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Oscara-de-pau.
De Marcelino Freire. Globalização é isso. Os excluídos tomando a festa. Desde o tapete vermelho. Por que não verde, ora? Ecologicamente é a cor do dinheiro. E a do dólar. Façamos mea-culpa pelo aquecimento global. Bush, que nada! Temos Al Gore. Estatueta para ele. Nosso ex-quase-presidente. De boas intenções o Iraque está cheio. Os americanos estão com medo de tanto ódio. O planeta em alerta. Pronto para atacar. Doido para fazer mais merda. Por isso, creio, aquele desfile durante a entrega do Oscar. Uma cota para negros. Asiáticos. Espanhóis. Gays. Velhos. Crianças. Gordinhas e até carecas. Não vêem como somos legais! É do Jack Nicholson que elas gostam mais. Menos a apresentadora, lésbica assumida. “O que seria deste prêmio sem a gente?”, provocou ela, enfim. Teve até beijo homossexual na platéia. Com uma mão se brinda à Rainha. E com a outra a Idi Amin. Falamos uma só língua. Cinematográfica. Teve homenagem a Itália na figura do Enio Moricone. E até um filminho-didático explicando o que é ser americano. Viram? Não somos tão egoístas. Nem tiranos. Demos, inclusive, um Oscar honorário a uma ex-produtora, agora protetora dos direitos humanos. E ainda: Di Caprio discursando sobre a camada de ozônio, sei lá. Juntos venceremos. Juntos chegaremos lá. Onde? Em Bagdá. Não barramos mexicanos. Quem disse? Aí está Iñarritu que não nos deixará mentir. Sozinhos. E mais: as três premiações ao Labirinto do Fauno. Sem contar nosso clipe-louvação ao cinema estrangeiro. Menos ao brasileiro. Eta danado! Nunca ganhamos nada. Ficamos de fora. Talvez por causa da queimada. Amazônica. Ou por causa do filme Turistas. Um dia, com certeza, chegará a nossa hora. Já estivemos tão perto. De o Brasil dar certo. É preciso paciência. Mirem-se na persistência do Martin Scorcese. Infiltrado, finalmente. Ave! Pelo conjunto da obra. Ou seja: mais um incluído. No circo e na roda. Foi o amigo e escritor Marcelo Mirisola quem me falou: “hoje em dia o negócio é ser um excluído”. Não faltará apoio de todo tipo. ONGs, causas nobres, entidades, passeatas, novela de Manoel Carlos na TV. Porque tudo acaba em festa. É disso que Hollywood gosta. É isso que a gente paga para ver. Marcelino Freire é cronista do Blônicas. Papai eu quero me casar.
De Xico Sá. “Papai eu quero me casar!/ô minha filha, você diga com quem!...” Lembram dessa loa, à moda do velho e genial Faceta, cantada por Didi Mocó e Zacarias, ainda nos finalmente dos anos 80? E conforme a mocinha ingênua ia enumerando os ofícios dos seus pretendentes, o ciumento papai a fazia esmorecer da idéia sinistra, sempre lembrando os perigos que representavam aqueles modestos profissionais. A música se chama, óbvio, “Casamento”, repare só nesta estrofe, verdadeiríssima: “Zacarias: Papai eu quero me casar! E por ai afora. Tem o motorista que aperta muito a buzina, o vaqueiro que tira leite da vaca, o economista (ofício em alta na época da hiperinflação) que mexe muito com a poupança, o Ney Matogrosso que vira homem-lobisomem e quando é homem não faz medo pra ninguém... Resgatada por Miss Soledad no verão do Recife, a canção dos Trapalhões nos sugere uma atualização dos perigos das profissões que até existiam no tempo áureo de Didi Mocó, mas não tinham lá tanta importância assim. O DJ, por exemplo, minha filha, vai fazer scratch (aquelas mexidas bruscas e sensacionais no vinil) nas picapes... e depois vai fazer sratch a noite toda no seu corpinho também. Papai eu quero me casar... Eu quero me casar é com um hacker, mas com um hacker você não casa bem. Por que, papai? O hacker vai fuçar as senhas proibidas da Internet... e depois escarafuncha você também! Papai eu quero me casar... Com um agente de artista você não casa bem. Por que papai? O agente vai cuidar da atriz famosa... e depois vai difamar você também! Eu quero me casar é com um blogueiro, ó minha filha, você não casa bem, o blogueiro vai postar a noite inteira... e não sobra nada para postar em você também. E com um cineasta moderno, papai? O cineasta vai demorar para captar recursos para o primeiro longa... e vai faltar é longa-metragem pra você também! Papai eu quero me casar... Eu quero me casar com um estilista, com um estilista você não casa bem... Por que papai? O estilista só costura é pra fora... e vai esquecer de coser você também! Papai eu quero me casar... [Agora é com vocês, generosos leitores!] Xico Sá é cronista do Blônicas. Carnaval mudo.
