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A copa e os clichês

De Rosana Hermann.

A linha de raciocínio mais trivial da criatividade é a livre associação de idéias. Se fizéssemos um teste para gerar piadas usando o termo 'copa', quase cem por cento faria a primeira graça associando 'copa' a 'cozinha'. Nesta época, em reuniões profissionais de criação, sempre tem uma meia dúzia de voluntários não solicitados que dão esta mesma sugestão, a de gravar boletins da copa numa cozinha, com o entusiasmo infantil de quem supõe que ninguém mais tenha pensado nisso.

Nesta copa o fator Alemanha agrava a situação das associações-clichê. Os mesmos bem-intencionados, que só conhecem o caminho associativo, seguem pelas mesmas trilhas batidas e chegam aos mesmos lugares-comuns, como cerveja, chopp, salsicha, salsichão, chucrute e eisbein. É como se a pessoa abrisse a gavetinha 'Alemanha' em sua cabeça e fosse jogando pra fora tudo o que ela já guardou ali. Não é elaboração, idéia, propriamente dita. É só uma faxina. Ali fica ela, como uma criança, brincando com o óbvio, jogando brinquedos pra fora da caixa. "Tive uma idéia!! Por que vocês não fazem uma matéria mostrando um monte de salsichas?? Hahahaha! Muito engraçado!" E, claro, se alguém mostrar uma única salsicha durante a copa ela terá a certeza de que sua idéia brilhante e original foi copiada e não creditada. (Aqui, vale uma pausa: há idéias que são, de fato, originais e que acabam sendo copiadas; mas estas não são as mais óbvias, decorrentes de associações diretas. Pelo menos as dez primeiras coisas que pensamos serão aquelas que todos pensarão e o melhor é jogá-las fora, exatamente como as primeiras folhas que envolvem o pé-de-alface.)

Junto com a culinária alemã as idéias mais recorrentes dizem respeito à indumentária (sandálias com meias, por exemplo), os suvacos femininos não depilados (comuns na Europa), as danças típicas. A língua, então, é uma festa. Centenas de jornalistas que querem mostrar suas aptidões lingüísticas já estão revelando seus guten tags e guten morgens pelas rádios e tvs. Alguns já chegaram ao 'ich spreche kein Deutsch", talvez o mais útil de todos. É incrível mas momentos coletivos como a copa do mundo revelam que somos todos muito parecidos. Numa recente reunião, a associação evidente também mostrou-se presente no sentido inverso, com a idéia de mostrar o Brasil para o alemão. Gente bacana e entusiasmada sugeriu coisas 'impensáveis' como fazer uma feijoada para os alemães, botar umas gostosas sambando e, como é junho, fazer uma festa junina. Aproveitei para lembrar que dia 13, primeiro jogo do Brasil, é dia de Santo Antonio casamenteiro, coisa que ninguém sabe também.

O mais curioso, no entanto, ainda está por vir: no fundo, nessas ocasiões, o que o telespectador deseja é isso mesmo, ver o óbvio representado na mídia. Ele aceita uma ou outra idéia que o surpreenda mas o grosso do que ele quer ver é o que ele próprio pensaria ou faria. Hoje, a TV não serve apenas para informar ou entreter mas para dar vazão ao desejo popular de estar na tela. Quem é que, afinal, não queria estar na copa? Gritando "Traz o Hexa Brasil"? E assim, os que não primam pela originalidade, os que simplesmente mostram a salsicha que o cidadão pensaria em mostrar, os que vão lá e dançam com a vassoura numa festa alemã, acabam agradando o sujeito da poltrona com a cerveja na mão. Eu não me surpreenderia se os índices mais altos de audiência fossem atingidos pelos programas que mostrarem o cúmulo do óbvio com o máximo da técnica, bem colorido pra gente ver na tv de plasma novinha, com muita cerveja alemã, chopp claro e escuro, muito eisbein, chucrute e apfelstrudel, falando sobre a copa, direto de uma cozinha,

E guten tag, alles gut e ... Brasil, traz o Hexa que a taça do mundo é nossa! Galvão, filma eu!

Rosana Hermann joga no meio campo do Blônicas todas as quartas-feiras.

Escrito por Blônicas às 10h14
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Todos juntos vamos???

De Nelson Botter.

Vai começar mais uma copa, prepare o rojão, a amarelinha, os gritos e as bandeirinhas, que beleza ver a nação unida, patriotismo e orgulho de ser brasileiro. De 4 em 4 é sempre assim. Mas por que será que quando se descobriu um esquema de corrupção monstruoso no governo tupiniquim, a galera não soltou o grito da garganta, não foi ou vai (pois dá tempo) às ruas vibrar, como no esquema Collor, amarelinhas fazendo barulho, apitos e batuques, bandeiras com mensagens de "não somos bobos não!", carros alegóricos que protestam de lado a lado? Pois é, o povo fica de 4 em 4 nessas horas. Amarela, a cor da seleção, é prenúncio. Bob Jeff falou, o congresso fez que não escutou, acordão e pizza salvou quase todo mundo, assim se faz política. E ninguém diz nada, movimentos estudantis de rabo preso, oposição que não sabe se opor, o brasileiro omisso e mal informado. Bola pra frente? Ainda pegando o futebol para Cristo, veja como o time brasileiro se destaca pelo individualismo, se vira malandro, numa jogada individual resolvemos um jogo, futebol em conjunto é coisa de europeu, o jeitinho brasileiro é no ziriguidum, joga a bola em mim que eu resolvo. Isso é cultural, não é só o jogador brasileiro que é assim, que nada, ele é povo antes de qualquer coisa, o brasileiro é assim, individualista que só. Somos todos Ronaldinhos, sorrindo e gingando. Quarteto mágico que nada, é cada um por si e Deus – que é brasileiro – por todos. Ele que se vire. O ópio do povo é o futebol, traz momentânea alegria, a pátria de chuteiras, une o país durante 90 minutos. Que o Brasil vá bem nessa copa, que chegue na final, assim serão 7 momentos de união. Depois, xi amigo, só daqui 4 anos. É igual eleição. Por falar nisso, ano de copa é ano de votar para presidente e governador. Hmmm, coincidência ou não, vale a reflexão, é hora decisiva, o país inteiro pode ganhar ou perder muito, depois a nova chance demora mais 4 anos. É, Robinho, Kaká, Ronaldo e Cicinho, marquem seus gols aí, e quem sabe nós marcamos os nossos aqui, nas urnas. Para fazer um Brasil campeão é preciso virar o jogo. Já que não vamos às ruas, que a justiça seja feita no voto. Acorda Brasil, avante Brasil, salve a seleção, salve essa nação!

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol (especial da Copa).

Escrito por Blônicas às 21h55
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Estou de Xico

De Paulo Castro.

     Sei lá, estou escrevendo meio em cima da hora, amanhã já é segunda, e se rolar, hoje é segunda, e eu estou substituindo o Xico Sá que está de férias. Claro que vocês preferem ele. Eu também prefiro. Ele é mais universal, e quando a gente lançou o livro, eu tive que dar um toque pro cara:
     - Xicão, o que você está fazendo no MSN?  Hoje o Blônicas vai ser furacão.
     - Putz, pior que é.
     E foi. E parece que foi ontem, que seria sábado, que seria muita coisa se a gente, todos nós, tivéssemos a coragem de sermos menos polidos. Mais sólidos. Se fosse líquido eu bebia. Se fosse pó eu cheirava. Se fosse mulher, eu chupava. Isso já me deu muita dor de cabeça, descobriram minhas preferências de ontem e de hoje na pasta de internação. Daí virou uma coisa pública, na esteira de ergometria.
     Uma amiga pediu pra mandar um beijo pro Marcelino. Ela está no único livro dele que eu não tenho. Era O Dito. Se era, foi ontem, e o beijo ainda não azedou como manteiga de Marlon Brando, mesmo que tenha sido dado na sexta, se não me engano.
     E o Botter disse que adora quando eu faço "isso", mesmo que eu não saiba direito o que é esse isso a que ele se refere, que Freud chamou de Id, que eu nunca encontro nos meus vícios, pois é palavra não dita, era o Xico hoje, acabou sendo eu, o que diz que veio como substituto, até se oferecendo, bem puto. Conheci uma puta na madrugada de sexta. Fez até a sétima e sabe tudo sobre Baudelaire. Eu não tinha 200 paus, só 120 dias de Sodoma, então eu avisei: estou roubando cliente seu.
     - Foda-se (em outras palavras).
     - Eu gostaria de publicar seus poemas.
     - São 12 poemas. Só não sei quando começaram. Na vida, eu comecei em 1988.
     Em 1988, eu fumava cigarro escondido. Em 1988, eu pensava em lançar um jornal de poesia. Em 1988, eu achava que eu era da beat generation. Foi ontem mesmo e a puta era virgem, em outras palavras.
     Rosana: eu estava assistindo o Pânico. Ele está meio sem-graça. O que foi?
     Milly: você continua a mais gata, apesar de algumas vacas reclamarem que você não aceita as matérias pra revista, ou não dá bola.
     É gente que está em outro nível. Que se dá o direito de ser seco, pela falta de tempo. Um dia eu vou ser assim também, e não ligar pra uma crise de ciúmes, não ficar com o coração apertado diante da ameaça de espeto romântico. Churrasco eu como frio. Telefone eu derrubo. O filme que eu pego pra assistir com ela, dá sono. O macarrão não agrada muito, mesmo que a paixão tenha rido quando eu pedi, chique:
     - Por favor, traga dois pênis napolitanos na minha rua e avise o motoqueiro que o interfone está quebrado.
     Sabe quando você é o tipo de pessoa que sempre está escorregando, tenta adivinhar sobre o que o autor vai falar no parágrafo seguinte, apostando sua vida nisso, e erra? Era. Foi ontem mesmo. Nasci em 1973. E isso não importa mesmo, nunca saí bem em foto. Mesmo essa aí, do lado, com um sorriso bondoso, mas o rosto inchado de coisas erradas, não é mais a legítima. O filme que peguei foi o Lavoura Arcaica. Eu sei que é lindo, sei tudo isso, já tinha assistido e queria impressionar. Saquei depois a missão impossível. Mesmo o trocadilho, que pensei em apagar, não apago, pra marcar a minha impotência. Queria não ter ligado quando ela disse que eu tenho pau pequeno.  ( Viu como te amo, faço até anti-propaganda!)
     E mesmo assim, desperto raiva, pois mesmo o dó é uma marca e tanto na cara dada ao tapa. Veja já o comentário: "Xico, volta logo". Ele volta. E com a graça daquele clipe do Magal, junco com a Falabella, dançando e olhando pra trás, a não perder o passo e a cachaça. Mas com eles tem graça.
     Essa auto-piedade rola em etilistas arrependidos. É o que o AA trabalha, com 12 passos e eu não sei dançar balé, nem ralé, a capa mais linda de Marcelino. O primeiro casal gay da história. O Pânico ainda não acabou. A revista ainda não chegou nas bancas, Milly.
     - Que tal...Último Tango em Paris?
     - Já assisti.
     - Ah, tá.
     Xico: estou com saudades, mesmo que você não tome conhecimento disso.
     O dia em que eu colocar no Orkut, "namoro(mulheres)", a missa de sétimo dia será sete dias depois.
     Boa semana.

Paulo Castro é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 07h22
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Felizes

De Milly Lacombe.

