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A asma do amor.

De Xico Sá.

Amigas, não há mais dúvidas: quanto mais beira o verossímil, com gritos lancinantes na noite, como assimilamos do cinema, mais fingido é o tal do orgasmo. Nunca é condizente com a nossa performance e suor. Os melhores e mais recompensadores orgasmos guardam o bom preceito da educação dos gemidos.

Por mais megalomaníaco que seja Vossa Senhoria, recomendo que não acredite naquelas algazarras, feiras amorosas, sacolões do sexo, capazes de fazer os vizinhos pularem da cama só de inveja. Aquela gritaria toda, meu caro, só vale para provocar um problema dos mais graves. Deixará o casal que mora do outro lado da parede em pé de guerra, uma vez que a mulher, atenta à lição de gozo comparado, vai exigir mais, muito mais, mais e mais, e mais um pouquinho ainda, do seu colega de prédio ou de rua. E o pior é que os gritos lancinantes só costumam ocorrer quando o gozo não passa de teatro, puro teatro, falsidade ensaiada, estudiado simulacro, como canta a deusa La Lupe.

O gozo desesperado costuma ter origens variadas (falar nisso, por que ninguém cita mais W. Reich, meu ídolo da lira dos 20 anos?!). O gozo desesperado, falava eu, costuma ser resultado de algum curso mais digerido de teatro amador, formação em escola com viés jesuítica, leitura errada dos Actors Stúdio, dietas à  base de alcachofra, audiências tardias das onomatopéias do Led Zeppelin ou falta de homem propriamente dita.

As melhores gazelas educam cedo os gemidos. Em vez de gritos que parecem mais apropriados para momentos de sequestro-relâmpago, a boa moça sussurra e balbucia safadezas no cangote do amado. Mais vale um dos 3.000 verbetes catalogados no Dicionário do Palavrão, do mestre pernambucano Mário Souto Maior, do que os decibéis selvagens.

 As melhores não se desesperam. Já imaginou Ava Gardner em desespero? Nem com Frank Sinatra, a quem enlouqueceu todos os sentidos. E não me venha dizer que isso seja frigidez, frescura ou algo da linha cool.

Uma coisa é a gritaria, quase um SOS, incêndio do Joelma, 11 de Setembro ou sinistro urbano do gênero. Outra é a gemedeira gostosa, fungada sentida, fogo nas entranhas, calor na bacurinha, quase um decassílabo a cada descida, lirismo sem fôlego, asma do amor.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h25
[]


De cima da goiabeira.

De Antonio Prata.

Diz a lenda familiar que, quando o telefone tocou na casa de número 473 da rua Horácio Lafer, na manhã de 24 de agosto de 1977, anunciando meu nascimento, minha avó tirou meia goiaba da mão do meu tio Guelé e enterrou-a no jardim. Diante do olhar estupefato dos tios e de meu avô, Loli, minha avó, anunciou, orgulhosa, brandindo a pazinha vermelha: “nasceu meu primeiro neto e essa vai ser a goiabeira dele!”. De fato, foi. Passei boa parte da infância trepado nela.

Se meu tio estivesse chupando uma laranja ou uma manga, minha infância teria sido seriamente afetada. A goiabeira é uma árvore generosa com as crianças: os galhos saem do tronco a pouca altura, finos o suficiente para agarrar-se neles na subida, mas firmes o bastante para sustentar uma pessoa -- ou mais, caso eu concedesse a algum primo, amigo ou irmã o privilégio de desfrutar dos braços de minha (minha!) árvore.

Enquanto eu ficava ali em cima, a catar goiabas, matar sadicamente taturanas e espiar o quintal do vizinho, minha avó cuidava do resto do jardim e conversava comigo. “Olha só, uma bem gorda aqui, Antonio!”, dizia ela, e eu descia correndo para estourar aquelas bolotas cheias de sementes das Marias-sem-vergonha. Gostávamos também de colher framboesas ou morangos silvestres, que ela transformava em geléias e tortas.

O jardim era uma experiência tátil, gustativa, mas principalmente afetiva: era a sala de estar da Loli, o lugar onde ela ficava (e fica ainda) à vontade, com sua pazinha nas mãos, me contando de sua infância em Paquetá, sua vida de estudante nos Estados Unidos e me dando as primeiras lições de subversão – “quem quer fazer besteira não pede licença”, dizia ela, diante de alguma proposta mais heterodoxa de minha parte, como fazer uma fogueira na sala ou pintar o carro do vovô Mario com canetinhas hidrocores.

A goiabeira teve uma morte trágica e prematura: foi assassinada por uma escavadeira -- a serviço de uma grande construtora, que achou por bem derrubar um quarteirão de casas geminadas e seus jardins para plantar ali um horrível prédio bege, estilo neoclássico. (Tanto a escavadeira como o mandante – a construtora –, continuam vergonhosamente em liberdade).

Após a demolição da casa da Horácio Lafer, no Itaim, meus avós se mudaram para os cafundós do Morumbi. Nos anos oitenta, isso era quase como ir morar no Xingu. A rua de terra tinha só duas casas, o resto era mato, com cobra, preás e plantas, que eu ajudava a Loli a catar, em verdadeiros safáris botânicos. Depois voltávamos para seu jardim e plantávamos o que havíamos colhido: flores do campo, samambaias, avencas, trepadeiras... Como o interesse dos expedicionários não se restringia ao reino vegetal, chegamos a capturar um preá, com a arapuca feita pelo Zé Baiano, caseiro, meu companheiro de caçadas e pai de Genicleuson e Cleudma. (Também achei e criei um filhote de jararaca, numa caixa de All Star. A moça do Butantã, para onde liguei perguntando o que a cobrinha poderia comer, caso eu não tivesse à mão nenhum camundongo, se limitava a gritar que eu deveria levar a Jararaca imediatamente ao instituto e passar o telefone para algum adulto responsável. Soltei a cobra, dias depois, no mesmo lugar do mato em que a tinha achado, para desespero da minha avó).