De Carlos Castelo. A não-musa de Caetano, Luana Piovani, citando artigo do aprendiz-de-paulo-francis Diogo Mainardi, declarou em pleno sambódromo carioca que o Carnaval deveria ter sido cancelado. Claro, em função da violência em geral e mais especificamente por causa da terrível tragédia com um garoto de apenas seis anos de idade. Uma declaração paradoxal para quem estava sambando no pé num camarote, mas que abre uma avenida de ilações. Do meu ponto-de-vista, julgo que Mainardi pensou pequeno. O Carnaval não deveria ser adiado. Seria ainda mais eficiente como protesto readaptá-lo à irrealidade cotidiana. Nossas Saturnais empregam diretamente milhares de pessoas, indiretamente geram comerciais de tevê, merchadisings milionários, sem falar do oba-oba na mídia nacional e gringa. Isso significa aumento do produto nacional bruto. Cancelar o Carnaval seria deixar na “street” ainda mais brasileiros. E tal fato aumentaria ainda mais os nossos já baleados índices de violência. Sem falar nos famigerados índices de Educação. Caberia então promover uma festa momesca diferente dos padrões reinantes. Nos desfiles, por exemplo, as escolas marchariam em silêncio. Todas as alas fantasiadas, todos os carros alegóricos faiscantes, todas as linhas de frente garbosas. Porém sem emitir um canto, um refrão, os tambores inteiramente calados. As baianas não rodariam, os destaques não acenariam para a platéia, nem a porta-bandeira promoveria evoluções. Nada mais, nada menos do que um Carnaval mudo. Mas poderia haver variantes. Afinal, o Brasil, incontinenti, continua sendo um país continente. Na Bahia os trios elétricos sairiam normalmente às ruas - inclusive o uso de mortalhas pelo público seria bastante bem-vindo. Como estes gigantes caminhões foram feitos para soar, soariam. Mas os tocadores de paus-elétricos brindariam a galera com a “Marcha funeral de um marionete”, de Gounod. Ou então com a clássica “Toccata e Fugue em D Minor”, de Bach. Em Olinda, os blocos tradicionais fariam suas andanças, mas apenas nas dependências do cemitério local. Evidente que, em silêncio respeitoso, pois um povo civilizado não profana lugares sagrados assim, a torto e a direito. Já em São Paulo, tido e havido como túmulo do samba, os desfiles talvez nem precisassem ser cancelados. Com tais medidas manteria-se tudo como sempre foi - já que não é nosso forte mesmo mudar nada. Porém, a atitude seria, ao menos, mais alinhada ao sentimento crônico das massas: uma muda e acomodada perplexidade. Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Terça de carnaval.
De Nelson Botter. Foliões vitaminados etilicamente se espremiam no salão ao som de uma marchinha de carnaval, enquanto ela passava pelos seguranças e se juntava ao mar de gente. Estava disposta a rasgar a fantasia naquela noite. Com olhos rápidos e certeiros procurava por seu objetivo no meio da multidão. Quanta gente, oh quanta alegria, mais de mil palhaços no salão e a Colombina procurando por outra Colombina, mais precisamente aquela que poderia vir a ser seu Pierrô apaixonado. Entre um esbarrão e outro foi avançando até o fundo do salão, e perto do balcão do bar conseguiu encontra-la. Lá estava, cabelos longos e ondulados, expressão compenetrada, traços finos e bem simetricos. Estava linda, como sempre. Se aproximou rapidamente, e a mulher – ao vê-la – largou o copo cheio de uma bebida qualquer na mesa ao lado. A mulher se adiantou e a abraçou. – Que bom que você veio – disse a mulher. – Foi difícil... – Você não vai se arrepender, farei valer a pena. – Por isso eu vim. – Você está linda. – Sou sua Afrodite. – Eu te amo. – Me beije... As duas trocaram um beijo apaixonado. Ali, naquele instante, não havia mais ninguém no salão, todos os medos da intolerância alheia se dissiparam. A noite era só delas. A mulher sorriu e ofereceu um pouco de sua bebida. Ela aceitou, bebeu e beijou sua amante mais uma vez. Era uma felicidade tremenda poder colocar para fora toda aquela paixão que lhe perturbara durante meses. Agora era a hora de extravazar e não permitir que todas as dúvidas e questões morais atrapalhassem sua plena felicidade. A máscara finalmente havia caído, ali, naquele baile de carnaval, ao som de uma fanfarra qualquer. Aquele beijo acabava de enterrar a mãe carola, o pai castrador, os amigos preconceituosos, a família que a pressionava por um novo casamento, a pequena filha mimada e – principalmente – sua busca por uma identidade, por seu verdadeiro eu. Noites e noites de luta, mas agora a bússola apontava para o norte. De mãos dadas dançaram e se divertiram a noite toda, esperando pelo amanhecer que traria a cama e carícias tão íntimas que o verdadeiro pecado daquilo tudo seria não cometê-lo. Ao contemplar o nascer do sol na manhã seguinte, bebericou uma xícara de café quente, olhou para seu amor que dormia feito uma criança e sentiu-se plena e revigorada. Era uma verdadeira Fênix, renascida no sol daquela quarta-feira, que era de cinzas. Nelson Botter é cronista do Blônicas. Always on.
