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25 coisas que você pode fazer num pronto-socorro público.
De Carlos Castelo. 1. Comentar na sala de espera: “nossa, vem vindo uma maca ali que é tripa pra todo lado”. 2. Distribuir volantes com preços e condições de planos de saúde da rede particular. 3. Deitar no chão, similar uma convulsão e, quando for atendido, dizer que é um “laboratório” para o grupo de teatro do qual você faz parte. 4. Ir até o guichê de atendimento do PS e perguntar se o Serviço de Amputações precisa de um açougueiro com experiência. 5. Gritar do nada: cara, uma barata, pode uma coisa dessas?!!!!!! 6. Gritar do nada: achei um rim, é de alguém? 7. Passar uma rasteira num Doutor da Alegria. 8. Dizer a uma enfermeira que transar com “profissionais de branco” é o seu sonho sexual mais recorrente. 9. Pedir para gelar uma latinha de cerveja no refrigerador de vacinas. 10. Confiscar uma cadeira de rodas e dar um cavalo de pau no meio da sala de espera do Pronto Socorro. 11. Pegar uma bolsa de sangue da Hematologia e fazer uma imitação de Bela Lugosi para os colegas de fila. 12. Sentar numa cadeira da sala de espera e fingir-se de morto. 13. Fazer “uóóóómmmmmmmmm” bem alto com a boca cada vez que uma ambulância estacionar no pátio. 14. Pedir emprestado uma muleta, subir no balcão e imitar o Jimi Hendrix. 15. De cinco em cinco minutos, levantar-se e fingir que vai vomitar sobre as pessoas. 16. Levar seu cachorro e indagar se há atendimento veterinário naquele posto. 17. Colocar uma camisa-de-força e sair andando naturalmente pelas dependências do PS. 18. Levar uma marmita e pedir para esquentá-la na estufa do hospital. 19. Num momento mais silencioso do atendimento aproximar-se de uma enfermeira e dizer em alto e bom som: “COMO ASSIM, MORREU?” 20. Levar um rádio portátil e ficar ouvindo um programa de música sertaneja em volume alto. 21. Promover uma enquete com alguns funcionários do PS: “quem é concursado aqui e quem arrumou emprego com um deputado amigo?” 22. Oferecer-se para fazer um cafuné na emburrada funcionária que distribui as senhas de atendimento. 23. Promover uma pelada "Enfermeiros X Médicos" enquanto os doentes não são atendidos. 24. Perguntar ao médico-responsável porque o nome daquele órgão é “Pronto-Atendimento” se ninguém é prontamente atendido há mais de dezesseis horas. 25. Pintar pontinhos vermelhos no rosto, pescoço e braços e sair cumprimentando todo mundo dizendo: “prazer, varíola”. Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Qualé, mané!
De Xico Sá. É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance, conto, fábula de formiguinha ou pura clandestinidade? “Qualé a sua, meu rapaz?!”, indaga a nobre gazela. E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas. No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro do filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero y bandeirosos corazones... Cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico, o cara nervoso, se tremendo como vara verde: “Você me aceita em namoro”? Talvez nem exista mais. O amor e as suas mudanças. A maioria dos homens, além de não pedir em namoro, além de não pegar no tranco, ainda corre em desespero diante de uma sugestão ou proposta de casamento feitas pela moça. O capítulo bom da história é que agora as mulheres também partem para o ataque e, diante de uns temerosos ou acanhados sujeitos, escancaram seus desejos e fazem suas apostas, seus pedidos, põem na mesa os seus desejos e as cartas de intenções. Era bem bacana esse suspense masculino do “você quer namorar comigo?” Havia sempre o medo do fora. Um sim, mesmo o mais previsível, era uma festa. “Quer namorar comigo?” No tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga. Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios. Mais do que um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o gloss e a força dos membros inferiores. “Vamos pegar uma tela, amor?”, como se dizia não muito antigamente. Eis a senha. Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro. O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira. Nada mais simbólico e romântico. Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas... Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra. Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras. Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, poeta dos melhores e mais líricos. Palavras, palavras,palavras... Silêncio, Silêncio, silêncio... Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate. Xico Sá encanta corações no Blônicas. O crucifixo.
