar. A masturbação, ou "justiça com as próprias mãos", como chamam, é alívio momentâneo e ineficaz, e aguça mais a curiosidade e a pressa. É nesta época que o homem desenvolve a capacidade de sedução. E o faz mal. A pressa é inimiga da caça e da pesca, mas é amiga do delírio e da idealização.
O menino bolina o peito e a menina reage ofendida. Se ela lhe mete um tabefe, ele nem sente, de tão humilhado que já está, implorando migalhas, usando seu poder de persuasão para conseguir passar a mão no bico do peito, sem pegar, por sobre a camisa, como se aquilo fosse um bem para si e não, nunca, imagine!, para ela. Ao homem cabe a iniciativa. Ele tem que fazer e a ela cabe ser o juiz e não o troféu, ou muito menos a parceira. Assim, o homem carregará pelo resto da vida estas pequenas e infames vitórias, como método viável. Sem perceber que não está consultando os próprios sentimentos, sem sentir-se desejado, não fez mais que desenvolver a dança do acasalamento de um jeito pobre, tosco, patético. E repetirá para todo o sempre, até que alguma mulher o livre disto, a tal dança da salamandra doida. A sua sorte se dará quando alguma mulher o vir antes, percebê-lo e seduzi-lo. As mulheres nascem professoras no assunto, a elas deveria caber a iniciativa. E nos poupariam do ridículo.

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas.

Escrito por Blônicas às 12h43
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Administração de arquivos

De Rosana Hermann.

 

Nos anos 80 a possibilidade de estudar biblioteconomia cruzou meu caminho. Como nunca pensei em ser bibliotecária e considero-me uma das pessoas mais desorganizadas do planeta descartei a chance sem pestanejar. Foi um erro, ou melhor, uma falta de visão de futuro. Se eu tivesse aprendido a organizar documentos em pastas suspensas e classificar obras literárias hoje eu não estaria perdida entre os arquivos e as pastinhas do meu Windows Explorer.

 

Tenho todos os recursos no Mac e no PC de busca interna para encontrar textos, imagens, vídeos e arquivos em geral e confesso que é só graças a eles ainda consigo achar alguma coisa. Porque meus critérios pessoais para arquivamento são totalmente imbecis.

 

O primeiro problema são os sinônimos.Tenho pastas chamadas Minhas Imagens, Minhas Figuras, Minhas Fotos e My Pictures. Só falta encontrar alguém que me explique qual a diferença entre uma picture e uma foto. Não bastasse essa falta de critério ainda tem o problema do input de novas informações quando descarrego as fotos da câmera digital. Com preguiça de renomear  cada uma, elas acabam entrando como  CS0001354 ou coisas do gênero. Para reencontrar uma foto tenho que passar horas operando no visual, olhando miniaturas. Isso quando uma foto nova não apaga a antiga com o mesmo número de identificação.

 

Além das pastinhas da fase anal com ‘minhas’ e ‘meu’, como Meus Vídeos, Minhas Músicas, tenho também as genéricas como ‘textos’, ‘documentos’ e ‘arquivos’, onde tudo fica perdido em ordem alfabética, tamanho e data de criação.

 

Há alguns anos, descobri que podia criar infinitas subpastas dentro das pastinhas, e separei as Minhas Figuras em mais de cinqüenta outras subdivisões como Objetos, Roupas, Animais. Tudo ia bem até o dia em que não sabia onde enfiar algum Jpeg e criei as pastas ‘outras’, ‘miscelânea’ e ‘seilá’. Seilá é de matar.

 

Neste momento, por exemplo, estou procurando uma imagem (ou será uma figura?) de uma bonequinha ao lado de uma arara de roupas que está em meu computador mas... onde? Já pesquisei por arara, roupa, boneca, bonequinha e nada. Pesquisei por tamanho, extensão, parte do nome. Procurei também por ‘doll’ porque tem esta agravante: muitos arquivos estão em inglês, misturados com o português, o que transforma meu Windows Explorer numa torre de babel pós-moderna.

 

Não sei se o curso de biblioteconomia teria resolvido minha desorganização pessoal mas se houvesse cursos especializados para todos nós, auto-didatas em computação, hoje eu certamente me matricularia em Administração de Arquivos. Com especialização em boneca na arara.

 

Rosana Hermann é cronista aqui toda quarta, sempre com um texto de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h26
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Beijo-te a mim mesmo

De Nelson Botter.

 

Eu queria poder te amar do jeito que você é, sem enxergar seus defeitos, suas manias e manhas. Eu queria não querer a perfeição, não exigir o máximo, ser tolerante e talvez até um pouco mais ingênuo. É verdade, assim eu queria não perceber tudo que se passa, não entender sua maneira de pensar, não te achar frio e calculista, sedutor e manipulador, não ter rancor e muito menos desconfiança de você. Dói muito quando vejo que você nem sempre é quem eu gostaria que fosse, que seus objetivos não são os que eu esperava, que sua linha de raciocínio é muitas vezes duvidosa, que me assusto com o que você fala e ainda mais com a sua maneira agressiva de se defender. Eu queria não ver nada disso, olhar para dentro de você e só perceber as coisas boas, sim, pois você é repleto de virtudes, não pense que só vejo a sua sombra. Não, nada disso, vejo também a sua luz, mas os contrastes são fortes e não há como fingir que o latente desencanto também existe, que sua carne fede como a dos anjos e demônios. A balança ora pende para cá, ora pende para lá, normal, tudo igual, mas eu queria poder ver só um dos lados, dois pesos e uma só medida. Você me pergunta por que isso, eu te respondo que não sei, talvez seja o movimento dos astros, as pressões da sociedade, as imposições da vida, tanto faz, tanto fez. Eu queria poder te classificar como um homem bom, do bem, que respeita o limite dos outros, que respeita seus próprios limites, que não é guiado apenas por interesses próprios e sim os das pessoas que te cercam, dos que te querem bem. Eu queria poder encher minha boca de dentes e gritar ao mundo que você é um exemplo a ser seguido em todos os aspectos e não apenas aqui ou ali. Enfim, é como tudo na vida, mas eu queria poder ser um pouco menos teimoso, um pouco menos míope com a realidade. Você, que vejo agora no espelho, sou eu e é por isso que eu queria poder te entender melhor, te dominar mais e saber algo mais sobre mim mesmo. Eu queria poder ser menos cego, menos mudo, menos surdo, ou - simplesmente - menos eu.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 10h21
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Amores líquidos

De Xico Sá.

 

É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade?

“Qualé, Mané?!”, indaga a nobre gazela. E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas.

No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero...

Cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico: “Você me aceita em namoro”?

Suspense, velho Alfred!

O amor e as suas malasartes.

O amor será sempre dirigido por Hitchcock.

“Quer namorar comigo?”

No tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima.

Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios.

Mais do que um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o gloss e a força dos membros inferiores.

Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro.

O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira.

Nada mais simbólico e romântico.

Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas...

Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra.

Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras.

Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, outro monstro entre os nossos líricos.

Palavras, palavras,palavras...

Silêncio, Silêncio, silêncio...

Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.

 

Xico Sá é cronista às segundas e está no livro Blônicas com outros textos. Veja aqui.

Escrito por Blônicas às 11h03
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Viva a ignorância

De Milly Lacombe.

O que aconteceria se a ignorância fosse, como que por mágica, eliminada da face da terra. No dia seguinte tudo seria questionado: dogmas, verdades absolutas, sistemas políticos, econômicos, sociais e religiosos. A quem interessa, portanto, a manutenção da ignorância? Estado, Indústria e Igreja vivem da nossa pouca capacidade de reflexão. Porque somos ignorantes, é possível que campanhas políticas nos convençam de mentiras absurdas. A campanha presidencial para a reeleição de nosso notável comandante vem aí. E é de se espantar que, mesmo que o povo tenha acesso a escabrosas informações sobre como o atual governo faz negócios e trabalha o dinheiro público, o líder molusco comece a corrida com mais de 50% de intenção de voto. O que justifica isso? Apenas nossa invejável capacidade de continuar ignorantes. Ignorantes a ponto de achar que um metalúrgico semi-analfabeto, ligado a ex-guerrilheiros amantes de Cuba, poderia nos salvar. Se antes falar mal da pouca capacidade de raciocínio do presidente era preconceito, agora é conceito. O homem é, comprovadamente, limitado. O que tem lhe caído como uma luva: porque apenas uma ancestral ignorância pode desculpá-lo. Nem Dirceu, nem Delúbio, nem Palocci, nem mensalão: o metalúrgico não viu nada disso. E quem pode provar que ele viu? Santa ignorância.
Mas voltemos à fotografia panorâmica porque a perspectiva é excelente: a qualidade e o alcance do ensino público continuam lastimáveis, e o poder dos cultos religiosos só faz crescer. Tudo faz parte de uma mesma roda moral, de um mesmo pacote: quanto mais desinformado e descrente o cidadão, quanto mais desamparado pelo Estado (que, porque está mais preocupado em desviar do que em investir, não consegue fornecer o básico, aquilo que esperamos receber quando somos obrigados a viver com uma carga tributária de 40%: saúde, educação, lazer, segurança), mais propenso a se entregar a crendices e promessas de vida farta e colorida após a morte. Quem pode culpá-los? Se aqui a coisa não rola, se aqui seus filhos são assassinados, se aqui a melhor possibilidade de trabalho é gerada no tráfico, se aqui eles têm que viver, quando conseguem emprego, com um ou dois salários mínimos, por que não acreditar cegamente que, depois daqui, deles será o reino dos céus?
Fé. Eis aí o melhor e mais genial instrumento de marketing já criado pelo homem: acredite sem questionar. Acredite no dízimo, porque ele garantirá sua entrada no reino de Deus. Se o padre acabou de comprar um rolex, se o Papa usa Prada, nada disso importa, porque o dízimo é fundamental para que você, fiel, seja aceito por Deus quando esta vida aqui acabar. E se Deus não te aceitar, ah, meu filho, aí teu negócio é com o diabo. Então, acredite. Em céu e inferno, na ressurreição, nos três Reis Magos, em Adão e Eva, no pecado original, na inferioridade feminina ... vá acreditando porque, quanto mais fé, mais certa será sua vida no paraíso. Mas não ouse questionar. Não ouse querer mudar as regras, reescrever a história da moral humana. As leis de Deus são imutáveis. Aquele que tiver a petulância de refletir sobre a veracidade das histórias bíblicas, - e algumas fazem tanto sentido quanto Chapeuzinho Vermelho - será punido. Fé. Nunca deixe de ter fé ou o inferno será sua morada eterna. Fé no povo, na Igreja, no Estado. Por ela, mata-se e morre-se. Fé, o mais genial dos instrumentos de manipulação.
Está tudo, portanto, nocivamente interligado. E o combustível para tanta manipulação é nossa santa ignorância. Não fosse ela, viveríamos em um mundo muito melhor. Um mundo no qual o estado seria laico, a renda mais igualmente distribuída, a filosofia ensinada em escolas públicas, e tão popular quanto a religião. Spinoza e São Sebastião teriam o mesmo peso. Nietzsche seria tão citado quanto João Paulo II. Um mundo mais iluminado, enfim. Um mundo que faria Deus, o Deus de Spinoza, aquele que se manifesta na harmonia das coisas, aquele que não pune nem é intervencionista, finalmente orgulhoso de sua criatura.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas todos os domingos.

