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Mais uma crônica que muda de telinha...

De Nelson Botter Junior.

 

Transformei em animação uma de minhas crônicas que foram publicadas no livro "Blônicas", pela Editora Jabuticaba (à venda nas melhores e piores livrarias). O texto foi publicado uma vez aqui, há muito tempo, mas quem quiser pode lê-lo abaixo. E aqui também vai o vídeo. A adaptação foi difícil, pois não quisemos usar uma narração pra explicar o que estava acontecendo. Além disso, usamos um plano seqüência único e o estilo das ilustrações é em xilogravura. A direção de arte é de Fernando Alonso e as ilustrações de Guilherme Ranoya.

 

Aceitamos críticas boas e ruins, afinal a sua opinião é o que nos faz produzir!

 

UM COMEÇO NO FIM - Tortuga Studios - 6 min. - 2008

 

 

UM COMEÇO NO FIM

 

De Nelson Botter Jr. 

 

Na beira da estrada havia um menino. O sol já se punha e a tarde alaranjada se refletia no asfalto. O ar seco cheirava a sangue, a ponto de causar enjôo. Com lágrimas nos olhos, o menino observava seu cão vira-lata. O cachorro estava morto, rasgado ao meio e largado ali, apodrecendo, para o delírio de moscas e urubus. O asfalto da estrada ainda guardava as marcas de borracha negra, provocadas pela súbita brecada do carro que atropelou o cão.


O menino chorava a morte de seu cachorro, Pirata, como nunca havia chorado antes. Era a primeira vez que enfrentava a morte de fato. Anos antes, ficara sabendo do falecimento de seu avô, mas não fora ao enterro. Agora, ele estava ali, sozinho, olhando para o corpo mutilado daquele cachorro.


Com as mãos trêmulas, o menino fazia carinho na cabeça do cão, como sempre o fizera quando vivo. Tinha a esperança de que Pirata iria abrir os olhos, levantar e sair andando, após uma boa chacoalhada para limpar aquele sangue todo. Mas ele sabia que aquilo não iria acontecer... Pensou na falta que seu cão lhe faria dali para frente. Amigo fiel e companheiro como poucos nessa vida. As lágrimas aumentaram.


Pirata nunca havia tomado uma vacina. Não era escovado e nem usava coleira. Também nunca soube o que era Bonzo ou qualquer outra ração. Não tinha o tal do pedigree e não era de raça, o que não fazia dele menos ou mais do que qualquer outro cachorro na face da Terra. “Somos todos iguais perante os olhos de Deus”, dizia a mãe do menino, e isso também se aplicava aos cães.


Com as mãos banhadas em sangue, resolveu cavar uma pequena cova ali na beira da estrada. A terra estava fofa e não foi difícil abrir um bom espaço para depositar o corpo do amigo. Pegou o cão no colo. O corpo mole, fedorento, a língua para fora da boca, os olhos entreabertos e sem vida. Faltava alguma coisa... Faltava o Pirata. Aquele não era mais o seu cachorro, era apenas um monte de carne que serviria de alimento para os vermes. Sentindo isso, jogou instintivamente o corpo na cova, fazendo com que as vísceras saltassem para fora. O menino não se abalou e empurrou a terra, cobrindo o cão. Olhou, então, para suas mãos que não mais tremiam. Estavam sujas de terra e sangue. Sua roupa também não estava das mais limpas. Viu a crosta escura de sujeira debaixo das unhas e pensou que aquilo demoraria a sair. Certas coisas, por mais que se lave, ainda continuam lá.


Mesmo sendo apenas uma criança, percebeu naquele instante que a morte não é simplesmente o fim, é também uma perspectiva de mudança, transformando de diferentes maneiras a vida dos que a cercam, dos que seguem adiante. Naquele dia, sentiu que algo de sua inocência havia se perdido. No fim de tarde alaranjado, na beira daquela estrada, morria um cão amigo, mas nascia um novo menino.

 

Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 19h53
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Auto-estima e a Síndrome dos Três Porquinhos.

De Gisela Rao.