De Milly Lacombe. É prudente que se reconheça o erro. Porque, a bem da verdade, errar, erramos todos, cedo ou tarde. E eu errei ao escrever um precipitado texto que criticava a primeira-dama. No texto, decretei que ela não fez absolutamente nada pelo país na função de esposa do presidente. Disse, inclusive, que tinha conseguido a façanha de ser menos expressiva do que Roseanne Collor. Mas eu me enganei a respeito de Dona Marisa Letícia: soube hoje, pelos jornais, que ela foi comer um Big Mac durante o Mc Dia Feliz - aquela campanha anual promovida pelo Mc Donald’s que destina toda a renda da data a crianças com câncer. Dona Marisa Letícia não apenas esteve presente a uma lanchonete da rede americana durante o dia especial, como tratou de recomendar que sua assessoria de imprensa divulgasse o esforço. E tem mais: nossa primeria-dama comeu um sanduíche inteiro, mesmo sabendo que o Big Mac tem centenas de calorias, e um nível de gordura não recomendado pela saúde pública (que, aliás, na gestão de seu marido, vai muito bem, obrigada). Mais ainda: na saída, levou um Big Mac para o presidente. É realmente tocante o gesto. E eu, que quinze dias atrás escrevi que Dona Marisa Letícia não fazia nada pelo país, tive que engolir essa – sem coca-cola. Milly Lacombe é cronista do Blônicas. 100% classe média.
De Antonio Prata. Nós somos ricos?, perguntei à minha mãe, aos cinco anos. Eu achava que sim. Afinal, para mim, os pobres eram aquelas pessoas que eu via com uma prematura angústia, através do vidro de nosso Passat verde musgo, na pequena favela da Juscelino Kubitschek, perto de casa. Minha mãe disse que não éramos ricos nem pobres, éramos de classe média. Achei o termo meio nebuloso e confesso que só fui entendê-lo realmente, em suas profundas implicações sócio-econômico-culturais, na última terça, durante o banho, quando o vizinho de cima deu a descarga e a minha água pelou. Eu gritei um palavrão, abri mais a torneira e, enquanto as costas voltavam a uma temperatura suportável, pensei: ah, então é isso. Ser de classe média significa ter uma proximidade compulsória com os outros e, consequentemente, estar em constante negociação com o mundo. Afinal, você não está entre a minoria que faz as regras, nem junto à massa que apenas as seguem. Eu não imagino, por exemplo, o Antonio Ermírio numa reunião de condomínio, secando o rosto com um lenço e dizendo, exaltado: “nem vem, Dona Arminda, a vaga do 701 já tava prometida pra mim faz tempo, a senhora devia era cuidar do Arthur que faz um escarcéu com o patinete no playground bem depois das dez”. Depois que minhas costas pelaram, comecei a me ver classe média a toda hora. Restaurante por quilo, por exemplo. Tem coisa mais classe média? Tudo bem, posso dizer que sou de uma classe média intelectualizada – o que significa que não ponho feijoada e sushi no mesmo prato --, mas seria ridículo negar minhas origens, na fila, diante de uma cestinha contendo “palha italiana” e ouvindo o mantra diário do capitalismo nosso de cada dia: “crédito ou débito?” Rico não come em quilo nem morto. Ou você consegue imaginar, digamos, Paulo Skaff botando aquele tempero pronto para salada nuns ovinhos de codorna, enquanto aguarda um bigodudo gordo liberar o réchaud de croquetes? Se um dia tiver de responder a um filho a pergunta que fiz à minha mãe, darei a explicação que ouvi de um comediante americano na televisão: “se no trabalho seu nome está escrito na roupa, você é pobre. Se o nome está escrito na mesa, você é de classe média. E se estiver escrito no prédio, você é rico”. Mas isso é coisa para me preocupar daqui a muitos anos. Urgente mesmo é, na próxima reunião de condomínio, colocar na pauta a questão da descarga do 204. 100% classe média. Antonio Prata é cronista do Blônicas. A primeira vez.
De Tati Bernardi. Você sempre me disse que sua maior mágoa era eu nunca ter escrito um Tati Bernardi é cronista do Blônicas. O neoliberalismo tupiniquim.
