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Oscara-de-pau.

De Marcelino Freire.

Globalização é isso. Os excluídos tomando a festa. Desde o tapete vermelho. Por que não verde, ora? Ecologicamente é a cor do dinheiro. E a do dólar. Façamos mea-culpa pelo aquecimento global. Bush, que nada! Temos Al Gore. Estatueta para ele. Nosso ex-quase-presidente. De boas intenções o Iraque está cheio.

Os americanos estão com medo de tanto ódio. O planeta em alerta. Pronto para atacar. Doido para fazer mais merda. Por isso, creio, aquele desfile durante a entrega do Oscar. Uma cota para negros. Asiáticos. Espanhóis. Gays. Velhos. Crianças. Gordinhas e até carecas. Não vêem como somos legais! É do Jack Nicholson que elas gostam mais.

Menos a apresentadora, lésbica assumida. “O que seria deste prêmio sem a gente?”, provocou ela, enfim. Teve até beijo homossexual na platéia. Com uma mão se brinda à Rainha. E com a outra a Idi Amin. Falamos uma só língua. Cinematográfica. Teve homenagem a Itália na figura do Enio Moricone.

E até um filminho-didático explicando o que é ser americano. Viram? Não somos tão egoístas. Nem tiranos. Demos, inclusive, um Oscar honorário a uma ex-produtora, agora protetora dos direitos humanos. E ainda: Di Caprio discursando sobre a camada de ozônio, sei lá. Juntos venceremos. Juntos chegaremos lá. Onde? Em Bagdá.

Não barramos mexicanos. Quem disse? Aí está Iñarritu que não nos deixará mentir. Sozinhos. E mais: as três premiações ao Labirinto do Fauno. Sem contar nosso clipe-louvação ao cinema estrangeiro. Menos ao brasileiro. Eta danado! Nunca ganhamos nada. Ficamos de fora. Talvez por causa da queimada. Amazônica. Ou por causa do filme Turistas.

Um dia, com certeza, chegará a nossa hora. Já estivemos tão perto. De o Brasil dar certo. É preciso paciência. Mirem-se na persistência do Martin Scorcese. Infiltrado, finalmente. Ave! Pelo conjunto da obra. Ou seja: mais um incluído. No circo e na roda.

Foi o amigo e escritor Marcelo Mirisola quem me falou: “hoje em dia o negócio é ser um excluído”. Não faltará apoio de todo tipo. ONGs, causas nobres, entidades, passeatas, novela de Manoel Carlos na TV. Porque tudo acaba em festa. É disso que Hollywood gosta.

É isso que a gente paga para ver.

Marcelino Freire é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h16
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Papai eu quero me casar.

De Xico Sá.

“Papai eu quero me casar!/ô minha filha, você diga com quem!...”

Lembram dessa loa, à moda do velho e genial Faceta, cantada por Didi Mocó e Zacarias, ainda nos finalmente dos anos 80?

E conforme a mocinha ingênua ia enumerando os ofícios dos seus pretendentes, o ciumento papai a fazia esmorecer da idéia sinistra, sempre lembrando os perigos que representavam aqueles modestos profissionais.

A música se chama, óbvio, “Casamento”, repare só nesta estrofe, verdadeiríssima:

“Zacarias: Papai eu quero me casar!
Didi: Oi, minha fia, ocê diga com quem!
Zacarias: Eu quero me casar com o padeiro!
Didi: Com o pandeiro ocê num casa bem!
Zacarias: Por que, papai?
Didi: O padeiro mete muito a mão na massa...
Zacarias: É?
Didi: E adepois vai amassar ocê tumém!
Zacarias: Ah, quero não!!!

E por ai afora. Tem o motorista que aperta muito a buzina, o vaqueiro que tira leite da vaca, o economista (ofício em alta na época da hiperinflação) que mexe muito com a poupança, o Ney Matogrosso que vira homem-lobisomem e quando é homem não faz medo pra ninguém...

Resgatada por Miss Soledad no verão do Recife, a canção dos Trapalhões nos sugere uma atualização dos perigos das profissões que até existiam no tempo áureo de Didi Mocó, mas não tinham lá tanta importância assim.

O DJ, por exemplo, minha filha, vai fazer scratch (aquelas mexidas bruscas e sensacionais no vinil) nas picapes... e depois vai fazer sratch a noite toda no seu corpinho também.

Papai eu quero me casar...

Eu quero me casar é com um hacker, mas com um hacker você não casa bem.

Por que, papai?

O hacker vai fuçar as senhas proibidas da Internet... e depois escarafuncha você também!

Papai eu quero me casar...

Com um agente de artista você não casa bem. Por que papai? O agente vai cuidar da atriz famosa... e depois vai difamar você também!

Eu quero me casar é com um blogueiro, ó minha filha, você não casa bem, o blogueiro vai postar a noite inteira... e não sobra nada para postar em você também.

E com um cineasta moderno, papai?

O cineasta vai demorar para captar recursos para o primeiro longa... e vai faltar é longa-metragem pra você também!

Papai eu quero me casar... Eu quero me casar com um estilista, com um estilista você não casa bem...

Por que papai?

O estilista só costura é pra fora... e vai esquecer de coser você também!

Papai eu quero me casar... [Agora é com vocês, generosos leitores!]

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h27
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Carnaval mudo.

De Carlos Castelo.

A não-musa de Caetano, Luana Piovani, citando artigo do aprendiz-de-paulo-francis Diogo Mainardi, declarou em pleno sambódromo carioca que o Carnaval deveria ter sido cancelado. Claro, em função da violência em geral e mais especificamente por causa da terrível tragédia com um garoto de apenas seis anos de idade.

Uma declaração paradoxal para quem estava sambando no pé num camarote, mas que abre uma avenida de ilações.

Do meu ponto-de-vista, julgo que Mainardi pensou pequeno. O Carnaval não deveria ser adiado. Seria ainda mais eficiente como protesto readaptá-lo à irrealidade cotidiana.

Nossas Saturnais empregam diretamente milhares de pessoas, indiretamente geram comerciais de tevê, merchadisings milionários, sem falar do oba-oba na mídia nacional e gringa. Isso significa aumento do produto nacional bruto.

Cancelar o Carnaval seria deixar na “street” ainda mais brasileiros. E tal fato aumentaria ainda mais os nossos já baleados índices de violência. Sem falar nos famigerados índices de Educação.

Caberia então promover uma festa momesca diferente dos padrões reinantes.

Nos desfiles, por exemplo, as escolas marchariam em silêncio. Todas as alas fantasiadas, todos os carros alegóricos faiscantes, todas as linhas de frente garbosas.

Porém sem emitir um canto, um refrão, os tambores inteiramente calados.

As baianas não rodariam, os destaques não acenariam para a platéia, nem a porta-bandeira promoveria evoluções.

Nada mais, nada menos do que um Carnaval mudo.

Mas poderia haver variantes. Afinal, o Brasil, incontinenti, continua sendo um país continente.

Na Bahia os trios elétricos sairiam normalmente às ruas - inclusive o uso de mortalhas pelo público seria bastante bem-vindo. Como estes gigantes caminhões foram feitos para soar, soariam. Mas os tocadores de paus-elétricos brindariam a galera com a “Marcha funeral de um marionete”, de Gounod. Ou então com a clássica “Toccata e Fugue em D Minor”, de Bach.

Em Olinda, os blocos  tradicionais fariam suas andanças, mas apenas nas dependências do cemitério local. Evidente que, em silêncio respeitoso, pois um povo civilizado não profana lugares sagrados assim, a torto e a direito.

Já em São Paulo, tido e havido como túmulo do samba, os desfiles talvez nem precisassem ser cancelados.

Com tais medidas manteria-se tudo como sempre foi - já que não é nosso forte mesmo mudar nada. Porém, a atitude seria, ao menos, mais alinhada ao sentimento crônico das massas: uma muda e acomodada perplexidade.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h31
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Terça de carnaval.

