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EM BREVE
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Carolina.
Carolina.
De Lívia Venina.
Carolina, sapeca maldita, malquista, incontrolável. Pula de túmulo em túmulo, no cemitério da vida imersa no líqüido substancioso da morte, zombando dos natimortos que já chegam ao mundo de olhos cerrados e pele fria. Natimortos cujo coração bate em compasso normal, mas distante da vivacidade maligna e ao mesmo tempo benéfica dos que saltitam por entre as ruínas da guerra. Carolina, a incompreendida, que coleciona amores como selos ou bibelôs cuidadosamente arranjados na estante do quarto. Pequenos troféus de pequenas conquistas, que acalenta feito menina acalentando seus presentes, suas bonecas que um dia partem para outros mundos, sem deixar uma cara de adeus. Carolina, a desbocada que não mede palavras, e solta rajadas de impropérios acompanhadas de escandalosas gargalhadas. Carolina, a tímida que se encolhe nos braços de seu homem, gatinha amedrontada, garotinha com medo do mundo, chorando baixinho suas mazelas de mulher.
Carolina que não cresce e aparece, pulando na frente da filmadora, botando meio palmo de língua pra fora, inquieta e sorridente. Carolina que chora no quarto com medo de nunca crescer, ficar velha e enrugada soltando pipa e jogando bola, esperando a morte chegar sozinha, sem saber como é carregar um filho no ventre ou ter um marido à cabeceira. Carolina que escreve, escreve, escreve e depois apaga tudo. Rasga com uma raiva maior que ela, mil pedacinhos de alma na lixeira, ardendo no fogo causado pela guimba do cigarro que ela jogou fora antes de apagar.
Carolina não tem idade, nem endereço fixo, nem maturidade. Tem uma conta bancária no vermelho, uma extensa lista de amantes bem-amados, um vazio doloroso no dedo anelar da mão esquerda. Uma estante cheia de livros e fotos, um cinzeiro permanentemente cheio, uma saudade que pesa no peito, de coisas que ainda não viveu.
Carolina é alquimista dos sentimentos, que sente com as mãos e regurgita com os olhos. Transforma piche em ouro branco, e faz caipirinha dos limões que a vida lhe joga achando que é fácil lhe dar rasteira. Não é. Carolina enverga todinha, mas não quebra, não. Carolina que de menina se faz mulher, de voz grave e suave, toque macio das mãos no corpo másculo que se apresenta. E sussurra músicas antigas, de um tempo que nem à ela pertence, garota dos musicais de Hollywood.
Carolina que chora e gargalha com a mesma intensidade, e ri das coisas absurdas e óbvias. Ri das pessoas mesmo quando tem medo delas, achando engraçado esse jeito humano de ser humano. Carolina acha que não é deste mundo, que foi mandada para cá por engano de um deus imprudente, fanfarrão, irresponsável e negligente. Lugar de Carolina é no espaço sideral, solta e esvoaçante no vácuo, no horizonte sem fim do desconhecido eterno.
Carolina é viva num mundo morto, e não entende o dialeto dos cadáveres. Chora quando quer chorar, come quando quer comer, ama quando quer amar, dá quando melhor lhe aprouver. E os cadáveres choram quando deveriam sorrir, sorriem quando deveriam chorar. Maldizem quando querem bendizer, maltratam quando querem bem tratar. Carolina não sabe se adequar às regras dos cadáveres sérios. Então continua pulando de túmulo em túmulo, encapetada e impossível, querendo mudar o mundo que a rodeia, ou procurando um novo mundo para morar.
Lívia Venina é leitora do Blônicas, estudante de Jornalismo e escritora wannabe nas horas vagas. sousaliv@gmail.com é sua Central de Atendimento ao Querido Leitor.
Quer ver seu texto publicado aqui no Blônicas? Então manda pra gente! blonicas@uol.com.br
Escrito por Blônicas às 11h34
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Falando honestamente.
De Rosana Hermann.
Por mais que a estatística seja oficialmente uma ciência matemática as aplicações práticas de levantamento de opinião pública já foram tão manipuladas, corrompidas e mal-interpretadas no mundo inteiro que a pesquisa tem hoje o status da astrologia: existe, mas nem todo mundo acredita.
Alguns institutos e entidades, porém, ergueram um mastro de credibilidade ao longo dos anos (ou pelo menos se cobriram com o manto da fé) e merecem todo o nosso respeito, especialmente quando os resultados provam aquilo que a gente sempre soube, que o eleitor brasileiro rejeita a corrupção alheia, mas perdoa-a porque, no fundo, ele só é honesto por falta de oportunidade. Vamos às provas. Primeiro, a Universidade de Brasília.
Estudo da UnB aponta que 87,4% dos eleitores não confiam nos políticos. (Colando este título no Google você encontrará a matéria como primeiro resultado). Isto, em Brasília, a capital federal, coração político do país. Há um ano, uma outra pesquisa em nível nacional, apontava 90% de descrédito na classe. Ou seja, ninguém acredita em político nenhum. Até aí, nenhuma novidade. O resultado mais doloroso vem agora, na pesquisa realizada pelo Ibope.
Pesquisa revela controvérsias na opinião do eleitor brasileiro sobre corrupção e ética. (Cole o mesmo título no Google também, é o primeiro resultado novamente). A matéria diz que:
- 69% dos eleitores brasileiros já transgrediram alguma lei ou descumpriram alguma regra contratual, para obter benefícios materiais, de forma consciente e intencional e
- 75% acreditam que cometeriam pelo menos um dos 13 atos de corrupção avaliados pelo estudo, caso tivessem a oportunidade.
E agora? 90% dos eleitores desconfiam dos políticos, mas 75% se corromperiam se tivessem a oportunidade, se fossem políticos, por exemplo? O que sobra? 15% de eleitores que são contra a corrupção e não se corromperiam, em princípio, se estivessem no lugar deles?
Mas se vivemos numa democracia, o governo da maioria, como é que 15% dos eleitores honestos, caso eleitos, poderão acabar com a corrupção no país?
Não sei explicar politicamente. Nem socialmente. Nem filosoficamente. Mas deve ser por isso que brasileiro odeia matemática.
Rosana Hermann é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas às 11h25
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Blogueiro novo na praça.
De Nelson Botter.
Fiquei intrigado ao voltar de viagem e ver a chamada de um portal de internet que dava destaque a um blog novo, escrito pelo ex-ministro cassado José Dirceu. Nada contra, pois todos têm o direito de se expressar livremente. Entretanto, achei curioso um blog notoriamente partidário ganhar destaque todos os dias nesse portal. E mais, ver outros conceituados formadores de opinião dividindo chamadas com esse novo blog e não se manifestando. No mínimo estranho... Cliquei e entrei. Lá estava eu no blog do Dirceu, ou blog do PT, sei lá. De cara vi que a forma como o blog é apresentado me pareceu um tanto hipócrita. Mas já aviso, é uma opinião minha, posso estar errado, foi o que me ocorreu ao ler que o objetivo do blog é ser um espaço democrático de discussão do projeto nacional em desenvolvimento, de reflexão sobre o futuro do país, de disputa política e de expressão da luta social. Cada um tire as conclusões que quiser... A primeira coisa que vi é que a área de comentários é moderada, ou seja, você dá a sua opinião e ela pode ou não ser publicada. Entonces, é democrático, pero no mucho... Bem no estilo da escola ditatorial de Castro, o dono da ilha, coisa que quase vimos acontecer no Brasil, com lei de imprensa e outras "cositas" mais. Aliás, Freud já dizia que a censura é algo realizado por pessoas 'castradoras'. Trocadilho interessante esse... Mas está certo, entendi, é para evitar engraçadinhos que entram lá para xingar o autor do blog, afinal trata-se de um político marcado por uma cassação. OK, passa. Continuei navegando e li alguns posts. Zé Dirceu pegou o jeitão certo de escrever em blogs logo de início, com textos curtos e objetivos. Ele faz pequenos discursos sobre notícias do cenário político brasileiro, sempre puxando a sardinha para o PT, é óbvio, e nem se espera isenção no espaço, apesar de se propor democrático e comprometido com a discussão do futuro do país. A idéia de Dirceu é muito boa, criar uma via de comunicação direta com o público eleitor, manter-se vivo no cenário político, elaborar melhor sua imagem de guru do PT, transmitir sua visão de "professor político", etc e tal, tudo isso com o suporte de um grande portal, ótima estratégia, marketing pessoal nota 10, não se pode negar. Mas, como nem tudo que brilha é ouro, me deparo com alguns textos que não são nada além de mera defesa de amigos acusados por corrupção, pura camaradagem, um panfleto político eletrônico. Em época de eleição cai muito bem, né? Para fechar, vi um post em que o autor diz que precisamos de juros menores e mais crescimento. Ué...? Zé Dirceu, meu caro, agora falo diretamente pra você, não entendi, você era praticamente um primeiro-ministro até outro dia! Por que não conseguiu implantar essa sua filosofia na época em que tinha atuação direta no governo? O Copom não te ouvia? Bla, bla, bla, bla, queridão! Sim, Zé Dirceu, precisamos de juros menores, precisamos de crescimento... e precisamos também de gente mais comprometida com o futuro do país, precisamos de políticos mais honestos, íntegros, preocupados com o povo e que não tenham projetos de perpetuar-se no poder; enfim, Zé Dirceu, precisamos é de mais vergonha na cara, muuuita vergonha na cara, mas muuuuita vergonha mesmo! Escreve aí no seu blog, Zé Dirceu, escreve que o Brasil cansou desse bando de sem-vergonha e que pode demorar um pouco, mas que os corruptos estão com os dias contados. Escreve aí, meu caro, e mostre sua indignação com toda essa bandalheira. Que tal, Zé Dirceu?