Escrito por Blônicas às 17h54
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Além do castelo

De Tati Bernardi

Quando eu tinha meus doze anos de idade, não entendia absolutamente nada da vida, e pra piorar não tinha irmãos para dividir a descoberta. Era eu no quarto escuro querendo conjugar um verbo difícil adivinhando o que estava acontecendo, o que tinha acontecido e o que iria acontecer.
Foi então que idealizei o maldito príncipe encantado, aquele que traria respostas, complementos e acalantos para meu ser, e foi aí também que aprendi a me ver como metade, uma metade que carregaria angústia pelo mundo afora até que a cara metade aparecesse.
Passei toda a adolescência sonhando e esperando por ele, muitas vezes chorando porque nunca era ele, mas eu sempre fantasiava que era e forçava ser para não me frustar. Comecei a vida adulta fazendo o mesmo. Vício é vício, e se você não se tratar a tempo, pode passar uma vida inteira com doze anos de idade.
Foi então que uma coisa muito legal aconteceu, meu amigo Marcelo, que nunca fala nada, resolveu disparar a matraca naquele jantar.
Cansado de me ver tentando ser feliz com pessoas que simplesmente não me faziam feliz, ele me disse: você faz ao contrário, você cisma que alguém é a pessoa da sua vida e tenta fazer dar certo de qualquer maneira, sendo que o certo era alguém simplesmente dar certo de qualquer maneira e aí sim você fazer a pessoa ser da sua vida.
Voltei pra casa dando 100% de razão a ele e pensando quão ridículo é o desespero. Sim, eu já tenho 27 anos, não suporto nem ouvir a palavra "balada", tenho pavor de jovens bobos e perdidos pela noite, estou sem saco para sexo sem amor e estou louca para encontrar alguém que queira construir uma vida comigo, dividir coisas, crescer juntos e... tá bom, vai, eu confesso: meus hormônios clamam por uma família, ainda que eu não esteja lá muito preparada para isso.
Mas essa vontade não pode ser forte o suficiente para que eu simplesmente pegue o primeiro coitado que aparecer querendo se divertir e coloque todo esse peso sobre ele. Esse desejo não pode ser grande o suficiente para que eu coloque em um homem que não tem nada a ver comigo a aura do homem perfeito e fique cobrando isso dele 24 horas por dia.
Mas e o que eu faço então da minha vida se esse cara aparecer só daqui 50 anos ou simplesmente não aparecer? E se eu nunca conhecer alguém legal que traga o troço todo das respostas, acalantos e complementos para a minha metade angustiada?
Sábado eu acordei bem cedo e fui sozinha para a minha aula de meditação, sai de lá com uma alegria simples e profunda de quem apenas é e não precisa ser nada para ninguém. Depois tava um friozinho com sol e eu resolvi almoçar com a minha mãe naquele restaurante cheio de árvores e pessoas bonitas. Olhei bem para a minha mãe e senti uma saudade imensa dela: fazia pelo menos uns dez anos que eu não a via mesmo morando com ela e a vendo todos os dias.
Resolvi ir sim no churrasco da minha amiga que mora do outro lado da cidade, por que não? Ela é das amigas mais antigas e merece que eu atravesse a cidade. A mãe dela, entre um doce e outro que tentou me empurrar, disse "quem diria que aquela gorducha de Maria Chiquinha ia virar uma moça tão talentosa?". Estar dentro do meu mundo e da minha história me deu uma ótima sensação de paz, tudo ia dar certo.
Depois passei pra ver meu pai e o Nestor, seu cãozinho que se mija todo e fica de pau duro quando vê mulher. Meu pai olha pra ele como uma criança e foi bom passar algumas horas ao lado de um homem que sempre vai me amar exatamente como eu sou, mesmo ele não sabendo disso direito.
Fui ao cinema com meu novo amigo Fábio e ganhei uma calcinha da Betty Boop com o seguinte cartão "para a única mulher que me faz feliz mesmo nunca dando para mim". Depois de mais um genial filme argentino, a gente experimentou todos os perfumes de uma loja fina e não levou nenhum, mas estávamos muito cheirosos e não podíamos voltar para casa. Fomos comer pizza até estourar.
A noite peguei a Lolita, minha cachorra que me ama até com remela, bafo e prisão de ventre e juntas lemos algumas páginas do "O Anjo Pornográfico". Esse sim era o homem da minha vida.
Eu não preciso controlar a vida, meus hormônios, meu futuro, os outros, minha felicidade. Eu só preciso levar a vida, eu só preciso desfocar do sonho que me deixa míope e enxergar além, ou melhor: enxergar o que está na minha cara. Ver o quanto o resto todo já é perfeito e está lá, eu já conquistei, é meu.
Antes de dormir rezei, mas dessa vez não pedi o moço de cavalo branco (carro do ano) e da espada gigante (vocês entenderam), apenas agradeci por estar me sentindo tão inteira, feliz e, principalmente, por estar em paz dentro da minha realidade.
Mas no fundo, no fundo, confesso: pensei também que quanto mais inteira, feliz e tranquila eu for, mais chances eu tenho dele aparecer. Vício é vício.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas.. às 22h01
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Seis personagens fugindo de um autor

De Henrique Szklo

Eu adoro me botar em fria. Quando criei o meu site, o www.operabufa.com.br, precisei angariar uma verdadeira legião de colaboradores. Como ninguém quis colaborar, acabei abraçando e beijando o desafio de escrever tudo sozinho, e para isso precisei lançar mão de minha personalidade multifacetada e doentia, convidando todos os meus alteregos para trabalhar. Nem todos toparam, esses sangue-sugas, mas depois de muita discussão consegui que pelo menos seis se dispuzessem a dar um pouco do seu tempo para me ajudar. Ei-los: Max, o cachorro intelectu-au, criador da teoria filosófica do cinofilismo dialético, o único cão do mundo com amestrado; Doutor Carneiro, espírito de luz negra que incorpora em mim para escrever (contra a minha vontade, é bom que se diga) textos de autodestruição; Êsquilo, o poeta grego que é uma tragédia; Tzvi, o artista plástico, cara de pau e cu de ferro; Minha mãe, minha própria mãezinha, a dona Sarah, com seu blog que promove, entre outras idéias, a minha beatificação imediata. O Itzhak Karnerowitchman, um consultor financeiro que não deve nada a ninguém, pelo menos é o que ele diz. E, finalmente, o mais difícil, complicado e incontrolável personagem: eu mesmo. Enfim, o que eu quero dizer é que a confusão na minha cabeça, que nunca foi pouca, neste momento atinge o seu ápice.

Esta minha mania de querer controlar tudo, de ter na mão todo o processo vai acabar me matando. Eu hoje escrevo o livro, faço a diagramação, crio a capa, publico em minha editora e vendo através de uma distribuidora. Daqui a pouco, é o meu sonho doirado, quando eu tiver bastante dinheiro, além de tudo isso, eu é que vou comprar todos os livros, ficando, finalmente, com o controle total de todo o processo, não dependendo de ninguém. Que maravilha vai ser!

