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Lembretes!

1. Hoje (quinta) vai rolar o show de comédia stand-up do blônico Henrique Szklo, O Coçaholic. Será no Bar Beverly Hills, na Av. Juruce, 1001, em Moema, Săo Paulo. Vai começar às 21h30 e o couvert artístico é de R$ 15,00.

2. Sábado (02/12) tem o coquetel de lançamento do livro "Visões de São Paulo", organizado por Richard Diegues e editado pela Tarja Editorial. Será na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37 - São Paulo), a partir das 19 horas. Participam do livro os blônicos Tati Bernardi, Paulo Castro e Nelson Botter. Entrada livre.

3. O Concurso Livre de Crônicas Natalinas da Editora Jaboticaba e do Blônicas continua. Mande seus textos até 16 de dezembro para atendimento@editorajaboticaba.com.br . As 10 melhores crônicas natalinas ganharão um livro do Blônicas e as 3 primeiras colocadas serão publicadas aqui no blog. O tamanho máximo para as crônicas é de 3.000 caracteres com espaço.

Escrito por Blônicas às 12h00
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Natal dos pobres.

De Marcelino Freire.

Ele sentou-se ao meu lado. Depois de ter atravessado todo o salão. Extenso. Veio e pum. Na cadeira vazia, a única, à primeira fila. E o mendigo fedia. Ave nossa! Mistura de cachaça, cerveja e bosta!

Ele devia pensar: "gente fedida". Assim: "diferentemente de mim". Ali, para receber um prêmio. Dizia ele, olhando a mesa posta. Palestra à vista: "eu vim aqui para receber um prêmio".

Isso, no Primeiro Encontro Natalense de Escritores, no Rio Grande do Norte. Acontecido na semana passada. Estive lá. Mas agora, naquela situação, como sair de supetão? Precisei dar um tempo. Diplomático.

Quando batia o vento, o cheiro vinha violento. Meu Cristo! No palco, falavam Nelson Motta e Antonio Cícero. Distintas senhoras potiguares mudaram de ares. Numa revoada. Como moscas, em disparada.

O mendigo, quem diria, interessado em literatura. "Um prêmio", repetia. Veio para receber um prêmio. Veio cobrar de mim uma honraria, vai ver. O meu Prêmio Jabuti, que há pouco recebi. O que fazer? Juro que agüentei o quanto pude. E vupt. Fugi bêbado, em direção ao camarim.

Na volta, me perguntei. Ué! Cadê o corpo amarelado? Os dentes carcomidos? Virilhas sujas e orifícios? O homem de buracos no pé? Conseguiram arrastá-lo de lá. Civilizadamente. Na promessa de pagar ao indigente dez reais.

"Vamos lá fora que o dinheiro é seu". Para evitar escândalos. Para o cara não sair vociferando: "bando de intelectuais". Ou: "morte aos imortais".

No mais, oh!, não seriam aqueles odores que estragariam o sucesso do Encontro. Eta danado! Pois é. Evento superbem organizado. Bastante gente. Esgotei meus livros. Fiz novos leitores e novos amigos. Mas deixemos de fora relato deste tipo: umbigoso. Não é hora.

Reexplico: pagaram, de fato, os dez reais para o mendigo e ele zarpou dali. Sem barulho. O problema seria no outro dia. Ficamos nós confabulando: eu, Ignácio de Loyola, o Zuenir Ventura. Com os nossos piolhos, imaginando. Ficcionando.

O tanto de moradores de rua que chegariam, dali por diante. Aos montes. Numa procissão de farrapos. Sebosos e enfileirados. "Dez reais", vamos lá. Esmola sem nenhum esforço. O quê? Quem disse? Protestaria um deles: "nossa vida nunca foi tão dura". Ou: "não pense que é fácil ouvir aquele povo falando de literatura".

Mendigos unidos jamais serão vencidos. Vamos invadir a Festa Literária Internacional de Parati, a FLIP. Lá o pagamento é em dólar. Baixemos na Academia, ora. Até na Feira de Frankfurt. Estaremos em todos os eventos. Pobres, mas cultos. Tomaremos conta de tudo.

Todos eles, a um só cheiro e a uma só voz. Para lembrar a todos nós, escritores, o quanto o olimpo é sujo.

Fui.

Marcelino Freire é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h42
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Quem é você pra falar?

De Rosana Hermann.

O tomate é um fruto vermelho. Antes de ficar vermelho, ele passa pelo verde mas é só um estado transitório. Porque o tomate é vermelho, tenho certeza disso. Tenho certeza que você também concorda. O vermelho do tomate, aliás, não depende da estatura, peso, idade, formação cultural, estado civil ou qualquer outra característica de nenhum ser humano. Uma pessoa não precisa ser mais ou menos vermelha e nem mesmo ser um tomate para observar e comentar esta característica.

Da mesma forma você pode dizer que uma nuvem é branca mesmo não sendo nuvem e, digamos, sendo oriental ou índio, por exemplo. O ser humano percebe coisas com seus sentidos sem necessariamente colocar a si mesmo como parâmetro de comparação. É lícito que você diga que "o papa anterior era mais simpático" sem que você seja sequer religioso. Ou simpático.

Eu, pelo menos, sempre acreditei que fosse assim. Mas devo ter perdido alguma aula fundamental na escola da vida porque, aparentemente, uma massa significativa de pessoas não pensa mais assim. Ao contrário. Deve haver uma nova lógica que diz que só uma pessoa bonita pode tecer comentários sobre a feiúra de alguém pois basta você dizer uma simples frase como 'Pedro de Lara é feio' para ouvir imediatamente um coro a gritar:

-"E quem é você pra falar?"

A mesma regra se aplica a qualquer outra situação. Se você trabalha na TV Bandeirantes e diz que o programa "Rei Majestade" do SBT é brega, ouvirá certamente um comentário-pergunta assim: "E quem é você pra falar do SBT? Você trabalha na Bandeirantes que está muito atrás do SBT!".

Além de ter perdido esta aula de lógica também devo ter perdido a cópia do contrato porque, francamente, eu não me lembro de ter assinado nenhum documento abrindo mão do meu direito de opinar em qualquer caso onde, comparativamente, eu, minha família ou minha história estivesse em posições inferiores aos objetos analisados, na hierarquia cósmica das coisas. Que eu saiba o fato de ser uma mulher de baixa estatura não me desqualifica a notar que Nelson Ned é anão; mas basta escrever no blog que ele é baixinho para ler o inevitável comentário "e quem é você pra falar?" Pelo que pude compreender só as pessoas acima de um metro e oitenta de estatura é que possuem permissão para perceber tal fato.

Confesso que ando meio desanimada com essa nova lei. É muito limitante, por exemplo, ver a deliciosa edição que está no YouTube ("CONFUSÃO na Sessão da Tarde), mostrando o locutor de chamadas as Sessão da Tarde usando trinta e sete vezes o mesmo termo 'confusão' e não poder comentar a falta de criatividade apenas pelo fato de trabalhar para o Pânico na TV, que é veiculado na RedeTV!, emissora em posição sabidamente inferior à Rede Globo no ranking das emissoras. Também é bem desestimulante perder o direito de mencionar as gorduchas de Bottero por estar eu própria acima do meu peso. Embora eu esteja tentando emagrecer não posso pactuar com este novo decreto que afirma que  o direito de descrever uma pessoa obesa como obesa pertence apenas às pessoas com índice de massa corporal abaixo de 18, sob pena de receber um "quem é você pra falar..." na cara assim que eu terminar de escrever que o Jô Soares é gordo.

