COLUNISTAS
MILLY LACOMBE


XICO SÁ

CLÉO ARAÚJO

NELSON BOTTER JR

TATI BERNARDI


LEO JAIME


ANA REBER

HENRIQUE SZKLO

GIOVANA MADALOSSO

CARLOS CASTELO

BIANCA ROSOLEM

LUSA SILVESTRE

EDSON ARAN

SILVIO PILAU


AQUI VOCÊ TAMBÉM ENCONTRA:

Ailin Aleixo
Antonio Prata
Carol Marçal
Cristiana Soares
Evandro Daolio
Gisela Rao
Marcelino Freire
Rosana Hermann
Paulo Castro

E MAIS:
Alexandre Heredia
Ana Paula Ganzaroli
Analice Alves
Edgar Costa Neto
Felipe Soares Machado
Helena Marcolini
Isadora P. Szklo
Klauss Klein
Lívia Venina
Lu Paiva
Luís Couto
Luis Gonzaga Fragoso
Marcelo Ferrari
Marcelo Sguassábia
Mauro Judice
Ricardo Campos Soares
Ricardo Prado
Thaís SBA
Thaty Hamada



ARQUIVO

01/02/2011 a 28/02/2011
01/12/2010 a 31/12/2010
01/08/2010 a 31/08/2010
01/07/2010 a 31/07/2010
01/06/2010 a 30/06/2010
01/05/2010 a 31/05/2010
01/04/2010 a 30/04/2010
01/03/2010 a 31/03/2010
01/02/2010 a 28/02/2010
01/01/2010 a 31/01/2010
01/12/2009 a 31/12/2009
01/11/2009 a 30/11/2009
01/10/2009 a 31/10/2009
01/09/2009 a 30/09/2009
01/08/2009 a 31/08/2009
01/07/2009 a 31/07/2009
01/06/2009 a 30/06/2009
01/05/2009 a 31/05/2009
01/04/2009 a 30/04/2009
01/03/2009 a 31/03/2009
01/02/2009 a 28/02/2009
01/01/2009 a 31/01/2009
01/12/2008 a 31/12/2008
01/11/2008 a 30/11/2008
01/10/2008 a 31/10/2008
01/09/2008 a 30/09/2008
01/08/2008 a 31/08/2008
01/07/2008 a 31/07/2008
01/06/2008 a 30/06/2008
01/05/2008 a 31/05/2008
01/04/2008 a 30/04/2008
01/03/2008 a 31/03/2008
01/02/2008 a 29/02/2008
01/01/2008 a 31/01/2008
01/12/2007 a 31/12/2007
01/11/2007 a 30/11/2007
01/10/2007 a 31/10/2007
01/09/2007 a 30/09/2007
01/08/2007 a 31/08/2007
01/07/2007 a 31/07/2007
01/06/2007 a 30/06/2007
01/05/2007 a 31/05/2007
01/04/2007 a 30/04/2007
01/03/2007 a 31/03/2007
01/02/2007 a 28/02/2007
01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/11/2006 a 30/11/2006
01/10/2006 a 31/10/2006
01/09/2006 a 30/09/2006
01/08/2006 a 31/08/2006
01/07/2006 a 31/07/2006
01/06/2006 a 30/06/2006
01/05/2006 a 31/05/2006
01/04/2006 a 30/04/2006
01/03/2006 a 31/03/2006
01/02/2006 a 28/02/2006
01/01/2006 a 31/01/2006
01/12/2005 a 31/12/2005
01/11/2005 a 30/11/2005
01/10/2005 a 31/10/2005
01/09/2005 a 30/09/2005
01/08/2005 a 31/08/2005
01/07/2005 a 31/07/2005
01/06/2005 a 30/06/2005
01/05/2005 a 31/05/2005
01/04/2005 a 30/04/2005
01/03/2005 a 31/03/2005
01/02/2005 a 28/02/2005
01/01/2005 a 31/01/2005


LIVROS



EM BREVE



Visitantes únicos desde 15/01/2005
Site Meter Add to Technorati Favorites

XML/RSS Feed
O que é isto?

Leia este blog no seu celular


Larga a mão de ser criança.

Por Tati Bernardi.

Tatá era uma criança muito pensativa, entediada e sofria da pior síndrome psicológica que uma criança pode sofrer: não se sentia desse planeta.
Ela fazia todo mundo rir com suas danças esdrúxulas, suas caretas bizarras e seu raciocínio incomum, mas por dentro ela sabia que todo mundo ria e ia embora, logo ela estaria de volta ao seu solitário e chato planetinha neurose.
Um dia, quando Tatá tinha lá pelos seus sete anos, eu sentei com ela na escada vermelha da casa da nossa avó e prometi, acreditando na promessa: calma garotinha pálida de perninhas tortas, um dia você vai viver uma vida de cinema, um dia todos os dias serão incríveis, todas as comidas serão de chefs renomados (desde aquele tempo eu já era metida), todos os amores serão intensos e eternos, todos os dinheiros serão acessíveis, todas as viagens serão possíveis, todos os amigos morrerão pela sua companhia, todas as casas serão com vista para o mar e um campo florido, todas as tardes serão lilás, todas as noites estarão à sua espera.
Tatá arregalou os olhos, me abraçou e nunca mais chorou pedindo a Deus uma vida com mais emoções. Sempre que ela comia quiabo ou assistia a algums desses programas dominicais com a família inteira roncando na sala, ela apenas se dizia em voz baixa: um dia nada será rotina, nada será chato, nada será morno, nada será banal. Um dia eu vou acontecer e o mundo estará aos meus pés.
Esse foi o jeito que eu arrumei, na época, de seguir em frente. Sim, as garotinhas bailarinas do recreio desfilavam enquanto ninguém olhava pra mim, as crianças normais praticavam esportes e nadavam no mar enquanto eu e meus óculos fugíamos de bolas e serenos, afinal, minha família sempre me fez acreditar que eu era mais frágil (e vai ver eu era…). Sim, as crianças normais do meu prédio se machucavam na quadra, tomavam chuva, pegavam doenças estranhas umas das outras (eu nunca tive um sarampinho na vida!) e vire e mexe subiam o elevador chorando e aprendendo a parar de chorar. Eu brincava o tempo todo no carpete da sala, sempre protegida de tudo e de todos, menos da minha cabecinha maluca que achava que o mundo todo era feliz e se divertia muito, menos eu.
Mas tudo bem, eu pensava, um dia vou nadar mais que todo mundo, praticar esportes mais que todo mundo, ir para a praia mais que todo mundo, ter mais amigos que todo mundo, ser mais bonita que todo mundo, mais rica, mais popular, mais amada, mais desejada, mais inteligente, mais incrível… tudo bem, é só eu ter paciência, um dia eu vou ser a melhor do mundo.
Vinte anos depois aqui estou eu, mais meia boca do que nunca. Não sei mais se quero publicar um livro, será que essas linhas valem uma capa? Não sei mais se quero amar alguém, afinal, o amor é imperfeito e sempre me decepciona. Se com 27 anos não consegui ter o corpo das atrizes do Malhação, não vai ser com 37.
Eu não conquistei o mundo porra nenhuma, muito pelo contrário, eu não conquistei nem a minha cachorra, que prefere a empregada.
Não dei um jeito no rodamoinho do meu cabelo sempre sem jeito, não dei um jeito na minha canela fina, não dei um jeito na minha bunda de preguiçosa. Continuo fugindo de bolas, friagens, águas profundas e vírus. Tenho sim uma boa centena de amigos, mas só gosto, e de vez em quando tenho saco, para uns dois ou três.
Outro dia desses eu ganhei uma viagem para ficar num hotel mil estrelas com mil mordomias, mil festas e com vista para a Riviera Francesa. Adivinhem? Acordava triste todos os dias, afinal, não era bem a Riviera Francesa que eu tinha me prometido há 20 anos, era o mundo inteiro.
Não aguento nenhum emprego, afinal, todos são chatos. Não aguento nenhum namorado, afinal, nenhum é perfeito. Não aguento mais levantar da cama de manhã, afinal, nenhum dia é exatamente como eu gostaria que fosse. Não me aguento mais, afinal, eu não virei a mulher que eu queria.
Eu era uma fraude, um erro, eu não tinha dado certo. Minha vida era chata, meu dia era chato, as raras felicidades sempre acabavam ou se mostravam mentiras da minha cabeça. Quem ia me aturar assim, sempre insatisfeita? Eu própria não dava conta das minhas exigências e não me suportava mais. Tudo tinha dado errado, eu continuava me sentindo de outro planeta e, pra piorar, eu tinha mentido para a minha menininha, a única que eu prometi fazer feliz na vida.
Escolhi o vigésimo andar do prédio que eu trabalho e dalí fiquei olhando para a infinita escada vermelha. Estava decidida, fechei os olhos, levantei os pés, soltei a mão do corrimão, enclinei o corpo.
De repente, uma mãozinha pequena e gorducha agarrou na minha camisa e me puxou com uma força que eu jamais poderia acreditar que era dela. Estava escuro mas eu reconheci o rodamoinho na testa, as botinhas ortopédicas e os dentes cheios de aparelho. Foi então que ela me disse, ajeitando os óculos: ei, larga a mão de ser criança!