De Leo Jaime. A globalização é o fenômeno deste fim de século. Ao contrário de todas as previsões marxistas de que o comunismo, ou socialismo, era inevitável no processo histórico, ao final deste século, mesmo tendo sido minoritário na maior parte do tempo, o capitalismo se mostra pungente e dominante em toda a face da terra. Disto trata a globalização: da vitória do mercado sobre a ideologia ou metafísica. Não são mais as orientações políticas, filosóficas ou religiosas que distribuem as cartas do novo jogo internacional. O mercado, sua eficácia e o lucro - com seu sujeito oculto em grandes conselhos de gigantes conglomerados internacionais - decidem os rumos do planeta. Globalização é a unificação do mercado. As empresas já não pertencem mais a um país, nem o seu capital retorna para lá. Este é um mundo de virtualidades e o dinheiro, também espectral, se multiplica em especulações, na transferência de fábricas para países cujas legislações oferecem mais vantagens, na substituição da mão-de-obra humana por robôs e na homogeneização de padrões de consumo - esse um dado particularmente importante nesta abordagem - através dos meios de comunicação de massa. Globalização deve ser o oposto de universalização. Universal é aquilo que pertence à essência; global é aquilo que está no globo, ou seja, dentro das possibilidades de alcance global. Universal é o que é uno; global é o que contém tudo, todas as fragmentações: o meio, o veículo, o raio de alcance. A comunicação se torna poderosa na medida em que a noção de mundo, a aldeia global, se torna acessível através da rapidez da comunicação. A história, a realidade e até as subjetividades serão construídas por estes sistemas, que aos poucos substituem a leitura, o estudo e até a conversa de calçada entre vizinhos. A internet é um mecanismo que possibilita a comunicação com seres de todo o planeta àquele cidadão que não cumprimenta nenhum de seus vizinhos de porta no edifício. A título de exercício, proponho aqui um raciocínio que contrapõe Van Gogh e Jacqueline Kennedy. Pode parecer absurdo mas tratam-se de dois grandes ícones de nosso tempo: o artista cujas obras são as mais valorizadas e a mulher que institui um modelo a ser seguido pela sociedade globalizada. Enxugar gelo é mais eficaz e inteligente que isso. Os males que um ser humano pode causar a si próprio são infinitos. Mas a bebida e o jogo foram, talvez pela grande popularidade, aos poucos se tornando legais novamente. Há casos de países em que o governo oferece umas 40 possibilidades diferentes de jogos de azar mesmo alegando que o jogo é proibido. Bebidas também são permitidas após uma certa idade, na qual o indivíduo já adquiriu a consciência de que pode perder a consciência quando bem entender, desde que seja com substâncias que os legisladores curtam. E a garotada enche a lata muito antes dessa idade e ninguém parece achar nada demais nisso. Se no final dos anos 60 a madame era o exemplo da mediocridade - e os resultados da luta pela igualdade no plano sexual se inserem aí - nos anos 90, na era da globalização, ela volta gloriosa. A madame é o padrão que todas as modelos - e as mulheres que se destacaram na mídia nos tempos atuais são essas - estão vendendo: a mulher cara, bela e sedutora. Não há o pensamento de Jackeline, há a sua forma, seu (bom?) gosto, seu modelo. Em Van Gogh tudo é pensamento, alma e estética, mas não há a eficácia; não há a presença do modelo a ser seguido literalmente, naquela existência que proclama a singularidade em detrimento desta que glorifica o individualismo. Aí está a chave de tudo. A grande falha dos marxistas e socialistas foi esta: trataram o tempo inteiro das relações entre os homens e não de sua subjetividade. Falou-se de economia e não de psicologia e existencialismo, do ontos humano. Estabeleceu-se todo um sistema não acreditando que o homem pudesse ter questões mais profundas que aquelas relacionadas ao trabalho, acumulação de capital e relações de poder. E a alma humana ficou postergada a um outro momento, quando o homem ideal, nascido já numa sociedade equilibrada, haveria de trabalhar o assunto. Ora, os soviéticos estavam há anos na lua e ainda não pensavam em fabricar absorventes íntimos para suas mulheres. Se elas não se sentiam bem lavando toalhinhas em plena década de 80, diria o soviet supremo, era sinal de arraigada mentalidade burguesa. A mulher russa tinha que se preocupar era com a produção e não com questões como vaidade, sedução, encantamento e paixão. O estado não lucra com isso, ora pois. E o maior estado internacional ruiu por não perceber que o proletariado era composto por pessoas, todas elas com suas diferenças e esquisitices: singularidades. Venceu o desejo de individuação, de singularização, de liberdade individual de ir, vir e escolher ser bom ou mau, feio ou bonito, certo ou errado, sem a autorização de nenhum burocrata. Este desejo será explorado, em seguida, aos estertores, pelo mercado. continuação...