A maneira como a Loli lida com as plantas é muito peculiar. Os jardins dos outros são, geralmente, organizados. Uma espécie de triunfo do homem contra a natureza – como se quiséssemos tripudiar da floresta, que por milhares de anos nos amedrontou e nos fez sofrer, vendo-a agora ali, restrita a um pequeno espaço, refém de pás, tesouras e da geometria. Os da minha avó são mais um diálogo do que um domínio. Nada daquele cartesianismo careta de canteiro com cara de tabela pantone: vermelhos aqui, azuis ali, brancos acolá. Seus quintais sempre tiveram uma mistura um tanto anárquica de plantas e flores, uma harmoniosa confusão que faz lembrar mais a Terra do Nunca do que aquelas monotonias vegetais de Versailles. (Aliás, aprendi desde cedo que a poda – esse tipo de poda ornamental, que transforma arbustos em muretas e deixa as árvores parecendo um cotonetão --, é crime hediondo, inafiançável, cujo autor deve queimar eternamente nas chamas do inferno). Percebi com a Loli e suas plantas que a desorganização e o imponderável também são virtudes. Uma visão jazzística da jardinagem, podemos dizer.

Além da mistura, aprendi no quintal, com aminha avó, a desrespeitar a hierarquia. Em suas casas a orquídea não pode mais que a Maria-sem-vergonha, uma florzinha do mato talvez tenha lugar de destaque e, se uma Costela de Adão resolver cantar de galo e fizer sombra sobre as Margaridas, pode sentir a fria repressão da tesoura. Até musgo e erva daninha, se forem jeitosos, cabem.

No início dos anos 90, cansada de morar em uma casa com jardim no fundo, Loli resolveu inverter a equação e morar num enorme jardim (com uma casa na frente), ou seja: um sítio. Fez ali a Pousada da Alcobaça e um jardim que, descontando a ausência de Adão e Eva – serpentes certamente há --, não deve nada ao Éden.

Há uns anos, moro num apartamento térreo, com quintal, e aos poucos vou povoando-o com plantas. O grosso veio do Ceasa, comicamente espremido dentro do meu Ford Ka, mas toda vez que vou a Petrópolis, relembro as missões botânicas do Morumbi, passeando com a Loli pelo jardim e recolhendo mudas para trazer. Tenho alguns jasmins floridos e revoltados (eu coloco fios para eles se enrolarem, mas sempre preferem outros caminhos) muitas Marias-sem-vergonha (com suas bolotas explosivas), um limoeiro e um pé de mexerica preguiçosos (com pouco mais de um metro cada e, ao que parece, sem muita vontade de crescer mais que isso), um alecrim imbatível (na época em que as malditas colchonilhas atacaram todas as plantas, ele saiu incólume), uma azaléia parcimoniosa (em vez de florir-se toda na primavera, dá flores aos poucos, ao longo do ano), manjericões verdes e roxos, uma jardineira cheia de manjerona (foi engano, só descobri que não eram manjericões na primeira garfada de um frustrante macarrão ao pesto), um elegante Pacová (presente de minha amiga Gisela) orquídeas, primaveras, glicínias, violetas e muitas outras plantas.

Há um ano, entrei no Google Earth pela primeira vez. Fiquei abismado ao ver a Terra, girando aos comandos do meu mouse, como um melãozinho de Mossoró sendo avaliado no supermercado. Fui dando um zoom nas Américas, então no Brasil, cheguei em São Paulo, depois na PUC, peguei minha rua, encontrei meu quintal e, para a minha surpresa, vi pequenos pontinhos escuros nele: eram minha azaléia, meus jasmins e manjericões, minhas plantas fotografadas do espaço! Me dei conta, então, de que o único sinal de minha existência na Terra, visto do céu, são as plantas do meu jardim.

Apesar de minha empolgação cósmica, sinto que meu quintal está incompleto. Falta-lhe uma goiabeira. Acho que ainda não plantei uma por respeito -- não se enterra uma goiaba assim, sem nenhuma razão especial. Talvez, pensando bem, não possa ser eu a plantá-la. Quem sabe, daqui uns anos, quando o telefone tocar no número 44 da Rua Itacolomi, anunciando o nascimento do meu primeiro filho, minha mãe não tire uma goiaba meio comida da boca do meu padrasto e a enterre, seguindo assim a tradição familiar? Meu filho merece uma goiabeira para subir e, embaixo dela, uma avó como a que eu tive, a mostrar o seu jardim, as bolotas de Maria-sem-vergonha, a subversão, a importância das framboesas,  a arbitrariedade da hierarquia, o jazz e outros acontecimentos fundamentais da nossa vida.
 
Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h08
[]


A vez dos leitores...

Trecho da vida - Para contar depois.

De Analice Alves.

“Seu pai foi embora, mas ele te ama”, cresci ouvindo essa frase e, na verdade, não adiantou muita coisa. Minha mãe, coitada, ficou anos tentando me convencer de que o meu pai, aquele homem conhecido apenas por fatos e fotos, ainda, em algum lugar desconhecido, pensava em mim. Minha casa era cercada por fotografias de meu pai. Em todos os poucos cômodos havia pelo menos um retrato dele. Essa era uma das estratégias que minha mãe inventou para, de algum modo, me mostrar que ele estaria sempre presente. Um rosto tão combalido e estranho. Em todas elas, ele está com aquele sorriso forçado exibindo uma felicidade falsa ou, simplesmente, expressando um sorriso exagerado para a pequena e real felicidade. “Seu pai foi embora, mas ele te ama”, às vezes, irritava ouvir tantas repetições de minha mãe, mas eu sabia que tudo aquilo, toda aquela encheção de saco era só pra me ver mais contente. Cresci sem a presença de meu pai, sem telefonemas e incentivos paternos. Descobri os nomes e marcas dos carros por mim mesmo, me interessei pelos times futebolísticos e pelas meninas por minha conta. Sabia que mais cedo ou mais tarde, minha mãe contaria toda a história. Aquela vida cheia de dificuldades que levávamos, eu em colégio público tendo que trabalhar na feira depois, minha mãe ganhando uma miséria como costureira e lavadeira. Essa vida que era feia, mas honesta era fruto do sumiço de meu pai. Minha mãe, uma moça bonita que reservara a sua vida ao homem que viria a ser meu pai, casara virgem, de branco, na igreja da cidade. Aquilo tudo parecia o começo de uma vida de sonhos e, creio eu, ela nunca imaginou que um dia falaria ao filho “seu pai foi embora, mas ele te ama”. O que mais me orgulhava em minha mãe, era o fato de ela nunca ter sentido ou, pelo menos, nunca ter expressado rancor pelo meu pai. Às vezes, quando eu estava distraído fazendo a lição, vendo tevê ou lendo um livro, pegava-a olhando pra mim com um sorrisinho sereno. Ela dizia “agora você fez a cara do seu pai!”. Na infância, imaginava meu pai um homem de barbas feitas e camisa social. Imaginava que jogaríamos bola e falaríamos besteiras, imaginava nós dois pelas lojas enlouquecidos e confusos em pleno dia das mães a fim de comprar algo para a minha mãe. Imaginava ele indo embora, mas com o coração pesado por ainda me amar. Sempre pensei que amor entre pai e filho era puro e simplesmente imortal. Nunca cobrei explicações de minha mãe, se era difícil pra mim como filho, era ainda pior pra ela que se enchera de sonhos no início da nova vida. Quando ela sentou na beira de minha cama e começou a balbuciar o nome de meu pai, entendi que ali, naquela hora, ela contaria tudo. Seus olhos encheram-se de lágrimas, suas mãos tremiam. Olhei no fundo de seus olhos, apertei suas mãos e disse: Meu pai foi embora, mas ele me amava.

