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A viagem de Tato.

De Tati Bernardi.

Filho único de pais separados e criado por avós hipocondríacos, Tato viajava pelas montanhas de mofo do papel de parede.
Não filhote, não pode brincar na rua não: vai que vem um cachorro bravo, você se assusta, atravessa a rua sem ver e pronto. Esmagado.
Cachorro, carros, crianças brincando nas ruas. Tato observava a isso tudo esmagado entre as grades da janela do quarto.
Sai do quarto Tato, vai que você cái, bate a cabeça na quina da cama, desmaia e ninguém vê. Vem brincar na sala.
Na sala as brincadeiras de Tato eram supervisionadas. Mas ninguém via, ninguém imaginava. O carpete verde era uma imensa floresta, o sofá de veludo azul, uma imensa cachoeira que desembocava na imensa floresta. Os pés imensos e inchados da avó, dois monstros de cinco cabeças vermelhas que moravam lá.
Sai do chão Tato, olha sua rinite alérgica! Tato sai do chão e deita de barriga no sofá, que, imediatamente, vira um mar de ondas grandes. Tato surfa e sente o respingo das ondas, sente o Sol. Ele não abre os olhos para não descobrir o abajour quente e amarelo e os perdigotos da avó reclamando que Tato parece um louco se chacoalhando daquela maneira .
Leva uma bordoada na cabeça. Sente orgulho: foi uma onda forte que o derrubou e isso pode acontecer com qualquer surfista famoso.
Tato, que menino! Já fez cocô hoje? Olha lá heim! Tem que comer mamão, bagaço de mexerica, ameixa. Tato detestava tudo isso, mas obedecia e ia ao banheiro mesmo sem vontade.
Lá ficava sentado e maravilhado. Os azulejos do chão eram pink (a avó era portuguesa) com rabiscos pretos. Os aleatórios e diferentes rabiscos formavam 6 coisas maravilhosas: o rosto de uma prostituta que fazia beicinho; a ponta de um barco que levava uma bandeira com a letra T, de Tato; um saco de amendoins ou balinhas; a silhueta de dois homens se beijando ou um homem e uma mulher de cabelo curto; uma poça de vômito com bolinhas de gude ou ervilhas gigantes e um olho gigante e lindo que ele não sabia de quem poderia ser mas achava que era de uma mulher peituda e bunduda que dançava em algum lugar com cheiro de roupas de aluguel.
O teto era todo descascado, rachado e tinha um mofo verde que parecia meleca de nariz de quando ele ficava doente. Olhar aquilo lhe dava uma aparência suja e ele se sentia preso num calabouço imundo de um submundo qualquer. Apagava as luzes para dramatizar e esperava um pão velho que lhe deixavam embaixo da porta. Ele deveria morrer mas só depois de contar tudo. Jamais contaria, morreria honrando sua palavra. E nada de cocô.
Um barulho na porta e Tato corria, corria muito, era sua mãe que chegava para salvá-lo. Antes que ele pudesse apertar a mãe com toda a fúria de um dia chato e toda a alegria do fim dele, a mãe reclamava que Tato não deveria correr assim por causa de seu prolapso da válvula mitral. Eram todos farinha do mesmo saco e Tato queria ensurdecer com a música do walkman.
Tato, já não falei pra não deixar essa janela aberta que você fica doente! O avô saia do quarto resmungando que ele dava muito trabalho. Ele esperava o resmungo se perder no corredor e abria a janela novamente. Deitado na cama, sem se mexer, Tato ouvia gritos na rua. Eram crianças mais infelizes que ele, ele não poderia ser a criança mais infeliz do mundo. Ouvia gatos miando, miando muito. Os gatos eram mais felizes que ele, ele odiava gatos.
Adormecia sonhando que não estava numa cama com três cobertores anti-alérgicos e mil almofadas para que ele não se machucasse numa possível queda. Se unhava escondido para ter a liberdade de sentir dor.
O ventinho que entrava fazia a cortina mexer e Tato ganhava carinho de uma fada branquinha, peituda e otimista, que lhe dizia: hdsfjsdufsdufsdfsdyufisydfiuy.

Tati Bernardi é colunista do Blônicas aos sábados e de presente de aniversário quer que você compre o seu livro: “A mulher que não prestava”.

Escrito por Blônicas às 10h08
[]


Invisível.

De Leo Jaime.

Procuro mais uma vez e nada. Vampiros são assim. Aqueles que fazem cirurgia para emagrecer também: não se acham no espelho. Fico pensando em que categoria me classifico. Não vejo o meu rosto, não escuto a minha voz, não faço a menor idéia de onde fui parar, mas não estou ali, onde deveria, refletido. Belisco e nada sinto. Estou acordado.
Seria essa a imagem de Deus: uma presença sentida ou intuída e ao mesmo tempo improvável e imaterial?Talvez fosse isso o que queriam dizer com imagem e semelhança: a falta de imagem e a dessemelhança a misturar todos os rostos em rosto nenhum. A onipresente não-presença. A ausência é diferente do estranhamento. Não sou um estrangeiro em mim mesmo, sou um náufrago perdido num mar de possibilidades. Uma interrogação cercada de silêncio por todos os lados.
Confundo Manet com Monet e nunca sei direito as datas ou cifras ou os compositores dos clássicos. Sei e depois não sei mais. Dou seta pra entrar na garagem, acho a humanidade inteira muito esquisita mas gosto de observá-la. Não sei o que eu quero, nem para onde vou, nem tenho uma proposta viável e cabível para a minha ou a vida de qualquer um.
Sou invisível. Condenação ou um dom? Sinto a dor medíocre e legítima dos comuns. Amargo todas as desilusões vitoriosamente. Este tem sido o meu maior
trunfo: continuar sem nenhum motivo aparente, como um personagem em busca de um  criador.
Olho o povo andando apressado na metrópole e vejo que houve um garoto que lia e se emocionava. E que não lembra de nada ou quase nada.
As roupas não são nunca as ideais, os lugares, as opiniões, o mundo. Indago se Deus tem um plano armado ou está improvisando. No entanto, sei que não posso deixar a consciência, ou a falta dela, fazer mal ao que de alguma forma se mantém funcionando.
Olho as portas entreabertas dos armários. Não gosto de portas pelo meio do
caminho: melhor fechadas ou abertas. Algo deveria ser dito e eu não digo.
Flertando com a insanidade. Sem dramas, sem surpresas, sem final feliz.
Não me acho no espelho mas algo me diz que há alguém ali. Nunca consigo saber quem.

Leo Jaime é cronista do Blônicas às quintas-feiras.

Escrito por Blônicas às 15h55
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Azaléias.

De Antonio Prata.

A Avenida Rebouças às seis e meia da tarde é um bom exemplo desse papo de fim das utopias. Sentados em nossos carros, cercados de aço, concreto, outdoors e monóxido de carbono, percebemos que não há progresso possível e que tanto as saídas pela esquerda (Pinheiros, pra quem sobe) como pela direita (Jardins) estão fadadas ao fracasso. Só nos resta, portanto, entregarmo-nos ao escapismo consumista (balinhas ou castanha de caju, vai do freguês) e torcer para achar alguma rádio que não esteja passando propaganda política.

Ao longo do século XX, fascismo, comunismo, livre mercado e social democracia deram com os burros (nós) n’água. A única saída ainda não experimentada, meus amigos, é a minha ditadura. Sim, eu no poder. Venho pensando nisso há um bom tempo e já esbocei algumas soluções. Minha primeira ação, de cunho simbólico, será fazer a Cardeal Arcoverde subir e a Teodoro descer. “Mas isso melhorará o trânsito?”, perguntará o interessado leitor. Não, queridão, mas quebrará o paradigma. Mostrará a todos que não estou para brincadeiras. Nesse mesmo embalo, dinamitarei o Borba Gato, o que é uma atitude tanto estética (ê coisa feia!), quanto política (não podemos cultuar um assassino em pleno século XXI). Em seu lugar, penso em construir alguma imagem do repertório popular, como um enorme Saci Pererê, o Cascão ou uma loira do Tcham!, de 25 metros, pra animar o pessoal, fortalecer nossas raízes e dar o tom de meu caudilhismo lúdico.

“Paliativos, paliativos”, dirá o engajado leitor. Pois veja então minha solução para a questão social, precocemente elaborada no auge de meus cinco anos: cheque pro pessoal. Na época em que expliquei o plano à minha mãe, ela esboçou alguma resposta no sentido de que a quantidade de papel moeda tinha que ser proporcional às reservas do país, do contrário, geraria-se inflação. Balela. Se mamãe continuar com esse papo, mando ela (com um talão bem gordo) para um exílio em Paris. E, mesmo que a gente se estrumbique a médio prazo, a turma terá algumas semanas de inesquecível gozo com suas folhinhas mágicas.

O espaço é curto, a vida é longa e também minhas ambições como ditador. Só digo, humildemente, para terminar, que se tudo der errado a gente aterra São Paulo, planta umas azaléias e se muda pra Bahia, gerando emprego, ar puro e a possibilidade, sempre agradável, de pegar uma corzinha.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h55
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Um velório no sítio.

De Carlos Castelo.

A caminho do interior de São Paulo, resolvi pegar uma estrada vicinal para evitar pagamento de pedágio.