O que, no entanto, se percebeu foi a crescente presença dos segmentos mercadológicos, cada um obedecendo regras muito evidentes de controle social através do lazer e da divulgação de padrões de comportamento, principalmente direcionados à juventude, criando uma torre de babel em tendências e linguagens, que podem conviver quase que pacificamente num mesmo ambiente: o mercado. O símbolo máximo, a igreja desta nova versão de sagrado, é o shopping center. Lá todas as possibilidades estão perfiladas em milhares de opções de consumo. Pode-se fazer o estilo rebelde, ou conformista, agressivo ou pacifista, culto ou esportivo e, ao mesmo tempo, como no caso do morador do edificio que mencionei anteriormente, não se relacionar com aqueles que, ao final das contas, freqüentam o mesmo lugar, consomem os mesmo itens, num mesmo estilo de vida absolutamente conformista e que, no entanto, nas aparências é completamente diferenciado. Tudo o que existe, se é que pode ser percebido por uma certa quantidade de gente para se dizer existente num plano social, ainda que local ou regional, existe por ter sido mencionado e reconhecido na mídia. A realidade é, pois, o que aparece no jornal da noite e não o que aconteceu nas ruas à tarde. O mundo globalizado é feito no Paraguai: a legítima falsificação de mundo. O parecido é mais real que o verdadeiro. O público que elege o pagode não faz a menor idéia de quem seja Cartola ou compra discos de Jamelão; e pode até vir a simpatizar com estes, se colocado em contato, afinal os velhos mestres são parecidos com aquilo que consome. Embora muito mais "chatos", já que não foram paridos por nenhuma pesquisa de mercado. O produto pasteurizado, para o consumo das massas, feito em série, depende de uma padronização do gosto público. O estado globalizado se institui orientando a individualização em detrimento da originalidade ou do contato existencialista. A arte deve dar espaço ao objeto de consumo fetichizado pela mídia mas produzido na coréia, ou por crianças tailandesas. Há que se investir naqueles itens que provocaram a erosão dos estados socialistas sem, entretanto, possibilitar o raciocínio; sem glorificar a expressão que não busque a eficácia; sem orientar para o desenvolvimento das singularidades do olhar. A atuação dos intelectuais se dá apenas no ambiente acadêmico, cada vez mais afastado dos centros nervosos políticos e empobrecido de valor intrínseco. Para o cidadão que passeia de sandália e roupa de ginástica aos domingos pelos corredores dos shoppings o intelectual é, e tão somente, um chato. As faculdades de filosofia na França vão perdendo alunos a cada ano, na mesma medida em que se abrem lojas de Macdonalds e shopping centers. Porém - apesar da negligência mercadológica para o que é feito em nome da busca do saber, da excelência, de um aperfeiçoamento humano nas questões universais: a inteligência e o saber - é exatamente aí que se estabelecem, no meu entender, as possibilidades de reação e a elaboração de alternativas. O mundo inteiro sabe como é a carne que se come em Bologna, o que é o croissant ou o sanduíche que Hamburgo inventou e os EUA eternizaram. A luta brasileira tem sido no sentido de incluir o nosso pão-de-queijo neste cenário. Para isso, no entanto, é preciso que o brasileiro, tão atento aos sistemas comportamentais do primeiro mundo, se interessasse pelo leitão-à- pururuca, pelo baião-de-dois, e por que não dizer?, pela broa de milho. Se isto não significar nada no campo filosófico, pelo menos alguns resquícios culturais serão preservados, e a possibilidade de compreensão de nossa natureza, enquanto nação, estará assim estabelecida. Mas não é a inclusão do produto brasileiro no mercado internacional a solução para se lidar com a globalização. Se o capital financeiro chega aqui mais forte que o industrial, produtivo, quando sai leva parte de nossos sonhos e possibilidades. O sistema é nocivo como um todo; quero dizer que não basta estar bem colocado dentro do sistema, há que se compreendê-lo e ter alternativas para a preservação do pensamento, da crítica, daquilo tudo que norteou a existência de um Van Gogh. E que serviu, e muito, à humanidade, antes de enfeitar as paredes dos poderosos. Conseguir um lugar ao sol no horizonte que se anuncia para este século, dependerá muito mais de nossa capacidade de produzir inteligência. Este é o caminho, a alternativa das alternativas; a produção e o investimento no pensar, no saber, no olhar