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Pelo uso de burcas
De Henrique Szklo Esta semana li uma reportagem que relatava o caso de um hospital na Espanha que estava diminuindo o salário das enfermeiras que se recusavam a usar minissaias. Achei a iniciativa louvável mas, como tudo na vida, há certos casos – raros - em que a lógica da libido masculina não tem lugar. Nesta situação em particular pensei nas enfermeiras feias. Quem quer que elas usem minissaias? Pelo contrário, vamos tapar tudo isso aí, meu bem. As pessoas em hospitais já passam por sofrimentos demais para ter de suportar mais esta infecção visual. Que me desculpem as feias, mas esconder a feiura é fundamental. O hospital espanhol deveria até dar um aumento para os tribufus que usassem roupas cobrindo todo o corpo. Se usassem lençóis sobre as cabeças, apenas com dois buraquinhos para os olhos, ganhariam bônus especiais no fim do ano. Tudo em favor da saúde dos pacientes. As burcas neste contexto seriam uma excelente solução. É apenas uma questão lógica. Se o bonito é para se mostrar, então o que é feio é para se esconder. Chega a ser primário de tão óbvio. E ampliando o pensamento, o uso desta eficiente vestimenta feminina poderia se alastrar pelos ambientes corporativos. Você no seu trabalho já tem de suportar o chefe escroto, o salário humilhante, um emprego indigno e ainda ficar o tempo todo topando com assombrações vestindo saias, pelo amor de Deus, ninguém merece. Vamos tentar diminuir pelo menos um pouquinho a desgraça de sua vida miserável. Volto a repetir que não tem nada a ver com machismo, por isso nem passa pela minha cabeça sugerir a não-contratação de mulheres feias. Pelo contrário, as feias geralmente são muito mais eficientes. Só estou pedindo que elas usem burcas para tentar melhorar o ambiente de trabalho. É bom pra todo mundo. E não precisa nem se restringir às burcas utilizadas pelas muçulmanas. Estilistas de prestígio assinariam modelos modernos e deslumbrantes. Uma grife norueguesa acaba de lançar uma coleção super fashion de burcas. Imagine uma burca criada por Alexandre Herschcovitch, não seria bárbaro? Mas não sejamos egoístas. As vantagens não são só dos outros. A própria usuária terá uma série de benefícios ao usar a burca: economizará tempo e dinheiro, já que não precisará se preocupar com o cabelo, com a maquiagem, nem com aquela barriguinha indecente que as feias costumam ostentar com orgulho. E mais: assédio sexual zero. Sim, porque até as feias são assediadas. A mulher desprovida de qualidades estéticas será livre das imposições desta sociedade cruel e opressora, que impõe às mulheres modelos de beleza difíceis de se atingir. E dando certo nas empresas, como eu sei que dará, a moda poderá se alastrar pelas ruas, praças, restaurantes, cinemas, teatros, shoppings. Só de pensar me dá uma alegria incomensurável. Que maravilha! Só mulheres bonitas por todos os lados. E não me venham com falsos moralismos, dizendo que todo mundo tem direitos iguais porque você sabe que isto é uma mentira deslavada e covarde. Ninguém gosta de feiúra. Você não volta de viagem e diz para os amigos “Nossa, conheci um lugar horroroso, deprimente, feio mesmo. Você precisa ir lá conhecer. Quer ver a fotos?”. Henrique escreve no Blônicas e não acredita em beleza interior. Caipira não, meu.
De Tati Bernardi. Carioca tem mania de achar que paulista é caipira. Sempre achei tal afirmativa um absurdo até me mudar para o Rio. Descobri que eles estão certos. Tati Bernardi é cronista do Blônicas, meu! Dasblix-se.
