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Sinto um cheiro de Luís XV no ar.

De Nelson Botter.

 

Deixa o homem trabalhar, dizia o slogan. Pois bem, agora é hora do homem mostrar serviço, dizer a que veio de fato, pois até agora foi um festival de gafes, atos falhos, metáforas futebolísticas, corrupção e ineficiência administrativa.

 

Vamos ver se o homem realmente vai trabalhar, coisa que (segundo os mais 'maldosos') nunca fez de fato. Tocador de flauta ou não, agora é que tudo ficará às claras. Chegou a hora da cobrança ferrenha, do sangue nos olhos, pois se ele é o homem que a maioria dos eleitores brasileiros quer, que seja, mas já trago minhas pedras muito bem selecionadas.

 

A arrogância e o deslumbramento continuam lá. É bem verdade que no segundo turno ficaram mais camufladas, pero no mucho. E muitas outras coisas continuam lá, o dossiê, o mensalão, os sanguessugas, o "aerolula", as quadrilhas, o Zé... sim o Zé continua lá, (entre uma blogada e outra) vai dando as cartas de maneira oculta.

 

A corrupção foi relevada nessas eleições em troca sei lá do quê. Dizem os especialistas que em troca da aprovação das ações do governo nesses 4 anos. Eu não sei e nem posso avaliar se os 4 anos foram eficientes e eficazes de fato, só sei que não vejo essa melhora que 58 milhões de eleitores (que poderiam ser chamados de cúmplices 8também) viram.

 

Estou cego? Pode ser. Mas a única coisa que sei é que sou minoria. Faço parte dos 37 milhões que perderam. E num mundo onde a maioria é ignorante, violenta e estúpida (muitas vezes por opção e não por falta de oportunidades), até que não é tão ruim estar do lado mais fraco de vez em quando.

 

Homem, vai trabalhar, senão a guilhotina vai cantar. Estamos de olho e sua cabeça está a prêmio, pode ter certeza. A caça às bruxas, no dia das bruxas, vai começar...

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h13
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O triunfo do macho-jurubeba.

De Xico Sá.

 

E da costela de David Beckham, Deus fez o metrossexual.

Seria apenas mais um homem cordial que arrasta o seu mito no metrô? O tarado do último vagão do Tucuruvi/Jabaquara?  

“Nooosssa!”, balbuciaria o Costinha, se vivo estivesse para testemunhar esse fim-de-mundo. Metrossexual é como os ingleses e novaiorquinos tratam  os seus rapazes que torram mais dinheiro em potes de creminhos _aqui incluído o Hipoglós_ do que em birita. Aqueles dândis de araque que encostam a napa numa taça de vinho fino e suspiram para o(a) amado(a): “Sinta só o bouquet”.

 Uns fofos! Noooossssa! Consumistas de um bom-gostismo perobístico de dar inveja no Cauby. Ah, usam cuecas Calvin Klein, sempre. Neles, tudo é fashion, hype, tendência, grife. Menos o vibrador, que pode ser qualquer genérico adquirido às pressas no ponto G da Amaral Gurgel. Sim, adoram salada de rúcula. Nooooossssssaaaaaa!

Esses rapazes sensíveis são uma brasa, mora?! Eles adoram um after-hours (que pronunciam sempre de boca cheia) e não perdem nem a pau um chil-out com aquela eternamente insuportável batidinha de música lounge. Gostam de tudo que é moderno, papo-firmes. Até para cima de mulher ensaiam uma certa queda. Pura competição, inveja e algum corporativismo, afinal de contas com quem irão comentar sobre o novo delineador de sobrancelhas? E a tendência do esmalte preto?

 Cera negra ou adesivos-depiladores?

Os gays merecem todo nosso respeito, claro. Os travecos, operados ou não, idem ibidem. Esses metrossexuais não.  Racumin neles, pau neles, como no refrão do delicado José Roberto de Godoy. Uns dissimulados. Vade retro, satanás. O que querem esses rapazes sensíveis? Desfalcar as nossas patroas, óbvio. Pouca vergonha. Onde estão as Senhoras de Santana que não vêem uma coisa dessas?  

Para o azar deles, porém, o macho-jurubeba continua firme e rijo no poder. Na cabeça. Da Presidência da República à Liga de Dominó da Bomba do Hemetério, no Recife. Um tosco pra chamar de seu, mesmo que seja eu. Até os supostos escândalos têm batismo de macho: Waldomiro _e aí, vai encarar?

Lounge é um lugar que não existe para os cabróns de verdade. Chill-out só se for no Love Story ou no Minha Deusa, na freguesia da Augusta. Do mundo fashion somente aquelas respeitáveis gurias do sul que não passam na ilusória peneira da Elite ou Ford Models e acabam no Café Photo.

Creminho? O único que o macho-jurubeba admite, e ainda nos primeiros momentos da adolescência, é a velha Minâncora de latinha. Que nem pode ser chamada de creme assim. Desodorante? Avanço, claro. Melhor ainda se deixar o cecê vingar, correr solto no ambiente, o que, via de regra, atrai o faro da fêmea. É assim desde que o velho Hemingway abateu a sua primeira lebre com tiro certeiro.

O macho-jurubeba também tem os seus gostos. Prefere, para irmos direto à zona do agrião, as matas à Claudia Ohana (lembram-se da floresta negra?) àqueles gramadinhos baixos, desenhados como se fosse o campo do Serra Dourada em dia de jogo festivo.       

Crise do mundo masculino? O macho-jurubeba nunca perdeu o seu tempo com esses diálogos impertinentes. Está sempre ocupado em mirar a espingarda na próxima lebre, ganhar o sustento da patroa e o leite dos jurubebinhas.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h00
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246

De Tati Bernardi.

Acordei antes delas, comi um pão seco e um iogurte ralo. Corri pra ver o mar como se não o visse há séculos.
Era bem cedo e a praia estava vazia. Era bem cedo mas parecia fim de tarde, sabe quando o sol faz o chão brilhar em feixes? As manhãs devem ser assim mesmo, é que eu já tinha me esquecido como era acordar bem cedo.
De manhã dói mais, sempre. É que quando é bem cedo eu ainda não ganhei das horas aquele cimento cotidiano para entorpecer meus sentimentos. Mas o cheiro de mofo do quarto me expulsou ainda assim, sem dó. Me entregando ao horário em que ninguém ganha da natureza, ainda que o pão seco tenha descido corroendo minha alma mais do que você.
Lá estava eu. Eu e a minha velha canga verde, aquela na qual o cachorro chato deitou do nada e ficou de pau duro, lembra? Eu morri de vergonha e de nojo, mas você riu e purificou toda a vida com o seu riso. Foi a nossa última tarde de esperança. Restava só um fiozinho.
De repente, como já era de se esperar, você me invade. Não tem pra onde correr, não tem. Minhas amigas estão dormindo, o pão seco não foi suficiente para que os carboidratos me deixassem um pouco mais forte. Não tem música para que eu dance em cima da sua cabeça, não tem futuro nenhum para te enterrar. Pisco um milhão de vezes mas não adianta, você senta mais uma vez em cima da minha cabeça, com os pés no meu peito.
Lá vou eu sofrer, de novo, de novo. Como pode? Faço as contas e me dou conta de que já faz 246 dias que não vejo nem os poucos pêlos centrais das costas da sua mão e nem aquele seu cílio torto no olho esquerdo. Eu que massageava ansiosamente o peito só de medo de passar três horas longe de você, completo agora corajosos 246 dias.
Corro até o outro lado da praia, na esperança de que você não me alcance. Mas é você alí, na barraquinha de milho. É você comprando côco, é você jogando frescobol, é você de mãos dadas com aquela sarada baixinha, é você careca correndo de I-pod, é você catando conchinhas de maria-chiquinha, é você de pintinho pra fora aprendendo a andar nos desenhos do mar. É você quando olho a sombra e as pegadas na areia.
Quanto mais eu corro, mais você, gelado, me acerta as orelhas, quanto mais eu silencio, mais você se aconchega deslizando pelo meu sangue. São 246 dias longe de você e nem um segundo sequer, de todos esses dias, longe de você.
Daqui a pouco passa, daqui a pouco elas chegam fazendo graça e me roubando um pouco de você. Daqui a pouco o sol do meio-dia se torna insuportável e me rouba um pouco de você. A fome nasce absurda depois da caminhada, e me leva um pouco de você também. Um moço bonito passa deixando seu rastro, eu vou com ele por alguns segundos. A tarde chega dizendo que falta só um pouquinho para que o dia acabe, a noite chega dizendo que falta só um pouquinho para que o dia chegue e, tudo isso, me faz sentir que a vida passa e quem sabe, ao passar bastante, me leve de vez de você. Como eu queria ir embora.
Mas nesse exato momento, no meu aniversário solitário de 246 dias, eu deixo uma gota de lágrima cair no mar e penso: será que o mar é feito de bilhões de lágrimas de todos os amores do mundo que não deram certo? As lágrimas se multiplicam em mim e eu choro quase do tamanho do mar. Uma dor de amor vale por todas.
O frio, depois do mergulho, definitivamernte leva você embora por alguns instantes. Quando chego no guarda-sol elas já estão lá, contando animadas da festa de ontem. Compraram cervejas e a revista Caras. Deito feliz e já aquecida na cadeira, ficou tudo bem de novo, vou matar você de vez com um sorvete de chocolate.
Mas você é muito esperto, você é muito cruel. Quando abro meu creme de manga você pula tal qual o Aladim pra fora da lâmpada mágica e me concede três desesperos. Eu tinha me esquecido que a porra do creme de manga para cabelos da Natura me lembra a nossa última viagem.
Aos poucos você volta e vai se instalando com força total. Suas pernas chegam calmamente em fios da pipa, seus braços acenam de longe na vela de um barquinho, seu sorriso embala toda a alegria da praia, provando que óculos escuros vagabundos podem queimar a retina.
São 246 dias, conto para as minhas amigas, para a revista Caras, para as cervejas chocas, para o salva-vidas, para o mar, para as conchinhas, para o pão seco, para a menina de maria-chiquinha. Sim, eu sei que sou louca por ter perdido quase tudo, menos a conta.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados, mas apareceu na sexta para tumultuar positivamente as coisas.

