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Os micos da Dias Ferreira.

De Tati Bernardi.

Na minha rua tem de tudo. Não é bem a minha rua, sendo que aluguei
apartamento aqui no Rio só enquanto termino de escrever um programa para
a nave mãe. Daqui a pouco, se tudo der certo, volto pra poluição, o mau
humor e o trânsito de São Paulo. Não sei explicar, mas voltar é tudo o que eu
mais quero. Narciso acha feio o que não é espelho mesmo quando o espelho
é feio.
Mas enfim, na minha rua carioca, emprestada por alguns meses e que me
falaram (muita gente) ser uma das melhores do Rio, tem de tudo.
Eu acordo todo santo dia, as sete e quarenta e três, com as pombas fazendo
festa no ar condicionado. Elas gemem, brigam, reclamam, urram. Sei lá que
porra de som é aquele. Parecem mudinhos esfomeados. E me acordam. Rolo
na cama pensando que Dias Ferreira, o português, nasceu em um lugar
chamado Pombeiro da Beira. Ou seja: vai ver sou eu que estou no lugar
errado.
Tento ignorar o som e voltar a dormir mais um pouco, afinal, os mudinhos
esfomeados não são nada quando comparados a todo o inferno de sons a
que fui submetida até chegar àquele ponto.
Das dez da noite às duas da manhã, aturo restaurantes e baladas cheias de
cariocas o que, quase sempre, quer dizer gente animada demais e louca por
uma mesinha “lá fora”. Não to ofendendo! É elogio. Mas não tem nada mais
chato do que querer dormir com gente animada demais três andares abaixo
de você e louca por uma mesinha “lá fora”. Já tentei me unir a eles, mas não
dou conta de tanta alegria. Sou paulista e preciso ficar mal humorada de vez
em quando. Caso contrário, tenho impressão que posso desintegrar ou ser
presa por falsidade ideológica.
Das duas da manhã às quatro, aturo bêbados que se recusam a ir embora ou
falar baixo e desse horário em diante, até chegar o horário das pombas,
aturo o caminhão de lixo sempre acelerando e o barulho dos vidros e das
piadas dos lixeiros que adoram acordar os outros que não são lixeiros.
Depois vem o Globo Repórter dizer que eles “amam a sua profissão”. Sei.
Durante o dia, minha rua emprestada tem o trânsito parado, cheio de filas
duplas e gente que não sabe fazer baliza. Portanto, o buzinaço é sem fim.
Sem fim porque é o dia inteiro e sem fim porque cada buzina dura o tempo
de eu falar todos os palavrões que eu sei. Carioca ama uma buzina, nunca vi.
Só não ama mais do que mijar na rua. Mijar na rua ainda é o hit parade da
terra da mulher melancia.
Minha rua tem de tudo. E como tudo que tem de tudo, tem também as coisas
boas. Minha rua tem duas livrarias bacanas, a Argumento, minha boa
companheira das manhãs, na qual leio meu jornal, e a Letras e Expressões,
lugar perfeito pra quando você, ao invés de se matar, decide comprar um
livro as quatro da manhã. Só não vale comprar Albert Camus, que a vontade
volta.
Minha rua também tem predinhos com lojinhas charmosas. O famoso
(famoso pra mim, sei lá) Palm Beach, com lojas como a da Adriana Barra e um
outro predinho ao lado da Argumento, com uma lojinha de vestidos que é de
foder a conta bancária.
Tem ainda locadora de vídeos com mais Truffaut que a 2001 de São Paulo,
dois supermercados com bastante coisa orgânica e eu ando super “ecochata”
(uma coisa tem a ver com a outra ou pirei?), duas farmácias (adoro farmácia,
até porque vende aqueles protetores de ouvido pra dormir em meio ao
