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É o que tem pra hoje.

De Tati Bernardi.

Queria ser uma dessas pessoas que chegam rapidamente até o outro lado da praia, mesmo quando é fofa e de tombo.
Que arquitetam planos de vida.
Que começam assistentes e terminam donos.
Que começam miojo e terminam grande evento culinário um sábado sim, um não.
Que não se demoram na hora de olhar o cardápio, a vitrine, o Guia da Folha, os rapazes da noite.
Fico vendo que fulano foi lá, escreveu o roteiro, quase um ano de trabalho. Depois foi lá, filmou tudinho, mais um ano de trabalho. Na semana da estréia já estava envolvido em outro projeto. Projetos atrás de projetos. Ah: e fulano tem absoluta certeza que nasceu pra isso.
Fico vendo que fulana foi lá: em 2000 pós, 2001 mba, 2002 carro do ano, 2003 casamento, 2004 casa, 2005 filho, 2006 rotavírus. Uma vida na agenda.
Mas enquanto isso, será que fulano sabe dos 456 livros que poderia ler? Das 456 mulheres que poderia comer? Do pôr do sol em Fernando de Noronha? Do prazer surruel que é dormir até tarde sem saber que dia é?
Como fulano pode ter certeza que está no lugar certo, na hora certa, no momento certo, com a pessoa certa, se há zilhões de segundos, dias, ruas, bairros, cidades, países e sonhos nesse mundo?
Passo os dias me perguntando. Aquele povo todo, correndo na paulista, se apertando no metrô, parado no trânsito da Marginal, passando crachás, apertando mãos, escovando os dentes naquelas escovinhas que dobram no meio pra caber na bolsa, almoçando em quilos, sorrindo em falso, respirando ar condicionado, sonhando com a bunda alheia, com o salário alheio, com o final do dia.
Eu não consigo ser uma coisa. Não consigo viver por algo. Tenho esse saco sem fundo onde cabe o mundo. Mas cabe tanto, tanto, que vivo vazia. Porque ainda não aprendi a me preencher.
Porque ainda ando por aí meio maravilhada e irritada, caçando meus pedaços, desejos e inspirações. Até que depois de ver um pouco de tudo e todos, eu saiba finalmente que cara e que forma tem o meu mural de recortes, a minha colcha de retalhos.
Mas no meio do caminho se é muito feliz. E esse texto está assim meio estranho porque to escrevendo ele… quem diria: um pouco bêbada. Agora, por exemplo, to feliz porque bebi saquê e cantei “O amor e o poder” em um karaokê louco. To muito feliz. E talvez um pouco bêbada. Odeio crachás. E eu to feliz porque to ouvindo uma versão de “My way” cantada pelo Gipsy Kings e são quatro e cinco da manhã. E porque estou tendo o maior ataque de riso do mundo simplesmente porque nada faz sentido. E que bom que não faz.
Como diria meu cabeleireiro gay e com pedras no rim: “é o que tem pra hoje, meu bem”. E eu não me culpo pela minha pressa em ficar. E eu não te culpo pela sua pressa em ir. É em tantas pressas contrárias que a gente se esbarra pelo mundo e se diverte um pouco.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h45
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Apaixonados por carros.
De Carlos Castelo.

Morte horrível a do Ramires.
Ele era novo ainda (quarenta e poucos), tinha acabado de virar gerente de marketing de uma múlti. E comprado aquele apartamento com varanda num primeiro andar (odiava andar alto o Ramires).
Enfim, uma trajetória de sucesso.
Insucesso foi a trajetória do coletivo.
Pois é, a Prefeitura vai e coloca uma linha de ônibus dois andares bem na rua do Ramires.
O cara lendo lá sossegadão o seu “Código Da Vinci”, passa um CMTC trongolão e o atropela no recesso de sua varanda com churrasqueira. Pior que isso. Joga o cidadão da varanda no meio da rua, vem um automóvel e bate nele.
Tragédia shakespeareana? Dan browniana?
Não interessa o tipo, mas o drama em si foi terrivelmente cruel.
Nem é preciso dizer o quanto estava concorrido o velório do Ramires.
Todos os amigos da múlti, os vizinhos enlutados, a família.
O corpo ali sobre uma mesa singela, repleta de coroas de flores, todos muito chocados.
Fonseca, gerente de Suprimentos da múlti estava ao lado de Iúri, Financeiro.
Após um longo e respeitoso silêncio, trocaram um breve diálogo diante do colega finado.

