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Vamos torcer para a Argentina?

De Leo Jaime.

São oito seleções a disputar o título: seis européias, Argentina e Brasil. Todos os jogos desta etapa, que se inicia amanhã, são difíceis e qualquer resultado é justo. Os quatro times que restarem disputam o título e as que perderem voltam mais cedo. É o momento crucial. O aspecto emocional passa a ser mais decisivo, quando os outros são mais equivalentes, e torcida conta muito.
As copas jogadas na Europa, com exceção da que foi jogada na Suécia, foram vencidas por seleções européias. Curiosamente a Suécia só chegou a uma final, e foi em casa,  Inglaterra só chegou a uma final, em casa e França idem. As duas últimas venceram. Jogar uma final perto da torcida faz a maior diferença. Por isto este jogo entre Alemanha e Argentina pode ser tão importante para a gente.
Há um equilíbrio natural entre os oito times que ainda estão na copa porque seis deles são campeões mundiais. Portugal e Ucrânia são os convidados ilustres. É natural, porém, que os olhos de todo mundo se voltem com mais atenção para dois jogos: este dos anfitriões, de um lado, e o que o campeão da última copa disputa com o campeão da penúltima copa, do outro lado. As apostas são de que os finalistas saiam deste jogo. Estou entre os que fazem esta aposta e posso justificar.
Jogaremos contra a França que veio de resultados meio inexpressivos e que venceu a Espanha com o apoio  da torcida, de virada. Não anda bem mas está pertinho de casa. E tem apoio. Nós, que vencemos de todo mundo e temos o melhor retrospecto de todos, temos os jogadores sendo criticados o tempo todo e estamos longe de casa.
Itália joga sem a zaga titular, seu trunfo, e não anda bem no ataque. Ucrânia não é exatamente uma potência, haja vista o jogo com Suíça, o pior da copa. Tem cara de zero a zero e pênaltis. Portugal tem fibra mas entra contra a Inglaterra desfalcada e com vários jogadores jogando de freio de mão puxado, com medo de não jogarem a semifinal, caso Portugal passe. Uma ligeira vantagem para a Inglaterra que, ao final, não tem Felipão no banco, um técnico que sabe todos os nossos segredos.
Devemos torcer por Argentina e querer que ela chegue nas finais porque a torcida, caso também cheguemos, será favorável a nós ou pelo menos neutra. Jogar contra alemães seria muito difícil, ou mesmo contra italianos. O fato é que de todas as seleções em campo, nós não somos a que tem a torcida mais favorável. Seria uma boa contar com um pouco de reconhecimento e apoio, a esta altura do campeonato. Parece, porém, que vencer não é mesmo o que importa para nossa crítica e torcida, e sim jogar bonito. Neste caso seria importante avisar aos adversários. Provavelmente ninguém toparia ser figurante de um anúncio de refrigerante em finais de copa. Pois é. Vale título e ganhar é o que importa. E quem foi que disse que ganhar não é bonito?

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 12h58
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Suspiros poéticos e saudades dos 70 ou 80

De Castelo.

Sentado na cadeirinha do cabelereiro na galeria dos Jardins, sobrevem o suspiro fanhoso. Tudo congestionado. Lá embaixo a rua Augusta. Cá em cima, as têmporas com sinusite. A Moleza Gripal dando as cartas assim, invernal. "Bota uma blusa nas costas, tá frio, não é porque é só ali na esquina".
Uma gota de descongestionante por narina ao dia. Nariz desentupido é um vício a mais. O texto longo em demasia. Os leitores exigentes demais.
"Ninguém, hoje, absorve mais do que 500 palavras. Três minutos. Comercial-de-trinta-segundos. Mulher mostrando as qualidades da nova guilhotina doméstica para frios e rosbife. Enfatizar o diferencial: maquinário totalmente importado do Mercado Comum Europeu. Corta para pack-shot e assina com logotipo e locução final".
- O nome do corte é King Edward, ele diz.
Lembrança de Chaplin usando o penteado numa "tennis court" inglesa.
- Cabelinho fino… - ele diz.
- Mesmo? - duvido.
- Fininho, desencardido - ele insiste.
"Cabelo encarde?"
"Sonzinho na orelha, aquecendo. AQUECENDO. Solzinho no ouvido. Dim, dim, dóim, dóim. Mais uma vez: dim, dim, dóim, dóim. Love, love, love. Dim, Dim, dóim, dóim. Love, love, love. O sintetizador fazendo o barulhinho-dóim".
- Adoro a Tina, ele reverbera.
- Anos 80, digo.
- Anos 70, ele discorda.
- 70, 70 - concordo pra não alongar a discussão.
- É, é, é! - ele comemora exageradamente.
"Deve haver vida inteligente sem tina-turner-all-star-falsificado".
Vai até a sala onde fica a pia-de-lavar-cabelos e liga o três-em-um no talo. LOVE, DIM, DIM, DÓIM, DÓIM.
- Amo. Eu e uma pessoa adorávamos essa, inclusive - ele diz.
E dança e dança e dança. E fala e fala.
Sabe a pessoa pode ser maravilhosa uma COISA mesmo mas não vale à pena ficar por ficar com quem realmente não se ama tudo bem ela ou ele podem ser assim tipo mesmo O CASAL exemplar mas se não rola uma como é que eu vou dizer uma química isso uma MEGABLASTERLIGAÇÃO entre as partes aceita uma massagenzinha? bom, né? arrepiiiia que é uma beleza fecha o olho fecha entre as partes? eu falei entre as partes? nossa peraí que palavra mais horrível eu fui usar pra falar de uma coisa tão como é que eu vou te dizer tipo assim sublime fantástica LINDA ai tocou o telefone e a Meire foi na vendinha trocar a nota de vinte eu vou ter que diminuir a tina tadinha DÓIM DÓIM dóim dóim dóim dóim nossa que sonzinho gostoso na voz dela amo de paixão minutinho fica a vontade
- Alô? Hã? Não aqui é um…
"Idéia pra relato de atmosfera. Múltiplos pontos-de-vista. Cubismo? Ou abstração completa assumida, tipo palavra-puxa-palavra? Texto-partitura? Propor novo conceito para o anúncio de sandálias: "troque a havaiana por uma brasileira". Checar com o Jurídico".
- …salão de cabelereiro. É…Isso. Não, não. Foi engano. Tchau.

Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h34
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Só Gana, sem preconceito

De Paulo Castro.

 

     Liguei ontem pra uma mulher e disse, vem cá, amor. E ela, estou sem saco, afins de assistir futebol. E era verdade, ouvia os tambores no fundo. Caramba. E eu querendo saber quem é o filho secreto em Belíssima, e quem é o assassino. Alguém sabe? E em São Paulo, a polícia matou 13, a seleção da Gana e mais um, se é que é isso, ou estou confundindo com os apóstolos?
     Confesso que torço por negões. Falei pra minha filha: a gente escravizou os caras. E ela, cdf assumida, que nada, foram os portugueses. Então, pega o Felipão.
     Não tenho culpa de gostar de baile funk. Se ela beija, eu beijo. Confundo as músicas, mas é tudo mixado mesmo. Vai Serjão, vai Serjão, se o Serginho é gostosinho, imagine o paizão. E o Daniel mata dois na estrada, faz cirurgia e dá de ombros. João Paulo abraça o Papa e sabe Deus. Daniel na cova dos leões é porcaria pop de Renato Russo.
     E se o Diogo Mainardi tem algo de bacana é o cabelo descabelado. Me compararam com ele numa entrevista de rádio. Me senti orgulhoso. O cara escreveu "Contra o Brasil". Não é pouca coisa. Colhões, sob a benção gay de Gore Vidal, mas é veneno da lata.
     E todo mundo que é brasileiro já fumou um da lata. Qual era o tamanho da maldita? Eu não, que não gosto de praia. Não me imagino correndo, na fissura, atrás de comboios de leite Ninho. Queria ver se fosse no Tietê. Hippies e clubers nadando na merda, de onde nunca deveriam ter saído. Um jornalista de Vitória queria me entrevistar sobre sexo na terceira idade. Cheguei atrasado. Viagra genérico é foda. Ou não, vaca profana.
     Ontem choveu, hoje faz sol. Férias é isso. Falta de assunto e mulher que assiste jogo da Croácia que a pariu. Essas contradições é que formam nosso povo, povinho, Zé ninguém. Matam 13 e Lula quer fazer frente contra a Tortura. E na megalópole de Campinas, dois caras são presos por roubarem peças de picanha:
     - Assumo mesmo, senhor, queria comer isso, nunca comi na vida. É Copa do Mundo, pô!
     E meu cardiologista que me proibiu a delícia gordurenta. Agora peguei nojo até do cheiro. É isso aí, nêgo, a gente se acostuma com a privações. Faz estatal de picanha, Lula. Com o sebinho. Está provado. O e-mail do Lula é mais inacessível do mundo. É que computador é troço difícil pra lidar. A Marisa não tem resposta dos "aumente seu pênis" que encaminha pro sujeitinho. Falta de respeito? Que mané respeito? Respeito é pra quem tem. Sai de um lançamento de livro cult e encontra o time de Gana no beco. Isso é respeito. Por isso a polícia mata. Faz e acontece. Exocet. Eu tô usando. Polícia. Não gostou? Pega eu. Macumba forte, mermão. Quando você chega eu já sou a sua sombra.
     Um pouco de cultura para os desavisados. Deixe ver aqui. Vamos de T.S. Eliot:
     "Não sei muita coisa acerca de deuses; mas creio que o rio
      É um poderoso deus castanhos- taciturno, indômito e intratável
      Paciente até certo ponto, a princípio reconhecido como fronteira(...)"
      O que é isso?
      Traduzindo para o português brasileiro:
      "Elas estão descontroladas,
       Elas estão descontroladas"
     Deu pra entender agora, Mobral? E como disse uma inimiga minha ontem, "ser antipático é devolver a moeda salgada". Então, ressentimento. É a mulher se vingando, assistindo futebol. E eu cheio de fígado de ganso aqui. Coisa fina. Come, gosta, você explica o que é, a dita fica com dó e te dá um tapa na cara. E mulheres que fumam têm cinco vezes menos chance de arrumar namorado que a não-fumante. E eu com isso? Fumar provoca aborto espontâneo. Guarda na lata e joga de volta pro mar. Fetos pra alimentarem a fome filha-da-puta na África. Sem bolsa escola. Quem fuma é mulher intelectual. A que você bate e faz au-au, a que você bate e faz miau.
     Segue daí, Léo: "Um dia, gatinha manhosa..."
     E hoje é dia de secura. Uma sogra minha gosta de preto. Terceirinha idade, mas ordinária:
     - Vai preto, vai preto. Com gana!
     E só for pra ouvir falar de amor, espera as férias do Botter passarem. Eu quero mesmo é sexo, sujo, fedido e peludo. E se ninguém quiser me dar, eu pago. E danem-se.