Por causa das muitas curvas seguidas na via estreita, me senti enjoado e tonto.

Foi quando percebi a placa: “Sitio do Pica-Pau Amarelo”.

O pensamento seguinte foi: “paro, lavo o rosto, tomo um suco e retomo a viagem”.

Foi o que fiz.

Estacionei o carro num grande terreiro, mas fui logo estranhando o silêncio. Apesar de estar no campo, mesmo um estabelecimento comercial de beira de estrada dos mais reles costuma ter fregueses.

Ali só se ouvia o zunir das moscas.

Segundos depois, tomei um susto enorme. Vi-me diante de um porco gordo, afeminado muito histérico e aos prantos.

- E agora? Quem é que vai proteger a porquinha aqui da monstra da Tia Nastácia? Quem? Me fala, bonitão?

Julguei ser aquela pantomima uma imitação extremamente sexista do Marquês de Rabicó.

O que não fazem as agência de Promoção hoje em dia...

Meio cambaleante, ignorei o homem trajado de suíno e entrei no saguão.

Veio sobressalto maior ainda.

Sobre uma enorme mesa jazia, mãos cruzadas sobre o peito, ninguém menos que a macróbia Dona Benta (não tão macróbia assim, já que estava mortinha da silva).

Em volta do célebre cadáver, pranteavam Visconde de Sabugosa,Tia Nastácia, Doutor Caramujo, Emília e a Cuca.

Pisquei os olhos seguidamente tentando sair de algum possível transe. E, como nada se alterou, belisquei firmemente meu antebraço.

A cena não mudou.

Foi então que o Visconde de Sabugosa, em pessoa e espiga, vendo minha estupefação se achegou.

- A pobre senhora, não agüentou o baque, ai, ai, ai...

Ainda estranhando um boneco feito de sabugo de milho me confortando, perguntei:

- Mas qual foi a causa do falecimento, senhor Visconde?

- Tristeza, forasteiro, muita aporrinhação da vida...

Diante de minha expressão surpresa, o milho humanizado se explicou.

- O sítio ia bem. Depois daquele seriado na tevê em rede nacional, ficou melhor ainda. Mas os olhos de Pedrinho cresceram e ele quis transformar isso aqui numa Disney World. Afundou-nos em dívidas...

- Que pena – disse num fio de voz.

- O problema foram os agiotas – disse um Sabugosa de olhos lacrimejantes - começaram a perseguir Pedrinho e ele teve que se refugiar no Paraguai.

- Não sem dar três tiros na cara do Saci – grasnou Emília de dentro do velório.

- Cala a matraca, boneca mal educada! – ralhou o Visconde.

Minha curiosidade só aumentava.

- Mas e a Narizinho? - perguntei.

O Visconde suspirou.

- Depois que se divorciou do Princípe Escamado, perdeu o título de Princesa do Reino das Águas Claras. Aí então…

Minha boca se entreabriu.

- …entrou na Igreja Universal. Hoje é a Bispa Lúcia. Isso acabou de matar a velha, que era tão católica… ai, ai, ai…

Nesse momento entrou no recinto o exageradamente maricas Marquês de Rabicó. Continuava chorando e gritando, só que agora portando uma gilete:

- Ai, gente, não agüento mais! Quero morreeeerrrr!!!

Tia Nastácia perdeu o controle. Saiu correndo atrás do Rabicó, vassoura em riste.

- Ai, porco bicha, eu te jogo no caldeirão de feijão. E é já!!!!

O velório continuou. Agora com o merecido silêncio.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h30
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Obrigado aos leitores!
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Escrito por Blônicas às 14h16
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Direto do planeta solidão.

De Tati Bernardi.

Lá estou eu em mais uma mesa com taças de vinho pela metade, risos pela metade, fumaças desenhando algo que quase formou uma imagem, restos de couvert e bolinhas inacabadas e nervosas de guardanapo.
Olho pro lado e sinto uma saudade imensa, doída, desesperançada e até cínica. Saudade de alguma coisa ou de alguém, não sei. Talvez de mim, de algum marido fabuloso que eu tive em alguma encarnação, do útero da minha mãe, do meu anjo da guarda que está de férias em Acapulco, do meu avô que embrulhava sempre meu aparelho de dentes em um guardanapo e depois esquecia e jogava no lixo achando que era resto de algum lanchinho, de algum amor verdadeiro que durou um segundo, de uma cena perfeita que meu inconsciente formou na infância e que eu me encarreguei de acreditar como sendo meu futuro.
Meus amigos me adoram e certamente chorariam se eu morresse. Mas será que eles sabem que eu penso sempre na morte? Será que eles sabem que aquela garota alí no canto da mesa, de decote, de bolsa da moda, rindo pra caramba, contando mais uma de suas aventuras vazias e descartáveis, acorda todos os dias pensando: o que eu realmente quero com essa vida? Como eu faço pra ser feliz?
Será que eles sabem que se eu estou morrendo de rir agora, daqui a pouco vou morrer de chorar? E vice-versa? E isso 24 horas por dia? E isso mesmo com terapia, mesmo com macumba, mesmo com espiritismo, mesmo com meditação, mesmo com o namoradinho da semana. Será que eles sabem o tanto que eu sofro e o tanto que eu não sofro a cada segundo?
Meus amigos me adoram. Mas sempre que podem, tiram sarro da minha cara. Sempre que podem, me transformam na chacotinha da mesa: Tati não sabe nadar, Tati não se droga, Tati não bebe, Tati expõe sua vida no site dela, Tati não arruma ninguém que a ame de verdade porque é louca, Tati assusta os caras, Tati é boba e se apaixona sempre, Tati não leva ninguém a sério, Tati explode por tudo, Tati fala demais, Tati fala palavrão, Tati reclama demais…
Minha melhor amiga me ama muito, mas ela adora que eu seja o erro em pessoa só para ela se sentir o acerto em pessoa. Meu melhor amigo me chamou de infeliz um dia e eu nunca mais consegui rir da infelicidade dele. Meu outro amigo me adora, muito, mas se pudesse, de verdade, ele trepava comigo a noite inteira e nem me ligava no dia seguinte. Meus amigos me amam, muito, mas nem o máximo de amor de uma pessoa chega perto do que deveria ser amor. Amor não significa mais amor. E eu, mais uma vez, olho para o lado morrendo de saudade dessa coisa que eu não sei o que é. Dessa coisa que talvez seja amor.
Sinto um nojo enorme e desesperador de todos os afetos em pílulas que posso ganhar. Fulano me acha a melhor companhia do mundo mas, pensando bem, ele pode desfilar com modelos por aí. Fulano pensa em mim todos os dias mas, pensando bem, ele tem que curtir a vida com seu carro novo. Fulano se diverte horrores comigo mas, pensando bem, ele também curte aquela tia tatuada que eu nem sei quem é e no fundo to pouco me lixando. Fulano passeou de mãos dadas comigo naquele fim de tarde que mereceu nossos aplausos, mas, quer saber? Viram ele dois dias depois de dormir na minha casa com outra numa festa. Fulano me apresentou para todos os amigos e encheu minha geladeira de comida mas, quer saber, putz, qualquer garotinha do bar dos pseudo-intelectuais malas também pode ser interessante ou, caso não seja, ao menos tem um buraco. Odeio todas as minhas pílulas, odeio todos os amores baratos, curtos e não amores que eu inventei só para pular uma semana sem dor. A cada semana sem dor que eu
pulo, pareço acumular uma vida de dor. Preciso parar, preciso esperar. Mas a solidão dói e eu sigo inventando personagens. Odeio minha fraqueza em me enganar e mais ainda a dor que vem depois dos dias entorpecidos.
Eu invento amor, sim. E dói admitir isso. Mas é que não aguento mais não dar um rosto para a minha saudade. E não aguento mais os copos, as fumaças, os amigos, as intenções e as bolinhas de guardanapo pela metade. É tudo pela metade. Ao menos a minha fantasia é por inteiro. Enquanto dura.
No final bruto, seco e silencioso da melhor festa do mundo que nem começou, é sempre isso mesmo. Eu aqui tomando meu chá mate limão meio querendo chorar, meio querendo mentir sobre a vida até acreditar. Aí eu limpo a maquiagem com creme anti-sinais e percebo que não faz o menor sentido ser uma criança chorona preocupada com rugas. Aí eu me acho louca porque só tem duas coisas que eu realmente queria nesse mundo: um filho ou voltar a ser filha. E aí eu deito pra dormir e penso em sacanegem, mas também penso em coisas bonitinhas. E eu rezo pedindo a Deus que não espere mais eu ser legal para ser legal comigo, porque eu to esperando ele ser legal comigo para ser legal. Aí eu penso que ele já é legal comigo e que, talvez, eu já seja legal com ele. E que tá tudo bem. Mas se eu penso que tá tudo bem nesse segundo, isso só significa que vou pensar o oposto no segundo seguinte. E que eu escrevi “ele” sem maiúscula mesmo, porque amigo íntimo a gente não fica com essa coisa de endeusar. E eu queria que Ele fosse meu amigo íntimo, ou ao menos existisse. E quando vou ver, já dormi. Sozinha.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sábados.

