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Larga a mão de ser criança.
Por Tati Bernardi. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Decisões de Almoço
Por Castelo. A comida já não é a mesma. Fazem uns beirutes mais ou menos. Porém a proximidade das mesas colabora na audição das conversas paralelas. Ontem se colocaram a meu lado, por assim dizer quase sentadas sobre minhas pernas, duas garotas dos seus 27 anos. Uma era miudinha, até no vestir se mostrava contida, tons pastéis, nada sobrando ou faltando. Falava no modo minimalista. Era a escada. A outra, o oposto. Dama alta, fartos peitos morenos, cadeiruda, ar de diva. Camisa branca encimada por um lenço encarnadíssimo. Trazia o ar convencido das que se acham irresistivelmente palatáveis. Depois de ordenarem os pedidos (duas saladas, croutons, dois sucos de melancia) abriram a conversação. E esta não podia ser mais direta ao ponto. Disse a cadeiruda: - Você sabe que eu fodo bem, não sabe? A miúda assentiu timidamente com a cabeça, enquanto lançava uma fina fileira de azeite de oliva por cima do pão árabe. Sua falta de energia passava a impressão de que não dominava as entranhas tão bem quanto a colega. Com olhar provocador, a polpuda prosseguiu: - Pois então, tomei uma decisão: chega desses caras tipo malhadores. Eu só quero agora os caras tipo metedores, saca? A colega não chegou lá. - Então eu vou desenhar pra você entender - ralhou a grandona, irritada. E seguiu a falação quase ao pé do meu ouvido: - Bom, primeiro baixei meu nível de exigência. O cara não precisa mais ser um deus grego. Não mesmo, juro. Sabe o Waguininho? - Hum. - Então, não precisa ser como o Waguininho, aquele peitoral todo e tudo. - Sei. - E tem mais o seguinte: daqui pra frente acabou a viadagem. Eu tô ferrada, carro leiloado, mãe falida, conta atrasada. Eu só dou pra quem me der. Tipo que nem o Magno ontem. Ele me pagou um puta jantar num japonês, fomos pra casa dele. Ficamos. No fim, ele me descolou um dvd. - Que filme? - Meu, se liga. E o Magno lá é ator? Picas. Ele me deu foi o aparelho de dvd dele. E, olha, maneiro demais, estalando de novo: porrada de luzinhas, controlinhos. Chegaram os pratos. Atracaram-se com as saladas e os croutons. Por coincidência, também veio meu beirute e o suco de laranja. A conversa e a audição caíram para B.G. Mas o silêncio não duraria. Foi a miúda, dessa vez, quem abriu a segunda parte da contenda. - Então quer dizer que agora você troca sexo por jantares e eletrodomésticos? A grandona corou. - Você tá me chamando de puta, é isso, meu? - Não. Tô só te fazendo uma pergunta. Pausa nervosa. O oxigênio ficou, de repente, quase insuficiente para arejar o salão. A carnuda abriu a mochila, tirou três notas de dez e as lançou na mesa. Aí saiu derrubando a cadeira ruidosamente. Quando a moça pequena foi se embora, eu estava no último gole do cafezinho expresso. O garçom me olhou e, já no terreno da intimidade, comentou: - Finas, hein? Castelo é autor de "O Caseiro do Presidente" (Editora Nova Alexandria) e cronista do Blônicas. Seu Jeitinho Rebelde
por Léo Jaime.
Léo Jaime é cronista dos Blônicas. A Chave( de braço ) Dos Grandes Mistérios.
