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Lula, o covarde incompetente.

De Milly Lacombe.

O sistema aéreo faliu. O ex-ministro da defesa, Waldir Pires, demonstrou ter a agilidade de um poste. José Carlos Pereira, presidente da Infraero, está sendo investigado por obras superfaturadas em Congonhas (obras que não passaram pelas pistas, como já sabemos). Os cinco brilhantes e educados diretores da Anac, que nada entendem de aviação, se recusam a pedir demissão (e, por lei, não podem ser demitidos). Marco Aurélio Top Top Top Garcia estava, semana passada, na posse de Nelson Jobim, às gargalhadas. Todos esses brasileiros dedicados e devidamente condecorados foram nomeados por nosso líder, Lula. Que também nomeou Dirceu, Palocci, Marta e aprovou Renan Calheiros.
De quem é a culpa, portanto, se o país derrapou e saiu da pista? O responsável por essa maloca é apenas um, o sujeito que teimamos em colocar no poder e, depois, em conceder novo mandato. Um homem que se esconde por trás da origem humilde, um sujeito que se diz, embora tenha sido eleito por mais de 50 milhões de votos, vítima de preconceito. Um cidadão que nunca administrou nada na vida – para não dizer que nunca trabalhou (ou trabalhou até, segundo consta, perder o dedinho em acidente de trabalho, e passar a viver de seguro social). Um sujeito que passou a vida sendo sustentado pelo partido e, mesmo sem ter muito o que fazer, e já com recursos ao alcance das mãos, se recusou a estudar. Esse é nosso líder, um cara que, vivendo em palácio, usuário de avião particular e protegido por batedores profissionais, se julga injustiçado.
Mas, no maracanã, a polícia de Lula não pôde protegê-lo. No Maracanã, o partidão não teve tempo de contratar sua claque para soterrar as vaias. Também não deu para barrar a entrada de opositores, como Lula consegue fazer em seus comícios controlados. No Maracanã, o rei aspirante a ditador estava exposto. E, finalmente, conseguiu ouvir a voz das ruas.
Tudo isso, antes do acidente.
Aí, deu-se a tragédia. E a incompetência dos nomeados por ele veio bater em nossa cara.
Só que Lula, esse sujeito sem experiência profissional, fã de Fidel e Chavez, não demite. Não gosta de ver amigos perderem a boquinha. Marco Aurélio, que qualquer administração séria e competente teria colocado na rua no dia seguinte à pornografia gestual, não vai sair, muito menos perder a pose (os dentes, muito em breve, mas não a pose). Os diretores da Anac sairão, mas às duras penas, e só por causa da opinião pública, a mesma que tirou Dirceu e Palocci. Mas Marco Aurélio é peixe pequeno para movimentar a voz das ruas – então, nosso líder pode ir deixando como está para ver como é que fica.
Por muito menos do que mensalão, dólares na cueca, sanguessugas, ministros suspeitos de tramóias federais etc um presidente foi impedido e outro, semanalmente visitado com manifestações organizadas e placas de “Fora!”. Mas contra o atual qualquer manifestação soa preconceituosa. Nasceu pobre, miserável, foi vítima de acidente trabalhista, se fez na vida política, então, por favor, tudo pode – tudo deve ser perdoado e entendido. Sinto muito, não é bem assim. Se o homem não entende balela de administração pública e está afundando o país, é dever de todos nós protestar. Afinal, ele trabalha (ou deveria trabalhar) para cada um de nós.
Mas esse é Lula, o incompetente. Falemos agora de Lula, o covarde.
Lula, o covarde, não veio a São Paulo olhar nos olhos das famílias das vítimas, como faria qualquer estadista minimamente interessado em seu povo. Como bom medroso, se esconde pelo nordeste, com medo da rejeição. Brasília, construída para isolar políticos safados de seus eleitores, também é lugar seguro para descansar, preparar um churrasquinho, fazer gracinhas chulas para débeis mentais, rir com amigos (como riram todos na cerimônia de posse de Nelson Jobim) e esperar a onda passar. Quem vai protestar lá em Brasília? Se a capital fosse em São Paulo, no Rio, em Porto Alegre … mas a construção de Brasília foi um golpe de mestre. Ficam todos ali, sustentados por cada um de nós, que paga as idas e vindas dessa gente que trabalha de terça a quinta, devidamente blindados pela distância, oferecendo e frequentando festas regadas a mulheres e bebidas – tudo com dinheiro público. Viva a corte. Agora, chefiada por um homem do povo.
Lula está quietinho porque conta com a possibilidade de ver a caixa-preta do Airbus colocar a culpa no piloto, no avião, na TAM. Conta com a falta de oposição política, com a conivência do PSDB. Vai esperar a turbulência passar para voltar a não fazer nada de forma um pouco mais ativa. Do alto de sua arrogância, não entende que, mesmo que a caixa preta culpe piloto e cia aérea, não terá se livrado da responsabilidade de ter administrado um país com tão pouco cuidado. Não se livrará da responsabilidade de ter nomeado amigos e partidários para funções que exigiam conhecimento técnico. Não se livrará do ônus de não saber demitir, de se recusar a mudar, de nunca ter aprendido a administrar. Não se livrará do peso de ter, por culpa de sua gestão incompetente e desleixada, transformado o país em uma galhofa.
Hoje, riem políticos, ri a seletíssima classe alta, que nunca esteve tão rica, riem os miseráveis alimentados pelo bolsa-esmola. A conta, é claro, fica com a classe média, que paga impostos absurdos, não recebe nada em troca e voa em avião de carrera.
Resta torcer para que os remediados deste país finalmente se mexam e tenham coragem de gritar, sem receio de ser acusados de preconceituosos: Fora Lula.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 16h01
[]


A bela arte de pedir.

De Xico Sá.