Auto-estima é um assunto tão falado hoje em dia que chega a encher o saco. Dá vontade de dar um peteleco nas pessoas que viram do nada pra você e dizem: “Você precisa se gostar, ter uma auto-estima alta!”. Bom, a ouvinte, que já se acha um pano de prato ambulante, certamente tem vontade de se enfiar mesmo debaixo da pia, afinal parece tão simples se gostar e ela não consegue. Parece que é tão fácil quanto apalpar um mamão na feira ou comprar um moletom do Mickey, na Disneylândia. Mas, não é! Se gostar, enquanto a maré inteira tenta te convencer de que você não é magra o suficiente, não é linda o suficiente, não é sexy o suficiente, não é bem sucedida o suficiente... é dose! É como remar dentro de um caiaque no meio do tsunami. Na minha opinião, auto-estima é um negócio que se constrói de pouquinho, tijolo por tijolo... Não de uma vez só, na porrada.

Gosto de comparar a auto-estima à fábula dos Três Porquinhos. Às vezes, encontro mulheres com a auto-estima como a casa de palha de Cícero, o porquinho preguiçoso, completamente frágeis e, mesmo assim, arrastando trens por homens que, num simples sopro, as destroem em pedacinhos.
Também encontro mulheres como a casa de madeira do porquinho Heitor, com a auto-estima média, um pouco de insegurança, um pouco de firmeza, mas mesmo assim se sabotam facilmente botando muitas coisas a perder, principalmente no amor. Basta um gesto que pareça com rejeição e pronto:
é aquele drama. Foram poucas as mulheres que encontrei com a auto-estima de Prático, o porquinho inteligente. São auto-estimas trabalhadas, construídas com cimento e tijolos, praticamente inabaláveis. A má notícia é que posso contar nos dedos essas mulheres. Uma pena mesmo...
Vira e mexe transito pela casa de palha, de madeira e, às vezes, de tijolo no amor.

Mas se ainda transito tanto é porque preciso construir melhor o meu gostar, o meu aceitar. A melhor forma de fazer isso é quando você está só, solteira. E a maioria das mulheres pensa exatamente o contrário, que é preciso ter um homem ao lado para se sentir amada, para sentir-se valorizada. Terrível engano. Quando estamos só temos todo o tempo do mundo para a gente, pra se reconstruir, para aumentar nosso autoconhecimento. Quando você se liberta do pavor de ficar sozinha é aí que começa o seu verdadeiro processo de se amar. Dói no começo, mas depois é bom demais. Então, que resposta você se dá? Sua auto-estima é como a casa de palha, de madeira ou de tijolos – dos Três Porquinhos? Se a resposta for a 1 e a 2, minha pergunta é: onde está a sua pá? Chega de drama e vamos botar a mão na massa!

Gisela Rao é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h33
[]


Comendo o sistema.

De Cristiana Soares.

 

- Consegui despentear o cabelo dele. E pelado, sem terno, ele se veste de outro homem. Minhas botas que ele critica ficam observando como pode um burguês e um bicho grilo na mesma cama. E eu concluo que cama é o lugar mais democrático do mundo, junto com as praias cariocas.

Eles se conheceram num site de relacionamentos. Melhor dizendo, ele a encontrou. As fotos de webcam em baixa resolução o encantaram instantaneamente. Enviou uma mensagem. Ela, de cara, percebeu pela pinta de engomadinho e pela descrição do perfil que aquele sujeito era o que costumava chamar de burga. E falou quase que num tom audível para si: “Ele não sabe com quem está falando”.

Educada e até quem sabe comovida pela abordagem espontânea e simples do homem de gravata, respondeu com risinhos, naquele estilo “mulher dando mole”. Afinal ele era bonito e tinha uma pele morena que lhe falou mais alto do que as ideologias. Num rompante, deu o e-mail pessoal. O que vai contra as sugestões do site para a preservação da privacidade.

Por que ela deu o seu e-mail particular? Porque com as informações que ele passara, na mensagem assertiva e contundente, foi direto ao Google e confirmou todas elas. Se ele não a poupou de sua privacidade. Por que ela o pouparia do seu e-mail?

Afoito, ele escreveu pedindo o telefone. Ela queria MSN antes.

Num misto de atração e repulsa, ela conversa com ele enquanto repete interiormente o mantra. “Ele não sabe com quem está falando”. E pensa se não o enganou com sua cara de mulher clássica. Pois os closes não mostravam as roupas de sarja, os colares de sementes, pés descalços, bife de glúten e arroz integral que carrega na alma. Ainda não existem máquinas que fotografam essência.