Por Paulo Castro Antes de tudo, uma tonelada de auto-explicações, de auto-ajuda, melhor dizendo: eu sou um místico. Dos fortes. Acredito em anjo, incenso, luz, energia, espíritos e tudo mais. Só que não conheço muito. Acredito de bobo. De simpatia. Necessidade. Por isso vou perguntar tanto. Pra entender. Quem alguém me explique. Pelo amor da costela de Salomão. Pela força dos cristais. Saravá. Tudo no jornal me interessa. Sou apaixonado “no papel”. Da primeira até a última página. E sempre parei na parte de esoterismo e astrologia. Antes, por curiosidade que a todos move. Até o cético mais rabugento lê horóscopo. Depois, por encontrar coisas bacanas.Mas logo começam as dúvidas. Vou colocá-las em seqüência, pra cooperar com quem vai cooperar comigo no entendimento dos mistérios maiores. Tudo bem ? Comecemos pela numerologia. Ciência linda. Ancestral. O corretor do meu processador de textos não reconheceu a palavra. Acho que isso ainda vai acontecer muito hoje, beleza. Questão : qual a diferença entre os números que regem o dia e os números da sorte no mesmo dia ? Pois são diferentes. Bingo em 8 ou 17 ? Se bem que somando algarismos, dá na mesma. Agora a agenda holística. Escrevo com antecedência, mas sei que sairá "Segunda-feira, 23/01". Um dia depois do meu aniversário, diga-se de passagem. O que eu fiz de esotérico ? Olhei o calendário de uma serralheria. Pulo parágrafo, pois agora complica. Astrologia. Se estamos em determinado signo até determinado dia, qual o motivo das previsões pra esse signo mudarem todo dia ? O astrólogo não poderia relaxar um pouco, coitado ? Agora é aquário. Volte a falar do receptáculo de peixinhos a nadar sem mar só depois de 19/02. Correto ? Por aí, se os santos quiserem. Falando nisso, hoje pro cara ser santo, tem que provar um monte de milagres. Antes não era assim. Bastava ser chato. Olhemos São Berardo. Em 1219, ele e cinco amigos franciscanos foram pregar o evangelho em Sevilha, então chefiada pelos "monstros" mouros. Tiveram a ousadia de fazer sermão justamente ao rei inimigo, que os expulsou sem violência. Mas eles continuaram, os militantes, mais sete anos. Vai ser inconveniente assim no paraíso. Acabaram decapitados em 1226. O mesmo ano em que faleceu São Francisco. Coincidência ? Não ! No mundo místico nada é por acaso. Antes de morrer, o santo dos passarinhos e orcas ainda proclamou : "Agora posso dizer que, verdadeiramente, tenho cinco irmãos.". Uai. O primeiro caso de Alzheimer com auréola cortical da História ? Voltemos ao texto. Eram seis franciscanos. O mestre esqueceu de um ? Ou teve o espertão que fugiu antes de perder a cabeça ? Terá sido São Berardo ? Ou outro deles, que se chamava Adjunto, que como os professores com o mesmo nome, escorregam dos alunos na faculdade ? Agora, linda visão cósmica: bando de seres puros, assexuados, em fila. Olhando o relógio, trotando impacientemente o pezinho pão francês. Os anjos têm jornada de trabalho bem folgada. E está mais que justo. Isso é exploração do trabalho infantil. Plantão de vinte e quatro horas e depois ficam quase um mês e meio de folga, batendo asa por aí. E nomes complicados. Apelidos. Rebeldia. Tapa no bumbum. Li Freud desnecessário. Pois está dito no misticismo: sonhar que está comendo alface indica desgosto. E quem gosta de alface, como eu? Nunca mais. E garotas que vão toda noite pra balada evitam celulite: as luzes verde e azul, encontradas nas boates, são preventivas para esse mal desagradável! E a diarréia? Resolvida em dez minutos com a cores...verde e azul ! Uma íntima relação patogênica entre celulite e diarréia. Que doutor já pensou nisso ? A era do iluminismo para a clínica ! O azul ainda diminui a nossa irritação e acaba com a dor das queimaduras. O amor é azulzinho. Agora notícia boa. Senhoras e senhores, pulem do sofá e se abracem. Manchete em letras garrafais, por favor. Fim do Viagra, último suspiro do Prozac. Sabemos que um corta o efeito do outro. Novidade: a pedra âmbar aumenta o prazer sexual ao mesmo tempo que trata os problemas depressivos. Viram? Só quero saber como eu devo utilizar, digo, não em mim, mas nos meus pacientes. Quanto tempo antes? Em que local ? Nos homossexuais é do mesmo jeito que nos heterossexuais? Em casos de melancolia, colocamos a pedra na cabeça ou a engolimos? Muitas e sinceras dúvidas. Estou um pouco fora do meu eixo kármico ? Que número da sorte telefônica ligo se avistar o fujão Adjunto por aí ? " Não há outra maneira de aprender a não ser nos conhecendo, transformando nossos medos e limitações em força e alegria." ( Brian Weiss ) Paulo Castro é cronista do Blônicas e estará no comando e nas terças-feiras até o capitão Botter retornar de viagem.pcpsiq@uol.com.br Minhas férias