De Rosana Hermann. Acabei de ler um texto bastante interessante sobre a vida "Always on", um manifesto 2.0 chamado Privacidade e Preconceito, no SkypeJournal. O tema é 'reassumir o controle da comunicação em tempo real no mundo ‘SempreOn'. O autor começa contando sobre uma visita que ele fez ao museu Alexander Graham Bell. Lá, ele descobriu um detalhe importante sobre o estilo de vida do inventor do telefone. Em todas as casas onde ele morou Bell tinha uma sala (escritório e laboratório) onde ele podia pensar, experimentar e escrever durante as horas noturnas. Nesta sala não havia telefone. Bell acreditava que suas experiências não podiam ser interrompidas durante as horas gastas em seu escritório pessoal. Um outro folclore mais atual diz que a família do CEO da Blackberry, Jim Balsillie, exige que ele deixe o seu aparelho na porta assim que entra em casa. Aqui no Brasil nós que somos viciados em celulares (100 milhões deles já) e Internet parecemos gostar da interrupção. Aceitamos e promovemos este tipo de atividade sem problemas. Não porque a comunicação seja urgente mas porque acreditamos que a 'simpatia' seja mais importante do que a concentração. Há controvérsias. Pessoalmente, prefiro o respeito ao excesso de gentileza que, em geral, é mais uma questão de ansiedade da outra pessoa do que de fato um desejo incontrolável de desejar de fato que eu tenha um dia maravilhoso. O que parece não estar claro é a diferença entre estar sempre online e estar disponível. Uma pessoa que trabalha na rede está sempre online. E durante todas as horas de sua produção estará na Internet. Sabe, a pessoa que trabalha online tem o direito de possuir MSN, Skype e ficar no ocupado. Ela está ocupada para o mundo dos papos avulsos mas usa o comunicador para falar de trabalho com seus pares. É normal, acontece mesmo. O que não significa que ela está disponível para conversas à toa, especialmente com desconhecidos.. Aqui, um parêntese: se você vai falar com alguém que você não conhece, o ideal é economizar tempo e telas. Ao invés de começar dando um oi, depois vem o tudo bem, seguido de quem é você, de onde você tecla e etc, seja objetivo. Coloque-se. Diga quem você é, o que deseja, o que procura num parágrafo só. E, claro, mande esta mensagem apenas para quem está mostrando que está disponível para conversas. O problema é que o brasileiro é inseguro e melindroso. E egóico. Só consegue pensar em si e não no outro. Ele sente vontade de falar com você e não se constrange em interrompê-lo. Por que ele deveria? Ele quer, ele faz, você que agüente. E quando ele leva um não na cara, mesmo que venha todo cheio de explicações, ele fica todo ofendido, vira seu inimigo. Alguns partem pro contra-ataque, como se tivessem sido atacados. Projeto no mundo real: seu vizinho mora ao seu lado mas o fato de estar tão próximo não significa que você possa bater em sua porta ou tocar a campainha a qualquer momento e ser recebido com beijos e petiscos. No mundo real não se entra em festa sem convite, não se visita pessoas sem ser chamado e nem se arromba a porta do vizinho que você nem conhece. Indo um pouco mais fundo numa tentativa de interpretar o fato e não apenas de condená-lo, encontramos um forte indício de solidão, de incapacidade de ficar só consigo mesmo. A maioria das pessoas não consegue esperar um minuto numa fila, numa sala de espera. Basta ficar a sós que ela pega o celular e liga pra alguém, qualquer um e já começa com um ‘e aí, o que você me conta de novo?’, como se ela não pudesse ficar um segundo sem uma nova informação, sem interagir, sem ficar com seus botões. Essa ansiedade permanente, esta necessidade de falar sem parar, este impulso de interromper para dizer que existe mostram que o mundo está cada vez mais tenso, veloz, interativo e, simultaneamente, intensamente solitário. Mas tem tratamento. É só parar para pensar. Contanto que ela consiga parar primeiro. Rosana Hermann é cronista do Blônicas. Coisa de cinema.