Quem sou eu para falar? Tanto faz. Eu, você, qualquer pessoa pode dizer o que quiser, pode falar, pode opinar, pode se expressar. Eu, você, qualquer pessoa pode olhar o mundo que está a nossa volta e descrevê-lo sem necessariamente usar a si mesmo como régua. Aliás, aí deve estar o problema, as pessoas não querem ser neutras, isentas, elas querem ser padrão de comparação. Tudo o que vêem são apenas extensões de si mesmas. Tudo precisa necessariamente ser comparado a ela; ela, o metro fundamental, a unidade de existência na Terra.

Não sei não, mas toda vez que tomo contato com essas pessoas que só têm coragem de criticar quando sentem-se superiores e que não permitem que ninguém diga o que sinceramente pensa independente de ser quem e como ela é, lembro de que gosto muito, mas muito mais dos tomates.

Tão vermelhinhos.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h37
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Vestidas para matar.

De Xico Sá.

Alvíssaras, meus camaradas, os vestidos voltaram com tudo. Não que tivessem sumido da história, das ruas, das festas, das firmas... Mas andavam em baixa, suplantados pela praticidade das Evas futuras e suas calças, suas saias austeras e seus tailleurs, essas peças apolíneas que batem a carteira de Vênus, roubam a alma de Eros...

Tudo fica estranho quando as passarelas começam a entender um pouco os homens héteros. Mas não deixa de ser um ótimo sinal dos tempos.

Talvez a moda esteja pagando por todos os pecados anteriores. Redime-se lindamente do quanto enfeiou as belas mulheres.  

Homem que é homem, seja de Paris, Nova York ou do sertão dos Cariris, como o meu avô João Patriolino, vai à Maison ou à feira do seu município, e traz uma bela peça ou um corte de tecido de presente para a amada. Até mesmo o Fabiano, que mal tinha um centavo no bolso, personagem de Graciliano, voltava da cidade com um corte estampado para a sua mulherzinha magra, uma fêmea só o couro e osso e a sombra.

Vestido deixa mais faceiras as gazelas, dá mais graça às botterinhas, ressalta a beleza das afilhadas de Balzac...

Se for uma peça que deixa à mostra as saboneteiras, as marcas das quedas da infância nos joelhos...  meu Deus!

Ora, você nem carece ser a mais bela por completo, isso é utopia e ditadura publicitária, você carece ter uma linda parte pelo todo, como aquela metonímia que aprendemos no colégio.

Uma linda omoplata, um pescoço, ombrinhos, pés, calcanhares mais lindos, batatas de pernas invejáveis, belos braços...

Aí ficará ainda mais linda de vestido, ao contrário das calças e outras tantas armaduras que escondem o que nos enlouquece, o melhor dos nossos mundos.

Esconder, achando que pode ser vantajoso depois, é besteira. O charme é mostrar-se, ter a coragem, mesmo com o que você supõe ser uns quilinhos a mais. Na balança das nossas retinas e trenas, isso pode ter importância de menos, quase nada, alguns gramas de preconceitos na cabeça de homens que nem valem a pena.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h44
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Bem me quer, mal me quer.

De Tati Bernardi.

Odeio o gordo do meu prédio que inunda a esteira de suor. Odeio o carro sombrio dele, que sempre tira uma lasquinha da porta do meu carro. Odeio que ele desfile pelas idas e vindas do elevador como se fosse um coroa fashion que malha e joga tênis. Ele é só um ser que sua muito, muito mais do que deveria ser permitido a alguém que deseja coexistir com os homens, meus irmãos na Terra. Queria que ele se afogasse em sua própria poça de suor. Ou que caísse fatalmente sentado em uma de suas raquetes suadas.

Eu amo o homem mais interessante do mundo. Combinando de me encontrar aqui por perto mesmo, em meio a montanhas-russas, robôs com fome e peixes crus que desfilam. Amo que ele me lembre o triângulo de chocolate do Dom, amo que ele tenha comprado um carro sem freio, amo que ele tenha dito que minha obsessão por entradas e sobremesas nada mais é que a velha e boa dificuldade de viver no meio, no equilíbrio, no durante. Amo o jeito tímido que ele me olha e amo, mais que tudo, o abraço quase depravado que ele me dá.

Odeio esse babaca que senta perto de mim. Odeio a insistência dele por camisas laranja do material chique que não esquenta, não molha, não amassa. Ele se acha muito "Nike 10 K" com essa porra de camiseta "mamãe não me perca na neblina". Odeio que ele sempre conte suas idéias dando pulos, falando muito caipira, falando alto, falando como se soubesse falar. Odeio, sobretudo, que ele faça isso sempre me olhando de rabo de olho, com aquela esperançazinha de me comer um dia. Prefiro dar pro Tiririca. Eu tinha muito medo daquele filho do Tiririca, lembram? Mas medo mesmo eu tinha daquela versão criança da Ana Paula Arósio que fazia um 21. Medo, muito medo. Odeio medo.

Eu amo minha super melhor amiga e seus cabelos sensacionais. Amo que ela seja a mulher mais elegante do mundo, mesmo parecendo que pode cair a qualquer momento. Amo que ela compartilhe comigo da mesma dor maior do mundo, ainda que essa dor seja só orgulho. Amo que ela não saiba muito dar carinho, mas me dê motivos pra me achar menos sozinha nesse mundo de gente besta.

Eu odeio o moço do apito. O cara que "cuida" da tranqüilidade da minha rua apitando a noite inteira. Odeio o guarda que fica na esquina da minha rua, cuidando para que as crianças atravessem com segurança. Odeio a maneira animalesca e suja que ele olha para as mulheres, para as crianças, para os carros, para o Sol. Se achando incrível e soberano só porque um cursinho de merda e um salariozinho de merda colocaram uma arma de merda na cintura de merda dele. Odeio a arrogância burra e disfarçada de farda que toma conta de nossas ruas. Vou autuá-la, senhora. Pode encostar, por favor? Eu vou ignorá-lo, seu bosta. Pode ir se fuder, por favor?

Eu amo a maneira como ela deita a cabeça no outro travesseiro, se achando muito gente. De fato, ela é mais gente que muita gente. A patinha, ela põe no meu ombro. Acordo no meio da noite e ela solta um gemidinho, como se dissesse "não vira pro lado, que você me esmaga". No dia seguinte ela chora às seis da manhã, querendo biscoitinho, querendo papinha, querendo a bolinha, querendo encher meu saco. Mas meu saco nunca enche, afinal, só quem acredita ser o centro do universo pode ser tratado como tal.

Odeio a minha insistência em recuperar um grão que seja do seu encantamento. Você morreu, apodreceu, envelheceu as piadas, venceu as desculpas, expirou a graça, caducou a magia. Ainda assim, por uma mania triste, doente, viciada e solitária, abro semanalmente as portas da minha casa para as velhas posições, os mesmos gemidos, a já conhecida e esperada indiferença. Depois fico dias incomodada com o seu cheiro de nada.