Escrito por Blônicas às 12h44
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Basta votar no Blônicas nas categorias de Melhor Weblog (representante do Brasil) e Melhor Weblog em Português no The Bobs 2006 para concorrer. Clique AQUI. É simples, não precisa dar dados cadastrais, nada disso. Vai lá, pode votar quantas vezes quiser e quanto mais votar, mais chances você tem de ganhar!

Escrito por Blônicas às 11h19
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A lata de lixo.

De Rosana Hermann.

 

         A lata de lixo nem sempre é de lata, mas se for de lixo, é de lixo. Não serve pra mais nada no mundo, especialmente depois de ter sido inaugurada para tal fim. O lixo é o fim de carreira de todo material orgânico e inorgânico, símbolo do desprezo humano. Mas, como tudo na vida é subjetivo, o que é lixo para uns pode ser sobrevivência para outros. Quem já viu o curta metragem maravilhoso ‘Ilha das Flores’, do diretor Jorge Furtado, encontrável facilmente na rede, sabe do que estou falando.

 

         Tenho uma relação conturbada com o lixo. Não é o caso de abrir uma comunidade no Orkut, mas odeio quando encontro o lixo sem saco plástico. Odeio jogar uma casca de banana direto no fundo da lata, sem nenhuma proteção. Pior que isso, só encontrar o lixo abarrotado, caindo pra fora, jogando lixo em você justamente quando você queria jogar algo nele. São duas regras claras aqui em casa, infelizmente nem sempre seguidas: lixo tem que ter espaço pra jogar lixo e a lata deve conter um saco de lixo.

 

         Estes eram meus problemas estruturais até que o mundo das embalagens e dos deliveries trouxeram uma nova situação: as caixas de pizza. A caixa de pizza não cabe nem no lixo que fica do lado de fora, a não ser que se dobre a caixa mal fechada, deixando cair a azeitona, os folhetos da pizzaria e o último caroço de azeitona. E quando alguém joga as caixas de pizza mal dobradas junto com copos plásticos e embalagens PET, o lata fica inoperante, atoladinha e aí, é o fim do lixo.

 

         Convivendo com todos esses pequenos problemas domésticos diários, com cestinhos de lixo de escritório, cinzeirinhos, cestinhos de lixo dos banheiros, latas de lixo da copa e da cozinha, resolvi ir até uma loja especializa em plásticos e comprei uma imensa lixeira. Imensa mesmo, dá jogar fora o cachorro e alguns filhos em dias de TPM. A lixeira é alta, forte, robusta, simpática e tem uma tampa basculante, como aquelas de shopping, onde a gente enfia a bandeja sem a menor culpa. Minha vida é outra. Dá pra enfiar três caixas de pizza sem dobraduras. Eu recomendo.

 

         Lidar com o lixo é a demonstração mais profunda do grau de cidadania de cada ser humano. Se você embrulha determinados itens em outros papéis ou saquinhos para não causar espécie no contato visual, se você se preocupa com arestas e coisas que podem cortar ou furar os funcionários (mesmo de luva) que vão levar o lixo, se você guarda papéis para serem jogados nos lugares certos quando você não encontra o lixo, se tem lixinho no carro, se carrega um saco plástico quando sai com seu cachorro. É neste fim de carreira invisível, fim de linha imperceptível que demonstramos silenciosamente quem somos, o que pensamos, como vivemos e o sentimento que temos para o com o próximo. Porque o lixo não desaparece por mágica. Há um longo caminho entre o lixo do seu banheiro, da sua cozinha, da casa ou do apartamento até o aterro sanitário. Há muito trabalho, muita gente, muitas vidas. Quem não pensa em nada disso e simplesmente joga tudo fora do pequeno raio de ação de sua consciência é que é o maior lixo do mundo. Lixo mesmo é a falta de consciência. Essa, nem urubu come.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h17
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A ditadura arreganhada.

De Edson Aran.

Alguns chamam o período de Grande Depressão. Outros de O Grande Incêndio de Londres. E até quem se refira a ele como o Grande Terremoto de São Francisco. Mas para os homens e mulheres que viveram e morreram naquele momento histórico, ele será para sempre conhecido como A Ditadura Militar Brasileira.
O movimento começou em março de 1964, quando políticos de direita, aliados aos militares e a dois ou três orangotangos depuseram o presidente Django Goulart (1917-1985). Django partiu para o exílio jurando vingança, mas desistiu de tudo quando ganhou o papel principal num western spaghetti de Sergio Scorbutto (1937-2008), "Django, L'Uommo della pistola sporccha".
Enquanto isso, no Brasil, a resistência contra a ditadura tomava conta dos corações e mentes. Organizações como UNE, DUNE e TEE mobilizavam a população em caudalosas manifestações de rua, enquanto os militares, por sua vez, faziam uma ampla campanha para recrutar torturadores. O economista Francis Missoshiro analisa assim o período:
"Muitos criticam as ditadura, mas ninguém fez mais pelo aprimoramento da tortura", analisa. "Nos anos 60, um torturador terminava a universidade de Violência Descerebrada e não encontrava nenhuma colocação no mercado de trabalho".
A ditadura também impulsionou a indústria de paus-de-arara e maquininhas de choque, transformando empresários em milionários da noite para o dia. Ou melhor, do dia para a longa noite da ditadura.
Mas nem todos eram felizes. Muitos tiveram que partir para o exílio para escapar à sanha assassina dos militares. O músico-cantor-poeta- pensador-intelectual-escritor Caetano Veloso, por exemplo, refugiou-se em Londres. No livro autobiográfico "Vaidade Tropical - A Maravilhosa Vida e Obra do Maravilhoso Caetano Veloso por Caetano Veloso", ele conta que, nos anos 70, foi obrigado a voltar ao Brasil e a se apresentar na rede Globo de televisão, para demonstrar que reinava a normalidade no país. 
"Os militares me pegaram no aeroporto e me levaram para o programa do Chacrinha", narra o compositor. "Eles me obrigaram a rebolar com as chacretes. Depois me levaram para o Leblon e me obrigaram a tomar banho de mar. Depois me levaram ao Copacabana Palace e me obrigaram a tomar várias garrafas de champagne. A coisa só terminou dois dias depois, quando me obrigaram a participar de um baile de carnaval."
Outros intelectuais, no entanto, fizeram carreira durante os anos de chumbo. O cantor Chico Buarque de Hollanda, por exemplo, não conseguia emprego graças à sua voz nasalada, tendo de ganhar a vida fazendo papel de fanho em anedotas populares. Mas ao se posicionar frontalmente contra os militares, ele ganhou as paradas de sucesso com versos como "pãe, anfasta de im esse canlice, pãe" ou "voncê não onsta de im, mans sua ilha onsta".   
Nem tudo eram flores, entretanto. Vários militantes de esquerda decidiram que a resistência armada era a melhor maneira de enfrentar a ditadura. Os oito fizeram uma vaquinha, compraram uma espingarda de chumbinho e saíram numa Kombi para derrubar o regime. No meio do caminho, no entanto, o grupo se dividiu em oito tendências fratricidas: OBA (Organização Brasileira Autônoma), GCAP (Grupo Comunista Armado e Perigoso ), CHUPA (Comunistas Heterossexuais Unidos Pra Arrebentar), SOCA (Socialistas Operários Confusos e Arrivistas), FODA (Frente Operária Desconstrutivista Armada), OMNSG (Organização Materialista Nossa Senhora das Graças), OMNSG do B (Organização Materialista Nossa Senhora das Graças do Balobaco) e FBSN (Frente Bossanovista de Salvação Nacional).
A bagunça dentro da Kombi chamou a atenção da ditadura, que munida uma placa de "Pare", derrotou a luta armada.
A pressão das ruas, no entanto, levou ao movimento pela anistia e, posteriormente, às manifestações pró eleições diretas. As diretas não passaram pelo congresso, mas levaram à eleição indireta do oposicionista Tancredo Neves, vitimado por uma infecção hospitalar reacionária e direitista. Em seu lugar, tomou posse o vice eleito, José Sarney, oligarca que ganhara o Maranhão e metade no Pará num jogo de truco com um boto tucuxi. Sob Sarney, o Brasil caminhou, enfim, para a normalidade democrática.
Foi quando o país foi invadido por alienígenas canibais do espaço exterior e teve de desenvolver robôs assassinos para enfrentá-los. Mas isso fica para o segundo volume, "A Ditadura Arreganhada - Episódio 2 - Robôs assassinos contra alienígenas canibais!"