De Leo Jaime. A coisa funciona mais ou menos assim: resolvem fazer um filme em holywood e a trama se passa no Brasil. É um filme de horror em que personagens sádicos, vestidos de policiais, param pessoas na rua e se divertem muito humilhando e torturando esses transeuntes, sem nenhuma acusação ou aparente motivo para deles ter algum tipo de raiva. De quebra ainda pegam os objetos e documentos destes passantes, o que caracterizaria um roubo a mão armada, só para queimar depois da sessão de lazer violento. Pois é, este filme com personagens absurdos seria motivo de uma lista na internet, com abaixo assinado protestando contra a imagem do Brasil sendo prejudicada por esta ficção. Pois é. Para os brasileiros não se pode usar o nome do Brasil em estórias assim. Se o bandido do 007, ou de qualquer outro filme em que vilões queiram destruir o mundo e arredores, for americano ou de qualquer outra nacionalidade, tudo bem! Só não se deve escrever em nenhuma ficção que um bandido desta natureza seja brasileiro. Isto pode ofender nossos brios. Serial-killers, pedófilos ou mesmo serial-killers pedófilos também estão vetados na ficção se forem compatriotas. Por exemplo, alguém faz um roteiro e coloca uma cena de uma criança sendo arrastada por um carro durante 15 minutos, sem nenhum motivo que explique a crueldade, só pra distrair mesmo, e vão dizer que é injusto colocar essa cena como vivida nas paisagens da cidade maravilhosa. Como assim? A despeito da obsessão que nosso cinema tem sobre os temas violência, miséria e ditadura, não necessariamente nesta ordem, o cinema internacional não está habilitado, ano nosso ver, para mencionar estas coisas. Pelo que percebo, estas cenas que tanto podem denegrir a nossa imagem e auto-imagem, são permitidas apenas nos nossos noticiários. São características e pertinentes apenas à nossa realidade. Os outros, estrangeiros, não podem criar personagens assim na ficção pois eles pertencem ao nosso dia-a-dia, são figuras extremamente comuns do nosso cotidiano, uns dos nossos. Que os vilões do cinema sejam, portanto, todos estrangeiros. Os nossos serão estrelas dos noticiários. Isso a gente pode suportar. A ficção, aí não, aí é demais. Leo Jaime é cronista do Blônicas. Não me siga, também estou perdida.
De Rosana Hermann. Está difícil formar uma opinião aqui no Brasil. A opinião, como o bolo, requer não apenas os melhores ingredientes mas a combinação lógica e perfeita entre eles para que o resultado tenha sentido e sabor. A ordem dos fatores numa receita altera totalmente o produto. E o bolo da vida nacional já queimou há muito tempo. Na pauta do dia temos várias tragédias acumuladas: o choque entre os aviões Boing e Legacy, o buraco do metrô e este crime bárbaro do menino arrastado pelo cinto de segurança. O primeiro escancarou a capenguice do sistema de controle de tráfego aéreo no nosso país. O segundo, o despreparo de empresas públicas e privadas na gerência de riscos e no trato com o cidadão. E o terceiro, o drama de uma família de classe média diante da violência gerada pelo caos social que vivemos. Tudo isso, regado a muita impunidade, lentidão da justiça, corrupção generalizada, educação falida. Ou seja, praticamente não se pode confiar em nada e nem em ninguém. E, no entanto, o país está aí, vivo, seguindo adiante. Como é que pode? Não me pergunte, eu também não sei. Também estou perdida no meio de tudo isso. Não sei bem o que fazer, mas estou fortemente inclinada a tentar salvar o planeta e me engajar em ongs que trabalham contra o efeito estufa, o aquecimento global. Sempre quis salvar os ursos panda mas acho que eles já estão bem cuidados. Eu não sei o que fazer mas eu sei o que não fazer, o que é totalmente inútil. É inútil, por exemplo, discutir religião com fundamentalistas. Melhor conversar com as cortinas, elas são mais razoáveis e flexíveis. Nessas horas, tem gente que fica até feliz porque as tragédias corroboram a tese do fim do mundo, um dos produtos que mais arrecada mensalidades para a garantia da felicidade eterna. É inútil passar emails de revolta com letras cada vez maiores e dúzias de ponto de exclamação. Se fonte grande e pontos de exclamação fossem solução pra alguma coisa os gráficos de São Paulo não estariam desempregados depois da nova lei do Kassab. Outra coisa que não dá em nada é fazer corrente de spam pedindo pra todo mundo colocar uma florzinha na frente do nickname no MSN como forma de protesto contra a morte de João Hélio. Eu sei que a intenção é boa mas vai dar no quê, exatamente? Além de não melhorar nada ainda dá a falsa sensação de que estamos fazendo alguma coisa. É praticamente como comer duas fatias de bolo de chocolate com chantilly e depois colocar adoçante no cafezinho. Não piora mas mascara a visão real do problema. Temo que escrever este texto também não adiante muito, mas se ninguém me seguir vai ser mais fácil na hora de parar ou mesmo de voltar atrás, como acontece numa cena antológica de Forrest Gump quando ele para de correr pelo país. Estou sem rumo. Confundi meus valores. Começo a achar que sempre estive errada em praticamente todas as minhas opiniões. Estou pensando em jogar tudo fora, roupas, objetos velhos, pensamentos, crenças e questionar absolutamente tudo. Se eu encontrar uma árvore frondosa perto de um rio, sou bem capaz de sentar e meditar até me achar novamente. Hoje, vejo o zero, o vazio e o nada como objetivos a serem alcançados. Na atual situação, qualquer nada é bem melhor do que tudo. Rosana Hermann é cronista do Blônicas. O chove-não-molha dos amores líquidos.
De Xico Sá. É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade? “Qualé, rapá?!”, indaga a nobre gazela. E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas. No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero... Cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico: “Você me aceita em namoro”? Suspense, velho Alfred! O amor e as suas malasartes. O amor será sempre dirigido por Hitchcock. “Quer namorar comigo?” No tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga. Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios. Mais do que um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o gloss e a força dos membros inferiores. Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro. O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira. Nada mais simbólico e romântico. Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas... Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra. Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras. Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, outro monstro entre os nossos líricos. Palavras, palavras,palavras... Silêncio, Silêncio, silêncio... Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate. Xico Sá é cronista do Blônicas. Tragédia com J.