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas... às 10h20
[]


Decisões de Almoço

Por Castelo.

A comida já não é a mesma.

Fazem uns beirutes mais ou menos. Porém a proximidade das mesas colabora na audição das conversas paralelas.

Ontem se colocaram a meu lado, por assim dizer quase sentadas sobre minhas pernas, duas garotas dos seus 27 anos.

Uma era miudinha, até no vestir se mostrava contida, tons pastéis, nada sobrando ou faltando. Falava no modo minimalista. Era a escada.

A outra, o oposto.

Dama alta, fartos peitos morenos, cadeiruda, ar de diva. Camisa branca encimada por um lenço encarnadíssimo.

Trazia o ar convencido das que se acham irresistivelmente palatáveis.

Depois de ordenarem os pedidos (duas saladas, croutons, dois sucos de melancia) abriram a conversação. E esta não podia ser mais direta ao ponto. Disse a cadeiruda:

- Você sabe que eu fodo bem, não sabe?

A miúda assentiu timidamente com a cabeça, enquanto lançava uma fina fileira de azeite de oliva por cima do pão árabe. Sua falta de energia passava a impressão de que não dominava as entranhas tão bem quanto a colega.

Com olhar provocador, a polpuda prosseguiu:

- Pois então, tomei uma decisão: chega desses caras tipo malhadores. Eu só quero agora os caras tipo metedores, saca?

A colega não chegou lá.

- Então eu vou desenhar pra você entender - ralhou a grandona, irritada.

E seguiu a falação quase ao pé do meu ouvido:

- Bom, primeiro baixei meu nível de exigência. O cara não precisa mais ser um deus grego. Não mesmo, juro. Sabe o Waguininho?

- Hum.

- Então, não precisa ser como o Waguininho, aquele peitoral todo e tudo.

- Sei.

- E tem mais o seguinte: daqui pra frente acabou a viadagem. Eu tô ferrada, carro leiloado, mãe falida, conta atrasada. Eu só dou pra quem me der. Tipo que nem o Magno ontem. Ele me pagou um puta jantar num japonês, fomos pra casa dele. Ficamos. No fim, ele me descolou um dvd.

- Que filme?

- Meu, se liga. E o Magno lá é ator? Picas. Ele me deu foi o aparelho de dvd dele. E, olha, maneiro demais, estalando de novo: porrada de luzinhas, controlinhos.

Chegaram os pratos. Atracaram-se com as saladas e os croutons. Por coincidência, também veio meu beirute e o suco de laranja. A conversa e a audição caíram para B.G.

Mas o silêncio não duraria.

Foi a miúda, dessa vez, quem abriu a segunda parte da contenda.

- Então quer dizer que agora você troca sexo por jantares e eletrodomésticos?

A grandona corou.

- Você tá me chamando de puta, é isso, meu?

- Não. Tô só te fazendo uma pergunta.

Pausa nervosa. O oxigênio ficou, de repente, quase insuficiente para arejar o salão.

A carnuda abriu a mochila, tirou três notas de dez e as lançou na mesa. Aí saiu derrubando a cadeira ruidosamente.

Quando a moça pequena foi se embora, eu estava no último gole do cafezinho expresso.

O garçom me olhou e, já no terreno da intimidade, comentou:

- Finas, hein?

Castelo é autor de "O Caseiro do Presidente" (Editora Nova Alexandria) e cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas... às 11h04
[]


Seu Jeitinho Rebelde

por Léo Jaime.


Estou pensando em lhe dizer estas coisas há algum tempo. Não acredito que
lhe sirva de nada, mas talvez faça algum bem a mim mesmo. Por isso decidi.
Tenho observado ao longo do tempo que suas posições são sempre
contestatórias, sempre duvidando de tudo e de todos. É interessante. Não é
aquele que engole qualquer coisa. Ao contrário, não engole nada. Não vai a
filmes americano, não ouve música de artista vendido, quer dizer, que vende,
não acredita em políticos que não sejam radicais e desconfia de quase tudo o
que ouve. É bacana: o mundo parece lhe dever explicações.

Vejo o seu olhar de superioridade para com as meninas arrumadas para sair,
como se as julgando fúteis, o mesmo que você lança para os que defendem
argumentos, sejam lá quais forem, ou torcem para a seleção brasileira, ou
gostam de filmes, peças, shows e discos que fazem sucesso, ou fazem
programas que estão na moda. Como lhe parece entediante o mundo e seus
cidadãos. Achincalhar argumentos é tão mais divertido! Mostrar o podre do
mundo, dos projetos e das pessoas é tão mais sagaz, não é? Corajoso?
Charmoso? Humm, não sei. Deixamos isso para depois. Vamos continuar ainda
nas suas opções.

Atitude. Esse é o nome que está por trás de tudo o que lhe sustenta. Você
aposta todas as fichas nisso. Alguém vai lhe perguntar as horas e seu
impulso primitivo é dizer não. Não quer dizer as horas. Não é obrigado. Quer
se livrar da obrigação de ser gentil e ter que ficar atendendo os outros. E
se não age assim, pelo menos pensa nisso. Consultando limites para a própria
rebeldia. Sim. Ser do contra implica em ser antipático, chato, ter uma nuvem
cinza sobre a cabeça o tempo todo e você sabe disso. Por exemplo: quando
alguém dirige você vai criticando o caminho que a pessoa faz. Não se deve
fazer isso sem oferecer um outro caminho e justificar. Sim, é importante
dizer o porquê de o outro caminho ser melhor. Isso vale para política e
afins. E se você não faz assim você é só um chato. Observe a oportunidade da
réplica e de que pode não haver concordância, pelo menos de imediato. Ou
nunca.

Dizer um não, simples e rotundo, ao mundo e à vida, pode parecer charmoso e
lhe conferir um ar de sofisticação. De quem não se contenta com qualquer
coisa. Sim, é verdade. Só que quem não se contenta com nada está fadado ao
insucesso. Ser infeliz de propósito, ser um perdedor por iniciativa própria
é antes de tudo uma demonstração de total covardia. Por tanto, se você
imaginava que a pose de rebelde contra tudo e todos ia lhe conferir um ar de
coragem, esqueça: esta é a solução dos covardes. Não apostar em nenhum dos
cavalos da corrida e meter o pau em todos não dá crédito para ninguém se
gabar do próprio azedume depois. É preciso ter um projeto, seja lá qual for,
e acreditar em alguma coisa e lutar por ela.

É preciso ter algum senso de estética para se construir um sonho. E colorir
este sonho. E depois tentar fazer deste sonho algo real. E não importa se
muitos vão acreditar nele ou achá-lo interessante. Mas é preciso amar alguma
coisa ou alguém para se poder dizer dono de alguma postura, ou atitude.
Odiar não é uma postura corajosa. E era isso o que eu tinha para lhe dizer:
odiar é muito confortável e lhe parece a solução para todo o que você não
entende e não sabe como lidar. Você odeia tudo o que não entende. E você não
entende quase nada porque odeia tudo.

Tome uma atitude.

Léo Jaime é cronista dos Blônicas.

Escrito por Blônicas... às 20h21
[]


A Chave( de braço ) Dos Grandes Mistérios.

Por Paulo Castro           

     Antes de tudo, uma tonelada de auto-explicações, de auto-ajuda, melhor dizendo: eu sou um místico. Dos fortes. Acredito em anjo, incenso, luz, energia, espíritos e tudo mais. Só que não conheço muito. Acredito de bobo. De simpatia. Necessidade. Por isso vou perguntar tanto. Pra entender. Quem alguém me explique. Pelo amor da costela de Salomão. Pela força dos cristais. Saravá.

    Tudo no jornal me interessa. Sou apaixonado “no papel”. Da primeira até a última página. E sempre parei na parte de esoterismo e astrologia. Antes, por curiosidade que a todos move. Até o cético mais rabugento lê horóscopo. Depois, por encontrar coisas bacanas.Mas logo começam as dúvidas. Vou colocá-las em seqüência, pra cooperar com quem vai cooperar comigo no entendimento dos mistérios maiores. Tudo bem ?

     Comecemos pela numerologia. Ciência linda. Ancestral. O corretor do meu processador de textos não reconheceu a palavra. Acho que isso ainda vai acontecer muito hoje, beleza. Questão : qual a diferença entre os números que regem o dia e os números da sorte no mesmo dia ? Pois são diferentes. Bingo em 8 ou 17 ? Se bem que somando algarismos, dá na mesma. Agora a agenda holística. Escrevo com antecedência, mas sei que sairá "Segunda-feira, 23/01". Um dia depois do meu aniversário, diga-se de passagem. O que eu fiz de esotérico ? Olhei o calendário de uma serralheria. Pulo parágrafo, pois agora complica.