Bem, acabei me desviando do assunto dos personagens. Não tenho controle nenhum sobre eles e pior: parece que eles é que me controlam. É muito doido. Há um tempo me peguei numa situação, no mínimo, curiosa, e que me deixou perplexo: tive uma idéia (não, não foi essa a situação curiosa). Na verdade estava andando com o Max na avenida Sumaré (lugar onde eu tenho a maioria das minhas idéias) quando surgiu a tal idéia. Nossa, achei muito engraçado. Inicialmente pensei que esse seria um excelente tema para essa coluna que você está lendo. Fazer uma narrativa livre explicando tudo. Putz, como ficou chato! A idéia original era tão engraçada. Pensei então que o Max poderia ser o autor do artigo, mas ele não demonstrou muito entusiasmo com a idéia. Finalmente pensei que essa idéia se encaixaria muito bem em um poema, especialidade do poeta grego Êsquilo. Quando me dei conta, meus personagens estavam se estapeando em minha mente. Um telecatch mental. Cada um querendo tomar para si a idéia. Provavelmente porque a escassez de boas idéias é tão grande, que quando surge uma mais ou menos o pau come. Os caras ficam desesperados. Eu sempre achei que era difícil ser eu, mas neste momento me ocorreu o quanto deve ser penoso ser um personagem vivendo dentro de mim. Deus me livre, não desejo isso nem para o meu pior alter ego. De qualquer maneira, eu sempre fui um cara muito prático e, pra mim, o bom senso deve prevalecer (sic). Por isso quem venceu a batalha foi o Êsquilo e a idéia se transformou num lindo poema, muito tocante e sensível.

Mas será que vai ser sempre assim? Será que todas as idéias que eu tiver vão provocar uma briguinha básica entre meus eus? Provavelmente sim. Até porque, de onde vou tirar temas suficientes para manter o interesse e a qualidade em cada um de meus personagens? É humanamente impossível. Meus leitores terão de ser pacientes e menos exigentes. Com o tempo talvez eu consiga contratar assistentes para me ajudar na árdua tarefa de fazer rir numa época de chumbo grosso como a atual. O pior não é isso. Imagine se a idéia que surgir não for minha, mas de um dos personagens. Será que eles terão a nobreza e o despojamento necessários para perceber quando uma idéia é mais adequada ao colega ao lado e não a si mesmos? Provavelmente não. Ninguém quer largar o osso. Eles são facetas do meu ego, mas também são certamente egocêntricos. Tal pai, tais filhos.

Acho que a solução será eu voltar para o divã e entregar o problema para o analista. Ele que se vire, ele que resolva. Afinal será muito bem pago para isso (será que ele aceita permuta com livros?). E mais: esse analista será verdadeiro ou apenas mais um personagem ainda a ser criado por minha mente perturbada? Quem escreveu este artigo? Quem é você? Quem sou eu? Será que eu existo mesmo ou sou produto da minha própria imaginação?

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e precisou botar o pau na mesa para assinar esta crônica com seu nome. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas.. às 13h20
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Ali Babá

De Leo Jaime.

Não queria falar sobre isso. Tentei escrever sobre outras coisas e não consegui. A realidade suga a atenção que tenta passear por paisagens mais palatáveis. Sem mais, vamos lá: o promotor geral da República divulgou a lista dos 40 acusados de crime no conhecido esquema do mensalão. São os 40 ladrões. Só falta mesmo o Ali Babá!
Por muito menos, ou com muito mais indícios e muito menos provas, Collor desceu a rampa vaiado. Os cara-pintada davam uma legitimação popular, eram a voz do povo, enquanto o congresso fazia o que dele se esperava: apurava e fazia a lei ser cumprida. Tínhamos um zeitgeist paradoxal: a decepção de escolher um presidente depois de décadas e ter que destituí-lo por incompetência e desonestidade e, ao mesmo tempo, orgulho de ver que o povo continuava atento, unido, e atendido pelas instituições. E agora, quem sabe dizer com certeza qual é o retrato preciso dos tempos? Quem sabe dizer o que está acontecendo?
O mesmo documento que aponta culpados e pede punição aos 40 envolvidos no esquema do mensalão, bem mais  severo que o resultado da CPI, também aponta o início do esquema na campanha do candidato ao governo do PSDB em Minas Gerais, em 1998, Eduardo Azeredo. Comparando com o o episódio Collor fica evidente: quem vai pedir o impeachment?
Nas pesquisas, nas ruas, nos diretórios estudantis, nas centrais de trabalhadores, aparentemente tudo anda normal, céu de brigadeiro. Ninguém viu nada, ninguém sabe de nada, ninguém quer saber de nada. Momento avestruz: cabeça enfiada na terra e bunda ao alcance de todos.
Fica a questão: depois disto que está posto, do que foi feito, não resultar em nada, nem mesmo em mudança nas intenções de voto, o que farão os próximos?
Será que somos um país de rabo preso? Será que temos vergonha de termos votado em um governo que, ao apagar das luzes, terá perdido todos os seus astros, nocauteados pela moralidade ou por falta dela?
Um dado para analogia: na França uma lei trabalhista, que visava diminuir o índice de desemprego, desagradou aos jovens e houve uma mobilização geral durante meses, incendiaram centenas de carros, enfrentaram a polícia e, por fim, mudaram a lei.
A impressão é que aqui tomamos uma posição bem diferente: arriamos as calças, oferecemos vaselina e areia. E mantemos a fé.

Leo Jaime é cronista às quintas e está no livro Blônicas com três textos. Saiba mais aqui.

Escrito por Blônicas às 13h19
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Não me venha com explicações

De Rosana Hermann.

 

Sempre repito uma pequena história que li numa tira do cartunista argentino Quino, mostrando Mafalda e Manolito diante da praia, deslumbrados com a idéia de que do outro lado do mar, estava o continente Africano. Ao voltar os olhos para o chão, Mafalda depara-se com uma borboleta amarela pousada na areia e exclama, poética: “Oh! Uma borboleta amarela! Garanto que ela é africana! Que maravilha! Uma borboleta amarela, tão esforçada, que veio voando da África até aqui!”

Manolito, menos sonhador e mais realista, olha para a areia e avisa:
- Mafalda, não é uma borboleta amarela, é uma batata chip.
Mafalda, então, retruca:
- E como será que ela veio voando da África até aqui?

A história ilustra um dos mais ferrenhos sentimentos humanos, cravado num cromossomo qualquer do nosso manual de existência, a teimosia diante do erro. Ninguém gosta de errar, muito menos de ver seus erros apontados e menos ainda de ter que admitir o erro publicamente. O primeiro impulso é negar o erro. Em não sendo possível diante das evidências (É uma batata!), tentamos o segundo passo: sustentar os argumentos. Mesmo sabendo que batatas não voam, Mafalda não consegue abrir mão de sua criação poética sobre a coisa amarela que voou da África até ali.

 

Por último, se o diálogo continuasse, talvez ela tentasse justificar seu engano, dizendo que a brisa marinha enovoa os olhos, que a batata era, enfim, idêntica a uma borboleta e que, qualquer pessoa em seu lugar confundiria da mesma forma.

 

Os detalhes não cabem numa crônica mas uma situação real semelhante aconteceu há alguns dias, quando uma senhora ofendeu um integrante do programa em que trabalho por causa da imagem de uma artista do elenco comendo comida de cachorro. Para ela foi o momento mais degradante de sua vida. O integrante explicou que a garota não comeu comida de cachorro e sim atum compactado em latinha. Ao descobrir que a borboleta era uma batata, ela reagiu com ódio, dedo na cara imitando limpador de pára-brisas, vociferando:

- Não me venha com explicações! Agora é tarde, agora eu já sofri!

 

Eis a chave do enigma. Ela já havia sofrido com a interpretação. E a lógica, a explicação, não devolveriam a ela o sentimento perdido à toa. Além de ter sofrido, ela descobriu que estava enganada e assim, sobre seu bolo de dor jogamos a cobertura do engano.

 

É realmente difícil abrir mão de nossos pontos de vista, nossas idéias, nossos pre-conceitos e sentimentos, mesmo quando estamos errados. Os que ficam irados quando erram, num instinto de sobrevivência para não odiarem a si próprios, transferem a raiva para os que nos apontam os erros. E tentam reconstruir a tese perdida, como fez Mafalda. E aí, enlouquecemos, querendo dar asas aos salgadinhos. Ou seja, tentar sustentar um erro só por orgulho, realmente, é de pirar na batatinha.

 

Rosana Hermann é cronista aqui todas as quartas e está no livro Blônicas com texto inédito. Veja aqui.

Escrito por Blônicas às 11h55
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Lá onde o padre perdeu as pregas

De Nelson Botter.

 

A paróquia toda sabia, não tinha jeito, o padre até tentava disfarçar, mas estava na cara, era veado. Todos os moleques sabiam, todos os moleques comiam. O boato dava conta de que ele apreciava um bom cacete desde a época do seminário. Muitas beatas achavam aquele papo todo uma heresia, coisa do diabo, mas que culpa tem o capeta se o padre resolveu gostar de pinto? Todo ser humano tem direito de trepar, esse papo de celibato é um atraso terrível, coisa pra botar gente no cabresto, controle de natalidade idiota que visa fazer do sexo uma coisa suja. Mas, eu sei, o que mais chocava aquela gente hipócrita era o fato do padre gostar de homem. Se ele comesse as freiras, talvez não falassem nada. A questão não era o sexo em si, era a sexualidade, que como sempre era julgada nos moldes que a santa igreja tanto pregou, uma inquisição velada do povo preconceituoso e rancoroso. Daí para a bobagem pura era um pulo. Alguns diziam que o padre molestava garotos, que era pedófilo como tantos outros padres, mas esse não era, muitos colocariam a mão no fogo por ele. Seu único pecado era ter se tornado padre.