 

Paulo Castro é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h32
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O garoto do pandeiro

De Tati Bernardi.

No meio de pessoas ensebadas e poças nojentas de cerveja e mijo, ele surgiu com seu pandeirinho. O mundo cheio de motivos para ir embora congelou naqueles olhos verdes melancólicos e ao mesmo tempo despretensiosos. A festa ganhou sentido e por alguma razão minha vida também.

Foram três ou quatro anos de um amor que beirava a obsessão: eu andava pelas ruas e achava que todo mundo era ele. Cheguei ao ponto de um dia me olhar no espelho e também achar que era ele. Fiquei louca de pedra mesmo.

Não comia, não dormia, não ria, não tinha a menor idéia do que fazer da vida.

Tentei terapia, ioga, curso de artes plásticas, budismo, cartomante, centro espírita. Nada adiantava. Eu não conseguia encontrar uma razão para viver ou um alento para sobreviver. A única coisa que eu fazia era chorar o dia todo porque o tal do garoto perfeito não queria saber de mim.

Até hoje, amigos da época da faculdade ainda me encontram e perguntam "E fulano?". Eu apenas sorrio e respondo incerta: "Passou, coisa de quando eu era criança". Depois fico um pouco envergonhada em lembrar o quanto eu enchia o saco de todo mundo com a minha monotemática - eu basicamente não falava de outra coisa.

Toda vez que tinha um trabalho pra fazer na faculdade, minha inspiração era a cidade natal dele, ou alguma banda que ele gostava muito, a etimologia do seu nome, a rua onde ele morava, a pinta do lado esquerdo do seu rosto.

Eu lia o que ele lia, escutava o que ele escutava, ia aonde ele ia, torcia pelo mesmo time e cheguei até a me apaixonar pelas mulheres que ele paquerava. Eu gostava tanto dele que acabei virando ele, mas não me perguntem o que isso quer dizer.

Foi o maior amor que já senti na vida. Lembro até hoje de uma sensação muito absurda da época: todas as vezes que o metrô parava na estação próxima

ao cortiço em que ele morava, eu sentia uma bola de fogo tão grande no peito que eu pedia a Deus: "Não me deixe morrer antes de vê-lo só mais uma vez".

A república onde ele e mais 200 estudantes comunistas da USP dormiam ficava no beco mais escuro da Avenida São João. As paredes eram forradas de imagens do Lênin, Che, Fidel, Lula (os tempos mudaram mesmo.) e uma ou outra atriz pornô. A trilha musical para minhas inesquecíveis tardes de amor começava quase sempre com a letra "c": muito Chico, variando um pouco para Cazuza, Caetano ou Cartola.

A emoção de estar ali com ele era tão forte que eu sempre ia embora antes da hora com medo de vomitar ou explodir. Minha boca secava, entortava, eu só falava burrices. Era um horror e ao mesmo tempo a glória.

A história terminou junto com a faculdade. Ele sumiu no mundo e eu cai na vida. Tive dezenas de namorados, aprendi a amar menos, o que foi uma pena, e aprendi a ser mais cínica com a vida, o que também foi uma pena, mas necessário. Viver pra sempre tão boba e perdida teria sido fatal.

Dez anos depois recebo uma ligação estranha, a mesma voz de sempre, as mesmas lacunas que eu, sempre nervosa, nunca soube preencher. A bola de fogo ainda estava dentro de mim, minhas pernas ainda podiam fraquejar, minha boca ainda secava, eu ainda guardava em mim os restos corajosos e puros do primeiro, e sempre maior, amor.

Cortei o cabelo, comprei roupa nova, fui o caminho inteiro me dizendo "Agora você é uma mulher, comporte-se como tal" e rezando a Deus para que ao menos dessa vez me ajudasse a controlar o queixo que sempre tremia.

Cheguei primeiro, estalei os dedos, mordi a boca, suspirei, fechei os olhos. De repente ele estava lá. Olhei bem, olhei de novo, olhei mais uma vez. Não. o que tinham feito do meu amor? O que tinham feito do meu demônio, da minha morte, da minha vida, da minha essência, dos meus valores, das minhas verdades?

Ele se sentou ao meu lado com olhos verdes apagados e limitados, comentou que retardatariamente ainda tocava seu pandeirinho e acreditava no PT. Sua camisa era brega, seu cheiro era oleoso e seu papo era digno de descontrole dos queixos realmente, pois dava muito sono.

Nos beijamos e nada, nenhuma disparada no coração, nenhuma dobrada involuntária nos joelhos, nada de estrelas, sininhos, fogos e cores vibrantes. O garoto perfeito dos olhos verdes perfeitos e das músicas perfeitas era agora apenas o garoto desinteressante do pandeiro. Como eu pude quase morrer pelo garoto do pandeiro?

Voltei pra casa amando e odiando o tempo. Amando porque o tempo havia passado, odiando porque o tempo havia passado.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 15h03
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Uma educação de merda

De Henrique Szklo

Começo este singelo texto pedindo desculpas aos meus queridos leitores por estar falhando nas últimas semanas. Não que vocês tenham direito de reclamar já que a visitação ao Blônicas é gratuita. É apenas uma questão de polidez. Afinal de contas eu tive uma educação exemplar. Posso dizer até que sou um privilegiado. A maioria das pessoas foi educada pelos pais e pela escola, uma forma antiga e ultrapassada que já provou ser falível e prejudicial ao desenvolvimento do ser humano. Eu fiz parte de uma espécie de experiência sociológica que demonstrou resultados expressivos. Uma alternativa realmente vitoriosa. Na verdade, sou o produto de uma educação promovida por um triunvirato virtuoso, uma santíssima trindade, um trio ternura, formado pela empregada, pela televisão e pelo cachorro. Coisas do mundo moderno, em que os pais têm de trabalhar de sol a sol para prover os filhos de todas as suas necessidades e também das melhores coisas da vida, como ter uma empregada, uma televisão e um cachorro. Tive lições realmente valiosas observando meus três mestres e senhores.

Da empregada aprendi a me submeter à humilhações, ganhar pouco, ficar apenas com as sobras e limpar coco de cachorro, tudo sem reclamar.

Com a televisão aprendi a mentir, a me preocupar apenas com a aparência e a acreditar que esta vida de merda que a gente vive só faz sentido se for delirantemente fantasiada. O bem vencendo o mal, o destino inexoravelmente a nosso favor, todas as injustiças exemplarmente corrigidas e por aí vai.

Do cachorro, bem, do cachorro foi de quem eu retive as maiores e mais fundamentais lições. Meu caráter foi quase que totalmente forjado observando o comportamento deste que é o nosso mais fiel amigo. Começando por aí: fidelidade. Com ele também aprendi a sentar quando solicitado, a dar a patinha quando necessário e fingir-se de morto quando conveniente. Aprendi a abanar o rabo para quem me sustenta e a perdoar todas as suas agressões e tiranias. Aprendi que banho é uma coisa hedionda e que é necessário marcar o nosso território incessantemente, todos os dias de nossas vidas. Aprendi a montar nos outros para mostrar quem manda, aprendi também a cheirar o traseiro de quem me interessa, a dormir o dia inteiro e passar a noite acordado. Aprendi a roer ossos, a correr sempre atrás de uma bola e, é claro, a fazer coco onde me der na telha.

Como vocês podem ver, a merda esteve presente em todos os momentos da minha formação. E se você conhece um pouco da vida, sabe que no teatro a merda é sinal de boa sorte. Mas não fique com inveja, por favor. Ser educado pelos pais e pela escola não é assim o fim do mundo. Eles também sabem muito bem fazer suas cagadas.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e adora uma intriga. Conheça seu site,  o blog da mãe e o seu novo livro O Grande Milk-shake e os Canudinhos Mentais.

Escrito por Blônicas.. às 10h28
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Vencer ou convencer?

De Leo Jaime.

 

Os fatos todos mundo sabe: o Brasil ganhou os dois primeiros jogos, não sofreu nenhum gol e completou nove vitórias consecutivas, estabelecendo mais um recorde em copas do mundo. Os termos usados na mídia brasileira para retratar estes fatos são, em geral: medíocre, insatisfatório, decepcionante, irreconhecível etc. Ou, usando um chavão, e a crônica brasileira os adora: “venceu mas não convenceu”.

Não convenceu? Ganhou por causa de um roubo clamoroso do juiz? Não, apenas porque o time não rendeu o que dele se esperava. E aí é que reside a chave de todo o problema. Criou-se uma expectativa exagerada em cima da superioridade brasileira. Criou-se? Quem criou? Alguém viu algum jogador ou membro da comissão técnica dizendo que ia dar espetáculo ou goleada? A crônica criou essa expectativa irreal baseada no fato de que estamos em primeiro no ranking da Fifa para dizer aos sete ventos que não tinha pra ninguém. Anunciou pra todo mundo que Ronaldinho Gaúcho ia dar espetáculo, qual foca amestrada em circo, equilibrando a bola no focinho. Prometeu exibições de gala e goleadas arrasadoras. E depois, antecipando a improbabilidade de suas promessas, começou a meter o pau no time por “apenas” vencer.

