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Nossa história de amor nunca vai acabar.

De Xico Sá.

Ih, carai, nosso amor pode até ter acabado, mas o juiz esqueceu de apitar o fim.

Graças a deus a torcida foi simbora, os barbaros, digo, os idiotas, pegaram um pau da peste, e nada foi resolvido.

Tudo foi so notícia em boca alheia. Igual sair em jornal, ou seja, nada. Aliás, posso te contar dum grafite anarquista de Espanha,que li num banheiro de viagem a Barcelona? “NÃO COMPRE JORNAL, MINTA VOCE MESMO!!!!!!”

Seis exclamações? Nelson rodrigues e o seu duplo. Ele amava esses raiozinhos ortográficos! alias, eu acho q sonhei esse grafite...

O juiz.

trimmmmm

Nunca ouvido.

Ai fomos para a prorrogação.

O medo do goleiro diante do pênalti, Peter Handke... cabra la que bebe e trabalha com W.Wenders...

Ai, pra completar, eu acho que já sou uma alma de mulher que ama futebol. O juiz.

Placa subindo do acréscimo. Meu pau e o meu Santos em apuros, foda-se robinho.

Vixi, ai quando eu achava que não tinha mais nada..

Pênalti mal-marcado.

Ela me empurrou, mas nem tanto.

Na risca da grande área.

Primmmmm, trimmmm, onomatopéia sem a rima do fim..

O juiz esqueceu de apitar, isso é futebol ou filme francês de Godard???

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h11
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Os novos bares velhos.

De Antonio Prata.

A primeira vez que me convidaram para ir a um bar carioca, recusei a proposta com um certo espanto. Disse que estava pensando em tomar uns chopes, não a ponte aérea. Meu amigo riu: o bar carioca ficava em Pinheiros. Como assim?!

Logo que entrei, entendi tudo. Era uma espécie de botequim carioca de cidade cenográfica. Um Rio de Janeiro de Epicot Center. Estavam ali, lado a lado, todas as idéias que um paulista tem de um boteco da cidade maravilhosa: bolinho de bacalhau, sanduíche de pernil, chope bem tirado, mesas com tampo de pedra e cadeiras de madeira, filé a Oswaldo Aranha e garçons de gravata borboleta e ar aristocrático, desses que parecem trabalhar por vocação e já ter servido, em outros dias, o leite de Nelson Rodrigues e o uísque de Vinicius de Moraes. Um velho bar carioca era o novo bar paulista. Isso foi no fim da década de 90.

De lá pra cá, o estilo se multiplicou e se transformou. Os bares já não imitam mais o Rio, mas recriam uma espécie de passado paulista. Pirajá, Original, Astor, Filial, São Cristóvão e outros são bares que não querem ser modernos, a última moda em Nova York, querem ser antigos. Balcões de madeira escura, máquinas de chope com cara de começo do século XX, pisos de ladrilho hidráulico. No cardápio, pratos e petiscos “populares” são servidos com pompa e circunstância: sanduíche de mortadela, picadinho, coxinha e empada estão no lugar onde, anos atrás, em bares “bacaninhas”, encontraríamos coisas com nomes franceses, italianos, japoneses.

É como se São Paulo tivesse uma onda nostálgica e, cansada de macaquear as metrópoles de primeiro mundo, decidisse voltar para casa, para o colo da mãe. Mas aí: surpresa! A mãe não existe mais. Não se constrói nova Faria Lima sem derrubar o velho Itaim. Não suportamos o que tem mais de trinta anos, por isso jamais teremos nada de cem.

Lévi-Strauss escreveu em Tristes Trópicos que, se “Para as cidades européias, a passagem dos séculos constitui uma promoção; para as americanas a dos anos é uma decadência”. Claro, para a Notre Dame, um século a mais é uma melhora. Para o Shopping Eldorado, duas décadas é a ruína.  Cansados dos velhos novos bares, a gente investiu nos novos bares velhos. O que talvez seja a mesma coisa. Ou não, como já dizia o poeta.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h19
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Delivery.

De Tati Bernardi.

