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Pelo uso de burcas

De Henrique Szklo


Esta semana li uma reportagem que relatava o caso de um hospital na Espanha que estava diminuindo o salário das enfermeiras que se recusavam a usar minissaias. Achei a iniciativa louvável mas, como tudo na vida, há certos casos – raros - em que a lógica da libido masculina não tem lugar.

Nesta situação em particular pensei nas enfermeiras feias. Quem quer que elas usem minissaias? Pelo contrário, vamos tapar tudo isso aí, meu bem. As pessoas em hospitais já passam por sofrimentos demais para ter de suportar mais esta infecção visual. Que me desculpem as feias, mas  esconder a feiura é fundamental.

O hospital espanhol deveria até dar um aumento para os tribufus que usassem roupas cobrindo todo o corpo. Se usassem lençóis sobre as cabeças, apenas com dois buraquinhos para os olhos, ganhariam bônus especiais no fim do ano. Tudo em favor da saúde dos pacientes. As burcas neste contexto seriam uma excelente solução. É apenas uma questão lógica. Se o bonito é para se mostrar, então o que é feio é para se esconder. Chega a ser primário de tão óbvio.

E ampliando o pensamento, o uso desta eficiente vestimenta feminina poderia se alastrar pelos ambientes corporativos. Você no seu trabalho já tem de suportar o chefe escroto, o salário humilhante, um emprego indigno e ainda ficar o tempo todo topando com assombrações vestindo saias, pelo amor de Deus, ninguém merece. Vamos tentar diminuir pelo menos um pouquinho a desgraça de sua vida miserável.

Volto a repetir que não tem nada a ver com machismo, por isso nem passa pela minha cabeça sugerir a não-contratação de mulheres feias. Pelo contrário, as feias geralmente são muito mais eficientes. Só estou pedindo que elas usem burcas para tentar melhorar o ambiente de trabalho. É bom pra todo mundo. E não precisa nem se restringir às burcas utilizadas pelas muçulmanas. Estilistas de prestígio assinariam modelos modernos e deslumbrantes. Uma grife norueguesa acaba de lançar uma coleção super fashion de burcas. Imagine uma burca criada por Alexandre Herschcovitch, não seria bárbaro?

Mas não sejamos egoístas. As vantagens não são só dos outros. A própria usuária terá uma série de benefícios ao usar a burca: economizará tempo e dinheiro, já que não precisará se preocupar com o cabelo, com a maquiagem, nem com aquela barriguinha indecente que as feias costumam ostentar com orgulho. E mais: assédio sexual zero. Sim, porque até as feias são assediadas. A mulher desprovida de qualidades estéticas será livre das imposições desta sociedade cruel e opressora, que impõe às mulheres modelos de beleza difíceis de se atingir.

E dando certo nas empresas, como eu sei que dará, a moda poderá se alastrar pelas ruas, praças, restaurantes, cinemas, teatros, shoppings. Só de pensar me dá uma alegria incomensurável. Que maravilha! Só mulheres bonitas por todos os lados.

E não me venham com falsos moralismos, dizendo que todo mundo tem direitos iguais porque você sabe que isto é uma mentira deslavada e covarde. Ninguém gosta de feiúra. Você não volta de viagem e diz para os amigos “Nossa, conheci um lugar horroroso, deprimente, feio mesmo. Você precisa ir lá conhecer. Quer ver a fotos?”.

Henrique escreve no Blônicas e não acredita em beleza interior.
Visite seu
site, o blog da mãe, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 12h45
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Caipira não, meu.

De Tati Bernardi.