De Nelson Botter. Minhas férias foram muito legais. Eu gostei bastante. Fui com o papai e a mamãe viajar para a praia. A praia estava muito cheia de gente. Daí era tanta gente que não tinha espaço para o colocar nem o guarda-sol. E o sol estava muito forte, me queimei. Ouvi falar que é um tal de efeito estupa, estuva, espupa, ah!, não lembro agora, mas o sol estava bem forte. Desse jeito daqui alguns anos não vai mais ter gelo no mundo, vai derreter tudo e o mar vai ficar maior. Tenho medo. Ficamos uma semana lá. Eu gostei bastante. O papai ficava bebendo uma coisa amarga feita de limão e açúcar. Daí a mamãe ficava com cara de brava, sozinha, cuidando de mim. Às vezes aparecia uma amiga dela, mas não ficava muito tempo com ela. A amiga também tinha que cuidar dos filhos. A areia estava fofinha e cheia de lixo. Fiz castelinho e cavei um túnel. Tinha também uma água suja e fedida que dava no mar. A mamãe falou pra eu ficar longe. Obedeci direitinho, só pisei lá umas três ou quatro vezes. Eu gostei bastante. Daí a gente voltou pra casa. O papai no outro dia queria viajar de novo. O papai não agüentava ficar em casa com a mamãe. Eles brigavam muito. Eu não gosto disso. Daí a gente foi para uma cidade muito bonita. A cidade bonita chamava Petrópolis. Fomos de carro. O carro demorou muito pra chegar lá. Teve uma hora que dava pra ver o Rio de Janeiro de longe. Quer dizer, não dava pra ver nada, mas o papai disse que lá era o Rio de Janeiro. Daí só deu pra ver um monte de nuvem cinza por cima da cidade. Perguntei pro papai se era chuva e ele disse que não, ele disse que era poluição. Mas poluição não é só em São Paulo? Eu contei no meu reloginho mais de 10 horas de estrada. Cansei, mas eu gostei bastante. Tem muita montanha lá em Petrópolis. E também tem estradas com muita curva. Lá é alto e faz frio. Daí fomos ver umas casas antigas muito bonitas. Tinha também um museu. Era a casa do imperador muitos anos atrás. Eu gostei bastante. Achei a cidade muito bonita e dava até vontade de namorar. Queria ter uma namorada lá para namorar. Pena que o papai e a mamãe não tinham essa vontade de namorar. Brigaram a viagem toda. Teve um dia que a mamãe chorou. Eu não gostei disso. Daí a gente voltou pra casa. De noite a mamãe veio falar comigo. Disse que o papai ia viajar sozinho. Ele ia tirar umas férias sem a gente. A mamãe pensa que eu sou bobo. Mas não sou bobo. Eu sei que ele foi morar em outra casa, que não gosta mais da mamãe e que a mamãe não gosta mais dele. O papai me deu um beijo, daí disse que depois falava comigo e me levava pra brincar um fim de semana inteirinho só com ele. Fiquei triste. Mas eu gostei das minhas férias, conheci lugares muito legais. Pena que o papai e a mamãe não aproveitaram como eu. Daí eu acho que ser adulto é muito difícil. Meus amiguinhos querem crescer logo. Eu não quero! Vejo os adultos dizendo que querem voltar a ser criança. Daí eu acho que o segredo é ser criança pra sempre. Quero crescer, mas não quero ser chato como os adultos. Será possível, professora? Nelson Botter é cronista às terças, mas como julho é mês de férias também no Blônicas apareceu aqui na quarta. Bem-vindos à Carençolândia
De Xico Sá. Bravas fêmeas expulsas do paraíso por um deus misógino fundaram a Carençolândia, no tempo em que tudo era apenas o fogo e o verbo. Mas foram os machos, porém, que se firmaram, nos dias que correm, como os mais legítimos cidadãos carençolandeses. Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas. Proverbiando
De Castelo. Não foi por falta de aviso. Ele cansou de ouvir: o que nunca se começa, nunca
se acaba. Castelo é cronista do Blônicas. Visite: www.castelorama.com.br Não tô inteindeindo
De Leo Jaime. Fiquei muito tempo diante da televisão. Copa do mundo é sempre assim. Fico sonhando em ir participar de uma, assistindo ou trabalhando, e imagino se não seria pior. Do Brasil podemos acompanhar tudo, ver todos os jogos ou quase todos, e fisicamente isto seria praticamente impossível. Financeiramente inviável, tenho certeza. Há poréns. O principal deles são os anúncios. Este ano foi ainda mais complicado. Ou não, sempre é chato. O problema deste ano foi a quantidade de anúncios sem pé nem cabeça. Ou tinham pé e cabeça e eu é que não entendia nada e ficava indagando o que aquilo queria dizer. Alguns exemplos? Vamos lá. Um anúncio mostrava um cara que ia casar e