Escrito por Blônicas às 17h54
[]


Aparências.

De Nelson Botter.

As duas entraram no motel a pé. A recepcionista ficou olhando com reprovação enquanto pedia os documentos. Ao ver os nomes, percebeu que eram duas irmãs.

"Ah bom", pensou, "simples pernoite".

Entregou as chaves do quarto e voltou a assistir um programa qualquer numa TV em preto e branco de 14 polegadas com um pouco de Bombril nas antenas.

Entraram no quarto com ar de exaustas. A mais velha atirou as sandálias longe.

– A mamãe ligou?

– Sim.

– E o que você disse pra ela?

– Oras, que iríamos ao cinema.

– Ótimo. Então, tira logo essa sua calça que estou morrendo de vontade de cair de boca em você.

Nelson Botter é cronista do Blônicas às terças-feiras... êpa, hoje não é terça???

Escrito por Blônicas às 14h26
[]


Eu sou uma pessoa.

De Leo Jaime.

Quantas coisas você já leu na internet com esse princípio. Essa é a
frase inicial com a qual as pessoas, em geral, se descrevem. sim, se
colocando na terceira pessoa do singular, virando um ele ou ela, mas
certamente crendo que é assim que se deve falar de si. Eu sou aquele que,
sou uma pessoa que , e por aí vai fechando as possiblildades de discurso
íntimo. O que se está apresentando é uma imagem pública, um no meio do povo.
O que pretende alguém que compra a roupa que todos estão usando? Ser
alguém como os outros. E quando se quer fazer o que todos fazem ou ir onde
todos vão? A segurança de ter algo que já foi aprovado, experimentado e que
não vá ser motivo de chacota. Destoar é, e esse é o medo, isolar-se e
destacar-se da massa. Mas como perceber uma individualidade sem se destacar
da família, do grupo, do público e comum? Mas será que não é exatamtente
para aplacar a angústia de possibilidades existenciais que existem todos
esses subterfúgios?
Dia desses conversava com alguém que exaltava a qualidade de quem sabia
sua serventia. A afirmação era contundente: ninguém sabe para o que serve! E
não pude contestar. Claro que por mais que alguém seja útil e faça um monte
de coisas não está claro que ele sabe para o que serve, qual sua vocação e
chance de estar fazendo o que é a sua vocação é remota. Você sabe qual a sua
vocação? Está praticando ela? Sois um felizardo!
Ao longo da vida vamos mudando, e assim mudam o cabelo, os figurinos, os
amigos ou parte deles, os hábitos, os gostos. Mudamos muito! Esse percurso
pode ser rumo à própria identidade ou pode ser apenas um rodízio de corpos e
funções pelas quais uma alma vai pagando suas provações. É muito possível
chegar ao fim da vida sem saber direito o que é que veio fazer ou se veio
fazer alguma coisa específica. Quero dizer: se era pra ter feito algo em
especial. Quem se pergunta? E, uma vez que se pergunte, o que acontece caso
a resposta nunca venha?
Ao meu ver, enquanto as respostas não aparecem é difícil dizer eu sou.
Seja lá o que for. É mais fácil dizer "eu sou uma pessoa que..." Na terceira
pessoa. Eu sou aquele lá. E não faço idéia de quem seja a voz que diz isso.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h31
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Influenciável.

De Rosana Hermann.

Sou uma pessoa influenciável. Não sei medir o quanto, mas tenho várias provas do fato. Há muitos anos fui ao cinema ver All That Jazz. Fiquei tão embevecida pela idéia de dançar que saí do cinema e me matriculei num curso de jazz. Aprendi a copiar os passos do tema do filme e depois, parei.
 
Numa outra ocasião, profissional, entrevistei uma mulher que dizia ter sido abduzida por seres extra-terrestres. Tudo bem, ela era louca, mas muito coerente e convincente. Não sei o quanto acreditei na história em si mas saí do trabalho e fui direto para uma farmácia comprar dois saquinhos de enxofre para colocar dentro do sapato, só para isolar más influências.

Às vezes funciona ao contrário também. Certa vez comecei a estudar a Cabala, bem antes de Madonna, embora ninguém acredite que alguém possa ter feito qualquer coisa antes dela. Quando soube que a popstar estava se dedicando a este estudo com afinco, larguei. Sabe, para que as pessoas não achassem que eu estava sendo influenciada por ela. Não gosto de ser acusada dos defeitos certos pelos motivos errados. E só para constar, também fiz ioga antes dela. Infelizmente minha lista de coisas que fiz antes de Madonna acaba aqui. Porque comecei a fazer Pilates por causa da cantora. É a influência.

Ser uma pessoa influenciável não é necessariamente ruim, contanto que a fonte seja boa. Não era o caso do saquinho de enxofre, mas até hoje me beneficio das aulas de Pilates, que já faço há anos. Também estou satisfeita com meus cabelos atuais, cuidados à base de muita escova, hábito que adquiri também por influência. Nunca me deixei levar pela moda das cirurgias estéticas que incluem implantes. Não sou influenciável pelo mercado como um todo mas por pessoas em específico. Talvez eu nunca tenha encontrado uma peituda plástica que fosse uma pessoa admirável, por isso, não copiei. Vai saber.

A influência, como diz o nome, é uma espécie de fluxo que vem dos astros, do éter, do nada. É um poder invisível e involuntário sobre os seres, ‘sem uso aparente de força ou de autoritarismo’, como diz o dicionário. Deixar-se influenciar é aceitar os rios que deságuam em nós, é deixar-se levar pela maré. É gostoso, mas a prudência aconselha a  sempre levar uma bóia, mesmo sabendo nadar.

Hoje cedo, por exemplo, li um artigo sobre a mastigação e fui embora no fluxo dos depoimentos de pessoas que perderam de quatro a vinte quilos simplesmente mastigando mais e comendo mais devagar. As dicas eram simples e ótimas: respirar antes de começar a comer, largar os talheres entre os bocados, dividir os carboidratos em pedaços pequenos e mastigar um de cada vez sem pressa. Em seguida fui tomar café. Reparti o pão em pequenos pedaços, mastiguei cada um cerca de trinta vezes. E achei que realmente funcionou. Saciou a fome e me senti melhor.

Mesmo tendo critérios, sou assim, influenciável por idéias, conceitos, exemplos, pessoas que me parecem interessantes ou admiráveis.  Não é exatamente uma grande virtude, eu sei. Mas cá entre nós, é infinitamente melhor do que ser uma maria-vai-com-as-outras ou um puta puxa saco do chefe. 

Rosana Hermann é cronista do Blônicas às quartas-feiras.

Escrito por Blônicas às 07h34
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Assombrações de um macho-brexó.

De Xico Sá.

Definitivamente não é do mundo dos vivos tal criatura. Veste-se com charme, claro, essa é a idéia estratégica. Mas o problema é outro: o defunto, como dizia minha mãe, era sempre maior que o novo dono. Sempre sobra pano na ponta dos dedos ou tergal na boca das calças, mesmo as nostálgicas bocas-de-sino.

Mas o que derrota mesmo é o mal-assombro. Você, nobre gazela, lá com o mancebo, no bem-bom do mundo horizontal, e a assombração no cabide. A sorrir, caso os pertences tenham sido de um defunto cínico qualquer – um leitor de Sêneca e amante da brevidade da vida, pois, pois.

A calça pendurada assistia tudo e, ao contrário do que canta Roberto, dizia muito. A camisa listradinha, preto e branco de tanta elegância, também falava pelos cotovelos puídos, sovacos eruditos de tanto carregar livros, livros de sebo, pois o camarada aprecia mesmo artigos de segunda mão, detesta produtos novinhos em folha.

 A quem terá pertencido tal roupa? Ao padeiro, ao sapateiro, ao dono da marcenaria, ao relojoeiro, ao amolador de facas, ao Bolinha (lembram as camisas psicodélicas do apresentador de auditório?), ao homem normal do 308 – os homens normais moram sempre no terceiro andar, já repararam?

O homem-brechó, este tipo urbano que sempre compra suas roupas de segunda mão, leva, irremediavelmente, o ex-dono dos pertences para a cabeceira da cama. Os vivos e os mortos. Os sapatos passeiam pela casa das moças na madrugada. Juris esperneandi.

É tudo muito Cherteston, aquilo escriba mal-assombrado cujo detetive Padre Brown examinava os mistérios das vestes do além. É um colete de um viúvo tarado – só os tarados anormais usam coletes. É o casaco de um franco-atirador a nos meter encorajados pra o amor?

Ora, ora, se um algodão novinho em folha, que ontem lá no campo ainda era flor, como na canção, já nos chega com os fantasmas e espantalhos das dores da roça e do mundo, imaginem, amigos, um velho e puído veludo azul, golas do desmantelo, como em “Blue Velvet”.

Confesso, mancebos e gazelas, esse relato é uma missa de corpo presente: até anteontem eu era um autêntico macho-brechó. Depois do que presenciei na madrugada, nunca mais, ajudado pelos delírios da abstinência alcoólica, vade retro belzebu. Aquele par de sapato lustrado, bico fino, clássico, a bailar sozinho um tango, coreografia mais trágica, deus mio, ainda arrepio só de lembrar a dança macabra. Não, meu amigo, pelo menos naquela assombração, o tango argentino não me caía bem melhor que um velho blues.   