Analice Alves é leitora do Blônicas, mantém o blog www.outromar.blogspot.com e inaugura a coluna "A vez dos leitores".

Escrito por Blônicas às 18h21
[]


Declaração universal dos direitos do político corrupto.

De Henrique Szklo.

1) Todo político corrupto nasce íntegro e honesto, uma gracinha de criança, mas quando se torna adulto decide abraçar uma carreira movida por amor e paixão: amor pelo poder e paixão pelo dinheiro;

2) Todo político corrupto tem o direito de manter relações nada transparentes com o crime organizado. E com o desorganizado também, por que não?

3) Todo político corrupto tem o direito de ter pelo menos uma conta num paraíso fiscal de sua escolha;

4) Todo político corrupto tem o direito de negar até a morte o fato de ter pelo menos uma conta num paraíso fiscal de sua escolha. Se quiser pode até jurar pela vida de seus filhos e pela saúde de sua mãe que fica mais confiável;

5) Todo político corrupto tem o direito de não dar recibo nem emitir nota fiscal pelos serviços prestados, salvo nos casos em que as notas sejam frias;

6) Todo político corrupto tem o direito de beijar muitas criancinhas em sua campanha para depois de eleito meter a mão no dinheiro de suas merendas;

7) Todo político corrupto tem o direito de gostar de laranjas;

8) Todo político corrupto tem o direito de ir para a cadeia só se for muito trouxa;

9) Todo político corrupto tem o direito de enriquecer absurdamente em pouquíssimo tempo, mas por possuir um caráter eminentemente democrático, permitir que todos à sua volta também enriqueçam;

10) Todo político corrupto tem o direito de exigir de seu corruptor um fax com comprovante de depósito.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h56
[]


The killers.

De Tati Bernardi.

Sempre que uma situação começa a ficar boa ou simplesmente começa, solto
minhas frasezinhas bombas. Não sei se com isso quero realmente foder a
minha vida ou me proteger de me foder. Acho que segundos antes de
explodir tudo, penso assim: se eu falar a frase mais errada do mundo, só os
realmente fortes sobreviverão. O que eu não percebo é que no começo de
alguma coisa, ninguém ainda é realmente forte para agüentar minhas
frasezinhas bombas.
E todo mundo, sem exceção, acaba correndo assustado. E no dia seguinte eu
acordo com aquele misto de vitória com tristeza. Sozinha novamente. Como
se isso fosse um prêmio mas também uma doença.
Dentre as minhas frasezinhas bombas tenho três prediletas “to morrendo de
saudades de você”, “a vida sem amor é uma merda” e “você me dá pouca
atenção”. Quase nunca to morrendo de saudades de alguém, não existe a
menor chance de eu amar algum desses trastes que me aparecem e caguei se
eles me dão ou não muita atenção. Mas ainda assim falo, ainda assim mando
uma frase dessas. Só pra ter o triste prazer de ver o covarde ficando branco,
escondendo os dentes, enfiando o pinto no cu. E sumindo finalmente da
minha vida.
É o jeito que arrumei de me rebelar contra essa hipocrisia masculina. Eles
podem dormir na casa da gente, enfiar o pauzinho no meio das pernas da
gente, pedir uma torradinha com requeijão de manhã, mijar pra fora do
nosso vaso, contar a vida deles e pedir mais carinho nas costas. Mas não
suportam ouvir no dia seguinte um simples “gosto de você”. Covardes de
merda. Odeio essa hipocrisia masculina. Se eles falam mil vezes que querem
te ver é tesão e você não pode se assustar, mas se você falar uma única vez
que quer vê-los, é porque você é uma mala que está “misturando
sentimentos”. E eles podem se assustar. Que preguiça desse planetinha dos
macacos e suas bananas.
E sigo com minhas frases matadoras. “Pensei em você hoje”; “Voltei antes pra
te ver”; “Vamos nos ver hoje?”; “Vamos comigo na festa da minha amiga?”; “O
que você vai fazer no feriado?”
E tenho cada dia mais nojo de como frases ditas pra ser agradável soam
como um assassinato. E tenho nojo de pensar que quando você tira o
controle deles, eles não sabem mais o que fazer com você. “O que eu vou
fazer com uma mulher que eu já conquistei?” Que tal continuar conquistando
todos os dias, seu idiota? Que tal viver uma história que passe da primeira
página? Tenho cada dia mais nojo de como as pessoas se consomem e não se
conhecem, não vivem nada. Não sabem nada da vida da outra a não ser o
tamanho dos peitos e se o desenho dos pêlos é mais para Claudia Ohana ou
bigodinho do Hitler.
Sempre lembro de uma vez que fui passar cinco dias com um namorado no
alto de uma montanha e ele me apareceu com um verdadeiro “kit putaria”.
Passou antes no sex shop e comprou de óleo de massagem a roupinha de
enfermeira. Tenho certeza que fez isso porque pensou “que porra vou fazer
com uma mulher cinco dias em cima de uma montanha a não se trepar”? Se
fosse algum dos seus amiguinhos eles poderiam rir, se divertir, beber,
conversar, apostar corrida, jogar videogame, brincar na piscina, fazer trilha.
Mas com uma mulher? Um ser estranho chamado mulher? Que porra ele iria
fazer não é mesmo?
Homens acham que a página 1 é trepar e a página 2 é casar. E como têm
pavor da 2 (e quem disse que as mulheres também não têm?) acabam nunca
saindo da 1. E nisso conversas incríveis, descobertas maravilhosas e histórias
lindas morrem antes mesmo de nascer. Eles podem te comer mas jamais
passear de mãos dadas com você.
Isso tudo me dá um bode profundo. Mas no fundo tenho mais bode é de
mim. Por ter dito frases desse tipo para pessoas sem nenhuma magia, sem
nenhuma poesia. E que ao invés de enxergar beleza enxergaram “carne
ganha”. E no fundo eu nem sentia nada por essas pessoas, estava apenas
testando a hipocrisia do mundo. Estava apenas comprovando que se tratava
apenas de mais uma “carne podre”.
Acho de verdade que a puta da Glenn Close estragou a vida de algumas
mulheres. Basta você dizer um inocente “você é legal” pro cara achar que
você vai se mudar pra casa dele, mergulhar o poodle dele numa panela
fervendo e parir trigêmeos bem no dia do futebol com os amigos. Da onde
eles tiram que somos tão assustadoras? A gente só quer ter com quem rir no
final do dia e ganhar alguns beijos no lugar certo. Nada muito diferente do
que eles querem.
Mas cansei. Definitivamente cansei. Cansei de um mero “nossa, tava
pensando em você” equivaler a um “nossa, tava pensando em você de terno e
gravata no altar de uma igreja”. Já que pouca coisa assusta tanto, decidi que
agora vou jogar pesado. Daqui pra frente minhas frases matadoras vão ser de
“quero ter um filho seu” pra pior. Quem quiser sair comigo vai ter de ouvir
“posso dormir aqui?” ou ainda “acho que posso me apaixonar por você”.
E quem sobreviver a esse verdadeiro extermínio de pretendentes, vai
descobrir que eu sou só mais um ser que morre de medo do amor e da
convivência. Vai descobrir que falo as frases erradas justamente pra espantar
as pessoas e não ter mais trabalho. Mas de verdade (e dessa vez sem medo
de assustar ninguém) adoraria encontrar alguém que resolvesse correr esse
risco junto comigo.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas, autora do livro "A mulher que não prestava" e acha o filme novo do Tarantino a coisa mais incrível do mundo.