Eu não conseguia tirar os olhos do relógio do padre. Ali, no altar e bem perto do sacerdote, me senti completamente abduzida pelo brilho do ouro daquele adereço enorme, que, bem mais largo do que o pulso do homem, balançava muito a cada movimento de braço. De que marca era aquele treco enorme? Não conseguia ver. Mas será que só eu estava fascinada com aquela jóia? Olhei em volta em busca de uma outra alma observadora, mas percebi que estava sozinha nessa. Os padrinhos tinham o olhar fixo nos noivos, enquanto as madrinhas enxugavam as lágrimas. Dos noivos, pensei, não podia esperar muito. Estavam em um outro mundo, preocupados, talvez, com o que viria a partir daquele dia - como se a vida fosse mudar radicalmente a partir dali. Lembrei do voto de pobreza clerical e o que exatamente ele significava. Certamente, não a compra de um relógio inteiro de ouro para ser usado, como enfeite, na celebração de um casamento. Mas enfim. Aquela deve ser uma paróquia de dízimo farto, tão bem localizada em um dos bairros mais nobres de São Paulo, e o padre se sentiu no direito de ostentar a peça. Afinal, se o Papa usa Prada sem cerimônia, que mal poderia estar escondido atrás daquele relógio de ouro? Minha obsessão pelo relógio do padre finalmente deu trégua, e eu pude então prestar atenção no sermão.

O padre pedia para que meu irmão, o noivo, prometesse ser fiel na saúde e na doença e até o último dia de sua vida. Instantes depois, foi a vez da noiva fazer a mesma promessa. Incrível, pensei, os noivos precisam jurar, obrigados pelas leis da Igreja, perante uma centena de convidados,  fidelidade até o dia em que expirarem. Como alguém pode prometer uma coisa dessas? E o que é precisamente fidelidade? Seria considerado infiel o padre que rompe o voto de pobreza? Ou só a noiva que, depois de dez anos de casada, se apaixona por outro e decide interromper o casamento? Se apaixonar por uma outra pessoa é pecado? Ou só "ficar"com uma outra pessoa constitui pecado? Melhor que o fiel, apaixonado por outra, faça vistas grossas a esse amor e leve adiante um casamento, mesmo se ele estiver falido, fracassado? Sejamos infelizes até o último dia de nossas vidas, é essa a mensagem? Pensei em chamar o homem do relógio de ouro de lado e levar com ele um lero. Seria interessante. Mas meu pensamento mudou mais uma vez de rumo quando o ouvi começar a dar conselhos sobre como fazer um casamento dar certo. Como diria uma certa pessoa por quem eu nutro amor e respeito em doses abençoadas, se tem alguém nesse mundo que pode falar sobre casamento com propriedade é um padre, tá certo? Ora, o que entendem os sacerdotes sobre casamento? Já passaram pelas dores e delícias do convívio diário? Com as encucações geradas pela diminuição da libido? Já tiveram que educar, do zero, um outro ser humano? Pagar escola? Ah, por favor. Coloquem ali para discursar sobre como fazer um casamento dar certo alguém que já tenha casado 15, 20 vezes. Essa pessoa sim eu vou querer ouvir. Mas um padre ...

Fui interrompida porque era hora de cumprimentar meu irmão. E foi só ele me abraçar para que toda essa minha revolta evaporasse miraculosamente. Enquanto me desidratava em lágrimas, só conseguia dizer que queria que ele fosse feliz. Naquele momento, nada mais me importava. Nem as incongruências do cristianismo, nem a devoção cega de quem insiste em não questionar, nem o excesso de ouro na decoração da Igreja e nem, vejam só, o relógio do padre, que começou tudo isso. No fim, nada importa. Que sejam todos felizes.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 07h13
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Levei a família inteira para dançar

De Tati Bernardi.

Lá estava o demônio que não me deixa em paz, ele berrava que eu sou dura, estranha, sem charme. Não poderia faltar também a velha cansada que adora falar mal do mundo e dormir cedo, ela teve que ir amarrada, amordaçada e equipada com desfibrilador. A criança até gostou da idéia, mas a velha não parava um minuto: "Isso é hora de você estar na rua?"
A intelectualóide chata consegue ser ainda pior que todo o resto junto, começou seus julgamentos da porta e assim permaneceu por muito tempo. Ela odeia barbies, marombados, bregas, burros, espaçosos e passou praticamente a noite toda prestando atenção neles e não conseguindo se divertir. A mulher absurdamente sexy e confiante, morta há algum tempo, renasceu das cinzas, colocou sua melhor roupa e enfiou todo o resto de loucos dentro do carro com a seguinte ameaça: "Se vocês não se comportarem, dou pro primeiro que aparecer."
Não importa, nada importa. Se eu ficar dentro de casa esperando ser feliz para ser feliz, eu não vou ser feliz nunca. Se eu ficar dentro de casa esperando que uma perfeita unidade nasça de dentro dessa confusão de mil personagens que é minha alma, eu não vou sair de casa nunca mais.
A vida dói mesmo, é fato, sempre doeu, não é novidade. Viver aqui dentro, com tanta gente brigando pra saber qual dos "eus" é mais eu, não é fácil. Mas foda-se, no meio disso tudo dá pra se divertir, dançar e gozar de vez em quando. Então vamos em frente, todos.
Mesmo tendo um demônio horroroso de mil cabeças dentro do meu ouvido mandando eu odiar o mundo para me defender e não ser odiada, mesmo tendo uma velha de mil anos na minha carcaça mandando eu ler um bom livrinho sem forçar muito a vista e não esquecer das meias de lã, mesmo tendo que conviver diariamente com essa criança mimada que nunca se satisfaz com nada e vive me jogando na cara que eu sou incapaz de fazê-la feliz, mesmo ouvindo o dia todo os gemidos da mulher fatal que não agüenta mais o cheiro de mofo do meu corpo, um pouco inutilizado em nome de um enfoque maior no espírito, e, finalmente, mesmo tendo que apanhar o tempo todo da insuportável garota cult que vive me reprimindo de ser feliz com a simplicidade, eu consegui reunir todo mundo, botar dentro do meu Peugeot 206 todo amassado, porque a adolescente rebelde anda barbeira pra cacete ultimamente, e ir para o primeiro lugar escuro com música que aparecesse.
Foi difícil pra criança inaugurar a pista, ela só faz o que os outros fazem, apesar de gostar bastante de aparecer. Mais difícil ainda foi botar a garota-neurônios pra imitar a  Madonna em "Like a Virgin". Claro, foi quase impossível subir em cima da mesa e rebolar, afinal, eu tenho setenta anos. O diabo odiou ver que eu estava feliz, muito feliz, feliz pra diabo. A mulher fatal queria ter tirado toda a roupa, mas vamos com calma, né? Esqueci do homem machista que também mora por estas redondezas, não tão redondas assim, afinal, a garota academia também estava lá e andou caprichando nos últimos meses.
Sabe quem mais apareceu? A rejeitada, aquela idiota que passou quase que uma vida chorando e não se sentindo amada. Foi ela quem mais dançou, pulou e se acabou naquela noite. Quando todo mundo viu a mais fraca de todos se divertindo, tudo ficou muito mais fácil. Afinal, se ela consegue, qualquer um consegue. Foi então que exorcizei meu diabo, coloquei minha criança para dormir, matei minha velha, desliguei minha inteligência, amei minha puta e dei para meu homem.
A noite estava completa porque eu também estava.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 12h30
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O que é o sucesso?

De Henrique Szklo

Eu sempre disse que para se escrever sobre algum assunto com um mínimo de credibilidade é preciso conhecê-lo com alguma profundidade. E é justamente o que eu não vou fazer agora. Vou dar a minha visão, totalmente de fora, sobre algo que não conheço e provavelmente jamais conhecerei: o sucesso.

Mas afinal de contas o que é o sucesso? Na minha visão provinciana, dolorida e extremamente invejosa, acredito que o sucesso nada mais é do que a conexão direta entre a obra artística e o inconsciente coletivo. Não tem nada a ver com qualidade, não tem nada a ver com talento, nada a ver com fórmulas ou esquemas pré-estabelecidos. É claro que as grandes corporações ligadas à comunicação de massa procuram sempre fazer uma lavagem cerebral. Coisa que têm demonstrado excelentes resultados, haja visto o mar de lama que temos acompanhado nas tv, rádios, livrarias e cinemas.

O sucesso não tem preconceito, ele atinge qualquer pessoa de qualquer raça, sexo, orientação sexual etc. Não está preocupado com a justiça e muito menos com a elevação dos valores morais e éticos da nossa sociedade.

O sucesso é um déspota, que escolhe aleatoriamente os privilegiados que serão ungidos pelo seu toque mágico. Não pergunta pra ninguém, não faz pesquisa, não ouve a voz do povo. Só faz o que quer e ninguém consegue controlá-lo.

O sucesso é frio, insensível, não está nem aí com as necessidades dos outros. Muitas vezes aterrissa sobre pessoas que não precisam dele e acaba esquecendo aqueles necessitados que tanto dependem de sua atenção para conseguirem o seu sustento.

O sucesso é podre, nojento e causa um rosário de problemas para seus seguidores. É responsável, por exemplo, pela avalanche de revistas sobre a vida dos famosos e a verdadeira praga contemporânea que são os paparazzos. Sem contar que quem faz sucesso não pode nem ir ao cinema, ir a um restaurante sossegado e lá vem aquela romaria de fãs encher o saco, pedindo autógrafos, pedindo para tirar uma foto, enfim, um verdadeiro inferno em vida.

O sucesso é uma droga. Depois que a pessoa experimenta uma vez não consegue mais viver sem. O problema é que, diferente das outras drogas, não está a venda em qualquer esquina. Acabou, acabou. Bye-bye, so long, farewell. É por isso que os viciados se agarram a ele e fazem qualquer coisa para não perder contato. E pior: não existe clínica para tratamento destes viciados e, uma vez abandonados, ficam ao deus-dará. E sacana como é o sucesso,  deixa um monte de gente nesta situação deplorável. Os mais azarados ainda têm de passar pelo vexame de ser ridicularizado pelo repórter Vesgo do Pânico.

Enfim, o sucesso é um grande filho da puta. Ordinário, escroto, cafajeste, indigesto. É por isso que eu todo dia dou graças a Deus de não conhecê-lo. De sequer chegar perto deste desclassificado. E se um dia ele vier cheio de graça pra cima de mim vai ver o que é bom pra tosse! Eu, hein?!

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e não faz sucesso. Conheça seu site,  o blog da mãe e o 1­° OPEN MIND, um fim  de semana inteiro voltado ao desenvolvimento da criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 13h05
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Celulite como segunda opção

De Leo Jaime.