Eu amo meu menino chegando, como se fosse bom ficar perto de mim. Ele quase não percebe que está caindo num buraco sem fundo. Meus dentes crescem assim que o espio do outro lado da porta, pronto para me abastecer de pureza e boas intenções. Eu nunca deixo, eu nunca quero, eu nunca divido, eu nunca acho que nada está bom. Ele apenas me deixa ser como eu sou, aceita meu mate leão de limão, aceita minha manta, aceita meu sofá, aceita a minha porta na cara. E dorme como um anjo.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas e participa da antologia "Visões de São Paulo" (50 autores, dentre eles também Paulo Castro e Nelson Botter), que será lançada dia 02/12, às 19 horas, na Casa das Rosas, em SP.

Escrito por Blônicas às 09h25
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Ah, se a gente falasse o que pensa...

De Henrique Szklo

- Papai, o que achou do meu desenho?
- Nunca vi um desenho mais estapafúrdio, medonho e  deprimente em toda a minha vida. Nem um macaco paralítico desenharia tão mal... Eu, hein? Você é debilóide ou o quê? Dá até pena de ver uma criança de 7 anos com a capacidade motora de uma ameba com síndrome de down... Que vergonha você ser sangue do  meu sangue... aliás, será mesmo que você é meu filho?

- Então senhores, o que acharam de meu projeto de desenvolvimento para a nossa empresa?
- Olha chefe, o senhor pensou sozinho ou alguém ajudou? O senhor pode ser o dono desta merda, mas é a maior besta que eu conheço... O senhor é muito burro! Uma toupeira! Uma porta emperrada! Seu pai, que Deus o tenha, deve estar se remoendo no túmulo por ter posto no mundo um idiota como o senhor... e que com certeza vai acabar quebrando a empresa que ele construiu com tanto sacrifício... Então, cala a boca e deixa a gente trabalhar... Vai jogar golfe, vai! Vai comer a Luana Piovani e só volta aqui no fim do mês pra pegar seu dinheirinho, tá, filhote?

- Então, meu querido, quer mais?
- Você tá louca, mãe? Já fiz um sacrifício dos diabos pra engolir essa gororoba nojenta que você fez e ainda acha que eu quero mais? O que é que você usou de tempero nesse lixo? Merda em pó?

- And the Oscar goes to...
- Ai, nem acredito, muito obrigada... estou tão emocionada...em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer aos meus pais por me obrigarem a trabalhar deste pequena, destruindo qualquer possibilidade de uma infância saudável... à imprensa, que só fala bem de mim quando recebe propina da produtora... aos fãs, que me atormentam a ponto de me deixar quase louca, pois não posso nem botar o pé na rua que já aparece aquele bando de caipiras idiotas pedindo autógrafo, querendo tocar em mim (arrepio), pra tirar foto com seus filhos retardados, pra me beijarem com aquelas bocas infectadas de mediocridade... e é lógico que eu não posso esquecer do diretor, do produtor, do fotógrafo, do editor, do diretor de efeitos especiais, do roteirista, do maquiador, do diretor de arte, do assistente do diretor, enfim, destes e de muitos outros que foram pra cama comigo pra que eu pudesse ter uma carreira tão maravilhosa... muito obrigada a todos!

- E aí, Robernilson, qual foi a orientação do técnico pra partida de hoje?
- Daquele imbecil? Que não entende nada de futebol? Que trata a gente como um bando de marginais? Sei lá, a gente nem presta atenção no que o bundão fala... O cara olha para o campo e não sabe reconhecer quem é a bola... Na verdade parece que ele engoliu uma, né? Já viu a pança do desgraçado? E ainda se acha o estrategista, coitado... Se ele soubesse que quem organiza o jogo de verdade sou eu, o Profenildo e o Silvioberto, o cara já teria picado a mula faz tempo... mas pode deixar que no jogo de hoje a nossa tática de derrubar ele vai vencer... E de goleada...

- Gostou do presente, meu amorzinho?
- Ô, vó, você tá gagá mesmo, né? Totalmente senil... Alzheimer perde... Só pode ser... você acha mesmo que eu vou usar esse agasalho horroroso que você pegou naquela loja de merda que você e o vovô mantém aberta até hoje Deus sabe como? Além de estar na última moda do século XIX, tá cheirando a naftalina, vó... Quer dizer, foi lá no estoque de encalhados, tirou o pó, embrulhou neste papel de pão e trouxe pra mim, né? Vá te catar, sua velha nojenta... Você e aquele morto-vivo do seu marido... Só porque são pais da minha mãe acham que podem tudo... que o netinho idiota aqui vai engolir qualquer merda que vocês me derem... E falando em merda, sai de perto que você tá fedendo. Esqueceu de trocar a fralda geriátrica, é?

- Foi bom pra você, meu amor?
- Tá brincando, né? Quase vomitei! Além de ter a mão mais grudenta e ensebada que eu já tive o azar de encostar, você ainda tem um pinto minúsculo, feio e torto! Se pelo menos ele ficasse durinho, ainda vai... Mas meia bomba não dá pra agüentar, né? E sua língua então, argh! Parece uma lesma escamosa com convulsão... Só de pensar fico toda arrepiada... Orgasmo com você, nem fingido! Já ouviu falar de broxada de clitóris? Pois é...

Henrique escreve no Blônicas e vai fazer seu primeiro show de stand-up comedy no dia 30 de novembro, às 21h30, no bar Beverly Hills, av. Jurucê, 1001, Moema, São Paulo. Veja  o convite e faça já sua reserva.

Escrito por Blônicas.. às 14h20
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Já mandou a sua?
Escrito por Blônicas às 13h47
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A água do mundo.

De Leo Jaime.

Vou correndo, como se isso me fizesse escapar dos pingos da chuva que se inicia. Menos tempo na chuva, pode ser ilusório, mas tenho a impressão de que ficarei menos molhado, de que chegarei menos ensopado.

Com o canto do olho observo o senhor que com a mangueira termina de limpar a calçada, mesmo sabendo que a chuva há de modificar todo o cenário nos próximos instantes. Ou vai trazer de volta toda a sujeira que ele está tirando ou vai lavar outra vez o que ele acabou de lavar.

A água que cai do céu cai purinha, purinha, é o que penso enquanto corro dela. A água que cai do céu. Lembro-me do livro da Camille Paglia em que ela afirmava, ou pelo menos foi o que me recordo de ter dali subtraído, que o homem havia optado por viver em grupo por temor aos fenômenos naturais: chuvas, clima, terremotos etc. Foi preciso se unir contra as forças da natureza. As forças amorais na natureza. Quando passa um furacão levando tudo, bons ou os maus, estão todos ameaçados. Quando chove muito e tudo começa a inundar, anjos e demônios poderão estar, em breve, igualmente submersos. Quando a água falta, senhores e escravos morrem da mesma sede. Há forças mais poderosas que a maldade humana.

