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Educação e amor.

De Leo Jaime.

Um dia tive contato com uma estatística que apontava números de
investimentos em todas as áreas, numa perspectiva mundial. O quanto gastamos
com saúde, com educação, com arte, com armas de guerra, com segurança
pública, com investimentos em casas e assim por diante. No mundo. O
investimento em armas de guerra passava de trezentas vezes o que gastamos em
educação. Com isso é fácil concluir qual o nosso destino: é esse que
compramos.

A educação deveria ser uma meta fundamental no mundo inteiro. O conhecimento
tem se provado pacificador e motivador de grandes melhorias na qualidade de
vida e nos relacionamentos entre os povos. Há que se perceber, porém, um
detalhe: a educação está sempre levando a cultura como sua dependente quando
deveria ser o contrário. Explico: o Ministério da Educação pode ou não levar
a pasta da Cultura em seus atributos. E se o Ministério da Cultura for
independente sua verba será infinitamente menor. É assim em todo canto e
todo mundo parece concordar, menos eu. Simples o raciocínio, difícil a
compreensão: para se estabelecer um paradigma do que deve ser ensinado é
importante estabelecer o que é belo, o que é louvável, o que queremos
instituir como bem cultural. Ética e estética. Depois de conhecidos esses
referenciais fica muito mais fácil estabelecer moral e comportamento,
escolher um programa escolar de base e estabelecer o que vai e o que não vai
ser pesquisado, Essa é a chance que temos de inverter o investimento em
armas trocando-o por coisas que produzam felicidade. Mas antes disso, muito
antes, é preciso convencer a humanidade que a felicidade é uma coisa boa.
Por isso investir em cultura. Sem contato com o belo, a educação pode ser
infrutífera. Aprender o quê?, pra quê?

O amor deveria fazer parte dos ensinamentos básicos de todo cidadão. Isso se
culturalmente compreendermos que sem amor somos um nada, sem amor não
podemos ser felizes e nem convivermos bem em grupo, sem amor nossa vida é um
caminhar em círculos sem graça. E a compreensão do amor fica muito melhor se
estudarmos, se lermos as grandes estórias, os grandes romances, se pensarmos
em todas as refrações do amor. O amor à natureza, aos animais, ao que se
construiu no passado, ao belo, ao prazer, às artes, ao que ainda não se
conhece ou o metafísico. Há muito o que se pensar sobre o amor. Há muito o
que se aprender com o amor. Se os garotos ficassem dos 7 aos 11 anos
estudando apenas e somente o amor, deixando a tabuada para depois, não
seriam pessoas piores, tenho certeza. E seriam educadas de dentro pra fora.
Da alma para o corpo social. Primeiro ser uma boa pessoa para depois ser um
bom cidadão.

E depois, um pouco mais tarde, estudar junto com outras coisas, é claro, o
amor romântico. O enamoramento, o ciúme, o desejo, a pequena morte ou
orgasmo, a linguagem do amor.... tanta coisa fundamental para se saber e
todo mundo estudando inglês ou fazendo ginástica.

Alguma coisa vai dar errado.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 21h54
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O colar de coquinhos.

De Rosana Hermann.

 

Um dia você sai na rua e vê um rapaz usando um colar de coquinhos. Parece estranho. O colar é comprido, os coquinhos são grandes e o cara não tem jeito de quem já usou colar alguma vez na vida. A cena passa.

Você anda mais alguns passos e bingo!, outro rapaz com o mesmo colar.

‘Coincidência’, você pensa. Vai ver é irmão do primeiro.

Você continua caminhando. Mais dois, três, quatro seres do sexo masculino ostentam colares de coquinhos em diferentes formatos.  Mais cem, duzentos, trezentos passos e você vê uma banquinha de camelô vendendo o colar por vinte reais.

Não resta mais nenhuma dúvida, o colar está na moda.

 

A moda tem este elo de ligação com as endemias, ninguém sabe dizer quem foi o primeiro hospedeiro. Não estamos falando do criador do colar de coquinhos, já que o coquinho existe desde que o mundo é mundo e o colar desde que a mulher é vaidosa. O caso aqui é saber quem foi que criou esta moda para homens jovens ou quem a ressuscitou das catacumbas do ostracismo do verão retrasado. Alguém deve ter sido o primeiro garoto a pegar o colar da mãe e botar no pescoço, para ser logo copiado por outro e outro até que virasse uma febre.

 

Aqui na cidade de São Paulo, onde não se encontra muitos coqueiros na Avenida Paulista, o que mais a gente vê é este colar, nos peitos de muitos meninos e jovens. Pode ser usado sobre a camiseta, sobre o peito nu embaixo da camisa aberta, pode ser combinado com boina ou boné. Tem coquinho médio, grande e extra-large. Coquinho pequeno não tem porque o coquinho já vem no diminutivo. E depois, coquinho pequeno é coisa de boiola. Homem que é homem mata a cobra e mostra o côco.

 

Particularmente não acho cômodo. Sou casada e sou fiel, nunca abracei um homem de colar. Mas acho que apertando o rapaz com gosto os coquinhos devem machucar os seios. Vai ver o colar é uma mensagem pra mulherada ficar longe.

 

Também não acho o colar muito bonito nem higiênico. Sempre tenho a paranóia de que, por serem orgânicos, os coquinhos devem estar cheios de microorganismos, bactérias, fungos, sujeira, já que ninguém lava o colar.

 

O problema é quanto mais eu vejo o colar mais tenho vontade de fazer experiências. Olhar os coquinhos no microscópio, abri-los para saber se são ocos, cozinhá-los para descobrir se são comestíveis. Ou, quem sabe, numa noite de paixão, botar o colar no maridão e abraçá-lo intensamente pra ver se realmente machuca ou se causa uma nova sensação mais excitante. Acho que vou comprar um desses. Pechinchando bem deve cair de vinte pra dez. Ou com vintão compro dois e dou um colar pro meu filho.

 

Deve ser assim que a moda pega.
A curiosidade é contagiosa.

 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h42
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Debaixo dos caracóis dos seus cabelos.

De Xico Sá.

Minha amiga Gigi, Miss Gi, torrou uma grana no salão metido a chique, ora, era aniversário do bofe, queria fazer bonito, mostrar para a ex dele, aquela piranha, que era mais ela, mostrar para a sogra, sempre do contra, que tava podendo, que sai debaixo, que sai da frente, que debaixo dos seus cabelos, mil e uma noites, chega de caracóis, e histórias para contar, aí, aí, vai encarar, sou mais eu, madeixas, ame-as ou deixe-as, e dá-lhe a alisá-las, no ferro em brasa, uma beleza, via só as pontas, nervosa no espelho, meu Deus, vou arrasar com aquela vaca, capricha, capricha, dizia para a cabeleireira, o ferro em brasa, como quem ferra um boi, fuerza en la peruca, os fios na estica, capilares corazones, Miss Gi toda-toda, arrasô a fofa, tá meu bem, passar bem, a chapa quente, aquele movimento em “s”, para cima, para baixo, adeus meus cachos, supresa mais linda, niver do bofe, desgosto para a ex, veneno para a sogra, capricha fulaninha, fuerza na tomada, 220 volts esta noite, Gigi sai uma lindeza, o ventilador sopra no teto, vê-se na sala toda-espelho, Narciso perde nessa hora, o mundo é todo inveja, cabelo ao vento...  peruas jovens reunidas, Miss Gi torra toda a grana, tudo vale a pena quando alisa-se até a alma, sai toda empolgada, sai à rua como uma estrela, passos de modelo, ate que o sonho vira pesadelo, como anuncia o homem do tempo: uma chuvinha, uma chuvinha, uma chuvinha... uma garoa de frente fria acaba com o orgulho de Gi e sua caprichada chapinha!

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h07
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A gostosa.

De Antonio Prata.

Sempre que entro num recinto público - pode ser padaria, cartório, açougue ou velório - olho em volta, procurando a gostosa. Não o faço por desejo, carência, narcisismo ou outro simples reflexo de minha banal condição masculina. A gostosa é um acontecimento literário.

Ela pode ser loira ou morena, alta ou baixa, preta, branca, japonesa ou búlgara, não importa: a gostosa é um estado de espírito. Ou, se preferirem outra palavra, tão esgarçada por programas de esporte, revistas jovens e propagandas de achocolatados: uma atitude.

Hoje fui ao cartório. Havia ali, sentada, entre os motoboys e os aposentados, a esperar sua senha apitar no painel, uma mulher que parecia a Claudia Cardinale em Era uma vez no Oeste. Estava discretamente vestida, de cabelo preso, xale sobre os ombros.

Não era a gostosa.  A gostosa não deixa dúvidas. Chegou cinco minutos depois, de calça jeans desbotada agarrada à bunda, combinando com um top apertado que espremia os peitos e deixava entrever um soutien preto.

Assim que entra, com seu rebolar, o cheiro do perfume e o movimento dos cabelos ela emite a todos, como que por telepatia, a incontornável informação: atenção, a gostosa chegou.