Acaba o programa das quatro mulheres que, na edição comemorativa de aniversário tinha 10 homens, inclusive eu - sim, elas querem ouvir os homens! - e cada um tinha que deixar uma frase para elas. Escolhi uma apaziguadora: "Mulher sem celulite não dá para conversar! Não sofram por causa disso".
Imaginava que essa frase pudesse servir para múltiplos males decorrentes da cobrança radical que hoje se faz sobre aparência física. Evidente que a celulite é uma aparência íntima. A dita máscara social não as apresenta, por assim dizer. A não ser que você apresente ao público partes extensas de sua pele. Mas, neste caso, imagino que sua auto-estima esteja bem calejada e curtida pelo sol.
O problema é que a frase fundamental, ao meu ver, a que queria dar de presente não era essa. Oras, celulites não representam muita coisa. Nem para o bem e nem para o mal. Não é que as celulites melhorem o papo: elas simplesmente indicam que as mulheres já viveram um pouco e têm alguma história e isso é que dá assunto. Atletas ou bailarinas, porém, podem ser muito interessantes (e ter muita história) e não ter celulites, o que desmente a frase de efeito. Até porque simplificações e generalizações são sempre reducionistas mas sem elas a gente não conversa. Imagino, todavia, que a busca incessante por uma bunda perfeita faz da vida um jogo chato, literalmente correr atrás do próprio rabo.Ou do alheio, tanto faz.  E, no fim, se este elemento for importante em suas avaliações e critérios, a não ser que você esteja num júri do tipo " A Soberana das Piscinas", você é um caso perdido. Não queria ter deixado aquela frase no final do programa.
Há outra coisa, muito mais fundamental, ao meu ver, para ser dito às mulheres, sobre o mundo masculino - se é que elas precisam desvendar alguma coisa que já não estejam cabeludas de tanto saber - aí vai: o que é necessário sempre e que em geral lhes falta? Humor.
Uma razão para os homens sempre estarem dispostos a encontrar os amigos? Eles são divertidos. Bobos, mas divertidos. É um código: se você for chato, sério demais, ranzinza a maior parte do tempo, os amigos te sacaneiam. Eles não discutem a relação. Eles te sacaneiam e riem. Homens são bobos e mulheres são chatas. Em todas as queixas absolutamente fundamentadas das mulheres sobre os homens estará lá grafada a meninice, a besteirice, o não querer levar as coisas a sério e achar que tudo é um parque de diversões eterno. Um playground. Será? E os grandes filósofos? Tá bom, mas há um menino bobo enterrado no peito de todo homem sério. EStamos aqui falando de gente de bom caráter e não de filhos-da-puta, bem entendido? Pois é, dificilmente haverá algum cosmético  tão poderoso quanto um humor maravilhoso. Sorrisos e frases divertidas consertam muitas coisas aparentemente sem conserto. Acreditem nisso. Ainda mais se determinada pessoa os produzem. É um bálsamo. Já uma tromba contínua. Ou aquela desculpa horrorosa de acordar de mau-humor. Ou aquela outra desculpa mais feia ainda, a da TPM, permissão para matar para um quarto do tempo. Momentos estranhos todos tem. Comum. Melhor não insistir neles.
Rir: em alguns momentos esta pode ser a solução. Rir juntos e cavar na presença constante deste riso aquela amizade incondicional que alguns homens conseguem com algumas mulheres. E quando isso acontece, estes papos bobos e chatos sobre diferenças entre homens e mulheres acabam.
Homens não precisam ser e nem são só homens. Convivem e compreendem mulheres e vice-versa. No fundo, o que incomoda é a idéia de que temos que ir cada um para uma bancada defender o próprio gênero, as diferenças, quando é preferível defender a mistura, a interação. No mais amplo dos sentidos.
Estrilo, lato, estrito, lato, estrito, lato. Hummmmm.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h18
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As leis do internauta médio

De Rosana Hermann.

Sinto-me à vontade para falar desta criatura nascida da estatística, o brasileiro médio conectado à rede, porque ele só existe no mundo virtual da matemática. Portanto, não ofende ninguém. Sim, porque, o brasileiro médio, dentro ou fora da rede, pra começar, ofende todo mundo mas não aceita críticas e não leva desaforos pra sua homepage.

Ao longo de mais de uma década de comunicação online tenho observado atentamente o comportamento deste internauta médio e, mesmo sem competência analítica e sem dados de pesquisa tenho, senão conclusões, uma coleção de sentimentos sobre os milhões de pessoas com quem já me relacionei, direta ou indiretamente. E uma coisa posso afirmar: o internauta médio não é burro, mas é muito impulsivo, agressivo, crítico, reativo e sobretudo pessimista.

A primeira lei do internauta médio é a lei da não-inércia: nada fica como está, pois tudo o que existe de bom ou ruim, sempre tende a piorar. Vejo a aplicação desta lei diariamente nos comentários do meu blog. São frases como 'esse blog já foi melhor', 'antigamente você postava mais', 'você já era', 'isso aqui já teve melhores dias'. Mas isso é pinto comparado à demonstração de força da primeira lei durante os ataques do PCC. Todo mundo que soube de um fato em sua cidade, disse que foi no seu bairro. Se foi no bairro, na hora de contar, as pessoas transferiam os tiros para sua rua. E se foi de fato nas imediações de sua rua, no relato virou 'praticamente em frente à minha casa, escola, trabalho'. Todo mundo fez questão de exagerar e dramatizar todos os fatos. Sem contar a onda de boatos, sempre no sentido de piorar o que já era péssimo. Virou quase uma febre, uma mania.

A segunda lei é o princípio fundamental da dinâmica do julgamento dos outros. A resultante de tudo que age sobre uma pessoa é igual ao produto de suas medidas (como estatura, idade, massa) pelos seus bens materiais. Mesmo sendo solidário com o coitadinho, mesmo tendo compaixão pelos que sofrem, o internauta brasileiro médio gosta mesmo é de poder, fama e ostentação. É isso que ele quer, é isso que o atrai, para o bem ou para o mal e por isso ele exige que todos os seus ídolos, aqueles a quem ele adora odiar, mantenham essas características em dia, para que ele possa invejá-lo e tentar destruí-lo no conforto de sua casa. Brasileiro não gosta de chutar cachorro morto, gosta de chutar cachorro feio. Feio e pobre. Só passam pelos critérios de julgamento os que têm corpos perfeitos e fortunas visíveis, obtidos por qualquer meio lícito ou ilícito.

A terceira e última lei do internauta brasileiro médio é a lei da virtude e compensação: 'a cada virtude corresponde um defeito contrário de igual intensidade e no sentido de derrubar a pessoa'. Basta perceber um ponto positivo de um ser humano para que a terceira lei entre em ação dizendo que 'em compensação ela tem um defeito péssimo'. Exemplos vividos e observados são coisas como 'o Jô é inteligente mas é gordo', 'a Miriam Leitão é competente mas é esquisita, 'a Gisele é perfeita mas é chata', 'a Sabrina é gostosa mas é burra', 'o Silvio Santos é rico mas é doido'. Nem os ídolos do futebol escapam. Agora o alvo preferido é o Ronaldinho Gaúcho, 'que joga bonito mas é feio que dói'. Como se ser o melhor jogador do mundo não fosse suficiente para um craque de futebol.  Ronaldinho, Xuxa e até Ayrton Senna já foram desabonados por diferentes razões, inclusive as de foro íntimo, com a orientação sexual de alguns. Talvez a única pessoa que tenha escapado ilesa oficialmente seja o Rei Roberto Carlos, já que ninguém diz ou escreve que ele é famoso mas é perneta. Mas isso, apenas porque o internauta médio tem medo de atacar as instituições consagradas. (A última vez que ouvi falar sobre a perna mecânica de Roberto foi numa letra de música do ousadíssimo porém extinto Joelho de Porco, que a chamava de Margarida. ) Em suma, ninguém é bom o suficiente para ter suas virtudes em primeiro plano. Sempre há um problema que desmerece ou desabona até o melhor dos melhores.

O resultado desses enunciados compõem um quadro triste e sombrio do internauta médio, que pode não corresponder a você. Talvez porque você não faça parte da média. Ou porque a lei se aplica também a mim, pois embora a cronista seja experiente é muito exagerada;  e apesar de alguns poucos bens não tem uma linda imagem;  e, principalmente, porque nenhuma crônica escrita é tão boa que não possa ser piorada na edição.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas e está no livro homônimo com outros textos.

Escrito por Blônicas às 11h56
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A falsa filosofia escondida na verdade de cada um

De Nelson Botter.

 

Chuva e frio. A ordem dos fatores pode sim alterar o produto. Enquanto a bela morena dança pelada na minha frente, eu tento me concentrar para escrever uma blônica para você, baby. Nada é fácil nessa vida, muito menos viver, e é assim que as coisas devem ser. Equilíbrio é palavra do novo milênio. Então, você é equilibrada(o)? Acho que não. Poucos têm o mapa para esse tesouro, por isso é palavra cobiçada e tão presente nos livros de auto-ajuda, na boca endinheirada de falsos gurus. A morena ginga e eu aqui tentando escrever essa blônica para você, que não merece, nunca fez por merecer e nem o fará. Todos reclamamos que a vida é estressante, que todas as doenças são causadas pela loucura do dia-a-dia. Mas o que queremos? Vida sem estresse é não viver. Não ter problemas é não ter desafios, é não saborear a vida na plenitude. Vamos parar de reclamar e tirar as nossas bundas (algumas gordas e outras mais bem feitinhas) de nossas cadeiras. É isso, sem atitude não se faz nada, morre-se cedo, vos digo. Saque sua arma da atitude e atire na minha testa. Vai. Me faça rir com gosto de sua pró-atividade, deixe meus olhos cheios de lágrimas com seu dinamismo, me diga que você não é essa pessoa fria e inerte que eu sempre vejo, grite para todos os seus demônios que corre sangue em suas veias e que existe garra dentro dessa sua carne que apodrece a cada novo dia. Equilibre-se. Não suma, não é assim que se espanta os fantasmas, sumir é virar mais um deles, é arrastar correntes pelos corredores de um hotel abandonado, de paredes amareladas e saudosas dos tempos áureos. Vidas são jogadas na lata do lixo a cada segundo. Energia desperdiçada, que se dissipará sem nada deixar de concreto. Sabe, baby, a vida é a corda bamba, já te dei guarda-chuvinha, agora é com você, honey lips, vai lá, sinta o estresse, beba dele, revigore-se e atravesse os prédios. Vai, você não cairá, acredite, você consegue. Atravesse o arame farpado, seus pés nem sentirão, é como os gurus fazem, os falsos, te mandam andar em brasas, e você o faz, todo contente, achando que pode dominar o mundo depois disso. E a morena, agora senta no meu colo, tapa minha visão com seus peitos saltitantes e não me deixa enxergar mais você. Aliás, nunca te vi. E assim será. Apenas rezo por você, por mim, por nós. Meros brinquedos da justiça divina, da mão que a tudo comanda. Será? Sei lá, prefiro não pensar assim, tento fazer meu próprio destino. E você, baby? Que me diz? Lembre-se: equilíbrio. Leve sempre uma balança, esse é o truque. E agora digo tchau, fico por aqui, me equilibrando. É o fim de mais uma blônica, baby, e concluo que mais uma vez  essa não é para você. Nem para mim. Muito menos para nós. É para ninguém. De novo a morena dança pelada e me sufoca com seu corpo, me matando de prazer. Se eu sobreviver, volto semana que vem, baby.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 11h23
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Simples dificuldades amorosas

De Paulo Castro.