Nelson Botter é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas às 12h41
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Catalogando os machos –utilidade pública para as fêmeas
De Xico Sá.
Tudo bem, bravas fêmeas, os homens são todos iguais, já sabemos.
Alguns, no entanto, são bem mais perigosos que os outros. Em mais um serviço de utilidade pública, este cronista de costumes expõe aqui sua vitrine. Eis alguns tipos, noves fora a categoria metrossexual (já devidamente comentada nesta página) que merecem cuidados especiais:
Homem-bouquet – aquele macho que entende de vinhos finos, abre a garrafa, cheira a rolha, balança na taça, sente o “bouquet” da bebida... O tipinho não perde um programa do Renato Machado no GNT, entra em sites franceses do gênero, reúne os amigos para aporrinhá-los com o tal “bouquet”... Mais uma advertência: o mesmo elemento costuma apreciar também o que ele chama de “um bom jazz”, uma “música de qualidade”... Corra, Lola, corra de criaturas desse naipe.
Homem-hortinha _ Aquele mancebo que, ao receber as moças elegantemente para um jantar, usa o manjericão cultivado na própria hortinha que mantém no quintal ou na área de serviço. Cultivar o próprio manjericão não é exatamente o defeito do rapaz. O problema é que ele passa duas horas a discorrer sobre o cultivo da hortinha, os cuidados, o zelo, uma chatice só, para não dizer outra coisa. Uma amiga, coitada, conheceu um destes exemplares que cultivava até a própria minhoca usado como “fator adubante” da própria hortinha. Corra, Lola, corra, corra mesmo, corra enquanto é tempo!
Homem-do-predinho-antigo _ Aquele sujeito que ou é gay ou é um metrossexual enrustido. E o pior não é habitar um predinho antigo. O que mais dói é quando ele pronuncia, como toda a afetação desse mundo, que mora num “predinho antigo, charmoso”. Você entra lá, leitora do meu coração, e avista logo umas revistas chiques estrangeiras espalhadas pela sala, tipo “ID”, “Wallpaper” e quetais. O cara entende de iluminação indireta, tem cada abajur que só vendo. É um tipo sobretudo do Sudeste, mas também já começa a se espalhar pelo Sul e Nordeste. Fuja Lola, fuja.
Homem-Ômega 3 – Trata-se do camarada-saúde, preocupado em combater os radicais livres e encher o saco da humanidade com as suas receitas, dietas e bulas. Adora um salmãozinho, que ele pronuncia “salmon”, claro, como os mais frescos exemplares da raça. Jamais vai enfrentar um bom chambaril pernambucano ou barreado paranaense. Buchada de bode que é bom, vixe, passa longe. Até se benze, assustado, diante de um belo cozido de domingo. Adora um frango. Noooossa! Voa Lola e não se fala mais disso.
Homem-ONG – O sujeito onegê é o que há. Todo politicamente correto, benza-te Deus. Adora um abaixo-assinado, uma passeata, e está sempre morto de decepcionado com o governo, qualquer governo. Sim, ele acredita na humanidade, na responsabilidade social, no terceiro setor, na arte como redenção dos pobres... Se você reparar, leitora do meu coração, ele quase levita, de tão puro, de tão bom. Dá um “ninja” nele e some, Lola, some que é roubada-mor.
Homem-chorinho – Ele odeia tudo que é do estrangeiro, mesmo que seja um velho e bom rock´n´roll do Lou Reed ou do Elvis _tanto o rei como o Costello. Mas é capaz de passar horas, dias, quinzenas, como se estivesse numa festa igual à do filme “Anjo Exterminador” (de Buñuel), só ouvindo uma “MPB de qualidade” ou “zum de besouro ímã” do gênero. Finja que vai no banheiro, Lola, e dê área.
Xico Sá é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas às 15h37
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O que eu quero de você
De Milly Lacombe.
Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora para sair da cama. E, depois, ir tomar café na padaria e ler o jornal com você. Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e nem vou conhecer, como se fossem meus velhos amigos. Quero ver você me olhar entre um gole de café e outro, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a folhar o caderno de cultura. Quero a sua mão no meu cabelo, dentro do carro, no caminho do seu apartamento. Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa. E que pergunte se eu quero ver um DVD mais tarde. Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado. Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que eu provavelmente não estarei lá. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto. Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que comparilhamos enquanto olhávamos a lua. Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento. Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Que você nunca mais deixe de pensar em mim quando for a Londres, escutar Dream' Bout Me ou ler Nick Hornby. E, por fim, que você continue a dançar na sala. Para sempre. Mesmo quando eu não estiver mais olhando.
Milly Lacombe é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas às 21h10
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O queijo do Amadeo
De Tati Bernardi.
Eu tinha sido completamente louca por ele. Imaginem só, eu que não suporto papo-furado, doente por um garoto de 19 anos. Era a minha fase Gael Garcia e o garoto era a cara dele, eu faria o mesmo se hoje me aparecesse um clone do Clive Owen. Ele havia me largado por uma moçoila acéfala de 19 anos, na verdade, ele havia me largado por 347 moçoilas nesse contexto. Na época eu quase morri. O tempo passou, outras decepções vieram, outras loucuras ocuparam o espaço, o fato é: eu nem lembrava mais que ele existia. Até que, numa tarde ensolarada em Ubatuba, escuto aquela voz desafinada de quem tem pouco a dizer, mas diz tudo: “Tatizinhaaaaaaahhhh!!!” Em menos de duas horas estávamos na pousada que ele sempre alugava. Seus 458 amigos igualmente deliciosos e insignificantes estavam perdidos pelo mundo, ou seja: o quarto cheio de tênis, bitucas ilícitas e espumas de barbear, era só nosso. Não entendi nada do que estava acontecendo. Eu não era mais aquela mulher que um dia achou graça naquele garoto. E pra piorar, aquele filho da mãe já tinha me magoado muito, o que exatamente eu estava fazendo ali? Tentei relaxar, fechar os olhos, recuperar nem que fosse um centésimo da magia perdida com o tempo… nada. Ele não conseguia me fazer sentir nada, a não ser desdém. Desdém pelo quarto e suas bagunças adolescentes, desdém pela voz desafinada de quem não diz nada que interessa, desdém pelas 347 moçoilas e os 458 amigos. Quanta gente chata, quanta gente chata que tinha ficado no meu passado. Pra que remexer nesse monte de gente chata e superada? Pra que fuçar no passado? Outro dia eu estava andando por aí, sozinha, feliz da vida. A tarde era composta por uma pracinha, uma sacolinha com miniaturas lindas para meu novo ap e meu sapato de bolinhas. Eu tava que não me aguentava de alegria. Aí, de repente, vejo ele parando o seu suntuoso carro num boteco nojento. Congelei. Será que ia doer ver o que eu já imaginava que veria um dia? Logo depois dele, a morena inexpressiva desceu do carro, tirou a calcinha do meio da bunda, tropeçou de leve no meio fio e sorriu sem grandes emoções. Ele, para desespero total do meu ser, colocou a mão direita no ombro dela. Sentei num banquinho e dediquei horas e horas da minha tarde me dizendo: mas já faz tento tempo, mas já faz tanto tempo, mas já faz tanto tempo. De nada adiantou o mantra da aceitação, quando vi, eu já estava ligando para ele: -é você dentro desse boteco nojento com essa morena sem graça? -… -não faz isso comigo, por favor, fale comigo, eu posso morrer! -…. -você não quer falar comigo? -não! -por que? -porque já faz tanto tempo! Chorei o que ainda me restava de tarde e depois voltei a me perguntar: pra que remexer no passado? Pra que voltar a sentir aqueles tormentos que duraram anos por uma pessoa que já está superada há anos? Fiquei com essa dúvida na cabeça nos últimos dias. Eu estou numa nova fase tão boa, leve, feliz, equilibrada… então por que raios ainda me pego querendo cheirar poeira mesmo sabendo da minha rinite gravíssima?
Hoje eu acordei com uma vontade louca de comer uma coisa que eu não sabia o que era. Revirei a geladeira, revirei os armários, fui até a padaria da esquina, repassei mentalmente todas as opções do supermercado mais próximo… nada adiantou. Foi então que, aos poucos, meu paladar melancólico foi me dando pistas a respeito do meu desejo. Tinha cheiro de infância, gosto de sessão da tarde, era fresquinho, geladinho, branco, furadinho e combinava com tudo. Eu estava alucinada por uma fatia do queijo minas do Amadeo, era isso! Amadeo era um velho português, dono de um armazém famoso no bairro em que morei na minha infância. Desde que mudei de endereço, há dez anos, e mudei também de cabelo, de carro, de roupas, de gostos, de amores, de amigos e de manias, eu nunca mais tinha comido o tal do queijo minas do Amadeo, sem dúvida, o melhor do mundo. Peguei um trânsito de uma hora para ir e outro de duas horas para voltar. Quando cheguei em casa, devorei mais de um quilo de queijo e tive a certeza de que, mesmo a gente evoluindo e mudando de ares, uma visita às quinquilharias faz parte da vida, ainda que o preço sejam lágrimas, arrependimentos ou uma baita caganeira.
Tati Bernardi é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas às 11h44
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Retrato do humorista quando jovem
De Castelo.