Muda tudo. Cada um sabe exatamente qual o seu lugar social diante da gostosa. O aposentado de jaqueta bege olha de soslaio e, quase triste, suspira. As moças do cartório franzem imperceptivelmente a sobrancelha, regozijando-se de suas virtudes feitas de crachás, cafés e conjuntinhos pretos. Um rapaz de óculos, meio nerd, olha pro teto, olha pro chão, as mãos lhe sobram. Todos arriscam um olhar em direção à gostosa, mas ela dá penas uma conferida panorâmica, mascando o chiclete - displicentemente, como quem macera corações - e retira a senha.

Então, do conjunto desconjuntado de homens, do meio dos aposentados e míopes, dos barrigudos e coxos, dos médios, dos graves e dos agudos, surge o Macho da Gostosa. Pode ser um motoboy bem apessoado, um playboy, um pequeno empresário novo-rico de correntinha de ouro. Não acontece nada. Eles apenas se olham e, tacitamente, todos sabem, a gostosa é dele. Tristeza para alguns, alívio para outros. Depois a gostosa vai para um lado, ele pro outro, não sobra ali nenhum ator daquelas bem ensaiadas cenas, apenas um perfume doce no ar e a voz da mocinha virtuosa chamando o próximo: cinquenta e quatro, cinco quatro!

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h37
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O oeste morreu de velho

De Henrique Szklo

Me mudei recentemente. E nas mudanças a gente acaba achando coisas do arco da velha. Algumas delas nascidas na mesma época em que se costumava usar a expressão “arco da velha”. Uma destas preciosidades que encontrei foi uma sinopse de um livro que pensei em escrever há uns 20 anos. Ficou só na sinopse. Era muito complicado. Mas relendo, achei besta e, até por isso, engraçado.
Era uma história policial passada nos tempos do velho oeste americano. Tudo começa com o assassinato do dono do jornal de uma cidadezinha que desencadeia um sem-número de mortes misteriosas. Era narrada em primeira pessoa pelo Delegado Federal Ernest Saw.
Cidade – Shallow City
Nome do jornal – The Awarenesses Voice
Jornalista Assassinado – Benjamin Awareness
Namorada do jornalista – Angelica Bigbuttocks
Filha adotiva do jornalista – Clara Noparents
Pai do delegado (serralheiro) – Jeremy H. Saw
Prefeito – Half Wit
Prostitutas – Samantha Heavensgate, Brigitt Laissez Faire, Joan Easylife e  Mimi Olderjob
Viúva dona do armazém – Marry Often
Dono do armazém (último marido de Marry) – Geoff Stealinchange
Nome original do armazém – Stealinchange Store
Nome atual do armazém – Stealinchange Often Store
Pistoleiro aposentado – Henry P. Sluggard
Banqueiro – Samuel Fleece
Grande fazendeiro – Philip Owner (Após a morte do jornalista, ele compra o jornal e muda o nome para The Owners Voice)
Ladrão de cavalos – Dont Lookteeth
Xerife – James Selled
Médico – Charlie Butcher
Barbeiro – Thomas Handquake
Pianista do saloon – Stevie Leadhand
Dono do saloon – George L. Mixwater
Padre – Graham Sinner
Ferreiro – Joshua Stickspit
Bando de ladrões – Jack Toowicked, Rip Stonehart, Joe Eatchild, Bob Woodface, Cock Roachblood, Zack Mumsmurder e Lee Emptyhead

Quem morreu:
O jornalista, o pai do delegado, a namorada do jornalista, o padre, o grande fazendeiro, a dona do armazém, todo o bando de ladrões, o agente funerário, o pistoleiro aposentado, o xerife e o delegado (narrador).

Sinopse:
Quem matou o jornalista Benjamin Awareness foi o pai do delegado, Jeremy H. Saw. Ele era um homossexual enrustido e amava o jornalista. Queria, na verdade, matar a namorada dele e o atingiu por engano. Vendo que matou o amor de sua vida, pôs fim à própria.

A namorada resolve revistar a casa do serralheiro e acaba encontrando cartas comprometedoras que provam o romance entre ele e o jornalista. Ela escreve tudo o que lê em seu diário. Um pouco adiante, tem um caso com o padre, que acaba a matando com medo de ter revelado seu romance. Ele encontra as cartas e o diário da moça e leva tudo para a igreja.

Corroído de remorsos, ele, ajoelhado, pede perdão a Deus pelo que fez em voz alta. Alguém ouve tudo atrás da porta da sacristia e sai correndo. Um enorme crucifixo que estava muito mal preso na parede acaba caíndo em cheio sobre a cabeça do sacerdote que tem uma morte instantânea.

Quem ouviu a confissão do padre foi o grande fazendeiro, Philip Owner. Ele conta tudo o que ouviu para sua amante, Marry Often, a dona do armazém. Dias depois, ele morre de um ataque cardíaco. Como ele havia ficado com o jornal e não tinha herdeiros, Marry Often passa a ser a proprietária do periódico. Ela resolve escrever tudo o que sabe e publicar na edição seguinte. Na mesma noite, o jornal é assaltado por bandidos, que matam a mulher e põe fogo no prédio. O chefe do bando embrulha o dinheiro roubado num exemplar do jornal.

Horas depois, o bando todo é morto por um grupo de índios selvagens. Quando vai enterrá-los, o agente funerário encontra o jornal e fica estarrecido com o que lê e leva ao xerife. Como o xerife era comparsa dos bandidos, acaba prendendo o agente funerário, acusando-o de todas as mortes. O agente consegue fugir da cadeia e vai procurar o delegado federal. Como está foragido, resolve entrar pela janela ao invés de bater na porta. O delegado acha que é alguém tentando matá-lo e atira no vulto. Quando vê quem é, tenta ajudá-lo, mas já é tarde. O agente funerário morre, mas ainda consegue dizer ao delegado tudo o que estava escrito no jornal.

O xerife vai dormir com uma prostituta e resolve deixar o jornal guardado com ela. Ao sair do bordel encontra o delegado (nosso narrador), que estava à sua espera. Eles duelam e o xerife cai morto. Quando pensamos que finalmente o bem triunfou sobre o mal, o delegado toma um tiro no meio da testa. A prostituta amava o xerife e resolveu vingar sua morte.

A partir daqui, a história muda de narrador. O delegado morreu e a prostituta pegou o livro para continuar o relato. Ela resolve, então, finalmente revelar ao, leitor, que até então não sabia de nada, o que estava escrito no jornal. Só que a história não estava completa. O jornal estava rasgado justamente na parte onde estavam as informações contidas no diário da namorada do jornalista.

A prostituta vai procurar o tal diário e o encontra no armazém, junto com as cartas que finalmente desvendam o primeiro assassinato.

Neste momento, o autor dá um chega pra lá na prostituta e passa ele a narrar a hitória. Ele está possesso. Diz que os personagens são incompetentes em investigar os crimes e resolve ele mesmo reestabelecer a verdade, que é a seguinte: o delegado narrador era um tremendo de um mau-caráter e grande mentiroso. Desde o início ele sabia que o assassino do jornalista era o pai dele. O acidente do padre não foi realmente um acidente. Ele (delegado) acertou com o crucifixo na cabeça do homem de Deus. O pistoleiro aposentado ajudava o delegado nas investigações e acaba desaparecendo no meio da história. O que passou foi que, quando ele descobriu toda a verdade, o delegado acabou o matando para não sujar a memória de seu pai. Quem o ajudou a sumir com o corpo foi o agente funerário. E quando este mesmo agente entrou por sua janela, ele sabia perfeitamente quem era quando atirou. Era simplesmente uma queima de arquivo.

O autor continua seu relato e revela que ficou com tanta raiva que acabou matando alguns personagens pelo simples prazer de brincar de Deus.

No final, o narrador muda novamente. É um delegado da polícia federal dos dias de hoje falando que o autor foi preso por estimular a violência e escrever estórias esdrúxulas.

Henrique escreve no Blônicas e entre bravos se criou.
Visite seu
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Escrito por Blônicas.. às 13h36
[]


Aos 16.

De Leo Jaime.

Aos 16 anos você pode ser emancipado. Pode dirigir, votar para presidente, senador etc. Pode eleger o executivo e o legislativo e estes podem declarar guerra. Aos 16 anos você pode se inscrever no vestibular e viver um primeiro amor. Pode ser pai ou mãe. Pode muita coisa, não pode algumas, como beber, mas mesmo assim dificilmente não terá tido, nesta idade, alguma experiência na área: bebidas, tabaco ou estados alterados de consciência, seja elas por substâncias legais ou não.

Aos 16 anos, porém, você não pode ser penalizado como um bandido comum, mesmo que o seja. Sua pena será de,  no máximo, três anos, seja lá a besteira que você cometeu. Diante de tantas escolhas, que perduram por toda a vida, a de cometer crimes é a única que será revogada em um prazo relativamente curto. Se tiver um filho, começar a fumar ou eleger um determinado candidato, provavelmente estas escolhas, e suas conseqüências, se farão mais definitivas em sua vida. Claro que passar alguns anos na jaula há de mudar e muito a vida de alguém, mas o peso parece diferente. Será?