     Amor está na pauta do dia? É sempre uma coisa tão boba que fala de amor, dizendo da família, dos motivos para os feriados, das razões dos relacionamentos. Mas as pessoas fogem do amor. Dizem muito sobre ele, mas fogem. Amantes distantes marcam um encontro, estão loucos pra ser ver, mas sempre algo dá errado na última hora. O que foi? Sempre, por quê? E se tomam coragem e se tocam na pele, então eles deixam de falar tanto em amor, não precisa mais. Veja quem fala muito de amor: os casais que já estão destruídos, as Igrejas rentáveis, os poderes, podres poderes, e até mesmo o Caetano fala muito em amor, mas se complica tanto na hora de amar.
     Pessoas que dizem muito do amor, da bondade, da caridade, a campanha da fraternidade, são as primeiras a levantar bandeiras de ódio. De silêncio rancoroso, de orgulho egoísta. Pessoas que desaparecem por covardia quando a palavra amor não precisa mais ser repetida tantas vezes.
     Escrevi um texto sobre isso em outra mídia e obtive reações das mais diversas, sempre algo tenso, despertando choros, velas, idealizações, vontade de falar de si próprio, lembrar como a mãe escolheu o nome de batismo e o pai nem ligou, mas hoje é o pai que é o mais amigo, agora que o pai já morreu. Que o amado Ayrton morreu, o Toninho, a Hilda, o Torquato Neto, que eles já morreram e não podem ser testados pela pele, só pelas lembranças e ficções inventadas no intuito de emocionar, mas só um pouco, quem está lendo, não muito, não exigir força, presença, destreza, esperteza no amor. Pois sim, há de ser esperto. Mas a maioria das pessoas se sente profundamente mané. Quanto mais pose, mais babaca.
     Certas coisas que ouvimos, lemos, abrimos presentes, são tão poucos beijos na boca, que dá uma espécie de desespero existencial. Ela te dá um colar de açaí, mas é só uma "lembrancinha". Que nada. Está louca pra te agarrar, te enlouquecer, te fazer perder os sentidos e ela também. O que a segura? O discurso social, religioso, institucional? Fácil colocar a culpa em algum "sistema" fora. E o dentro que está em chama e brasa, não é mais forte?
     E se algum favor realmente amoroso é feito, imediatamente querem que você assine um papel, algo que demarque os limites daquilo, algo de que se possa tirar proveito mais adiante, esquecendo que foi uma genuína bondade apaixonada e gratuita que fez aquilo.
     - Vamos nos encontrar?
     - Não.
     - Você não quer?
     - O sol nasce atrás das nuvens e...
     - Não fuja usando poesia, não me ignore com arte ou estilo modelo de passarela sonhada. Vamos nos ver?
     - Em algum local público. Só assim.
     - Tem medo.
     - Nunca tenho medo. Mas teus olhos de felino me deixam meio assim com um sentimento de que posso vir a ser maior que eu mesma, sabe, já pirei uma vez e não quero pirar de novo, tive até de fazer terapia e a minha terapeuta disse que meu Édipo...
     - Ai, Deus. Me liga outra hora. Ou nem liga.
     - Paulo. Você vai desligar o telefone na minha cara?
     - Você já desligou a sua vida na sua cara.
     De madrugada, antes de dormir, pego o celular e mando torpedos para pessoas que amo. Raramente respondem. Apenas se estiverem bêbadas ou nuas, abraçando os joelhos no chão frio do banheiro. Ou junto com o namorado, só pra fazer ciúmes, uma cena, um teatro. Ou finge que vai verificar se as luzes estão apagadas lá na sala e manda um pra mim: "Louco! Agora não posso!".
     "Se você me ama, não aja assim, não tenha determinadas idéias, não seja demitido do trabalho, não seja enterrado precocemente, procure tratar da sua saúde, se você me ama, deixe-me fazer a chantagem disfarçada...".
     Perdoar de verdade: conto nos dedos as pessoas capazes. Pois geralmente não se perdoa o outro, mas antes de tudo a si mesmo, o próprio orgulho que deixa toda relação medíocre, sem a força do flerte, flecha. Dizer que perdoa é se colocar acima, grande estratégia, do marido que chora ("como é sensível"), e a esposa "perdoa" o futebol, a olhada pra bonitona no restaurante, a cachaça, o frio de outono. E não coloquem Deus no meio disso! Ele é bom demais pra entrar nessa. Dizer que ama, que perdoa, que tem sentimento em nome de Deus, isso é usar o santo nome do Universo Sem Fim em vão.
     O que é tão difícil? Ou é tão fácil que amedronta?
     Tantos subterfúgios e indiretas...qual o motivo?
     Sem alguém souber, me escreva nos comentários. Estou de plantão.

Paulo Castro é cronista do Blônicas e posta hoje em substituição a Xico Sá que está de férias até junho.

Escrito por Blônicas às 11h37
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18 de maio

De Milly Lacombe.

Dezoito de maio. Dia da minha maioridade. Aos 38 anos, ia, pela primeira vez, morar sozinha. Um brinde à fase mais solitária da minha vida. Saí do trabalho, retirei as últimas malas da casa de minha irmã, que me hospedou quando meu casamento foi interrompido, passei no supermercado para comprar uma meia-garrafa de vinho e uma taça, porque achei que a circunstância, mesmo cheia de dor e de saudade, valia um gole, e lá fui eu para o novo canto. O frio é mais frio quando se está sozinha - e aquela era, definitivamente, uma noite fria.
A primeira providência foi desarrumar as malas. Depois, arrumar a cama. Eu, que nunca tive muita iniciativa na vida, estava me reinventando. Aumentei a música, abri o vinho e arregacei as mangas. Tudo ia bem, até que se deu o ocorrido. Vou tentar descrever da forma como me lembro, porque, naturalmente, não há testemunhas.
Estava abaixada, tentando fazer com que o lençol com elástico - filho único nessa fase solitária da vida - abraçasse o colchão. Parecia que não ia caber, mas como arrumar a cama é tarefa que cumpri apenas meia dúzia de vezes, porque sempre houve alguém que fizesse antes, e uma amiga recomendou que eu não desistisse muito rápido, continuei forçando. Quando a primeira gota de suor escorreu, percebi que a brincadeira estava perdendo a graça. Pra que uma cama tão grande se eu vou dormir sozinha?  Dava voltas ao redor dela, nessa agora desesperada tentativa de fazer caber, e era só prender um lado para o outro soltar. Mas foi apenas quando a arara de roupas, lotada de cabides e casacos pesados, caiu nas minhas costas que meu humor foi embora. Ali, esmagada entre o colchão desnudado e uma arara entulhada de casacos de inverno, pensava, enquanto tentava recuperar a respiração, que queria ser criança novamente, não ter contas para pagar, e alguém para cuidar de mim. Nisso e em como poderia desenterrar meu corpo dali sem me machucar ainda mais. Desgraçadamente, a dor nas costas foi imediata, enquanto a de cabeça demorou um pouco mais para chegar. Depois de uns 15 minutos, talvez muito mais do que isso porque o tempo dos solteiros é lento, consegui tirar meu corpo da armadilha e deixei que a arara de espatifasse no chão, que agora era um mar de casacos. Finalmente, desisti do lençol. Fui, então, dobrá-lo. E descobri que ele era absolutamente indobrável, apesar de poder jurar que, ao retirá-lo do plástico, ele estava dobrado. Vai ver, pensei, é feito para ser dobrado apenas uma vez, a primeira, e por uma máquina especial. Ou vai ver que o elástico é colocado industrialmente apenas depois que o treco foi dobrado. Reflexões que jamais teriam me atingido nos tempos de casada. Porque não há no mundo, e eu lanço aqui o desafio, quem seja capaz de dobrar um lençol com elástico nas quatro pontas. Mais 15 minutos de vãs tentativas até ser tomada por uma furiosa iniciativa (e eu que pensei que elas me faltassem): amassei tudo aquilo, meu bom humor a quilômetros dali, e joguei longe. Ia muito bem, até ali, minha vida de solteira.
Como as costas agora estavam latejando, e não havia analgésico no novo lar, achei que um banho quente poderia ajudar. Liguei o chuveiro, tirei a roupa e foi com enorme satisfação que vi a força com que a água caía. E o jato era de fato tão forte que, em dois minutos, eu estava inteira molhada - e o banheiro, alagado. Não percebi o ralo do chuveiro entupido e bastaram, de verdade, dois minutos, talvez um, para que a água ultrapassasse a barreira do box e a tragédia se consumasse. Todos os meus sapatos, jogados no chão do banheiro a espera de local melhor para ficar, boiavam. E eu, sem roupa, molhada e catatônica, queria um colo.
Rendida a minha incapacidade de viver sozinha, desliguei o chuveiro, saí pisando nos casacos que forravam o chão, me joguei na cama e deixei que o sono desse conta da catastrófica situação. Pela primeira vez na vida, não tinha alguém para me ajudar a resolver aqueles desgraçados perrengues mundanos.
Tudo vale à pena se a alma não é pequena, escreveu Pessoa. Se o poeta estiver certo, e minha alma for de um tamanho razoável, eu talvez consiga, quem sabe, tirar proveito do que está por vir. Sejam araras que desmoronam sem motivo aparente, inundações fora de hora, desconforto muscular inesperado ou as essenciais dores do crescimento. Porque, cedo ou tarde, é inevitável que viremos adultos. Embora eu, pelo menos por hora, não saiba muito bem como fazer isso.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 11h16
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Toque de recolher

De Tati Bernardi.

No começo nossa relação era uma mansão iluminada e arejada com milhares de andares, janelas e portas abertas. Aos poucos, virou um casebre pequenininho, cheio de ratos e a única porta que sobrou, servia de entrada e saída. Cada vez que eu recomeçava, era como se eu me enterrasse mais e estivesse ainda mais perto do fim. Cada vez que eu abria a porta, a vontade de cerrá-la bem forte e para sempre atrás de mim aumentava absurdamente.
A terapeuta dele, uma tia holística com voz de pata morrendo afogada, um belo dia abriu a porta do seu consultório para mim e, sem nunca ter me visto na vida e nem ouvido a minha versão, já foi logo dizendo "você estragou tudo sendo louca, quem te aguenta?"
Essa frase me acompanhou pelos últimos meses não me deixando dormir, comer, trabalhar, gostar, respirar ou sorrir direito. Pela primeira vez na vida eu tive vontade de morrer.
Mas hoje, enquanto trabalhadores são mortos confundidos com bandidos e o PCC ganha o direito de "negociar" com o país, mesmo o governo jamais admitindo isso, enquanto gente que morre de medo de perder o emprego precisa escolher entre o salário de merda e a vida de merda porque de um lado temos um governo incapaz de tranqüilizar a população e do outro uma mídia sensacionalista que já explodiu até o Shopping Iguatemi (por que não explodem o cérebro daquelas garotas modeletes lânguidas patricinhas que falam pelo nariz e conseguem tudo pelo silicone?), aproveito para fechar todas as minhas portas e me proteger da insanidade descontrolada do mundo. É chegada a hora do meu toque de recolher.
Começo fechando a porta do consultório da pata afogada, dizendo a ela que sim, ela tinha toda a razão: eu era realmente louca e insuportável. Mas que mulher não seria louca e insuportável ao lado de um homem que, sempre sorrindo para disfarçar que é humano, sempre em bando para disfarçar que sente fraquezas e sempre dormindo para disfarçar que está vivo, não tem a menor idéia do que quer fazer agora, daqui dez horas e daqui dez anos?
Que mulher não ficaria insana e desequilibrada ao lado de um homem que diz com a boca que ama mas não diz com os olhos, que diz com a boca que está ali para o que der e vier, mas não diz com os atos? Que mulher não ficaria infeliz e depressiva ao lado de um homem que não a beija na boca mais de quinze segundos porque o celular está tocando, que é incapaz de passar um feriado ao lado dela numa pousadinha bacana sem levar toda a trupe de meninos crescidos, que é incapaz de olhar nos olhos dela, um segundo que seja, e sentir que não precisa de mais nada?
Que mulher não piraria e não ficaria chata ao lado de um homem cheio de músculos mas sem nenhuma força para ser um homem melhor? Não, eu não queria o homem perfeito que eu idealizei não, eu só queria um homem de verdade. Um homem que namora de verdade, que ama de verdade, que tenta de verdade, que encara a vida de verdade, que sofre de verdade, que tem saudade de verdade, que tem dor de verdade, que é humano de verdade.
Não, sua pata véia afogada, eu não precisava de um pai, eu não precisava de cuidados 24 horas por dia, eu não precisava de alguém para me salvar, eu não colocava nele toda a minha felicidade, eu não queria mandar nele, eu não queria que ele deixasse de ver a Lua ou curtir o Sol, eu só queria que ele tivesse me amado metade do que ele disse que amava. Ou metade do que eu amava.
Que mulher não seria digna de uma camisa de força ao ver que o homem que ela ama é o maior de todos os homens por dentro, mas insiste em ser um idiota, cercado de coisas, palavras, musicas, lugares e pessoas idiotas, por fora? Que mulher não babaria tomando choques na cabeça, ao saber que o homem mais sensível, puro e lindo do mundo, insiste, por medo que o machuquem, em se fazer de invencível e cagar pro resto do mundo?
E por fim, eu pergunto a você minha querida super profissional patolina afogada: que mulher suportaria amar um homem que, incapacitado em fuder com a vida da mulher que fudeu com a dele, resolveu fuder com a minha que não tinha nada a ver com isso? Eu só queria ganhar uns beijos e alguns olhares de amor, só isso.
Chega, não quero mais essa culpa, esse inconformismo e essa incapacidade de não pensar nessa merda toda. Não quero mais essa fresta por onde entra tanto frio e tanta dor. Nesse momento, fecho a porta inútil do seu consultório escuro e aproveito para fechar também a porta entreaberta que ele deixou no meu coração.
Só ele conheceu uma mulher corajosa que admitiu todos os medos, todas as neuroses, todas as inseguranças, toda a parte feia e real que todo mundo quer esconder com chapinhas, peitos falsos, bundas falsas, bebidas, poses, frases de efeito, saltos altos, maquiagem e risadas altas. Ninguém nunca me viu tão nua e transparente como você, ninguém nunca soube do meu medo de nadar em lugares muito profundos, de amar demais, de se perder um pouco de tanto amar, de não ser boa o suficiente.
Só ele viu meu corpo de verdade, minha alma de verdade, meu prazer de verdade, meu choro baixinho embaixo da coberta com medo de não ser bonita e inteligente. Só para ele eu me desmontei inteira porque confiei que ele me amaria mesmo eu sendo desfigurada, intensa e verdadeira, como um quadro do Picasso.
Você varreu da sua vida de mesmices seguras, de calmarias estúpidas, de ideais banais, de auto-controles medrosos, de superficialidades controladas, de felicidades fáceis, de gostos iguais, de angústias disfarçadas, de ego machucado, de baladas tristes, de meninas fúteis, de praias iradas, de solidões acalmadas pelo sono, uma mulher com todos os defeitos e loucuras que só uma grande e verdadeira mulher que ama tem.
Hoje eu fecho as portas para o ódio descontrolado de quem passa fome ao lado de grandes mansões, fecho as portas da goela estridente da véia coroca que viu sem enxergar mas acabou me fazendo ver ainda melhor quem eu sou e ter orgulho disso, aproveito para fechar de vez, para você, as portas do meu coração que de tanto pedir esmolas, estava virando bandido.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 12h43
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Natureza