Quando paramos em frente ao flat, lembro que ainda perguntei mais uma vez se era isso mesmo o que ela queria. Ela apenas me olhou e sorriu triste. Como quando a pessoa está cansada de saber da dor do dia seguinte mas insiste em congelar um dia. E saiu do carro com delicadeza e uma esperança infantil de eternizar segundos.
Olhei ela entrando, de longe. Aquilo foi terrível. Queria sair gritando e agarrá-la pelo pescoço. E dizer mais uma vez que ela não precisava disso. E que uma hora tudo iria ser tão lindo e saudável e preenchedor. Mas a deixei ir, como uma mãe que sabe que o filho vai sofrer mas acha inevitável abrir as pernas para libertá-lo.
Três coisas facilitaram que ela achasse a vida muito divertida: o óculos escuro vagabundo que ela ganhou no casamento, as havaianas pra quando o pé cansasse e o fato de que a noite ia começar quando o dia já estava para nascer.
No elevador ela se achou absolutamente linda. Coisa que só achava nessas situações em que ninguém poderia saber o que ela estava fazendo. Ela se transformava em personagem para enganar a vida chata e todas as suas imperfeições.
Tive dó quando vi a alegria que ela sentiu ao ver aquele corredor com dezenas de números. Era como uma gincana inocente onde só uma porta tinha o bilhete premiado e ela era a única que sabia o número.
Depois esperei, do lado de fora. Tudo virar frio. Ela se cansar do frio. Ela procurar o controle remoto do ar condicionado e não encontrar e morrer de frio. E querer um pedaço da coberta mas não ter mais permissão para querer. E querer um abraço mas não ser mais permitido ganhar isso. E querer pedir ajuda em relação ao frio mas não ser mais permitido pedir ajuda. E querer ser vista mas não ser mais permitido existir.
Esperei ela finalmente cansar do frio e se levantar sem fazer barulho. E enfrentar o dia seguinte, com tudo o que ele tem de real. A realidade cheia de pontas cortantes. A realidade que transforma uma mulher cheia de sonhos e carinhos e algumas boas frases em mais uma pizza que esfriou. Um delivery vencido.
E esperei sofrendo o momento em que ela se olharia no espelho e diria com os olhos borrados que sua ficha caiu. E esperei ela resgatar pelos cantos não íntimos, em silêncio e sem cúmplice, tudo o que era seu com medo de deixar algum rastro ou parecer boba.
Esperei sentadinha do lado de fora, com o coração na mão. Com medo dela fazer alguma besteira como beija-lo quatorze vezes mesmo ele sendo mais um desses caras que não vão sequer até a porta pra se despedir ou ligam para saber se o táxi chegou direito.
Ainda assim, ela é uma dessas garotas que beijam mais um desses caras quatorze vezes. Porque um desses caras, que dá vontade de beijar quatorze vezes, aparece a cada quatorze caras. E ela se despediu de uma felicidade e uma gentileza que existiram apenas na sua emoção. O que já era algo nessa vida chata cheia de gente chata. Alguém que despertava a sua emoção.
E ela finalmente saiu. Ela e seu sorriso triste novamente. Agora um pouco mais triste mas ainda assim iluminado. Ela e sua vontade de tomar banho quente e comer pão de queijo e voltar a ser apenas uma menina que sonha com alguém para se fazer isso junto, pela manhã. Com a maquiagem borrada e o vestido de ontem. E medo de ser confundida com puta na recepção do flat. E com medo dela própria, mais tarde, se confundir com puta.
Ela e seus óculos de brinquedo para esconder de brinquedo uma emoção de brinquedo. Usando sua havaianas para uma alma cansada. Achando graça que o dia terminava justamente porque começava de novo.
No Ibirapuera as pessoas corriam numa maratona. Cheias de certeza. Ela olhou tudo aquilo com um sono profundo. Enquanto alguns corriam, ela só queria parar. Parar em algum braço, em algum abraço. Parar finalmente. E tomar o banho quente e comer pão de queijo. E ter abraços permitidos para sempre. E poder reclamar do frio para sempre. Ela só queria se sentir quente, ainda que fosse de despedida.
Ela sabia que era amor de um dia e tinha topado, mas não aceitava que o amor de um dia tivesse acabado sem amor.
Foi então que eu perguntei de novo, se era isso mesmo o que ela queria. E ela respondeu que não, não era. Mas na vida só existia uma coisa mais forte do que querer: a própria vida.
Ela adormeceu no táxi, cansada o suficiente pra não se sentir suja e boba o suficiente pra engolir a saliva feliz, como se ainda pudesse reviver algo que havia morrido tão rápido. Achei aquilo lindo, achei que aquilo era a vida. E acabei dando finalmente o abraço eterno que ela tanto queria e que eu tanto queria. Ainda que se perdoar não melhore a solidão de ninguém.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas e autora do livro "A mulher que não prestava".

Escrito por Blônicas às 11h20
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9 motivos que comprovam que Lula é Jesus Cristo.

De Edson Aran.

Ajoelhe-se, descrente! Ele é mesmo o filho do homem.

1 – Ele caminha sobre a lama e não afunda;
 
2 – Ele promete o paraíso aos pobres de espírito;
 
3 – Ele expulsou os vendilhões do templo e levou pro planalto;
 
4 – Ele cura leprosos (Gushiken, Delúbio etc);
 
5 – Ele faz santa ceia todo sábado na Granja do Torto;
 
6 – Ele tem discípulos dispostos a morrer por ele;
 
7 – Ele diz que criou o céu e a terra;
 
8 – Ele ama muito os seus próximos (Freud Godoy e Lorenzetti);
 
9 – Ele será crucificado entre ladrões.

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h59
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Notinhas blôniquetas.

O filme "Estômago", com roteiro de nosso blônico Lusa Silvestre e direção de Marcos Jorge tem estréia confirmada para o dia 26/09, no Festival de Cinema do Rio de Janeiro.

Dia Mundial Sem Carro numa cidade como São Paulo (em que o transporte público é tão caótico quanto o trânsito diário) só pode ser piada de mal gosto.

Lula disse que vai falar com seu "amigo" Bush e pedir para que os EUA controlem sua crise financeira, pois o Brasil não permitirá que essa crise "atravesse o Atlântico" e nos atinja.

Escrito por Blônicas às 10h32
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Declaração universal dos direitos do dirigente da ANAC.

De Henrique Szklo.

Artigo 1º. – Todo dirigente da ANAC nasce livre e igual em dignidade e direitos. Não demora muito e ele decola rumo a um cargo para o qual não entende patavina. Pouco tempo depois está voando e andando para aqueles que são prejudicados por sua incompetência.

Artigo 2º. - Todo dirigente da ANAC tem o direito de tentar evitar que o povo brasileiro passe pelo terrível perigo que é viajar de avião;

Artigo 3º. - Todo dirigente da ANAC tem o direito de ser apelidado de “reverso”, ou seja, aquele que está lá mas que não faz diferença se funciona ou não;

Artigo 4º. - Todo dirigente da ANAC tem o direito de pegar um jatinho executivo para ir à sua cerimônia de condecoração, já que não dá pra confiar na aviação comercial;

Artigo 5º. - Todo dirigente da ANAC tem o direito de entender de aviação tanto quanto uma anta entende de charutos;

Artigo 6º. - Todo dirigente da ANAC tem o direito inalienável de pedir demissão com um atraso imenso, só para manter a coerência com o clima reinante nos aeroportos;

Artigo 7º. - Todo dirigente da ANAC tem o direito de relaxar e gozar; 

Artigo 8º. - Todo dirigente da ANAC tem o direito de ter a cara-de-pau mais pesada que o ar;

Artigo 9º. - Todo dirigente da ANAC tem o direito de ser acusado de possuir excesso de bagagem;

Artigo 10º. - Todo dirigente da ANAC tem o direito de fazer Santos Dumont revirar em sua tumba, já que ajudaram a bagunçar dois de seus inventos: o avião e o relógio de pulso.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h04
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A revolução poética.

