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Educação e amor.
De Leo Jaime. Um dia tive contato com uma estatística que apontava números de A educação deveria ser uma meta fundamental no mundo inteiro. O conhecimento O amor deveria fazer parte dos ensinamentos básicos de todo cidadão. Isso se E depois, um pouco mais tarde, estudar junto com outras coisas, é claro, o Alguma coisa vai dar errado. Leo Jaime é cronista do Blônicas. O colar de coquinhos.
De Rosana Hermann. Um dia você sai na rua e vê um rapaz usando um colar de coquinhos. Parece estranho. O colar é comprido, os coquinhos são grandes e o cara não tem jeito de quem já usou colar alguma vez na vida. A cena passa. Você anda mais alguns passos e bingo!, outro rapaz com o mesmo colar. ‘Coincidência’, você pensa. Vai ver é irmão do primeiro. Você continua caminhando. Mais dois, três, quatro seres do sexo masculino ostentam colares de coquinhos em diferentes formatos. Mais cem, duzentos, trezentos passos e você vê uma banquinha de camelô vendendo o colar por vinte reais. Não resta mais nenhuma dúvida, o colar está na moda. A moda tem este elo de ligação com as endemias, ninguém sabe dizer quem foi o primeiro hospedeiro. Não estamos falando do criador do colar de coquinhos, já que o coquinho existe desde que o mundo é mundo e o colar desde que a mulher é vaidosa. O caso aqui é saber quem foi que criou esta moda para homens jovens ou quem a ressuscitou das catacumbas do ostracismo do verão retrasado. Alguém deve ter sido o primeiro garoto a pegar o colar da mãe e botar no pescoço, para ser logo copiado por outro e outro até que virasse uma febre. Aqui na cidade de São Paulo, onde não se encontra muitos coqueiros na Avenida Paulista, o que mais a gente vê é este colar, nos peitos de muitos meninos e jovens. Pode ser usado sobre a camiseta, sobre o peito nu embaixo da camisa aberta, pode ser combinado com boina ou boné. Tem coquinho médio, grande e extra-large. Coquinho pequeno não tem porque o coquinho já vem no diminutivo. E depois, coquinho pequeno é coisa de boiola. Homem que é homem mata a cobra e mostra o côco. Particularmente não acho cômodo. Sou casada e sou fiel, nunca abracei um homem de colar. Mas acho que apertando o rapaz com gosto os coquinhos devem machucar os seios. Vai ver o colar é uma mensagem pra mulherada ficar longe. Também não acho o colar muito bonito nem higiênico. Sempre tenho a paranóia de que, por serem orgânicos, os coquinhos devem estar cheios de microorganismos, bactérias, fungos, sujeira, já que ninguém lava o colar. O problema é quanto mais eu vejo o colar mais tenho vontade de fazer experiências. Olhar os coquinhos no microscópio, abri-los para saber se são ocos, cozinhá-los para descobrir se são comestíveis. Ou, quem sabe, numa noite de paixão, botar o colar no maridão e abraçá-lo intensamente pra ver se realmente machuca ou se causa uma nova sensação mais excitante. Acho que vou comprar um desses. Pechinchando bem deve cair de vinte pra dez. Ou com vintão compro dois e dou um colar pro meu filho. Deve ser assim que a moda pega. Rosana Hermann é cronista do Blônicas. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos.
De Xico Sá. Minha amiga Gigi, Miss Gi, torrou uma grana no salão metido a chique, ora, era aniversário do bofe, queria fazer bonito, mostrar para a ex dele, aquela piranha, que era mais ela, mostrar para a sogra, sempre do contra, que tava podendo, que sai debaixo, que sai da frente, que debaixo dos seus cabelos, mil e uma noites, chega de caracóis, e histórias para contar, aí, aí, vai encarar, sou mais eu, madeixas, ame-as ou deixe-as, e dá-lhe a alisá-las, no ferro em brasa, uma beleza, via só as pontas, nervosa no espelho, meu Deus, vou arrasar com aquela vaca, capricha, capricha, dizia para a cabeleireira, o ferro em brasa, como quem ferra um boi, fuerza en la peruca, os fios na estica, capilares corazones, Miss Gi toda-toda, arrasô a fofa, tá meu bem, passar bem, a chapa quente, aquele movimento em “s”, para cima, para baixo, adeus meus cachos, supresa mais linda, niver do bofe, desgosto para a ex, veneno para a sogra, capricha fulaninha, fuerza na tomada, 220 volts esta noite, Gigi sai uma lindeza, o ventilador sopra no teto, vê-se na sala toda-espelho, Narciso perde nessa hora, o mundo é todo inveja, cabelo ao vento... peruas jovens reunidas, Miss Gi torra toda a grana, tudo vale a pena quando alisa-se até a alma, sai toda empolgada, sai à rua como uma estrela, passos de modelo, ate que o sonho vira pesadelo, como anuncia o homem do tempo: uma chuvinha, uma chuvinha, uma chuvinha... uma garoa de frente fria acaba com o orgulho de Gi e sua caprichada chapinha! Xico Sá é cronista do Blônicas. A gostosa.
