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A culpa de Fidel.

De Leo Jaime.

Fui ver este filme hoje. Deve ser elogiado pela crítica. É o tipo de filme que aqueles que tem preconceito contra cinema americano elogiam, mesmo se gostar muito. é panfletário e faz a catequese para aquele tipo de esquerda "franciscana", simplista e maniqueísta, que penso só existir ainda na América Latina. Pois é, o filme é da filha do Costa Gavras, e é europeu. filmes francês! E eu costumo gostar dos europeus e quase sempre dos filmes franceses. O filme é longo e os atores principais, duas crianças, são excelentes. Mas apesar do cinema ser bom comecei a passar mal e desejar o fim daquela experiência com alguma ansiedade. Acho que o ar condicionado não estava bom. Mas como o filme defendia teses como aquele que deseja ter conforto ao invés de ser mártir da causa dos miseráveis é um filho da puta, comecei a odiar com mais forças o ar condicionado ruim e o fato de que mesmo sendo um cinema confortável, não fazer com que me sentisse donfortável.
Pois é.
Fiquei pensando durante o filme em escrever um texto sobre esse pesamento reacionário e simplista da esquerda que faz patrulha ideológica por aqui. Lembre-me de como fui escorraçado por ter defendido um texto do Toni Beloto pedindo respeito às diferenças de opinião por parte daqueles que acharam mau-caratismo da parte dele declarar que insatisfeito com o governo que ajudara a eleger votaria na oposição. Foi execrado, tentou se defender e eu o apoiei na defesa. REcebi centenas de mensagens grosseiras por parte de leitores do blog que, avisado por um dos leitores e por intermédio da mesma enxurrada de comentários aviltantes, que a horda de patrulheiros tinha sido mobilizada pelo blog, ou melhor, pelos leitores do blog de JOsé Diceu.
Chegando em casa fui ler a entrevista excelente que a jornalista da Piaúi fez com o próprio. Para meu espanto ele, que é protegido por militantes que acreditam que qualquer um que vote em outro partido, seja qual for, é um filho-da-puta que merece ser metralhado - razão pela qual este blog tem comentários moderados, depois de anos sendo tribuna livre -, ele mesmo endossa várias de minhas críticas a gente da própria esquerda, como por exemplo a Hugo Chávez, que costumo chamar de Idi Amin latino. E não é que o homem mete o pau em vários, entrega muitos e admite um monte de coisas que seus críticos apontam e seus defensores rechaçam? Imagino que meus patrulheiros devem ter entrado em coma ao ler a entrevista dele. Em geral o grande defeito da esquerda é não admitir que jamais, em hora alguma, nem em hipótese, alguém da esquerda tenha cometido um erro, assim como alguém da direita (qalquer um que não seja um repetidor do ideário, na opinião deles, bem claro!) possa jamais ter feito alguma coisa boa. Maniqueísmo total e relativismo nenhum. Pois é, dá pra perceber que entre eles o pau come.
Gostei de ter lido a histórica entrevista e a recomendo.
Vale a pena pensar nisso: no papel histórico de cada um. E lembrar que nenhum calhorda ou nenhuma boa ação é um fato isolado.
A culpa é do Fidel? Pode ser. MAs de todo incompetente, todo desonesto, todo corrupto, todo imbecil, todo alienado, seja ele de qual origem, cor, credo ou opção sexual ou política.
E de quem não conversa, nao opina, não muda de idéia e não participa.
Bom, chove pra cacete no Rio. E isso nubla um pouco o astral elevado da cidade no verão.
E eu peço desculpas. A culpa é do filme ruim. Rs.

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h12
[]


Caderno de turismo.

De Marcelino Freire.

Zé, essa é boa.
O que danado a gente vai fazer em Lisboa? Bariloche e Shangri-lá? Traslados para lá. Para cá. Travessia de barco pelos Lagos Andinos. Nunca tinha ouvido falar em Viña Del Mar, Valparaíso. A gente não devia sair do lugar.
Quem já viu se aventurar na Ilha do Cipó? Ilha do Marajó? Itacaré? Fugir de dentada de jacaré? O que você quer, homem? Sem dinheiro, chegar onde? Não tem sentido. Oklahoma, nos Estados Unidos. É delírio. Peregrinar até as múmias do Egito.
Que história é essa de cruzeiro marítimo? Caribe, Terra dos Vikings, Mediterrâneo? Enfrentar o Oceano Atlântico? Canadá, Canaã? Deserto de Atacama? Que besteira! Ir para Bali, Beijing, Xian, Xangai, Hong Kong.
Zé, olhe bem defronte: que horizonte você vê, que horizonte? Pensa que é fácil colocar nossos pés em Orlando? Los Angeles? Valle Nevado? Que língua você vai falar no Cairo? Em Leningrado? Nem sei se existe mais Leningrado.
Zé, esquece.
Nada de Andaluzia. Tahiti. A gente fica é aqui. Que Sevilha? Roteiro Europa Maravilha. Safári na África pra quê? Passar mais fome? Leste Europeu, Escandinávia, PQP.
Presta atenção: a gente nem conhece o Brasil direito. Bonito, Chapada Diamantina. Dos Veadeiros. A América Latina. Guiana e Guiana Francesa. Não existe beleza. Rota do Sol. Rota das Estrelas. Perca. Atrase a viagem, Zé. Não parta.
Você não vai para a ilha de Malta, não vai. Eu não deixo. A vida da gente é aqui mesmo. Sempre foi aqui mesmo. Não nascemos no Berço da Civilização, Istambul e Capadócia.
Zé, o que deu na tua cabeça? Ora, joça! Estamos Longe de Miami, homem. Acapulco e Suriname. Nosso destino é um só. A gente não tem dólar. A gente não tem cartão. Deixa de imaginação. Você não tem medo de avião? Tanta asa que cai pelo chão. Atentado, bomba em Bengasi, doença em Botsuana.
Zé, estou sendo franca: olha bem pra nossa cara.
Por que partir para Dinamarca? Caracas? Cancún, Congo? Cachorro a gente enterra em qualquer canto. Enterra aí no quintal, Zé. E pronto.

