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O que tem no copo vermelho?

De Xico Sá.

“Decifra-me ou te devoro”, foi logo berrando a Esfinge, num grego das antigas, “o que tem no copo vermelho, meu filhooooooo?”

Eu mal escapara das garras dos tubarões de Boa Viagem, “benvindo ao Recife, na próxima te pego, meu nego”, dissera o monstro dos mares com seus dentes afiados capazes de fazer dos surfistas meras criaturas esquisitas sem pé nem cabeça _como uma história mal contada.

Aquela voz que saía de dentro do copo gigante e vermelho me deixava sem saída. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, prevalecia o adágio naquela manhã de 30 graus.

As ruas vazias, como se o copo gigante tivesse engolido a cidade. Havia um barulho de multidão dentro dele. Havia quase uma metrópole lá dentro, a sensação era essa.

O copo que bebeu a cidade.

Vejo algo como se fosse a ponta dos dedos de um mulher, unhas e mãos vermelhas, tentando sair do copázio. Pelo barulho, alguém tenta puxá-la pelos pés, como se dissesse: o copázio repete a vida lá fora, quando uma criatura tenta subir, vem alguém e lhe puxa a perna.

Agora ensaia-se o motim, percebe-se. Mas será por que somente as fêmeas tentam a fuga?

Tento ganhar tempo com a Esfinge. O tic-tac do relógio como num quiz show de auditório fuleiro.

Arrisco a minha cabeça quando avisto uma ex-afilhada de Balzac que põe só a cabeça de fora do copo. Havia rejuvenescido pelo menos umas duas décadas meia. De balzaquiana a rapariga em flor. Mas quando ia respondendo, outro evento me choca: minha sobrinha Alice, de seis anos, já portava lindos e maduros cabelos brancos.

Quando ia dizendo “é uma fon...”

Repensei. Não, não pode ser uma fonte da juventude depois do ocorrido com a Alice menina. É algo mais sofisticado em matéria de maquinaria do tempo. Parece o Castelo dos Cárpatos, de Julio Verne... Ou seria a Ilha do Doutor Moreau habitada pelos homens invisíveis de G.H. Wells?

Não, certamente não seria tão óbvio, muito menos estaria ligado tal copo a livros fantásticos ou sonhos.

Uma arte de Duchamp ressuscitado? Nem de perto.

A brisa marinha, num pitaco dos deuses, assobia-me uma canção que ouvi há muito no rádio. Epa. Tá quente.

O relógio marcava os últimos segundos possíveis para a resposta.

Arrisco, dona Esfinge: é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar!

Ufa! Escapei de mais essa! A Esfinge recolhe a sua bocarra de caninos brancos. De lambuja, ainda faço uma graça à moda de Gertrude Stein: o copo vermelho é apenas um copo vermelho, um copo vermelho, um copo vermelho.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h12
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Escravos do sistema.

De Milly Lacombe.

Tudo começou durante uma ensolarada tarde de novembro, quando meu celular novíssimo parou de funcionar. Não. Não é verdade. Não exatamente. O problema parecia ser na bateria, que passou a descarregar em cinco minutos.

Rendida, procurei o endereço de uma assistência técnica e arrumei tempo para ir até o local deixar o aparelho. Lá chegando, peguei uma senha, sentei e esperei, cercada por outras pobres almas igualmente aprisionadas ao sistema.

Vinte minutos depois, fui atendida por uma sorridente funcionária (sorridente no sentido de carrancuda, quero dizer) que determinou:

- Volte em 10 dias úteis.

No dia exato, descontados aqueles tais “não úteis”, voltei.

(Claro que tentei, antes, ligar para verificar se o aparelho estava pronto. Eu ligava, a telefonista virtual ia dizendo aquele arsenal de números associados a um problema específico, eu ia teclando firmemente, prestando atenção máxima para não perder o número referente ao exato problema de meu aparelho sob o risco de ter que apertar zero a qualquer momento para voltar ao menu inicial e começar a ouvir todas aquelas associações novamente, o que, todos sabemos, é absolutamente enlouquecedor - ter que voltar ao menu inicial, digo. Mas enfim, lá ia eu, ultraconcentrada, nessa algazarra numérica até chegar à tal gravação “sua ligação é muito importante. Por favor, aguarde até ser atendido”. Ficava ingenuamente esperando, querendo acreditar que minha ligação era importante para alguém S.A, até que a linha caía. Repetida a pataquada pelo menos meia dúzia de vezes, fui pessoalmente ao encontro do aparelho).

Mais uma vez, peguei a senha, sentei e, como se não tivesse mais nada para fazer da vida, esperei. Depois de uns quinze minutos, embora várias recepcionistas estivessem livres antes disso, fui chamada.

Entreguei minha ficha, vi a funcionária digitar o computador e dizer, ainda sorridente no sentido de carrancuda: "A senhora pode aguardar cinco minutos? Vou apenas dar baixa no aparelho".

Cinco minutos, como em um jogo de basquete, viraram 20. E ela me chama novamente:
"Então”.

Nenhuma frase que comece pela palavra “então” - especialmente pronunciada em um saguão de assistência técnica - pode ser seguida de boa notícia. Não existe: “Então, pela demora na reposição da peça, estamos concedendo à senhora um crédito de mil reais na compra de qualquer produto de nossa marca, mais uma semana em um resort de luxo no sul da Bahia”.

“Então”, continuou ela, agora sim, levemente sorridente no sentido de sorridente. “O técnico foi fechar seu aparelho e deu problema na placa".

Perguntei o que isso significava.

"Significa que o técnico foi fechar seu aparelho e deu problema na placa", ela repetiu, como se eu fosse surda ou débil mental.

Insisti para que ela me explicasse até que ficou claro que ela sabia tanto quanto eu.

Pedi para falar com o técnico, e ela me disse que o cliente não tem autorização para falar com o técnico.

Pedi para que ela fosse falar com ele para me dizer o que exatamente estava acontecendo.

"Está acontecendo que, na hora de fechar, deu problema na placa".

“ Que placa?”

“A placa! A placa!”, repetia ela.

Não íamos sair disso. Para interromper o ciclo, perguntei quanto tempo mais até que eu pudesse ter meu aparelho com uma placa nova.

"Ah, pelo menos mais dez dias úteis".

Pedi que ela me dessa uma nova ordem de serviço.

"Não posso, porque é o mesmo problema".

“Como assim?”

 "Ué, o problema na placa continua”.

“Mas meu problema era na bateria”

“Então”.

Desisti de entender porque ficou claro que a máxima do “se não pode convencê-los, confunda-os” estava sendo exercida.

“Quando exatamente fica pronto?”, perguntei, quase chorando.

“Como disse, a senhora precisa ligar daqui a dez dias para ver se ficou pronto”.

E é aí que você percebe que está irremediavelmente sozinha, frente a frente com o sistema. Você quer chorar, o sistema está com uma espécie de riso contido no canto da boca.

Você sabe que está sendo enganada, injustiçada, chicoteada. Ainda assim, não tem com quem reclamar. O sistema está ali, olhando nos seus olhos, mas não há mais nada a fazer.