De Carlos Castelo.

Um grupo de populares passava rapidamente diante do imponente prédio da Fiesp quando viu aquele cidadão agitado, meneando a cabeça e os braços.

A príncipio pensaram ser um pastor evangélico. Podia estar pregando alguma passagem do Evangelho, com os tradicionais exemplos de almas indo para o Inferno por não pagar os dízimos, não alardear o nome do Senhor com devoção e etc. Mas, ao chegarem mais perto, viram que o homem bradava uma mensagem absolutamente laica. Mais: ritmada e repleta de imagens inusitadas.

Tudo ficava ainda mais surpreendente quando essas imagens eram comparadas ao entorno cru, duro e frio da selva de pedra do espigão da avenida Paulista.

O homem falava de pequenos detalhes esquecidos. Um miolo de pão, a brisa, um quase-beijo, um adeus.

A turba que saia dos escritórios para almoçar, vinha andando pelas largas calçadas e estacava para ouvir a “pregação”.
Nesse mesmo instante, não muito longe dali, no bairro da Liberdade, um grupo de nisseis iniciou um recital de haicais em frente ao Hospital Santa Helena. De repente, numa esquina, em meio à fumaça e às buzinas, Bashô baixou.

A cena foi tão fora dos padrões que os carros estacionavam, os ônibus paravam e os passageiros desciam para testemunhar.
Debaixo do chão, em cada uma das estações do metrô da cidade, postaram-se outros bardos. Uns declamavam Lorca, outros Drummond, alguns preferiam Castro Alves e houve até quem se lembrasse que Raymond Carver produzia poesia e a reverberava pelos túneis.

A novidade não ficou apenas reservada aos bairros centrais.
Em Santana, na Freguesia, na Lapa de Baixo, em todos os cantos havia um poeta declamando docemente uma glosa ou vociferando um novo mote.

Só bem mais tarde, o Governador foi informado dos eventos pelo seu ajudante-de-ordens.

- Isso só pode ser coisa do crime organizado – exclamou com propriedade.

Nervoso, ele pediu uma ligação urgente ao Presidente. Enquanto o localizavam, ficou mirando a rua da janela de seu gabinete. Nos portões do palácio, havia um cidadão baixinho, delgado falando alguma coisa com veemência aos sentinelas à sua frente.

O Governador abriu o vidro e ouviu o homem declamar Anna Akhmátova, sua poeta preferida nos tempos de militância estudantil.

Era preciso intervir.

Mal pensou nisso, foi recebendo um relatório da Policia Militar das mãos de seu Secretário de Segurança Pública: já eram mais 4 mil poetas recitando pelas ruas. O comércio baixara as portas, os aeroportos estavam fechados, o povo se recusava a trabalhar e só dava ouvidos aos vates e às poetisas.

O Secretário da Cultura informou em seguida pelo viva-voz que as emissoras de tevê estavam pressionando, ninguém estava dando a menor bola para a programação, o prejuízo dos patrocinadores seria incalculável.

Rapidamente aquele repentino clamor lírico estava tomando feições de catástrofe nacional.

Sem dúvida alguma, havia alguma mente doentia por trás do episódio. Um Eixo do Mal que usava os sonetos, os dísticos, os decassílabos sáficos para desmoralizar o Poder Estabelecido. Talvez fosse a única certeza, afora a nítida sensação de desgoverno.

E por falar em caos, onde estaria o maldito Presidente num momento, digamos, poético daqueles?

O primeiro magistrado estadual se fechou sozinho numa das salas de reunião.

Ficou refletindo ali por meia hora, como costumava fazer nos momentos mais críticos. Mais tarde, chamou todo o Secretariado.

Diante do silêncio pesado na mesa de jacarandá ovalada, o responsável pela Casa Civil tomou a palavra:

- Então, Governador, não é possível tentar um contra-ataque?

O Governador, combalido, respondeu num fio de voz:

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h34
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Esquizofrenia, hipocrisia e covardia.

De Milly Lacombe.

O senador Renan Calheiros é um herói. O homem disse que não sairia e, apesar da avalanche de denúncias, não saiu de fato. Nada como ter reféns políticos. Nada como saber do podre alheio. E, afinal, cá entre nós, por que ele sairia? Tudo o que fez está dentro da cartilha moral e ética que nos governa. Todos fazem, todos sabem, todos se fecham em um código de honra torto, ninguém é punido – fora você e eu.

Quando o bando do senado percebeu que, para livrar a cara do compadre, seria preciso fazer uma sessão clandestina e com voto secreto, tudo ficou mais simples. “Vamos nos fechar aqui nessa sala, vamos nos blindar da mídia e que ninguém jamais saiba o que aconteceu aqui dentro”, pensaram. E, assim, fomos todos moralmente estuprados. Porque você e eu, os violentados pela ética podre de Brasília, estávamos naquela sala, de pernas abertas, invadidos lentamente pelo lixo político que foi ali despejado.

Mas por que deveriam esses servidores públicos, nossos funcionários, dizer como votaram? O que eles nos devem? Satisfação? Ah, pára com isso. Não devem nada a ninguém. São os donos do mundo. Covardia e hipocrisia são a moeda de troca em nossa capital. Todos fechados em um mesmo bunker de lodo. Nós, aqui fora, assistindo a tudo, enjoados com o cheiro que vem de lá.