Uma das maiores virtudes de uma fêmea é arte de pedir.
Como elas pedem gostoso.
Como elas são boas nisso.
Resistir, quem há de?
Um simples “posso pegar essa cadeira, moço?” vira um épico. É o jeito de pedir, o ritmo caliente da interrogação, a certeza de um “sim” estampado na covinha do sorriso.
Pede que eu dou.
Pede todas as jóias da Tiffany´s, minha bonequinha de luxo!
Estou pedindo: pede!
Eu imploro, eu lhe peço todos os seus pedidos mais difíceis.
Pede a bolsa de cerejas da Louis Vuiton, pede o shopping inteiro, pede a Daslu.
Pede que compro nem que seja no camelô.
Não me pede nada simples, faz favor.
Já que vai pedir, que peça alto. Você merece.
Como é lindo uma mulher pedindo o impossível, o que não está ao alcance, o que não está dentro das nossas posses.
Podemos não ter onde cair morto, mas damos um jeito, um truque, um cheque sem fundos.
Até aqueles pedidos silenciosos, quando amarra a fitinha do Senhor do Bonfim ou de Nossa Senhora do Carmo no braço, são lindamente barulhentos.
Homem que é homem vira o gênio da lâmpada diante de uma mulher que pede o impossível.
Ah, quero o batom vermelho dos teus pedidos mais obscenos.
 Quero o gloss renovado de todas as vezes que me pede para fazer um pedido, assim, quase sussurrando no ouvido: “Amor, posso te pedir uma coisa? Posso mesmo?”
Um castelo na Inglaterra?
Sim, eu dou na hora.
Sim, eu opero o milagre.
Como no pára-choque, o que você pede chorando que não faço sorrindo?!
Pede, benzinho, pede tudo.
Que eu largue a boemia,pare de beber e me regenere???
Pede, minha nega, que o amor tudo pode.
Mesmo as que têm mais poder de posse que todos nós não escapa de um belo pedido.
Com estas, as mais poderosas, tem ainda mais graça. Elas pedem só por esporte, o que não lhes comprometem a pose e muito menos a independência.
Não é questão de poder ou dinheiro.
O charme e o que importa é o pedido em si, o romantismo que há guardado no ato.
Os melhores cremes da Lancôme? Vou a Paris agora. Estou pronto.
Eu lhe peço: me pede.
Café da manhã na cama todas as manhãs?
Já estou arrumando os potinhos de geléia e de olhos na cafeteira.
Champanhe todas as noites?
Sim, terá, e sempre à luz de velas.
Que eu abra a porta do carro, sem que você corra risco de parecer uma nostálgica?
Abre-te Sésamo!
Puxar a cadeira?
Só se for agora.
Reservar mesa para jantar fora?
Acabei de providenciar.
Peço: me pede!
Não pede mimos baratos, pede atenção, essa mercadoria tão cara e tão em falta no mundo de homens e mulheres.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h55
[]


Vontade filha da mãe.

De Tati Bernardi.

Me falaram que a da felicidade não pode tomar muito sol e nem receber água
todos os dias, mas precisa de luz e de um pouco de água dia sim, dia não.
Somo a tudo isso beijinhos, carinhos e palavras ditas baixinhas, perto do
caule. Outro dia cheguei ao cúmulo de ninar o vaso, o que meu deu uma
baita dor nas costas considerando que a planta, contando com toda a terra,
deve pesar uns 18 quilos.
A comigo ninguém pode é cheia de querer se esconder. E eu respeito isso.
Um pouquinho só de sol que recebeu, em uma das folhas, queimou.
Conversei com ela ontem, daquele jeito humilde que ela gosta: de joelhos e
preocupada. Agora ficou tudo bem, sei disso porque ontem nasceram duas
novas folhinhas. Fiquei tão feliz que cantei uma música para ela. Das minhas
filhas ela é a menos meiga, mas a mais corajosa. Tenho uma sensação boa de
que me protege de alguma coisa ruim. Dessas coisas ruins que a gente nem
sabe explicar o que é, mas entram por baixo de nossas portas.
Minha cachorra odeia abraço. Mas o que eu faço se sou a pessoa mais feliz
do mundo quando ela junta as patinhas atrás do meu pescoço e deita a
cabeça no meu ombro? Eu fecho os olhos e imagino que em vez de um
cachorro é um nenê lindo usando uma roupinha felpuda. Mas logo um latido
ou mesmo uma ameaça de mordida defensiva me tiram a ilusão e volto a me
sentir uma idiota: que porra ta acontecendo comigo?
Ontem terminei um projeto longo, daqueles que a gente fica meses parindo.
A sensação foi incrível. Cada folha que saia da impressora era mais um
pedaço do DNA criativo do meu filho. Juntei todo o trabalho e, quando dei
conta do que estava fazendo, percebi que estava sentindo o cheiro da nuca
das folhas sulfites. Só faltava bater nas costas do papel “chamequinho” pra
ver se ele arrotava. Bizarra. Tati, você anda bizarra.
Quando um homem olha pra mim, na rua, com aquela cara de “te comia
muito”, tenho vontade de gritar “então me faz um filho agora seu merda”.
Caguei para todos os homens do mundo que querem me comer sem rastros.
E caguei também para os que querem me amar por uns 10 anos até me
darem um filho. Eu quero um filho AGORA. Por isso caguei para todos os
homens do universo. Já que nenhum homem normal e equilibrado do planeta
vai querer me dar um filho agora, caguei pra todos eles.
Já faz meses que não vou a festas, baladas ou coisas do tipo. Paro em frente
as festas e penso: e por acaso pega bem a uma mãe de família, a uma mãe de
recém nascido, a uma grávida de sete meses, pegar essa fila cheia de gente
ensebada e entrar nesse inferninho para ficar a noite inteira me esfragando
em desconhecidos para tentar me locomover? Claro que não! Aí dou meia
volta pra casa. Aí chego em casa e fica esse vazio. Não tem filho nenhum nem
dentro de mim e nem fora de mim.
E caio na risada, depois caio no choro: que porra é essa que ta acontecendo
comigo? Eu lá quero filho agora? Óbvio que não. Ainda sou tão nova, ainda
tenho tantas viagens para fazer, tantos garotos para namorar, tanto dinheiro
para ganhar, tanto trabalho a fazer. Óbvio que não quero um filho agora.
Segundos depois acho tudo um lixo. Essas roupas modernas, esse dinheiro
guardado, esse dinheiro torrado em roupas modernas e viagens modernas.
Esses amigos blasés, esse mundinho das festinhas e baladas. Esses garotos
pra namorar e o buraco oco que fica depois. Todo e qualquer trabalho jogado
no mundo, sem uma única pessoa pra assistir comigo o meu sucesso ou o
meu fracasso e simplesmente sentir amor. Tudo lixo. Lixo. Lixo.
Eu só queria uma família. Essa é a verdade. Uma família minha, construída
por mim. Cansei de todo mundo e de todos os lugares. Cansei de ser menina,
adolescente, jovem. Eu só quero ser mulher, mãe. Cansei de fazer sexo sem
amor. Cansei de conquistar os vapores podres que deixam marcas que
ninguém vê mas voltam como fantasmas que fedem. Cansei de tudo que não
fica, que não engorda, que não frutifica, que não continua. Cansei de fechar a
porta sabendo que é mais uma porta que não se abre. Cansei de perder aos
poucos a pureza e ganhar aos poucos desespero.
O relógio biológico, como dizem, bateu. E isso é bizarro, é engraçado, é
louco, é assustador. E eu se fosse homem correria 100 metros rasos de mim.
Mas ainda mais bizarro, penso cá eu com meus hormônios que não me
deixam pensar, é se assustar com uma pedido tão simples da vida: mais vida.
E volto a olhar minha barriga seca no espelho e a me perguntar: eu queria
tanto o mundo fora de mim, por que agora quero tanto o mundo dentro de
mim?
 
Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 02h23
[]


Um roteiro.

De Carlos Castelo.

Finalmente botei ponto final na sinopse do meu roteiro para um filme de ficção científica.

Ficou assim.

Um belo dia, num país longínqüo, um detento vai se confessar com o padre do presídio. Acaba descobrindo que o religioso está envolvido com corrupção de menores.

Mais tarde, o delegado e o juiz que interrogavam o pároco também são arrolados por aceitar propina.

Nesse meio tempo, sai nos jornais que toda a Câmara dos Vereadores da cidade onde fica o presídio está envolvida no caso.

Um ministro do Supremo Tribunal Federal tenta salvar a pele dos políticos e se atola no mar de lama da maracutaia.

Jornais, tevês e rádios começam a repercutir a notícia.

Mas os magnatas da mídia estão devendo pesado ao Fisco. E passam a ser caçados pela Polícia Federal.

Numa fuga espetacular, conseguem se refugiar na Suíça comprando salvo-condutos de um cônsul prevaricador.

O ministro da Justiça entra na história. Manda agentes federais prenderem o cônsul.

O diplomata, por seu lado, ameaça dar com a língua nos dentes sobre os bastidores governamentais. Só não vai à imprensa porque ela foi abandonada pelos donos.

Para não envolver o alto escalão no "imbroglio", o ministro deixa o cônsul partir para o exílio. Desde que ele leve o sobrinho do diretor da PF na comitiva. O rapaz está envolvido com o contrabando de escravas brancas para o Exterior.

A imprensa internacional revela o escândalo. E pede um esclarecimento urgente ao poder público.

O presidente do Congresso está envolvido num outro "affair" de maior calibre.

Pede ao vice-presidente que sirva de porta-voz da Nação, amarrando um acordo com parlamentares e fazendo interlocução com os jornalistas do mundo inteiro.

De uma hora para outra, o vice some misteriosamente.

A pressão pela resolução definitiva do caso aumenta. Fala-se em monitoramento da ONU.

Nesse momento, descobre-se que o presidente da República é primo do padre.

O filme acaba mostrando o detento que se confessara com religioso corrupto num dos longos corredores do presídio.

Ele vai andando e assobiando um samba antigo do Cartola.

Sobem letreiros.

É o fim.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h52
[]


Planos.

De Nelson Botter Jr.

 

Ele veio preocupado a viagem inteira, não conseguiu relaxar um segundo sequer. Contas atrasadas, empréstimo no banco, três mensalidades do colégio das filhas não pagas, o mundo caindo em sua cabeça. O vôo era relativamente rápido, mas teve tempo de repensar algumas coisas e planejar outras. Decididamente mudaria sua vida a partir daquele dia. A primeira coisa a fazer seria procurar alguns antigos contatos da época de faculdade, gente amiga que se perde pelo caminho. Hoje, tinham importantes posições em empresas de ponta e alguém lhe conseguiria um emprego melhor. Camaradagem é a melhor moeda dos tempos modernos, ele pensava, enquanto o sinal de apertar os cintos piscava no painel. Assim que chegasse em casa começaria os contatos e, com certeza, em menos de dois meses liquidaria essa situação terrível. Nunca havia devido um centavo para ninguém, aquilo era a morte para ele. E realmente foi. Ao tocar o solo, o avião não freou o suficiente, varou a pista e todos os planos dele se foram num piscar de olhos.

 

Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 08h48
[]


Ai meu Deus.

De Antonio Prata.

Michaella, você não me conhece, sou amigo da sua irmã, a Jô. Na verdade, você não se chama Michaella e nem a sua irmã, Jô. É que eu quis escrever uma coluna especialmente para você, mas achei que seria muito invasivo. Assim, troquei os nomes, para ninguém ficar sabendo. (Só você, sua irmã e eu, que até o final do texto responderei – caso me chamem – pelo nome de Joaquim, para também entrar na dança).