De Nelson Botter.

 

Foliões vitaminados etilicamente se espremiam no salão ao som de uma marchinha de carnaval, enquanto ela passava pelos seguranças e se juntava ao mar de gente. Estava disposta a rasgar a fantasia naquela noite. Com olhos rápidos e certeiros procurava por seu objetivo no meio da multidão. Quanta gente, oh quanta alegria, mais de mil palhaços no salão e a Colombina procurando por outra Colombina, mais precisamente aquela que poderia vir a ser seu Pierrô apaixonado.

 

Entre um esbarrão e outro foi avançando até o fundo do salão, e perto do balcão do bar conseguiu encontra-la. Lá estava, cabelos longos e ondulados, expressão compenetrada, traços finos e bem simetricos. Estava linda, como sempre. Se aproximou rapidamente, e a mulher – ao vê-la – largou  o copo cheio de uma bebida qualquer na mesa ao lado. A mulher se adiantou e a abraçou.

­

– Que bom que você veio – disse a mulher.

– Foi difícil...

– Você não vai se arrepender, farei valer a pena.

– Por isso eu vim.

– Você está linda.

– Sou sua Afrodite.

– Eu te amo.

– Me beije...

 

As duas trocaram um beijo apaixonado. Ali, naquele instante, não havia mais ninguém no salão, todos os medos da intolerância alheia se dissiparam. A noite era só delas.

 

A mulher sorriu e ofereceu um pouco de sua bebida. Ela aceitou, bebeu e beijou sua amante mais uma vez. Era uma felicidade tremenda poder colocar para fora toda aquela paixão que lhe perturbara durante meses. Agora era a hora de extravazar e não permitir que todas as dúvidas e questões morais atrapalhassem sua plena felicidade.

 

A máscara finalmente havia caído, ali, naquele baile de carnaval, ao som de uma fanfarra qualquer. Aquele beijo acabava de enterrar a mãe carola, o pai castrador, os amigos preconceituosos, a família que a pressionava por um novo casamento, a pequena filha mimada e – principalmente – sua busca por uma identidade, por seu verdadeiro eu. Noites e noites de luta, mas agora a bússola apontava para o norte.

 

De mãos dadas dançaram e se divertiram a noite toda, esperando pelo amanhecer que traria a cama e carícias tão íntimas que o verdadeiro pecado daquilo tudo seria não cometê-lo.

 

Ao contemplar o nascer do sol na manhã seguinte, bebericou uma xícara de café quente, olhou para seu amor que dormia feito uma criança e sentiu-se plena e revigorada. Era uma verdadeira Fênix, renascida no sol daquela quarta-feira, que era de cinzas.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h04
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Always on.

De Rosana Hermann.

Acabei de ler um texto bastante interessante sobre a vida "Always on", um manifesto 2.0 chamado Privacidade e Preconceito, no SkypeJournal. O tema é 'reassumir o controle da comunicação em tempo real no mundo ‘SempreOn'.

O autor começa contando sobre uma visita que ele fez ao museu Alexander Graham Bell. Lá, ele descobriu um detalhe importante sobre o estilo de vida do inventor do telefone. Em todas as casas onde ele morou Bell tinha uma sala (escritório e laboratório) onde ele podia pensar, experimentar e escrever durante as horas noturnas. Nesta sala não havia telefone. Bell acreditava que suas experiências não podiam ser interrompidas durante as horas gastas em seu escritório pessoal. Um outro folclore mais atual diz que a família do CEO da Blackberry, Jim Balsillie, exige que ele deixe o seu aparelho na porta assim que entra em casa.

Aqui no Brasil nós que somos viciados em celulares (100 milhões deles já) e Internet parecemos gostar da interrupção. Aceitamos e promovemos este tipo de atividade sem problemas. Não porque a comunicação seja urgente mas porque acreditamos que a 'simpatia' seja mais importante do que a concentração. Há controvérsias. Pessoalmente, prefiro o respeito ao excesso de gentileza que, em geral, é mais uma questão de ansiedade da outra pessoa do que de fato um desejo incontrolável de desejar de fato que eu tenha um dia maravilhoso.

O que parece não estar claro é a diferença entre estar sempre online e estar disponível. Uma pessoa que trabalha na rede está sempre online. E durante todas as horas de sua produção estará na Internet. Sabe, a pessoa que trabalha online tem o direito de possuir MSN, Skype e ficar no ocupado. Ela está ocupada para o mundo dos papos avulsos mas usa o comunicador para falar de trabalho com seus pares. É normal, acontece mesmo. O que não significa que ela está disponível para conversas à toa, especialmente com desconhecidos..

Aqui, um parêntese: se você vai falar com alguém que você não conhece, o ideal é economizar tempo e telas. Ao invés de começar dando um oi, depois vem o tudo bem, seguido de quem é você, de onde você tecla e etc,  seja objetivo. Coloque-se. Diga quem você é, o que deseja, o que procura num parágrafo só. E, claro, mande esta mensagem apenas para quem está mostrando que está disponível para conversas.

O problema é que o brasileiro é inseguro e melindroso. E egóico. Só consegue pensar em si e não no outro. Ele sente vontade de falar com você e não se constrange em interrompê-lo. Por que ele deveria? Ele quer, ele faz, você que agüente. E quando ele leva um não na cara, mesmo que venha todo cheio de explicações, ele fica todo ofendido, vira seu inimigo. Alguns partem pro contra-ataque, como se tivessem sido atacados.

Projeto no mundo real: seu vizinho mora ao seu lado mas o fato de estar tão próximo não significa que você possa bater em sua porta ou tocar a campainha a qualquer momento e ser recebido com beijos e petiscos. No mundo real não se entra em festa sem convite, não se visita pessoas sem ser chamado e nem se arromba a porta do vizinho que você nem conhece.

Indo um pouco mais fundo numa tentativa de interpretar o fato e não apenas de condená-lo, encontramos um forte indício de solidão, de incapacidade de ficar só consigo mesmo. A maioria das pessoas não consegue esperar um minuto numa fila, numa sala de espera. Basta ficar a sós que ela pega o celular e liga pra alguém, qualquer um e já começa com um ‘e aí, o que você me conta de novo?’, como se ela não pudesse ficar um segundo sem uma nova informação, sem interagir, sem ficar com seus botões.

Essa ansiedade permanente, esta necessidade de falar sem parar, este impulso de interromper para dizer que existe mostram que o mundo está cada vez mais tenso, veloz, interativo e, simultaneamente, intensamente solitário. Mas tem tratamento. É só parar para pensar. Contanto que ela consiga parar primeiro.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h10
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Coisa de cinema.

De Leo Jaime.

A coisa funciona mais ou menos assim: resolvem fazer um filme em holywood e a trama se passa no Brasil. É um filme de horror em que personagens sádicos, vestidos de policiais, param pessoas na rua e se divertem muito humilhando e torturando esses transeuntes,  sem nenhuma acusação ou aparente motivo para deles ter algum tipo de raiva. De quebra ainda pegam os objetos e documentos destes passantes, o que caracterizaria um roubo a mão armada, só para queimar depois da sessão de lazer violento. Pois é, este filme com personagens absurdos seria motivo de uma  lista na internet, com abaixo assinado protestando contra a imagem do Brasil sendo prejudicada por esta ficção. Pois é. Para os brasileiros não se pode usar o nome do Brasil em estórias assim. Se o bandido do 007, ou de qualquer outro filme em que vilões queiram destruir o mundo e arredores, for americano ou de qualquer outra nacionalidade, tudo bem! Só não se deve escrever em nenhuma ficção que um bandido desta natureza seja brasileiro. Isto pode ofender nossos brios.