Marcelino Freire é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h12
[]


Mulher pelada.

De Antonio Prata.

Toda sexta-feira ele chegava, num FIAT bege, para buscar a mim e a minha irmã. Pequenininhos, nos encaixávamos nos programas do pai separado e boêmio. Adorávamos: nos bares em que nos levava, éramos paparicados por mulheres bonitas e cheirosas, que riam alto e usavam roupas engraçadas. (Só muito mais tarde fui descobrir que a esse tipo de mulheres dá-se o nome de “atrizes”). Pedíamos coca, fanta e sprite e misturávamos tudo. Meu pai nos deixava comer pastéis, batatas-fritas, frango à passarinho e todo tipo de besteira, mandando por água abaixo, em minutos, toda a educação nutricional que minha mãe havia imposto durante a semana, com muito esforço, brócolis, sorrisos e papaias.
Nos períodos em que meu pai tinha alguma peça em cartaz, íamos ao teatro todo fim de semana. Lá pelos meus cinco anos, estreou a peça Besame Mucho. Era encenada no teatro Cultura Artística. Fica ali perto da Augusta, em meio a várias casas de strip e outros estabelecimentos cheios de neons e mistério, que eu olhava fascinado. Chegava a sentir uma certa pena do meu pai: o teatro dele me parecia o ponto mais desanimado de toda a rua, ofuscado por fachadas de castelos medievais, onde portas espelhadas davam para corredores esfumaçados e coloridos.
Perguntei o que eram aqueles lugares e meu pai disse que eram bares. Mas por que eram tão diferentes dos outros, em que comíamos frango a passarinho com Guara-cola? Meu pai explicou-me que naqueles bares havia mulheres peladas. Como?! Por que?! Do alto de minha meia década de existência, “mulher pelada” evocava a imagem de minha mãe ou irmã entrando ou saindo do banho, de toca na cabeça e toalha na mão. Não conseguia imaginar muito bem que razão levaria mulheres nuas a comer pastéis. Meu pai seguiu a explicação, deixando-me ainda mais confuso: homens que não tinham namorada pagavam para ver aquelas mulheres peladas. Imaginei uns caras tristes, barba por fazer, a preencher palavras-cruzadas e bebericar um chope, enquanto mães e irmãs nuas iam e vinham de chuveiros inexistentes. A coisa não fazia o menor sentido. Pedi para irmos a um daqueles bares. Meu pai explicou que era proibido para crianças. Pela primeira vez, alguma coisa pareceu-me lógica. Devia ser para evitar que víssemos aqueles homens tristes e sozinhos, perdidos entre neons e tocas de banho.
Só vinte anos depois atravessei um daqueles corredores. As mulheres eram bem diferentes do que havia imaginado no meio de minha infância, mas os homens estavam lá, exatamente como eu os havia pintado.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h11
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Meu Doce Amor.

De Nelson Botter Jr.

Não sei como deixei as coisas chegarem nesse ponto. Agora, enquanto estou de olhos fechados, sentindo a boca dela correndo pelo meu corpo, tudo que me vem à mente é o que vou fazer. Como vou resolver essa situação? Seus lábios são macios e me tocam suavemente, mas, enquanto isso, eu viajo... não de prazer, e sim de desespero. Estou perdido e não sei como resolver.
Ambos temos 18 anos. A diferença é que os 18 anos dela são de vida e os meus 18 anos são de casado. E olha que casei tarde, portanto você pode ter certeza de que a diferença de idade é bem grande. Se bem que isso não me incomoda, pelo contrário, me faz mais jovem, mais vivo, mais feliz. É uma bela massagem no ego. Engraçado como mesmo sabendo da verdade, procuramos qualquer motivo para nos enganarmos. Ainda bem que não olho no espelho há mais de 5 anos.
A língua dela é quente, úmida, nova, deliciosa... Mesmo assim tudo que penso agora é na Renata. Nosso casamento é ótimo, não temos filhos, mas isso não nos incomoda. Até tentamos uma época, mas a coisa complicou e preferimos viver nossa vida sem tratamentos "in vitro". Temos uma linda casa, ótimos empregos, cachorro, fazenda, etc e tal. Eu a amo muito e sei que ela me ama também. Mas, agora isso! O que era apenas uma loucura, uma aventura boba, acabou virando uma perigosa armadilha, uma verdadeira obsessão. A pele de Daniela é tão lisa, sua carne é tentadoramente dura, seu sorriso é inocente, seu cheiro lembra talco de bebê. Me viciei e não sei como largar. Deve ser a pior das dependências.
Já tentei abandonar Daniela. Como se eu resolvesse acabar com a brincadeira e ir pra casa, mas não funciona assim. Não, a coisa é bem mais complicada. Já vi amigos destruírem seus casamentos por causa desses passatempos, mas não vou permitir isso. Nunca poderia magoar Renata. Eu a amo mais que tudo, mais que a boca gulosa de Daniela que agora me engole com voracidade. Não posso deixar Renata descobrir esse meu caso, seria muito doloroso para ela. Eu a conheço, entraria em depressão, sofreria demais. Devo protegê-la, cuidar do bem estar de minha amada esposa e não deixar que nada de mal lhe aconteça.
O prazer invade meu corpo e o gozo me arrepia a alma. Daniela me olha. Não posso evitar, sei que não posso me livrar dela, que já se tornou parte de meu espectro. Ao mesmo tempo não posso deixar que Renata nem ao menos desconfie. O que faço?
Daniela está no banheiro. Muitas coisas passam por minha cabeça agora. Tento achar uma resposta para como cortar de vez minha relação com essa menina tão maravilhosa. Descontrole. Por um instante me imagino levantando da cama, chegando perto de Daniela e colocando minhas mãos em seu pescoço. O estrangulamento não demoraria muito, seria rápido e até certo ponto indolor. Não, não posso fazer isso. Tão jovem, tanta coisa ainda para viver. E pior: Renata saberia. Crimes perfeitos só existem no cinema. Eu acabaria na cadeia e Renata ficaria mais arrasada ainda. O cerco se fecha. Não posso magoar minha doce Renata. Ela não pode saber...
Daniela volta sorrindo e senta na cama. Contemplo seu lindo corpo e chego à conclusão que a desejo muito. Coisa doentia, sem volta, agora já foi. Renata é meu verdadeiro amor e nunca irei magoá-la. Ela não vai saber de nada, mesmo continuando com Daniela. Minha mulher querida não sofrerá decepção alguma, pois faço de tudo por ela. Sou capaz de qualquer coisa para não vê-la infeliz. E é pensando dessa maneira que encontrei a solução: hoje à noite, quando chegar em casa, vou olhar bem no fundo dos olhos de Renata, beijar sua testa e matá-la.

Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h11
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Campanha permanente pela volta do cafuné.

De Xico Sá.

Dos dengos femininos, ou historicamente femininos, o que mais nos faz falta, é o cafuné. Nos dias avexados de hoje, não há mais tempo nem devoção para os delicados estalinhos no cocoruto do mancebo.  Pela volta imediata do mais nobre dos gestos de carinho e delicadeza. Nem que seja pago, como o sexo das belas raparigas dos lupanares, mas que devolvam vossas mãos às nossas cabeças.

Pela criação imediata da Casa de Cafunés Gilberto Freyre, como me propõe, em sociedade, a amiga Maria Eduarda Risoflora Belém. Ótima idéia a ser espalhada por todo o país. Milhares de casas, guichês, varandas, redes debaixo de coqueiros, sofás na rua... Tudo a serviço dos breves e deliciosos estalinhos dos dedos das moças.

Gilberto Freyre era um entusiasta do cafuné e a ele dedicou páginas e páginas.  GF, aliás, escrevia como quem dá cafuné, prosa mole, ritmo dos mais  sensoriais.  Como também assenta palavras outro Freire, sem o estilingue do Y, o Marcelino de “Contos Negreiros” e aqui do Blônicas.

Que machos & fêmeas sejam treinados, em um programa social de emergência, para reaprenderem o hábito do cafuné.

Melhor: que seja feita uma campanha de saúde pública. Ah, quantas doenças de fundo nervoso seriam evitadas, quantos barracos de casais seriam esquecidos, quantos juízos agoniados seriam libertos!

Sem se falar no erotismo que desperta o dengo, como anotou outro sociólogo, o francês Roger Bastide, no seu belo ensaio “Psicanálise do Cafuné”.  Pura libido.

Delícia de se sentir; beleza de se ver. O cafuné de uma mulher em outra, ave palavra!, puro cinema, para além muito além do lesbian chic.

Como era comum, na leseira de fim de tarde, nos quintais e nas calçadas.

Ao luar, então, sertões e agrestes adentro, era puro filme de Kurosawa. O resto era silêncio.

Ai que preguiça boa danada, ai que arrepio no cangote, quero de volta meus cafunés.

Viver de brisa, como na receita de Bandeira, numa rede na rua da Aurora, sob a graça dos dedos de uma morena jambo  ou de uma morena caldo-de-feijão.

Como pode uma criatura, como esses rapazes de hoje, passarem pela vida sem provar do êxtase de um cafuné

Pela obrigatoriedade do cafuné nos recreios escolares, nas missas, nos cultos, nos intervalos dos jogos de qualquer esporte.

Não é possível que se condene toda uma geração a viver sem cafuné. Eis uma questão de segurança nacional. Tão importante como aprender a assinar o próprio nome. O cafuné, aliás, é a assinatura em linda e barroca caligrafia de mulher.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h10
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Zen e a arte de corromper.

De Edson Aran.

Agora tem até Gautama na lambança

Era só o que faltava: construtora chamada Gautama metendo a mão no nosso bolso. Já que chegamos à corrupção ecumênica, por que não aplicar as lições do zen-budismo à arte de roubar?

***
Um discípulo de corrupto procurou o mestre e disse:
“Mestre, não sei o qual o caminho a seguir.”
“Me dê um milhão de dólares e eu o ensinarei”, respondeu o mestre.
O discípulo levou um milhão ao mestre, que pegou o dinheiro e nada disse. Uma semana se passou e nenhuma resposta. Então o discípulo procurou novamente o mestre e falou:
“Mestre, eu lhe dei um milhão de dólares e ainda não sei o qual o caminho a seguir...”
“Um milhão?!”, espantou-se o mestre. “Nunca vi esse dinheiro. Você tem recibo ou nota promissória?”
Neste momento, o discípulo compreendeu qual o caminho seguir.