De Milly Lacombe. Cheguei em casa, depois do trabalho, e encontrei minha mulher. Como de costume, ela me abraçou, me beijou e disse: Flashback.
De Tati Bernardi. “Acho que é uma balada meio flashback”, ele disse. A tradução para “ele”: meu amigo, seis anos mais novo e...meu estagiário. Continuação... Bebidas coloridas e fumaças doces depois (to falando daquela fumaça branca que eles soltam para dar um clima “disco voador da xuxa aterrisando” e ninguém ver você dançando como uma besta e não de nenhuma droga), lá estava eu me acabando de dançar no meio da pista. Aquele poperô não era de todo mal, sabia? Me lembrava um tempo não muito distante (dez anos atrás?) em que eu era menos crítica e mais feliz. As melhores amigas que se odeiam até que tinham seu charme. A pista ultramastermega lotada também tinha sua utilidade: eu estava praticamente no colo do meu amigo, tamanha era a falta de espaço. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Época ou Caras?
De Henrique Szklo. Eu estava, como de costume, coçando o saco quando fui procurado pela redação da Revista Época para responder a uma entrevista por e-mail. Como não tinha nada melhor para fazer no momento aceitei o desafio. Respondi às perguntas com sinceridade e enviei à revista. Meu contato na redação afirmou que a entrevista fez sucesso e que em breve seria publicada. Meses se passaram e para meu espanto a Revista desistiu de mim. Snif-snif. Motivo: não sou famoso. A conclusão a que cheguei é que a Revista Caras está realmente fazendo escola na imprensa brasileira. Épocaras – Maior mentira que já contou... Épocaras – Seu pior inimigo... Épocaras – Maior arrependimento... Épocaras – O que mudaria em sua aparência, se pudesse? Épocaras – E o que odeia em si mesmo? Épocaras – Quando foi o dia ou a fase mais feliz de sua vida? Épocaras – Seu sonho mais louco... Épocaras – Um lugar especial na Terra... Épocaras – Quem gostaria de ter sido em uma vida anterior? Épocaras – Uma mulher interessante... Épocaras – Um homem interessante... Épocaras – Um símbolo sexual... Continua aqui. Henrique escreve no Blônicas, mas gostaria de ter uma coluna na Caras. Banheiro dos homens.
De Leo Jaime. Quando era criança poucas coisas me fascinavam tanto quanto banheiros e vestiários femininos. Eu queria saber como era. Mais do que saber como era ser mulher, uma questão deveras interessante, queria saber como elas eram. O que elas diziam, como faziam as coisas, como se portavam diante de sua intimidade, de seus corpos misteriosos e valorosamente descobertos? Era um universo a ser desvendado e toda a minha busca após a puberdade, toda a tentativa de descoberta de um abrigo em um corpo feminino ainda abrigava aquela ansiedade infantil: como será que ela é? Leo Jaime é cronista do Blônicas. Ouro de tolo.
De Nelson Botter. Eu quero mais é contrariar. Tolo daquele que se rende aos padrões estéticos de beleza, que só reverencia o óbvio, o imposto, que não se rende ao novo. Veja o caso das mulheres, donas de diferentes belezas nas mais variadas idades. Há quem só queira as curvas delineadas pela pouca idade, dentro da lei de Newton (o da maçã). Tolos. A mulher é o ser mais divino dessa existência, é o toque magistral do criador, e pouco importa a idade, credo, cor, peso ou qualquer outra coisa, toda mulher tem sua beleza, basta ter olhos de enxergar. Fico fulo da vida quando não se valoriza as diferentes fases de beleza de uma mulher. E o pior que a primeira a não valorizar isso é a própria mulher, o ser mais apegado à escravidão estética de nossa era. Que se danem as Vogues, rasguem os folhetos com Giseles estampadas, deixem que Bottero (primo distante deste que vos escreve) saia do museu e invada a nova moda de Milão, com suas deusas de curvas generosas. E o que dizer da beleza renascentista? Aquilo sim é inspiração, quadril largo, maçã (não a de Newton, mas sim a do rosto) cheinha, rosada naturalmente e não por pozinhos químicos. Eu quero mais é contrariar e ser contrariado, ir na contramão do mundo, pintar com cores de Michelangelo ou Leonardo, que viam além. Mulheres magras, ataquem os pratos de comida com todo gosto que puderem, saiam dessa regra estética estapafúrdia e sem fim. Meninas morrem parecendo esqueletos humanos e eu pergunto: que beleza é essa? Culto à morte? E a mocinha em forma de maçã ou perinha que não venha me dizer que os homens não a querem. Bobagem, querem sim, são todos famintos por uma boa fruta. E a mocinha magérrima que não me venha dizer que está gorda, barriguda, ou qualquer outra paranóia sem cabimento. Eu sugiro um bom prato de lasanha para contornar esse problema. É um gozo só. E os homens também brigam com o espelho, assim como as mulheres, entram na faca, esticam aqui, lipoaspiram ali, tudo em nome da eterna luta contra o tempo. Nem HG Wells inventaria máquina do tempo mais cruel. Envelhecer é o maior barato e as pessoas não percebem, estão preocupadas com suas peles, enquanto a vida é muito mais. É preciso se preocupar com o interior de nosso corpo, esse não pode enferrujar, o exterior é supérfluo. O quê? Estou dizendo um monte de bobagens? Lamento que você pense assim, mas me satisfaz, afinal, eu quero mais é contrariar e ser feliz, pois como dizia o Russo na canção: “o mundo anda tão complicado e hoje eu quero fazer tudo com você”. Nelson Botter é cronista do Blônicas. Desabafo de um blogueiro.