     Astrologia. Se estamos em determinado signo até determinado dia, qual o motivo  das previsões pra esse signo mudarem todo dia ? O astrólogo não poderia relaxar um pouco, coitado ? Agora é aquário. Volte a falar do receptáculo de peixinhos a nadar sem mar só depois de 19/02. Correto ? Por aí, se os santos quiserem. Falando nisso, hoje pro cara ser santo, tem que provar um monte de milagres. Antes não era assim. Bastava ser chato. Olhemos São Berardo. Em 1219, ele e cinco amigos franciscanos foram pregar o evangelho em Sevilha, então chefiada pelos "monstros" mouros. Tiveram a ousadia de fazer sermão justamente ao rei inimigo, que os expulsou sem violência. Mas eles continuaram, os militantes, mais sete anos. Vai ser inconveniente assim no paraíso. Acabaram decapitados em 1226. O mesmo ano em que faleceu São Francisco. Coincidência ? Não ! No mundo místico nada é por acaso. Antes de morrer, o santo dos passarinhos e orcas ainda proclamou : "Agora posso dizer que, verdadeiramente, tenho cinco irmãos.". Uai. O primeiro caso de Alzheimer com auréola cortical da História ? Voltemos ao texto. Eram seis franciscanos. O mestre esqueceu de um ? Ou teve o espertão que fugiu antes de perder a cabeça ? Terá sido São Berardo ? Ou outro deles, que se chamava Adjunto, que como os professores com o mesmo nome, escorregam dos alunos na faculdade ?

     Agora, linda visão cósmica: bando de seres puros, assexuados, em fila. Olhando o relógio, trotando impacientemente o pezinho pão francês. Os anjos têm jornada de trabalho bem folgada. E está mais que justo. Isso é exploração do trabalho infantil. Plantão de vinte e quatro horas e depois ficam quase um mês e meio de folga, batendo asa por aí. E nomes complicados. Apelidos. Rebeldia. Tapa no bumbum.

     Li Freud desnecessário. Pois está dito no misticismo: sonhar que está comendo alface indica desgosto. E quem gosta de alface, como eu? Nunca mais. E garotas que vão toda noite pra balada evitam celulite: as luzes verde e azul, encontradas nas boates, são preventivas para esse mal desagradável! E a diarréia? Resolvida em dez minutos com a cores...verde e azul ! Uma íntima relação patogênica entre celulite e diarréia. Que doutor já pensou nisso ? A era do iluminismo para a clínica ! O azul ainda diminui a nossa irritação e acaba com a dor das queimaduras. O amor é azulzinho.

     Agora notícia boa. Senhoras e senhores, pulem do sofá e se abracem. Manchete em letras garrafais, por favor. Fim do Viagra, último suspiro do Prozac. Sabemos que um corta o efeito do outro. Novidade: a pedra  âmbar aumenta o prazer sexual ao mesmo tempo que trata os problemas depressivos. Viram? Só quero saber como eu devo utilizar, digo, não em mim, mas nos meus pacientes.  Quanto tempo antes? Em que local ? Nos homossexuais é do mesmo jeito que nos heterossexuais?  Em casos de melancolia, colocamos a pedra na cabeça ou a engolimos? Muitas e sinceras dúvidas. Estou um pouco fora do meu eixo kármico ?

     Que número da sorte telefônica ligo se avistar o fujão Adjunto por aí ?

" Não há outra maneira de aprender a não ser nos conhecendo, transformando nossos  medos e limitações em força e alegria."

                                                          ( Brian Weiss )         

Paulo Castro é cronista do Blônicas e estará no comando e nas terças-feiras até o capitão Botter retornar de viagem.pcpsiq@uol.com.br

Escrito por Blônicas... às 14h20
[]


Minhas férias

De Nelson Botter.

 

Minhas férias foram muito legais. Eu gostei bastante. Fui com o papai e a mamãe viajar para a praia. A praia estava muito cheia de gente. Daí era tanta gente que não tinha espaço para o colocar nem o guarda-sol. E o sol estava muito forte, me queimei. Ouvi falar que é um tal de efeito estupa, estuva, espupa, ah!, não lembro agora, mas o sol estava bem forte. Desse jeito daqui alguns anos não vai mais ter gelo no mundo, vai derreter tudo e o mar vai ficar maior. Tenho medo. Ficamos uma semana lá. Eu gostei bastante. O papai ficava bebendo uma coisa amarga feita de limão e açúcar. Daí a mamãe ficava com cara de brava, sozinha, cuidando de mim. Às vezes aparecia uma amiga dela, mas não ficava muito tempo com ela. A amiga também tinha que cuidar dos filhos. A areia estava fofinha e cheia de lixo. Fiz castelinho e cavei um túnel. Tinha também uma água suja e fedida que dava no mar. A mamãe falou pra eu ficar longe. Obedeci direitinho, só pisei lá umas três ou quatro vezes. Eu gostei bastante. Daí a gente voltou pra casa.

 

O papai no outro dia queria viajar de novo. O papai não agüentava ficar em casa com a mamãe. Eles brigavam muito. Eu não gosto disso. Daí a gente foi para uma cidade muito bonita. A cidade bonita chamava Petrópolis. Fomos de carro. O carro demorou muito pra chegar lá. Teve uma hora que dava pra ver o Rio de Janeiro de longe. Quer dizer, não dava pra ver nada, mas o papai disse que lá era o Rio de Janeiro. Daí só deu pra ver um monte de nuvem cinza por cima da cidade. Perguntei pro papai se era chuva e ele disse que não, ele disse que era poluição. Mas poluição não é só em São Paulo? Eu contei no meu reloginho mais de 10 horas de estrada. Cansei, mas eu gostei bastante. Tem muita montanha lá em Petrópolis. E também tem estradas com muita curva. Lá é alto e faz frio. Daí fomos ver umas casas antigas muito bonitas. Tinha também um museu. Era a casa do imperador muitos anos atrás. Eu gostei bastante. Achei a cidade muito bonita e dava até vontade de namorar. Queria ter uma namorada lá para namorar. Pena que o papai e a mamãe não tinham essa vontade de namorar. Brigaram a viagem toda. Teve um dia que a mamãe chorou. Eu não gostei disso. Daí a gente voltou pra casa.

 

De noite a mamãe veio falar comigo. Disse que o papai ia viajar sozinho. Ele ia tirar umas férias sem a gente. A mamãe pensa que eu sou bobo. Mas não sou bobo. Eu sei que ele foi morar em outra casa, que não gosta mais da mamãe e que a mamãe não gosta mais dele. O papai me deu um beijo, daí disse que depois falava comigo e me levava pra brincar um fim de semana inteirinho só com ele. Fiquei triste. Mas eu gostei das minhas férias, conheci lugares muito legais. Pena que o papai e a mamãe não aproveitaram como eu. Daí eu acho que ser adulto é muito difícil. Meus amiguinhos querem crescer logo. Eu não quero! Vejo os adultos dizendo que querem voltar a ser criança. Daí eu acho que o segredo é ser criança pra sempre. Quero crescer, mas não quero ser chato como os adultos. Será possível, professora?

 

Nelson Botter é cronista às terças, mas como julho é mês de férias também no Blônicas apareceu aqui na quarta.

Escrito por Blônicas às 13h04
[]


Bem-vindos à Carençolândia

De Xico Sá.

Bravas fêmeas expulsas do paraíso por um deus misógino fundaram a Carençolândia, no tempo em que tudo era apenas o fogo e o verbo. Mas foram os machos, porém, que se firmaram, nos dias que correm, como os mais legítimos cidadãos carençolandeses.
Cuidado, frágeis!, eles estão perdidos, sejam metrossexuais, übersexuais ou brechossexuais [aqueles que só usam roupas com encosto de brechó]. Fracos, não agüentam o tranco das mulheres mais destemidas. Arrotam macheza nos botecos, mas logo que põem as patas em casa, uivam para a lua minguante e sonham com uma chuva de coleiras.
O macho carançolandês não passa meia hora separado, não vive sequer o luto amoroso da resoluta que aplicou-lhe um conga no meio da bunda - a padoca mole e farta que dantes já prescrevia o chute. Ele vai lá e agarra a primeira que passa, nem que seja um manequim de gesso, como ocorreu ao meu amigo Sizenando, aquele mesmo que trabalhava como galhudo-mor nas crônicas de Rubem Braga. Enquanto o manequim era levado de um lado a outro da rua, para uma troca de vitrines, ele abofelou-se com a loira gessificada e a entope de gala até hoje.
Bem-vindos ao reino da Carençolândia, esse golfo inevitável da existência.
Sim, na Carençolândia ninguém vem a passeio e o turismo é proibido. A Carençolândia é uma espécie de Mali, de Níger, de Burkina Fasso, de Guiné Bissau, de Chade... d´alma.
A Carençolândia é o vale do Jequitinhonha metafísico que chia como catarro em nossos pulmões e tórax _diga 33!!!
Carençolândia não tem sequer feriado.Um programa populista e eleitoreiro de saúde pública agora trouxe Prozac, Lexotan, Frontal e zilhões de remédios tarjas pretas para este reino. Os compromidos foram postos em toda a rede de água de Carençolândia... Adicionados ao sal, ao açúcar... Mesmo assim não houve um sorriso sequer, nem mesmo do gato lisérgico de Alice.
[Carentown, capital do reino da Carençolândia, julho de 2006]

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas.