barulho) e tem até um Fleury em frente de casa! Adoro o Fleury! Odeio fazer
exames e entrar no Fleury, mas adoro ele.
Tem restaurante de tudo quanto é tipo, gente de tudo quanto é tipo, bonita,
famosa, interessante, metida a besta achando que 26 graus é inverno
europeu (carioca adora um motivo pra botar cachecol e bota, nunca vi, e eu
só sinto um calor infernal aqui) e tem a coisa mais legal do mundo: uma casa
de chá das 5! Tipo Londres, manja? Maneiro. Maneiríssimo. Mas como no Rio
as coisas são meio malucas, o típico chá inglês deles não leva leite. Vai
entender.
Minha rua tem de tudo. Outro dia, descendo pra pôr o lixo lá fora, dei de cara
com um ex namorado paulista jantando com sua nova velha namorada que eu
acho que é paulista, se não for marciana. Porra, vieram de tão longe (tá bom,
é perto) pra jantar em frente a minha casa? Gente chata. Enfim, deixei o lixo
lá fora e segui a vida.
Minha rua tem de tudo. Todo sábado, um morador de rua faz pirotecnia em
baixo do meu prédio. Berrando muito. E seus infinitos filhos são os únicos a
aplaudir, pois ninguém agüenta mais o cara.
Minha rua tem salão de beleza de perua e de gente que chega em perua. Tem
de tudo. Tem botecos e padarias daquele tipo que fede frango assado as seis
da manhã mas também tem o Sushi Leblon, terceira casa da revista Caras
depois do castelo e da casa da Suzana Viera.
Minha rua vende Granado e Phebo como se fosse a coisa mais chique do
mundo e vende boinas francesas como se fosse a mais clichê. Minha rua
parece São Paulo quando tem briga de motoboy, parece a Alemanha quando
eu desço com as minhas canelas brancas para caminhar e parece o melhor
lugar do mundo quando não tem ninguém berrando. Mas tem sempre alguém
berrando na minha rua. Ou buzinando. O que dá no mesmo.
Dizem que essa rua já chamou “do pau”. Não sei, tem de tudo na minha rua,
mas até agora não arrumei nada que me fizesse chamar essa rua de rua do
pau. Vai ver é por isso que tudo me irrita tanto.
Aí, (esse aí é de “e então” e não aquele “aiê” de carioca, ok?) essa semana,
um novo elemento se uniu ao mundo de elementos da minha rua que tem de
tudo. Os ratos. Esses seres imundos, nojentos, inferiores, aterrorizantes.
Escutava o som deles de manhã, de tarde, de noite, de madrugada. Em meio
a todos os outros infinitos sons e de todas as infinitas pessoas. Sempre os
ratos. Os ratos. Os ratos. E já tava ficando louca. E ainda mais mal humorada.
E ainda mais reclamona. E ainda mais paulista escrota e com orgulho. E tudo
mais. Até que encontrei a filha do zelador na rua e ela apontou, com seu
dedinho de quem tem quatro aninhos de idade e uma vida linda, que aquele
som, na verdade, era dos macaquinhos da árvore que fica em frente ao meu
quarto.
Eu tinha macaquinhos lindos na árvore, que coisa bucólica, pueril. Vivam os
macaquinhos!
Eram macaquinhos fofos, lindos, bebês, uns chuchuzinhos de seres. E eu subi
correndo pra ficar vendo os macaquinhos e chorando. De arrependimento.
De emoção. De saudade. Sem motivo. De tristeza por eu estar sempre na
defensiva e não conseguir ver nem as coisas boas. As coisas bobas. Os
macaquinhos. E eu sempre vendo rato em tudo.
Na minha rua, ainda que emprestada, tem de tudo, até motivos pra sorrir um
pouco ou tentar ser uma pessoa melhor.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h10
[]


