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Vamos processar Roberto Carlos.

De Marcelino Freire.

Ele, sim, sempre invadiu a nossa privacidade. A nossa casa, no Natal. E no final de ano.

Invadiu o nosso quarto. O nosso motel. O carro e o rádio, etc. e tal. A nossa estrada de Santos.

Foi ele quem tomou conta das nossas emoções! E do coração das nossas mães. E das orações. Só para Nossa Senhora.

Foi ele quem encheu de Jesus Cristo o nosso juízo, ora. Haja corais e novenas. Catequizou os pobres. E nobres, amém!

Fez sertanejo e rap. Reggae e rock. Soltou a voz em todos os gêneros. Abusou das gordas e das baleias, como ninguém.

Das mulheres baixinhas e das mulheres feias. Loiras e morenas. Brotas e de quarenta.

Aproveitou-se de nossas doenças. Ecológicas. Repito: religiosas e amorosas. Da própria amada morta fez a nossa pena.

Choramos juntos e comovidos a sua solidão. A sua saudade e a sua dor. Foi o povo quem pagou. Com amor, sempre o embrulhou para presente.

Censurar nunca censurou. A sua superstição. O seu terno branco. Os seus amigos do peito. Seu cabelo de leão. Na Rede Globo de Televisão.

E agora, por quê? Quero entender o que ele fez. O que deu na cabeça do Rei? Que injusto! Proibir o livro de Paulo César Araújo. Sobretudo, seu fã.

Que, mais do que nunca, cantará, em tudo que é lugar, para Roberto Carlos ouvir, toda manhã:

Meu bem, meu bem
Você tem que acreditar em mim
Ninguém pode destruir assim
Um grande amor

Não dê ouvidos à maldade alheia
E creia
Sua estupidez não lhe deixa ver
Que eu te amo

Meu bem
Use a inteligência uma vez só
Quantos idiotas vivem só
Sem ter amor

[...]

Quantas vezes eu tentei falar
Que no mundo não há mais lugar
Pra quem toma decisões na vida
Sem pensar

[...]

Meu bem
Sua incompreensão já é demais
Nunca vi alguém tão incapaz
De compreender
Que o meu amor é bem maior que tudo
Que existe

Mas sua estupidez não lhe deixa ver
Que eu te amo
Que eu te amo

Meu bem, eu te amo

EM TEMPO: E nesta segunda, dia 4 de junho, às 19 horas, na Livraria da Vila da Lorena, começa o projeto “Prosa na Vila”, sob mediação do escritor Suênio Campos de Lucena. O primeiro convidado é exatamente Paulo Cesar de Araújo, autor da recente e censurada biografia “Roberto Carlos em Detalhes” (Editora Planeta).

Marcelino Freire é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h46
[]


10 erros do cinema nacional.

De Lusa Silvestre.

1 ­ Mulher Pelada:
Hoje está todo mundo vestido. Isso vai contra a nossa cultura. O cinema
nacional sempre mostrou a mulherada das novelas peladas, quase sempre antes
das revistas masculinas. E melhor: em movimento.

2 ­ Cenas no meio da caatinga:
Quer coisa mais brazuca que um tiroteio entre cangaceiros e a poliça? O
máximo que aparece hoje é a Fernanda Montenegro procurando gente no sertão
pra entregar carta. Desarmada.

3 ­ Roteiros do Nélson Rodrigues:
Eram diversão garantida. Sempre histórias cabeludas, e trazendo mulheres
loucas pra mostrar um peitinho pro primeiro primo disponível.

4 ­ Perseguições de Dodge e Opala:
As perseguições de Hollywood eram em San Francisco. As nossas, na 23 de
maio. Agora, pra rever aqueles Dodjões cor de sopa de cenoura, só mesmo indo
no pátio do Detran.

5 ­ Fotografia:
Bons tempos quando o filme parecia ter sido revelado num vidro de cândida.
Atualmente, estão até retocando cor na pós produção. É o mesmo que tirar o
verde da Amazônia.

6 ­ Palavrões:
Justiça seja feita: eles ainda são ouvidos. Mas sempre fazendo parte do
contexto. Não pode: cinema nacional é palavrão gratuito. De preferência,
fora de sincronia. Eu te amo, porra !

7 ­ Trilha Sonora:
Gilliard, Bartô Galeno, Magal, Perla, quanta gente boa já cantou nos nossos
cinemas. Pra esses caras voltarem pra telona, só se a Marisa Monte regravar.

8 ­ Aberturas:
Cinema brasileiro é libertário, é revolução, é Glauber. É abertura de filme
com cartolina e canetinha. Necas de computador, design, etc. Isso tudo é
coisa de povo aculturado.

9 ­ Títulos dos Filmes:
Virou moda batizar um filme pensando na versão pro mercado americano. E por
causa disso, perde-se todo o humor brasileiro. Como traduzir sutilezas de
sentido dúbio como Baralho e Tênis ?

10 ­ Lucélia Santos:
Cadê a Lucélia Santos, que tantas alegrias nos deu em filmes como
"Engraçadinha" ou "Bonitinha mas Ordinária"? A nova geração só vai lembrar
da Lucélia como Escrava Isaura. Que além de chata pacas, se vestia até o
pescoço.

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas e garimpa no cinema nacional.

Escrito por Blônicas às 10h24
[]


Um grande problema pequeno.

De Milly Lacombe.

Acordei com vontade de escrever sobre embalagens. Acho que existe aí um problema que é muito sério e pouco comentado, divulgado ou debatido. Um problema que certamente já chegou até você, numa tarde qualquer de sábado, por exemplo, enquanto comia singelamente um recheado hamburguer. Como se não bastasse toda a silenciosa culpa calórica que acompanha o ato, um perrengue ainda maior insiste em se fazer presente toda vez que me entrego à indulgência: Quem foi o gênio que pensou, aprovou e industrializou os diabólicos saquinhos plásticos de catchup, mostarda e maionese? Quem consegue, com as mãos já agasalhando o sanduíche, abrir um desses troços sem se irritar? Você já viu a cena: o sujeito segura o sanduíche com uma das mãos e, com a outra, alcança do odioso saquinho. Aí, com a boca (ato altamente reprovado por qualquer dentista) tenta fazer um rasgo na embalagem. Todo torto, nosso herói, depois de alguns minutos, finalmente fura o plástico e cospe longe o pequeno pedaço que ficou em sua boca – nem vamos falar da falta de sofisticação à qual somos obrigados a nos submeter.
Mas o drama não acabou. Porque, na sequência, é hora de jogar a mostarda sobre o sanduíche. Só que a mostarda raramente segue a direção pretendida e pode, por exemplo, sair para cima, para os lados, para o seu colo ou, na melhor das hipóteses, rumo ao seu dedão. Trata-se de uma tarefa para budistas aposentados. Quem nunca deixou de colocar mostarda no cachorro-quente apenas porque o saquinho, concebido para nunca abrir, de fato cumpriu sua missão terrena?
Quem nunca perdeu as estribeiras diante de um pote fechado de azeitonas que teima em continuar fechado mesmo depois que você e suas mãos se esgotaram em esforços para arrancá-lo? Quem nunca soltou um estrondoso palavrão ao tirar, com todo o cuidado do mundo, aquele micro papel alumínio que lacra a embalagem dos sucos e ver parte do conteúdo espirrar na mesa, na sua camiseta nova, no jornal?  E nem me façam começar a escrever sobre a mãe de todas as embalagens burras: a do copinho d’água. Por que os geniais pensadores de embalagens não dão a devida atenção ao problema? Por que esses troços não evoluem?
Tudo isso ia passando pela minha cabeça até que fiz o que sempre faço aos domingos de manhã: me dediquei à leitura dos jornais. Depois de finalmente entender o que reivindicam os alunos da USP acampados no prédio da reitoria, fui passando pelo escândalo da consturora Gautama e conheci a mulher que há 50 anos espera a luz chegar a seu vilarejo. O que tem a mulher a ver com a Gautama e com a máquina estatal? Vejamos. Em época de eleição, a distinta senhora foi informada que a luz estava a caminho pela benção de um projeto federal chamado Luz Para Todos. Logo ela poderia, por exemplo, ver a novela sobre a qual suas primas em Teresina tanto falavam. Apesar de constar na lista de obras em andamento da Gautama, a construção na comunidade de nossa heroína nunca foi iniciada. Sem luz, no Piauí, famílias isoladas dos centos urbanos vivem como se estivessem no século 18, Por causa da falta de luz, a colheita do caju rende apenas a castanha. Com energia elétrica, a fruta poderia vivar suco, doce, sorvete. E esse é apenas um exemplo bobo.
Folhando o periódico, soube que dezenove trabalhadores de canaviais morreram de exaustão desde 2004. Uma gente que, diariamente, perde dez litros de água, percorre distâncias de dez quilômetros, dá 66 mil foiçadas numa jornada de trabalho que é de 12 horas. Tudo isso debaixo do sol para cumprir a meta de seus patrões, os usineiros, os mesmos que nosso presidente recentemente chamou de heróis. Esses trabalhadores morrem por esgotamento: câimbras provocam paradas cardíacas. Tudo isso estava escrito no jornal. A mim, só custou ler.
Com toda essa podridão moral, quem pode se preocupar com a funcionalidade das embalagens? Só mesmo uma imbecil como eu.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h13
[]