aguçado e agudo sobre o que nos interessa neste quadro e o que não nos servirá. O investimento na educação deverá se dar de tal forma que possa equiparar-lhe, em importância, ao poder de sedução exercido pelos mecanismos publicitários. A pesquisa é absolutamente necessária, mesmo e, principalmente, a que não resulta em sucesso e eficácia comercial. Antes mandava-se um texto para a polícia federal, hoje ao patrocinador. Antes obedecia-se aos interesses ideológicos do poder, hoje aos interesses mercadológicos. É preciso desvincular a produção intelectual da noção de sucesso em massa. Uma doença rara não venderá muito remédio, mas saber lidar com ela é, em última análise, conhecer mais sobre o corpo e avançar a medicina. Não haverá saúde pública enquanto a medicina servir ao lucro privado. Os EUA gastam por ano em patrocínios e fomentação de eventos culturais U$90 milhões anuais. A Alemanha gasta no mesmo período U$900 milhões, tendo uma população quatro vezes menor. Gasta, proporcionalmente, 36 vezes mais, portanto. O Brasil, neste quadro, aparece com cifras irrisórias, paraguaias. Ora, somos o povo que pior distribui sua renda, sendo um dos maiores PIBs internacionais. Dinheiro para esses investimentos há, a questão é convencer os nossos capitalistas, em geral gente pouco ilustrada, sobre a importância da produção de inteligência e de seus benefícios relacionados à questões como criminalidade, saúde pública, civilidade, produtividade etc. Em lugares onde o sucesso pessoal não se dá através do enriquecimento mas da felicidade, o saber tem lugar importante no panorama geral. Não é necessária a acumulação para se obter prazer, mas é necessário o acesso. Compreenda-se por acesso todas as possibilidades do termo: intelectual, financeiro, político, econômico etc. Mais do que a mera proposição de um sistema, ou de um programa político/econômico, acredito na necessidade de investimento na alma, naquilo que poderá inventar diferentes soluções para diferentes necessidades em diferentes tempos. Não há como imaginar a felicidade nos caminhos da insensibilidade e da indiferença, propostos por um tempo onde o corpo se mecaniza, os robôs ganham espaço e os vínculos humanos se fragilizam e fragmentam. É preciso contato com a própria humanidade para se poder refletir a questão existencial. Robôs não sentem dor, e paramentados com todos os produtos que a "felicidade" pode comprar, o jovem de corpo esbelto parecerá feliz. Mas até quando? O que fazemos com os velhos e as crianças? Os inválidos? Os menos capazes merecem a exclusão? Mas será que todos nesta lista são menos capazes em tudo e o tempo inteiro? Não se pode, como no caso da atual orientação política brasileira, aceitar as regras do jogo só porque todo mundo o faz. O neoliberalismo foi inventado para combater o estado do bem-estar social, das sociais-democracias do norte europeu. É , no mínimo, curioso que o partido que o instituiu aqui se chame social-democrata. Parece bom mas não é. Estamos perdendo nossa imagem no espelho, corrompidos por um sonho que não é nosso. Neste mundo globalizado, a capital é a Ilha de Caras, o hino nacional é a Macarena, a igreja é o shopping center e a vida é uma festa. E nós não fomos convidados. Como dizia o poeta: ficamos na porta, olhando os carros. Leo Jaime é cronista do Blônicas. Rodízio de amores.
De Carlos Castelo. Uma crônica homônima do Castelo virou curta-metragem, com direção de Pedro Souza. Assistam e digam o que acharam! Quem não gosta do que eu escrevo
está proibido de ler este texto De Henrique Szklo Eu não disse que estava proibido, seu teimoso. Tá bom, quer ler, lê. Mas depois vê se não reclama, tá? Não, tudo bem, pode reclamar a vontade, não tem problema. Eu adoro quando você esperneia. Semana passada realizei uma experiência muito prolífica aqui no Blônicas que me fez refletir muito sobre os papéis do escritor e do leitor, principalmente num ambiente como o blog. Quem acompanhou o festival de democracia (todo mundo se expressando exatamente como queria), pode fazer uma leve idéia do que eu estou falando. Senão, vejamos: Sou totalmente a favor da liberação dos comentários, mesmo os agressivos e xulos, já que, para mim, a manifestação de agrado e a de desagrado são ambas indicadoras de acerto do autor. A indiferença é o que mata o artista. É claro que é desconfortável ser xingado e agredido mas nada é mais desesperador do que ninguém notar a sua presença. Meu trabalho é provocar. Na