Não nos classificamos nas eliminatórias com tanta facilidade. Não tivemos tantas exibições de gala. Uma coisa, ao longo da competição,  pude observar: o time do Brasil joga melhor contra adversários tradicionais e reconhecidamente fortes. A explicação me parece óbvia: jogando com um time de menor tradição, se ganha de muito não faz mais do que a obrigação, de pouco jogou mal e qualquer outro resultado é calamidade pública. Sim, a capacidade de nossa crítica em desrespeitar nossos atletas é inigualável.

Nos últimos dias ouvi, li e vi pela TV todo tipo de desrespeito sendo proferido em relação a Ronaldo. Ronaldinho Gaúcho, com atuações igualmente abaixo do esperado, recebeu críticas, não ofensas. E não desistiram dele aos 20 minutos do primeiro tempo do primeiro jogo. Adriano, que não vinha bem em seu time e não jogou nada no primeiro jogo, assim como Ronaldo, também não recebeu mais do que as merecidas críticas. A unanimidade definiu, porém, que só tirando Ronaldo do time a coisa poderia funcionar. Se entrasse Robinho no lugar de Adriano, não poderia dar certo?  Não, Ronaldo é o culpado de tudo.

Antes mesmo da estréia ele já vinha acusando o golpe. Se não está em boa forma, pior ainda seu estado emocional. Depois da desastrada estréia disseram que Adriano preferia jogar com Robinho, que o seu time não o queria mais, que Robinho estava pronto para ser titular, que o Brasil (torcida)  não acreditava mais nele, que tinha psicose maníaco-depressiva, que só jogava por imposição da Nike, além de o chamarem de gorducho, de tonto etc. Esse jogador que com mais um gol terá sido o maior goleador brasileiro em copas do mundo.

Não vamos aqui defender este ou aquele jogador, ou quere escalar a seleção, mas comparar o que foi apresentado em relação ao que se prometeu. Ronaldo estava voltando de contusão, sem ritmo de jogo e Parreira disse que ia aproveitar a primeira fase para deixá-lo em campo pelo menos uns 60 minutos por jogo para que ele ganhasse ritmo. Robinho seria arma para mudar o jogo no segundo tempo. Disse também que o time começaria com 60% de seu potencial e que deveria crescer ao longo da competição. Até aqui tudo coerente.

Quem falou em espetáculo? Só a crônica. A seleção cumpriu o que prometeu.

 Ser favorito significa o quê? 99% ou 20% de chances de vencer uma competição com 32 outros concorrentes? Sou mais a segunda opção. Somos favoritos, porém estamos longe de sermos imbatíveis. Não temos um timaço mas temos boas chances de vencer. Basta ganhar os jogos, como temos feito.

Nosso principal adversário, no entanto, tem sido o aspecto emocional. E tudo o que se fala sobre os jogadores em seu próprio país conta, pode ter certeza.

Em 2002 o time saiu do país apedrejado. Felipão era uma besta por não convocar Romário, e se o baixinho era tão fundamental, mesmo estando machucado, isso evidenciava o quanto Ronaldo era já desacreditado. Pois o Brasil venceu a semifinal mas “não convenceu”. Falaram mal da vitória magra, do gol de bico de Ronaldo, que deveria estar no banco, E depois esqueceram tudo quando o cara fez dois gols contra os alemães, Nunca, jamais, a crônica pede desculpas ou admite um erro. E nosso futebol é muito melhor que nossa crônica. Só ganhamos títulos quando a crônica não leva fé, diz a lenda.

A crônica esportiva brasileira sofre de um mal,  perdoe, crônico: é platônica. O futebol que ela imagina para nossa seleção nunca existiu, não existe e nunca existirá.Ela imagina um jogo em que o Brasil vence de 90 a zero, com 45 gols de bicicleta e o adversário não vê a bola uma vez sequer. Um jogo fácil e sem graça. Um tédio ideal.

Os 23 que vestem a camisa brasileira na Alemanha sabem que não estão à altura das expectativas da nossa crônica. Ninguém nunca esteve. Pois que tenham cabeça para “apenas” ganhar das outras seleções. Isso é o suficiente. Para o resto do mundo será espetacular.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas toda quinta-feira, com ou sem jogo do Brasil.

Escrito por Blônicas às 12h08
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O ônus e o bônus

Rosana Hermann.

 

         Bônus é tudo de bom. Bonificação no salário é aumento, bônus na compra é premio ou vantagem; bônus é alguma coisa além do esperado, que sai melhor que a encomenda. Bônus é, enfim, a parte boa das coisas, como o bônus que vem com a fama.

        

         O bônus da fama é o que justifica o fato de tanta gente querer virar celebridade. São os convites para festinhas boca-livre, viagens e hospedagens gratuitas, presentes, mesas de pista, comida grátis. E, o maior bônus de todos, receber cachê para ‘fazer presença’. Nenhum bônus pode ser melhor do que ser pago por existir. Imagine, ter uma tabela de hora/existência. Considerando-se que há atores que chegam a receber vinte mil reais para aparecer durante duas horas numa festa, chega-se à cifra de dez mil reais por hora/existência. Quem é que não vai querer?

 

         Mas nem só de bônus vive a fama. Aliás, digamos que assim como não existe um monopolo magnético, não existe o bônus sem seu pólo negativo, o ônus. Junto com as benesses de ser célebre há um batalhão de encheções de saco, que compõe o repertório do ônus. É a distribuição de autógrafos em qualquer momento ou local, que pode ocasionar uma interrupção de uma conversa ao celular ou o esfriamento da massa quatro queijos, os beijos babados e os que rasgam a roupa, os abraços que sufocam, as fotos com chifrinho, o comparecimento em todos os tipos de atividade beneficente nos dias em que você não queria, a perda da privacidade e do direito de dizer não (sob pena de ser acusado de ser metido, mascarado e arrogante). O famoso é constantemente vigiado, perseguido e, junto com sua legião de fãs, terá também sua horda de opositores. É o ônus.

 

         Para os iludidos, que só pensam no bônus, o ônus pode ser um fardo pesado demais para ser carregado. Há quem desista, principalmente quando a fama diminui e a parte boa desaparece. Porém, no balanço geral, o bônus acaba sempre pesando a favor, já que em geral, o ônus vem em pentelhação física ou psicológica enquanto o bônus vem em dinheiro. Sem contar que para agüentar o ônus você pode contratar um empresário, um assessor de imprensa, quatro seguranças e pagar uma terapia duas vezes por semana.

 

         Por enquanto, agradeço pelo bônus de ter sua visita e pela leitura da crônica. O bônus é a divulgação do blog, do meu nome do autor, de estar cercada de gente bacana. Não tem grana no meu bônus, só prestígio e divulgação. Que, muitas vezes, de forma indireta, resultam em algum outro freela remunerado. O bônus é ter que procurar sempre um tema, escrever a crônica e enviá-la ao zelador do blog a tempo, toda quarta-feira, semana após semana, mesmo em dias como hoje, quando o sol nos convida para dar um passeio, mas o relógio já nos chama para ir ao trabalho.

 

         Pra cada bônus, um ônus; ou como diria aquele autor de novela mexicana, tudo tem seu preço.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas, sempre com uma crônica de quinta, até segunda ordem.

Escrito por Blônicas às 11h11
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Copa no motel

De Castelo.

 

A Promoção Copa no Motel (“venha torcer pelo time do coração ao lado do seu coração: chope grátis”) parecia interessante. E, unanimidade nacional, assistir aos jogos em casa é totalmente sem graça.

Foi então que resolveram inovar. Iriam mesmo degustar Brasil X Croácia na suíte “Diplomata” – 70 metros quadrados, cama king-size, tevê de plasma, cadeira erótica, sauna seca e a vapor, jacuzzi.

Na entrada, a recepcionista entregou o “kit-torcedor” com bandeira, corneta e preservativo canarinho desejando-lhes um ótimo jogo. Ele não entendeu se a recomendação era de duplo sentido e preferiu ficar calado.

A chegada ao quarto foi, por assim dizer, cromática. O ambiente estava gritando verde e amarelo. Lençóis, fronhas, tapetes, toalhas: tudo bicolor.

Como ainda faltavam alguns minutos para a partida ter início, ela foi tomar uma ducha.

Ele se despiu ficando com os comentários esportivos e o ruído do chuveiro ao fundo.

O quadrado mágico surpreenderia? Sché-ché-ché-ché-ché-sché-ché. Ronaldinho Gaúcho seria mesmo o grande craque de 2006? Sché-ché-ché-ché-ché-sché-ché. Zagallo beija Santo Antônio e bota fé - Sché-ché-ché-ché-ché-sché-ché – na estréia. Ronaldo Fenômeno estaria mesmo tão acima do peso? Sché-ché-ché-ché. E a ameaça de prisão do lateral Cafu na Itália por falsificação - Sché-ché-ché – de documentos atrapalharia sua performance da Seleção? Sché-ché.

De repente, o locutor gritou: É CHEGADO O GRANDE MOMEEEENTO! Mas na verdade fôra ela quem desligara o chuveiro, o quarto ficando com o som da televisão muito alto. Ele pegou o controle remoto e diminuiu um pouco a altura da transmissão.

Aproveitou para zapear um pouco a tevê a cabo. Foi dar num canal pornô. Um urso polar fazia um 69 com uma loirinha escandinava numa pista de patins.

Pegou uma tulipa, se serviu da chopeira (verde-amarela) e encostou calmamente a cabeça no travesseiro. Ficou olhando os movimentos de vai-e-vem do inusitado casal, mas logo zapeou para o estádio alemão.