Versos X Versos.

De Tati Bernardi.

Ao lado do meu computador tem uma taça de vinho e uma água de coco em caixinha. Abro a página em branco e me pergunto: será que eu volto, ou deixo assim, como está? Será que quero voltar a me expor, ou deixo assim, no mistério? Adoro a escancarada e adoro a que faz as malas e some de vista. Adoro e detesto as duas.
Minha tv ligada em filme de sacanagem e meu ipod tocando Nina Simone. No chão tenho o jornal do dia e uma manchinha que não conto o que é. Nem a pau.
Esses drogados de merda, penso isso enquanto me pergunto: será mesmo que minha mão é feita de massinha? Esses homens cascas de merda, penso enquanto vou me despelando até não sobrar nada porque não sei exatamente o que sobra quando não estou atuando. Quando sou eu mesma, sou a melhor atriz que já conheci. Quando não penso sobre ser algo, merecia um Oscar.
Aí ele chega, tão lindo. E vai embora, tão feio. E liga, tão bobo. E some, tão especial. E eu morro, ainda que não ligue a mínima. E eu to nem aí, ainda que pense o tempo todo em não estar nem aí. E eu abro a porta, a perna, a alma. E quanto mais abro tudo, mais me fecho. E sigo intacta, ainda que toda esburacada. E tenho a plena certeza que cometo o maior erro do ano, ainda que eu não duvide que todos os acertos são mesmo feitos assim: quando a loucura nos vence de alguma forma.
E enquanto eu explico para o meu melhor amigo que o tipo mais grosso na ponta que afina pro meio, é o melhor, quero chorar porque o Dudu, o garotinho de dois anos com seu carrinho vermelho, me olha curioso. A pureza me destrói, por causa da sujeira. E a sujeira me destrói, por causa da pureza. Mas sigo inteira e peço pizza de chocolate com morango. Será que a minha mão é feita de massinha?
Depois, no dia seguinte, lá vem a ressaca. Sempre. Adoro minhas dancinhas e gracinhas e loucurinhas. Mas no dia seguinte acordo e me pergunto: por que é que você não faz cara de paisagem e permanece fina e permanece intocável? Por que é que você não consegue ser difícil, escrota e blasé? Adoro que a Grazi apareceu com seu vestido vermelho colante de couro por dez minutos e foi embora. Por que é que eu não vou embora?
Aí a música começa e quando vou ver já imitei o Michael Jackson, a Madonna e o Tiririca, porque adoro me trair e estragar tudo. E todo mundo ri, mas ninguém me leva a sério. Mas será que quero? Mas será que alguém leva alguma coisa a sério? Eu queria me levar menos a sério. E é isso que faço, quando faço a dança do macaco-galinha-caranguejo pulando cordas. Mas no final das contas, acabo chorando no carro depois de ganhar alguns minutos de cafuné no cabelo. Qual foi mesmo a última vez que alguém fez carinho em mim sem pedir nada em troca? Eu devia ser criança.
Um milhão de amigos e chorando sozinha no carro. Mas no meu ap de 40 metros quadrados só cabe eu mesma. Ainda bem. A coisa que eu menos queria era alguém aqui, agora, me vendo chorar porque não tem ninguém aqui, agora.
E aí o Dom Juan de saias dorme de pijama cor-de-rosa. Não peguei ninguém hoje mas ri bastante. E amanhã vou acordar num tremendo mau humor e morrendo de nojo das pessoas que falam “peguei alguém”. E amanhã vou querer acordar depois de dez anos ou há dez anos. E vou querer congelar na vida de agora, que acontece mais do que antes ou depois. E vou querer sair da gaiola da mesmice. E vou me perguntar de novo quando é que o efeito da droga que eu nunca experimentei vai passar. E vou ler esse texto que minha mão de massinha escreveu e querer me esconder ou nas dancinhas de macaco ou no pijama cor-de-rosa. Mas vou acabar publicando o que eu nunca deveria ter dito, como sempre.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Comprem seu livro "A mulher que não prestava" e façam uma mulher feliz. Ou não.

Escrito por Blônicas às 12h51
[]