***
Quando o discípulo de corrupto está pronto, o mestre aparece.

***
Se o ouro e as jóias enchem uma casa, o proprietário jamais encontrará a paz. Coloque tudo num banco na Suíça.

***
Duas mãos aplaudindo produzem um som. Qual é o som de várias mãos roubando?

***
Um mestre estava em busca de um discípulo para sucedê-lo na arte da corrupção. Então ele chamou vários dos seus alunos e disse:
“O governo quer construir uma usina hidrelétrica. Aquele que corromper mais políticos e funcionários públicos para conseguir a licitação será o novo mestre.”
“Eu ofereço 10%!”, respondeu um discípulo.
“Eu ofereço 20%!”, disse outro.
“30% e não se fala mais nisso!”, gritou um terceiro.
Aí o último discípulo se aproximou e falou:
“Eu apresentarei o melhor projeto e vencerei pela minha competência!”
O mestre abriu um largo sorriso e sentenciou:
“Parabéns! Você é o novo mestre!”
Os outros se indignaram e perguntaram como alguém que se recusava a corromper poderia ser o mestre da corrupção.
Então o mestre disse:
“É que ele me deu 100 mil reais pra eu escolher ele.”

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h09
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Trepai-vos, irmãos.

De Tati Bernardi.

Cresci com a minha mãe dizendo que mulher que só pensa em sexo não é coisa boa. Tantos livros para ler, tantas contas para pagar, tanta tristeza e violência no mundo, tanta coisa séria para pensar...Sinto muito, mamãe. Mas acho que vou te decepcionar. Sabe, fiz uma recapitulação da minha vida e descobri que, apesar de tudo, não passei um segundo da minha existência pensando em outra coisa.
Eu nunca comecei cursos ou empregos novos verdadeiramente motivada pelos desafios de uma carreira ou de salários melhores. O que sempre me impulsionou era a pergunta: aqui tem um bom número de homens para quem eu daria? Não? Então não quero. Não que eu fosse dar para todos. No final das contas, apesar de eu adorar a minha personagem que vende o oposto, acabo não dando pra ninguém ou quase ninguém. Mas não há nada melhor do que estar em um ambiente onde isso poderia acontecer. E que atire a primeira pedra o ser humano que não pensa assim. Juro que não é promiscuidade, é apenas a natureza. Sexo é a melhor coisa da vida e ponto final. Quando acabam as chances dele acontecer, partimos para outros ares. Os homens compram carros maiores, as mulheres peitos maiores. Eu simplesmente mudo de emprego ou turminha de amigos. Mas a verdade é que estamos todos pensando em sexo. Até um filme interessante é ainda mais interessante quando alguém quer transar com você porque você achou o filme interessante.
Existe fazer a mala feliz se você não tiver ao menos uma esperançazinha de fazer sexo no lugar para onde está indo? Existe acordar cedo para uma reunião, pegar o maior trânsito do mundo, se arrumar minimamente bem, se você não está interessada em fazer um “meting” com alguém desse “meeting”? Sejamos sinceros. Claro, não sou homem e na maioria das vezes, apesar de eu me odiar infinitamente por isso, me apaixono. E sempre imagino o desejado da vez me esperando de gravata borboleta no altar. Sou bobinha. Mas que apesar de tudo isso, eu gosto de dar, e só penso nisso. Ah, isso é verdade.
Não consigo ser séria. Certa vez um grupo de amigos me perguntou se eu gostaria de ajudá-los fazendo propaganda sem fins lucrativos para algumas ONGS. Num primeiro momento pensei: trabalhar de graça nem a pau. Depois fui na primeira reunião e constatei: bom, dos sete caras que estão no projeto, eu daria para quatro! Topei na hora e nunca fui tão engajada. Teve uma outra vez também que duas agências de propaganda estavam disputando a minha contratação. Escolhi a que ia me pagar infinitamente menos mas tinha o chefe mais gostoso. Claro! Dinheiro é bom, mas sem sexo não vale de nada.
E sorte de quem tem uma boa vida sexual associada a um amor verdadeiro. Essa soma sim é a verdadeira busca da vida. Que caminho de Santiago que nada. Que meditar em cima de uma montanha que nada. Já viu alguém que está super feliz no amor e trepando alucinadamente sumir para encontrar seu verdadeiro eu? Isso é coisa de quem ta na seca ou acabou de levar um pé na bunda. Entre um belo corpo nu e um tronco, só um babaca vai preferir trocar energias com a árvore. O último retiro espiritual que me meti só não morri porque pegava o canal Playboy na televisão do quarto.
Mas sabe, mãe. Eu não acho que meu prazer seja tão egoísta quanto você pensa. Eu lembro que uma vez estava caminhando na praia e vi uma bolinha de frescobol atingir uma gordinha mal humorada. Ela esbravejou. Ameaçou bater no moleque. Tocou o terror. E o pai do garotinho, que estava jogando frescobol com ele, apenas gritou: “a senhora não goza não?” Adorei aquilo. Acho que a violência nada mais é que o desejo sexual reprimido. Nada me tira da cabeça que se todos transassem loucamente o mundo seria infinitamente menos louco.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h08
[]


No apagar das luzes.