Ele provavelmente não sabe com quem está falando.

Durante a troca de mensagens instantâneas, entre as várias revelações de gostos pelas coisas da vida, a temperatura começa a subir quando se esbarram num ponto onde invariavelmente mulheres e homens se esbarram. Quantas coincidências no que se refere a preferências sexuais. Intimidade à primeira vista.

Partiram para o telefone. Ele falava tão desembestadamente que ela quase desistiu. Ele, num átimo de consciência, se refreou a tempo. E deu a palavra a ela. Mas ela não conseguia ser ouvida. Porque ele só queria desejá-la. Fantasiá-la. E ela tentava dizer que ele não sabia com quem estava falando.

Ok, ela topa um encontro para ele parar de falar tanto. E quem sabe convencê-lo das extremidades que habitam.

Ela não deixou que ele a buscasse em casa. Não queria que ele a confundisse com uma namorada em potencial. Ela nunca o namoraria. Seria como um palestino namorar um israelense.

O encontro aconteceu num bistrô francês onde ela nunca tinha entrado antes (nesse e em nenhum). Para garantir pelo menos uma noite de paz, ela colocou seu vestidinho de boutique e não usou sua bolsa tipo carteiro, enviesada no corpo. Sapatilha de mocinha comportada.

Desceu do táxi como quem vai resolver um problema. Mostrar para aquele cara quem era ela, o quão distante estavam um do outro e acabar com aquela palhaçada de uma vez.

A recepcionista abriu a porta para ela entrar. E ela se sentiu entrando no campo do inimigo.

Lá estava ele no balcão todo garboso, feliz, ansioso. Veio em direção a ela com o olhar mais iluminado que ela já ganhara na vida. O terno até combinou com aquela luz. Ela o achou mais bonito do que na foto.

Com velas e o escambau, houve ali uma noite romântica. Ele cheio de boas intenções, fazendo planos para o futuro. Ela com uma sapatilha dentro, outra fora.

Depois de duas taças de vinho orgânico e de esclarecer a série de diferenças que os separavam (e ele não se abalar nadinha com nenhuma), ela se entregou à situação: se não pode ir contra ele, coma-o. Foi assim que ela comeu o sistema.

 

Cristiana Soares é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h29
[]


Só mais um pouco de cala a boca.

De Tati Bernardi.