Ela saiu do banheiro, nua. E com aquela toalha que algumas mulheres erigem sobre a cabeça após o banho, parecida com uma escultura de Miró.

Deitaram-se, um a lado do outro, na hora do hino nacional.

 

– Toda vez que toca isso me sai lágrima dos olhos – ela disse.

– Foda – ele disse.

– Foda o quê? – ela perguntou.

– Puta hino foda o nosso – ele explicou.

 

O juiz apitou e apontou para um lado.

Ouviu-se o foguetório explodindo na suíte vizinha, onde havia uma festinha.

Clima de alta ansiedade, jogadores errando passes, o Brasil ganharia o jogo, a Copa, o Hexa?

Ela pegou a camisinha da Promoção na cômoda, abriu a caixa e depois o envelope.

Com uma mão, plásticas carícias. Com a outra ia encaixando o preservativo com desenvoltura nele - que via o jogo como se fosse uma nova revelação de Fátima transmitida direto do Vaticano.

Só conseguiram transar depois do gol do Kaká.

 

Castelo é cronista do Blônicas e ocupa a suíte de Terça que estava vaga devido às férias em Júpiter do Nelson Botter.

Escrito por Blônicas às 11h00
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Sexo com ou sem neurônios

De Xico Sá.

       

         Quanto mais intelectual... menos atirada, menos dada ao sexo. E não se trata apenas de prosopopéia deste ignorante que vos fala. A sentença polêmica é o resultado da Pesquisa de Padrão de Vida (PPV) do científico IBGE.
         Segundo o numerol, 61,4% da moças com mais de 12 anos de estudo não estão ligadas a nenhuma atividade sexual. Foram ouvidas mulheres entre 15 e 49 anos em todo o país.
          Estudos semelhantes feitos na Europa e EUA já haviam apontado a mesma tendência, incluindo também a marmanjada. Será?
        O instituto não pesquisou as razões da inapetência. Seria sublimação? Falta de homem à altura? Falta de homem simplesmente, mesmo que um burro, um jumento qualquer? Só Deus sabe.
       Só sei que as enigmáticas discípulas de Clarice Lispector e as belas balzaquianas filiadas à Nouvelle Vague irão subir pelas paredes com as conclusões da estatística brasileira. Se já praguejaram contra as pesquisas de intenção de votos, imaginem com esta enquete.

        Pereira, mestre em filosofia pura nas mesas do Amigo Gianotti (aquele boteco das boas fogazzas do Bixiga) e doutorando em antropologia nos labirintos do Love Story, adverte: "Quando uma mulher fala em James Joyce ou cinema iraniano, eu saco meu talão de cheques _pago a conta e vou embora''.
         Pera lá, Pereira. "Pegou pessssado!'', como diria o argentino da piada do Cristo portenho. Eu mesmo, meu caro, gostava tanto de mocinhas de óculos que passei quatro anos  com Moby Dick' (que nem é coisa de intelectual assim) debaixo do sovaco. Só para causar boa impressão. A coitada da baleia do livro não aguentava mais aquele desodorante, como me gozavam na época.
         Depois, mudei para "Cândido'' (Voltaire), uma espécie de "Polyana'' para intelectuais, e as coisas melhoraram um pouquinho.Pereira prefere mesmo não acreditar nunca nessas armas pequeno-burguesas. Como bem disse, ao receber o resultado da pesquisa do IBGE, não troca a loira ou a morena do É o Tchan por uma dúzia de Simone de Beauvoir.

 [P.S. de emergência: o cronista discorda radicalmente de preferência tão chinfrim!]

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundonas.

Escrito por Blônicas às 10h39
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Algumas loucuras antes de partir

De Tati Bernardi.

Este texto não tem pretensão literária, é apenas uma cartinha de despedida simples e meio jogada, uma ruptura breve e necessária entre nós. Eu só queria dizer, antes de amarrar fitinhas do Bonfim na mala, antes do frio gostoso na barriga, antes do avião me projetar pra trás avisando que a hora tão esperada chegou, que eu continuo a mesma, ainda que completamente diferente.

Eu continuo deixando tudo pra última hora, eu continuo preconceituosa demais e mal-humorada além da conta, eu continuo com medo de tudo e de todos ainda que isso, por alguma razão louca, me faça amar ainda mais tudo e todos.

Mas eu também descobri coisas deliciosas a meu respeito como, por exemplo, que eu assusto todo mundo com o meu espelho de Palas Atenas. Uma pessoa superficial e de mentira jamais agüentaria ficar perto de mim, quer coisa melhor que isso? Afasto as sombras ainda que muitas vezes me sobre a solidão, afinal, são poucas as pessoas realmente vivas.

Descobri, depois de muito meditar, ler, fazer yoga, estudar mitologia, fazer terapia e tomar passe, que o que realmente faz uma mulher feliz e plena é a escova progressiva. Meu cabelo está lindo, liso, brilhante e macio. Sim, eu também posso ser apenas fútil e isso é libertador. Gente, meu cabelo tá um arraso!

Eu ainda choro do nada porque viver é um drama, mas sabe o que eu descobri? Que essa vida dramática é muito engraçada. Semana passada eu e algumas amigas rimos a noite inteira e celebramos o fato de sermos únicas, de sermos sozinhas, de sermos tão parecidas e de sermos umas das outras. Eu descobri que a melhor coisa do mundo são os amigos e por isso queria dizer: Letícia, Ana, Carol, Myla, Lívia e Priscila, eu amo vocês pra cacete.

Queria dizer pra vocês que eu enchi quatro sacos de coisas velhas e mortas e joguei no lixo. Queria dizer pra vocês todos que, pela primeira vez na vida, depois de cinco anos, ele me ligou e eu não atendi, por pura preguiça de andar pra trás ou aceitar um amor de quem tem medo de esperar pelo amor.

Queria dizer que eu não acho mais que fulana passou do peso, que fulana passou da conta de imbecilidades e que fulano se esqueceu de ser real.

Eu apenas queria dizer que eu tô bem em forma, sou bem bacana e, graças a Deus, tenho plena certeza do que vim fazer nesse planeta.

Queria aproveitar para fazer um elogio a mim, sim, chega de me detonar.

Queria te dizer, sua escrotinha que dorme comigo todas as noites, que nenhuma das vezes em que eu cheguei perto da janela e fiquei na ponta dos pés, eu estava sendo sincera. Queria te dizer que, apesar de você se sentir imensamente sozinha de vez em quando, eu sou milhares, e todas essas milhares te acham a melhor mulher do mundo. Queria bater palmas pra todas as vezes em que você sacrificou o que você mais amava em nome de seguir a diante com o teu fígado e todas as vezes em que você ficou pequenininha para que ficar grande fosse ainda maior. Obrigada por nunca ter fugido de mim, obrigada por ter me encontrado, obrigada por estar aqui. Confie que agora, de dentro de mim, conquistar o mundo vai ser ridículo. Ah, e tem mais: sua bunda até que é bonitinha, mas o resto é um arraso.

Hoje eu acordei nervosa e irritada com a minha viagem, aí parei e pensei: chega de se boicotar minha filha, tá na hora de você ser muito feliz.

Gente, tá na hora da gente ser muito feliz. Primeiro porque somos de verdade, depois porque somos filhos de Deus e, pra terminar, porque existe escova progressiva!

Enquanto eu não volto, deixo vocês com o filme "Pergunte ao Pó", o livro é melhor, mas John Fante vale a pena mesmo empobrecido. Deixo vocês com um fim de tarde na Rua Novo Horizonte, o lugar onde sempre sou feliz porque sempre dá pra ser feliz. Deixo vocês com os quadros da Fer Veriga, com a voz da Marisa Monte e da Nina Simone, com a frase maravilhosa de Vinícius, "a vida só se dá pra quem se deu", e com a sopa de aspargos do Pasta e Vino nas madrugadas. Tem ainda a senhorinha de setenta anos que fez o curso de strip da Fátima Moura, a garotinha do farol que esperou a mãe virar de costas pra me dizer baixinho "Não quero dinheiro não, mas me traz uma boneca?", tem o Ronaldinho Gaúcho que consegue ser lindo com tanta feiúra não porque é rico, mas porque é criança, e tem, claro, a Lolita, que não tem vergonha de ficar histérica sem amor, assim como a dona.

Meu peito está cheio de curiosidade e alegria. É possível sim amar a vida, ainda que qualquer amor tenha seus dias de crise. E eu só queria deixar todos vocês, enquanto eu não volto, com um pedaço de mim. Pode pegar sem cerimônia, alma quanto mais a gente dá, mais a gente tem.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas todos os sábados.

Escrito por Blônicas às 12h07
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Dia dos namorados

De Leo Jaime.

Ela já estava de cama havia alguns anos. O aniversário era no dia 12 de junho. Resolvi que iria fazer uma visita. Peguei um avião no Rio e fui para Goiânia, sem avisar. Chegando no aeroporto marquei o bilhete de volta para o mesmo dia; como não tinha outra opção teria que ser daí a duas horas, ou seja, em pouco mais de uma hora deveria estar de volta.

Peguei o táxi, parei numa floricultura no caminho e comprei uma rosa: o presente. Chegando lá levei uma bronca. Eram duas as razões: quase a matei de susto e não avisei, de modo que ela não estava maquiada. Tive que esperar alguns minutos até que ela se ajeitasse. Como os olhos não ajudavam muito e a mão tremia um pouco, o visual ficava meio Bob Smith. Muito interessante.

Entreguei a rosa e ela ficou emocionada. Disse que tinha ido lá só para entregar a rosa, pelo aniversário e porque era dia dos namorados, de modo que ela tinha motivos de sobra para comemorar. Ela resolveu que tinha que ligar para as amigas para contar. Isso tomava tempo. Sabe como é: muitas amigas, achar alguns telefones, repetir as coisas, um processo meio moroso. Teve até quem dissesse que ia lá pra tomar um café com ela. Não que eu pudesse esperar.