Escrito por Blônicas às 15h17
[]


Proverbiando

De Castelo.

Não foi por falta de aviso. Ele cansou de ouvir: o que nunca se começa, nunca se acaba.
Ficar aí feito pedra que muito rola, sem criar bolor, não vai levar a lugar nenhum.
Por outro lado, ponderava: o que tem de ser, não precisa empurrar. Ninguém é feito peixe, bicho besta, que morre pela boca.
Nada disso. Pelo andar dos bois se conhece o peso da carroça.
Não é o pica-pau que nem machado tem e come as abelhas?
Pois então?
Perdido por mil, perdido por mil e quinhentos.
O negócio é que raposa cai o cabelo mas não deixa de comer as galinhas. Rabo de saia é sempre precípio para os homens. Pra ele então, tudo que vinha na rede era peixe.
Desconhecia que o bonito é absurdo.
E, desconsiderando que feijão é esteio da casa, fez a cama pra outra deitar.
No fim, quem pariu Mateus que o embale.
Quando a cabeça não regula, o corpo padece.
A sorte foi que o diabo quando tem fome come moscas.
E ajuda os seus. É como ele costumava repetir: “ah, meu amigo, preferível ser sapão de pocinho que sapinho de poção....Vá dar no boi que tem couro grosso! Que velhaco não engana velhaco”.
Sabia muito bem que faca na barriga dos outros não dói. Assim como formiga quando cria asa quer se perder.
Com tudo isso em mente, ainda insistiu em seguir adiante para beber água limpa. Galo de sangue no olho e na crista não dá com o bico no chão.
E foi indo. Cansado de ser peru de fora, que toma tabaco e vai embora.
A sorte é que guardado está o bocado pra quem o há de comer. Ainda bem que pra tudo Deus dá jeito.
Foi daí que prorrompeu o aguaceiro. Chuva muita, como não se via desde o tempo da monarquia.Chuva com sol, casamento de espanhol; sol com chuva, casamento de viúva. Todo tipo de dilúvio.
Mas ele não temou: é no atoleiro que se conhece o cavaleiro.
Estava mesmo sempre às vésperas de coisa nenhuma, nada a perder.
Quem está na chuva não é pra se molhar?
Tinha aprendido na vida que honra é de Deus, não é do homem. Do homem é a coragem.
Acontece que boi sonso, marrada certa.
Bem com Deus, bem com o Diabo.
Saiu da chuva e retornou, em cima das pegadas, para casa.
O cavalo procura sempre voltar à querência.
E quem tem cu tem medo.

Castelo é cronista do Blônicas. Visite: www.castelorama.com.br

Escrito por Blônicas às 16h10
[]


Não tô inteindeindo

De Leo Jaime.

 

Fiquei muito tempo diante da televisão. Copa do mundo é sempre assim. Fico sonhando em ir participar de uma, assistindo ou trabalhando, e imagino se não seria pior. Do Brasil podemos acompanhar tudo, ver todos os jogos ou quase todos, e fisicamente isto seria praticamente impossível. Financeiramente inviável, tenho certeza.

Há poréns. O principal deles são os anúncios. Este ano foi ainda mais complicado. Ou não, sempre é chato. O problema deste ano foi a quantidade de anúncios sem pé nem cabeça. Ou tinham pé e cabeça e eu é que não entendia nada e ficava indagando o que aquilo queria dizer. Alguns exemplos? Vamos lá.

Um anúncio mostrava um cara que ia casar e se imaginava de bermuda, ia para uma reunião de trabalho e se imaginava coma mesma bermuda e de sandálias, e não conseguia se ver sem estar com a mesma roupa de turista americano, de bermudas e sandálias. Acho que o cara tinha vocação para turista profissional, americanão, evidente, e não conseguia se imaginar fazendo nada sem ser como turista. Outra hipótese: o cara adorava tanto aquela roupa que ele não tirava nem para lavar. Ah, o anúncio era de carro. A roupa? Não sei.

Outro comercial estranho era aquele em que o Selton Mello aparecia na platéia lotada de um grande teatro dizendo que uns nasciam para fazer e outros para aplaudir. Luzes no palco, uma mesa, telões, um computador e entra a gatinha. Jeans e camiseta, ela senta na mesa e digita no computador uma frase. Isto feito ela vai para a galera. Aplausos generosos. A Letícia Birkheuer, sei lá se é assim que se escreve, também estava lá para aplaudir o feito! Afinal, o que é que ela fez? Escreveu uma frase? Ah, sei, ela conseguiu escrever uma frase inteira, com começo meio e fim, sem errar! Beleza! Uns nascem para fazer!!!! A menina!!!!! E outros para aplaudir!!!!! O Selton inclusive!!!!! Beleza!!!! Entendi!!!!! Vai ver era inacreditável que aquela menina conseguisse escrever uma frase e por isso tanta torcida e tantos aplausos. Ela não tinha cara de burra ou coisa que o valha, embora esteja implícito. Tá bom, gente que faz! Uma frase!!!!!

Um anúncio da Pepsi mostrava um monte de caveiras saindo da tumba e querendo um gole da Pepsi de uma menina. bom, a mocinha não tava nem aí para os defuntos levantando das tumbas, vai ver porque ela era meio morta-viva também. Ou será que ninguém mais se assusta com defunto saindo de cova? Os mortos todos queriam a Pepsi. Isto significa que o refrigerante é a escolha dos que já morreram e esqueceram de cair ou isto quer dizer que depois de morrer a gente tem sede? Fiquei confuso. Dã, dã, dã.

E aquele comercial em que aparecia, quanta originalidade, um monte de gente fazendo embaixadinhas. Qual? Tinha mais que um? Não diga! Pois é, o mais esquisito era aquele em que a música parecia do Gilberto Gil e era anúncio de uma fábrica de papel e a letra ficava repetindo: traz a proteção, traz a proteção. Papel? Traz a proteção? Copa do mundo? Embaixadinha? Não consegui ligar os pontos. Alguém ajude!

A televisão me deixou burro, muito burro demais! Encontro um amigo, do ramo das comunicações, jovem, e ele diz a mesma coisa: também não está entendendo nada. Fico mais tranqüilo. Não preciso ser interditado ainda.

 

Leo Jaime é cronista do Blônicas toda quinta-feira.

Escrito por Blônicas às 17h11
[]


Amor genuíno

De Nelson Botter.

 

Eric Fromm, psicanalista alemão do início do século passado, dizia que é falso pretender que amor-próprio e amor aos outros não sejam compatíveis. Assim, ele afirmava que um não anula o outro, pelo contrário, são complementares e necessários. Eis o grande problema da cultura moderna: não somos individualistas, não estamos apenas preocupados com interesses próprios, não somos egoístas, mas estamos sim despreocupados com o interesse genuíno de nossos autênticos eus, que é amarmos a nós mesmos, e - conseqüentemente - a todos.

 

Amor a uma pessoa implica em amor à humanidade. Amor à humanidade implica em amor a si mesmo. Algumas pessoas confundem amor-próprio com egoísmo, mas não se trata disso, no sentido usual o egoísmo é rancor por si mesmo. A prática psicanalítica revela que as pessoas egoístas são profundamente ansiosas, cheias de animosidade por elas próprias, vazias e frustradas. Por isso, estão ávidas por absorver da vida tudo que puderem para compensá-las de sua impotência e incapacidade de amar. Como carecem de respeito e amor por si mesmas, não têm respeito pela dignidade, integridade e direitos dos demais. Daí, novamente, a conexão entre a capacidade de ter amor-próprio e amor por quem nos cerca, afinal um amor é também o outro.

 

O amor é indivisível na conexão a "objetos" e o próprio eu. Trata-se de uma manifestação de produtividade e implica em cuidado, respeito, responsabilidade e conhecimento. Não é um afeto no sentido de ser afetado por alguém, mas um impulso ativo para o desenvolvimento e felicidade da pessoa amada. Segundo o próprio Fromm, a noção de amor romântico é falsa, não pode ser verdade que só haja uma pessoa no mundo a quem possamos amar, o chamado "amor da minha vida", e que se tal pessoa for descoberta esse amor acarreta na retirada do amor das outras, ou pelo menos na diminuição dos outros amores.