De Leo Jaime.

Estávamos em uma canoa, era noite, tinha chovido no final da tarde e o céu estava nublado e o céu escuro. Subíamos o Rio Ariau, um afluente do Rio Negro, que tem as mesmas águas ácidas e, por isso sem mosquitos, e tranqüilas mas de coloração um pouco escura embora límpidas. Estávamos procurando jacarés. Nosso grupo era pequeno: os quatro amigos "haoles", o guia Paulo, que ia apontando a lanterna, Chico, que pilotava a canoa e um convidado especial, o Costela, um adolescente cujo apelido descrevia com justiça suas proporções.

Paulo havia dito que era pra ficar de olho pois os jacarés ficariam com os olhos fixos no foco da lanterna e que, a uma certa altura, o Costela iria trazer um jacaré para a canoa, a fim de que pudéssemos observá-lo de perto. Não disse como. Fomos navegando para lá e para cá e eu não via nada, nenhum olhar parado de jacaré e imaginava que os bichinhos tinham mais o que fazer numa noite como aquela.  Não chegava a ser frustrante, embora aquele fosse o motivo do passeio. Estávamos diante de um universo de cheiros e sons que a escuridão da noite tornava ainda mais interessante, e o dia tinha sido muito, muito rico em experiências.

Era o meu primeiro dia na selva amazônica e eu já tinha tido em mãos: jibóias, botos, patos, macacos, antas, tucanos,  paca, pererecas, araras, papagaios etc. Repare que só a paca veio no singular. Pois é. Tínhamos andado pela selva e visto um bom número de madeiras, ervas e raízes e ouvido inúmeros cantos de pássaros. Na volta desta caminhada, encostada em nossa canoa, havia uma outra, menor, e ao lado dela dois indiozinhos. O maior aparentava ter uns dez anos e seu irmão uns sete. Tinham alguns artesanatos para mostrar. Enquanto olhávamos, observei o menor com muita gentileza retirar uma formiga que subia no pé descalço do meu amigo. O pequeno tirou a formiga e a jogou no rio, protegendo o amigo de uma picada dolorosa, sem uma palavra e, também, sem lhe tocar o pé.

Estávamos no meio da Selva. Não havia, ao alcance da visão, um sinal de civilização. Uma cerca, uma placa, um poste, nada. Onças, sucuris, jacarés, piranhas, tudo circulava por ali livremente. E os garotos também. De onde estávamos, podia se dar o berro que fosse, mesmo usando um potente equipamento de som, que ninguém jamais escutaria. Ou melhor, todos os bichos escutariam. E, no entanto, aquele pequeno dava uma demonstração de sua natureza gentil e delicada. E ao mesmo tempo, imaginava eu, os dois circulavam tranqüilos em meio a todos os riscos. Em São Paulo, Rio, será que uma mãe deixaria os filhos daquela idade saírem numa boa? Seriam, as crianças urbanas, tão gentis e, ao mesmo tempo, destemidas?

Voltando para a mesma canoa, horas mais tarde. Avistamos o jacaré. Não eu, que não estava enxergando nada, mas vi a lanterna do Paulo focada e o pessoal prendendo a respiração. Num átimo o Costela tira a camiseta e tchibum na água. Nada nas mãos. Em dois segundos que pareceram emperrados no tempo, ele retorna à superfície, e ao foco da lanterna, com as duas mãos em torno do pescoço de um jacaré que, logo,  é repassado para as mãos do Paulo. A boca deste jacaré, que deveria ter uns três anos, era maior do que a de um cachorro pastor- alemão adulto, e tinha mais dentes. E, no entanto, o Costela tinha entrado em seu habitat para, com mãos limpas, enfrentá-lo, no escuro.

E lá estávamos nós com um jacaré no colo, no breu da noite, em meio à selva. Disseram pra gente observar se era macho ou fêmea, que era simples, que era só observar as unhas. Ficamos olhando para ver se tinha algum detalhe diferente. "É simples: não  estão pintadas,  deve ser macho!". Risadas brasileiras ecoaram na escuridão da mata e se somaram ao som de milhões de outras vidas.

Leo Jaime é cronista do Blônicas e está no livro com outros textos.

Escrito por Blônicas às 11h08
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Inveja de quem viaja

De Rosana Hermann.

 

A exceção existe apenas porque toda regra as tem. Porque se assim não fosse, seria o caso de afirmar categoricamente: todo mundo sente inveja de quem vai viajar. E mais, a intensidade da inveja é diretamente proporcional à distância e às mordomias de transporte e estada. Se for para outro país, ou ‘para fora, como se dizia nos anos sessenta, é batata que aconteça, mesmo que seja uma viagem de trabalho.

 

A viagem de trabalho é sempre um abismo entre a realidade de quem vai e a ilusão de quem fica. A viagem de avião pode ser longa, demorada, desconfortável. A comida pode ser ruim, as pernas podem ficar com cãibras. A diferença de fuso horário e a falta de sono podem ser desastrosas para o viajante. Mas a imaginação de quem fica em terra firme acaba sempre voando mais alto. Para quem olha para o céu, viajar de graça, com tudo pago, é sempre um sonho. O aeroporto cheio de lojinhas, as lanchonetes exalando aromas de café e torradas na chapa, as pessoas passeando com  suas malas de rodinhas com ares de quem está no topo da pirâmide de consumo. E, claro, há o hotel. O hotel e seus xampus, sabonetinhos e as surpresas dentro do frigobar, pequenas preciosidades para a sede e fome noturnas, cujos preços parecem ter saído de uma joalheria. Na ilusão de quem sonha em ir a viagem é uma mordomia só, da decolagem ao pouso.

 

Para quem vai a trabalho, há muitos outros itens na bagagem. A responsabilidade de fazer tudo certo, de corresponder às expectativas, a dúvida sobre o que levar, o medo de esquecer algum carregador essencial ou de perder as malas em trânsito. E há, claro, a preocupação de lidar com a inveja dos colegas, que mais cedo ou mais tarde, ainda que de forma inconsciente, vão olhar feio para o desertor. E, tanto podemos estar no lugar de quem recebe quando no lugar de quem alfineta, já que somos todos humanos.

 

O que em geral, não percebemos, é que a viagem é proveitosa tanto para quem vai quanto para quem fica. É claro que invejamos a liberdade do viajante. Viver experiências novas, experimentar outras camas, ver novas paisagens da janela, conversar com estranhos em outra língua, são coisas admiráveis. Quem viaja traz mais na bagagem de volta muito mais do que a goma de mascar do freeshop. Sob a embalagem da inveja, quem vai, nos traz o melhor dos presentes, o desejo de aventurar-se. Esse sim, é um souvenir que todos nós precisamos receber de vez em quando.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas e enviou o texto antecipadamente por motivo de... viagem!
Escrito por Blônicas às 11h08
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Toque de recolher

De Nelson Botter.

 

As manchetes do dia não falam mais dos escândalos de corrupção do governo federal, do chapéu que a Bolívia deu na Petrobrás ou da facada que Hugo Chavez deu em Lula pelas costas. Não, agora o assunto da vez (o reizinho da mídia) é o terror. Ontem foi a apoteose dos acontecimentos que assolam São Paulo desde sexta passada. Sim, foi o clímax.

 

Com uma cobertura jornalística de tempos de guerra, pudemos ver as mesmas oito ou nove cenas umas vinte vezes. A boataria se espalhou e o povo entrou. Gente voltando para casa porque os metrôs tinham sido atacados, escolas sem aulas porque os estudantes eram feitos de reféns, o comércio fechando as portas porque havia quebra-quebra, hospitais sendo invadidos, ameaça de bomba no aeroporto, etc e tal. Guerra, guerra, guerra! Engarrafamentos colossais lembravam aqueles filmes-catástrofe em que ETs invadem a terra e a população tem de fugir sem saber do que e pra onde.

 

Pois é, meus amigos, o desespero da população é um simples retrato da falta de segurança em que nossa sociedade se encontra, da fragilidade e incompetência do poder público que consegue ser afrontado da maneira mais simples e manjada (com táticas de guerrilha). Pior é saber que muitos dos 12 mil presos liberados para o dia das mães estão participando desses ataques contra a polícia. Eis o ponto: se a população está apavorada, imagine o policial que sabe ser o grande alvo disso tudo. O policial que não tem equipamento e treinamento necessário para enfrentar os marginais, que ganha um salário de merda e que - para completar o quadro - não tem apoio da legislação para poder desempenhar seu trabalho. Hoje, a polícia (em termos legais) é mera segurança de porta de barzinho, só pode agir em defesa, só pode reagir, tem que levar um tiro primeiro.

 

No meio do rocambole está o povo, sendo espremido, enquanto os homens que detém o poder e a lei não se entendem, interesses conflitantes, gente que joga no time adversário, outros são burros mesmo e estão ali por mero conchavo, e por aí vai, sabe-se lá o que realmente está por trás disso tudo, quem ganha dinheiro com isso, sempre sem solução, arrastando com a barriga uma desigualdade social que com o tempo se tornará uma guerra civil entre classes sociais. Algum tempo atrás isso ocorreu no Rio de Janeiro, tocaram o terror, agora é em São Paulo. No futuro podem ser outras capitais, outras cidades importantes, o Brasil inteiro, quem sabe?

 

Enquanto isso, verbas públicas são desviadas, a lei branda ao bandido não é alterada, a instabilidade social cresce e a civilidade vai esgoto abaixo. Existe esperança? Não sei, pergunte ao Parreira.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol.
Escrito por Blônicas às 11h09
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Mais uma festa

De Tati Bernardi.