Se tive alguma certeza na vida, essa foi a de que eu seria um humorista. Também, a primeira coisa que eu ouvi, logo ao nascer, foi uma piada. Chegou o médico-obstetra e falou, todo contente, ao me ver vindo à luz: - Bem-vindo ao Piauí. Apesar de recém-nascido gargalhei. De nervoso. Vocês podem imaginar como foi difícil minha infância. Todo mundo se recorda de um bola, uma boneca, um trenzinho dos seus primeiros dias. Eu me lembro das minhas assaduras: vermelhas, gigantes, coçando sem parar. Naturalmente, como a maioria das crianças, cheguei a ter um cachorrinho de estimação. Só que, numa manhã ensolarada, fui pra escola e esqueci o Bidu no quintal. Ao voltar, ele estava sequinho: tinha virado um charque de seis quilos e meio. Claro, comemos o Bidu no jantar. Dura a infância no Meio-Norte. Dura e seca feito rapadura. Mesmo as histórias infantis ali são diferentes. Dá pra falar de bicho-papão num lugar onde a refeição principal – quando existe – é farinha de mandioca? - Aí veio o bicho-papão - magrinho, esquelético, tremendo de fome - e falou que ia levar o menino desobediente pra… O Piauí é tão quente, mas tão quente, que passarinho, quando voa, usa uma das asas pra se abanar. É um tal de tico-tico se espatifando em pára-brisa de automóvel, bem-te-vi batendo com a cara em vitrine de loja. O tempo todo um filme “Os Pássaros”, de Hitchcock. Talvez por isso eu só tenha visto um pombo de verdade em São Paulo. Um pombão gordo, numa quentura daquelas, acaba falecendo. Não decola com uma asa só nem que a vaca tussa. E, por falar em vaca, outra coisa curiosa: nessa época, vaca no Piauí só dava leite em pó. Misturava-se direto na água, nem precisava esquentar, já saía das tetas fervendo. Outra surreal. A tentativa que fizeram de criar camelos na caatinga não deu certo porque os camelos morreram de desidratação. Apesar dessa estiagem toda, minha família – que era dada a empreender negócios inovadores - conseguiu ganhar um dinheirinho e abriu um negócio: uma fábrica de água mineral. Investiram toda a grana nos vasilhames, nas tampinhas, no gás. Mas, quando partiram pro engarrafamento se tocaram de que não existia matéria-prima na região. No desespero, começaram a importar água do Rio de Janeiro. Mas aí uma garrafa da mineral ficou do preço de uma de champanhe. Era o começo da falência. Transtornado, um dos meus tios ainda tentou abrir um negócio alternativo: uma sauna. Mas se alguém quiser fazer sauna no Piauí basta ficar nu. Se preferir a úmida, é só ficar cuspindo em cima da calçada que sobe vapor na hora. Como o maior produto de exportação do Piauí é a própria população, fomos enviados para São Paulo. Num contêiner. Bom, ao menos viemos de primeira classe, sentados em cima das redes de tucum. As mangas e os doces de buriti viajaram na parte de trás. Nascia assim o primeiro homem-gabiru do humor brasileiro.
Castelo é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas às 12h49
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Plágio: o que será que será?
De Rosana Hermann.
Há dois dias o circo da minha vida foi coberto pela lona furada do plágio. Recebi um email de um leitor do blog que escrevo há seis anos, o Querido Leitor, surpreso com o fato de ter encontrado dois recentes posts meus numa coluna do jornal impresso que ele assina em Florianópolis. Fui verificar e, bingo! Lá estavam meus dois filhotinhos seqüestrados de nossa casa limpinha, presos num quartinho sujo de um cativeiro escuso. Foi só puxar o fiozinho e detonar a descoberta de uma sistemática de mais de um ano e meio, uma centena de posts que criei, escrevi e publiquei, copiados, colados e assinados como se fossem de autoria de uma figura folclórica de Floripa, segundo relatos de moradores locais.
Depois de surtar em todas as direções e sentidos, entrar e sair da depressão, sobrevivi aos ataques de dor e ira e mergulhei no mundo da reflexão e discussão com os amigos. O plágio é repugnante, desprezível e inaceitável, mas há incontáveis nuances que envolvem o sempre complexo comportamento humano. Meu interesse era o de entender não apenas 'como' ou 'por quê' uma pessoa plagia a outra, mas principalmente o quê a pessoa sente antes, durante e depois de plagiar. E, mais além, qual o processo que faz com que ela repita o ato durante tanto tempo.
O ponto em que todos concordamos é que o plagiador só copia aquilo que ele admira, que gosta, que quer para si. Algo que lhe beneficia de alguma forma, que lhe renderá algum proveito. Plagiar é roubar e ninguém rouba coisas sem valor, a não ser que seja por cleptomania. E mesmo no caso da cleptomania, aquele objeto tem algum valor para ela, ainda que muito subjetivo e inconsciente. O plagiador, antes de mais nada, é um admirador. O que não diminuiu seu grau de periculosidade considerando-se que assim como Chapman, muitos assassinos de celebridades eram fãs desses mesmos ídolos. O problema portanto é de caráter.
A ocasião também faz o ladrão no caso do plagiador. O texto disponível e aberto, a facilidade de sombrear e copiar, são agentes facilitadores da realização do ato em si, o de roubar. A pessoa lê, gosta, deseja e apropria-se do post. Esta é a parte do Ctrl+C. Vamos agora ao outro passo, a hora de colar o texto em outro lugar, o Ctrl+V.
O plagiador cola o texto em algum lugar que é seu para obter alguma vantagem. No caso de um trabalho pago, como do colunista, as primeiras vantagens são óbvias, como a economia de tempo e esforço. Muitas vezes escrevo posts por impulso, como quem senta ao piano e toca o 'bife'. Em outras ocasiões passo horas pesquisando até elaborar um post completo, com informações precisas, links ativos e figuras que ilustrem o texto. Todo este tempo, esforço e trabalho são poupados ao plagiador que já leva tudo pronto. Uma segunda intenção mais sutil é a de conseguir prestígio. Posts com conteúdos mais profundos, observações intelectuais, criações humorísticas inéditas, informações de bastidores, sejam elas de gosto duvidoso ou não, sempre agregam um toque de originalidade e sortimento à coluna do plagiador. O resultado, no meu caso, era evidente. O próprio colunista publicava elogios a si mesmo. Mas tudo isso é uma questão racional.
A questão mais profunda é...o que o plagiador sente, antes, durante e depois do plágio? O que acontece no plano emocional? Como se sente o plagiador ao receber um elogio por um texto que não é seu? Como ele lida com o medo de ser descoberto e desmascarado? Como ele age depois que isso acontece? Qual a relação de prazer e pavor que ele sente com a pessoa que ele copia?
Não posso responder por ele, mas recebi um email de uma pessoa que plagiou outro post, que passou por dois estágios que todos os culpados passam: a alegação de que fez mas não o fez por mal (o que é verdade neste caso, o plagiador não quis me prejudicar, quis apenas beneficiar-se) e a afirmação de que não é o único a fazê-lo, o famoso 'todo mundo faz'. A primeira alegação, a de não fazer por mal, é básica. Juridicamente é a alegação de que não houve o 'dolo'. A segunda, de caráter mais psíquico, é a de que não está sozinho, não é o único, ou seja, é uma tentativa de dizer que sendo algo 'comum', é também algo 'normal'. Compreendo mas não concordo. Normal não é.
Encerrando este longo texto, acredito que o plágio seja uma espécie de transformismo intelectual patológico. Um desejo de ser o outro, de estar dentro da pele do outro, um jeito Norman Bates de ser. Uma mistura de preguiça com admiração, atestado de incompetência do plagiador misturado com uma punição ao plagiado. Em última instância, o plágio é a vingança do incapaz, um tiro que, mais dia menos dia, acaba saindo pela culatra.
Rosana Hermann é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas às 10h56
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Ainda dá
De Nelson Botter.
Chegou a hora da virada, de respondermos a toda essa corrupção que carregamos desde os tempos do império, essa herança maldita que nos persegue história a dentro. Dia de voto é dia de lavar a alma! É sério, muito sério. Ainda mais quando temos a oportunidade de votar em deputados e senadores, além de presidente e governador. Tudo junto, numa cajadada só.
Eu larguei o discurso vazio de que nada vai mudar, joguei a omissão de canto, parei de dizer que não tem mais jeito e que não quero votar, que perdi as esperanças, que a Inês é morta, etc e tal. Chega! Vou usar meu voto, pois é minha voz. Meu voto pode ajudar a melhorar as coisas, logo o seu também pode. Acredite, hermano e hermanita, não precisa muito, basta observar, analisar, raciocinar e - principalmente - se informar.
Por exemplo, você sabia que muitos dos políticos envolvidos nas maracutaias dos últimos tempos (e até dos velhos tempos) são candidatos? Estão aí de novo, esperando seu voto, ávidos por continuar mamando na sua teta, para sugar o seu sangue, secar seu suado dinheirinho que vai para o Estado em forma de impostos. Nós sustentamos essa 'galera', tanto com nosso dinheiro como com nosso voto, portanto é hora de acordarmos.
Faz o seguinte, entra aqui nesse link da ONG Transparência Brasil. Lá você encontra a ficha dos candidatos, mostra quem responde a processo de corrupção, quem trabalha pelo povo apresentando projetos, quem vai às sessões da câmara, quem esbanja gastos de gabinete, enfim, tudo que você precisa saber está lá, num grande banco de dados, organizado por nome, uma beleza, esperando por sua sede de informação, na esperança de que nossos votos sejam mais certeiros, mais corretos e que no final dos próximos quatro anos, tenhamos mais motivos para comemorar do que para reclamar. Dê uma chance ao Brasil, vote pra valer.