 

Quando falamos de amor, rapidamente somos tachados de piegas, pedante ou qualquer outra coisa que nos diminua. Claro, somos todos resistentes a essa que é nossa maior necessidade: o resgate do amor genuíno, aquele radicado na produtividade, que pode até se denominar "amor produtivo", que é o mesmo amor entre mãe e filho, amor pela humanidade, amor erótico entre duas pessoas, enfim, os objetos mudam, mas o amor é sempre o mesmo. Portanto, é necessário trazer esse amor à tona, afinal todos dependem uns dos outros.

 

Essa explanação um tanto racional do amor pode soar fria e nada sentimental, como é o comum quando abordamos tal assunto, mas é apenas uma das maneiras de mostrar que o amor pode ser debatido como algo concreto, não apenas como um suspiro brega de alguém de coração mole. E nesse mundo cada vez mais dominado pela violência, motivada pelo poder e o dinheiro, nos perguntamos onde pode estar escondido esse amor genuíno... Comece a cavar, pois a resposta é certa: está em você.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas e avisa que hoje tem evento literário bem legal em SP: veja mais aqui - PNOB.

Escrito por Blônicas às 12h18
[]


Dias em observação

De Tati Bernardi.

Ela veio cheirosa e molhada, desfilou por erro em mesas próximas e caiu bem na minha frente. Foi em um castelo medieval que voltei a comer carne, eu estava com meu modelito princesa mas tinha fome de besta. No princípio, enchi a boca com uma culpa tão vulgar que me fez gostar ainda mais de dançar com seus restos pelo sangue do prato.
Ele parece alto num primeiro momento, mas se você olhar direito, tem o charme cafajeste de quem vê o mundo mais de baixo. Não tem jeito aquela boca cortada, seus olhos são de uma profundidade quase cansada. Vai saber o que ele tem, nem ele sabe. Mas tem. Nem posso dizer que tentei evitar, pois já descobri que, se você evitar a vida, ela acontece do mesmo jeito. Foi assim que inaugurei já de partida o maior quarto do mundo. Depois que a gente brincou de milionários na suíte de mil euros por dia, roncamos como pobres alcoolizados. Ele de vinho da casa, eu de esquecimento da casa. Emprestamos o romance de nossas mentes criativas para brindar o momento, só mesmo amigos poderiam se dar a esse luxo. No dia seguinte, para que nem a gente desconfiasse de nada, voltamos a nos tratar como irmãos adolescentes que se odeiam.
Foi quando descobri a cama de casal com vista para os canhões de Napoleão que me dei conta de que estava completamente sozinha. Por um instante, quis sentir falta de alguém, mas não consegui me lembrar de ninguém. Por outro instante, quis inventar uma pessoa, mas eu era tão de verdade naquele momento que me faltou capacidade para ser enganada. Na cidade mais romântica do mundo, amei meu medo, meu quarto, minha cama, meu banheiro, minha coragem, minhas próximas horas pelo resto da vida, minha quase morte que agora me enchia de novidades, meu silêncio, a extensão do meu pânico curioso que iluminava toda a cidade, minha tranquilidade madura, toda a bagunça da minha cabeça. Sim, a garotinha magrinha, branquelinha, assustada, sensível, cheia de ódios, cheias de erros e cheia de si, agora apenas recomeçava no corpo de uma mulher invisível. Amei que o mundo estivesse em festa e meu convite desse direito apenas a uma pessoa.
Só me restava mais uma hora e decidi correr futilmente por todas as salas até que o encontrasse. As pontes borradas, instantâneas e floridas me emocionaram mas não me fizeram desistir da busca, as bailarinas tomaram alguns segundos do meu tempo, Lautrec mereceu minutos. Nos quarenta e cinco do único tempo, ele apareceu, por um desses mistérios da vida a sala estava vazia e eu pude ficar bem de frente e chorar como uma criança. O quarto de Van Gogh, que antes era uma cópia barata em cima da cama do meu primeiro grande amor, agora era autêntico e só meu. Os grandes amores são assim mesmo, eles nos dão o caminho da emoção, mas os sentimentos de verdade são apenas nossos, ninguém copia, ninguém leva, ninguém divide.
Quem diria meu vestido de bolinhas e rendas no meio de tantas calças Diesel e garotas que se chamam e pensam no diminutivo. O homem mais lindo do mundo não sabe terminar uma frase sem espremer o cérebro e cuspir carne com o carro em movimento. A garota mais linda do mundo só sabe sorrir se for ganhar alguma coisa em troca.
Elas torcem para namorar os jogadores do "Barça" e são, em suas cabeças brilhantes de tinta, as primeiras damas da cidade. Eles deixam o cabelo crescer, abrem a camisa até metade do peito e torcem para que alguém os ache bacana, assim, eles realmente podem ser bacanas. Não, ninguém trabalha, estuda ou sabe o que quer da vida. Ainda assim, seus passos são infinitamente mais duros e rápidos que os meus. São passos que de tanto ensaiar para não cair do salto, sempre disfarçam a longa queda. Elas empinam o queixo maquiado, o peito siliconado, a bunda etiquetada e a alma oprimida. Elas sabem de cor os hits do verão europeu, assim como qualquer animal enjaulado dentro de um circo que sintoniza a Jovem Pan.
Elas têm a cor do verão, a roupa da moda, o namorado que a amiga queria, os amigos que interessam, a alegria de um remédio, a paz de uma ressaca.
Eles não sabem fugir para o lugar sagrado do peito, eles não sabem dormir num lençol branco e puro e sonhar com tudo o que é bom na vida, eles não sabem abraçar um amigo de verdade e encontrar um grande amor. Mas nada disso importa, as drogas estão aí justamente porque tudo isso cabe na palma da mão, assim como o dinheiro que os pais continuam mandando. São todos tão lindos mas estão todos tão mortos. Uma linda morte em série porque até para morrer eles precisam andar juntos. Isso me lembra a frase "todo animal fraco anda em bando".
A lata de lixo piscou pra mim, me convidando a descarregar a porra do papelzinho amassado ali mesmo e, finalmente, respirar um pouco. Nele eu tinha escrito todas as dicas de ruas, cantos, esquinas, museus, restaurantes, parques, cidades, obras e pessoas que eu queria ver pelos próximos infinitos e curtos dias. Chega, lancei longe a obrigação já conhecida e castradora de ser feliz e descansei meu vazio preenchedor num centro qualquer de um bairro sem nome.
Duas crianças me olharam, o sol fez um triângulo entre meus pés cansados e os pés em nuvens daquelas crianças. Um velho começou a tocar violino, eu lembrei que, naquela brincadeira de pensar que instrumento musical a gente seria, eu sempre quis ser um violino. Tinha a alma aguda, triste, fina, rasgada no limite da beleza.
Uma motoca passou gritando que a Argentina tinha perdido, um negro de cueca preta posou imperial e gritou por gritar, de alegria, melancolia, vazio, calor e eterna bebedeira. Minha máquina comprada no museu do Picasso, em homanagem à fase azul do artista, tirou lindas fotos azuis daquelas crianças entre o nosso triângulo perfeito e o resto todo que nos circulava.
De dentro do restaurante, a mulher que eu nunca seria alimentava metros e metros de pernas com muito presunto e olhares de porcos. Ela era mais forte que o calor, que a sensibilidade das tripas, que a vida que acaba, que o amor que não existe. Ela nem pensa em nada disso, apenas cruza as pernas, come presunto e alimenta quem por causa dela sobrevive mais um minuto sem ser o centro do mundo. Tudo bem, eu preciso dela para ser estranha, ela precisa de mim para virar poesia.
Uma caixa de Lindt para não morrer com a falta que me faz o feijão, uma espirrada de mel e própolis para não sufocar com tanto mundo além do meu mundinho, um simples botão atrás da cama e o Mediterrâneo me engole para que eu nunca mais chore de saudades da pequena prainha que ficava ao lado da casa, um gol sem marcação e meu país chora bem longe de mim, choro também, mas só por estar longe. Um choro de emoção.
Um euro e eu ganho um manto verde para cobrir meu vestido decotado e comprado nas "rebaijas", agora posso entrar na igreja e rezar um pai nosso, sem nem saber direito o que pedir, parece que tenho tudo. Só agradeço.
Um casal de mãos dadas quase teve pena de mim, depois sorriu de reconhecimento, afinal, eu era parte deles e eles eram parte de mim. Caralho, eu pensei com saudades de falar um bom palavrão na minha língua: eu agora era do mundo e o mundo era meu!

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 11h35
[]


Serendipity

De Rosana Hermann.