- Absurdo, hein, meu velho?
- Um ônibus pegar a pessoa em casa, pinchar no chão e um Toyota Corolla vir e completar o serviço...Pode um troço desses?
- Como é? Um Toyota Corolla atropelou o Ramires, foi?
- Sim, a filha dele comentou ali no café.
- Carrão o Corolla, né?
- Se é. E parece que o modelo que pegou o Ramires era top de linha.
- Aquele com ar condicionado inteligente e tudo?
- Pelo que a filha me disse foi o próprio. Rodas de liga leve, câmbio automático de última geração e mp3.
- Que tesão de máquina. Tá na minha lista de sonhos. Melhor que o Corolla pra mim só o Honda Civic novo. Já dirigiu um?
- Nuóssa! O que é aquilo, Iúri!
- Design total, rapaz. Fala a verdade?
- Sensacional! A frente meio em cunha. Fiz um test-drive no fim de semana e vou te falar uma coisa. Aquilo, sim, é carro.
- E japonês, né?
- Japonês! Não quebra. E se acontece de pifar uma vez na vida, manutenção barata como o quê.
- Tô com vontade de fazer uma besteira, sabia? Com os juros baixando assim, dar o meu “pois-é” de entrada e fazer um leasing desse Honda.
- Faz, é a melhor coisa. A perder de vista.
- Talvez. Tô em dúvida só se pego, em vez do Civic, uma perua Toyota Fielder.
- Vai no Honda. É mais jogo. A perua tem uma concepção mais antiga.
- É, mas o espaço pra família é melhor.
- Você já viu o porta-malas do Civic?
- Gozado, não reparei nesse detalhe. Fiquei fissurado foi com o motor.
- Então vê. É animal. Cabe uma arca lá dentro.

Chegou a hora do corpo se dirigir para a última morada. O chororô e as fungadas tomaram conta do salão no instante de Ramires ser levado para fora.

Quando a multidão chegou à calçada, Iúri sussurrou no ouvido de Fonseca.

- Fica bem a perua Renault de carro funerário, né?

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h42
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Breve sermão do cala-boca e me fode.

De Xico Sá.

me segura, ó musa safa, que outro valor mais alto se alevanta..., aqui dentro das calças; me segura, me oiça, peraí, que o velho benjamin me diz coisas, como numa sessão espírita; fragmentos de qualquer discurso cortado pelo barulho da metrópole..., como o vento na montanha gelada no conto de tchecov; orai por mim, velho benjamin, desde aquele dia que te ouço... na luz de fim de tarde alumiaste, a tez que me guia inté hoje, bem sabes. ; orai por mim, velho benjamin, nos mapas dos corpos inertes, que se contorcem nos leitos, como dores de arrecifes; me segura, menina, que hoje te pego na curva, e a gente conversa bem muito, até suplicares, como bem fazes, “calaboca e me fode!”; mesmo que seja no banheiro, do bar que expulsa foste, mesmo que me bote uma carreira, pra cheirar nas tuas coxas, de modo que o nariz, na vanguarda do desejo, escorregue coxa adentro, e tu me sugues para sempre.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h49
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Atenção no trânsito, hôme!

De Lusa Silvestre.

Proibiram o celular no carro. Parece que querem multar quem estiver fumando.
Tudo pra evitar distrações no trânsito. Então, aqui vão mais sugestões para
diminuir as distrações na rua.

1 ­ Ladrão no sinal:
A pessoa fica prestando atenção no carro da frente sendo assaltado, e nem
percebe que o sinal abriu. Tem que proibir.

2 ­ Mulheres na calçada:
Também não dá. É injusto até com o trânsito. No quê você prestaria atenção ?
Na loirinha de shortinho ou na faixa de pedestres ?

3 ­ Outdoors:
As pessoas reparam muito em outdoor. Principalmente de carro importado.
filmes. E tem os piores: anúncios de carro com mulheres de biquini, ou o
Rodrigo Santoro sem camisa.

4 ­Faculdades com muita mulher:
Os homenss se distraem muito fácil com faculdades. A mulherada fica na
calçada, de mochilinha e caderninho, e o trânsito vira fetiche.

5 ­ Barzinhos:
Barzinho precisa ter um recuo de no mínimo vinte metros da rua. O motorista
repara que o bar tá cheio, a cerveja tá gelada, e distrai.

6 - Barzinho em frente da saída de faculdade:
Não tem conversa: cinquenta metros de recuo.

7 ­ Rachão de Futebol na rua:
Essa história do brasileiro jogar bola em qualquer praça atrapalha. Onde tem
bola, o olho do brasileiro normalmente vai atrás, desviando o foco do carro
da frente.

8- Força pública feminina:
Mulher PM desvia a atenção e põe em risco a segurança. Como ganhar a batalha
contra os criminosos se eles querem confraternizar com a inimiga?

Sugestão para melhorar a atenção no trânsito:
Só outdoor de cueca.

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h00
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Novidades.

De Leo Jaime.