Carioca tem mania de achar que paulista é caipira. Sempre achei tal afirmativa um absurdo até me mudar para o Rio. Descobri que eles estão certos.
Sou a maior prova viva da caipirice paulistana, para comprovar basta me ver passeando pelo calçadão.
Não estou me referindo a minha cor branca ou ao medo que tenho de andar solta numa cidade que não é exatamente a minha. Esses dois estágios estão mais do que superados. Ganhei um pouco de cor e uma certa malandragem para conviver na cidade de cidades misturadas. Preconceitos acalmados, confesso que começo até a gostar dessa vida.
O que estou querendo dizer é que é impossível não ser caipira quando se vê um artista a cada cinco passos. O tempo todo meu cérebro, deslumbrado, avisa: olha lá o barrigão da Camila Pitanga. Olha lá o Wagner Moura de mochila. Olha lá a Marília Gabriela saindo do aeroporto.
Não tem jeito. Arregalo os olhos. Se for mulher reparo logo na bunda, pois fico achando que estrela jamais pode ter uma bunda ruim. E se for gatinho reparo na roupa. Eu sei que deveria ser o contrário, mas antes de ser caipira eu sou estranha, vocês bem sabem.
Quase dou uma de chata sem noção e puxo um papo. Sabia, Marília, que eu tenho um livro publicado e coisa e tal e meu sonho é falar minha frase, meu verso ou o meu ditado de preferência no seu programa? Decoro esse momento no banho todos os dias.
Sabia, Capitão Nascimento, que eu quase tive um orgasmo no cinema quando você gritou “vai ficar todo mundo quietinho aí”. E você, Bebel, sabia que animava, milagrosamente, as minhas noites numa fase que eu andava achando tudo um porre?
Mas não, controlo meus impulsos mais suburbanos e passo reto. Blasé. Como se tivesse cruzado com alguém tão insignificante quanto eu. Caguei pros famosos. Caguei. Meu mais novo mantra para não ser caipira no Rio de Janeiro é “caguei pros famosos”.
Mas a coisa não é tão fácil assim. Escapar de cinco ou seis famosos por dia no calçadão é moleza, difícil é trabalhar no Projac. Imaginem uma praça de alimentação inteira com todas as estrelas da novela das 8. E você lá, sem poder fazer ou falar nada. Sem poder cutucar alguém e falar “a Aline Moraes consegue ser ainda mais bonita na vida real”, tendo que se concentrar em um cardápio com massas e saladas ruins. Sim, a praça de alimentação do Projac é horrível, dá pra acreditar?
Gianecchini de um lado, Alexandre Borges do outro e ele, sim, ele, o maravilhoso Marcos Palmeira. E você calmamente corta seu franguinho grelhado. Fingindo cagar horrores pra essa gente maravilhosa, talentosa, bonita e famosa que, afinal de contas, trabalha no mesmo lugar que você.
Com a diferença que eles são estrelas conhecidas e admiradas no pais inteiro e você apenas uma escritorazinha baba ovo contando grana pra não fechar o mês no vermelho.
Parece uma vida de glamour mas na verdade é puro sofrimento. Se eu fosse brega ou ridícula, soltava logo um grito no meio da praça de alimentação “fudeoooo, puta queu pariu quanta gente famosa poooorra”. Pronto. Soltava o grito. Tirava de dentro do meu peito essa angústia e acabava logo com isso.
Algum segurança me expulsaria da praça de alimentação. E então, da rua, eu ligaria pra todo mundo que eu conheço no mundo, inclusive aquelas amigas que eu não encontro desde o Jardim 3, e contaria artista por artista que vi.
Mentindo alguns só pra dar mais emoção.
Mas não, eu sou a nova roteirista bacaninha, escritora, loirinha, de São Paulo.
Eu sou obrigada a entrar e sair blasé da porra da praça de alimentação. Eu sou obrigada a manter a pose e até mesmo um certo “caguei pra esse povo” em meu andar, na minha fala, nos meus olhos.
E eu estava me saindo muito bem, não fosse o incidente da tarde de hoje.
Depois de meses de bom comportamento, tudo foi por água abaixo.
A caipirice falou mais alto quando encontrei o Marcelo na praia, o psiquiatra psicopata do BBB8. Já que eu não posso gritar para os famosos de verdade, por que não desopilar a alma com um famoso de mentira?
Gritei “Marceeeeeloooooo uhuuuuu” e ele respondeu “oi queridaaaaaaaaa uhhuuuu”. E esse foi, nos últimos meses de Rio de Janeiro, o momento mais brega, mais caipira e mais ridículo que passei. E de longe o mais divertido também.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas, meu!

Escrito por Blônicas às 21h03
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Dasblix-se.

De Antonio Prata.

Lá nos cafundós do universo, a bilhões de anos luz da Terra, fica o planeta Zagplut. Apesar de ser rosa choque e ter chuvas verde limão, Zagplut é muito parecido com nosso planeta. Tem oceanos, montanhas, vales, cachoeiras, plantas e bichos.

Entre os vários animais que povoam sua superfície, uma espécie de bípedes vertebrados se sobressai, por ter adquirido uma estranha qualidade chamada consciência. Os zagplutenses, como se autodenominam esses bípedes, adoram jogos, festas, artes e banquetes, mas ao que eles realmente se dedicam, por toda a vida, é achar um outro zagplutense – ou zagplutensa – para colocar o dedo em seus umbigos, e vice versa. O que acontece é que os umbigos em Zagpult são sensibilíssimos e basta um toque ali para causar arrepios.  Mesmo sozinhos, a qualquer hora do dia, se quiserem ter muito prazer, eles colocam o dedo no centro da barriga e ficam felizes da vida.

A gente imagina, então, que os zagplutenses devem passar o dia inteiro com o dedo no umbigo, né? Não. Curiosamente, os machos não vêem nenhum problema em se tocar, mas quase um terço das fêmeas, como mostrou uma pesquisa do Centro Zagplutense de Questões Umbilicais, nunca havia encostado no próprio umbigo!!! Por que? Botar o dedo no umbigo é perigoso? Nem um pouco. Botar o dedo no umbigo engorda? Nada. É proibido por lei? Dá caspa, mau hálito, olheiras? Nananina. Então, por que é que as fêmeas daquele planeta não se tocam? Vai saber...

Sabe o que é pior? É que como os umbigos, naquela região do cosmos, são muito, mas muito sensíveis, esse toque tem uma certa técnica. As primeiras vezes que os zagplutenses brincam com o próprio corpo (durante aquela fase em que crescem uns fios azuis nos cotovelos dos machos e que ocorre o inchaço nas panturrilhas das fêmeas), não costumam ter prazer. Mas, com o tempo e a prática, vão aprendendo as manhas, até que, no dia em que acham que já é hora de tocar e ser tocada por outro (ou outra), sabem exatamente o que querem e atingem rapidamente o dasblix. Dasblix é o auge do prazer. Dizem que, quando chegam ao dasblix, os zagplutenses dão três cambalhotas no ar, uns gritos que parecem mil sirenes e depois dormem seis semanas. Mesmo assim, um terço das fêmeas de Zagplut continua sem colocar o dedo no próprio umbigo! Ainda bem que, na Terra, ninguém tem esse tipo de problemas, né?