Aos 16 anos você pode matar, estuprar, torturar, inclusive tudo isto ao mesmo tempo. Os "entendidos" dizem que quando faz isso você é uma criança que não sabe o que faz. Mas se você escolher um governador, na mesma idade, é um adulto e seu voto tem que ser respeitado tanto quanto o de um juiz ou cientista político. É esta a assimetria.

Certas coisas sempre escaparam ao meu juízo: por que dezoito? Por que não dezessete ou dezenove anos? Um dia antes do seu aniversário você é imaturo e no dia seguinte, pimba, foi iluminado por uma súbita e inconteste consciência? Será? Alguns produtos vêm com a validade na embalagem. Você fica olhando para  o relógio e para o requeijão: quando der meia-noite e um aquele troço tem que ir para o lixo. Melhor comer às 11:59 hs.

Também me escapa a compreensão sobre a proibição de algumas substâncias ou jogos, em detrimento de tantos outros liberados. Jogar poker ou blackjack é pior do que apostar nos cavalos ou nas máquinas do bingo? Alguém, com um mínimo de vergonha na cara, consegue dar uma explicação razoável? Vários psicotrópicos são vendidos na farmácia, a cachaça é vendida em qualquer esquina, mas é só a maconha que pode destruir sua personalidade? Será? Nunca consegui imaginar uma desculpa, por mais idiota que fosse, para a proibição de algumas drogas ou jogos, quando a maioria é liberada. Também não entendo o porquê de insistir nestes jogos ou substâncias quando tantos são liberados.

O fato é que pode-se questionar as regras do jogo. As proibições de coisas muito populares, e consumidas em escala industrial, gera a existência de uma realidade paralela e criminosa. Esta realidade, chamada injustamente de crime organizado, seleciona jovens para suas frentes de trabalho. Isto é fato. Estes jovens serão, evidentemente, os favoritos para cometer os crimes mais pesados, uma vez que para eles a punição será sempre mais branda. Ou
seja: quem da sua empresa você envia para uma determinada missão? Quem der menos preju. Será?

O fato é que se a idade for 16, vão convocar para o crime garotos de 10 ou 11 anos. Aliás, já convocam. Puni-los pode ser insuficiente para reverter isso. Não puni-los pode ser ainda

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h58
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Brasil, o paraíso da cópia.

De Rosana Hermann.

A pirataria nunca vai acabar no Brasil. Nunca. Podem criar ongs, instituições ou associações de combate que não vai adiantar nada. Alguns veículos de comunicação vão ganhar dinheiro pra veicular as campanhas, mas é só. Brasileiro não vai deixar de comprar produto pirata por uma simples razão: brasileiro gosta de cópia.
Pode ser cópia de marca, de roupa, de bolsa, de CD, não faz diferença. O povo gosta da coisa copiada mesmo. Ele privilegia a cópia, porque admira o copiador.
O copiador, para o brasileiro, é o verdadeiro ídolo. O cara esperto que economizou tempo e dinheiro e foi direto à fonte para roubar a idéia. Esse é o cara.
Por amar a cópia e admirar o copiador, o sonho de todo brasileiro é copiar alguém ou alguma coisa que o faça ficar rico e famoso instantaneamente. Brasileiro não gosta de coisa que demora e dá trabalho. Ele quer ter mais tempo livre pra fazer as coisas que realmente importam na vida, como não fazer nada, um dos esportes favoritos da nossa gente tão fagueira.
Isto explicar, por exemplo, o motivo pelo qual o brasileiro despreza tanto a autoria e a primazia. Para ele tanto faz quem criou ou quem fez primeiro. Interessa quem se deu bem com a coisa, quem copiou melhor, que ganhou mais fazendo menos. A gente quer é rosetar. Quem é que quer saber o autor da piada? Interessa que ela seja boa, que a gente conte na rodinha de amigos, faça sucesso e coma a mulherada. Isso sim é vida. 
E, claro, quando alguém que por acaso é o autor ou o inventor de alguma coisa reclama sua autoria o povo cai de pau. Quem ele pensa que é? Só porque criou primeiro e inventou alguma coisa acha que é dono do mundo? Não senhor! Coisa mais chata essa gente que reclama de ser copiado! Coisa de bundão. Não sabe que a cópia é um elogio, uma homenagem?
Brasileiro é assim, Macunaíma preguiçoso, aproveitador, esperto, corsário. Copiar é o lema. Copiar, ocupar, tomar posse. Pegar pra si. Capturar. Roubar do mundo.
A explicação antropológica ainda está por ser descoberta. Talvez seja por causa da nossa extensão territorial que criou aquela mentalidade de coleta e nomadismo. A gente anda, mata, come, colhe, suja e, quando acaba, vai pra outro lugar. A natureza no Brasil não é assim, farta, pródiga, pronta? Se está aqui é pra usar. Que diferença faz quem criou? E se acabar tudo e não sobrar nada pra ninguém, que diferença faz? Não vamos estar vivos daqui a cem anos, nenhum de nós. Até lá, não vai acabar nada.
Nem a impunidade.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h30
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Tua presença morena.

De Nelson Botter.

 

Ela calou minha boca com um beijo. Longo, suave, terno. Quando dei por mim, nem lembrava mais quais eram minhas reclamações, o estopim daquilo tudo, nada. Completamente atordoado, vi seus lábios se afastarem dos meus e aos poucos um gosto amargo foi invadindo minha boca. Ela sorriu, virou-se e deu adeus. Não entendi nada, seria apenas um tchau ou um verdadeiro adeus? Vampira! Vem aqui, me suga e se vai! Peguei-a rapidamente pelo braço, apertando firme, ao ponto de marcá-la, não tanto quanto ela havia marcado minha vida, mas estava determinado a não deixá-la partir daquele jeito.

 

- Você não pode simplesmente virar assim e me dar as costas, me deixar aqui falando sozinho...

 

- Nunca te deixarei falando sozinho, Sandro, você sempre terá a companhia de seus fantasmas.

 

Aquilo me deixou perplexo, eu não sabia o que responder, apenas soltei seu braço e a vi sorrir novamente, dessa vez com muito mais malícia no olhar. Ela sabia como me atingir, ela sabia tudo e eu era um simples fantoche de suas vontades.

 

- Onde você vai, Fabiana?

 

- Morrer...

 

Depois disso nunca mais a vi. Simplesmente sumiu. Era o fim de mais de 8 anos de casamento, de uma vida a dois, de uma cumplicidade sem tamanho. Era o fim, mas ao mesmo tempo era um novo início, pois como ela mesmo havia dito, meus fantasmas vivem a me cercar, e ela, agora morta, estava mais presente do que nunca. 

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h06
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A extinção das dentucinhas.

De Xico Sá.

 

Denúncia urgente: estão acabando com as dentuncinhas. Sim, não é de hoje, faz tempo, mas agora beiramos realmente a extinção da espécie.  

Essa moda de encher de arames os dentes das moças. Essa modinha de desentortar os lindos dentinhos das raparigas em flor.

Sim, os mancebos também são vítimas da ortodentia moderna, mas os moços, pobres moços, que se virem, que se defendam. Este panfleto lírico e sentimental se preocupa tão-somente com as meninas, como um tardio e lesado Lewis Carroll.

No início do modismo, era mania apenas dos mais aquinhoados; depois alastrou-se de vez, como as cirurgias plásticas.

Tem criatura que mal possui dentes e já pendura lá os ferrinhos. E sai todo mundo falando mole, “falofa fafá”, cuspindo no próximo.

Estão acabando com o charme das dentucinhas. Toda sala de aula tinha sua dentucinha, toda repartição, toda rua, todo clube, todo cabaré, toda casa de tolerância que se prezasse... 

Esses milagres da ortodentia limaram uma espécie mais do que graciosa. Exceto a reposição hormonal, ventilador em cápsula capaz de atenuar a quentura senegalesa da menopausa, esses avanços da modernidade não caem bem para as moças.          

Já já eliminam de vez o charme das estrias, e todas as mulheres ficam iguais, bundas iguais, peitos do mesmo tamanho, lábios de branquinhas com recheios artificiais para imitar a lindeza da mestiçagem...

Reparem os cabelos, por exemplo, onde andam os caracóis, os cachos, os lindos black-powers?

Está tudo dominado, tudo esticado, a chapinha, modinha que nasceu em pleno apagão da energia elétrica, veio para ficar de vez. Já já escrevem na bandeira nacional: ordem e escova progressiva!    