De Rosana Hermann. Quando você compra um filhote de cachorro você sabe que além de fazer gracinhas e alegrar a casa ele também vai fazer xixi e cocô no tapete, roer os móveis, puxar a cortina e mastigar seus sapatos. Só um ser humano totalmente inconsciente adquire um animal de estimação acreditando que ele é um bicho de pelúcia que se mexe. Algo semelhante acontece quando você decide ter um blog. A diferença é que neste caso não é o blog que faz xixi e cocô pela rede mas um ou outro internauta anônimo que eventualmente entra nos comentários para deixar seus dejetos. Ao longo desses anos todos de contato direto com o público através de sites e blogs aprendi algumas coisas básicas. A primeira delas e, talvez a mais importante, é que todo ofensor, além de ser um solene filho da puta, é uma pessoa carente. Carente, infeliz e, em última instância, doente. Digo isto com a experiência de quem involuntariamente coleciona alguns desses poucos pervertidos, entre milhares de pessoas bacanas e gentis. Uma dessas criaturas, que gosto de pensar como sendo mulher, é uma chata de galochas que praticamente mora na porta do meu blog. Ela entra todos os dias, várias vezes, o que em tese, seria motivo de gratidão e orgulho. Pelo menos eu me sentiria assim se a freguesa viesse três vezes ao dia na minha padaria para comprar pãozinho quente. No entanto, o que a leva ao blog não é a convivência com outros leitores ou a busca de informação mas o garimpo por acentos em sílabas terminadas em ú. Não é piada, juro. E não adiantaria mandá-la para nenhum lugar adequado ao tema. Ela tem orgasmos, múltiplos, quando encontra um acento errado num ‘u’ ou num ‘i’. E quando não cometo este erro, ela tece comentários de posts anteriores onde a falha ocorreu. E, se não encontra nenhum problema com os acentos, ela sai alucinadamente buscando por vírgulas mal colocadas. Agora, sério, me diz se isso não é uma espécie de transtorno ortográfico compulsivo? Uma outra pessoa, muito mais comprometida e nefasta, está arquivada na minha memória como um homem de pinto pequeno. Extremamente indeciso sobre sua sexualidade, ele assina ora com nomes femininos ora com masculinos, sempre com aquele ódio venenoso de quem desistiu de ser feliz. O tema recorrente para me ofender são assuntos antigos, sempre ligados a trabalhos em tv, que não têm o menor fundamento. Ao que tudo indica, deve ser algum funcionário ou funcionária que demiti ou nem contratei quando tive um cargo que permitia esse tipo de decisão. Os anos passam, a fila anda, gente nasce, gente morre e ele, sempre lá, batendo na mesma tecla. Imagino que o sofrimento dele deva ser imenso. Não consigo pensar em nenhum sofredor maior do que o vingativo amargo. Conheço uma outra pessoa assim, que não consegue ser feliz um único dia na vida, porque arrasta esqueletos produzidos durante décadas, todos amarrados em seu próprio corpo. É muito karma pra uma pessoa só. A terceira e última criatura que vale ser mencionada, porque talvez represente um avatar que você já conheça, é a invejosa profissional. Aquela que sofre com qualquer alegria alheia. Que anda com um alfinete na bolsa para estourar balões de gás das criancinhas. A invejosa é surpreendemente ardilosa e é capaz de fazer pesquisas e contas só para saber quando você gastou no jantar que você descreveu ou a viagem que você fez. Tudo isto, claro, para tentar calcular quanto você ganha, com o único objetivo de invejar seu estilo de vida. A invejosa vibra com seus fracassos, tem frouxos de riso com suas derrotas e ataca assim que fareja um pequeno sucesso conquistado. Ela nunca escreve de forma direta, falando com o blogueiro: ela fala sobre o blogueiro com os outros leitores que, em geral, tenta cooptar para seu covil. Ela bate o pé e diz ‘bem feito’ quando você se dá mal e torce para que você se exploda. Torce apenas, não, ela está sempre pronta para ser a primeira voluntária a apertar o detonador. E se sobrar um dinheirinho, ela doa para financiar a dinamite. Diante desses exemplos a pergunta natural seria, por que manter um blog, então? Para sofrer? Para apanhar calado sem poder saber a identidade dos agressores? A resposta é simples: porque compensa. Porque as alegrias prevalecem. Porque é meu jeito. Porque eu preciso escrever. Porque tenho muitos leitores amigos e amigos leitores. E porque assim como as bactérias têm função vital no equilíbrio de todo organismo, também esses ofensores têm um papel na blogosfera. Eles servem para nos lembrar que o mal existe, que a qualquer momento podemos ser apunhalados. Servem de contra-exemplo para que a gente não caia nessa mesma armadilha e não faça o mesmo com outros. Os infelizes mostram que a infelicidade é um fardo insuportável que devemos evitar durante a vida, perdoando, compreendendo e deixando pra lá sempre que possível. No Fashion Week da Vida eles são aqueles modelos que a gente deve ver para jamais copiar. A única coisa que lamento mesmo é que, também ao contrário dos cães, não seja possível aplacar essas dores, iras e males desses leitores para que eles se libertem das amarras da infelicidade. Acredito que não seja possível ensinar essas pessoas a fazer cocô no lugar certo, como se faz com os bichinhos. Porque enquanto o cachorro, o gato, querem distância dos seus excrementos, essas pessoas fazem questão de deixá-los perto de si mesmas. Fazer o quê. Dizem que cada um dá o que tem de melhor. Vai ver elas só tem isso para oferecer ao universo. Rosana Hermann é cronista do Blônicas. O dia que surfei Bruna.