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h35
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Vamos acabar com a sua raça

De Henrique Szklo

A questão racial só existe por uma razão: o ser humano necessita pertencer a um grupo, qualquer que seja ele. O efeito colateral deste regulador social é o desagrado, às vezes desmedido, em relação àqueles que não são da nossa laia, seja ela racial, social, esportiva, cultural, religiosa, tanto faz. A gente não gosta do diferente. E ponto final. Está em nosso DNA, em nossas entranhas. É mais forte que a gente. Os mais civilizados conseguem administrar este desconforto usando argumentos racionais. Para os outros e para si mesmos. Mas, no íntimo, o diferente é e sempre será um incômodo. Mas como justificar esse desagrado? Quando a gente gosta de alguém, tudo é justificado. Quando não gosta, se não encontramos um defeito, inventamos um rapidinho. Na questão racial em particular, o preconceito é justificado por diferenças qualitativas de caráter, de inteligência, de costumes. Só desculpa para poder odiar a vontade sem se sentir injusto e implicante.

A solução de tudo isso pra mim é simples. Obrigar as pessoas a miscigenarem. Criar leis que obriguem os casais a serem interraciais. Em duas ou três gerações as raças diferentes já não existirão mais. Todos seremos mestiços, no bom sentido da palavra. Todos teremos as qualidades e os defeitos de todas as raças. Todo mundo sabe que o vira-lata é muito mais inteligente e resistente fisicamente do que os cachorros de raça. A natureza em toda a sua sapiência programou os animais para evoluirem nas misturas. No lado inverso da moeda, aquelas famílias que promoviam casamentos entre primos para não ampliar demais o espectro familiar (e ter menos gente com quem dividir o dinheiro) são conhecidas como produtoras de debilóides em massa. Várias raças de cães apresentam doenças congênitas provocadas pelo cruzamento irresponsável de indivíduos da mesma família.

O conflito de raças só vai acabar quando as raças acabarem. Podemos fazer isso também com as religiões, com os países, com os times de futebol, com tudo. Mas aí se todo mundo for igual, pensar igual, reagir igual que graça vai ter viver? Nenhuma, claro. Respeitar as diferenças continua sendo a melhor maneira de evoluir. É isso ou pasteurizar a raça humana. O que você prefere?

Henrique escreve no Blônicas e não gosta de se misturar.
Visite seu site, o blog da mãe, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 10h21
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Divagações nada Proustianas acerca do biquíni, peitinhos-pitomba e as boyzinhas do Janga na maresia da existência.

De Xico Sá.

Rapaz de interior, fui conhecer um biquíni, 50, mesmo, de vera, muito tarde. Se até mulher, mulher mesmo, para valer, só descobri já barbado, quanto mais esta minúscula peça que a enfeita. Ora, nos banhos de açude no Sítio das Cobras (Santana do Cariri), as meninas timbungavam de roupa e tudo, brejeiros corazones e biquinhos de peitos, pitombinhas lindas de nada capazes de nos fazer sonhar Amarcords , ah, belos banhos no Penedo, no poço do riacho, na Telha e no marzão de Tatajuba.

No nosso juízo de meninos matutos, que conheciam Copacabana pela televisão preto e branco da praça pública de Nova Olinda, um enigma balançava, qual a obsessão de Brás Cubas, nas nossas cabeças lindas e chatas: como um ser humano nas condições normais de testosterona e desejos qualhados no juízo pode ver uma coisa daquelas, sim, uma mulher naqueles trajes tão econômicos, e não se armar todinho, num passar vexame diante dos outros, em plena areia de uma praia de cidade grande?

Era impossível para nós, amigos e primos que nos divertíamos com burras, jegas, bananeiras e  cabritas, que um homem pudesse segurar a onda diante daquelas gostosas com peças tão mínimas.

A primeira vez que vi um biquíni, essa mística peça que ora completa mais de cinquent´anos, foi no Treze, um clube de Juazeiro, onde penetrávamos escondidos, pulando o muro. Tinha eu uns 12 recém-completos. Aquilo foi motivo para que minhas mãos ficassem mais peludas do que as de Monga, as de King Kong, todas as mãos possíveis do Planeta dos Macacos. Depois vi outros no Caldas, balneário de Barbalha, e quando dei fé, minhas primas do Crato, minhas paixões de férias, lá já estavam biquinizadas também... Maryanne, meus Deus, como era perfeitinha dentro de biquíni azul marinho.

Depois... ah, depois foi só safadeza. Do Cariri ao Recife foi um pulo. Mas que mau gosto aqueles biquínis fios dentais, aqueles biquínis asa deltas, lembram? Ah, mas tudo bem, como cantava Luiz Gonzaga à época, “deixa a tanga voar, á á á á...”

Corta para a praia do Janga, onde um dia quero reinar barbado, vara de pescar na mão, como um Hemingway lesado e decadente, uma boyzinha em cada perna, outra boiando nos meus mares nunca dantes, mais uma tirando a areinha do biquíni, eta que a maré levou o biquíni da mais santa da área, eu só vou sair daqui, Zero Quatro, quando ela sair da água, a danada cobre as vergonhas com as mãos como se tivesse tentáculos de um polvo, mais uma cachaça, caldinho de sururu, um balde de ostra, sim, ostra de Itapissuma, as melhores da costa caliente, um real a dúzia, com tudo que tem direito, limão, sal, cominho, azeite, faz favor, mais uma, no capricho, pois esses beijos salgados me deixam mais hipertenso, passado, leso e futuro não-sabido, vai lá, pirraia, aproveita que tu tá em pé e me vê mais uma cerva,  agora acende mais um, de Cabrobó, Francisco de Assis França, pra gente tirar onda, pra boyzinha ficar fodendo melhor!

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h40
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Pagando mico.

De Leo Jaime.