A mulher brasileira, como a fêmea mestiça vista por Gilberto Freyre, está desaparecendo. Pelo menos nas grandes cidades. Uma Sônia Braga, que era o xodó do homem de Apipucos, é cada vez mais rara. GF babava tanto pela morenidade da dublê de Gabriela que dona Magdalena chegou a adverti-la, na brincadeira, claro: “Cuidado com esse velhote!”. Tratava-se, deveras, de um velho enxerido, tipo brasileiríssimo já louvado nesta coluna.

Mas o que está em jogo agora, camaradas, é o fim das dentucinhas. Uma lástima, uma tragédia dos nossos dias. Vocês lembram como eram especiais os beijos das dentucinhas? E os dengos orais das dentucinhas? Triste correção.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h51
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O diabo veste Prada.

De Milly Lacombe.

O cineasta italiano Vittorio de Sica escreveu que a indignação moral se constitui de 2% de moral, 48% de indignação e 50% de inveja. Me lembrei da frase quando, na semana passada, Bento XVI, em hemorragia verbal, resolveu vociferar ao mundo o que pensa sobre coisas como o segundo casamento, a união de pessoas do mesmo sexo e o aborto – para citar apenas três dos ítens explorados durante o surto que foi parar na capa dos principais jornais do mundo.
Antes de mais nada, ouvir padres discursarem sobre o casamento é mais ou menos como prestar atenção no que eu tenho a dizer sobre as melhores maneiras de fazer xixi em pé ou sobre como se deve aterrisar um jato. O que eles – mais especificamente o Papa que veste Prada – entende sobre casamento? Primeiro, segundo, terceiro ou décimo quinto? O que pode ele saber sobre aborto? Sua colega, Madre Tereza de Calcutá, culpava o aborto por todos os males do mundo, para se ter uma idéia do tamanho da obsessão. Mas, no caso dela, pelo menos se tratava de alguém do gênero feminino, mais legitimada, portanto, a falar sobre aborto.
Já sobre homossexualidade, talvez o santo homem pudesse falar, embora sua igreja pareça aceitar a homossexualidade apenas para fins de pedofilia. Aliás, por que Bento XVI não fala, durante essas incontinências verbais, sobre pedofilia? Ele tem histórias, tem material, tem base. Por que não dizer ao mundo o que ele e sua igreja pensam a respeito do tema ou quanto já gastaram em indenização para as famílias das crianças que foram vítimas de seus desvios sexuais? Todos os dias se tem notícia de pelo menos uma nova vítima. Se ficamos sabendo de uma por dia, imaginem o tamanho do genocídio moral praticado pela Igreja? Quantos continuam calados, sem coragem para denunciar? Quantos ainda serão violentados, moral e sexualmente, pelos subordinados do Papa?
Mas sobre isso não se fala.
Por que também o santo homem não aborda o tópico do consumismo? Nosso líder espiritual adora gastar seu tempo – e vários dízimos - em lojas como a sofisticadíssima Prada, onde encontra seus sapatos prediletos. Mas ainda não ouvi duas palavras a respeito de vaidade. Prefere falar sobre coisas que não fazem parte de seu repertório do que refletir sobre aquelas que fazem. Esconde-se sob o suposto domínio de um Deus raivoso, cruel e intervencionista, entra em seu luxuoso avião e voa pelo mundo dissiminando o ódio. Veste o manto da hipocrisia, sai pregando a raiva e a intolerância e, com ele, vai levando milhões de almas que, fiéis seguidoras de qualquer coisa que ele diga, tratarão de perpetuar sua intolerância.
Que cada um tenha sua própria cartilha de fé e acredite piamente em histórias que envolvam Adão, Eva, cobras e maçãs, eu respeito, embora não entenda. Mas entrar em pane intelectual e aceitar qualquer disparate verbal, mesmo quando o disparate sai da boca de um líder espiritual, como verdade universal me parece ser o verdadeiro pecado. O que me faz lembrar de outra frase: “A religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos pessoas boas fazendo o bem e pessoas más fazendo o mal. Mas, para pessoas boas fazerem coisas más, é necessário a religião” – Steven Weinberg, físico americano.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h31
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Para um menino com uma flor.

De Tati Bernardi.

Acabo de chegar em casa e ver tudo diferente. Ainda estou fechando os olhos e tentando encontrar a parte mais quente das suas costas. Ainda estou com este riso bobo na cara, matando a saudade de ter quinze anos e uma vida linda pela frente.

Pode ser mesmo que isso passe, pode ser que amanhã eu acorde e você tenha ido embora. Ainda assim, ainda que amanhã chegue para estragar tudo, poder chegar em casa e ver tudo diferente já são milhões de quilômetros rodados. Zilhões.

Você não sabe, nem sonha, mas você acaba de zerar minha vida. Minha vida era acordar todos os dias e sentir aquele gosto de merda na boca. Minha vida era vestir a armadura e relembrar com dor pela milésima vez todos os últimos podres de todas as pessoas podres que passaram ultimamente pela minha vida. Você acaba de zerar tudo. Com a parte mais quente das suas costas, com o seu medo de beijo na orelha e com o seu jeito de se desculpar por falar demais e balançar os pés, você acaba de me salvar.

Este texto é pra te falar uma coisa boba. É pra te pedir que não tenha medo de mim. Sabe esses textos que eu publico aqui falando putaria? Sabe esses textos falando que eu sei disso e sei daquilo? Eu não sei de nada. Eu só queria ser salva das pedras, eu só queria aprender a pegar carona nas ondas. Eu só queria que isso que eu tô sentindo agora durasse mais de uma semana. Eu só queria poder chegar em casa e ver tudo diferente. Ver tudo bonito. Ver tudo como de fato é. E você salvou minha vida. O mundo está lindo. Não tenha medo de mim.

Eu só queria que esta minha vontade de perdoar o mundo durasse. Hoje eu não odiei o Bradesco, a Vivo, meus pais, o IPTU, a mulher que divide a vaga do prédio comigo, o motoqueiro que me manda ir mais para o lado, a garota que fala caipira, aquele cara que você sabe quem é. Hoje eu não odiei nada nem ninguém. Eu apenas fiquei lembrando, a cada segundo, que você se desesperou pra encontrar meu brinco de coração. Você quis encontrar meu coração pequenininho no escuro. E você encontrou. E você salvou meu dia, minha semana. E salvar meu dia já são zilhões de quilômetros. Você é meu herói.

Não tenha medo deste texto. Não tenha medo da quantidade absurda de carinho que eu quero te fazer. Nem de eu ser assim e falar tudo na lata. Nem de eu não fazer charme quando simplesmente não tem como fazer. Nem de eu te beijar como se a gente tivesse acabado de descobrir o beijo. Nem de eu ter ido dormir com dor na alma o fim de semana inteiro por não saber o quanto posso te tocar. Não tenha medo de eu ser assim tão agora. Nem desse meu agora ser do tamanho do mundo.

Eu estou tão cansada de assustar as pessoas. E de ser o máximo por tão pouco tempo. E de entregar tanta alma de bandeja pra tanta gente que não quer ou não sabe querer. Mas hoje eu não odeio nenhuma dessas pessoas. E hoje eu não me odeio. Hoje eu só fecho os olhos e lembro de você me pedindo sem graça para eu não deixar ninguém ocupar o lugar da minha canga. Tudo o que eu mais queria, por trás de todos esses meus textos tão modernos, sarcásticos e malandros, era de alguém que me pedisse para guardar o lugar. Tá guardado. O da canga e de todo o resto.

Talvez você pense que não merece este texto. Há quanto tempo mesmo você me conhece? Algumas horas? Mas você merece sim. Hoje, depois de muito tempo, eu acordei e não me olhei no espelho. Eu não precisei confirmar se eu era bonita. Eu acordei tendo certeza.

Não tenha medo. Eu sou só uma menina boba com medo da vida. Mas hoje eu não tenho medo de nada, eu apenas fecho os olhos e lembro de você me dando aquela flor velha, fazendo piada ruim às sete da manhã, me lendo no escuro mesmo com dor de cabeça.

Eu posso sentir isso de novo. Que bom. Achei que eu ia ser esperta pra sempre, mas para a minha grande alegria estou me sentindo uma idiota. Sabe o que eu fiz hoje? As pazes com o Bob Marley, com o Bob Dylan e até com o ovomaltine do Bob's. As pazes com os casais que se balançam abraçados enquanto não esperam nada, as pazes com as pessoas que não sabem ver o que eu vejo. E eu só vejo você me ensinando a dar estrela. Eu só vejo você enchendo minha vida de estrelas. Se você puder, não tenha medo. Eu sou só uma menina que voltou a ver estrelas. E que repete, sem medo e sem fim, a palavra estrela no mesmo parágrafo. Estrela, estrela, estrela. Zilhões de vezes.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas e autora do livro "A mulher que não prestava". Compre aí meu!

Escrito por Blônicas às 17h15
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Manifesto de um ácaro contra o amor

De Henrique Szklo

O amor é uma merda! Me dá até alergia respiratória só de pensar. Não, querido leitor, eu não sofri uma decepção amorosa, não sou mal-resolvido nem estou com dor de cotovelo. Até porque nem cotovelo eu tenho. Eu sou um ácaro, pelo amor de Deus!