Ainda que seja famosa e tradicional a rivalidade entre paulistas e cariocas, continuo achando que o melhor é a ponte aérea. Corrijo a frase,
desatualizada: melhor seria o trem bala que não para por causa de uma gota d'água e não atrasa mais que dois minutos.  Pois bem, minha argumentação é essa:
quanto mais próximas e possíveis, melhor. Até para quem vive em outros lugares do país, igualmente belos e interessantes. Essas duas cidades, pelo que são, valem visitas constantes. Parece que, ao dizer isso, estou chovendo no molhado. Espantoso que não seja: a única coisa comparável ao número de paulistanos que não conhecem o Rio é o número de cariocas que não conhecem São Paulo. A ignorância é mãe do preconceito.

Tenho um amigo carioca que descobriu São Paulo. Veio, já, para alguns finais de semana e a cada passagem sua paixão aumenta. Não é o típico garoto de praia, o meu amigo, é mais daqueles que só se bronzeiam com a luz da tela do computador. Praia não faz a menor falta. Assim como tenho amigos aqui que não conseguem imaginar uma viagem que não seja para pegar onda. São aqueles que acham Paris, Nova York ou Londres muito sem graça, ou melhor, sem ondas.
Volto ao meu amigo. Encantado com a cidade, restaurantes, vida noturna e com o ritmo da cidade, ele começa a sonhar com uma mudança radical. Pois eu acho que a mudança nem seria tão radical assim. Mas é preciso adaptação, e isso ele começou a reparar.

As perguntas eram várias, e algumas eu pude responder, outras não. Ele reparou que a língua é outra. As cidades ficam perto mas suas línguas nem tanto. Ele observou, num restaurante em que festejavam um aniversário na mesa ao lado, que em São Paulo se canta, após o tradicional Parabéns a você (ele jurava ter ouvido Parabéns Pra Você!) que o pessoal cantava " é pique, é pique, é hora, é hora, é hora..." e ficou estupefato. Queria saber por que tinham substituído o "é big, é big, é hora, é hora...", segundo ele, original. Pique do quê? Era uma sugestão para o aniversariante sair dando um pique ou para que brincassem de pique em seguida? A idéia de ser big, grande, parecia muito clara e o pique não fazia sentido nenhum. Pronto, o assunto começou e várias outras diferenças seriam notadas dali em diante.
Achei melhor citar algumas coisas para que ele entendesse quando alguém dissesse sem ter que , como fez no aniversário, perguntar aos cantantes o porquê da mudança da letra.

Tatuapé, não é exatamente oxítona. Fala-se Tátuapé, com ênfase no Ta. Pacaembu não é Paca, é Paquembu. Professor é P´sor e pneu é peneu. Para alguns é adevogado, mas acontecendo é sempre acont´cendo.  Meio-fio da calçada é guia e o sinal de trânsito é farol, talvez por causa do formato antigo, usando a peça do fusquinha; ficar de cabeça para baixo é ficar "de ponta cabeça" embora a expressão não faça o menor sentido. Quando alguém vai trocar de roupa diz que vai "se trocar". Isso não significa que vai chamar alguém para ficar em seu lugar. Em compensação ninguém diz que vai se lavar, diz que vai tomar banho. Mas isso é em toda parte. Quando alguém usa uma blusa de lã diz que está de malha. Quando está com uma blusa de malha diz que está com uma blusa. Malha não é aquilo que se usa pra fazer camiseta, ou t-shit, é, para os paulistanos, o que se faz ao tricotar. Faz sentido. Acho até  que a teia da aranha é uma malha, como a fina do imposto de renda. É uma forma e não um tecido.

Tudo isso deixava meu amigo boquiaberto. E não menos interessado.

Ao final, ele disse, repleto de satisfação: "as coisas fundamentais na vida do homem são o pai, a mãe e a novidade".

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h33
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Eu não nasci pra isso.

De Tati Bernardi.