 

Xico Sá é cronista do Blônicas às segundas-feiras.

Escrito por Blônicas às 10h26
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Homens do mercado.

De Tati Bernardi.

Acordei assim meio sem ter o que fazer, uma vontade danada de ter alguém pra rir ou pra ficar pelada. Tem desse modelo dois em um que serve pra rir e pra ficar pelada, moço? Tem, senhora. Senhorita, por favor. Ainda ninguém quis casar comigo. É pra viagem ou vai comer agora? Vou comer no carro, embrulha mas não capricha muito não que eu tô com pressa.
Impressionante essa tecnologia dois em um. Eu realmente dou risada a noite toda e de tanto rir vai dando aquele calor, aquela vontade de ficar pelada. A indústria do entretenimento demorou mas descobriu que o tesão da mulher tá na laringe. Quanto mais a gente dá gargalhada, maior a vontade de abrir a perna. Boneco bom esse modelo loiro magrelo, pena que vende aos montes e quase todo mundo pode ter. No dia seguinte começou a falhar. As piadas eram as mesmas, o sexo ficou sem magia e o botão do amor deu pau. Já foi o tempo que a gente dava valor para um produto ao ponto de brigar por ele. Hoje em dia tá tudo tão fácil que comprar outro sai mais barato que tentar consertar. Tá lá o moço loiro ao lado da lata de lixo do meu prédio. Talvez a Emengarda faça bom uso dele, talvez como abajour. Ele é branquelo demais.
Aí tava meio de bobeira andando pelas lojas e pensei: por que não um desses garotinhos com brilho nos olhos? Desses cheios de vontade de vencer na vida e de viver a vida. Adoro esses garotinhos que não fedem a frustrações e que tentam desesperadamente parecer homens. Talvez eu goste deles porque eu também só tente parecer mulher. Bom, dei algumas moedas na mão da minha menina e dessa vez foi ela quem saiu feliz da vida com uma imensa sacola cor-de-rosa. Pode tirar a roupa dele, mãe? Pode garotinha de Maria-Chiquinha, mas depois não vá dizer que eu não avisei: no dia seguinte dá um vaziozinho no coração. Nada que não passe com as próximas compras. Pode dormir abraçadinha nele, mãe? Pode, mas aí piora mais um pouco. Melhor um coração vazio e inteiro do que um todo despedaçado. Mas vai lá, filhinha, é bom pra você aprender. Brinca bastante com ele, depois, quando ele se autodestruir em alguns segundos, mamãe compra outro pra você. Chora não menina boba. Era só um garotinho igual
a 345 que têm nas lojas. Que modelo você quer agora? Quer o modelo que fala irado, o que fala maior vibe ou o que fala insano? Ah, mãe, queria um que falasse coisas mais inteligentes e profundas, tem desse? Tem, mas custa um pouco mais caro porque é importado de outro planeta. Nada que dez vezes no cartão não resolva.
Acho que preciso de tratamento psiquiátrico. Vou levar as reservas da minha alma à falência se continuar gastando desse jeito. Nem bem enjôo de uma compra já quero logo sentir de novo o prazer de tirar um encantamento da caixa. Novinho em folha. Oi, será que por acaso vocês não tem aí um modelo que já vem com assunto? To sentindo uma falta danada de ter com quem conversar. Tem, claro que tem. Esse aqui já vem com três cartuchos sobre cinema europeu e você ainda leva a nova revista Piauí totalmente de graça. Volto pra casa com meu novo joguinho. Fico até um pouco cansada porque o manual de instruções desse modelo vem num português mais rebuscado. Quase sinto saudade do antigo boneco que com o mesmo comando falava irado e abaixava as calças. Mas acho que já tenho idade para passar de fase e tentar uma conquista mais difícil. Putz, botaram toda tecnologia no cérebro e esqueceram do resto. Boneco chato esse, tá louco. Sexo que não toca música e coração que não pisca. Já foi o tem
po que os brinquedos faziam pirotecnia. Esse nem vôa e nem me faz voar. Começo a me irritar, essa indústria do entretenimento faz de propósito: não existe o boneco perfeito justamente pra você voltar na loja todos os dias.
Mas cansei desse papo, não sou besta não. Vou acabar pobre desse jeito. Ei, moço, vocês não tem aí um que me faça rir, me dê tesão, seja inteligente e tenha coração? Ah, e de preferência um forte, que não quebre tão fácil. E que venha com vários cartuchos de assuntos que é para eu não enjoar. Opa, e que tenha garantia, claro. A pior coisa são esses bonecos que a gente compra barato mas vêm sem nota. Tem não, moça. Esse tá em falta. Fizeram uma versão limitada e vendeu tudo no mesmo dia. Deixa seu nome ali na lista de espera que quando chegar a gente te liga. Meu nome já tá lá há 28 anos, moço. Mulher já nasce querendo um desses. Desculpa moça, vou ficar devendo. Tudo bem, eu já sabia. Mas já que é pra esperar sentada, me vê aí um modelo com o joystick bem grande.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h09
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Nem nome ela tem.

De Leo Jaime.

Foi abrir os olhos e dar com ela. Aquela presença sutil e dominante. Estava em tudo o que eu olhava e estava em mim. Abri os olhos e enxerguei as coisas, as cores, mas demorou um tempo até que os sons acompanhassem as imagens. O som chegou depois e mesmo assim era o som do dia ao longe. O ar-condicionado parecia desnecessário. Eu tiritava de frio e sentia a pele de um braço, o que tinha ficado para fora da coberta, meio que insensível.
Como se não fosse meu o braço, embora estivesse grudado em mim. Diria até que era um braço de borracha, não fosse o mesmo de sempre. Gelado e um pouco arrepiado. Eu tinha acordado com febre.

Fui ver na janela, sem abrir a cortina, só dando uma levantadinha; O dia era insano e calorento; um dia de final de verão, típico. Sol forte, céu azul e eu desisti de ver o resto. Às vezes olho para ver se as pessoas estão de mangas-compridas, mesmo quando tem sol. O sol pode aparecer em dias de ventos gelados. Eu não olhei. Não quis ver se estava ou não frio para o mundo. Para mim estava;

Entrei no chuveiro quente para ver se meu braço deixava de ser de borracha e para sanar o frio. Sai do chuveiro zonzo e mal consegui me enxugar de pé.
Precisava voltar logo para a cama.

E o trabalho? E a reunião para a qual eu tinha pedido para me despertarem?
Não dava para não ir! E a cama ali, chamando, quase me cobrindo ela mesma,
para que eu desse uma suadinha debaixo das cobertas. Nada, foi só tomar
fôlego e começar o dia.

Na hora de vestir a roupa, percebi que todos os meus músculos doíam. Areia
nos olhos, a garganta e os lábios muito secos e uma dor infernal em todos os
ossos. E cansaço. Cansaço profundo, existencial. Cansaço de meses, de quem
pede férias! E eu tinha acabado de acordar!!!

O médico olha, olha de novo e diz: virose! Toda pinta de gripe, mas não é
necessariamente uma influenza. Pode ser alguma mutação, uma virose que
aparece este mês e some para sempre. E essa coisa insignificante terá me
roubado um dia. Ou vários ao longo da vida.

Essa não tem nem nome. Mas a vontade é de mirar entre os olhos e derrubá-la
de uma vez por todas. Ô gripezinha enjoada!!

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h26
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Flavonóides!

De Antonio Prata.

Uns crêem em Deus, outros no Diabo e há até quem espere do capitalismo a redenção de nossas pobres almas: eu acredito em substâncias. Analiso a tabela nutricional no rótulo de um chocolate com a seriedade de um exegeta, procuro verdades obscuras por trás da quantidade de calorias ou carboidratos de um suco de laranja como um rabino cabalista. Sei que, pela interpretação correta daqueles míseros gramas de fibras, sódio ou fósforo, pode-se vislumbrar a verdadeira face de Deus.

Ou do Diabo. Se, na boca do povo, o demônio atende por nomes como Tinhoso, Belzebu e Lúcifer, nas tabelas nutricionais esconde-se sob a alcunha de gorduras saturadas, fenilalanina, colesterol, sódio e, de uns tempos para cá, gorduras trans. (Não se deixe enganar por esse nome simpático, com ar de disco do Caetano em 79: as gorduras trans, dizem os especialistas, colam feito argamassa nas paredes das artérias).

Comecei a temer as substâncias com a fenilalanina. Não tenho a menor idéia do que seja, mas faz alguns anos que a Coca-light traz o aviso, misterioso e soturno: contém fenilalanina. O McDonald´s, ainda mais incisivo, colou um adesivo no balcão de suas lanchonetes: “Atenção, fenilcetonúricos: contém fenilalanina”. Desde então, toda noite, ao por a cabeça no travesseiro, imagino diálogos como “...pois é, menina, o Antonio! Era fenilcetonúrico e não sabia. Fulminante. Tão novo, judiação...”

O cidadão atento deve ter notado que o glúten, de uns anos para cá, também ganhou uma certa notoriedade nos rótulos. “Contem glúten”, dizem embalagens de uma infinidade de alimentos, sem mais explicações. Qual é a do glúten? Faz bem pra vista? Ataca o fígado? Derrete o cérebro? Podem os fenilcetonúricos comer glúten sem problemas?