Se você gritar, quem, além do segurança sorridente no sentido de carrancudo, vai escutar? O sistema nos quer, mas, uma vez lá dentro, não há saída. Não há para quem reclamar. Muito menos como cancelar. Cruza-se a fronteira para o lado de lá, e não há mais volta. Somos, oficialmente, prisioneiros.

Mas ainda resta um consolo. Porque, à noite, você vai jantar com o amor de sua vida, e dormir ao lado dele, e, por alguns instantes, colocar tudo em perspectiva novamente.

E, no dia seguinte, acordar, relaxada e renovada, até perceber que sua novíssima e moderníssima conexão sem fio à internet não está funcionando.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h22
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Aniversário de São Paulo.

De Roberto da Concina.

Como São Paulo faz parte de meu bairro, a Mooca – sim, isto mesmo, São Paulo faz parte da Grande Mooca - sinto a necessidade de dizer uma ou duas coisas a respeito da cidade. Apesar de estar na periferia da Mooca, São Paulo não é de toda má e, em alguns pontos, chega a ter um nível de civilidade suportável. Claro, existem alguns bairros completamente carentes de cultura, onde as pessoas andam de chinelos nas ruas, camisetas regatas e, a contar pelos cabelos ostentados, ainda não apareceu pente por lá. É o triste caso da Vila Madalena, onde a civilização passou longe. É preciso que se levantem algumas Bandeiras, formadas de gente obstinada e desbravadora, com coragem o bastante para dar a estes pobres concidadãos um caridoso banho de cultura. Alguns centros de arte e livrarias não seriam de todo ofensivo para estes irmãos, abandonados no outro extremo da cidade. Podemos aproveitar para oferecer algum lustre de cultura ao bairro de Pinheiros, logo ao lado, também carente neste sentido. A Mooca poderia exportar alguns artistas para locais como estes, entre os quais eu, renunciadamente, me voluntario. Apesar de meu estilo sutil, imparcial e modesto já puderam reparar que sou um artista, não? Um homem das letras? Ótimo, estamos nos entendendo. Vou aproveitar e arrecadar algumas roupas com o pessoal daqui da Zona Leste, para distribuir lá nos Jardins, que fica à meio do caminho. Com aquelas roupas fashion deles, faltando pano em alguns lugares, cheias de remendos em outros, se viessem por estas bandas, não havia morador que não lhes trouxesse um prato de macarronada no portão. Aliás, os bairros ricos da cidade andam meio apagadinhos, não têm a expressão dos bairros de cá. No Morumbi, ninguém fala. Não sei se porque andam meio desanimados com o time de futebol deles, o São Paulo, e apenas vivem da ilusão de terem algum dia um time arrasador para torcer como o Juventus... Mas, antes, porém, de descambar nestes locais inexpressivos da cidade, vou dar uma paradinha no centrão que está ficando uma beleza, depois que alguns respeitosos senhores resolveram restaurá-lo. Aqui, sim, talvez, podemos encontrar o cosmopolitismo compatível à Zona Leste. Sim, porque se há um defeito que me é intolerável é o bairrismo. Estes sujeitinhos provincianos que não conseguem enxergar além de seus umbigos! No centro, o mundo inteiro tem aqui seus representantes, seus falares estão impregnados no português local, a comida de alhures (uau, percebam como estou a cada linha mais senhor do estilo) está representada nos vários restaurantes típicos. De mesmo modo que, no local, os povos do mundo encontram sua religião característica. Ninguém pensa em encontrar uma sinagoga mais fácil que não seja no Bom Retiro, ou um templo budista, no Paraíso, assim como ninguém tem dúvida de encontrar uma igreja apostólica romana no Bexiga ou no Brás. O mundo, São Paulo! Sim, às vezes, olho com orgulho este subúrbio da Mooca. Verdade que, às vezes, com um olhar um pouco altivo de colonizador, apressado em achar certo exotismo nestas terras agrestes, mas, de qualquer modo, com uma afeição paternal e sincera. 

Roberto da Concina é uma personagem impertinente e insubordinado ao seu criador, o escritor Mauro Judice.

Escrito por Blônicas às 11h41
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A vida sem estresse.

De Rosana Hermann.

Todo mundo que já estudou física na escola conheceu a constante ‘k’, o coeficiente de elasticidade de uma mola. Mesmo quem esqueceu básicas em algum dado momento teve oportunidade de esticar a mola de um caderno até que ela perdesse totalmente sua capacidade de voltar a seu formato original. De uma forma grosseira esta imagem da mola que suporta um peso, uma tensão, uma força tão grande que faz com que ela deixe de ser o que sempre foi, uma mola, tem tudo a ver com o estresse, doença da vida moderna que faz com que a gente perca totalmente a forma, o conteúdo e as estribeiras. 
 
O estresse é o mal da modernidade, dizem os especialistas. E é preciso ter um coeficiente do tamanho de um encouraçado para suportar as pressões do dia a dia no trabalho, na vida e no mundo, dia a após dia durante os onze meses do ano em que não prestamos serviços forçados para o universo.

Mais recentemente as ciências do comportamento e as filosofias de muro de vizinha descobriram um novo termo, um novo conceito, também emprestado da física dos materiais ou da engenharia civil, a resiliência. Resiliência seria a velocidade com que se consegue sair do estado normal, ir para um estado alterado e voltar ao normal sem nenhuma seqüela. Para ilustrar, digamos que quem tem alta resiliência é capaz de receber um recado de que o chefe está chamando, interromper o joguinho de paciência no computador, ir até a sala do patrão, levar uma bronca com ameaça de demissão, sentir o coração explodir pela boca, o intestino perder o controle e, minutos depois, estar de volta tranqüilamente em sua sala pronto para mover um ás de copas para a linha acima das cartas.

Felizmente, independente do k, da resiliência, da mola, do chefe ou da paciência, a lei garante que uma vez por ano todo cidadão tem direito a um mês de férias longe da agenda, dos compromissos e das pentelhações profissionais. Problemas, só no âmbito pessoal, familiar e social. O resto é só alegria.

Neste período temos mais tempo de olhar para nós mesmos sem pressa. Podemos pegar um espelho e olhar nosso próprio lombo, ainda que para realizar a triste descoberta de que temos uma capa de bacon acumulada acima da etiqueta do biquíni. Podemos questionar se aquela pinta na perna estava ou não naquele lugar no verão passado. A liberdade das roupas leves e o contato com a areia permitem posições impensáveis em dias da semana inglesa, como ficar de quatro na areia em busca de uma conchinha, deitar na espreguiçadeira e babar de boca aberta durante um cochilo, deitar de bruços em forma de xis sobre a esteira com a bunda empinada para tomar sol nas dobrinhas.