Nelson Botter é cronista do Blônicas e convida os leitores a enviarem textos de tema livre para serem publicados aqui no blog. Enviem para blonicas@uol.com.br
Escrito por Blônicas às 11h26
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A moça triste da boate Kallifa
De Xico Sá.
No cyber café da augusta, o lindo travesti atualiza a sua página de anúncios; a puta bloga, unha vermelha e dedógrafa. O tio, meio homeless, lua minguante como elegante chapéu, style, sai do “nove canções”, cambaleante, paudurescente, bolinações, as coxas ruivas, longas, o cinema.
O tio, cada dia um hotel, cada noite uma cama, adormece com o neonzinho piscando um coração vermelho no branco do seu olho.
O tio sonha com a moça da beira daquela estrada perdida, São Sebastião do Paraíso... A menina dos olhos mais verdes e mais tristes, cor de lodo de uma existência escorregadia. A moça da boate Kallifa. Infinita tristeza n´alma, petite mort, encomenda dos deuses.
O piercing na língua. O céu pela fresta da goteira, a lua em vírgula.
Um “eu te amo” tão precoce, mesmo depois do sexo bem pago. Ou terá sido o assobio do vento, como no conto de Tchecov? O barulho dos caminhões no asfalto impedem de ouvir outras promessas, chove elipses pelo buraco da telha.
A vontade de morrer por ali mesmo, docemente, naquela calma de amante que acabou de beber o veneno.
Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.
Escrito por Blônicas às 12h54
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Desabafo de uma escritora que sofre
De Tati Bernardi.
Não aguento mais esse papo-furado aqui no Blônicas me pedindo para ser mais leve, mais feliz, mais simples, mais breve, mais prática. Você suportaria ser demitido pelo seu chefe sem entender os motivos? Você suportaria levar um fora do seu amor sem ouvir pelo menos uma tentativa de explicação, ainda que cheia de eufemismos (poucos tem coragem de dizer a verdade: eu não te amo mais)? O fato é: você suporta ser passivo o tempo todo e não indagar essa vida nunca? Se o seu paquerinha, ao invés de te levar jantar em um lugar bacana, te falar coisas interessantes e perceber a incrível mulher que você é, apenas te levasse pra casa dele e te comesse, você não ficaria decepcionada? Se a sua paquerinha, ao invés de se arrumar bem bonita pra você, te tratar como o melhor macho do planeta e te contar que além de malhar 3 horas por dia ela também lê 3 livros por mês, apenas te pedisse pra cuidar dela e pagar a conta, você não ficaria decepcionado? Sem nossas perfumarias somos apenas humanos banais e quase selvagens. Sim, homem quer comer a mocinha. Sim, mulher quer se sentir protegida e segura (e mulher gosta bastante de dinheiro também). Taí a simplicidade que vocês tanto me pedem… Gostaram dela? Aposto que não. Ninguém verdadeiramente interessante se limita em ser primata ou ser comum. Tentem ir além de uma bunda e vocês podem descobrir uma super companheira de vida. Tentem ir além dos lugares que todos vão e vocês podem descobrir o seu lugar nesse mundo. Tentem ir além do homem perfeito e vocês vão se divertir muito. Tentem ver que por trás do sorriso do Coringa (aquele que por dentro era todo corroído por ácidos) existe uma dor, existe uma tristeza, existe algo incomodando o tempo todo. Não dá pra rir o tempo todo, e eu não to numa fase engraçada, dá licença? Sim, eu posso ser feliz, eu posso ser leve, eu posso ser engraçada, eu posso ser breve, eu posso ser simples. Mas aí eu ia ser modelo-manequim-atriz e não escritora! Porra!
Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.
Escrito por Blônicas às 12h08
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O que me entristece no Brasil
De Rosana Hermann.
Estou triste com o Brasil. Não é de hoje. Já faz tempo. Começou bem antes dos escândalos da CPI, mas culminou com a recente notícia da generalizada corrupção em Rondônia e os recentes ataques do PCC. Mas não estou triste apenas com os políticos, e sim com grande parte da população de brasileiros. O que sinto é que o brasileiro, genericamente falando, glorifica a canalhice. Glorifica a canalhice, prestigia a cópia, aceita e inveja o enriquecimento ilícito, promove as aparências, despreza o conhecimento, humilha a cultura. E o pior: tudo isto, por baixo do pano. A impressão que tenho é que a grande maioria dos honestos só é honesta por falta de oportunidade de corromper ou ser corrompida.
Mais além, o país parece ter sido dominado por pessoas patologicamente vaidosas, forjadas na cultura do Kinder Ovo: basta uma casquinha superficial de docilidade e uma surpresinha descartável no meio e pronto, a criatura já vira uma celebridade, faz sucesso. E não é apesar do vácuo entre as duas coisas é por causa desta vácuo. Brasileiro gosta de vazio e odeia conteúdo.
Odeia conteúdo mas, dada a hipocrisia geral da nação, exige conteúdo de tudo e de todos. Isso mesmo. A grande maioria das pessoas não quer cultura, honestidade, justiça, apenas finge querer. Faz parte do jogo das aparências, aquela mesma da cantilena da mulher de César e a condição necessária mas não suficiente de ser honesta. Uma minoria quer tudo isto, conteúdo, igualdade, etc, mas é uma minoria sem poder e muitas vezes, sem mobilização, desunida.
O que tenho presenciado, vivido, sentido nessas quase cinco décadas zanzando pela superfície terrestre é que o único reduto onde podemos ter um mínimo de verdade é na nossa própria casa. E olha lá, que às vezes não dá pra ser transparente em todos os cômodos.
Procurando uma explicação, sempre terminaremos na colonização brasileira, nos degredados que aqui chegaram, no fato de que ser mandado para o Brasil era um castigo e não um privilégio. Nessas horas, me dá uma tristeza imensa, especialmente quando sinto estar prestes a concordar com o Diogo Mainardi.
Para culminar, recebi um email esta manhã, solicitando que eu compre dez convites a duzentos reais cada para a festa de premiação de um prêmio que me foi outorgada sem que eu tivesse me inscrito. Não vou pagar. Mas não sei quem vai devolver os minutos em que me senti honrada com a escolha. Mas aprendi. O caminho de entrada do virus da corrupção é certamente a vaidade do ego.
Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas-feiras.
Escrito por Blônicas às 19h44
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Vem, Mulher...
Por Paulo Castro
Vem mulher, vem logo, me liga, diz que tá chegando, que precisa de mim, apesar do sangue, sabe que não me importo, que o mundo é cheio de sangue e burrice, o teu é sagrado, é único, é até mesmo saboroso, que não provo pelo seu pudor, que idiotas consideram como birra...
Vem com tudo, com o tesão em letra, meu poema em lata, onde, ontem eu disse tudo que sentia sobre você naquela entrevista, vi o resultado: antes do que imaginávamos, você virou tese de mestrado...
Vem com sede ao pote, vem à sede do teu partido alto, se tivermos que fugir, vamos pra praia, que sem querer, digitei antes, pária, bem nosso caso, como quando cometo atos falhos, falos podem pouco, com a palavra tu...
Vem mulher pra minha literatura bem pobre, para nosso segurar a corda, lado com lado, puxando, caindo no chão, daí já viu, vontade de voltar a fita, mas não há muito sentido nisso, se cada vez vivemos de maneira melhor, numa didática de troca e fluidos envolvidos...
Vem mulher ser reticência na vida, pois sabe que o número três me é importante, em rituais neuróticos e número de gozos, veja bem, se somar, temos seus dez, deus, treze, cabala predileta...
Vem mulher que não te nego fogo, nêgo louco, Paulo pira, se você assim quiser, sei que tenho essa gripe agora, mas veja bem como tudo tem seu tempo exato pra acontecer & como o tempo mesmo foi feito para ser transgredido em eclesiastes de corvos malemancos...
Vem mulher, fazer-me mulher, tua lésbica, só tua lésbica, lembra quando disse, “beija minha boca como se fosse a bucetinha querida, me lambe, que lambo tu, não erro ao digitar, pra você não fugir, sei onde gosta, me fareja e sabe bem do poder do meu nariz"...
Vem mulher, corrigir a vírgula do meu texto pra revista, depois diz que foi um erro bobo de coordenadas, subordinadas, essas coisas de que não entendo e você é bamba, como que para não me ofender, você que me deixa roxos, isso é verdadeiramente engraçado...
Vem mulher, ver como eu ouço músicas, leio livros, sempre em busca de metáforas, metonímias, outras figuras, sou teu álbum de figurinhas que você nunca comprou na saída do colégio, cola com lambida, velcro, lycra, carta...
Vem mulher, escrever outro relatório em que não nos percamos com nossas idéias de riso absoluto, vamos colocar a culpa no papel, no tapa da pantera, me explica, o que foi aquilo, poucas vezes ri tanto, poucas vezes ficou tanto tempo duro, até que fiquei bastante constrangido, se você bem notou, até água mineral virou champanha na nossa propaganda de James Bond e garota rica, maquilagem borrada...
Vem mulher, vamos mostrar nossas fotos de moda, apenas pra nossos olhos, e mostro a que te fiz em segredo, trancado dentro do consultório, de noite, deserto, por certo, caminho e alvo no teu coração que avança, lado esquerdo, sua tatuagem a de beijar a minha, lado direito...
Vem mulher me fazer personagem, me dar esporro, te dou esporas, não seja esposa, assopro esporos pra dentro do teu útero, que já toquei, perfeitinho, durinho, um dedo cabendo, pro nosso filho nascer no colo flor, vem me fazer verdade, vontade, potência, vem te fazer hóstia, compra uma casa no mesmo bairro que a minha, cada uma dos nossos jeitos, mas com um espaço como o segundo andar daquele esquema que a gente se meteu...
