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Sobre o orgasmo e outras distrações.

De Nelson Botter Jr.

Ele acorda. Ela acorda. Mais um dia, mais um mês, mais um ano, mais uma vida. Uma vida a dois, regada de dificuldades, mas que lhes proporciona colheitas espetaculares. Aprenderam os truques de um bom plantio. Nada sabem, é claro, mas sabem. Doeu aprender, mas a dor é necessária. Basta observar, estúpido cupido, como as coisas boas da vida estão sempre ligadas à dor, como procuramos o gozo contínuo, a satisfação da insatisfação latente. E isso dói, como dói. Quem disse foi o velho do charuto, aquele da Rua Berggasse 19, nada tenho com isso e não aceito reclamações.

E fez-se a luz, que faz jorrar o sangue, todos os dias, que traz os orgasmos múltiplos de simplesmente ser, existir, respirar. É preciso estancar a ferida com a ponta da faca incandescente, cauterização just-in-time, que traz o alívio, o gozo. Ele quer gozar nela(e), ela quer gozar nele(a), eles querem gozar no mundo, mas o mundo não quer gozar neles. Entretanto, se deixam levar pelas vielas do prazer, afinal isso é amar, é ousar um salto no escuro, é confiar seu destino a mais do que apenas você, é permitir que a tampa feche a panela, é escolher um cúmplice para as piores e melhores horas, é sentir de verdade a razão de se viver por viver. É jorrar a semente, é plantar vida, novas vidas ou vidas novas. 

O objetivo simples e direto, olhinhos virados, pêlos arrepiados, gemidos incontidos... A maior das maravilhas do universo. E somado ao amor, o que dizer? Insuperável. Pois ele talvez seja a maior das perversões, a prisão que liberta, a indefectível filosofia na alcova, o que nos torna rijos e pulsantes. Viva a dor de viver a dois e viva duas vezes mais. É um gozo só...

Nelson Botter Jr é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h11
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Batman – O cavaleiro das trevas.

De Silvio Pilau.

Batman – O Cavaleiro das Trevas é o melhor filme de super-heróis já realizado, ainda que o seja exatamente por não parecer um. Explico. Dando continuidade à abordagem psicológica desenvolvida com sucesso em Batman Begins, Christopher Nolan (a partir de um roteiro escrito por ele mesmo e seu irmão Jonathan) novamente assume um tom realista e vira seu foco para os personagens e a história, seu grande diferencial em relação a outros filmes do gênero.

Esta seqüência, por exemplo, é construída sobre três personagens principais: Bruce/Batman, Harvey Dent e Coringa. Batman, como apresentado no filme anterior, não é somente um justiceiro mascarado, mas um homem incrivelmente traumatizado, que precisa conviver com seus próprios problemas enquanto combate nas ruas. Agora, o peso da responsabilidade o atormenta: “Ou você morre como herói ou vive o bastante para se tornar o vilão”, diz alguém. A alma atormentada de Wayne é encarnada impecavelmente por Christian Bale, que demonstra sem afetações a carga imensa depositada sobre os ombros do personagem.

O grande arco dramático de O Cavaleiro das Trevas pertence, porém, ao promotor público Harvey Dent. Com Bruce Wayne desejoso de transferir a responsabilidade do combate ao crime para alguém honesto, Dent torna-se um símbolo de esperança. Esta é uma das tramas principais do roteiro de O Cavaleiro das Trevas. A trajetória do personagem– que é a representação máxima de um dos principais temas discutidos pelo roteiro, a tênue linha entre o bem o mal – soa real também pelo talento de Aaron Eckhart, que jamais permite sua modificação se tornar brusca ou forjada.

No entanto, o grande achado de O Cavaleiro das Trevas, é o Coringa de Heath Ledger. Desenvolvido com muita inteligência por Nolan e o ator – que acertaram ao não apresentar, e até confundir, as origens do personagem, tornando-o ainda mais imprevisível e assustador –, o Coringa é o dono do filme, um verdadeiro “agente do caos”. Interpretando-o com uma mistura da anarquia de Tyler Durden (Clube da Luta), o sadismo de Mickey Knox (Assassinos por Natureza) e a insanidade de Sid Vicious, Heath Ledger utiliza de voz anasalada e trejeitos que lembram um animal em seus mais primitivos instintos, como a repulsiva forma com que passa a língua nos lábios, para compor um verdadeiro e perigoso inconseqüente.

