COLUNISTAS
MILLY LACOMBE


XICO SÁ

CLÉO ARAÚJO

NELSON BOTTER JR

TATI BERNARDI


LEO JAIME


ANA REBER

HENRIQUE SZKLO

GIOVANA MADALOSSO

CARLOS CASTELO

BIANCA ROSOLEM

LUSA SILVESTRE

EDSON ARAN

SILVIO PILAU


AQUI VOCÊ TAMBÉM ENCONTRA:

Ailin Aleixo
Antonio Prata
Carol Marçal
Cristiana Soares
Evandro Daolio
Gisela Rao
Marcelino Freire
Rosana Hermann
Paulo Castro

E MAIS:
Alexandre Heredia
Ana Paula Ganzaroli
Analice Alves
Edgar Costa Neto
Felipe Soares Machado
Helena Marcolini
Isadora P. Szklo
Klauss Klein
Lívia Venina
Lu Paiva
Luís Couto
Luis Gonzaga Fragoso
Marcelo Ferrari
Marcelo Sguassábia
Mauro Judice
Ricardo Campos Soares
Ricardo Prado
Thaís SBA
Thaty Hamada



ARQUIVO

01/02/2011 a 28/02/2011
01/12/2010 a 31/12/2010
01/08/2010 a 31/08/2010
01/07/2010 a 31/07/2010
01/06/2010 a 30/06/2010
01/05/2010 a 31/05/2010
01/04/2010 a 30/04/2010
01/03/2010 a 31/03/2010
01/02/2010 a 28/02/2010
01/01/2010 a 31/01/2010
01/12/2009 a 31/12/2009
01/11/2009 a 30/11/2009
01/10/2009 a 31/10/2009
01/09/2009 a 30/09/2009
01/08/2009 a 31/08/2009
01/07/2009 a 31/07/2009
01/06/2009 a 30/06/2009
01/05/2009 a 31/05/2009
01/04/2009 a 30/04/2009
01/03/2009 a 31/03/2009
01/02/2009 a 28/02/2009
01/01/2009 a 31/01/2009
01/12/2008 a 31/12/2008
01/11/2008 a 30/11/2008
01/10/2008 a 31/10/2008
01/09/2008 a 30/09/2008
01/08/2008 a 31/08/2008
01/07/2008 a 31/07/2008
01/06/2008 a 30/06/2008
01/05/2008 a 31/05/2008
01/04/2008 a 30/04/2008
01/03/2008 a 31/03/2008
01/02/2008 a 29/02/2008
01/01/2008 a 31/01/2008
01/12/2007 a 31/12/2007
01/11/2007 a 30/11/2007
01/10/2007 a 31/10/2007
01/09/2007 a 30/09/2007
01/08/2007 a 31/08/2007
01/07/2007 a 31/07/2007
01/06/2007 a 30/06/2007
01/05/2007 a 31/05/2007
01/04/2007 a 30/04/2007
01/03/2007 a 31/03/2007
01/02/2007 a 28/02/2007
01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/11/2006 a 30/11/2006
01/10/2006 a 31/10/2006
01/09/2006 a 30/09/2006
01/08/2006 a 31/08/2006
01/07/2006 a 31/07/2006
01/06/2006 a 30/06/2006
01/05/2006 a 31/05/2006
01/04/2006 a 30/04/2006
01/03/2006 a 31/03/2006
01/02/2006 a 28/02/2006
01/01/2006 a 31/01/2006
01/12/2005 a 31/12/2005
01/11/2005 a 30/11/2005
01/10/2005 a 31/10/2005
01/09/2005 a 30/09/2005
01/08/2005 a 31/08/2005
01/07/2005 a 31/07/2005
01/06/2005 a 30/06/2005
01/05/2005 a 31/05/2005
01/04/2005 a 30/04/2005
01/03/2005 a 31/03/2005
01/02/2005 a 28/02/2005
01/01/2005 a 31/01/2005


LIVROS



EM BREVE



Visitantes únicos desde 15/01/2005
Site Meter Add to Technorati Favorites

XML/RSS Feed
O que é isto?

Leia este blog no seu celular


25 coisas que você pode fazer num pronto-socorro público.

De Carlos Castelo.

1. Comentar na sala de espera: “nossa, vem vindo uma maca ali que é tripa pra todo lado”.

2. Distribuir volantes com preços e condições de planos de saúde da rede particular.

3. Deitar no chão, similar uma convulsão e, quando for atendido, dizer que é um “laboratório” para o grupo de teatro do qual você faz parte.

4. Ir até o guichê de atendimento do PS e perguntar se o Serviço de Amputações precisa de um açougueiro com experiência.

5. Gritar do nada: cara, uma barata, pode uma coisa dessas?!!!!!!

6. Gritar do nada: achei um rim, é de alguém?

7. Passar uma rasteira num Doutor da Alegria.

8. Dizer a uma enfermeira que transar com “profissionais de branco” é o seu sonho sexual mais recorrente.

9. Pedir para gelar uma latinha de cerveja no refrigerador de vacinas.

10. Confiscar uma cadeira de rodas e dar um cavalo de pau no meio da sala de espera do Pronto Socorro.

11. Pegar uma bolsa de sangue da Hematologia e fazer uma imitação de Bela Lugosi para os colegas de fila.

12. Sentar numa cadeira da sala de espera e fingir-se de morto.

13. Fazer “uóóóómmmmmmmmm” bem alto com a boca cada vez que uma ambulância estacionar no pátio.

14. Pedir emprestado uma muleta, subir no balcão e imitar o Jimi Hendrix.

15. De cinco em cinco minutos, levantar-se e fingir que vai vomitar sobre as pessoas.

16. Levar seu cachorro e indagar se há atendimento veterinário naquele posto.

17. Colocar uma camisa-de-força e sair andando naturalmente pelas dependências do PS.

18. Levar uma marmita e pedir para esquentá-la na estufa do hospital.

19. Num momento mais silencioso do atendimento aproximar-se de uma enfermeira e dizer em alto e bom som: “COMO ASSIM, MORREU?”

20. Levar um rádio portátil e ficar ouvindo um programa de música sertaneja em volume alto.

21. Promover uma enquete com alguns funcionários do PS: “quem é concursado aqui e quem arrumou emprego com um deputado amigo?”

22. Oferecer-se para fazer um cafuné na emburrada funcionária que distribui as senhas de atendimento.

23. Promover uma pelada "Enfermeiros X Médicos" enquanto os doentes não são atendidos.

24. Perguntar ao médico-responsável porque o nome daquele órgão é “Pronto-Atendimento” se ninguém é prontamente atendido há mais de dezesseis horas.

25. Pintar pontinhos vermelhos no rosto, pescoço e braços e sair cumprimentando todo mundo dizendo: “prazer, varíola”.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h34
[]


Qualé, mané!

De Xico Sá.

É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance, conto, fábula de formiguinha ou pura clandestinidade?

“Qualé  a sua, meu rapaz?!”, indaga a nobre gazela.

E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas.

No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro do filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero y bandeirosos corazones...

Cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico, o cara nervoso, se tremendo como vara verde: “Você me aceita em namoro”?

Talvez nem exista mais.

O amor e as suas mudanças. A maioria dos homens, além de não pedir em namoro, além de não pegar no tranco, ainda corre em desespero diante de uma sugestão ou proposta de casamento feitas pela moça.

O capítulo bom da história é que agora as mulheres também partem para o ataque e, diante de uns temerosos ou acanhados sujeitos, escancaram seus desejos e fazem suas apostas, seus pedidos, põem na mesa os seus desejos e as cartas de intenções.

Era bem bacana esse suspense masculino do “você quer namorar comigo?”

Havia sempre o medo do fora. Um sim, mesmo o mais previsível, era uma festa.

“Quer namorar comigo?”

No tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga.

Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios.

 Mais do que um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o gloss e a força dos membros inferiores.

“Vamos pegar uma tela, amor?”, como se dizia não muito antigamente.

Eis a senha.

Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro.

O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira.

Nada mais simbólico e romântico.

Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas...

Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra.

Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras.

Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, poeta dos melhores e mais líricos.

Palavras, palavras,palavras...

Silêncio, Silêncio, silêncio...

Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.

Xico Sá encanta corações no Blônicas.

Escrito por Blônicas às 16h04
[]


O crucifixo.

De Milly Lacombe.

É prudente que se reconheça o erro. Porque, a bem da verdade, errar, erramos todos, cedo ou tarde. E eu errei ao escrever um precipitado texto que criticava a primeira-dama. No texto, decretei que ela não fez absolutamente nada pelo país na função de esposa do presidente. Disse, inclusive, que tinha conseguido a façanha de ser menos expressiva do que Roseanne Collor. Mas eu me enganei a respeito de Dona Marisa Letícia: soube hoje, pelos jornais, que ela foi comer um Big Mac durante o Mc Dia Feliz - aquela campanha anual promovida pelo Mc Donald’s que destina toda a renda da data a crianças com câncer. Dona Marisa Letícia não apenas esteve presente a uma lanchonete da rede americana durante o dia especial, como tratou de recomendar que sua assessoria de imprensa divulgasse o esforço. E tem mais: nossa primeria-dama comeu um sanduíche inteiro, mesmo sabendo que o Big Mac tem centenas de calorias, e um nível de gordura não recomendado pela saúde pública (que, aliás, na gestão de seu marido, vai muito bem, obrigada). Mais ainda: na saída, levou um Big Mac para o presidente. É realmente tocante o gesto. E eu, que quinze dias atrás escrevi que Dona Marisa Letícia não fazia nada pelo país, tive que engolir essa – sem coca-cola.
Isto esclarecido, vamos ao que interessa.
Repousa na parede da sala dos super-heróis da justiça brasileira, os ministros do STF, um crucifixo. E são tantos os absurdos que vieram de lá nos últimos três dias que ninguém se deu ao trabalho de comentar: o que faz um crucifixo na parede da sala do Superior Tribunal Federal? Não somos um Estado laico? Decisões judiciais não deveriam ser completamente desconectadas de doutrinas religiosas? O que faz, então, um crucifixo na parede?
Claro que, para quem se lembra do ex procurador geral deste país, o sr. Claudio Fonteles, cristo pregado na cruz e depois na parede da sala do STF não chega a surpreender. Claudio Fonteles carregava – e certamente ainda carrega – no peito uma enorme corrente com um crucifixo. E foi esse cristão ativo que, em seu último ato como procurador geral, apresentou, diante do Supremo, uma ação direta de inconstitucionalidade contra a Lei de Biossegurança (aprovada pelo Senado, numa época em que o Senado parecia ainda trabalhar, e não apenas fingir investigar a integridade de seu presidente). Na ocasião, a argumentação do procurador geral não poderia ter sido menos laica: “a Lei ofendia a inviolabilidade da vida, considerando-se que a vida começa na fecundação”. Mas péra lá: a vida começa na fecundação para os cristãos. E a crença deles é tão verdadeira quanto a de um ateu, a de um agnóstico, a de um budista … enfim, exatamente porque não há como se determinar o que é ou não é verdade quando o assunto são crendices é que uma crendice não pode ser usada como argumento judicial. Estado e religião jamais deveriam ser misturados.
Para lembrar, a lei se refere a pesquisas científicas com células-tronco - aquelas muito novas e que ainda não possuem características que as diferenciem de uma célula da pele ou da de um músculo - e que podem ser usadas para gerar outro órgão. Hoje, as pesquisas no país se restringem às células da medula óssea e do cordão umbilical, que são capazes de originar apenas alguns tecidos do corpo, não um órgão. Quantos brasileiros poderiam se beneficiar da pesquisa com células-tronco? Você? Seu filho? Um amigo? Todos nós conhecemos pelo menos uma pessoa que teria a chance de voltar a viver decentemente se as pesquisas pudessem ser feitas.
Assim, uma atitude puramente religiosa barrou a lei. E fica a pergunta: Que vida o ex procurador geral e todos os seguidores da opinião católica pretendem proteger: a que nunca vai existir de fato e de direito, ou a que já existe e está carente de saúde? Ah, o mundo cego da fé, esse lugar tão carente de respostas que façam sentido.
Por tudo isso, ver um crucifixo pregado na parede da sala do STF é para deixar o brasileiro com mais de dois neurônios de cabelo em pé. Troca de mensagens, combinação de votos, suspeita de barganha política envolvendo o resultado desse julgamento, tudo isso é de apavorar. Mas quando, descansando lá no fundo da sala do STF, paira Jesus na cruz, é porque estamos todos, de fato, no inferno. Assim, seja o que Deus quiser.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h50
[]


100% classe média.

De Antonio Prata.

Nós somos ricos?, perguntei à minha mãe, aos cinco anos. Eu achava que sim. Afinal, para mim, os pobres eram aquelas pessoas que eu via com uma prematura angústia, através do vidro de nosso Passat verde musgo, na pequena favela da Juscelino Kubitschek, perto de casa.    Minha mãe disse que não éramos ricos nem pobres, éramos de classe média.

Achei o termo meio nebuloso e confesso que só fui entendê-lo realmente, em suas profundas implicações sócio-econômico-culturais, na última terça, durante o banho, quando o vizinho de cima deu a descarga e a minha água pelou. Eu gritei um palavrão, abri mais a torneira e, enquanto as costas voltavam a uma temperatura suportável, pensei: ah, então é isso.

Ser de classe média significa ter uma proximidade compulsória com os outros e, consequentemente, estar em constante negociação com o mundo. Afinal, você não está entre a minoria que faz as regras, nem junto à massa que apenas as seguem. Eu não imagino, por exemplo,  o Antonio Ermírio numa reunião de condomínio, secando o rosto com um lenço e dizendo, exaltado: “nem vem, Dona Arminda, a vaga do 701 já tava prometida pra mim faz tempo, a senhora devia era cuidar do Arthur que faz um escarcéu com o patinete no playground bem depois das dez”.

Depois que minhas costas pelaram, comecei a me ver classe média a toda hora. Restaurante por quilo, por exemplo. Tem coisa mais classe média? Tudo bem, posso dizer que sou de uma classe média intelectualizada – o que significa que não ponho feijoada e sushi no mesmo prato --, mas seria ridículo negar minhas origens, na fila, diante de uma cestinha contendo “palha italiana” e ouvindo o mantra diário do capitalismo nosso de cada dia: “crédito ou débito?”

Rico não come em quilo nem morto. Ou você consegue imaginar, digamos, Paulo Skaff botando aquele tempero pronto para salada nuns ovinhos de codorna, enquanto aguarda um bigodudo gordo liberar o réchaud de croquetes?

Se um dia tiver de responder a um filho a pergunta que fiz à minha mãe, darei a explicação que ouvi de um comediante americano na televisão: “se no trabalho seu nome está escrito na roupa, você é pobre. Se o nome está escrito na mesa, você é de classe média. E se estiver escrito no prédio, você é rico”. Mas isso é coisa para me preocupar daqui a muitos anos. Urgente mesmo é, na próxima reunião de condomínio, colocar na pauta a questão da descarga do 204. 100% classe média.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h24
[]


A primeira vez.

De Tati Bernardi.