O descompromisso com a lógica, a elegância, a economia, a política, nos libertam de tal forma durante as férias que nossas molas interiores parecem se restaurar milagrosamente, como se tivéssemos coeficientes e resiliências antes desconhecidas. Lentamente as coisas começam a voltar ao lugar e acordamos exatamente quando o sono termina, comemos no momento em que a fome chega e fazemos amor quando o desejo nos chama. É como se um ‘eu’ enterrado durante o ano saísse da toca escura e úmida da obrigação de sobreviver e viesse à luz avisando que ainda estamos vivos, que ainda somos gente. E suplicando, de joelhos, com um sorriso marcado de sorvete eskibon, que no ano novo que começa a gente produza menos estressa, morra um pouco menos e viva um pouco mais.

Feliz ano novo.
 
Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h08
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São...

De Nelson Botter.

 

São Paulo é frenética. São corações que batem em diferentes ritmos, mas sempre acelerados, com pressa, trancafiados num trânsito garrafal, desafiando as badaladas do tempo que insiste em disparar tanto quanto a vida dos paulistanos.

 

São inúmeros movimentos culturais, espetáculos da mais pura arte humana, polo do saber e da manifestação artística da grana que ergue e destrói coisas belas, uma avalanche de pernas ao meio-dia, o lanche da esquina e os restaurantes finos dos Jardins ou Itaim.

 

São multidões que invadem o centro velho, que percorrem a cidade por cima ou por baixo das vias, rostos cansados, desesperançosos, gente que rala e faz um país girar.

 

São Paulos, Marias, Josés, Patrícias, Marcelos, Julianas, Fernandos, Priscilas, são milhares, são milhões, são uma nação, são de todas as partes do mundo, são um mundo, aqui na terra da garoa, que não tem mais tanta garoa porque já não tem mais tanta mata, mas tem gente que mata e faz viver, bebês que explodem seu grito de vida, armas que explodem seu grito de morte.

 

São arranha-céus que ganham os ares, helicópteros e aviões que beiram as lajes, monumentos do caos urbano, parques verdes cercados pelo cinza, enfim, São Paulo é muito mais do que isso, merece muito mais do que isso, pois são 453 anos de pura magia.

 

São muitos e muitos parabéns, mais de 19 milhões de felicitações, minha terra! Pela fresta da janela, enquanto canto essas palavras pra ti, vejo tua noite brilhante, madrugada sem breu, e te beijo, cidade mãe, com o mesmo carinho da tua acolhida aos que aqui vêm tentar a vida. Teus filhos sem distinção. 

 

São todos, São Paulo. Parabéns.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas e paulistano da gema!

Escrito por Blônicas às 11h38
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São Paulo vazia, cidade dos sonhos.

De Xico Sá.

Sim, já foi simbora todo mundo. Noite vazia, meu velho Walter Hugo Khouri, bravo Antonioni da Móoca! A Babilônia está às moscas. As gostosas foram à praia. As gigantes crumbianas ascenderam às suas galáxias, com loas, cânticos & cânticos, uma graça. Sem problema, guardo todas nas minhas retinas e tento punhetas amnésicas.

Restamos eu, os porteiros, meia dúzia de putas e proxenetas da Augusta. Até as baratas foram a uma festa na foz do rio Pinheiros, residência do dr. G.Samsa, ouço o barulho do engarrafamento nos esgotos. Os amigos do alheio também desceram a serra para praticar seus crimes de bagatela. O único defeito desses larápios é necessitar sempre seguir o fluxo dos otários.

Os mendigos, os ninjas e o lumpem-do-lumpem-do-lumpem estão fodendo livremente debaixo das marquises. Avisto daqui um velho apodrecendo na viagem ao redor do seu quarto. Se pelo menos os filhos deixassem de presente uns barbitúricos! O negão na esquina do Ibotirama está encachaçado e com um banzo blues d´além África.

Sim, os paulistas estão na autopista rumo às filas dos balneários. Como é bom São Paulo sem esse povo todo. Ando mais tranqüilo do que nas alamedas sob os pés de benjamins do Crato. Ah se eu pudesse erguer um muralha da China e que aqui não entrasse mais a estupidez carbônica desses autos. Os carros são mesmo a maior prova da imbecilidade da raça.

Você sabia que a velocidade média da cidade, em tempos normais, é a mesma das charretes e cabriolés do século XIX? Sim, algo em torno dos seus 14, 15 km por hora.

Bebo uma na laje do prédio. A Babilônia vazia é o maior barato. 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h45
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A viagem.

De Milly Lacombe.