 

André, nome de apóstolo, era incapaz de perder a calma. Ouvia os fiéis e os infiéis com a mesma atenção que dedicava ao Bispo, seu superior e doutrinador nos prazeres carnais. Foi ele quem iniciou André e até hoje mantinham relações. Esporádicas, é bem verdade, pois o tempo do Bispo era mais voltado a questões de poder do que de sexo. Tudo isso pode parecer muito chocante para os cordeiros de Deus, mas é a mais pura verdade, e como toda verdade também tem perna curta, acompanhando a irmã mentira, a sexualidade do padre chegou a instâncias superiores. O Bispo foi perdoado, abafaram o caso devido à sua alta influência, homem de Deus dos mais importantes. André era só um padre, nada mais, e por isso agora ele fazia suas malas, foi expulso, chutado como um cão, apesar dos anos e anos de dedicação para doutrinar os fiéis e espalhar a palavra do Senhor, baseadas no amor, fraternidade e perdão, regras que a própria cúpula católica nitidamente não seguia.

 

Foi triste ver o padre sair da igreja com as malas pesadas de culpa na mão, sem receber a ajuda de ninguém, sob olhares de reprovação da comunidade, crucificado. Era um demônio perverso que queria corromper nossa brilhante juventude, meninos idolatrados pelos pais que não percebiam suas carteiras esvaziadas, furtados pelos próprios filhos para comprar suas drogas e pagar o aborto de suas burras namoradinhas. André cometeu um erro, caiu em tentação, não o livraram do mal, amém, agora lá estava ele carregando sua perversão, como se fosse a criatura mais desprezível. Talvez as beatas não saibam, mas a perversão está na alma do ser humano, é uma tatuagem, uma impressão quatro cores que todos temos, e a carregamos durante toda a vida, seja em atos ou em pensamentos. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Todos perversos. Jesus mandou atirar a primeira pedra e nesse caso não houve quem não acertasse André, até aqueles que muito se divertiram com ele, que sentiram o gosto de sua língua, que penetraram e foram penetrados pelo diabo em pessoa. Sorrisos histéricos comemoravam a fogueira na porta da igreja. A batina de André foi queimada por ordem do novo padre, especialmente designado pelo Bispo.

 

- Os escândalos sexuais não podem mais existir nessa paróquia, padre! - disse o Bispo severamente para o novo enviado.

- Não se preocupe, senhor Bispo, sabes que sou muito discreto...

 

Nelson Botter é cronista aqui todas as terças e está no livro Blônicas com texto inédito. Veja aqui.

Escrito por Blônicas às 10h59
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Começar é...

De Xico Sá.

 

Tudo é possível nos floridos inícios de namoros, cachos, romances, acasalamentos etc. Tudo na base do "ora direis, ouvir estrelas".
Vale tudo, inclusive mais essa crônica derramadamente brega nesse Blônica, bom dia flor do dia,bom dia, dia de segunda.
Fazemos os 12 trabalhos de Hércules assobiando e chupando cana, na buena,na maciota, no problem.
Carregamos, sem suar, a pedra que tanto pesou sobre o velho Sísifo, sifu.
O que você não me pede chorando que eu não te faça sorrindo?
O amor e os seus prefácios... tudo sopra a favor, podemos até viver de brisa, Anarina, lendo Bandeira numa espreguiçadeira, ai que leseira, e fumando um para fuder bem melhor...
Na vitrola, Serge Gainsbourg ou Roy Orbirson, pode ser?
A fome de viver, a larica de existir.
Tudo é possível no fio inicial do novelo-mor... ainda mais de tiver sido depois de uma espera sem fim.
Repare bem, uma amiga acaba de me contar aqui, durante umas cervas, o seu último sacrifício do gênero: fez uma interminável trilha pelo mato, daquelas que deixam até o mais caminhador dos ianomâmis no bagaço.
Tudo pelo bofe.
Para completar, o rapaz, um Apolo, segundo ela, é vegetariano radical.
"Moreno, olhos azuis!!!", ela gasta as exclamações. O mais é impublicável.
Vegetariano sectário. Carne nem pensar. E ela ama uma bisteca, um cordeiro, uma picanha, um frango assado, galeto de padaria ou de esquina.
Nada de bebida alcoólica. E ela adora uma boemia, uma farra.
Lá vai então a nossa "sedentária ativista", como ela se define, na mais íngreme das trilhas. Haja mata atlântica. Quatro minutos depois ela já passava mal. Um inferno verde de Dante. Achava que iria morrer.
"Ele pegou e ficou segurando a minha mão", derrete-se a nega qual manteiga de garrafa, manteiga da terra.
Ah, uma cerveja!
Os sacrifícios dos capítulos iniciais da paixão, do amor ou do possível amor.
O pior, brincamos, é que ele, o saudável bofe, não come nada que tenha rosto _eis a moral dos vegetarianos.
E a minha amiga, é bom que se diga, tem um rosto lindo, lindo, lindo. Um espetáculo de rapariga!
Além de trilha, o cara também faz yoga. Pronuncia-se afrescalhadamente com o "o" fechado, yôôôôga!
O que me fez lembrar de um amigo, caruaruense de boa cepa que habita São Paulo há tempos, que começou a fazer yoga (olha o biquinho do "ô" fechado!) por causa de uma mulher que frequentava a tal aula. Sacrifícios do amor, ora veja.
Faz-se de tudo na paixão roxa.
Meu amigo Fraguinha, por exemplo, odeia comida japonesa. Na semana passava empanturrou-se dos sashimis mais exóticos por causa de uma gazela. "Adooooro tudo do mundo oriental", derramava-se o canalha. "Tóquio é uma maravilha, estive lá no ano passado; na próxima a gente vai juntos", mentia o adorável carioca.
Tudo é possível no momento de bater o centro, dar o pontapé inicial no namoro, no cacho, no rolo, no romance, seja lá que batismo tenha essa arte de juntar duas criaturas para o bem-bom da vida.
Faz-se de tudo. Até sexo em pé numa rede, essa arte-mor nunca prevista pelos manuais, catecismos ou Kama Sutra, mas nobre principalmente para nós do Nordeste.
Faz-se de tudo. Intelectual apaixonado lê Paulo Coelho, quando o autor é o preferido da sua costela, e ainda encontra um corte epistemológico para morrer de elogiá-lo. Vale tudo, o amor tudo pode.
Machão tosco vê cinema francês e chora de molhar a camisa; mulher se acaba de torcer num Sport X Santa, num Paraná x Coritiba, num Santos x Lusa, num Botafogo x Madureira...
Isso é lindo, aqui e agora, viva a densidade possível. Depois é depois, ai é só tentar continuar na arte zen de consertar encrencas... Casar ou comprar uma motocicleta.

 

Xico Sá é cronista aqui toda segunda e está no livro Blônicas com outros textos. Veja aqui.

Escrito por Blônicas às 13h36
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Ciúme não é ex

De Tati Bernardi.

Sobras de minha existência pela casa, escondidas para não irritar a nova mocinha.
Meu pijama sufocado num canto da gaveta para que nenhuma lembrança respire. Meus chinelos abduzidos no meio da "sapataiada", tão pequenos que quase inexistem ou poderiam passar tranqüilamente por pares de criança.
Fotos, milhares delas, guardadas sem carinho, uma preguiça triste de arrumá-las em álbuns. Estão lá, paralisadas em momentos felizes, tradutoras de uma vida que quase foi, trancadas porque o que quase foi não pode atrapalhar o que ainda pode ser.
Talvez um fio de cabelo, o último deles, esteja nesse momento sendo varrido e levado pelo vento forte e solitário que não deixa dúvidas que o inverno chegou.
Inverno que era sempre comemorado porque eu sabia que ele não sentiria tanto calor para dormir e eu poderia ser abraçada de conchinha o tanto que desejasse.
Agora é outra que suspira protegida olhando o quadro do Monet e ri apaixonada de algum provável barulho que ele faça com seu nariz estranho, jurando na manhã seguinte que não ronca.
Saudade não é ex, tampouco amor. Mas a vida da qual abrimos mão é passado.
E de escolhas e de perdas é feita a nossa história. Não há nada que se possa fazer a não ser carregar por um tempo um peso sufocante de impotência: eu escolhi que aquele fosse o último abraço.
Agora é outra que se perde em ombros tão largos, tomara que ela não se perca tanto ao ponto de um dia não enxergar o quanto aquele abraço é o lado bom da vida.
Da vida que te confunde tanto que você quer se afastar de tudo para entendê-la de fora. Da vida que te humilha tanto que você quer se ajoelhar numa igreja. Da vida que te emociona tanto que você não quer pensar. Da vida que te dá um tapa na cara pra você acordar e não tem ninguém pra cuidar do machucado e dizer que vai ficar tudo bem. Da vida que te engana.
Aquele abraço era o lado bom da vida, mas para valorizá-lo eu precisava viver. E que irônico: pra viver eu precisava perdê- lo.
Se fosse uma comédia-romântica-americana, a gente se encontraria daqui a um tempo e eu diria a ele, que mesmo depois de ter conhecido homens que não gritavam quando eu acendia a luz do quarto, não faziam uso de um cigarro que me irritava profundamente e sobretudo minha rinite alérgica, não amavam os amigos acima de, não espirravam de uma maneira a deixar um fio de meleca pendurado no nariz, não usavam cueca rosa, não cantavam tão mal e tampouco cismavam de imitar o Led Zeppelin, não tinham a mania de aumentar o rádio quando eu estava falando, não tiravam sarro do bairro em que nasci, não insistiam em classificar minhas mãos e pés como seres de outro planeta, não ligavam se eu confundisse italiano com argentino, nomes de capitais, movimentos artísticos, datas de revoluções e nomes de queijo, era ele que eu amava, era ele que eu queria.
E ele me diria que, mesmo depois de ter conhecido mulheres que conheciam a Europa e não entupiam o ralo com cabelos, mulheres que tinham nascido em bairros nobres e charmosos de São Paulo, ou melhor, do Rio de Janeiro, mulheres que arrumavam a cama e não demoravam tanto para sentir prazer, não entravam de sapato no carpete, não tinham uma blusa ridícula com uma rajada de dourado, não eram dentuças e tampouco testudas, não cantavam tão mal, não tinham medo de cachorros pequenos, não reclamavam do ar-condicionado e nem tinham medo de perder a mãe ou comer uma comida muito temperada, era eu que ele amava, era eu que ele queria.
Mas a realidade é que não gostamos desses tipos de filme fraco com final feliz, gostamos dos europeus "cult" onde na maioria das vezes as pessoas sofrem e perdem, assim como aconteceu com a gente.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 13h20
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Vendo Ka 99