A Jô voltou ontem da sua cidade e disse que você está apaixonada pela primeira vez na vida. Que você está desesperada, não sabe o que fazer, nunca falou com o cara ao vivo mas, quando ele aparece no ICQ, sente as pernas bambas, dor no estômago e esquece subitamente o português. Pensei em escrever algo que te acalmasse, que te ajudasse. Gostaria de dizer: fica tranqüila, Michaella, é assim só da primeira vez. Depois passa. Mais tarde você saberá exatamente o que fazer diante do cara, o que falar, como seduzi-lo. Não haverá mistério, não haverá nervoso, não haverá pernas bambas nem palpitações, vontade de sair correndo ou 24 horas de arrependimento por ter dito aquela frase e não outra mais perfeita.

Infelizmente, logo vi que não tinha jeito. Aos 13, aos 31 e aos 113, apaixonar-se é isso aí que você está vendo. (Ou que não está vendo, pois algumas paixões intensas causam cegueira, mudez, gagueira e surdez). Você não sabe o que falar pro cara no ICQ? Tem medo que ele te ache boba, imatura, desinteressante? Pois a Jô, eu, a Xuxa e o rei da Espanha, aposto, nos sentimos igualzinho.

Tem coisas que, com alguma sorte e boa vontade, a gente aprende na vida. A dizer não, a dizer sim, a fazer arroz, feijão e as pazes com amigos. Aprende também a mandar uns folgados plantar batatas, aprende que a capital da Suécia é Estocolmo, que a estrada para o Rio é a Dutra e para Ubatuba é a Ayrton Senna. Mas o que fazer quando a gente ama muito uma pessoa, como falar “oi, tudo bem, e aí, beleza?”, sem achar que está babando ou tremendo ou falando coisas desconexas como “mostarda bla bla bla Comandatuba tiros flops?”, isso a gente morre sem saber.

Bom, pensa você, se não tem nada para acrescentar, Joaquim, por que escreveu essa coluna? Talvez porque, sabendo que isso acontece com todo mundo, você fique mais tranqüila. (Mais ou menos como quando a professora diz que quem não levar o livro de biologia não poderá entrar na classe amanhã, aí você esquece o livro, fica desesperada e só se acalma quando descobre que um monte de gente também não levou. Por que acalma? Estar ferrada em grupo é melhor do que estar ferrada sozinha? Acho que sim.) É isso, Michaella. Você está ferrada. Estamos todos ferrados. Parabéns. Não existe nada melhor na vida. Nem mais difícil. Bem vinda.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h09
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Deixa como está.

De Milly Lacombe.

Poucas horas antes do acidente com o Boeing da TAM, nosso ilustríssimo presidente estava entregue a sua atividade favorita em Brasília: o discurso. Fazendo uso das analogias infantis de que tanto gosta, soltou a seguinte frase quando comentava as recentes derrapadas verbais do ministro Guido Mantega: “Em determinados cargos, a gente faz o que pode. E, se não pode, deixa como está para ver como é que fica.”
Que outra observação melhor definiria sua administração?
Se a intenção é ver como é que fica, podemos colaborar com o radar presidencial.
Fica assim:
200 mortos no acidente em Congonhas.
149 mortos no acidente da Gol.
Aeroportos que privilegiam a reforma de lanchonetes e setores de check in em detrimento da segurança e da reconstrução da pista.
O senado parado porque seu presidente, acusado, entre outras coisas, de ser lobista de empreiteiras, se recusa a largar a boquinha.
Ministro, já citado acima, que explica a crise aérea dizendo se tratar de crescimento econômico.
Ministra que manda passageiros, acumulados como gado em sanguões de aeroportos, relaxarem e gozarem.
Outro ministro que, confrontado a falar sobre a crise, prefere reclamar publicamente de seu salário de 8 mil reais.
É mais ou menos assim que fica se optarmos por não citar outras pataquadas de seu governo.
Eu não votei no Lula. Aliás, eu nuca votei no Lula. Simplesmente porque não via nele um homem capaz de administrar com o mínimo de competência. Não votaria nele para síndico do meu prédio, não votei nele para presidente do meu país. Acho que adoraria sair com ele para tomar cerveja e falar de futebol em uma mesa de bar. Batendo papo informal, perguntaria como exatamente conseguiu perder o dedinho da mão esquerda em uma prensa. Uma façanha, se imaginarmos como funciona uma prensa (mais ou menos como aquelas que vemos em lavanderias e são usadas para desamarrotar as roupas). “Me mostra como foi o acidente de trabalho”, diria a ele. Porque sempre me intrigou saber detalhes sobre essa passagem dramática da vida de nosso comandante. Justamente o inutilíssimo dedinho da mão esquerda! É realmente sensacional. Enfim. Ao lado dele, em uma mesa de bar, jogaria conversa fora. Mas jamais confiaria ao homem a administração de qualquer coisa que me dissesse respeito. Amigos diziam que eu era preconceituosa, que me negava a eleger um homem do povo para ser meu líder.
O que eu me negava a fazer, e agora talvez meus amigos entendam, era eleger um homem do povo para aparelhar o estado, nomear camaradas de partidos para cargos técnicos (e isso em todos os escalões, coisa que nenhuma outra administração havia feito), manipular o povo e censurar a mídia. Não era preciso ser gênio ou vidente para saber que isso tudo aconteceria. Não era preciso ser gênio para saber que o PT não tinha nenhuma intenção em administrar bem o país: quanto mais ignorante o povo, maiores as chances de que eles, os camaradas, se perpetuassem no poder e retroalimentassem a máquina estatal e tirana que estavam criando. Seu bolsa-esmola foi a cartada certeira para chafurdar as classes menos privilegiadas na lama da ignorância. Essa mesma classe – que, graças aos programas de governo do PT, jamais transcenderá camadas sociais, mas está satisfeita em fazer duas refeições ao dia – o reelegeu. Essa mesma classe não voa de avião, não vê TV a cabo, nem lê jornal: não sabe de nada. É para eles, os que foram sedimentados na rabeira da sociedade, aqueles que nunca terão ensino ou oportunidade na vida, que Lula fala em seus discursos de frases débeis-mentais. Eles estão ali, como bichos, devidamente alimentados, mas sem saber o que está acontecendo a sua volta, sem saber que poderiam mais, que mereciam mais. Esse povo convenientemente ignorante o reelegeu e é completamente incapaz de entender o que tem a ver um acidente de avião com o presidente que fala a linguagem deles.
Claro que o governo Lula não inventou a corrupção: convivemos com ela há 500 anos. O que o governo Lula inventou foi uma mistura que não conhecemos nem no período militar: corrupção em níveis jamais vistos, incompetência e inoperância administrativa, arrogância verbal (e gestual) e descaso público.
O que aconteceu em Congonhas na noite do dia 17 de julho guarda bizarras semelhanças com o 11 de setembro: um avião, um prédio destruído, centenas de mortos, um país de luto. Uma diferença apenas. No nosso caso, o terrorista é o governo. No nosso caso, o terrorismo vem de quem deveria zelar por nossa segurança e bem-estar.
Eu esperava quase tudo isso da administração pública de um homem incapaz, ignorante e cheio de cacuetes ditatoriais. O que eu não sabia é que a administração desse homem do povo terminaria seu ciclo tão suja de sangue: mais de 300 brasileiros assassinados por sua gestão negligente. Dessa vez, ele perdeu bem mais que o inútil dedinho da mão esquerda.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h36
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Perguntas aos assassinos dos ares