O primeiro baralho em que coloquei as mãos não tinha números, tinha bichos.
O jogo era o seguinte: cada bicho tinha um um par, uma espécie de arca de Noé; as cartas eram distribuídas e os jogadores formavam os pares com as que estavam nas mãos, retirando-as do jogo; trocavam as restantes, comprando das mãos do jogador seguinte. Formando-se mais um casal, este era, também, retirado. Uma das cartas não tinha par. Uma única. Um pobre e solitário bichinho. O objetivo era esse: não terminar com essa carta nas mãos quando todos os pares estivessem formados. Esse pobre animal, escolhido para a solidão eterna dos indesejáveis, chamava-se: Mico Preto. Era esse o nome do jogo.

Talvez o jogo não mais exista. Vai ver as crianças nem brincam mais com coisas que não estejam ligadas em tomadas. A figura patética e assustadora deste mico, no entanto, como se numa vingança ancestral e furiosa, nos sobrevoa em forma de maldição. Não o medo da solidão. Este é um inimigo íntimo, assíduo e familiar como móveis e utensílios. Pagar mico, esse é o problema, esse é o terror. Ficar com o mico preto existencial nas mãos, em meio a um mundo de pares. Ser diferente do padrão, um aleijão, um dejeto industrial, isso é que é a condenação total. Hordas de pares. Zilhões de gêmeos do admirável mundo louco, sequiosos de identidade e padronização apontarão os dedos indicadores. O mico preto é um anátema. Primeiro escrevi anátema e depois fui conferir no dicionário. É isso mesmo: um anátema. Veja lá você!

Como ia dizendo, o mico preto é um fenômeno mais aterrorizante que o do medo da solidão. Este é o medo que ocorre a um indivíduo. O medo de pagar mico é o medo de ser um indivíduo, uma vez que o indivíduo se afirma em suas diferenças e peculiaridades. O indivíduo sai da barriga da mãe e daí pra frente, a cada dia, se afasta um pouco mais daquele corpo, se individuando, diferenciando, particularizando. O medo da solidão é tão inerente quanto a morte.O medo de pagar mico é a própria morte. O problema é que quem sofre deste mal - e muita gente sofre - nem faz idéia de que ele exista. A solidão há de ser um mal ulterior, para quando se estiver livre, se isso acontecer, do novíssimo pecado original. O pecado de ser original. Mas, afinal, que diabos será isso: pagar um mico? E qual a razão de isto parecer tão grave?
Estou chegando lá.

Sinal dos tempos. Está nas ruas, no jeito em que a sociedade se articula na época presente. O que é comum ocupa o lugar do normal. Tomo por normal aquilo que, sem moralismo, estará dentro dos limites razoáveis do saudável.
O "normal" teria uma abrangência que o "comum" já não terá. Este é um traço forte da juventude dos anos 90. Me arrisco a afirmar que é a mais definitiva cicatriz desta juventude. Padronizações, movimentos, ondas, tudo isto é do arco da velha; a homogeneização que agora se estabelece é que é o fato novo.
Nunca se viu tanta conformidade! Nunca! O mico tem muito a ver com isso. O mico está na aorta disto.

Será que alguém gosta de música techno? Digo, gostar: ficar em casa ouvindo com a capa na mão, tentando beber um pouco mais daquele universo, ver as fotos de quem fez, os nomes, ler as letras e se deixar levar. Ora, a música techno não tem fotos, nem letras e nem nomes! E ninguém gosta, apenas absorve. Adapta-se à ela, como quem compra um apartamento ao lado do aeroporto e se esquece do barulho. É uma coisa que não se escolhe! Faz parte do pacote.

Será que alguém acha realmente importante, lá no fundo de sua alma, se parecer com o "Chuartizeneguer" ? Será que as meninas querem mesmo ser esqueléticas? Será que os homens preferem mesmo as mulheres esquálidas?
Quem, em nome de Deus, inventa estes padrões? Como será que se institui o normal como aberração e se industrializa, pasteuriza e uniformiza o modelo a ser seguido? Veja só: o modelo não é acessível e natural. Há que ter o dedo da indústria em qualquer caminho que se escolha. O corpo marombado não pretende ser diferente. A uniformização é o objetivo. A academia, e uma série de outros artigos de consumo, são o intermédio; e a música techno, o simulacro sonoro compatível e relato. O tchi-bum-tchi-bum é uma necessidade mercadológica. Já pensou uma academia em que um pedisse:-" Põe aí o segundo do Bob Dylan!" Enquanto um outro retrucava:-"Mas e o Réquiem do Mozart que eu já pedi há meia hora?!" , enquanto o professor, tentando apaziguar os ânimos, colocava a Carolina do Chico Buarque para score de pedaladas e supinos. Só em sonho! .

A maioria das meninas da atualidade não gosta do próprio corpo. Compara com os que viu nas revistas e se acha gorda. As modelos das revistas são, em geral, meninas de traços clássicos e pinta de doente. Às vezes são mesmo!
Anoréticas.

É curioso. Hoje em dia há mais gente acima do peso que a 30 anos. As roupas - hoje, na quase totalidade, industrializadas - são feitas para gente mais magra que as de 30 anos atrás.

Estabelecer um padrão que seja diferente do popular, daquilo que poderíamos chamar de normal, é o incisivo e genial instrumento de criação das necessidades supérfluas. Um ser repleto destas necessidades tem medo de pagar mico. Estamos nos transformando num país de suecas de farmácia. Nossas mulheres são fantásticas como são: baixas e bundudas. E agora andam querendo, às custas de cirurgias e despachos, ter 1,80 m. e peitões.
Palitos? É ruço!