Serial-killers, pedófilos ou mesmo serial-killers pedófilos também estão vetados na ficção se forem compatriotas.  Por exemplo, alguém faz um roteiro e coloca uma cena de uma criança sendo arrastada por um carro durante 15 minutos, sem nenhum motivo que explique a crueldade, só pra distrair mesmo, e vão dizer que é injusto colocar essa cena como vivida nas paisagens da cidade maravilhosa. Como assim? A despeito da obsessão que nosso cinema tem sobre os temas violência, miséria e ditadura, não necessariamente nesta ordem, o cinema internacional não está habilitado, ano nosso ver, para mencionar estas coisas.

Pelo que percebo, estas cenas que tanto podem denegrir a  nossa imagem e auto-imagem, são permitidas apenas nos nossos noticiários. São características e pertinentes apenas à nossa realidade. Os outros, estrangeiros, não podem criar personagens assim na ficção pois eles pertencem ao nosso dia-a-dia, são figuras extremamente comuns do nosso cotidiano, uns dos nossos.

Que os vilões do cinema sejam, portanto, todos estrangeiros. Os nossos serão estrelas dos noticiários. Isso a gente pode suportar. A ficção, aí não, aí é demais.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h59
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Não me siga, também estou perdida.

De Rosana Hermann.

 

         Está difícil formar uma opinião aqui no Brasil. A opinião, como o bolo, requer não apenas os melhores ingredientes mas a combinação lógica e perfeita entre eles para que o resultado tenha sentido e sabor. A ordem dos fatores numa receita altera totalmente o produto. E o bolo da vida nacional já queimou há muito tempo.

 

         Na pauta do dia temos várias tragédias acumuladas: o choque entre os aviões Boing e Legacy, o buraco do metrô e este crime bárbaro do menino arrastado pelo cinto de segurança. O primeiro escancarou a capenguice do sistema de controle de tráfego aéreo no nosso país. O segundo, o despreparo de empresas públicas e privadas na gerência de riscos e no trato com o cidadão. E o terceiro, o drama de uma família de classe média diante da violência gerada pelo caos social que vivemos.  Tudo isso, regado a muita impunidade, lentidão da justiça, corrupção generalizada, educação falida. Ou seja, praticamente não se pode confiar em nada e nem em ninguém. E, no entanto, o país está aí, vivo, seguindo adiante. Como é que pode?

 

         Não me pergunte, eu também não sei. Também estou perdida no meio de tudo isso. Não sei bem o que fazer, mas estou fortemente inclinada a tentar salvar o planeta e me engajar em ongs que trabalham contra o efeito estufa, o aquecimento global. Sempre quis salvar os ursos panda mas acho que eles já estão bem cuidados. Eu não sei o que fazer mas eu sei o que não fazer, o que é totalmente inútil.

 

         É inútil, por exemplo, discutir religião com fundamentalistas. Melhor conversar com as cortinas, elas são mais razoáveis e flexíveis. Nessas horas, tem gente que fica até feliz porque as tragédias corroboram a tese do fim do mundo, um dos produtos que mais arrecada mensalidades para a garantia da felicidade eterna.  É inútil passar emails de revolta com letras cada vez maiores e dúzias de ponto de exclamação. Se fonte grande e pontos de exclamação fossem solução pra alguma coisa os gráficos de São Paulo não estariam desempregados depois da nova lei do Kassab. Outra coisa que não dá em nada é fazer corrente de spam pedindo pra todo mundo colocar uma florzinha na frente do nickname no MSN como forma de protesto contra a morte de João Hélio. Eu sei que a intenção é boa mas vai dar no quê, exatamente? Além de não melhorar nada ainda dá a falsa sensação de que estamos fazendo alguma coisa. É praticamente como comer duas fatias de bolo de chocolate com chantilly e depois colocar adoçante no cafezinho. Não piora mas mascara a visão real do problema.

 

         Temo que escrever este texto também não adiante muito, mas se ninguém me seguir vai ser mais fácil na hora de parar ou mesmo de voltar atrás, como acontece numa cena antológica de Forrest Gump quando ele para de correr pelo país.

 

         Estou sem rumo. Confundi meus valores. Começo a achar que sempre estive errada em praticamente todas as minhas opiniões. Estou pensando em jogar tudo fora, roupas, objetos velhos, pensamentos, crenças e questionar absolutamente tudo. Se eu encontrar uma árvore frondosa perto de um rio, sou bem capaz de sentar e meditar até me achar novamente. Hoje, vejo o zero, o vazio e o nada como objetivos a serem alcançados. Na atual situação, qualquer nada é bem melhor do que tudo. 

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h38
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O chove-não-molha dos amores líquidos.

De Xico Sá.

É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade?

“Qualé, rapá?!”, indaga a nobre gazela. E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas.

No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero...

Cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico: “Você me aceita em namoro”?

Suspense, velho Alfred!

O amor e as suas malasartes.

O amor será sempre dirigido por Hitchcock.

“Quer namorar comigo?”

No tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga.

Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios.

 Mais do que um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o gloss e a força dos membros inferiores.

Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro.

O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira.

Nada mais simbólico e romântico.

Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas...

Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra.

Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras.

Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, outro monstro entre os nossos líricos.

Palavras, palavras,palavras...

Silêncio, Silêncio, silêncio...

Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h23
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Tragédia com J.

De Milly Lacombe.

Cheguei em casa, depois do trabalho, e encontrei minha mulher. Como de costume, ela me abraçou, me beijou e disse:
 
- Você escreveu pretensioso com c.
- E não é com c?
- Não, claro que não.
- É com s, imagino.
- O que você acha?
- Como você sabe que escrevi com c?
- Porque li o Blônicas hoje. E tem gente descascando você. Tem gente que acha que não foi você que escreveu, que foi um invasor ou coisa parecida.
- É?
- É.
- Ótimo. Tá resolvido. Vou escrever no domingo dizendo que sinto muito, mas um hacker que sabe pouquíssimo sobre a língua portuguesa invadiu meu espaço, e fica tudo certo.
 
Ela riu, sem imaginar que eu estava, de verdade, considerando a possibilidade.
 
Desisti quando lembrei que já sobrevivi à tragédia com J, assento de carro com C e, por vários anos, à confusão que fazia entre as letras V e F, e P e B (escrevia faca quando queria escever vaca, e focê quando buscava você, para citar apenas duas pataquadas).
 
Mas a verdade é que não era sobre isso que queria falar. Queria falar sobre João Hélio Fernandes. João foi morto de forma estupidamente selvagem por marginais que o arrastaram, metade de seu corpo para fora do carro, enquanto dirigiam ferozmente pelas ruas da zona norte carioca. João tinha seis anos. O país parece ter ficado indignado, manifestações pipocam aqui e ali, a maioridade penal ficará sob o holofote. Mas a pergunta que não quer calar é: de quem é a culpa?
 
A culpa direta é dos selvagens que roubaram o carro e, mesmo sabendo que havia uma criança com o corpo pendurado para fora, continuaram acelerando. Esses devem ser punidos, não há o que discutir aqui.
 
Mas e a outra culpa? A culpa que faz com que selvagens como esses estejam se multiplicando por aí? Essa, para mim, fica em Brasília e nas mãos de todo o empresário que se corrompe, e rouba, e sonega, e desvia.
 
Somos, em âmbito internacional, uma economia forte. O dinheiro, bem ou mal, entra. Mas  não chega às camadas mais baixas porque pára na corrupção de nossos políticos e empresariado. É ali que ele é distribuído, na forma de mensalões, comissões ilícitas, desvios. Fica por ali, para que a classe que nos domina tenha cinco carros, aviões particulares, fazendas inoperantes, dinheiro depositado em bancos suiços para eventuais emergênicas.
 