Os destinos turísticos são, em sua maioria, lugares interessantes por causa da água. Praias, lagos, rios, cachoeiras: somos naturalmente atraídos pela água. A simples vista para o mar ou rio já torna um ambiente mais interessante. Parece óbvio o que digo mas se levarmos em conta que grande parte do planeta é tomado por água isso passa a ser, sim, digno de nota: vivemos em meio a tanta água e ainda somos tão fascinados por ela! Nosso organismo é também, em sua maior porção, água. Somos água, viemos da água, para a água voltaremos e, enquanto tivermos como aproveitar a vida, queremos fazê-lo perto de alguma fonte de água límpida, na beira de um rio ou mar.  Navegando, que seja. Queremos água.

Vivemos, porém,  sob o alerta de que a água pode acabar. É preciso economizar. Parece absurdo pois a água é absolutamente indestrutível! Se você toca fogo ela vira fumaça e depois volta  a ser água, se congela ela derrete e volta a ser água, seja lá o que se faça com ela, a água volta a ser água depois de um tempo, pura e cristalina. E na mesma quantidade! Pois é. Mas pode voltar salgada. Sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar? O prejuízo maior que a água pode sofrer é a poluição. Uma vez poluída a água pode demorar muitos anos para voltar ao seu estado natural, potável, como os pingos da chuva lá do início.

Volto ao início e ao senhor que tentava varrer uma folha de árvore, pequenina, da porta de seu prédio, segundos antes da chuva começar. Quantos litros de água pura ele desperdiçava naquela tarefa imbecil? Não seria mais fácil varrer a folhinha ou pegá-la com a mão? Aquela água correria para o bueiro e se juntaria ao esgoto cheio de substâncias químicas e de lá iria parar sabe-se lá onde, mas, poluída,  demoraria um tempo enorme para voltar para o reservatório d'água da cidade. Este tempo é que pode ser o suficiente para uma cidade entrar em caos por não ter o que beber. A água não vai "acabar" nunca, mas talvez, um dia,  não possamos usufruir dela onde e como gostaríamos. Talvez as grandes desgraças naturais não nos metam tanto medo porque o que nos vai derrotar mesmo sejam as folhinhas nas calçadas. Aguadas de estupidez.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h43
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Das duas, uma.

De Rosana Hermann.

 

Existem duas maneiras básicas de criar alguma coisa: ou você usa os elementos que você já tem e cria alguma coisa a partir deles, ou você cria uma idéia e sai à procura de elementos para viabilizá-la. É assim com uma receita de bolo, com um trabalho de escola ou com uma vídeo-crônica.

 

Já usei ambos os métodos. Quando estou com pressa, pego imagens que tenho em arquivo e invento uma história para ligar os pontos. Quando tenho mais tempo, penso num texto e depois, saio em busca de ilustrações. Depois que tudo está à mão, tem ainda o processo de edição, que é sempre longo e demorado, praticamente uma batalha contra o Windows. Mas a sensação final é sempre a de que alguma coisa ficou faltando, porque é uma plataforma nova, uma outra linguagem.

 

O texto tem sido meu trabalho há muitos, muitos anos, e sou totalmente analfabeta em imagens. Em termos de desenho, parei naquela casinha ao lado da árvore. Com a chegada da rede, aprendi a lidar um pouco melhor com vídeos, mas sou praticamente uma pré-escolar nesta área. As vídeo-crônicas semanais têm sido um exercício doloroso de tentativas e erros, de perda de leitores, de uma ou outra queixa. Aceito tudo de bom grado, porque sei que estou no primeiro estágio de aprendizado. Mas apesar do toque de vergonha por usar o método da tentativa e erro em público, continuo insistindo.

 

Aprender, renovar, descobrir, é sempre um caminho estimulante, que revigora a nossa alma. Como diz aquele adesivo de carro: "Lutar sempre, vencer às vezes, desistir jamais".

Rosana Hermann é vídeo-cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h53
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O dia da consciência limpa.

De Nelson Botter.

 

Para mim pouco importa a cor da consciência, seja preta, branca ou colorida, o desenho é sempre bonito. Agora, enquanto se discute aqui e ali o feriado (ou não) da consciência e coisa e tal, eu quero saber é como fica o sarará, aquele que rala o mês inteiro e não tem dinheiro pra gastar...? E o colarinho branco e cada vez mais engomado...? E o índio que diz "I love you, merci" para gringo bater foto e lhe roubar o pouco da alma que resta?

 

Quero ver é o congresso instituir no Brasil o dia da Consciência Limpa. Isso eu duvido! Quem vai ter peito? Num país em que a ética é jogada pra baixo do tapete, em que o poder só serve para oprimir e luxuriar, em que o povo é deixado no banho-maria da ignorância por pura conveniência, em que políticos notoriamente corruptos são reeleitos por milhões de cúmplices para seus gabinetes acarpetados, climatizados e cheios de cabides, quero ver o dia da Consciência Limpa. Como diz a canção: "Não fica um, meu irmão".

 

É a vitória do jeitinho, do cada um por si, do "se vira, malandro", da esperteza premiada, enfim, da Lei de Gerson, ranço português 'burrocrático' e mesquinho. E o chefe vem dizer que são 300 picaretas com anel de doutor, entretanto ele se tornou o maior dos picaretas, e sem anel, pois é vagabundo assumido. Quero ver ele assinar o decreto, o dia da Consciência Limpa. Quero ver ele assinar e colocar a cabeça no travesseiro, fechar os olhos e contar carneirinho a noite inteira.

 

O povo, coitado, paga o pato. É uma seqüência de fatores que o condenam a isso, sem grandes perspectivas de mudança, pois (pra piorar) o brasileiro tem o gene da zona de conforto bem desenvolvido. Indignação é palavra que não existe em nosso dicionário, portanto assim será e ponto final. Contentamo-nos com o pouco como se fosse suficiente, e a cabeça vai ficando cada vez mais pesada na hora de dormir. É o triste fim de Policarpo Quaresma, crianças,  e nem podemos condenar o brasileiro, pois se trata de uma loucura coletiva, a Inconsciência Pesada, um problema que vem da infância do país, colônia castrada... e isso, meus amigos, nem Freud explica.

 

Haja papel higiênico para deixar o Brasil de Consciência Limpa. E agora chega, vou dormir, ou pelo menos tentar...

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas às 09h32
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Consciências diárias.

De Alexandre Heredia.

Primeiro, vamos deixar bem claro que não sou contra a instituição do Dia da Consciência Negra. Não sou mesmo! Sou tão a favor da idéia que aproveito o precedente para auxiliar os recém-eleitos deputados com novas idéias no mesmo espírito. Então vamos lá, aproveitem! As próximas eu vou cobrar ao menos uma menção honrosa. E não me venham com precatórios!

Não, não vou cair na armadilha óbvia de sugerir o Dia da Consciência Branca, pois temo ser tachado injustamente de neonazista. Mas por que não Dia da Consciência Caucasiana? Sim, assim seria mais politicamente correto.

Os índios já têm o seu dia, mas proponho que ele seja renomeado para Dia da Consciência Indígena, e que também se torne feriado. Por que não? E também o Dia da Consciência Asiática, apesar deste nome poder gerar problemas, pois há realmente muitas diferenças étnicas entre, por exemplo, coreanos e chechenos. Mas você pegou o espírito.