Os cabelos compridos nos anos 60 se conectavam com a guerra do Vietname.
Eram o "não-ao-exército-americano" nas cabeças da juventude: um grito de guerra. Hoje as coisas não precisam vir acompanhadas de um significado. Um cabelo comprido é uma marca, um estilo. Todos tem que ter uma marca e ela não precisa significar nada. Os pichadores exemplificam isso. Os jogadores de futebol inventam um jeito de comemorar gols, a fim de que isso vire uma marca pessoal.O que se quer é fazer parte de algo grande. Ser de algum segmento. Frequentar um clube que responda por si. Ser original é pagar mico. Ser um indivíduo é pagar mico. É muito melhor ser um conglomerado! Uma incorporação! Uma multinacional em forma de pessoa-física. É o marketing individual levado às últimas consequências.

Hoje o artesanal não faz mais sucesso. Vi na praia uma menina com o símbolo da Adidas tatuado nas costas. Associa-se, hoje, a marca desta empresa ao homossexualismo e a um estilo de vida que inclui ginástica, boate e moda.

Não há mais uma logomarca, há um ícone. Eu o apelido de mundo mix. O industrial está glorificado e o artesanal é mico. Pode-se, até, ser exótico; por uns 5 minutos e babau. O Brasil tenta se inserir no mercado cultural globalizado pelo viés do exótico erótico, mas isso são outros quinhentos. O mundo mudou e o brega é mainstream. Hoje ele não mais se acanha por isso. O brega, por mais anacrônico que isto possa parecer, é arrogante.

Segue abaixo...

Escrito por Blônicas às 11h36
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Um quadro não terá mais o valor de um quadro. Van Goghs serão transformados em toalhas de mesa. Gostarão da ilustração, mas nem por isso a pendurarão na parede. A arte não será mais reconhecida como tal. O diálogo com a existência some quando a subjetividade se esvanece. O espírito não se expressará numa coreografia de aeróbica ou baticum de boate. Quando se escolhe ser parecido aos demais, ser mais um tijolo no muro, deixa-se pra lá todo e qualquer traço de subjetividade, de senso crítico e inconformidade.
Milhões se unem a um Edir Macedo, a uma Amway, ao mundo mix, e passam a transitar como figurantes em suas próprias vidas, sob a égide de algum segmento de Deus com CGC e marca fantasia. Os selvagens não são mais aquela coca-cola toda. Os selvagens , tal como Aldous Huxley os imaginava, foram conduzidos ao ridículo. Isso fica muito longe. Duas esquinas abaixo do risível.

Não acredito que tudo saia de uma planilha industrial. Todo esse estratagema não se estabelece com o lançamento de uma cartilha. Há uma questão existencial permeando. A menina gorda que compra o vestidinho curto e sai por aí, embalada a vácuo, sabe que aquela roupa, para si, não é a ideal. O garoto que resolve virar um gibi, muita figura e pouco texto, investe todas as fichas no projeto de parecer mau, rebelde, competitivo, sei lá! E é uma vaca de presépio, fazendo tudo o que seu mestre - a opinião alheia - mandar.

O inferno são os olhos dos outros. Algum prêmio nobel falou isso e eu incluo neste parágrafo. As questões morais, humanas, estão todas por um fio. As meninas, quando resolvem dançar como go-go girls, com um shortinho (ficaria melhor xortinho) enfiado na bunda, se apresentando como mulheres-objetos, não temem a solidão que a esta categoria se reserva. Sabem que a competição é forte e meramente física, a apelação é geral. Olham em volta e, como está todo mundo fazendo, nem hesitam. Um dia não havia ainda o todo mundo fazendo. E isso já estava lá, na essência, potencial. A preguiça milenar para as questões humanas se apresenta na hora em que a convidam para um cineminha e ela responde: - " É daqueles filmes que tem que pensar?".
Segurar o tchan é, além de tudo, uma redenção. Não se fazem mais chacretes como antigamente. O erotismo foi para a casa do caralho, com o perdão da expressão.

Este jogo tem papéis muito definidos, como se vê. Os moderninhos são uma pseudo-vanguarda, estabelecendo novos padrões de conduta, no que tange exclusivamente à forma. O Œmundo mix é a transgressividade padrão. O futuro em edição matutina, engarrafado no Brasil mas com o produto industrial internacional intacto por dentro. Paraguaio legítimo. O que se vê em Nova York ou Londres e que leva a fama de novidade, será visto em três anos nas ruas das capitais brasileiras e em cinco nas das cidades de interior. Agora, com a TV a cabo e tudo o mais, estes prazos se encurtarão. É pule de dez como esses transgressivos serão absolutamente obedientes ao modelo importado. Ao padrão de transgressividade aprendido nos ghetos, clubs e matrizes deste segmento. Copiar é a palavra chave para quem não quer pagar mico. Clonar, seria, talvez, mais updated.

Outros segmentos tomam o mesmo caminho. A existência de vários deles - cada um com sua linguagem, e cada uma destas linguagens com poucas possibilidades, além de incompatíveis com as demais - é o organizador da prosperidade de um mesmo modelo em formatos, cores e edições diferentes.É como lançar várias marcas de cigarro e convencer o comprador de que existe alguma diferença moral e intelectual entre quem fuma uma ou outra. Os segmentos se estabelecem através dos clichês que o definem. Pagar mico é fazer algo que não seja clichê; negando, assim, o próprio segmento e ferindo o código que possibilita sua existência.