De Antonio Prata. Lá nos cafundós do universo, a bilhões de anos luz da Terra, fica o planeta Zagplut. Apesar de ser rosa choque e ter chuvas verde limão, Zagplut é muito parecido com nosso planeta. Tem oceanos, montanhas, vales, cachoeiras, plantas e bichos. Entre os vários animais que povoam sua superfície, uma espécie de bípedes vertebrados se sobressai, por ter adquirido uma estranha qualidade chamada consciência. Os zagplutenses, como se autodenominam esses bípedes, adoram jogos, festas, artes e banquetes, mas ao que eles realmente se dedicam, por toda a vida, é achar um outro zagplutense – ou zagplutensa – para colocar o dedo em seus umbigos, e vice versa. O que acontece é que os umbigos em Zagpult são sensibilíssimos e basta um toque ali para causar arrepios. Mesmo sozinhos, a qualquer hora do dia, se quiserem ter muito prazer, eles colocam o dedo no centro da barriga e ficam felizes da vida. A gente imagina, então, que os zagplutenses devem passar o dia inteiro com o dedo no umbigo, né? Não. Curiosamente, os machos não vêem nenhum problema em se tocar, mas quase um terço das fêmeas, como mostrou uma pesquisa do Centro Zagplutense de Questões Umbilicais, nunca havia encostado no próprio umbigo!!! Por que? Botar o dedo no umbigo é perigoso? Nem um pouco. Botar o dedo no umbigo engorda? Nada. É proibido por lei? Dá caspa, mau hálito, olheiras? Nananina. Então, por que é que as fêmeas daquele planeta não se tocam? Vai saber... Sabe o que é pior? É que como os umbigos, naquela região do cosmos, são muito, mas muito sensíveis, esse toque tem uma certa técnica. As primeiras vezes que os zagplutenses brincam com o próprio corpo (durante aquela fase em que crescem uns fios azuis nos cotovelos dos machos e que ocorre o inchaço nas panturrilhas das fêmeas), não costumam ter prazer. Mas, com o tempo e a prática, vão aprendendo as manhas, até que, no dia em que acham que já é hora de tocar e ser tocada por outro (ou outra), sabem exatamente o que querem e atingem rapidamente o dasblix. Dasblix é o auge do prazer. Dizem que, quando chegam ao dasblix, os zagplutenses dão três cambalhotas no ar, uns gritos que parecem mil sirenes e depois dormem seis semanas. Mesmo assim, um terço das fêmeas de Zagplut continua sem colocar o dedo no próprio umbigo! Ainda bem que, na Terra, ninguém tem esse tipo de problemas, né? Antonio Prata é cronista do Blônicas. Vamos acabar com a sua raça
De Henrique Szklo A solução de tudo isso pra mim é simples. Obrigar as pessoas a miscigenarem. Criar leis que obriguem os casais a serem interraciais. Em duas ou três gerações as raças diferentes já não existirão mais. Todos seremos mestiços, no bom sentido da palavra. Todos teremos as qualidades e os defeitos de todas as raças. Todo mundo sabe que o vira-lata é muito mais inteligente e resistente fisicamente do que os cachorros de raça. A natureza em toda a sua sapiência programou os animais para evoluirem nas misturas. No lado inverso da moeda, aquelas famílias que promoviam casamentos entre primos para não ampliar demais o espectro familiar (e ter menos gente com quem dividir o dinheiro) são conhecidas como produtoras de debilóides em massa. Várias raças de cães apresentam doenças congênitas provocadas pelo cruzamento irresponsável de indivíduos da mesma família. O conflito de raças só vai acabar quando as raças acabarem. Podemos fazer isso também com as religiões, com os países, com os times de futebol, com tudo. Mas aí se todo mundo for igual, pensar igual, reagir igual que graça vai ter viver? Nenhuma, claro. Respeitar as diferenças continua sendo a melhor maneira de evoluir. É isso ou pasteurizar a raça humana. O que você prefere? Divagações nada Proustianas acerca do biquíni, peitinhos-pitomba e as boyzinhas do Janga na maresia da existência.