Vai lá dentro do chalé, vai. Coloca o shortinho. O chinelo verde. Tira essa
sunga molhada. Quer ajuda? Posso te ver tomar banho? Posso jogar água
importada em você? Posso te ver contra a luz do sol? Deixa?
Fica sério de novo. Isso. Posso fazer um ensaio fotográfico com você? Jogado,
descabelado, na rede. E você ainda é o homem mais lindo do mundo. No
canto da foto dos amigos bêbados, e você é o homem mais lindo do mundo.
Com gorro, no meio da confusão do frio. Escondido embaixo de tanta roupa.
No fundo do mar. No escuro. De costas naquela festa chata. Meu Deus, como
você é lindo.
Não sei direito o que é aurora boreal, mas acho que deve ser algo lindo que se
formava enquanto você era feito. Não sei direito o que é isso que eu sinto por
você. Mas como é maravilhoso fumar você, cheirar você, tomar você, injetar
você. Calar a boca.
Sei que é por pouco tempo. Somos plantas diferentes. Pássaros diferentes.
Estamos experimentando nossos mundos tão excêntricos. Muito em breve
vamos nos afastar com a intensidade de opostos tão óbvios. Você vai ser
infinitamente o garoto mais lindo do mundo para suas garotas infinitamente
mais lindas do mundo. Todos com dezenove anos. Todos lindos contra a luz
do sol. Todos com cabelos de comercial. Todos idiotas e corados e lindos e
sem saber o que fazer com muita beleza e pouca idade. E eu vou continuar
esperando o meu tipo charmoso, mais velho, mais feio que você, melhor do
que você.
Mas por agora. Me dá mais um pouco desse cala a boca, vai. Vai lá dentro do
chalé, vai. Coloca o shortinho. O chinelo verde. Me pergunta uma daquelas
coisas para eu dar uma daquelas respostas que você morre de rir. Me deixa
pirar no seu céu da boca escancarado. Você se joga pra trás. E só porque
você e o mundo inteiro têm certeza do quanto você é lindo, você faz questão
de sempre se largar no mundo. É a liberdade que só tem quem é
infinitamente lindo ou infinitamente feio. Você é livre do mais ou menos e
isso me enche de algo que me faz querer cantar pra sua beleza. Eu sou mais
ou menos mas nesse segundo, já que comprei sua beleza, sou a mulher mais
linda do mundo. Vai, passeia no meu carrinho de supermercado. Me deixa
ser linda vestindo você. Entra em mim e me enche da sua vida fácil.
Outro dia me peguei pensando um absurdo que me fez feliz. É triste, mas me
fez feliz. Pensei se isso que você faz, de ficar horas comigo depois de ter
ficado horas comigo. Se isso é algum tipo de caridade sua. Porque, veja bem.
Somos plantas e pássaros diferentes. Eu sou a bonitinha que lê uns livros e
vê uns filmes. Você é essa força absoluta e avassaladora que jamais precisará
abrir a boca para impor sua vitória.
Você coloca aquele moletom cinza com dizeres do surf e eu experimento um
guarda-roupas inteiro pra ficar à sua altura. Você é essa força da natureza
que deu certo. Eu gasto metade do meu salário pra me sentir como você deve
se sentir escovando os dentes. Pra me sentir cabendo no mundo que deu
certo.
Abaixa esse queixo menino. Abaixa esse nariz. Anda rastejando com esse
chinelo verde e o queixo no alto. Você sabe que é superior. Você sabe que
pode fazer tudo devagar, o mundo te espera. O resto é platéia. Você sabe que
faz as pessoas tremerem a voz. Você sabe que deixa apenas duas escolhas
pras pessoas: te idolatrar ou sair correndo. E como eu não sou mulher de
correr da dor, deixo ela entrar as pouquinhos, esbugalhar meus sentidos,
enfraquecer meu orgulho. Quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o
que você não diz e vendo o que você não faz. Apenas curtindo a limitação
profunda e gigantesca da sua beleza esmagadora. Feliz em ser uma formiga
que carrega milhões de plantas nas costas só para ver algum esforço meu
alimentando você.
Vai, faz o bico de burro quando alguém não compra a sua forma. Faz os
olhos laterais pra me convidar pra mais uma das suas aparições. Faz o
dentinho pra frente pra me pedir mais um pouco. Faz o silêncio pra ganhar
de vez. De mim e do mundo.
Não existe não morrer um pouco quando você chega. E de vez em quando
tudo o que a gente quer é mesmo dar um tempo da vida.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 17h14
[]


Ensaio sobre a coleira.

De Max (cão de Henrique Szklo).

Mitos e verdades sobre o cinofilismo dialético.

Existe uma certa resistência, diria até uma má vontade mal-disfarçada, de vocês, humanos, em aceitar e compreender os preceitos básicos que contemplam o cinofilismo dialético, um estudo tão complexo e profundo da alma canina. Alguns de vocês, a maioria talvez, nem acreditam que nós, cães, tenhamos alma. Nos enxergam como seres praticamente celerados, ocos, insensíveis, colocados no mundo por Deus apenas para latir, abanar o rabo, farejar comida e fazer coco. Pelas babas do Pateta! Nada poderia ser mais injusto, para não dizer ultrajante.

O cinofilismo dialético é uma linha filosófica de bases muito sólidas que discute, de maneira ampla, reflexiva e transparente, alguns dos mais importantes e indispensáveis elementos da vida sócio-cultural dos cães. Um de seus principais temas é o repúdio insofismável à prática repulsiva de tentar manter nossas raças puras. Nada mais repugnante do que repetir o erro que vocês mesmo cometeram há alguns anos, estipulando regras de aparência e comportamento que caracterizam o que é “ser” de uma raça ou não, criando a categoria inaceitável de cães de segunda classe. Eu mesmo fui mais uma das tantas vítimas que esta prática execrável provoca em nossa psique. Não tenho nenhum orgulho em afirmar, ao contrário, mas sou filho de minha própria irmã, o que me causa naturalmente um tremendo desconforto. É claro que o meu pai não é totalmente culpado deste crime hediondo, já que foi colocado nesta situação e ninguém lhe perguntou se estava disposto ou não. Porém, não o eximo totalmente de culpa. Se ele não quisesse, não teria consumado o fato e hoje eu não existiria, mas ele poderia se sentir um cachorro mais digno. Fazer sexo com a própria filha, Dom Pixote me livre! De qualquer forma, milhões de cães em todo o mundo são vítimas deste que é o maior crime contra a cachorridade. E isso tem de acabar.