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h37
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BLÔNICAS NO THE BOBS!

THE BOBs

Pelo segundo ano consecutivo o Blônicas é nomeado a um dos maiores prêmios mundiais de blogs, o THE BOBS - Best of the Blogs - organizado pela Deutsche Welle International.

Assim, queremos agradecer a todos os nossos leitores, pois sem vocês não conseguiríamos tal indicação. Também pedimos a participação de todos na votação online. Quem votar concorre automaticamente a um iPod Video!

É rápido e simples, basta clicar AQUI e votar no Blônicas nas duas categorias que concorremos: Melhor Weblog (representante do Brasil na categoria) e Melhor Weblog em Português.

Obrigado e boa sorte a todos nós!

Nelson Botter - Organizador do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h01
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A vontade e um dedinho de prosa.

De Tati Bernardi.

Enquanto espero começar a reunião na Editora Abril, passo rapidamente minha listinha de telefones no celular.
Não, o Gabi nem pensar. Além de não saber usar camisinha, ainda faz muito barulho. Meu apartamento é colado com o do lado, outro dia ligaram pra reclamar que a minha TV estava muito alta, imagine se esse garoto começa a uivar na minha casa? Sou cara-de-pau mas nem tanto.
Putz, aquele chileno metido a cineasta espanhol prometia um sexo selvagem, será que dou mais uma chance a ele? Não, não, melhor não. Ele tinha um beijo muito melado, do nada me dava umas linguadas na cara inteira, pescoço, orelha. Depois eu ficava com o maior cheiro de baba. Tô fora. Tô a perigo mas ainda não virei sorvete de leite moça.
Mas ele tinha um amigo… hmmmm, o amigo dele parecia ser interessante. E o amigo dele também tinha tentado um chega-mais comigo na mesma noite. Mas peraí: o amigo dele não é aquele que traça o que vier pela frente? Tô precisando ser traçada urgentemente, mas não sou qualquer coisa que vem pela frente.
Até porque posso vir pelo lado também. Por trás, pelo teto, pelo chão, pela janela, diametralmente, de cinta-liga, de enfermeira, pelada. Nossa, preciso mesmo dar. Mas gosto de rapazes seletivos, esse cara era nojento demais pra mim.
Enquanto a reunião não começa, tento tirar um pouco de proveito da minha situação. Afinal, estou em um prédio interessantíssimo com trocentos jornalistas, escritores, fotógrafos e diretores de arte. Não é possível que no meio desses tantos não tenha ao menos um digno de entrar em minha morada. Preciso ser salva.
O primeiro que passa tem um cabelo que faria inveja ao Bozo. Se fosse para dar um telefone para ele, daria o do L’Officiel. O segundo parece ser gerente de almoxarifado de repartição pública. Mais “cara de firma” impossível, deve ser daqueles que avisam: “Ai, com licença, Senhorita Tatiana, mas acho que vou estar estando gozando dentro de alguns instantes”. O terceiro usa roupas descoladas, tem o cabelo metade raspado e dois piercings na cara. O problema é que eu quero um criativo e não um “criativoso”. Esses que forçam pra ter cara de fashion são os menos fashion de todos. Aposto que as blusas de lã dele são de Serra Negra.
Ai, Dona Tati, Dona Tati. Assim fica realmente difícil. Como é que eu vou liberar minha fantástica periquitinha se acho todo mundo péssimo? Poxa, chega uma hora em que o dedo cansa. Dedo não conta piada, não fala baixinho no seu ouvido, não morde a sua coxa.
Calma, vai aparecer alguém. Vai sim. Espero que logo. Finalmente me chamam para a tal da reunião. Um dos editores do projeto não é de se jogar fora. O cabelo dele é super ajeitadinho, a roupa é bacanuda, o físico impecável e as mãos grandes e másculas. Ui! É esse! Ele é mais velho, interessante, inteligente, limpo e gosta dos meus textos! Nossa, melhor impossível! Já tô até vendo ele tocando a campainha da minha casa essa noite (todas as campainhas) e eu estreando o meu baby-doll com pompom. Não tem a pele oleosa (ótimo, não vai manchar de óleo meu edredon branco!), é meio careca (ótimo, não vai encher meu edredon branco de cabelos!) e não tem filhos porque odeia crianças (ótimo, não vou me apaixonar por ele!). Finalmente o cara. Finalmente vou me despedir da minha seca de três meses. Fico tão feliz que exibo um enorme sorriso para ele antes de sair. Educadamente ele retribui:
- Ai, meninaaaaa, que sorriso lindooooo você tem! Me dá AGORA o telefone do seu dentista! A-GO-RA!
Claro, um homem tão perfeito só poderia ser gay. Inferno de vida.
Vou ter de apelar para uma baladinha. Ai, que saco. Baladinhas são péssimas para mim. Ou eu me trajo tal qual uma retardada no cio ou fico torcendo para que algum troglodita goste de uma menina decente e queira saber o que eu acho do Sartre, do Fante, da Clarice. Detesto me sentir na feira mas, por outro lado, se é de mandioca que estou precisando não tem lugar melhor.
Não vou conseguir. Tá frio, vai ter fila, vai ter fumaça de cigarro, vai ter manobrista que solta pum no carro, vai ter alguma menina com voz de pato francês anasalado no banheiro contando para alguma outra integrante do gueto que alguma loja tá liqüidando tudo a partir de mil reais. Que inferno.
Outra opção é uma baladinha sem peruas e playbas. Mas essas outras opções indies quase sempre são GLS, o que dificulta em muito as minhas chances de arrumar, ao menos hoje, um homem que não saiba dançar imitando peixinhos fosforescentes. Socorro.
Não, tô com muita preguiça de sair de casa. Homem bem que podia funcionar como um disque-pizza para dias chuvosos. Ex-namorados e ex-casos são perfeitos para serem entregues em casa, fora que dispensam conversas e preliminares, dada a intimidade de outros tempos. Mas tô defasada até nesse quesito. Tirando a grande maioria deles, para quem nem vale a pena ligar porque eram meia-boca sexualmente, a pequena parte que sobra vale menos que o meu dedinho mindinho do pé. E pelo visto vou continuar com o meu dedo mesmo.
E a opção amigos?…Não, não vai dar certo. A última vez que um grande amigo com potencial para me comer me visitou, terminamos a noite chorando por amores do passado e fazendo piadas escatológicas. Amigo não dá, não tem mistério, não tem charme. Existe homem-ombro pra te consolar e existe homem-pinto pra te comer. Lembra da piada “não existe pôr só a cabecinha porque pinto não tem ombro”? É a mais pura verdade. Alguns até se fazem de amigos, mas espera você liberar a periquitinha pra ver o que acontece. Amigo é o cacete! É, o cacete é amigo mesmo. Ai, preciso dar urgente.
Já sei! Vou apelar para meus fãs! Sim, recebo toda semana dezenas de e-mails de fãs homens. Quase sempre leitores da VIP, ou do meu site, ou do Blônicas, da TPM, da Viagem e Turismo. Nessas horas é bom escrever para vários lugares, aumentam as chances de aparecer um leitor bem-apessoado e mal-intencionado.
O problema é que 80% dos homens que me escrevem acreditam que, por estarem se comunicando com uma escritora, precisam se mostrar ultra intelectualizados, ultra alfabetizados e ultra prolixos. Como é que eu vou ter vontade de liberar para um cara que me escreve infindáveis 456 linhas que quase sempre começam com: “Vós não imaginais o imensurável prazer trêmulo com o qual este macambúzio leitor vos escreve pulsantes idílios”. Esse cara não faz sexo, faz?
Os outros 10% (esses sim, sobretudo leitores da VIP) são o extremo oposto disso, o que também não me interessa. São aqueles ogros irados ao estilo “gatinha molhada, vou colar na sua goma hoje pra gente fazer uma sacaneta”. Pega no meu pau, seu machista analfabeto! Tem ainda uns malucos que odeiam as minhas baixarias e me mandam encontrar o senhor. Que senhor? Esse senhor faz sexo?
Meu personal nem pensar, eu ia parar no meio pra reclamar que minha bunda não tá tão dura quanto o meu bolso, vazio de tanto pagar aulas extras para ele. Amigo de ex-namorado é crime, ainda que tenha uma quantidade incrível de amigos de ex-namorados querendo me comer, onde é que esse mundo vai parar? Pro meu chefe não posso dar, pelo único motivo de que sou autônoma e não tenho chefe. Go-go dancer tem a bunda lustrada, isso não me dá tesão.
Pra quem então? Pra quem? Pra quem? Ah não, você de novo não! Você não conta piada, não fala baixinho no meu ouvido, não morde a minha coxa. Que inferno.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 08h01
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Calorias negativas.