A dicotomia entre Batman e o Coringa também é brilhantemente realizada. O palhaço é uma conseqüência das ações do morcego e a genialidade doentia do primeiro só encontra sentido com um oponente à altura, como Batman. Aliás, é daí que sai uma das melhores falas do filme, quando o Coringa diz para o herói: “Você me completa”. Quem diria que o palhaço do crime seria fã de Jerry Maguire? Enquanto isso, a trama que impulsiona tais relações é igualmente elaborada e surpreendente, uma verdadeira e grandiosa saga sobre o crime nos moldes de grandes clássicos do cinema policial. Há de tudo no roteiro dos Nolan, desde corrupção policial, presença da máfia e as conseqüências desta existência na vida das famílias das vítimas. E o melhor: tudo amarrado de forma magistral, sem uma única subtrama sobrando ou causando tédio.

E aí entra, novamente, o talento de Chistopher Nolan como diretor. O cineasta tem o controle completo daquilo que quer transmitir e jamais dá um passo em falso, construindo a obra em um crescendo de emoções e reflexões. Muito disso se deve também à já citada ambientação realista proposta por Nolan. Ao tratar seus personagens como pessoas reais, com defeitos e problemas, O Cavaleiro das Trevas se aproxima de nosso mundo, causando identificação imediata com a platéia. Desta forma, a tensão aumenta e as emoções crescem.

Deixando de lado a superficialidade da maioria dos filmes do gênero, a produção se aprofunda não apenas na mente e nos corações tortuosos de seus personagens, mas também em densas questões de moral e ética Em O Cavaleiro das Trevas, não há a simples diferenciação entre o bem e o mal. Ao contrário, o que o filme defende é que todo ser humano é capaz dos atos mais sórdidos quando impulsionado – e despertar isso parece ser a verdadeira motivação do Coringa.

Exceto por um outro exagero desnecessário, O Cavaleiro das Trevas é uma verdadeira obra-prima e o melhor filme do ano até aqui ao lado do igualmente ambicioso Sangue Negro. Quem espera um filme-pipoca para levar as crianças vai se surpreender ao encontrar uma obra pesada, profundamente reflexiva e que exige muito do espectador em termos emocionais. Mesmo com diversas - e ótimas – cenas de ação, O Cavaleiro das Trevas não é um filme de super-heróis, mas um conto moral sobre culpa, crime, maldade e a verdadeira natureza do ser humano. Apenas acontece de, no meio, ter um maluco correndo e pulando de máscara e capa preta.

Batman (The dark knight) - De Christopher Nolan. Com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Morgan Freeman, Eric Roberts, Michael Caine e Cillian Murphy.

Silvio Pilau é cronista do Blônicas e escreve sobre cinema.

Escrito por Blônicas às 15h25
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Bundas siamesas.

De Bianca Rosolem.

(Uma odisséia sobre mulheres de seios fartos e ancas largas)

Parte I

Um dia quente, úmido, abafado e viscoso, a roupa colava no corpo. Até as paredes suavam. Cássia Alessandra, enorme, deitada na cama observava a chuva se formando ao longe. A camisola de gestante grudava no corpo. Ela fechou os olhos e rezou para que suas bebês resolvessem nascer logo. Mesmo que fosse naquele dia, e o dilúvio que ameaçava a terra caísse e levasse todas as casas da rua. Por bem, ou por mal, já não agüentava mais a gestação pesada de duas crianças. Olhou seu corpo disforme e inchado, e da maneira que estava recostada no travesseiro não via sequer o dedão do pé. Apenas enxergava a imensa lua de sua barriga. Estendeu os braços e sentiu o suor escorrer de sua axila, alcançou o copo d água sobre o criado-mudo. Esse esforço foi o suficiente para que a bolsa rompesse e inundasse o colchão. Adelino, o marido, saiu correndo em busca de sua mulher que berrava “vai nascer, vai nascer”, largando a TV ligada e o final do campeonato brasileiro.