Hoje, excepcionalmente, publico no lugar de minha crônica, a coluna do jornalista Carlos Brickmann, que traduziu com perfeição meu sentimento atual

1 – Diz a TAM que o Airbus pode funcionar sem o reversor – equipamento que ajuda o jato a frear – por dez dias. Por que dez, e não onze, doze, ou nove?

2 – O avião precisa ou não do reversor? Se precisa, como é que voa com o reversor enguiçado? Se não precisa, por que a Airbus Industries o instala?

3 – Imagine o caro leitor que seu mecânico o informou de que o automóvel está com problemas nos freios traseiros. Mesmo assim, o caro leitor sai de carro e se envolve num acidente. É correto afirmar que a falta dos freios traseiros não foi importante, já que os freios dianteiros continuavam funcionando bem?

4 – O Governo Federal liberou a pista de Congonhas sem o grooving, as ranhuras que facilitam o escoamento da água. O grooving é ou não necessário? Se é, como a pista foi liberada sem ele? Se não é, por que vão fazê-lo agora?

5 – O Governo Federal diz que Congonhas recebe vôos em excesso, acima de sua capacidade. Considerando-se que a Infraero administra o aeroporto, que a ANAC regula a aviação civil, e que ambas fazem parte do Governo Federal, por que permitem excesso de vôos?

6 – Congonhas tem a pista relativamente curta há mais de 60 anos. Lá sempre choveu, e a drenagem das pistas nunca foi das melhores. Por que, de repente, começam a ocorrer problemas, derrapagens e, finalmente, a tragédia?

Quanto vale a vida

Congonhas fica numa área densamente urbanizada, onde o tempo é instável, com muita garoa, chuvas, neblina. Precisa de equipamento moderno. Já existe o ILS (Instrument Landing System) 3, que permite pouso por instrumentos, sem teto. Congonhas só tem o ILS 1, já antigo. O ILS 3 custa algo como quatro milhões de dólares – menos do que custou a reforma do terminal de passageiros.

Mais detalhes sobre o funcionamento de Congonhas e suas deficiências estão no excelente artigo "Erros, omissões e fatalidades marcam trajetória do Boeing da Gol ao Airbus da TAM", do jornalista Antônio Machado, no endereço eletrônico www.brickmann.com.br.

Dinheiro, há

O orçamento da Câmara dos Deputados aumentou, neste ano, R$ 274,5 milhões – ou seja, estão previstos gastos superiores em quase US$ 150 milhões aos do ano passado. Imaginemos que nossos parlamentares concordem em gastar só 140 milhões de dólares além do que se gastou em 2006. Sobraria o suficiente para comprar um ILS 3 moderníssimo para Congonhas e sobraria dinheiro.

Quem te vê...

O presidente da TAM, Marco Antônio Bologna, disse em sua entrevista coletiva que a empresa dará toda a assistência à família das vítimas.

...quem te viu

A TAM ainda está brigando com a família das vítimas do acidente do Fokker 100 (aquele que caiu no Jabaquara, SP, logo depois da decolagem). A queda, que matou 102 pessoas, ocorreu em 31 de outubro de 1996 – há quase onze anos. Um exemplo: a casa do jornalista Jorge Tadeu da Silva, num local valorizado de São Paulo, foi destruída no acidente, e a TAM lhe ofereceu 14 mil reais – o preço de um bom barraco numa favela paulistana. Na Justiça, o jornalista pleiteia indenização maior. Ganhou nas duas primeiras instâncias, e a TAM recorreu ao STJ.

Ói eles em nóis

Os gestos obscenos do professor Marco Aurélio Garcia não devem ser julgados pelo critério da obscenidade, mas pela falta de compostura. Não se festeja um momento de luto nacional. Mesmo que não coubesse qualquer parcela de culpa ao Governo (o que, em muitos aspectos, parece excesso de otimismo), a festa é inaceitável. Ao professor, faltam-lhe modos – e ele lida com diplomacia.

Top, top, top

O senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho, homem correto, sobre quem jamais houve acusação (seja de desonestidade, seja de falta de equilíbrio), comentou o “ói nóis neles” do professor Garcia: “É claro que a culpa é do Governo. E, ainda que não fosse, comemorar é uma bofetada na cara dos brasileiros”.