Não bastasse isso, ainda existem os concursos, que são verdadeiros festivais de preconceito. Quem pode ou não pode ser considerado de uma raça. Quem é o mais digno para ser legitimado como “puro”. Ridículo. E os idiotas que se propõe a participar deste circo ainda se sentem orgulhosos e caminham com uma empáfia de dar nojo. Para nós, seguidores do cinofilismo dialético, pedigree é uma afronta. Se tivéssemos mãos, rasgaríamos o nosso sem hesitação.

O que vocês não se dão conta, ou fingem não dar, é que isso prejudica sobremaneira a nossa vida sexual. Mutley explica! Segundo ele, todos os nossos problemas têm fundo sexual. Ainda mais nos dias de hoje. Vocês sabem que cães que vivem com humanos já tem uma certa dificuldade em encontrar parceiras. Não costumam sair muito e quando saem, estão sempre presos à coleiras, enforcadores e afins. O sexo livre foi praticamente abolido de nossas vidas e somos obrigados a manter relações sexuais com quem nossos donos escolhem. E ainda por cima, sob seus olhares curiosos. O mais difícil não é fazer sexo na frente de várias pessoas, mas sim conseguir manter a ereção ouvindo seus comentários sarcásticos e nada lisonjeiros sobre nosso desempenho.

Outra questão premente estudada pelo cinofilismo dialético é a necessidade inadiável de se criar novos sabores para a ração que nos é oferecida. Vocês, enquanto se locupletam com centenas de pratos, doces, salgados, milhares, milhões de receitas, oferecem aos seus ditos melhores amigos, um alimento seco, insosso e sem nenhum apelo visual ou olfativo. Vocês fazem uma idéia do que é comer todo santo dia a mesma coisa? Café da manhã, almoço e janta, a vida inteira o mesmo indigesta e desagradável alimento? Não, não devem fazer. Mas eu lhes afirmo: é insuportável. De qualquer maneira é fácil de perceber que o que falta é boa vontade da parte dos humanos. Nós podemos até compreender que a vida moderna exige que os alimentos de cães sejam práticos e que a nossa necessidade de nutrientes esteja plenamente satisfeita com as rações atuais. Ei, não precisa cozinhar para nós! Nós entendemos. Só o que pedimos é o desenvolvimento de rações com sabores, cheiros e consistências diferentes. Por que não uma ração com sabor pizza de calabresa? Ou de nhoque com porpeta? Lasanha seria espetacular. Sushi, frango assado com farofa. Ou ainda rações com aparência de um bolo de mil-folhas com profiteroles ou uma Lagosta ao Termidor. Por Snoopy, será que isso é pedir muito?

O cinofilismo dialético também trata de outra questão de suma importância para todos nós, membros da raça canina: o uso inadvertido, obrigatório e não-autorizado de roupas. Nós não queremos nem temos a menor vontade de nos vestir, principalmente aquelas roupinhas em que se lê SEGURANÇA. Pelo amor de Lassie, será que vocês não percebem que não fomos feitos para usar nenhum tipo de vestimenta? Já não nos basta a vergonha de ter de caminhar ao lado de seres bípedes com roupas, em geral de péssimo gosto? Olha, sou um intelectu-au, tenho amestrado, mas às vezes não consigo me controlar. Me pego em ataques de fúria e só consigo me acalmar com minha bolinha de borracha.

O cinofilismo dialético também dá rápidas pinceladas em questões menos importantes, mas não menos críticas, como a incompreensível proibição de cães em certos locais, a inaceitável obrigatoriedade de banho e tosa, a insistência dos humanos em jogarem coisas fora (nós corremos, buscamos e vocês pegam de nossa boca e jogam de novo), solicitações estúpidas como nos obrigar a fingir de morto, as vacinas dolorosas, o uso de enforcadores, as broncas que levamos quando cheiramos as partes íntimas das visitas, etc, etc, etc.