A palavra mais bonita da língua inglesa, na minha opinião, é serendipity, uma palavra inventada por um escritor a partir de uma história de três princesas. Serendipity é aquela coincidência feliz, o acaso fortuito, uma descoberta inesperada que nos alegra, semelhante aquele sentimento que temos ao encontrar um anel de ouro perdido atrás do sofá no momento em que estávamos procurando o controle remoto que caiu lá trás.

Foi assim, por obra dos deuses aleatórios que fiz meu primeiro contato com a Sibéria. Permita-me contar esta breve história.

Como todos os dias, fui pesquisar para um blog que escrevo, desta vez, no arquivo de imagens do archive.org, um banco de dados abertos que além de outras coisas, nos leva por uma viagem no tempo. O primeiro resultado da busca, me fascinou. Era uma entrevista em russo, de um músico e performer multiinstrumentistas, tocando instrumentos étnicos num estúdio na Alemanha, para o entrevistador em Nova York, tudo via web.

Não falo russo mas adorei a música e achei a idéia de divulgar o trabalho de um artista pelo skype simplesmente sensacional e segui em busca de um contato com Nadishana para pedir sua autorização para publicar o vídeo.

Escolhi a opção de língua inglesa no site russo de Nadishana e bem no link dos contatos, o skypename dele. Chamei, deixei uma mensagem meio envergonhada. Poucas horas depois, ele me chamou em texto. Rapidamente, mudamos para comunicação em áudio e vídeo, eu no Brasil, ele, na Alemanha.

Nadishana me contou que está fascinado com a Internet, meio que ele conheceu há pouco tempo e sobre o qual foi aprender mais em Berlim. A cidade onde mora, é um vilarejo na Sibéria que não só não tem Internet como não tem nem telefone. Mandei para ele algumas fotos tropicais das praias que freqüento e ele, enviou fotos de sua vila siberiana, em tempos de quarenta graus abaixo de zero, no meio da neve.

Além de autorizar a publicação do vídeo ele colocou legendas em inglês e me mostrou links de suas performances com dança, música e uso de fractais. Falou também da concepção do mundo de acordo com a mitologia antiga Kuzhebar, seja lá o que for exatamente isso. Tem coisas que são mais complexas do que a língua russa e o alfabeto cirílico.

Fiz o post, publiquei o vídeo com as legendas e, para minha surpresa, a história também pareceu mágica para um dos desenvolvedores do skype na Estônia que, gentilmente, me convidou a postar num blog coletivo, em inglês, pela primeira vez. Não corrigi os erros dele na tradução do russo para o inglês, assim como tenho certeza que deixei na minha tradução algumas impropriedades também. Não importa, há coisas que ultrapassam as barreiras lingüística, como a música e os sentimentos.

A Internet e a tecnologia são realmente maravilhosos, capazes de aproximar pessoas e espalhar cultura, levando a arte antiga de uma pequena vila da Sibéria para São Paulo, Berlim, Tallinn e o mundo.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas e tem um blog novo, o Skype Brasil. Visite clicando aqui!

Escrito por Blônicas às 17h33
[]


O que nos espera?

De Nelson Botter.

 

São Paulo é uma panela de pressão prestes a explodir. Além do caos da superpopulação, que impacta ferozmente no trânsito, demanda de serviços, custo de vida e má distribuição de renda, ainda temos que enfrentar o crime organizado... mais organizado do que nunca. O paulista, que achava que esse tipo de problema era exclusividade do Rio de Janeiro e seu tráfico de drogas nos morros, se vê diante da dura realidade, o crime em São Paulo não é cada um por si como se pensava antes, é uma grande corrente de elos muito bem interligados, que envolve bandidagem e corrupção de poderes e até planos políticos.

 

É bem possível que muito do que tem ocorrido tenha um certo fundo político, afinal ano de eleição é sempre atípico, mas o que fica evidente é que o poder do crime organizado é grande e ameaçador, pois tira vidas de maneira premeditada e impune. Vemos nossas autoridades de mãos atadas, sem o devido preparo para combater tal situação, o que nos faz crer que essa suposta guerra possa não ter o final feliz que tanto esperamos. Os ataques a policiais e agentes carcerários, os boatos que fizeram a cidade parar, os presos ao relento no presídio de Araraquara, as contínuas rebeliões nas detenções, enfim, tudo isso são pequenas batalhas diárias que afetam aos poucos nossas vidas.

 

Se a mão das autoridades paulistas for fraca e permitir que a panela exploda, a violência tende a ser generalizada, a briga do crime organizado contra a segurança do Estado pode se espalhar, ganhar novos contornos, fazer do caos social algo insuportável. A distância entre as classes sociais (cada vez maior nos grandes centros) pode deflagrar uma guerra civil velada, onde os menos favorecidos (em números crescentes dia-a-dia) precisam tirar dos mais favorecidos, usando de violência mais e mais armada.

 

Cenário apocalíptico e exagerado? Nem tanto, já vivemos isso hoje e se nada mudar só tende a ficar pior. Os números de nossa violência comparados a outros grandes centros mundiais desenvolvidos são absurdos. Daí não ser exagerado e sim realista. Com um número cada vez maior de pobres nas grandes cidades, com a classe média cada vez mais beirando a classe baixa, o isolamento da classe alta pode ser perigosíssimo. Alguns filmes futuristas até retratam territórios e cidades dominados pela criminalidade sem controle, como se fossem "terra de ninguém". Pois é, o que se pensava ser ficção pode estar mais próximo da realidade do que imaginávamos para daqui 10, 20 anos.

 

É o período dos feudos de forma indireta, é a história (sempre cíclica) nos mostrando os mesmos erros da civilização. A diferença é que com uma população gigantesca de baixa ou nenhuma renda (dominadas e incentivadas pelo crime organizado), as classes mais favorecidas terão de correr e abandonar seus castelos, pois não sobrará pedra sobre pedra. É uma guerra pelo poder, pela força da grana que ergue e destrói coisas belas. Paulistanos, um novo êxodo se aproxima...

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas às terças.

Escrito por Blônicas às 11h21
[]


O Homem-Laxante

De Xico Sá.

 

Na saúde, na doença, na TPM... E muito mais ainda na prisão de ventre.

Prova de devoção maior não há. Do que viver de perto este drama, seguir todos os passos da costela amada, na pista, na vida, no WC. O carinho, o cafuné, o chamego, o homem-laxante com a nega onde a nega estiver.

Existem mulheres de todos os naipes, mas elas se dividem basicamente em duas classes: as que cagam bem e as que têm certas dificuldades.

 Os machos também assim se organizam, segundo Garcia Márquez, os que evacuam fácil e os que se enfezam ao extremo. O escriba mesmo, em conversa sobre o tema com o psicanalista Helio Pellegrino, declarou-se ruim de serviço, um enfezado nato.

O temor feminino diante do trono exige atenção redobrada do macho. Melhor, valiosa leitora, não esconder essa pequena agonia diária. Ponha o tema na roda. Melhor ainda, meu rapaz, é você antecipar-se, assim que notar, pelos sinais exteriores de enfezamento _aquele riso sem graça e a sobrancelha com medo da vida_ que a amada carece de maiores dengos, cuidados, delicadezas.

Ou sinais vindos das prateleiras das farmácias: Cascara sagrada, Ducolax, Tamarine... “Ameixas, ame-as ou deixe-as”, como no hai-kai de Leminski, também são bons indícios para despertar nossos trabalhos de Hércules.

Vale todo esforço. Tive uma morena, por exemplo, jambo-girl da margem esquerda do Capibaribe, que só conseguia quando eu a acompanhava ao banheiro, e ficava ali, sentado, contando-lhe pequenas histórias, fábulas inventadas no embalo free-style. Eu sentava em um banquinho de criança, de modo a ficar à sua altura... Quando menos via, lá estava o sorriso destravado nos seus lindos beiços grossos. Era como um gol em final de partida, uma celebração, uma festa ao som pós-tudo da descarga... Eu ainda pedia que ela mirasse a merda, suas sobras completas. Quem olha as suas fezes, dizia a minha mãe, cria-se sem o menor pecado da inveja. Lição mais sábia.

 Outro bom conselho, que deixamos aqui de graça, é o da voz da experiência de “Tia Julia e o Escrevinhador”, livro de Vargas Llosa: “Para dores de amor, nada melhor do que leite de magnésia(...). Na maior parte das vezes, os chamados males de amor, etcétera, são distúrbios digestivos, feijões duros que não digerem, peixe estragado, entupimento. Um bom purgante fulmina a loucura do amor.”

 

[Do livro “Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias”, Editora do Bispo. Corra Lola, corra, últimos exemplares!!!]

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas.