Um texto polêmico

De Henrique Szklo

Estou carente, precisando chamar a atenção. Por isso decidi que escreveria um texto polêmico. Milhares de comentários no blog, a maioria insatisfeita, me xingando, me desqualificando, amaldiçoando a mim e as minhas próximas gerações, falando mal de minha mãe, de meus filhos e do meu cachorro, eu sei. Mas quem está carente não pode escolher. Tem de aceitar o que vier, contanto que venha. Mas como na maioria das coisas que eu faço, acho que não sei fazer direito. Imagine você, eu escrever um texto bem polêmico e ninguém se incomodar, ninguém querer me questionar, dizer que eu sou um idiota, um reacionário, um tolo, mal-informado, cafajeste. Não, não posso correr o risco de isso acontecer. Preciso de garantias. Preciso estar certo de ser execrado. Se você terminar este texto e não quiser cuspir na minha cara, eu terei falhado. Mais uma vez.
Porém, na contra-mão deste meu desejo de chamar a atenção tem a minha índole humanista que me impede de magoar alguém, pelo menos de caso pensado. Mas como é que eu vou causar polêmica sem magoar um punhado de gente? Eu quero chamar a atenção, mas eu quero que me amem, não que me odeiem. O que fazer, meu Deus?
Bem, a primeira idéia que me passou à cabeça foi consultar os especialistas na matéria para tentar absorver um pouco de suas experiências. Pensei primeiro na minha colega de Blônicas, a Milly Lacombe. Já falou mal do outro papa, da Igreja Católica, do Rogério Ceni e de mais uma porção de gente. No final achei melhor nem procurá-la. Vai que ela cisma de falar mal de mim.
Depois pensei no príncipe brasileiro das polêmicas, o Diogo Mainardi. Trabalhei alguns anos com o pai dele, descobri que ele estudou na mesma escola que meus filhos e também conheci o Caio Blinder (que compartilha com ele a bancada do programa Manhattan Connection). Mas o pai dele é um aloprado, a escola está falindo e o Caio ficou bestinha depois que ficou famoso, então não achei que meus canais seriam competentes para conseguir o contato.
A dura realidade é que eu teria que me virar sozinho. Mais uma vez. Vamos então analisar a situação. Para se gerar uma polêmica, basta você nadar contra a corrente. Escolher temas em que a grande maioria das pessoas já firmou posição em um dos lados da questão. Por exemplo: Papai Noel existe, Elvis está mesmo morto, existem políticos honestos, etc. Tá vendo? Nem para dar exemplos de temas polêmicos eu consigo. Mas vamos em frente. Vamos tentar. Não vamos desistir assim fácil.
Depois de refletir por dias e dias incontáveis, preparei uma lista de assuntos que eu acredito que me dariam uma audiência nada menos que extraordinária. Fiz a lista, mas não consegui desenvolver nenhum dos temas individualmente. Me faltou conteúdo. Foi aí que eu tomei a decisão que resolveu o meu problema. Se eu quero polemizar e garantir um debate acalorado e estimulante, vou usar a própria lista como tema. É como na roleta. Se você quer ganhar, não aposte tudo num número só. Divida suas fichas. Aqui vão as minhas:
- O Papa Bento XVI peida fedido (e fica cheirando dentro da batina)
- O Roberto Carlos dorme de meia (uma só)
- O José Serra passa himel nas olheiras
- Deus não é brasileiro e nunca veio aqui (acha que tem cobras e animais selvagens andando nas ruas)
- O George Bush tem pinto grande
- O Silvio Santos fez xixi nas calças quando era criança
- O Saddam Hussein era bom filho, bom pai e bom marido
- O Michael Jackson tem medo do escuro
- O Alemão do Big Brother não sabe qual é a Capital do Azerbaijão
- O Brad Pitt já broxou
- A Gisele Bundchen tem pêlo no nariz
- O Lula não sabe jogar xadrez
- O George Clooney arrota quando bebe Coca-Cola
- Quando a Monica Belucci vai ao banheiro, ninguém consegue entrar nos 15 minutos seguintes
- O Mac também dá pau
- O Tarcisio Meira já sentiu atração por outras mulheres
- O Marcelo D2 já experimentou leite
- A Ivete Sangalo tem CC
- O Evo Morales é mão de vaca
- O Osama Bin Laden não entende nada de futebol
- O Júnior (da Sandy) gosta de menininhas
- O Fernando Henrique já xingou alguém no trânsito
- O Faustão manda fazer furos extras em seus cintos (tanto no pessoal como no profissional)
- O Pânico na TV não é um programa confiável
- O Galvão Bueno colava nas provas
- A Rita Lee já ouviu pagode
- O Ronaldinho Gaúcho faz xixi e deixa a tampa da privada levantada
- A Fernanda Montenegro já pôs o dedo no nariz
- O William Bonner lê revistas de fofocas
- O Pelé já jogou papel no chão
- O Fidel Castro baixa músicas pela internet sem pagar
Bom, se você tiver mais algum tema explosivo para sugerir, fique a vontade. Mas não garanto que eu vá publicar. Este artigo provavelmente já vai me render uma quantidade de processos suficientes para uma vida. É, fazer o quê? Vida de polemista não é fácil.

Henrique escreve no Blônicas e está carente.
Visite seu
site, o blog da mãe, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 13h03
[]


Nós na fita.

De Antonio Prata.

O adesivo na Combi à frente dizia: “Não multa! Nóis tamu na luta!”. Ultrapassei a bendita, coloquei a cabeça pra fora e gritei, a plenos pulmões: “Mensalão! Mensalão!” O motorista me olhou perplexo, acelerou e sumiu -- não sem antes, por via das dúvidas, mandar lembranças à minha mãe. Não foi o primeiro patrício a estranhar minhas atitudes.

A coisa começou depois que Bob Jeff, ignorando a sábia lei que rege toda falcatrua  – a saber, Vaca Amarela --, botou a boca no trombone (e, logo, na panela). De lá pra cá virei uma CPI de um homem só, Taxi Driver do gogó: enfim, um chato a gritar aos quatro ventos nossos mensalões cotidianos. Logo que começou o escândalo, os jornais especulavam que mensalão podia ser mais amplo do que parecia. Gargalhadas. O mensalão está no pão nosso de cada dia, minha senhora!

O que era o adesivo da Combi senão mais um exemplo desse respeitadíssimo consenso nacional de que, se é para o nosso bem, a lei pode ser burlada? “Tamu na luta” significa: sou um cara legal, meus propósitos são bons: logo, posso passar no sinal vermelho, parar em cima da calçada e dirigir pelo acostamento sem ser multado.

Vou ao espaço Unibancool de Cinema. Aquele pessoal de aros grossos e fina estampa chega, olha a fila e vai logo pra frente, ver se conhece alguém e consegue um pequeno favorecimento na concorrência. “Mensalão! Mensalão!” (Diante dos meus gritos, umas garotas de cabelo verde acham que é performance e aplaudem. O resto só me olha com o mesmo susto do motorista e vira seus All Stars pro outro lado).

Quantas pessoas eu não conheço, filhas da fina flor de nossas elites, que compraram suas cartas de motorista? “Mensalão! Mensalão!” E aqueles que têm TV à cabo pirata e ainda se defendem com um discursinho anti-capitalista de quinta, Robin Hoods dos jardins? Perto de São Paulo há cidadezinhas de quinze mil habitantes com mais empresas do que o Vale do Silício, todas paulistas, ali sediadas pra pagar menos impostos. Pagar multa, jamais: suborne o guarda. Fila dupla? Só um segundinho, enquanto eu vou pegar o meu filho ali na escola.

Quando Bob Jeff mandou a Vaca Amarela pastar, Lula disse que ia investigar as denúncias seriamente e que, se necessário, “cortaria da própria carne”. Na hora eu imaginei uma fila com todos os brasileiros, mergulhando igual o Tio Patinhas dentro de um enorme moedor de açougue. O que me tranqüiliza é que conheço muita gente e sempre conseguiria encontrar alguém na fila lá pra trás. Eu e meus amigos de aros grossos e fina estampa pularíamos por último. Mas pularíamos.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h08
[]


Olhos não se compram.

De Xico Sá.

 

Do cinema lindo & phoda de existir e de como uma mulher pode encantar nos detalhes de nós dois. Quando ela pede pra gente virar os olhos ou fechá-los bem fechados. Só enquanto troca a calcinha, vupt, o barulhinho do elástico, mesmo com toda intimidade desse mundo, às vezes intimidade de anos, vale, vale. Só enquanto troca o sutiã, biquíni, parte de cima, ajeita a parte de baixo, areia do doce balanço da beira dos mares, só enquanto tira uma toalha do banho, primeira viagem, só enquanto está lindamente menstruada e quer guardar-se, embora saiba que atravessamos com amor e gosto todo o seu mar vermelho e ainda mais mares aparecessem a cada mês. “Feche os olhos”, diz. “Vira o rosto”, safadeza-se, diva sob seguras telhas. Só para manter o suspense do cinesmascope debaixo do mesmo teto. “Pronto, pode olhar”. Ai ela ressurge mais linda ainda, cabelinhos molhados, com aqueles cremes todos da Lancôme ou com simples sabonetes Dove ou aqueles  de nove em cada dez estrelas de Hollywood, Lux, deluxe, eu morro nesses lapsos de tempo, elipses do desejo, frações de segundo que são eternas de olhos fechados para quem meus olhos na terra, que há de comê-los inté os aros dos óculos e as safenas, mais abriram e justificaram seu brilho castanho mesmo em dias de torpor e existência de pára-brisas lusco-fusco.

 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h44
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Manual contra vampiros.

De Nelson Botter.

 

Os livros de auto-ajuda consomem as prateleiras das livrarias como se fossem os vinhos mais nobres de uma conceituada enoteca. Capas vermelhas, azuis, laranjas, roxas, um verdadeiro festival de cores e letras redondas, estilosas, chamativas. O marketing lá repousa de cabo a rabo. E eu, curioso, procurando um manual, um “10 passos” disso ou daquilo, mais especificamente de como me defender de vampiros.