Todos estes estilos de vida são novos e as pessoas que dele compartilham também o fazem há pouco. Parecer que sempre se foi daquele jeito é um outro artifício. Inventar um passado virtual, que não será checado nem em hipótese, um "esse sempre foi o meu jeito" , com todos compartilhando do mesmo e secreto equívoco, é uma possibilidade. Como dizia o poeta: um museu de velhas novidades.

O que será uma banda de "Skate Music" ? Um grupo que batuca nos skates? Que produz música com o rolar de suas rodas? Um conjunto formado por praticantes fanáticos? Nada disso. É só um outro segmento, música industrial para consumo jovem. Parece com rock mas não há nesta forma a canção rock, com suas origens e sua inserção pop na cultura internacional. Há uma instrumentação específica, que produz um padrão sonoro específico e que foi associado, sem alguma necessária afinidade, ao esporte. Se é que skate é esporte! Para mim é apenas um brinquedo. Como o pião e o patinete. Pois há uma música para o "estilo de vida" skate. E isso é muito diferente de haver uma canção sobre peões e patinetes. Não há nas letras, também, nenhuma alusão necessária. As letras, como todas as outras produzidas em escala industrial, dizem o que já foi dito: generalidades. As associações não obedecem a nenhum critério lógico. São apenas a necessidade de formular novos formatos com elementos já experimentados, diluídos e inofensivos. Há esta cultura skate, e isso é a única coisa que se pode dizer dela. Ah, nessa alguém ganha dinheiro. Isso também.

Vejo uma turma de garotões do morro brincando na praia. Algumas semelhanças nas condições de vida já proporcionam um tipo físico bastante homogêneo. As indefectíveis bermudas pretas, largas, até o meio da canela e que permitem a exposição sumária de metade do rego da bunda - proponho aqui apelidar essa peça de Œregão - ajudam a tornar a semelhança física mais evidente. São uniformes em gênero, número e grau. O mesmo par de óculos, as mesmas cambalhotas ao entrar na água, e só entram na água dando um salto mortal!
Andam em bandos. Dez, vinte, cinquenta. Meninas, se quiserem, podem até ir à praia com eles, desde que não fiquem perto. Eles reforçam sempre a possibilidades espectral do arrastão. Querem meter medo. Mulheres atrapalham.

Uma vez vi, em meio a uma destas turmas, um garoto que, a despeito do visual clonado, era nitidamente uma menina. Estava com as meninas, se comportava como elas e não se aproximava do mundo masculino e suas cambalhotas. Dentro daquela possibilidade binária de existência ele optara pelo lado cor-de-rosa da vida. Passava desapercebido ao olhar mais displicente; era uma menina, uma bichinha, uma caricatura como as outras. Percebi que as meninas também eram caricaturas do feminino. Havia aqui e ali um tipo meio diferente. Um cabelo pintado de branco (porquê não de ruivo, roxo, azul?), um mais gordinho, outro menos magricela. Entre as meninas as diferenças também eram mínimas. O mesmo jeito de vestir e andar, sempre buscando uma espécie de aprovação erótica: tudo muito justo, muita coisa pra fora, muito sex-appeal fajuto, de calçada. Aquele modelo que a nossa música popular parece ter descoberto e esparramado como padrão de sensualidade. Me recordo de uma coleção de discos populares dos anos setenta.

Chamava-se: Samba, suor e ouriço. Diziam que vendia. Na capa, uma morenaça caracú. Devo explicações: uma dessas morenas bundudas que mostram, em todas as fotos que fazem, até nas 3x4, a cara e o cu. A morena em questão não tinha nome a zelar. Não virava namorada de piloto, não ganhava programa de televisão, não aparecia no chacrinha nem nada. Era apenas a morena caracú, com seu sorriso carnavalesco e a bunda como comissão de frente. Abro um parênteses para incluir aqui a nossa querida Rita Cadillac que declarou desejar ser velada de bruços, para que possam reconhecê-la. Isso é uma chacrete! Fecho o parênteses. Essas meninas marcaram época. Não imaginavam que seriam o protótipo feminino de parte da geração que hoje circula por aí.
Comportamentos esdrúxulos não representam originalidade. A falta de senso crítico é a bandeira de que a aceitação pelo próprio grupo, custe o que custar, ainda que isso venha a ferir qualquer noção mais íntima de ridículo, é o fator primordial na formação, senão do caráter, do papel social. E tome de figurinhas repetidas.

Do morro para o Fashion Mall. Virou notícia uma turma de meninas e meninos, com média de idade por volta dos doze anos, que circulam por aquele shopping. Lá é o ponto de encontro. Mas, o leitor indagará: -² Todo shopping é ponto de encontro para a garotada!². Ainda que seja outra coisa discutível, essa mania de se reunir em shoppings - lugares sem janelas, onde qualquer tênis mais sujo faz o cidadão parecer um mendigo - tenho que
concordar: é lá que o pessoal mais tenro se reune. Óbvio que a categoria anterior está definitivamente excluída. Não entrará em um shopping nem para trabalhar. Vá lá, uma faxina, um bico como segurança, talvez.Voltando ao Fashion Mall e aos que lá frequentam. Que sejam mais habituados ao artificial (industrial) que ao natural (artesanal), também faz mais sentido, quando escolhem um espaço assim para fazer a social. Este mall, entretanto, tem suas particularidades. É lá que frequentam os grã-finos em miniatura.
Tava lá na revista, dissecada e decupada, uma menina de 13 anos. Tinha por sobre o corpo, materializados em griffes e adornos, uns R$1700,00. Isso são uns quinze salários mínimos investidos na indumentária de uma garota pré-adolescente que vai chupar um picolé com as amiguinhas. Ora, gente rica sempre houve, futilidade também. Mas não se começava a ser madame aos 11, isso não! Durante a maior parte deste século foi comum a caricatura da mulher empertigada e fresca ao lado do gordão de cartola e charuto como o casal de ricos babacas. Em qualquer desenho animado ou filme dos três patetas se encontram estes personagens. Ainda não vi um garoto de 13 fumando charuto, dentro de uma calorenta cartola, neste meu Rio de Janeiro. mas não me assustarei se, por esses dias, um me aparecer ao cruzar uma esquina. Num shopping, digo.