Eu devia ter imaginado que a viagem seria apocaliptica quando abri o jornal e vi a data: 13 de Janeiro. Por que viajar de avião em um dia 13 se há, no mês, pelo menos outros 29 dias para isso? Mas o pensamento foi interrompido pelo toque estridente do telefone, e a viagem seguiu de pé.
No caminho de casa para o aeroporto, uma chuva fina me fez revisitar o pensamento. Quem precisa viajar durante um dia 13 chuvoso? Mas o devaneio foi mais uma vez interrompido, agora pelo plantão do rádio do carro, que trazia mais notícias sobre a cratera aberta em uma obra do metrô em São Paulo.
No saguão do aeroporto, o esperado caos levemente controlado. Na fila do check-in, respirei fundo e afastei os pensamentos apocalipticos que me perseguiam. "Olha quanta gente vai viajar. Por que justamente o seu vôo será vitimado? Aliás, não haverá vítimas porque todos os dias, em milhares de aeroportos mundo afora, centenas de milhares de aeronaves sobem e descem sem que fiquemos sabendo de um contratempo sequer".
Com o cartão de embarque nas mãos, me dirigi ao portão. No caminho, a constatação de que o tempo havia piorado bastante: o céu estava mais carregado e, agora, decorado por raios e trovões. O que me impedia de entrar no taxi e voltar para casa? Nada. Mas, e se eu decidisse ir no dia seguinte e, no dia seguinte, o avião caisse? Não teria eu escapado do meu destino? Ou meu destino era desistir hoje e morrer amanhã? Nenhum dos mapas astrais que fiz até hoje falavam sobre acidentes de avião, mas todos falavam muito sobre o tal do livre-arbítrio. Os astrólogos deveriam ser mais específicos em relação ao livre arbítrio. Seria meu livre arbítrio entrar no avião ou desistir da viagem? Como saber para que lado fica o livre-arbítrio?
Parei para um café e ouvi o sistema de alto falantes do aeroporto anunciar que meu excelentíssimo vôo não tinha previsão para decolagem. Bufando, fui à procura de um atendente da cia aérea.
Sempre correndo de um lado para o outro, armados de seus rádios, parecem ser as pessoas mais ocupadas do mundo. Onde exatamente vão com tanta pressa? Não seria a função prioritária desses jovens profissionais nos dar informações e, depois, no portão de embarque, picotar o bilhete enquanto, conversando com um colega de trabalho, dizem automaticamente: "boa viagem? Que outra função teriam eles ali no saguão? Como previsto, a atendente que eu bravamente consegui interceptar no saguão estava com muita pressa para falar comigo. Era sentar e esperar. Ou, simplesmente, voltar para casa.
Depois de quase três horas de atraso, quando o insuportável duelo de vozes dentro de minha cabeça havia se tornado enlouquecedor, fui chamada ao portão de embarque. O avião estava a postos. Espremida no portão (nunca entendi por que as pessoas se amontoam assim se os lugares são marcados) cheguei a um veredito: ia encarar. Afinal, meus pressentimentos em relação a viagens de avião nunca se mostraram corretos: eu sempre tenho certeza que o avião vai cair, e ele, até hoje, nunca caiu.
Na entrada da aeronave fui apresentada ao Comandante Yamamoto, que pilotaria o Airbus. Acho fundamental poder ver a cara do piloto antes de entrar no avião, tentar perceber que tipo de homem é, se leva jeito para a coisa, se tem pelo menos alguns fios de cabelos brancos, se está calmo. O Comandante Yamamoto não tinha cabelos brancos, mas me pareceu concentrado, e ao mesmo tempo sorridente e relaxado. Depois dessa rápida e fundamental análise, relaxei eu também.
Decolamos e eu descobri que não havia motivo para apreensão: o pôr do sol, visto lá de cima, evaporou qualquer sensação de medo. Coloquei meu i-pod no ouvido, escolhi Nina Simone, e fechei os olhos.
Não sei por quanto tempo, mas quando abri percebi que voávamos no meio de uma chuva de raios. E o Comandante Yamamoto, muito calmo, avisava que era prudente ficar sentado e com o cinto afivelado. Como é bom quando o piloto fala! E Yamamoto era desses que adorava falar. Isso, naturalmente, indica que está tudo bem dentro da cabine. Ligeiramente calma, coloquei meu assento na posição correta e comecei a executar a respiração profunda que aprendi na ioga. Foram quinze minutos trepidantes até que o Comandante Yamamoto abriu a comunicação novamente e avisou que íamos pousar. Disse isso e acelerou a aeronave. Para que ele estava acelerando se íamos pousar? Devia ter lá seus motivos, imaginei. E como a voz dele parecia calma, tentei eu também me acalmar.
Relaxei ainda mais ao ouvir o trem de pouso baixar. O pior havia passado.
Ou estava por vir.
Quando estávamos quase no solo, Yamamoto decolou novamente. Se você nunca passou por isso, vou tentar explicar o que é, e por que eu quase perdi o controle sobre minha bexiga.
O avião está baixo, você vê a pista, relaxa no assento. De repente, você ouve os motores acelerando em giro máximo, um giro que você não sabia que aqueles motores possuíam, e sente a aeronave fazer uma trajetória de foguete, enquanto seu corpo é jogado de encontro ao assento e algumas pessoas gritam. Nessa hora, bem nessa hora, seu coracão pára algumas batidas, e sua bexiga avisa que vai ceder.
Novamente lá em cima, um alucinado Yamamoto, ainda girando seus motores em força máxima, decide desacelerar de vez. O avião, que vinha a mil, parece planar.
Yamamoto, na saída um sujeito falante e bem humorado, decide que a melhor alernativa agora é não fazer contato com os passageios. O silêncio é cortante. Olho para meu amigo do assento ao lado e ele ri apavoradamente para mim. Lá fora, o fim dos tempos parece ter chegado: raios vivíssimos fazem noite virar dia. Onde estaria o eloquente Yamamoto? Por que não fala mais nada? Se vamos morrer, que pelo menos tenha a dignidade de avisar, para que liguemos nossos celulares e comecemos a nos despedir. Mas Yamamoto, apesar dos meus apelos mentais, continua mudo.
Agora, o airbus está indo novamente em direção a tempestade de raios. Teria Yamamoto desmaiado? Estaríamos à deriva? Eu queria saber de meu companheiro ao lado o que estava acontecendo. Perguntava insistentemente a um homem que estava mais apavorado do que eu o que estaria havendo. E ele, pálido e trêmulo, dizia baixinho, Eu não sei, eu não sei.
Foi então que Yamamoto teve a segunda grande idéia do dia: acelerar e desacelerar a aeronave em espaços de 15 segundos. Acelerava a mil, e desaceleraca a zero. Na terceira palhaçada do Yama, abri meu cinto para ir bater na cabine, mesmo sabendo que seria barrada pela aeromoça. Se ia morrer, não poderia deixar de dar uma esculhambada no estranhíssimo Yamamoto. Queria uma explicação. Deveríamos ter pousado há mais de 40 minutos, não pousamos, o avião teve que arremeter e, ainda assim, Yamamoto se sentia no direito de continuar calado, sem dar uma explicação. Quando, para perplexidade do meu colega ao lado, eu estava quase de pé, ouço a voz do grande Yamamoto. "Tripulação, pouso autorizado". Teria Yamamoto a memória de uma ostra? O pouso já havia sido autorizado há meia hora, e ele, inclusive, já havia praticamente pousado. Bufando, sentei, apertei o cinto e comecei a respeirar fundo. Só me restava esperar que Yamamoto fizesse a coisa certa.
Quando o avião finalmente pousou, minha vontade de ir ter com Yamamoto era ainda maior. Peguei minhas coisas decidida a invadir a cabine para esclarecer aquele vôo. Infelizmente, toda a tripulação estava muito ocupada para me olhar nos olhos e atender o mais singelo de meus pedidos: "Posso, por favor, antes de sair dar uma pancada na cabeça do Yamamoto?" Mas, como de costume, ninguém me ouviu, e só me restou ir trabalhar.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas e está de volta depois de longas (e necessárias) férias.

Escrito por Blônicas às 10h53
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Comendo o próprio rabo.

De Tati Bernardi.