De Antonio Prata. Sempre que entro num recinto público - pode ser padaria, cartório, açougue ou velório - olho em volta, procurando a gostosa. Não o faço por desejo, carência, narcisismo ou outro simples reflexo de minha banal condição masculina. A gostosa é um acontecimento literário. Ela pode ser loira ou morena, alta ou baixa, preta, branca, japonesa ou búlgara, não importa: a gostosa é um estado de espírito. Ou, se preferirem outra palavra, tão esgarçada por programas de esporte, revistas jovens e propagandas de achocolatados: uma atitude. Hoje fui ao cartório. Havia ali, sentada, entre os motoboys e os aposentados, a esperar sua senha apitar no painel, uma mulher que parecia a Claudia Cardinale em Era uma vez no Oeste. Estava discretamente vestida, de cabelo preso, xale sobre os ombros. Não era a gostosa. A gostosa não deixa dúvidas. Chegou cinco minutos depois, de calça jeans desbotada agarrada à bunda, combinando com um top apertado que espremia os peitos e deixava entrever um soutien preto. Assim que entra, com seu rebolar, o cheiro do perfume e o movimento dos cabelos ela emite a todos, como que por telepatia, a incontornável informação: atenção, a gostosa chegou. Muda tudo. Cada um sabe exatamente qual o seu lugar social diante da gostosa. O aposentado de jaqueta bege olha de soslaio e, quase triste, suspira. As moças do cartório franzem imperceptivelmente a sobrancelha, regozijando-se de suas virtudes feitas de crachás, cafés e conjuntinhos pretos. Um rapaz de óculos, meio nerd, olha pro teto, olha pro chão, as mãos lhe sobram. Todos arriscam um olhar em direção à gostosa, mas ela dá penas uma conferida panorâmica, mascando o chiclete - displicentemente, como quem macera corações - e retira a senha. Então, do conjunto desconjuntado de homens, do meio dos aposentados e míopes, dos barrigudos e coxos, dos médios, dos graves e dos agudos, surge o Macho da Gostosa. Pode ser um motoboy bem apessoado, um playboy, um pequeno empresário novo-rico de correntinha de ouro. Não acontece nada. Eles apenas se olham e, tacitamente, todos sabem, a gostosa é dele. Tristeza para alguns, alívio para outros. Depois a gostosa vai para um lado, ele pro outro, não sobra ali nenhum ator daquelas bem ensaiadas cenas, apenas um perfume doce no ar e a voz da mocinha virtuosa chamando o próximo: cinquenta e quatro, cinco quatro! Antonio Prata é cronista do Blônicas. O oeste morreu de velho
De Henrique Szklo Me mudei recentemente. E nas mudanças a gente acaba achando coisas do arco da velha. Algumas delas nascidas na mesma época em que se costumava usar a expressão “arco da velha”. Uma destas preciosidades que encontrei foi uma sinopse de um livro que pensei em escrever há uns 20 anos. Ficou só na sinopse. Era muito complicado. Mas relendo, achei besta e, até por isso, engraçado. Sinopse: A namorada resolve revistar a casa do serralheiro e acaba encontrando cartas comprometedoras que provam o romance entre ele e o jornalista. Ela escreve tudo o que lê em seu diário. Um pouco adiante, tem um caso com o padre, que acaba a matando com medo de ter revelado seu romance. Ele encontra as cartas e o diário da moça e leva tudo para a igreja. Corroído de remorsos, ele, ajoelhado, pede perdão a Deus pelo que fez em voz alta. Alguém ouve tudo atrás da porta da sacristia e sai correndo. Um enorme crucifixo que estava muito mal preso na parede acaba caíndo em cheio sobre a cabeça do sacerdote que tem uma morte instantânea. Quem ouviu a confissão do padre foi o grande fazendeiro, Philip Owner. Ele conta tudo o que ouviu para sua amante, Marry Often, a dona do armazém. Dias depois, ele morre de um ataque cardíaco. Como ele havia ficado com o jornal e não tinha herdeiros, Marry Often passa a ser a proprietária do periódico. Ela resolve escrever tudo o que sabe e publicar na edição seguinte. Na mesma noite, o jornal é assaltado por bandidos, que matam a mulher e põe fogo no prédio. O chefe do bando embrulha o dinheiro roubado num exemplar do jornal. Horas depois, o bando todo é morto por um grupo de índios selvagens. Quando vai enterrá-los, o agente funerário encontra o jornal e fica estarrecido com o que lê e leva ao xerife. Como o xerife era comparsa dos bandidos, acaba prendendo o agente funerário, acusando-o de todas as mortes. O agente consegue fugir da cadeia e vai procurar o delegado federal. Como está foragido, resolve entrar pela janela ao invés de bater na porta. O delegado acha que é alguém tentando matá-lo e atira no vulto. Quando vê quem é, tenta ajudá-lo, mas já é tarde. O agente funerário morre, mas ainda consegue dizer ao delegado tudo o que estava escrito no jornal. O xerife vai dormir com uma prostituta e resolve deixar o jornal guardado com ela. Ao sair do bordel encontra o delegado (nosso narrador), que estava à sua espera. Eles duelam e o xerife cai morto. Quando pensamos que finalmente o bem triunfou sobre o mal, o delegado toma um tiro no meio da testa. A prostituta amava o xerife e resolveu vingar sua morte. A partir daqui, a história muda de narrador. O delegado morreu e a prostituta pegou o livro para continuar o relato. Ela resolve, então, finalmente revelar ao, leitor, que até então não sabia de nada, o que estava escrito no jornal. Só que a história não estava completa. O jornal estava rasgado justamente na parte onde estavam as informações contidas no diário da namorada do jornalista. A prostituta vai procurar o tal diário e o encontra no armazém, junto com as cartas que finalmente desvendam o primeiro assassinato. Neste momento, o autor dá um chega pra lá na prostituta e passa ele a narrar a hitória. Ele está possesso. Diz que os personagens são incompetentes em investigar os crimes e resolve ele mesmo reestabelecer a verdade, que é a seguinte: o delegado narrador era um tremendo de um mau-caráter e grande mentiroso. Desde o início ele sabia que o assassino do jornalista era o pai dele. O acidente do padre não foi realmente um acidente. Ele (delegado) acertou com o crucifixo na cabeça do homem de Deus. O pistoleiro aposentado ajudava o delegado nas investigações e acaba desaparecendo no meio da história. O que passou foi que, quando ele descobriu toda a verdade, o delegado acabou o matando para não sujar a memória de seu pai. Quem o ajudou a sumir com o corpo foi o agente funerário. E quando este mesmo agente entrou por sua janela, ele sabia perfeitamente quem era quando atirou. Era simplesmente uma queima de arquivo. O autor continua seu relato e revela que ficou com tanta raiva que acabou matando alguns personagens pelo simples prazer de brincar de Deus. No final, o narrador muda novamente. É um delegado da polícia federal dos dias de hoje falando que o autor foi preso por estimular a violência e escrever estórias esdrúxulas. Henrique escreve no Blônicas e entre bravos se criou. Aos 16.