Você sempre me disse que sua maior mágoa era eu nunca ter escrito um
texto sobre você. Nem que fosse te xingando, te expondo. Qualquer coisa.
Você sempre foi o único homem que me amou. E eu nunca te escrevi nem
uma frase num papelzinho amassado.
Você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de abraçar
o mundo quando chega a madrugada. E o único que sempre entendeu
também, depois, eu dormir meio chorando porque é impossível abraçar
sequer alguém, o que dirá o mundo.
Outro dia eu encontrei um diário meu, de 99, e lá estava escrito “hoje eu
larguei meu namorado sentado e dancei com ele no baile de formatura”. Ele,
no caso, é você. Dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu
nunca tendo escrito nenhum texto para você, eu por diversas vezes larguei
vários namorados meus, sentados, e dancei com você. Porque você é meu
melhor companheiro de dança, mesmo sendo tímido e desajeitado.
Depois encontrei uma foto em que você está com um daqueles óculos
escuros espelhados de maconheiro. E eu de calça colorida daquelas
“bailarina”. E nessa época você não gostava de mim porque eu era a bobinha
da classe. Mas eu gostava de você porque você tinha pintas e eu achava isso
super sexy. E eu me achei ridícula na foto mas senti uma coisa linda por
dentro do peito.
Aí lembrei que alguns anos depois, quando eu já não era mais a bobinha da
classe e sim uma estagiária metida a esperta que só namorava figurões (uns
babacas na verdade), você viu algum charme nisso e me roubou um beijo.
Fingindo que ia desmaiar. Foi ridículo. Mas foi menos ridículo do que aquela
vez, ainda na faculdade, que eu invadi seu carro e te agarrei a força. Você
saiu cantando pneu e ficou quase dois anos sem falar comigo.
Eu não sei porque exatamente você não mereceu um texto meu, quando me
deu meu primeiro cd do Vinícius de Morais. Ou quando me deu aquele com
historinhas de crianças para eu dormir feliz. Ou mesmo quando, já de saco
cheio de eu ficar com você e com mais metade da cidade, você me deu aquele
cartão postal da Amazônia com um tigre enrabando uma onça.
Também não sei porque eu não escrevi um texto quando você apareceu
naquela festa brega, me viu dançando no canto da mesa, e me disse a frase
mais linda que eu já ouvi na minha vida “eu sei que você não gosta de mim,
mas deixa eu te olhar mesmo assim”.
Talvez eu devesse ter escrito um texto para você, quando eu te pedi a única
coisa que não se pede a alguém que ama a gente “me faz companhia
enquanto meu namorado está viajando?”. E você fez. E você me olhava de
canto de olho, se perguntando porque raios fazia isso com você mesmo.
Talvez porque mesmo sabendo que eu não amava você, você continuava
querendo apenas me olhar. E eu me nutria disso. Me aproveitava. Sugava seu
amor para sobreviver um pouco em meio a falta de amor que eu recebia de
todas as outras pessoas que diziam estar comigo.
Depois você começou a namorar uma menina e deixou, finalmente, de gostar
de mim. E eu podia ter escrito um texto para você. Claro que eu senti ciúmes
e senti uma falta absurda de você. Mas ainda assim, eu deixei passar em
branco. Nenhuma linha sequer sobre isso.
Depois eu também podia ter escrito sobre aquele dia que você me xingou até
desopilar todos os cantos do seu fígado. Eu fiquei numa tristeza sem fim.
Depois pensei que a gente só odeia quem a gente ama. E fiquei feliz. Pode
me xingar quanto você quiser desde que isso signifique que você ainda gosta
um pouquinho de mim.
Minhas piadas, meu jeito de falar, até meu jeito de dançar ou de andar. Tudo
é você. Minha personalidade é você. Quando eu berro Strokes no carro ou
quando eu faço uma amiga feliz com alguma ironia barata. Tudo é você.
Quando eu coloco um brinco pequeno ao invés de um grande. Ou quando eu
fico em casa feliz com as minhas coisinhas. Tudo é você. Eu sou mais você do
que fui qualquer homem que passou pela minha vida. E eu sempre amei
infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo,
mesmo eu nunca tendo demonstrado isso. E, ainda assim, nunca, nunquinha,
eu escrevi sequer uma palavra sobre você.
Até hoje. Até essa manhã. Em que você, pela primeira vez, foi embora sem
sentir nenhuma pena nisso. Foi a primeira vez, em todos esse anos, que você
simplesmente foi embora. Como se eu fosse só mais uma coisa da sua vida
cheia de coisas que não são ela. E que você usa para não sentir dor ou
saudade. Foi a primeira vez que você deixou eu te olhar, mesmo você não
gostando de mim.
E foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a
ser só mais um que me usa, que você, assim como todos os outros, mereceu
um texto meu.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h10
[]


O neoliberalismo tupiniquim.

De Leo Jaime.

A globalização é o fenômeno deste fim de século. Ao contrário de todas as previsões marxistas de que o comunismo, ou socialismo, era inevitável no processo histórico, ao final deste século, mesmo tendo sido minoritário na maior parte do tempo, o capitalismo se mostra pungente e dominante em toda a face da terra. Disto trata a globalização: da vitória do mercado sobre a ideologia ou metafísica. Não são mais as orientações políticas, filosóficas ou religiosas que distribuem as cartas do novo jogo internacional. O mercado, sua eficácia e o lucro - com seu sujeito oculto em grandes conselhos de gigantes conglomerados internacionais - decidem os rumos do planeta. Globalização é a unificação do mercado. As empresas já não pertencem mais a um país, nem o seu capital retorna para lá. Este é um mundo de virtualidades e o dinheiro, também espectral, se multiplica em especulações, na transferência de fábricas para países cujas legislações oferecem mais vantagens, na substituição da mão-de-obra humana por robôs e na homogeneização de padrões de consumo - esse um dado particularmente importante nesta abordagem - através dos meios de comunicação de massa.

Globalização deve ser o oposto de universalização. Universal é aquilo que pertence à essência; global é aquilo que está no globo, ou seja, dentro das possibilidades de alcance global. Universal é o que é uno; global é o que contém tudo, todas as fragmentações: o meio, o veículo, o raio de alcance. A comunicação se torna poderosa na medida em que a noção de mundo, a aldeia global, se torna acessível através da rapidez da comunicação. A história, a realidade e até as subjetividades serão construídas por estes sistemas, que aos poucos substituem a leitura, o estudo e até a conversa de calçada entre vizinhos. A internet é um mecanismo que possibilita a comunicação com seres de todo o planeta àquele cidadão que não cumprimenta nenhum de seus vizinhos de porta no edifício. 

A título de exercício, proponho aqui um raciocínio que contrapõe Van Gogh e Jacqueline Kennedy. Pode parecer absurdo mas tratam-se de dois grandes ícones de nosso tempo: o artista cujas obras são as mais valorizadas e a mulher que institui um modelo a ser seguido pela sociedade globalizada.
De um lado temos aquilo que um jovem corretor da bolsa chamaria de "um perdedor" : o artista que morreu sem vender um quadro, tendo vivido miseravelmente, para ser reconhecido após sua morte como um homem que buscava a excelência na expressão de impressões subjetivas do mundo, e nisto a beleza pessoal e intransferível do olhar. Do outro temos a mulher que seduziu o poder, tornando-se o lado glamuroso da instituição capitalista: Jackeline casou-se com o poder, e não se incomodava se o marido era o autor de uma guerra genocida em busca da estabilização deste mesmo poder; não se incomodava nem com o fato de saber que o marido se divertia em muitas outras camas. Ela se tornou a imagem da mulher que sabia comprar, sabia se vestir, sabia se equilibrar dentro do esquema, usufruindo de suas benesses e fazendo vista grossa para suas excrescências. Regras máximas para a aceitação popular deste sistema.