Enquanto o excremento federal se espalha, nosso líder supremo, aquele que nada sabe, arrumou, como de praxe, uma missão além-mar. Lá de outra latitude chega a aspa: “Não vou aceitar que a crise americana nos atinja”. Falar sobre a proteção que seu Partidão deu ao senador moribundo, nem pensar. Nosso mestre acordou invocado, mas foi com a já velha e batida crise americana. Falou que nem macho. “Não aceito e pronto!” É sensacional. Melhor, só se tivesse dito: “Não aceito o inverno!  Partir de hoje, não aceito nada além de verão”. A gente ainda chega lá. Por agora, o  homem quer mesmo é falar do caju e do etanol. Só sobre isso consegue discursar. Nem mais sobre seu Corinthians, que agora é um caso de polícia com participação especial do Planalto, aceita tagarelar. Os assuntos estão cada vez mais restritos. Ainda bem que alguém lembrou a ele sobre o caju. Na volta ao Brasil, seus assessores já estão correndo atrás de pautas. Certamente promoverá a banana ou o nabo em caravanas pelo nordeste. “Renan? Que Renan?”.

Nossos líderes vivem um estado de esquizofrenia coletiva. Seus discursos estão dissociados da realidade. E as palavras perdem o valor quando não concatenam com a realidade vivida. O grande Renan agora prega que o povo, emocioando, o conclama e parabeniza pela vitória. Vai ver ele realmente vê a cena: uma praça lotada, milhares de eleitores aplaudindo sua honra e macheza. Uma vitória, diz, que foi do povo brasileiro. Se por “povo” ele se refere a essa classe que nos governa, terá toda a razão.
Desistam. Legitimou-se o escárnio, a lorota, o trambique, o superfaturamento, a falta de decoro, a falta de ética. Passa a ser certo mentir, desviar (ia escrever roubar, mas quem rouba é pobre; rico desvia), iludir, superfaturar. O Brasil acabou, o senado mergulhou no pântano da podridão moral, onde já se encontravam a câmara e o Planalto. Estamos voando porque já estávamos no ar, mas não há ninguém na cabine. Assim, a queda é inevitável. Nem é mais preciso apertar o cinto. Mas nem tudo está perdido: a aeromoça já vai passar com um copinho de suco de caju. 

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h53
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Segura o Tchan!!!

De Leo Jaime.

    A golpes de machadinha ou faca de cozinha, cai por terra a falocracia.
Depois de 2.700 anos luzindo incólume pelo firmamento do racionalismo, entra em decadência, e sem nenhum respeito pelo feminino, o ícone máximo da positividade. Será que existe alguma coisa mais fundamental para a continuidade da espécie do que o orgasmo e a ejaculação masculina? Sim. A inseminação artificial congratula a tirania do útero e o homem perde seu lugar na cabeça do casal. Quando muito pode ser o cotovelo do casal. Algo útil, mas que ninguém perde tempo olhando.
    Cortam-se perús hoje em dia como se todo dia fosse véspera de natal. A polícia precisa ver isso. As feministas também precisam ver isso! Será que cortar e dar para o cachorro é a solução? Quem poupa tem!
    Houve um tempo em que a moda era jogar água fervendo na orelha do maridão enquanto ele dormia de porre no sofá da sala. Agora elas acham que ouvir é o que eles precisam, e deixam os ouvidos em paz. Inveja do pênis pode ser a explicação freudiana, mas a moda é nova e a neurose ancestral. E esse é apenas um dos horrores a assombrar o inconsciente masculino contemporâneo.
    Historicamente os homens têm se provado mais propensos a doenças em geral, morrem mais cedo, cometem muito mais crimes, são mais violentos, obssesivos e, contudo, infelizes. O tal machismo, ainda que invenção masculina ( eu duvido!) é um fracasso em todos os sentidos. Só as mulheres lucram com ele, e perpetuam-no ensinando aos filhos enquanto o marido trabalha ou vê TV. O homem acaba por ser um erro histórico. Ao mesmo tempo que consegue vencer distâncias impressionantes no universo do raciocínio, da física e da matemática, não consegue se ver livre das questões mais básicas do relacionamento humano. Alguns chamariam de inteligência emocional, outros de sabedoria holística, um saber feminino e global, não cartesiano e causal. Mulheres se aceitam como um ser imprevisível e caótico.
E nisso se afinam mais com a vida e o universo. Tudo bem, que sejam caóticas e imprevisíveis, que queiram cobrar a falta histórica da supremacia masculina. Cabe aos homens fazerem uma barreira e segurarem o tchan, pois elas estão chutando forte! E a pontaria é duvidosa.
    Primeiro foi o filme "Atração fatal". Uma potencialização do "comeu tem que casar"  tradicional. Depois veio o evento Tyson - o fato de uma mulher que você acabou de conhecer se deitar nua em sua cama, espontaneamente, depois de ter tirado o "ob" sozinha no banheiro, não significa que ela quer dar pra você. Ela gemeu um não e depois chorou! Prenda-se  sete oitavos da espécie masculina, pois. Em seguida entra a moda das que cortam o "mal" pela raiz. A americana que a polícia absolveu, a argentina que não quis por a mão na massa, pagando uma quadrilha para fazer o serviço e agora essa, uma adolescente bonitinha que usou e jogou fora.
    Depois elas reclamam a falta de homens!
    E as ex-esposas? Abro uma revista feminina e está lá em letras
monumentais: "Antes de se separar, contrate um advogado e DEIXE ELE SEM NADA!". Vem cá, é isso mesmo? Comeu tem que pagar? Com amor custa mais caro?
É igual restaurante, te dão de comer e beber, tudo na maior delicadeza, e no fim você descobre que tudo  aquilo tem um preço. Casamentos um dia acabam, ex-mulheres são pra sempre. Me recordo de uma piada. O pai mostra para o filho tudo o que conseguiu construir numa vida de labuta e declara: "Meu filho, isso tudo será de sua ex-mulher um dia!".
    É óbvio que isso não é regra. A cada dia mais mulheres entram pela porta da frente no mercado de trabalho, assumindo cargos de chefia e posições estratégicas no cenário político. Nas universidades é predominante a presença feminina. Em quantidade e qualidade é inexorável a supremacia feminina, e esse velha opção profissional continua em voga.
    Faz muita diferença sim. Se você é um menino e não sabe fazer nada direito você é um incapaz. Se você é uma menina, ora, vai ser dona de casa.
Mesmo que seja uma péssima mãe, não saiba fazer nada em casa, ninguém vai te chamar de fracassada. Basta ter um filho, mesmo contra a vontade do pai, que passa à condição sagrada de mãe. Isso é uma injustiça! Se um homem fica em casa cuidando das coisas será achincalhado. E mesmo que ele seja um profissional gabaritado e um pai atencioso - um excelente provedor, enfim - tudo irá por água se ele cometer o maior pecado da terra: meia-hora de amor com um amiguinho dentro de um carro custou 30 anos de bons serviços a um coronel condecorado. Admite-se que você mate, que você traia sua nação, tudo isso pode ser perdoado. Divulgar o ³lado B² isso não. Isso nunca! A honra do homem está aonde? Atrás.
    Não bastassem as matrizes querendo tomar tudo, ainda aparecem as filiais com seus "golpes de barriga" dizendo que R$ 3.000,00 não dão pra comprar o leite. O leite dá sim, o que não dá é pra comprar o carrinho para o namorado novo. Alguém tem que pagar por isso. Sou da opinião que se uma mulher o tapeou e engravidou contra sua vontade é ela quem tem que  pagar pensão. Ter um filho contra sua vontade, o enganando quanto ao uso de anticoncepcionais, é uma espécie de estupro moral, com danos vitalícios. É antigo, é horroroso e ninguém combate isso. Coitada da criança, é o que dizem! E do pai à força ninguém tem pena? Ainda acham que ele tem que torrar uma grana nisso! Hoje em dia existe até uma lei que garante à mulher uns trocos mesmo se o cara só "passava lá" de vez em quando. Sexo e amor, mesmo que muitas mulheres sejam contra, ainda pode custar dinheiro. Quando o preço é acertado antes fica mais barato. Quanta mediocridade!
    E o amor? Contas de amor sempre dão errado. O amor não é uma ciência aritmética e as mulheres são mais sábias nisso. Onde é que elas se perdem?
Não será o amor, atualmente, o que mais quer uma mulher? Então o que é que elas querem?
    Fazer xixi em pé parece ser a única vantagem em ser homem. Por enquanto.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h15
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Senado: 40 X 35