se imaginava de bermuda, ia para uma reunião de trabalho e se imaginava coma mesma bermuda e de sandálias, e não conseguia se ver sem estar com a mesma roupa de turista americano, de bermudas e sandálias. Acho que o cara tinha vocação para turista profissional, americanão, evidente, e não conseguia se imaginar fazendo nada sem ser como turista. Outra hipótese: o cara adorava tanto aquela roupa que ele não tirava nem para lavar. Ah, o anúncio era de carro. A roupa? Não sei. Outro comercial estranho era aquele em que o Selton Mello aparecia na platéia lotada de um grande teatro dizendo que uns nasciam para fazer e outros para aplaudir. Luzes no palco, uma mesa, telões, um computador e entra a gatinha. Jeans e camiseta, ela senta na mesa e digita no computador uma frase. Isto feito ela vai para a galera. Aplausos generosos. A Letícia Birkheuer, sei lá se é assim que se escreve, também estava lá para aplaudir o feito! Afinal, o que é que ela fez? Escreveu uma frase? Ah, sei, ela conseguiu escrever uma frase inteira, com começo meio e fim, sem errar! Beleza! Uns nascem para fazer!!!! A menina!!!!! E outros para aplaudir!!!!! O Selton inclusive!!!!! Beleza!!!! Entendi!!!!! Vai ver era inacreditável que aquela menina conseguisse escrever uma frase e por isso tanta torcida e tantos aplausos. Ela não tinha cara de burra ou coisa que o valha, embora esteja implícito. Tá bom, gente que faz! Uma frase!!!!! Um anúncio da Pepsi mostrava um monte de caveiras saindo da tumba e querendo um gole da Pepsi de uma menina. bom, a mocinha não tava nem aí para os defuntos levantando das tumbas, vai ver porque ela era meio morta-viva também. Ou será que ninguém mais se assusta com defunto saindo de cova? Os mortos todos queriam a Pepsi. Isto significa que o refrigerante é a escolha dos que já morreram e esqueceram de cair ou isto quer dizer que depois de morrer a gente tem sede? Fiquei confuso. Dã, dã, dã. E aquele comercial em que aparecia, quanta originalidade, um monte de gente fazendo embaixadinhas. Qual? Tinha mais que um? Não diga! Pois é, o mais esquisito era aquele em que a música parecia do Gilberto Gil e era anúncio de uma fábrica de papel e a letra ficava repetindo: traz a proteção, traz a proteção. Papel? Traz a proteção? Copa do mundo? Embaixadinha? Não consegui ligar os pontos. Alguém ajude! A televisão me deixou burro, muito burro demais! Encontro um amigo, do ramo das comunicações, jovem, e ele diz a mesma coisa: também não está entendendo nada. Fico mais tranqüilo. Não preciso ser interditado ainda. Leo Jaime é cronista do Blônicas toda quinta-feira. Amor genuíno
De Nelson Botter. Eric Fromm, psicanalista alemão do início do século passado, dizia que é falso pretender que amor-próprio e amor aos outros não sejam compatíveis. Assim, ele afirmava que um não anula o outro, pelo contrário, são complementares e necessários. Eis o grande problema da cultura moderna: não somos individualistas, não estamos apenas preocupados com interesses próprios, não somos egoístas, mas estamos sim despreocupados com o interesse genuíno de nossos autênticos eus, que é amarmos a nós mesmos, e - conseqüentemente - a todos. Amor a uma pessoa implica em amor à humanidade. Amor à humanidade implica em amor a si mesmo. Algumas pessoas confundem amor-próprio com egoísmo, mas não se trata disso, no sentido usual o egoísmo é rancor por si mesmo. A prática psicanalítica revela que as pessoas egoístas são profundamente ansiosas, cheias de animosidade por elas próprias, vazias e frustradas. Por isso, estão ávidas por absorver da vida tudo que puderem para compensá-las de sua impotência e incapacidade de amar. Como carecem de respeito e amor por si mesmas, não têm respeito pela dignidade, integridade e direitos dos demais. Daí, novamente, a conexão entre a capacidade de ter amor-próprio e amor por quem nos cerca, afinal um amor é também o outro. O amor é indivisível na conexão a "objetos" e o próprio eu. Trata-se de uma manifestação de produtividade e implica em cuidado, respeito, responsabilidade e conhecimento. Não é um afeto no sentido de ser afetado por alguém, mas um impulso ativo para o desenvolvimento e felicidade da pessoa amada. Segundo o próprio Fromm, a noção de amor romântico é falsa, não pode ser verdade que só haja uma pessoa no mundo a quem possamos amar, o chamado "amor da minha vida", e que se tal pessoa for descoberta esse amor acarreta na retirada do amor das outras, ou pelo menos na diminuição dos outros amores. Quando falamos de amor, rapidamente somos tachados de piegas, pedante