Esse meu ódio, essa minha repugnância, esse meu nojo pelo amor nada mais são do que resultado de pura reflexão intelectual. Uma questão pragmática, eu diria. Quase dialética. Na verdade, chega a ser uma questão de sobrevivência. Ou nós, ácaros, acabamos com o amor entre as pessoas, ou o amor vai acabar com a gente. Simples assim.

Esta excrescência que é o amor, mesmo nas mais simples e singelas demostrações, já é para nós um inferno em vida. Começando pelo cafuné, por exemplo. Aparentemente tão inofensivo e despretensioso, não é? Mas veja pelo nosso ângulo. Estamos lá, desfrutando de um resto de couro cabeludo, uma gordurinha capilar ou até mesmo uma saborosíssima caspa. Quando de repente, sem mais aquela, aparecem unhas e dedos gigantes que ficam jogando a gente de um lado para o outro sem parar. Imagine-se num restaurante que não deixa você ficar sentado em sua mesa. Fica jogando você de um lado para o outro, por horas a fio. É in-su-por-tá-vel. Faça-me o favor! Será que dá pra deixar a gente comer sossegado?

Só de ficar de mãozinhas dadas, os humanos já acabam com a nossa alegria. Na hora que as mãos se tocam e se apertam, expulsam o oxigênio entre elas e nós ficamos sufocados. Por um tempo dá até um barato ficar sem oxigênio, mas se o amor é grande e as mãos ficam muito tempo unidas, bye-bye, so long, farewell.

Um pouco mais grave é o abraço. E quanto mais apertado e demorado, mais perigoso para nós, os ácaros. Não sei o que é pior: ficar na frente sendo esmagado vivo ou ficar nas costas onde uma mão enorme te esfrega pra cima e pra baixo por uma eternidade. Isso sim que é dor de amor.

A partir daí a coisa começa a ficar extremamente complicada. O beijo, ah que raiva que eu tenho do beijo. Um desentupidor de pia gigante que suga a gente sem a mínima cerimônia. Fora o barulho, que é ensurdecedor. Imagine uma boca gigante em seu ouvido dando um beijinho estalado. Eu mesmo já não ouço bem de um ouvido por conta de beijos calientes dos quais participei sem pedir. Aliás, você vivem dizendo “eu queria ser uma mosquinha para saber o que está acontecendo lá”... pois é. Entre nós, os ácaros, costumamos dizer que gostaríamos de ser uma mosquinha para NÃO saber o que está acontecendo. Queremos distância da paixão. Dá pra entender ou não?

Mais a pior de todas as manifestações de amor, sem dúvida é o sexo. Não existe nada mais revoltante que amor com sexo. É uma carnificina impiedosa. Pega a gente de tudo quanto é lado. Se a gente tá na cabeça de um, vem uma mão e esfrega na gente. Se a gente está no travesseiro ou no lençol, é violência e agressividade. Raspa daqui, joga dali, esfrega acolá, aquele vai-e-vem insuportável... Um fica chupando e lambendo o outro (argh!), o que embrulha nosso estômago de um jeito... você já tomou um banho de saliva? Pior, já se viu em meio a uma enchente de saliva? Não dá nem pra explicar a sensação. Tietê é fichinha.

A bunda da mulher, então, é um lugar perigosíssimo para se freqüentar. Os tapas que despencam por lá matam milhões e milhões de companheiros em questão de segundos. Um verdadeiro massacre.

Mas o pior lugar mesmo para ficar são os pêlos pubianos, meu Deus do céu! O que aquilo ali esfrega é uma ignorância. A fricção naquela região faz a temperatura subir de forma estratosférica. Que aquecimento global, o quê? Experimenta estar nas partes baixas de um homem ou de uma mulher durante o intercurso. O ácaro que não morre lá mesmo fica inválido para sempre. A gente torce pro sujeito ter impotência, pra mulher estar com dor de cabeça ou, no mínimo que o cara tenha ejaculação precoce. Sabendo disso você pode imaginar porque a gente não pode nem ouvir falar em uma tal de pílula azul...

É, não há mesmo um lugar onde um ácaro de respeito possa ficar em segurança, com seus milhões de amigos e familiares, curtindo uma pelinha morta numa boa. Enquanto houver sexo, seremos sempre atingidos, lamentavelmente.

Olhe, e não pense você que os ácaros têm algum tipo de restrição ao sexo. Conceitualmente, eu quero dizer. Não, os ácaros estão longe de serem moralistas. É claro que existem exceções. Existe uma espécie de ácaros que não se reproduz com sexo. São apenas fêmeas botando ovos. Mas aquelas pobres meninas são feministas recaucadas que acham que deram certo, mas que não têm a menor idéia do que é o orgasmo, tadinhas... Ácaro, como todo mundo, adora sexo. Mas tem de ser sexo seguro, ou seja, a distância. Esse negócio de sexo virtual, pela internet para nós foi um verdadeiro achado. Para você ter uma idéia existem membros em nossa espécie que atingem a maturidade sexual em apenas dois dias. Legal, né? O único problema é que a gente tem uma média de duas relações sexuais na vida, o que pra você pode ser pouco, mas lembre-se que vivemos apenas 2 meses. Ácaro gosta tanto de sexo que costumamos dizer que podemos ser feios, mas comemos todo mundo. É, a gente adora tirar uma casquinha de vocês.

O amor entre os de sua espécie é a perdição para os da nossa. É por isso que eu digo: abaixo o amor! Vamos dar um basta neste desperdício de energia sem sentido! O amor não serve pra nada, só faz todo mundo sofrer. O amor é nosso carrasco, nosso fascínora, nosso Hitler. Milhões de ácaros indefesos tombam a cada mínima manifestação afetiva de nossos cruéis hospedeiros. É preciso acabar com essa pouca-vergonha. Só porque a gente é microscópico não quer dizer que não tenhamos direito à vida.

Mas ainda há esperança. Até porque, como vocês bem sabem, o amor não dura para sempre, se Deus quiser. É, meus amigos, a conclusão a que se chega é que vocês são bem gostosos, mas muito perigosos. Se continuar assim, vamos acabar virando todos vegetarianos.

Henrique escreve no Blônicas e não come ninguém faz tempo.
Visite seu
site, o blog da mãe, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 10h00
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Horrores cotidianos.

De Leo Jaime.

Este não é mais um texto sobre o menino João Hélio. Uma amiga estava
indignada em um almoço, um dia destes, pois fizeram um carnaval muito grande
na mídia sobre a morte do menino. Ela achava que coisas iguais aconteciam
diariamente só que com garotos mais pobres e, portanto, a notícia era esse
tipo de horror ter chegado à classe média. Discordei. Acho que o fato de não
ter sentido nenhum, finalidade nenhuma, lucro nenhum, e extrema crueldade
foi o que tornou este evento tão importante.
A violência perdeu a lógica. A tentativa da amiga em explicar é
absolutamente saudável e, fosse qual fosse a explicação, inútil. Tentar
enxergar os fenômenos atuais pela ótica econômica é tentar acender um
fósforo já queimado. Funcionou, não funciona mais. A menina rica, ou
remediada, que passava batom e se vestia bem para roubar e desfilava na casa
das vítimas escolhendo o que queria levar, como se estivesse em uma loja, é
um exemplo disto.
Errado pensar que o crime se origina na pobreza. Não necessariamente. Vamos
evocar Caim e Abel para sustentar essa idéia. Há no humano algo de
assombrosamente irracional e horrendo. Há um lodo profundo e fétido que pode
ou não ser remexido. E evitar despertar a besta que vive no fundo desta lama
parece ser uma tarefa eterna da humanidade. E é nisto que hoje fracassamos.
Quando nasci os fogões a lenha eram comuns. Se não nas metrópoles, pelo
menos no interior. As emissoras de televisão ficavam no ar poucas horas por
dia. Antes que eu completasse trinta anos já operávamos computadores em
casa, tocávamos cds e mandávamos documentos por telefone. A coisa andou
muito rápida. quem conseguiu aprender a lidar com tudo, e apreender algo
nesta vertiginosa velocidade em que o futuro se apresentava?
Quando comecei minha vida profissional não havia muitas coisas que se
apresentavam como "necessidades" da vida moderna. Eram poucos os
equipamentos necessários, as pessoas não engordavam com tanta facilidade e
nem faziam tantas cirurgias plásticas. Era mais tosco e, porém, mais fácil.
Menos necessidades supérfluas e, conseqüentemente, menos frustrações. Ah, um
diploma de curso superior era igualmente difícil mas resolvia.
Vivemos todos, hoje, à beira do abismo. A falência pessoal é uma ameaça
constante. O capitalismo se agigantou e em um país com enorme desequilíbrio
social isso foi fatal. Todo mundo vive angustiado pela obsolescência
imediata de tudo o que ambiciona: corpo, coisas, desejos, compreensão da
vida etc.
Tudo o que se discute a respeito de leis e segurança é razoável e
necessário, porém insuficiente. A satisfação é que é difícil, não a grana,
é o que apontam países mais ricos e igualmente vitimados por horrores
cotidianos. A monstruosidade não é uma prerrogativa da pobreza, de forma
nenhuma. Aliás, esta avaliação além de simplista é injusta com todos
aqueles, uma imensidão, de pobres que levam a vida honestamente, cercados de
desgraças por todos os lados.
O que ouvimos, o que pensamos, no que acreditamos, quem somos, o que lemos,
o que valorizamos, como lidamos com frustrações e limites? Estas questões
estão subjacentes quando planejamos mudar algo na realidade. Mudar o quê?
Para quê? Para quem? O futuro espera ser escrito.
Será que o ser humano deu errado?