Quando sossegou com a excitação do telefone e resolveu me dar atenção, disse que tinha muitas saudades do meu irmão. Começou a chorar. Ele tinha morrido alguns anos antes, de acidente, mas não morava com ela havia bastante tempo. Ela sentia a falta. Recordou que ele, às vezes, chegava no meio da noite sorrateiro no quarto dela pra pegar dinheiro na bolsa. Era muito levado. Engraçado ela lembrar algo que deveria ser motivo de raiva, mas a deixava terna e com saudades. Ele a fazia sofrer, a deixava preocupada, a fazia morrer de saudades e ela me confessava isso nos poucos minutos daquele último encontro.

Eu estava lá e ela falava dos sentimentos que ficavam cada vez mais intensos e presentes. Não eram por mim estes sentimentos. Mas eram os sentimentos dela. E eu ouvi.

Poucos meses depois veio por telefone a notícia de sua morte. Não quis vê-la no caixão. Preferi lembrar dela com a rosa na mão em seu último momento de namorada, confessando sua última paixão dolorosa.

Ela me ensinou a ver as horas, a amarrar os sapatos e assar o pão no fogão, entre outras coisas muito importantes. E neste dia, dos namorados, entendi que amar não é querer, desejar, precisar. É oferecer.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 11h08
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Uma vida de um dia só

De Rosana Hermann.

Não sei onde foi que errei. Ou acertei. Um amigo sempre me diz que a gente só para e pensa quando a estrada bifurca. Caso contrário, a gente vai seguindo em frente. Sempre em frente. Em alguma bifurcação devo ter me distraído e seguido sem parar e, assim, sem pensar, fui seguindo. O caminho onde estou agora é este, todos os dias se seguem de uma vez só, como se a vida inteira fosse um grande dia. Um grande e intenso dia.

Nesse dia que estou vivendo, durmo tarde, acordo cedo, corro atrás de todos os compromissos sem uma agenda muito fixa ou anotada. As coisas estão sempre voando, como eu. Conto com o fato de que se o compromisso existe, ele é com algo ou alguém. Portanto, se devo e esqueço, alguém há de me cobrar. Se eu esquecer, pago com multa. Se tenho que estar em algum lugar certamente será para encontrar alguém ou fazer alguma coisa. Assim, se eu esquecer o outro lado que também tem interesse irá me lembrar. E assim, cumpriremos nossa agenda.

O longo dia inclui tudo e todos, amigos, parentes, colegas, internautas, leitores. A gente vai se falando, vai se chamando, vai conversando e vai indo. Tem dias que me sinto um motoboy pedindo informações para um motorista de táxi, no meio da marginal. Todo mundo indo e falando e seguindo. Todos se atrapalhando um pouco mas coletivamente seguindo. Deve ser uma das ondas daquele Alvin Toffler, uma nova versão 2.006 da infovia, a infovida.

Só sei que num determinado momento deste dia, sempre hoje, eu estava num chat coletivo com desenvolvedores do Skype em todo o mundo, numa conversa com uma mulher que mora em Amsterdam, pedindo informações para passar para a equipe de TV que está lá, , procurando lugares em Berlin para passar para uma segunda equipe da mesma TV, fazendo um cheque para tirar dinheiro para meus filhos, que vão viajar nos feriados, procurando um encanador para ver um vazamento no banheiro, lembrando que ainda não tinha feito esta crônica e postando no blog. Meu marido estava online me pedindo um link para ver tv na rede e, ao mesmo tempo eu estava agendando uma entrevista pra hoje à noite com o Rodrigo Scarpa. E não posso esquecer que tenho que baixar uns vídeos sobre cangurus. Ainda tem outra crônica pra enviar hoje. E um dia de trabalho pela frente.

Sou a alquimista que faz esta sopa de tudo um pouco, no caldeirão quente da existência humana. Sou a bruxa que não para de meter e mexer a colher, jogando pitadas disso e daquilo pra melhorar o caldo. Sou o chinês que fica equilibrando dezenas de pratos nos palitinhos, cuidando pra que nenhum caia. De vez em quando cai, e quebra e aí, sou grega e saio dançando.

A vida da gente tem uma utilidade que é exercitar os dons que nos foram dados. Nunca soube exatamente quais são os meus e, por isso, vou fazendo um pouco de tudo e de tudo um pouco, assim, sempre, feliz da vida, como criança que brinca sem parar. De vez em quando, como uma banana, vou para o Pilates, saio com o cachorro. E quer saber? Bem ou mal dou conta de tudo. E da vida, só tenho mesmo uma queixa: estar acima do peso. Mas aos poucos eu vou dando um jeito. Acho que vou suspender a banana. E responder seu comentário. Posta um?

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta.

Escrito por Blônicas às 11h07
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Datilografado por Paulo Castro.

     Noite de segunda-feira na cidade sem luzes. Eu e minha úlcera. Realmente não esperava mais nenhum cliente. Eles não aparecem mesmo. Aparecem elas, para a minha dor de cabeça.
     Jogo todas as garrafas de uísque pela janela do escritório. E sento de novo, o telefone branco mofado. Claro que acendo um cigarro e fodam-se os anti-tabagistas.
     Quarta-feira estarei aí, no Studio SP. Com o Xico Sá. Enfim. O telefone meu é aquele que todo mundo sabe. 019-32424741. Pena que eles também sabiam. Não sei se sobrevivo até quarta. Sangro agora.
     -Alô. Editora Tabu e Investigações Particulares Castro.
     -O Nelson Botter está conosco.
     -Quem é conosco?
     -Não dizemos nossos nomes. Somos os anônimos de todos blogs.
     -Preciso de um nome para copiar e colar no "parabéns a você".
     -O típico cínico.
     -Você não gosta de mim, mas sua filha gosta.
     -Vamos matar o Botter.Escreva isso no Blônicas amanhã.
     -Não tenho tal poder. Quem manda é ele.
     (Som de socos, chutes e fórceps escrotais)
     -A senha é "deus do sexo selvagem".
     -Por Deus. Ele me disse isso outra noite. Santas ironias, Ronaldinho.
     -Ei, como você descobriu? A concentração é secreta!
     -Sou fã de samba. E minha dentista me ensinou a reconhecer um prognata.
     Desligou na minha cara. Liguei pra Gol. Os vôos até a Alemanha estão em promoção. Ninguém está colocando uma fé. A janela não me devolve as garrafas, gatos bêbados trepam desesperadamente sob a hóstia lunar.
     Tenho uma crise de narcolepsia e adormeço. Que Satã tenha River Phoenix em bons olhos.
     Acordo agora. Som de bateria e cornetas. Menti. Não sou fã de samba. Quarta-feira, vou provar isso no Studio. Se ainda estiver vivo. Sangro. Sou dos antigos. Apenas cinco balas na agulha. Sei lá o motivo: lembro do Marcelo Rubens Paiva assistindo algo do meu lado, na sala UOL. Queria perguntar um índice, na época, sobre sexo tântrico, mas me segurei. De Rubens a Rubem, prefiro o Fonseca. E claro, a melosa Patrícia. Não vejo minha vida passar em um segundo. Não gostei de "Quem Somos Nós?". Botter está gritando. Ele sente dor. Ele que sempre fez rima com amor. Mas decidiu, em seu último e artesanal livro, como me disse, deixar de ser bonzinho. Sei lá o motivo, mas lembro do Santiago Nazarian e como eu matei um personagem dele, no meu primeiro romance. "Uma mentirosa auto-biografia.". Que merda. Botter tinha ficado de ver um hotel pra mim entre Madalena e Pinheiros. Isso me enche de ódio, me toma a fúria. Gatos chapados morrem com sambistas patrocinados pela FIFA. Com 18 anos parei com o pó. Era algo excelente contra a narcolepsia. Caramba. Tinha ficado de assistir "Pergunte ao Pó" com o Botter, sem forçar nenhuma aliteração.
     Isso me enche de fraternidade absoluta, inaudita, cósmica.
     Levanto, lambo os lábios, destravo a arma.
     Abro a porta. Ganho o corredor. Fecho a grade do elevador. Piso no macio tapete persa. Tenho uma ereção. Cuspo um halls extra-forte.
     Lá estão eles. Conto duzentos e trinta plebeus. E um Botter sem as bolas. Aliteração que me persegue.
     Dou o primeiro tiro.
     Recebo o primeiro tiro.
     -Começou, seus merdas.

Paulo Castro é cronista do Blônicas e não se parece em nada com o Bogart.

Escrito por Blônicas às 21h44
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Por que o Brasil não vai ganhar a copa

De Milly Lacombe.

Seu Fernando nasceu no sertão do Piauí, há pelo menos seis décadas. Antes de completar um ano, perdeu pai e mãe. Sobreviveu porque é teimoso e, aos 15, se mandou para o Rio, onde o sol brilha sempre, mas a água não falta. Aprendeu a ler, e nada mais. Com 20 e poucos tirou carteira de habilitação e entrou para o serviço de frota de táxi. E assim vive até hoje, ainda no Rio. Me levou de um ponto a outro na semana passada. E foi nessa viagem que conheci sua história. Seu Fernando fala de política (odeia Lula e o PT), economia, literatura e, naturalmente, futebol com fartura. É um poço de sabedoria popular. E foi ele que me explicou por que o Brasil não vai ganhar a Copa.