No hospital, depois de anestesia, choro e desmaios, cortaram a barriga para de lá tirarem o que chamam na ciência bizarra de xifópagas. Se não bastassem gêmeas idênticas, ainda eram grudadas. E o mais curioso é que as bebês uniam-se pelas nádegas. Melhor dizendo, cada uma tinha sua nádega, isto é, cada uma tinha seu ânus, porém na altura da carne que forma a protuberância chamada “bunda”, quase nas costas, elas estavam grudadinhas. Seu Adelino rezou e pediu perdão; Cássia Alessandra fez promessa. As bebês passaram por cinco minutos no jornal da noite na TV, a mãe chorou e o pai apenas pediu ajuda. O Bairro comovido fez novena e procissão. No final, Karla Adriana e Keila Cristina – já registradas no cartório da região - foram separadas e a nádega comum foi igualmente divida.

O pai muito preocupado com toda a repercussão, logo tratou de estabelecer medidas que atenuassem o trauma que toda a situação poderia infligir em suas meninas. Assim, desde cedo, Adelino colocava sapatos pesados – que ele próprio criara em sua oficina - para que as meninas forçassem a musculatura dos glúteos de forma que essa parte do corpo hipertrofiasse. Adelino sabia bem como mulheres ‘sem bunda’ eram preteridas na sociedade. Desta maneira, utilizou de todos os artifícios para que nunca alguém na rua apontasse para suas meninas e as ridicularizasse por compartilharem a mesma bunda, pouco restando então a cada uma.

Alimentação rigorosa, com muita proteína, leite, e claras de ovo, ainda exercícios localizados, constituía a rotina das meninas. A mãe nunca mais pensou em ter outros filhos, pois acreditava que seu ventre era amaldiçoado. Foi perdendo o juízo, e terminou no quarto dos fundos, antes a oficina de Adelino, bordando roupas para a Igreja enquanto cantava hinos evangélicos.

Mesmo a mãe ausente e um pai onipresente, não impediram que as gêmeas desfrutassem de sua condição. Viviam de troca com os pais, sendo que por meses eles tomavam Karla por Keila e vice-versa. Assim, era na escola, nas brincadeiras da rua, e mais tarde, nos primeiros namorinhos de mão.

Logo, quando com 14 anos a obstinação de Adelino mostrou seu resultado. Todos os rapazes da rua queriam namorar as Gêmeas Bundanesas, como então ficaram conhecidas. Nessa idade já eram madrinhas do bloco de carnaval e o pai batia palmas, orgulhoso, quando elas desfilavam seus traseiros fartos – 116 centímentros – pelas ruas do bairro em minúsculo biquíni.

Porém, essa aparente conduta libertina do pai não ia além do exibicionismo do predicado das moças. As gêmeas bundanesas desfilavam micro shorts, vestidos e saias minúsculos, mas ninguém podia tocá-las sem expressa permissão. Esse misto de erotismo e proibição criou uma aura mágica em torno das gêmeas. Se não bastasse a sua condição de igualdade física, elas ainda desfrutavam de toda a mítica criada em suas vidas. Cientes de seu poder, elas causaram mais confusão que o comando criminoso que dominava a região.

Brigas, fins de casamento, até morte. As gêmeas bundanesas eram lenda na cidade inteira quando completaram dezoito anos. Na festa, Adelino, incrivelmente feliz, bebeu, comeu, sambou e quando já estava muito cansado sentiu o luto de sua mulher recriminando tanta alegria. Olhou para o quartinho fechado desde sua morte e então teve a impressão de que lá ela ainda estivesse. Cansado, dominado pelo sono, cochilou na cadeira.

Alguns minutos depois chamavam os bombeiros. Adelino morreu de olhos já fechados.

As gêmeas bundanesas, as mulheres mais fartas e ancudas da história da cidade, estavam livres.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 14h01
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Uma mesa de 20mg.

De Giovana Madalosso.

Houve um tempo em que uma mesa de bar era formada por um comunista, um liberal, um existencialista e um niilista. Sento no boteco e olho ao meu redor: estou no meio de um bipolar, uma obsessiva-compulsiva, uma depressiva, um maníaco e uma amiga que se diz normal, muito normal, mas tem dez saquinhos de açúcar picotados à sua frente.