De Xico Sá. Rapaz de interior, fui conhecer um biquíni, 50, mesmo, de vera, muito tarde. Se até mulher, mulher mesmo, para valer, só descobri já barbado, quanto mais esta minúscula peça que a enfeita. Ora, nos banhos de açude no Sítio das Cobras (Santana do Cariri), as meninas timbungavam de roupa e tudo, brejeiros corazones e biquinhos de peitos, pitombinhas lindas de nada capazes de nos fazer sonhar Amarcords , ah, belos banhos no Penedo, no poço do riacho, na Telha e no marzão de Tatajuba. No nosso juízo de meninos matutos, que conheciam Copacabana pela televisão preto e branco da praça pública de Nova Olinda, um enigma balançava, qual a obsessão de Brás Cubas, nas nossas cabeças lindas e chatas: como um ser humano nas condições normais de testosterona e desejos qualhados no juízo pode ver uma coisa daquelas, sim, uma mulher naqueles trajes tão econômicos, e não se armar todinho, num passar vexame diante dos outros, em plena areia de uma praia de cidade grande? Era impossível para nós, amigos e primos que nos divertíamos com burras, jegas, bananeiras e cabritas, que um homem pudesse segurar a onda diante daquelas gostosas com peças tão mínimas. A primeira vez que vi um biquíni, essa mística peça que ora completa mais de cinquent´anos, foi no Treze, um clube de Juazeiro, onde penetrávamos escondidos, pulando o muro. Tinha eu uns 12 recém-completos. Aquilo foi motivo para que minhas mãos ficassem mais peludas do que as de Monga, as de King Kong, todas as mãos possíveis do Planeta dos Macacos. Depois vi outros no Caldas, balneário de Barbalha, e quando dei fé, minhas primas do Crato, minhas paixões de férias, lá já estavam biquinizadas também... Maryanne, meus Deus, como era perfeitinha dentro de biquíni azul marinho. Depois... ah, depois foi só safadeza. Do Cariri ao Recife foi um pulo. Mas que mau gosto aqueles biquínis fios dentais, aqueles biquínis asa deltas, lembram? Ah, mas tudo bem, como cantava Luiz Gonzaga à época, “deixa a tanga voar, á á á á...” Corta para a praia do Janga, onde um dia quero reinar barbado, vara de pescar na mão, como um Hemingway lesado e decadente, uma boyzinha em cada perna, outra boiando nos meus mares nunca dantes, mais uma tirando a areinha do biquíni, eta que a maré levou o biquíni da mais santa da área, eu só vou sair daqui, Zero Quatro, quando ela sair da água, a danada cobre as vergonhas com as mãos como se tivesse tentáculos de um polvo, mais uma cachaça, caldinho de sururu, um balde de ostra, sim, ostra de Itapissuma, as melhores da costa caliente, um real a dúzia, com tudo que tem direito, limão, sal, cominho, azeite, faz favor, mais uma, no capricho, pois esses beijos salgados me deixam mais hipertenso, passado, leso e futuro não-sabido, vai lá, pirraia, aproveita que tu tá em pé e me vê mais uma cerva, agora acende mais um, de Cabrobó, Francisco de Assis França, pra gente tirar onda, pra boyzinha ficar fodendo melhor! Xico Sá é cronista do Blônicas. Pagando mico.
De Leo Jaime. O primeiro baralho em que coloquei as mãos não tinha números, tinha bichos. Talvez o jogo não mais exista. Vai ver as crianças nem brincam mais com coisas que não estejam ligadas em tomadas. A figura patética e assustadora deste mico, no entanto, como se numa vingança ancestral e furiosa, nos sobrevoa em forma de maldição. Não o medo da solidão. Este é um inimigo íntimo, assíduo e familiar como móveis e utensílios. Pagar mico, esse é o problema, esse é o terror. Ficar com o mico preto existencial nas mãos, em meio a um mundo de pares. Ser diferente do padrão, um aleijão, um dejeto industrial, isso é que é a condenação total. Hordas de pares. Zilhões de gêmeos do admirável mundo louco, sequiosos de identidade e padronização apontarão os dedos indicadores. O mico preto é um anátema. Primeiro escrevi anátema e depois fui conferir no dicionário. É isso mesmo: um anátema. Veja lá você! Como ia dizendo, o mico preto é um fenômeno mais aterrorizante que o do medo da solidão. Este é o medo que ocorre a um indivíduo. O medo de pagar mico é o medo de ser um indivíduo, uma vez que o indivíduo se afirma em suas diferenças e peculiaridades. O indivíduo sai da barriga da mãe e daí pra frente, a cada dia, se afasta um pouco mais daquele corpo, se individuando, diferenciando, particularizando. O medo da solidão é tão inerente quanto a morte.O medo de pagar mico é a própria morte. O problema é que quem sofre deste mal - e muita gente sofre - nem faz idéia de que ele exista. A solidão há de ser um mal ulterior, para quando se estiver livre, se isso