Poderíamos expandir o horizonte, já pensando em futuros contatos. Que tal um Dia da Consciência Alienígena? Claro, isso poderia gerar conflitos caso sejamos visitados por seres de raças diferentes, mas este é um problema facilmente contornável. Temos 365 dias em um ano, e a maioria deles ainda está disponível para se tornar um feriado consciente.

E por que ficar só nas divisões étnicas? Vamos pensar grande, exercitar o visionário dentro da cada um! Podemos utilizar a ótima idéia para englobar também credos e religiões. Renomeemos o Natal para Dia da Consciência Católica. O Chanuka para Dia da Consciência Judaica. O primeiro dia do Ramadã seria o Dia da Consciência Islâmica. O Dia da Consciência Budista. O Dia da Consciência Hindu. O Dia da Consciência Candomblé. Até, quem sabe, o Dia da Consciência Vodu! Olha aí!

Não vamos parar agora. Vamos expandir nossas mentes. Já temos o Dia Internacional da Mulher, mas ele pode muito bem ser renomeado para Dia da Consciência Feminina. E também poderíamos resolver uma reclamação reincidente, instituindo finalmente o Dia da Consciência Masculina. Afinal, de acordo com os últimos censos, já somos minoria. Que tal? Claro, não podemos deixar de lado também o terceiro sexo. O Dia da Consciência Gay? Não, muito kitsch. Demodê. Dia da Consciência Homossexual? Não, não, muito anos 90. Sejamos politicamente corretos! Que tal o Dia da Consciência Sexualmente Diversificada? Taí. Gostei. Feriado com direito a parada na Paulista. Morra de inveja, Dia da Independência!

Podemos também usar o precedente para nos divertir. Claro! Que tal um feriado em que seria compulsório encher a cara? Gostou, né? O nome? Bom, esse é fácil: Dia da Inconsciência Ébria. Sugiro que seja, por exemplo, durante o carnaval. Assim poderíamos instituir a quarta-feira de cinzas como o Dia da Consciência Encefálica. Patrocinado por Engov e Ray-Ban.

Não deixemos de lado nossa pátria. Poderíamos chamar o dia das eleições de Dia da Consciência Eleitoral. O Dia da Consciência Patriótica só seria de quatro em quatro anos, durante as Copas do Mundo, e só se a seleção chegar na final. O Dia da Árvore seria o Dia da Consciência Ecológica. Dia da Consciência Materna. Dia da Consciência Paterna. Dia da Consciência Infantil. E por aí vai. Sugestões são incentivadas, só não as mande para mim.

Mas o mais importante seria se um dia parássemos realmente para pensar e analisássemos que, na verdade, uma maioria poderia muito bem ser formada pela soma das minorias, e não na separação. Que não adianta martelar na cabeça de ninguém uma consciência falsa e demagógica, dando uma esmola hipócrita e sem sentido, que no final das contas acaba se tornando apenas uma piada sem graça e uma desculpa esfarrapada para cabular o trabalho. Talvez então neste dia poderemos instituir o Dia da Consciência Humana.

Todos os dias.

Alexandre Heredia é escritor e mantém o blog: http://gardenalcomfantauva.blogspot.com

Escrito por Blônicas às 12h44
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Triz.

De Tati Bernardi.

Eu quase consegui abraçar alguém semana passada. Por um milésimo de segundo eu fechei os olhos e senti meu peito esvaziado de você. Foi realmente quase. Acho que estou andando pra frente.
Ontem ri tanto no jantar, tanto que quase fui feliz de novo. Ouvi uma história muito engraçada sobre uma diretora de criação maluca que fez os funcionários irem trabalhar de pijama. Mas aí lembrei, no meio da minha gargalhada, como eu queria contar essa história para você. E fiquei triste de novo.
Hoje uma pessoa disse que está apaixonada por mim. Quem diria? Alguém gosta de mim. E o mais louco de tudo nem é isso. O mais louco de tudo é que eu também acho que gosto dele. Quase consigo me animar com essa história, mas me animar ou gostar de alguém me lembra você. E fico triste novamente.
Eu achei que quando passasse o tempo, eu achei que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, eu achei que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.
Chorar deixou de ser uma necessidade e virou apenas uma iminência. Sofrer deixou de ser algo maior do que eu e passou a ser um pontinho ali, no mesmo lugar, incomodando a cada segundo, me lembrando o tempo todo que aquele pontinho é um resto, um quase não pontinho.
Você, que já foi tudo e mais um pouco, é agora um quase. Um quase que não me deixa ser inteira em nada, plena em nada, tranqüila em nada, feliz em nada.
Todos os dias eu quase te ligo, eu quase consigo ser leve e te dizer: "Ei, não quer conhecer minha casa nova?" Eu quase consigo te tratar como nada. Mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. Mas não vira nada nunca.
Eu quase consegui te amar exatamente como você era, quase. E é justamente por eu nunca ter sido inteira pra você que meu fim de amor também não consegue ser inteiro.
Eu quase não te amo mais, eu quase não te odeio, eu quase não odeio aquela foto com aquelas garotas, eu quase não morro com a sua presença, eu quase não escrevo esse texto.
O problema é que todo o resto de mim que sobra, tirando o que quase sou, não sei quem é.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h35
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Escrito por Blônicas às 12h48
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Minhas novas aventuras...

De Henrique Szklo

Queridos leitores, não sei se vocês repararam, mas andei meio sumido do Blônicas. Na verdade estava sumido de todos os lugares. Nem eu mesmo conseguia me encontrar. Mas agora tudo mudou. Criei um show de humor, do tipo stand-up (aquele em que vemos apenas um comediante e um microfone), e acredito que as pessoas finalmente vão parar de rir de mim. Não quero fazer concorrência com minha querida amiga Rosana, mas aqui vai um video onde gravei uma amostra grátis. Claro que não é a mesma coisa que gravar um show ao vivo, mas dá para o gasto. Por favor, comentem o que acharem, de verdade. Sem meias palavras, sem dourarem a pílula, sem perdão.

Henrique escreve no Blônicas e pensa que é engraçado. Conheça seu site,  o blog da mãe e o seu novo livro O Grande Milk-shake e os Canudinhos Mentais.

Escrito por Blônicas.. às 11h35
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Dançando.

De Rosana Hermann.

Rosana Hermann é vídeo-cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h43
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O programa é fazer picas.

De Lusa Silvestre.

 

Daí que eu perguntei pra uma amiga: como foi o fim de semana? Perguntei foi só por educação, um pontapé inicial numa conversa pré reunião, poderia ter sido um “e aí, verdade que você não come carne” ?,  ou mesmo um “viu alguma coisa da mostra ?” mas não; minha pergunta por educação da segunda-feira foi sobre o fim de semana mesmo. Perguntei com sonoridade falsa, ruídos de desinteresse, um certo toque de “não faço questão de saber”, mas mesmo assim, mesmo diante de tantas evidências de desprezo, veio a resposta.