De Carlos Castelo.

O Governo diz que não há o menor risco de apagão.
O bom senso manda ir comprando velas, lamparinas e outros artefatos que não dependam da energia elétrica para brilhar no escuro. Porque, muito em breve, teremos novamente situações assim em nossas plagas.
Prepare-mo-nos.

…EM CASA

- Pode vir, Noeli, vem…
- Vem como? Com esse armário na minha frente…
- Não é armário. É teu pai que também tá perdido. Seu Alfredo? Seu Alfredo? Dormiu de novo. Faz o seguinte: passa pela direita dele e depois segue em frente.
- Direita? Mas se eu tô confundindo meu pai com um armário, como é que eu vou saber o que é direita, o que é esquerda, o que é centro, Rosalvo.
- Tenta dar um pulinho.
- O pai tá dormindo de pé, se eu pular derrubo a canja.
- Então respira fundo, escolhe um lado e anda, mulher.
- Tá, Rosalvo, já vai.
- Vem devagarzinho, um pé, depois o outro, lembra que tem o aparador no meio…
- …
- Noeli? Tá vindo?
- …
- Que barulho é esse, Noeli?
- É o pai.
- O pai o quê?
- O pai pegou a canja.
…NO ESCRITÓRIO
- Dona Estela?
- Sim?
- A senhora está em sua mesa?
- Estou, doutor Jordão.
- Poderia me fazer um favor?
- Claro, doutor Jordão.
- A senhora sabe aquela máquina copiadora nova que o doutor Azambuja mandou instalar no corredor?
- Sei, doutor Jordão.
- A senhora poderia tentar juntar o pessoal do Almoxarifado, do RH e dos Serviços Gerais e pedir pra eles virem até a máquina?
- Mas nessa escuridão, doutor?
- É urgente, dona Estela.
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu.
- O que foi, doutor Jordão, o senhor está bem?
- A copiadora está em cima de mim e do Cintra, do Jurídico. O Cintra não está falando mais nada, só está respirando fundo e rezando baixinho.
- Mas como é que essa copiadora foi parar em cima dos senhores, doutor?
- O Cintra confundiu a copiadora com aquela máquina da Karine, a cavalona do Arquivo. Quando apagou a luz, ele agarrou a cintura dela e puxou. Mas era a Xerox, entende?
- E agora, doutor Jordão, o que é que eu faço nesse escuro?
- Conta uma história.
- Como, doutor Jordão? O senhor acha que eu…
- Conta uma história pra mim, dona Estela, EU ESTOU MANDANDO!
- Era uma vez um cipreste centenário numa floresta cheia de bichos e duendes, um caçador…

…NO DENTISTA
- Isso. Vire a cabeça aonde tem aquela nesguinha de luz entrando, por favor. Isso.
- Hã.
- Agora eu vou só passar o raspador na gengi…
- HÃ! HÃ!
- Doeu?
- HÃÃÃ!!
- É que eu não estou vendo direito. Acabou a pilha da lanterninha. Mas acho que dá pra terminar o serviço. É rapidinho. Vamos só tentar de novo, aqui pelo lado.
- HÃ!
- Opa, acho que enfiei no nervo, desculpa. Só mais uma pontadinha e…
- HÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃ!!!!!

…NA CAMA
- Sabe de uma coisa. Nunca é tarde pra gente descobrir que o amor - me refiro ao amor físico - pode ser sublime, espiritual. Apesar do lado material dele: carne, osso, músculo, sabe?
- Hum, hum.
- O que a gente acabou de fazer aqui é a prova dos nove.
- É.
- Você também teve a mesma impressão que eu?
- Tive.
- Foi bom?
- Foi.
- Sei lá, te pergunto por que, às vezes, sou romântica demais. E ter feito assim, no breu, foi sublime e inédito. Sem lâmpadas, abajures, candelabros. Essência com essência. Alma com alma…
- Hum, hum.
- Não queria estragar um momento tão belo assim sendo melosa, Ênio.
- Ênio?
- Ênio, é claro, meu amor.
- Mas meu nome é Zeco. Vim trocar um soquete aqui no quarto, deu o apagão e…
- Zeco?
- Zeco, sim senhora.
- Muito prazer, Zeco.
- O prazer foi meu, dona.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h05
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Declaração Universal dos Direitos do Hugo Chavez.

De Henrique Szklo.

Artigo 1º. – Todo Hugo Chaves nasce livre e igual em dignidade e direitos. Mas aí ele cresce e não se conforma em ser apenas mais um no meio da multidão. Ele quer fazer a diferença. Quer mudar o mundo. Quer deixar um legado. Quer ficar para a história. O problema é que ele é apenas mais um no meio da multidão;

Artigo 2º. - Todo Hugo Chaves tem o direito de ser o gordinho mais sem noção da América Latina;

Artigo 3º. - Todo Hugo Chaves tem o direito de cantar de galo mesmo sendo um pintinho depenado pintado de vermelho;

Artigo 4º. - Todo Hugo Chaves tem o direito de se meter na vida de todo mundo, dando aquela lição de moral, com falas vigorosas e o dedo em riste. Até porque ninguém presta atenção mesmo;

Artigo 5º. - Todo Hugo Chaves tem o direito de odiar os Estados Unidos. Ele e a torcida do Corinthians;

Artigo 6º. - Todo Hugo Chaves tem o direito inalienável de falar pelos cotovelos, pelos joelhos, pelos calcanhares, pelo cóxis, e onde mais ele encontre espaço para expressar sua sanha verborrágica;

Artigo 7º. - Todo Hugo Chaves tem o direito de não gostar que o Rei da Espanha lhe diga: “Chaves, você me deixa loooouco!”;

Artigo 8º. - Todo Hugo Chaves tem o direito de estar sempre vestindo um modelito vermelho básico, que para ser completo mesmo só falta um nariz da mesma cor;

Artigo 9º. - Todo Hugo Chaves tem o direito de lutar para criar a democracia bolivariana. Nem que para isso tenha de ficar no poder para sempre;

Artigo 10º. - Todo Hugo Chaves tem o direito de se achar o novo Fidel Castro, hahahahaha.