No meio de uma risada, entre uma e outra troca de intimidade, de repente, me pergunto o que exatamente estou fazendo aqui. Me maquiando enquanto você repassa a agenda do celular. Fazendo piadas com toalhas e sucrilhos. Não faço a menor idéia de quem é esse cara sentado aqui no meu sofá, cheio de dúvidas se casa comigo ou me esquece uns dias para a vida parecer mais planejada.
Não nasci para isso, definitivamente. Essa coisa que quase é, esse “pode ser” que muda para “nem pensar” a cada troca de cômodo. Eu só queria ter a certeza de estar me maquiando para você, a certeza de estar misturando toalhas e sucrilhos por conta de uma surpresa da vida e não de uma luta contra o tédio. Eu só queria encontrar alguém que não repassasse a porra da agenda do celular na minha frente.
Puxa, como foi bacana ele ter telefonado no dia seguinte. Claro, muito bacana. Como foi bacana a gente ter dormido de conchinha e ele ter me pedido um pouco de bolacha água e sal no meio da madrugada. Adorei que ele me ligou no dia seguinte, para me dar aquele bom dia de amigos. Muito bacana mesmo. Claro que não temos nada e nem nunca teremos. A não ser aquele ataque de riso maravilhoso que ele dá quando eu me atrapalho pra tomar sorvete e fico parecendo uma desdentada. Tenho esse tesão por ele, esse tesão pela maneira tímida e desleixada com a qual ele amarra a toalha branquinha na cintura. E me olha do tipo “ei, velha amiga, não acha que mereço um pouco de carinho?”. Mas que bom que ele ligou no dia seguinte para dar aquele bom dia de amigo. Que bom. Quem disse que mulher é tudo louca e se você ligar no dia seguinte para dar bom dia ela vai achar que está namorando? Quem disse? Heim? Hum? Quem disse? Achei mesmo bacana essa atitude super moderna de um homem macho super mode
rno me tratando como uma fêmea ultra moderna e tudo mais. Mas não nasci pra isso, definitivamente. Como assim ele me liga no dia seguinte pra me dar bom dia e depois simplesmente desaparece no mundo? Como assim? Eu não nasci pra isso não.
Saio do banho sem pensar em nada disso e encho minha cara de cremes. Creme de boca para ressecamento, creme de testa para oleosidade e creme de olhos para rugas. Durmo feia, sozinha e tranquila. Sem pensar em sofás, sucrilhos, toalhas, bom dia de amigos e vidas planejadas. Ainda assim, continuo achando que não nasci pra isso, definitivamente.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas e precisa só de 1.999 pessoas para completar 3.000 livros vendidos. Compre "A mulher que não prestava"! www.pandabooks.com.br

Escrito por Blônicas às 16h45
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O resto é papo furado.

De Antonio Prata.

Fico aqui tentando falar de temas importantes: a morte, a vida, o sexo, as guerras, o amor, Deus e o mundo. Temas sobre os quais, é verdade, eu não sei quase nada. E perdido nesta obstinação pelo grande, pelas coisas sérias, me esqueço do fundamental. Como naquela fábula do poeta que caiu num poço porque andava olhando as estrelas, milhares de coisas muito mais importantes do que as supostamente mais importantes nunca entraram nesta coluna, pois estavam bem embaixo do meu nariz enquanto eu olhava para cima. A cebola, por exemplo.

Como nunca falei sobre a cebola? Ela é minha companheira nesta vida. Todo dia me traz alegria, seja frita, refogada, na salada, no bife, na sopa. Ela é tão fundamental que, se um dia eu for condenado à morte e tiver um último pedido, direi: refoguem uma cebola. Quero sair daqui sentindo o cheiro dos cubinhos cristalinos estalando na manteiga ou no azeite. Cheiro da casa da avó na infância. Cheiro que vem, lá pelo meio dia, da casa ao lado, me lembrando que ali também há uma família, que são pessoas como eu e em breve sentarão em torno de uma mesa e celebrarão mais um dia sobre a Terra, temperado com cebola.

Alguém aí pode dizer que a cebola tem um grande defeito: seu cheiro forte. Ninguém a come antes de encontrar o namorado. (Principalmente, se ainda não for namorado). Acho que isso não é de maneira nenhuma um defeito. Apenas realça a força deste divino alimento. Pois a cebola, como tudo o que é importante, exige sacrifícios. Numa época em que queremos ter tudo ao mesmo tempo agora, ela nos lembra que isso é impossível, nos fazendo abdicar do que pode ser o mais fundamental nesta vida: o amor. Eis o dilema que ela nos coloca: ou eu ou o beijo. E muitas vezes, atraídos por seu forte sabor, abrimos mão de outra boca para trazermos seu sabor à nossa. A cebola, nos obrigando a optar entre uma coisa ou outra, nos dá uma lição de humildade, nos lembra que não podemos ter tudo, que a vida é feita de escolhas e que pagamos um preço por elas.

Cebola na brasa, enrolada em papel alumínio (e depois comida com manteiga derretida), cebola refogada no arroz, cebola em rodelas, dourada, sobre um bife, onion rings, sopa de cebola, a cebola translúcida no caldo da moqueca, emprestando seu sabor ao peixe e ao camarão. São tantas as maravilhosas variações deste eclético alimento e eu aqui falando de primeira vez, empregos, política...

Como é que a gente pode ser tão cego para ver o que está na nossa frente? Alguém disse que é preciso ser um monge para enxergar o óbvio. Não sou um monge, mas tenho meus lampejos de sabedoria e percebo que o óbvio, leitora, é a cebola. O resto é papo furado.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h23
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Tudo é só isso.

De Milly Lacombe.