Escrito por Blônicas às 13h25
[]


Não estude tanto, meu filho, senão você vai acabar virando publicitário

De Henrique Szklo

Outro dia escutei alguém dizer que todo publicitário deveria fazer faculdade de administração para poder entender melhor o negócio do cliente. Mas porque só administração? Não, não. Só administração é muito pouco. Para se transformar num profissional completo e enriquecer de verdade o seu currículo é fundamental que cada publicitário freqüente boa parte dos seguintes cursos:

FACULDADES
Agronomia:
Aprenda a plantar e semear notícias que favoreçam sua imagem.
Botânica: Quem quer ser bom de atendimento precisa aprender a ficar plantado nas recepções e a ficar de plantão nos feriados.
Direito: Além de ensinar a fazer um texto legal, esta faculdade dá dicas importantíssimas de como convencer e manipular jurados.
Educação Física: Ótimo para ganhar fôlego e não cansar logo da profissão.
Engenharia Civil: Numa profissão de conceitos tão abstratos e subjetivos é aconselhável tomar contato com algo de concreto.
Engenharia Florestal: Qual é o maior sonho do publicitário? Ganhar um prêmio. E qual é o prêmio mais desejado? O leão. E onde vive o leão? Na floresta. Captou?
Engenharia Naval: Para você parar de ficar boiando nas reuniões.
Farmácia: Propaganda é o melhor remédio contra a crise. E se o seu trabalho não for grande coisa, você ainda pode aprender a fazer remédio de farinha.
Fonoaudiologia: Às vezes o cliente não ouve você, não porque não concorde, mas porque tem problemas auditivos. Provavelmente o atendimento não entende o briefing porque o cliente não consegue se expressar corretamente. Aprenda a detectar problemas e indicar tratamentos.
Geografia: Só saber onde fica Cannes não é suficiente. Aprenda também onde fica Nova Iorque, Londres, O Clube de Criação de São Paulo, o Colunistas, o Caboré, o Profissionais do Ano e o Prêmio Abril, entre outros.
Jornalismo: Aprenda a fazer seus próprios press releases. Até porque está cada vez mais difícil encontrar quem se disponha a mentir tanto.
Letras: Para alguns redatores seria muito interessante tomar contato com algumas letras, mesmo que só superficialmente, apenas para não cair no esquecimento.
Matemática: Ideal para quem não gosta de perder a conta.
Medicina: Para aprender a se fingir de morto e garantir o seu emprego.
Medicina com especialização em Cirurgia Plástica: Para o caso de seus clientes estarem sempre fazendo cara feia para as suas idéias.
Música: Aprenda a tocar uma agência, criar harmonia entre os departamentos, agüentar o ritmo de trabalho, fazer acompanhamento de todo o processo, criar arranjos espúrios com fornecedores, se afinar rapidamente com qualquer tipo de cliente e arrancar uma nota deles.
Oftalmologia: Conheça visões diferentes do mercado. Indicado, principalmente, para quem não se enxerga.
Pedagogia: Seus clientes são muito sem-educação? Dê uma lição neles.
Psicologia: Se você não entende porque quis ser publicitário, Freud explica.
Relações Públicas: Quem quer se dar bem tem que aprender a se dar bem.
Teologia: Publicitários que se acham Deus podem aprender a catequizar clientes infiéis, a dar conforto espiritual à alma do negócio e a transformar cliente caloteiro em cliente pagão.
Veterinária: Você vai entender de leão como ninguém.
Zootecnia: Donos de agência aprendem a se precaver contra outro tipo de leão: o que morde.

PÓS-GRADUAÇÕES
Análises Clínicas:
Prepara você para analisar a situação quando der alguma merda na agência.
Física Nuclear: Se a agência em que você trabalha é uma bomba, saiba como fazer com que ela não exploda na sua mão.
Medicina Legal: Quando um cliente matar a sua idéia, aprenda a descobrir a causa mortis.
Meteorologia: Para aprender a ir a reuniões com o cliente e não ficar chovendo no molhado.
Toxicologia: Aprenda a convencer os clientes de que aquela droga que você cria vai fazer bem para ele.
Turismo: Para quem já não agüenta mais carregar tanto cliente mala.

Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e adora uma intriga. Conheça seu site,  o blog da mãe e o seu novo livro O Grande Milk-shake e os Canudinhos Mentais.

Escrito por Blônicas.. às 17h53
[]


Confissões de um megalomaníaco

De Rosana Hermann.

 

E aí eu pensei: que tema posso escolher para fazer uma crônica que seja um sucesso estrondoso, do tipo que gera centenas de comentários, talvez quebrando o recorde de visitas do Blônicas? Algo que vire o comentário do dia a ponto que se transformar numa chamada de capa na homepage do UOL? Um tema que, claro, tecido com tal maestria de texto fosse instantaneamente copiado e colado em emails de spammers carentes, circulando por toda a rede até chegar a todas as principais editorias e redações de jornais e tvs do Brasil?

 

Diante dos olhos estupefatos o texto, teúdo e conteúdo, seduziria editores e pauteiros. "O autor! O autor!", bradariam os jornalistas, ordenando a seus imediatos inferiores que saíssem em busca do criador da obra.

 

Em minutos, rodos de convites chegariam a minha caixa de emails; meu celular seria inundado com baldes de ligações; até o meio da tarde o ostracismo de minha vida de autora sofreria a mais incrível faxina, do tipo que aponta pernas para o teto e encontra canetas bic atrás do sofá.

 

Eu, claro, diria que não quero aparecer, que o que importa não é minha pessoa, mas meu trabalho, e aceitaria dar uma ou duas dúzias de entrevistas em todos os veículos que me trouxessem o sonhado e merecido prestígio.

 

Depois do abalo sísmico de minhas entrevistas nos descartáveis meios de comunicação em broadcast, viria a fase madura da glamurização, como convites para transformar a crônica num longa metragem e a partir dela, iniciar uma coleção de livros, preferencialmente pela editora mais consagrada do país. Os convites mundanos, como capas de revistas de fofocas e ensaios sensuais para publicações masculinas, seriam recusados, mas com a alegria exata de ter antes sido convidada. A fortuna que vem com a fama seria uma mera conseqüência, especialmente o dinheiro mais fácil, aquele que é pago apenas para que a pessoa exista e marque presença.

 

Como você vê, querido leitor, não é fácil a minha posição. Aqui estou eu, de pijama e tamanquinho e com as mãos no teclado, decidindo não apenas o assunto da crônica de hoje e uma nova possibilidade para a Academia Brasileira de Letra, mas todo o futuro da produção cultural do Brasil. É muita responsabilidade para uma simples quarta-feira. Talvez seja melhor fazer como na semana passada: dar uma miguelada, fingir que esqueci de mandar o texto, desistir da glória eterna da consagração mundial, pegar meu pão, minha água e voltar para a minha caverna. No fundo, já me conformei com o fato de que este mundo injusto não vai me oferecer o merecido reconhecimento pela genialidade que D'us me deu. Mas, quem sabe, se eu ficar bem quietinha e não fizer nada, nunca mais, eu consiga me transformar, ao menos, na mais insignificante megalomaníaca de todo o mundo.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta.

Escrito por Blônicas às 12h08
[]


As mulheres e o futebol

De Nelson Botter.

 

Você, querida leitora, que vibrou com a derrota brasileira na copa, achando que assim seu amado poderia esquecer a pelota e dedicar mais tempo à sua encantadora beleza, que se iludiu acreditando que seu príncipe deixaria de lado aquele monte de homem correndo atrás de uma bola, sim, você mesma, que detesta competir com o futebol, saiba - infelizmente - que nada vai mudar. É isso aí, homem não muda de time, apenas faz transferência, Freud já dizia. Se ele não torce mais pelo Brasil, vai torcer para uma das seleções semi-finalistas, vai vestir a camisa, tomar todas enquanto assiste ao jogo e vibrar como se fosse sua verdadeira seleção.

 

Pois é, não tem jeito, já está no sangue, os genes masculinos também correm atrás da bola, e você, menina, que passa creme por todo o corpo, contorna a boquinha de batom tutti-frutti, que fica perfumadinha, linda e maravilhosa, deliciosamente gostosa para seu queridinho, você não vai ter vez novamente, forget about it, é a sina. Nem pense em pular na frente dele, nem pelada!, pois é preciso saber se Felipão vai se dar bem, se a Alemanha leva o caneco em casa, se o Parreira vai pedir desculpas, etc;

 

Entenda, é preciso paciência e, mais do que nunca, compreensão. Eu sei, o tempo urge, pois você, menina linda, sabe que logo o campeonato brasileiro recomeça e aí serão mais 6 meses sem ganhar a mínima atenção, terá de competir até com a reprise narrada em inglês, mas é preciso planejar, não ser afoita, afinal de contas homem se ofende quando mulher não respeita sua paixão pelo futebol.