Ou
Vamos assistir ao show Los Hermanos que minha filha me deu?
Paulo Castro é cronista do Blônicas.
pcpsiq@uol.com.br
www.editoratabu.com.br
www.naselva.com/brutti
Escrito por Blônicas... às 16h05
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Meu nome é Tati Pinto-1
Por Tati Bernardi.
Ela preencheu durante toda a noite o buraco fundo abaixo dos meus olhos, meu cansaço sem fim e sempre enojado de tanta simplicidade masculina. Enquanto os debilóides arrotavam, riam alto, se amavam quase sexualmente em seus guetos medrosos e nos olhavam como pedaços de carne numa feira em promoção, Teresa tentava aprender a dançar sem cruzar os braços, Teresa tentava aprender a viver sem proteger seu coração. São tão poucos os momentos de encantamento nessa vida que quis prestar uma homenagem a ela e me esqueci imóvel numa cadeira baixa. Depois quis sobrevoar Teresa e me esquecer de tanto lixo pesado que guardo em mim. Ela quis ser minha amiga e perguntou inocentemente o que eu fazia da vida, nada demais. O problema é que Teresa é míope e pra falar comigo colou seu rosto no meu rosto. Queria te contar, Teresa, enquanto tiros os nós do seu cabelo, toda a dor que eu guardo em mim, todo o nojo, toda a sujeira, toda essa merda que eu carrego. Queria te contar sobre tudo isso que me aconteceu, sentindo que liberto o seu shampoo para afastar esse cheiro quase podre de tudo o que quase morreu. Chega a ser pecado contar isso nos seus ouvidos, mas eu preciso me purificar, eu preciso sentir que esse veneno que me corrói vira groselha quando escorre pela sua orelha. Me desculpe, Tereza, mas você é tão linda que eu vou te enterrar com as minhas merdas. Ele não me beijava mais e seus olhos não escravos cresciam sobre a minha cabeça enjaulada, até hoje tenho esses pesadelos, ontem mesmo sonhei que a musa dele era um espírito que vagava seguro pelo meu corredor. Todo mundo morreu mas na verdade eu é que me sinto fora desse mundo e embaixo de tantas terras que não são minhas. Eu me agarrei nas saias de Tereza e fui embora, chicoteada de um lado para o outro. Isso mesmo, minha princesa, me tire daqui, eu estou congelada nessa vida que acabou e tanta vontade de me cortar inteira só pode ser porque preciso derreter esse gelo com o meu sangue, tanta vontade de me rasgar inteira só pode ser porque chegou o tempo de mudar de casca. Você é linda, você tem útero, você gera vidas, você tem esse buraco enorme e peludo que pode apenas me guardar sumida por uns tempos e nunca mais me furar tanto em praça pública. Não sei o que te dizer, meu amor, não sei o que querer, mas sei que nos seus passinhos pequenos e na sua requebrada quase que como se espreguiçando, eu salvei segundos do meu dia, eu salvei algumas pulsações malucas da minha cabeça que continuam confundindo todo o lixo que deixaram em mim com restos de prazer. Veja o caldo que eu exalo, esse caldo de dor azeda, como é que se chama mesmo? E Tereza corre até o meu ouvido, seu seio direito é maior que o esquerdo e chega milésimos de segundos antes. Ela fala baixinho colada em mim novamente: é chorume, o nome desse caldo é chorume. Então dance pra mim, só isso, continue fazendo esse beicinho para fingir que sabe a letra, continue me olhando com esse mistério profundo, negro, de uma criança que equilibra deslumbramento com alguma dor. Esse olhar que só os olhares um pouco árabes têm. Continue rodando a saia, continue ajeitando o ferro do sutiã por baixo da camisetinha justa, continue olhando miopemente para o mundo que pára por você. Continue, por favor, alivie minhas marteladas, meus tormentos, me tire desse mundo que errou e me aprisionou como perdedora. Só quem quer ganhar muito se aprisiona por perder, e eu sempre quero ganhar muito. Tereza, eu não sei viver, por isso, continue me fazendo de mera espectadora, continue me inebriando com a sua vida. Se eu sentir qualquer coisa que não seja você, volto a sentir o lixo, volto a me lembrar que aquelas cabeças nojentas e estúpidas querem se enfiar em mim sem nenhuma poesia. Essas cabeças imundas e covardes só prestam para rasgar a nossa verdade que carrega o universo inteiro, só prestam para provar ao mundo que são maiores que a beleza e a interrogação porque podem transformá-las em ódio, e o ódio nunca é bonito e muito menos tem dúvidas. Quero me agarrar à minha unidade e nunca mais me despedaçar assim, quero me agarrar a tudo o que é meu e nunca mais precisar de ninguém, a não ser você. Quero andar por aí sem sentir que o vento atravessa minhas janelas.
(continua abaixo...)
Escrito por Blônicas... às 14h44
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Meu nome é Tati Pinto-2
Por favor, Tereza, me ame como só eu posso me amar, me ame com a urgência assustadora que eu cobro do mundo, me ame com o peso sufocante que eu coloco no mundo, me ame com as horas intermináveis que eu espero do mundo. Me ame sem amar porque nenhum amor é assim tão assustador, mas eu vivo assustada e precisando desse amor. Me dê esse amor, nem que seja para eu descobrir finalmente que ele existe e parar de querer tanto ele só pela mania de querer o que não existe. Tereza corre de volta, eu não ligo que ela tenha um pouco de pêlo escuro no braço, eu não ligo que ela use sapatos de boneca gastos, eu não ligo que ela tenha um fiapo do seu cachecol na sobrancelha, eu não ligo que ela tenha os dentes tão pequenos. Ela se aproxima e me faz a pergunta idiota: você é louca ou se faz de louca? Os dois, meu amor, os dois. Eu me faço de louca para que ninguém descubra que eu sou louca. Agora volte para lá e continue respirando e se mexendo por mim. Volte para lá e continue fazendo eu me sentir um homem nojento com sua pica nojenta pronto para estragar a sua perfeição. Eu preciso me sentir um pouco menos porque a solidão de ser mais é ainda pior do que a mediocridade. Eu preciso vagar como uma besta pelo universo e não ser mais o universo. Tereza, por favor, enfie esse seu sapato boneca gasto pela minha goela, me enforque com o seu cachecol, faça qualquer coisa para me tirar desse esgoto de porra em que eu vim parar. Eu não quero lembrar que não me sobrou nada do que eu acreditei que era o meu castelo, nada. Eu não quero me lembrar que, depois do e-mail gigante de parabéns que eu escrevi para ele, ele apenas respondeu que sua namorada vai muito bem, obrigado. Eu não quero me lembrar que, depois do e-mail gigante que eu escrevi para ele, ele me respondeu que estava de férias e tinha deletado tudo, eu não quero me lembrar que, depois do e-mail gigante que eu escrevi para ele, eu apaguei tudo. Eu não quero lembrar que o mundo é simples e segue em frente enquanto eu não consigo nem levantar mais da minha cama de tanto que eu peso. Eu não quero mais nenhuma mão nojenta tentando segurar os poucos fios que eu deixei na nuca, não quero mais que ele me ligue de madrugada só para me comer e me fale naquele sotaque meio paraíba meio argentino que eu sou muito novinha para entender a vida. Ele que é muito velho para estar vivo. Eu não quero mais desejar aquele velho filho-da-puta que responde cada dor minha com o seu típico “hehehehehe” de quem disfarça a nossa história ou faz de conta que não sabe o quanto me assusto com pessoas rasas. Eu não sei o que fazer, por favor, chame o carro, me tire daqui, me leve ver o pôr-do-sol, diga que vai ficar tudo bem. Eu preciso ver coisas bonitas, eu preciso sentir coisas bonitas, eu preciso não viver mais dentro desse planeta arrasado pela guerra e pelo cheiro de carniça. Eu não sei mais o que fazer se tenho nojo de todo mundo, medo de todo mundo, descrença em todo mundo. Como se vive num mundo tão hipócrita tendo tanta verdade dentro do coração? Como, depois de tantas noites em claro agradecendo a Deus por aquela visão, a visão simplesmente sorri o mais alto possível da minha dor, arregala os olhos o máximo que pode para a minha cegueira e simplesmente vai comer um lanche no boteco da esquina? No que eu devo acreditar agora, Tereza? Por favor, apenas seja você. Não abra mais a boca, não queira saber nada de mim, não me deixe mais sentir seu seio direito no meu braço, não vá embora, não queira entender a vida. Apenas permaneça exatamente assim, dançando alegremente e sem que isso a torne menos especial. Eu sei que a gente dança não porque é feliz, mas porque ficar feliz no meio de tudo isso também faz parte. E eu estou feliz olhando você feliz. Então, por favor, volte aqui. Sei lá por que, e isso nunca tinha me acontecido, eu preciso que você exista tão enorme na minha visão que não sobre um centímetro do quadro para qualquer outra pessoa. Eu quero sentar você no meu colo, eu quero enfiar meu cérebro inimigo no meio da sua nuca quente, eu quero agarrar as suas pernas e dirigir você pra sempre. Eu quero amar alguém de verdade, e você, sozinha nesse cantinho, com seus passos, seus sorrisos e sua preguiça de sentar naquele vaso imundo pra fazer xixi, é a única coisa de verdade que eu conheço. Eles não, eles mijam em qualquer canto, eles dormem sujos, eles comem qualquer vadia, eles esquecem tanto amor, eles batem punheta vendo canal pago, eles trocam tantas trocas inteligentes e profundas por um e-mail de agradecimento mais curto e grosso que seus paus. Eles não imaginam o que se passa dentro da gente, mas eu sei o que se passa dentro de você, Tereza, e só por isso sou digna de estar aí dentro. E, se por um acaso, meu amor, você precisar da minha superficialidade, te dou meus dedos todos, meu cotovelo, meus pés, meu queixo, meu nariz, minha língua, te dou todos os meus cantos, Tereza. Agora vá embora, por favor, eu sou mulher demais para ser prática, eu sou mulher demais para colocar um final em tudo isso, eu sou mulher demais para corromper a sua dança.