acontecer, do novíssimo pecado original. O pecado de ser original. Mas, afinal, que diabos será isso: pagar um mico? E qual a razão de isto parecer tão grave? Sinal dos tempos. Está nas ruas, no jeito em que a sociedade se articula na época presente. O que é comum ocupa o lugar do normal. Tomo por normal aquilo que, sem moralismo, estará dentro dos limites razoáveis do saudável. Será que alguém gosta de música techno? Digo, gostar: ficar em casa ouvindo com a capa na mão, tentando beber um pouco mais daquele universo, ver as fotos de quem fez, os nomes, ler as letras e se deixar levar. Ora, a música techno não tem fotos, nem letras e nem nomes! E ninguém gosta, apenas absorve. Adapta-se à ela, como quem compra um apartamento ao lado do aeroporto e se esquece do barulho. É uma coisa que não se escolhe! Faz parte do pacote. Será que alguém acha realmente importante, lá no fundo de sua alma, se parecer com o "Chuartizeneguer" ? Será que as meninas querem mesmo ser esqueléticas? Será que os homens preferem mesmo as mulheres esquálidas? A maioria das meninas da atualidade não gosta do próprio corpo. Compara com os que viu nas revistas e se acha gorda. As modelos das revistas são, em geral, meninas de traços clássicos e pinta de doente. Às vezes são mesmo! É curioso. Hoje em dia há mais gente acima do peso que a 30 anos. As roupas - hoje, na quase totalidade, industrializadas - são feitas para gente mais magra que as de 30 anos atrás. Estabelecer um padrão que seja diferente do popular, daquilo que poderíamos chamar de normal, é o incisivo e genial instrumento de criação das necessidades supérfluas. Um ser repleto destas necessidades tem medo de pagar mico. Estamos nos transformando num país de suecas de farmácia. Nossas mulheres são fantásticas como são: baixas e bundudas. E agora andam querendo, às custas de cirurgias e despachos, ter 1,80 m. e peitões. Os cabelos compridos nos anos 60 se conectavam com a guerra do Vietname. Hoje o artesanal não faz mais sucesso. Vi na praia uma menina com o símbolo da Adidas tatuado nas costas. Associa-se, hoje, a marca desta empresa ao homossexualismo e a um estilo de vida que inclui ginástica, boate e moda. Não há mais uma logomarca, há um ícone. Eu o apelido de mundo mix. O industrial está glorificado e o artesanal é mico. Pode-se, até, ser exótico; por uns 5 minutos e babau. O Brasil tenta se inserir no mercado cultural globalizado pelo viés do exótico erótico, mas isso são outros quinhentos. O mundo mudou e o brega é mainstream. Hoje ele não mais se acanha por isso. O brega, por mais anacrônico que isto possa parecer, é arrogante. Segue abaixo... Um quadro não terá mais o valor de um quadro. Van Goghs serão transformados em toalhas de mesa. Gostarão da ilustração, mas nem por isso a pendurarão na parede. A arte não será mais reconhecida como tal. O diálogo com a existência some quando a subjetividade se esvanece. O espírito não se expressará numa coreografia de aeróbica ou baticum de boate. Quando se escolhe ser parecido aos demais, ser mais um tijolo no muro, deixa-se pra lá todo e qualquer traço de subjetividade, de senso crítico e inconformidade. Não acredito que tudo saia de uma planilha industrial. Todo esse estratagema não se estabelece com o lançamento de uma cartilha. Há uma questão existencial permeando. A menina gorda que compra o vestidinho curto e sai por aí, embalada a vácuo, sabe que aquela roupa, para si, não é a ideal. O garoto que resolve virar um gibi, muita figura e pouco texto, investe todas as fichas no projeto de parecer mau, rebelde, competitivo, sei lá! E é uma vaca de presépio, fazendo tudo o que seu mestre - a opinião alheia - mandar. O inferno são os olhos dos outros. Algum prêmio nobel falou isso e eu incluo neste parágrafo. As questões morais, humanas, estão todas por um fio. As meninas, quando resolvem dançar como go-go girls, com um shortinho (ficaria melhor xortinho) enfiado na bunda, se apresentando como mulheres-objetos, não temem a solidão que a esta categoria se reserva. Sabem que a competição é forte e meramente física, a apelação é geral. Olham em volta e, como está todo mundo fazendo, nem hesitam. Um dia não havia ainda o todo mundo fazendo. E isso já estava lá, na essência, potencial. A preguiça milenar para as questões humanas se apresenta na hora em que a convidam para um cineminha e ela responde: - " É daqueles filmes que tem que pensar?". Este jogo tem papéis muito definidos, como se vê. Os moderninhos são uma pseudo-vanguarda, estabelecendo novos padrões de conduta, no que tange