 

Os vampiros são criaturas fascinantes e sedutoras em livros de terror e em clássicos filmes B. Na vida real, perdem o charme, a elegância, o mistério e não passam de míseros sanguessugas. São chatos, invejosos e cuidam da vida de todos os outros, pois a deles é uma merda. É, estão condenados à bosta eterna. Batem suas asinhas em tudo quanto é canto, policiando as ações dos outros, loucos para acharem uma brecha e despejarem um pouquinho do caminhão de merda que levam consigo em suas moribundas existências. Sim, porque os vampiros reais não se alimentam de sangue, alimentam-se da cobiça e também do prazer ilusório de criticar os outros, assim sentem-se menos insignificantes em suas fantasias de mortos-vivos, patéticos defuntos desprezíveis e parasitosos.

 

Por isso, cago para eles.

 

E eles vêm correndo. Sempre famintos, com seus caninos marrons, loucos para morder um bom montinho efervecente de fezes. Se deliciam. Lambem os dedos. Chegam e disparam para todos os lados, acusando, julgando, sempre na pele dos bons donos da verdade. Se incomodam mortalmente com o que vai de encontro à sua limitada linha de pensamento. Moscas. Não sabem argumentar, sustentar um ponto-de-vista... querem atacar as pessoas, cuspir, morder a jugular, maldizer, difamar, mandar para a guilhotina. Uma revolução de hipocrisia. Atolam-se mais e mais.

 

O manual não existe nas prateleiras, não é vinho disponível para compra. Assim, concluo que cabe a cada um reagir da maneira que achar melhor e ponto final. Eles nunca morrerão mesmo, pois já estão do lado de lá. O alho, a cruz, a estaca, de nada servem, só alimentam mais esses pobres malandros.

 

Por isso, cago para eles.

 

E me divirto com a fúria, o sangue nos olhos, a força desmedida e a violência descabida. Mesmo não conhecendo nada de mim, não sabendo quem sou, onde ando, com quem vivo, em que lado da calçada estou, enfim, nada vezes nada, ainda assim querem me apedrejar, me difamar, me rotular, me vampirizar.

 

Queridos vampiros, vocês não servem para nada, apenas são rasa inspiração para uma crônica de qualidade um tanto duvidosa. Continuem patrulhando e perseguindo a quem lhes incomoda, pois os patrulhados e perseguidos não se incomodam.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h39
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Desperate house writers.

De Tati Bernardi.

Linda a combinação da camiseta de super homem com calça social. Ele tem cabelo moderninho daqueles que tornam o cafuné mais divertido e usa meia bonitas. Ele tem um cheiro bom daqueles que só melhoram conforme o perfume vai saindo. Testosterona jovial. Que homem se preocupa exatamente com as meias? O da minha vida, claro. Ele é o homem da minha vida. Mas ele tem só 19 anos e bebe mais que o Zeca Pagodinho! Dane-se. Essa boquinha pequena dele, com esse biquinho de mau humor, tem o tamanho certo para aquela minha outra boquinha sempre em crise. O ombro é largo e dá pra dormir uma tarde inteira alí. É ele. É ele. Ops. Ele acaba de falar que gosta mesmo é de balada no interior. Com os brothers. Lá as garotinhas são loucas pra descolar um urbaninho de Corsa. Droga. Achei que era dessa vez. Achou mesmo, sua louca? Um garoto de 19 anos que usa as meias que a mãe compra pra ele? Louca. Olha lá, olha lá! Amor das antigas pintando na área. Ele não passa um mês sem fazer contato com a nave mãe. No caso, eu. No caso a mulher mais desesperada que eu conheço pra ser mãe. Hormônios filhos da puta. Nem sei o que fazer com um bebê depois, nem quero fazer nada com ele. A não ser brincar um pouquinho, beijar a barrigona e depois largar ele lá na minha mãe e ir pegar o garoto da boquinha pequena. Só por uma noite. Uma noite já dá pra fazer um bebê? Fazer um bebê com outro bebê. Sua louca, maluca, depósito de hormônios enlouquecidamente solitários e inúteis. Olha lá o amor antigo pintando na área. Ele quer almoçar. Que graça esse cara vê em almoçar tanto comigo? Ele tem tesão em me ver largando tudo no prato? Nunca consigo comer direiro na presença dele. Não sei ao certo se por amor ou nojo. Tenho nojo de andar pra trás. O mesmo nojo que tenho de sequer pensar em sexo anal. Mas vivo andando pra trás e tenho certo tesão em retroceder. É como se a vida dissesse: “eita povo burro mas divertido”. Talvez um dia eu faça mesmo sexo anal. Talvez um dia eu conheça um homem que mereça me foder a luz do dia. E não sozinha, no meu choro baixinho embaixo das cobertas. Que você quer agora, heim tio? Ele diz que minha perna está grossa como nunca, depois diz que quer só um cafezinho e bater um papinho. E eu não vou não. Preguiça daquele gemidinho contido dele. Queria que ele berrasse. Queria que ele berrasse: casa logo comigo! Não vou mais te enrolar, coxuda! Casa logo comigooooooo! Ele é contido pra gostar, pra gozar, pra casar, pra cagar. Um dia ele explode. Tomara que nesse dia caia um pouco de dinheiro do céu. Pra alguma coisa alguém que só me enche há tantos anos tem que servir. Olha lá quem chegou. Abro a porta e ele fica meio sem graça. Ele sabe que veio aqui pra me pegar, eu sei que convidei ele pra ser pega. Mas a gente já conversou tanto sobre a fome humana e a guerra do horror, que nos vimos na obrigação de enrolar um pouco antes de virar animais. Ele mexe nos meus dvds e nos meus livros. Depois tá liberado mexer no pinto. A gente se ama tanto como amigo que beleza. É isso. So queria ser amada. Só isso. Precisa casar comigo não, precisa me angravidar não. Basta me olhar assim, basta morrer de rir comigo. Basta me ler, me decifrar, ser intenso nesse minuto. Vamos todos morrer meus amores, vamos então morrer sabendo que demos vida a alguém. Ele me dá vida e quando vai embora, tudo fica pequeno. Mas isso não é uma declaração de amor. É só porque ele tem coisas grandes, se é que vocês me entendem. Opa, olha de quem chegou um e-mail. De mais um super bom partido que partiu antes do pôr-do-sol. Não some não, Tati. Some não. Aí eu apareço. Peraí, Tati. Não aparece tanto não, não aparece tanto que daí sou eu que sumo. Aí eu viro mais uma idiota transparente e aí sim arrumo um namorado pra chamar de meu. Odeio essa expressão “pra chamar de seu”. Foda-se. Nem desapareço e nem apareço. Tampouco fico transparente porque não sou vaso decorativo daqueles que você bate palma e a florzinha dança. Eu apenas viro mais um fantasminha. Eu sei que apareço em muitos corredores no meio da noite. Bando de gente morna do cacete. Como diria Janis, I neeeeeed a man to loooove. Tá difícil, Joplin. Tá mais fácil essa dança maluca que eu inventei aqui pra dançar Prince. Adoro esse cara. Mas eu não dava pra ele não. Homem tem que dançar pra tirar sarro, jamais pra ganhar dinheiro. Mas eu dava pro Eminem. Todo mundo tem um defeito. O meu é esse: eu dava muito pro Eminem, de preferência em um dia que ele tivesse bem puto com a vida. Aliás, eu tenho dois defeitos: eu dava pro Justin também. E se a Cameron quisesse vir junto, pegava ela também. Pegava boa parte dessas mulheres lindas. A outra parte eu deixava me pegar. To mesmo a fim de comer mulher. Minha única dúvida é naquela hora de ficar molinha e começar a falar tudo molinho e… querer um durinho. Mulher é quase uma coisa perfeita. Mulher pra ser perfeita tinha que ter pinto. Homem pra ser perfeito tinha que tirar o pinto. Eita povo besta mas divertido.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas aos sabadões.

Escrito por Blônicas às 11h18
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As mulheres são chatas, os homens são bobos.