 

Daí que começou um santiago de compostela de atividades. Primeiro, foi trocar uma roupa. Depois, já que estava pelos jardins, foi fazer a unha. Tomou um café, foi no shopping pra ver um livro, depois foi visitar uma amiga que tinha acabado de ganhar criança – passando antes no boost babies pra comprar uma lembrancinha. De tarde, cinema aqui, cabelo ali, pá, coisa e tal, jantarzinho, depois vamos sair pra dançar, e veio o domingo, e nossa, tanta coisa, almocei com a minha mãe, depois fui na casa de uma amiga, saí de lá e daí fui na livraria, daí encontrei com umas amigas para comer uma pizza, e você ?

 

Eu ?

 

Bom, eu, ué, fiquei em casa fazendo picas nenhuma. Tipo, televisão, blockbuster, pizza na cama, etc. Foi mal ? Ela sorriu de canto de boca, aquele sorriso que as pessoas que se acham dão, sabe qual ? Riu, a bandida, como se a conversa toda não partisse de um desprezo inicial meu, conversa pra enrolar início de reunião.

 

Daí que eu comecei a pensar na minha própria mulher, e nas mulheres que me rodeiam. Im-pres-sio-nan-te como mulher não consegue ficar à toa, não? Mas a gente vai ficar sem fazer nada ? – perguntam. Minha linda, entenda: o programa para esta tarde é fazer nada. Coçar, ver tv, jogar basquete com bolinha de papel e lixo, comer queijo parmesão ralado com a colherinha de café, assistir os episódios de “lost” baixados durante a semana, ouvir rock tocando guitarra imaginária na frente do espelho, baixar música que ninguém vai ouvir, ler umas revistas placar antigas, em suma: fazer picas.

 

Fazer picas relaxa, desperdiça tempo, entope as artérias, aumenta o colesterol, economiza dinheiro e prepara a mente para assistir o fantástico sem bode de noite.  Qual é o problema de ficar assim, fazendo picas, à merencória luz da lua ? Newton – dizem – descobriu a gravidade porque coçava as partes embaixo de uma macieira. A ciência progride fazendo picas. E mais: integra o casal. Fazer nada no sofá cansa, embota, e se o casal está ali, sem fazer nada, ué, pode até aparecer um amorzinho – e não é isso que a gente sempre busca no fim de semana, o amorzinho, na sua forma física ou etérea ?

 

Agora, fazer picas é arte, porque se você bobear, pronto: está fazendo alguma coisa. Ih, fácil: o sujeito vai na sala fazer nada, vê um rodapé meio fora do lugar, pronto: está tentando colar as partes. Você vai no jardim pra, enfim, porque precisa see mexer um pouco, aparece umas formigas, e lá vai você matar formigas. É complicado, fazer picas.  Há que se equilibrar um monte de coisas, prever o ócio para que seja ocioso mesmo, e não aquela papagaiada do Domenico de Masi, enfim: tentem fazer picas este fim de semana. Quem sabe as pessoas começam a valorizar.

 

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h56
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Amores platônicos, trepadas homéricas.

De Xico Sá.

O sexo no MSN. Intimidade em dez segundos. E depois, como fazer para curar o amor platônico se não rolar uma trepada homérica??? ...pra ficar tão-somente na comparação mais trágica e mais grega, saca? Kill bill gates? Ou, como diria na minha pátria, Mate Severino, mate!

As cartas nas narrativas russas ou antigas demoravam séculos, léguas. Intimidades no lombo dos ursos, velho tchecov, nos trenós, rosebuds. Agora em dois segundo não estarás apenas lambendo selos das cartas, estarás no platonismo lambendo paus, cus ou bucetas, a depender do gosto. E tê-los, tê-las, tetas?

Jovens, não esqueçam das ruas, dos banheiros, dos telhados, das mentiras, da história do olho, da baciazinha de leite na qual ela senta com a bunda como um gato a bebê-la... pra levantar pingando a vida pelo taco, segui-la, a lama, o charco, o pântano do amor até chegar no ponto mais fraco, a porra a nos colar xifópagos.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h11
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Votação do público no The BOBs já era...

O blog alemão Lisa Neun criou um programa que vota sozinho seguidamente e burla o processo de votação no The Bobs da DW International. Está escrito lá mesmo, no blog, para quem quiser ler. A intenção disso não sabemos ao certo, o blog diz que é para mostrar que uma votação online pode ser fraudada. A idéia pode até ser boa, mas o fato é que melou o prêmio.

Então, o Blônicas que concorria nas categorias de Melhor Weblog (representante do Brasil) e Melhor Weblog em Português só tem a lamentar pela lambança feita. Esperamos que pelo menos o sorteio do iPod Vídeo ocorra normalmente no The Bobs e que algum leitor nosso ganhe. Agradecemos a todos que votaram no Blônicas e nos prestigiaram.

Escrito por Blônicas às 12h39
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Underobêrgui.

De Carlos Castelo.