Ainda é cedo e a vida escurece atrás dele. Tenho um pouco de medo daquelas duas rodelas verde musgo que me encaram como se eu pudesse ser reduzida a um segundo: tem muita sujeira ali naquela alma. Ignoro meu peito amaldiçoando o meio das minhas pernas e aceito o convite para ver de perto o cheiro do ralo. Ele não mora muito longe da doceria e vamos a pé mesmo. A cada passo morre em mim mais e mais da garota que tinha ficado feliz com o brigadeiro de colher.
Adoro camas que não são camas e ele tem uma dessas. Minha vontade é deitar ali e fazer alguma graça, minha vontade é que ele tire meus sapatinhos de boneca com calma e beije meus pés, afinal: pintei minhas unhas de vermelho só para ele. Minha vontade é que ele me pergunte se quero um pouco de chá gelado e se eu gostaria de ver um dos seus filmes estirada nas grandes almofadas.
Mas ele não quer saber dos meus pés, dos meus olhos deslumbrados com aquela vida de cinema, do meu dente sujo de chocolate ou da minha garganta que arde. Ele quer mergulhar em mim, ele quer entrar em mim, ele quer me descobrir a fundo. Mas ele quer tudo isso sem sequer tocar em mim.
Eu mais uma vez me pergunto como é mesmo que se faz a coisa mais profunda do mundo com total superficialidade. Como é que se ama sem amor? Como é que se entrega de dentro de uma prisão? Nunca soube.
Tenho vontade de perguntar baixinho: você não gosta nem um pouquinho de mim? Nem sequer um tiquinho? Olha só: eu tenho os dedinhos do pé bem estranhos. Eles não são absurdamente merecedores de amor? Mas ele não quer perder tempo com dedinhos de pé, pintinhas brancas ou antebraços molinhos. Ele quer morar em mim mas está cagando para todas as belezas da casa.
Algumas horas depois sou devolvida às ruas. Faço o mesmo trajeto mas agora voltando, mas agora sozinha.
Ainda é cedo e eu preciso de amor. Só um pouquinho de amor. Não posso dormir sem paz no coração. Ele não mora muito longe da cama que não era cama e a cada passo esfolo mais e mais meu esmalte vermelho. Quero que ele veja o quanto mudei por causa dele, na esperança de que seu riso congelado saia do automático e eu ganhe um único sorriso verdadeiro. Não foi só o muque que ficou mais duro, mas minha autopiedade também aprendeu a ser menos molenga. Talvez meu amor tenha aprendido a ser menos amor só para nunca deixar de ser amor. Mas ele não quer saber de almas evoluídas, meditações, planos futuros e todos os últimos segundos de uma vida dedicados a ele. Ele quer que eu coloque aquela calcinha preta das antigas e fique de quatro. Mais uma vez me pergunto como é mesmo que se pode viver ou respirar em meio a tantas pessoas e intenções mortas. Mas então ele morreu? Ufa! Doeu, mas doeu pela última vez.
As ruas agora parecem um grande cemitério e eu mais uma vez carrego o peso morto do meu coração. Minhas costas doem e a cada passo mais e mais meus ombros se curvam. Apesar de tudo, ainda é cedo e eu já me conheço bem: não desisto de entregar meu coração a alguém que saiba, finalmente, dar um pouco de chá gelado a ele.
A casa dele não fica muito longe da marcha fúnebre e resolvo passar para fazer uma visita. Quem sabe numa visita eu não volto a visitar minha alegria?
Ele me serve chá quente e me escuta contar tudo sobre esmaltes vermelhos, corações pesados que se arrastam por ruas, ralos e calcinhas pretas. Mas apesar das grandes orelhas que todo velho aprende a ter, ele não está muito interessado em resolver meu problema. Talvez ele me ame, sim, talvez ele me ame aquele pouquinho que eu estava buscando. De todos, talvez ele seja o único que pode me dar, se não um pacote inteiro de rosquinhas, ao menos uma semicircunferência. Já é alguma coisa.
As ruas agora estão todas entrecortadas. Algumas casas têm apenas o telhado, outras apenas o jardim. A vida é só um pouquinho boa, as pessoas são só um pouquinho bonitas e as músicas duram apenas algumas notas. Sou inteira um pseudo algo, desejo pseudo coisas e quase sei para onde ir agora.
O meio homem não fica muito longe da casa que é quase velha. Quer saber de uma coisa? Acho que ainda é cedo. Enquanto ando, perco mais e mais o que eu já nem sei mais o que. Só sei que perco. Mas não posso terminar mais um dia sem amor, não posso. Pago o que for, pego a fila que for, encaro o que for. O lugar está cheio, as pessoas vazias. O lugar está quente, as pessoas frias. O lugar está insuportável, mas as pessoas juram que são legais. Sugo ali, num cantinho qualquer acompanhada de qualquer pessoa, o que pode restar de bom na alma de alguém. Mas ele não quer saber de canudinhos, desentupidores de pia e súplicas por um final ao menos justo. Eu sou um saco com restos de pano preto, achocolatados, plantinhas e tinta vermelha. E ele quer apenas furar o saco, para que eu estoure para bem longe dali. Sem dar nenhum trabalho.
As ruas não existem, não existe mais o que perder, não existe amor em lugar nenhum. Acho que finalmente está ficando tarde demais.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas e autora do livro "A mulher que não prestava", à venda nas principais livrarias. Compraaaaaaaaaaa caceta!

Escrito por Blônicas às 18h41
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Quem pinta?

De Antonio Prata.

Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares e o único resquício de nossa civilização for a porta de um banheiro público, os arqueólogos do futuro chegarão a conclusão de que éramos uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis.

A leitora, pertencente a metade mais ilustrada da humanidade, talvez não saiba, mas todos os banheiros masculinos do país, do boteco sórdido ao aeroporto internacional, têm rabiscados em suas portas -- além de escudos de times e piadas infames -- pintos de todas as cores e tamanhos.  

Eu entendo os motivos estúpidos que levam o torcedor fanático a escrever “Timão eô!” na parede do banheiro. Compreendo o impulso que encoraja o sujeito reprimido a sacar sua caneta e deixar nas paredes do WC apreciações pouco elogiosas sobre o presidente da república ou o chefe da firma. Mais do que tudo, olho com ternura para o pobre diabo que, tendo como cúmplice apenas um vaso sanitário, aproveita para declarar seus sentimentos mais profundos: “Waleska te amo, ass. Anderson do RH”. Essa obsessão peniana, no entanto, me é incompreensível.

Fico imaginando o pai de família sentar-se na privada e, protegido pelo anonimato de fórmica e azulejos, tirar a caneta do bolso. O coração acelera, pequenas gotas de suor surgem na testa e, com a alegria ardente das pequenas transgressões, o trabalhador honesto, bom marido e rotariano respeitado  desenha  o aparelho genital masculino, cheio de detalhes, na porta do banheiro.

Será que ao deitar a cabeça no travesseiro e revisar o dia,  o cidadão se arrepende de seus arroubos urolográficos? No fim do ano, quando pula ondas, come lentilhas e pensa no futuro, o vândalo sanitário pede ajuda aos deuses para deixar o vício? Ou, pelo contrário, não tem nenhuma vergonha de seus atos? Todo sábado, junta-se a seus confrades num boteco e, entre cervejas e amendoins, bate no peito: “Cês tem que ver o que eu fiz lá no Belas Artes! Da maçaneta até o chão! Azul e verde, uma beleza!”. Ao que outro sugere, tirando da pasta um estojo de canetas coloridas: “Vamos pra Osasco no domingo? Parece que abriu um shopping novo...”.

Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares, espero que não sobre uma única porta de banheiro para contar a história. Afinal, não gostaria de ser visto pelos arqueólogos do futuro como parte de uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis. Muito embora, pensando bem, a descrição até faça sentido.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h43
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Gazeta do Hipocondríaco.

De Marcelo Sguassábia.

Confira nesta edição:
 
AMARELÃO É A COR DA MODA
A tendência da estação é o amarelão em vários tons, garantem os estilistas. Uma verdadeira coqueluche irá tomar as ruas.
 
GENTE QUE VAI DESSA PRA MELHOR
A Família Dornêles está deixando nossa cidade para fixar residência em Bom Jesus dos Remédios. E vende uma mesa de operação com 4 cadeiras de rodas, maca de casal e criado mudo (é mudo mas está em tratamento no fonoaudiólogo).
 
COMO FAZER FRANGO RESFRIADO
É como diz aquele velho deitado: antes frango resfriado do que gripe aviária. Na página 4, aviamos a receita dessa iguaria.
 