Henrique Szklo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h03
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O Blônicas concorre à seleção do Prêmio Ibest 2008, na categoria Blog de Variedades.

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Agradecemos a força de sempre!

Escrito por Blônicas às 14h10
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O crítico de cinema, esse esquisitão

De Edson Aran.

Da série: “Grandes problemas da raça humana”

• O crítico de cinema é um cara esquisito que tem 40 anos e mora com a mãe. Mas, atenção: não confunda o crítico de cinema com o crítico de música. Este tem 50 anos e mora com a avó.

• Os críticos de cinema se dividem em dois grandes grupos:
1 - os que colecionam bonecas Barbies.
2 - os que colecionam action figures do Batman.

• Os primeiros gostam de filmes do Pedro Almodóvar, festival de Sundance, produções chinesas sem kung fu, garotos iranianos correndo atrás de balão, Mostra de Cinema de São Paulo, tudo quanto é produção européia e acham o Antonio Banderas um gato.

• Os outros gostam de filmes do Robert Rodriguez, festival de Avoriaz, produções chinesas com kung fu, bichas espartanas que carregam lanças enormes, Festival Anima Mundi, tudo quando é produção baseada em histórias-em-quadrinhos e acham o Keanu Reeves um gato.

• Quando a noite cai, o crítico-barbie lê a resenha do colega falando bem do “Homem-Aranha 3” e se rasga de tanto ódio: “Afe... ninguém mais tem sensibilidade para entender o que é cinema de verdade!”

• Ao mesmo tempo, do outro lado da cidade, o crítico-batman lê a resenha do primeiro falando bem de “Volver” e baba de tanto rancor: “Bosta de babaca da porra!”

• Um dia, porém, o Destino, caprichoso feito um Gilberto Braga, faz com que o crítico-barbie e o crítico-batman se encontrem na mesma sessão. Um filme de super-herói com o Antonio Banderas. Os olhares se cruzam e o amor que não ousa dizer seu nome enche o coração dos dois.

• Aí eles saem da casa da mãe, resolvem dividir um apê e passam o resto da vida falando bem de filme brasileiro.

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h56
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Eu nem te amo.

De Tati Bernardi.

É estranho como sinto saudades quando você vai buscar água. Aqueles
segundos que separam o resto das suas canelas se perdendo no corredor
com o pulo que você dá na cama.
Aí você volta cheio de pressa em se livrar de mim e eu penso que tudo bem.
Você tem pressa até de se livrar de você mesmo. O problema não deve ser
eu. E eu nem te amo mesmo. Só fui te visitar porque tenho preguiça de
transar com qualquer um e se fico mais de 3 semanas sem sexo começo a
arrumar confusão no trânsito.
Sua voz é chata e seu papo então, insuportável. Respiro aliviada e sugo o
máximo de você, pra ter a certeza absoluta de que não é você. Não sonhei
com você. Não quero passar minha vida ao lado da pessoa mais estranha do
mundo. Imagina só ficar grávida de um homem que tem pavor de mulher
com enjôo? Imagina só ficar velha ao lado de um homem que tem pavor da
vida óbvia, cotidiana e imperfeita? Eu viveria infeliz.
Não é você. E lá vem você me perguntar porque é que estão todos casando, e
falar pela trigésima vez que você vai acabar sozinho e não deve nada a
ninguém. E lá vem você me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio. E
me falar para eu não sofrer e para eu ir embora e para eu não esperar nada e
para eu não desistir de você. E eu me digo que não é você. Porque, se fosse,
meu sono seria paz e não vontade de morrer.
Me despeço, já sem aquela dor aterrorizante, das partes de você que mais
amo. Ainda que eu nem te ame mesmo. E me despeço das partes da sua casa
que eu mais amo. Ainda que nada disso seja amor. E entro no carro já sem
chorar. Os últimos três anos chorando por você serviram ao menos para me
secar por dentro.
Preciso me aliviar. Mas dou até risada porque acabaram os caminhos. O
mundo não suporta mais esse meu não amor por você. Meus amigos
espalmam a mão na minha cara e já vão logo adiantando que se eu
pronunciar seu nome, eles vão embora sem nem olhar para trás. Remédios só
me deixam com um bocejo químico e a boca do estômago triste, mas não
tiram você do meu coração. E escrever, que sempre foi a única coisa que
adiantava para os dias passarem menos absurdos, já se tornou algo ridículo.
Escrever sobre você de novo? De novo? Tenho até vergonha. Nem eu suporto
mais gostar de você. E olha que nem gosto.
É como se o mundo inteiro, os ventos, as ondas do mar, os terremotos, as
criancinhas peladinhas brincando de construir castelinhos na areia , os carros
correndo nas estradas, os cachorrinhos meditando nas gramas de todos os
parques do mundo, a chuva, os cartazes de filmes, o passarinho que canta
todo dia de manhã na minha janela, a torta de palmito na geladeira, a minha
vizinha louca que briga com o gato na falta de um marido, um cara qualquer
que eu dormi (e todos eles parecem qualquer quando não são você). É como
se o mundo inteiro me dissesse: “hei Tati, ninguém agüenta mais esse
assunto! Chega!”
E no meio da noite, quando eu decido que estou ótima afinal de contas tenho
uma vida incrível e nem amava mesmo você, eu me lembro de umas coisas
de mil anos e começo a amar você de um jeito que, infelizmente, não se
parece em nada com pouco amor e não se parece em nada com algo prestes
a acabar.
Lembro de você me dando mostarda de café da manhã na primeira vez que
dormi na sua casa, de você com os olhos disfarçando uma lágrima porque a
minha cachorra buscou a bolinha e era só uma desculpa para eu fechar a
porta antes dela voltar. Lembro de você querendo fugir de um museu na
Itália porque tantos dias longe de casa te deram uma espécie de bobeira e
você achava que estava sufocando. Lembro da sua jaqueta com um sol nas
costas e do seu cabelo espetado igual ao sol, do cheiro que você tem bem no
centro da nuca, do gosto amargo de menino que tem pressa de tomar banho
que você tem bem no fundo da orelha. Lembro de você olhando a bunda da
minha amiga e logo depois me dando um abraço forte e dizendo “cadê
mesmo aquela revista que tem um texto lindo seu?”. E lembro da primeira vez
que eu te vi e te achei meio feio, vesgo, estranho. Até que você me
suspendeu no ar por razão nenhuma eu tive certeza que meu filho nasceria
um pouco feio, vesgo e estranho.
E então, no meio da noite, enquanto eu penso tudo isso, eu pergunto ao
mundo todo que não agüenta mais esse assunto. Ao mar, às criancinhas
peladas, aos cartazes de filmes, ao passarinho, à vizinha, aos cachorrinhos
em meditação, à torta, aos carros, à qualquer um...eu pergunto: por que é
que vocês todos estão tão cinza? Por que é que vocês não me ajudam? Por
que é que todos vocês também ficam tão tristes quando ele vai embora? Por
que é que todos vocês também morrem quando ele vai embora? Por que é
que todos vocês também amam ele?