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h03
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O dia em que fiz merda.

De Rosana Hermann.

Não sou de escrever palavrões mas hoje, foda-se.  Estou atordoada, sob as sequelas de uma seqüência de erros e nem ao menos sei aonde fica o trema no Mac para acentuar os us. O único consolo é que não vou precisar botar os pingos nos is, porque eles já vem com os respectivos pontinhos voadores.
Depois da enrolação, o problema: tenho feito muita merda nesses dias. Não no sentido lato, no figurado mesmo, desses que a gente faz por impulso, por loucura ou por ignorância.
O primeiro erro aconteceu  há poucos dias. Agendei uma palestra demo numa empresa do interior de São Paulo e fiquei muito tensa com o compromisso. No domingo à  noite chego muito  tarde em casa, vou dormir depois da uma da manhã e às seis horas da segunda eu teria que levantar e tomar banho para viajar. Fiz tudo o que tinha  que fazer e cheguei antes do horário combinado. Para evitar dissabores com o computador e o projetor da sala multimidia, que sempre apresentam problemas, levei meu próprio laptop, este onde estou escrevendo o texto em cima do meu colo, no cabeleireiro, enquanto a assistente passa tinta na minha raiz. (Sim o salão tem wifi).
Assim que cheguei e passei pela portaria e fui até o local combinado escoltada por uma recepcionista percebi que tinha esquecido o laptop no carro. A fábrica é imensa e não havia como voltar. E nem havia motivo já que a sala onde a demonstração aconteceria tinha todo o equipamento necessário. A não ser por alguns detalhes. O laptop da sala simplesmente não tinha Power Point e não abria nem o arquivo no pendrive e nem no CD-Rom. Não tinha como ler o arquivo já que não havia programa associado. As pessoas estavam ali, sentadas na sala esperando e eu, sem saber o que fazer. O tempo passava, a sala não tinha ar condicionado e o calor estava piorando o clima. Acho que demorou uma hora até que uma das presentes gentilmente se prontifacasse a ir até sua sala e buscar seu próprio laptop para começarmos todo o processo novamente. Fiquei muito chateada e me senti muito mal. O sentimento era de orgulho ferido, de falta total de prestígio. De humilhação. Na minha pequeneza de espirito e falta de auto-estima, eu tinha a certeza de que se o palestrante fosse alguém mais importante que eu talvez tudo já estivesse pronto e testado.
A pessoa que me convidou não ficou na sala e, portanto, não viu nada do que eu fiz. Chegou quase no final e duvido que tenha captado o espírito da coisa. Os presentes pareciam mais preocupados com o trabalho, o almoço ou outros compromissos e não deram aquele feedback que todo professor, palestrante ou artista precisa para sentir a temperatura da platéia. Acabei de falar e nada aconteceu. Foi constrangedor.
Despedi-me com aquela sensação de que deu tudo errado e fui para casa e fiquei doente. Passei muito mal, desmaiei na cama, não conseguia nem comer, nem me levantar. Como se uma carga de energia negativa tivesse tomado conta de mim.
No dia seguinte fiz mais merda. Recebi um email um tanto quanto provocativo, mas bem humorado, uma cutucada que ressaltava minha falta de relevância no mundo dos blogs nacionais. Uma demonstração de uma panelinha chapa-branca que não me incluia. Novamente ofendida em meu orgulho leonino respondi o email de uma forma impulsiva. E a merda se espalhou por ventiladores corporativos. Claro, era uma panela mesmo. Eu é que devia ter ficado quieta. Errei mais uma vez.
E agora, estou aqui, com cara de cú de pomba-rola, insegura e com medo de agir.
Como toda merda que a gente faz pode ter um fim útil, resolvi submeter meus erros a um exame de laboratório de análises clínicas. E o que encontrei foi só meu orgulho, minha arrogância, minha impaciência, temperados com a pimenta da TPM, que fazem com que eu acredite que sou eu que gero tudo o que acontece. Fiz merda, mas shit happens, independente da nossa ação. Tem fases que são assim, as coisas simplesmente não dão certo, não vão para frente.
A solução é só respirar e continuar, sempre em frente. Porque atrás vem gente.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h47
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Elogio da maquiagem.

 

De Xico Sá.

 

Há muito tempo, muito tempo mesmo, muito antes dos nossos avós, já havia a polêmica: a mulher deveria recorrer ou não aos recursos artificiais para embelezar-se, livrar-se dos pés de galinha e travar a peleja contra a foice do tempo, como já dizia Shakespeare?.

É deveras uma das questões mais enrugadas da humanidade, que agora alcança o seu momento máximo, em tempos de Botox e até transplante de rosto, em episódios extremados. Em meados do século XIX, o poeta Charles Baudelaire, gênio dos gênios, já fazia um chamado para que as fêmeas superassem as “imposições” da natureza.

“A mulher tem o direito, aliás, ela está até mesmo cumprindo uma espécie de dever, quando se dedica a parecer mágica e sobrenatural”, pregava no seu breve ensaio “Elogio à maquiagem”. Segundo o francês, um dos inventores do que chamamos hoje de modernidade, não importava qual fosse o truque feminino, o que valia era o seu efeito irresistível.

Ovídio, mais das antigas ainda, como sempre me lembra Miss Soledad, também gastou o latim com a polêmica da cosmética. 

Estariam o velho Charles e o escriba romano mortos de felizes nos tempos que correm?

E vocês, meus amores, que acham? Opiniões serão bem-vindas. E fica ai em BG, Marina morena, um plá direto da rede do glorioso Caymmi, com barulhinho das ondas ao fundo...

E para complicar mais ainda as coisas por estas bandas, sampleio um velho catecismo de devoções, adonde se lê, crônica de costumbres:

Nada de acreditar nessa historinha de “você já é bonita com o que Deus lhe deu!” Dorival, saravá meu pai!, é uma beleza de homem, sábio, mas esse verso, aqui neste momento, não soa bem aos ouvidos. Pinte esse rosto que eu gosto e que é só seu. Com todos aqueles lápis que lhe fazem uma criança brincando de colorir o desejo tenha ou não tenha um belo cavaleiro no seu horizonte.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

 

Escrito por Blônicas às 17h13
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Eu não nasci pra isso.

De Tati Bernardi.

No meio de uma risada, entre uma e outra troca de intimidade, de repente, me pergunto o que exatamente estou fazendo aqui. Me maquiando enquanto você repassa a agenda do celular. Fazendo piadas com toalhas e sucrilhos. Não faço a menor idéia de quem é esse cara sentado aqui no meu sofá, cheio de dúvidas se casa comigo ou me esquece uns dias para a vida parecer mais planejada.
Não nasci para isso, definitivamente. Essa coisa que quase é, esse “pode ser” que muda para “nem pensar” a cada troca de cômodo. Eu só queria ter a certeza de estar me maquiando para você, a certeza de estar misturando toalhas e sucrilhos por conta de uma surpresa da vida e não de uma luta contra o tédio. Eu só queria encontrar alguém que não repassasse a porra da agenda do celular na minha frente.
Puxa, como foi bacana ele ter telefonado no dia seguinte. Claro, muito bacana. Como foi bacana a gente ter dormido de conchinha e ele ter me pedido um pouco de bolacha água e sal no meio da madrugada. Adorei que ele me ligou no dia seguinte, para me dar aquele bom dia de amigos. Muito bacana mesmo. Claro que não temos nada e nem nunca teremos. A não ser aquele ataque de riso maravilhoso que ele dá quando eu me atrapalho pra tomar sorvete e fico parecendo uma desdentada. Tenho esse tesão por ele, esse tesão pela maneira tímida e desleixada com a qual ele amarra a toalha branquinha na cintura. E me olha do tipo “ei, velha amiga, não acha que mereço um pouco de carinho?”. Mas que bom que ele ligou no dia seguinte para dar aquele bom dia de amigo. Que bom. Quem disse que mulher é tudo louca e se você ligar no dia seguinte para dar bom dia ela vai achar que está namorando? Quem disse? Heim? Hum? Quem disse? Achei mesmo bacana essa atitude super moderna de um homem macho super mode
rno me tratando como uma fêmea ultra moderna e tudo mais. Mas não nasci pra isso, definitivamente. Como assim ele me liga no dia seguinte pra me dar bom dia e depois simplesmente desaparece no mundo? Como assim? Eu não nasci pra isso não.
Saio do banho sem pensar em nada disso e encho minha cara de cremes. Creme de boca para ressecamento, creme de testa para oleosidade e creme de olhos para rugas. Durmo feia, sozinha e tranquila. Sem pensar em sofás, sucrilhos, toalhas, bom dia de amigos e vidas planejadas. Ainda assim, continuo achando que não nasci pra isso, definitivamente.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas e lançou o livro "A mulher que não prestava" à venda nas principais livrarias. Comprem!!!