ou qualquer outra coisa que nos diminua. Claro, somos todos resistentes a essa que é nossa maior necessidade: o resgate do amor genuíno, aquele radicado na produtividade, que pode até se denominar "amor produtivo", que é o mesmo amor entre mãe e filho, amor pela humanidade, amor erótico entre duas pessoas, enfim, os objetos mudam, mas o amor é sempre o mesmo. Portanto, é necessário trazer esse amor à tona, afinal todos dependem uns dos outros. Essa explanação um tanto racional do amor pode soar fria e nada sentimental, como é o comum quando abordamos tal assunto, mas é apenas uma das maneiras de mostrar que o amor pode ser debatido como algo concreto, não apenas como um suspiro brega de alguém de coração mole. E nesse mundo cada vez mais dominado pela violência, motivada pelo poder e o dinheiro, nos perguntamos onde pode estar escondido esse amor genuíno... Comece a cavar, pois a resposta é certa: está em você. Nelson Botter é cronista do Blônicas e avisa que hoje tem evento literário bem legal em SP: veja mais aqui - PNOB. Dias em observação
De Tati Bernardi. Ela veio cheirosa e molhada, desfilou por erro em mesas próximas e caiu bem na minha frente. Foi em um castelo medieval que voltei a comer carne, eu estava com meu modelito princesa mas tinha fome de besta. No princípio, enchi a boca com uma culpa tão vulgar que me fez gostar ainda mais de dançar com seus restos pelo sangue do prato. Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados. Serendipity
De Rosana Hermann. A palavra mais bonita da língua inglesa, na minha opinião, é serendipity, uma palavra inventada por um escritor a partir de uma história de três princesas. Serendipity é aquela coincidência feliz, o acaso fortuito, uma descoberta inesperada que nos alegra, semelhante aquele sentimento que temos ao encontrar um anel de ouro perdido atrás do sofá no momento em que estávamos procurando o controle remoto que caiu lá trás. Foi assim, por obra dos deuses aleatórios que fiz meu primeiro contato com a Sibéria. Permita-me contar esta breve história. Como todos os dias, fui pesquisar para um blog que escrevo, desta vez, no arquivo de imagens do archive.org, um banco de dados abertos que além de outras coisas, nos leva por uma viagem no tempo. O primeiro resultado da busca, me fascinou. Era uma entrevista em russo, de um músico e performer multiinstrumentistas, tocando instrumentos étnicos num estúdio na Alemanha, para o entrevistador em Nova York, tudo via web. Não falo russo mas adorei a música e achei a idéia de divulgar o trabalho de um artista pelo skype simplesmente sensacional e segui em busca de um contato com Nadishana para pedir sua autorização para publicar o vídeo. Escolhi a opção de língua inglesa no site russo de Nadishana e bem no link dos contatos, o skypename dele. Chamei, deixei uma mensagem meio envergonhada. Poucas horas depois, ele me chamou em texto. Rapidamente, mudamos para comunicação em áudio e vídeo, eu no Brasil, ele, na Alemanha. Nadishana me contou que está fascinado com a Internet, meio que ele conheceu há pouco tempo e sobre o qual foi aprender mais em Berlim. A cidade onde mora, é um vilarejo na Sibéria que não só não tem Internet como não tem nem telefone. Mandei para ele algumas fotos tropicais das praias que freqüento e ele, enviou fotos de sua vila siberiana, em tempos de quarenta graus abaixo de zero, no meio da neve. Além de autorizar a publicação do vídeo ele colocou legendas em inglês e me mostrou links de suas performances com dança, música e uso de fractais. Falou também da concepção do mundo de acordo com a mitologia antiga Kuzhebar, seja lá o que for exatamente isso. Tem coisas que são mais complexas do que a língua russa e o alfabeto cirílico. Fiz o post, publiquei o vídeo com as legendas e, para minha surpresa, a história também pareceu mágica para um dos desenvolvedores do skype na Estônia que, gentilmente, me convidou a postar num blog coletivo, em inglês, pela primeira vez. Não corrigi os erros dele na tradução do russo para o inglês, assim como tenho certeza que deixei na minha tradução algumas impropriedades também. Não importa, há coisas que ultrapassam as barreiras lingüística, como a música e os sentimentos. A Internet e a tecnologia são realmente maravilhosos, capazes de aproximar pessoas e espalhar cultura, levando a arte antiga de uma pequena vila da Sibéria para São Paulo, Berlim, Tallinn e o mundo. Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas e tem um blog novo, o Skype Brasil. Visite clicando aqui! O que nos espera?