Estava indo de carro ao interior de São Paulo, guiada pelo motorista da empresa, já que se tratava de missão profissional. Mas não era eu dentro daquele carro. Era o que restou de mim, vestígios da pessoa que um dia fui. Raul, meu condutor, um sujeito de fala muito mansa, gestos contidos, fumante inveterado, balbuciava algumas coisas – de acordo com minha concepção de tempo, um tempo exclusivo àqueles que sofrem por amor –somente em anos bissextos. Concentrado na longa viagem noturna, parecia disperso apenas em seus próprios problemas. Era como se eu não existisse – e eu, de fato, naquele momento não existia. O um farrapo de mim viajava largada no assento traseiro, onde consegui me esticar. Tínhamos seis horas de estrada pela frente, navegando por um mundo dentro do qual somos obrigados a levantar e ir trabalhar minutos depois de levar um fora. Uma lei federal deveria proteger aqueles que se encontram na lama da fossa.
Raul pergutou se podíamos fazer uma parada. Por mim, o mundo podia parar de girar, tanto fazia. Paramos. Raul queria fumar e me perguntou se eu não tinha fome. Disse que há dois dias não sabia o que era isso. Ele resolveu entrar comigo na lanchonete do posto, sugeriu que eu pegasse alguma coisa para morder. Me arrastei até o balcão e sussurrei um queijo quente. O atendente, por milagre, ouviu. Fui mordendo aquele sanduíche como se fosse um pedaço do meu fígado. Raul, meio sem jeito, perguntou o que eu tinha, por que meus olhos estavam vermelhos. Pensei em dizer que estava com conjuntivite, mas ia cair em prantos logo depois e ninguém chora por uma conjuntivite no meio da Castelo Branco. Encarei a dura realidade: disse que estava saindo de um relacionamento. Ele perguntou o que houve, e eu rateei. Deveria contar a ele que se tratava de outra mulher? Como ele, um cara tão sério e simples, reagiria? Ia me mandar para o inferno, me matar? Tendo em vista que morrer ali parecia mais uma benção do que uma desgraça, decidi contar. Raul ouviu tudo sem falar nada, sem sequer balançar a cabeça.  No final, disse apenas: “Mas vocês se amam?”. Eu respondi que sim, e ele emendou: “Então, tem solução. Não fica assim.Tenho certeza que ela não fez por mal”. E eu, que raramete choro em público, coloquei minha cabeça no ombro de meu condutor e caí em pranto profundo. Ele, com a nobreza que só os simples e honestos têm, apenas me deixou ficar ali para, depois de alguns minutos, repetir: “O amor é mesmo complicado. Vai passar”. Dali em diante, fomos conversando sobre a vida e sobre amores. O eloquente Raul e eu, interior a dentro.
A história de cada um não muda muito desse drama que envolve amores e dores, dores e amores – porque não existe um sem o outro. Os grandes conflitos humanos são esses, não importa cor, credo, casta. No fim, como diz a filósofa panteísta Paola, tudo é só isso. Para mim, para você, para Paola, para Raul.
A piada cósmica é que, por mais que tentemos calcular, não podemos saber quando a última vez acontecerá. O último beijo, o último abraço, o último Friends visto na cama, com o laptop no colo porque o DVD ainda não foi instalado, a última ida à padaria, o último jantar no restaurante preferido, o último domingo passado na cama, a última vez que penetramos na alma da pessoa amada. O fim pode perfeitamente topar com você numa manhã fria de quinta-feira, sem nenhum tipo de aviso prévio. Ali, diante do inimaginável, você se vê flertando com a morte: hora de virar um farrapo, tentar se levantar, juntar os cacos e recomeçar. E saber que, durante esse dolorido processo, é sempre possível contar com a bem-vinda gentileza de estranhos.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 19h38
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Vetores