Quem chega ao poder para ajudar às classes mais baixas? Pouquíssimos. A maioria chega com um plano de enriquecimento, a fim de garantir o seu e o de sua família pelos próximos anos. E, por conta dessa fome de poder e de grana, o dinheiro não chega à base da pirâmide. Se não chega, não há como garantir o básico: saúde, educação, segurança. Sem isso, o homem vira bicho, vira um animal, capaz de despedaçar o corpo de uma criança pelas ruas da cidade.
 
Tudo fica ainda mais feio se esse cidadão, que nunca teve oportunidade na vida, que sempre foi um vazio de moral, sai às ruas e vê, nos sinais, nosssos homens do poder e status dentro de carros blindados, avançando sinais vermelhos com medo de serem, cedo ou tarde, vítimas de um marginal, um menino que não teve a menor chance de ser alguém na vida, e que acabou se transformando em um monstro.
 
Agora, preparem-se: um grande show de hipocrisia varrerá nosso país. Esses mesmos polícos que têm as mãos sujas de sangue darão entrevistas mostrando-se desconsolados com a violência, e prometendo, pelo povo, mudar a lei, ou fazer de tudo para que os verdadeiros culpados sejam punidos. Dirão isso e entrarão em seus carros blindados para ir jantar em algum restaurante no qual a garrafa de vinho não sai por menos de 500 reais. Eu também adoraria ter um barco, um avião, uma ilha particular. Não tenho nada contra ser milionário, desde que, a meu redor, não haja gente que não tem o que comer. E desde que o dinheiro que me garanta tanto conforto não tenha sido roubado de quem não tem nada.
 
Seremos nós, então, os culpados? Nós que reelegemos esse bando? Nós que não arregaçamos as mangas para entrar na vida pública e tentar mudar o cenário? Não há como tirar a culpa que existe em cada um de nós. Simplesmente, não há.
 
E enquanto continuarmos passivos, revoltados apenas da porta de casa para dentro, enquanto nossa classe dominante continuar desviando verba pública, verba do povo, verba que poderia ser usada em saneamento, em escolas, em segurança, para enriquecimento próprio, nossos pequenos e indefesos Joãos continuarão a pagar a conta. E essa seja, talvez, de tão horrenda, a verdadeira tragédia com J.
 
Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 19h05
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Flashback.

De Tati Bernardi.

“Acho que é uma balada meio flashback”, ele disse. A tradução para “ele”: meu amigo, seis anos mais novo e...meu estagiário.
Eu era a última solteira das minhas amigas e estava sozinha em um casamento com 456 casais cheirando a mofo e sexo mecânico (todos me olhando com aquela carinha de “calma tia, sua hora vai chegar) e achei que a idéia merecia uma análise, afinal: a maquiagem tinha custado cara demais para eu ir dormir antes de borrá-la.
Flashback não tinha descido direito pela goela e, pra piorar, ele disse o nome que me arrepia de nojo dos pés à cabeça: Vila Olímpia. Mas pensando bem… não era uma pena terminar a noite com um vestido tão caro e nenhum amassadinho nele? Resolvi arriscar.
Assim que cheguei na porta da balada, dei aquele tapa de desenho animado na testa: que porra to fazendo aqui? Era justamente um daqueles lugares que dedico uma vida a maldizer: garotos bombados, garotas iguais, música ruim, gente perdida que circula sem parar e/ou dança em círculos.
Já estava dando seta no carro para desintegrar o mais rápido possível dalí quando ele ligou: “nem precisa pegar fila, meus amigos MANDAM aqui”.
Medo. Essa coisa de ter amigo que “manda” na balada não combina muito comigo, mas eu já estava lá mesmo, não estava? Ainda era cedo pra dormir mas já era muito tarde para tentar arrumar outra coisa para fazer. Continuei em frente.
Já na entrada, um daqueles típicos seguranças armários de recintos playba (baladinha cult tem hostess lésbica tatuada ou gay que transa mulheres aos sábados) me parou pra fazer aquela encenação que eles adoram. “Segura aí senhorita que eu to recebendo instruções”. Sabe a síndrome dos pequenos poderes? Sabe o zelador dono do prédio? Sabe a recepcionista metida que se acha amante do dono só porque ele fala bom dia princesa às sextas-feiras? Sabe guardinha de bairro que adora ajeitar o cinto pra mostrar a pistolinha? Odeio gente medíocre. Balada playba sempre tem um armário medíocre na entrada. Aquele que é o me-lhoooooor amigo das idiotinhas promoters e seus flyers mas nunca pega nenhuma porque não tem carro importado.
Enfim, depois do showzinho do armário das Casas Bahia (sem direito a ganhar um puff ou um rack) eu pude entrar. A visão de dentro era um pouco mais infernal que a de fora. Não havia sequer um centímetro de metro quadrado que não fosse ocupado por alguma encéfala de tomara que caia ou algum ferormônio macho de regata Diesel. Cascas somente, era só decifrar qualquer segundo de papo furado para descobrir que o R da poRta era a letra com maior volume e ênfase.
Pensei em comunicar ao armário das lojas Marabrás que muito obrigada mas eu não ia ficar naquela festinha tão sensacional, mas avistei meu amigo e seus amigos no bar. Não custava nada, já que os amigos do meu amigo MANDAVAM na balada, ir até lá para agradecer o convite, ficar mais alguns segundos e depois retornar ao maravilhoso universo da minha casa vazia e silenciosa.
“Esse aqui é o Pedro, esse o Thiago, esse o Rafa, esse o Denis, esse o Paulão e esse aqui é o Cesinha.”
Agora vamos à tradução: esse aqui é o lindo, esse o de olhos azuis, esse o corpo perfeito, esse a pica de ouro, esse o ombro largo e esse aqui o boca carnuda.
Considerando que meu amigo (tá, meu estagiário, seis anos mais novo do que eu...) é um gato e tinha mais seis amigos gatos, pensei que, quem sabe, já que era tarde demais para ir a outro lugar e já que eu já estava lá mesmo, sei lá, de repente, talvez não fosse uma boa ficar mais uma meia hora por ali mesmo. Por que não? Como diria um amigo meu: tudo vale como pesquisa antropológica.
Nas picapes o hit era algum poperô revisitado (lembrem-se que se trata de uma balada flashback, ok?), na minha frente um grupinho de melhores amigas que se odeiam brincavam de chicotear com o cabelo de formol quem atrapalhasse suas danças. É, acho que tá na minha hora. Deu. Fui. Até.
Mas no minuto em que planejo uma boa desculpa para a despedida, meu amigo resolve falar comigo se apoiando carinhosamente na minha cintura. Sua voz no meu ouvido e a visão paradisíaca dos seus amigos caçando em bando (uga buga, uga buga, imagino eles com o tacape na mão) me faz criar forças suficientes para me manter paralisada.

Escrito por Blônicas às 21h15
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Continuação...