De Leo Jaime. Aos 16 anos você pode ser emancipado. Pode dirigir, votar para presidente, senador etc. Pode eleger o executivo e o legislativo e estes podem declarar guerra. Aos 16 anos você pode se inscrever no vestibular e viver um primeiro amor. Pode ser pai ou mãe. Pode muita coisa, não pode algumas, como beber, mas mesmo assim dificilmente não terá tido, nesta idade, alguma experiência na área: bebidas, tabaco ou estados alterados de consciência, seja elas por substâncias legais ou não. Aos 16 anos, porém, você não pode ser penalizado como um bandido comum, mesmo que o seja. Sua pena será de, no máximo, três anos, seja lá a besteira que você cometeu. Diante de tantas escolhas, que perduram por toda a vida, a de cometer crimes é a única que será revogada em um prazo relativamente curto. Se tiver um filho, começar a fumar ou eleger um determinado candidato, provavelmente estas escolhas, e suas conseqüências, se farão mais definitivas em sua vida. Claro que passar alguns anos na jaula há de mudar e muito a vida de alguém, mas o peso parece diferente. Será? Aos 16 anos você pode matar, estuprar, torturar, inclusive tudo isto ao mesmo tempo. Os "entendidos" dizem que quando faz isso você é uma criança que não sabe o que faz. Mas se você escolher um governador, na mesma idade, é um adulto e seu voto tem que ser respeitado tanto quanto o de um juiz ou cientista político. É esta a assimetria. Certas coisas sempre escaparam ao meu juízo: por que dezoito? Por que não dezessete ou dezenove anos? Um dia antes do seu aniversário você é imaturo e no dia seguinte, pimba, foi iluminado por uma súbita e inconteste consciência? Será? Alguns produtos vêm com a validade na embalagem. Você fica olhando para o relógio e para o requeijão: quando der meia-noite e um aquele troço tem que ir para o lixo. Melhor comer às 11:59 hs. Também me escapa a compreensão sobre a proibição de algumas substâncias ou jogos, em detrimento de tantos outros liberados. Jogar poker ou blackjack é pior do que apostar nos cavalos ou nas máquinas do bingo? Alguém, com um mínimo de vergonha na cara, consegue dar uma explicação razoável? Vários psicotrópicos são vendidos na farmácia, a cachaça é vendida em qualquer esquina, mas é só a maconha que pode destruir sua personalidade? Será? Nunca consegui imaginar uma desculpa, por mais idiota que fosse, para a proibição de algumas drogas ou jogos, quando a maioria é liberada. Também não entendo o porquê de insistir nestes jogos ou substâncias quando tantos são liberados. O fato é que pode-se questionar as regras do jogo. As proibições de coisas muito populares, e consumidas em escala industrial, gera a existência de uma realidade paralela e criminosa. Esta realidade, chamada injustamente de crime organizado, seleciona jovens para suas frentes de trabalho. Isto é fato. Estes jovens serão, evidentemente, os favoritos para cometer os crimes mais pesados, uma vez que para eles a punição será sempre mais branda. Ou O fato é que se a idade for 16, vão convocar para o crime garotos de 10 ou 11 anos. Aliás, já convocam. Puni-los pode ser insuficiente para reverter isso. Não puni-los pode ser ainda Leo Jaime é cronista do Blônicas. Brasil, o paraíso da cópia.
De Rosana Hermann. A pirataria nunca vai acabar no Brasil. Nunca. Podem criar ongs, instituições ou associações de combate que não vai adiantar nada. Alguns veículos de comunicação vão ganhar dinheiro pra veicular as campanhas, mas é só. Brasileiro não vai deixar de comprar produto pirata por uma simples razão: brasileiro gosta de cópia. Rosana Hermann é cronista do Blônicas. Tua presença morena.
De Nelson Botter. Ela calou minha boca com um beijo. Longo, suave, terno. Quando dei por mim, nem lembrava mais quais eram minhas reclamações, o estopim daquilo tudo, nada. Completamente atordoado, vi seus lábios se afastarem dos meus e aos poucos um gosto amargo foi invadindo minha boca. Ela sorriu, virou-se e deu adeus. Não entendi nada, seria apenas um tchau ou um verdadeiro adeus? Vampira! Vem aqui, me suga e se vai! Peguei-a rapidamente pelo braço, apertando firme, ao ponto de marcá-la, não tanto quanto ela havia marcado minha vida, mas estava determinado a não deixá-la partir daquele jeito. - Você não pode simplesmente virar assim e me dar as costas, me deixar aqui falando sozinho...
- Nunca te deixarei falando sozinho, Sandro, você sempre terá a companhia de seus fantasmas.
Aquilo me deixou perplexo, eu não sabia o que responder, apenas soltei seu braço e a vi sorrir novamente, dessa vez com muito mais malícia no olhar. Ela sabia como me atingir, ela sabia tudo e eu era um simples fantoche de suas vontades.
- Onde você vai, Fabiana?
- Morrer...