UTI FAZ PROMOÇÃO NAS DIÁRIAS
Em plena alta temporada, a UTI surpreende com uma superpromoção – diárias com pensão completa pela metade do preço. Elas incluem canja 3 x ao dia e respiração boca-a-boca de 8 em 8 horas. As crianças contam com equipe de monitores cardíacos, soro no canudinho e balão pula-pula de oxigênio.
 
PRÉDIO DA SECRETARIA DE SAÚDE É DECORADO COM PASTILHAS
A nova obra foi inaugurada sábado último, nos sabores menta, limão e eucalipto.
 
RODOVIÁRIA ESTÁ EM ESTADO TERMINAL
Permanece crítica a situação do terminal rodoviário do município. O quadro clínico, porém, encontra-se estacionado nos boxes 4, 5 8 e 17.
 
COLÉGIO SANTO AGOSTINHO DIVULGA BOLETIM
Segundo informações obtidas com exclusividade no setor ambulatorial, tudo indica que os enfermos, embora em recuperação, conseguirão passar de ano.
 
BANCO DE SANGUE ANUNCIA LUCRO RECORDE
Captação do tipo A positivo tira finalmente os glóbulos do vermelho.
 
ORÇAMENTO ESTÁ ENGESSADO, DIZ SECRETÁRIO DE OBRAS
Isso explica por que a administração pública não se mexe. Leia entrevista exclusiva na página 6.
 
ÓTIMAS OFERTAS NA FLORICULTURA TRANSPLANT
Os paisagistas farão plantão de 36 horas para atender à procura, que deverá ser grande.
 
GRUPO DA TERCEIRA IDADE ORGANIZA EXCURSÃO PARA A FAIXA DE GAZE
Restam poucas vagas. Garanta já o seu leito.
 
COMO IDENTIFICAR A FRATURA DO SEU CARTÃO DE CRÉDITO
Um seguro indicativo de que você está quebrado é a fratura do seu American Express, Dinners, Visa ou Mastercard. Veja quais são os primeiros sintomas.
 
HORÓSCOPO
 
Áries
Carneiro tem lã. Lã pode dar alergia. Alergia causa coceira e manchas na pele. Ou seja, é bom tomar cuidado.
 
Touro
Mesmo sendo um touro, com a saúde não se brinca. Ótimo momento para fazer um plano com ampla cobertura.
 
Gêmeos
Por serem dois, vocês têm o dobro de chance de contrair algum vírus ou bactéria. Para prevenir o pior, evitem ficar juntinhos o tempo todo.
 
Câncer
Vamos para o próximo...
 
Leão
O alinhamento de Júpiter com Mercúrio mostra que esta semana é propícia para rever seus hábitos carnívoros.
 
Virgem
Quando chegar o seu dia, lembre-se das campanhas preventivas de saúde pública e use camisinha.
 
Libra
Fique atento à balança da sua farmácia de manipulação. Recebemos denúncias de que há estabelecimentos comercializando fenilcloroceptrina de 250mg em cápsulas contendo apenas 230.
 
Escorpião
Se sua cara-metade chamar você de peçonhento, não morda. Isso só iria aumentar o veneno entre vocês, causando intoxicação.
 
Sagitário, Capricórnio e Aquário
Em observação e sem previsão de alta.
 
Peixes
Tudo bem que você vive molhado, mas não é por isso que vai abusar do sereno. Cuide-se para não morrer pela boca.
 
Marcelo Sguassábia é redator publicitário e cronista em diversos sites e revistas eletrônicas.

Escrito por Blônicas às 11h35
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Não se morre de amor nos trópicos.

De Xico Sá.

 

Sossega, nega, não se morre de amor nos trópicos. A morte amorosa é uma invenção dos que hibernam como ursos da Sibéria ou cinzentos donzelos alemães...

 

O tio tenta uma filosofia de consolação para a amiga que sofre e pena entre a Angélica e Augusta como se fosse num inferno verde de fitzcarráldica fábula babilônica labiríntica, danou-se! a menina nas asas da hipérbole-helicóptera.

 

Te juega, nega, aqui não se morre disso. Se o jovem Werther aqui fosse nascido, até choraria um tanto o seu infortúnio, mas já já algum vagabundo passaria na sua casa e eles iriam tomar um ele & ela (caldinho com cachaça) na Várzea ou no Pina, freguesia do Recife, iam tirar uma onda na barraca de Jesus ou no seu Rainha, na mesma cidadela invicta, iam tomar uma com Franciel, pura ingresia da Bahia, lá nas beiradas do mercado de São Joaquim, na frente daqueles garajaus com bodes pretos e galinhas idem, além dos gabirus na lama dos currulepes que ali dançam aos pés dos bêbados, seres com ou sem asas para trabalhos de macumba, como reza o manual de zoologia daquele cego portenho da gota.

 

Sossega, preta, roga uma praga neste peste e pronto, cai de novo na lama milagrosa do hedonismo. E se a vida atropelar, de nuevo, na mesma curva, anota a placa, menina, e arrisca no bicho.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h57
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Eu quero ser enganada.

De Tati Bernardi.

Todo mundo sabe que Acarajé com Vatapá vai terminar em dor de barriga no dia seguinte. Mas imagine só se o dono do restaurante avisasse: tudo bem, senhorita, mas coma sabendo que você vai acordar se cagando toda às três da manhã e, por causa do calor e ar seco, vai acabar também desidratada e vomitando bile. Você se aventuraria a ter os melhores trinta minutos do seu verão comendo tais iguarias? Dificilmente.

Você sabe que uma pizza inteira não combina com os ponteiros do relógio avisando que já passa das onze da noite e sabe perfeitamente que se o peixe cru estiver "passado" é hospital na certa. Mas tem prazer maior do que dormir preenchido até a testa da melhor invenção do planeta ou mergulhar os molenguinhos no shoyo? Agora imagine se o entregador de pizza te contasse que depois de devorar tanta massa e tanto queijo você vai sonhar com o espírito sem cabeça do Saddam invadindo o seu quarto? Imagine se o baiano do restaurante japonês fizesse um discurso sobre salmonela enquanto você tenta se divertir com seus amigos?

Sabemos bem dos perigos do mundo. Você sabe que não deve pegar aquela faixa de ônibus vazia na Rebouças, ainda que as outras pistas permitidas estejam paradas há mais de uma hora. Você sabe que não deve beber muito champanhe na festa da firma sem ter nada no estômago. Sabe que deve evitar multidões (eu pelo menos sei), evitar pastel de feira com aquele óleo preto que já dura meses, evitar falar mal dos outros, mentir, falar o nome de Deus em vão e comer amanteigados e suas gorduras trans.

Mas vai dizer... vai dizer que meter o pau na estúpida que foi eleita a mais gostosa da firma não é uma delícia (sem trocadilhos, tô falando de falar mal mesmo)? Vai dizer que ver todo mundo se fodendo naquela avenida sebosa e só você naquela faixa proibida não é apoteótico? Que pagar um bom mico na festa da firma não pode ser a coisa mais engraçada da sua vida?