Um a um foram chegando, e eu somando a quantidade de amor que tenho no mundo. Mais ou menos 50 pessoas foram, somando com mais um monte de e-mails e mais um monte de ligações, é até que sou bem amada. Calma, você é amada, tá vendo? Não precisa mais ficar em casa de pijama assistindo Woody Allen, você é amada. É que dá uma preguiça de existir.
Comemoro que estou viva, no meio da confusão que é comemorar ter amigos, comemorar a blusa nova, comemorar que tenho emprego e, por isso, amigos e roupa nova, comemorar que fiz progressiva na franja, comemorar que não sou um alien e consigo socializar, comemorar que existo dentro de uma comunidade que me aceita e até sai de casa pra tentar achar uma ruazinha difícil pra caramba.
Sorri em todas as fotos, esgotei minhas piadas, desfilei abraços, toquei em muita gente, ganhei alguns presentes, fiz bem meu papel de "olha que legal, estou aqui, mais um ano se passou e eu continuo achando que vale a pena estar aqui".
Um a um vão embora, e eu somando a quantidade de amor que vai embora. Sobram os loucos e suas insônias, sobra o garçom cansado que não agüenta mais os loucos e suas insônias. Sobra uma latinha num canto, seis cadeiras solitárias formando uma rodinha animada, muitas bitucas que insinuam um animado papo que não existe mais. Sobro eu, novamente.
A vida, a noite, as festas, tudo continua igual. O mesmo fedor de cigarro no cabelo, o mesmo homem bonito me olhando de longe, o mesmo homem bonito que, quando chega perto e abre a boca, eu gostaria que tivesse permanecido longe. O mesmo ânimo em pertencer, a mesma alegria em comemorar, a mesma festa em se encontrar. Mas ninguém sabe exatamente ao que pertence, o que comemora e muito menos o que encontra.
Atravesso a rua sozinha, carregando uma sacola cheia de presentes e cartinhas. Entro sozinha no meu carro, ouço de novo a música da semana, sigo em frente. Carrego o afeto que ganhei numa sacolinha rosa, mas dentro do meu coração é sempre esse saco furado e negro.
Por mais que todas as terapias do mundo, todas as auto-ajudas do universo e todos os amigos experientes do planeta me digam que preciso definitivamente não precisar de você, minha alma grita aqui dentro que, por mais feliz que eu seja, a festa é sempre pela metade.
É você quem eu sempre busco com minha gargalhada alta, com a minha perdição humana em festejar porque é preciso festejar, com a minha solidão cansada de se enganar.
Não agüento mais os mesmos papos, os mesmos cheiros, as mesmas gírias, os mesmos erros, a volta por cima, o salto alto, o queixo empinado, o peito projetado pra frente. Não agüento mais fingir com toda a força do mundo que tudo bem festejar sem saber quem é você.
Eu não acredito mais em sumir do país, em trocar de emprego, em mudar de religião, em ficar em silêncio até que tudo se acalme, em dormir até tarde, no fim de tarde na Praia Preta, na nova proposta, no novo projeto, no super livro, no filme genial, na nova galera, na academia moderna, no carinha até que bacana que gosta de jazz e restaurantes charmosos, no curso de história, em comprar o novo CD mais master animado do mundo, em ler John Fante longe de tudo, em ser dondoca, em fazer progressiva, em fazer boxe, em fazer torta de verdura, em ser batalhadora, em ser fashion, em não ser nada. Mas eu continuo acreditando na gente, eu continuo acreditando que tudo sem você é distração e tudo com você é vida.
Como eu queria agora ir para a sua casa, deitar na sua cama, ouvir a sua voz, esquentar meu pé na sua batata da perna. Como eu queria saber seu nome, seu cheiro, sua rua.
Assim como um dia um samba saiu procurando alguém, este texto tem a missão de sair em sua busca. Eu não escrevo por dinheiro, vaidade, pretensão ou inteligência. Eu escrevo porque eu sei que é assim que vou te encontrar. Eu escrevo porque não posso mais agüentar que a festa acabe.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 14h07
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Duelo de tantãs (parte 1)

De Henrique Szklo

Eulálio, Eufrásio e Eustáquio eram muito amigos. Inseparáveis. Eles tinham muita coisa em comum: conheciam-se desde crianças, eram vizinhos de rua, estudaram nas mesmas escolas, entraram na mesma faculdade e acabaram virando sócios de uma empresa de altíssima tecnologia que desenvolvia estudos sobre alterações genéticas em hortifrutigranjeiros: a Eu³. Naquele momento, o projeto principal em desenvolvimento da Eu³ estudava a alteração do DNA do chuchu para que ele tivesse sabor, cheiro e consistência. Um projeto verdadeiramente ambicioso e de grande relevância para a humanidade. Eulálio, Eufrásio e Eustáquio, portanto, precisavam estar 100% focados no trabalho e determinados a cumprir com o planejamento apertado da empresa e administrar a forte cobrança de seus investidores internacionais. Mas eu havia esquecido de dizer: além de tudo, o Eulálio, o Eufrásio e o Eustáquio tinham em comum o tamanho colossal, quase teocrático, de seus egos. Até aí tudo bem. Depois de tantos anos de vida em comum isso nunca havia atrapalhado sua amizade nem interferido em seus negócios.

Até que um dia Eulálio ouviu de orelhada um funcionário comentando que o Eufrásio era o maior egocêntrico que ele conhecia. Aquela notícia da Rádio Peão calou fundo no coração de Eulálio. De repente ele se sentiu pequeno, miserável, indigno. Foi comentar a história com Eustáquio, que teve a mesma sensação. Um olhou para a cara do outro e ali já pudemos perceber uma centelha de rivalidade brilhando em seus olhinhos egocêntricos. Eles não faziam idéia, mas daquele dia em diante começariam uma competição velada, porém brutal, entre os três ami-egos para definir de uma vez por todas quem era o maioral ali: o ego do Eulálio, o ego do Eufrásio ou o ego do Eustáquio. Era uma questão de honra. E de ego, claro.

Começaram mandando aumentar o nome de cada um nas respectivas portas até que não coube mais e passaram, então, a escrever na vertical. O mais prejudicado nesta história foi Eustáquio em função do tamanho do nome, as letras acabaram ficando menores que as dos outros. E ele chorou.

Enquanto Eustáquio se desfazia em lágrimas, Eulálio contratou uma assessoria só para plantar notícias na imprensa relacionadas ao seu nome, dando a entender que ele era a alma e o coração da Eu³. Os outros egos ficaram furiosos.

Eustáquio parou de chorar e distribuiu uma circular pela empresa informando seus funcionário que dali em diante ele não cumprimentaria ninguém, só olharia com ar superior e se alguém por acaso lhe dirigisse a palavra ele ignoraria solenemente.

Eufrásio saia de tarde e mandava os funcionários esperarem por ele até altas horas da noite. Quando ele voltava (se voltava) não dizia nada pra ninguém, como se a ordem anterior nem tivesse sido dada. E com a maior cara-de-pau ainda fazia uma expressão de que não entendia porque haviam ficado até tarde.

A insatisfação entre os funcionários da Eu³ estava crescendo e aquilo estava virando um barril de pólvora. Principalmente porque a guerra de egos era contagiosa e virou uma epidemia. Agora, qualquer gerentinho, qualquer encarregadinho de merda estava se achando no direito de ser o gostosão da galera. E a cadeia alimentar ia descendo pelos escalões da empresa até a ralé, que, lamentavelmente, não tinha com quem ser arrogante, portanto sofria uma barbaridade, sonhando em subir na vida.

Na reunião seguinte do conselho, Eustáquio deu sua grande cartada: sugeriu que o nome da empresa mudasse para Eu³/Stáquio, argumentando que fez uma consulta com a maior sumidade do país em numerologia que lhe garantiu que este novo nome daria um espetacular impulso aos negócios da empresa. O que o numerólogo não previu foi o número de membros do conselho com um mínimo de bom senso. E a proposta foi rechaçada totalmente.

Continua...

Escrito por Blônicas.. às 14h20
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Duelo de tantãs (parte 2)

Quem deu o passo seguinte  foi o Eulálio. Um passo gigantesco, claro. Contratou um batalhão de secretárias: uma para fazer telefonemas, outra para receber telefonemas, uma outra para trazer cafezinho, mais uma para levar a xícara depois de vazia, uma para cuidar de sua agenda, uma outra só para ficar olhando as outras trabalharem e outra ainda que ele não havia decidido para que ele a havia contratado, mas isso não era problema, já que a moça tinha um corpo espetacular. É claro que ele tinha uma idéia bem clara do que queria fazer com esta secretária, mas aquela não era hora de pensar em sexo ou qualquer outro assunto sem importância. Uma coisa muito maior estava em jogo. Maior que tudo no mundo. Maior que a vida. Gigantesca, desmesurada, inominável, espetacular. Acho que vocês sabem do que estou me referindo.

Eufrásio contra-atacou com energia, mandando colocar sua foto em todas as salas da empresa. Clique de um dos maiores fotógrafos do mundo, que cobrou uma pequena fortuna pelo trabalho. O cara era tão bom que, de uma certa distância, o Eufrásio parecia até bonito. Bonito não. Simpático. Quer dizer, não dava vontade de vomitar.

Eustáquio, para não ficar atrás, criou algumas frases de efeito e mandou pintar bem grande nas paredes da empresa, além de mandar instalar um letreiro nos elevadores onde elas pudessem ser lidas por todos o dia inteiro.

Neste ponto da história, Eulálio, Eufrásio e Eustáquio não eram mais amigos. Nem colegas. Eram gladiadores sangrentos usando sua exacerbada auto-estima como armas letais, de uso exclusivo das forças ególatras.

Acabo de receber um e-mail bem grosseiro do Eustáquio, questionando porque eu coloco sempre os nomes do Eulálio e do Eufrásio primeiro que o dele no texto.

Eulálio, então, foi mais longe ainda. Longe demais como exigia a situação. Com a ajuda de um grande jornalista, escreveu sua auto-biografia, exaltando sem o menor pudor todas as suas qualidades, principalmente aquelas que não possuía. Lançou o livro numa grande festa regada a champanhe e celebridades nas principais capitais do mundo. Harry Potter perdia.

Eufrásio não se fez de rogado e começou a comentar com amigos influentes e pessoas de trânsito na imprensa que estava pensando seriamente em se candidatar a um cargo público, para colocar todo o seu conhecimento, experiência e capacidade de trabalho a serviço da sociedade. Sentia que estava ungido desta missão divina. Ainda sem precisar exatamente suas pretensões, insinuou, entretanto, que a Presidência da República seria um bom começo. E não seria o primeiro, não é verdade?

Eustáquio decidiu, então, comprar uma passagem para o próximo vôo tripulado à Marte, para provar que não tinha só o maior ego do mundo mas o maior ego do sistema solar.

Obviamente, com toda essa lambança desenfreada, o projeto do chuchu beleza estava fazendo água, mas Eulálio, Eufrásio e Eustáquio não estavam nem aí. O sabor do chuchu não era nada se comparado ao sabor de subjugar os inimi-egos e fazê-los curvarem-se diante de uma força maior, bem maior. A empresa deles estava indo para as cucuias e mesmo assim não desistiram da competição idiota. Mantiveram seus egos cada vez mis inflados. Grandes pra chuchu.

Agora quem me mandou um e-mail foi o Eufrásio, se declarando solidário com minha postura em relação ao Eustáquio. “Ele não tem do que reclamar”, afirma. Mas aproveita para comentar que no caso dele, Eufrásio, seria interessante colocar seu nome sempre em primeiro, apenas por uma questão de ordem alfabética.

Não demorou muito e a Eu³ teve de fechar suas portas, deixando o chuchu sem pai nem mãe e os funcionários sem receber seus direitos. Foi aí que eles perceberam que existia uma coisa maior que seus egos: a fúria dos credores.

Hoje eles estão superpobrinhos e endividados até o superego, mas não perderam a pose. Porém, para a tristeza de Eulálio, Eufrásio e Eustáquio o resultado de sua batalha campal de egos foi um fragoroso e vergonhoso empate: empatou com a vida deles, de seus funcionários, seus credores, seus investidores. Empatou até com a vida do chuchu. Mas não há de ser nada. Eles vão superar esse momento difícil. Eulálio, Eufrásio e Eustáquio são maiores que isso. Quer dizer: seus egos são.