De Nelson Botter Jr.

INGREDIENTES:
1 Kg de farinha de trigo
2 colheres de banha
1 ovo inteiro
2 tabletes de fermento biológico
1 xícara de óleo
1 pitade sal
1 pitada de açúcar
5 xícaras de água

MODO DE PREPARO:
Coloque a farinha em uma bacia e acrescente o fermento, o sal, açúcar, ovo e o óleo, coloque a água em uma panela e quando estiver morna misture a banha até desmanchar. Em seguida acrescente aos poucos na massa, até obter o ponto de sovar.
 
Sove bem, abra com o rolo uma massa bem fina, como a de pizzaria mesmo, e coloque em formas untadas com óleo e farinha.

Passe o molho de tomate pela massa e coloque o recheio de sua preferência.

Depois de levar ao forno, sua pizza está pronta para servir.

Fonte: Site "Tudo Gostoso".

Nelson Botter Jr é cronista e mestre cuca do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h22
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Miss Corações Solitários

De Xico Sá.

EU ME CASEI, E AGORA?
O que a "sábia e almodovariana senhora" diria para uma mulher que acabou de se casar/juntar? Sei, podem ser muitas coisas, mas não custa nada tentar...
Bjos, Dan (SP)

A CIGANA RESPONDEU:
Estimada consulente, aproveite o enlace para cometer a mais linda e nobre das pornografias: a phoda com intimidade. O mais é assombro e preconceito de frase feita ou filosofia de pára-choque. Evite as dê-erres <discussões de relação> e os pantins nos feriadões; fuja da pizza dellivery mesmo nas tempestades de São Paulo _a mussarela em domicílio provoca o fastio de viver e de phoder. Evitem idem a pijamização dos pombinhos. O pijama, tenho dito, burocratiza o desejo, o pijama, meu coração, é o paletó de madeira do amor. Sem mais, despeço-me, atenciosamente, sua M.C. Solitários. 

EU QUERO ME CASAR, E AGORA?
Eu preciso de uma ajuda . Urgente ! Eu preciso de alguém, eu preciso de um namorado, estou ha muito tempo sem ninguém, só fico sofrendo, me iludindo com gente sem coração. Ajude me!
Ass. Andrea Rosa (SP)

A CIGANA RESPONDEU:
Frágil e amável criatura, vejo aqui, na borra do café batizado com domecq, que em breve, muito breve, terás um homem pra chamar de seu... pra te pegar no colo, te deitar no solo e te fazer mulher. Não ficarás chupando o frio chicabon da solidão no inverno que se aproxima. Não. Um cabrón que te desprezou está a caminho, em passos de cavalo branco, escute só o barulho das patas, o cowboy do asfalto, que parece saído de uma peça de Sam Sheppard... Vai fazer tremer o teu pobre coração, como nas letras de bolero, prepara-te, esse fogo nas entranhas está com os dias contados. Carinho, M.C. Solitários

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h44
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Onde estão as pessoas interessantes?

De Tati Bernardi.