Depois disso nunca mais a vi. Simplesmente sumiu. Era o fim de mais de 8 anos de casamento, de uma vida a dois, de uma cumplicidade sem tamanho. Era o fim, mas ao mesmo tempo era um novo início, pois como ela mesmo havia dito, meus fantasmas vivem a me cercar, e ela, agora morta, estava mais presente do que nunca. Nelson Botter é cronista do Blônicas. A extinção das dentucinhas.
De Xico Sá. Denúncia urgente: estão acabando com as dentuncinhas. Sim, não é de hoje, faz tempo, mas agora beiramos realmente a extinção da espécie. Essa moda de encher de arames os dentes das moças. Essa modinha de desentortar os lindos dentinhos das raparigas em flor. Sim, os mancebos também são vítimas da ortodentia moderna, mas os moços, pobres moços, que se virem, que se defendam. Este panfleto lírico e sentimental se preocupa tão-somente com as meninas, como um tardio e lesado Lewis Carroll. No início do modismo, era mania apenas dos mais aquinhoados; depois alastrou-se de vez, como as cirurgias plásticas. Tem criatura que mal possui dentes e já pendura lá os ferrinhos. E sai todo mundo falando mole, “falofa fafá”, cuspindo no próximo. Estão acabando com o charme das dentucinhas. Toda sala de aula tinha sua dentucinha, toda repartição, toda rua, todo clube, todo cabaré, toda casa de tolerância que se prezasse... Esses milagres da ortodentia limaram uma espécie mais do que graciosa. Exceto a reposição hormonal, ventilador em cápsula capaz de atenuar a quentura senegalesa da menopausa, esses avanços da modernidade não caem bem para as moças. Já já eliminam de vez o charme das estrias, e todas as mulheres ficam iguais, bundas iguais, peitos do mesmo tamanho, lábios de branquinhas com recheios artificiais para imitar a lindeza da mestiçagem... Reparem os cabelos, por exemplo, onde andam os caracóis, os cachos, os lindos black-powers? Está tudo dominado, tudo esticado, a chapinha, modinha que nasceu em pleno apagão da energia elétrica, veio para ficar de vez. Já já escrevem na bandeira nacional: ordem e escova progressiva! A mulher brasileira, como a fêmea mestiça vista por Gilberto Freyre, está desaparecendo. Pelo menos nas grandes cidades. Uma Sônia Braga, que era o xodó do homem de Apipucos, é cada vez mais rara. GF babava tanto pela morenidade da dublê de Gabriela que dona Magdalena chegou a adverti-la, na brincadeira, claro: “Cuidado com esse velhote!”. Tratava-se, deveras, de um velho enxerido, tipo brasileiríssimo já louvado nesta coluna. Mas o que está em jogo agora, camaradas, é o fim das dentucinhas. Uma lástima, uma tragédia dos nossos dias. Vocês lembram como eram especiais os beijos das dentucinhas? E os dengos orais das dentucinhas? Triste correção.
Xico Sá é cronista do Blônicas. O diabo veste Prada.
De Milly Lacombe. O cineasta italiano Vittorio de Sica escreveu que a indignação moral se constitui de 2% de moral, 48% de indignação e 50% de inveja. Me lembrei da frase quando, na semana passada, Bento XVI, em hemorragia verbal, resolveu vociferar ao mundo o que pensa sobre coisas como o segundo casamento, a união de pessoas do mesmo sexo e o aborto – para citar apenas três dos ítens explorados durante o surto que foi parar na capa dos principais jornais do mundo. Milly Lacombe é cronista do Blônicas. Para um menino com uma flor.
De Tati Bernardi. Acabo de chegar em casa e ver tudo diferente. Ainda estou fechando os olhos e tentando encontrar a parte mais quente das suas costas. Ainda estou com este riso bobo na cara, matando a saudade de ter quinze anos e uma vida linda pela frente. Pode ser mesmo que isso passe, pode ser que amanhã eu acorde e você tenha ido embora. Ainda assim, ainda que amanhã chegue para estragar tudo, poder chegar em casa e ver tudo diferente já são milhões de quilômetros rodados. Zilhões. Você não sabe, nem sonha, mas você acaba de zerar minha vida. Minha vida era acordar todos os dias e sentir aquele gosto de merda na boca. Minha vida era vestir a armadura e relembrar com dor pela milésima vez todos os últimos podres de todas as pessoas podres que passaram ultimamente pela minha vida. Você acaba de zerar tudo. Com a parte mais quente das suas costas, com o seu medo de beijo na orelha e com o seu jeito de se desculpar por falar demais e balançar os pés, você acaba de me salvar. Este texto é pra te falar uma coisa boba. É pra te pedir que não tenha medo de mim. Sabe esses textos que eu publico aqui falando putaria? Sabe esses textos falando que eu sei disso e sei daquilo? Eu não sei de nada. Eu só queria ser salva das pedras, eu só queria aprender a pegar carona nas ondas. Eu só queria que isso que eu tô sentindo agora durasse mais de uma semana. Eu só queria poder chegar em casa e ver tudo diferente. Ver tudo bonito. Ver tudo como de fato é. E você salvou minha vida. O mundo está lindo. Não tenha medo de mim. Eu só queria que esta minha vontade de perdoar o mundo durasse. Hoje eu não odiei o Bradesco, a Vivo, meus pais, o IPTU, a mulher que divide a vaga do prédio comigo, o motoqueiro que me manda ir mais para o lado, a garota que fala caipira, aquele cara que você sabe quem é. Hoje eu não odiei nada nem ninguém. Eu apenas fiquei lembrando, a cada segundo, que você se desesperou pra encontrar meu brinco de coração. Você quis encontrar meu coração pequenininho no escuro. E você encontrou. E você salvou meu dia, minha semana. E salvar meu dia já são zilhões de