Você.

De Nelson Botter Jr.

Dois peixes num aquário.
A luz neon refletida nos olhares, tímidos, fixos e cobertos de desejo.
Na vitrolinha os acordes melódicos de One tentam abafar os burburinhos da cidade lá fora.
Is it getting better?
Foi-se o tempo em que havia esperança num mundo melhor, foi-se o tempo em que as ilusões tapavam nossas turvas visões.
Naquele instante, milésimos de segundo, só havia aqueles dois peixes, não só no aquário, mas em todo o oceano.
Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão, dava pra ver o tempo ruir.
O sorriso metálico e angelical invadia cada centímetro do concreto que separava aquelas duas bocas.
Bocas nervosas, procurando oxigênio na água artificial daquele aquário.
Qual comprimido você prefere?
O vermelho ou o azul?
Prefiro a língua, a tua, que me invade sem pedir licença e bagunça tudo por aqui, aqui por dentro, aqui, põe dentro.
Uma tormenta em nossos aquários.
Enquanto os peixes nadam, dançam ao som da música da vida, o mundo lá fora pára, os tubarões não mais existem, o cheiro da fumaça se transforma em lavanda, as buzinhas viram trombetas, o sangue volta a jorrar, em gozo.
A tua carne na minha boca, todas as carnes, todas vivas e ricas em sabor.
Invado-te com a força e delicadeza de um felino, espirrando meu veneno dentro do teu ser, fazendo-te gemer e propagar todos os sons dentro da água, cravando tuas escamas nos corais e apontando novas cores para a noite escura e sem graça que nos aguarda lá fora, nos limites de nosso espesso vidro.
One love, get to share it, leaves you baby, you don't care for it.
Os altos muros mouros que cercam os quadris que agora dançam para mim, conforme a maré, trazem movidas de terras distantes, do oriente desorientado, cravados em tuas madeixas que adoram tocar minhas escamas, no vai e vem da correnteza, no ritmo da dança do teu ventre.
Miro as coxas grossas que se exibem, pedem minha boca, minha calda, minhas barbatanas.
E é assim, num pacto velado, que os peixes seguem em frente, nadando a favor ou contra a maré, mergulhando no abismo do desconhecido e voltando à tona para respirar, domando cavalos-marinhos e contando estrelas do mar no céu.
E é assim que a música acaba, numa lucidez silenciosa.
Os olhares que se distanciam.
As saudades que alimentam.
Os desejos que afogam.
Os sorrisos que novamente se encontram.
Nada mais.
Nada menos.
Na medida.
Encaixes perfeitos.
Dois peixes num aquário.

Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 15h51
[]


O resto é papo-furado.

De Antonio Prata.

Branca de Neve, 63 anos, está morando nos subúrbios de Miami desde o final da década de 80. Ainda conserva as bochechas rosadas de antigamente, embora a implacável ação do tempo e algumas plásticas mal-sucedidas tenham tirado a maciez da juventude. O negro dos cabelos continua igual, e ela nega usar qualquer tintura. “Só faço hidratação e, ultimamente, escova progressiva. A cor é a que Deus me deu”.

Não foi fácil convencer Branca a dar a entrevista. Só topou conversar conosco depois que acordamos que não publicaríamos nada que ela não autorizasse. Uma carta dos três porquinhos, dizendo que já haviam participado anteriormente, sem danos às suas imagens, também foi de grande ajuda. Vamos à entrevista, concedida por telefone.

Em primeiro lugar, Branca de Neve, esse é seu nome mesmo? Ninguém se chama Branca de Neve, né? Meu nome é Margareth Wilson McBright. McBright por parte do meu ex-marido.

O príncipe? Prícipe? Ha! Ha! É impressionante como as pessoas acreditam nos contos de fadas. Bom, eu também, no início, acreditei, só porque ele chegou à cavalo. Ele era um cafa ridículo. Queria era pegar todas dos contos de fada. No primeiro ano de namoro, deu em cima de todas as minhas amigas: Cinderela, Bela Adormecida, Rapunzel. Até nas fadas madrinhas ele passou umas cantadas.

Nossa! E aí, você se separaram? Sim, já faz mais de dez anos. Há cinco anos me casei com um dos caçadores que mataram o lobo mau. O Brian. Tudo ia bem, mas há uns meses ele foi processado pelo Greenpeace e está cumprindo cinco anos de cadeia.

Nossa, Branca, sua vida foi difícil, né? Muito. Não é fácil ser ex-personagem de contos de fadas. Você tem toda aquela exposição por um tempo, mas depois te esquecem e você é trocada por um Schrek, um Toy Story qualquer. É triste.