Não sei mais o que fazer das minhas noites durante a semana. Em relação
aos finais de semana já desisti faz tempo: noites povoadas por pessoas com
metade da minha idade e do meu bom senso. Nada contra adolescentes,
muitos deles até são mais interessantes e vividos do que eu, mas to falando
dos “fabricação em série”. Tô fora de dançar os hits das rádios e ter meu
braço ou cabelo puxado por um garoto que fala tipo assim, gata, iradíssimo,
tia.
Tinha me decidido a banir a palavra “balada” da minha vida e só sair de casa
para jantar, ir ao cinema ou talvez um ou outro barzinho cult desses que tem
aberto aos montes em bequinhos charmosos. Mas a verdade é que por mais
que eu ame minhas amigas, a boa música e um bom filme, meus hormônios
começaram a sentir falta de uma boa barba pra se esfregar.
Já tentei paquerar em cafés e livrarias, não deu muito certo, as pessoas olham
sempre pra mim com aquela cara de “tô no meu mundo, fique no seu”. Tentei
aquelas festinhas que amigos fazem e que sempre te animam a pensar “se
são meus amigos, logo, devem ter amigos interessantes”. Infelizmente essas
festinhas são cheias de casais e um ou outro esquisito desesperado pra achar
alguém só porque os amigos estão todos acompanhados. To fora de gente
desesperada, ainda que eu seja quase uma.
Baladas playbas com garotas prontas para um casamento e rapazes que
exibem a chave do Audi to mais do que fora, baladas playbas com garotas
praianas hippye-chique que falam com voz entre o fresco e o nasalado (elas
misturam o desejo de serem meigas com o desejo de serem manos com o
desejo de serem patos) e rapazes garoto propaganda Adidas com cabelinho
playmobil também to fora.
O que sobra então? Barzinhos de MPB? Nem pensar. Até gosto da música,
mas rapazes que fogem do trânsito para bares abarrotados, bebem
discutindo a melhor bunda da firma e depois choram “tristeza não tem fim,
felicidade sim” no ombro do amigo, têm grandes chances de ser aquele tipo
que se acha super descolado só porque tirou a gravata e que fala tudo
metade em inglês ao estilo “quero te levar pra casa, how does it sounds?”
Foi então que descobri os muquifos eletrônicos alternativos, para dançar são
uma maravilha, mas ainda que eu não seja preconceituosa com esse tipo, não
estou a fim de beijar bissexuais sebosos, drogados e com brinco pelo corpo
todo. To procurando o pai dos meus filhos, não uma transa bizarra.
Minha mais recente descoberta foram as baladinhas também alternativas de
rock. Gente mais velha, mais bacana, roupas bacanas, jeito de falar bacana,
estilo bacana, papo bacana… gente tão bacana que se basta e não acha
ninguém bacana. Na praia quem é interessante além de se isolar acorda cedo,
aí fica aquela sensação (verdadeira) de que só os idiotas vão à praia e às
baladinhas praianas. Orkut, MSN, chats… me pergunto onde foi parar a única
coisa que realmente importa e é de verdade nessa vida: a tal da química. Mas
então onde Meu Deus? Onde vou encontrar gente interessante? O tempo está
passando, meus ex já estão quase todos casados, minhas amigas já estão
quase todas pensando no nome do bebê,… e eu? Até quando vou continuar
achando todo mundo idiota demais pra mim e me sentindo a mais idiota de
todos?
Foi então que eu descobri. Ele está exatamente no mesmo lugar que eu
agora, pensando as mesmas coisas, com preguiça de ir nos mesmos lugares
furados e ver gente boba, com a mesma dúvida entre arriscar mais uma vez e
voltar pra casa vazio ou continuar embaixo do edredon lendo mais algumas
páginas do seu mundo perfeito.
A verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. Não é triste pensar
que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la
andando por aí?

Tati Bernardi é cronista do Blônicas e autora do livro que está indo para a segunda edição: "A mulher que não prestava".

Escrito por Blônicas às 09h38
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Pelo ministério do caju.

De Milly Lacombe.