De Nelson Botter. São Paulo é uma panela de pressão prestes a explodir. Além do caos da superpopulação, que impacta ferozmente no trânsito, demanda de serviços, custo de vida e má distribuição de renda, ainda temos que enfrentar o crime organizado... mais organizado do que nunca. O paulista, que achava que esse tipo de problema era exclusividade do Rio de Janeiro e seu tráfico de drogas nos morros, se vê diante da dura realidade, o crime em São Paulo não é cada um por si como se pensava antes, é uma grande corrente de elos muito bem interligados, que envolve bandidagem e corrupção de poderes e até planos políticos. É bem possível que muito do que tem ocorrido tenha um certo fundo político, afinal ano de eleição é sempre atípico, mas o que fica evidente é que o poder do crime organizado é grande e ameaçador, pois tira vidas de maneira premeditada e impune. Vemos nossas autoridades de mãos atadas, sem o devido preparo para combater tal situação, o que nos faz crer que essa suposta guerra possa não ter o final feliz que tanto esperamos. Os ataques a policiais e agentes carcerários, os boatos que fizeram a cidade parar, os presos ao relento no presídio de Araraquara, as contínuas rebeliões nas detenções, enfim, tudo isso são pequenas batalhas diárias que afetam aos poucos nossas vidas. Se a mão das autoridades paulistas for fraca e permitir que a panela exploda, a violência tende a ser generalizada, a briga do crime organizado contra a segurança do Estado pode se espalhar, ganhar novos contornos, fazer do caos social algo insuportável. A distância entre as classes sociais (cada vez maior nos grandes centros) pode deflagrar uma guerra civil velada, onde os menos favorecidos (em números crescentes dia-a-dia) precisam tirar dos mais favorecidos, usando de violência mais e mais armada. Cenário apocalíptico e exagerado? Nem tanto, já vivemos isso hoje e se nada mudar só tende a ficar pior. Os números de nossa violência comparados a outros grandes centros mundiais desenvolvidos são absurdos. Daí não ser exagerado e sim realista. Com um número cada vez maior de pobres nas grandes cidades, com a classe média cada vez mais beirando a classe baixa, o isolamento da classe alta pode ser perigosíssimo. Alguns filmes futuristas até retratam territórios e cidades dominados pela criminalidade sem controle, como se fossem "terra de ninguém". Pois é, o que se pensava ser ficção pode estar mais próximo da realidade do que imaginávamos para daqui 10, 20 anos. É o período dos feudos de forma indireta, é a história (sempre cíclica) nos mostrando os mesmos erros da civilização. A diferença é que com uma população gigantesca de baixa ou nenhuma renda (dominadas e incentivadas pelo crime organizado), as classes mais favorecidas terão de correr e abandonar seus castelos, pois não sobrará pedra sobre pedra. É uma guerra pelo poder, pela força da grana que ergue e destrói coisas belas. Paulistanos, um novo êxodo se aproxima... Nelson Botter é cronista do Blônicas às terças. O Homem-Laxante
De Xico Sá. Na saúde, na doença, na TPM... E muito mais ainda na prisão de ventre. Prova de devoção maior não há. Do que viver de perto este drama, seguir todos os passos da costela amada, na pista, na vida, no WC. O carinho, o cafuné, o chamego, o homem-laxante com a nega onde a nega estiver. Existem mulheres de todos os naipes, mas elas se dividem basicamente em duas classes: as que cagam bem e as que têm certas dificuldades. Os machos também assim se organizam, segundo Garcia Márquez, os que evacuam fácil e os que se enfezam ao extremo. O escriba mesmo, em conversa sobre o tema com o psicanalista Helio Pellegrino, declarou-se ruim de serviço, um enfezado nato. O temor feminino diante do trono exige atenção redobrada do macho. Melhor, valiosa leitora, não esconder essa pequena agonia diária. Ponha o tema na roda. Melhor ainda, meu rapaz, é você antecipar-se, assim que notar, pelos sinais exteriores de enfezamento _aquele riso sem graça e a sobrancelha com medo da vida_ que a amada carece de maiores dengos, cuidados, delicadezas. Ou sinais vindos das prateleiras das farmácias: Cascara sagrada, Ducolax, Tamarine... “Ameixas, ame-as ou deixe-as”, como no hai-kai de Leminski, também são bons indícios para despertar nossos trabalhos de Hércules. Vale todo esforço. Tive uma morena, por exemplo, jambo-girl da margem esquerda do Capibaribe, que só conseguia quando eu a acompanhava ao banheiro, e ficava ali, sentado, contando-lhe pequenas histórias, fábulas inventadas no embalo free-style. Eu sentava em um banquinho de criança, de modo a ficar à sua