Após anos de estudos e desenvolvimento do cinofilismo dialético, a conclusão a que se chega é que se o ser humano considera que o cão é seu melhor amigo e nos trata de forma tão displicente, discriminatória e indigna, imagine quem ele considera inimigo. Bom, nem precisamos imaginar, não é verdade? Basta abrir os jornais todos os dias.

Max é cão de guarda de Henrique Szklo, que é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h43
[]


Graham Bell tinha insônia.

De Bianca Rosolem.

- Oi, é a Bi... . Eu sei, eu sei, tá tarde demais, eu vi no relógio da sala, acabei de chegar. Ahãn... . Eu vi uma coisa hoje, parece bobeira, eu sei, eu sei, eu fico assim às vezes, não tenho culpa. Humm, estou acendendo o cigarro...O céu está lindo, você viu? Um amigo me disse que é algo que não lembro o nome, mas a lua está mais perto da terra...Sim, sim, é um nome aí...Ela fica grandona, né? Eu acho que isso mexe com a gente sim, eu não sei, acho que estou mais para lá do que nunca... . Ah, desculpa, mas não dá risada! Eu vi uma moça hoje em uma esquina, parada...Ah, calma...Então, era o jeito dela, ela ficou parada, com os braços cruzados, andando pequenos passos de esperar, sabe? Eu fiquei olhando aquilo enquanto o sinal não abria...E não sei explicar, eu senti algo e fiquei olhando...Não, não é “viagem”...Escuta, porra, era bonito ela esperando, pensei tanta coisa, como aquele momento parecia um “start”...Calma, vou acender outro cigarro...Porra, me deixa fumar, esse papo anti-tabagista agora não...Então, escuta isso, eu fiquei pensando sobre essa coisa do “start”, ela ali parada, esperando, parecia o momento anterior ao momento, como aquelas coisas da física quântica, a matéria antes da matéria...Quê? Ah sim, comi um yakissoba lá na frente do MASP, deu azia...Cacete, não é o cigarro...Posso falar? Imagina ela ali, quanta coisa não poderia acontecer sabe? Eu só vi ela esperar enquanto o sinal também me fazia esperar, nós duas estávamos suspensas de nossos próprios fatos. Estávamos aguardando o segmento da vida, juntas, mas cada uma iria para um destino...Calma, não tô falando de destino do tarô, mas tá vendo, ouve só! Você entende isso, o quanto é sublime e inexato...Nós duas aguardando, foi um minuto ou mais, ela continuou e eu fui, ela ficaria ali e eu não saberia o que ela aguardava...É isso que estou falando, eu fiquei imaginando o que ela esperava, como aqueles programas com três finais diferentes para escolher...É, era uma merda mesmo, sim, sim, da rede Globo, éramos bem pirralhos, né? Então, aí pensei em escrever algo sobre isso, uma pessoa esperando, e a vida passando na frente dela, e ela pescando as oportunidades, os acontecimentos...É, também acho, parece brincar de deus, clichê também, Hollywood tá cheia disso...Hey, me deixa falar! Mas é legal isso né? Ahãn, eu acho que senti mesmo a situação, como aquele suspiro antes de pular...Exato, suspenso, é essa a palavra! O momento suspenso antes de um grande acontecimento, como foi “o antes” da bomba explodir em Hiroshima...Esses segundos, estes fragmentos de tempo antes do tudo. Né? Ahãn, como o “Big-Bang” e a espera do universo para se expandir. Pois é, como vamos saber que estamos a um passo do grande momento, o que estamos esperando afinal? Eu fiquei intrigada sobre isso até chegar aqui em casa, precisava falar sobre isso, desculpa mesmo te acordar...Eu sei que você no fundo gosta disso. Não, não vou te convidar para uma noite de sexo selvagem agora...Só você para me fazer rir...Eu estava melancólica, já fui até ouvir Sarah Vaughan...Agora estou dando risada, tá vendo, perdi a inspiração para escrever sobre o grande mistério da vida, sobre essa coisa do “antes-do-antes”, sobre esperarmos sem saber...E agora? Quê? Boa idéia! Vou escrever nossa conversa, é isso, vou começar agora...Agora já foi, deu a idéia e eu abracei... O título será “Graham Bell tinha insônia”, sua colocação para me tomar por inconveniente. Amanhã entra lá no “bróg” e lê...Ah é! Esqueci! Você acha isso de blog exercício de ego anônimo...Por isso que eu te amo e não trepo com você...Ahahahaha...Estamos suspensos também?! Quem sabe, né? Beijo.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 17h05
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Exame.