De Carlos Castelo. Tocou a campainha do flat com o coração na boca. - Você gosta de ler, hein? – perguntou, ainda suando em bicas. Bruna virou-se de bruço. Fonseca pensou na enorme quantidade de homens que se deliciaram com aquela visão antes dele. - Gosto – disse ela, lambendo com jeito malicioso o polegar de Fonseca – mas minha paixão no fundo é escrever. O assunto se desviava do sexual direto para o literário. Fonseca ficou meio na dúvida: “mas escrever o quê, e-mails para o cafetão?”. Ainda assim, apesar de não ser muito afeito ao tema (estudara Direito numa faculdade interiorana e o último livro que lera tinha sido de Malba Tahan) foi aprofundando a história. - Algum escritor favorito? – perguntou, gentilmente. Bruna agora estava sentada sobre as coxas, reta e atenta. O calibre daquelas pernas mostrava, em todo magnitude, o seu potencial mortífero. - São tantos. Mas para o tipo de abordagem documental que eu faço, prefiro mais um Truman Capote do que esses revolucionários da linguagem, tipo Virginia Woolf - apesar de ter gostado bastante de “Orlando”. Fonseca ficou excitado com a maneira como Bruna se definiu e partiram para um segundo “round”. - Tenho certeza que você está estranhando uma garota como eu com esse papo-cabeça, não é? De olhos cerrados, o cliente de Bruna não disse palavra. O sono o pegara. Ela seguiu monologando. - Tive formação boa, sabe? Não estudei Letras, não fui pra Universidade no Exterior, não fiz pós-graduação, doutorado, nada dessas coisas. Mas sempre fui uma autodidata superdisciplinada Por isso, apesar de tudo, estou botando fé no meu projeto. Fonseca se espreguiçou e deu um longo suspiro. Meio dormindo, meio acordado só conseguiu balbuciar: - …huummm, projeto? - Um livro sobre minhas experiências sexuais, baseado no meu blog...- explicou Bruna. - …bló…? - Morfeu parecia tê-lo jogado mesmo nos braços. Bruna fez-lhe um cafuné. Depois completou com voz angelical: - Ô meu dorminhoquinho, o blog da Bruna Surfistinha, sabe? Carinho tão maternal fez Fonseca ferrar no sono de uma vez por todas. Alguns meses depois, ficaria imortalizado como personagem da literatura brasileira. Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Domingo.
De Milly Lacombe. Sentada no chão da sala, xícara de café ao alcance das mãos, folheio os jornais dominicais. O mundo, superaquecido, parece estar acabando. O novo presidente da câmara, conformadíssimo, diz que a corrupção não é privilégio nosso: trata-se de um mal mundial, e, pela grandeza do troço, ele não tem a menor idéia de como combatê-lo. E o homem foi eleito mesmo com esse vazio de iniciativas. Ou, é bastante provável, por causa dele. Os 513 deputados, donos de supersalários, conferidos por eles mesmos a eles mesmos, tomam posse na babilônica Capital Federal. Novos e velhos milionários da pátria, movidos por uma nobre idéia apenas: ajudar o Brasil a prosperar. No Iraque, atentado mata 150. E, nos Estados Unidos, Bush pede mais dinheiro para continuar em Guerra. Enquanto isso, em Miami, os milionários e injustiçados líderes apostólicos da Igreja Renascer em Cristo, vítimas de uma diabólica conspiração agnóstica, continuam detidos. Pior: sem poder colocar as mãos nos módicos 51 mil dólares que levavam em espécie. Mas a fé há de sobreviver porque, ainda este ano, vem ao Brasil o santo homem, o super Papa que veste Prada, um sujeito não menos rico e afortunado do que nossos apóstolos detidos em Miami. A viagem mais cara de nossas vidas é, certamente, essa que nos levará aos céus. E, enquanto pagamos para ter direito a ela, vamos enriquecendo essa gente importante que tem mais intimidade com o divino - abençoados agentes de viagens sagradas. Nada mais justo. Levanto e coloco mais café na xícara. No caminho de volta à sala, onde pretendia continuar a ler notícias sobre o fim dos tempos, encontro o meu amor arrumando o armário. Querendo colo, vou atrás de um despretensioso abraço. A música convida e começamos a dançar, muito devagar. Lá fora, o mundo ainda está acabando - seguimos vítimas aprisionadas do estabelecimento. Mas, em poucos segundos, já não me importo mais. Aqui dentro, estou livre e agasalhada - a vida ganhou ritmo e compasso. Fecho os olhos, grudo um pouco mais no meu amor e sorrio: há por onde escapar. Milly Lacombe é cronista do Blônicas. Depois que você me mandou limpar os óculos.