Se na velha mesa o assunto era o barbudo fumador de charutos, aqui também, só que aquele atendia por Fidel, e este, por Freud. Não há uma bunda nessa mesa que nunca tenha sentado num divã ou defecado algum resíduo de tarja preta, nem que tenha sido um lexontanzinho básico, tomado com o inocente intuito de curar um chifre ou uma demissão de emprego.

A desenvoltura com o tema é impressionante. Recomendam psiquiatras como se recomendassem restaurantes, analisando atendimento, preço e até localização, que a obssesiva-compulsiva julga ser fundamental, pois se acabar o remédio ela pode pegar a receita em cinco minutos e ir correndo para a farmácia. Ou melhor, saltitando, já que  moça só consegue andar na parte preta da calçada. O bipolar concorda e conta que, graças à sua enfermidade, já ganhou do programa de recompensas da farmácia um liquidificador, uma batedeira e uma centrífuga; mais um pouco e tem um enxoval completo, o que não quer dizer muita coisa, já que ele também é gamofóbico (para os leigos: tem fobia de casamento).

A depressiva pede para mudar de assunto, pois seu diagnóstico é justamente a depressão pós-término. Depressão pós-quê? No meu tempo isso se chamava fossa e o tratamento consistia em chorar uma semana ao som de Gal Costa e depois sair dando para Deus e todo mundo, mas agora, com tanta alopatia por aí, quem precisa tirar a roupa e sair se divertindo para esquecer o ex?

Lembro com saudades do tempo em que eu perguntava aos meus amigos se eles tinham alguma parada e eles me passavam um baseadinho. O que recebo agora é uma fluoxetina, seguido de um “experimenta, a onda é boa, e você nem precisa se esconder no banheiro”. E eu lá preciso de remédio? Precisa sim, querida, uma pessoa que come todos os pastéis da mesa e depois chupa o caroço da azeitona só pode estar sofrendo de ansiedade crônica.

Não sei se estamos mais doentes, mais diagnosticados ou os dois. O que sei é que estamos mais individualistas e patologicamente corretos. Ninguém vai sair fazendo barricadas ou quebrando guitarras no palco, afinal esses são atos de violência gratuita, coisa de gente não analisada.

Folgo em saber que nossos heróis não vão morrer de overdose, só espero que não morram de letargia.

Giovana Madalosso é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 09h18
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O dia seguinte. Dele.

De Tati Bernardi.

Ele acorda e cantarola a música no banho. Over and over and over. Ela está obcecada pelo Hot Chip e passou a doença a diante.

Ele cantarola e lembra que foi nessa música que ela achou que a cadeira giratória do computador podia contribuir com a dança. Ri. Sente tesão. Acha o mundo ridículo e feliz. Lembra que tava boa a vida procurando. Encontrar dá medo, preguiça e uma sensação estranha de estar se perdendo. Será que eu vou querer namorar essa louca? Será que essa louca vai querer namorar comigo?

Aí ele lembra. Caraca! É mesmo! A menina escreve. Sem pudor. Falaram pra ele. A essa altura do campeonato, já deve ter um texto publicado falando da noite anterior. Será que ela achou bom? Será que ela vai publicar o tamanho da minha alma? Da minha tatuagem? Do meu pé?

Ele corre com o banho. Ainda cantarola, mas agora é com um pouco de medo. Precisa entrar logo naquele site desgraçado. Todo cheio de desenhinhos inacabados e leves. Mas é ali mesmo que ela acaba com todo mundo e sem nenhuma leveza.

Corre com seu carro que ainda tem o cheiro dela e uns fios de cabelo, agora castanhos escuros, pendurados no assento do passageiro. Foi bom. A noite foi boa. Ela não vai falar mal de mim. E também não vai falar nada de mim. Nem bem. Como ele quer que ela seja misteriosa e suma durante todo o dia de hoje. Ele quer sentir o frio na barriga, o nervoso pra saber se ela vai atender ou não. Não seja fácil, minha filha. Não escreve que gostou. Deixa eu sofrer um pouco. Deixa.

Ele chega na agência e não vai direto pro café. Espera ninguém estar passando atrás dele e digita o site dela. Sua frio, melhor pegar o café. Não, vai de uma vez. Vai. Abre. E de repente. Lá está. Um texto. Um texto pra ele.