Meio-dia em ponto, Jorge Yokohama trancou a porta da lojinha. Ficou um tempão admirando a fachada. Parecia nunca ter visto aquela casa entre a floricultura e o edificiozinho de apartamentos.
Olhou a vitrine. Há anos as mesmas fotos. Cardápios fotográficos. Mostravam as habilidades da Foto Yokohama.
Reportagens, casamentos, batizados, primeiras comunhões, seis poses de bebês (sorrindo, chorando, com a mão no queixo, com o dedo na boca, segurando o telefone e fazendo gracinha).
Enfiou o molho de chaves no bolso e desceu a rua. Foi andando cabisbaixo rumo à pracinha. Só levantou o curto pescoço quando passou em frente à igreja.
Casamento de Sofia e Eduardo, primeira comunhão de Bernardinho, bodas de ouro de dona Genoveva e seu Martins, 80 anos do padre Moura. O oriental de rosto gordo, cabelos pretíssimos, melecados com brilhantina registrava essas imagens com uma Rolleiflex. E um garoto segurava a extensão do flash Frata.   
- Soliso plo lente!
Ao contornar a praça, ouviu a vozinha infantil:
- Oi, seu Jorge...
O neto do Viana do açougue andando de bicicleta na pracinha. Tinha feito as Crismas dele. Festa bonita. Após a cerimônia, chocolate quente, docinhos caseiros no salão paroquial.  
Logo chegou ao boteco. Pequeno, escuro e apelidado de "Borracha"(os borracheiros da região elegeram o local para aperitivos e almoço).
Na parede atrás do balcão, uma placa: FAVOR NÃO BATUCAR NAS MESAS.
Ambiente familiar para Jorge Yokohama. Tinha feito 3X4 para Carteira de Trabalho de todos os garçons.
Sentou-se numa mesa de canto e acendeu um Hollywood. O dono do bar gritou do balcão:
- Ó a cerva aí pro Japão!
A garrafa veio pelas mãos de um menino de avental desbotado. Ele abriu a tampinha com um gesto teatral e pousou-a em frente a Jorge Yokohama.
- Underobêrgui - ordenou Jorge, com forte sotaque oriental.
- Undenberg pra 17! - gritou o menino.
A cena se repetiu muitas vezes. Cerveja, Undenberg, Undenberg, cerveja... Pouco tempo depois, Jorge Yokohoma começou a chorar. Como um garotinho, balbuciava palavras confusas. Em japonês.
Um homem, que devia ser de outro bairro, tomava uma meia de seda no balcão. Olhava espantado para a mesa 17.
- Que houve com o japa, hein? - perguntou ao dono do bar.
- Nem lhe conto, nem lhe conto. Peraí. Ô, Sinval! Sinval! Leva os torresmos pro Edmilson. Ligeiro... Esse japonês cometeu uma loucura, moço.  Ele é da Foto. Sabe ali, na praça?
O forasteiro sabia onde era.
- Foi uma ruiva...
Fez um chifre com os dedos. O forasteiro deu um grande gole na meia-de-seda e disse:
- Ruiva, é?
O dono do bar aprumou-se todo, tinha o controle da situação.
- O japonês resolveu tirar retrato de franguinha. Modelo, esses trens. Achou que dava mais que tirar retrato em igreja. Então apareceu a ruiva lá.
- E daí?
- Daí que ele fez a cagada: largou mulher, filhos, o diabo a quatorze por ela. E  pior: a mulher tomou todo o dinheiro dele.
- Puta que la merda, mulherada foda. - disse o forasteiro, enquanto fazia um sinal com a mão de "mais uma batida".
- Porra se é... - concordou o dono do bar, pegando uma jarra e completando o copinho com batida de amendoim.
- Fez o desinfeliz dar presentes. Viajaram pra Cidade Ocian. Torraram tanto que ele teve que vender o ponto da Foto pra floricultura.  
- Por isso o pifão?
- Por isso o... - porra Sinval, cadê a porção de provolone da 14? Como não pedi? Pedi sim, caraco, faz um puta tempo! -... por isso o pifão.
O forasteiro mexeu o gelo com o indicador, depois chupou o dedo ruidosamente. Perguntou:
- E a família dele?
- Dona Kaeko voltou pra Registro. Seu Jorge tentou voltar pra casa, depois que a ruiva trocou ele por um puto. Mas dona Kaeko tirou o cu da seringa.
- A ruiva trocou o japonês por um puto?
- É um... - azeitoninha temperada aí pra acompanhar a meia-de-seda? Vai, né? - ...desses troncudinhos que fazem strip-tease pra perua. A loura se entesuou no cara. Amor de pica, sabe como é. Largou o  japonês na rua da amargura. Sem Foto, sem família, sem porra nenhuma.
- Amigo, que maravilha de azeitona! Quê que vai nela?
- Óleo de oliva. Do bom. Orégano, uma pimentinha vermelha.
- Beleza de azeitona.
O dono do bar começou a lavar um copo na pia. Olhou a água descer pelo ralo e, ignorando o elogio ao seu tempero,  concluiu:  
- Um cara largar a família depois de 25, 30 anos de casado...
O forasteiro ficou bebericando a sua meia-de-seda em  silêncio. Um ônibus passou junto à guia e fez o chão tremer. O cheiro forte de alho de um frango à passarinho se impôs no ambiente.
Jorge Yokohoma, a cabeça deitada sobre a mesa, repetia baixinho:
- Underobêrgui, underobêrgui, underobêrgui...
E ria. Ria muito. 

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h21
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Chuckie, boleiro.

De Rosana Hermann.

Rosana Hermann é vídeo-cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h35
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Os anos pornô.

De Lusa Silvestre.

 

Eu andei pelos anos 80. Naquela década, falava-se bastante dos anos 50, dos anos 60, tinham festas que todo mundo ia de casaco de couro e gumex, rolava Bill Haley e Cely Campello, enfim. Daí, entrei na década de 90, e o babado forte passou a ser os anos 70. Legal, calculei e pensei: na década de 2000 as pessoas vão falar dos anos 80. Daí que chegamos em 2006, praticamente 2010, e ainda não se pôs os anos 80 no lugar correto. Quem fala dos anos 80 é pra tirar sarro, chamar de trash, pra mangar do RPM, ficar tirando sarro das calças quadriculadas, dos blazer jeans com manga arregaçada, do relógio que trocava a pulseira, fone de ouvido com antena, um assassinato. Reconheço que foi uma década, ahn, discutível, foi mesmo, mas, rapaz, e com perdão das leitoras, nossa, como tinha mulher linda, não ? Ainda mais pra mim, que passei o auge da adolescência nos anos 80. Você ligava a TV no sábado, e passava Cassino do Chacrinha, aquele monte de mulher de bunda de fora. Abria as revistas, tinha a Magda Cotrofe, Márcia Dornelles, Claudia Ohana, a própria Xuxa, Luiza Brunet (Luiza Brunet !), Marriet, Monique Evans (a pioneira), Lydia Bizzochi, Edna Velho, vixe.

 

(Aliás, um dia uns ladrões invadiram a casa de um amigo, em pleno 1986. Abre o cofre !, abre o cofre ! – gritavam. Família toda abraçadinha de medo na sala, abriram o cofre. Lotado de Playboy. Era o tesouro da molecada da classe. Levaram tudo, anos e anos de coleção, quanta vergonha a gente passou pra comprar as revistas na banca).

 

Digo isso porque a década de 80 está voltando com garbo e galhardia. “Finalmente”, vocês podem pensar. Vai sair um box com tudo do “Miami Vice”, falou um mais apressado. A Dijon está relançando toda coleção de calças semi-bag, gritou outro. Não: estão fazendo pornôs com a mulherada daquela época. Primeiro, foi a Rita Cadillac. Depois, lançaram coisa da Márcia Ferro, que nunca foi santa. Agora, num lançamento que me mistura o pasmo, a curiosidade doente e uma admiração pela ciência da medicina plástica, chegou o pornô da Gretchen. A cantora que turbinou os hormônios da minha adolescência está dando gemidos muito mais autênticos que no “conga la conga”. Baixei o trailer da internet. Vou adiantar que as partes mais descaradas só pagando 80 reais pelo DVD no site da produtora, ou cincão pela cópia no coreano da Santa Ifigênia. Tá bem, tá em forma, a Gretchen. Meio fortinha demais, mas, pô, quase cinqüenta anos.

 

A propaganda do filme diz que:

a) Ela fez com o namorado – o que indica que, apesar de agora pornô, ela é séria;

b) São só quinze minutos de sexo –mais que muito homem casado faz num ano. Ver a Gretchen praticando é sonho de infância pra muito nêgo; é a imaginação virando realidade. E mais: silicona também a própria indústria brazuca do pornô, que – com perdão do trocadilho – leva pau de qualquer produção internacional.

 

Acho ótimo colocarem essa mulherada assim, desnuda, totalmente revelada. Por curiosidade mesmo, e porque os caras devem pagar bem. Sou favorável a qualquer iniciativa que ajude a Gretchen a pagar as prestações da Belina. Muito legal, não deixa de ser uma ida aos anos 80. Agora, plise, com critério. Vamos deixar a Rosana “Como uma Deusa” fora dessa. Sim, claro: Roberta Close também.

 

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h39
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Meu amigo rebelde.

De Leo Jaime.