O Brasil não vai ganhar a Copa porque levou para a Alemanha 23 celebridades, e não jogadores de futebol. Não vai ganhar porque nosso técnico, apesar de muito culto, capaz e hábil, está profundamente entediado com a rotina cinco estrelas de treinamentos/espetáculos. Aliás, nosso comandante já saiu daqui enfadado com seu ofício. Passou os últimos quatro anos sem fazer nada, a não ser ir de um canto a outro, em viagens cinco estrelas, assistir nossas celebridades jogarem além-mar. E agora, que terá que passar mais de 40 dias trabalhando de sol a sol, está de mau-humor. Mau-humor que é a moeda de troca nessa delegação. São 23 carrancudos. Quando brincam e fazem piadas, fazem entre eles, e, ainda assim, apenas para aparecer nas lentes das TVs, que os flagram quase 24 horas por dia, num tremendo bacanal bigbrotheriano. Sabem que estão sendo observados, e deixaram há muito a autenticidade em casa. São atores cumprindo seus papéis. Disputam cobranças de faltas para ver quem acerta a trave mais vezes, para entreter a platéia e, principalmente, para alimentar seus egos. Ganham por dia, entre contratos publicitários e salários, mais do que alguns de nós ganharemos a vida inteira. E, mesmo assim, reclamam que a vida é dura, é cheia de pressão – e de perguntas inadequadas. Essa seleção escolhe as perguntas que devem ser feitas a eles. Aceitam apenas os jornalistas que babam ovo. Nada de críticos. Afinal, são os melhores do mundo. E há de se ter respeito com eles. Por respeito, escalamos dois cones nas laterais. Cones que, em anos recentes, muito fizeram por nossa história esportiva. Mas, se é por dever histórico, deveríamos convocar Pelé desde 58 – e para sempre. Mas ai de quem ousar dizer que já não jogam como antes. Colocam as carrancas para fora e mostram suas garras. Ronaldo, aquele mesmo que em 98 protagonizou o mais misterioso dos acontecimentos em uma final de Copa do Mundo, visivelmente acima do peso, é o homem do humor-zero. Quando finalmente diz alguma coisa engraçada, fazendo referência ao apreço do Presidente por uma bebidinha, e deixando de lado, pelo menos por alguns minutos, a hipocrisia que impera nesse escrete e no mundo, depois faz média e avisa que vai votar no homem. E viva o puxasaquismo, viva a fama, viva o poder, viva a babação de ovo.

Enquanto estamos preocupados em alimentar e perpetuar nosso complexo de pitbull – que deu lugar ao antigo complexo de vira-lata, aquele que nos fazia baixar a cabeça antes de cumprimentar o adversário – nossos rivais são beneficiados pela falta de favoritismo. Cabe a nossos milionários da bola mostrar que são mais do que celebridades, são um time. Seu Fernando duvida que isso vá acontecer. Acha que o Brasil não vai driblar o próprio ego, que vai perder para a vaidade, vaidade que está cegando essa delegação de uma ponta a outra. Uma pena. Uma pena que uma geração tão talentosa saia de campo derrotada. E de nariz empinado. Porque, segundo nosso condutor, esses caras, esses 23 milionários entediados, não vão, nem assim, perder a pose.

Isso tudo dito, Seu Fernando pede licença para ir pegar outro passageiro. Aos 66 anos, precisa trabalhar diariamente para colocar comida na mesa. Mas disso não reclama. "Porque essa é a vida real, é a vida que enobrece, e me enche de dignidade. E é só isso que a gente leva daqui. Que se dane essa seleção".

Milly Lacombe é cronista do Blônicas aos domingos.

Escrito por Blônicas às 22h04
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Somos um livro de citações

De Tati Bernardi.

Você é uma mulher ou uma lesma? Ou você aprende a dançar a valsa ou abre uma pousada no meio do nada. Quem você pensa que é com esses peitos "mixurucus"? Dá vontade de fazer uma música com o que você escreve. É fácil gostar do difícil.
Tem frases que você não esquece nunca mais, ou porque mudaram sua vida para melhor, mostrando alguma verdade óbvia e nunca antes exposta com tanta força; ou para pior: porque rimaram perfeitamente com a sua baixa auto-estima.
Tem aquelas também que apenas imortalizam-se como um dos melhores elogios que você já recebeu: "você é a mulher mais linda do mundo", me disse uma vez o meu avô, quando eu era criança, com a esperança que eu acreditasse e parasse de subir no bidê para alcançar o espelho do banheiro, podendo causar algum acidente caseiro. Eu acreditei e parei.
Eu era praticamente virgem (só tinha transado, male e male, com um carinha que nem entendia muito da coisa) quando o homem que pontuaria o instante exato da transformação da minha vida pacata e sem grandes emoções, em histórias divertidas, proibidas e complicadas, se virou pra mim, no meio de cerimônias cínicas e timidez quase indecente, e disse, acariciando a aliança gigante: mulher gosta mesmo é de uma encrenca.
Em menos de uma semana, eu era inteira sorriso e confirmava para mim mesma, enquanto ele, atrasado, tomava um banho rápido, a afirmação dita com tanta clareza de incontestação: mulher gosta mesmo é de uma encrenca, e como.
O Serginho, um garoto de onze anos, foi quem mais forte esmurrou minha vaidade pré-adolescente. Mas é também um forte candidato a responsável, hoje, por gavetas e cabides lotados de roupas decotadas. "Quem você pensa que é com esses peitos mixurucus"?, disse, querendo, na imbecilidade de sua mente verde e punheteira, que eu tivesse, aos dez anos, os seios das vagabundas de bocas entreabertas e línguas de fora das revistas que ele deveria colecionar.
Quem eu penso que sou não tem nada a ver com meus peitos, mas parte superficial da minha auto-estima, hoje, eu devo a eles, que cresceram substancialmente nos últimos 15 anos que se seguiram depois que o Serginho, hoje gordo, careca e casado com uma despeitada, desbundada e sem nenhum sal, ousou dizer a frase que me deixaria corcunda, deprimida e mais pobre (por causa das terapias e fisioterapias) durante a adolescência. Frases são macabras com as crianças.
Pode apostar, as frases que mais te marcaram, e mais são responsáveis por muito do que você é hoje, você ouviu na infância. Assim como Freud, na minha opinião, estava certo quando elevava o sexo ao centro de suas especulações a respeito das razões humanas, também não estava errado quando dizia que tudo é culpa da sua mãe, do seu pai e de quem mais participou da sua criação.
"Mas eu também amo você", foi o que minha mãe me disse quando eu, aos dez e poucos anos (o idadezinha marcada pela desgraça) perguntei se ela amava o namorado. Errado mãe, você deveria ter respondido "mas eu amo muito mais você", eu não tenho dúvidas de que eu era a predileta, afinal, filho é filho e ela nunca deixou de me colocar em primeiro lugar, mas não foi o que ela respondeu, naquele momento em que me enchi de coragem para testar o quanto o centro do mundo (que aos 10 anos é a sua mãe) me amava, simplesmente não foi. E foi naquele dia que ela, fritando um bife e sem paciência para conjeturar sobre as coisas da vida, me apresentou para a minha alma solitária e cheia de ódios. Posso estar cercada de mundo que me sinto numa ilha deserta. Posso estar cercada de amor que me sinto traída e posta de lado. Estou sempre em busca do verdadeiro amor, só meu, só para mim, e estou completamente cega para ele.
Mas foi também, naquele momento, que eu criei a consciência de que eu não era única no universo e que, para sobreviver, tinha que aprender a dura arte de dividir meu espaço com o mundo. Tudo isso entre uma virada e outra no bife.
Outra dos meus pais, muito repetida durante toda a minha adolescência e super esclarecedora e motivadora para quem está em busca da própria identidade: "você é igual seu pai", dizia minha mãe. "Igualzinha à mãe", dizia meu pai. É, na loucura com certeza eu herdei muito dos dois.
Mas apesar dos garotos estúpidos de onze anos que, no auge da sua insegurança com as mulheres (auge que dura até os trinta e poucos anos) só querem detonar com elas, dos deslizes dos pais e mães que, ao contrário do que a gente espera, são humanos e também erram, das armadilhas da vida (que são ainda mais atrozes para uma menina mimada e filha única), e dos homens divertidos que nos alertam que a vida também pode ser muito divertida e o nosso corpo também pode divertí-los bastante, um dia a gente cresce e precisa trabalhar. Trabalhar para valer, ser alguém. "Eu não vou perder por pouco" me disse, uma vez, o meu chefe querido que me deu a primeira chance para virar uma redatora e continua não perdendo por pouco chegando todos os dias antes de todo mundo e indo embora depois. Para mim ele é perfeito, para a família, bom, vamos esperar um dia um texto do filho dele falando sobre seus próprios traumas, tipo esperar o pai até duas da manhã todos os dias e nem vê-lo sair pela manhã.
"Eu não vou perder por pouco" é o que me faz continuar escrevendo mesmo quando o meu fortíssimo lado preguiçoso tenta me convencer de que o trabalho já está pronto. Lado preguiçoso que sempre foi comentado, com maestria, simplicidade e ironia, pelo meu avô, que entre outras frases célebres ao meu respeito, como "onde encosta, dorme", referia- se à minha preguiça dizendo "essa aí não vai dar em nada". Lembro disso achando graça, beleza e com a certeza de que ele estava errado, taí o Domenico de Massi que não me deixa mentir.
Mas nem tudo são flores na vida de quem luta por um lugar ao Sol: cá estou eu, mais uma vez, sem um grande amor. E isso, para botar um sorriso esculachado nesse meu rosto, que segundo um inesquecível namorado "é dotado de uma beleza renascentista", me lembra a despreocupada frase de um amigo, excelente redator e extremamente charmoso, que me disse, certa vez, no meio de uma de suas risadas escandalosas: "ce já tá na pior, piorar não vai".
E piorar não vai mesmo, "o mundo pode desabar que eu continuo de pé", é o que minha psicóloga, muito bem paga por toda a minha adolescência, tentou colocar na minha cabeça, como um mantra, e conseguiu. Essa frase sempre grita na minha mente quando o corpo tende a dar umas tombadas medrosas e fracas.
E assim vou seguindo, às vezes deitada, às vezes curvada, às vezes de quatro, mas sempre de pé, minha vida. Com a certeza de que sou uma mulher, e não uma lesma, como me desafiou uma mega atleta da faculdade, quando meu viu parar, esbaforida, no meio da escada de cinco andares que nos levava até a classe.
Vou seguindo, dançando a valsa da sociedade enquanto me convir, amando o difícil enquanto me der tesão e tentando escrever textos que causem qualquer coisa em qualquer pessoa. Assim como um texto do Walcyr Carrasco, na Vejinha, que dizia como uma frase dele, a respeito dos escritores, tinha feito um amigo, que nunca lia, virar um leitor assíduo, me causou a maior vontade de escrever esse texto.
Eu poderia ficar aqui dias inteiros lembrando de ditos memoráveis e contando suas histórias, mas a frase "você fala demais", repetida mais de uma centena de vezes, e boa parte delas por homens que eu adoraria que tivessem me calado à força, me faz lembrar que já é hora de parar.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 14h46
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O gordo contra o bêbado