E por que você foi para os EUA? Nos anos oitenta, vim pra cá fazer uma plástica, arrumei uns freelas em publicidade e acabei ficando. Fiz muita propaganda de sabão em pó. Ganhei algum dinheiro até.

E quais os planos para o futuro? Estou pensando em abrir uma escolinha ensinando jovens a fazer carreira em conto de fada. Dar uma orientação, ver quem tem mais jeito pra princesa, quem daria uma boa fada, uma madrasta, essas coisas. Tem muita menina talentosa aí, elas só precisam de orientação.

           *                 *             *
Fizemos mais algumas perguntas, principalmente sobre um suposto processo que os sete anões estariam movendo contra Branca de Neve, à respeito de direitos autorais. Ela não quis responder e desligou o telefone bruscamente. Correm em Miami boatos de que Branca esteja muito deprimida e que sofre a tragédia do alcoolismo. A reportagem torce para que sejam mentiras infundadas e que nossa querida Branca volte a ser valorizada como um dia já foi. Força, Margareth!

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 20h12
[]


Uma vida de segunda ou cruzando o Paraíso, amigo Sam Sheppard

De Xico Sá.

Ainda na cama, o grupo Morphine toca “buena”, aquela, faço as promessas da semana e os três desejos de segunda.

Saio do escuro e mendigo um naco de sol, bem-aventurados os lagartos que nadam no seco.

Esta semana eu te quero, eis o primeiro  e talvez único desejo. Não vale dizer “eu não tenho roupas”, daqui vejo o desespero diante do armário lotado, que venhas só de botas mesmo que serás um presente para todos os vagabundos da noite.

A tira do Laerte antes do horóscopo. Esse cara tá foda, uma fase que nunca acaba. Alguém diz.

Estamos numa fase como as nossas tripas.

Com fome, mas sem saber donde vem o ronco, se da minha pança ou da linda barriguinha dela.

Amo a minha cachorra chapada e bêbada, amigo zero quatro.

Dois bules de café amargo, cream cracker, manteiga Aviação,de lata, duas ou três coisas que nunca saberemos de nós dois sobre todas as outras coisas sem importância.

Os caras morreram, agora nos demos conta, inclusive Antonioni, mas nós estamos apenas de ressaca, amor, essa dengue sartreana da moléstia, calma ai, calma ai, sem desespero, ao lusco-fusco estaremos tinindo de novo.

Nuestros horóscopos para agosto, mas como agosto se agosto, Bárbara Abramo, caiu em julho este ano, tragédia de avião e tudo com cento e tantos mortos?

Ao sair não bata a porta, deixa aberta para que o vento devolva o teu cheiro e eu goze mais uma vez antes que dobres a esquina do Paraíso adonde ganha a vida, à custa da neutralidade suspeita, o velho babaca do teu analista.

[do libreto "Tripa de cadela & outras fábulas bêbadas", breve pela editora Dulcinéia Catadora]

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h23
[]


Sexo de A a Z - a letra I

De Edson Aran.

Hoje: a incrível letra “I”

Incesto: Tipo de coisa que deve ficar entre a família.

Indecisão: O cara era mais indeciso do que bissexual numa orgia.

Índio: Vive peladão no meio do mato e toma no rabo faz quinhentos anos. Aí quando ele pega uma professorinha e passa a vara, todo mundo reclama.

Indecêncio: Indecêncio Malta, deputado federal (PFL-PI), está no décimo mandado e acumulou vistosa fortuna graças às inúmeras vezes em que ganhou na loteria (1.717 até hoje de manhã).

Infâmia: Antigo reino oriental na fronteira com a Esbórnia e a Indecência. Foi governado por Antunes, o Desprezível, até a invasão dos néscios em 1346, 1415 e 1618 (sendo absolutamente néscios, os néscios não sabiam exatamente onde ficar). Com o fim do período néscio, a Infâmia passou para o controle dos beócios e dos fagócitos, que estavam ali de passagem e resolveram fazer uma invasãozinha básica. No começo do século 19, a região foi dominada pelos cretinos que, numa grande volúpia predatória, estupraram todas as casas, depenaram todas as mulheres e raptaram todas as galinhas. Historiadores são unânimes em afirmar que esta foi a invasão mais cretina de todas.