Bebidas coloridas e fumaças doces depois (to falando daquela fumaça branca que eles soltam para dar um clima “disco voador da xuxa aterrisando” e ninguém ver você dançando como uma besta e não de nenhuma droga), lá estava eu me acabando de dançar no meio da pista. Aquele poperô não era de todo mal, sabia? Me lembrava um tempo não muito distante (dez anos atrás?) em que eu era menos crítica e mais feliz. As melhores amigas que se odeiam até que tinham seu charme. A pista ultramastermega lotada também tinha sua utilidade: eu estava praticamente no colo do meu amigo, tamanha era a falta de espaço.
Tati, você é o máximo, uma beliscadinha na coxa. Tati, foi um prazer te conhecer, uma raspadinha no abdômem. Tati, seu perfume é bom, uma cheiradinha na nunca. Tati, o que você quer beber, um carinho no cabelo. Tati, você vem sempre aqui, um abraço apertado. Resumindo: eu era a melhooooooor amiga dos caras que MANDAVAM na balada. Algo me dizia que eu estava feliz. Será que eu estava feliz? Era possível ser feliz em um lugar tão idiota com pessoas idiotas? Sim, era possível. Era possível porque eu também era uma idiota. E quer saber: realmente só os idiotas são felizes. Eu estava feliz pra cacete. Ou por causa do cacete. Mais especificamente: sete cacetes. Era felicidade a dar com o pau. Ou para o pau. Mais especificamente: sete paus.
Foi aí que meu amigo (e as três e quarenta e sete da manhã a palavra “meu estagiário” faz tanto sentido para uma mulher na seca quanto a frase “é problema na correia dentada”) resolveu que nossa amizade jamais seria afetada por um beijo. Que mal há em um beijo? Um simples beijo? Um beijinho de nada? Inofensivo. Algo mais ou menos como um desentupidor de pia com mais de cinco horas de duração. Que mal há em um beijo assim? Dado na escada, no cantinho atrás do bar, no banheiro, no chão, embaixo das mesas, deitados no sofá? Que mal há nele enfiar a mão dentro do meu vestido para sentir a renda do meu novo sutiã? Ou de querer conferir a elasticidade da minha calcinha? Que mal há nos 345 chupões que eu levei por todo o meu corpo no meio da pista? Que problema há em abrir zíperes, lamber nucas e umbigos na frente de todo mundo? Nenhum. Oras, ele não é meu amigo? Amigo é pra essas coisas. Oras.
Eu tinha esquecido que os jovens beijam. Eu com essa minha mania de gostar de tiozão (que preferem ir direto ao assunto, logo depois do foie gras), havia me esquecido que os jovens beijam. E como beijam. O dia amanhecia enquanto minha boca ia ficando do tamanho do sol.
A lalarilalalalá a lalariralalalalarira lalarirarararará. Aha iéié wanna be my lover? Aha iéié wanna be my looooooover! Puta letra iraaaaaaaada! Adoro. Adoro poperô. Adoro os anos 90. Quero ser a melhoooooooor amiga das melhores amigas que se odeiam. E era beijo na orelha. Quero falar poRta. Tão lindo esse sotaque caipirinha, não? Ah, que fantástica essa vida. E era beijo no meio da escada, atrapalhando todo mundo. Quero comprar armários nas Casas Bahia, nas Lojas Marabrás. Quero colecionar flyers. Quero virar promoter.
Que ser escritora que nada. Vida chata da porra. Que publicitária que nada. Eu quero é ser promoter. Quero inflar meus pulmões desse gás branco maravilhoso das pistas. E era a lingua dele que quase atravessava a minha cabeça. Quero morrer amiga do Thi, do Ra, do Pe, do Pau e do Cesinha. Adoro essa galera. Adoro essa galera que MANDA na balada. Que bom que eu era a última solteira das minhas amigas. Aha ié ié wanna be my lover. Puta letra irada.
De todas as dúvidas existenciais que carrego em meu ser, só restavam três: eu não conseguia decidir se eu tinha 16, 17 ou 18 anos. Depois de pouco pensar acabei me decidindo por 17, aquele ano sensacional da sua vida em que nada é sua culpa, mas já dá pra entrar na balada sem mostrar a identidade pro armário.
No final da noite eu já não tinha mais nenhuma maquiagem no rosto (em compensação ele parecia o Bozo) e meu vestido era uma massa amorfa. Era hora de voltar para casa. Sozinha, é claro. Afinal: meninas de 17 anos jamais fazem sexo sem amor. Ou pelo menos não faziam na minha época.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 21h14
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Época ou Caras?

De Henrique Szklo.

Eu estava, como de costume, coçando o saco quando fui procurado pela redação da Revista Época para responder a uma entrevista por e-mail. Como não tinha nada melhor para fazer no momento aceitei o desafio. Respondi às perguntas com sinceridade e enviei à revista. Meu contato na redação afirmou que a entrevista fez sucesso e que em breve seria publicada. Meses se passaram e para meu espanto a Revista desistiu de mim. Snif-snif. Motivo: não sou famoso. A conclusão a que cheguei é que a Revista Caras está realmente fazendo escola na imprensa brasileira.
Leia a entrevista:

Épocaras – Maior mentira que já contou...
Szklo – Quando disse aos meus pais que era gay...

Épocaras – Seu pior inimigo...
Szklo – O Sistema Judiciário...

Épocaras – Maior arrependimento...
Szklo – Ter feito uma plástica com um médico que sofria do mal de Parkinson...

Épocaras – O que mudaria em sua aparência, se pudesse?
Szklo – A cara de idiota...
 
Épocaras – O que mais odeia nas pessoas?
Szklo – A felicidade delas...

Épocaras – E o que odeia em si mesmo?
Szklo – Só duas coisinhas: o lado de dentro e o lado de fora...

Épocaras – Quando foi o dia ou a fase mais feliz de sua vida?
Szklo – A fase anal...

Épocaras – Seu sonho mais louco...
Szklo – Ir para um manicômio e tomar choque elétrico vestindo uma camisa de força...

Épocaras – Um lugar especial na Terra...
Szklo – A sete palmos...

Épocaras – Quem gostaria de ter sido em uma vida anterior?
Szklo – Alguém que acreditasse em vidas anteriores...

Épocaras – Quem gostaria de ser numa existência virtual?
Szklo – Meu alter ego....

Épocaras – Uma mulher interessante...
Szklo – A do vizinho...

Épocaras – Um homem interessante...
Szklo – O vizinho quando viaja...

Épocaras – Um símbolo sexual...
Szklo – Mamãe...

Continua aqui.

Henrique escreve no Blônicas, mas gostaria de ter uma coluna na Caras.
Visite seu
site, o blog da mãe, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 17h54
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Banheiro dos homens.

De Leo Jaime.

Quando era criança poucas coisas me fascinavam tanto quanto banheiros e vestiários femininos. Eu queria saber como era. Mais do que saber como era ser mulher, uma questão deveras interessante, queria saber como elas eram. O que elas diziam, como faziam as coisas, como se portavam diante de sua intimidade, de seus corpos misteriosos e valorosamente descobertos? Era um universo a ser desvendado e toda a minha busca após a puberdade, toda a tentativa de descoberta de um abrigo em um corpo feminino ainda abrigava aquela ansiedade infantil: como será que ela é?
Um gesto pode ser mais intrigante e impactante ao olhar do que um volumoso par de nádegas igualmente bonito e insignificante. O jeito como improvisa uma ação, segura um objeto, abre a boca distraída. Não me refiro aos clichês sensuais, aqueles vulgarizados e impessoais que funcionaram só no instante de sua criação. Mas isso é um outro papo, pra outro dia, e versa sobre a dificuldade que temos em imaginar como arranjar diversão sem ser se divertindo com o que dizem ser divertido. Outro dia.
Imaginava as moças se despindo sem ter a perspectiva intrusa do observador. Não queria que se despissem para mim, queria saber como era o mundo delas, entre elas, sem que estivessem tentando causar alguma impressão. Queria saber como era lá. Se eram delicadas ou grosseiras. Se faziam algo inusitado, não sei bem o que poderia esperar mas imaginar o que poderia ser fazia a coisa toda parecer muito interessante.
Por outro lado, e isso me parecia injustiça à minha natureza, estava fadado, ainda estou, a só freqüentar banheiros e vestiários masculinos. E, neles, não vejo a menor graça. Tirando a maravilhosa possibilidade de mijar de pé - a única vantagem real que temos sobre o sexo oposto - tudo o mais no mundo masculino é chato e previsível.
Homens entram, dão uma conferida no espelho fazendo cara de sério ou mau, isso pode ocorrer tanto na entrada quanto na saída. Acho que o subtexto é: "Tô com cara de quem merece respeito?". E desde quando mijar é algo admirável? Acho também muito estranho dar uns 25 tapas na cabeça a titulo de arrumar o cabelo e sair com um ar de "agora sim!", sendo que o topete permaneceu igual em aparência apesar dos tabefes. Tem quem lave a mão, tem quem não lave. Há os que lavam a mão antes de pegar no pinto, sugerindo que a mão está mais suja do que o dito cujo pois o mesmo, após o banho, não esteve em contato com nada impuro; ao contrário das mãos. Na verdade acho que sou o único nesta categoria.
Há uma evidente preocupação em, mesmo observando o que acontece, como no caso deste que vos descreve estas cenas, não olhar em hipótese alguma para aquilo que se expõe tão discretamente. É, em vestiários é normal andar pelado pra lá e pra cá mas no mictório uma olhada para a diagonal inferior pode ser muito desagradável. Mas, óbvio, tem quem encare fixamente. Algo me traz a figura do George Michael em mente. Há, para o deleite destes, os que gostem de ser admirados.
Há os que tentem fazer tudo em silêncio e os que fazem o maior estardalhaço. É desagradável. Tem quem urine soltando gases sem dó nem piedade. Fazer o quê Não seria o banheiro o local correto para este tipo de coisa? Tem que ser no banheiro e quando estiver só? Ou dentro de um reservado para que todos sintam sua presença sem lhes vislumbrar o cenho? Sei lá, acho que não existe nenhuma regra social sobre o tema. Tudo é muito estranho.
Pensando na larga experiência que tenho em idas ao banheiro. Observando a dificuldade que é balançar o dito cujo sem fazer com que o chão fique todo respingado, tenho minhas dúvidas sobre a vantagem única do gênero. Banheiros masculinos são sempre respingados. Levando tudo o que mencionei em conta, percebo que o banheiro das mulheres continua interessante por não caber, na minha fantasia, nada desagradável. Certa feita, em Amsterdã, estive numa academia e passei algumas horas no vestiário. Lá só tem um vestiário e todos ficam nus, tomam banho, fazem sauna, trocam de roupas sem nenhuma cerimônia.
Fiquei muito impressionado. Mas era um vestiário mixto e não feminino. Todos se comportavam um pouco melhor, imagino eu.
E lá foi a minha fantasia infantil pelo ralo.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h44
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Ouro de tolo.