De Henrique Szklo

A troca de farpas entre o presidente Lula e o craque Ronaldo acende uma fogueira que pode incendiar de vez a já chamuscada sociedade brasileira. Imagine se a moda pega e as pessoas comecem a lançar setas venenosas em todas as direções sem preocupação com os desdobramentos, arepercussão e principalmente com o troco que inevitavelmente vem. Até porque ofensa pessoal é como bumerangue.

O brasileiro, povo sempre tão cordato e simpático, que em geral não gosta de colocar o outro em posição constrangedora com perguntas indiscretas ou afirmações irônicas, passaria a se comportar como um verdadeiro sociopata, insensível ao sentimento alheio. Desinteressado da dor do próximo. Enfim, estaremos finalmente assumindo a nossa face negra, aquela que sempre procuramos esconder atrás do sorriso afável e do inofensivo e carinhoso tapinha nas costas. O tapinha agora seria acompanhado de uma adaga afiada, encravando sem dó nem piedade nas costas de quem quer que seja. Perderemos tudo, menos a oportunidade de destruir alguém.

Sem pensar muito já começo a imaginar o Zé Dirceu saindo na rua e o atendente da padaria, enquanto lhe serve a média com manteiga com sorriso nos lábios, perguntaria se é verdade o que dizem dele, que ele é um corrupto desgraçado e ladrão sem-vergonha. A resposta seria mais ou menos no mesmo nível: “Se eu sou assim é porque não desejo morrer pobre e miserável como todos os atendentes de padaria”.

Daniela Cicareli não poderia comprar uma revista na banca que o jornaleiro perguntaria, na maior cara lavada, se é verdade que ela só faz sucesso porque é gostosona e que está super afim de arrumar um casamento rico. Resposta da modelo, apresentadora e atriz: “É verdade sim, faço sucesso porque tenho atributos que os homens apreciam, diferente da sua mãe”.

O Jô Soares, pararia seu Mercedes último tipo num farol, e um menino de rua o arguiria, inocentemente, se é verdade que ele não tem a menor noção de que aquela dancinha que ele faz no programa é muito ridícula. E que ele perdeu a graça há muito tempo. A criança carente receberia um beijo do Gordo e um riso irônico, já que ele sabe no íntimo que ela nunca será gordinha como ele.

O nosso grande tenista Guga Kuerten estaria em um restaurante almoçando com uma de suas várias namoradas e logo chegaria um garçon perguntando se é verdade que ele caiu tanto de produção porque está mais preocupado em pegar mulher do que em jogar tênis. O ex-número 1 responderia de bate-pronto, sem deixar a bola pingar: “É verdade. Tenista de sucesso pega quem quiser. E garçon, como é que é?”.

Outra imagem que eu imagino é a do Marcola em sua cela e um agente penitenciário perguntando se seria verdade que ele manda e desmanda no PCC mesmo estando encarcerado e a resposta seria dada de forma quase que instantânea e bastante direta. O enterro do agente seria no dia seguinte.

É por essas e por outras que eu acho que a atitude do presidente e do artilheiro não foi nada boa para o Brasil. Eles são símbolos, referências, representam a nossa pátria e não podem sair por aí criticando quem quiserem a torto e a direito. Mas que o Ronaldo está meio gordinho e o Lula gosta de uma caninha, isso lá é verdade.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e adora uma intriga. Conheça seu site,  o blog da mãe e o seu novo livro O Grande Milk-shake e os Canudinhos Mentais.

Escrito por Blônicas.. às 16h13
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O Brasil de cabelo liso

De Leo Jaime.

De vez em quando o país é tomado por umas manias. Tínhamos a nostalgia dos olhos azuis. Era comum ouvir dizer que alguém, com olhos de jabuticaba, tivera olhos azuis na infância. Talvez uma cabeleira quase branca emoldurava-lhe o rosto infantil. E isso era dito quase que clamando: " eu era um anjo". Sim, porque houve uma época em que os anjos nacionais eram todos, uniformemente, louros de olhos azuis. Porém, e este detalhe é de suma importância, anjos podiam e deviam ter cabelos encaracolados.

É claro que as lentes coloridas existem e podem  suprir esta nossa possível carência. Não li estatísticas sobre o assunto mas imagino que no que tange a lentes coloridas a fabricação de lentes azuis deve ser bem maior que a de lentes verdes e estas devem superar com facilidade as castanhas ou muito mais as de tom azeviche. Alguém sabe o que é azeviche? Olhos negros são lindos, não é mesmo? E raros! Mas não sei se lentes negras dão lucro. Não aqui. Mas pode ser apenas uma suposição sem pé-nem-cabeça, partindo do princípio que a tintura de cabelo que pinta de negro, ainda que muito útil para quem não quer ver fios brancos na cabeça, é muito menos vendida do que a de quem quer uma cabeleira loura. Houve uma época em que imaginei que toda brasileira seria loura um dia. Um exagero, evidente. Mas, por um dia, apenas, acho que se pudesse, a maioria das meninas gostaria de ser. Ou não. Isso foi outra mania, em outra época. A mania agora, vai ver é moda, é o cabelo liso.

Já ouvi uma amiga dizer que quando seus cabelos estão lisos ela é mais respeitada. Sim, a sua vida é mais fácil, no comércio, na rua, por aí. Será verdade? Escovas, chapinhas, alisamento japonês, são muitos os recursos para evitar as ondas naturais. Pois eu lembro com clareza de uma época em que a mania era o permanente, que fazia as tais ondas, e a justificativa era a de que o cabelo liso, reto e escorrido, era a coisa mais lambida e sem graça do mundo, que não tinha jeito de pentear, arrumar, que era praticamente uma condenação. Pois é.

Somos bons em futebol. Somos bons também em cirurgias plásticas. Nossas mulheres se operam muito. E a mudança na cor ou o tal alisamento no cabelo parece seguir esta mesma estatística, comprovando uma insatisfação permanente com o próprio corpo.

Um detalhe: se a revista Playboy serve de alguma coisa para definir um padrão estético, um tipo de mulher que os homens brasileiros gostam, é preciso dizer que as morenas freqüentam a capa daquela revista numa proporção de 2x1 em relação às louras, ou seja, os nossos rapazes preferem as morenas. Será que elas têm os cabelos ondulados ou lisos? E a Gisele Bündchen?

Mas quem falou que os cabelos lisos das mulheres são para agradar aos homens? E será que são para agradar? Vai ver é só mania. Cada um tem a sua, né? Tem gente, por exemplo, que quer ver todos os jogos da copa. Coisa mais esquisita!!!!!

Leo Jaime é cronista do Blônicas todas as quintas.

Escrito por Blônicas às 08h37
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A 2

De Nelson Botter.

Ele acorda. Ela acorda. E a corda não arrebenta. Pode puxar, ela há de agüentar. Mais um dia, mais um mês, mais um ano, mais uma vida. Uma vida a dois, regada de dificuldades, mas que lhes proporciona colheitas espetaculares. Aprenderam os truques de um bom plantio. Nada sabem, é claro, mas sabem. Doeu aprender, mas como ele disse a uma querida leitora essa semana: "a dor é necessária", ainda mais quando o assunto é amor, que é quase um masoquismo, vai ver até é... vai ver e verá. Basta observar, estúpido cupido, as coisas boas da vida são sempre ligadas à dor, pois procuramos o gozo contínuo, a satisfação da insatisfação latente. E isso dói, como dói. Quem disse foi o velho do charuto, aquele da Rua Berggasse 19, nada tenho com isso e não aceito reclamações.

Uma vida a dois dói muito, e não são todos que suportam a dor, não senhor, alguns preferem sofrer em outra freguesia, cansam de assoprar o corte, resolvem lambem as feridas e seguem em frente, pois lá tem mais gente. Digo ainda: ninguém é obrigado a agüentar tanta dor, seja em que nível for. A corda arrebenta. Plac! Não há departamento de atendimento ao cliente que resolva. Para falar abobrinhas tecle 1, para choramingar tecle 2, para quebrar o pau tecle 3 ou permaneça na linha para falar com um de nossos novos divorciados.

Ele custou a aprender, ela também, tanta cabeçada, suturas por todos os lados, mas resolveram – apesar de todo o medo – encarar o desafio, numa era em que as relações estão ameaçadas pela alta demanda, pelo dinamismo que a superficialidade do mundo ‘ponto com’ nos oferece, pois são muitos os perigos que o poetinha de Moraes já via nessa vida e nas que virão. Mas havia tantas estrelas naquela noite, tudo escrito lá, no mapa desenhado sobre a cabeça deles, o frio beijava-lhes a pele e os astros morriam de inveja de tanta dor, ou melhor, tanto amor. As trevas não mais existiam, Neruda. Fiquemos juntos, disseram, e assim o fizeram.