De Rosana Hermann.

 

Não falta muito para que eu complete meio século de lutas, especialmente contra a natureza. São trinta anos lutando contra o peso, vinte lutando contra o envelhecimento, dez lutando pra ganhar dinheiro. Isso, sem contar as lutas diárias pra fazer com que os filhos passem de ano, o cachorro não morda e os serviços básicos da casa funcionem.

 

Mas de todas as batalhas, a mais difícil é realmente aquela que travamos contra as tentações de comer porcarias e perder peso de forma saudável. Não sou adepta de vícios cirúrgicos, sou muito mais do tipo ‘venci pelo esforço’ e com isso o sofrimento é sempre maior. A esperança é que o orgulho pessoal da conquista aumente o compromisso com o emagrecimento durante a manutenção, aquela, que deveria durar mais meio século.

 

Pois estes dias, li uma matéria sobre novas bebidas que prometem queimar calorias ao serem ingeridas, ao invés de adicionar calorias ao organismo. É algo como uma reação endotérmica que ao invés de liberar energia, como as exotérmicas, consumiriam energia do corpo humano. Acho muito louco isso, mesmo sendo possível. Por que tomar três garrafas de uma bebida estranha, feita por uma empresa que é famosa por não revelar suas fórmulas, para queimar cem calorias, equivalente a menos de meio bombom? Não é melhor parar ou maneirar no chocolate e aumentar a carga de exercícios físicos?

 

Será que essas bebidas malucas são antídotos tecnológicos para outros recursos tecnológicos como o controle remoto da TV, que vem alargando a bunda cada vez que a gente não sai do sofá pra mudar de canal? Mas isso faz sentido? Acho que não. É como tomar remédio para combater o efeito colateral de outro remédio. Tudo bem, se o remédio for imprescindível para manter a vida e ele tiver um efeito colateral que necessita um analgésico, a gente aceita. Mas ninguém morre porque ficou sem controle remoto, direção hidráulica ou qualquer outro conforto que nos impeça de realizar mais movimentos. Não a ponto de tomarmos bebidas malucas de efetividade duvidosa.

 

Não sei, pode ser puro preconceito de velha. Posso estar aqui falando sem saber. Posso estar tomando latas e mais latas da bebida antes do próximo parágrafo. Mas uma coisa é certa: para uma vida como consumidor é muito estranho começar a tomar algo que nos consuma.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h26
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Nomes.

De Luis Gonzaga Fragoso.

Andar de ônibus pelas ruas da cidade pode ser uma experiência instrutiva. Nelas há farto material para o lingüista, para o antropólogo, quiçá para outros especialistas. A seguir, uma pequenina coletânea de nomes espalhados pelas ruas de Sampa. A dose de excentricidade varia conforme o caso.

Sumaré Hill. A exótica mistura de tupi com inglês me faz pensar nos prováveis Itaquaquecetuba Garden ou Tamanduateí Convention Center.
Edifício Senzala, no Itaim, bairro classe média-alta de São Paulo. Uau. Haverá ali alguma placa, A Gilberto Freyre, in memoriam? Confesso que andei um pouquinho pelas redondezas, para ver se encontrava o Edifício Casa Grande, mas em vão. Pela lógica, se a senzala está num bairro chique, a Casa Grande deve estar na periferia carente. A verificar.
The Excellent – Offices Center. A menos de cem metros do edifício acima mencionado. Dá o que pensar, essa excelência.
Bagdá Books, no mesmo Itaim. Resquícios das bibliotecas recentemente bombardeadas e saqueadas dessa cidade? Ou uma homenagem ao berço de nossa civilização, a Mesopotâmia?
Fauni Domus – Pet Room – Veterinária. A combinação latim-inglês volta e meia é usada, vide a escola Alumni (um retorno às origens?). Em latim, se meus rudimentos dessa língua não me pregam uma peça, a casa dos animais. A sala do bicho de estimação? Muito démodé, mais chique em inglês. Para o bicho bilíngüe.
Saint Paul’s Residence, também em Sampa, Pinheiros. Dispensa comentários.
Edifício Happy Place. O cronista nada inventa: lá está o prédio, em Perdizes. Tive o impulso de me postar à frente dele, para fazer a enquete, com o fim de medir o nível de felicidade dos moradores do local. Um bom sinal: nos poucos minutos que estive ali, ninguém de cara amarrada entrou ou saiu.
Grupo Sul New’s. Agência de classificados de jornais. Ugh. Acham bonito o apóstrofo do inglês? Oquêi, mas que tal aprender a usá-lo?
Visual Bike. Já que não consigo pensar em uma bicicleta olfativa ou “degustativa” (tátil até cabe, mas Tactile Bike não teria grande apelo ao consumidor, imagino) alguém tem um palpite sobre o que teria passado pela mente do dono da loja, no momento do batismo?

Fica aqui o convite ao leitor para contribuir com seus exemplos de nomes exóticos em Sampa, cidade em que a fauna é variada. Ou de outro canto qualquer: exotismo não tem endereço.
Mas antes que tomates virtuais partam como mísseis em minha direção, que fique claro: não endosso qualquer projeto de lei que proíba o uso de estrangeirismos, isso não se resolve na base da canetada.

Modismos à parte, há grandes sacadas (e isso, parodiando o superlativo Luis Fernando Veríssimo, não é comentário ouvido em festa de arquitetos). Exemplos:
Comedoria, lanchonete no Sesc Pinheiros.
Livraria Sebo Cidade de Canudos. Genial, pelo desejo de manter viva nossa memória histórica.
Paulistânia Bosque Residencial (condomínio fechado). Música para os ouvidos, já que a língua menos ouvida e lida em propagandas desses empreendimentos é a portuguesa.

E uma das pérolas, em meu próprio bairro: o pequeno Edifício O Ateneu, na Rua Raul Pompéia. Tenho de descobrir quando foram batizados ambos, a rua e o prédio. Deliciosa homenagem ao escritor do século 19.