De Lusa Silvestre.

- É você que faz o exame médico?
- Sou.
- Você é mulher.
- Verdade. Isso vai ser problema?
- Não, imagina. É que sempre é um enfermeiro; nunca é enfermeira.
- Na verdade, eu não sou enfermeira, sou médica.
- Mulher e médica. É melhor; deve ser melhor.
- Esperamos que sim. Faz assim com a mão, abrindo os dedos.
- Deve ser frustrante ser médica e ter que ficar fazendo exame médico pra entrar em piscina.
- Faz parte. De algum jeito tem que se começar.
- Mas você faz uma residência, uma especialização, uma coisa dessas?
- Ainda não. Mas quero fazer dermatologia. Vira a mão.
- Eu não daria pra médico.
- Por que? Não gosta de sangue, essas coisas?
- O sangue nem é problema. O problema ia ser ficar examinando gente. Pegando em gente, sabe? Vai que o cara tem está com cheiro de cecê, com frieira, com bafo.
- Acostuma.
- Você já pegou gente assim?
- Claro. Mesmo aqui no clube, que é um lugar -digamos- mais de gente bem nascida, mesmo aqui aparece uns que, olha.
- Gente feia, é?
- Gente feia, gente mal educada, de vez em quando vem um com cada frieira que você não consegue imaginar como pode deixar chegar naquele estado. Levanta o braço.
- De perto, somos todos feios.
- Não, você não é feio.
- Bom, perto do que você deve ver por aqui, realmente.
- Não, você tem uns olhos muito bonitos. Vira de costas.
- Eu fico vermelho fácil.
- É, tem que usar protetor solar.
- Não, vermelho de vergonha. Você falou dos meus olhos, eu fiquei vermelho.
- Que bonitinho.
- De sunga, e vermelho de vergonha. Muito bonitinho.
- Agora eu vou ter que olhar sua virilha. Afasta a sunga pro lado. Isso.
- Você é bonita.
- Gorda assim?
- Gorda onde?
- É o avental branco. Acaba escondendo. Estou cinco quilos acima do meu normal. Fim de curso, muito stress. Eu ataco a geladeira.
- Eu também gosto muito de comer. Sou magro de ruim.
- Adoro sair pra comer fora, jantar. Agora, afasta o outro lado da virilha.
- Você tem namorado?
- Não tenho. Tinha, mas desmanchei. Desmanchamos.
- É ruim, isso de desmanchar.
- Foi, mas passou. Não era o cara.
- Eu também estou sem ninguém. Acabei de me divorciar.
- Isso é complicado.
- É mesmo. Mas, foi bom. Mesma coisa: ela não era minha alma gêmea.
- Quando não dá o clic, nem adianta. Essa lesãozinha aqui, o que é?
- Isso é um furúnculo quase curado. Desculpa.
- Desculpa do quê?
- Ah, estamos falando de namorados, de jantares, e eu apareço com um furúnculo. Pouco romântico.
- Que bonitinho.
- Olha só; fiquei vermelho. Não falei?
- Tudo bem. Furúnculo não é nada. Pior se você tivesse frieira.
- Isso ainda você não sabe; ainda não examinou meu pé.
- Ah, mas você que é dono do pé não sabe se tem?
- Nenhum homem sabe, sem olhar antes, de antemão, se tem ou não frieira.
- Olha só: aprendendo sobre os homens.
- Escuta, posso fazer uma pergunta?
- Pode. Põe o pé aqui nesse banco, e abre os dedos.
- Não, antes de você ver o meu pé. Você não quer almoçar comigo, aqui no clube mesmo?
- Eu adoraria. Abre os dedos.
- Você topa?
- Já falei que topo. Passa aqui meio dia e meia. Abre os dedos.
- Não.
- Eu preciso ver.
- E se eu tiver frieira?
- Já vi antes. Abre os dedos
- Você almoça comigo do mesmo jeito?
- Almoço.
- Mesmo?
- Mesmo. Agora deixa eu ver o outro. Tá vendo? Você não tem frieira.
- Pronto: fiquei vermelho de novo.