Como bom crente, sei que as substâncias matam, mas também podem salvar. Pelo menos, é o que espero do chá verde e seus incríveis flavonóides, que venho consumindo com fervor e regularidade nas últimas semanas. Você sabe o que são flavonóides? Pois é, eu também não, mas o rótulo do tal Green Tea avisa, com grande júbilo (um pequeno gráfico), que uma garrafinha tem quatro vezes mais flavonóides do que o suco de laranja e treze vezes mais do que o brócolis. Diz ainda, à guisa de explicação, tratar-se de poderoso anti-oxidante. Fico muito tranquilo: posso cair fulminado pela fenilalanina ou sofrer as insuspeitas mazelas do glúten, mas de enferrujar, ao que parece, estou a salvo.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h45
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Astolfo, alegria do povo.

De Carlos Castelo.

PRELIMINAR

Estávamos ali, na frente da televisão, esperando o momento em que os jogadores chutariam a piroga. Final era sempre assim. Vestíamos nossas camisetas verde-amarelas e ficávamos olhando atentamente para a grama vermelha, os fogos-fátuos-de-eventos e aquele objeto hexagonal sendo chutado de um lado para o outro da arena coberta. Bebíamos gunta e fumávamos cuñola com uma ansiedade gigantesca nestas ocasiões. Ainda mais naquele derradeiro jogo da “Liga Ush de Astolfo”. Uma vitória do Brasil sobre a Noruega o colocaria como  septa-campeão, simplesmente a maior conquista desportiva nacional desde que o Conde de Navegantes inventara o astolfo, trazendo a idéia de um desporto praticado pelos índios curu-curu de Nova Granada.

PRIMEIRO TEMPO

Jémerson era nosso ídolo.
Não foi à toa que, em tarde gloriosa, ele passou aquela piroga na medida para Jantuir. Depois, Jantuir cobrou com efeito o vertical, e a piroga alcançou Nenê.
Este deu uma trivolta espetacular no defensor e, em seguida, lhe aplicou um inesperado mamão-verde.
O defensor se desequilibrou. Foi quando Jémerson saltou como um gato à esquerda de Nenê e recebeu a piroga sem marcação.
O guarda-éclair ainda tentou saltar, mas a piroga entrou à direita dele, pingando devagarzinho, sem salvação.
Um éclair a zero para o Brasil.
Oito minutos depois, veio a vingança do adversário.
Os treze jogadores da Noruega se colocaram no campo do Brasil e os nossos seis atacantes ficaram em clara posição de aturdimento.
O hermenêuco estava correto em apontar a penalidade gótica.
Johasson chutou a piroga no sextavante e estufou os miosótis do guarda-éclair.
A torcida se calou. O campo circular ganhou contornos de melancolia.

INTERVALO

O astolfo é o esporte coletivo mais praticado no mundo. É disputado numa arena redonda por duas equipes, de treze jogadores cada, que têm como objetivo colocar a piroga dentro da baliza adversária, o maior número de vezes sem usar as mãos e braços. Esse objetivo é chamado de éclair. A baliza ou éclairista é formado por dois postes verticais, perpendiculares ao chão, uma grande travessa paralela ao solo e uma faixa branca posicionada no gramado vermelho exatamente abaixo do travessão. Ali fica posicionado o guarda-éclair, que é o único jogador com permissão de colocar as mãos na piroga (apenas dentro da sua área), defendendo a éclairista (exceto na cobrança do arremesso lateral, onde o jogador deve lançar a piroga para dentro do campo usando as nádegas). Uma partida de astolfo é vencida pela equipe que marcar o maior número de éclairs. O torneio mais prestigiado de astolfo é a Copa do Mundo de Éclair. O maior vencedor, o Brasil.

SEGUNDO TEMPO

Aos exatos 67 minutos, Jémerson manda a piroga para Nenê. Nenê para Dito. Dito para Menelau. Este de cabeça arremessa a piroga na direção do guarda-éclair. O defensor ainda tenta dar-lhe um golpe com os glúteos.  Mas erra feio a pontaria. Éclair! Éclair! O que seria do mundo sem esta mágica palavra. O país inteiro vai à loucura quando os hermenêuco-auxiliares confirmam o fim da peleja, jogando-se no chão e arrastando-se de bruço até os túneis.
Sim, agora podemos dizer: o Brasil é septa-campeão mundial.
Um dia que, sem a menor dúvida, vai entrar definitivamente para a história do astolfo.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h19
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No supermercado.

De Milly Lacombe.

Como faço sempre às segundas-feiras, saí do trabalho, por volta das oito da noite, e fui direto para o supermercado. Morar sozinha tem dessas coisas: o supermercado é por sua conta, não há com quem dividir, ou compartilhar, a tarefa. Portanto, lá fui eu, para uma das mais sofisticadas lojas da cidade, disposta a me presentear com algumas indulgências - como diria meu pai, eu me trato muito bem.
Chegando, encontrei o ambiente de costume: música de boa qualidade, ar condicionado na temperatura ideal, corredores vazios, funcionários sempre prontos para servir bem: ah, as delícias de fazer parte da elite brasileira. O que esperar de um lugar como esse, freqüentado por pessoas elegantes e repleto de produtos de altíssima qualidade? Uma experiência, no mínimo, agradável.
Em busca de meus pequenos mimos, fui percorrendo o espaço. Na fileira do açúcar, parei com um pouco mais de interesse porque buscava aquele açúcar em cubinhos, sempre difícil de ser encontrado. Enquanto observava cuidadosamente minhas opções, a cada dia mais fartas, fui surpreendida pela chegada de uma senhora encorpada, beirando os sessenta anos, armada de seu carrinho lotado, que, sem a menor cerimônia, se postou entre meu corpo e a prateleira, tampando completamente minha visão. Como se eu fosse invisível, a senhora, que à primeira vista parecia apenas uma distinta personagem de nossa elite, ali permaneceu. Em pouco segundos, ficou claro que ela estava atrás de embalagens de leite longa-vida. E a marca desejada descansava na última prateleira. Na ponta dos pés, começou a empilhar em seu carrinho dezenas de embalagens de leite longa-vida. Para poder continuar alcançando o produto, que, à medida que era retirado, ia ficando um pouco mais ao fundo, achou que seria uma boa idéia escalar as prateleiras. Assim, mandou às favas a aparente elegância, e, agarrada com uma das mãos à estrutura, corpo semi-suspenso no ar, foi atirando, muito vulgarmente, embalagens no carinho, lá do alto mesmo, com a outra mão.
Eu, ainda invisível, mas completamente entretida pela situação, dei alguns passos para trás a fim de não ser atingida por um litro de leite voador, e continuei a observar. Notei que, embora estivesse vestida em roupas de grife e calçando um sapato muito fino, seu cabelo estava armado e extremamente seco. Mas fui retirada de meu devaneio estético pelo barulho das embalagens caindo, lá do alto, no carrinho.
A imagem já era suficientemente bizarra, mas ficou ainda pior quando, conforme retirava o leite desejado da última prateleira, a madame ia derrubando as mercadorias que estavam nas prateleiras debaixo. Em poucos segundos, o chão estava coberto de produtos que a distinta senhora havia, por descuido, desalojado. Quando ela finalmente pareceu satisfeita com a quantidade de leite em seu carrinho, desescalou as prateleiras. Ainda sem virar o rosto para trás e reconhecer minha presença, olhou para baixo e viu o estrago que havia feito. Foi então que nossa requintada protagonista fez o inimaginável: com bicudas de fazer inveja a muito jogador de futebol, mandou os produtos para baixo da prateleira. Um a um. Por que abaixar se podia apenas escondê-los? No fim do expediente, é claro, algum funcionário que ficasse de cócoras para recolher tudo. Aquilo não era, evidentemente, problema dela. Feito isso, esfregou as mãos e bateu em retirada.
Assim que saí de meu estado de incredulidade, consegui abordá-la: “Não seria mais sofisticado colocar no lugar os produtos que a senhora derrubou, em vez de chutá-los?” Foi quando ela se dispôs a me olhar nos olhos. E foi quando, também, notei que seus cabelos eram muito mais secos do que eu havia primeiramente observado. Por que tão pouco cuidado com eles?, pensei. “Abaixar, eu? Você paga o massagista depois?”, perguntou, agressivamente, nossa heroína. “Se a senhora não se sente em condições de abaixar, peça para alguém mais jovem que esteja ao lado, como era exatamente o meu caso, fazer isso. Mas não saia vulgarmente chutando as coisas para debaixo da prateleira”, respondi. “Por que você não vai cuidar da sua vida?”, fuzilou a elegante senhora, vermelha de raiva.
E então eu me peguei pensando que poucas coisas são mais cafonas do que nossa elite: de todas as generalizações, a que menor risco corre de ser injusta. Roupas, sapatos, carros, casas – na aparência, tudo parece funcionar. São capazes de falar de Paris com a mesma familiaridade com que falam dos jardins. Mas, quando o assunto é o trato com outros seres humanos, deixam cair as máscaras e revelam toda a vulgaridade de suas almas.
Aquela senhora, de fato, se sentia acima do bem e do mal. Ela queria o leite, e fez malabarismo para alcançá-lo, mas abaixar para recolher o estrago que havia causado, ou solicitar ajuda, estava fora de cogitação. O mundo que se dane, afinal, ela tem mais o que fazer. Se precisar parar em fila dupla para pegar o filho na escola, por que não? A multa nem é tão cara assim. Furar fila? Qual o problema? O importante é não perder tempo com coisas e pessoas pequenas. Olhar nos olhos dos garçons que a serve nos mais sofisticados restaurantes da cidade, ou dos garotos que vêm pedir um troco depois de brincar com bolinhas de tênis no sinal, nem pensar. Obrigada e por favor são palavras usadas com cada vez menos freqüência. Pedir, jamais. O negócio é mandar. Afinal, por ter mais dinheiro, você é, naturalmente, uma pessoa melhor do que aquelas que têm menos. O raciocínio é bastante simples e natural.
Foi então que eu, agora também enfurecida, resolvi responder na mesma dose de vulgaridade a pergunta retórica que ela havia feito – afinal, também faço parte dessa elite cafona:
- E por que a senhora não vai cuidar do seu cabelo?
Satisfeita com minha mal-criação, esfreguei as mãos e bati em retirada, deixando para trás, e sem palavras, nossa sofisticada protagonista.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 21h50
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A Revolução Inercial