De Nelson Botter.

 

Eu quero mais é contrariar. Tolo daquele que se rende aos padrões estéticos de beleza, que só reverencia o óbvio, o imposto, que não se rende ao novo. Veja o caso das mulheres, donas de diferentes belezas nas mais variadas idades. Há quem só queira as curvas delineadas pela pouca idade, dentro da lei de Newton (o da maçã). Tolos. A mulher é o ser mais divino dessa existência, é o toque magistral do criador, e pouco importa a idade, credo, cor, peso ou qualquer outra coisa, toda mulher tem sua beleza, basta ter olhos de enxergar. Fico fulo da vida quando não se valoriza as diferentes fases de beleza de uma mulher. E o pior que a primeira a não valorizar isso é a própria mulher, o ser mais apegado à escravidão estética de nossa era. Que se danem as Vogues, rasguem os folhetos com Giseles estampadas, deixem que Bottero (primo distante deste que vos escreve) saia do museu e invada a nova moda de Milão, com suas deusas de curvas generosas. E o que dizer da beleza renascentista? Aquilo sim é inspiração, quadril largo, maçã (não a de Newton, mas sim a do rosto) cheinha, rosada naturalmente e não por pozinhos químicos. Eu quero mais é contrariar e ser contrariado, ir na contramão do mundo, pintar com cores de Michelangelo ou Leonardo, que viam além.

 

Mulheres magras, ataquem os pratos de comida com todo gosto que puderem, saiam dessa regra estética estapafúrdia e sem fim. Meninas morrem parecendo esqueletos humanos e eu pergunto: que beleza é essa? Culto à morte? E a mocinha em forma de maçã ou perinha que não venha me dizer que os homens não a querem. Bobagem, querem sim, são todos famintos por uma boa fruta. E a mocinha magérrima que não me venha dizer que está gorda, barriguda, ou qualquer outra paranóia sem cabimento. Eu sugiro um bom prato de lasanha para contornar esse problema. É um gozo só.

 

E os homens também brigam com o espelho, assim como as mulheres, entram na faca, esticam aqui, lipoaspiram ali, tudo em nome da eterna luta contra o tempo. Nem HG Wells inventaria máquina do tempo mais cruel. Envelhecer é o maior barato e as pessoas não percebem, estão preocupadas com suas peles, enquanto a vida é muito mais. É preciso se preocupar com o interior de nosso corpo, esse não pode enferrujar, o exterior é supérfluo. O quê? Estou dizendo um monte de bobagens? Lamento que você pense assim, mas me satisfaz, afinal, eu quero mais é contrariar e ser feliz, pois como dizia o Russo na canção: “o mundo anda tão complicado e hoje eu quero fazer tudo com você”.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h06
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Desabafo de um blogueiro.

De Rosana Hermann.

Quando você compra um filhote de cachorro você sabe que além de fazer gracinhas e alegrar a casa ele também vai fazer xixi e cocô no tapete, roer os móveis, puxar a cortina e mastigar seus sapatos. Só um ser humano totalmente inconsciente adquire um animal de estimação acreditando que ele é um bicho de pelúcia que se mexe.

Algo semelhante acontece quando você decide ter um blog. A diferença é que neste caso não é o blog que faz xixi e cocô pela rede mas um ou outro internauta anônimo que eventualmente entra nos comentários para deixar seus dejetos.

Ao longo desses anos todos de contato direto com o público através de sites e blogs aprendi algumas coisas básicas. A primeira delas e, talvez a mais importante, é que todo ofensor, além de ser um solene filho da puta, é uma pessoa carente. Carente, infeliz e, em última instância, doente. Digo isto com a experiência de quem involuntariamente coleciona alguns desses poucos pervertidos, entre milhares de pessoas bacanas e gentis.

Uma dessas criaturas, que gosto de pensar como sendo mulher, é uma chata de galochas que praticamente mora na porta do meu blog. Ela entra todos os dias, várias vezes, o que em tese, seria motivo de gratidão e orgulho. Pelo menos eu me sentiria assim se a freguesa viesse três vezes ao dia na minha padaria para comprar pãozinho quente. No entanto, o que a leva ao blog não é a convivência com outros leitores ou a busca de informação mas o garimpo por acentos em sílabas terminadas em ú. Não é piada, juro. E não adiantaria mandá-la para nenhum lugar adequado ao tema. Ela tem orgasmos, múltiplos, quando encontra um acento errado num ‘u’ ou num ‘i’. E quando não cometo este erro, ela tece comentários de posts anteriores onde a falha ocorreu. E, se não encontra nenhum problema com os acentos, ela sai alucinadamente buscando por vírgulas mal colocadas. Agora, sério, me diz se isso não é uma espécie de transtorno ortográfico compulsivo?

Uma outra pessoa, muito mais comprometida e nefasta, está arquivada na minha memória como um homem de pinto pequeno. Extremamente indeciso sobre sua sexualidade, ele assina ora com nomes femininos ora com masculinos, sempre com aquele ódio venenoso de quem desistiu de ser feliz. O tema recorrente para me ofender são assuntos antigos, sempre ligados a trabalhos em tv, que não têm o menor fundamento.  Ao que tudo indica, deve ser algum funcionário ou funcionária que demiti ou nem contratei quando tive um cargo que permitia esse tipo de decisão. Os anos passam, a fila anda, gente nasce, gente morre e ele, sempre lá, batendo na mesma tecla. Imagino que o sofrimento dele deva ser imenso. Não consigo pensar em nenhum sofredor maior do que o vingativo amargo. Conheço uma outra pessoa assim, que não consegue ser feliz um único dia na vida, porque arrasta esqueletos produzidos durante décadas, todos amarrados em seu próprio corpo. É muito karma pra uma pessoa só.