De Leo Jaime.

Esta frase eu ouvi de um escritor carioca há uns bons dez anos. Era a
redução definitiva de todas as mumunhas, divertida e, evidentemente, batia
no senso comum.
Corta.
Estou vendo um filme sobre a história real de um pai tentando se virar com
um filho e começar uma nova carreira. Acho que o Will Smith foi indicado ao
Oscar por este filme. Na história a mulher o abandona depois de um longo
período de vacas magras, por parte dele, que não conseguia mesmo dar conta
das despesas, ainda que ralasse de forma desumana. A mulher foi perdendo o
respeito e o desejo, a um só tempo, na medida em que ele deixava de ser
vitorioso mas não lutador. Bom, era baseado em uma história real e, de
alguma forma, compreensível. Em quantas histórias já não vimos a mesma
coisa? Pode não parecer correto mas é bem comum que mulheres se
desinteressem ou maltratem homens que não vão bem na carreira, no trabalho,
não são competidores ou heróis. E há homens que não sofrem pressão nenhuma
de suas mulheres e mesmo assim broxam na relação. Já a vertente contraria, a
do homem que se desinteressa da mulher porque ela profissionalmente não é ou
está sendo um sucesso, não parece comum. É como se algum tipo de sucesso
profissional fosse compulsório e obrigatório para homens e opcional para
mulheres. Resumindo: mulheres que ficam em casa cuidando das crianças são
boas mães e homens que ficam em casa cuidando das crianças são vagabundos.
Trilha.
Genésio, a mulher do vizinho sustenta aquele vagabundo... (Kid Cavaquinho de
Bosco e Blanc
Corta.
Estava vendo um documentário no Discovery Channel em que se apresentava um
estudo sério sobre a diferença entre corpos e cérebros, sob o ponto de vista
da sexualidade. Existem formas de pensar masculinas e femininas e, óbvio,
corpos masculinos e femininos com mais ou menos características do outro
gênero. Traduzindo: nenhuma mente é totalmente masculina ou feminina, assim
como nenhum corpo. O estudo apontava que alguns comportamentos e modos de
ação ou reflexão eram tipicamente de um gênero mas podiam ser dominantes em
uma pessoa do outro, sem indicar com isso traços de homossexualidade. Uma
mulher pode ter ações e pensar com cabeça de homem mesmo sendo muito
feminina no corpo e nos desejos. Assim como um homem pode ter cabeça de
mulher e ser também um excelente lutador de Jiu-jistu ou motorista de
caminhão. Mulheres gays podem ter uma cabeça absolutamente feminina e um
corpo masculinizado. Homens gays, idem. Ou seja, existem os dois elementos e
quanto mais misturados e equilibrados em cada individualidade, mais
facilidade para este indivíduo interagir e até para atrair parceiros
amorosos. Seja qual for sua opção. O equilíbrio parece ser o melhor tempero.
Corta.
Não gosto de histórias que querem convencer alguma coisa. Quando criança
adorava as fábulas e contos que acabavam com moral da história, dois pontos.
Depois comecei a achar que isso era um gosto típico da infância.
Corta.
O ideal, segundo o documentário do Discovery Channel, é ser meio bobo e meio
chato? Cuidar da vida pessoal e profissional sabendo que em momentos
alternados cada uma dessas coisas vai ficar no foco principal e haverá
sucessos e insucessos sempre? Pode ser.
Corta.
Sobre o que estamos falando mesmo?
Bom, continuo achando que pau duro não é obrigação, é merecimento. Será que
tenho cabeça de mulher?
Fim.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h43
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Sexo.

De Carlos Castelo.

1. Estou finalmente fazendo sexo agora.
2. Um quarto de motel, espelho no teto e outras facilidades.
3. Preliminares das preliminares.
4. Ela, no banho.
5. TV de motel sempre com essas opções tão curiosas.
6. O que é isso? Spray mata mosquitos e baratas?
7. Ela cantando no box.
8. Paredes finas, teto solar, jacuzzi.
9. “Me fode. Me fode. Me fode”.
10. Almoço executivo com feijoada às quartas, serviço de chá completo a partir das 16h, jantar com música ao vivo.
11. Para seu conforto e segurança, esta sauna foi equipada com termostato Schneider.
12. “Bota! Bota! Ai, aaai!”
13. Ela cantando Ana Carolina no box.
14. Estou quase finalmente fazendo sexo agora.
15. São Paulo vence Chivas de virada.
16. Filé Milu: micro-pedacinhos dourados de alho sobre um suculento mignon alto salteado com batatas grisette.
17. “No momento que sentir que vai gozar pense em algo fora do contexto em que se encontra no momento, por exemplo, uma lei da Constituição Federal”.
18. Seu Jorge e Ana Carolina no banheiro no momento da secagem.
19. É sempre bom antes conferir os equipamentos no centro da cama redonda.
19.“Não pára, não. Se você parar agora eu te mato”.
20. Ela no quarto. Quarto de motel.
22. ”Uma forma de manter a ereção firme é apertar sutilmente a porção central do períneo masculino, mantendo a força por um período constante”.
23. Ela e Seu Jorge e Ana Carolina e eu na cama do quarto. Quarto de motel.
24. “Puta que o pariu, puta que o pariu, bom demais, eu te amo, seu veado!”
25. Um mosquito.
26. Rádio FM Absoluta. Romântica demais.
27. O cheiro dela.
28. Um mamilo meio torto.
29. Um olho esbugalhado, outro semicerrado, beijos estalados.
30. Hummmmmmm.
31. Dois mosquitos.
32. O cheiro dela lembra um feriado em São Sebastião.
33. “Ouvimos “Barry Manilow, fique agora com “Tarde Coração”.
34. Estou finalmente fazendo o que agora?
35. Controle de volume, controle de graves, controle de agudos, controle de médios, automatic.
36. Roncar longínqüo, solitário e choroso de estômago vazio.
37. Bia o nome dela. Num quarto de motel idem. Resolveu abrir a guarda no dia em que menstruou. Não deixa de ser uma forma de contracepção. Ai que trabalhão pra gozar. E quando chega lá, desmaia. Fica estatelada em cima da cama, o branco dos olhos olhando pra mim no escuro da suíte.
38. De repente, essa floresta-bigode em mim. Há algo de muito hilário nisso.
39. Um quê de atmosfera rugosa e pegajosa de outro planeta. Atmosfera e superfície. Uma estrela de carne.
40. Três mosquitos e uma mutuquinha.
41. Estou finalmente fazendo uma coisa altruísta.
42. Hummmmmmm.
43. Caralho, caralho, caralho. Vai, vai, vai!
44. “Jose Feliciano, Gilbert, Fábio Júnior e tantos outros...”.
45. Quenturinha nas orelhas, nas extremidades.
46. O olho esbugalhado se fechou e o semicerrado se esbugalhou.
48.E os mosquitos e as mutucas que não aparecem mais?
49. Hummmmmmm.
50. Brochei.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h35
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O amor começa no paraíso e termina na consolação.

De Xico Sá.

[velha crônica republicada a pedidos]
 
A moça chora no metrô.

Por que chora aquela moça?

Sempre acho que todo choro é ou deveria ser por amor, que me perdoem a pobre rima que reverbera aqui embaixo, nos subterrâneos, underground, tantas linhas depois daquela criatura deslizar o inferno rolante, lá no primeiro batente, e cair aqui, passos que conto como o rapaz do crime russo, degraus que ignoro para esquecer o tamanho da queda, deus, vixe.

Dela?

Quase nos meus braços, quem terá caído?

Posso tão bem sentir aquele baque, terei descambado eu ou o meu alvo móvel?

Uma grande dívida nunca nos põe a chorar de verdade. Por um familiar, choramos diferente. Desemprego? Não. Se não teríamos um Tietê, um Capibaribe, um Paraíba, um São Francisco a cada segunda-feira, cada esquina, lágrimas que manchariam a tinta dos classificados e seus quadradinhos lógicos, portas na cara, quem sabe da próxima, projeto ilusões perdidas...