De Henrique Szklo

Se tem uma coisa que eu não canso é de dizer que não gosto de trabalhar. Não é de hoje que eu assumo de público ser um coçahólic convicto. A despeito de toda pressão social que recebo, continuo firme na minha inércia. Daqui eu não saio, daqui ninguém me tira. Se por um lado me falta vontade de trabalhar, por outro me sobra tempo para pensar. E já que me enchem tanto o saco por eu ser assim tão feliz, decidi utilizar este tempo mental para buscar soluções práticas que resolvessem o problema da humanidade, ou seja, dar um fim definitivo ao nosso maior e mais impiedoso inimigo: o trabalho.

Não há quem não odeie trabalhar. Os que dizem o contrário ou são mentirosos covardes (têm medo de serem execrados pelos outros) ou são muito bem pagos para se dizerem felizes e satisfeitos. Mas cá entre nós, todo mundo sabe que trabalhar é uma merda. A gente só trabalha porque precisa. Esse pensamento neoliberal de que é preciso ser trabalhador, eficiente, pró-ativo, preparado, seguro, ter boas relações com a equipe, desenvolver o espírito de liderança, etc, etc, etc já deu no saco, não deu? Pois então, vamos nos concentrar em resolver este problema da forma mais confortável possível, sem dar muito trabalho pra ninguém.

Entre uma coçada e outra, tive algumas idéias interessantes que gostaria de compartilhar com vocês. Partindo-se do princípio de que não podemos simplesmente parar de trabalhar, pois todo o planeta está aprisionado neste modelo econômico nefando, que faz com que se um simples dia de paralisação de toda a mão-de-obra causaria uma tragédia sem precedentes, as minhas idéias buscam soluções que permitam a sobrevivência de toda a raça humana. Fazer o quê? A gente até poderia aproveitar e fazer um expurgo, mas daria muito trabalho, então vamos poupar todo mundo.

Aqui vão alguns esboços do que considero os primeiros, tímidos e hesitantes passos rumo ao futuro da humanidade, um novo marco histórico, uma nova era de ausência de total conquistas e não-realizações: a Revolução Inercial.
Primeira pergunta que se faz necessária: o que o ser humano quer? Qual a sua maior ambição? A resposta é obvia: não fazer nada. Ficar de papo pro ar olhando a vida passar. Esse é o paraíso humano. Esta é a verdadeira felicidade. O santo graal. Pois bem, e como a Revolução Inercial logrará atingir este ambicioso objetivo? Aqui vão algumas idéias para servirem de reflexão a toda a sociedade:

1) Tentar implementar o verdadeiro sistema socialista em todo o mundo, que consistiria no seguinte: todo mundo teria direito a moradia, transporte, educação, saúde, alimentação, lazer. Tudo em partes iguais. Quem quisesse trabalhar que trabalhasse, problema dele. Não faria diferença nenhuma em seu padrão de vida. Serviria apenas para mostrar como algumas pessoas são idiotas;

2) A sociedade moderna está quase que totalmente informatizada. Que tal então treinar alguns animais para realizarem o trabalho por nós. Os treinadores de animais conseguem cada coisa genial hoje em dia que não seria difícil manter tudo funcionando nas mãos, ou patas, de nossos amigos bichinhos. Ou você acha que macacos não dariam contade manter funcionando , por exemplo, o nosso Congresso? Com algumas vantagens sobre os atuais ocupantes, sem dúvidas. Tenho certeza de que papagaios bem preparados manteriam a excelência de atendimento das empresas telefônicas e pitbulls administrariam bancos e financeiras com surpreendente desempenho, já que estão sempre babando para tascar uma mordida em quem aparece na sua frente. As moscas poderiam cuidar de nosso sistema de saúde e de ensino, quer dizer, isso elas já fazem hoje... tudo bem, nenhum sistema é perfeito;

3) A mais ambiciosa e perigosa idéia. Porém, a que daria melhores e mais satisfatórios resultados. O mundo todo deveria se reunir para revitalizar as viagens espaciais. Lançar batedores por toda a galáxia a procura de outros planetas com vida. Ao encontrarmos, porque certamente existe vida em outros planetas, nós os escravizaríamos e os faríamos trabalhar por nós. Não é sensacional? Devo confessar que esta idéia não é exatamente nova, já que o ser humano vem fazendo isso desde que o mundo é mundo. A diferença é que a minha idéia tem cunho humanista, já que nenhum ser humano seria escravo de outro. Só alienígenas. E quem liga para alienígenas?

Bem, espero ter despertado em vocês a pequena e tímida chama da preguiça, fechando todo um mundo de possibilidades em suas cabeças, incutindo em seus corações o vírus da Revolução Inercial. E como eu não sou dono da verdade (e porque também dá muita preguiça pensar) fiquem a vontade para sugerir novas maneiras de se implementar esta nova era da existência humana. E preparem o hypoglós.

Henrique escreve no Blônicas e acha que é muita coisa.
Visite seu
site, o blog da mãe, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 17h11
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Zelador.

De Tati Bernardi.

No domingo veio o Gustavo. Esse eu confesso que não é o que se pode chamar de irmãozinho, ainda que a gente já tenha tomado muitos banhos juntos. Mas olha, seu Zé, que menino mais fofo: veio me trazer um presente. Uma luminária super bonita, dessas de chão. Você não acha que ele mereceu aquele beijo que eu dei nele no elevador? Eu sei que o senhor viu, sei bem. E sei também que o senhor viu que não foi bem um beijinho inocente. Mas ele não merece? Um presente bacana desses, veja só! O senhor entende, né?
Na terça tava um silêncio danado na rua, a maior paz. E eu sei que acordei o senhor. O senhor tava lá dormindo escondidinho na guarita, não tava? E eu no interfone desesperada pra subir logo. Mas o senhor logo entendeu meu desespero, não foi? Não vou enganar o senhor não, pra esse eu dei mais do que um beijo safado no elevador e uma mordiscana irmã no braço. Pra esse eu dei banho e fiz até torrada no café da manhã. O senhor viu como ele era bonito? Nossa. Ah, o senhor reparou também que ele é bem mais novo do que eu? Caramba, seu Zé, mas tá tão na cara assim? Só porque ele usa o moletom da faculdade? Aliás, que moletom mais cheiroso, seu Zé. Que será que tá acontecendo comigo, heim? Ando muito a fim desses garotinhos que ligam pra avisar a mãe que não vão voltar. Será que é a crise dos 30, Zé? Ou será que já que o cérebro de um de 20 é o mesmo que o de um de 50, então pelo menos vamos ficar com o melhor desempenho na corrida dos 100 metros rasos? Essa vida viu, Zé. Pode ser b
oa que é uma coisa. Já chorei muito, já doeu muito esse coração. Mas agora tô, ó, tá vendo? De pedra. Uma tora. Um macho.
Na quarta eu não vi o senhor, mas será que o senhor me viu chegando cedinho, com o dia amanhecendo? Balada, Zé. E da boa. Sabe quem tava lá? Esse mesmo. Ele que veio me trazer, o senhor não viu? Ah, o senhor viu? Que vergonha. Eu tava meio caindo pelas beiradas não era? Era sono. Tá, um pouco disso e um pouco daquilo também, mas basicamente sono. O senhor não viu ele indo embora? Então somos dois. Mas vou confessar pro senhor: adoro quando eles vão embora sem me dar nenhum trabalho.
Se eu cobro? Que é isso, seu Zé! Tá louco? Sou menina de família! Escritora, publicitária e a espera de um grande amor. Mas to me divertindo, ué. Não é isso que mandam a gente fazer? Quando a gente chora e escreve aquele monte de poesia profunda. Quando a gente se apaixona e tudo mais e enche o saco dos amigos com aquela melação toda. Não fica todo mundo dizendo pra gente parar de tanto drama e se divertir? Poxa, to só obedecendo todo mundo.
Não é isso que todo mundo acha super divertido? Beber e fumar, e beber, e fazer sexo sem amor, e beber e fumar e dançar e chegar tarde e envelhecer e não sentir nada? Sabe Zé, no começo doeu não sentir nada. Mas eu consegui. Eu não sinto nada. Nada. Uns vem, uns vão. As garrafas tão lá, ao lado do lixo. As cinzas saem dançando por aí. As minhas vão junto. No dia seguinte eu acordo, tomo um banho, passo protetor solar, sento na minha varanda com o meu jornalzinho e ó: nada. Nadinha. Nem pena do mundo eu consigo mais sentir. Minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém acolhia ela. Todo mundo só abusava dela. Agora ninguém mais abusa da minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. Já era, Zé. É isso que chamam de ser esperto? Nossa, então eu sou uma ninja. Bate aqui no meu peito, Zé? Sentiu o barulho de granito? Quebrou o braço, Zé? Desculpa.
Mas hoje é quinta, hoje tem visita. Hoje tem risada alta, tem festinha, tem maquiagem e música. O senhor promete que não me julga, Zé? Eu sei que você se atrapalha, liga aqui pra cima e fica até mudo. São tantos nomes, não é? Mas é só fazer que nem eu: chama todo mundo de “o outro”. Todos são outros. Porque o de verdade, Zé, o de verdade não existe. A gente chora, escreve lá umas poesias profundas, chora, mas um dia a gente acorda e descobre que esse aí não existe não.
Amanhã é sexta, um novo dia. Um novo outro qualquer. Eu queria te dizer que eu sinto muito, Zé. Mas eu não posso te dizer isso porque a verdade é que eu não sinto mais nada. Nadinha, Zé.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 19h19
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Perfeição.