Passo a imaginar uma lei absurda, que forçaria qualquer habitante prestes a batizar uma loja, um edifício ou estabelecimento comercial, a fazer uma rápida pesquisa lingüística e histórica: se meu nome predileto está em inglês, há equivalente em português? De que contexto saiu esse nome? É possível batizar o local criativamente (vide o exemplo do Sesc)? Claro que a contribuição da universidade, através de sua pouco difundida Toponímia (estudo etimológico ou histórico sobre os nomes próprios de lugares), seria muito bem-vinda.

Ganharíamos todos com isso, e muito. Afinal, como já disse Milton Nascimento na canção composta com Fernando Brant, “ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país”.

Luis Gonzaga Fragoso é leitor do Blônicas. Quer ver seu texto publicado aqui? É simples, basta mandar uma crônica para seleção no blonicas@uol.com.br . Ah, sem arquivo anexo, não abrimos por segurança, cole no corpo do email.

Escrito por Blônicas às 13h50
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Diarista de solteiro.

De Xico Sá.

 

Faxineira, diarista, empregada doméstica ou qualquer funcionária do lar de um homem solteiro é sempre uma beleza. Um carinho, um zelo, botões repostos nas camisas, roupa cheirosa, água fria na quartinha, cama, mesa e banho, tudo no capricho. Elas trabalham assoviando o sucesso da hora, o hit do rádio, apesar da vida nada fácil.

Aí basta o mancebo arrumar um xodó, um rolo, um cacho, uma costela... para aquele humor desmanchar-se aos poucos. As duas criaturas normalmente não se entendem, gênios difíceis.

 Quem paga somos nós, porcos chauvinistas, que não teremos mais aqueles botões repostos na camisa colorida _aquela mesma, caríssimo Paulinho da Viola, que cobria a minha dor, na canção do amor às pressas lá no Recife.

 Uma não repõe os botões por despeito e protesto contra a nova inquilina; outra não zela por razões ideológicas, ora, não pode incentivar o machismo.

Duas mulheres sob o mesmo teto, a menos que você seja um poderoso sultão, é jogo duro. Seja sogra, diarista, tia, mãe, irmã... E quando as TPM´s coincidem? Vixe, fica tudo tão difícil quanto atravessar o Mar Vermelho. E quando não batem os signos?

O xodó tira um móvel de um canto, a diarista muda uma planta de lugar...

A diarista esquece a teia de aranha lá no cantinho da parede, o xodó faz um apocalipse...

O xodó implica, a diarista começa a falar bem da sua ex, com quem também fazia uma batalha sem trégua.

Até o fatídico dia do juízo final: “Ou ela ou eu!”.

As duas dizem quase em uníssono.

Pior é quando você, jovem mancebo, fica na dúvida.

Largar a zelosa funcionária de dez anos? Desgostar a costela amada que te aquece neste inverno?

Na dúvida, fique com as duas, abra uma cerveja, não se agonie, relaxe, pois só o tempo é remédio na farmácia.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h14
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Catatônica.

De Tati Bernardi.

Tenho um móvel lindo, colorido e descascado. Dentro dele dezenas de cds e fotos me lembram, timidamente, que nunca estarei sozinha.
Acordar ainda dói um pouco, não por nada, apenas porque simplesmente dói lembrar que continuamos sem saber ao certo o que significa tudo isso. Mas a cortininha de vidro que separa meu quarto minúsculo da minúscula sala me traz aquela magia fugaz que engana o espítito um pouco e traz a paz da futilidade.
A geladeira é velha, já morava aqui antes de mim, mas enchi ela de ímãs de filmes e uma foto do Seu Madruga. Acabo gostando dela, apesar dela ter roncado a noite toda. Aliás, acho bom mesmo que ela ronque em fases, pois, na fase do silêncio, lembro que sou feliz. É preciso guerra para haver paz… quem disse isso mesmo?
Ben Harper é o escolido do dia, ele toma café da manhã comigo. Já são quase meio-dia e eu estou calma, não preciso me preocupar com nada, não preciso ser legal com ninguém. Posso ler o jornal enquanto pego uma fatia de pão com os dedos sujos.
Me dou broncas, me odeio, faço as pazes comigo cantando alto no chuveiro que inunda a casa inteira. Deixo a casa uma zona, estrago comida, permito que as flores morram, sujo o sofá de iogurte e assisto um filme besta sem me preocupar com a opinião alheia. Aproveito ao máximo que estou distraída de mim mesma, daqui a pouco eu arrumo tudo minuciosamente, alugo um Truffaut, faço contas e balanço a cabeça inconformada. Começo a achar que é difícil enjoar de mim, basta ser um pouco humano.
Não sei não, mas algo me diz que me amo tanto, tanto, que prefiro não ligar o celular, a Internet e prefiro também não espiar pela varanda. Fecho os olhos esticada e pelada na cama, por alguns segundos brinco que não sei meu nome. E acabo não sabendo mesmo.
Moro sozinha agora, coisa que quando eu tinha quinze anos nunca imaginei que conseguiria fazer. Tenho vinte e sete e continuo não imaginando como fazer. Enquanto isso, faço, sem me dar conta.
Tenho pesadelos de que não vou conseguir pagar minhas contas, mas como sou muito figura, acordo no dia seguinte e compro uma jaqueta de couro de quinhentos paus. Acho que como eu acredito que o dinheiro nunca vai faltar, alguma magia do universo colabora e eu acabo sempre arrumando um freela aqui, um texto alí, um projeto lá. Sou rica de mundo e isso é tudo.
Tenho aprendido coisas geniais como, por exemplo, que comprar uma cortina devia ser proibído para menores de 18 anos. Primeiro mandam você escolher um varão, depois você tem de decidir se este varão vai passar na prega macho ou na prega fêmea. Puta baixaria.
Minha geladeira dá choque e eu me sinto muito independente quando tomo meus choques sozinha e não posso nem dividir um “caralho” com ninguém. Aliás, já faz um tempo que não divido nem um caralho nem um choque com ninguém. Foda-se, enquanto isso encho o rabo de bolacha goiabinha e leio sem parar outros solitários.
A minha pia é das coisas mais charmosas que eu já vi nessa vida. Ela não fica nem no banheiro, nem no quarto, nem na sala, mas ao mesmo tempo fica em todos os lugares. De presente para a pia comprei novas maquiagens, novos cremes e novas bijouterias, ela adorou.
Sempre quis ter uma casa só minha para encher de amigos e namorados. Engraçado, mas agora que tenho a tal da casa, morro de ciúmes e seleciono neuroticamente quem vai pisar no tapete chiquérrimo de macarrão que esconde o fio da televisão chiquérrima de LCD. A idade te deixa mais chata e diminui muito as suas chances de se dar bem. Mas pelo menos agora eu sei que quando uma coisa é boa, ela é boa mesmo.
Hoje de manhã eu acordei e fiquei olhando para tudo catatônica, um misto de susto com deslumbramento. Me dei conta de que essa é a pior e a melhor fase da minha vida. Eu nunca andei tão triste e nem tão feliz. Foi difícil enterrar tantos mortos e tantas rotinas, mas está sendo muito fácil viver dentro de mim.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 20h37
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Desabafo.

De Rosana Hermann.

Vou transgredir a regra número um do território nacional, aquela que estabelece que nenhuma pessoa poderá fazer sequer uma observação positiva sobre si mesma, muito menos um elogio sob pena de ser linchada em praça pública ou ter uma vida de trabalho denegrida. O medo do achincalhamento generalizado e eterno faz com que eu use uma atenuante, vou me auto-elogiar bem devagarinho e usar o truque da coletividade. Vamos lá, tente não me odiar muito por isso. Um, dois, três e.. lá vai:

- Como muitos seres humanos, sou também uma pessoa esclarecida e inteligente e, por isso, sofro muito com a burrice alheia.

Pronto, eu disse. Mas há um erro. Esta afirmação contém uma incoerência. Se eu fosse mesmo tão inteligente quando imagino eu teria mais  tolerância com a burrice. Mas não tenho. Não tenho e não consigo conviver com a falta de raciocínio sem sofrer. Chego às vias de fato de muitos ataques de nervos que certamente antecipam minha morte natural prevista para daqui a uns 40 anos (espero, toc toc toc) diante de situações em que sou obrigada a lidar e até depender de pessoas assim, ignorantes, burras e descomprometidas com os problemas que causam. Porque o burro está perdoado de saída. Acho que é aquela frase bíblica dos pobres de espírito que herdarão o céu. Google e confirme.