A moça tenta não soluçar, mas soluça. Terá discutido a relação, a velha d.r., à boca da estação Paraíso? Veste roupa de trabalho sério, e chora. Daqui a pouco estará sentada na sua cadeira de secretária, exímia, bilíngüe, a serviço do capital da avenida Paulista.

Mas por enquanto chora a moça do metrô e é o que nos importa. Se não for por amor, eu morra. Terá levado um pé-na-bunda? Terá visto o casamento pelo binóculo do sr. Nelson Rodrigues?

Perdoa-me por me traíres?

Estação Consolação.

Salta a moça que chora no trem veloz.

Sempre há uma criatura a chorar no ônibus, também, ou again, dores pra amolecer o asfalto, sopra minha amiga Claudia Leal, que sempre pensa oferecer um ombro, um olhar de conforto, na linha Campinas/São Paulo.

O amor é sempre assim, começa no paraíso e termina na consolação.

Como no metrô.

A mesma CL desconfia: quem chora em público acaba de chegar ao terminal da dor, o ponto final da cura, baldeação, vírgula, pausa, descanso, pastel, caldo-de-cana, refresco, desamor.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h26
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Declaração Universal dos Direitos dos Cornos.

De Henrique Szklo.

1) Todo corno nasce com uma incrível predisposição para acreditar nas pessoas, trabalhar até tarde e viajar bastante. Quanto mais melhor;

2) Todo corno tem o direito de confiar cegamente que todos os seus amigos olham para sua mulher como se ela fosse homem;

3) Todo corno tem o direito de instalar em sua casa armários bem grandes e colocar portas com batentes muito mais altos que o normal;

4) Todo corno tem o direito inalienável de tratar os filhos como se fossem seus. Afinal, pai é quem cria;

5) Todo corno tem o direito de coçar a cabeça toda vez que refletir sobre o porquê de sua mulher não reclamar da falta de sexo;

6) Ninguém poderá consolar o corno dizendo que ele irá superar essa situação por ser “forte como um touro”;

7) Todo corno tem o direito de sugerir à sua esposa que vá ao dermatologista cuidar das marcas que vivem aparecendo em seu pescocinho;

8) Todo corno tem o direito de compartilhar sua vida com uma mulher que seja capaz de passar a tarde inteira no shopping e voltar para casa sem uma sacola sequer;

9) Todo corno tem o direito de acreditar que o personal trainer da sua digníssima esposa é apenas seu professor de ginástica;

10) Todo corno tem o direito de voltar mais cedo para casa para poder encontrar com os amigos. Aqueles mesmos que acham que sua mulher é homem.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas e redator da ONU.

Escrito por Blônicas às 10h45
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O brasileiro é um feriado.

De Leo Jaime.

Esta frase de Nélson Rodrigues, usada como título acima, pode ser um vaticínio. Dita nos idos anos setentas, ou sessentas, a frase guarda uma incrível atualidade. Ou prospecta um futuro sombrio pois a coisa, hoje em dia, é muito bandeirosa.

Neste ano o Brasil terá o dobro de feriados que a França. Lembra dos carros queimados, por causa da lei que tirava a estabilidade no primeiro emprego?

Pois é. Aquele é um dos países mais ricos do mundo, com uma economia poderosa, e lá o pessoal votou, semana passada, num presidente que tinha como um dos pontos fortes de sua campanha o aumento na carga horária semanal. Lá trabalham 35 horas por semana e ele quer desonerar a hora extra de encargos fiscais para que o pessoal possa trabalhar mais. Pois é. Metade dos feriados!

Fosse só a mania de feriados. Ontem chegou o Papa. A cidade está parada desde então. Ta bom, é exagero, mas funcionando normalmente também não está.

Estão pensando no Frei Galvão, será mais uma folga? Tem as datas facultativas, os feriados que "emendam" por cair na quinta ou terça e toda a sorte de desculpa para não fazer porra nenhuma.

Quem sou eu? Um inimigo do ócio? Não! Um workaholic? De jeito nenhum! Sou um feriado compulsivo que precisa ganhar a vida! Assim como o Marcola, que terminou o ano sabático e voltou para o convívio dos seus. Já está em plena atividade, comandando o crime de dentro de uma cadeia comum. Este pessoal trabalha todos os dias e todas as horas!

Imagine se todos nós recebêssemos por horas trabalhadas. Seria essa farra? O problema é que os impostos são por mês, os salários são também mensais, e os dias trabalhados são um problema de quem paga esta merda toda! O meu caso, por exemplo.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h24
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Distraídos.

De Nelson Botter.

2
Entrou no McDonalds,
sentou e ficou aguardando
o garçom atendê-lo na mesa.

4
O médico olhou bem para a moça
e concluiu que estava tudo bem
com ela, que não se preocupasse.
Ela, meio sem jeito, respondeu:
- O paciente está lá fora, doutor,
sou a enfermeira. Lembra?

8
Vi um mendigo pedindo esmolas.
- Qual seu nome? - perguntei.
- Não lembro.
- Como alguém pode esquecer o próprio nome?
- Isso não é nada. Pior são as pessoas, que
passam por mim e esquecem que sou gente.

16
- Digite a senha, por favor.
A moça digitou.
- Senha incorreta, senhora.
- Caramba, sempre esqueço a senha...
E agora?
- Qual a data do seu aniversário?
- 25/05, por quê?
- Experimente digitar 2505.
- Funcionou! Como você sabia?
- Geralmente as pessoas colocam a data
do aniversário como senha para não esquecerem...

32
Desembrulhou o papel da bala.
Estava na calçada e com pressa,
avistou o cesto de lixo,
achou estranho a pequena boca,
mas depositou lá o papel.
Só não viu que no tal cesto de lixo
estava escrito "Correios".

64
- Você já jantou?
- Não me lembro... por via das dúvidas,
janto de novo.

128
Um casal, comemorando 60 anos de casados.
- Você gozou?
- Olha, pra ser sincera, nem lembrava
mais que tinha essa parte.

256
Colocou o peletó, apertou a gravata e saiu.
Ao chegar na empresa, viu que não havia
ninguém por lá... só então ele se deu
conta de que era domingo.

512
Luiz tomava seu café
e acabou escutando o homem
ao seu lado que conversava ao celular.
- OK, senhor presidente, pode deixar
que eu falo com o ministro.
Largou o café e curioso
perguntou ao homem:
- Era o Lula?
- Não, o Getúlio Vargas.
Ele riu e disse que o homem
era muito engraçado.
O homem nada falou.
- Não pode ser. O Vargas já morreu. Se matou.
O homem olhou para ele com
mais estranheza ainda e disse:
- O seu pai já morreu?
- Sim... - ele respondeu.
- Qual é o nome dele?
- Beomiro Teixeira.
O homem pediu um minuto,
discou um número no celular
e pediu para a atendente
o telefone do pai falecido de Luiz.
- Ouça isso - disse o homem,
entregando o celular para ele.
- Alô.
- Alô...
- Sim.
- Quem tá falando?
- O Teixeira... quem é?
Ele mal podia acreditar.
Era realmente seu pai ao telefone.
O homem, então, puxou o celular dele
e desligou.
- Como pode?
- O quê?
- Você tem um celular que fala
com os mortos?
- Não, claro que não.
- Mas era meu pai!
- Era.
- Então?
O homem passou a mão pelo rosto.
- Você não percebeu ainda?
- O quê? - perguntou Luiz.
- Não é o celular que fala com os mortos,
é você que está morto.

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h43
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A experiência humana fracassou.

De Milly Lacombe.