Escrito por Blônicas às 11h36
[]


Conexão Achocolatado.

De Carlos Castelo.

Os dez anos de experiência no Batalhão Especial Anti-Drogas me ajudaram a identificar e interceptar qualquer movimento, por mais imperceptível que fosse, no mercado de entorpecentes.

Naquela tarde modorrenta, por exemplo, logo notei algo fora dos padrões.

Estávamos na Pavuna fazendo uma ronda de rotina no Tático Móvel 167-B.

Depos de estacionarmos na entrada principal da favela do Trubufu, em menos de meia hora, notei mais de dez pessoas passarem em frente à nossa viatura: todas tomavam Toddynho.

Comentei o fato com meu colega de armas, o tenente Casanova. Mas ele cochilava pesadamente no camburão e nem sequer me deu ouvidos.

Foi então que resolvi investigar por conta própria.

Sai à pé pela calçada e, ao ver o primeiro mané chupando o canudinho de um achocolatado, puxei-o pelo colarinho para o interior de uma viela na boca-de-porco.

Depois de enfiar um saco plástico em sua cara, mandei ele dar o serviço se não quisesse virar apresuntado.

Antes de ficar completamente roxo, assumiu que consumia toddynho desde criança. E em larga escala.

Isso comprovava meu temor. O tráfico de toddynho estava disseminado pelo Rio de Janeiro. Se bobeasse, Baixada, Niterói, os Lagos e a Serra também estavam tomados.

- Comecei mandando um gole numa festa de aniversário lá em Cordovil. Gostei do lance, te deixa na boa, sussa. Antes de ir pro colégio, dava umas goladas na parada. Aí sem perceber, fui me viciando no doce. Agora se acordar e não beber uma caixinha do barato fico injuriado… – explicou o miserável dependente.

Encaixei-lhe uma tapona na mandíbula.

Dei-lhe uma outra mãozada, desta vez bem no meio dos cornos. Ele despencou. Agora eu só necessitava saber quem estava por trás da nova forma de ilícito. Com um chute nas costelas rapidamente acordei o desacordado.

- É o Padreco! – urrou o mané, antes que eu encostasse o cano de minha Magnum em seu naso.

Eu manjava daquelas bocadas como ninguém. Mas Padreco era um nome novo até para um policial experimentado como eu. E tudo parecia dizer que, antes de entrar em seu rastro, era preciso conhecer bem os seus sórdidos métodos.

Sacudi o viciado e ele continuou dando com a língua nos dentes, apesar de já estar sem os dentes.

- Padreco oferece os toddynhos free pra molecada…

- Filho da puta!

- …e ele agora tem uma rede distribuindo o lance numa pá de favelas aí, mermão.

Eu sabia que a combinação de cacau, açúcar e maltodextrina seria explosiva. Por isso, era preciso agir. E rápido.

Mesmo ferradaço, o puto ainda me soltou uma dica de ouro antes de desmaiar de vez, com a cara enfiada numa boca-de-lobo.

- Arrelia. Estação Flamengo. 13 horas.

Parei em casa, troquei a farda pela roupa civil e peguei um táxi. Ainda era cedo e, com um pouco de sorte, poderia tentar compreender melhor aquele complicado xadrez.

No caminho fui me perguntando o que poderiam significar aquelas palavras cifradas: Estação Flamengo era o metrô, Arrelia era um palhaço, mas 13 horas…

Pontualmente à uma da tarde, vi um palhaço zanzando pelo saguão do metrô com uma maleta vermelha na mão. Fiz uma rápida associação de idéias: Arrelia-Estação Flamengo-13 horas…

Eu estava no metrô, eram 13 horas…bingo!

- Qual é o nome do palhaço? – perguntei, sorrindo.

Ele apertou um anel falso e um jato de água espirrou em minhas ventas.

- Arrelia! – respondeu com os dentes arreganhados.

Parti pra cima. Arrelia ainda tentou se esgueirar, mas coloquei meus pés sobre sua lapela gigante, esgoelando-o.

Mães gritavam, crianças me socavam com seus punhozinhos, mas era preciso livrar a sociedade dos mais nefastos vícios.

Quando a PM chegou me identifiquei.

Fomos direto para uma sala privada na delegacia do bairro. Literalmente privada.

Ministramos 200 ml de Agarol ao desgraçado. Em cinco minutos, Arrelia destrancou tudo. Inclusive a maleta vermelha com as embalagens de Muky chocolate.

O problema é que a técnica dos meus colegas era light perto da minha. Em outras palavras, o delegado era por demais “científico”.

Levantou os dados do artista circense usando a internet. E no CPF do cara não aparecia nenhuma objeção, só “nada consta”.

Ele tinha o nome sujo apenas no SPC por ter dado o cano na compra de um paletó roxo de musselina e numa bota tamanho 58, bico largo, em 2003.

Depois do fichamento, o delegado fez a maior cagada do dia: liberou Arrelia.