De Henrique Szklo

Sinto que perdi o rumo de minha vida para sempre. Não há como recuperá-lo. Não há retorno. Não tem um trevo lá na frente onde eu possa pegar o caminho de volta e descobrir o exato momento onde eu estraguei tudo. O que está feito está feito.
E a pergunta que me surge agora é: o que fazer? Se estou no caminho errado eu devo continuar em frente ou parar de vez? Para piorar, o que significa continuar e o que significa parar ainda são incógnitas para mim. Por enquanto gasto meu tempo apenas lamentando as escolhas que fiz no passado. Mesmo sem saber qual delas exatamente me tirou do caminho. Não importa. E o pior de tudo é que nem a consciência desta situação está me preocupando. Parece que a coisa que eu mais temia na vida aconteceu: desisti de lutar. Perdeu-se em algum lugar no passado recente aquela chama que me fazia espernear a cada obstáculo. O choque elétrico já não me faz gritar, apenas me provoca uma dormência momentânea. Tenho a sensação agora de que nada é necessário, nada é imprescindível, nada tem importância. Deixa a vida me levar, vida leva eu. Não tenho mais motivação para criar. Pra quê criar? Como diria a minha mãe, que vantagem Maria leva? Tanto faz. Se eu fizer ou deixar de fazer a vida vai continuar igual. Meus impulsos naturais para o trabalho criativo sempre foram a minha vaidade intelectual e uma certa vontade de ser celebridade. Agora que não reconheço em mim nem uma coisa nem outra, ficou difícil manter o interesse num assunto que só traz inseguranças e dúvidas. Lamentavelmente sinto que o bambu quebrou. Acostumado a viver vergado, tinha a sensação de que isso nunca iria acontecer. Que eu sempre, de um jeito ou de outro, acabaria encontrando uma maneira de lutar, de me indignar, de exercer o meu inconformismo atávico. Honestamente não sei o que fazer. Tento escrever coisas engraçadas mas sinto que perdi a graça. Não sinto mais dentro de mim aquele espírito zombeteiro tão necessário à manufatura do humor. Não me irrito mais com quase nada, nada me incomoda demais e as coisas que faço não têm nenhuma importância. Faço por fazer. Acabou o tesão. Impotência criativa. Causada por falta de fluxo sanguíneo na alma. Não me relaciono com quase ninguém, abandonei quase todos os meus amigos, estou fumando que nem um condenado, não estou fazendo nenhum tipo de exercício e a minha dívida artística está impagável. São tantos os projetos encavalados que não dá pra saber por onde começar. É melhor nem começar. Às vezes me dá vontade de largar tudo e sair por aí como um maltrapilho sem-teto. Ou me internar numa casa de saúde. Ou ainda virar hare-krishna, sei lá. Dá vontade de ser qualquer coisa, menos o que eu sou. Me sinto fracassado, me sinto imaturo, me sinto inútil. Não sou uma pessoa confiável nem pra mim mesmo. Sou uma farsa. Ironicamente, uma ópera-bufa. Eu não acredito em mim. E o mais chato é saber que este tipo de auto-comiseração é deprimente e só vai me levar mais e mais pra longe do caminho que eu pretendia seguir. Só a auto-estima e a confiança em si mesmo faz o ser humano avançar. Mas saber disto não está adiantando nada neste momento. Agora eu só quero descansar. Estou cansado e não quero mais lutar. Eu só quero dormir, ver televisão, navegar na internet. Eu sei que esta é uma atitude deplorável, mas até por isso mesmo, muito condizente com meu estado atual. Eu sei que se eu acreditasse em mim (com ou sem razão para isso), tudo iria melhorar. Mas depois de tudo o que eu já fiz ou deixei de fazer na vida, acreditar em mim seria quase uma ofensa à minha inteligência. No mais, vai tudo bem...

Henrique escreve no Blônicas e está deprimido.
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Escrito por Blônicas.. às 10h08
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Lua cheia em escorpión, cabrón!

De Xico Sá.

Caray, quando tu desce la de riba, nem sempre quem desce é de cima, tomada bãe, bain, baseado, peitinho, peitinho no drum´m´roll, quase bebida, vinho branquis ou champãe, sorriso de quem não carece e só dá colo pra-la de Edipis e de-mãe, eu fico passex e digo assim, vem cá meu bem, só não trabaio com futuro pq pra mim tudo zennnnnnnnnnn, qual besouro contra o vidro, onomatopéia, vrummm, ai ladrão de coração, tu tem perna mas tá longe de uma centopéia... paroh ali e cabou-se a parábola, bien, bem, fudeus, pra que mais ale´m?, pra que dê-erres, pra que degraus que agora só rebobinam a fita cassete perdida, se bem que..., a mina é de ouro, a serra é pelada, a lua tá cheia e o garimpeiro passeia no que reluz das idéia gaviônica, da febre do rato, da peste bubônica, pronto, essas coisa! 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h23
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Encontro marcado.

De Nelson Botter.

 

A tarde caía bela sobre Florença enquanto o rapaz caminhava apressadamente em meio a diversos turistas. Estava atrasado, havia perdido a hora numa cidade guardada pelo tempo. Uma irônia, é bem verdade. Deixara o hotel perto da estação Santa Maria Novella e atravessara o coração da cidade em minutos. Nem pôde contemplar as maravilhas arquitetônicas da Duomo ou do Batistério, tampouco das fabulosas esculturas na Piazza dei Signori, um museu a céu aberto. Nada disso, Davi e as Sabinas que esperassem, pois tinha destino certo, olhar fixo, coração palpitante. Passou pela Uffizi com seu corredor repleto de bustos dos notáveis da cidade. Mal viu que Leonardo e Dante lhe fitavam com os olhos brancos de pedra. Aquela magia toda não importava, só queria saber dela, a linda loira que estaria às 17h30 no local programado. Seu nome era doce e suave: Gabrielle. Olhou o relógio mais uma vez, enquanto atravessava o rio Arno pela Ponte Velha. Se demorasse um pouco mais não conseguiria encontrar Gabrielle no ponto marcado. Que lábios carnudos, que pernas longas e roliças. Pegou um ônibus, que por sorte estava parado num ponto bem em frente ao fim da ponte. Em menos de 5 minutos desceu e começou a subir as escadarias em forma de rampa para um dos pontos mais altos da cidade, a piazza Michelângelo, local da melhor vista da magnitude do renascentismo. Chegando perto das escadarias, onde centenas de pessoas contemplam o pôr-do-sol mais belo da Toscana, o rapaz notou que Gabrielle estava lá, apoiada no mirante, admirando aquela beleza que vale uma vida. Ele aproximou-se lentamente, o coração ainda disparado, enquanto observava ao fundo o sol morrendo no horizonte, refletido na cidade laranja.