Escrito por Blônicas às 10h47
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Mulheres do meu Brasil varonil.

De Leo Jaime.

Esse era um bordão do grande Zé Bonitinho, personagem de humor tradicional
deste país, um conquistador inveterado e, de alguma forma, um amante das
mulheres brasileiras. Em todos os sentidos. E também de todas as mulheres
possíveis.
Acho importantíssimo haver um dia para pensarmos e homenagearmos as
mulheres. Tão bom que seria justo, e desejável, que também houvesse um dia
para se pensar e homenagear o homem. Ou, o que também seria melhor ainda,
pensar em homens e mulheres juntos e numa boa. Sei lá, sempre que me
perguntam se prefiro Stones a Beatles eu digo, Stones e Beatles. Marlene e
Emilinha. Piquet e Senna. América e Europa e por assim em diante. Pra um ser
bom o outro não precisa ser ruim, mas entendo que tenha suas preferências.
Fato é que as mulheres vivem mais. Não significa que vivam melhor. Há
questões em tudo e esmiuçar é sempre um bom exercício. Há um desnível
salarial evidente, ainda. Por outro lado há outros desníveis que apontam
este último como marcado para morrer. Por exemplo: quando entrei na
faculdade metade dos alunos eram homens, no último ano só uns 5%. Sim, elas
estão se preparando mais e cada vez mais assumindo posições de liderança.
Há gente melhor para discutir o tema, e reduzir desníveis injustificáveis e
preconceituosos é sempre uma discussão desejável. Mas quero abordar outro
aspecto.
Estamos no dia da mulher de 2007. As propagandas de cerveja continuam com
mulheres de biquíni mas, pelo menos, estas já são convidadas a beber nos
anúncios. Antes só mostravam o pandeiro. Os. Há vários clipes passando nas
TVs que repetem a mesma fórmula de letra e imagens: ela é bunduda e diz que
é muito gostosa e faz os caras gastarem muita grana com ela porque ela é uma
grande trepada. Esse é o resumo de "My humps", um mega-hit cantado por uma
mulher. Eminem, que costuma ser uma ilha de intelîgência neste mundo
machista do hip-hop, em seu último sucesso diz que vai chamar a mina, ou
melhor as três que ele planeja comer naquela noite, pra dar uma volta na sua
Lamborguiní modelo tal. Eu sei, ele fala o nome do carro acentuando a última
sílaba, como não deveria. E este é um retrato atual da mulher.
Claro que não abordamos aí as mães que estão tomando conta de suas
famílias sem o apoio de um marido, não falamos das mulheres que estáo liderando
movimentos intelectuais, políticos e sociais importantes, das mulheres que
fazem o mundo andar trabalhando nos bastidores. Falamos daquelas que
aparecem na TV como símbolo do desejo, para homens e mulheres jovens de boa
parte do mundo. E é muito estranho.
Injusto dizer que o mundo do hip-hop seja significativo do que é a mulher em
geral hoje em dia. Mas há, por representar 40 % do mercado mundial de
música, algo nisso que merece observação.
Os "manos" americanos chamam as "minas" de bitchs. Filho da puta, na terra
deles, é son of bitch. Faz as contas. As "minas" acham maneiro.
Como ninguém chia a este respeito, acho que ninguém se incomoda. Será? Ou
será que pega mal fazer reparo em coisas ditas moderninhas? Apontar excessos
ou fragilidades também? Bom, sinto que corro o risco de ser chamado de
reacionário por levantar esta questão. Mas como hoje é dia das mulheres
talvez seja a janela que se abre no calendário para levantar o tema.
Eu sei que a vulgaridade está na moda e que o que está na moda é usado sem
muita reflexão. A questão aqui é: será que as mulheres gostam desta moda?
Será que elas gostam da idéia de serem objetos desde que valiosos? Será que
elas querem ser desejadas independente de serem amadas? Será que, em
essência, a mulher de 2007, ou pelo menos aquela que aparece como sendo a
última novidade, abriu mão de sonhos ancestrais como o de brincar de boneca
e casinha? Será?
Sinto-me um Matusalém a abordar estes temas. Porém, como um grande admirador
de mulheres, como alguém que a tem sempre como musa, acho bom refletir sobre
esta minha impressão sobre a atualidade.
E se for assim o jeito certo e eu é que estiver com o olhar errado, minhas
homenagens sinceras a todas no dia de hoje. Mesmo as que eu não entendo.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h42
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Ame-o ou deixe-o.

De Rosana Hermann.

Este raciocínio foi abolido junto com o VHS. Não existe mais. Assim como algumas espécies entram em extinção, como a tecnologia é suplantada, como a medicina avança, o comportamento humano também se altera com o passar das décadas. O ‘love it or leave it’ acabou junto com os sonhos de igualdade. Agora o ódio é ativo. Não há opção de ignorar quem você não gosta. Ninguém deixa mais nada ‘pra lá.’

Em função deste acontecimento, a incapacidade de simplesmente ignorar os desafetos, o mundo passou a praticar o ódio como se praticava o amor na era hippie. O maior exemplo disso são as muitas comunidades do tipo ‘eu odeio’ em sites de relacionamento. Externar o ódio pelas pessoas virou uma prática comum, quase uma muda, como o teste de Cooper nos anos 80.

Claro que o ódio não é uma invenção moderna. Amor e ódio são tão antigos quanto o dia e a noite. Ou mais. A diferença é que hoje o ódio está em todo lugar, especialmente hoje, na véspera de recebermos a visita de um dos homens mais odiados no mundo, George W. Bush, sentimento mais do que justificado no caso deste senhor. Mas por ele ter sido eleito, odiamos também todos os eleitores americanos, assim como desprezamos boa parte desta cultura que um dia glorificamos como sendo o modelo ideal a ser copiado pelo Brasil. Se o ódio fosse só ideológico e cultural, do tipo que gera paixões, não haveria problema. O que abala é que odiamos todos os anônimos que se tornam obstáculos em nossas vidas. Odiamos o cara na nossa frente na fila, odiamos a moça do telemarketing que liga no sábado de manhã pra nossa casa, odiamos a pelada da revista, o jornalista da tv, odiamos todos os motoristas que estão na nossa frente no trânsito impedindo nosso acesso ao próximo cruzamento. É ódio que não acaba mais.

Não é de se admirar que tanto ódio tenha gerado a maior onde de falta de auto-estima do mundo. Só se fala nisso. A auto-estima não é nada senão o velho amor-próprio com roupinha fashion. E o que é a falta de amor-próprio senão a falta de capacidade de amar? Se não amamos nem a nós mesmos como vamos ser capazes de amar qualquer um a nossa volta?

Seria bem chato convocar a música “É o amor” a essas alturas, já que não sou fã da dupla em questão. Mas se for a cura vou comprar o CD. Se parecer piegas, que pareça. Se soar estúpido, que soe. Mas o mundo não vai se curar de suas mazelas se não começarmos a praticar o amor novamente. O amor ao próximo, a nós mesmos, amor à vida, amor ao mundo. Nem que pra isso tenhamos que criar academias de amor onde todos possam desenvolver este músculo tão simbólico e representativo da vida chamado coração. Lá, sim, vai ser um bom lugar pra malhar.

Rosana Hermann é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h05
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Viva a diferença.

De Milly Lacombe.

Oito de março: Dia internacional da mulher. Para celebrar a data, um festival midiático de entrevistas, homenagens, comemorações. Tudo para paparicar o gênero feminino. Não que não mereçamos tantos mimos e confetes. Mas concentrar todo esse fuzuê festejante em um dia apenas é, como quase tudo o que nos rege, hipócrita.

O que faz diariamente por nós, por exemplo, a religião organizada? Quem são as mulheres dentro das igrejas? Mas podem apostar que, na próxima quinta-feira, haverá, pelos templos sagrados do planeta, sacerdotes pregando a importância da mulher. Mulher que não pode ascender na hierarquia da organização, que não tem o direito de comandar liturgias, que não pode, sequer, se manifestar publicamente em nome de suas crenças. Mas, no dia oito, o clero nos celebrará.