Caramba, ela já escreveu? É o primeiro texto que alguém escreve pra ele, tirando uma tontinha da época da faculdade que botava frases do tipo “eu sei que quando tiver de ser, será” nas cartinhas que ele nem lembra mais onde foram parar. Coitada. Agora é uma escritora de verdade. Ele ri, porque a escritora de verdade se acha um pouco dizendo que é de verdade.

Ele gosta dela. Não tem mais como fugir. É, da medo. Ela deve estar com medo também. Gostar é começar o inferno tudo de novo. Mas ela, quem diria, escreve lá no texto que topa. Topa começar tudo de novo. E faltando um parágrafo pra terminar o texto, ela manda, na lata mesmo: “quero te ver hoje”. O que será que ele vai responder?

Ele então pega o café. E sai cantando como se o dia estivesse diferente. Over and over and over and over...

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h53
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Dercy nossa, que estais no Céu.

De Carlos Castelo.

A idéia que eu fazia de Purgatório era diferente.

Imaginava um tipo grandioso de quiosque lá em cima no céu, com ar de qualidade, bastante respirável e cristalino. Uma luz diáfana como as que se vê com facilidade em ilustrações bíblicas perfuraria com suavidade as nuvens de algodão divinas.

À frente desse quiosque magistral, mais precisamente em seu portal, haveriam imponentes arcanjos à espera daqueles que chegassem de suas vidas terrenas.

Ao fundo, num trono, o Poliarca estaria pronto para ouvir - com compaixão cristã - a trajetória de cada vivente.

Mas lamentavelmente tive meu passamento, fui para lá e não era nada disso.

Mal tive tempo de perceber que já era e estava num lugar penumbroso, úmido e com cheiro de desinfetante de eucalipto barato, desses usados em banheiros públicos.

Os candidatos a entrar no Firmamento, entre eles eu, estavam todos espremidos numa salinha suja e tão escura que não se conseguiria reconhecer o Jô Soares pelado, lambrecado de marshmallow, fumando um Cohiba.

Havia um silêncio pesado, que logo foi interrompido por uma incômoda microfonia. Uma voz de homem, com forte sotaque hebraico, disse num português carregado:

- Faz favor, a próximo!

Ouvi um resmungo de enfado e, em seguida, ruídos de saltos altos femininos ecoarem pela sala: toc, toc, toc, toc.

Era alguém indo para “patíbulo”.

Apurei ao máximo a audição. A voz masculina vinda do sistema de som aumentou de volume se expandindo para todas as alas fétidas do Purgatório. Era como se todos precisassem escutar a entrevista final uns dos outros.

- Nome?
- Dercy.
- Profissão senhora?
- Puta.
- Senhora ter certeza que profissão senhora essa?
- Porra, e tu acha que tem diferença entre uma atriz e uma puta?
- Descreve vida senhora no Terra, faz favor.
- Uma merda.
- Ficha senhora diz: senhora mulher famosa.
- Famosa? Ai meu caralhinho! Adianta ser famosa e só tomar na tarraqüeta?
- “Tarraqüeta”, faz favor, explica melhor palavra?
- Cu. Que adianta ser famosa e só tomar no meio do cu?
- Por que senhora “tomar em seu tarraqüeta” assim, tempo todo?
- Porque fui burra pra caralho, meu filho. Sai da minha cidadezinha no interior, me meti a fazer teatro de revista e só conheci homem filho da puta na minha vida. Só bundalelê, seu padre.
- Eu não ser padre, senhora. Eu ser Poliarca.
- Poliarca, patriarca, pederasta, eu sei lá o que tu é. Eu sei é que eu tô com uma fome fodida. Não tem nada pra comer nessa boceta não?
- Senhora, faz favor...
- ...é só um bando de nêgo fantasiado de franga olhando pra gente com cara de cu, parece que alguém enrabou a mãe deles. Que porra de lugar escroto é esse aqui, seu Pederasta!
- Senhora estar na meio caminho para Céu ou Inferno. Aqui não ter nada para senhora comer.
- Puta que pariu, não tem nem uma carninha batida com quiabo nessa porra?
- Lamenta dizer que não, senhora.
- Olha aqui, seu Pederasta, se isso aqui for uma pegadinha da Globo, rescindo meu contrato na hora, tá sabendo? Aí eu quero ver essas merdas dos programas de vocês darem audiência sem meus xingamentos! Se eu não comer em cinco minutos, vou botar pra foder nesse rendez-vous de viado!
- Mas senhora não entende? Senhora morreu!
- Quem morreu foi você, seu santo do caralho oco! Eu tenho 100 anos e um puta público que me adora, entendeu bostalhão? Me bota num palco aqui e tu vai ver se eu não faço esses teus anjos baitolas rirem até estourarem as pregas do rabo. Vai, anda!