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h25
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Mentir é editar a vida.

De Xico Sá.

No varejo ou no atacado, quase todos nós já fomos ou continuamos incorrigíveis Pinóquios. Pequenas mentiras ou mentiras sinceras sempre nos caem bem como uma calça de tergal de brechó. Não carecemos nem citar aqui a sociologia, as estatísticas ou os grandes cronistas de usos e costumes. Vale lembrar, no  entanto, que a mentira tem pernas curtas sim, mas são lindas e bem torneadas como as das pequenas sereias e outras mulheres lendárias do cinema.

Todos cometemos o pecado ou o deslize da mentira, uma forma talvez de editar, montar nossos próprios filmes, adequar a vida às nossas conveniências. Mas há uma diferença considerável entre homens e mulheres nesse capítulo. Ora, as fêmeas não mentem simplesmente, elas têm o dom de iludir, coisa mais sofisticada, como na canção de Noel Rosa. Os machos, coitados, simplórios, abusam amadoristicamente deste recurso tão natural quanto a água e o óleo de peroba.

É isso mesmo, até os melhores exemplares da raça masculina cometem as suas trapaças, dissimulações, subterfúgios, maquiagens na cara de Mr. Hyde da quase sempre insuportável realidade. Do presidente da corte superior ao trombadinha. A diferença é que uns ainda coram, enquanto outros não estão nem aí para as faces infestadas por bandeirosos cupins.

Todo esse lero-lero tão-somente para dizer que folheei dia desses, na espera do dentista, “101 mentiras que os homens contam _e por que elas acreditam” (ed. Ediouro), da norte-americana Dory Hollander, um clássico da psicologia barata. Aliás, nem no dentista foi, o fato deu-se no consultório do homeopata, quer dizer, no analista, digo, no proctologista...

Minto. Comprei mesmo o livro no sebo, por dever de ofício, e o devorei, olhos de traça. Que mentira que lorota boa, seu escriba de meia tigela, seu Zelig, que fica inventando desculpas para as leituras mais vagabundas.

Dane-se, comprei, folheei, não li direito mas gostei pacas. E quer saber, é um clássico da psicologia popular universal. Está para a fofoca de salão como “A Interpretação dos Sonhos” [de Freud] está para a psicanálise. São frases que podem ser ditas tanto em Manhattan como no sertão do Crato. Dona Hollander fez uma pesquisa séria, DataPinóquio, sobre nossas mentiras e nossas piores promessas.

Vai de um inocente "estou cansado demais" a um irresponsável "eu te amo" _dito na hora errada à mulher errada, no lugar errado”. Começo, meio e fim e a nossa cuca ruim, como na canção do príncipe Ronnie Von. Por que elas acreditam, então? Tentaremos decifrar o enigma no próximo texto. Inté logo mais. 

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h58
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A nova televisão.
De Carlos Castelo.