Para ele, não configurava ilegalidade nenhuma, muito menos tráfico de drogas, a posse de toddynhos.

Mal sabia ele o que havia por trás daquilo.

Mas Arrelia não contava com o meu traquejo. Quando o maldito virou a esquina na direção do Aterro do Flamengo, peguei-o de jeito. numa bela e bem aplicada gravata.

- Escuta aqui seu Bozo falsificado, o delega não sabe que achocolatado virou droga rentável no morro. Mas eu sei…

- Humpfacfbuc… humpfacfbuc…- ele asfixiava.

- …e se você não me bater onde está o grosso do carregamento, faço você passar de Arrelia a Torresmo agorinha, seu Clóvis Bornay do Cirque du Soleil!

Apesar de um desavisado ter passado no Aterro, filmado com o celular a surra no palhaço e a colocado no Youtube (167 mil page-views e convite para uma participação da dupla no “Zorra Total”), sai de lá com uma confissão.

- Eu ia encontrar o Padreco, no morro da Cabrita, pra ajudar na distribuição dos toddynhos… – sussurrou ele, assim que a ambulância estacionou no meio-fio.

Os pontos entre o viciado e o “vapor” estavam finalmente ligados. Liguei do meu Nextel para o Destacamento.

Tinha chegado o momento de levar Padreco para conhecer o inferno.

Subimos o Morro da Cabrita ainda no finalzinho da tarde. Era verão e o sol ficava de sentinela até bem depois das sete da noite.

Uma parte dos homens foi lá pra cima disfarçada, tentando sacar quem era o traficante e onde ele estava postado.

Ao levantarem qualquer dado, me mandariam uma mensagem no rádio. Só então a tropa galgaria em grande estilo.

Ali pelas 18h15, o sargento Ananias me bateu lá de cima:

- Padreco interceptado. Esconderijo manjado: igrejinha do largo do Morro.

Pedi mais detalhes para organizar o ataque.

- Molecada recebendo os Muky na cara dura. É chegar e encanar todo mundo, na moral.

Era o momento certo de subir com os camburões. Fomos em seis viaturas, apavorando quem aparecesse na frente.

Ao chegar no larguinho, vi um sujeito distribuindo bananas e toddynhos para uma fila de garotos pobres e mulambentos.

Ao fundo, ao lado da fachada da paróquia, havia uma placa onde lia-se: “Pastoral do Menor”.

Entendi, no ato, que os toddynhos não eram droga nenhuma. Mas um projeto social da Igreja.

Liguei ao superior para saber qual o procedimento-padrão a ser adotado.

- Já deu o maior sururu essa porra dessa história de toddynho. Se bobear, jornalista pega isso e ferra a Corporação. Se o Padreco não é trafica, é comuna. Metralha do mesmo jeito – sentenciou o chefe.

Socamos a bota.

Mais tarde saiu no Jornal Nacional que um padre escondia farinha dentro de embalagem de Toddynho. E que distribuía o bagulho pras crianças do Morro com a ajuda de um palhaço.

Na frente da “mercadoria”, orgulhosamente o escudo do nosso Departamento.

Daqui para frente, vão ter que caprichar na continência e me chamar de Capitão.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h28
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Só a lama cura.

De Xico Sá.

O mantra é esse, pombinhos desgarrados e estraçalhados pelas agruras do amor: “Só o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria”. Assina que é o verso é teu, velho William Blake..  Ou seja, numa livre tradução para a nossa baixaria de vida de hoje: SÓ A LAMA CURA!

Seu guarda, eu não sou vagabundo, sou um cara carente, estirado aqui na praça Roosevelt, com o meu próprio teatro do absurdo no bolso, pensando nela!

Seu guarda, acabei de chorar lágrimas caubói _não os da montanha, mas os vaqueiros do asfalto_ no porão com Wander Wildner, que cantava as suas dores de trovador punk brega.

SÓ A LAMA CURA!

Leve a sua dor para as ruas, seus bares/seus mares, nade com ela no seco por debaixo das mesas, exponha-se, seja a vitrine de suas próprias escoriações, não se envergonhe, molhe o ombro do garçom amigo, derrame uma para o santo e entorne a próxima bagaceira com gosto de sangue e luto.

Se a vida dói, drinque caubói.

Wander Wildner, o que nossa dor idiota vai ser quando crescer? Rato de porão, rato de porão.

Cubra-se do negro do luto e qual um espadachim caricato leve a sua dor para um rolê nos subterrâneos da cidade. Quando estiver bem torto, ria da sua dor como um bêbado se diverte com a sua própria sombra em farrapos.

Auto-ajuda punk: não glamourize tanto a sua dor, tire onda, o amor é assim mesmo, como me disse um dia, num botequim imginário, um escriba italiano cheio das grapas: um beijo,dois beijos, três beijos, quatro beijos, cinco beijos... cinco beijos, quatro beijos, três beijos, dois beijos, um beijo... e FIM e pronto.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h41
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Tchau, seu Abelardo!

De Antonio Prata.

Taxista bom é o seu Abelardo. A gente paga a corrida e leva grátis meia hora de sua sabedoria. Deve ser alguma promoção. Ele fala de todos os assuntos e defende teses bem originais. Acha, por exemplo, que os atentados de 11 de setembro não existiram. “Tudo efeito especial. Hollywood. Espilba, como é que chama aquele diretor? Esses americanos são fogo! Ou cê acha que neguinho ia ser idiota de meter um avião dentro dum prédio, com ele dentro? Nada. Quando cê for ver de novo, repara bem: efeito especial.”

Na última quarta ele estava especialmente inspirado. Quando eu disse que ia para casa da Maria, minha namorada, ele olhou pra mim com profunda compaixão e soltou: “faz isso não!” Isso o que, seu Abelardo? Seu Abelardo respirou fundo. “Olha, esse negócio de amor é um problema. Atrapalha a vida da gente. O que eu tenho de amigo que já se ferrou por causa do danado”. Que danado, seu Abelardo? “Como, que danado, rapaz? Presta atenção! O amor! Amar nunca dá certo. É saudade, é briga, é desolação. É só tristeza”. Tentei argumentar: mas seu Abelardo, veja só, eu amo, eu sou feliz! Seu Abelardo não deu a menor bola. “Você ainda é jovem, meu caro, não sabe de nada... Outro dia mesmo eu acordei quatro da madrugada com um corno gritando embaixo da minha janela: ‘eu te amo, Amália! Volta pra mim, Amália!’. Coitado. É o amor. E cê acha que a Amália voltou? Nada. Já tá com outro. E depois dá um pé na bunda dele ou ele na bunda dela e sofrem os dois. E pra que? Eu te pergunto: pra que?”.