Inferno: A diferença entre inferno e inferninho é que, no segundo, as capetinhas são de néon.

Intimismo: Performance intimista de verdade só pode ser feita no banheiro, sem testemunhas e com muito creme pra deslizar melhor.

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h46
[]


O quarto concreto.

De Carlos Castelo.

No ano do cinqüentenário da poesia concreta surgiu um novo elemento para sacudir a polêmica em torno do movimento artístico mais discutido dos últimos tempos no Brasil.

Além de Augusto, Haroldo e Décio apareceu um quarto poeta reinvidicando sua participação no movimento: Anfrísio dos Santos.

Maranhense de Codó, dono de uma casa de material de construção em Carapicuíba, Anfrísio afirma que o Manifesto Concreto foi escrito a oito mãos e garante ter co-autoria também, entre outros, no célebre poema “Beba Coca-Cola”, do colega Décio.

A comunidade artística ainda se encontra perplexa, pois, para seus pares, o quarto concreto de origem maranhense seria o poeta Ferreira Gullar, não Anfrísio dos Santos.

Procurado por jornalistas da área cultural, o autor de “Poema Sujo” não quis se manifestar alegando que só dará novos depoimentos assim que acertar um novo corte de cabelo diferente do atual “chanel” na altura do pescoço.

Abaixo o depoimento completo de Anfrísio da Silva, o quarto concreto:

Pergunta: Como o senhor tomou contato com o grupo de poetas concretistas de São Paulo?

Anfrísio da Silva: Eu era assistente de pedreiro e fazia uns bicos numa firma de dedetização. Por acaso, dei de cara com o Décio na Praça da República, na hora do meu almoço. A gente estava dividindo o mesmo banco. Ele estava lendo “Os Ratos”. Vi aquele nome na capa e falei assim: “Ratos? Disso eu entendo”.

Os olhinhos do Décio brilharam. Falou pra mim: “você entende de Dyonélio Machado?! Não posso acreditar! Outro, além de mim, valoriza o verdadeiro Joyce brasileiro!”

Não entendi muito bem aquilo que ele estava falando. Mas aceitei na hora o convite pra fazer um trabalho concreto na casa dele.

P: O senhor tinha idéia do que era Concretismo?

AS: Idéia, idéia assim eu não tinha. Cheguei a pensar que o Décio queria fazer um calçamento novo na casa. E, apesar de estar mexendo mais com barata, formiga e rato, podia muito bem fazer um extra e levantar um dinheirinho reformando a residência do homem.

P: E o que aconteceu quando chegaram à casa de Décio?

AS: Bom, estavam lá os dois irmãos, os Campos. O Décio me apresentou dizendo que eu conhecia o Dyonélio. O Haroldo, largou um livrão que parecia uma Bíblia em cima da mesa, e foi logo me abraçando. O Augusto desligou a vitrola e fez a mesma coisa. Foi quando o Décio falou assim: “tem algum texto teu aí por acaso pra gente fazer uma leitura?” O que eu tinha no bolso era um papel desses de pão, com o pedido do material do calçamento que eu vim escrevendo no ônibus pra mostrar pra eles. Peguei e entreguei o papel todo amarrotado pro Décio.

P: E o que ele fez?

AS: Começou a ler o meu pedido em voz alta. E os outros dois irmãos ouviam, muito quietos, de olhinho fechado. Eu me lembro até hoje: “Simento, arêa, tigolo, maça de pedreiro, duas pá, uma cuié, pedriscu”. Fiquei atrapalhado por ele ler aquela besteirada como se tivesse cantando o “ouviram-do-Ipiranga-às-margens- plácidas”, sabe aquele respeito? Quando ele parou, o Haroldo tomou o papel e botou os olhos em cima foi tempo, mas tudo no maior silêncio. Demorou uns dez minutos pra ler aquele tiquinho de palavra.