minha opinião, inclusive, a arte é o exercício da provocação. Para o bem ou para o mal. E a gente mede o resultado pelo nível de resposta dos receptores. Positivas e negativas. O leitor que fica bravo comigo não sabe mas ele também precisa de mim. Todo mundo precisa de alguém que mexa com ele, que chacoalhe suas estruturas, que quebre alguns paradigmas e promova conflito, raiva, incômodo, desconforto, ou seja, a matéria-prima necessária para a reflexão. Eu sei que refletir dói e nem todo mundo quer fazer este sacrifício. E eu respeito. Mais ou menos. Meus textos não têm pretensão catequizadora. Não quero mudar nem influenciar a opinião de ninguém sobre nada. Quero apenas balançar o coreto e ver que música nova a bandinha vai tocar depois disso. E cada um que tire as próprias conclusões. Bem, essa premissa não muda o fato de que os destemperados cometem sempre alguma injustiça. Quer ver? Leitores/comentaristas, em altos brados, sugerem que se o escritor publicou no blog, tem de agüentar as opiniões a favor e contra. Tudo certo, concordo. Mas eles mesmos, os leitores, ficam ofendidos e têm chiliques se respondemos aos seus comentários, que também foram publicados, portanto estão na mesma condição das crônicas. Ou não? Democracia é uma via de mão dupla. Se você não gosta do que escrevo e quer se manifestar, tudo certo. Mas se eu não gostar da sua manifestação, posso fazer uma réplica, ou não posso? Conclui que blog é que nem o futebol. As pessoas vão no estádio para torcer, mas também para desafogar suas mágoas, exorcizar suas frustrações. Como estão protegidas pelo anonimato e pela multidão, se sentem completamente a vontade para xingar quem quer que seja. Os jogadores, o técnico, o juiz, o Galvão Bueno. Você já viu por acaso alguma história de alguém que encontrou um destes personagens na rua, cara a cara e se comportou da mesma forma? Claro que não. Você encontra o juiz que prejudicou seu time no elevador, só vocês dois, o que você faz? Nada, claro. Tá sozinho. É bundão. E como no futebol, a pessoa entra no blog torcendo para ler um texto vencedor. Mas às vezes o seu time não está muito inspirado ou o jogo é vencido pelo adversário. E aí o sujeito sai xingando o cronista de tudo quanto é nome, não entendendo que ele é um trabalhador, que tem família, tem filhos, tem pai, tem mãe, que está lutando pela vida como todo mundo. Seu pecado é não se jogar o jogo que o leitor/torcedor gostaria. Agora pense o seguinte: se você não concorda com as opiniões da sua mãe, não quer dizer que ela seja uma idiota, ou quer? Aí eu resolvi entrar nos comentários e responder às críticas. Nossa, a torcida delirou. Que absurdo! Como é que eu não me conformei em ficar restrito ao espaço a mim delimitado? Quem me deu autorização para responder às críticas na mesma moeda que os críticos fazem? Que arrogância! Que pretensão! Eu sou mesmo um idiota! Como toda pessoa mais ou menos normal, eu tenho a fantasia de ser amado incondicionalmente por toda a humanidade, mas um pouco de bom senso me faz concluir que o desagrado é inevitável. E até positivo para mim. Também me faz refletir. E eu gosto de refletir. As pessoas que me achincalham talvez não saibam, mas estão me fazendo um bem danado. Elas querem me magoar, me machucar, mas estão, na verdade, me ajudando a manter os pés no chão, a enxergar o mundo com mais realidade. E isso não tem preço. É um jogo de equilíbrio. Precisamos demais dos que gostam da gente e nos elogiam, mas sem os desafetos o que seria do Yin e do Yang. É claro que entre os enxovalhadores têm aqueles que não estão nem aí para o que eu escrevi: adolescentes que gostam de tirar uma com a cara de todo mundo ou pessoas que não gostam de mim e aproveitam o espaço para me avacalharem (com nomes falsos, claro). Para finalizar, permitam-me um conselho. O mesmo que dou à minha filha adolescente quando ela se irrita com as provocações do irmão. Se você não quer ser provocado, finja que não está ligando. Por que não existe nada mais estimulante para o provocador do que uma reação. E quanto mais destemperada, melhor. Henrique escreve no Blônicas e não quer saber o que você acha disso. O que você acha disso?
Postado por Nelson Botter Jr.
Qual sua opinião sobre o "Cansei"? Trata-se realmente de um movimento elitista e oportunista? Ou será que essa imagem foi criada pelos governistas para enfraquecer e derrubar o movimento? Diga aí, solte o verbo, hoje quem escreve a crônica é você... Primeira-dama.