O mesmo clero que faz uso da tal cartilha moral escrita há dois mil anos (ou coisa parecida, quem consegue precisar?) que diz que saímos das costelas de um homem. Um mínimo de reflexão apontará o paradoxo: se somos nós que temos a capacidade de gerar, como saímos de uma pequena parte de osso deles? E quem ousa questionar os livros sagrados? Tudo se questiona, tudo de discute, mas questionar os livros sagrados é absolutamente proibido, mesmo que suas histórias façam tanto sentido quanto a de Chapeuzinho Vermelho.  

Deixemos as religiões organizadas de lado e analisemos nossos líderes políticos. Uma foto do congresso nacional é suficiente para mostrar centenas de engravatados no comando. Onde estão as mulheres? Pois quase não existem ali. E são esses engravatados que votam leis exclusivamente femininas, como, por exemplo, a do aborto. O que entendem eles sobre aborto? Por que, então, continuam a fazer leis que são de interesse feminino? Mas, no dia oito, Brasília, muito convenientemente, nos celebrará.

Agora voltemos as lentes para o empresariado. Onde estão as damas que comandam? Quantas são? Poucas, pouquíssimas. Na dúvida entre promover um homem ou uma mulher com qualidades semelhantes, o gênero feminino ainda é perdedor nato. Mas, dia oito, o empresariado nos renderá homenagens, elogios, gracejos.

A verdade é que somos, na ponta do lápis, o mais forte dos gêneros. Aquele que dá à luz, que vai trabalhar com cólica, que usa as horas do almoço para pegar o  filho na escola, almoçar com ele e voltar correndo para o escritório. Aquele que cuida da casa mesmo trabalhando tanto quanto marido, que, no meio de uma reunião, atende ao telefone para dizer à filha que não é hora de tomar refrigerante, que se multiplica em tarefas diárias para se sentir bonita, saudável, sedutora, que não tem vergonha de chorar em público. Quantos homens conseguiriam passar pelo dia com metade dessas funções?

Por tudo isso, mas principalmente porque somos mais sensíveis, acredito que o mundo passará a ser um lugar melhor apenas quando, em vez de nos celebrar por força de uma canetada em uma quinta-feira qualquer de março, passar a nos aceitar, pelo resto do ano, como iguais. 

Embora sejamos maravilhosamente diferentes.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h56
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De pedra.

De Tati Bernardi.

Desse ângulo que estou agora, vejo meu Ipod rosa tocando David Bowie, a pia desmoronando e a tarraxinha do brinco que andava perdida. Está tudo no lugar, está tudo lá, me olhando. É a vida dizendo que faz sentido. Faz sentido a pia descolar depois de um tempo com tanto peso em cima dela, faz sentido que o aparelho que serve para tocar, toque. Faz sentido que um brinco tenha tarraxinha e faz ainda mais sentido que a tarraxinha, algo tão pequeno, se perca.
O telefone não toca e isso é óbvio: eu não tenho telefone. Meu celular não toca e isso é óbvio: ele está desligado. A campainha não toca e isso é absurdamente óbvio: ninguém pode subir aqui sem que eu deixe.
Ainda assim, ainda que eu esteja cercada de tantas coisas tão corretas quanto a cama ser algo para deitar, eu me pergunto: por que o mundo é tão estranho? Por que o telefone não toca? Porque eu estou aqui, mais uma vez, deitada na minha cama, achando tudo tão triste e solitário e estranho?
Canta David, canta seu louco de pedra. Onde é que está esse filho da puta desse homem que sold the world? Canta. Eu te entendo. Eu sou só uma garotinha careta sem tatuagens e com medo de queijo vencido. Mas eu te entendo. Não faz mesmo sentido essa pia, essa tarraxinha, esse silêncio, essa porra de campainha que ninguém toca. Não faz sentido.
Mas essa música não é do Nirvana? Eu te entendo Curt. Te entendo, cara. Eu não vou pular da janela não. Eu tenho medo de tomar sereno. Mas eu te entendo seu louco de pedra filho da puta. Venha como você é. Venha. Mas ninguém vem. E quando vem, ninguém vem como é. Lá fora todo mundo anda sorrindo e dando opiniões cheias de inteligência sobre o último filme do cinema. Mas ninguém liga pra ninguém e fala: não é louco demais viver em um mundo onde a pia desaba e as tarraxinhas aparecem do nada enquanto o David canta a música que inspirou o Nirvana?
Viver é louco demais. Mas ninguém fala isso, ninguém fala. E eu me sinto tão absurdamente sozinha. Sozinha e hipócrita, porque eu também não vou ligar pra ninguém e falar que o mundo é louco demais.
Eu vou continuar sendo inteligente em almoços, e criando campanhas bonitas com criancinhas inteligentes, e fazendo comentários inteligentes em jantares e parecendo alguém normal com uma pitadinha de humor britânico.
E eu vou continuar absurdamente sozinha aqui, na espera do homem que sold the world. Na espera de comprar o mundo de volta e ordenar que você volte. Volte agora seu louco de pedra.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h30
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O mundo é dos chatos.

De Leo Jaime.

O avião para e no mesmo instante, antes que as luzes de apertar cinto se apaguem, a turma toda se levanta e começa a procurar a bagagem. O avião dá aquela freada e algumas malas grandes ou mochilas começam a bater nos que ficaram sentados. Os que estão de pé fazem tudo frenéticos, como se a segurança definitiva, a garantia que não foi mesmo desta vez só seja garantida quando seus pés pisarem o chão ou o ³finger²pelo qual o desembarque é feito em alguns aeroportos. A verdade, a dura realidade é que a porta do avião vai demorar uns cinco minutos para abrir. Toda esta ansiedade só vai significar mesmo estes mesmos cinco minutos serão passados em pé, com o peso da mala, apertado por outros passageiros e alguns pequenos percalços por abrir o bagageiro com a nave em movimento. As bagagens sempre se movem durante o vôo e o ideal seria só abrir aquele compartimento com o avião parado. Mesmo com o pescoço torto, em pé entre as poltronas, os apressados preferem esperar em pé e com o peso da mala nas mãos. Contar para eles que a bagagem vai demorar o mesmo tanto, que a pressa é infundada, isso acho que não ia adiantar.

O trânsito vai se arrastando. Em São Paulo a qualidade de vida está intimamente relacionada ao tempo em que se passa preso no tráfico. Se o morador não costuma pegar engarrafamentos sua vida é muito melhor do que a dos que pegam. É um dado realmente importante. Mais à frente, nada aparece para justificar a lentidão vencida. Gente que gosta de andar devagar: este é o principal mal para da capital paulista. Faça o teste: na marginal, onde a velocidade permitida e recomendada é de 90km/h, imprima esta velocidade em seu carro e observe. Vai se sentir um piloto de Fórmula Um tentando tirar um segundo por volta. Ninguém, eu digo nenhuma viva alma, vai andar mais rápido ou igual a você! Talvez exista na alma paulistana alguma nostalgia de paradas militares, de desfiles de 7 de setembro, de Dragões da Independência. Desfila-se, de queixo levantado e expressão altiva, ao invés de fazer com que o fluxo escoe rapidamente pelas veias cruciais da metrópole.

Final de tarde, praia, algo de romance e paz se instala com a luz rosada do sol que se põe. Porém, o mar quebrando suavemente com sua sonoridade mágica não pode compor a paisagem. Um carro popular com o porta-malas aberto, transformado em caixa acústica mono e de graves desagradáveis, ocupa todo o mapa sonoro da beira-mar. Desnecessário dizer que a turba é obrigada a ouvir o que o dono da engenhoca gosta de ouvir pois o volume é, invariavelmente, estratosférico. Fácil é imaginar a qualidade do que ali é executado. O que há de errado com o som do mar ao ponte? Com qual garantia alguém se arvora a DJ, determinando o quê e em que volume o som dele rolar sob o céu, subvertendo a natureza?

Há ainda os fumantes a supor que o mundo precisa mesmo é de mais fumaça, assim como o mundo inteiro pode ser configurado como um enorme cinzeiro, já que toda parte é adequada para se bater as cinzas? O fumante educado afasta o seu cigarro para longe dos convivas de sua mesa, em restaurantes, e quase o encosta na cabeça de quem está na mesa ao lado ou atrás. Em uma pista de dança cada cigarro aceso queima umas 3 pessoas. Deve ser difícil ficar com uma garrafinha de cerveja em uma mão, o cigarro na outra e um chiclete antigo na boca sendo mastigado com a mesma aberta. Deve ser duro para quem tem que administrar tudo isso. Assim como é para quem fica ao lado ou assiste à esdrúxula performance. Pelo que posso depreender a tripla combinação são parte da composição do figurino que quem vai à balada. O paladar da mistura chiclete/cerveja não parece interessante. Cerveja e cigarro misturado não deixam um cheiro bom na boca, daí a necessidade do chiclete. Tudo, claro, segundo o meu ponto de vista em momento de intolerância.

Observar os outros e, mais dramático, dividir a vida e o mundo com todos é tarefa que exige paciência. E mesmo que a verdade seja outra ou insondável, a percepção que tenho em alguns momentos é a de que chatos são os outros.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h11
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