P: Haroldo chegou a fazer algum comentário?

AS: Fez não. Passou pro irmão, que deu de ler o papel também. Cheguei a pensar que tinha ofendido eles com o meu palavreado mal ajambrado de trabalhador braçal. Por fim, o Décio pegou o telefone e ligou pra um tal de Cabral lá no Rio de Janeiro. Deu de ler o papel de pão de novo, agora com mais força na voz ainda. Quando desligou, veio e perguntou se eu tinha contato com o Guimarães. Ou com um tal de um conterrâneo meu, do Maranhão - Souza Andrade, se não me falha a memória. Disse a ele que meu contato era só com o Carlos. Quando falei esse nome, os três começaram a berrar “Drummond! Drummond!” – urravam feito bezerro desmamado na sala. Eu doido pra explicar que o Carlos que eu tratava era o Carlos Pipa, dono da loja de material de construção da Barão do Triunfo, mas ficou por isso mesmo.

P: E os desdobramentos desse primeiro contato? Como Anfrísio dos Santos saiu do trabalho braçal, da vida feita de bicos, para a Alta Poesia?

AS: Bom, depois de uns dias, os três me apresentaram a um mestre-de-obras amigo deles, o Oscar. Prepararam uma comedoria para o homem que não foi mole. Devia ser muito bom mesmo o sujeito. Quando ele entrou na sala, o Augusto disse no pé do meu ouvido: “Anfrísio, esse homem fez uma cidade inteirinha”. Pois bom, com esse eu podia me entender, era do meu ramo. Quando estavam na sobremesa, arranquei do bolso outra lista de material de construção e li pro Oscar. Dessa vez eu mesmo e bem alto: “Argamaça! Baldrame! Asso! Têia! Pedra mineira!”. Assim foi. Acabou que o mestre-de-obras me chamou de um nome que até hoje eu não sei o que é: “proletário”. Uma coisa assim. E, na hora, me convidou para entrar no Partido dele.

P: E o senhor aceitou?

AS: Ora se aceitei. Vou ficar de fora de um Partido que só tem pedreiro como eu? E fiz muito bem. Um ano depois, eu estava lá na Rússia declamando lista de material de construção e o povo batendo palma. Foi aí que fiquei conhecido como poeta concreto pra valer.

P: É verdade que o senhor é co-autor do poema "Beba Coca-Coca"?

AS: Sim, é meu também.

P: Explique melhor a sua versão.

AS: Eu gostava de Grapetti, um refrigerante que tinha naquela época. Eu chegava no boteco perto da casa do Décio e dizia pro português: "quem bebe Grapetti, repete". Todo dia eu dizia aquilo. E o povo ria de mim. Um dia eu vi o Décio, concentrado, escrevendo sobre a Coca-Cola num papel. Eu perguntei assim: "quem bebe coca-cola, repete?". Ele riu assim e falou: "obrigado, Anfrísio, era essa repetição que faltava no poema". Por isso eu me considero dono da idéia junto com ele.

P: E como explicar esse seu sumiço de tantos anos e o porquê da sua opção de montar uma loja de material de construção em Carapicuíba?

AS: Depois que voltei da Rússia começaram a chamar o Oscar de um tal de stalinista. Não conhecia aquele nome, mas devia ser coisa ruim. No dia que passaram a me chamar desse nome também foi que eu vi. Vinha o povo com as pedras na mão, me chamando dessa coisa e jogando a pedregulhada por cima. Foi aí que me desgostei e tomei a decisão de mudar de vida.

P: E como foi essa mudança?

AS: Eu apanhava as pedras que jogavam em mim, botava numa caçamba e vendia pras obras lá da periferia. Com o tempo, fui juntando tijolo e cimento. Logo estava com a loja montada.

P: O senhor conhece Charles Sanders Pierce?

AS: Não.

P: Ezra Pound?

AS: Não.

P: T.S. Eliot?

AS: Conheço não senhor.

P: E como faz Literatura?

AS: Eu não faço Literatura, faço concreto.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 12h33
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