De Leo Jaime.

Há no amor que se descobre um encantamento. Cruzaram os olhos e já se amavam. Dois mais dois já eram quatro antes da invenção da aritmética, e os dois já se amavam muito antes de se encontrarem e perceberem isso. Juízo sintético a priori, sejamos gratos ao Kant, é o que nos explica o amor à primeira vista. Este é o encanto: perceber naquela pessoa, um universo inexplorado, a própria casa. O amor só é amor se for uma forma doce de loucura, se for irracional e incondicional, se for eterno.

Fala-se, atualmente, muito em relacionamento e pouco em amor. Já não há quem se mate por amor. Sim, ninguém jamais matou por amor. Mata-se por ódio e ignorância, e ódio é uma forma doente de amor mas não é nem o oposto de amor; este seria o desamor. Por amor não é possível matar, mas morrer.
Morria-se de tristeza, de dor, da falta do amor, da impossibilidade do amor, da perda do amor. Morria-se de amor porque não se pode viver sem ele, uma vez que seu corpo e alma estão preenchidos e dominados pelo sentimento. Hoje o assunto é relacionamento. É mais importante ter um relacionamento que um amor.

O amor, evidente, em uma de suas formas, pode prescindir do relacionamento.
Platão deu conta disso. O amor altruísta que torce e ajuda a felicidade do outro sem nunca se impor, sem nunca se oferecer, sem nada esperar. Acontece.
Há o amor pelas coisas, pelos bichos, pelas emoções, mas nada supera o amor que há entre um homem e uma mulher. Ou entre casais de qualquer tipo, posso vislumbrar, uma vez que o desejo é acessório ao amor.

A diferença é simples, o amor é inexplicável e não se planta onde se quer, ele nasce e existe alheio aos nossos planos. O relacionamento é fruto do resultado de nossas experiências, em destaque a última: se tivemos alguém que era temperamental fazemos questão de alguém que seja calmo, por creditarmos o fim do relacionamento ao gênio desmedido. Isso é apenas um exemplo entre milhões possíveis. O relacionamento é uma forma e não um conteúdo, é um conjunto de regras e de negociações que podem ser positivas ou não. O relacionamento existe quando existe o amor, mas as regras, neste caso, são resolvidas com ética, ou seja, cada um sabe como deve se portar tendo como parâmetro o belo, o ideal,  a longevidade e grandeza do amor que o motiva. Relacionamento é a estrutura social.Por isso muitos relacionamentos começam e às vezes acabam sem que o amor lhes faça visita.
Estar com alguém é aprender algo sobre o amor, mesmo quando não seja amor. É educação sentimental. É quando a pessoa ensaia, se prepara para o que pode vir.

É triste admitir, mas podemos passar uma vida sem que a flecha do cupido nos acerte. É bem recomendável que estejamos no nosso caminho, fazendo o que nos dá prazer, cumprindo nossas missões diárias, e não procurando por ele feito doido nas baladas noturnas, no baile dos desesperados. A flecha o acha se você estiver na sua. Mas pode não achar. Ainda assim valerá ter se preparado para ele como quem se arruma para uma festa. Muito melhor do que passar a vida sem nem sonhar com o amor.

Mas, voltando ao início, há no amor um encantamento. E o relacionamento é sempre o culpado quando esse encantamento se quebra. A dificuldade em se permitir falível ou aceitar as falhas e limitações do outro acabam por nublar tudo com a perspectiva da decepção ou com as vozes ganhando volume por motivos fúteis. Sim, há diferenças. E dar um voto especial, amoroso e indefeso, de confiança quando o outro está aparentemente errado é fundamental. Mas não é assim que lidamos em relacionamentos comuns! No amor, se há um embate os dois perdem. Não importa quem está certo ou errado. No entanto, se os dois percebem um problema, não importa quem o tenha trazido, e os dois com cumplicidade o superam, a união e a força se apresentam e isso é fruto e resultado do amor.

Vencer é muito mais difícil que perder. Cansa mais e dá mais trabalho. Ser feliz é muito mais cansativo do que ser triste! E é esquisito, uma vez que relacionamentos difíceis e infelicidade moderada são a condição, o estado basal de quem não tem um verdadeiro amor.

O amor não exige que você seja perfeito. Apenas que você dê o seu melhor.

Essa é a forma, diária, de alimentar o encantamento. É só aproveitar bem o dia. A chance.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h19
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Vice-versa.

De Nelson Botter.

A vida é toda ao contrário, mesmo.

Luana sempre me disse que deveríamos pegar um texto e lê-lo de cabo a rabo, revirá-lo até descobrirmos sua essência, se é que existe alguma, se é que existe um fim digno, uma vida que se preze.

Tem texto que não tem alma e este pode ser mais um deles.

E daí?

O que realmente importa é o que sentimos quando lemos um texto, e isso aprendi desde pequeno, quando meu pai vinha aos finais de semana me buscar na minha mãe.

Sua casa era uma verdadeira biblioteca.

Meu pai era um grande homem e me ensinou grandes coisas, até uma grande doença derrubá-lo, como em qualquer grande história impressa em papel barato, com capa mole e tudo.

Se algo não faz sentido aparente, procure no óbvio.

E quando Luana se aproximou de mim na sacada do apartamento, sorrindo e me mostrando a bela noite paulistana, cheia de antenas coloridas e luzes de diferentes formas - contrastando com a falta de estrelas - eu deveria ter notado.

Ela queria ser mais uma daquelas luzes.

Não sei bem explicar, mas num momento de distração vi meus olhos apontados para alguma direção qualquer e logo em seguida lá estava Luana, em cima da grade da sacada, pronta para o salto, me enchendo de terror.

Hoje, quando me lembro daquela noite em que Luana me deixou para sempre, penso no que eu poderia ter feito de diferente, como aquela história poderia ter sido outra e não encontro solução, afinal não há máquina do tempo que solucione ou mude o que deve ser.

O que tem que ser sempre será, mesmo que você consiga um salto quântico no tempo, certas coisas mudam sua ordem, seu sentido, mas o final será sempre o mesmo.

Neste exato momento, enquanto escrevo este bilhete suicida, me lembro do meu pai e suas sábias palavras: “Se quiser mudar algo, meu filho, não deixe nem que o processo comece...”.

Eis o grande truque, mesmo quando viramos tudo ao contrário, mesmo quando tentamos fazer tudo ao inverso, se o processo começou, não há como mudar.

Morro ciente de que é um caminho sem volta e, ainda que você leia os parágrafos deste bilhete suicida ao contrário, de baixo para cima, meu fim será o mesmo.

A vida é toda ao contrário, mesmo.

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h29
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O furto.

De Milly Lacombe.