Nesse momento, houve uma grande e aguda microfonia. O sistema de som tinha sido cortado. Contudo, passados alguns momentos, foi novamente religado. Depois de um pigarro e uma tosse fraca vinda das caixas, pude ouvir a voz com sotaque europeu oriental mais uma vez:

- A próximo, faz favor.

Agora era a minha vez.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 19h35
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O caçador de crocodilos e a astronauta.

De Cléo Araújo.

Os dois estão em um bar.
Ela com uma amiga numa mesinha; ele com um amigo, encostado no balcão. A amiga, então, vai até o banheiro, e ele aproveita para se aproximar dela, que segura uma mecha do cabelo e a movimenta fazendo rolinhos.
Direto, ele inicia o diálogo: “Oi. Posso?” - e puxa uma cadeira.
Ela, ainda fazendo rolinhos com a mecha de cabelo, responde: “A gente se conhece?”.
Ele diz que não, mas pergunta seu nome e se oferece para pagar uma bebida.
“Meu nome é Gilberta. E o seu?”
“Patrício.”
“Então, Patrício, o que é que você faz?”
“Sou caçador de crocodilos. E você, Gilberta?”
“Sou astronauta.”
Tudo mentira.
Primeiro porque o lance de pagar uma bebida só funciona como cantada em filme americano. Segundo porque tratamos aqui de um diálogo insólito, a despeito dos inúmeros encontros casuais que a vida oferece, seja no boteco, no avião, no metrô, no ônibus, nos scraps do orkut ou até na sala de espera do dentista.
Geralmente, e diferentemente do que nos traz a hipótese “Gilberta versus Patrício”, o nome nem é a primeira coisa que se pergunta. Mas a pergunta sobre o ofício do outro a gente invariavelmente faz. E nisso, Gilberta e Patrício acertaram.
É assim: posso até não saber que ele se chama Anísio, mas sei que ele trabalha como dublê no SBT.
Isso talvez ocorra porque a indagação “O que você vai ser quando crescer?” seja uma das mais intrigantes questões da existência. Essa pergunta, do instante em que é introduzida à vida de um fedelhinho pré-adolescente, começa a despertar prospecções e projeções altamente criativas. E mesmo que essas costumem ser frustradas no futuro - ele descobre que não vai poder ser o Shrek e ela que não vai poder colocar “Tomb Raider” no objetivo do Currículo – é o que você faz que geralmente importa.
Não quem, mas o quê você é.
Eu já conheci muito publicitário, por exemplo. Não me lembro se Fernandos, Fábios ou Guilhermes, mas sem dúvida publicitários.
Conheci também empresários, advogados, médicos, produtores, programadores e fisioterapeutas.
Coisas básicas. Coisas, enfim, que constam da lista de vagas da Catho. Uma gente que, assim como eu, vai lá, escolhe a profissão, estuda (ou não) e fica com uma resposta prática para oferecer às pessoas quando inquirido a respeito da sua labuta.
Mas... E um árbitro de futebol? Ou algo como “Oi, tudo bem? Eu? Sou afinador de pianos.” Incomum trocar idéia com um Deputado Federal num bar qualquer da vida, não? “Sou deputado eleito pelo Rio de Janeiro. E você?”
Nunca conheci um meteorologista - “comecei com garoas e trovoadas esparsas, mas hoje trabalho no setor de ciclones extratropicais”; não encontrei por acaso com um adestrador de cachorros, tampouco com um cartunista, um maestro, um capitão de transatlântico, um perfumista, um sismólogo, um detetive, um coreógrafo ou um guarda florestal.
A gente cansa, depois de uns 30 anos, de conhecer a galerinha do mercado financeiro e os atendimentos de agência. Todo mundo legal, todo mundo com algo a agregar, tudo bem, mas pensar no universo infinito de pessoas com profissões inusitadas que estou deixando de conhecer me deixa aflita. É como se eles estivessem todos se escondendo em algum lugar secreto, algum boteco subterrâneo ou em alguma sala de espera misteriosa.
Empinadores de pipa, ventríloquos, encantadores de cavalos, palhaços de rodeio, comissários de bordo e campeões de boliche.
Sim, é lá que eles devem estar, esses seres interessantíssimos.
Divertindo-se escondidos e casando-se uns com os outros.
Patrícios e Gilbertas... Seguros e protegidos de nós, trabalhadores óbvios e monótonos que limitaram suas vidas ao que nos oferecia o manual da FUVEST.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 12h05
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Cruzamento.