Tati Bernardi é cronista do Blônicas e a crônica de hoje emocionou profundamente Paulo Castro, e vocês?
Escrito por Blônicas... às 14h42
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Cuidado, frágil
De Rosana Hermann
Por favor, não grite comigo. Mesmo que você tenha razão. Uma conexão otorrinolaringológica faz com que qualquer voz feroz que entre pelos ouvidos se liquefaça em seu trajeto e termine por sair pelos olhos em forma de lágrimas.
E, se possível, não minta pra mim. Por depositar fé no ser humano, acredito em tudo o que me dizem e mal me lembro de que pode haver provas em contrário. Cairei em todas as armadilhas e certamente uma será fatal. Sempre que me enganam, morro um pouco além do dia que passa e me consome.
No cômputo geral dos lugares-comuns, que frige os ovos e encerra as contas, sou uma mulher frágil. Minha força interior, que sustenta o peso de meus ossos, carnes e erros, suporta pouca carga extra. E, como resultado, desabo.
Desabo, desmonto, desmorono. Minha energia vital escorre e forma ao redor de meus pés uma poça de inseguranças.
Pra minha sorte, comigo, tudo passa rápido. Nada em mim permanece, talvez por falta de espaço livre, não sei. Mas no momento estou no durante e, no durante, sofro.
Sofro com o que não concordo e não compreendo. Sofro com o que não espero e não aceito. Sofro entre o desejo de me conformar e a vontade de alterar as formas. Quando sou conteúdo de um recipiente doloroso, sofro porque não quero me conter. Ou ser contida.
Hoje, estou frágil. Portanto, peço que você fique assim, perto de mim, só isso. Hoje eu só quero a mão segura que dá apoio sem cobrança. Hoje eu só peço um punhado de esperanças.
Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas e tem um blog novo, o Skype Brasil. Visite clicando aqui!
Escrito por Blônicas.. às 21h20
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Os mascarados matam o Espelho do Desejo.

"Em 19 de julho de 2005, Mahmoud Asgari de 16 anos e Ayaz Marhoni de 18 foram executados por enforcamento por ordem da corte suprema em Tehran. Poucos dias foram tão tristes como este. Irônico terem eles os mesmos nomes do sultão e de seu amado. Tantos séculos depois se inscrevem com dor na iconografia da história ao lado de uma iluminura ancestral e tão proibida quanto suas verdades. As palavras não são nada diante de tanta bestialidade. Restam-nos as lágrimas. E a luta. Em 19 de julho de 2005, Mahmoud Asgari de 16 anos e Ayaz Marhoni de 18 foram executados por enforcamento por ordem da corte suprema em Tehran. Poucos dias foram tão tristes como este. Irônico terem eles os mesmos nomes do sultão e de seu amado. Tantos séculos depois se inscrevem com dor na iconografia da história ao lado de uma iluminura ancestral e tão proibida quanto suas verdades. As palavras não são nada diante de tanta bestialidade. Restam-nos as lágrimas. E a luta."
Arthur é leitor do Blônicas. E descobriu essa foto. O Blônicas não publica fotos. Mas é uma exceção. Uma exceção humana.
Escrito por Blônicas... às 22h02
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O Segredo Do Morro Do Urubu.
por Castelo.
Foi há muito tempo no Morro do Urubu, região de boa aguada no Alto Itapecuru, próximo a Pastos Bons.
Zezão e Chico Macaxeira faziam parte do bando de Mandacaru e Maria Surra-Homem - um dos mais perigosos já vistos no ramo maranhense do cangaço nordestino.
Os dois foram mandados pelo chefe para o Morro a fim de pastorear uma carrada de jegues pertencentes à cambada.
Subiram lá com a tropa de muares, num calor de 42 graus, e por ali foram ficando até segunda ordem.
Na carga levavam 5 arrobas de carne-de-sol, farinha de puba, rapadura e duas metralhadoras Hot Kiss armadas até a tampa.
Durante semanas os jegues pastaram placidamente no que sobrara de vegetação. E, aqui ou ali, um dos cangaceiros matava uma cascavel ou uma caninana que vinha com más intenções para cima dos burrinhos.
O calor aumentava dia e noite, a falta do que fazer idem.
Numa tarde daquelas em que o solão é capaz de fritar um ovo por cima de uma trempe, Zezão e Chico Macaxeira foram se banhar na cachoeira dos Fortes.
Zezão arrancou os pentes de bala do peito, atirou o embornal e as perneiras para longe e se meteu debaixo da água gelada.
- Éguuuuua! Êita porra fria do cão!!!!
Chico ficou de fora, mirando calmamente o companheiro se refrescando. Ficou assim por um bom tempo, palitando-se com um espinho de cacto. Depois, de supetão, falou:
- Zezão, vou pegar em teus quartos...
O outro cangaceiro não ouvia nada, a água lhe caindo aos borbotões por cima do rosto barbado.
Chico Macaxeira foi entrando de roupa e tudo na queda d'água. E, sem cerimônia, pousou a mão ossuda e calejada bem na nádega do colega de criminalidade.
Zezão tirou a cabeça do jorro e, olhando fixamente para Chico Macaxeira, disse apenas:
- Oxe!
Pouco se sabe o que aconteceu entre esse dia na cachoeira e a criação do novo bando de Zezão e Chico Macaxeira.
O que se viu mais tarde - dito por volantes, coronéis locais e outros bandoleiros - foi o surgimento do primeiro grupamento pansexual do cangaço: o bando de Cabra Loura e Zé Qualira.
Conta-se que o novo grupo chegou a ter 60 membros e todos ficaram conhecidos como sendo "cabras vinte-e-quatro".
Baitola, Pemba Frouxa, Mané Roscoff, Bicha-Ruim, Frescura, Joaquim Caralha, Zeca Furta-Macho e Prefumado infundiram pânico e terror por décadas nos cafundós.
Os matutos do Itapecuru lembram-se que a primeira investida foi contra os ex-chefes Mandacaru e Maria Surra-Homem: numa clara demonstração de força, poder e viadice.
Vestida com gibões cor-de-rosa, alpercartas púrpura e chapéus de couro de veado, a cangaceirama de Cabra Loura e Zé Qualira montou cuidadosamente a emboscada na calada da noite.
E, no dizer de um dos participantes do massacre, hoje um tiozinho entendido: "A-RRA-SOU o bando de Mandacaru!".
Daí para frente a fama do bando se espalhou pelo sertão.
Há quem diga até que o casal chegou a tentar que Padim Padre Ciço, em pessoa, oficiasse sua união na matriz de Juazeiro do Norte.
Mas poucos dias antes do matrimônio, uns macacos - disfarçados de mascates vendedores de batons e colônias francesas - debelaram o que restava deles.
No enterro, Bicha-Ruim cantou e tocou nos sete baixos o tema favorito da lendária dupla:
"Não se deve amar sem ser amado
É melhor morrer crucificado
Deus nos livre das mulheres de hoje em dia
Desprezam o homem só por causa da orgia".
Castelo ( www.castelorama.com.br) é Omo dia sim e Ariel dia não.
Escrito por Blônicas... às 19h51
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Sexo, Cultura e Amor pelo Crime.
Por Paulo Castro
Registrar a cultura. Essa é a missão do escritor. Escrever em primeira pessoa requer culhões. Quando me ajoelho nos pés da minha monogâmica paixão, faço isso com letras. Canções e uma vida inteira não de promessas, mas de certezas. O diretor do filme pede para que eu leia de maneira grave, rebelde, punk. O diretor pede para que meu amor seja sexy, o que é uma redundância. Cultura também é sexo. Quando um leitor está solicitando mais cultura, ele está querendo gozar na minha boca. Pode. Eu engulo tudo. Com gosto. Quem gosta sabe a delícia que é isso. Caço imagens de casais fodendo por aí. Fetiche é pouco. É metonímia. Gozo é metáfora. Estupidez homofóbica, por exemplo, é analfa-bestialismo.
Pensando friamente, as pessoas estão reclamando. Mas tal coisa só faz aumentar o IBOPE do site. A mesma coisa, caso se calem. Atitude mais que infantil, anacrônica, que não merece indulgência. Superioridade. Sim, vamos discutir superioridade.
O mais danado gosta de mostrar suas chagas, ele se orgulha do sangue, da pobreza, da burrice.
“Neh?”
“Tah!”
“C vc fo eu vo...”
Pérolas que encontrei no Orkut de alguns comentaristas que solicitam cultura. E que afirmam que arte nada tem a ver com sexo. Um grande museu de imbecilidade. Não tem jeito, a democracia é algo que nasceu falido, um erro da liberdade. Tem gente melhor e gente pior. É isso aí. O que define? A adequação entre objetivo e satisfação relativa do mesmo, no fim de um projeto determinado. Como um orgasmo bem gozado, como aquele que vale por dez. Relativismo: o sucesso por acaso não é satisfação. O planejamento sim. Maquiavel não era mau. Muito pelo contrário. Sade foi um santo. Hitler, gente boa, serviu para que alguns conhecessem a obra grandiosa de Louis-Ferdinand Céline. Que me perdoem as minorias burras e me entendam as minorias capazes de tanto & ironia.