Será mesmo, seu Abelardo? Eu, quando estou com a Maricota, fico tão feliz. A vida parece tão simples. “Viu só? E esse tempo todo cê podia tá estudando, trabalhando, juntando dinheiro. Tem casa própria?”. Não tenho não, seu Abelardo. “Não tem casa própria e fica gastando tempo de nhenhenhem com a namorada? Que desperdício. E depois ela te larga, cê vai ficar por aí sofrendo, não diz que não avisei.” Não larga não, seu Abelardo! Ela me ama! E se largar, eu sofro, choro, ouço um samba triste e depois passa, a gente sobrevive. “Nem sempre, meu jovem, nem sempre! O que tem de dor de cotovelo aí que toma formicida, pula da ponte, se joga no trilho do trem, é um problema”.

Eu já tava quase sugerindo que ele ligasse o rádio e ficasse quieto quando finalmente chegamos no prédio da Maricota. Ele olhou pra trás, sério. “Tem certeza que vai descer aí?” Tenho. “Se quiser eu te levo de volta e não cobro a corrida”. Deixa disso, seu Abelardo. Quanto foi? “Quinze reais”. Peguei. No que ele foi pegar o dinheiro, vi a aliança em seu dedo. Mas, seu Abelardo! O senhor é casado?! “Sou.” E ama a sua mulher? “Claro! Ou cê acha que eu aprendi essas coisas todas aonde?! No rádio?! Foge do amor, jovem! Foge enquanto é tempo!”. Tchau, seu Abelardo!

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h39
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Aqui é correria, mano, tá ligado?

De Edson Aran.

Aran entrevista autor de “Capão Tapado”.

E a polêmica toma conta das ruas e cidades, minha gente! Nunca antes na história deste país, o ódio de classes foi tão, hmmm..., odioso. De um lado, com vidro filmado e Rolex de dois quilos e meio... a Zelite Branca! Do outro, de treizoitão e cara amarrada... a Bandidagem Social! Pra entender melhor o brejo infecto que insistimos em chamar de país, fomos entrevistar o escritor Ferrado, autor de “Capão Capado”. Diz aí, truta.

Aran: E aí, mano Ferrado, é bonito isso? Defender vagabundo?

Ferrado: Aí, truta, pega leve que eu tô maquinado, tá ligado?

Aran: Hãããã... é verdade que você ganhou o respeito da crítica com o livro “Capão Chapado”?

Ferrado: Aí, truta, eu fiz um ganho, tá ligado? O respeito tava dando mole, eu fui lá e peguei, tá ligado? Aí olhei feio pra crítica e falei: perdeu, crítica branca safada fedaputa, tá ligado?

Aran: A crítica fala que você tem a prosa ágil e seca. É verdade?

Ferrado: Que prosa, truta, que prosa? Tá achando que eu fico de prosa? Tu não tem amor à vida, tá ligado?

Aran: Tô falando do teu texto, animal...

Ferrado: Ah, entendi. Aí, truta, é ágil porque comigo é na correria, tá ligado? E é seco porque a zelite branca assassina roubou as água dos mano pobre, tá ligado?

Aran: Tudo muito lindo, Ferrado, mas tem o seguinte: você só faz sucesso porque a zelite branca assassina te dá coluninha em revista, publica teu livrinho, te elogia no Blônicas, te convida pra feirinha literária e escreve resenhinha pro teu bagulho. Explica aí pra gente como é essa relação, faz favor...

Ferrado: Aí, truta, agora deu! Vou te meter uma azeitona no meio da tua testa, tá ligado?

Aran: Socorro, Bope! Bope! Help me!

Capitão Nascimento: O senhor é um fanfarrão, senhor Site do Aran...

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 21h30
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Huck, Ferrez, você, eu, o Renan e o Lula.

De Milly Lacombe.