Enxugar gelo é mais eficaz e inteligente que isso. Os males que um ser humano pode causar a si próprio são infinitos. Mas a bebida e o jogo foram, talvez pela grande popularidade, aos poucos se tornando legais novamente. Há casos de países em que o governo oferece umas 40 possibilidades diferentes de jogos de azar mesmo alegando que o jogo é proibido. Bebidas também são permitidas após uma certa idade, na qual o indivíduo já adquiriu a consciência de que pode perder a consciência quando bem entender, desde que seja com substâncias que os legisladores curtam. E a garotada enche a lata muito antes dessa idade e ninguém parece achar nada demais nisso. Se no final dos anos 60 a madame era o exemplo da mediocridade - e os resultados da luta pela igualdade no plano sexual se inserem aí - nos anos 90, na era da globalização, ela volta gloriosa. A madame é o padrão que todas as modelos - e as mulheres que se destacaram na mídia nos tempos atuais são essas - estão vendendo: a mulher cara, bela e sedutora. Não há o pensamento de Jackeline, há a sua forma, seu (bom?) gosto, seu modelo. Em Van Gogh tudo é pensamento, alma e estética, mas não há a eficácia; não há a presença do modelo a ser seguido literalmente, naquela existência que proclama a singularidade em detrimento desta que glorifica o individualismo. Aí está a chave de tudo.

A grande falha dos marxistas e socialistas foi esta: trataram o tempo inteiro das relações entre os homens e não de sua subjetividade. Falou-se de economia e não de psicologia e existencialismo, do ontos humano. Estabeleceu-se todo um sistema não acreditando que o homem pudesse ter questões mais profundas que aquelas relacionadas ao trabalho, acumulação de capital e relações de poder. E a alma humana ficou postergada a um outro momento, quando o homem ideal, nascido já numa sociedade equilibrada, haveria de trabalhar o assunto. Ora, os soviéticos estavam há anos na lua e ainda não pensavam em fabricar absorventes íntimos para suas mulheres. Se elas não se sentiam bem lavando toalhinhas em plena década de 80, diria o soviet supremo, era sinal de arraigada mentalidade burguesa. A mulher russa tinha que se preocupar era com a produção e não com questões como vaidade, sedução, encantamento e paixão. O estado não lucra com isso, ora pois. E o maior estado internacional ruiu por não perceber que o proletariado era composto por pessoas, todas elas com suas diferenças e esquisitices: singularidades. Venceu o desejo de individuação, de singularização, de liberdade individual de ir, vir e escolher ser bom ou mau, feio ou bonito, certo ou errado, sem a autorização de nenhum burocrata. Este desejo será explorado, em seguida, aos estertores, pelo mercado.

Escrito por Blônicas às 11h37
[]


continuação...

O que, no entanto, se percebeu foi a crescente presença dos segmentos mercadológicos, cada um obedecendo regras muito evidentes de controle social através do lazer e da divulgação de padrões de comportamento, principalmente direcionados à juventude, criando uma torre de babel em tendências e linguagens, que podem conviver quase que pacificamente num mesmo ambiente: o mercado. O símbolo máximo, a igreja desta nova versão de sagrado, é o shopping center. Lá todas as possibilidades estão perfiladas em milhares de opções de consumo. Pode-se fazer o estilo rebelde, ou conformista, agressivo ou pacifista, culto ou esportivo e, ao mesmo tempo, como no caso do morador do edificio que mencionei anteriormente, não se relacionar com aqueles que, ao final das contas, freqüentam o mesmo lugar, consomem os mesmo itens, num mesmo estilo de vida absolutamente conformista e que, no entanto, nas aparências é completamente diferenciado. Tudo o que existe, se é que pode ser percebido por uma certa quantidade de gente para se dizer existente num plano social, ainda que local ou regional, existe por ter sido mencionado e reconhecido na mídia. A realidade é, pois, o que aparece no jornal da noite e não o que aconteceu nas ruas à tarde. O mundo globalizado é feito no Paraguai: a legítima falsificação de mundo. O parecido é mais real que o verdadeiro. O público que elege o pagode não faz a menor idéia de quem seja Cartola ou compra discos de Jamelão; e pode até vir a simpatizar com estes, se colocado em contato, afinal os velhos mestres são parecidos com aquilo que consome. Embora muito mais "chatos", já que não foram paridos por nenhuma pesquisa de mercado.

O produto pasteurizado, para o consumo das massas, feito em série, depende de uma padronização do gosto público. O estado globalizado se institui orientando a individualização em detrimento da originalidade ou do contato existencialista. A arte deve dar espaço ao objeto de consumo fetichizado pela mídia mas produzido na coréia, ou por crianças tailandesas. Há que se investir naqueles itens que provocaram a erosão dos estados socialistas sem, entretanto, possibilitar o raciocínio; sem glorificar a expressão que não busque a eficácia; sem orientar para o desenvolvimento das singularidades do olhar. A atuação dos intelectuais se dá apenas no ambiente acadêmico, cada vez mais afastado dos centros nervosos políticos e empobrecido de valor intrínseco. Para o cidadão que passeia de sandália e roupa de ginástica aos domingos pelos corredores dos shoppings o intelectual é, e tão somente, um chato. As faculdades de filosofia na França vão perdendo alunos a cada ano, na mesma medida em que se abrem lojas de Macdonalds e shopping centers. Porém - apesar da negligência mercadológica para o que é feito em nome da busca do saber, da excelência, de um aperfeiçoamento humano nas questões universais: a inteligência e o saber - é exatamente aí que se estabelecem, no meu entender, as possibilidades de reação e a elaboração de alternativas. O mundo inteiro sabe como é a carne que se come em Bologna, o que é o croissant ou o sanduíche que Hamburgo inventou e os EUA eternizaram. A luta brasileira tem sido no sentido de incluir o nosso pão-de-queijo neste cenário. Para isso, no entanto, é preciso que o brasileiro, tão atento aos sistemas comportamentais do primeiro mundo, se interessasse pelo leitão-à- pururuca, pelo baião-de-dois, e por que não dizer?, pela broa de milho. Se isto não significar nada no campo filosófico, pelo menos alguns resquícios culturais serão preservados, e a possibilidade de compreensão de nossa natureza, enquanto nação, estará assim estabelecida. Mas não é a inclusão do produto brasileiro no mercado internacional a solução para se lidar com a globalização. Se o capital financeiro chega aqui mais forte que o industrial, produtivo, quando sai leva parte de nossos sonhos e possibilidades. O sistema é nocivo como um todo; quero dizer que não basta estar bem colocado dentro do sistema, há que se compreendê-lo e ter alternativas para a preservação do pensamento, da crítica, daquilo tudo que norteou a existência de um Van Gogh. E que serviu, e muito, à humanidade, antes de enfeitar as paredes dos poderosos.

Conseguir um lugar ao sol no horizonte que se anuncia para este século, dependerá muito mais de nossa capacidade de produzir inteligência. Este é o caminho, a alternativa das alternativas; a produção e o investimento no pensar, no saber, no olhar aguçado e agudo sobre o que nos interessa neste quadro e o que não nos servirá. O investimento na educação deverá se dar de tal forma que possa equiparar-lhe, em importância, ao poder de sedução exercido pelos mecanismos publicitários. A pesquisa é absolutamente necessária, mesmo e, principalmente, a que não resulta em sucesso e eficácia comercial. Antes mandava-se um texto para a polícia federal, hoje ao patrocinador. Antes obedecia-se aos interesses ideológicos do poder, hoje aos interesses mercadológicos. É preciso desvincular a produção intelectual da noção de sucesso em massa. Uma doença rara não venderá muito remédio, mas saber lidar com ela é, em última análise, conhecer mais sobre o corpo e avançar a medicina. Não haverá saúde pública enquanto a medicina servir ao lucro privado. Os EUA gastam por ano em patrocínios e fomentação de eventos culturais U$90 milhões anuais. A Alemanha gasta no mesmo período U$900 milhões, tendo uma população quatro vezes menor. Gasta, proporcionalmente, 36 vezes mais, portanto. O Brasil, neste quadro, aparece com cifras irrisórias, paraguaias. Ora, somos o povo que pior distribui sua renda, sendo um dos maiores PIBs internacionais. Dinheiro para esses investimentos há, a questão é convencer os nossos capitalistas, em geral gente pouco ilustrada, sobre a importância da produção de inteligência e de seus benefícios relacionados à questões como criminalidade, saúde pública, civilidade, produtividade etc.