altura... Quando menos via, lá estava o sorriso destravado nos seus lindos beiços grossos. Era como um gol em final de partida, uma celebração, uma festa ao som pós-tudo da descarga... Eu ainda pedia que ela mirasse a merda, suas sobras completas. Quem olha as suas fezes, dizia a minha mãe, cria-se sem o menor pecado da inveja. Lição mais sábia. Outro bom conselho, que deixamos aqui de graça, é o da voz da experiência de “Tia Julia e o Escrevinhador”, livro de Vargas Llosa: “Para dores de amor, nada melhor do que leite de magnésia(...). Na maior parte das vezes, os chamados males de amor, etcétera, são distúrbios digestivos, feijões duros que não digerem, peixe estragado, entupimento. Um bom purgante fulmina a loucura do amor.” [Do livro “Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias”, Editora do Bispo. Corra Lola, corra, últimos exemplares!!!] Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas. Não estude tanto, meu filho, senão você vai acabar virando publicitário
De Henrique Szklo Outro dia escutei alguém dizer que todo publicitário deveria fazer faculdade de administração para poder entender melhor o negócio do cliente. Mas porque só administração? Não, não. Só administração é muito pouco. Para se transformar num profissional completo e enriquecer de verdade o seu currículo é fundamental que cada publicitário freqüente boa parte dos seguintes cursos: PÓS-GRADUAÇÕES Henrique escreve no Blônicas todas as sextas e adora uma intriga. Conheça seu site, o blog da mãe e o seu novo livro O Grande Milk-shake e os Canudinhos Mentais. Confissões de um megalomaníaco
De Rosana Hermann. E aí eu pensei: que tema posso escolher para fazer uma crônica que seja um sucesso estrondoso, do tipo que gera centenas de comentários, talvez quebrando o recorde de visitas do Blônicas? Algo que vire o comentário do dia a ponto que se transformar numa chamada de capa na homepage do UOL? Um tema que, claro, tecido com tal maestria de texto fosse instantaneamente copiado e colado em emails de spammers carentes, circulando por toda a rede até chegar a todas as principais editorias e redações de jornais e tvs do Brasil? Diante dos olhos estupefatos o texto, teúdo e conteúdo, seduziria editores e pauteiros. "O autor! O autor!", bradariam os jornalistas, ordenando a seus imediatos inferiores que saíssem em busca do criador da obra. Em minutos, rodos de convites chegariam a minha caixa de emails; meu celular seria inundado com baldes de ligações; até o meio da tarde o ostracismo de minha vida de autora sofreria a mais incrível faxina, do tipo que aponta pernas para o teto e encontra canetas bic atrás do sofá. Eu, claro, diria que não quero aparecer, que o que importa não é minha pessoa, mas meu trabalho, e aceitaria dar uma ou duas dúzias de entrevistas em todos os veículos que me trouxessem o sonhado e merecido prestígio. Depois do abalo sísmico de minhas entrevistas nos descartáveis meios de comunicação em broadcast, viria a fase madura da glamurização, como convites para transformar a crônica num longa metragem e a partir dela, iniciar uma coleção de livros, preferencialmente pela editora mais consagrada do país. Os convites mundanos, como capas de revistas de fofocas e ensaios sensuais para publicações masculinas, seriam recusados, mas com a alegria exata de ter antes sido convidada. A fortuna que vem com a fama seria uma mera conseqüência, especialmente o dinheiro mais fácil, aquele que é pago apenas para que a pessoa exista e marque presença. Como você vê, querido leitor, não é fácil a minha posição. Aqui estou eu, de pijama e tamanquinho e com as mãos no teclado, decidindo não apenas o assunto da crônica de hoje e uma nova possibilidade para a Academia Brasileira de Letra, mas todo o futuro da produção cultural do Brasil. É muita responsabilidade para uma simples quarta-feira. Talvez seja melhor fazer como na semana passada: dar uma miguelada, fingir que esqueci de mandar o texto, desistir da glória eterna da consagração mundial, pegar meu pão, minha água e voltar para a minha caverna. No fundo, já me conformei com o fato de que este mundo injusto não vai me oferecer o merecido reconhecimento pela genialidade que D'us me deu. Mas, quem sabe, se eu ficar bem quietinha e não fizer nada, nunca mais, eu consiga me transformar, ao menos, na mais insignificante megalomaníaca de todo o mundo. Rosana Hermann é cronista do Blônicas toda quarta. As mulheres e o futebol