- Muda de canal, faz o favor.
- Mas por que?
- Nada a ver essa luta, coisa mais chata...
- Pô, mas logo agora que o Pirata colocou o Ogro nas cordas? Logo agora que ele ia fazer farofa da cara do cara?
- Não agüento mais esse tipo de programa. Você fica vendo essa porcaria toda hora. Muda daí.
- Mas pra onde?
- Sei lá, me dá esse controle remoto um pouco.
- Espera, vou colocar num canal de filmes legal, o 147...
- O que será que tem lá, vamos dar uma olhada se...
- Opa, filme inédito! Na verdade, é uma adaptação do “Hair” feita pelo diretor dos filmes do Schwarzenegger.
- Como é que é?
- A crítica está dizendo que ele conseguiu deixar aquele musical hippie chatíssimo com uma ação inacreditável. Vamos ver um pedacinho só, vai?
- Hum. Que horror! O cabeludo pegou uma espingarda e deu um tiro na cabeça da garota! Não, não, não! Tira já daí!
- Posso só ver a cena do músico de country rock que é linchado pelos caras da banda gospel? Tavam dizendo na Ilustrada que é imperdível.
- Não senhor. Me dá esse controle aqui.
- Tá bom, toma.
- ...
- Mas espera aí, programa de receita não, pelo amor de Deus!
- Só que esse do Toby é diferente de tudo, meu amor. Meio que nem eles fizeram com o Hair, sabe? É um programa de receitas de ação!
- Pára tudo! O que o tal do Toby tá fazendo com essa moto-serra na mão?
- Não te falei que era bacana?
- Pô, o cara foi no pasto e arrancou o pescoço do boi! Putz, animal!
- Ele defende um novo tipo de cozinha onde as preliminares do preparo mudam o sabor das coisas.
- Tô vendo. Louco isso, olha lá! O cordeiro sendo metralhado, hahahaha, o Toby detonou o carneirinho! Cara, surreal!
- Muito dez. Ele ganhou o prêmio de melhor programa de culinária da Inglaterra.
- Criativo pra burro.
- Ai, pena que acabou.
- Bota no 101 então.
- O que tem no 101?
- Aquele reality-show novo. Parece que entrou no ar hoje.
- É esse?
- Isso, isso.
- The Giant Dwarfs? Como é que fala?
- Os anões gigantes. Bem diferentão.
- O que eles têm que fazer?
- São duas famílias de naniquinhos. A produção dá um mês pra eles crescerem acima de um metro e setenta.
- E aí?
- Quem chegar na medida primeiro estrela uma mega-produção de cinema com a Pamela Anderson fazendo a Branca de Neve.
- Não gostei não. Vamos trocar de canal?
- Deixa aí um pouco só pra gente ver se algum baixinho se ferra. Deve ser engraçado.
- Não, não. Eu quero ver uma coisa mais light agora. Me perdoa mas vou colocar na minha "TV Senado". Adoro assistir aqueles quebra-paus todos.
- Pô, francamente, briga suja por briga suja eu podia ter continuado vendo a minha luta, né?
- Cala boca que um lobista vai falar! Pega a pipoca, pega a pipoca!

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.
Escrito por Blônicas às 19h13
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Dois e dois.

De Antonio Prata.

Ficar maduro talvez signifique deixar de lado as coisas para as quais a gente não leva jeito e dedicar-se àquelas em que há realmente alguma possibilidade de sucesso. Foi seguindo essa toada que desisti de ser astronauta aos oito, percebi que o futuro não estava no futebol lá pelos doze e perdi as baquetas e a ambição de ser baterista em alguma festa lá pelo terceiro colegial.
Ficar mais maduro talvez signifique retomar essas atividades quando chegamos perto dos trinta -- e nos damos conta de que há muito mais coisas entre o céu e a Terra do que “possibilidade de sucesso”. Foi seguindo essa toada que, na última quarta, com as pernas bambas de alegria e um sorriso juvenil no rosto, contei um, dois, três, quatro e, cercado de outros seis ex-futuros músicos, deixei todas as frustrações explodirem nos pratos, nos três primeiros acordes de Don’t let me down, dos Beatles.
A banda havia surgido uma semana antes, numa mesa de bar: uma dessas idéias que nos ocorrem depois da uma da manhã, quando o superego já está cantando a Jardineira, vestido de Pierrô, lá pros lados do Mandaqui e o saci começa a nos assoprar no ouvido desejos imprudentemente ambiciosos, como a morena da mesa ao lado ou a profissão de Ringo Starr. Como ficar mais maduro também significa perceber que a vida é curta e começar a levar a sério a imprudência, alugamos um estúdio, juntamos o punhado de alegres diletantes que há anos trocaram a alegria das cifras pela busca dos cifrões e, por algumas horas, fomos feliz para sempre.
Quinta-feira próxima virá o segundo ensaio. Nesse exato momento, enquanto ouve a entrevista de um deputado, um repórter de política repassa mentalmente os acordes de Like a rolling stone. Um editor deixa de lado um autor russo do século XIX e assovia Amada Amante. Um poeta abandona a busca pelo oxímoro perfeito que defina o Brasil para decorar a letra de Último Romântico. Uma jornalista de economia interrompe a nota sobre a fusão de dois gigantes do etanol e imagina os movimentos de seu violino em Eleonor Rigby. Uma produtora fecha o Excel e ouve, pela sexta vez no dia, Não vou ficar, em seu I-pod. Um escritor em Santa Cecília confunde as teclas do teclado com as do piano e outro, aqui em Perdizes, julga ouvir um prato toda vez que aperta o enter.
Ficar maduro talvez signifique, entre outras coisas, cantar a sério o que anos atrás só encararíamos sob as grosas malhas da ironia. Tocamos mal, mas somos felizes. Tudo certo – como dois e dois são cinco.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 16h25
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