Em lugares onde o sucesso pessoal não se dá através do enriquecimento mas da felicidade, o saber tem lugar importante no panorama geral. Não é necessária a acumulação para se obter prazer, mas é necessário o acesso. Compreenda-se por acesso todas as possibilidades do termo: intelectual, financeiro, político, econômico etc. Mais do que a mera proposição de um sistema, ou de um programa político/econômico, acredito na necessidade de investimento na alma, naquilo que poderá inventar diferentes soluções para diferentes necessidades em diferentes tempos. Não há como imaginar a felicidade nos caminhos da insensibilidade e da indiferença, propostos por um tempo onde o corpo se mecaniza, os robôs ganham espaço e os vínculos humanos se fragilizam e fragmentam. É preciso contato com a própria humanidade para se poder refletir a questão existencial. Robôs não sentem dor, e paramentados com todos os produtos que a "felicidade" pode comprar, o jovem de corpo esbelto parecerá feliz. Mas até quando? O que fazemos com os velhos e as crianças? Os inválidos? Os menos capazes merecem a exclusão? Mas será que todos nesta lista são menos capazes em tudo e o tempo inteiro? Não se pode, como no caso da atual orientação política brasileira, aceitar as regras do jogo só porque todo mundo o faz. O neoliberalismo foi inventado para combater o estado do bem-estar social, das sociais-democracias do norte europeu. É , no mínimo, curioso que o partido que o instituiu aqui se chame social-democrata.

Parece bom mas não é. Estamos perdendo nossa imagem no espelho, corrompidos por um sonho que não é nosso. Neste mundo globalizado, a capital é a Ilha de Caras, o hino nacional é a Macarena, a igreja é o shopping center e a vida é uma festa. E nós não fomos convidados. Como dizia o poeta: ficamos na porta, olhando os carros.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h36
[]


Rodízio de amores.

De Carlos Castelo.

Uma crônica homônima do Castelo virou curta-metragem, com direção de Pedro Souza. Assistam e digam o que acharam!

Escrito por Blônicas às 20h57
[]


Quem não gosta do que eu escrevo
está proibido de ler este texto

De Henrique Szklo

Eu não disse que estava proibido, seu teimoso. Tá bom, quer ler, lê. Mas depois vê se não reclama, tá? Não, tudo bem, pode reclamar a vontade, não tem problema. Eu adoro quando você esperneia.

Semana passada realizei uma experiência muito prolífica aqui no Blônicas que me fez refletir muito sobre os papéis do escritor e do leitor, principalmente num ambiente como o blog. Quem acompanhou o festival de democracia (todo mundo se expressando exatamente como queria), pode fazer uma leve idéia do que eu estou falando. Senão, vejamos:

Sou totalmente a favor da liberação dos comentários, mesmo os agressivos e xulos, já que, para mim, a manifestação de agrado e a de desagrado são ambas indicadoras de acerto do autor. A indiferença é o que mata o artista. É claro que é desconfortável ser xingado e agredido mas nada é mais desesperador do que ninguém notar a sua presença.

Meu trabalho é provocar. Na minha opinião, inclusive, a arte é o exercício da provocação. Para o bem ou para o mal. E a gente mede o resultado pelo nível de resposta dos receptores. Positivas e negativas. O leitor que fica bravo comigo não sabe mas ele também precisa de mim. Todo mundo precisa de alguém que mexa com ele, que chacoalhe suas estruturas, que quebre alguns paradigmas e promova conflito, raiva, incômodo, desconforto, ou seja, a matéria-prima necessária para a reflexão. Eu sei que refletir dói e nem todo mundo quer fazer este sacrifício. E eu respeito. Mais ou menos.

Meus textos não têm pretensão catequizadora. Não quero mudar nem influenciar a opinião de ninguém sobre nada. Quero apenas balançar o coreto e ver que música nova a bandinha vai tocar depois disso. E cada um que tire as próprias conclusões.

Bem, essa premissa não muda o fato de que os destemperados cometem sempre alguma injustiça. Quer ver? Leitores/comentaristas, em altos brados, sugerem que se o escritor publicou no blog, tem de agüentar as opiniões a favor e contra. Tudo certo, concordo. Mas eles mesmos, os leitores, ficam ofendidos e têm chiliques se respondemos aos seus comentários, que também foram publicados, portanto estão na mesma condição das crônicas. Ou não? Democracia é uma via de mão dupla. Se você não gosta do que escrevo e quer se manifestar, tudo certo. Mas se eu não gostar da sua manifestação, posso fazer uma réplica, ou não posso?

Conclui que blog é que nem o futebol. As pessoas vão no estádio para torcer, mas também para desafogar suas mágoas, exorcizar suas frustrações. Como estão protegidas pelo anonimato e pela multidão, se sentem completamente a vontade para xingar quem quer que seja. Os jogadores, o técnico, o juiz, o Galvão Bueno. Você já viu por acaso alguma história de alguém que encontrou um destes personagens na rua, cara a cara e se comportou da mesma forma? Claro que não. Você encontra o juiz que prejudicou seu time no elevador, só vocês dois, o que você faz? Nada, claro. Tá sozinho. É bundão. E como no futebol, a pessoa entra no blog torcendo para ler um texto vencedor. Mas às vezes o seu time não está muito inspirado ou o jogo é vencido pelo adversário. E aí o sujeito sai xingando o cronista de tudo quanto é nome, não entendendo que ele é um trabalhador, que tem família, tem filhos, tem pai, tem mãe, que está lutando pela vida como todo mundo. Seu pecado é não se jogar o jogo que o leitor/torcedor gostaria. Agora pense o seguinte: se você não concorda com as opiniões da sua mãe, não quer dizer que ela seja uma idiota, ou quer?

Aí eu resolvi entrar nos comentários e responder às críticas. Nossa, a torcida delirou. Que absurdo! Como é que eu não me conformei em ficar restrito ao espaço a mim delimitado? Quem me deu autorização para responder às críticas na mesma moeda que os críticos fazem? Que arrogância! Que pretensão! Eu sou mesmo um idiota!

Como toda pessoa mais ou menos normal, eu tenho a fantasia de ser amado incondicionalmente por toda a humanidade, mas um pouco de bom senso me faz concluir que o desagrado é inevitável. E até positivo para mim. Também me faz refletir. E eu gosto de refletir. As pessoas que me achincalham talvez não saibam, mas estão me fazendo um bem danado. Elas querem me magoar, me machucar, mas estão, na verdade, me ajudando a manter os pés no chão, a enxergar o mundo com mais realidade. E isso não tem preço. É um jogo de equilíbrio. Precisamos demais dos que gostam da gente e nos elogiam, mas sem os desafetos o que seria do Yin e do Yang.

É claro que entre os enxovalhadores têm aqueles que não estão nem aí para o que eu escrevi: adolescentes que gostam de tirar uma com a cara de todo mundo ou pessoas que não gostam de mim e aproveitam o espaço para me avacalharem (com nomes falsos, claro).

Para finalizar, permitam-me um conselho. O mesmo que dou à minha filha adolescente quando ela se irrita com as provocações do irmão. Se você não quer ser provocado, finja que não está ligando. Por que não existe nada mais estimulante para o provocador do que uma reação. E quanto mais destemperada, melhor.

Henrique escreve no Blônicas e não quer saber o que você acha disso.
Visite seu
site, o blog da mãe, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 11h25
[]


O que você acha disso?