- Gabrielle...

- Você veio – ela sorriu.

Poucas vezes duas belezas tão grandes conseguiam se juntar como naquele momento: Gabrielle e a paisagem.

- Desculpe o atraso, vim o mais rápido que pude... estava um trânsito! – ele riu com a própria piada.

O sorriso de Gabrielle fez o último brilho do sol parecer um mero coadjuvante da tarde. O rapaz pegou delicadamente a mão direita da jovem italiana e fez menção para que andassem por um jardim ali ao lado. Ela, lisonjeada, o acompanhou. Sua mão estava gelada e o rapaz podia sentir o tremor de seus dedos.

- Não fique nervosa, está tudo bem... – ele sorriu.

- Eu sei... é que... ah, você sabe...

- Sim, eu sei. Aqui, gosta daqui? Vamos ficar por aqui, um belo jardim, lugar reservado, sem ninguém para nos observar.

- Gostei daqui, pra mim está ótimo.

- Bom... trouxe o dinheiro, Gabrielle? E a passagem para Amsterdã?

- Sim, tudo aqui no envelope.

Ela estava linda num sobretudo creme. O rapaz, então, sorriu, beijou-lhe a face e correu os lábios para os delicados ouvidos de Gabrielle.

- Me desculpe – ele falou em tom fraternal, apertando seu corpo junto ao dela, num abraço mortal.

Quando Gabrielle se afastou, seu sobretudo creme estava manchado de sangue. Ela caiu serenamente. O rapaz guardou a arma e se afastou rapidamente. Contou o dinheiro numa velocidade impressionante, estava tudo certo, ela havia pago 100 mil euros pelo serviço: uma morte agradável e indolor.

Mais um trabalho feito, em breve ele poderia se aposentar. Agora seu destino era a bela Amsterdã... tão bela quanto a última tarde de Gabrielle.

 

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h47
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Furei meu dedo abrindo o guarda-chuva.

De Milly Lacombe.

Peço desculpas antecipadas, mas, por conta de um pequeno e dolorido acidente, terei que voltar ao tema da semana passada. À tragédia: Furei meu dedo abrindo o guarda-chuva. Foi lamentável. A pele ficou presa entre a haste e aquela lâmina-assassina na qual devemos apoiar o dedão a fim de poder escorregar o ferro para cima e finalmente esticar o troço. Fiz isso, e meu dedo médio, que se não estivesse machucado estaria solitariamente esticado e apontado para a indústria dos projetistas de guarda-chuvas, ficou preso na lâmina. E para tirar o dedo dali? Sozinha no meio da rua, observada apenas pelo guardador de carros, não quis fazer o escândalo que certamente teria feito se estivesse em casa, e fingi que nada estava acontecendo. Se não me engano, cheguei a dar alguns passos com o guarda-chuva (semi)aberto sobre a minha cabeça (e minha pele presa à aste). Mas a dor começou a incomodar. Pior: percebi que, ao tentar tirar o dedo dali, iria machucá-lo ainda mais. E o guardador ainda me olhando, o que eliminava qualquer possibilidade de escândalo. Não tive outra opção: fechei os olhos e, gemendo silenciosamente, puxei meu dedo. Sangue. Muito sangue. E um furo cercado por rasgos em minha pele. Quando tudo o que eu queria era me proteger da chuva fria arrumei um horroroso ferimento. Como na semana passada saí enfurecida contra os pensadores de embalagens alimentícias em geral, decidi aproveitar a toada e solicitar que o guarda-chuva seja reprojetado.
Você pode contra-argumentar dizendo que atualmente existem guarda-chuvas abertos ao clique de um botão. Sim, mas como o aparato é fechado? É preciso que se apóie o dedão na lâmina-assassina a fim de escorregá-la para baixo. Ao apoiarmos o dedão, o dedo médio fica perigosamente exposto à furia inerte da diabólica lâmina (isso sem falar na possibilidade de ver o próprio dedão preso durante o processo de fechamento). É tudo extremamente arriscado, ainda que não percebamos isso de imediato. Para encurtar essa história, nem vou falar daqueles ferros ponteagúdos que se projetam salientes quando o guarda-chuva é aberto, e que podem, perfeitamente, cegar alguém. Antes que outros argumentos a favor do guarda-chuva sejam atirados em minha direção, preciso dizer que nunca tive problemas de coordenação motora e me julgo perfeitamente capaz de abrir um guarda-chuva.
E, por favor, não fique você pensando que tudo isso é uma bobagem porque se o guarda-chuva é assim há tanto tempo, e nunca perdeu popularidade, então não pode haver nada de errado com ele: chances maiores de haver algo errado comigo. Só que a validade de uma idéia não pode vir do fato de ela ser amplamente aceita ou rejeitada. Não é a popularidade que deveria determinar a qualidade do produto. É preciso questionar o tudo, sempre.Todo projeto, por mais antigo que seja, precisa ser revisto de tempos em tempos. Talvez a hora do guarda-chuva tenha chegado. E, a bem da verdade, nossos ipods e ibooks são reprojetados diariamente: você compra um zerinho e, no dia seguite, ele já está ultrapassado. O novo projeto aperfeiçoa o antigo, que parecia perfeito. É o contrário do guarda-chuva e das embalagens de catchup, mostarda e maionese – entre outras.
Semana que vem, não havendo assunto melhor, falaremos da pasta e da escova de dente, contra as quais não tenho nada, mas que me parecem ser acomodadamente assim há muito tempo.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 08h51
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Filhos da multa.