quilômetros. Você é meu herói. Não tenha medo deste texto. Não tenha medo da quantidade absurda de carinho que eu quero te fazer. Nem de eu ser assim e falar tudo na lata. Nem de eu não fazer charme quando simplesmente não tem como fazer. Nem de eu te beijar como se a gente tivesse acabado de descobrir o beijo. Nem de eu ter ido dormir com dor na alma o fim de semana inteiro por não saber o quanto posso te tocar. Não tenha medo de eu ser assim tão agora. Nem desse meu agora ser do tamanho do mundo. Eu estou tão cansada de assustar as pessoas. E de ser o máximo por tão pouco tempo. E de entregar tanta alma de bandeja pra tanta gente que não quer ou não sabe querer. Mas hoje eu não odeio nenhuma dessas pessoas. E hoje eu não me odeio. Hoje eu só fecho os olhos e lembro de você me pedindo sem graça para eu não deixar ninguém ocupar o lugar da minha canga. Tudo o que eu mais queria, por trás de todos esses meus textos tão modernos, sarcásticos e malandros, era de alguém que me pedisse para guardar o lugar. Tá guardado. O da canga e de todo o resto. Talvez você pense que não merece este texto. Há quanto tempo mesmo você me conhece? Algumas horas? Mas você merece sim. Hoje, depois de muito tempo, eu acordei e não me olhei no espelho. Eu não precisei confirmar se eu era bonita. Eu acordei tendo certeza. Não tenha medo. Eu sou só uma menina boba com medo da vida. Mas hoje eu não tenho medo de nada, eu apenas fecho os olhos e lembro de você me dando aquela flor velha, fazendo piada ruim às sete da manhã, me lendo no escuro mesmo com dor de cabeça. Eu posso sentir isso de novo. Que bom. Achei que eu ia ser esperta pra sempre, mas para a minha grande alegria estou me sentindo uma idiota. Sabe o que eu fiz hoje? As pazes com o Bob Marley, com o Bob Dylan e até com o ovomaltine do Bob's. As pazes com os casais que se balançam abraçados enquanto não esperam nada, as pazes com as pessoas que não sabem ver o que eu vejo. E eu só vejo você me ensinando a dar estrela. Eu só vejo você enchendo minha vida de estrelas. Se você puder, não tenha medo. Eu sou só uma menina que voltou a ver estrelas. E que repete, sem medo e sem fim, a palavra estrela no mesmo parágrafo. Estrela, estrela, estrela. Zilhões de vezes. Tati Bernardi é cronista do Blônicas e autora do livro "A mulher que não prestava". Compre aí meu! Manifesto de um ácaro contra o amor
De Henrique Szklo O amor é uma merda! Me dá até alergia respiratória só de pensar. Não, querido leitor, eu não sofri uma decepção amorosa, não sou mal-resolvido nem estou com dor de cotovelo. Até porque nem cotovelo eu tenho. Eu sou um ácaro, pelo amor de Deus! Esse meu ódio, essa minha repugnância, esse meu nojo pelo amor nada mais são do que resultado de pura reflexão intelectual. Uma questão pragmática, eu diria. Quase dialética. Na verdade, chega a ser uma questão de sobrevivência. Ou nós, ácaros, acabamos com o amor entre as pessoas, ou o amor vai acabar com a gente. Simples assim. Esta excrescência que é o amor, mesmo nas mais simples e singelas demostrações, já é para nós um inferno em vida. Começando pelo cafuné, por exemplo. Aparentemente tão inofensivo e despretensioso, não é? Mas veja pelo nosso ângulo. Estamos lá, desfrutando de um resto de couro cabeludo, uma gordurinha capilar ou até mesmo uma saborosíssima caspa. Quando de repente, sem mais aquela, aparecem unhas e dedos gigantes que ficam jogando a gente de um lado para o outro sem parar. Imagine-se num restaurante que não deixa você ficar sentado em sua mesa. Fica jogando você de um lado para o outro, por horas a fio. É in-su-por-tá-vel. Faça-me o favor! Será que dá pra deixar a gente comer sossegado? Só de ficar de mãozinhas dadas, os humanos já acabam com a nossa alegria. Na hora que as mãos se tocam e se apertam, expulsam o oxigênio entre elas e nós ficamos sufocados. Por um tempo dá até um barato ficar sem oxigênio, mas se o amor é grande e as mãos ficam muito tempo unidas, bye-bye, so long, farewell. Um pouco mais grave é o abraço. E quanto mais apertado e demorado, mais perigoso para nós, os ácaros. Não sei o que é pior: ficar na frente sendo esmagado vivo ou ficar nas costas onde uma mão enorme te esfrega pra cima e pra baixo por uma eternidade. Isso sim que é dor de amor. A partir daí a coisa começa a ficar extremamente complicada. O beijo, ah que raiva que eu tenho do beijo. Um desentupidor de pia gigante que suga a gente sem a mínima cerimônia. Fora o barulho, que é ensurdecedor. Imagine uma boca gigante em seu ouvido dando um beijinho estalado. Eu mesmo já não ouço bem de um ouvido por conta de beijos calientes dos quais participei sem pedir. Aliás, você vivem dizendo “eu queria ser uma mosquinha para saber o que está acontecendo lá”... pois é. Entre nós, os ácaros, costumamos dizer que gostaríamos de ser uma mosquinha para NÃO saber o que está acontecendo. Queremos distância da paixão. Dá pra entender ou não? Mais a pior de todas as manifestações de amor, sem dúvida é o sexo. Não existe nada mais revoltante que amor com sexo. É uma carnificina impiedosa. Pega a gente de tudo quanto é lado. Se a gente tá na cabeça de um, vem uma mão e esfrega na gente. Se a gente está no travesseiro ou no lençol, é violência e agressividade. Raspa daqui, joga dali, esfrega acolá, aquele vai-e-vem insuportável... Um fica chupando e lambendo o outro (argh!), o que embrulha nosso estômago de um