Postado por Nelson Botter Jr.

Qual sua opinião sobre o "Cansei"? Trata-se realmente de um movimento elitista e oportunista? Ou será que essa imagem foi criada pelos governistas para enfraquecer e derrubar o movimento? Diga aí, solte o verbo, hoje quem escreve a crônica é você...

Escrito por Blônicas às 12h17
[]


Primeira-dama.

De Milly Lacombe.

Recebo um email: “O que faz Dona Marisa Letícia pelo país?” Pelo país, difícil saber. Mas o que ela tem feito, tá na cara, na bochecha, na testa, ao redor dos olhos. Até a presente data, não ficamos sabendo de nenhuma ação humanitária assinada por ela, mas soubemos que foi a primeira-dama quem pediu ao jardineiro do Planalto para recortar aquele lindo canteirinho vermelho em forma de estrela.
Quer conhecer Inácio, coloque-o no palácio. Quer conhecer Marisa? Bem essa é mais enigmática porque, por uma benção divina, e ao contrário do marido, nos poupa de frases inócuas. Apesar disso, Marisa está sempre ali, sorrindo ao lado de seu homem. Sorria, inclusive, enquanto o marido era vaiado no Maracanã. Um sorriso alienado, desses que não entende muito bem o que está acontecendo.
Ah, sim, Marisa fez outra coisa: solicitou cidadania italiana. E conseguiu.             Outra ainda: quando perguntada o que esperava do futuro, disse: Um mundo melhor para meus filhos. Também tem conseguido.
Acho que foi mais ou menos isso o que ela fez pelo povo brasileiro em cinco anos como primeira-dama. Uma façanha: menos que Roseanne Collor. Merece registro. Passou e, não fosse pela mudança na fisionomia, ninguém teria percebido. Quase tão ativa quanto o senado, a câmara e o marido - mas, pelo menos, sua falta de iniciativa não nos fere.
Não que fosse dar um trabalho daqueles fazer alguma coisa. Afinal, trata-se da primeira-dama, e, para ela, portas se abrem como em mágicas. É, acima de tudo, uma poderosa e nobre função. Ou deveria ser. Mas nossa first-lady, que passou 20 anos vislumbrando a posição, escolheu não fazer nada. Simplesmente isso.
Laura Bush, que, assim como Marisa, casou com um boçal e foi longe, é um pouco mais ativa e já chegou a fazer discursos presidenciais oficiais em nome do marido. Por aqui, não vai pegar. Um, porque nosso líder jamais abriria mão de sua atividade predileta - para não dizer única (só restaria a ele viajar pelo mundo). Outra, porque Dona Marisa Letícia não teria o que dizer - mais ou menos como o marido, que o faz em voz alta.
E assim vivem felizes no palácio, a Primeira-Dama e o Último-a-Saber.
Como diria minha amiga Fernanda Cirenza, pior do que a realidade, só mesmo as perspectivas.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h25
[]


Sobre as fêmeas...

De Xico Sá.

A fêmea é mesmo um jogo de advinhação. Governar bem um desses seres colossais passa sobretudo pela nossa capacidade de correr à frente dos seus desejos. E realizá-los a contento. O macho que consegue a tal façanha se consagra para sempre no coração da sua Carmencita amada.
Todas as fêmeas são naturalmente parecidas com aquela personagem do filme O Piano – não falam e querem que a gente cumpra todas as funções, todos os trabalhos de Hércules,que a gente adivinhe e seja o senhor de todas as demandas.
Precisamos adivinhar mesmo, à vera, todas as horas. Se elas querem sexo naquela momento, se o sexo deve ser delicado ou mais selvagem, se está na hora de puxarmos os seus cabelos, se querem apenas um cafuné enquanto vêem Almodóvar ou  nada mais...
os nos esquecer de correr à floresta, cortar lenha e pôr à beira do fogão antes que venha a tempestade.
Homem sensível e lenhador ao mesmo tempo. Adivinhar onde quer ser tocada e também a hora da chuva. Isso é o que querem as mulheres. O que implica o mais completo domínio de uma arte que junta conhecimento tântrico com a meteorologia. Preocupado com os meus párias, iniciei o esboço do Pequeno Manual de Adivinhação e Encorajamento do Macho Diante do Silêncio da Fêmea e Outros Hiatos Perturbadores, do qual subtraí os verbetes que seguem:
Fêmea sacudindo o vasto cabelo loiro - Esqueça esse tal de Marcel Proust, meu amigo, antes que ela confunda com outro personagem do mundo da velocidade e diga que preferia o Ayrton Senna. Corra em busca do tempo perdido e atraque no motel com cascata e teto para as estrelas mais próximo.
Fêmea sacudindo o cabelo castanho ou preto – Também quer sexo, mas adora falar antes sobre a personalidade de peixes-com-peixes, peixes-com-sagitário, peixes-com-virgem, numerologia, Caminho de Santiago, Paulo Coelho, búzios, cristais, a cura pelo vento...
Fêmea em mostra de filme francês – Diga à gazela, assim bem brega: "Se o Truffaut a tivesse te conhecido, Bertrand, o Homem que Amava as Mulheres, teria final feliz – e seria contigo".
Fêma silenciosa no café da manhã – Espera que ela consuma todo o líquido. Mire o fundo da xícara e arrisque uma leitura árabe da borra de café. Só assim será possível descobrir a demanda - um cânion de desejos não-cumpridos - provocada ao longo do tempo pela nossa incompetência caramelada de testosterona.
Fêmea sentada na cama mirando o guarda-roupa – Ela vai experimentar um, dois, três vestidos; quatro, cinco saias; uma dúzia de blusas com calças tantas... tops, miniblusas, saia-envelope...  Quando atingir o desespero, na tentativa do tubinho preto, pegue-a pelo braço, corra ao shopping mais próximo e realize o seu sonho de "Uma Linda Mulher".
Fêmea no teste do biquíni – Ao perceber que ela ficou incomodada ao sentar pela primeira vez na areia daquele verão, não adianta nem mesmo a mais derramada e lírica das declarações de amor. Mesmo que você não saiba sequer a diferença entre estria e celulite, mesmo que prefira uma "botterinha", não adianta convencê-la. Nada vai adiantar, nehum adjetivo é capaz de derretê-la, mesmo com aquele sol todo, nobilíssimo macho. Melhor presenteá-la com uma temporada de alcachofras num bucólico spa das redondenzas.

Xico Sá é cronista do Blônicas e canta modinhas de macho por aqui.

Escrito por Blônicas às 09h36
[]


Tô de saco cheio de leitor babaca

De Henrique Szklo, e daí?

Quem inventou o espaço para comentários em blogs deveria ser pendurado pelas pontas dos mamilos. Êta, ideiazinha idiota, sô! Quem foi que disse que as pessoas têm o direito de dar a sua opinião sobre qualquer assunto? Quem foi que disse que leitor tem capacidade de avaliar a qualidade de um texto ou até mesmo a veracidade ou não das informações nele contidas? Quem foi que disse que eu quero saber qual é a sua opinião sobre o que eu escrevo? Hein?

Olha, não me leva a mal, não, mas enfia a sua opinião naquele lugar (E quando eu digo “aquele lugar” eu não estou me referindo ao espaço para comentários do blog, entenda-se). Este desabafo não é dirigido à pessoas educadas que se expressam como gente civilizada, que já não andam mais de quatro, que há muito deixaram de rosnar, comer com a mão e fazer as suas necessidades ao ar livre. Não, estas pessoas têm o direito de ter a opinião que quizerem sobre o meu trabalho. Até porque elas são mais inteligentes. Me fazem refletir. Os animais que usam o espaço que cedemos gentilmente à raça humana para expressar toda a sua mediocridade, além de tudo são burros. Me agredindo, só vão me fazer ficar na defensiva, mesmo que numa hipótese remotíssima estejam certos no que dizem. A pessoa inteligente, aquela que tem QI de mediano pra cima, sabe que a melhor maneira de criticar alguém é fazendo este alguém sentir vergonha do que fez. Mas isso é estar exigindo demais da grande maioria dos leitores, eu sei. Fazer o quê? Eu sou um romântico. Um sonhador incurável.