O diretor do filme pede para que eu faça uma cara mórbida. Meu amor me ilumina com uma vela e queima deliciosamente o lóbulo da minha orelha, brinco de argola. No escuro, um cara fala e fala, fala demais, enquanto isso, ela, sentada em meu colo, devora minha boca com língua saborosa de safada. O cara até que era legal, mas deveria torcer pelo “São Paulo Fazendo Ceni Clube”.Claro que sou preconceituoso e preservo ainda minha fimose com muito orgulho.Atire a primeira pedra, quem não for.Só o autismo garante a ausência de um conceito anterior ao juízo.
Gosto de gente bonita. Fazer o que? Minha namorada é uma tesuda.Desculpem as piranhas que tentaram. Amei três grandes mulheres nessa vida. E agora fechou.
Velhos se beijando me dão náuseas, pelancas me arrepiam as pregas que perdi. Minha filha enfiou um chiclete no meu umbigo e eu fiz questão de cortar os pêlos, mesmo sendo um vigoroso retrossexual. A pior escrota é a vítima. Passem em uma delegacia e ouçam o que é patético: a feitura dos boletins de ocorrência. Na próxima vida, quero vir delegado. Assinar aquelas cômicas declarações de energúmenos mobrais. Que mal há em se dizer o que se pensa, em não dar a porra da grana pro falso leproso? Calúnia, difamação, o que mais? Quero e desejo todos os crimes para mim. Assassinatos, já carrego três nas costas. Estupros? Só consentidos, infelizmente. A persona autoral se permite tudo e está pouco se fudendo. Roubo? Todo dia. Seqüestro? Sim, em 1991, na mesma época de quando servi de avião para o transporte de heroína no eixo Rio-Sul. Prostituição? Óbvio. Aliás, envolvendo gente que está aqui mesmo, nesta sala. Pagaram-me bem, por muito pouco esforço.
Agora sou da paz.
Mas o estádio do “São Paulo Chilique Clube”, ai, nesse boto fogo até de graça.
Paulo Castro é cronista do Blônicas.
pcpsiq@uol.com.br
Escrito por Blônicas... às 19h18
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Desculpas de Paulo Castro.
Leitores e escritores do Blônicas:
Ontem tive dificuldade de acessar o UOL-BLOG. Erro o dia todo.
Por isso não postei no tempo exato o texto de Tati Bernardi. Mas recomendo, leiam, está abaixo de Milly Lacombe. Como sempre, ótimos, ambos.
Um abraço forte do amigo.
Bom domingo. Boa semana.
Paulo Castro.
Escrito por Blônicas... às 12h30
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Os Orfãos de Deus.
Por Milly Lacombe.
Recebi o email de uma leitora cujo título era esse: “Deus”. Quem, a não ser alguém que se julgue parte integrante da lista VIP Dele, poderia dar um título como esse? Porque, naturalmente, Deus tem uma lista vip em mãos. E dela constam todos aqueles que vão a Igreja semanalmente, que depositam o dízimo, que acreditam sem questionar no que está escrito nos Evangelhos, que não ousam parar para pensar se seria mesmo possível a mulher ser criada da costela de um homem, que conseguem perfeitamente ver Adão e Eva morando no paraíso e vestindo-se de folhagens para esconder as partes íntimas, que acham que sexo sem o intuito de procriação é pecado, entre outras tantas carochinas. Esses felizardos fazem parte da lista VIP de Deus. Terão, quando expirarem, acesso expresso ao Paraíso. Já pobres agnósticos como eu, serão jogados no inferno. E, como aprendemos na infância, o céu é um lugar que fica lá em cima e é sensacional; enquanto o inferno, que fica no subsolo do mundo, é quente pra diabo, e horroroso. Pois bem, minha cara leitora acredita piamente que tem mais acesso a Ele do que eu. E, do alto de sua arrogância maniqueísta, se dá ao direito de julgar a forma como vivo e, mais absurdamente, minha felicidade. Nas palavras dela:
Sra Milly Lacombe,
Eu, como católica praticante, me sinto muito triste de ver uma pessoa na sua condição. Acho que você deve ser uma pessoa muito infeliz e precisar muito de Deus. Tente acordar para o que você está fazendo e para a influência negativa que você pode representar para os jovens. Ir a um igreja e meditar um pouco pode ajudar. Rezo por você.
Ass: Mariana S. Corvo
Sob vários aspectos, o email é genial. Para ela, minha sexualidade é uma “condição”. Não me contive e resolvi responder na mesma hora.
Sra Mariana,
Eu, como ser humano praticante, me sinto muito triste em ver uma pessoa na sua condição. Por outro lado, não ouso julgar sua felicidade, ao contrário de você e de seus colegas católicos, que se sentem no direito de julgar infelizes todos aqueles que pensem minimamente diferente de vocês, e que não se ajoelhem, sem questionar, para o seu Deus. Se interessa saber, sou uma mulher extremamente feliz - e espero que você também seja. Vejo, contudo, que você precisa de ajuda espiritiual. Mais exatamente, de um Deus que se comporte como tal, e que não se manifeste no mármore e na riqueza da Igreja e de seus sacerdotes ameaçando-nos de punição como nem o Diabo ousaria fazer. Tente acordar para o que você está fazendo, perpetuando detritos morais e preconceitos, em nome da exclusão, de uma verdade que não é a de todos, fechando-se arrogantemente para a existencia, ou a possibilidade da existência, de outras verdades, e de relações humanas baseadas no amor. Eu prego o amor, e apenas ele, enquanto sua instituição dissemina o preconceito, o ódio e a exclusão. Olhe para o mundo e veja o que faz com ele a sua fé. Há dois mil anos. Por isso, tente, por favor, acordar e para a influência negativa que você, e sua instituição, representam aos jovens, e à humanidade. Meditar um pouco pode ajudar. Rezo por você.
Aceite o abraço de uma "irmã",
Milly
Depois de um tempo me ocorreu que poderia ter incluído na resposta as palavras do físico americano Steven Weinberg, prêmio Nobel de física: “A religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela teríamos pessoas boas fazendo o bem e pessoas más fazendo o mal. Mas para pessoas boas fazerem coisas más é necessário a religião”.
Minha leitora, quem sabe, devesse parar para refeltir a respeito. Apenas refletir. Mas ela não pode se dar ao luxo porque, como recomenda a sua fé, é preciso não questionar, não refletir, apenas aceitar a verdade da Bíblia. E, nas horas vagas, sair por aí julgando o próximo e pregando a única verdade absoluta: a de que Deus está a serviço dos homens de fé, e mais ainda, daqueles que não poupam o cada dia mais rico clero do dízimo. Esses estão protegidos. Já os demais, coitados, serão para sempre órfãos de Deus.
Milly Lacombe é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas... às 12h27
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O dia da ressaca do pensamento.
Por Tati Bernardi.
Como eu amo esses dias apáticos e bloqueados! Sempre chegam depois de algum caos, alguma semana comandada pelo lado negro do meu cérebro, alguma notícia que se tornou neurose, alguma obsessão. Penso, penso, penso, não durmo, não como, escrevo como uma vaca, sofro, encho o saco dos amigos, me isolo pra não encher tanto o saco dos amigos, sofro, sofro, penso, penso, fico estranha, não faço nada direito, olho demasiadamente para o asfalto separado de mim por 14 andares, me judio à exaustão com minha máquina de pessimismos, mágoas e mil perguntas. Até que um belo dia acordo completamente idiota e querendo que tudo se foda. Nada me preocupa, nada me importa, nada me dói. Instalo um sorriso que nada diz, um olhar que nada entrega e saio por aí só para ver, mesmo não vendo nada. Ainda que eu queira sofrer, ainda que eu mande comandos de cenas dolorosas para minha tela mental, nada acontece. Eu simplesmente ligo o foda-se e sou feliz, como diz aquela comunidade no Orkut. É como se milhões de anjos descessem e falassem para os milhões de monstros que eu carrego na cabeça: “ei, seus horrorosos e sebentos, deixem a coitada ser leve apenas por um dia!” É como se a dor fosse tanta que meu corpo não agüentasse e desmaiasse por um dia inteiro, é como se o meu mau humor por tudo que é igual e rotineiro se enchesse da minha dor, que é sempre igual e rotineira também. Esses dias acontecem, com sorte, umas 5 vezes ao ano. Neles não existe padrão de beleza, lugar ideal para ser feliz e nenhuma necessidade de aceitação, amor, sexo ou dinheiro. Eu simplesmente consigo respirar e terminar meu dia sem a ansiedade de ser ou estar melhor. Só por hoje, como diriam os viciados, eu consigo não pensar na pobreza que deixa balas na minha janela quando eu sonho em conquistar o mundo ouvindo a nova música das pistas européias. Só por hoje, eu vou esquecer que eu emagreci e estou mais flácida, que a vaca de vestido longo e olhares promíscuos roubou meu coroa charmoso e sempre solícito, que não dá para fazer todos os melhores cursos de cinema, fotografia, filosofia e história ao mesmo tempo. Hoje eu não vou lembrar que a velha ridícula ignorou totalmente a magnitude da minha presença e focou seu assunto na imbecil que dava pulinhos para tirar a foto, que o Angeli não quis me comer, que Paris está muito longe daqui, que eu não tenho cílios, que eu tenho muito medo de não amar nunca mais, que o Alex Atala já é casado, que eu tenho tanto medo de não ser aceita que odeio todo mundo, que eu não agüento mais escrever sempre o mesmo texto, que todo mundo ficou idiota de repente, quando minha ficha caiu, minha ficha cinza que levou embora o mundo cor-de-rosa. Hoje não é dia de lembrar que eles preferem as idiotas, que elas preferem os idiotas, e que os grandes idiotas são os que se preocupam com isso. Hoje não é dia de pensar que minha cabeça nunca vai aceitar o cabelo da moda, que os alimentos “trans” são os que sobrevivem mais, mas te matam antes, que meu melhor amigo começou a namorar e caga pra mim, que eu não tenho vontade de nada, que mesmo suculenta a carne tem cheiro de podre, que minhas amigas foram embora do país, que ainda tem gente que acorda cedo e dorme tarde porque “falta um molho nessa campanha de macarrão”, que o Alexandre Machado respondeu super simpático o e-mail, dizendo “me desculpe, mas eu trabalho sozinho”, que meu dedão destoa do resto do pé, que a vingança ainda me acorda de manhã muito mais cedo que a esperança, que banho quente é uma delícia mas tá me dando rugas, que eu preciso desesperadamente trepar com um cara que me anule desses restos mortos e fedorentos amarrados aos meus pés, que as crianças mor rem o tempo todo no Oriente Médio mas a gente só chora quando o Fantástico mostra a boneca sozinha esquecida no meio dos escombros, que as inscrições para a Flip estão acabando. Caguei se está trânsito, se o buraco da camada de ozônio aumentou, se os “MBA” estão morrendo de tanto tomar café e rir do que não tem graça, se para existir a gente paga mais taxas do que boquete, se tenho mil coisas para entregar e nenhum tesão em começar, se a vida é uma só, se preciso usar um anti-sinais, se o apê perfeito está me esperando em algum lugar, se o amor perfeito está me esperando em algum lugar, se não existe nada perfeito, se eu preciso voltar ao passe, ao silêncio, ao entortamento e se a última da espécie da Abelha Abel Abelarda morreu de tanto produzir mel para os casais cornudos que juram viver algo verdadeiro. Ufa! Como é bom estar em um dia em que nada dessas coisas passa pela minha cabeça.