De Carlos Castelo.

Já repararam? Há uma certa tendência em punir as falhas humanas hoje em dia usando a multa. Quem não concorda com tal hipótese que passe numa ladeira de São Paulo com 5% a mais da velocidade permitida no local, atrase um boleto bancário ou então devolva um DVD na locadora com quinze minutos de atraso.

Fico imaginando se a tendência ganhar corpo por outras ramificações da sociedade.
Logo presenciaríamos (chocados?) situações desse gênero.

EM CASA

- Tchau, amore, tô indo pro escritório.
- Ah, pegou o auto de infração que eu deixei no teu criado-mudo?
- Não, Madá, você não pode ter me multado de novo. De novo não!
- Foi multado, sim, senhor. E daí?
- Ai, ai, qual foi o local de cometimento da infração?
- A cama.
- De novo a cama?
- Pois é, sempre a cama…
- Por que você me enquadrou?
- Copular em até 20% abaixo da expectativa do cônjuge.
- Mas que dia foi isso, Madá?
- Você não lê a notificação? Tá lá: 22 horas e 14 minutos de ontem.
- Ontem? Mas tava tão bom, meu amor.
- Só se foi pra você, Onofre. Pra mim foi digno de multa.
- Quer saber de uma coisa?
- Diz.
- Dessa vez vou entrar com um recurso!

NO TRABALHO

- De novo atrasado, Marcelo?
- O trânsito tava uma panela de pressão, ai meu Deus, viu?
- Toma.
- Multado, é? Que palhaçada é essa?
- A empresa implantou esse sistema agora. Errou, infração.
- Mas peraí, que negócio é esse, desconto em folha?
- Exatamente. E confisco do vale-refeição durante três meses.
- Três meses! Pombas, vocês querem me matar de fome!!
- É isso aí. E não reclama não que o Gomes, sabe o Gomes da Expedição?
- O que é que tem o Gomes?
- Cassaram a Carteira de Trabalho dele. Desemprego vitalício, velho. É mole ou quer mais?

NO LABORATÓRIO

- A senhora tomou o laxante antes de vir fazer o exame?
- Ai, esqueci, filha do céu! Ô cabeça!
- Pode assinar aqui, faz favor?
- Posso. Mas é uma multa esse papel?
- Sim, é um auto de infração.
- Mas por causa do quê?
- Negligência com o trato intestinal durante o período pré-analítico.
- Quer dizer que eu vou tomar essa punição por não ter feito cocô na hora certa?
- Pode ser visto dessa forma, senhora.
- E não dá pra dar um jeito?
- Só se a senhora defecar agora.
- Agora, agora.
- Sim.
- Assim, já?
- Assim, já.
- Então multa, vai. Fazer o quê? Pode multar…

NA ALCOVA

- Marina?
- Amor! Chegou supercedo em casa hoje, hein?
- Cheguei. E quem é esse cara que está na minha cama com você?
- É o Antunes.
- Pega, Antunes.
- Ei, eu nem me apresentei e já levo uma multa na cara?
- Olha aqui, meu chapa. Você, além de em flagrante adultério, ainda está em flagrante situação irregular aqui.
- Como assim? Aliás, como é o nome do amigo?
- Eu sou o Robério. Prazer, Antunes.
- Prazer. Mas, me explica, situação irregular como?
- Transitar em local proibido em horário impróprio.
- Puxa, eu…
- E olha, nem vem pedindo refresco que eu devia multar você por usar meu pijama: apropriação indébita, infração gravíssima!

NOS CÉUS

- Alô, Boeing 767?
- Afirmativo. Câmbio.
- Torre falando. Confirme sua posição e velocidade de cruzeiro. Câmbio.
- Sobre Manaus, 900 quilômetros-hora. Câmbio.
- Tá multado. Câmbio.
- Ué, por que? Câmbio.
- Manaus não tem radar, teria que estar a 300 por hora, no máximo. Câmbio final.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h51
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