Está estabelecida a luta de classes. Bastou o apresentador branco e rico escrever um texto-desabafo para que centenas se revoltassem contra a cara de pau do sujeito que tem tudo na vida e ainda a audácia de reclamar apenas porque, no sinal, levaram seu estimado relógio, presente da diva que é também sua mulher, e que vale uma kitinete. Como polêmica é bom, a solução midiática (porque outra não há) foi chamar o Ferrez para tecer o contra-ponto sob a ótica do ladrão. Aí é que o bicho pegou definitivamente. Onde já se viu fazer a apologia do crime. Lugar de ladrão é no xilindró – ou, como prefeririam muitos, a sete palmos.
Tudo muito explicável e legítimo, mas também raso e hipócrita. Vejamos.
Huck tem absoluto direito de se revoltar e escrever a respeito do roubo. Tem também razão quando diz que paga impostos altíssimos e o mínimo que espera é que o Estado cumpra com seus deveres e promova segurança. Huck é casado e pai de dois filhos: confrontado com sua fragilidade e mortalidade, ficou apavorado e resolveu desabafar. Nada de errado.
Ferrez tem absoluto direito de escrever sob a ótica do sujeito que roubou. Fala com os recursos de quem vive o outro lado e entende ques e por ques. Achar que o texto da periferia é uma apologia ao crime é lê-lo superficialmente. O texto é forte, bom e deveria apenas nos fazer refletir. O final, aliás, é o que ele tem de melhor. O rico manteve o que lhe é mais caro – a vida – e o pobre saiu com o que precisava – a grana. Todos ganham. Triste e cruel. Só que trata-se da mais pura verdade. Porque acontecimentos como esse servem para colocar as coisas em perspectiva: grana, trabalho farto, família, viagens, carros que valem minifúndios e todo tipo de bem material: nada disso importa se, no sinal, uma bala nos fura a têmpora e dá o espetáculo por encerrado. A troca é bizarramente justa.
Ao ladrão. O malandro teve um filho, ou vários, porque o Estado se submete ao delírio da Igreja e não faz campanha pelo controle da natalidade, mantendo uma população inteira sob o manto da ignorância. O patife não teve oportunidade de estudar porque o mesmo Estado precisa manter desinformados aqueles a quem pretende manipular em busca dos votos que troca por comida. O larápio cresce formado por símbolos e signos tortos e que não têm como ser entendidos por quem, como você e eu, é feito de símbolos e signos completamente diferentes desses. O maluco cresce sabendo que terá que escolher entre trabalhar por 300 e poucos reais por mês ou sair para tirar, no muque e no calibre, de quem tem sobrando. A desigualdade, quando é assim eloquente, passa a ser devastadora e desumana. O garoto miúdo e sujo que está agora pedindo dinheiro no sinal vê por ele passar diariamente milhares de carros de vidro escuro e lataria brilhante. Ninguém abre a janela para reconhecer sua existência porque tem medo de levar um 38 na cara. No lugar do garoto, eu seria formada por uma revolta crescente e pela incontrolável vontade de me vingar da injustiça. No lugar do motorista do carrão, eu não abriria o vidro. A bala no sinal é a ponte que une esse abismo, o de universos tão distantes que só podem ser conectados pelo ódio, pela ira, pela violência.
Somos a 10 economia do mundo. Não houvesse o estúpido índice de corrupção sob o qual vivemos, não haveria miserável nas ruas. Se o Estado tivesse o mínimo de interesse em educar e formar sem o cacuete de manipular, não haveria o ladrão do sinal. Se esse mesmo Estado não se submetesse ao interesse sujo da Igreja, haveria controle de natalidade, distribuição de pílulas e preservativos de modo farto, informação sobre como não engravidar indesejadamente. Se a carga tributária sobre cada trabalhador registrado em carteira não fosse um roubo que vai direto para o caixa da corrupção, empregadores de pequenas e médias empresas poderiam contratar mais e pagar melhor. Ser a décima economia do mundo indica que existe dinheiro sobrando por aqui. Mas ele não chega à base: é usado para enriquecer ainda mais aqueles que já são milionários. Não basta uma fazenda, é preciso ter várias. Não bastam três carros na garagem. Não basta uma casa na praia. Não basta um barco. Não basta um avião particular. É preciso que se aprimore a soberba, que continuemos acrescentando água a um recipiente cheio. A grana fica parada na corrupção; o que sobra é sugado pelos juros e faz a festa dos banqueiros – ou vice-versa, pouco importa.
Ferrez, Huck, o ladrão, você e eu somos as vítimas.
Os culpados são esses cidadãos de terno e gravata que nos controlam para seu próprio devaneio e usufruto. Renan, Lula, Dirceu, Sarney, Ciro, o Senado, a Camâra … a lista é enorme. Mas o resumo dessa ópera do malandro é o seguinte: as mãos sujas de sangue são dessa gangue que nos assalta há muitos e muitos anos – as de nossa classe política.
Ferrez, Huck e o ladrão são a mesma pessoa, simplesmente irmãos e semelhantes. Enquanto não percebermos isso, continuaremos a lutar contra o inimigo errado. E, observando tudo de longe, a corja de patifes engravatados que nos rouba todos os dias vai fazendo a festa.
Pobres de nós que insistimos em continuar a nos matar e ofender, para delírio dos verdadeiros marginais.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h32
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Pôr-do-sol.

De Tati Bernardi.

Ela está prestes a perder a graça. Mas ainda tem algumas horas. As melhores
horas da sua vida.
O banho que antecede o sexo é o melhor do mundo. Ela jamais perde tempo
se sentindo por dentro, se valorizando tanto, como quando se prepara para
alguém. Tem até aquele esfoliante de erva cidreira que ela só usa quando
está se preparando para alguém.
Escolher a roupa é o inverso de vestir um defunto. É como se fosse a última
roupa do mundo, mas nesse caso para celebrar a vida. Uma roupa para
sempre.
Escovar os dentes também é uma tarefa mais cuidadosa quando se vai doar o
gosto da vida para alguém. Ela escova a língua, bem funda, e não sente ânsia
de vômito. Sente ânsia, mas é diferente. Uma explosão eminente que não vai
explodir. O coração pode estourar, o estômago pode estourar, a cabeça pode
estourar, mas não estoura. Ela inteira é uma festa de fogos de artifício que
não acontece. Mas os olhos brilham o segundo antes de acontecer.
Quando ela pega o elevador, é como se dissesse para cada um dos
moradores do seu prédio familiar. É como se batesse na porta deles e
dissesse que enquanto eles comem carne requentada com arroz sem graça.
Que enquanto eles comentam que o Jornal Nacional ta um saco. Que
enquanto eles atendem o telefone forçando uma simpatia aguda que soa
como uma sirene de desespero. Ela vai dar. Ela vai dar. Ela vai dar. Ela vai
provocar em alguém um mistério que para ela é a única coisa que importa no
mundo e para eles mais alguma coisa sem importância. Apesar do mundo
inteiro dizer que são os homens que dão mais importância para isso.
O rádio nesses dias sempre colabora. Sempre toca músicas boas e aquele CD
que andava sumido sempre aparece depois de alguma brecada. Aos pés da
ocasião. Tudo está aos pés da ocasião. E o espelhinho então revela a mulher
que ela é de verdade. Não aquela com preguiça de se pentear e com a
sobrancelha por fazer. Mas a mulher que ela é. Ela nasceu maquiada, com
esses olhos cheios de brilho e de vida, e essa boca querendo engolir o
mundo, digerir o mundo, sentir o mundo, chupar o mundo. Nesses dias até
sua coluna fica ereta. Músculos nascem, celulites morrem, cinturas afinam.
Seu cheiro natural são todos esses artifícios que ela misturou para o grande
momento. A mentira toda é a única verdade que existe.
Sua rua não é apenas a rua que desemboca na rua que desemboca na
avenida. Tudo é sedutor. Virar uma esquina, furar o farol, dar uma seta. Tudo
compõe uma trilha de sexo. Tudo leva ao sexo. Ela vai dar. Ela vai dar. E a
cidade até que é bonita com esses motoqueiros tirando finas. A cidade pulsa.
E os bancos de couro ensebado dos táxis e as peruas Kombi. Tudo pulsa. Ela
não tem nojo de nada. O halls preto purifica tudo, transforma o mundo em
um lugar até que interessante e prepara seu hálito para o único momento que
realmente importa nesses dias chatos. O momento em que ela vai arrancar
tudo o que a protege de mergulhar em si mesma. Ela vai mais uma vez amar
sozinha, mas tudo bem. Todos os outros dias que chegam para curar esse
momento, nada mais são que a espera e a preparação para outro machucado.
É como se ela fosse um ponto de interrogação incompleto. E precisasse
daquele furo que vai ao final do ponto de interrogação. O pingo final de uma
dúvida que começa nela e não termina em lugar nenhum. Para ela então
poder ser inteira uma dúvida. Tão inteira que completa. E sentir o mistério da
vida. E não entender nada mas estar no mundo. Ser mundana. E voar. E tudo
isso de tão absurdo e maluco, vazio. E a dor do vazio. E tudo isso que vem
depois. Mas ainda não é a hora. Por enquanto ainda tem graça dizer coisas
malucas e forçadas e verdadeiras ao estilo “hoje acordei assim”. Por enquanto
tem graça renegar um abraço ou abraçar com desespero. Por enquanto tem
graça molhar o lábio inferior e prolongar ao máximo os segundos.
E ela jura que todos que estão parados no trânsito sabem como ela cheira
bem. Ela jura que todos sabem o quanto ela está limpa porque não existe
limpeza maior do que os minutos que antecedem sujeira. Ela jura que vai
transar com o mundo e o mundo vai transar com ela. Rússia, Holanda, Japão,
todos sabem onde ela está indo. E todos vão com ela. Não existe poucos
amigos, não existe “pequenices” de alma, não existe chorinhos baixos. O que
existe é um mundo que pulsa no meio de suas pernas e o meio das suas
pernas pulsando no mundo. É o minuto da alegria mais plena e da solidão
mais povoada. Ela vai dar. Ela vai dar.
O porteiro poderia morrer por ela. A mulher no elevador poderia mata-la. Ela
é causadora de grandes catástrofes mas também poderia salvar o mundo.
Quando ele abre a porta, seu coração se parte em dois. Ela sabe que se trata
do ser mais amado do universo. Mas sabe que também se trata de mais um
ratinho de laboratório que tem vida e importância curtas. Ela vai precisar
ama-lo desesperadamente para conseguir se abrir. Mas ela sabe que isso é
apenas uma droga barata e não proibida que ela toma para sentir a vida e
poder comer a si mesma. E depois vomitar a si mesma. E resgatar seus
pedaços azedos como um porco faminto. Ela sabe que tudo só acontece
dentro dela.
Ela está prestes a perder a graça. Mas ainda faltam alguns minutos. Os
melhores minutos da sua vida. Naquele minuto que antecede uma coisa tão
banal quanto encaixar duas pecinhas de lego para formar uma ponte, ela é a
única mulher do mundo. E se ela disser que quer morrer, comer um abacaxi
ou escutar o som de um dedão do pé estalando. Ela será a única mulher do
mundo. A melhor do mundo. E então a vida, maravilhosa como é, diz
baixinho no ouvido dela: ir embora agora, sendo a única mulher do mundo,
mas não trepar com esse cara. Ou trepar com esse cara e ser apenas mais
uma mulher do mundo.
E então, apenas porque também precisamos da banalidade para não explodir
com a vida, ela abre as pernas e perde totalmente a conexão com a Rússia, a
Holanda e o Japão.
E as ruas são apenas ruas. E os motoboys, e as peruas Kombi, e os taxistas. E
os faróis infinitos. E tudo leva a um caminho longo de queda sem almofadas.
E o espelhinho revela uma mulher que precisa de banho e demaquilante. O
CD some novamente e o rádio toca mais uma modinha idiota. E ela é só mais
uma. Mas pelo menos ela deu. Ela deu. Ela deu.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h15
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Petíada.