Bolachinhas gordurosinhas fazem valer qualquer veia entupida, se acabar de dançar até desmaiar num ensaio de escola de samba faz valer essa encarnação no Brasil, mentir que você tem médico e ir brincar de médico com o novo estagiário pode ser ainda melhor que pastel de feira. Deus meu, e como pode!

Mas você não quer saber antes. O valor da multa, a queimação da gastrite, o tempo que dura uma mentira, o dia do juízo final, a vergonha do dia seguinte, o desmaio. Tudo isso te espera, você sabe, você pressente, mas você não quer saber antes. Você não quer tragar a vida vendo a fotinho do pulmão preto do outro lado do maço. Você sabe que ela está lá, mas você só enxerga o slogan "um raro prazer". Ninguém vive a vida pensando no dia seguinte, caso contrário, apenas deitaríamos e esperaríamos a morte. Afinal, como dizem por aí: só ela é certa.

Então, por que raios os homens resolveram agora, ao menos comigo, pular toda a introdução melosa, fictícia, cinematográfica e maquiavélica da sedução e ir direto ao assunto? Acabo de receber a trigésima proposta da semana: oi, você gostaria de dar para mim?

Eu sei que sou culpada. Eu sei. Primeiro eu publico um texto no meu site dizendo que estou há meses sem sexo de qualidade. Depois lanço um livro chamado "A mulher que não prestava". Fora que sou uma mocinha nada Barbie (com uma coluna na Vip, só pra piorar) e minimamente inteligente, daí aos trogloditas acharem que não mereço ser enganada e irem direto ao assunto. Agradeço a consideração.

Mas assim como estraga saber antes que o vatapá pode ser assassino ou que muito vinho pode causar cirrose hepática, que mulher quer ouvir: muchacha da teta satisfatória, eu vou te comer lindamente, mas vou acordar no dia seguinte dando a você a mesma importância que dou ao novo filme do Didi Mocó? Homem é tosco mesmo. Ou prometem trigêmeos numa vida de bangalôs e estrelas ou te olham com aquela cara de açougueiro. Caminho do meio, rapazes! Já diria o Buda. Em tempo (melhor explicar): e ele não estava se referindo a uma vagina.

Não, eu não quero que ninguém me prometa nada que não possa me dar. Sou realmente uma mulher inteligente, moderna, bacana e se for para abrir as pernas para um ator, prefiro que seja logo para o Caco Ciocler (tô tarada por esse cara).

Mas eu definitivamente preciso do glamour da sedução. Quem não precisa? Um homem só deve ir direto ao assunto se for redator publicitário e tiver de vender um produto em um banner de Internet. Mas na vida real... mais empenho, rapazes! Ou: prostitutas têm aos montes, e bem mais gostosas e divertidas do que eu. Custam menos também, já que tenho gostos refinados e adoro presentes caros.

Eu definitivamente quero ser enganada. Nem que seja por uma única noite de prazer. Eu quero sim que abram a porta do carro para mim, que o restaurante seja à luz de velas, que o cd do carro seja bom, que ele use perfume, coloque sua melhor camisa e me diga coisas inteligentes.

Afinal, muito melhor do que uma bela trepada é poder ligar para as amigas no dia seguinte e dizer: se aquele filho da puta só queria me comer, por que me enganou? Desgraçado!

Tati Bernardi é cronista do Blônicas e acaba de lançar o livro "A mulher que não prestava". Comprem! Comprem!

Escrito por Blônicas às 11h20
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Nós realizamos o seu sonho.

De Leo Jaime.

Chega mais um spam com este título. No que o programa abre uma preview do mail já pinta uma outra janela com um techno no último volume e uma peituda, vestida, de perfil.

Somos o segundo país em cirurgias plásticas. Não somos o segundo mais populoso ou rico, o que nos aponta como mais imperfeitos, ou inseguros, do que os outros.

Não vou aqui fechar os olhos para o bem que uma correção de algum defeito pode proporcionar ao ego e auto-estima. É fato. O problema é o que está na sombra desta questão: a dificuldade em aceitar as próprias imperfeições e, por conseguinte, as dos outros.

Não há, ou não deveria haver, um nariz, peito, bunda ou barriga ideal. Evidente que há um peito da moda, bunda etc. Muda a todo ano e quem quer seguir a moda pode ter que passar a vida toda na mesa de cirurgia. Mais forte, mais magra ou magro, mais alto, peituda ou pouco peito? Qual é o sonho da estação?

Ser desejável não se restringe a isso. A moça da foto do anúncio parece ser, para quem anuncia, a musa inconteste. A mulher que qualquer uma gostaria de ser e qualquer um gostaria de ter. E aí reside toda a ilusão: esta figura não existe e nem deveria existir fora do mundo simbólico. Mesmo no cinema, que é feito para alimentar o mundo dos sonhos, essa idéia é facilmente desconstruída. Atrizes tidas como belíssimas usam dublês de corpo e o que vemos na tela são imagens captadas de forma a mostrar as coisas de um jeito ideal e não real. Parece difícil, porém, ao cidadão comum, diferenciar ataques interplanetários, cenas de futuro longínquo e a beleza  irretocável dos atores. Pois é, o conteúdo de verdade é o mesmo. Mesmo que os atores sejam de fato atraentes. É preciso saber que ali a coisa foi muito melhorada. É o tal do photoshop, se isso facilita a compreensão do meu ponto de vista.

Fica a questão: por que é importante ser muito atraente? Como a idéia de parceiros múltiplos não é muito popular, não dá pra imaginar que o objetivo seja a compensação sexual levada às últimas. Dizem que é mais fácil conseguir trabalho ou amigos sendo uma beldade. Nada garante que seja mais fácil manter o que foi mais facilmente conquistado. Não há garantias também de que a busca desenfreada pela forma garanta conteúdo. Trocando em miúdos: bonito é uma coisa, gostoso é outra.

No fundo da questão há a diferença entre pornografia e erotismo. A primeira trata de objetos do desejo, a segunda de narrativas do desejo. Quem você é, o que e como você faz, isso é muito mais sedutor do que como você é. Mesmo que na primeira impressão o aspecto exterior seja mais impactante. Será que planejamos um mundo e relacionamentos de primeiras impressões? E primeiras impressões rasas?

E no final há o tempo. Impossível lutar contra isso. Ainda. E o tempo inclui o envelhecimento, é óbvio, o que nos dá a certeza de que nenhum peito ou barriga passará intacto. As cirurgias ainda não chegaram lá, ao cerne do problema, à imortalidade.

Um mundo de Dorians Grays.

Por outro lado: cada um deve ter um hobby.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h15
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Eu queria ser Bill Murray.

De Xico Sá.