E a dor faz jorrar o sangue, todos os dias, mas é preciso estancar a ferida com a ponta da faca incandescente, cauterização just-in-time, que traz o alívio, o gozo. Ele quer gozar nela, ela quer gozar nele, eles querem gozar no mundo, mas o mundo não quer gozar neles. Entretanto, se deixam levar pela dor, isso é amar, é ousar um salto no escuro, é confiar seu destino a mais do que apenas você, é permitir que a tampa feche a panela, é escolher um cúmplice para as piores e melhores horas, é sentir de verdade a razão de se viver por viver.

Dói, mas passa, por isso quem é feliz com essa dor recomenda. Quem não é feliz com essa dor tem inveja de quem é. Os mais bem resolvidos, que preferem convictos uma outra dor, a da solidão, no fundo querem morrer mergulhados na dor maior. E quem prefere fugir de todas as dores não sofre, mas também não goza. A pele vira látex, perde-se tanto do tanto, Byron, meu lorde.

Vá, leve adiante essa que talvez seja a maior das perversões, a prisão que liberta, a indefectível filosofia na alcova, o que nos torna rijos e pulsantes. Viva a dor de viver a dois e viva duas vezes mais. É um gozo só...

Nelson Botter é cronista do Blônicas e do BlogGol na Copa.

Escrito por Blônicas às 10h32
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Quando elas pegam pesado

De Xico Sá.

Sim, o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria, como disse o poeta, um romântico inglês de marca maior, William Blake. Em muitas ocasiões, vale o verso. Em uma, em especial, pode ser um desastre. Palavra de homem, confesso.

Sabe quando ela tenta ser sexy ao extremo?

Ai é que mora o perigo. Fica tão caricato, meu Deus, que nos brocham, afastam. Elas ficam parecendo manequins de sex shop: modelão over, minissaia, decote, lingerie, perfumes apurados, coreografia ensaiada, beicinhos fora de hora...

Se a gente vai para a casa delas, deus mio, pior ainda: lá está o incenso exagerado e enjoativo, a luz ensaiada, os sais fervilhando na banheira _se for o caso de uma dama bem de vida_ e todo um circo que nos tira do prumo.

E haja caras de “sexy”, coisa de quem aprendeu, passo a passo, nas páginas de revistas que “ensinam” as mais novas posições para um orgasmo infalível! Como se o kama-sutra fosse pouco.

Mulheres, esqueçam o kit sex shop. É mais importante uma safadeza, um charme, um suspense no olho durante um jantar, do que a extravagância propriamente dita. Se cuidar, ficar bonita, é de lei, claro; mas não carece carregar nas tintas do desejo.

Não que tenha que acreditar na canção do Dorival Caymmi, esse gênio, que aconselha a Marina não pintar sequer o rosto, que é só seu... Isso é poético, mas uma pintura, um jeito no cabelo, apreciamos, nada mais lindo.

Nada como reforçar a chance que Deus lhe deu com os novos milagres da cosmética e da beleza, como naquele velho receituário de Ovídio. O que não pode é exagerar da cabeça aos pés, com roupas, acessórios e badulaques que, em vez de sexy, podem estragar a festa.

O exagero entrega muito rapidamente o jogo para o homem, elimina um certo suspense, aquela coisa de saber até que ponto ela está ou não ao alcance do nosso desejo. Ora, se ela já chega toda entregue, do decote ao salto, que nos resta de imaginação?

Nada mais sexy que o suspense, o jogo, nem que seja falso, nem que você já tenha chegado toda dele e pra sempre. O sempre possível. O sempre que pode.

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 13h32
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O homem da escada

De Tati Bernardi.

Ele comia a professora de power yoga do 43, comia a ex-semi-virgem que de tão magra a gente via os pêlos pubianos porque o osso da bacia levantava o biquíni, e comia até a Rose, mãe da Paulinha, mulher casada há 12 anos e meio e que vivia suspirando e esticando os pés de galinha no espelho do elevador.
Um belo dia, o porteiro encheu os olhos de vida e contou para a minha empregada: “Ele comeu a Dona Silvia na escada do prédio.”
Dona Silvia não prestava nada, até cantavam pra ela da quadra lá embaixo: “Ô Siiiilvia, piraaaanha”. Coisa que os pais devem ter ensinado, porque essa música é velha demais para estar na boca de adolescentes espinhentos que batem playstation todos os dias. O fato é que o porteiro encheu muito os olhos de vida e continuou “Deu pra ver tudo pela câmera de segurança, ela ficou de quatro e ele mandou ver… uma, duas, três vezes.”
Não sei ao certo se a máquina sexual em forma de vizinho pagava uma caixinha para o porteiro sair pelo prédio espalhando tantos elogios ao seu desempenho, e por isso mesmo comia todo mundo, ou se aquilo era apenas uma conversa corriqueira na porta da minha cozinha, entre uma canção e outra da rádio evangélica da Maria. Só sei que comecei a gostar tanto do papo, que até sentei pra ouvir melhor.
O porteiro soltou uma imensa gargalhada, transbordou de vez uma louca vida dos seus olhos, e concluiu: “Antes de largar a Dona Silvia lá, caída no chão, ele fez um tchauzinho pra câmera de segurança, a gente tava tudo lá, eu e os outros, e aplaudimos o Seu Flávio de pé.”
Eu não precisava ouvir mais nada, estava decidido, ia dar pra esse cara, esse cara era o cara, era o comedor, era o homem perfeito pra gente se divertir um pouco enquanto o amor não vem. Era o cara pra esquecer o romantismo e celebrar a vida mundana.
Sim, eu sou uma nova mulher, uma mulher que faz curso de astrologia, yoga, meditação, mitologia. Uma super mulher decidida a morar sozinha, decidida a ser feliz sozinha, decidida a viajar pela Europa, decidida a nunca mais ter um emprego idiota que não permita cursos divertidos, viagens e curtir a minha plena existência. Independente, espiritualizada, analisada, madura… mas, francamente: o cara mandou uma, duas, três na escada, e ainda deu tchauzinho pras câmeras? Que se dane o espírito e a evolução, meu ego precisava trepar com esse ser divino e pronto.
Usei minha tática predileta para comer um homem: um dia, como quem não quer nada, numa dessas cruzadas pelo estacionamento do prédio, contei que era escritora. Não sei explicar o que acontece, mas quando um cara descobre que eu escrevo, é mais de meio caminho andado para querer desesperadamente me conquistar.
Não sou promoter da Lotus e nem faço parte do “super insane guetto no brain mega pop star das super gatas iradas da festa do branco do Sirena”, sou apenas uma escritora que senta a bunda flácida de frente pro laptop e escreve a porra do dia todo. Mas eles não estão nem aí, eles querem comer minhas personagens, minhas putarias, minhas neuroses, a fotinho que sai na coluna da VIP, minhas fãs do Orkut, minhas estranhices, o glamour da literatura, sei lá... “Uma loirinha jeitosinha e ainda sabe escrever mais de um parágrafo sem falar ‘tipo assim, irado’? Desse tipo ainda não experimentei.”
Não deu outra, no mesmo dia, provavelmente após ele ter lido alguma coisa minha (claro que dei todas as pistas), chegou um longo e-mail com mil elogios à minha sensibilidade e um amável convite para ir jantar no dia seguinte.
Topei e corri para o armário: o homem que deu uma, duas, três na escada e ainda deu tchauzinho para a câmera merecia a produção mais sexy do mundo.
Achei estranho quando flores chegaram pela manhã e mais estranho ainda quando ele abriu a porta do carro para mim. Mas tudo bem, daqui a pouco o macho animalesco ia surgir e me comer em cima do capô, atrás da igreja ou no banheiro do restaurante. Aquilo tudo era figuração para prorrogar o clímax e torná-lo ainda mais feroz.
Fez questão de pedir um vinho chique de uma uva sul-africana chique e ainda pediu que acendessem as velinhas da nossa mesa. Segurou minhas mãos, brilhou os olhos e falou cheio de ternura: “Ontem você me fez chorar.”
Não, não, ele só pode ter confundido o verbo, provavelmente quis dizer: você me fez gozar, me fez ficar louco, me fez ter que dar uma, duas, três no banho, me fez qualquer coisa mais animadinha… mas chorar?
Ele continuou “Sabe, não agüento mais essas conquistas vazias pelo mundo a fora, o sexo sem alma, a falta de companhia inteligente para uma vida.”
Mas justo na minha vez? Poxa, a professora de yoga tinha gritado tanto na sauna que deu pra ouvir até no quarto andar seus mantras. Depois ele desvirginou a modelete ossuda que vivia pagando de gatinha na piscina e até eu queria pegar, depois quebrou o galho da Rose que via o mesmo pinto mole há mais de doze anos, e fechou com chave de ouro comendo a Silvia tal qual uma cadela. Justo na minha vez ele ia querer filminho do Hugh Grant embaixo do edredon? O que eu tinha feito para merecer tamanho desprezo?
“Olha, eu vi em você o que eu sempre procurei em uma mulher: profundidade.” Então, amigo, isso mesmo, profundidade, não vai querer conhecer a minha profundidade agora embaixo da mesa?
Ele passou a noite toda olhando nos meus olhos, sem desviar sequer um segundo para meu decote. Contou da separação dos pais, da dificuldade de engravidar da irmã (aproveitando para deixar claro que ele está louco para ser pai) e do quanto amava os cachorrinhos, a natureza e o amor.
Quando finalmente chegamos juntos ao elevador do nosso prédio, ele apertou seu andar e o meu, matando de vez qualquer esperança minha de ser devorada loucamente naquela noite. Se despediu com cara de bobo e ainda mandou uma mensagem de texto pelo celular quando eu já estava frustradamente deitada na minha cama: “Foi uma das melhores noites da minha vida.”
Dormi mais uma vez me sentindo usada pelos homens.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 14h43
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