De Milly Lacombe. Recebo um email: “O que faz Dona Marisa Letícia pelo país?” Pelo país, difícil saber. Mas o que ela tem feito, tá na cara, na bochecha, na testa, ao redor dos olhos. Até a presente data, não ficamos sabendo de nenhuma ação humanitária assinada por ela, mas soubemos que foi a primeira-dama quem pediu ao jardineiro do Planalto para recortar aquele lindo canteirinho vermelho em forma de estrela. Milly Lacombe é cronista do Blônicas. Sobre as fêmeas...
De Xico Sá. A fêmea é mesmo um jogo de advinhação. Governar bem um desses seres colossais passa sobretudo pela nossa capacidade de correr à frente dos seus desejos. E realizá-los a contento. O macho que consegue a tal façanha se consagra para sempre no coração da sua Carmencita amada. Xico Sá é cronista do Blônicas e canta modinhas de macho por aqui. Tô de saco cheio de leitor babaca
De Henrique Szklo, e daí? Quem inventou o espaço para comentários em blogs deveria ser pendurado pelas pontas dos mamilos. Êta, ideiazinha idiota, sô! Quem foi que disse que as pessoas têm o direito de dar a sua opinião sobre qualquer assunto? Quem foi que disse que leitor tem capacidade de avaliar a qualidade de um texto ou até mesmo a veracidade ou não das informações nele contidas? Quem foi que disse que eu quero saber qual é a sua opinião sobre o que eu escrevo? Hein? Olha, não me leva a mal, não, mas enfia a sua opinião naquele lugar (E quando eu digo “aquele lugar” eu não estou me referindo ao espaço para comentários do blog, entenda-se). Este desabafo não é dirigido à pessoas educadas que se expressam como gente civilizada, que já não andam mais de quatro, que há muito deixaram de rosnar, comer com a mão e fazer as suas necessidades ao ar livre. Não, estas pessoas têm o direito de ter a opinião que quizerem sobre o meu trabalho. Até porque elas são mais inteligentes. Me fazem refletir. Os animais que usam o espaço que cedemos gentilmente à raça humana para expressar toda a sua mediocridade, além de tudo são burros. Me agredindo, só vão me fazer ficar na defensiva, mesmo que numa hipótese remotíssima estejam certos no que dizem. A pessoa inteligente, aquela que tem QI de mediano pra cima, sabe que a melhor maneira de criticar alguém é fazendo este alguém sentir vergonha do que fez. Mas isso é estar exigindo demais da grande maioria dos leitores, eu sei. Fazer o quê? Eu sou um romântico. Um sonhador incurável. E tem mais, o sujeito lê os nossos textos de graça, não paga um centavo e ainda se sente no direito de nos agredir, nos ofender, nos sujar com a lama que sai de sua cabecinha problemática. Porque tem isso também: esse povo que sai desancado qualquer um por qualquer motivo tem problemas psicológicos claros. Pessoal do primeiro ano de Psicologia aprende isso. Não sei o nome técnico, mas é conhecido como recalque. É infeliz, mal-amado (ou não-amado), ganha pouco, ninguém respeita, ninguém quer saber, tem pinto pequeno, peito caído, não tem bunda, fracassado pessoal e profissionalmente, tem chulé e mau hálito, é massacrado pelos outros desde criancinha, era excluído na época de escola, etc, etc, etc. A lista aqui poderia ser muito maior. O que eu quero dizer pra você que vestiu a carapuça é: vai se internar, vai tomar prozac, tomar passe, o cacete, mas pára de encher o nosso saco. Ninguém tem nada com isso que a sua vida é uma merda. E ninguém quer saber o que você acha sobre nenhum assunto. Tem aquele outro tipo que lê um texto cheio de sacadas, de idéias interessantes, de conceitos provocadores e o único comentário que ele tem a fazer é que a palavra hesitar é com agá. Putz, esse é muito idiota. É o tipo da pessoa que não tem a menor capacidade de se encantar, de se emocionar. Que não está interessada nas idéias, mas na forma com que as palavras são escritas. Eu não quero roubar o emprego dos revisores. Cada macaco no seu galho. E se você acha que todo escritor precisa ser um mestre em gramática, guarde esse comentário pra você porque eu não estou nem um pouco interessado na sua opinião. E aqueles que criticam porque morrem de inveja de não estar colcaborando com o blog, um recado: não tem nada demais colaborar com este blog. Não precisa ter inveja, viu? Esse é apenas mais um blog entre milhões e acredito que meus companheiros blônicos compartilham comigo desta opinião. Então, ao invés de ficar poluindo nossa caixa de mensagens com suas opiniões desnecessárias, escreva um blog você mesmo e nos dê a oportunidade de visitá-lo e darmos nossa opínião idiota sobre a merda que você escrever lá. Se é que alguém vai se dar o trabalho de ler o que você escreve. Como o espaço para comentários está aí e não vai mudar, gostaria então de sugerir alguns complementos: a pessoa para fazer uma crítica a um texto do Blônicas vai precisar mandar para nós algum exemplo do fruto de seu trabalho. Se for um advogado, mande uma defesa que você desenvolveu. Se for um médico, mande um relatório de tratamento de um cliente. Se for um administrador, mande o balanço de sua empresa. Se for comerciante, mande a foto de sua loja. Aí, cada um dos escritores do Blônicas vai dar a sua opinião sobre o seu trabalho. Não é legal? É claro que neste momento existem milhares de idiotas pensando: se não quer ser criticado não escreva em um blog. E a estes idiotas eu respondo: se eu soubesse que gente como você iria ler o que escrevo, preferiria ter continuado analfabeto. Henrique escreve no Blônicas e não quer saber o que você acha disso. Uma lição.