 

Como se a Câmara nacional precisasse de maiores danos a sua imagem, descobre-se agora que a ilustre Casa fornece, há 15 anos, a boquinha de um seguro-saúde, extensivo à família, para alguns jornalistas que cobrem politiquices e politiquetes diretamente da Capital Federal. A lista com o nome dos beneficiados, segundo a imaculada Casa, não será divulgada, mas o mimo vai acabar (apenas porque foi revelado, naturalmente).

Enquanto isso, nos Estados Unidos, uma senhora de 50 anos veio à tona como líder de um esquema de distribuição de serviços eróticos coordenando 130 moças que serviam ao mais alto escalão de políticos da capital americana. A lista com os nomes da clientela está para ser divulgada, mas – informa a coluna de Pedro Dória no site nominimo.com – Randall Tobias, chefe do Departamento de Estado, e aquele mesmo devoto que defendia publicamente a abstinência sexual (e não a distribuição de camisinhas) contra a disseminação da AIDS na África, já temendo por si, demitiu-se há uma semana.

Mais regionalmente, Mangabeira Unger, que durante um bom tempo descascou o governo Lula em artigos cheios de coerência, dizendo, entre outras coisas, que se tratava da administração mais corrupta de nossa história, agora é ministro desse mesmo (des)governo.

E, finalmente, o Papa que veste Prada está para chegar. Rodeado de paparicos e luxo, vem, nada franciscanamente, para discursar sobre coisas das quais não tem como saber: casamento, família, aborto (não incluí homossexualismo na lista porque, sobre o tema, sua Igreja pode comprovadamente falar, ambora, como canso de dizer, pareça só aceitar a homossexualidade para fins de pedofilia).

Em terra brasilis, o homem vai reconhecer mais um santo. E a religião que se diz monoteísta celebrará seu santo de número 5 mil e cacetada. O número de intermediátios entre você e Deus não pára de crescer. Como sempre acontece quando a quantidade de intermediarios é grande, o custo também aumenta, Passes em via expressa rumo ao paraíso saem cada vez mais caros – ou você pensa que esses deslocamentos do Papa-Prada são baratos? Alguém tem que pagar pelo mármore e pelo ouro do Vaticano. Mas deixemos isso pra lá e dancemos ao lado de Sua Santidade e de celebridades como aquele Marcelo, o ex professor de educação física, atual rebolante do clero. Quando a fé cega, tudo pode ser festa.

Enquanto isso, nós, os otários - agnósticos, ateus, civis, classe média, classe baixa, gente que só quer saber de ser feliz, ganhar um dinheirnho, tomar uma cervejinha, bater um bom papo com amigos sinceros e, claro, namorar - continuamos na labuta, tentando fazer apenas o que parece correto, seguindo nossa própria cartilha de códigos éticos e morais, pagando impostos que jamais serão usados em benefício público, e assistindo, passivamente, ao desmoronamento moral e social de nosso país – e do mundo.

Como disse meu colega Armando Nogueira, uma pequena dose de hipocrisia é necessária para que suportemos a vida em sociedade (ninguém aturaria 100% de verdade o tempo inteiro). Mas a hipocrisia metralhada em doses tão cavalares e diárias serve apenas para nos fazer descrentes. Talvez seja hora de admitirmos que a experiência humana fracassou. Quem sabe assim consigamos recomeçar. Ou, pelo menos, gritar.

 

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 23h24
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O Brasil na faixa.

De Antonio Prata.

Como muitos brasileiros, eu também andava por aí, cabisbaixo e macambúzio, a chutar tampinhas de garrafa e maldizer a vida, o governo, o mal-tempo e o técnico da seleção. Foi quando conheci  o PSTM: Partido do Socialismo Tranqüilo e Moreno. Não se trata de mais uma nova sigla, fadada às velhas maracutaias: o PSTM tem um projeto civilizatório. Ou descivilizatório, como verá o amigo.

Quem me trouxe a luz da sabedoria foi um dos fundadores da agremiação, o ilustre professor Eduardo Correia. Mais tarde, um de seus discípulos, o Dr. Marcelo Behar, me pôs à par de todos os detalhes. (Eduardo fuma cachimbo, Dr. Behar trabalha de terno, de forma que não se pode duvidar da seriedade dos dois patrícios). O projeto do PSTM é de uma simplicidade tão grande (ou de uma grandeza tão simples), que cheguei a gargalhar de felicidade ao conhece-lo. Veja só: pega-se a extensão da faixa litorânea brasileira e divide-se pelo número de habitantes. O resultado é esplendoroso: 50 m de areia branca para cada cidadão. Chega de tentarmos ocupar o cerrado, povoar a caatinga, adentrar aquelas imensidões ermas. Já temos o sertão mítico de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa para nosso desfrute. Para que queremos o real?

Com o PSTM o Brasil não vai pra frente, mas pro lado. Cada cidadão terá direito à sua faixa de areia e mais uns 200 metros de terra para dentro do país, apenas o suficiente para plantar uns coqueiros que dão coco, umas palmeiras onde cante o sabiá e o que mais lhe aprouver. A Amazônia e o Pantanal nós vendemos para a Europa, que já destruiu tudo o que tinha por lá e, cheia de culpa e de olho gordo nas patentes biológicas, irá cuidar das florestas. (Se não cuidar, também, já não será mais problema nosso). Os pampas a gente dá pra Argentina, em troca de carne, doce de leite, psicanalistas e centroavantes. O resto, vendemos para os EUA, que farão parques temáticos, resorts, campos de golfe e testes com armas nucleares.

Com o dinheiro da venda construiremos um SESC a cada tantos quilômetros, uns barzinhos que ofereçam peixe frito e cerveja gelada, uma linha de trem norte-sul para visitarmos amigos e parentes e sustentaremos uma ou duas gerações de vagabundos. Deitados eternamente em berço esplêndido (as cangas), poderemos enfim nos dedicar ao ócio, ao samba, ao futebol, à culinária e às grandes questões existenciais. Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Chegou a hora de assumirmos nossa vocação de Chile Atlântico. Chegou a hora de sermos felizes para sempre.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 20h04
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Eu não entendo mais nada.

De Leo Jaime.

Eu não estou entendendo mais nada. Leio os jornais e fico cada vez mais confuso. Fico com vergonha de ser tão confuso, mas acho que posso compartilhar isso com você. Talvez seja melhor trocar idéias e ver se as coisas esclarecem.

Dia desses foi instalada uma CPI a pedido ou por ordem do STF. Bom,  o legislativo e o judiciário são poderes diferentes mas, que eu saiba, o legislativo sendo comandado pelo judiciário é mais ou menos a mesma coisa que não existir. Ou nossos políticos pensam e tomam decisões por conta própria ou fazem o quê? Se é uma Comissão Parlamentar de Inquérito, seria o caso de o executivo ou o judiciário intervirem? E esta intervenção não é anti-democrática? E se há a necessidade de uma CPI o congresso não deveria ter visto isso?

Penso no massacre da faculdade americana e só me lembro de notícias que diziam que o garoto coreano fez isso e aquilo outro. Mas o garoto é coreano mesmo? Ou de origem coreana? E se é um garoto americano, porque chamar de coreano? Nunca dizem o cantor italiano Frank Sinatra, por exemplo. Mas dizem o cantor afro-americano Stevie Wonder. E não dizem o presidente Anglo-americano George Bush. Estou entendendo errado ou todos são "brancos"
mas uns são mais "brancos" que os outros? O garoto assassino era americano.

Talvez valha dizer que o estado de loucura a que ele chegou possa ter sido reforçado por sua dificuldade em se enturmar, exatamente por causa de sua origem.

No meu entender existe uma raça só que é a humana. E diversos tipos físicos e etnias. Não sou especialista no assunto mas acredito que há vários tipos de orientais, de negros, de índios americanos, de europeus e assim por diante. No entanto, somos em linhas gerais muito parecidos. Fazendo uma analogia, seria como se fôssemos  todos labradores, uns chocolate, outros negros, outros claros, assim por diante. E não somos, seguindo a mesma analogia, Dogues Alemães e Pugs. Mas posso estar divagando sem nenhuma propriedade. O fato é que acho que descrever pode ser diferente de discriminar. E chamar um estudante assassino de coreano, por causa de suas origens, me parece o caso desnecessário de associar sua ação às suas origens. Você me acompanha? Pois é, mas parece que está claro para todos os veículos que o assassino não é americano, é coreano.