Tenho passado em revista alguns de meus conceitos. Em relação ao sentido da vida, aos amores, à mortalidade, à maternidade e, mais recentemente, em relação ao caju. Acho sinceramente que já esgotei minha cota de erros históricos em relação ao caju; é chegado o momento de crescer como pessoa, como mulher e como consumidora – de caju, uma fruta que sempre foi, por mim, esnobada.
Como no dia em que, numa festa, recusei um suco feito de caju simplesmente porque, na bandeja ao lado, havia um suco de uma fruta concorrente, mas não menos ácida: o abacaxi. Sim. Eu sequer cogitei estender meu braço em direção ao copo com caju. Do alto de minha arrogância hortifrutigranjeira, ignorei o Caju. Melhor seria, como todos sabemos, que eu tivesse vociferado contra o caju: “Não quero esse troço! Isso é ácido e, sem açúcar, não tem gosto. Tira já o caju da minha frente!”. Hoje sei que era isso o que deveria ter feito. Porque todos entendem que é menos sofrido ser reconhecido e maltratado do que simplesmente ignorado. Até porque, tivesse eu soltado meus complexos para cima do Caju naquela noite, alguém certamente teria saído em defesa da saborosa fruta. Mas, com meu comportamento discriminatório, não dei a menor chance ao caju.
E, porque a vida é cheia de coincidências estranhas, estava eu, no sábado à tarde, olhando pela janela da sala com uma xícara de café na mão, pensando a esse respeito, a respeito do caju e de meu comportamento em relação a ele, quando soube do almoço que faria parte do Programa Cozinha Brasil - e que seria presidido por nosso líder supremo. Quase tive um troço. Era mesmo verdade: o caju estava prestes a ser redescoberto. Em êxtase, dei um pulo, quase derrubei o conteúdo da xícara no chão, e pensei: finalmente, alguém se lembrou do caju!
Olha só, o Programa é dos mais nobres: vai levar à população do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia (grandes produtores de caju) algumas informações sobre as diversas formas de preparo e os benefícios da fruta na dieta alimentar. Porque não vitamine você sua própria ignorância achando que Caju serve apenas para suco. Ou de achar que a fruta existe simplesmente por causa da castanha. Não senhor. Não senhora. Isso é conspiração da mídia tendenciosa, é intriga dazelite. O caju, você pode não saber, transcende seu status de fruta. Vejam só: Tem doce de caju, caju em calda, pastéis de forno de caju, fritada de caju, caju na moranga, caju ao molho branco, moqueca de caju, omelete de caju, salada de caju, pene com espinafre, aspargos e ... caju – e eu poderia preencher mais dez parágrafos desse jeito. Mas o que importa notar é que, nunca antes nesse país, uma administração dedicou a devida atenção ao caju. Isso é que vale.
Para se ter uma idéia do tamanho do problema oportunamente detectado pelo governo federal, no dia em que nosso comandante falava a respeito do caju, havia quem estivesse mais interessado em prestar atenção no julgamento histórico dos 40 mensaleiros. E agora eu pergunto: fosse o almoço para promover o abacaxi ou o pepino estariam esses insensíveis ligados no que acontecia dentro da sala do STF? Arrisco um palpite: não! Não estariam. Não estariam! Acontece que, quando se fala em caju, há um muxoxo coletivo. Alguns fingem que não ouvem, outros desconversam, outros ainda encenam um falso interesse pela fruta.
“Faz moqueca, é?”, perguntou uma amiga, de olho na TV Senado, que transmitia ao vivo o julgamento dos 40 mensaleiros, enquanto eu declamava a respeito do caju e de sua desconhecida versatilidade. “Faz!”, respondi, já ofendida pelo caju. E ela sequer me olhou ao lançar no ar, de forma ignóbil, o seu “Faz moqueca, é?”. Evidentemente, não estava interessada na resposta. Isso é para que se tenha uma idéia do preconceito que, há centenas de anos, vitima o caju.
Mas, mais uma vez, nosso líder máximo tocou no ponto certo. E, durante o almoço, não deixou de lembrar que caju também fica uma delícia com vodka, especialmente no fim do dia. Além do mais, pediu que todos os parlamentares, e também a imprensa, ajudassem a divulgar o caju. "Os deputados poderiam convidar parceiros deputados para almoçar na sua casa e levar caju na entrada, na saída e de sobremesa para ajudar na propagação desse novo (sic) alimento". E, depois, sabiamente, pediu para "alguém servir a imprensa, para eles comerem e saírem falando bem do caju". Nosso chefe, em tarde inspirada, ainda informou que essa é, agora, mais (sic) uma bandeira do governo. "Vamos fazer do caju um debate nacional", sacramentou. Já não era sem tem tempo! Já não era sem tempo!
Antes de deixar seu caju descansar, nosso sábio líder teve ainda o lampejo de raciocinar em voz alta: “Quem está com fome é preciso, primeiro, adquirir o hábito alimentar. E pode começar comendo um hambúrguer de caju, uma pizza de caju, uma carne de caju". Nessa hora, minha vontade era de ajoelhar e jogar os braços para cima, em reverência ao momento histórico para o país, para o povo, para as futuras gerações – para o caju, enfim. Todos sabemos que pensamentos como esse, que veio a nosso grão-mestre como uma epifania, não pipocam por aí todos os dias. Por isso é que a colocação emociona tanto. É evidente que, quem tem fome, precisa, antes de mais nada, adquirir o costume de se alimentar. É evidente. Como ninguém disse isso antes? Trata-se de mais uma dessas reflexões presidenciais que, por preconceito, cairão no limbo, mas que, fôssemos menos intolerantes, mereceria citações futuras - por décadas, talvez séculos.
E eu, imbuída e dopada pela vontade de ajudar o caju, terminado o monumental encontro do Presidente com o caju, corri para fazer a minha camiseta: “Fora abacaxi! Agora sou caju!” Fiz logo duas: uma com “Fora Abacaxi” no peito, e “Agora sou caju” nas costas; outra com “Fora Abacaxi” nas costas, e “Agora sou caju” no peito.
Por tudo isso, proponho que se crie mais um ministério: o do caju. Acho, de verdade, que só assim conseguiremos dar a devida atenção à fruta. Mas, como tudo nesse país é enrolado e demorado, talvez eu morra sem ver o ministério do caju em plena atividade. Paciência. Só espero que, assim que o primeiro ministro do caju for empossado, me seja feito o registro histórico.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h59
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Perfeição.

De Leo Jaime.

Há no amor que se descobre um encantamento. Cruzaram os olhos e já se amavam. Dois mais dois já eram quatro antes da invenção da aritmética, e os dois já se amavam muito antes de se encontrarem e perceberem isso. Juízo sintético a priori, sejamos gratos ao Kant, é o que nos explica o amor á primeira vista. Este é o encanto: perceber naquela pessoa, um universo inexplorado, a própria casa. O amor só é amor se for uma forma doce de loucura, se for irracional e incondicional, se for eterno.

Fala-se, atualmente, muito em relacionamento e pouco em amor. Já não há quem se mate por amor. Sim, ninguém jamais matou por amor. Mata-se por ódio e ignorância, e ódio é uma forma doente de amor mas não é nem o oposto de amor; este seria o desamor. Por amor não é possível matar, mas morrer. Morria-se de tristeza, de dor, da falta do amor, da impossibilidade do amor, da perda do amor. Morria-se de amor porque não se pode viver sem ele, uma vez que seu corpo e alma estão preenchidos e dominados pelo sentimento. Hoje o assunto é relacionamento. É mais importante ter um relacionamento que um amor.