De Nelson Botter Jr. Prefiro omitir meu nome. Vou apenas dizer que sou pastor, mas também não quero citar de qual igreja. É uma das grandes e não convém entrar nesses detalhes, pois o assunto aqui não tem a ver com religião... ou será que tem? Acho que não. Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas. Ai, cansei, sabe?
De Carlos Castelo. Lu: Estou mandando esse e-mail pra dar minhas impressões sobre a passeata do movimento “Cansei” naquele domingo no Ibira. Carlos Castelo é cronista do Blônicas e esta crônica também foi publicada no Jornal Destak. Bicicletai!
De Antonio Prata. Um dias desses, evidentemente, tudo há de dar certo, os automóveis se extinguirão e a superfície da terra será povoada apenas por bicicletas. Alguns carros, ônibus e caminhões serão expostos nos museus, feito mamutes, guilhotinas e outros monstros findos, para divertir a criançada e alertar os adultos: que o horror jamais se repita. Sobre selins acolchoados, seremos felizes para sempre. É inegável a simpatia das bicicletas. Máquina desengonçada: se parada, destrambelha-se como um albatroz em terra, mas ao impulso dos pedais, projeta-se como uma flecha, esguia, impoluta e silenciosa. Bicicletas, ninguém pode negar, são irmãs dos guarda-chuvas, primas das girafas e parentes distantes dos abacaxis (não me peça para explicar, foi uma idéia que tive agora). Durante todo o século XX, muitos artistas aproveitaram-se de seus encantos. É pedalando que vemos quase todo o tempo monsieur Hulot, personagem do filme Meu Tio, utopia lírica de Jacques Tati. Marceu Duchamp, depois haver exposto um mictório no museu, enfiou uma roda de bicicleta num banco de madeira e deixou as velhas noções sobre arte – literalmente – de pernas pro ar. É impensável um facínora de bicicleta, inconcebível um ditador pedalando. As “máquinas da paz”, como as chamou Vinícius de Moraes, em sua Balada das meninas de bicicleta, são muito mais afeitas aos suaves cuidados das moças: “Bicicletai, meninada!/ Aos ventos do Arpoador/ Solta a flâmula agitada/Das cabeleiras em flor”. As bicicletas são um indício de civilização. Recomendadas por ecologistas, urbanistas, cardiologistas e artistas, têm logo de entrar na agenda política. Ainda não vi nenhum candidato expor, no horário eleitoral, seu projeto nacional de bicicletização. Se aparecer algum, ganhará de imediato meu apoio. Se Deus voltasse à terra e dissesse, “me mostrem aí o que vocês fizeram”, teríamos de levá-lo imediatamente a Amsterdam, para um passeio ciclístico, em torno daqueles belíssimos canais. Ou então ao Rio de Janeiro. Pegaríamos Deus no Santos Dummont (vindo do céu, é de se supor que chegará de avião) e O colocaríamos na garupa. Cruzaríamos todo o aterro, pedalando sem pressa, sob o sol ameno das quatro e meia da tarde. Passaríamos pela estátua de Drummond em Copacabana, veríamos as garotas saírem do mar em Ipanema e terminaríamos o passeio no Leblon, com um mergulho no mar e um suco de melancia, no exato momento do sol se pôr. Se Deus tiver um pingo de sensibilidade, estaremos todos salvos. Antonio Prata é cronista do Blônicas. O controle-remoto.
De Leo Jaime. Há um certo tipo de motorista que todos conhecem: agoniado, não pode Leo Jaime é cronista do Blônicas. |