jeito... você já tomou um banho de saliva? Pior, já se viu em meio a uma enchente de saliva? Não dá nem pra explicar a sensação. Tietê é fichinha. A bunda da mulher, então, é um lugar perigosíssimo para se freqüentar. Os tapas que despencam por lá matam milhões e milhões de companheiros em questão de segundos. Um verdadeiro massacre. Mas o pior lugar mesmo para ficar são os pêlos pubianos, meu Deus do céu! O que aquilo ali esfrega é uma ignorância. A fricção naquela região faz a temperatura subir de forma estratosférica. Que aquecimento global, o quê? Experimenta estar nas partes baixas de um homem ou de uma mulher durante o intercurso. O ácaro que não morre lá mesmo fica inválido para sempre. A gente torce pro sujeito ter impotência, pra mulher estar com dor de cabeça ou, no mínimo que o cara tenha ejaculação precoce. Sabendo disso você pode imaginar porque a gente não pode nem ouvir falar em uma tal de pílula azul... É, não há mesmo um lugar onde um ácaro de respeito possa ficar em segurança, com seus milhões de amigos e familiares, curtindo uma pelinha morta numa boa. Enquanto houver sexo, seremos sempre atingidos, lamentavelmente. Olhe, e não pense você que os ácaros têm algum tipo de restrição ao sexo. Conceitualmente, eu quero dizer. Não, os ácaros estão longe de serem moralistas. É claro que existem exceções. Existe uma espécie de ácaros que não se reproduz com sexo. São apenas fêmeas botando ovos. Mas aquelas pobres meninas são feministas recaucadas que acham que deram certo, mas que não têm a menor idéia do que é o orgasmo, tadinhas... Ácaro, como todo mundo, adora sexo. Mas tem de ser sexo seguro, ou seja, a distância. Esse negócio de sexo virtual, pela internet para nós foi um verdadeiro achado. Para você ter uma idéia existem membros em nossa espécie que atingem a maturidade sexual em apenas dois dias. Legal, né? O único problema é que a gente tem uma média de duas relações sexuais na vida, o que pra você pode ser pouco, mas lembre-se que vivemos apenas 2 meses. Ácaro gosta tanto de sexo que costumamos dizer que podemos ser feios, mas comemos todo mundo. É, a gente adora tirar uma casquinha de vocês. O amor entre os de sua espécie é a perdição para os da nossa. É por isso que eu digo: abaixo o amor! Vamos dar um basta neste desperdício de energia sem sentido! O amor não serve pra nada, só faz todo mundo sofrer. O amor é nosso carrasco, nosso fascínora, nosso Hitler. Milhões de ácaros indefesos tombam a cada mínima manifestação afetiva de nossos cruéis hospedeiros. É preciso acabar com essa pouca-vergonha. Só porque a gente é microscópico não quer dizer que não tenhamos direito à vida. Mas ainda há esperança. Até porque, como vocês bem sabem, o amor não dura para sempre, se Deus quiser. É, meus amigos, a conclusão a que se chega é que vocês são bem gostosos, mas muito perigosos. Se continuar assim, vamos acabar virando todos vegetarianos. Henrique escreve no Blônicas e não come ninguém faz tempo. Horrores cotidianos.
De Leo Jaime. Este não é mais um texto sobre o menino João Hélio. Uma amiga estava Leo Jaime é cronista do Blônicas. O dia em que fiz merda.
De Rosana Hermann. Não sou de escrever palavrões mas hoje, foda-se. Estou atordoada, sob as sequelas de uma seqüência de erros e nem ao menos sei aonde fica o trema no Mac para acentuar os us. O único consolo é que não vou precisar botar os pingos nos is, porque eles já vem com os respectivos pontinhos voadores. Rosana Hermann é cronista do Blônicas. Elogio da maquiagem.
De Xico Sá.
Há muito tempo, muito tempo mesmo, muito antes dos nossos avós, já havia a polêmica: a mulher deveria recorrer ou não aos recursos artificiais para embelezar-se, livrar-se dos pés de galinha e travar a peleja contra a foice do tempo, como já dizia Shakespeare?. É deveras uma das questões mais enrugadas da humanidade, que agora alcança o seu momento máximo, em tempos de Botox e até transplante de rosto, em episódios extremados. Em meados do século XIX, o poeta Charles Baudelaire, gênio dos gênios, já fazia um chamado para que as fêmeas superassem as “imposições” da natureza. “A mulher tem o direito, aliás, ela está até mesmo cumprindo uma espécie de dever, quando se dedica a parecer mágica e sobrenatural”, pregava no seu breve ensaio “Elogio à maquiagem”. Segundo o francês, um dos inventores do que chamamos hoje de modernidade, não importava qual fosse o truque feminino, o que valia era o seu efeito irresistível. Ovídio, mais das antigas ainda, como sempre me lembra Miss Soledad, também gastou o latim com a polêmica da cosmética. Estariam o velho Charles e o escriba romano mortos de felizes nos tempos que correm? E vocês, meus amores, que acham? Opiniões serão bem-vindas. E fica ai em BG, Marina morena, um plá direto da rede do glorioso Caymmi, com barulhinho das ondas ao fundo... E para complicar mais ainda as coisas por estas bandas, sampleio um velho catecismo de devoções, adonde se lê, crônica de costumbres: Nada de acreditar nessa historinha de “você já é bonita com o que Deus lhe deu!” Dorival, saravá meu pai!, é uma beleza de homem, sábio, mas esse verso, aqui neste momento, não soa bem aos ouvidos. Pinte esse rosto que eu gosto e que é só seu. Com todos aqueles lápis que lhe fazem uma criança brincando de colorir o desejo tenha ou não tenha um belo cavaleiro no seu horizonte.
Xico Sá é cronista do Blônicas.
Eu não nasci pra isso.