exclusivamente à forma. O Œmundo mix é a transgressividade padrão. O futuro em edição matutina, engarrafado no Brasil mas com o produto industrial internacional intacto por dentro. Paraguaio legítimo. O que se vê em Nova York ou Londres e que leva a fama de novidade, será visto em três anos nas ruas das capitais brasileiras e em cinco nas das cidades de interior. Agora, com a TV a cabo e tudo o mais, estes prazos se encurtarão. É pule de dez como esses transgressivos serão absolutamente obedientes ao modelo importado. Ao padrão de transgressividade aprendido nos ghetos, clubs e matrizes deste segmento. Copiar é a palavra chave para quem não quer pagar mico. Clonar, seria, talvez, mais updated. Outros segmentos tomam o mesmo caminho. A existência de vários deles - cada um com sua linguagem, e cada uma destas linguagens com poucas possibilidades, além de incompatíveis com as demais - é o organizador da prosperidade de um mesmo modelo em formatos, cores e edições diferentes.É como lançar várias marcas de cigarro e convencer o comprador de que existe alguma diferença moral e intelectual entre quem fuma uma ou outra. Os segmentos se estabelecem através dos clichês que o definem. Pagar mico é fazer algo que não seja clichê; negando, assim, o próprio segmento e ferindo o código que possibilita sua existência. Todos estes estilos de vida são novos e as pessoas que dele compartilham também o fazem há pouco. Parecer que sempre se foi daquele jeito é um outro artifício. Inventar um passado virtual, que não será checado nem em hipótese, um "esse sempre foi o meu jeito" , com todos compartilhando do mesmo e secreto equívoco, é uma possibilidade. Como dizia o poeta: um museu de velhas novidades. O que será uma banda de "Skate Music" ? Um grupo que batuca nos skates? Que produz música com o rolar de suas rodas? Um conjunto formado por praticantes fanáticos? Nada disso. É só um outro segmento, música industrial para consumo jovem. Parece com rock mas não há nesta forma a canção rock, com suas origens e sua inserção pop na cultura internacional. Há uma instrumentação específica, que produz um padrão sonoro específico e que foi associado, sem alguma necessária afinidade, ao esporte. Se é que skate é esporte! Para mim é apenas um brinquedo. Como o pião e o patinete. Pois há uma música para o "estilo de vida" skate. E isso é muito diferente de haver uma canção sobre peões e patinetes. Não há nas letras, também, nenhuma alusão necessária. As letras, como todas as outras produzidas em escala industrial, dizem o que já foi dito: generalidades. As associações não obedecem a nenhum critério lógico. São apenas a necessidade de formular novos formatos com elementos já experimentados, diluídos e inofensivos. Há esta cultura skate, e isso é a única coisa que se pode dizer dela. Ah, nessa alguém ganha dinheiro. Isso também. Vejo uma turma de garotões do morro brincando na praia. Algumas semelhanças nas condições de vida já proporcionam um tipo físico bastante homogêneo. As indefectíveis bermudas pretas, largas, até o meio da canela e que permitem a exposição sumária de metade do rego da bunda - proponho aqui apelidar essa peça de Œregão - ajudam a tornar a semelhança física mais evidente. São uniformes em gênero, número e grau. O mesmo par de óculos, as mesmas cambalhotas ao entrar na água, e só entram na água dando um salto mortal! Uma vez vi, em meio a uma destas turmas, um garoto que, a despeito do visual clonado, era nitidamente uma menina. Estava com as meninas, se comportava como elas e não se aproximava do mundo masculino e suas cambalhotas. Dentro daquela possibilidade binária de existência ele optara pelo lado cor-de-rosa da vida. Passava desapercebido ao olhar mais displicente; era uma menina, uma bichinha, uma caricatura como as outras. Percebi que as meninas também eram caricaturas do feminino. Havia aqui e ali um tipo meio diferente. Um cabelo pintado de branco (porquê não de ruivo, roxo, azul?), um mais gordinho, outro menos magricela. Entre as meninas as diferenças também eram mínimas. O mesmo jeito de vestir e andar, sempre buscando uma espécie de aprovação erótica: tudo muito justo, muita coisa pra fora, muito sex-appeal fajuto, de calçada. Aquele modelo que a nossa música popular parece ter descoberto e esparramado como padrão de sensualidade. Me recordo de uma coleção de discos populares dos anos setenta. Chamava-se: Samba, suor e ouriço. Diziam que vendia. Na capa, uma morenaça caracú. Devo explicações: uma dessas morenas bundudas que mostram, em todas as fotos que