De Antonio Prata.

Vou para o dentista, duas da tarde, meu carro corta com esforço a geléia modorrenta em que o ar se transformou esses dias. Um casal de adolescentes começa a atravessar a rua, de mãos dadas, à minha frente. Eles dão uma olhada para o meu carro, de leve, calculando. A garota faz menção de apressar o passo, o garoto a dissuade com um olhar de esguelha e, talvez, um discretíssimo aperto na mão. Eles seguem seu ritmo, lento, rumo a outra calçada.

Se nenhum de nós mudarmos nossas velocidades, acabarei por atropelá-los. É evidente que eles sabem disso, como é evidente que isso não acontecerá, pois eu venho devagar e basta pisar de leve no freio e pronto, saímos todos, são e salvos, eu para o dentista e eles para a casa dos pais de um deles, onde se deitarão numa cama de solteiro, embaixo de uma parede cheia de fotos e posteres e frases de canetinha hidrocor tipo Ju-eu-te-amo-amiga!, e descobrirão que a vida é boa.

Este pequeno acontecimento me atinge em algum calo das minhas neuroses urbanas. Irrito-me porque eles fingiram que a velocidade deles estava certa, mas sabem que, se não morreram atropelados, é porque eu diminuí o ritmo. Mais ainda, talvez, porque o garoto passou para a menina a idéia, naquele olhar fugaz, de que com ele ela estava segura, de que era só confiar e tudo daria certo, eles chegariam ao outro lado da rua, depois ao outro lado do mundo, se quisessem, e seriam felizes para sempre. Mas foi o tiosão aqui quem tornou a travessia possível.

Percebo então que quem atravessou a rua à minha frente não foi um casal de adolescentes, foi a adolescência em si. E quem freou o carro não fui eu, mas a idade adulta. Pois é assim que a adolescência lida com o mundo. Não capitula: arrisca, peita. “Imagina, se eu mudo meu ritmo, o mundo é que se acostume a ele!”, e porque os adolescentes têm um anjo protetor dos mais poderosos, ou, pelo menos, uma sorte do tamanho de um bonde, acontece de chegarem, quase sempre, sãos e salvos do outro lado da rua.

Já a idade adulta pondera, põe o pé no freio quando convém, faz concessões ao mundo, dirige afinado com a sinfonia dos outros, dentro dessa outra geléia modorrenta cujo nome, hoje, soa tão adolescente: sistema. E por isso me irrito, porque ali, naquela rua, diminuindo meu ritmo, me percebo velho, adequado, apascentado. Eles vão no ritmo deles, a realidade que se vire e é assim, distraídos, que mudam o mundo.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 10h04
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A quadrilha do planalto.

De Edson Aran.

Uma historinha de festa junina.