Dúvida cruel

O que é mais chocante: a Dança da Pizza da então deputada Ângela Guadagnin ou a gesticulação do assessor presidencial professor Marco Aurélio Garcia?

Nova era

Um homem contraditório, este Antônio Carlos Magalhães, que morreu anteontem em São Paulo. Foi amigo de Juscelino Kubitschek e dos militares que o cassaram. Foi alternadamente amigo e inimigo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Apoiou com firmeza a ditadura militar e foi um dos que trabalharam por sua queda. Coronel, como antigamente, levou modernidade à Bahia. E ao menos numa coisa, vemos hoje, tinha razão: nunca acreditou em Waldir Pires.

Definição

A frase é do jornalista Gilberto Dimenstein, que por muitos anos cobriu as atividades de ACM em Brasília: “Não se deve ficar muito perto dele, para não se comprometer, nem muito longe, para não ficar sem informação”.

Carlos Brickmann

Henrique escreve no Blônicas e está indignado.
Visite seu
site, o blog da mãe, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 17h44
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Quem fala?

De Leo Jaime.

Alguém atende ao telefone e me pergunta, ao ouvir-me dizer com quem quero
falar: quem deseja? Logo me vejo transportado para o mundo das idéias, para
o que o populacho chama de papo cabeça. Quem deseja? Tem prêmio se disser a
resposta certa? Há resposta? Tento, um tanto acanhado: o homem, ou o sujeito
- caso a abordagem seja mais psicanalítica; o indivíduo deseja; é inerente
ao indivíduo desejar. Fico aguardando um longo instante para que do outro
lado da linha se confirme a compreensão do que disse bem como a aprovação da
resposta.
Alguns segundos se passam até que a voz longínqua tenha tempo para
reformular a pergunta: quem quer falar com fulano? Ah, então era isso! Nada
de indagações existencialistas, o que se quis dizer com o ³quem deseja²
estava longe de ser uma charada, senha ou tentativa de aprofundamento da
relação. Era só preguiça de dizer o necessário, ao meu ver, complemento:
³quem deseja falar com fulano?².
Digo o meu nome e volto ao mundo das dúvidas. A voz me pergunta
simplesmente: ³De onde?². O que será que devo dizer? Onde nasci? Onde
conheci o tal fulano? Onde estou no momento? Onde moro? Enquanto as
possibilidades vão se multiplicando divido o pensamento com a possibilidade
de estar mesmo sendo sondado para uma possível amizade afinal a pessoa com
quem falo se interessa mesmo por mim, minha estória e opiniões. Sorteio uma
das possíveis respostas e fico aguardando o que virá em seguida.
A voz, sem manifestar alguma emoção, quase automática, antes de silenciar
ordena: ³calma aí².
Percebendo que estou falando com alguém que não fala a mesma língua que eu,
embora fale português desde que nasceu, assim como eu, compreendo que a
ordem substitui o ultrapassado ³um segundo², ou o mais sincero ³um momento,
vou ver se fulano está² que costumava ser dito em tais ocasiões. Concluo
isso por fazer uma rigorosa auto-análise e me certificar de que não estou
nem um pouco nervoso, portanto a ordem para que me acalmasse não era para
ser seguida ao pé da letra.
Sou um colecionador de palavras e alegrias. São as coisas que gosto de
colecionar. Palavras e seus significados. Um acinte dizer que existem
sinônimos para quem, como eu, procura a peculiaridade de cada palavra. As
alegrias também, são todas diferentes e particulares. Só se vive uma alegria
uma vez. Enquanto ninguém volta ao telefone para dar continuidade à
conversa, fico pensando nisso. No quanto a palavra vai perdendo o seu valor.
Os vocabulários vão aumentando e não há como detê-los e, ainda assim, é
muito comum a percepção de que cada vez mais é comum encontrar ou papear com
quem usa o mínimo de palavras.
A língua evolui, se modifica, as palavras vão sendo metamorfoseadas e, no
entanto, quando vejo o povo da internet escrevendo naum quando escrever
corretamente o não seria possível e igualmente trabalhoso, sinto que os
diálogos terão de ser cada vez mais breves e superficiais. Começo a perceber
como é possível ser estrangeiro para com a própria língua vivendo no país de
origem. Lamento isso como lamento que haverá uma geração cuja trilha sonora
seja música instrumental sem melodia e feita em série, de modo industrial, o
que impossibilita a memorização. Não haverá para estes as canções de sua
história ou as marcas, os ícones de cada fase ou romance.
Será o fim da literatura? O fim da poesia? Será que ninguém mais vai
escrever uma carta de amor? Será que ninguém saberá escrever aquele bilhete
que enche os olhos de quem os lê? Aqueles que fazem os olhos ficarem
molhados enquanto a mente voa?
Fico distraído pensando nisso tudo e desligo rápido antes que alguém fale do
outro lado. Esqueci para quem tinha ligado.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h40
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Crônica que virou desenho animado.

De Nelson Botter.

A crônica "O Mundo dos Negócios", que foi postada aqui ano passado, e que faz parte do meu livro "Amores Avulsos" virou um curta-metragem de animação. Com produção da Tortuga Studios e direção minha e do Fernando Alonso, o curta foi selecionado para o Festival Ibero Americano de Cinema e Vídeo, o Cinesul 2007, que aconteceu no RJ.

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h04
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Balada do caos aéreo.

De Carlos Castelo.