Eu queria ser Bill Murray. Em Flores Partidas, assim mesmo, broken flowers, do Jim Jarmusch. Indo em busca do filho que talvez não tenha tido. Bill Murray parado. Não diga que silêncio; diga “não ouço nada”. Bill Murray on the road, no sossego, na moral e na elipse.  A máquina de escrever cor de rosa, a motocicleta cor de rosa, flor de obsessão, rosa. Bill Murray d.Juan em fim de feira _a festa acabou, José, para onde?_ e a carta anônima, o vizinho Sherlock com ácido, a busca do rebento que não teve, teve?, não importa. Eu queria ser Bill Murray diante daquele gato, nem carecia a Sharon Stone, o gato feito à imagem e semelhança de Bill Murray, felino metafísico da porra. Ali, dizendo, o gato: “Você veio aqui, velho Bill, com segundas intenções, não, não sou teu filho, hombre”. Eu queria ser Bill Murray naqueles sonhos, a reprise. A lolita na vitrine, Lola, bundinha americana, mas safada, é o que vale. Bill Murray vaga pela América, ô, mas num me venha com essa de metáfora da América, apenas uma história sem final, como todo enredo de busca, como a própria cara de Bill Murray, procura. Eu queria ser Bill Murray emparedado na quarta parede, sem foco, boiando nos teus lindos olhos de cigana oblíqua. E basta.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h45
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O primeiro texto do ano.

De Carlos Castelo.

Prometo não usar o discurso livre indireto indiscriminadamente. Não abusarei das citações e do uso de aspas. Fugirei dos galicismos ( e dos trocadilhos infames, como “galinhacismos” que acabo de inventar). Esquecerei os parênteses e os travessões enquanto forma pedante de ressaltar certas informações num texto. Prestarei muita atenção para nunca começar um discurso no gerúndio. Lerei um Machado de Assis da fase madura de seis em seis meses. E finalmente este ano mergulharei a lança de minha curiosidade em “Moby Dick”.

Buscarei achar um meio termo entre uma fabulação mínima, porém eficiente, e uma longa, mas não-digressiva. Farei de tudo para escrever ao menos 300 palavras ao dia. Encontrarei um bordel que me aceite como hóspede para enfim encontrar a paz e poder produzir mais e melhor, como apregoava Faulkner. Tentarei não me irritar ao ver na tevê Paulo Coelho visitando a Moldávia em companhia de Glória Maria. Dispensarei a linguagem tosca ao me referir aos autores de livros de auto-ajuda. Procurarei reler “O Ciúme”, de Robbe-Grillet, sem imaginar que, hoje em dia, uma prosaica câmera de vídeo pode ser bem mais eficaz que o mencionado romance francês. Evitarei a tentação de publicar uma crônica que fiz chamada “Monólogo interior” (fluxo de consciência com sotaque caipira de uma personagem natural de São José do Rio Preto). Perdoarei os organizadores de estantes das grandes redes de livrarias. Especialmente os que colocam “A Tempestade” de Shakespeare na seção de Metereologia. Olharei com grande complacência para os atores, músicos, publicitários, jornalistas esportivos e ginecologistas que se entregarem à elaboração de material ficcional.

Serei um guardião da verossimilhança. Lançarei mão do recurso “Deus ex-machina” apenas se Deus quiser. Desistirei definitivamente da idéia de adaptar o monólogo de Molly Bloom para o formato Youtube. Apiedar-me-ei do Jabor. Seguirei ignorando o Mainardi. Usarei com parcimônia o ponto-e-vírgula; exceto nos casos em que a Gramática o permitir. Fugirei como o diabo da cruz da expressão “por conta de(o)”. Farei de O.G. Rêgo de Carvalho um escritor conhecido no Sul Maravilha. Buscarei o verdadeiro sentido da palavra metanóia. Aprenderei a usar corrretamente a crase. Terei uma atitude civilizada e racional para com os editores.

E, como tudo o que escrevi aqui é ficção, pode ser que eu esteja fingindo ou mentindo.

Logo, não prometo nada.

Feliz ano.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h10
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Socorro!

De Nelson Botter.

 

Ano novo é uma maravilha mesmo. Todo mundo diz que agora vai, dá-lhe mudanças, tudo em ritmo do sambão entoado pela Simone e Beth Carvalho, na vitrolinha de 33 rotações, LP de 1976, e depois pra rebater vem o Rei, aquele das madeixas encaracoladas e do medalhão no peito, confirmando tudo, com sua canção que ecoa: “... daqui pra frente, tudo vai ser diferente...”.

 

Enquanto os fogos explodem, as pessoas se abraçam, riem, choram, cantam, beijam, fazem mil e uma simpatias, aproveitam a muvuca pra sumirem com a cunhada, bebem toda a cidra sozinhos, choram mais um pouco e prometem, prometem, prometem... e como prometem! Se promessa pagasse imposto nessa época do ano, o governo já garantiria a verba anual pra pagar os 91% de aumento do congresso e mais bônus por projeto não analisado, não votado e não aprovado.

 

No dia seguinte vem a ressaca, não só a etílica, mas também a da lista de tarefas para o ano. Dá-se conta de que o check-list é gigante, metade das promessas já se perdeu na bebedeira, foi privada abaixo, e a outra metade é praticamente inatingível. Daí chega-se à conclusão que novas promessas terão de ser feitas, a lista precisa ser revisada, e a primeira de todas é proferida ainda no caótico trânsito da estrada, na hora de voltar para casa: “Nunca mais passo reveillon na porra da praia”. É igual àquela galera que ainda tomando glicose no pronto-socorro promete nunca mais colocar uma gota de álcool na boca. Ano que vem você estará lá de novo, rolando na areia e segurando o franguinho, não tem jeito. Xiii, o franguinho? Lá se vai a promessa da dieta equilibrada...

 

E depois de 7 horas na estrada, você chega em casa e liga a TV. O pior vem agora, lá está o messias do povo, discursando para uma multidão em Brasília. O que leva alguém até Brasília para assistir a cerimônia de (re)posse do presidente? Só pode ser claque, não é possível... mas, pensando melhor, se foi possível o messias ganhar novamente, logo é provável que aquele povo todo esteja lá por livre vontade mesmo. O Circo Brasil não cobra ingresso, pelo contrário, paga pra você assistir. Entre na lista do Bolsa-Voto ou qualquer coisa do gênero. Tem cidade sobrando emprego, sem mão de obra, pois quem trabalha perde o direito de ganhar um tutuzinho na maciota. É sério, quer dizer, é risível.

 

Enquanto o presidente discursa, inventando uma nova língua portuguesa, os outros abaixam a orelha. E até ele faz suas promessas de ano novo. As mesmas de quatro anos atrás, afinal as promessas são sempre as mesmas, seja a de não passar mais reveillon na praia ou seja a de erradicar a fome no país. Fome Zero, País Zero, Governo Zero, e por aí vão os zeros... sempre à esquerda.

 

Enfim, terminadas as festas descobrimos que é isso aí, quem faz um ano ser bom ou não somos nós mesmos. Ainda bem. Já pensou se dependesse do Clô (que agora vai costurar em Brasília) ou do presidente-messias e sua terra “prometida”? Como diria Inri Cristo: “Valha-nos, oh Paaai”. Portanto, prometa menos e faça mais. Já é um bom começo para este novo começo... e olha que 2007 promete, hein!

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h48
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