De Nelson Botter. Você, querida leitora, que vibrou com a derrota brasileira na copa, achando que assim seu amado poderia esquecer a pelota e dedicar mais tempo à sua encantadora beleza, que se iludiu acreditando que seu príncipe deixaria de lado aquele monte de homem correndo atrás de uma bola, sim, você mesma, que detesta competir com o futebol, saiba - infelizmente - que nada vai mudar. É isso aí, homem não muda de time, apenas faz transferência, Freud já dizia. Se ele não torce mais pelo Brasil, vai torcer para uma das seleções semi-finalistas, vai vestir a camisa, tomar todas enquanto assiste ao jogo e vibrar como se fosse sua verdadeira seleção. Pois é, não tem jeito, já está no sangue, os genes masculinos também correm atrás da bola, e você, menina, que passa creme por todo o corpo, contorna a boquinha de batom tutti-frutti, que fica perfumadinha, linda e maravilhosa, deliciosamente gostosa para seu queridinho, você não vai ter vez novamente, forget about it, é a sina. Nem pense em pular na frente dele, nem pelada!, pois é preciso saber se Felipão vai se dar bem, se a Alemanha leva o caneco em casa, se o Parreira vai pedir desculpas, etc; Entenda, é preciso paciência e, mais do que nunca, compreensão. Eu sei, o tempo urge, pois você, menina linda, sabe que logo o campeonato brasileiro recomeça e aí serão mais 6 meses sem ganhar a mínima atenção, terá de competir até com a reprise narrada em inglês, mas é preciso planejar, não ser afoita, afinal de contas homem se ofende quando mulher não respeita sua paixão pelo futebol. A boa notícia que trago é que na derradeira hora, quando se joga o rapaz na parede, ou a bola ou eu, e ele - claro - escolhe a bola, surge a nova oportunidade, o chope com as amigas, as baladinhas lights, e sempre tem um carinha interessante que não gosta de futebol, ou que pelo menos não acha que a paixão nacional seja o futebol e - sim - uma bela bunda. Pois nesse instante, menina, olha só que maravilha!, você ganha aí 90 minutos para se divertir a valer com os reservas, afinal do titular não se pode esperar muito, assim como foi com a seleção de Parreira... Por isso sempre digo: mulher só fica no zero a zero se quiser, com ou sem copa do mundo. Nelson Botter é cronista do Blônicas às terças. O truque do “Estou confusa...”
De Xico Sá. Amigos machos, amigas fêmeas, amigos gays, amigas lésbicas, amigos transexuais, amigos de todas os naipes e naturalezas... Sabem de uma coisa que acho massa, o máximo, nos tais tempos que voam? A apropriação do discurso masculino por parte das mulheres, já notaram? Não chega a ser propriamente um plágio, mas é uma beleza, quase, quase! E nos interessa sobretudo a enganação-mor, o clássico dos clássicos da nossa principal desculpa. Aquela usada desde priscas eras, saca? Então dois pontos para acochambrar os parafusos da memória: “Estou confuso, não é culpa sua, você é ótima, mas acho que não vou lhe fazer bem nesse momento, bla-bla-bla-bla”. Haja enganação, nove horas, truque, fraude... Já ouviram esse fragmento do discurso nada amoroso, né? Pra completar: “Você merece algo melhor!!!” Repito, era um clássico das desculpas dos machos. A nossa maior falta de vergonha na cara. Agora, faz favor, bote um “o” no lugar do “a”. Pronto. Sim, agora ouvimos a mesma ladainha da boca das moças, o mal é o que sai de onde menos esperamos, poxa! Já faz tempo que essa desculpa _ “ESTOU CONFUSA...”_ só sai da boca delas. Não faz mal, quantas vezes não usamos do mesmo artifício, da mesma falta de argumento, tá legal, eu aceito o fingimento... Mas por favor, crias das nossas costelas, devolvam o meu caô, o meu 171, o meu agá, a minha enganação-mor, a minha forma de me livrar mais fácil e, de preferência, de forma indolor. Encanta-me o avanço das mulheres em todos os campos, só é desnecessário o quase plágio dos nossos discursos. Vocês não carecem disso, vocês são mais sofisticadas, lindas e labirínticas. “Estou confusa...” Isso era apenas coisa de macho frouxo, não de elegantes mademoiselles. Tudo bem que vocês, belas raparigas, avancem em tudo, mas não careciam furtar logo o pior dos nossos defeitos. Somente nesta última semana, deparei-me com quatro amigos sorumbáticos e macambúzios. Todos vítimas do “eu estou confusa, não é culpa sua...” Devolvam o nosso discurso picareta, façam-me favor! Nosso 171 de volta! Pronto, acabou! Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas. Como ser feliz domingo em São Paulo
De Tati Bernardi. Nenhum namoradão pra fugir pra montanha, nenhum tio rico pra te levar pra Nova Iorque, nenhum amigo disponível com casa na praia. Você tá meio sem grana mesmo e resolveu que o melhor é encarar mais um final de semana em São Paulo. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. |