De Henrique Szklo

Meus queridos e desconhecidos amigos, a vaca foi para o brejo. E aparentemente só comprou bilhete de ida. Quem me acompanha sabe que faz um tempinho que estou à beira da falência. Pois é, gente, mergulhei nela de cabeça. Estou perdendo o controle de minhas finanças mais vou vender caro esta derrota. Minha última alternativa, minha derradeira esperança é tentar vender algumas coisas que eu tenho (e outras que não tenho) para fazer algum caixa enquanto não sou inexoravelmente arremessado para debaixo de alguma ponte. Por isso, além do carro, fiz uma lista daquilo o que eu tenho disponível para vender e espero, sinceramente, que vocês ponham a mão na consciência e depois no bolso para me ajudar. Não querendo ser indelicado, seria bom vocês se darem conta de que já faz tempo que vocês riem de graça às minhas custas. Chegou a hora de retribuir. Propostas sérias podem ser feitas através do meu e-mail, localizado no final desta coluna. Brincadeirinhas, ironias, sarcasmos e comentários inúteis em geral eu estou dispensando no momento, obrigado. Vamos falar de businness, senhores.

Para começar acho que tenho de vender o que dói menos. Vou vender minha alma ao diabo. Quer dizer, para falar a verdade eu não tenho bem certeza de já não ter feito isso antes. Tudo bem, vai, tem tanta gente que vende um imóvel duas vezes e vai pro céu, não sou eu que vou ter de pagar o pato. Até porque não tenho dinheiro para pagar nada. Muito menos um pato.

Outra coisa que vou vender é o almoço para comprar a janta. E conforme a proposta, posso também vender a janta para comprar o café da manhã do dia seguinte e assim por diante. O que me conforta é saber que o Lula tem feito de tudo para que eu tenha três refeições por dia. Enquanto isso, quem quer comprar dois pedaços de pizza de calabreza?

Vou vender meus LPs do Roberto Carlos da época da Jovem Guarda, minha coleção de bonecos do Topo Gigio, 10 times de botão um pouco desfalcados e um kit faroeste completo, composto de dois revólveres de espoleta, cartucheira e estrela de xerife.

Eu estava pensando até em vender saúde, mas já que não está em muito bom estado eu não teria coragem de oferecer para um amigo. Por outro lado posso fracionar o lote. Dividir em partes, ou seja, posso vender alguns órgãos. Tenho tantos. E provavelmente não uso todos ou os uso de forma exagerada e com desperdício. Tenho certeza de que com um pouco de disciplina e uma boa dose de bom senso posso perfeitamentamente aprender a conviver com a ausência de algum ou alguns deles. Além de ser circuncidado, já me separei uma vez, por isso tenho uma certa experiência em mutilações em geral.

Quem aí quer comprar este espaço no Blônicas? Até agora não ganhei nada para escrever aqui, mas tenho certeza que pode render milhões a alguém que saiba o que fazer com ele. Tem uns pequenos problemas, mas quem não os tem? Não posso colocar imagens no meu texto, acho o template muito sem graça e às vezes recebo críticas muito ofensivas. Mesmo assim acho que posso conseguir um bom preço por ele. Gente sem critério é o que não falta neste mundo.

Para vender sangue eu sei que rola um sanduichinho, mas e vender esperma, será que dá dinheiro? É, mas não adianta. Eu jamais poderia fazer uma coisa destas. Não por recriminação, ao contrário: recolheria o material com todo o prazer (sic). Mas ando falhando tanto ultimamente que uma vez broxei me masturbando. Me deu tanta vergonha que fiquei uma semana sem conseguir olhar para a minha mão direita. Já o Max, meu cachorro, está em plena forma. Me disseram, inclusive, que na raça dele uma trepadinha custa uns mil reais. Nada mal para um cara que acabou de sair dos coeiros, se é que cachorro usa coeiros.

Entre objetos de uso pessoal tenho uma arvorezinha meio enferrujada do Prêmio Abril que uso como peso de porta, uma agenda de 2002 (na caixa), mais de cem camisas da Ópera Bufa (quem se lembra?), 25 pares de óculos com pequenos defeitos e um pente com pouco uso.

Estou também em negociações avançadas para me vender aos interesses estrangeiros e praticamente já acertei a venda da minha consciência aos inescrupulosos agentes do capitalismo selvagem.

Meu último bastião, coisa que eu vou detestar fazer, apesar de inevitável, será vender a minha querida e adorável mãe. Excelente estado, único dono, toda original. Peça de colecionador. E, ao contrário do que diz a piada, eu entrego sim. Se não chover.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e quer saber se você tem pão velho. Conheça seu site,  o blog da mãe e a Oficina do Diabo, workshop de redação criativa.

Escrito por Blônicas.. às 18h46
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Entorpencente genérico

De Leo Jaime.

Por que as drogas ditas alucinógenas são proibidas? Sempre são ouvidas argumentações de especialistas no assunto dizendo o quanto são fracassadas as experiências de legalização e, no entanto, nunca ouvimos uma argumentação razoável, lógica, coerente do porquê da proibição. A razão é única: não há uma retórica sequer que seja capaz de justificar esta proibição. Nem aquele argumento estúpido - que cairia com o primeiro peteleco de um asno - existe. Nada. Pois se não há embasamento teórico ou legal, para essa proibição, é evidente que interesses econômicos na sua permanência existem. Tanto o jogo do bicho quanto a proibição das drogas interessam exclusivamente aos contraventores. É um benefício fiscal. A única diferença entre a casa lotérica e o bicheiro é que este último não paga os impostos, protegido pelo "benefício da ilegalidade". O mesmo ocorre com o fabricante ou traficante de entorpecentes. Ou melhor, alguns entorpecentes, pois vários remédios encontrados nas drogarias são também entorpecentes. Mas esses não causam dano social aparente e não ganham páginas nos jornais. Porque são legalizados. Assim só fazem mal a quem os usa mal. Quando citam a Holanda ou a Suíça, ou mesmo a Espanha, alegando que as experiências liberais foram fracassadas, me ocorre o mais simples, óbvio e ululante: a experiência de proibir é que deu errado! Em todos os lugares em que foi instituída a marginalização do uso de entorpecentes o resultado é evidente: corrupção, aumento dos índices de criminalidade, consumo, violência etc. É bom frisar que os dados negativos geralmente associados ao "uso" ou ao "tráfico" das drogas, na verdade são uma decorrência somente da proibição. Um efeito colateral desta decisão infeliz. E é fácil prever: se proibirem o sal ou o cigarro, ou a carne de porco, seja lá o que for, estes mesmos índices negativos aumentarão. Quanto mais crimes, mais criminalidade. A estas alturas o leitor estará pensando que só um quadrúpede pode comparar carne de porco, sal ou cigarro com cocaína, heroína e afins. E porquê? Ora, a mais estúpida das conclusões a que se chega quando a questão é "o que terá levado a sociedade a banir determinadas substâncias?", a alternativa mais comum, é a de que fazem mal à saúde. Ah, claro! De três em três meses as revistas médicas anunciam um grande inimigo da saúde. Uma hora é o sal, na outra é o açúcar, daqui a pouco são as frituras ou comidas gordurosas e por aí afora. A carne de porco, seguindo esse raciocínio, assim como o sal, ou o cigarro, são também perigosos e danosos à saúde. Tomar sol também é um grande perigo!!!! Aliás, qual é mesmo o bem que o cigarro faz? O argumento de que as drogas fazem mal à saúde não convencem, portanto, ou criam margem para que se proíba quase tudo o que existe, pois qualquer coisa, se administrada na hora, em quantidades ou de maneira errada pode vir a fazer mal, de uma forma ou outra. Viver, por assim dizer, é fatal. Outro motivo que pode ocorrer, quando tentamos adivinhar o que terá ocasionado essa caçada internacional às "drogas de lazer", será exatamente isso: são de lazer, portanto desnecessárias. Isso se acreditarmos que o sexo, por exemplo, só deve ser praticado "se necessário", assim como ir à praia ,ou jogar bola, ou brincar de boneca, ou cantar. O que é inegável, no entanto, é que a sociedade quer tanto a droga quanto a sua proibição. Esse anacronismo gera milhões. Assim como a sociedade quer engordar e ao mesmo tempo odeia a gordura. Mais milhões. Mas isso não seria a alma do capitalismo? As fantásticas necessidades supérfluas? No entanto, o que mais incomoda no fato da proibição dos entorpecentes, é que eles não são "de fato" proibidos. É mais fácil achar alguém vendendo cocaína ou maconha no meio da noite do que uma farmácia aberta. Em qualquer lugar, a qualquer hora, é fácil comprar drogas "ilícitas". Esse é o mercado que mais cresce no mundo, e com isso o crime organizado e desorganizado, além da corrupção (o mais hediondo dos crimes, ao meu ver). Se não há benefício aparente para a sociedade, uma vez que os "efeitos indesejáveis" do uso de substâncias entorpecentes aqui mencionados nunca foram historicamente relevantes até que se tornassem crime, é óbvio que alguém se beneficia com sua proibição. Chegaremos lá mais tarde. Em qualquer país suficientemente organizado há estatísticas apontando as razões pelas quais as pessoas morrem. Nestas estatísticas, em lugar ou tempo algum, os índices de mortes em decorrência do uso de entorpecentes chegou a ser mais expressivo que, por exemplo, os índices de suicídio. Álcool e cigarro juntos, matam mais do que o trânsito, e este mata mais do que as guerras. Vamos proibir o trânsito? Não, óbvio, melhor seria organizá-lo e educar a população para que ele seja suficientemente civilizado, além de equipar os carros com instrumentos que ajudem a evitar as fatalidades quando os acidentes ocorrerem. Mas alguém já morreu, na história deste planeta, em decorrência do uso de maconha? Já? Quero provas. E posso pressupor, sem muitos dados, que mais pessoas morreram vitimadas por raios, ou mesmo engasgadas. É simples: conquanto não faça nenhum "bem", é impossível se intoxicar fumando maconha. Mas se você fizer uma montanha de maconha da altura de um edifício de dez andares, tocar fogo e ficar por perto, em um ambiente fechado, pode ser que a fumaça te mate, mas em qualquer incêndio de pequenas proporções isso também ocorreria. Claro que se alguém fumar muito e for dirigir um acidente pode acontecer. Mas se ela trabalhar muito ou ficar muito tempo acordada e for dirigir o mesmo pode ocorrer. Cada um deve saber dos seus limites. Se o cigarro é letal, e o álcool também, não é errado pensar que eles são indesejáveis. Eu mesmo não faço uso de um e nem de outro, e diga-se de passagem, muito menos de drogas ilícitas. Pra dizer a verdade conheço poucas coisas que tornam um indivíduo mais chato que uma cafungada de cocaína. Nada mais cafona, nada mais careta, nada mais burro. Mas não tenho nada com isso. Também detesto fumaça de cigarro e a forma "glamourosa" como os fumantes acham que estão fazendo um bem à humanidade soprando fumaça pelos quatro cantos e jogando as cinzas e as pontas em qualquer lugar. Os fumantes passivos são um número mais expressivo nas estatísticas de mortalidade do que o número de vítimas da cocaína ou heroína. E no entanto os comerciais de cigarro estão por toda parte. A sociedade quer o cigarro. Cabe a mim tolerar e, ainda que o deteste, lutar pelo direito que uns tem de gostar e outros não. A liberdade é um bem maior e anterior à saúde. Essa argumentação pode soar estapafúrdia, eu sei, mas a liberdade tem que ser anterior pois é mais fundamental do que a saúde, por uma razão bastante simples: o estado não pode me obrigar a ser "saudável". Como não pode me obrigar a ser feliz. Como não pode me obrigar a praticar uma determinada sexualidade que ele ache "natural". No Afeganistão os talibãs andaram proibindo os homens de fazer a barba e as mulheres de mostrar o rosto. A proibição da maconha ou da cocaína é, em essência, da mesma natureza. O Estado não deveria se meter nestas questões. Proibir o suicídio é anacrônico, em última instância. E punir o suicida como? Com a pena de morte? Não seria mais danosa a "pena de vida"?