De Carlos Castelo.

O sucesso do PAN no Rio foi o que teria gerado a idéia de promover a Petíada 2008, a primeira olimpíada da esquerda brasileira.

Depois de meses e milhões de dólares não-contabilizados, o Comitê Desportivo finalmente teria posto termo à organização da grande festa (depois que todos os conselheiros, diretores, auxiliares, funcionários não-concursados e suas respectivas esposas receberam uma bolada por fora, é claro).

Entre outros detalhes importantes, o Comitê já teria inclusive escolhido a logomarca que será usada sobre o tradicional fundo vermelho: uma foice, um martelo e uma gigantesca mala de couro estilizada.

O mascote da Petíada será possivelmente um simpático canarinho, símbolo da fauna brasileira e conhecido por roubar os ninhos das outras aves para chocar seus ovos.

Centenas de membros escusos das maiores agremiações marxistas-leninistas-dirceuzistas de classe média alta do Hemisfério Sul, formarão delegações para adentrar na prisão de segurança máxima de Bangu 2 e participar do evento, vindos de todos os rincões do país, da Suíça, Luxemburgo, Ilhas Caiman e outros paraísos fiscais.

A Petíada começará oficialmente quando seu tesoureiro, vindo da Ilha Grande nadando e correndo da PF tucana, adentrar o pátio do presídio e jogar uma tocha incandescente sobre uma pilha de documentos fiscais dos deputados e senadores aliados envolvidos em CPI’s, maracutais ou escaramuças recentes.

Além de modalidades esportivas tradicionais, a Petíada inovará trazendo:

- Assaltos Ornamentais;

- Arremesso de mala de dólares à distância;

- Campeonato de bafo;

- Maratona de estelionatários;

- Mergulho em piscina de moedinhas;

- Ginástica com o aparelho do Estado;

- Jiu-Jitsu na Oposição;

- Remo “dois sem patrão, mas com mensalão”.

- Levantamento de presos (por prevaricação);

- Levantamento de cueca, modalidade 10, 50 e 100 mil dólares;

- Luta greco-tucana;

- Judô e recebo;

Até esta data, não há confirmação se se poderá pagar o ingresso para as Petíadas usando cheque-atleta.

O final da competição também não tem data marcada. Abrir um negócio desses é fácil, mas fechar é coisa pra ano ou mais - com auditoria fiscal e o diabo a quatro.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h04
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tomo um banho de lua.

de nelson botter jr.

que gostoso ver esse seu peitinho em formato de branca lua saltar pra fora do sutiã e me olhar com malícia, num convite irrecusável ao leite vital, espio seu vai e vem pelo buraco da fechadura que mantenho a sete-chaves aqui na tela branca, da cor da sua lua, me fazendo viajar a lugares muito mais distantes, mais do que a própria lua, a rainha da minha noite, seja de calor, com suores e desejos, seja de frio, com bicos rijos e tentações, uma valsa na madrugada, um tango bailado no porto dos prazeres mais profundos e inquietos, como os amantes que sempre terão paris, nós sempre teremos aqui, seja lá onde for, são paulo, o vêneto, a origem, o leite materno, e no frenesi do seu olhar, no sorriso maroto que insiste em iluminar minha face oculta da lua, nos mais obscuros momentos de tensão, vejo a imagem que me leva a outra dimensão, a lua que brilha em seus olhos, mirarando os próximos passos, o amor que nos dá fome de viver, que faz de nós seres abstratos, o beijo de boa noite, vamos dormir, te vejo amanhã, ou não.

nelson botter jr é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h41
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