De Tati Bernardi. No meio de uma risada, entre uma e outra troca de intimidade, de repente, me pergunto o que exatamente estou fazendo aqui. Me maquiando enquanto você repassa a agenda do celular. Fazendo piadas com toalhas e sucrilhos. Não faço a menor idéia de quem é esse cara sentado aqui no meu sofá, cheio de dúvidas se casa comigo ou me esquece uns dias para a vida parecer mais planejada. Tati Bernardi é cronista do Blônicas e lançou o livro "A mulher que não prestava" à venda nas principais livrarias. Comprem!!! Mulheres do meu Brasil varonil.
De Leo Jaime. Esse era um bordão do grande Zé Bonitinho, personagem de humor tradicional Leo Jaime é cronista do Blônicas. Ame-o ou deixe-o.
De Rosana Hermann. Este raciocínio foi abolido junto com o VHS. Não existe mais. Assim como algumas espécies entram em extinção, como a tecnologia é suplantada, como a medicina avança, o comportamento humano também se altera com o passar das décadas. O ‘love it or leave it’ acabou junto com os sonhos de igualdade. Agora o ódio é ativo. Não há opção de ignorar quem você não gosta. Ninguém deixa mais nada ‘pra lá.’ Em função deste acontecimento, a incapacidade de simplesmente ignorar os desafetos, o mundo passou a praticar o ódio como se praticava o amor na era hippie. O maior exemplo disso são as muitas comunidades do tipo ‘eu odeio’ em sites de relacionamento. Externar o ódio pelas pessoas virou uma prática comum, quase uma muda, como o teste de Cooper nos anos 80. Claro que o ódio não é uma invenção moderna. Amor e ódio são tão antigos quanto o dia e a noite. Ou mais. A diferença é que hoje o ódio está em todo lugar, especialmente hoje, na véspera de recebermos a visita de um dos homens mais odiados no mundo, George W. Bush, sentimento mais do que justificado no caso deste senhor. Mas por ele ter sido eleito, odiamos também todos os eleitores americanos, assim como desprezamos boa parte desta cultura que um dia glorificamos como sendo o modelo ideal a ser copiado pelo Brasil. Se o ódio fosse só ideológico e cultural, do tipo que gera paixões, não haveria problema. O que abala é que odiamos todos os anônimos que se tornam obstáculos em nossas vidas. Odiamos o cara na nossa frente na fila, odiamos a moça do telemarketing que liga no sábado de manhã pra nossa casa, odiamos a pelada da revista, o jornalista da tv, odiamos todos os motoristas que estão na nossa frente no trânsito impedindo nosso acesso ao próximo cruzamento. É ódio que não acaba mais. Não é de se admirar que tanto ódio tenha gerado a maior onde de falta de auto-estima do mundo. Só se fala nisso. A auto-estima não é nada senão o velho amor-próprio com roupinha fashion. E o que é a falta de amor-próprio senão a falta de capacidade de amar? Se não amamos nem a nós mesmos como vamos ser capazes de amar qualquer um a nossa volta? Seria bem chato convocar a música “É o amor” a essas alturas, já que não sou fã da dupla em questão. Mas se for a cura vou comprar o CD. Se parecer piegas, que pareça. Se soar estúpido, que soe. Mas o mundo não vai se curar de suas mazelas se não começarmos a praticar o amor novamente. O amor ao próximo, a nós mesmos, amor à vida, amor ao mundo. Nem que pra isso tenhamos que criar academias de amor onde todos possam desenvolver este músculo tão simbólico e representativo da vida chamado coração. Lá, sim, vai ser um bom lugar pra malhar. Rosana Hermann é cronista do Blônicas. Viva a diferença.
De Milly Lacombe. Oito de março: Dia internacional da mulher. Para celebrar a data, um festival midiático de entrevistas, homenagens, comemorações. Tudo para paparicar o gênero feminino. Não que não mereçamos tantos mimos e confetes. Mas concentrar todo esse fuzuê festejante em um dia apenas é, como quase tudo o que nos rege, hipócrita. O que faz diariamente por nós, por exemplo, a religião organizada? Quem são as mulheres dentro das igrejas? Mas podem apostar que, na próxima quinta-feira, haverá, pelos templos sagrados do planeta, sacerdotes pregando a importância da mulher. Mulher que não pode ascender na hierarquia da organização, que não tem o direito de comandar liturgias, que não pode, sequer, se manifestar publicamente em nome de suas crenças. Mas, no dia oito, o clero nos celebrará. O mesmo clero que faz uso da tal cartilha moral escrita há dois mil anos (ou coisa parecida, quem consegue precisar?) que diz que saímos das costelas de um homem. Um mínimo de reflexão apontará o paradoxo: se somos nós que temos a capacidade de gerar, como saímos de uma pequena parte de osso deles? E quem ousa questionar os livros sagrados? Tudo se questiona, tudo de discute, mas questionar os livros sagrados é absolutamente proibido, mesmo que suas histórias façam tanto sentido quanto a de Chapeuzinho Vermelho. Deixemos as religiões organizadas de lado e analisemos nossos líderes políticos. Uma foto do congresso nacional é suficiente para mostrar centenas de engravatados no comando. Onde estão as mulheres? Pois quase não existem ali. E são esses engravatados que votam leis exclusivamente femininas, como, por exemplo, a do aborto. O que entendem eles sobre aborto? Por que, então, continuam a fazer leis que são de interesse feminino? Mas, no dia oito, Brasília, muito convenientemente, nos celebrará. Agora voltemos as lentes para o empresariado. Onde estão as damas que comandam? Quantas são? Poucas, pouquíssimas. Na dúvida entre promover um homem ou uma mulher com qualidades semelhantes, o gênero feminino ainda é perdedor nato. Mas, dia oito, o empresariado nos renderá homenagens, elogios, gracejos. A verdade é que somos, na ponta do lápis, o mais forte dos gêneros. Aquele que dá à luz, que vai trabalhar com cólica, que usa as horas do almoço para pegar o filho na escola, almoçar com ele e voltar correndo para o escritório. Aquele que cuida da casa mesmo trabalhando tanto quanto marido, que, no meio de uma reunião, atende ao telefone para dizer à filha que não é hora de tomar refrigerante, que se multiplica em tarefas diárias para se sentir bonita, saudável, sedutora, que não tem vergonha de chorar em público. Quantos homens conseguiriam passar pelo dia com metade dessas funções? Por tudo isso, mas principalmente porque somos mais sensíveis, acredito que o mundo passará a ser um lugar melhor apenas quando, em vez de nos celebrar por força de uma canetada em uma quinta-feira qualquer de março, passar a nos aceitar, pelo resto do ano, como iguais. Embora sejamos maravilhosamente diferentes. Milly Lacombe é cronista do Blônicas. De pedra.