fazem, até nas 3x4, a cara e o cu. A morena em questão não tinha nome a zelar. Não virava namorada de piloto, não ganhava programa de televisão, não aparecia no chacrinha nem nada. Era apenas a morena caracú, com seu sorriso carnavalesco e a bunda como comissão de frente. Abro um parênteses para incluir aqui a nossa querida Rita Cadillac que declarou desejar ser velada de bruços, para que possam reconhecê-la. Isso é uma chacrete! Fecho o parênteses. Essas meninas marcaram época. Não imaginavam que seriam o protótipo feminino de parte da geração que hoje circula por aí. Do morro para o Fashion Mall. Virou notícia uma turma de meninas e meninos, com média de idade por volta dos doze anos, que circulam por aquele shopping. Lá é o ponto de encontro. Mas, o leitor indagará: -² Todo shopping é ponto de encontro para a garotada!². Ainda que seja outra coisa discutível, essa mania de se reunir em shoppings - lugares sem janelas, onde qualquer tênis mais sujo faz o cidadão parecer um mendigo - tenho que Vá a esse shopping e veja. Passam famílias inteiras pra lá e pra cá, matutando o que vão comprar em seguida. Há neles um detalhe interessante. As meninas de 13 usam as mesmas coisas que a mãe, que por sua vez troca uns modelinhos com a própria mãe. A vó, a mãe, a neta e a irmã mais nova da neta, bebezinha ainda, estarão acordadas no jeito de vestir e nos produtos que consomem. Marcas famosas, algo que lhes emprestem um ar sofisticado. Não aquela sofisticação das melodias de Tom Jobim ou das frases de Oscar Wilde. Uma vez que tudo é tão acessível, que os elementos de "distinção" compráveis estão ao alcance dos cheques, fica a questão do detalhe. O problema do novo rico é esse: o que fazer com o dinheiro? O que comprar, aonde ir, onde andar, a quem querer? Do mesmo jeito que a intelectualidade brasileira fica de olho em Caetano Veloso - pra ver se ele aplaude uma coisa, para só depois dizerem em coro o "ge-ni-al", com o mesmo sotaque baiano - essas meninas ficam olhando umas nas sacolas das outras, patrulhando o que as outras compraram. O que ninguém mais comprou elas não usam e ponto final. O mico preto também vai ao motel. Tanto aos da Av. Brasil quanto aos de São Conrado. E é nessa área que ele exerce sua função mais cruel. Na relação entre adolescentes inseguros e sua sexualidade. O medo de ser ou fazer algo que não esteja no figurino se esbarra com o problema de ninguém saber, ao certo, o que manda o figurino. Há os filmes eróticos, que assim como as novas chacretes de Fausto Silva, não guardam mais erotismo que uma máquina de lavar louça. Há as cenas picantes das novelas e filmes, que orientam quais as caras que se deve fazer e o texto adjacente. A conversa com as mães, até mesmo com os pais, sempre lateral e eufemística, não será tão elucidadora assim e o mico, o medo de ficar com alguma fama, não importa qual o estigma, induz à tentativa de estabelecer um meio termo, passar rápido sobre o tema, sobre a cena, de forma a não atrair muita atenção. O resultado é que trepa-se pouco, com muitos e sempre mal. Meninas acabam buscando em outras meninas a intimidade que com garotos parece impossível. Ficar não inclui, necessariamente, conversar. Por isso é bom. E desde que não se engatem aparelhos, pouca coisa de reprovável pode acontecer num beijo. E beija-se. Tirar a roupa, mostrar as imperfeições, mesmo que existam apenas na própria cabeça, seria muito mais desconfortável. O amor possibilita muitas coisas, orienta muito bem essas nossas investidas no mundo dos prazeres. Ama-se muito pouco. Na maior parte do tempo, acha-se maneiro. Achar maneiro é o que se pode ter de conceito positivo sobre alguém. Amar, é algo que só meninas fazem, e mesmo assim, por coisas ou cachorros. Elas amam um vestido, o cachorro, o restaurante tal; os meninos são maneiros. Os meninos acham tudo sinistro. Morreu o pai: -"Sinistro". A gostosona deu mole: - "sinistro". O Flamengo ganhou:- "sinistro". O Flamengo perdeu: "Pô, aí, sinistro". Pô, aí, sinistro! Leo Jaime é cronista do Blônicas. Eu faço parte.
De Lu Paiva. Barriga definida em 5 dias treinando com AB Swing e bunda sem celulite, usando bermuda cibernética criada sob estudos da biocerâmica que emite luz milagrosa invisível. Lu Paiva é leitora do Blônicas, participou do livro de crônicas "Soltando o Verbo" e escreve no blog http://naosoulouca.zip.net Enriqueça sua cultura geral.
De Edson Aran. E agora algo completamente diferente: • Nenhum habitante do Egito Antigo chamava sua terra de Egito Antigo
Edson Aran é cronista do Blônicas. |