Tati Bernardi é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas... às 12h21
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As alças da mente
De Rosana Hermann
O pensamento pode voar, mas a mente gosta mesmo é de uma prisão. A mente gosta de prender-se voluntariamente a tudo o que não muda, ao que permanece, o que se repete e ao que é sempre igual. Por isso a mente adora lembranças e memórias. Porque o passado já passou e não pode ser mais mudado. O passado é permanente. A mente acha isso o máximo. É como administrar uma empresa onde nada pode dar errado. O medo da mente é justamente este, administrar imprevistos.
Outra coisa que a mente ama de paixão é o padrão, porque como o nome já diz, o padrão não muda. Um metro, uma hora, o mesmo caminho para o trabalho, voltar ao mesmo restaurante e sentar na mesma mesa, são padrões que toda mente humana gosta de repetir. Ah, que prazer que a mente sente quando a bunda senta na mesma cadeira que sentou na aula anterior.
A repetição dá segurança, porque cria a falsa ilusão de que nada vai mudar. E se nada mudar, nada de ruim poderá acontecer. Tudo será igual, com o mesmo final feliz, como antes. Crianças adoram ver filmes mil vezes porque se sentem seguras porque podem antecipar as próximas cenas (se na vida fosse assim...) e porque têm certeza de como a história terminará. Já as mentes adultas, especialmente as obsessivas em qualquer grau, adoram a matemática. A matemática é a única ciência exata e imutável. Enquanto a física e química, a biologia, por exemplo, estão sujeitas a variáveis da vida real, a matemática continua igual. Daí o fato de que toda mente obsessiva gosta de contar, manipular números. As contas são sempre exatas, não mudam. E se você contar todos os passos e chegar direitinho à padaria com seus mil passos, então, podemos concluir que sua mãe não vai morrer e nada vai dar errado no seu dia. Certo? Errado.
Errado porque a mente vive num mundo irreal. Mundo da mente é como caspa, só existe na sua cabeça. Tudo é maia, ilusão. E, com perdão do excesso de realidade fisiológica, o mundo está cagando e andando pras suas ilusões mentais. Como o mundo já provou, uma batida de asas de borboleta na África pode influenciar mais a ocorrência de um tsunami na Ásia do que sua contagem de azulejos no banheiro. Porque a borboleta é real e seu pensamento, não.
O problema é que a mente não quer nem saber disso e provavelmente, muitas já terão abandonado este texto nas primeiras linhas. Espertas, porque sabem que vou contar um segredo sobre elas: a mente fabrica alças. Sim, alças, onde ela, a mente, possa de apegar. Uma alça, como aquele putaqueopariu do carro, onde a gente segura a vida quando o motorista não é de confiança.Como o santoantonio dos jipes. A alça pode ser um nome, um amuleto, uma mania, uma repetição qualquer. A mente é chata, mas criativa e assim, inventou, a alça-sem-mala. Nesta alça ela se apega até a morte. É uma crença, um dogma, uma frase feita, um chavão, lugar-comum. “Angélica ficou mais bonita depois que teve filho”. “Vaso ruim não quebra”. “Jesus voltará”. Qualquer alça é boa pra mente. “A cadeia é a universidade do crime”, “Direitúzú Mano só tem bandidu”. Se a mente se acha fraca, ela inventa uma alça pra se sentir forte, tipo “Sou feia, mas to na moda”. A mente inventa que se a pessoa perder dez quilos ela vai ser feliz e tudo vai dar certo na vida. Troca nomenclaturas, pra se sentir por cima. Porque uma coisa é dizer que você tem TOC e outra coisa é assumir que você é um obsessivo chato que ninguém agüenta conviver a seu lado e por isso você precisa de tratamento sério com remédio e tudo mais.
A mente inventa alças pra não cair em si. Mas cair em si é a única forma de tomar consciência, primeiro passo para melhorar. Portanto, remova todas as alças. Caia. Caia em si. Tá gorda? Tá gorda. Então, vamos emagracer. Tá infeliz? Sai dessa, viva a vida, aproveite. Tá duro? ‘Bora ganhar dinheiro.
Só não fique aí, com essa cara de passageiro do circular da eternidade, vendo a vida passar na fresta da janelinha de um puta ônibus cheio, segurando firme na alça do medo que você tem dar o sinal e descer para a liberdade do imprevisível.
Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas e tem um blog novo, o Skype Brasil. Visite clicando aqui!
Escrito por Blônicas.. às 12h01
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Convite à Revolução Amorosa.
Por Paulo Castro
É isso aí, o Botter está de férias(quem pode, pode) e eu assumi as terças e o comando do site. Beleza. Confiança total depositada, que talvez eu abuse. Na verdade, sempre sonhei que isso aqui fosse um espaço público, e agora que a minha vida está boa demais da conta, quero mesmo ver o sonho feito realidade. Quero Castelo todos os dias, quero Xico Sá no café da manhã, quero Marcelino Freire com suas múmias bem vivas, chocantes e amorosas, enfim, todos e mais um pouco, pouco do tamanho incógnita do universo, que leitores selvagens possam também postar, só entrar em contato comigo. Óbvio que a qualidade será o norte(então o que eu estou fazendo aqui, alguns sacanas podem perguntar, diante da minha risada escrota)mas a qualidade está aí guardada, em todos e todas, basta relaxar e deixar os dedos detonarem o teclado, piano sem cauda, sem cu doce, canção de gozo, dedos safados dentro da única mulher de minha vida, cada qual com as suas vaginas e próstatas.
Suave é a noite, preparação é o dia, machuca de leve minhas costas de literatura, sufoca minha garganta império dos sentidos, pois de outro jeito, amor, você sabe, não há arte. Aqui no seu computador sagrado, enquanto você toma banho, eu respeito sua individualidade, curioso sou apenas do que diz respeito ao nós. Mas pra variar, divago.
O que quero dizer é que o amor abre esse espaço no peito para receber os leitores como os mais nobres convidados, são, vocês são, eu sou enquanto escrevo e quando leio. Bombom e Marina Lima. Sirvam-se. Não sejamos passivos, mesmo que assim que nos queiram, babacas, estúpidos, sem voz. Passado meu de comunista, presente meu de apaixonado. O afeto vira tesão, o respeito vira calcinha puxada para o lado, unha curta e molhada. Quem sabe a cantiga, canta. Quem não sabe, aprende. Léo mandou bem quando falou de gente que só sabe criticar e odiar. Como bom paranóico, me identifiquei. Mas logo, risada de novo. Está difícil conter o riso de bem-aventurança, leio a bíblia de trás para frente e de ladinho que também é uma delícia. Nenhum beijo perdido, pois beijos e textos não podem ser contabilizados. Me tornei monogâmico no amor, mas devasso nas letras que recebo. Quero publicar vocês nessas três semanas, me escrevam, pcpsiq@uol.com.br, não ruborizem, a safadeza é uma coisa que não sei definir nesse momento, que ela sai do banho e me pira com o corpo de sprays perfumados, mas é o que quero dos leitores, dos selvagens leitores que aqui embarcam em viagens diárias, nas mãos e olhos de gente experiente, de gente boa: engraçado, o amor faz a gente transformar até o pior canalha ( o espelho ) em realidade de bondade.
Vamos trabalhar. Se eu demorar um pouco para responder, não é ofício não, é foda mesmo. Obrigado. Beijos.
Paulo Castro é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas... às 10h33
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