Escrito por Blônicas às 12h50
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Perdoe se digressiono, mas a indagação dos limites da intervenção do Estado na vida do cidadão é um exercício fundamental para a compreensão deste argumento. A gripe é indesejável. Proiba-se a gripe. Pronto, acabou?! Está tudo resolvido? É claro que não. É óbvio que o dinheiro que fabricantes de cigarro pagam de impostos ajudam a bancar o sistema de saúde pública, ou seja: o fumante paga, ao comprar o cigarro, pelo hospital que o abrigará adiante. O mesmo deveria ocorrer com quem compra maconha ou heroína. A dependência química pode ocorrer com remédios comprados na farmácia com receita médica. É fato. E também indesejável. Benzina pode causar alucinações, assim como alguns "sprays" domésticos. As "bolinhas" faziam o maior sucesso nos anos 70, e depois foram substituídas pelo "ecstasy" que são, em suma, a mesma coisa, só que fabricado na ilegalidade, sem pagar impostos. E aí está a questão chave: se tanta coisa "legalizada" é entorpecente, ou pode ser utilizada como tal, qual a razão de algumas serem tiradas desta lista e transferidas para uma "lista negra". Segunda questão: por que só as da "lista negra" fazem "sucesso" entre os usuários. Foi-se o tempo em que alguém dizia estar doidão de xarope ou "mandrix" ou "mequalon" ou qualquer outra coisa do gênero. As drogas que circulam pelo planeta são aquelas mesmas, as da "lista negra": maconha, haxixe, heroína, cocaína, crack e ecstasy. O resto não tem "mercado", embora esteja no mercado. Será coincidência que as regiões onde essas drogas são fabricadas sejam as de pior distribuição de renda e maior índice de criminalidade e injustiça social do planeta? O Brasil, o " Cone sul" e o Oriente Médio não são, ou não deveriam ser tão miseráveis. Mas é exatamente onde se concentram a fabricação e distribuição de drogas que se observará o poder estatal mais perigosamente próximo ao crime. A corrupção é quase um poder paralelo e as injustiças sociais são muito favoráveis para que boa parte da população queira se envolver no negócio e uma outra parte significativa seja induzida ao "consumo" pela grande falta de perspectivas pessoais. Não há muitas possibilidades para alguém que nasce pobre nestes lugares. A saúde pública é um fracasso, a justiça erra com assustadora frequência e a segurança pública é absurdamente ineficaz. Verdade seja dita: a guerra contra o tráfico é um massacre. Nunca, em lugar nenhum, jamais na história, o tráfico perdeu mercado, dinheiro ou poder. A guerra contra o uso de drogas é uma balela. Não há e nem nunca houve a menor chance. É só desperdício de dinheiro público e "show-off" para a opinião pública. A proibição das drogas é posterior à "lei-seca" americana, a mais infrutífera das experiências no setor, o que sustenta a afirmação de que a proibição é mais que um erro, é um erro repetido. Quando os americanos proibiram as bebidas alcoólicas, achavam que iam fazer diminuir o alcoolismo. O único resultado palpável e significativo desta tentativa foi o aparecimento da máfia e do crime organizado naquela sociedade. E foi esta mesma máfia quem, no meu entendimento, financiou a "proibição" de alguma outras substâncias que os populares usavam a título de diversão. Óbvio que a proibição de "birita" foi um "negócio da china" para a máfia. Assim como a proibição destas outras substâncias, assim como a de alguns jogos, é uma maravilha para quem investe no crime. Quanto mais coisas forem proibidas, melhor será a vida do contraventor, ora bolas. O que há, de fato, não é uma proibição real de certas substâncias ou práticas, o que há é o benefício fiscal, a isenção de impostos, para uma certa qualidade de "produtos". E esses produtos fazem o maior sucesso, mesmo sem ter nenhum controle de qualidade, sendo "malhados" à vontade, sem dar o benefício das leis trabalhistas para quem as fabrica ou negocia e sem as facilidades do "Procon" para quem usa, sem as verbas para a saúde e segurança públicas que elas tanto prejudicam. A experiência de proibição é, em suma, uma idiotice completa, criminosa, e todo o cidadão que a defende deveria ser seriamente questionado pois está, evidentemente, torcendo pelo bandido. Todo o cidadão que compra um bagulho ou um rádio roubado é um corrupto, assim como o é aquele que, mesmo não fazendo uso de produtos ilegais, defende a ilegalidade destes. Repito: o Estado não pode proibir ninguém de ser dependente químico, alcoólico ou diabético. Pode e deve é tratar desses cidadãos, uma vez que eles tenham contribuído com impostos. Mas observamos que muitos países já chegaram a esta conclusão e, todavia, quando tentaram colocar em prática a coisa ficou feia. Vamos fazer uma analogia. Considerando que o tráfico é tão indesejável para a sociedade como os insetos são para um edifício, vejamos o que acontece quando um edifício é dedetizado por completo: os insetos tendem a procurar um local mais adequado para viver e se mudam dali. Se, nesta hipótese do edifício, excluirmos um ou dois apartamentos da dedetização, o que acontecerá? Todos os insetos irão para aqueles locais próximos e seguros. O fato é que os poucos países que tentaram resolver localmente um problema global pagaram o preço da covardia ou omissão alheia. Os bandidos e viciados de todos os lugares viram nestes países a sua Meca. E o preço da coragem e pioneirismo foi alto. A questão das drogas e do crime, nos dias atuais, como tudo, é globalizada e globalizante. Por trás da indústria das drogas existem países e fortunas. Há uma multidão de consumidores. Grande parte destes consumidores não gosta, ou não acha sensato e recomendável consumir. Grande parte destes usuários são até contra a legalização. O Estado deveria fabricar e fornecer - com supervisão médica - todas as substâncias que podem colocar a vida em risco, em todos os países. O preço não seria alto, o que evitaria a necessidade de roubar para comprar bagulho, e a qualidade seria boa, o que evitaria certos acidentes. Um entorpecente "genérico", por assim dizer. Essa parece ser a única forma razoável de lidar com o assunto, fazendo com que os males oriundos dessas escolhas pessoais sejam minimizados no âmbito social. Álcool se compra aonde? Na padaria? Pois é lá que deveria ser vendida a maconha. Os remédios de tarja preta são vendidos aonde? Na farmácia? Pois lá deveriam ser encontradas heroína, cocaína e anfetaminas (algumas são, mas o ecstasy é "patente" criminosa). A sociedade é suficientemente madura para saber quando e quanto deve beber. Ainda assim acidentes acontecem. Mas acidentes são da natureza humana. Assim como a burrice, o mau-caratismo, o mau-humor, a avareza, a intromissão etc. Comportamentos indesejáveis e lamentáveis não são necessariamente crimes. O Estado não tem o direito de se meter nisso. Todos devem ter o direito à felicidade e também à infelicidade. Ninguém tem o direito de julgar como alguém deve ser feliz ou infeliz. O Estado deveria era cuidar de ser menos dispendioso, corrupto e intrometido.