A sala de espera é do povo
Como o céu já foi do avião
O céu foi do avião…

Em São Paulo, Congonhas
Só quem voa é cegonha
Lá no de Rio Branco
Avião só no tranco
A pista de Brasília
Mais parece uma trilha
No Eduardo Gomes
Acabaram-se os comes
O Santa Genoveva
É o caos e a treva
No Zumbi dos Palmares
Não tem nada nos ares
Já o Pinto Martins
Tá pior que o Confins
E o Confins, confirmado
Tá parado, parado
Não se ouve um motor
No lá de Salvador
No Marechal Rondon
Só comendo bombom
Embarque em Campo Grande
Paciência de Gandhi
E do Aguiar Salles
Por favor, nem me fales
No de Aracaju
Tá o maior sururu
E check-in demorado
É no Cunha Machado

A sala de espera é do povo
como o céu já foi do avião
o céu foi do avião…

Diz que no Castro Pinto
Ninguém aperta o cinto
Júlio Cesar, Belém
Vôo na hora não tem
Ai, o Afonso Pena
Tá da gota serena
Gilberto Freyre então
Não tem mais solução
No Petrônio Portella
Já botaram cancela
Tom Jobim tão dizendo
Que só vai se benzendo
No Augusto Severo
No saguão eu te espero
Pista de Belém Novo
Tá vazia, meu povo
Dá a maior canseira
Ir ao Jorge Teixeira
Foi no de Boa Vista
Que invadiram a pista
Vôo no Hercílio Luz
Nem rogando a Jesus
Sabe o Franco Montoro?
Tá comendo o couro
Viracopos, Campinas
só vôo pras Filipinas
No de Palmas, meu nêgo
Ninguém mais tem sossego

A sala de espera é do povo
como o céu já foi do avião
o céu foi do avião…

OUÇA AQUI versão com Luís Couto.

Carlos Castelo é cronista multimedia do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h12
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Das mulheres que roubam a memória das outras mulheres.

De Xico Sá.

Algumas mujeres aparecem nas nuestras bidas não para comer nuestros ojos, como los cuervos, pero fazem algo pior ainda, nos levam a  memória de todas las outras mulheres, inclusive das que acabam de passear na nossa frente, num ritual para lá de todos os catimbós e antologias de ressacas.

“A cidade tosse como um índio com febre.”

Não faço a menor idéia porque Esperanza sussurrou justamente aquele verso e seguiu faceira como quem negocia almas na balança comercial mais favorable de las maldiciones.

Talvez nunca tenha lido nada na vida, melhor para ela, só há beleza e susto numa certa cota de treva e ignorância, o resto é tudo a mesma picaretagem babélica de sempre, livros, livros, cinema, cinema, cabeça, cabeça, fodam-se os guardados e suplementos nunca lidos, não eram mesmo necessários, outro cavaleiro hay hecho una fogueira de todas as pastas e letras mortas, nem me aqueceram os pulmões numa madruga de 4,5º de uma quinta dos infernos deste pueblo envenenado.

Lá estão, deixa eu limpar meus óculos, lá estão, como é linda, Esperanza, o poeta Roberto Piva e seu amigo Píer Paolo, esquina do bairro de Santa Cecília, San Pablo, caras de formigas de tanto doce comerem.

Escute o que diz o poeta, meu anjo:

“Não acredito na dialética, o que existe são oposições irreconciliáveis”.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h41
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O auge e a decadência.

Por Lusa Silvestre.

Pra você ver a ironia da vida. Repara: quando o homem acumula cultura
adquirida em anos e anos de leituras, das mais estúpidas pra avivar um
conversê no boteco às mais profundas para dilacerar coronárias femininas;
quando a gente finalmente aprendeu a falar línguas não porque a gente
queira, mas porque o emprego e a internet obrigam; quando temos paciência
para ouvir e malandragem para balançar a cabeça fazendo a-hã como se
prestássemos atenção; quando já pensamos duas vezes antes de olhar para uma
bunda porque pode dar discussão de relacionamento; enfim estamos melhores
como parceiros e tudo, aí é tarde: temos barriga. Parece praga, quando
estamos finalmente polidos na cultura e no caráter, quando somos o melhor
que a natureza pode oferecer às mulheres (melhor que isso não fica); aí vêm
com o ônus de uma barriga mole, quem sabe branca, de repente peluda, mas sem
dúvida meio tira-tesão. Percebe? No nosso auge cultural, econômico,
religioso e tudo mais, estamos conhecendo o começo da nossa decadência
física; estamos na pontinha da queda-livre etária desgovernada.

A primeira conclusão que eu tiro é que amadurecer engorda. Ler um livro,
nossa, como engorda. Sentar na frente da lareira ou deitar na rede com um
livro na direita e um copo de gin tônica na canhota, sério, umas oito mil
calorias. Ter conta para pagar, e portanto ter ansiedade, isso também é
muito calórico. Eu, por exemplo, toda vez que chega o IPVA e o seu comparsa,
o IPTU, corro pra geladeira tomar sorvete. Levar a sério o aquecimento
global, e eu levo a sério porque tenho filhos, faz o sujeito querer pensar
na vida, e isso acontece só quando eu estou tomando cerveja. Ver filmes no
cinema engorda demais. Só não engorda mais porque aquela pipoca que vendem
no cinema ­ e só vendem daquelas ­ custa um absurdo. Filme no DVD, então ?
Eu nisso gosto de variar o modo de ganhar peso: quando é um filme-cabeça,
como sorvete de chocolate com amêndoa. Se é comédia, filme independente
americano, House, esses trens leves, Cookies and Cream ­ do branco, presta
atenção que o outro não é a mesma coisa. A sorte que eu tenho, eu e muitos
de nós (os semi-gordos), é que desde Luzia, a primeira brasileira, que o
gênero feminino se mostra mais amadurecido que o masculino. Aliás, é a minha
segunda conclusão.