O amor, evidente, em uma de suas formas, pode prescindir do relacionamento. Platão deu conta disso. O amor altruísta que torce e ajuda a felicidade do outro sem nunca se impor, sem nunca se oferecer, sem nada esperar. Acontece. Há o amor pelas coisas, pelos bichos, pelas emoções, mas nada supera o amor que há entre um homem e uma mulher. Ou entre casais de qualquer tipo, posso vislumbrar, uma vez que o desejo é acessório ao amor.

A diferença é simples, o amor é inexplicável e não se planta onde se quer, ele nasce e existe alheio aos nossos planos. O relacionamento é fruto do resultado de nossas experiências, em destaque a última: se tivemos alguém que era temperamental fazemos questão de alguém que seja calmo, por creditarmos o fim do relacionamento ao gênio desmedido. Isso é apenas um exemplo entre milhões possíveis. O relacionamento é uma forma e não um conteúdo, é um conjunto de regras e de negociações que podem ser positivas ou não. O relacionamento existe quando existe o amor, mas as regras, neste caso, são resolvidas com ética, ou seja, cada um sabe como deve se portar tendo como parâmetro o belo, o ideal,  a longevidade e grandeza do amor que o motiva. Relacionamento é a estrutura social.Por isso muitos relacionamentos começam e às vezes acabam sem que o amor lhes faça visita. Estar com alguém é aprender algo sobre o amor, mesmo quando não seja amor. É educação sentimental. É quando a pessoa ensaia, se prepara para o que pode vir.

É triste admitir, mas podemos passar uma vida sem que a flecha do cupido nos acerte. É bem recomendável que estejamos no nosso caminho, fazendo o que nos dá prazer, cumprindo nossas missões diárias, e não procurando por ele feito doido nas baladas noturnas, no baile dos desesperados. A flecha o acha se você estiver na sua. Mas pode não achar. Ainda assim valerá ter se preparado para ele como quem se arruma para uma festa. Muito melhor do que passar a vida sem nem sonhar com o amor.

Mas, voltando ao início, há no amor um encantamento. E o relacionamento é sempre o culpado quando esse encantamento se quebra. A dificuldade em se permitir falível ou aceitar as falhas e limitações do outro acabam por nublar tudo com a perspectiva da decepção ou com as vozes ganhando volume por motivos fúteis. Sim, há diferenças. E dar um voto especial, amoroso e indefeso, de confiança quando o outro está aparentemente errado é fundamental. Mas não é assim que lidamos em relacionamentos comuns! No amor, se há um embate os dois perdem. Não importa quem está certo ou errado. No entanto, se os dois percebem um problema, não importa quem o tenha trazido, e os dois com cumplicidade o superam, a união e a força se apresentam e isso é fruto e resultado do amor.
Vencer é muito mais difícil que perder. Cansa mais e dá mais trabalho. Ser feliz é muito mais cansativo do que ser triste! E é esquisito, uma vez que relacionamentos difíceis e infelicidade moderada são a condição, o estado basal de quem não tem um verdadeiro amor.

O amor não exige que você seja perfeito. Apenas que você dê o seu melhor.
Essa é a forma, diária, de alimentar o encantamento. É só aproveitar bem o dia. A chance.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 16h30
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Larga o osso!

De Henrique Szklo.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas e produz o Morphéticos no site www.operabufa.com.br

Escrito por Blônicas às 07h42
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Em terra de cego...

De Nelson Botter Jr.

Se você procurar na Internet a definição de “ética”, facilmente encontrará algo assim:

Palavra originada diretamente do latim ethica, e indiretamente do grego ethiké. É um ramo da filosofia que estuda a natureza do que é considerado adequado e moralmente correto. Pode-se afirmar também que “Ética” é, portanto, uma Doutrina Filosófica que tem por objeto a moral no tempo e no espaço, sendo o estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana.

Muito bem. Agora continue sua pesquisa e procure saber em algum site qual foi o conteúdo do discurso que nosso Excelentíssimo Senhor Presidente da República fez no 3º. Congresso do PT, hoje (sábado), em São Paulo...

Para facilitar, copio aqui um trecho da reportagem da Folha Online (por Thiago Faria):

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou (...) que o PT é o mais ético de todos os partidos e que a legenda deve aprofundar o debate sobre uma candidatura própria em 2010. "'Ninguém tem mais ética e moral do que o PT", declarou com dedo em riste, sendo aplaudido pelos militantes.

Comparando a definição de ética ao que disse o presidente,  não entendo nada. Pois mesmo com todas as provas sobre o esquema de corrupção que o PT armou, num projeto de perpetuação no poder, o presidente ainda considera seu partido o mais ético. Mesmo após o Supremo Tribunal Federal aceitar a denúncia contra todos os 40 acusados de envolvimento no mensalão (com o líder José Dirceu sendo acusado de “formação de quadrilha”) o presidente ainda acredita que seu partido é o que mais tem moral.

Aí eu me pergunto, vendo tudo que acontece nesse país de capitanias eternamente hereditárias, se existe um fio de esperança. Talvez, afinal nunca se sabe. A única certeza que podemos ter é que, enquanto políticos forem somente políticos e não homens preparados para serem gestores, continuaremos num lamaçal onde só importa ter poder para mandar mais e ter privilégios. É o individualismo que reina no país do futebol. Não existe o todo. Até a seleção brasileira se destaca das demais por seus “talentos individuais”.

Palmas ao rei. Nós, os bobos da corte, continuamos procurando no dicionário a definição de ética, porque se for realmente a que postei acima, algo está muito errado. Como já bem dizia o filósofo: “Em terra de cego, quem tem um olho imigra”.

Nelson Botter é cronista do Blônicas e quer saber qual é a real definição de ética neste país.

Escrito por Blônicas às 14h21
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