Leo Jaime escreve aqui às quintas e está no livro do Blônicas. Confira aqui.

Escrito por Blônicas às 12h48
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O dia da peçonha

De Rosana Hermann.

 

Cheguei na rádio, como todos os dias e entrei na sala de produção. Eis que encontro, ao redor do meu teclado, tubos e mais tubos de purpurina, toalhas, cabides e dois pintinhos piando loucamente e cagando por toda a minha mesa de trabalho. Os pintos, que participariam de uma gravação, saíram da pequena caixa de papelão onde estavam em busca de novas possibilidades. E assim, comecei meu dia procurando uma caixa de papelão maior para o conforto dos pequenos hóspedes.

 

Terminada a primeira tarefa, liguei o PC e descobri que não é possível criar, escrever ou mesmo responder e-mails com os piados estridentes de um par de pintinhos. Assim, resolvi sair para tomar um café.

 

Assim que voltei, com a xícara na mão, encontrei na sala uma cabeleireira arrumando, dois produtores de externa, quatro dançarinos do Clube das Mulheres em trajes de banho, um colega radialista com a sunga atochada na bunda e, claro, os dois pintos piando pela sala.

 

Ciente de que não seria possível trabalhar naquele ambiente, comecei a navegar pela Internet em busca de informação e sanidade mental, sem sucesso. A cabeleireira estava fazendo seu trabalho, arrumando a peruca, e o cheiro do spray sobre meu nariz confundia ambos os meus neurônios. A confusão atraiu a atenção de muita gente e a sala ficou lotada de fotógrafos de celular.

 

Finalmente chegou a hora do almoço. Nós, os redatores, saímos para almoçar na esperança de que os pintos não estivessem mais lá na volta. E de fato, não estavam. Mas estava lá, na nossa sala, para surpresa de todos, Carlos dos Bichos, com um contêiner cheio de pequenas cobras, um balde fechado lotado de baratas, um contêiner de pererecas e, uma imensa jibóia, nas costas de Carlos, pesando vinte e dois quilos e com três toneladas de capacidade de constrição. E, claro, mais umas vinte pessoas em volta da cobra.

 

A cobra era muito, muito gorda. Muito grande, muito forte, muito assustadora. Pesquisei na Internet e descobri que o nome do medo da cobra é Ofidiofobia. Este era, portanto, o dia de confrontar com a ofidiofobia coletiva. Muitas pessoas da rádio venceram seus medos e tiraram fotos com a jibóia no ombro. Mas não era só o peso da cobra que incomodava: em busca de apoio, ela enrolava o rabo na perna das pessoas, o que causou alguns momentos de histeria.

 

O medo da serpente, além de bíblico, deve ser um dos medos mais primitivos do ser humano. E, por isso, vencê-lo, é quase uma experiência mística. Não sei se foi a descarga de adrenalina mas passei muito mal à tarde. Tirei fotos de quase todos os colegas em seus momentos de vitória sobre o pavor ofídico, sempre tomando cuidado para que ninguém soltasse as pererecas ou chutasse o balde das baratas.

 

Uma hora depois, todos se foram. Tomei um banho na pia do banheiro, esfreguei as mãos com o sabonete até a exaustão, tomei um café tamanho família e produzi durante algumas horas. Tudo terminou bem. A cobra foi para casa, as fotos ficaram ótimas, os colegas agradeceram, o trabalhou rendeu. Os pintos? Ah, estão bem. Continuam piando, cagando e andando por aí, como muitos de nós, depois de pegar na cobra.

 

Rosana Hermann solta os bichos aqui toda quarta e está no livro Blônicas com mais textos. Confira aqui.
Escrito por Blônicas às 10h58
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A palavra

De Nelson Botter.

 

Quanto vale a palavra de uma pessoa? Antigamente a palavra era questão de honra, "te dou minha palavra", era coisa séria e podia acabar em duelo de espadas e revólveres, "escolham suas armas" e coisa e tal. Hoje, pelo visto, já não vale mais nada, mesmo quando lavrada em cartório.

 

Veja só você o exemplo do ex-prefeito de São Paulo, José Serra, que durante sua campanha para o gabinete da cidade prometeu de pés juntos, de papel assinado, que não deixaria a prefeitura, se eleito, para aventurar-se numa campanha à presidência. Prometeu cumprir o mandato até o fim. Pois ele anunciou há semanas que era pré-candidato ao posto de Lula (o homem que não sabia de nada), depois de uma novela quase mexicana. Seu partido tucano preferiu Alckmin para presidente. Pois Serra, não satisfeito, resolveu escrever novo capítulo para sua novela, deixando o suspense no ar: ser ou não ser candidato ao governo do estado? Plim, plim.

 

Walcyr Carrasco não pensaria em trama mais complexa, pois o ex-prefeito, que até sexta passada ainda era prefeito, resolveu largar seu cargo no maior mistério, atitude que só não foi completa surpresa porque o Dr. Pinotti deixou escapar num discurso a real intenção de Serra de concorrer à cadeira do Palácio do Bandeirantes, desbravando uma eleição ao governo, deixando a cidade nas mãos de Gilberto Kassab. Quem? É, Kassab, PFL, vice do Serra e agora prefeito, que dificilmente venceria uma eleição para prefeito, recebendo a faixa de bandeja.

 

Resumo da ópera: Serra não conseguiu quebrar sua promessa de não concorrer à presidência simplesmente porque não deixaram, então ele resolveu quebrar a promessa de que não sairia da prefeitura de São Paulo, promessa de campanha e, repito, por escrito, em público. Aí deixaram e pronto, saiu, largou, abandonou a todos que depositaram na urna o voto de confiança a ele.

 

E não é a primeira vez que isso acontece, que nada, o ex-ministro Palocci (que o PT tanto protegeu na sujeirada toda, mas que acabou morrendo atolado até o pescoço) quando prefeito de Ribeirão Preto firmou em cartório que cumpriria o mandato até o fim e não o fez. E muitos outros exemplos acontecem por aí.

 

Nessas e outras, volto à pergunta inicial: quanto vale a palavra de uma pessoa? Você sabe? Eu não sei responder ao certo, assim como também não sei dizer quanto vale uma pessoa sem palavra. A única coisa que sei é que esse pessoal todo não vale o meu voto.

 

Nelson Botter é o cronista das terças e está no livro Blônicas com outros textos. Saiba mais aqui.

Escrito por Blônicas às 11h03
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Tom Zé e a mulher

De Xico Sá.

Nada mais devoto às fêmeas do que a opereta "Segregamulher", do incomparável homem de qualidades Tom Zé.
Já havia escutado no seu mais recente disco, porém, ai porém, por imperdoável falha nossa, não havia visto no palco tal derramado e lírico e negro drama.
Mas acabei dando sorte e vendo num lugar emblemático, inesquecível, e pronto: o Teatro Deodoro, em Maceió, nas Alagoas dos velhos Graça e Aurélio, o homem do dicionário. E num evento ímpar e mais do que necessário hoje num país de gente tão entregue: o FMI, isso ai, Festival de Música Independente.
 Pense num evento de responsa! Que venha o próximo, pois. Urge!
E limpemos a agulha do juízo com um sopro. Viremos o longplay de cera de carnaúba e estaremos de volta à opereta citada na cumeeira dessa crônica. "Segregamulher". De Tom Zé. Com licença da palavra, ave palavra, Guimarães, eita porra!
Eita Tom Zé de resistências tantas, dos grandes sertões e arredores, jardineiro dos jardins elétricos e suspensos da babilônica Sumpaulo, eita diabo.
Oiça:  
"Quando ele pia, pia, pia,/ Pra inibir na mulher o animal,/ Talvez eu ria, ria, ria,/Vendo ele transar uma boneca de pau,/Com seu incubado,/Calado, colado, pirado pavor/ Do segredo sagrado."
Agora para arrombar de vez a parede do açude das nossas ignorâncias e machezas:
"Em muitos países do mundo a garota/ Também não tem o direito de ser./ Alguns até costumam fazer/ Aquela cruel clitorectomia."
Eu quero é mais:
"Mas no Brasil ocidental civilizado/ Não extraímos uma unha sequer/ Porém na psiqué da mulher / Destruímos a mulher."
Divino luxo, oxe!, lindo.
Tom Zé e sua bela mulher Neusa. Encontro logo os dois na porta do hotel alagoano. Ele estava com um cacho enorme de pitomba nos braços, um colar de casca e caroço e pouca carne para os dentes; ela sorria daquele tudo, vôte!
As mesmas pitombas vistas na crônica natureza morta chamada "Nuvens", do livro "Infância", de Graciliano Ramos, o velho Graça: "A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louca vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta. Ignoro onde o vi, quando o vi, e se uma parte do caso remoto não desaguasse noutro posterior, julgá-lo-ia sonho".
Que coisa mais linda!
Viva as pitombas, mesmo as que dançam na solidão das bocas banguelas dos tristes trópicos! Viva as fêmeas e que a gente seja devoto e respeite mesmo nunca sabendo o que elas querem, né mesmo doutor Sigmund?