Isso me faz lembrar a diferença que existe no tratamento a bandidos aqui e lá. O tal estudante americano que matou 35, se estivesse vivo, teria que pagar por seus atos com a vida ou com prisão perpétua sem privilégios. É duro?  É. Para nós brasileiros então, um absurdo.  Está claro para o Estatuto da Criança e do Adolescente, em vigor no Brasil, que se um cara de
17 anos e 11 meses e meio mata 35 pessoas, basta ele ficar 3 aninhos num Projeto Casa que a fatura está liquidada. E se ele matar 350, idem. Por outro lado, se matar 3500 e for maior, vai pegar no máximo 30 anos de cadeia, podendo cumprir só um ou dois terços da pena, não sei direto. Acho que é um terço. Encurtando, somos muito bonzinhos com nossos monstros. E eles frutificam. Ouvi um cara se gabando disso no rádio, dizendo que nosso sistema penal é muito mais evoluído que os outros e que o sinal disso é exatamente as penas serem leves. Beleza: se aqui fosse a Suécia, onde acontece um seqüestro a cada 3 anos, talvez fosse o caso de chamar o cara para uma conversa, mandar ele pintar uns muros e nem publicar seu nome no jornal. Mas seguindo o raciocínio do nosso magistrado, o que falava no rádio, a idéia é cada vez punir menos e olhar sempre pelo ponto de vista do bandido, coitado, que teve que fazer o trabalho chato de infernizar a vida alheia e ainda por cima tem que ser punido. Daqui a pouco vão querer dar prêmios para quem matar mais? Tô viajando? Na certa. Mas não vejo nenhuma relação entre penas menores e diminuição da criminalidade. Cadê o avanço.

E isso remete ao episódio Champinha. Tem um monte de gente dos direitos humanos querendo ele solto, afinal já passaram os três anos de sua detenção de adolescente. Agora é só ver quem quer o cara solto e pedir para levar ele como hóspede, na casa de cada um por um mês. É impressão minha ou o pessoal dos direitos humanos está sempre mais preocupado com os Champinhas do que com as Lianas.

Acho que é a idade. Não entendo nada e acho tudo muito confuso. Mas aceito opiniões dos internautas leitores. Desde que respeitosas. Rs.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h24
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Quem sonha na sesta tem nuvens como doce de sobremesa.

de Xico Sá.

agora te miro, minha sophia loren,zolhinhos boiando, nuvens fiéis, que enganam os homens, algodão doce, que cá de baixo, tentam entendê-las,  como se retinas... as desenhassem,
quase e sempre, o próprio drama

[das sobrancelhas]  das mulheres.

vida: tudo é goteira.

te miro boiando sobre o drinque cowboy, no molhado de nós,  sob luz fulêra,

[da fluorescente amarela,]

mas agora me escapas, pela cortina,

estampadinha, meu deus,

que só meus zolhos. que só meus zolhos estourados,  como gomos de ácidos

[[[das antigas.]]]

cortina vagaba de hotelzinho de beira de estrada. lua minguante pelo buraco da janela, virgulazinha  de lua sobre o conhaque. bem  antes de virar ponto e vírgula na sarjeta

[refração pós-domecq.]

os caminhões no asfalto abafam nossos possíveis

sins e dúvidas

foda-se a elipse.

cadê sam sheppard,

que iria cruzar contigo

esse paraíso?

vejo ao longe

mario bortolotto,

que nos traz o que sobrou de deus, um sorriso deveras, do que inventamos como deus,

e algo dito assim, numa voz de neblina, goela de tom waits, mas com segunda voz de nick cave:

porra, vocês tão parecendo terra de cemitério, só querem comer gente!

Vamo beber, daqui a pouco é alvorada-blues lá na Roosevelt!

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h26
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Agenda do Diabo.

De Carlos Castelo.

Com a onda dos ‘shadow gabinets”, comenta-se nos meios eclesiásticos que o Diabo resolveu aderir à moda e montar um governo paralelo ao do Vaticano. Na verdade, a informação não é 100% confirmada. Há quem diga que, desde o papa Clemente I, o fato vem acontecendo. E olha que esses papas da antiga, fora os Bórgias, não deixavam rabo pra Satanás nenhum puxar. Na real, eles eliminavam os inimigos. Mas o Capeta, sabe como é: morre mas, vira e mexe, taí atentando de novo.

O texto abaixo seria uma suposta agenda que Satã teria a cumprir no Brasil concomitantemente à visita de Bento XVI. Isso promete dar o maior bode. Mas eles que são anjos que se entendam.

QUARTA-FEIRA, 9 de maio de 2007

9h - Partida do Inferno rumo ao aeroporto Internacional de Guarulhos.

22h30 – Depois de cinco horas de um infernal atraso, pouso no Aeroporto Campo de Marte. Saudação das autoridades locais e show do grupo Demônios da Garoa.

QUINTA-FEIRA, 10 de maio de 2007

8h - Missa negra na encruzilhada da Rua Suécia com Noruega, nos Jardins com a presença de empresários da Fiesp e operadores da Bolsa.

9h15 – Ida de helicóptero ao Presídio de Segurança Máxima de Catanduvas.

11h - Visita de cortesia à alta direção do PCC no Presídio de Catanduvas.

12h - Traslado em belzebumóvel do Presídio de Catanduvas ao Estádio do Pacaembu. Discurso do Diabo.

13h15 – Show da banda Black Sabbath.

15h – Almoço com o “Maníaco do Parque” nos camarins do Estádio do Pacaembu.

17h30 - Traslado em automóvel do Estádio do Pacaembu ao Bar das Putas, na Rua da Consolação, região central de São Paulo.

18h00 – Drinques com as profissionais do sexo do centro da cidade e conversação com as proprietárias da marca de roupas Daspu.

19h- Distribuição de blasfêmias aos visitantes da feira de utensílios sexuais “Pornô 2007”, na região da Avenida Paulista.

19h30 – Visita ao Stand Center, na avenida Paulista.

20h - Traslado em carro do Stand Center à boate Love.

20h30 - Chegada à boate Love. Noite livre.

SEXTA-FEIRA, 11 de maio de 2007

8h30 - Traslado em automóvel do motel Astúrias ao Campo de Marte.

9h30 – Missa negra campal de demonização de Roberto Marinho.

10h30 – Conversa privada com Paulo Maluf e Fernandinho Beira Mar.

11h30 – Confraternização com Roberto Jefferson.

12h30 – Almoço com José Mojica Marins.

14h – Visita de cortesia ao Juiz Nicolau.

15h – Vôo até Brasília. Chegada ao Seminário Novas Ações de Marketing Político. Abertura do Simpósio. Discurso do Diabo.

18h – Happy hour com a promotora de eventos Jeany Mary Corner.

22h – Volta a São Paulo a bordo do Aerolula.

SÁBADO, 12 de maio de 2007

Dia livre.

DOMINGO, 13 de maio de 2007

9h – Brunch com empreiteiros do metrô de São Paulo.

11h – Rodada de bingo em prol da criação do Sindicato dos Contraventores Independentes do Estado de São Paulo.

12h30 – Churrasco e pagode em companhia de traficantes de cocaína brasileiros, colombianos e bolivianos. Discurso do Diabo.

16h – Visita a Dercy Gonçalves: troca de palavrões e insultos.

18h – Passeio triunfal de despedida no belzebumóvel pelas ruas e avenidas da Cracolândia.

22h – Embarque no Aeroporto de Congonhas. Sabe-se Deus quando o Cão chega nos quintos do Inferno.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h58
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