Eu estava cochilando na rede, quando a estridência do telefone me tirou do estupor. Era o compadre Ciboronato Conegundes.
“Ordinelson, trem à toa, tu ainda tá tocando?”, perguntou o indigitado.
“O dinheiro tá curto pra pagar puta, compadre”, eu expliquei.
“Tô falando do triângulo, excomungado da porra!”
Ah, sim! O triângulo. Eu, Ordinelson Peçanha, sou o maior tocador de triângulo do nordeste. Foi meu pai, Oriclides Peçanha, quem me incentivou.
"Aqui todo mundo vai tocar alguma coisa”, ele falava. “Sanfona, zabumba, reco-reco e se o desembestado for muito retardado vai tocar triângulo!”
No triângulo fiquei, no triângulo me formei. Eu matutava sobre esses bons tempos quando compadre Ciboronato Conegundes me tirou de novo do estupor.
“Sai de novo do estupor, excrescência! Meu tocador de triângulo morreu em briga de faca na Ceilândia. Tem um arraial chique de dar nojo hoje à noite e eu tô precisado de um triângulo, Ordinelson. Lá é tudo do bom e do melhor e tem cachaça que não acaba mais!”
Aceitei. Estava matando vira-lata a grito. Peguei o triângulo, entrei no Fiat 157 e queimei o chão. Quando cheguei no lugar, tinha um monte de carros de placa branca. Dois brutamontes de ternos tomavam conta da entrada. Na minha frente tinha uma mulher que eu tinha visto na televisão, de vestido azul com remendo de mentira.
“Veio participar da quadrilha?”, perguntou o homem de terno pra ela. 
A velha virou uma surucucu.
“Me respeite, vagabundo, que a CPI não descobriu nada!”
Ela entrou e eu fui atrás. Eita festa boa da moléstia. Tinha pipoca, milho verde, cural, cerveja, vinho, vodca, campari, martini, licor, grapa, champanhe, cerveja, whisky, rum, conhaque, saquê, cachaça e quentão pra tudo quanto é lado. Eu ainda estava no primeiro copo, quando compadre Ciboronato Conegundes me bateu no ombro:
“Sobe no palco, trem à toa. Daqui a pouco as autoridades vão sair em procissão e depois o forró vai comer!”
Subi no palco a tempo de ver a procissão. Na frente vinha um gordo barbudo e suarento, vermelho de cachaça, carregando o estandarte de Santo Antônio. Atrás dele vinha um monte de autoridade vestida de caipira chique. Roupa com remendo de mentira e chapéu de palha novinho. Porque caipira, a gente sabe, anda tudo rasgado, molambento e não tem dinheiro pra encher a cara de pinga que nem aqueles degenerados. E, olha, eles estavam mais encharcados que cachorro em dia de chuva.
O barbudo cachacento trocava passo feito peru de natal. De repente, o desconjuntado tropeçou e enfiou o estandarte do santo na cabeça de outra autoridade que vinha passando. O atingido virou uma jararaca:
“Você fez por querer, pinguço safado! Agora eu quero mais dois ministérios e quatro estatais, senão saio da sua base de apoio!”
O cachaceiro barbudo arrancou o paletó e já ia sair no braço com o outro. Mas compadre Ciboronato Conegundes, vivo como ele só, percebeu que ia dar merda e gritou no microfone:
“Vai começar a quadrilha! Todo mundo dançando! Todo mundo dançando!”
Os mangüaceiros esqueceram as desavenças e começaram tudo a dançar. Eu mandava brasa no triângulo, cego Oraldino Nestor castigava a sanfona e Toninho Zarolho batia zabumba, enquanto compadre Ciboronato Conegundes comandava a quadrilha.
“Olha a cobra!”, ele dizia.
E os pinguços gritavam:
“Úúúhhh!”, e viravam pro outro lado.
“É mentira!”
“Úúúhhh!”, viravam de novo.
“Olha a onça!”
“Úúúhhh!”
“É mentira!”
“Úúúhhh!”
E assim foi. Compadre Ciboronato Conegundes se empolgando e animando os pingaiada. Então de repente, o compadre falou:
“Olha o ladrão!”
Pra quê?! O barbudo cachacento rasgou a camisa e partiu pra cima do compadre:
“Ladrão é a puta que te pariu, forrozeiro elitista do caralho!”
Foi uma confusão daquelas de bordel. Voou cadeira e garrafada pra tudo que é lado. Eu aproveitei a bagunça e escapuli pelo portão, mas fiquei no prejuízo: não vi a cor do dinheiro e ainda perdi o triângulo. Por isso que eu digo: o próximo barbudo pinguço que eu encontrar na rua, eu meto a mão no pé do ouvido.

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h33
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