Vá a esse shopping e veja. Passam famílias inteiras pra lá e pra cá, matutando o que vão comprar em seguida. Há neles um detalhe interessante. As meninas de 13 usam as mesmas coisas que a mãe, que por sua vez troca uns modelinhos com a própria mãe. A vó, a mãe, a neta e a irmã mais nova da neta, bebezinha ainda, estarão acordadas no jeito de vestir e nos produtos que consomem. Marcas famosas, algo que lhes emprestem um ar sofisticado. Não aquela sofisticação das melodias de Tom Jobim ou das frases de Oscar Wilde.
Me refiro àquela dos filmes e desenhos. Os meninos andam igual aos irmãos adolescentes, que usam a mesma camisa quadriculada-com-botão-na-gola que o pai, que usa o mesmo sapato "dockside" ou topsider, sei lá, que o avô, que está com a mesma calça jeans do bisavô. Quando digo igual é igual mesmo, e não parecido. Visto que a menina foi vestida pela mãe, que concordou em prepará-la para o picolé com tanto esmero e requinte, vamos observar o que ela pensa disto: de ser a barbie da mamãe. Ela acha isso chato? Acha isso um excesso? Preferia que a mãe não se metesse nas coisas dela? Errado! Cem milhões de vezes não! Ela acha que não é mais do que a obrigação da mãe ajudá-la a não fazer feio diante das amigas. Ora, ela também faz isto pela mãe! Já pensou, andar com um telefone celular dentro da bolsa Luis Vuiton, que não seja do último tipo? Que coisa mais embaraçosa! Não ter aquela profusão de anéis e brincos do Antonio Bernardo? e andar como, pelada? Jóias da H. Stern? Só se for para virar o assunto da semana e perder todas as amigas. O mico foi uma invenção desta turma. Até co o ficar parada, a pose, o jeito de parar o pé e mexer as mãos, enquanto bate aquele papo furado característico da idade, tem que ser estudado, debatido e aprovado pelo grupo. Senão é bola preta, e nada pode ser mais vergonhoso. Dostoiévsky precisava ver isso.

Uma vez que tudo é tão acessível, que os elementos de "distinção" compráveis estão ao alcance dos cheques, fica a questão do detalhe. O problema do novo rico é esse: o que fazer com o dinheiro? O que comprar, aonde ir, onde andar, a quem querer? Do mesmo jeito que a intelectualidade brasileira fica de olho em Caetano Veloso - pra ver se ele aplaude uma coisa, para só depois dizerem em coro o "ge-ni-al", com o mesmo sotaque baiano - essas meninas ficam olhando umas nas sacolas das outras, patrulhando o que as outras compraram. O que ninguém mais comprou elas não usam e ponto final.

O mico preto também vai ao motel. Tanto aos da Av. Brasil quanto aos de São Conrado. E é nessa área que ele exerce sua função mais cruel. Na relação entre adolescentes inseguros e sua sexualidade. O medo de ser ou fazer algo que não esteja no figurino se esbarra com o problema de ninguém saber, ao certo, o que manda o figurino. Há os filmes eróticos, que assim como as novas chacretes de Fausto Silva, não guardam mais erotismo que uma máquina de lavar louça. Há as cenas picantes das novelas e filmes, que orientam quais as caras que se deve fazer e o texto adjacente. A conversa com as mães, até mesmo com os pais, sempre lateral e eufemística, não será tão elucidadora assim e o mico, o medo de ficar com alguma fama, não importa qual o estigma, induz à tentativa de estabelecer um meio termo, passar rápido sobre o tema, sobre a cena, de forma a não atrair muita atenção.
Vergonha. Vergonha de ter desejo, de dar vazão a esse desejo improvisando, descobrindo, sem julgamentos anteriores.

O resultado é que trepa-se pouco, com muitos e sempre mal. Meninas acabam buscando em outras meninas a intimidade que com garotos parece impossível.
Meninos procuram nas putas o que viram nos filmes e não encontraram nas meninas por quem andaram se apaixonando. A ausência de subjetividade e repertório linguístico para as nuances do prazer e dos sentimentos torna tudo branco e preto, bobo, chato. Daí fica-se. Fica-se muito, de qualquer jeito, com qualquer um. Vá a um show no Metropolitan, num desses públicos adolescentes. No meio daquela balbúrdia toda dois estranhos se encontram, ficam ali pertinho um do outro, dançandinho, e de repente começam a se atracar com uma fúria de náufragos, quase engolem as amígdalas uns dos outros e, sem mais nem menos, partem para outra. A próxima pode ser melhor.
Há o desejo e o medo da intimidade num combate violento e então fica-se.