E tem mais, o sujeito lê os nossos textos de graça, não paga um centavo e ainda se sente no direito de nos agredir, nos ofender, nos sujar com a lama que sai de sua cabecinha problemática. Porque tem isso também: esse povo que sai desancado qualquer um por qualquer motivo tem problemas psicológicos claros. Pessoal do primeiro ano de Psicologia aprende isso. Não sei o nome técnico, mas é conhecido como recalque. É infeliz, mal-amado (ou não-amado), ganha pouco, ninguém respeita, ninguém quer saber, tem pinto pequeno, peito caído, não tem bunda, fracassado pessoal e profissionalmente, tem chulé e mau hálito, é massacrado pelos outros desde criancinha, era excluído na época de escola, etc, etc, etc. A lista aqui poderia ser muito maior. O que eu quero dizer pra você que vestiu a carapuça é: vai se internar, vai tomar prozac, tomar passe, o cacete, mas pára de encher o nosso saco. Ninguém tem nada com isso que a sua vida é uma merda. E ninguém quer saber o que você acha sobre nenhum assunto.

Tem aquele outro tipo que lê um texto cheio de sacadas, de idéias interessantes, de conceitos provocadores e o único comentário que ele tem a fazer é que a palavra hesitar é com agá. Putz, esse é muito idiota. É o tipo da pessoa que não tem a menor capacidade de se encantar, de se emocionar. Que não está interessada nas idéias, mas na forma com que as palavras são escritas. Eu não quero roubar o emprego dos revisores. Cada macaco no seu galho. E se você acha que todo escritor precisa ser um mestre em gramática, guarde esse comentário pra você porque eu não estou nem um pouco interessado na sua opinião.

E aqueles que criticam porque morrem de inveja de não estar colcaborando com o blog, um recado: não tem nada demais colaborar com este blog. Não precisa ter inveja, viu? Esse é apenas mais um blog entre milhões e acredito que meus companheiros blônicos compartilham comigo desta opinião. Então, ao invés de ficar poluindo nossa caixa de mensagens com suas opiniões desnecessárias, escreva um blog você mesmo e nos dê a oportunidade de visitá-lo e darmos nossa opínião idiota sobre a merda que você escrever lá. Se é que alguém vai se dar o trabalho de ler o que você escreve.

Como o espaço para comentários está aí e não vai mudar, gostaria então de sugerir alguns complementos: a pessoa para fazer uma crítica a um texto do Blônicas vai precisar mandar para nós algum exemplo do fruto de seu trabalho. Se for um advogado, mande uma defesa que você desenvolveu. Se for um médico, mande um relatório de tratamento de um cliente. Se for um administrador, mande o balanço de sua empresa. Se for comerciante, mande a foto de sua loja. Aí, cada um dos escritores do Blônicas vai dar a sua opinião sobre o seu trabalho. Não é legal?

É claro que neste momento existem milhares de idiotas pensando: se não quer ser criticado não escreva em um blog. E a estes idiotas eu respondo: se eu soubesse que gente como você iria ler o que escrevo, preferiria ter continuado analfabeto.

Henrique escreve no Blônicas e não quer saber o que você acha disso.
Visite seu
site, o blog da mãe, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 02h11
[]


Uma lição.

De Nelson Botter Jr.

Prefiro omitir meu nome. Vou apenas dizer que sou pastor, mas também não quero citar de qual igreja. É uma das grandes e não convém entrar nesses detalhes, pois o assunto aqui não tem a ver com religião... ou será que tem? Acho que não.
O fato é que apesar de ter comprado, graças a Deus, uma bela BMW 2006, de vez em quando gosto de andar de metrô. Não que eu precise do contato com o povo, mas é que quero observar certos tipos para poder captar alguns temas, a fim de usá-los em meus sermões.
Outro dia estava lá no vagão um menino, tinha seus doze ou treze anos. Eu estava perto e vi sua expressão alerta. De repente, numa dessas brecadinhas que o metrô costuma dar, acabei esbarrando na mochila do garoto. Ele virou-se rapidamente, num reflexo instantâneo, deu uma olhada, não viu nada de suspeito e virou-se para frente de novo.
Pode? O idiota do moleque achou que eu estava tentando roubar a mochila dele. Que paranóia que essa cidade cria! Fiquei incomodado.
Chegou a estação em que eu iria fazer a baldeação para pegar a outra linha e o garoto também desceu. Notei que ele, de vez em quando, me procurava com o canto dos olhos. Me irritei, pois o moleque estava suspeitando de mim. Idiota!
Desci as escadas até a outra plataforma e para minha surpresa o garoto lá estava. Não acredito em coincidências, portanto concluí que tratava-se de um sinal para que algo fosse feito. Resolvi perturbar o garoto para ensinar-lhe uma lição. Onde já se viu duvidar da minha pessoa?
Pois bem, fiquei esperando o trem na plataforma, bem perto do menino. Absorvia sua aflição por sentir-se perseguido pelo homem que havia esbarrado em sua mochila no vagão do outro trem. Eu comecei a me deliciar com aquilo.
Entramos no vagão e ele correu para o outro lado, virando-se de frente para mim e encostando sua mochila contra a porta. O espertinho não me encarava, mas estava protegendo sua "tão cobiçada" mochila. Fiquei ali, olhando, como se estivesse esperando o momento certo para atacar. Ele não me olhava, mas eu podia sentir que estava preocupado... melhor dizendo, estava apavorado.
Mais duas estações e ele fez menção de descer. Não era a minha estação e a brincadeira parecia estar chegando ao fim. O que fazer? Desci.
A cada passo que o garoto dava, eu o acompanhava mantendo uma certa distância. Eu queria ver onde esse moleque desconfiado iria, o que ele faria ali, acuado e amedrontado.
Na rua, apertou o passo. Acompanhei e percebi que ele olhava para trás diversas vezes, tentando ver se eu ainda estava lá. Seu olhar estava cada vez mais angustiado.
O menino até usou o velho truque de parar na banca de jornal para que eu passasse, mas eu não caio nessas. Parei do lado dele e fingi estar observando as revistas. O garoto, desesperado, se pôs a correr. Eu ri, mas então pensei que teria uma chance de pegá-lo cortando o caminho por uma viela. Se ele virasse à esquerda na avenida, eu o interceptaria. Contaria com a sorte, mas como eu estava certo de que aquele momento se tratava de algo especial, resolvi tentar.
Eu atravessei a viela e esperei o garoto. Ele já vinha ofegante, mas não correndo. Olhava para trás e se distraiu quando apareci na frente dele. O coitado não me viu. Foi o suficiente para puxá-lo para a viela. Suas expressões de espanto e surpresa me petrificaram. O garoto, pálido, caiu no chão devido às pernas bambas. Eu não sabia o que fazer ou dizer. Ele me fitava, até que resolveu dizer que me entregaria a mochila, mas que pelo amor de Deus não o machucasse.
Eu não me mexi e ele estendeu a mochila até mim. Peguei-a e um verdadeiro turbilhão passou pela minha mente. O garoto levantou-se e correu. Fiquei ali, parado, sem ação, até que resolvi correr... na direção contrária a dele. Eu ficaria com a mochila, pois ele havia me dado e agora era minha.
Você deve estar se perguntando por que eu fiquei com a mochila, certo? Não sei dizer, talvez eu já esteja acostumado a tomar coisas dos indefesos, talvez tenha sido uma lição para o garoto, talvez não seja nada disso. Não me importa. Só sei que gostei da experiência e acho que farei mais vezes. Preciso ensinar outras lições a muitas outras pessoas.

Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h12
[]


Ai, cansei, sabe?

De Carlos Castelo.

Lu:

Estou mandando esse e-mail pra dar minhas impressões sobre a passeata do movimento “Cansei” naquele domingo no Ibira.
Querida, só tenho uma palavra pra traduzir a sensação: glamour!
Gente, que coisa mais “top” todas aquelas pessoas elegantésimas, com roupas de frio transadas, querendo um país mais up-to-date.
Não havia diferença pra uma manifestação na Champs-Elisées ou no SOhO londrino.
A gente não tem avião pra voar (só jatinho), o asfalto das nossas ruas está longe de ser como o de Los Angeles (o meu favorito, cheio de groovings) mas em termos de protesto já somos Primeiro Mundo, honey!
Quando cheguei à concentração da passeata fui recebida pelo aroma inigualável de Carolina Herrero no ar. O pessoal do Golf Club, a galera do Jardim Europa em peso, de cara me senti em casa.
Depois o Marquito me fez uma super-acolhida (ele, você bem sabe, é um verdadeiro gentleman). Abriu meia garrafinha de Dom Pérignon e brindamos ao futuro do Brasil.
Aí veio a parte mais emocionante.
Saímos juntos pelas avenidas gritando “fora!”.
Mas um “fora” hiper-elegante, nada gritado. Parecia que tínhamos ensaiado no coral gospel da Igreja Metodista do Harlem, Lu.
Eu olhava aquelas 120 pessoas, aqueles Porsches e Maserattis buzinando. E chorava. Uma mistura de alegria e sentimento cívico me tomou.
Depois o Rique me levou ao Fasano. Ficamos horas discutindo política e tomando Barolo. Ai, eu amo esse país!

Carlos Castelo é cronista do Blônicas e esta crônica também foi publicada no Jornal Destak.

Escrito por Blônicas às 11h25
[]


Bicicletai!

De Antonio Prata.

Um dias desses, evidentemente, tudo há de dar certo, os automóveis se extinguirão e a superfície da terra será povoada apenas por bicicletas. Alguns carros, ônibus e caminhões serão expostos nos museus, feito mamutes, guilhotinas e outros monstros findos, para divertir a criançada e alertar os adultos: que o horror jamais se repita. Sobre selins acolchoados, seremos felizes para sempre.

É inegável a simpatia das bicicletas. Máquina desengonçada: se parada, destrambelha-se como um albatroz em terra, mas ao impulso dos pedais, projeta-se como uma flecha, esguia, impoluta e silenciosa. Bicicletas, ninguém pode negar, são irmãs dos guarda-chuvas, primas das girafas e parentes distantes dos abacaxis (não me peça para explicar, foi uma idéia que tive agora).

Durante todo o século XX, muitos artistas aproveitaram-se de seus encantos. É pedalando que vemos quase todo o tempo monsieur Hulot, personagem do filme Meu Tio, utopia lírica de Jacques Tati. Marceu Duchamp, depois haver exposto um mictório no museu, enfiou uma roda de bicicleta num banco de madeira e deixou as velhas noções sobre arte – literalmente – de pernas pro ar.

É impensável um facínora de bicicleta, inconcebível um ditador pedalando. As “máquinas da paz”, como as chamou Vinícius de Moraes, em sua Balada das meninas de bicicleta, são muito mais afeitas aos suaves cuidados das moças: “Bicicletai, meninada!/ Aos ventos do Arpoador/ Solta a flâmula agitada/Das cabeleiras em flor”.

As bicicletas são um indício de civilização. Recomendadas por ecologistas, urbanistas, cardiologistas e artistas, têm logo de entrar na agenda política. Ainda não vi nenhum candidato expor, no horário eleitoral, seu projeto nacional de bicicletização. Se aparecer algum, ganhará de imediato meu apoio.

Se Deus voltasse à terra e dissesse, “me mostrem aí o que vocês fizeram”, teríamos de levá-lo imediatamente a Amsterdam, para um passeio ciclístico, em torno daqueles belíssimos canais. Ou então ao Rio de Janeiro. Pegaríamos Deus no Santos Dummont (vindo do céu, é de se supor que chegará de avião) e O colocaríamos na garupa. Cruzaríamos todo o aterro, pedalando sem pressa, sob o sol ameno das quatro e meia da tarde. Passaríamos pela estátua de Drummond em Copacabana, veríamos as garotas saírem do mar em Ipanema e terminaríamos o passeio no Leblon, com um mergulho no mar e um suco de melancia, no exato momento do sol se pôr. Se Deus tiver um pingo de sensibilidade, estaremos todos salvos.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h03
[]


O controle-remoto.

De Leo Jaime.

Há um certo tipo de motorista que todos conhecem: agoniado, não pode
esperar um segundo; não cede a vez e parece estar com o pai na forca, ou com
a mulher parindo no banco de trás. Fico imaginando enredos para as pessoas
que vejo passando e que me chamam a atenção, mas para esse personagem só
imagino uma história: essa pressa toda servirá para que ele chegue uns 3
minutos mais cedo em casa; estressadão. Somos o que somos quando ninguém nos
olha. E o anonimato que o interior de um carro nos proporciona pode revelar
uma grosseria velada e contundente.
Uma vez em casa, se o tipo for um homem - e em geral o é - o destino é
certo: vai para o sofá. O sofá é o Éden, o paraíso conquistado pelo
competitivo homem moderno. Dono do seu território, carregará como símbolo de
seu poder, à guisa de cetro, o controle-remoto. E é por essa patética cena,
o pequeno reino e seu cetro mágico, que este pobre homem há de aporrinhar
todos no trânsito. Abro parênteses para mencionar isso: - não há nenhum
impropério mais apropriado para rusgas no trânsito que o publicável e
familiar ³palhaço!². Fecho parênteses e inicio outro parágrafo. Ponto.
Quando reconheço um destes tipos na academia, penso logo: - ³esse cara
está levantando cem quilos aqui e quando chegar em casa vai usar o
controle-remoto² . Ora, e é isso o que eu quero dizer: - o controle não é
uma comodidade, é um símbolo de poder. Este cidadão que quer perder peso e
ficar em forma não deveria evitar um exercício moderado e gratuito. Sim, mas
ele não pode dispensar, também, uma chance destas, de se sentir o tal, o
bonitão da bala Chita.
Seu poder será exercido em cima de uma só pessoa: a mulher. Os filhos,
se houver, estão liberados para ver TV no quarto, mas a mulher não pode
arredar pé. Ele chegou, está no sofá e lá, até que ele comece a roncar, é o
lugar dela. Oras! A opção é negociar a novela por uma salubérrima tromba, já
que ele quer assistir à quinta versão das mesmas notícias em outro canal.
Quando começar um filme, ele pulará em cada comercial para uma seção de
zaping. E demorará muito mais tempo que o do intervalo no filme. Você vai
perder umas cenas e ele não vai se tocar. Ele está ziguezagueando,
ultrapassando os canais, como faz no trânsito. E
assistirá a TV com o controle na mão, editando as cenas de acordo com o
próprio interesse, e te deixando cada vez mais furiosa. Se é que você tem
um desses em casa.
Esta é a última instância do ancestral poder machista. Você precisa
fazer alguma coisa, imediatamente. Ele precisa saber dos seus gostos, das
suas vontades, e deixar você ficar com o controle um tempo para observar
onde sua mente passeia.
Se você fizer uma analogia de tudo o que apontei aqui, e acrescentar
além de trânsito e TV, o que acontece no quarto, poderá ter boas surpresas.
Há no controle-remoto, mesmo com as pilhas já cansadas, um remoto controle.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h26
[]