 

A boa notícia que trago é que na derradeira hora, quando se joga o rapaz na parede, ou a bola ou eu, e ele - claro - escolhe a bola, surge a nova oportunidade, o chope com as amigas, as baladinhas lights, e sempre tem um carinha interessante que não gosta de futebol, ou que pelo menos não acha que a paixão nacional seja o futebol e - sim - uma bela bunda. Pois nesse instante, menina, olha só que maravilha!, você ganha aí 90 minutos para se divertir a valer com os reservas, afinal do titular não se pode esperar muito, assim como foi com a seleção de Parreira... Por isso sempre digo: mulher só fica no zero a zero se quiser, com ou sem copa do mundo.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas às terças.

Escrito por Blônicas às 12h26
[]


O truque do “Estou confusa...”

De Xico Sá.

Amigos machos, amigas fêmeas, amigos gays, amigas lésbicas, amigos transexuais, amigos de todas os naipes e naturalezas... Sabem de uma coisa que acho massa, o máximo, nos tais tempos que voam?  A apropriação do discurso masculino por parte das mulheres, já notaram? Não chega a ser propriamente um plágio, mas é uma beleza, quase, quase!

E nos interessa sobretudo a enganação-mor, o clássico dos clássicos da nossa principal desculpa. Aquela usada desde priscas eras, saca?

Então dois pontos para acochambrar os parafusos da memória: “Estou confuso, não é culpa sua, você é ótima,  mas acho que não vou lhe fazer bem nesse momento, bla-bla-bla-bla”.

Haja enganação, nove horas, truque, fraude...

Já ouviram esse fragmento do discurso nada amoroso, né?

Pra completar: “Você merece algo melhor!!!”

Repito, era um clássico das desculpas dos machos. A nossa maior falta de vergonha na cara. Agora, faz favor, bote um “o” no lugar do “a”.

Pronto.

Sim,  agora ouvimos a mesma ladainha da boca das moças, o mal é o que sai de onde menos esperamos, poxa!

Já faz tempo que essa desculpa _ “ESTOU CONFUSA...”­_ só sai da boca delas.

Não faz mal, quantas vezes não usamos do mesmo artifício, da mesma falta de argumento, tá legal, eu aceito o fingimento...

Mas por favor, crias das nossas costelas, devolvam o meu caô, o meu 171, o meu agá, a minha enganação-mor,  a minha forma de me livrar mais fácil e, de preferência, de forma indolor.

Encanta-me o avanço das mulheres em todos os campos, só é desnecessário o quase plágio dos nossos discursos. Vocês não carecem disso, vocês são mais sofisticadas, lindas e labirínticas.

“Estou confusa...”

Isso era apenas coisa de macho frouxo, não de elegantes mademoiselles. Tudo bem que vocês, belas raparigas, avancem em tudo, mas não careciam furtar logo o pior dos nossos defeitos.

Somente nesta última semana, deparei-me com quatro amigos sorumbáticos e macambúzios. Todos vítimas do “eu estou confusa, não é culpa sua...”

Devolvam o nosso discurso picareta, façam-me favor!

Nosso 171 de volta!

Pronto, acabou!

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas.

Escrito por Blônicas às 15h24
[]


Como ser feliz domingo em São Paulo

De Tati Bernardi.

Nenhum namoradão pra fugir pra montanha, nenhum tio rico pra te levar pra Nova Iorque, nenhum amigo disponível com casa na praia. Você tá meio sem grana mesmo e resolveu que o melhor é encarar mais um final de semana em São Paulo.
Nos quarenta e sete do segundo tempo da sexta-feira, seu chefe querido comunica com cara de "é nessas horas que eu quero ver quem veste a camisa" que você foi escalada pra trabalhar no sábado. Lá no fundo da sua alma você se sente uma pessoa de sorte, afinal, não vai ter que acordar amanhã desesperada buscando o que fazer para se divertir. Resumindo: você está feliz porque não precisa pensar na vida, você está na merda.
O sábado passa como um dia qualquer da semana, daqueles que você se coloca no automático e repete em mantra robótico "o trabalho enobrece o homem, sem trabalho eu não teria essa calça da Diesel, o trabalho enobrece o homem, sem dinheiro eu não teria comprado minha nova caixa de som I-pod para dar festinhas para meus amiguinhos, o trabalho enobrece o homem, vou trabalhar o máximo possível pra um dia ter dinheiro o suficiente pra fazer alguma coisa que eu não faço a menor idéia do que seja".
Sábado à noite você está esgotada, que bom, que alívio, mais um sábado se foi e levou consigo o tormento da felicidade. Você pode dormir em paz.
Mas peraí: e amanhã? Seu chefe não falou nada sobre amanhã. Isso significa que o amanhã pertence inteiramente a você. Um dia inteiro pra você fazer tudo o que gosta e nunca pode fazer. Ou um dia inteiro pra você descansar, não fazer nada, ler, alugar um filminho, dormir. bom, só lhe resta torcer para que amanheça chovendo. Fica difícil não fazer nada ou simplesmente se dar o direito de ficar em casa com o dia explodindo de Sol lá fora. Isso, amanhã vai chover, tomara, tomara.
Você acorda suada de tanto calor, o dia está maravilhoso. Que merda. O dia está lindo, lindo, mas já é quase uma da tarde e lá se foi a manhã mais uma vez. Dane-se, o que de bom você teria feito numa manhã de domingo em São Paulo?
O Parque do Ibirapuera está cada vez mais insuportável, parece o metrô às cinco da tarde em dia de greve de ônibus. Tomar café da manhã em padarias charmosas implica em fazer o desjejum ao lado de 456 pessoas tão desesperadas quanto você para fazer algo bacana. Ninguém quer acordar e encontrar 456 pessoas desesperadas.
Comprar o jornal e ler num banquinho de praça? Seria lindo, se a praça mais perto da minha casa não ficasse a 3 bairros de distância e não fosse abarrotada de 456 pessoas tão desesperadas quanto eu para fazer algo bacana.
Academia no meu prédio? Claro! Como não pensei nisso antes! Não tenho praia, não tenho parque, não tenho praça, mas tenho o conforto de morar em um prédio com infra-estrutura!
As duas tias que falam igual gralha e imitam o corte da Ana Maria do papagaio ocupam quatro esteiras. Não me pergunte como dois corpos ocupam quatro lugares, mas ocupam. As esteiras que não estão sendo usadas servem de cabides e vestiário para as coleguinhas da melhor idade. Muita gente acha que pode tudo depois que passa dos sessenta e fica meio sem noção igual criança. E por falar em criança, várias delas correm sem parar pela academia, caem, choram, soltam ranhos pelos quatro cantos da academia, chamam a mãe, competem para ver quem aguenta o maior peso, levam bronca dos pais, soltam mais ranho.
Os malhados do meu prédio também estão lá, falam alto e com voz de bobo o quão boa estava a super "irada party insane guetto mega blaster party' de ontem. Eles pegaram toooooooooooodas e causaram. No fundo, enquanto exibem o muque e não conseguem ter um único segundo de conversa interessante, tudo o que eles mais queriam era pegar um no membro masculino do outro. Desisto, eu e minha toalinha rosa voltamos para meu apartamento desiludidas e angustiadas. O que fazer do meu domingo? O que fazer da minha vida?
Claro! Como não pensei nisso antes? São Paulo é a melhor cidade do mundo para almoçar em um restaurante bacana com amigos bacanas. Munida de Guia da Folha e agenda telefônica, começo a luta por uma vida menos ordinária. Meus amigos bacanas estão todos na praia, tentaram desesperadamente me chamar para ir com eles no sábado mas meu celular não pega direito de dentro do escritório. Só uma amiga se encontra disponível para o almoço, mas ela já avisa "to super mal humorada de ter ficado em São Paulo".
Depois de oito tentativas frustradas em sentar decentemente numa mesa decente e ser bem atendidas, eu e minha amiga, que já nem fala mais para não berrar, resolvemos não tentar mais nenhum restaurante lotado, com estacionamento lotado, rua lotada, e comer na minha casa mesmo. Eu lavo a salada, ela grelha um peitinho de frango. São seis da tarde já, meu corpo pede descanso, mas descansar do que se ainda não fiz nada?
Cinema! Claro! Domingo em São Paulo é sinônimo de cinema. Nem pensar, lembro dos restaurantes e imagino que os cinemas estejam ainda pior. Peças de teatro já vão estar esgotadas, passear no shopping é deprimente, alugar um filminho com esse dia lindo é deprimente. então o que Meu Deus! O quê?
Espero calmamente minha amiga ir embora e abro meu laptop, trabalho até duas horas da manhã. Ótimo, assim amanhã saio mais cedo e dou uma corridinha no parque, vejo um filme sensacional ou combino com alguns amigos de jantar em um restaurante excelente.
São Paulo é uma cidade perfeita para se trabalhar quando todo mundo se diverte e se divertir enquanto todo mundo trabalha.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h42
[]