De Tati Bernardi. Desse ângulo que estou agora, vejo meu Ipod rosa tocando David Bowie, a pia desmoronando e a tarraxinha do brinco que andava perdida. Está tudo no lugar, está tudo lá, me olhando. É a vida dizendo que faz sentido. Faz sentido a pia descolar depois de um tempo com tanto peso em cima dela, faz sentido que o aparelho que serve para tocar, toque. Faz sentido que um brinco tenha tarraxinha e faz ainda mais sentido que a tarraxinha, algo tão pequeno, se perca. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. O mundo é dos chatos.
De Leo Jaime. O avião para e no mesmo instante, antes que as luzes de apertar cinto se apaguem, a turma toda se levanta e começa a procurar a bagagem. O avião dá aquela freada e algumas malas grandes ou mochilas começam a bater nos que ficaram sentados. Os que estão de pé fazem tudo frenéticos, como se a segurança definitiva, a garantia que não foi mesmo desta vez só seja garantida quando seus pés pisarem o chão ou o ³finger²pelo qual o desembarque é feito em alguns aeroportos. A verdade, a dura realidade é que a porta do avião vai demorar uns cinco minutos para abrir. Toda esta ansiedade só vai significar mesmo estes mesmos cinco minutos serão passados em pé, com o peso da mala, apertado por outros passageiros e alguns pequenos percalços por abrir o bagageiro com a nave em movimento. As bagagens sempre se movem durante o vôo e o ideal seria só abrir aquele compartimento com o avião parado. Mesmo com o pescoço torto, em pé entre as poltronas, os apressados preferem esperar em pé e com o peso da mala nas mãos. Contar para eles que a bagagem vai demorar o mesmo tanto, que a pressa é infundada, isso acho que não ia adiantar. O trânsito vai se arrastando. Em São Paulo a qualidade de vida está intimamente relacionada ao tempo em que se passa preso no tráfico. Se o morador não costuma pegar engarrafamentos sua vida é muito melhor do que a dos que pegam. É um dado realmente importante. Mais à frente, nada aparece para justificar a lentidão vencida. Gente que gosta de andar devagar: este é o principal mal para da capital paulista. Faça o teste: na marginal, onde a velocidade permitida e recomendada é de 90km/h, imprima esta velocidade em seu carro e observe. Vai se sentir um piloto de Fórmula Um tentando tirar um segundo por volta. Ninguém, eu digo nenhuma viva alma, vai andar mais rápido ou igual a você! Talvez exista na alma paulistana alguma nostalgia de paradas militares, de desfiles de 7 de setembro, de Dragões da Independência. Desfila-se, de queixo levantado e expressão altiva, ao invés de fazer com que o fluxo escoe rapidamente pelas veias cruciais da metrópole. Final de tarde, praia, algo de romance e paz se instala com a luz rosada do sol que se põe. Porém, o mar quebrando suavemente com sua sonoridade mágica não pode compor a paisagem. Um carro popular com o porta-malas aberto, transformado em caixa acústica mono e de graves desagradáveis, ocupa todo o mapa sonoro da beira-mar. Desnecessário dizer que a turba é obrigada a ouvir o que o dono da engenhoca gosta de ouvir pois o volume é, invariavelmente, estratosférico. Fácil é imaginar a qualidade do que ali é executado. O que há de errado com o som do mar ao ponte? Com qual garantia alguém se arvora a DJ, determinando o quê e em que volume o som dele rolar sob o céu, subvertendo a natureza? Há ainda os fumantes a supor que o mundo precisa mesmo é de mais fumaça, assim como o mundo inteiro pode ser configurado como um enorme cinzeiro, já que toda parte é adequada para se bater as cinzas? O fumante educado afasta o seu cigarro para longe dos convivas de sua mesa, em restaurantes, e quase o encosta na cabeça de quem está na mesa ao lado ou atrás. Em uma pista de dança cada cigarro aceso queima umas 3 pessoas. Deve ser difícil ficar com uma garrafinha de cerveja em uma mão, o cigarro na outra e um chiclete antigo na boca sendo mastigado com a mesma aberta. Deve ser duro para quem tem que administrar tudo isso. Assim como é para quem fica ao lado ou assiste à esdrúxula performance. Pelo que posso depreender a tripla combinação são parte da composição do figurino que quem vai à balada. O paladar da mistura chiclete/cerveja não parece interessante. Cerveja e cigarro misturado não deixam um cheiro bom na boca, daí a necessidade do chiclete. Tudo, claro, segundo o meu ponto de vista em momento de intolerância. Observar os outros e, mais dramático, dividir a vida e o mundo com todos é tarefa que exige paciência. E mesmo que a verdade seja outra ou insondável, a percepção que tenho em alguns momentos é a de que chatos são os outros. Leo Jaime é cronista do Blônicas. |