Xico Sá escreve aqui às segundas-feiras e está no livro Blônicas com texto inédito. Confira aqui.

Escrito por Blônicas às 11h35
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Mandaram um brasileiro pro espaço

De Milly Lacombe.

Finalmente mandaram um brasileiro pro espaço. Mas Marcos Pontes não é exatamente o brasileiro que gostaríamos de ter mandado para o espaço, é? O sujeito parece bom moço, pai de família, profissional bem sucedido, brasileiro honesto... Minha lista de brasileiros que gostaria de ver bem longe da Terra não conteria seu nome nem se eu tivesse dez mil linhas a preencher. Mas vá lá. Escolheram o homem, afinal ele é engenheiro, fez ITA, tem mais de três neurônios e o diabo a quatro. Dá pra entender. E foi maravilhoso: um grande evento, desses que serve para aplacar nosso complexo de vira-lata: bandeira pintada no foguete, no macacão, camisa da seleção na bagagem (eu não sabia nem que astronauta tinha bagagem), nosso herói apontando frenética e orgulhosamente para a flâmula enquanto a nave subia - e o americano e o russo já dormiam - a família (todos os membros reunidos e amontoados no sofá da sala, como só nós, latinos, sabemos fazer) em Bauru emocionada, a professora fazendo juras de amor e dizendo que desde pequeno Marcos dava mostrar de que ia terminar no espaço, lágrimas, risos fáceis, música de fundo ... lindo, lindo. Tudo muito emocionante, muito brasileiro.

Incrível. Mas o que eu queria mesmo-mesmo era encher um foguete de corruptos e corruptores. E despachar para além-Marte. Não ia resolver droga nenhuma porque essa gente se multiplica feito coelho aqui na Terra, mas ia ser muito divertido ver Dirceus e Paloccis tentando funcionar sem gravidade, isolados em uma cápsula, longe de telefones, gabinetes e articuladores. De macacão bem apertadinho, capacete, amarrados no assento, gritando histericamente de pavor enquanto o foguete se distanciava do país que eles estão destruindo.

E, já que o devaneio ganhou ritmo, convidar o caseiro Francenildo para fazer a contagem regressiva. Deixar que o trabalhador apertasse o botão e se lambuzasse com a imagem do foguete subindo, subindo, enquanto acenava com uma cópia de seu extrato bancário para o céu. Com um pouco de sorte, a nave explodiria antes de chegar à estratosfera. Mas não poderíamos contar com isso porque sorte é tudo o que não temos tido em política. Então, é preciso ser precavido e gastar tempo e dinheiro na construção de uma estação espacial para abrigar corruptos, trambiqueiros e assaltantes engravatados.

Se neste ponto do devaneio você começa a pensar que a proposta é excelente, mas não factível por ser extremamente cara, é aí que você se engana. Com os bilhões que essa galera desvia dava para construir dez estações espaciais e vinte e cinco foguetes, em cálculo aproximado, mais um chute mesmo.

Seja quanto for, pensem na festança que a coisa começa a ficar irresistível: poderíamos encher a nave de bandeiras do Brasil, inteirinha, talvez convidar o Herchcovitch para desenhar, e o Niemeyer para fazer o que ele faz de melhor: um croqui da espaçonave. Ia ficar, naturalmente, uma coisa meio oval, nada aerodinâmica, mas dane-se porque seria só por farra, não ia servir pra nada mesmo. Seria mais marketing de lançamento, se é que isso existe. E o arquiteto talvez nem topasse participar do programa que mandaria companheiros pro espaço, ainda que o bom e velho comunista não resista a uma sonora proposta financeira. Sabe-se lá. Poderíamos tentar. Poderíamos também dar ao estupendo programa o nome de Corruptos no Espaço, ou Corruptos para o Espaço, convocar um plebiscito para decidir a questão, celebrar em grande estilo cada lançamento, com imagens da família dos corruptos e corruptores chorando, endividada (claro, porque eles deveriam pagar pelo combustível, apenas uma idéia que me ocorreu enquanto escrevia, mas que me pareceu bastante razoável), contratar Ivete Sangalo e Carlinhos Brown para tocar em cada lançamento. E tudo isso em ano de Copa. Um corrupto ou corruptor por gol. Como se fossem rojões. É de arrepiar. De arrepiar.

Mas, enquanto o programa não é lançado, só nos resta acreditar em algo ainda mais improvável: que pelo menos um desses trambiqueiros termine esse nosso pesadelo coletivo atrás das grades. Aqui na Terra mesmo.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas todos os domingos.

Escrito por Blônicas às 11h40
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Nem vinte

De Tati Bernardi.

Ele não gosta de cinema europeu. Não sabe o que é crème brulée, De La Guarda e nunca ouviu falar no filme "O filho da noiva".
Ele é estagiário, tem um carro tatuado e cheio de apetrechos esportivos, acha Frank Sinatra um velho aí, faz questão absoluta de pagar meu almoço com ticket e, sempre que eu elogio uma roupa, um acessório ou um perfume, responde sem pudor: "Foi minha mãe que me deu."
De cada cinco palavras, uma é "irado", outra é "bagulho" e as outras três podem ser intercaladas com "tipo assim" ou "se pá".
Se essa descrição me fosse feita há alguns meses, eu, que sempre defendi romances com experientes e articulados homens mais velhos, certamente riria e ignoraria tal existência, nem cogitando uma aproximação.
Mas o que seria da vida se o mundo não nos pregasse essas surpresas? Se o mundo não desmentisse nossas verdades absolutas? O mundo é divertido. E por falar em diversão, tenho andado de volta aos meus quinze anos.
Sempre defendi, eu e minhas verdades irrefutáveis, que os homens mais velhos e blá, blá, blá, eram os melhores na arte do acasalamento. Pois muito bem, fique com eles então, porque eu ando satisfeita demais para lembrar que eles existem.
Imaginem a minha felicidade ao ver um casal na mesa ao lado, discutindo incansavelmente a relação a dois, enquanto eu e meu menino discutíamos entre batata frita com catchup e batata frita com mostarda? Sendo que eu preferia a segunda opção e ele a primeira. Esse era o nosso conflito.
No fim acabamos misturando tudo porque, enquanto o mundo adulto pensa, a gente beija, um milhão de beijos para esquecer o mundo.
Ele tem um sorriso sem marcas, de uma doçura sem mágoas. Ele é limpo de dores do mundo. E ainda que isso torne a sua alegria um pouco sem profundidade, faz com que a superfície brilhe tanto que nada mais importe.
Ele anda o dia inteiro pra cá e pra lá, resolvendo seus problemas de estagiário com seu cabelo tigelinha, sua falta de pelos e o rosto mais lindo do mundo. E eu vou junto. O dia inteiro para lá e para cá, o dia inteiro pra frente e para trás enquanto ele vai, o dia inteiro disfarçando enquanto ele vem. O dia inteiro desejando que ele apareça para me dar vida, e que ele desapareça para me dar ar.
Você esqueceria qualquer gíria se prestasse atenção na boca carnuda, dura e bem desenhada que as pronuncia. Você esqueceria qualquer "não sei" se prestasse atenção em tudo que suas mãos, pernas e línguas sabem.
Você esqueceria qualquer colo maduro se prestasse atenção a quantas horas está naquele colo que nunca cansa, que nunca pára, que é tão jovem, macio e forte. Você esqueceria qualquer acalanto intelectual se tivesse suas costas e seus cabelos acariciados por horas, por mãos leves, por intenções leves, por momentos silenciosos jamais despertados por celulares, obrigações e cobranças da vida adulta.
Quando a voz dele, que ainda não é grossa, que ainda não é firme, sussurra para mim tudo o que eu preciso ouvir para me sentir de novo com o meu corpo de dezoito anos, eu sei que aquela é a voz que minha alma precisava. Quando ele sorri desarmado, limitado e impotente, para todas as minhas dúvidas, inconstâncias e chatices, eu sei que é daquele sorriso que minha alma precisava.
Ele não faz muito pela minha angústia existencial, até por não saber. E consegue tudo de mim. Consegue até o que ninguém nunca conseguiu: me deixar leve.
Sabe rir mole de bobeira? Sabe dançar idiota de alegria? Sabe dormir gemendo de saudade? Sabe tomar banho sorrindo para a sua pele? Sabe cantar bem alto para o mundo entender? Sabe se achar bonita mesmo de pijama e olheiras? Sabe ter ânsia de vômito segundos antes de vê-lo e ter fome de mundo segundos depois de abraçá-lo? Sabe não agüentar? Sabe sobrevoar o frio, o cinza, os medos, os erros e tudo que pode dar errado? Ele consegue fazer com que eu me perdoe por apenas viver sem questionar tanto.
Eu quero parar com tudo isso, ele é um menino que não pode acompanhar minha louca linha de raciocínio meio poeta, meio neurótica, meio madura. Eu quero colocar um fim neste tormento de desejar tanto quem ainda tem tanto para desejar por aí. E aí eu me pergunto: pra quê? Se está tão bom, se é tão simples. Ele me ensinou que a vida pode ser simples, e tão boa.
É isso, sei que vocês vêm aqui para ler neuroses, mas estou de férias delas. Umas férias, tipo assim, se pá, iradas.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 13h59
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