Quando eu tinha uns seis, sete anos, lembro que fui com minha mãe à farmácia perto de casa. Enquanto ela comprava remédios, eu, desassistida, achei que seria divertido furtar coisinhas que estavam ao alcance de minhas pequenas mãos. Peguei algumas canetas, que estavam ali sabe-se lá por que, chicletes e coloquei o material tungado em meus bolsinhos. Ao entrarmos no carro, tirei o saldo do bolso e joguei tudo sobre o painel (anos 70, quando crianças ainda andavam no banco da frente). Orgulhosa da estrepulia, mostrei tudo à minha mãe. Ela, sempre muito esperta e capaz de voltar para casa com boa parte do couvert do restaurante na bolsa, reagiu de forma estranha. Nem riu, nem passou a mão em minha cabeça em sinal de aprovação. Inclinou-se em minha direção, abriu a porta do carro e mandou que eu saísse: “Entre na farmácia novamente, devolva tudo isso e peça desculpas pelo furto”.  As palavras soaram como uma sentença de morte. Não havia, em meu minúsculo mundo, nenhuma chance de me submeter a tamanho constrangimento. Comecei imediatamente a chorar e a implorar que ela me deixasse ficar com o saldo porque eu jamais faria novamente. Como ela parecia muito resistente, tentei negociar que então entrasse ela na farmácia. Eu jurava por tudo que não repetiria o gesto. Mas a matriarca se mostrava decidida. Nem fazia menção de colocar as mãos na chave e dar a partida. “Não sairemos daqui enquanto você não entrar na farmácia e devolver o que furtou”. Depois de uma eternidade, minha pessoinha de seis anos, moralmente em farrapos, voltou sozinha à farmácia, chamou o moço e pediu, gaguejante, desculpas pelo furto. De volta ao carro, eu já não era mais a criança que um dia fui. Naquele dia, aprendi um pouco sobre certo e errado.
Eu não acredito em Deus - pelo menos não nesse Deus punitivo e intervencionista vendido pelos cristãos - não rezo, não vou à Igreja, não faço o sinal da cruz, não leio a Bíblia (embora, para fins de diversão, visite regularmente o Gênese), não peço favores ao divino, nem espero dele recompensas. Ainda assim, quase que por milagre, consigo distiguir certo e errado.
Consigo, por exemplo, entender que o tal Rabino pop e ecumênico errou ao surrupiar gravatas de grife de uma loja em Miami. Consigo entender que todas as desculpas agora dadas para justificar o bestial erro fazem parte desse manto de hipocrisia que nos cega. Fosse o tal Rabino um negro, uma dona-de-casa, ou apenas um anônimo filho de Deus a meter a mão nessas mercadorias, não haveria bondade humana interessada em desculpá-lo. Mas, como se trata de um homem religioso, alguma explicação extra-terrena deve haver para que ele tenha, em surto, cometido o ato.
A mulher que rouba leite no supermercado para alimentar o filho é presa em flagrante, jogada numa cela e ignorada por todos. O Rabino que rouba gravatas de marca em Miami para se vestir melhor está por aí culpando forças ocultas e superdosagens de antidepressivos pelo equívoco, enquanto continua paparicado. A mulher do supermercado não estudou, não teve oportunidades na vida e, orientada pelo mais natural estado de necessidade, comete o furto. O homem culto, representante de Deus na Terra, mesmo sem a atenuante do estado de necessidade, consegue convencer a opinião pública que fez aquilo porque estava dopado. E a opinião pública, eternamente complascente com nossos sacerdotes, por pior que seja o crime, finge acreditar.  Assim, o jogo da hipocrisia é perpetuado.
Fica tudo certo, o furto do Rabino será esquecido e ele, rapidamente, falará com propriedade, diretamente de seu altar, sobre o que é certo e o que é errado. Não reconhecerá que foi ele, e apenas ele, que cometeu o delito, e ficará escondido atrás desse ser estranho, movido por superdosagens de antidepressivos, capaz de cometer erros boçais.
Enquanto o rabino passa pela vida protegido e desculpado por sua suposta divindade, a mulher que furta leite no supermercado está presa, ignorada pelos representantes de Deus na terra, mais preocupados em incrementar seus sofisticados guarda-roupas. Se houver mesmo essa tal justiça divina, num lugar longe daqui, todos os papéis serão invertidos. E, aí sim, a brincadeira vai ficar divertida.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 20h36
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Vai lemão!

De Tati Bernardi.

É errado ter um programa idiota na televisão que arrecada mais dinheiro (da audiência, dos intervalos, dos “merchans”…) que qualquer programa educativo, informativo ou socioambiental? É.
É errado pensar que o Zé pode não ter dinheiro suficiente para o arroz, mas gasta lá seu mísero dinheirinho suado numa ligação para votar no BBB 7? Opa se é.
E ficar vendo o alemão ensinar um argentino a falar “posso te encoxar” enquanto o mundo se esvai em violência, caos nos aeroportos e aquecimento? Erradíssimo.
Mas sabe o quê? Por isso é que é tão bom. Porque é errado. Porque está todo mundo com o saco cheio do que é certo. Porque está todo mundo com o saco cheio de ser certo se o mundo é tão errado. Viva o alemão!
Na próxima noite de terça eu não saio de casa nem que o Clive Owen queira me levar ao DOM (tem tv no DOM?). Torcer pelo alemão, ainda que seja óbvia a sua vitória esmagadora, me anima mais que a Copa do Mundo, o Manhattan Connection (o Mainardi não gosta de música!) , o novo filme do Woody Allen, a nova Piauí (muita coisa pra ler, né?) ou qualquer visita de um macho alpha de primeiríssima linha (dá pro macho alpha chegar depois que acabar o programa?).
Sim, é errado torcer assim por um bombado com sotaque de paulista “forgado” e que nos presenteou com nada mais, nada menos, que banalidade: a velha fórmula de gostar da mocinha do interior difícil e apenas “usar” a urbaninha que vai lá e faz o que está com vontade de fazer. Ainda assim, terça que vem vou estar colada na tv, torcendo pelo meu querido Diego.
É errado perder tempo com um programa que paga uma torcida falsa, explora a população e em troca não dá nenhum segundo de conteúdo inteligente. Mas eu fico me perguntando, então, o que seria o certo. Continuar aqui lendo o meu Sartre e com vontade de cortar os pulsos? Continuar todas as manhãs lendo o meu jornal e me dizendo em mantra “mundo de merda, mundo de merda, mundo de merda”? Os jovens já morreram por dias melhores, em que os trabalhadores chegariam ao poder. Adiantou? Agora fica essa sensação de que não tem mais nada pra fazer. Aliás, tem: torcer pelo alemão.
Que bom que existe banalidade. Que bom que eu posso ter um dia de merda entre trânsitos, enchentes, ar podre, chefes escrotos, homens fracos, mais notícias de balas perdidas, colegas de trabalho falsos, pagamentos atrasados, trombadinhas de rádio (é o quinto que me roubam em menos de um ano), novas estrias, vizinhos folgados, parentes malucos e… chegar em casa e ver o alemão passando perfume no pinto. O alemão dizendo que vai pegar um por um. O alemão malhando de sunga branca. O alemão dizendo que fez o que o pai dele ensinou. O alemão dormindo de conchinha. Vai lemão!
O Diego exerce em mim o mesmo poder de uma promoção de sapatos. Não é a coisa mais importante da minha vida, é um prazer fugaz, não vai me tornar uma pessoa melhor, mas como me relaxa e me faz feliz naquele curto espaço de tempo. E ser feliz em um curto espaço de tempo já é muita coisa nessa nossa vidazinha chata, não?
Vai Diego! Vai Lemão! Sim, é muito errado torcer para você, mas a vida é errada mesmo. É errada essa casa toda bagunçada e a lasanha fedendo lá na pia suja. É errado ficar recebendo essas visitas aqui, de pessoas que só querem levar pedaços da minha alma mas não me dão em troca sequer um grãozinho de coração. É errado inventar paixões semanais só para não encarar que tudo ficou sério e adulto e chato pra cacete. É errado ter 345 projetos para entregar amanhã e nenhuma idéia de como começar.
É tudo tão errado. Aqui dentro da minha casa, aqui dentro do meu peito. E lá fora, no mundo, vixi, nem se fala. É tudo tão chato, tão fraco, tão pouco.
Mas o alemão é forte, é engraçado e agora tem um milhão de reais. Ele deu certo! Ele eliminou mal humorado por mal humorado com seu bom humor. Ele pega a mulher que quiser. Ele seduz até os inimigos. Ele deu porrada em alguém lá no Guaruja, mas eu aposto que esse cara que apanhou adora ele. Ele dormia com duas mulheres e isso pegava bem. Inclusive para elas. Ele falou que ia abaixar a calcinha da Carol e ela não mandou ele para o paredão. Preferiu mandar o outro que estava apaixonado por ela, mas jamais o alemão. E sabe qual é a fórmula para o Brasil amar tanto uma pessoa que nem parece brasileira? Ele é feliz.
No fundo, mesmo lendo tanto, pensando tanto e filosofando tanto, a gente gosta mesmo é de quem é simples e feliz. A gente não se apaixona por ninguém que vive reclamando e amassando jornais contra a parede. A gente se apaixona por esses tipinhos banais que vivem rindo. E a gente se pergunta: que é que ele tem que brilha tanto? Que é que ele tem que quando chega ofusca todo o resto? Como é que dá pra ser feliz nesse mundo?
Vence quem passa por essa vida rindo. E se o preço que se paga por ser um pouco feliz é ser um pouco idiota, dane-se. Eu vou ser bem idiota na terça-feira. Se bobear vou até dar uns “dois real” pro Boninho. Tadinho, deve estar precisando. Lemão! Lemão! Lemão! Vai lemãããão!!!!
(Mas se um dia ele for trabalhar no Zorra Total nego até a morte que escrevi esse texto em sua defesa.)

Tati Bernardi, colunista do Blônicas, assume que gosta do alemão, mas em troca você compra o livro dela "A mulher que não prestava". Compraaaa!!!

Escrito por Blônicas às 20h33
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