Vou dar um exemplo ridículo e prático, só para ilustrar, já que estou chorando aos borbotões e tendo ataques agudos de sofrimento puro. Sustento parcialmente a minha mãe, uma senhora de idade totalmente dependente e que, diante do tribunal mundial, não tem culpa de nada. A geladeira do pequeno apartamento dela no Guarujá, São Paulo, queimou e fiquei de comprar uma geladeira nova. Pedi para que ela me dissesse a voltagem e ela disse 110 volts. Pesquisei durante muitas horas na Internet e finalmente, achei uma geladeira de mil reais, que achei cara mas adequada. Antes de fechar a compra, já que a geladeira tem opções 110 e 220, liguei e confirmei com ela, 110 volts.

Fechei a compra e recebi o número do pedido. O telefone toca. É minha mãe dizendo que falou com 'o moço' do prédio e o moço disse que a voltagem era 220 volts. Desliguei no mesmo segundo e passei emails desesperados tentando alterar a compra. Liguei para o site e fiquei esperando vinte minutos para falar com alguém. O pedido ainda não havia sido cadastrado no sistema ainda e tive que passar todas as especificações por telefone.

Escrevi para todos os emails da empresa, explicando a situação, pedindo desculpas e dizendo que minha mãe é uma senhora de idade e que não sabia a voltagem ao certo. E por isso, comprei 110v. Consegui e alterei a compra para uma geladeira de 220 volts.

O telefone toca. É minha mãe. Ela diz que 'o moço falou que a geladeira poderia tanto ser 110 como 220'. Respondi que a geladeira não é bivolt, que ou é uma coisa ou é outra. E fiquei temerosa, porque a essas alturas, a geladeira de mil reais já era 220.

O telefone toca de novo. É minha mãe. Ela disse que a síndica não sabia a voltagem, a mãe da síndica que também mora no Guarujá não sabia a voltagem, e o 'outro moço' (sim, para minha mãe ninguém tem nome) subiu até o apartamento (tem que subir até o apartamento pra saber a voltagem do prédio, da cidade, veja você) e disse que ... era 110 mesmo.

Tive um ataque de choro, não só por hoje, não só pela geladeira, não só porque nada entre minha mãe e eu jamais dá certo, talvez por alguma incompatibilidade genética, daquelas que faz a gente escrever crônicas e imaginar que é adotiva, não só porque estou passando por um período difícil financeiramente falando ou porque estou totalmente estressada fisicamente, mas principalmente por quarenta e nove anos desta mesma situação, a de ter que conviver sempre com essa confusão de erros da qual não sou capaz de rir, só chorar.

Meu falecido pai, que era um homem muito inteligente, já se foi. Ele saberia dizer até o número de ladrilhos que há no banheiro, além da voltagem correta. Sem ele, sinto-me perdida, a menina que sobrou para cuidar de tudo. A criança que passou a vida ouvindo dos outros que era inteligente e que, por isso, jamais recebeu o menor carinho ou compaixão. Eu que me foda, eu que sofra. Eu não sou inteligente? Então, eu que resolva. Quem mandou. Todos os burros são coitadinhos e merecem compaixão e compreensão, todos os moços, os que não sabem, todos estão automaticamente perdoados, porque, Pai, eles não sabem o que fazem. Sinceramente, eu também já não sei.

Portanto, me perdoe. Foi intencional. Eu quis mesmo ocupar seu tempo, sua cabeça, sua leitura, com essa ladainha de queixas, este imenso desabafo infantilóide, beirando o ridículo numa senhora da minha idade. Foi oportunismo, sim. Mas infelizmente estou precisando. E não tenho ninguém neste momento além de você. Quem mandou ser um leitor inteligente, instruído, letrado, conectado e estar aqui? Agora, agüente. A burra da vez sou eu. Em 110 e 220 volts.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h16
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Era uma vez...

De Nelson Botter.

Atenção, mulheres, leiam isso e usem como regra para suas vidas: "Eu não preciso e nem devo ser perfeita em tudo!!!". É isso mesmo, leiam de novo! "Eu não preciso e nem devo ser perfeita em tudo!!!". Mais uma vez! Como é que é? Não entendi! "Eu não preciso e nem devo ser perfeita em tudo!!!". E ponto (de exclamação).

Chega dessa coisa de mergulhar de cabeça em auto-cobranças loucas e absurdas por uma perfeição inexistente, algo inatingível e até certo ponto imbecil. Leia lá de novo, anotem nas agendas, grudem nos espelhos de casa, coloque no painel do carro, deixem dentro do estojo de maquiagem, no melhor estilo auto-ajuda possível. É isso mesmo, Botter guru lhes diz: "Mulheres, descompliquem!!!".

Eu, homem, exijo que vocês não sejam as melhores mães do mundo, que não provem ser as profissionais do ano, que não deixem a casa brilhando todos os dias, que não acumulem mil tarefas loucas, que não sejam as melhores esposas, namoradas ou amantes da face da Terra, que não enlouqueçam por causa da beleza eterna, que tenham direito a engordar, a ter celulite, estrias e barriguinha ou barrigona, que não precisem gastar milhões em cosméticos e tratamentos estéticos, enfim, exijo que vocês sejam as mulheres mais lindas do mundo simplesmente por serem vocês mesmas! E garanto que muitos homens pensam como eu, jogam nesse time, o das mulheres por elas mesmas.

Desde que a mulher entrou nessa de dupla, tripla ou quadrupla jornada, a vida feminina (que já era um pequeno inferno) se tornou algo dantesco, extremamente ilusório e estressante. O nível de exigência consigo mesma passa dos limites imagináveis e concebíveis. É preciso parar com isso, pois nunca as mulheres tiveram tantas doenças motivadas pelo alto estresse, dentre elas as tão temidas cardiopatias, ou seja, o coração feminino não sofre mais somente pelas desventuras do amor... agora a bolsa (não a de couro e sim a de valores) a faz enfartar rapidinho!

Sim, a igualdade dos sexos é necessária, o feminismo é importante, a valorização da mulher perante a sociedade é uma das maiores conquistas ocidentais do último século, as mulheres devem mesmo ter autonomia financeira, serem independentes e terem grandes objetivos profissionais, mas é preciso saber a medida certa. Como em todo processo de adaptação ao novo, as mulheres vieram com todo o gás, pois sabem que o preconceito (principalmente no mundo corporativo) ainda é grande, a coisa não é fácil, entretanto o período de adaptação já passou, hoje temos mulheres presidentas de empresas e até países. Portanto, vocês meninas chegaram lá, agora é hora de pisar no freio e acompanhar a velocidade (muitas vezes tartaruguesca) dos homens.

Podem tirar a fantasia de Mulher-Maravilha, vai lá, rodopiem e larguem essa história de serem as heroínas do dia, chega. Quero ver vocês se libertando da escravidão imposta pela sociedade consumista e dos ridículos padrões de beleza. Joguem a obsessão pela magreza no lixo, livrem-se da culpa por não lamberem suas crias 24 horas por dia, parem de competir ferozmente no mercado de trabalho, dêem uma banana aos homens folgados que não lhes ajudam nas tarefas da casa e ainda exigem disposição para um kama-sutra de 12 horas seguidas.

Mulheres, voltem a ser meigas, delicadas e sensíveis. Essa roupa masculina não lhes cai bem e só deixa o mundo mais feio e troglodita. Salvem-nos enquanto ainda há tempo, mas sem bancar a super-heroína, apenas sejam vocês, mulheres, pois já é o suficiente... e esse é o grande segredo para salvar o mundo. Fora que Mulher-Maravilha já era, né? O negócio agora é ser Meninas Super Poderosas!

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h17
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O amor e o reino animal.

De Xico Sá.

 

Os animais de estimação são mais importantes no amor do que supõe a nossa vã filosofia.

Importantíssimos.

Já terminei romances em que fiquei com tanta saudade da ex quanto do seu gato, cachorro e até dos ratos que roeram as nossas vestes do desejo.

Quando ainda morava no sertão, nos tempos pré-politicamente corretos, ficava morrendo de amor pelos tatus criados em fundo de quintais, preás de estimação, tejus, timbus, morrendo de amor pelos macacos e até pelos papagaios, dá o pé, louro!