Não sei porque, talvez o Chico Buarque que tanto conhece de mulher saiba,
mas o fato é que tem muita mulher que não liga muito pra essa coisa boba de
barriga. Para muitas, se o sujeito leva bem uma conversa, decide coisas
importantes com humanidade, mostra a responsabilidade que se espera depois
dos vinte e cinco, corre atrás da vida porque assim que se faz, a mulher
releva. Se tiver bom humor, então, ah, aí pode até ser gordo e fanho. Claro,
tem que ter um mínimo de decência e vaidade; a moça merece. Ninguém aqui
quer correr a maratona de Nova Iorque, mas custa caminhar um pouco todo dia
de manhã ? Não precisa frequentar a academia ­ desde que se mantenha a
elegância. Há limites. Se começar a aperecer o cofrinho toda vez que ele
for sentar, é bom avisar. Barriga até vai, mas cofrinho é demais.

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 08h52
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Preciso de você, seu filho da puta

De Henrique Szklo

Descobri porque a minha vida não vai pra frente de jeito nenhum. Não que isso tenha resolvido alguma coisa, pelo contrário: de repente descortinou-se a solução de todos os meus problemas financeiros, porém, à custa de um sacrifício que não sei se quero enfrentar. Não, não é trabalhar. Com essa desgraça eu já me acostumei. O buraco é muito mais embaixo.

Todo mundo sabe, e se não sabe finge que sabe, que para ganhar dinheiro no Brasil você precisa ser um pouco filho da puta. Ou muito, dependendo das quantidade de dinheiro que lhe apetecer. Ou seja, para se juntar uns trocados neste país você precisa dar um tombo em alguém, ou muitos alguéns de preferência. Precisa mentir, prevaricar, corromper e ser corrompido, vender influência, enfim, é preciso ser um filho da puta. Mas não um filho da puta comum. É preciso ter a consciência tranquila. Deitar toda noite a cabeça no travesseiro e achar que essa sujeirada é normal, que todo mundo faz, que só os mais espertos sobreviverão. Pois então, um filho da puta comum não conseguiria viver com esse peso na consciência. É preciso ser um filho da puta vocacional.

Neste contexto, a grosso modo, existem 3 tipos de pessoas: 1) Aqueles que acham normal viver com as mãos na lama; 2) Aqueles que acham um absurdo, mas que frente à certas circunstâncias acabam cedendo às pressões e se lambuzando também e; 3) Aqueles xiitas da ética, que em nenhuma hipótese se sujeitam a mergulhar em chiqueiros morais. Mesmo quando estão passando pelos maiores apertos, esses fundamentalistas da honestidade se recusam a enveredar pelo caminho do pecado. Bem, eu estou e sempre estive neste último grupo. Posso dizer que sou de uma facção mais liberal, que comete alguns pecadilhos, mas que na essência mantém a alma pura e sôfrega. Afinal, não sou de ferro e sou brasileiro. Então, culturalmente estou perdoado.

Pois bem, é claro que os membros deste grupo ao qual eu pertenço e defendo jamais acumularão riqueza material. Uma coisa inviabiliza a outra. E mais: como todo fanático que se preza, eu não aceito os outros grupos e sou incapaz de conviver com seus membros. Todas as pessoas as quais eu me associo de alguma forma, são gente boa, honestos, limpos, portanto, incompetentes, incapazes de enxergar cifrões, por exemplo, no sorriso de uma criança. Este bando de bundas-moles vão morrer na praia, de mãozinhas dadas, enchendo a boca de ar e dizendo com orgulho”sou honesto”. Grande merda.

Se pelo menos eu me associasse a um filho da puta qualquer, minhas chances de vitória seriam muito maiores. É claro que eu teria de fechar os olhos para aquelas coisas que eu sei que o filho da puta faria, mas seria para o meu próprio bem. O problema é que eu não consigo. Filhos da puta me dão alergia. Urticária. Tenho vontade de esganar. E mesmo se eu tentar desfarçar. O filho da puta vê em meu olhar que eu o desprezo, que eu o considero um nada. Se pelo menos existisse um híbrido, que fosse filho da puta e não fosse ao mesmo tempo...

Por isso não me resta outra alternativa a não ser me conformar com a pobreza, renunciando totalmente aos valores materiais. É, meus amigos, quem nasceu para papel higiênico nunca chega a guardanapo.

Henrique escreve no Blônicas e é um bom filho da puta.
Visite seu
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Escrito por Blônicas.. às 12h34
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Consulte seu médico regularmente.

De Nelson Botter.

- Você é o São Pedro?
- Sim.
- Santo Deus!
- Não, o Patrão fica no último andar. Tem hora marcada?
- Não, não... - o homem parecia assustado.
- Já sei, você acabou de chegar, né? É novo no pedaço.
- Sim... eu morri?
- Receio que sim.
- Mas, do quê? Estava tudo tão bem! Não consigo me lembrar de nada...
- Deixe-me ver... - São Pedro ligou seu notebook e começou a procurar os arquivos daquele homem.
- Aqui diz que você morreu de infarto.
- Não é possível.
- Está aqui. Veja você mesmo!
- Eu não entendo. Sempre fiz exercícios, me alimentei bem, não tinha uma vida muito estressante, como eu fui morrer de infarto?
- Você consultava seu médico regularmente?
- Não, mas isso não era necessário. Eu não tinha nada, não sentia nada de diferente.
- Para procurarmos um médico não precisamos esperar "algo de diferente". É importante visitar seu médico regularmente, pois a prevenção é o melhor remédio.
- Então eu morri porque não visitava meu cardiologista regularmente...
- Não.
- Não? Então, não estou entendendo.
- Você morreu porque não visitava seu otorrinolaringologista regularmente.
- Como assim? O que o otorrino tem a ver com o meu infarto?
- Simples. Você vinha sofrendo de uma perda de audição. Daí o problema.
- Olha aqui, São Pedro, você vai me desculpar, mas tem alguma coisa errada aí no seu notebook. Não existe uma relação entre perda de audição e infarto.
- Existe, claro. Se enquanto subia as escadas da sua casa, você tivesse ouvido a bagunça que sua mulher fazia com o amante dentro do quarto, tenho certeza que você já estaria mais preparado para o que iria ver ao abrir a porta...

Nelson Botter é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h39
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