De Tati Bernardi. A mesa rodava, as luzes insistiam, os barulhos iam cessando como um prêmio e as pessoas tentavam me aquecer. Eu sabia que estava sendo amada, talvez como nunca em toda a minha vida. Mas só tinha olhos para os pêlos do seu braço. Eu olhava como quem não olha e me dizia baixinho: olha eles lá, olha lá os pêlos que eu tanto amo sem mais e sem fim. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Para Iemanjá.
De Marcelino Freire. Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo, esse breu. Peixes entulhados, assassinados. Minha Rainha. Não são oferenda essas latas e caixas. Esses restos de navio. Baleias encalhadas. Pingüins tupiniquins, mortos e afins. Minha Rainha. Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca. Essas flores de bosta. Não mijei na tua praia. Juro que não fui eu. Minha Rainha. Oferenda não são os crioulos da Guiné. Os negros de Cuba. Na luta, cruzando a nado. Caçados e fisgados. Náufragos. Minha Rainha. Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha. Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo. Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão. Minha Rainha. Se a minha esperança é um grão de sal. Espuma de sabão. Nenhuma terra à vista. Neste oceano de medo. Nada. Minha Rainha. Marcelino Freire é cronista do Blônicas . O texto/canto acima foi criado especialmente para o evento “Iemanjarte”. A pequena Miss Sunshine.
De Leo Jaime. De tanto em tanto aparece um filme como este, cheio de estilo e inteligência, talento e peculiaridade e, talvez por isso, orçamento pequeno. Lembro-me do impacto que foi assistir ao primeiro de Kevin Smith, O Balconista (Clerks). Ou mesmo o Cães de Aluguel (Reservoir Dogs), de diretores também estreantes. Não quero dizer que só quem tem orçamento pequeno faça bons filmes, mas o fato é que as soluções para a grana curta vão depender muito mais do talento das pessoas e, em especial, do roteiro. O balconista era filmado de forma muito simples e sem nenhum grande ator. Cães de aluguel era um excelente roteiro, se não me engano o terceiro de Tarantino a ser filmado, e contava com atores mais tarimbados. Pequena Miss sunshine tem um roteiro excelente, atores perfeitamente escalados para os papéis e que brilharam de uma forma surpreendente no filme. Um exemplo: a estreante de 10 anos de idade que foi até indicada para o Oscar, sem fazer um papel melodramático. Comediantes serem indicados para prêmios é sempre novidade. Nessa idade e sendo estreante é quase como ganhar na loteria. Não quero aqui dar uma de crítico e muito menos contar o filme para quem ainda não viu. O que posso dizer, levando tudo em conta, é que em relação aos dois outros filmes que mencionei, e não quero também dizer que aqueles dois são as estréias mais importantes dos últimos tempos, enfim, a história de Pequena Miss Sunshine é deliciosamente universal e possível, ainda que meio absurda. As personagens são todas muito bem delineadas e críveis, sem estereótipos, mesmo sendo tipificadas. Contraditório? Mais ou menos. Há humanidade suficiente em cada um do enredo para fazer crer que cidadãos terrivelmente comuns também sejam absolutamente singulares. E é neste aspecto que narrativa se destaca. Pequena Miss Sunshine foi um dos filmes mais engraçados que já vi. Nem por sonho diria que poderia ser indicado ao Oscar. Assisti, por sinal, na noite anterior a da divulgação das indicações. Grande parte dos membros da Academia são atores. O sindicato dos atores votou no elenco como o melhor do ano. Supor que ele chegue ao Oscar como favorito não é exagero, mesmo sem ter assistido a todos os concorrentes. A América e suas esquisitices estão ali. E é disso que sinto falta em filmes brasileiros: contar estórias sem favelas e presídios como cenário e que mostrem o país em sua intimidade. O submundo existe, a ditadura precisa ser documentada e tudo o mais, mas boas histórias não necessitam destes elementos. E estas teclas já foram muito marteladas. Boas idéias, gente talentosa e uma boa história. Isso basta. Até pra entrar para a história. Leo Jaime é cronista do Blônicas. |