Também já ocorreu de conquistar mulheres, ou pelo menos consolidar boas histórias amorosas, por demonstrar carinho e afeto com os bichanos. Como sair de casa altas horas da madrugada para comprar a ração do felino. E de quebra, trazer um patê especial para o danado.

Sim, o amor passa pelos bichos, eu acredito.

Uma mulher que afaga e trata bem o meu cachorro, meu corvo Edgar A. Poe, meu papagaio Florbé ou minha gata Margarida, marca pontos importantíssimos, além de fazer o necessário, que é respeitar essas e inocentes e existencialistas criaturas.

Claro que essa forma de ver o amado ou a amada nos seus animais de estimação pode gerar também pequenos desastres. Uma amiga do Rio, por exemplo, evitava as gracinhas do cão do seu ex sempre que ele aprontava. Chegava a ser indelicada, grosseira, como se visse naquele labrador as pisadas na bola do seu dono. Acontece. Afinal de contas os bichos ficam um pouco, com o tempo, com os mesmos focinhos dos seus digníssimos “proprietários”.

Além de tudo isso, pelos animais que possui se conhece mais um pouco um homem.

Sério.

O cara que cria um gato tem muito mais chance de ser um homem sensível, embora até enfrente um certo preconceito entre os seus amigos, que insinuam uma certa “veadagem”, para usar o termo do qual abusamos nos nossos encontros masculinos de futebol e boteco.

O homem que passeia orgulhosamente com o seu pitbull pode até não ser um monstro, mas aquela focinheira já diz um pouco do seu dono, não? Não que o cão tenha alguma culpa, ele está no mundo dele. O erro é de que o desloca e o usa para exercícios de violência.

 Mas voltemos aos gatos, esses metafísicos e misteriosos animais. Como eles dizem tudo sobre o amor e sobre nós. O casal briga e eles incorporam o barraco. O último que conheci a fundo, de uma ex-mulher, o qual ainda hoje vejo o vulto branco e tenho saudades, quebrava tudo, virava os objetos da casa pelo avesso, depois das nossas brigas.

Na harmonia e no amor intenso, lá estava ele, sempre aos nossos pés. Como eles adoram ver e sentir os cheiros da hora do sexo. Eta bichanos voyeuristas. Esse gato, especificamente, sempre se enroscava na cama depois das nossas melhores noites. Dava uma passava como se para cumprimentar-nos pelo afeto e pela performance. Era o seu “miau” de parabéns, como se dissesse, a nos arranhar de leve, “estão vendo como o amor pode dar certo, seus cachorros?!”

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h21
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Você está na merda quando...

De Tati Bernardi.

Tem nojo de qualquer homem que não seja ele e, principalmente, dele.
Não acredita em absolutamente nada mas procura alguma crença pra se curar desse mal.
Perdeu 458% dos seus amigos procurando um amigo de verdade e agora sente saudades de poder falar mal de alguém.
Saiu de casa para ter mais privacidade e passa o dia torcendo para que alguém ligue ou apareça.
Odeia todo mundo que anda em guetos mas está quase se suicidando por não pertencer a nada.
Odeia padrões de beleza mas passa o dia odiando a bunda que está fora dos padrões de beleza.
Dorme até tarde por falta de motivos para acordar. Dorme tarde por falta de motivos para sonhar.
Quer encontrar mais do que tudo alguém para dividir a vida. Mas não aceita dividir nada com ninguém, o que dirá a vida.
Sair a noite parece ser a última coisa do mundo que você faria, trabalhar fora de casa parece ser a última coisa do mundo que você faria. Ficar aqui dentro definhando parece ser a última coisa do mundo que eu deveria fazer.
Começa a achar o entregador da Tok Stok bonitinho.
Põe toda a sua fúria no pobre porteiro que fala “o cara dos resistro do banheiro tá no ráls”. Que culpa o analfabeto tem que ninguém te come há mais de 4 meses?
Ninguém te come há mais de 4 meses, ainda que eu tenha boas opções.
Mente dizendo “ainda que eu tenha boas opções”.
Seu melhor amigo resolveu namorar e nem companhia pro cineminha você tem agora.
O ralo do banheiro fede mais que tudo no mundo.
A geladeira dá choque.
Não tem a menor noção da onde quer chegar e, ainda assim, vive atrasada.
Tem absoluta certeza de que você é melhor do que todo mundo em alguma coisa, mas essa coisa ainda não existe.
É especialista pós graduada, doutorada, com phd e mba em não fazer um caralho, mas ninguém valoriza a verdadeira arte nesse país.
Detesta as pessoas que falam “coloca mais da Tati Bernardi nesse material”, mas são essas que pagam algum dinheiro no final do mês.
Fica sem idéia nenhuma para a coluna no Blônicas e escreve essa merda de texto.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h42
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Na minha casa não.

De Silvio Pilau.

Fazia tempo que queria reformar minha casa. Foi-me indicado um profissional que diziam fazer um bom trabalho. Não apoiei, mas toda a minha família ficou satisfeita com a contratação dele. Diziam que, mesmo sem muita experiência, era um cara honesto e coisa e tal. E, devo dizer a verdade, ele quase me convenceu com seus argumentos. Encheu-me de promessas, falando que faria isso, que resolveria tal problema, que mexeria nos alicerces. Em suma, que tudo ficaria como novo.

Mas, de uma hora pra outra, começaram a sumir coisas lá de casa. Uma caneta, alguns DVD's, um rádio. Depois as coisas desaparecidas foram ficando maiores. Quando dei por mim, tinham-me levado até o carro. Confrontei o homem a quem havia contratado. Ele acusava seus ajudantes, dizendo que não sabia de nada. Segundo ele, estava focado apenas no trabalho.

Descobriu, logo depois, que minhas suspeitas eram verdade. Seus funcionários estavam roubando de mim. Trocou de equipe. Mandou todos embora e trouxe novos ajudantes. A reforma continuava, ainda que a passos curtos e lentos. Nesse momento, eu e minha família estávamos mais do que desconfiados. Mas demos outra chance, desta vez com olhos mais abertos.

No entanto, as coisas continuaram a sumir de casa, mesmo com a nova equipe. O chefe seguia se eximindo da culpa sempre que pegava algum dos seus roubando. "Não sabia de nada, como posso responder por eles?", dizia o homem.

Um dia, acabou o prazo para entregar a casa pronta. Faltou muito para chegar ao menos perto do que havia prometido. O pior é que, ao longo do tempo de trabalho, ele foi mudando tudo o que falara no início. Se tinha dito fazer uma coisa, ia lá e fazia outra. Se assumira compromisso com a minha família em relação a tal assunto, pouco depois parecia que esquecera completamente. Simplesmente parecia outra pessoa.

Mesmo com tudo isso, o safado ainda teve a cara-de-pau de vir me pedir por mais tempo de trabalho. Sim, depois de todos os seus ajudantes terem me roubado, tanto os velhos quanto os novos, depois de ter mentido descaradamente para mim, depois de me prometer coisas que não chegou nem perto de cumprir, depois de se fazer de inocente frente a todas as acusações, ele ainda queria continuar dentro da minha casa.

Claro que eu jamais aceitaria isso. Não sou idiota. Minha família veio dizer que nas outras reformas isso havia acontecido também, coisas haviam sumido. Tudo bem, pode ter acontecido, mas nunca tão descarado quanto agora. Nunca mesmo. E, de qualquer forma, desde quando os erros dos caras do passado justificam o roubo do cara de agora? Era só o que me faltava: deixar um ladrão, mentiroso e ignorante na minha casa por mais tempo porque "outros também fizeram".

Se dependesse só de mim, contrataria outro agora mesmo. E se esse outro roubasse de mim, contrataria outro. Até um deles me respeitar. Até eu achar alguém que faça o trabalho de forma decente e ética.

O problema é que combinei com a minha família que ninguém tomaria uma decisão dessas sozinho. O que a maioria decidir, será feito. A votação ficou pra domingo, dia 29. Só espero que as 180 milhões de pessoas que moram comigo mostrem-se mais inteligentes do que parecem.

Silvio Pilau é leitor do Blônicas. Redator publicitário, contista e cronista, tem um blog: www.viagemliteraria.blogspot.com

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Escrito por Blônicas às 14h27
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O vício de ser do contra.

