Carolina.

De Lívia Venina.

 Carolina, sapeca maldita, malquista, incontrolável. Pula de túmulo em túmulo, no cemitério da vida imersa no líqüido substancioso da morte, zombando dos natimortos que já chegam ao mundo de olhos cerrados e pele fria. Natimortos cujo coração bate em compasso normal, mas distante da vivacidade maligna e ao mesmo tempo benéfica dos que saltitam por entre as ruínas da guerra. Carolina, a incompreendida, que coleciona amores como selos ou bibelôs cuidadosamente arranjados na estante do quarto. Pequenos troféus de pequenas conquistas, que acalenta feito menina acalentando seus presentes, suas bonecas que um dia partem para outros mundos, sem deixar uma cara de adeus. Carolina, a desbocada que não mede palavras, e solta rajadas de impropérios acompanhadas de escandalosas gargalhadas. Carolina, a tímida que se encolhe nos braços de seu homem, gatinha amedrontada, garotinha com medo do mundo, chorando baixinho suas mazelas de mulher.  

 Carolina que não cresce e aparece, pulando na frente da filmadora, botando meio palmo de língua pra fora, inquieta e sorridente. Carolina que chora no quarto com medo de nunca crescer, ficar velha e enrugada soltando pipa e jogando bola, esperando a morte chegar sozinha, sem saber como é carregar um filho no ventre ou ter um marido à cabeceira. Carolina que escreve, escreve, escreve e depois apaga tudo. Rasga com uma raiva maior que ela, mil pedacinhos de alma na lixeira, ardendo no fogo causado pela guimba do cigarro que ela jogou fora antes de apagar.

 Carolina não tem idade, nem endereço fixo, nem maturidade. Tem uma conta bancária no vermelho, uma extensa lista de amantes bem-amados, um vazio doloroso no dedo anelar da mão esquerda. Uma estante cheia de livros e fotos, um cinzeiro permanentemente cheio, uma saudade que pesa no peito, de coisas que ainda não viveu.

 Carolina é alquimista dos sentimentos, que sente com as mãos e regurgita com os olhos. Transforma piche em ouro branco, e faz caipirinha dos limões que a vida lhe joga achando que é fácil lhe dar rasteira. Não é. Carolina enverga todinha, mas não quebra, não. Carolina que de menina se faz mulher, de voz grave e suave, toque macio das mãos no corpo másculo que se apresenta. E sussurra músicas antigas, de um tempo que nem à ela pertence, garota dos musicais de Hollywood.

 Carolina que chora e gargalha com a mesma intensidade, e ri das coisas absurdas e óbvias. Ri das pessoas mesmo quando tem medo delas, achando engraçado esse jeito humano de ser humano. Carolina acha que não é deste mundo, que foi mandada para cá por engano de um deus imprudente, fanfarrão, irresponsável e negligente. Lugar de Carolina é no espaço sideral, solta e esvoaçante no vácuo, no horizonte sem fim do desconhecido eterno.

 Carolina é viva num mundo morto, e não entende o dialeto dos cadáveres. Chora quando quer chorar, come quando quer comer, ama quando quer amar, dá quando melhor lhe aprouver. E os cadáveres choram quando deveriam sorrir, sorriem quando deveriam chorar. Maldizem quando querem bendizer, maltratam quando querem bem tratar. Carolina não sabe se adequar às regras dos cadáveres sérios. Então continua pulando de túmulo em túmulo, encapetada e impossível, querendo mudar o mundo que a rodeia, ou procurando um novo mundo para morar.

Lívia Venina é leitora do Blônicas, estudante de Jornalismo e escritora wannabe nas horas vagas. sousaliv@gmail.com é sua Central de Atendimento ao Querido Leitor.

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