E-mail do Eulálio: “Seria possível você parar de falar nos outros e se concentrar em quem vale a pena?”

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e fica cansado. Conheça seu site,  o blog da mãe e o 1­° OPEN MIND, um fim  de semana inteiro voltado ao desenvolvimento da criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 14h19
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O poder do 'não'

De Rosana Hermann.

 

É difícil dizer não. Em geral, o único não que sai fácil é o ‘não fui eu’, na hora do aperto, a resposta rápida do instinto de sobrevivência á culpa e a punição. Os outros, como não quero, não sou, não posso, não tenho, não sei, são todos complicados.

 

Dizer não para quem pede um favor, para um parceiro, amigo, parente, sempre deixa um travo amargo. Quem pede sabe, racionalmente, que o outro pode e tem o direito de negar ajuda, mas se pede é porque venceu sua vergonha, esforçou-se e porque tem esperança de ouvir um sim. E aí, quando você frustra o pedinte, perde um ponto no caderninho do céu.

 

Também é difícil admitir tudo o que não se é, não se tem não se pode. Claro que sem isso ninguém melhora. É só a partir da conscientização de nossos erros e limitações é que podemos crescer. Mas às vezes uma vida não é tempo suficiente para aceitar todas as qualidades que não temos, especialmente aquelas que adoraríamos ter.

 

“Não sei” também é recordista de dificuldade, junto com o não conheço, não fui, não vi, não li. É muito mais comum mentir que viu o filme, que leu o livro e foi no tal lugar do que revelar ignorância. Somos todos muito orgulhosos e detestamos ser flagrados em nossa falta de conhecimento e cultura. É assim. Ou não?

 

O não mais difícil, porém, é outro, é o não da determinação, o não que vence a compulsão. É o não que impede que a mão esprema a espinha, arranque a casquinha, futuque a ferida. É o não que mantém o cartão de crédito dentro da carteira, o que impede que você repita o segundo prato no rodízio. É o não do bom senso, que faz com que você conquiste atos heróicos que vão desde o simples não obrigado, para um panfleto inútil até  não às drogas químicas que matam.

 

Para viver uma vida feliz, inteira, verdadeira, é preciso ter coragem de dizer não. Sem magoar, sem ofender, sem ser cruel. Se você não gostar do texto, por exemplo, não é preciso xingar toda a linhagem do autor. Diga apenas ‘não gostei’. É um exercício simples que fortalece o caráter, dá firmeza às opiniões e valoriza o sim.

 

Ou não.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas e está no livro com outros textos!

Escrito por Blônicas às 12h03
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Sua palavra

De Nelson Botter.

 

O quase, como quase tudo, é quase sempre uma incógnita. Indica algo que quase ocorreu e é quase um sinônimo para uma falta, uma metade, um não inteiro, um talvez. Isso nos leva a quase que invariavelmente concluir que um quase pode ser bom ou ruim... ou, então, quase bom ou quase ruim, dependendo - claro - da situação. Por quê? Oras, veja só um exemplo: com tantos quase logo no início do texto, você já deve estar quase querendo me esganar. Apertar meu pescoço até quase esmagá-lo. Para alguns isso seria bom, para outros seria ruim (especialmente para mim). Assim, o quase é uma palavra interessante que a língua portuguesa nos proporciona, com inúmeras utilidades contrastantes, sendo quase determinante e quase condicional.

 

Alguns casos são unânimes, não há dúvida se o quase é bom ou ruim, é uma coisa só e acabou, ou quase isso. Imagine-se dizendo para mim que você quase ganhou na loteria, pois quase foram sorteados os números que você jogou. Sim, você jogou, pois se você quase tivesse jogado aí não teria chance de ganhar, não precisaria se lamentar e eu também não estaria usando esse fato. Ou, então, um exemplo melhor: fantasie que você quase conquistou a mulher ou o homem dos seus sonhos, foi por pouco, foi por um quase. Mas um quase, apesar de parecer pouco, pode ser muito. É a velha história: se não fosse ele, o quase, tudo seria diferente! Só faltou tirá-lo da frase.

 

Como eu dizia, no caso de quase se conquistar o amor dos seus sonhos, o quase é definitivamente ruim, coisa chata, sofrimento certo... É, mas pensando melhor, pode ser um quase ruim também, não necessariamente um ruim definitivo. Confuso? É, quase me perdi, mas a idéia aqui é dizer que a mulher dos seus sonhos pode mudar muito com o passar dos anos, e se tornar uma verdadeira bruxa, quase a imagem e semelhança da sua sogra. Já o homem dos seus sonhos pode virar um viciado em sofá e televisão, só saindo de lá com um guindaste. Então, no final das contas, o amor dos seus sonhos pode virar um pesadelo macabro, o que quase sempre acontece... Logo, muitas vezes o quase pode nos salvar de muitas coisas que quase não enxergamos.

 

Tem dias em que o quase é carrasco, nos faz sofrer, chega a doer na alma. Tem coisa pior do que num dia só descobrir que seu filho quase passou de ano na escola, que você quase conseguiu fechar aquele negócio milionário (perdendo a concorrência por quase nada), que o Corinthians quase conseguiu ganhar a Libertadores (pois os argentinos quase erraram aqueles três gols) e que, em conseqüência disso tudo, à noite, você quase conseguiu ter uma ereção? Ah, e eu quase ia esquecendo: mais trágico que isso só descobrir que sua esposa, nesses anos todos de casados, quase atingiu o orgasmo...

 

Em muitos casos o quase é determinante para mostrar uma drástica diferença, basta ver um homem que se diz quase uma mulher. Apesar dele ser homem, e quase uma mulher, ele é praticamente uma mulher, pois quase não é um homem. Infelizmente, drásticas diferenças são quase sempre incompreendidas. Quase todo mundo tem preconceito com os homens que quase são mulheres, ou com as mulheres que quase são homens, como se estivessem quase doentes ou então não fizessem parte da sociedade, quase excluídos. Uma pena, pois somos todos iguais, todos mesmo, e nesse caso não se aplica o uso do quase, é uma verdade absoluta. Aliás, o emprego do quase, nessa e em qualquer outra questão que envolva preconceito, é determinante para mostrar a drástica diferença entre um ser humano inteligente e um ser humano quase inteligente.

 

Enfim, o quase é uma palavrinha de muito uso e diversas interpretações, marota e perspicaz na funcionalidade. Mas, como quase tudo nessa vida não pode ser para sempre, é preciso saber livrar-se do quase na hora certa, definitivamente não ficar no quase. É palavra que não deve nos acompanhar nos últimos momentos da vida, pois chegar ao fim e descobrir que você quase amou, quase foi feliz, quase realizou seus sonhos, enfim, quase viveu, é o maior dos fracassos, é tristeza da alma, significa que o último suspiro será muito doído... Portanto, aproveite que ainda há tempo e livre-se do quase nas questões mais importantes da vida, caso contrário essa será a sua palavra... e ponto final.

 

Nelson Botter é cronista às terças. Visite também o BlogGol.

Escrito por Blônicas às 10h37
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Alguém para fazer o jantar

De Milly Lacombe.
 
Quando eu saí, você estava na esquina, chorando. Nunca tinha visto você chorar, você que parece estar sempre rindo, sentado à mesa, dedilhando seu computador, plugado em seu i-tunes, e a imagem me confundiu. Não é todo o dia que se vê um adulto chorar no ambiente de trabalho - ou perto dele. Mas mulheres são boas e rápidas quando se trata de consolar um pranto, e eu então mudei o rumo de meus passos, que me levavam diretamente ao estacionamento, para te dar atenção. Batemos um papo, ali em pé na esquina, você me contou rapidamente o que causava aquele choro, e eu expliquei, na tentativa de banalizar sua dor, o que quase sempre funciona bem para esse tipo de problema, que aquele pranto era um pranto coletivo: estamos todos, de um jeito ou de outro, atrás de uma grande história de amor. E aí entra a pegadinha: atrás de uma história de amor que dê certo. Porque eu olho em volta e vejo uma dúzia de almas mais próximas sofrendo por histórias de amor inacabadas, interrompidas, emaranhadas - e que não deram certo.
E então me pergunto por que estamos todos sofrendo pelo mesmo motivo? Estaríamos em busca do inalcansável? De uma parceria que só existe em tela de cinema? Seria melhor simplesmente não se apaixonar, para não ter que sofrer? Por que não conseguimos parar de interpretar o que não tem interpretação? Amar e nos deixar amar, sem complicar o que poderia ser simples? Por que não podemos sofrer em paz, com dignidade, sempre constantemente vigiados pelos que não sabem amar, pelos policiais do sistema, aqueles fardados pela ética hipócrita, armados de cinismo, esperando apenas por um sinal de fracasso para entrar em cena, afundar ainda mais nossa já quase destruída moral, e restabelecer a ordem cristã? Por que não aprendemos finalmente a ser humanos, a nos desanexar do sistema, a ficar irremediavelmente tristes, a acreditar que o mundo não é um lugar polarizado, dividido entre bons e maus, certos e errados, traídos e traidores? Por que deixar que ego e vaidade continuem interferindo a ponto de acharmos que só duas situações são possíveis: ou somos muito grandes, ou muito pequenos? Vestidos pelo orgulho jamais conseguiremos enxergar nosso real tamanho, muito menos sofrer a dor certa? Por que não conseguimos entender que essa jornada, toda ela, busca apenas uma coisa: alguém que, numa sexta-feira de maio, possa fazer o jantar com você, de pé na cozinha, taça de vinho na mão, falando da vida? Não é atrás disso que estamos todos?
E em plena sexta feira, a sexta-feira mais fria do ano, estávamos todos sozinhos. Todos diante da TV, ou simplesmente afundados em nossos sofás, esperando o tempo passar - ou o telefone tocar. Rodeados por uma tristeza aflita, música, uma solitária taça de vinho, muitas dúvidas e nenhuma resposta. E o mundo lá fora girando e, no balanço, remoendo essa dor coletiva.
E você me olhou aquele seu olhar moleque, de quem sabe que a vida ainda vai trazer, nesse vai-e-vem apaixonado, muitas outras dores como essa, mas que, naquele momento, acreditava piamente que ela seria sua única chance de ser feliz, e ela estava indo embora, e me pediu uma palavra de consolo, uma palavra que o fizesse ter forças para andar pelo menos mais um quarteirão, em direção ao ponto de ônibus. E eu disse o que de fato acredito que vai acontecer. Disse que tudo ficará bem no final. Você sorriu e ameaçou retomar seus passos, mas parou novamente. E, agora já meio distante de mim, teve que aumentar o tom de voz, um esforço enorme, porque a voz dos que sofrem por amor fica sempre muito fraca, para perguntar quando seria isso, quando tudo ficaria bem. E foi aí que você me pegou. Porque eu também estou esperando por esse momento. E eu, infelizmente, não sei quando tudo vai ficar bem. Eu não sei quando, afinal, iremos para a cozinha preparar o jantar e falar da vida, sem sentir, pelo menos por um tempo, toda a dor do mundo.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 17h53
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O encontro

De Tati Bernardi.