De Rosana Hermann.

Jornalismo sempre rimou com pessimismo. A máxima da atividade há muito tempo afirma que notícia boa não vende. Nada como um crime, um acidente com vítimas, um cataclisma natural, para atrair a atenção de mortais, cujo maior e óbvio temor é morrer. O problema do ser humano, você sabe, é ser o único animal que tem consciência de sua finitude. Se o escargot petit gris, por exemplo, soubesse que terminaria seus dias sob manteiga, alho e salsinha, talvez ele não tivesse cabeça ou antenas para andar graciosa e tranqüilamente na caixinha de areia.

Hoje, além de todas as desgraças costumeiras dos notíciários, que fazem com que uma ponte que desaba na Tazmânia mereça mais atenção do que uma doação de livros em solo pátrio, temos a Internet, o novo paredão de fuzilamento público onde qualquer um com um provedor de acesso pode pegar sua arma e disparar contra quem bem entender. Talvez as pessoas não façam isso por mal, mas pelo vício de reclamar.  O problema é que à vontade de comer, soma-se à fome que os donos de sites e blogs têm pelas queixas dos que são do contra. Sofro do mesmo mal, como blogueira e leitora, portanto, sou capaz de descrevê-lo pelo lado de fora e de dentro. 

Os blogueiros e donos de sites, assim como editores de jornais, adoram noticiar queixas e reclamações de leitores. Adoramos. Há uma culpa atávica por parte de quem publica; o dono da verdade com consciência pesada vê nas queixas uma chance de lotear a responsabilidade com o leitor. O resultado é que só damos ouvidos ao que é ruim, como sempre.

Por outro lado, os comentaristas, leitores ativos que resolvem escrever, vêem uma oportunidade de desabafar, revidar, reclamar, em espaços públicos que consideram prestigiados, já que eles mesmos o freqüentam. Em muitos casos as queixas procedem mas, junto com elas, sempre há conclusões precipitadas, julgamentos sem base lógica e ofensas totalmente gratuitas.

Acho que estamos todos muito estressados na rede. Estressados e apressados, ou seja, ansiosos. E ninguém consegue julgar ninguém com sabedoria num quadro de ansiedade.

Sei que falando assim só reforço o problema, traçando uma caricatura muito mais feia do que o original. Mas é vício de trabalho. Como eu disse, o jornalsita é antes de tudo um pessimista. Um pessimista que se julga apenas um realista. Contra esse mal, só há duas soluções bem zen: o bom humor e a não-ação. Se puder, antes de reclamar, procure a graça da coisa, um lado divertido da coisa. E, se não tiver certeza, tente não agir. A precipitação só tem dois resultados: ou a gente julga errado, o chove, no molhado.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 19h24
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Um artigo faz toda a diferença.

De Henrique Szklo.

Dedicado a Nelson Botter.

Henrique escreve no Blônicas de vez em quando. Conheça seu site,  o blog da mãe e o seu novo livro O Grande Milk-shake e os Canudinhos Mentais.

Escrito por Blônicas.. às 19h27
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Ele sabe...

De Nelson Botter.

 

Ele sabe que vai perder. Pode-se ver em seus olhos, em sua expressão mascarada, em sua fala trêmula em alguns momentos. Ele sabe que mais coisa vem por aí, que mais informações sobre a quadrilha de bandidos que ele comanda surgirá, que o dinheiro é sujo e que ninguém conseguirá lavar suas mãos. Ele sabe que não escapará, que sua popularidade vai por terra abaixo, que sua esperança de permanecer no trono agora é pura ilusão. Ele sabe que terá de descer do pedestal, que terá de reencontrar a humildade que há tanto tempo não o acompanha mais, que terá de passar a faixa para o inimigo, que terá de ser uma figura demoníaca na oposição, que terá um longo caminho a percorrer para recuperar o enorme prestígio que perdeu.

 

Mas ele sabe também que o brasileiro tem memória curta... ou talvez seja pura ignorância mesmo. Ele sabe que o povo colocou o ex-presidente das Alagoas, o "rouba mas faz", os mensaleiros e tantos outros políticos lamentáveis de volta à ciranda do poder nessas eleições. Ele sabe que o brasileiro ainda está aprendendo a votar, que é tudo muito novo, que o povo ainda está se familiarizando com essa tal democracia, que a consciência política não se forma do dia para a noite, e que muitas besteiras por parte dos eleitores ainda virão.

 

Entretanto, ele sabe também que alguns da velha guarda morreram na praia. Severino, Delfim, sanguessugas, Quércia, etc. Não se pode negar que houve uma certa reciclagem na política nacional, não o esperado, não o necessário, mas ele sabe que as coisas tendem a melhorar, que o brasileiro aos poucos vai pegar o jeito. É uma questão de tempo, uma questão de treino. Mais uma coisa para ele se preocupar daqui pra frente...

 

Ele sabe que a estratégia do voto nulo por protesto, que o ajudaria em muito, acabou não pegando, que o povo refletiu e percebeu que o melhor seria um segundo turno. Ele sabe que agora vai ter que partir para o debate, para o confronto direto com o adversário, e toda vez que pensa nisso sente seu corpo todo tremer, pois ele sabe que muita coisa que lhe será perguntada não tem explicação, não tem resposta. A máscara finalmente vai cair.

 

Ele sabe... e todo o povo brasileiro vai saber que ele sabia de tudo... o tempo todo.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h17
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Pela volta da carta de amor.

De Xico Sá.

 

A carta escrita à mão, com local de origem, data, saudações, motivos, despeço-me por aqui, papel fininho e pautado, pelos Correios, portadores ou menino de recados. 

Como canta o rei Roberto, escreva uma carta de amor, e diga alguma coisa por favor.

Em vez de dar de presente mais um celular ou outra obviedade comercial da praça, neste dia dos pombinhos, surpreenda o mancebo ou a gazela com uma declaração derramada, selada, seguida de flores.

Pela volta da carta de amor.

Chega de emails lacônicos e apressados. Debruce a munheca sobre o papiro e faça da tinta da caneta o seu próprio sangue.

Não temas a breguice, o romantismo, como já disse o velho Pessoa, travestido de Álvaro de Campos, todas cartas de amor são ridículas, e não seriam de amor se ridículas não fossem.

A carta, mesmo com todas as modernidades e invencionices, ainda é o melhor veículo para declarar-se, comunicar afinidades e iniciar um feitio de orações.

O que você está esperando, vá ali na esquina, compre um belo papel e envelopes, e se devote.

Se tiver alguma rusga, peça perdão por escrito, pois perdão por escrito vale como documento de cartório.

Se o namoro ainda não tiver começado, largue a mão dessas cantadas baratas e internéticas e atire a garrafa aos mares. Uma boa carta de amor é irresistível. Mas não vale copiar aqueles modelos que vêm nos livros. Sele o envelope com a língua, como nas antigas, lamba os selos, esse pré-beijo dos lábios da futura amada.

De novo Pessoa, para encorajá-los mais ainda: “As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas”.

Às moças é consentido, além dos floreios e da caligrafia mais arrumadinha, a reprodução de um beijo, com batom bem vermelho, ao final, perto da assinatura.

Uma carta, até mesmo de amizade, deixa a gente  comovido, como a que recebi outro dia de Fábio Victor, escriba e amigo do Recife que habita a velha e fria Londres.

Que os amigos,e não apenas os amantes, se correspondam, fazendo dos envelopes no fundo do baú as suas histórias de vida.

Pela volta da carta, que já é por si só uma maneira devota, um tempo que se tira, sem pressa, para dedicar-se a quem se gosta. Pela volta da carta, pois o que se diz numa carta é de outra natureza, é o bem-querer em tom solene.

O que você está esperando, meu amigo, minha amiga, largue esse cronista de lado e debruce-se sobre a escrivaninha. Uma mesa de bar ou de um café também são bons lugares para assentar as suas mal-traçadas linhas.

Lembrei-me agora de um começo clássico de missivas: “Venho por meio desta dar-te as minhas notícias e ao mesmo tempo saber das tuas...”

Um namoro, romance ou cacho somente à base de emails não se sustenta, mais parece uma troca de ofícios, “venho por meio desta”, uma troca de protocolos, mensagens comerciais.

Um amor sem uma troca de cartas, nem que seja bem rápida, ainda não é amor.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h08
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