A terceira e última criatura que vale ser mencionada, porque talvez represente um avatar que você já conheça, é a invejosa profissional. Aquela que sofre com qualquer alegria alheia. Que anda com um alfinete na bolsa para estourar balões de gás das criancinhas. A invejosa é surpreendemente ardilosa e é capaz de fazer pesquisas e contas só para saber quando você gastou no jantar que você descreveu ou a viagem que você fez. Tudo isto, claro, para tentar calcular quanto você ganha, com o único objetivo de invejar seu estilo de vida. A invejosa vibra com seus fracassos, tem frouxos de riso com suas derrotas e ataca assim que fareja um pequeno sucesso conquistado. Ela nunca escreve de forma direta, falando com o blogueiro: ela fala sobre o blogueiro com os outros leitores que, em geral, tenta cooptar para seu covil. Ela  bate o pé e diz ‘bem feito’ quando você se dá mal e torce para que você se exploda. Torce apenas, não, ela está sempre pronta para ser a primeira voluntária a apertar o detonador. E se sobrar um dinheirinho, ela doa para financiar a dinamite.

Diante desses exemplos a pergunta natural seria, por que manter um blog, então? Para sofrer? Para apanhar calado sem poder saber a identidade dos agressores? A resposta é simples: porque compensa. Porque as alegrias prevalecem. Porque é meu jeito. Porque eu preciso escrever. Porque tenho muitos leitores amigos e amigos leitores. E porque assim como as bactérias têm função vital no equilíbrio de todo organismo, também esses ofensores têm um papel na blogosfera. Eles servem para nos lembrar que o mal existe, que a qualquer momento podemos ser apunhalados. Servem de contra-exemplo para que a gente não caia nessa mesma armadilha e não faça o mesmo com outros. Os infelizes mostram que a infelicidade é um fardo insuportável que devemos evitar durante a vida, perdoando, compreendendo e deixando pra lá sempre que possível. No Fashion Week da Vida eles são aqueles modelos que a gente deve ver para jamais copiar.

A única coisa que lamento mesmo é que, também ao contrário dos cães, não seja possível aplacar essas dores, iras e males desses leitores para que eles se libertem das amarras da infelicidade. Acredito que não seja possível ensinar essas pessoas a fazer cocô no lugar certo, como se faz com os bichinhos. Porque enquanto o cachorro, o gato, querem distância dos seus excrementos, essas pessoas fazem questão de deixá-los perto de si mesmas. Fazer o quê. Dizem que cada um dá o que tem de melhor. Vai ver elas só tem isso para oferecer ao universo.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h00
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O dia que surfei Bruna.

De Carlos Castelo.

Tocou a campainha do flat com o coração na boca.
Como tudo na vida, o photoshop tem o lado ruim e o bom. O ruim é transformar os corpos feios de certas garotas de programa em formas voluptuosas.
Não foi o caso de Bruna.
Ela era um tipo mignon, com atitude extra incluída no pacote. Cabelos louros e longos, boca grande, coxas grossas. Exatamente como a propaganda prometia. Ao vivo, excedia mesmo as expectativas, inclusive naquele inesperado quê de namoradinha.
Vestida num pegnoir azul-marinho, abriu a porta com um sorriso meigo e, de saída, foi dando um selinho na boca de Fonseca.
O ambiente era tépido e a penumbra reinava. Havia também um cheiro leve de incenso canela no ar. E depois do beijo na chegada, ele ainda notou, pelo hálito fresco, que Bruna não fumava – dez pontos positivos no prontuário.
Fonseca a abraçou e o pegnoir, fino como uma folha de sulfite, fluiu elegantemente para o assoalho.
Começou a luta.
Em meio ao delicioso embate, Fonseca foi acostumando a vista. Aos poucos percebeu diversas estantes de livros em meio ao flat. Estranhou decoração tão “scholar” num apartamento para aqueles fins. Mas, em todo caso, quem garantiria que o imóvel fosse propriedade de Bruna?
Depois do primeiro “round”, a curiosidade falou mais alto.

- Você gosta de ler, hein? – perguntou, ainda suando em bicas.

Bruna virou-se de bruço. Fonseca pensou na enorme quantidade de homens que se deliciaram com aquela visão antes dele.

- Gosto – disse ela, lambendo com jeito malicioso o polegar de Fonseca – mas minha paixão no fundo é escrever.

O assunto se desviava do sexual direto para o literário. Fonseca ficou meio na dúvida: “mas escrever o quê, e-mails para o cafetão?”. Ainda assim, apesar de não ser muito afeito ao tema (estudara Direito numa faculdade interiorana e o último livro que lera tinha sido de Malba Tahan) foi aprofundando a história.

- Algum escritor favorito? – perguntou, gentilmente.

Bruna agora estava sentada sobre as coxas, reta e atenta. O calibre daquelas pernas mostrava, em todo magnitude, o seu potencial mortífero.

- São tantos. Mas para o tipo de abordagem documental que eu faço, prefiro mais um Truman Capote do que esses revolucionários da linguagem, tipo Virginia Woolf - apesar de ter gostado bastante de “Orlando”.

Fonseca ficou excitado com a maneira como Bruna se definiu e partiram para um segundo “round”.
Depois, se desligaram por alguns minutos, ficando apenas os estalidos dos tacos ressoando pelo casa.
Bruna respirou fundo e, ainda abraçada a Fonseca, olhou para o teto e comentou:

- Tenho certeza que você está estranhando uma garota como eu com esse papo-cabeça, não é?

De olhos cerrados, o cliente de Bruna não disse palavra. O sono o pegara. Ela seguiu monologando.

- Tive formação boa, sabe? Não estudei Letras, não fui pra Universidade no Exterior, não fiz pós-graduação, doutorado, nada dessas coisas. Mas sempre fui uma autodidata superdisciplinada Por isso, apesar de tudo, estou botando fé no meu projeto.

Fonseca se espreguiçou e deu um longo suspiro. Meio dormindo, meio acordado só conseguiu balbuciar:

- …huummm, projeto?

- Um livro sobre minhas experiências sexuais, baseado no meu blog...- explicou Bruna.

- …bló…? - Morfeu parecia tê-lo jogado mesmo nos braços.

Bruna fez-lhe um cafuné. Depois completou com voz angelical:

- Ô meu dorminhoquinho, o blog da Bruna Surfistinha, sabe?

Carinho tão maternal fez Fonseca ferrar no sono de uma vez por todas. Alguns meses depois, ficaria imortalizado como personagem da literatura brasileira.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h00
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Domingo.

De Milly Lacombe.

Sentada no chão da sala, xícara de café ao alcance das mãos, folheio os jornais dominicais.

O mundo, superaquecido, parece estar acabando. O novo presidente da câmara, conformadíssimo, diz que a corrupção não é privilégio nosso: trata-se de um mal mundial, e, pela grandeza do troço, ele não tem a menor idéia de como combatê-lo. E o homem foi eleito mesmo com esse vazio de iniciativas. Ou, é bastante provável, por causa dele. Os 513 deputados, donos de supersalários, conferidos por eles mesmos a eles mesmos, tomam posse na babilônica Capital Federal. Novos e velhos milionários da pátria, movidos por uma nobre idéia apenas: ajudar o Brasil a prosperar. No Iraque, atentado mata 150. E, nos Estados Unidos, Bush pede mais dinheiro para continuar em Guerra.

Enquanto isso, em Miami, os milionários e injustiçados líderes apostólicos da Igreja Renascer em Cristo, vítimas de uma diabólica conspiração agnóstica, continuam detidos. Pior: sem poder colocar as mãos nos módicos 51 mil dólares que levavam em espécie. Mas a fé há de sobreviver porque, ainda este ano, vem ao Brasil o santo homem, o super Papa que veste Prada, um sujeito não menos rico e afortunado do que nossos apóstolos detidos em Miami. A viagem mais cara de nossas vidas é, certamente, essa que nos levará aos céus. E, enquanto pagamos para ter direito a ela, vamos enriquecendo essa gente importante que tem mais intimidade com o divino - abençoados agentes de viagens sagradas. Nada mais justo.