Ficar não inclui, necessariamente, conversar. Por isso é bom. E desde que não se engatem aparelhos, pouca coisa de reprovável pode acontecer num beijo. E beija-se. Tirar a roupa, mostrar as imperfeições, mesmo que existam apenas na própria cabeça, seria muito mais desconfortável. O amor possibilita muitas coisas, orienta muito bem essas nossas investidas no mundo dos prazeres. Ama-se muito pouco. Na maior parte do tempo, acha-se maneiro. Achar maneiro é o que se pode ter de conceito positivo sobre alguém. Amar, é algo que só meninas fazem, e mesmo assim, por coisas ou cachorros.

Elas amam um vestido, o cachorro, o restaurante tal; os meninos são maneiros. Os meninos acham tudo sinistro. Morreu o pai: -"Sinistro". A gostosona deu mole: - "sinistro". O Flamengo ganhou:- "sinistro". O Flamengo perdeu: "Pô, aí, sinistro".

Pô, aí, sinistro!

Leo Jaime é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 11h35
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Eu faço parte.

De Lu Paiva.

Barriga definida em 5 dias treinando com AB Swing e bunda sem celulite, usando bermuda cibernética criada sob estudos da biocerâmica que emite luz milagrosa invisível.
Emagrecerei 20 quilos em um mês tomando sopa de água suja com uns pedaços de borracha, que dizem ser frango.
Para ficar rica em poucos dias produzirei bijuterias. Um curso rápido que promete emitir sinais de fortuna imediata. Como não pensei nisso antes?
Com o dinheiro que eu ganhar, comprarei três George Foreman Grill Super Jumbo para manter uma dieta saudável e sete carros de concessionárias animadas e bacanas em que todos os vendedores dão soquinhos de vitória no ar. Todos pagos em 80 suaves prestações com 10% de juros ao mês.
Não posso emburrecer. Preciso ler, preciso estudar, preciso ficar por dentro. Para isso, já adquiri minha coleção de revistas sobre atualidades que falam da vida de todo mundo para que na vida deles eu possa basear a minha. Parâmetro, sabe? Várias dicas de moda e comportamento. Um monte de gente perfeita e sem rugas que só faz coisas legais e que não liga de contar para todo mundo. Gente fina!  Freqüentarei os mesmos lugares modernos, farei as mesmas poses, usarei os cinco caminhos do horóscopo para controlar minha raiva.
Como eles, quero contar pra todos meus super amigos sobre todas as vezes que eu for viajar, cada vez que trocar de namorado ou ficar bêbada. Quero contar também sobre os chocolates que eu como e quantas vezes eu faço isso por dia. Não me chame pelo meu nome, o legal é ser VIP. Não me chame de filha, intitulei-me herdeira.
O que mais? Ah! Vou divulgar todos os meus horários, todas as frases que eu disser, quanto tempo fiquei tomando sol na laje da minha casa e, para não ter mais problemas com os homens da minha vida, vou seguir o manual do que eles gostam de ver ou ouvir, e antes de assumir que estou dando para alguns deles, vou jurar até o último minuto que somos só amigos.
Seguirei à risca o manual para ficar linda, o manual para cabelos rebeldes, o manual de etiqueta para festas de casamento, festas de 15 anos e primeiros encontros, manual para não cair de salto alto, o manual de como tomar banho e o manual de como pensar. Ficarei tão perfeita quanto todos os bacanas e rezarei para virar referência de estilo, seja lá o que isso for.
Seguirei todas as tendências de outono/inverso, seja lá o que isso for também. Se for moda-figurino-de-novela, melhor ainda, mesmo que eu fique ridícula, pois o que importa é fazer parte.
Vou prender meu cabelo de ladinho com um girassol de 15 centímetros de diâmetro porque as “big-brother-girls” usam o cabelo assim. Toda foto que tirarem de mim pedirei um ventilador gigante virado para minha cara, assim meus cabelos sairão esvoaçantes. Sem esquecer o rosto um pouco inclinado, o quadril de lado e a luz direta, nada de luz vindo de cima ou de lado. Isso tudo eu também já aprendi.
Para me divertir, pagarei. sem problemas. 90 reais para passar 5 horas em baladinhas em que o único intuito é falar com voz anasalada como todo mundo, segurar o copo com uma mão e chacoalhar a outra como todo mundo, dançar balançando a cabeça pra direita e para a esquerda como todo mundo, rir escandalosamente e colocar a mão no ombro da outra pessoa enquanto falo para mostrar o quanto me simpatizo com ela, como todo mundo.
Para quê me esforçar tanto para ser um ser humano com mentalidade um milésimo acima da mediocridade, se tudo está a um controle remoto ou a uma revista de distância? Seria perda de tempo.

Lu Paiva é leitora do Blônicas, participou do livro de crônicas "Soltando o Verbo" e escreve no blog http://naosoulouca.zip.net

Escrito por Blônicas às 18h34
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Enriqueça sua cultura geral.

De Edson Aran.

E agora algo completamente diferente:

• Nenhum habitante do Egito Antigo chamava sua terra de Egito Antigo


• Um samurai é muito diferente de um samovar


• Édipo foi o vencedor das Para-Olimpíadas de Tebas em 429 A.C.


• A gigantesca lagosta azul da Nova Zelândia nasceu em Carapicuíba, São Paulo


• Durante a Inquisição Espanhola, os fósforos custavam uma fortuna


• Ingmar Bergman e Ingrid Bergman não eram a mesma pessoa. Peter O’Toole e Vanessa Redgrave são


• Os primeiros aviões de Santos Dumont chamavam Demoiselle, Pinta e Nina


• Vincent Van Gogh não ouvia nada que Marcel Marceau falava


• Ao contrário de Oscar Niemeyer, Ramsés II só virou múmia depois de morto

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h04
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