No jornal de quinta havia um túnel para o passado. Gente do governo dizendo que a imprensa tinha que se retratar por ter feito escândalo em cima de coisas que não foram provadas. Há um manifesto da Associação dos Jornais contra a intimidação que jornalistas sofreram investigando o que "não foi provado". Há um delegado dizendo que também foi perseguido por investigar o que "não foi provado". Há um ex-ministro advogando o direito de liberar verbas públicas para quem quiser montar veículos de comunicação que sirvam aos interesses do governo, ou seja, só publicar a versão da realidade, por mais mentirosa que ela seja, que interessa políticamente aos detentores do poder. Pois é, quem viveu durante a ditadura conhece essa ladainha toda.

As urnas, segundo um dos candidatos a presidente, originário do PT, assim como parte da intelectualidade, elegeram, sobretudo, a tolerância à corrupção. E assim como a militância do PT e parte da "inteligentzia" acha que a corrupção, desde que praticada pelo PT, é aceitável no jogo político, também deverá achar que a truculência aos meios democráticos também são justificáveis. E completa dizendo que não, o autoritarismo não se restringe a fechar o congresso, mas também em ter uma postura manipuladora. E é disto que eu quero falar.

Tenho um amigo rebelde. Ele votou em Heloísa Helena. Embora as críticas desta tenham sido as mais contundentes, acusando o atual presidente de ter formado uma quadrilha de bandidos disposta a estraçalhar quem se lhe oponha, meu amigo acha que ela fala muita besteira. Não pergunte a ele a razão, enfim, de ele ter votado nela. Ele também não admite que o presidente fale muita besteira. Só a candidata dele, sim, ele admite. Para ele, o meu amigo rebelde, Lula é o caminho, a verdade, a luz. Ele fica furioso se alguém fala em corrupção, afinal a corrupção já existia e quem foi acusado de alguma coisa está sendo investigado. E diz que a imprensa, que atende aos objetivos escusos do imperialismo, e tão somente a isso, inventa muita coisa. Ele se vangloria quanto ao número de votos recebidos e se desvia de qualquer possibilidade de críticas: para ele não há nada a ser melhorado. O presidente é perfeito e o fato de que a maioria de seus parceiros mais próximos estar metida em acusações lamacentas é apenas intriga da oposição. Afinal, ele, o presidente, se houver mesmo algo de errado, o que não deve haver, não tem nada a ver com isso.

Meu amigo rebelde avisa que os "verdadeiros intelectuais" estão com ele e com Lula. Oras, quem não estiver com ele e com Lula não é, de fato, um intelectual. Aliás, meu amigo acha que quem não faz parte do coro dos contentes é de direita. Atente para o detalhe: de direita é o Mal e de esquerda é o Bem, intrinsecamente, não importa muito a prática ou os fatos. Se alguém se dizia de esquerda e critica alguém também da esquerda, seja lá baseado no que for, é porque virou de direita.

Meu amigo não é contra a truculência, não é contra a corrupção, não é contra a demagogia. Ele é contra as críticas que, por ventura, se venha a fazer a Hugo Chaves, Lula ou o "Zacarias" da Bolívia. Já a presidente do Chile ele acha meio irrelevante.

Meu amigo rebelde acredita em Papai Noel. E Papai Noel é o Lula. E é melhor não contradizê-lo, pois ele tem ao seu lado os números das urnas e os "verdadeiros intelectuais" a dizer que os fins justificam os meios. Meu amigo rebelde não é apenas um jovem inocente. Meu amigo rebelde é uma legião.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h55
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Todas as pessoas que não existem.

De Tati Bernardi.

A mesa é redonda mas para mim só existe um foco. Ele me conta o conto do príncipe maníaco depressivo e conclui sorrindo em outra lingua: “ tristeza descabida? alegria descabida? isso também vai passar”.
Sou a princesa no alto do meu castelo. Não tenho tranças para jogar mas tenho e-mail e celular.
Agora sentado em sua varanda iluminada e colocando Daft Punk para me comer (eu contei a ele que precisava namorar ao som de Technologic) descubro que não gosto do gosto da sua saliva e nem do cheiro do ar que sai do seu nariz. Descubro que não gosto de sua pele azeda, da sua mão com dedos dispersos e das suas costas geladas e pálidas. Odeio esse cara, que eu to fazendo aqui quase pelada nessa cama desarrumada e oleosa?
Preciso empurrá-lo pra longe, fazer cara de nojo, cuspir no chão e dizer com todas as letras “quem mandou você ser você e não ser quem eu achei que você era”. Não faço nada disso, apenas interrompo tudo de maneira simpática “ai, não rola, meu coração é de outro”. Não é mentira, meu coração é realmente de outro. Mas quem é esse outro?
Depois vou chegar em casa, tomar banho chorando, escovar os dentes apressada, me olhar no espelho irônica e começar meu peito do zero. To sempre zerando meu peito.
A fumaça só revela dois faróis em meio a fumaça. Ele é alto, forte, irônico, confiante e vai me abandonar em minutos.
Rodopiamos naquele minuto feliz e enganado da noite. Esqueço todas as partes amorfas do meu corpo e todos os cantinhos dissipados da minha alma. Dançamos fortes com todas as células bem entrelaçadas e a certeza de estar inteiro.
Depois da meia-noite ele vira abóbora. Ou melhor: abobrinha. Sua voz some, seus olhos murcham, seus ombros desfalecem, sua vida de fantasias e aventuras vira qualquer história banal. Tenho a impressão que você é um papel fino que posso amassar e jogar fora.
Leio suas aventuras sexuais com mulheres sujas e corro para encontrar seu rosto. Me apaixono sem saber que aquele fumando pelo canto da boca é, na verdade, Bob Dylan. Em um ímpeto de grande apreço por si mesmo, você colocou a foto dele no lugar da sua. E eu sigo namorando Bob Dylan por anos, até te encontrar naquela festa barulhenta e descobrir que você é loiro, gordo e velho.
Por meses rolei na cama a espera de encontrar a sua barreira, a espera de encontrar meu fim. Cada tristeza da vida foi mais triste por você não estar ao meu lado e cada alegria passou desapercebida por você não estar ao meu lado.
Tudo o que eu não pude ter sempre ganhou seu semblante macabro no horizonte e tudo o que eu pude ter sempre chegou pequeno e podre por não ser você.
Eis que finalmente dou de cara com a sua cara. Perdido, sorrindo além da conta como sempre, com todos os fios da sua cabeça devidamente moldados e no lugar. Com todas as emoções enquadradas e sem nenhuma poesia ou mistério na aura. Então era isso? Só isso? Fico sem saber por quem afinal sofri todo esse tempo.
Só sei que vou continuar sofrendo, vou continuar emprestando a sua existência para dar cara a minha dor, a minha espera, ao meu intuito final.
Definitivamente, não é você que eu amo, nunca foi. Eu amo essa coisa, essa falta, essa negligência, esse fim, esse tormento, esse vácuo, essa saudade, essa angústia, esse vazio, essa certeza, esse encontro. Eu amo usar as pessoas como hospedeiras desse meu vírus de amar sem saber o que, sem saber se existe, sem nem saber se é amor.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 21h13
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Escrito por Blônicas às 11h42
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O nome já diz.

De Rosana Hermann.

"O nome já diz" é um dos vídeos vencedores do XIII Festival do Minuto de 2006, Regional São Paulo. Tema "Comunidades da Internet".

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h14
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