Levanto e coloco mais café na xícara. No caminho de volta à sala, onde pretendia continuar a ler notícias sobre o fim dos tempos, encontro o meu amor arrumando o armário. Querendo colo, vou atrás de um despretensioso abraço. A música convida e começamos a dançar, muito devagar. Lá fora, o mundo ainda está acabando - seguimos vítimas aprisionadas do estabelecimento. Mas, em poucos segundos, já não me importo mais. Aqui dentro, estou livre e agasalhada - a vida ganhou ritmo e compasso. Fecho os olhos, grudo um pouco mais no meu amor e sorrio: há por onde escapar. 

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 21h43
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Depois que você me mandou limpar os óculos.

De Tati Bernardi.

A mesa rodava, as luzes insistiam, os barulhos iam cessando como um prêmio e as pessoas tentavam me aquecer. Eu sabia que estava sendo amada, talvez como nunca em toda a minha vida. Mas só tinha olhos para os pêlos do seu braço. Eu olhava como quem não olha e me dizia baixinho: olha eles lá, olha lá os pêlos que eu tanto amo sem mais e sem fim.
Matei finalmente a saudade do seu dedão. Seu dedão meio largo, meio torto, com a unha que preenche todo o dedão. Eu amo o seu dedão, amo sua unha meio roxa, amo a semi circunferência branca que sai da sua cutícula e vai até o meio da sua unha, amo a sua mão delicada que sai de um braço firme. Amo que os pêlos da sua mão parecem meio penteados de lado.
É isso, sei lá, mas acho que amo você. Amo de todas as maneiras possíveis. Sem pressa, como se só saber que você existe já me bastasse. Sem peito, como se só existisse você no mundo e eu pudesse morrer sem o seu ar. Sem idade, porque a mesma vontade que eu tenho de te comer no banheiro eu tenho de passear de mãos dadas com você empurrando nossos bisnetos.
E por fim te amo até sem amor, como se isso tudo fosse tão grande, tão grande, tão absurdo, que quase não é. Eu te amo de um jeito tão impossível que é como se eu nem te amasse. E aí eu desencano desse amor, de tanto que eu encano.
Ninguém acredita na gente: nenhum cartomante, nenhum pai de santo, nenhuma terapeuta, nenhum parente, nenhum amigo, nenhum e-mail, nenhuma mensagem de texto, nenhum rastro, nenhuma reza, nenhuma fofoca e, principalmente (ou infelizmente): nem você.
Mas eu te amo também do jeito mais óbvio de todos: eu te amo burra. Estúpida. Cega. E eu acredito na gente. Eu acredito que ainda vou voltar a pisar naqueles cocôs da sua rua, naquelas pocinhas da sua rua, naquelas florzinhas amarelas da sua rua, naquele cheiro de família bacana e limpinha da sua rua. Como eu queria dobrar aquela esquininha com você, de mãos dadas com os pêlos penteados de lado da sua mão.
Outro dia me peguei pensando que entre dobrar aquela esquininha da sua rua e ganhar na mega sena acumulada, eu preferia a esquininha. A esquininha que você dobrou quando saiu da casa dos seus pais, a esquininha que você dobrou chorando porque é mesmo o cúmulo alguém não te amar. A esquininha que você dobrou a vida inteira, indo para a faculdade, para a casa dos seus amigos, para a praia. Eu amo a sua esquininha, eu amo a sua vida e eu amo tudo o que é seu.
Amo você, mesmo sem você me amar. Amo seus rompantes em me devorar com os olhos e amo o nada que sempre vem depois disso. Amo seu nada, apenas porque o seu nada também é seu.
Amo tanto, tanto, tanto, que te deixo em paz. Deixo você se virando sozinho, se dobrando sozinho. Virando e dobrando a sua esquininha. Afinal, por ela você também passou quando não me quis mais, quando não quis mais a minha mão pequena querendo ser embalsamada eternamente ao seu lado.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h56
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Para Iemanjá.

De Marcelino Freire.

Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo, esse breu. Peixes entulhados, assassinados. Minha Rainha.

Não são oferenda essas latas e caixas. Esses restos de navio. Baleias encalhadas. Pingüins tupiniquins, mortos e afins. Minha Rainha.

Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca. Essas flores de bosta. Não mijei na tua praia. Juro que não fui eu. Minha Rainha.

Oferenda não são os crioulos da Guiné. Os negros de Cuba. Na luta, cruzando a nado. Caçados e fisgados. Náufragos. Minha Rainha.

Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha.

Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo. Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão. Minha Rainha.

Se a minha esperança é um grão de sal. Espuma de sabão. Nenhuma terra à vista. Neste oceano de medo. Nada. Minha Rainha.

Marcelino Freire é cronista do Blônicas . O texto/canto acima foi criado especialmente para o evento “Iemanjarte”.

Escrito por Blônicas às 11h38
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A pequena Miss Sunshine.

De Leo Jaime.

De tanto em tanto aparece um filme como este, cheio de estilo e inteligência, talento e peculiaridade e, talvez por isso, orçamento pequeno. Lembro-me do impacto que foi assistir ao primeiro de Kevin Smith, O Balconista (Clerks). Ou mesmo o Cães de Aluguel (Reservoir Dogs), de diretores também estreantes.  Não quero dizer que só quem tem orçamento pequeno faça bons filmes, mas o fato é que as soluções para a grana curta vão depender muito mais do talento das pessoas e, em especial, do roteiro.

O balconista era filmado de forma muito simples e sem nenhum grande ator. Cães de aluguel era um excelente roteiro, se não me engano o terceiro de Tarantino a ser filmado, e contava com atores mais tarimbados. Pequena Miss sunshine tem um roteiro excelente, atores perfeitamente escalados para os papéis e que brilharam de uma forma surpreendente no filme. Um exemplo: a estreante de 10 anos de idade que foi até indicada para o Oscar, sem fazer um papel melodramático. Comediantes serem indicados para prêmios é sempre novidade. Nessa idade e sendo estreante é quase como ganhar na loteria.

Não quero aqui dar uma de crítico e muito menos contar o filme para quem ainda não viu. O que posso dizer, levando tudo em conta, é que em relação aos dois outros filmes que mencionei, e não quero também dizer que aqueles dois são as estréias mais importantes dos últimos tempos, enfim, a história de Pequena Miss Sunshine é deliciosamente universal e possível, ainda que meio absurda. As personagens são todas muito bem delineadas e críveis, sem estereótipos, mesmo sendo tipificadas. Contraditório? Mais ou menos. Há humanidade suficiente em cada um do enredo para fazer crer que cidadãos terrivelmente comuns também sejam absolutamente singulares. E é neste aspecto que narrativa se destaca.
Lembra um pouco Crash, o vencedor do Oscar na edição passada. Não na forma, mas na observação crônica de personagens comuns ou anti-heróis. E é só nisso que os filmes se parecem.

Pequena Miss Sunshine foi um dos filmes mais engraçados que já vi. Nem por sonho diria que poderia ser indicado ao Oscar. Assisti, por sinal, na noite anterior a da divulgação das indicações. Grande parte dos membros da Academia são atores. O sindicato dos atores votou no elenco como o melhor do ano. Supor que ele chegue ao Oscar como favorito não é exagero, mesmo sem ter assistido a todos os concorrentes.

A América e suas esquisitices estão ali. E é disso que sinto falta em filmes brasileiros: contar estórias sem favelas e presídios como cenário e que mostrem o país em sua intimidade. O submundo existe, a ditadura precisa ser documentada e tudo o mais, mas boas histórias não necessitam destes elementos. E estas teclas já foram muito marteladas. Boas idéias, gente talentosa e uma boa história. Isso basta. Até pra entrar para a história.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h47
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