Duas e cinco da manhã. Sem sono e com uma angústia que parecia fome, parecia tédio, parecia uma coceira de angústia bem no centro da sua existência, ela espremia com as mãos o chumaço de pêlos bem no meio das pernas, querendo extrair dali o caldo da sua chateação.
Se espremia irracional e preguiçosa, como um bicho, e foi aí que teve a idéia. Simples, absurdamente simples, de chamá-lo. Por que não?
Ele não falhava nunca. Estava sempre pronto, disposto, duro e certo. E o melhor: ele nunca a julgava.
Ela sim se julgava, e como. Era neurótica sempre e com tudo, mas nem por isso deixava de ser instintiva. E aí morava a graça e o segredo de sua personalidade cheia de riquezas e esquisitices.
Pensava tudo isso sem pensar. Eram flashes de pseudopensamentos misturados ao filminho pseudopornográfico que ela já começava a formar em sua cabeça.
Cabelos puxados por punhos másculos e uma nuca exposta numa nudez explicitamente desintencional; olhares animalescos que se estranhavam ao ponto de a conversa continuar pontuada por mordidas e roçadas. Como numa competição de natação, cabeças lançadas para cima e para baixo, num fôlego confuso entre o prazer de afundar e o prazer de sair à tona.
Línguas de fora, gritos abafados, gritos intencionalmente escandalosos, pernas muito abertas, movimentos de entra-e-sai. Pias de cozinha, de banheiro, carro, chão. Dominação de sexualidade num corpo perfeito de mulher, dominação de poder num corpo imperfeito de homem. Cada personagem tinha uma história, e ela sabia todas como uma voyer que, indo mais longe, não apenas espia, mas sente.
Ele chegou rápido e, dada a intimidade de anos, foi se enfiando sem muita cerimônia. Mas dada também à intimidade rotineira de anos, ela continuou fazendo uso da sua imaginação, cheia de canais quentes que eram zapeados segundo o seus desejos.
Ela controlava tudo e, apesar das loucuras barulhentas das suas fantasias, ninguém ouvia um só pio sair daquele quarto.
Era incrível a afinidade de ritmos entre os dois. Mais lento, insistente num mesmo ponto, preenchedor, delicado e muito mais rápido. As mudanças ocorriam no segundo certo e nunca, nunca, o prazer dela se decepcionava.
Cada personagem de seus devaneios eróticos alertavam para o grande momento, os movimentos eram mais intensos, as cores mais gritantes, os sons mais desesperados, as horas mais rápidas e infinitas.
Tombavam, finalmente, mortos pela batalha que se lutava para morrer. O esboço de sorriso cansado e cheio até a boca, era comum a ela e às suas criações, que iam sumindo na fumaça confusa da vida que retorna melhor depois da reencarnação nada religiosa.
Molhado, frouxo e deitado de lado, era chegada a hora da despedida. E foi o que ela fez, limpando-o num pedaço à mostra de lençol e o devolvendo à sua função primária e óbvia de pai de todos.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h32
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Escrevendo torto por linhas retas

De Henrique Szklo

Sem perceber estou de novo escrevendo um texto sem graça, ou pelo menos sem a intenção de ser engraçado, o que dá mais ou menos na mesma. Os carros estão buzinando lá fora e eu tenho vontade de ficar aqui escrevendo o que me der na telha (pouca). O que me passar pela cabeça irá diretamente para os dedos que tamborilam freneticamente em um teclado meio sujo, meio limpo. Em sua superfície, as teclas estão limpíssimas. Limpei com Veja. Mas as laterais e suas entranhas estão imundas. Quem inventar um fio dental para teclado de computador vai ficar rico. O novo Bill Gates.

Adoro escrever. Enche o saco, mas é gostoso. Porém, não sou ninguém sem os meus dicionários. Principalmente o de sinônimos, que eu considero o tio dos burros. Meu vocabulário é fraquíssimo e eu estou sempre pedindo socorro a esse tio querido. Aliás, o computador também é um elemento fundamental no exercício do meu ofício atual. Desde pequeno eu sempre fui encantado com teclados de letrinhas. Me lembro como se fosse hoje do meu primeiro encontro com uma máquina de escrever. Que brinquedo legal! Eu fiquei fascinado com aquelas teclas e o mecanismo tão rústico e eficiente de uma máquina de escrever manual. Eu não tinha nada para dizer, nenhuma idéia para expor, nada, ficava só escrevendo meu nome infinitas vezes. Era uma emoção vislumbrar meu nome escrito de uma forma tão profissional. Gamei no game. Era como as mulheres para mim naquela idade: havia uma sedução inexplicável, eu sentia uma atração não racional por elas (máquinas e mulheres), achava bom passar a mão, gostava de olhar os mecanismos internos mas não sabia absolutamente o que fazer com aquele desejo, não conseguia encontrar caminhos para expressar o sentimento ou aflorar aquela energia acumulada sabe-se lá onde. Eu gostava, mas não sabia porquê. Queria usar, mas não sabia como. Durante anos foi assim, tanto com umas quanto com as outras. Não sei qual eu descobri primeiro, mas sei que tive muito mais máquinas de escrever do que mulheres. Sempre conseguia juntar economias e comprar um modelo mais moderno, mais estimulante, mais legal. Nessa altura eu já sabia para que servia, mas não conseguia escrever nada. Eu não tinha repertório. Cheguei a começar alguns romances que não passavam do primeiro capítulo. Mas eu continuava fazendo upgrades. Uma vez tive uma máquina elétrica gigante, daquelas que se via em escritórios de contabilidade. Não era como a IBM, a mais legal da época (muito cara), com sua esfera de caracteres que corria pelo cilindro. A minha tinha um carro gigantesco que se movimentava como uma máquina normal. Quando eu apertava o botão para mudar de linha ela vinha com tudo e provocava um estrondo, que, às vezes, até tirava do lugar a mesa onde ela estava. Era o máximo. Minha última aquisição nesta área foi uma eletrônica, a Praxis. Tenho até hoje, apesar de nunca mais ter usado. Estou pensando até em mandar fazer uma revisão nem que seja só para funcionar como elemento simbólico.

Bem, o que eu queria dizer com tudo isso é que eu só consegui começar a escrever efetivamente quando surgiu o computador. E como evolução natural de minha mania por máquinas de escrever, logo que os PCs apareceram eu comprei o meu. Era um 286, com monitor verde e HD de uns 4 megas, acho. Não tinha nem windows ainda. Mas foi realmente aí que eu percebi a grande diferença entre máquinas de escrever e computadores, o que me possibilitou a começar a escrever com uma certa pretensão. Eu sou um pedreiro das palavras e sou, como já disse, um coçahólic. Essa mistura é trágica quando você tenta produzir textos com uma máquina de escrever. Meu estilo é progressivo. Eu escrevo primeiro uma estrutura e depois vou lapidando. Lapidação esta que pode durar uma eternidade, se for necessário. Eu troco frases e blocos de texto inteiros de lugar, coloco palavra, tiro palavra, vou pra lá, vou pra cá e, enquanto não sentir que está pelo menos razoável, não desisto. Estou fazendo isso agora com este texto. (Esta frase, por exemplo, coloquei depois). E isso, meus amigos, com uma máquina de escrever é praticamente inviável. Eu perderia mais tempo da minha vida reescrevendo, fazendo o trabalho de datilógrafo, do que objetivamente escrevendo, criando, produzindo. Realmente, eu não sou possível sem o computador. É por isso que eu torço para nunca acontecer uma crise energética no mundo. Eu perderia a capacidade de fazer o que mais gosto. Vou acender já uma vela para São Thomas Edson e pedir proteção à rede elétrica.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e fica cansado. Conheça seu site,  o blog da mãe e o 1­° OPEN MIND, um fim  de semana inteiro voltado ao desenvolvimento da criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 17h59
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A calcinha de Suzana

De Rosana Hermann.

A invenção da calcinha certamente antecede à da fotografia mas o mundo nunca mais foi o mesmo desde o encontro entre os dois, especialmente quando o fotógrafo é um paparazzo e a calcinha é de uma celebridade.

Atrizes saindo do carro, apresentadoras sambando de minissaia, cantoras no palco fotografadas do gargarejo sempre foram e sempre serão alvos de profissionais que em busca de uma pombinha, não deixarão as mulheres em paz.

Esta semana, a calcinha da vez foi Suzana Vieira, uma atriz consagrada cujo mérito artístico parece ter sido recentemente suplantado por outro, a bravura de ter enfrentado dezenas de cirurgias plásticas em busca de uma aparência mais jovem, resultado que obteve com sucesso. Mas como a palavra já diz, trata-se de aparência, de imagem e não de uma realidade. Mesmo tendo as medidas corretas não se pode voltar atrás do tempo até os vinte anos.

Eis que uma foto sem retoques mostrando um flagrante inter-coxas da atriz, dançando funk com roupa de adolescente, expôs não apenas a louvada liberdade de uma mulher bem resolvida aos sessenta e três anos mas também o fato de que toda matéria orgânica sofre ação do tempo e de que, enfim, bisturi não é varinha de condão.

A foto, linkada em meu blog num post, com a frase 'hay que envejecer pero sin perder la compostura', desencadeou reações intensas homens e mulheres de todas as idades. As mulheres maduras, ou saíram em defesa do direito da exibição do corpo em nome da alegria ou partiram para a consciência do ridículo. Os rapazes mais jovens rejeitaram a foto por unanimidade, uma vez que são adeptos da filosofia de que só se mostra o que é bonito. Alguns leitores culparam o fotógrafo pela indelicadeza de captar um detalhe que a desabona enquanto outros argumentaram que se ela não quisesse ser flagrada assim não teria usado uma minissaia com a altura de um cinto.

É verdade, a foto é só mais um conjunto de pixels num mar de informações digitais na rede e não vai mudar o mundo. Mas de alguma forma, ela cumpre um função, porque revela muito mais verdades sobre nós do que sobre Suzana. A foto questiona a ética do fotógrafo e a postura da atriz, a exigência da perfeição física e a insanidade por sua busca, o engano externo da plástica que gera um auto-engano interior, a diferença técnica entre a foto com e sem photoshop, o vício contemporâneo de consumir qualquer informação sobre as celebridades.

Como na sociedade greco-romana, as celebridades formam nosso conjunto mitológico de arquétipos, nossos deuses e semi-deuses que regem nossos padrões de comportamento, nossos sonhos e aspirações. São eles que nos dão nossos parâmetros, em relação aos quais nos posicionamos aqui, bem abaixo do Olimpo da fama televisiva. Com ou sem fotógrafo. Com ou sem calcinha.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas todas as quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 12h35
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Você

De Nelson Botter.

 

Enquanto os dias correm eu me sento para contempla-los. Chega um momento em que você resolve se dar férias, livrar-se da correria, omitir-se como se assistisse a um filme, sessão da tarde, quando você chegava do colégio e tudo que tinha para fazer era a lição de casa. Relaxar e meditar é preciso, já dizia o Lama. Música para os ouvidos e também para a mente, eis um truque, pois acordes harmônicos podem ser um relaxante muito mais poderoso que qualquer bolinha da indústria farmacêutica. Pena que o lobby não deixa a gente perceber isso. Contemplar o mar, ver o pôr-do-sol, enfim, 'N' coisas que a natureza nos oferece, mas não, alguns insistem em tomar suas bolinhas coloridas. Amarras.

 

E eis que atingir o equilíbrio não é tarefa das mais simples, é claro que não, entretanto é preciso tentar, buscar no meio desse mundo caótico de cobranças insanas, sejam elas monetárias, intelectuais ou braçais. Férias, um paraíso na minha mente, vejo agora nós dois, juntos, juntinhos, na praia, Fernando de Noronha, perfeito, água de coco, máscara de mergulho para contemplar um mundo dentro do nosso mundo, paralelo e aquoso, um bagalô, nós dois deitados, contando infinitamente cada astro na noite estrelada, e o seu sorriso, a coisa mais linda dessas férias, mais bonito que as paisagens verdes da ilha, mais brilhante que o sol, mais forte que o oceano, mais apaziguador que o não ter nada para fazer. Minha droga é você, minha endorfina é sua voz, seu toque, seu beijo.

 

Volto dos vôos da imaginação, tudo real, presente, a loucura do dia-a-dia. Nada de ilha, de férias, mas há você. Ainda bem que você é mais que real. E isso é maravilhoso. Você, meu ponto de equilíbrio, minha sacerdotisa, minha xamã. Enquanto os dias correm eu me sento para contempla-los... e percebo que sem você, minha vida seria um filme sem graça e sem final feliz. Obrigado por me fazer te amar.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol.

Escrito por Blônicas às 11h30
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