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 21h08
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Exercícios de pontuação amorosa.

De Xico Sá.

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final. 

Sim,  o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar...”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.

Sem reticências...

Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido  prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem mané-metáforas.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro, barraqueiros corazones.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem no Crato... nem na Suécia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.

O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.

E vamos ficando por aqui, pois já derrapei na curva da auto-ajuda como uma Kombi velha na Serra do Mar... e já já descambarei,  eu me conheço, para o mundo picareta de Paulo Coelho. Vade retro.

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 19h52
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Diário do Roque.

De Carlos Castelo.

ÚLTIMA SEMANA DE ABRIL
 
Descolamos a garagem do Alan pros ensaios.
Minha idéia era um grupo poderoso, com influências do rock
progressivo, tipo Yes, King Crimson ou na linha do Emerson,
Lake & Palmer.
Rubão ensaiou uns acordes à Chris Squire no baixo sem traço.
Tuga ouviu Robert Fripp por horas pra pegar o jeitão da
guitarra e a “discipline”.
Os sintetizadores ficariam por conta do Kaveira, o batera.
Sem dúvida, era uma dificuldade técnica a se considerar, já
que tocar bateria e solar quatro teclados ao mesmo tempo não
é moleza.
Mas se Rick Wakeman conseguiu manejar aquela tecladeira toda
no tempo dos estúdios à lenha, dava pedal.
 
PRIMEIRA SEMANA DE MAIO
 
No ensaio, mostrei pros três as palavras que tinha colocado
em cima da melodia do Tuga.
Eu tinha visto no Discovery Channel um especial sobre a
influência da mitologia nórdica no nazismo e achei que
aquilo tinha tudo a ver com nossa pegada.
Chamei a música de “Os primeiros dias na noite de uma
Atlântida reencontrada”.
Ela contava a epopéia de um guerreiro viking que ressuscita
de uma batalha ancestral e resolve encontrar o Continente
Perdido de Mu usando uma jangada, uma espada e um alce.
Todos piraram.
Começamos a elaborar o som no ato.
Pedi ao Alan uma modulação especial, pra que meu tom ficasse
entre Jon Anderson e Jerry Lee Lewis.
Os caras pegaram os instrumentos e soltei o vozeirão.
O lance fluiu bem durante os quatro primeiros encontros na
garagem.
Até o dia em que o Kaveira chegou ao ensaio com um disco de
Dona Ivone Lara.
 
- Que porra é essa? – falei.
- Pensei em botar umas variações de agogô naquela parte do
solo em que o viking é quase comido pelo dragão – ele explicou.
- Ficou maluco, bicho?
- Cara, vai por mim, é bacana uma batida de couro de gato
ali…Rataplá, rataplá, catatá, tatá…
- Quéisso? Já viu Billy Cobham metendo ganzá, cuíca numa
faixa da Mahavishnu, bicho? Fala aí: já viu?
 
Rolamos por cima dos Korg do Alan (ele ainda estava pagando
o carnê de uma loja da Teodoro). Nem era o show e já
quebrávamos tudo.
 
 
SEGUNDA SEMANA DE MAIO
 
Conseguimos mostrar nosso medley no saguão de um cursinho.
Tínhamos descolado trajes maneiraços no guarda-roupas da mãe
do Tuga. A mulher é sócia de um brechó e tinha altos panos
em casa.
Montamos com ajuda dela algo que passasse a saga do viking.
Ela tinha uns elmos que comprara no rescaldo de um desfile
da X-9 nos anos 80.
Como eram só três, os de palco usavam a fantasia e o Kaveira
ficava na dele, na cozinha, lá no fundão do palco.
Tava indo superbem o show. Os primeiros quinze minutos – a
parte que o viking renasce e toma a poção de fígado de rena
- foram geniais.
Cheguei a ver vários bicho-grilos loucões dançando na frente
da gente.
Imaginei que ia bombar, quando ouvi o estrondo e o fogo se
alastrando.
Só pra se ter uma idéia, o papouco foi tão espetacular que
uma hippie bêbada aplaudiu pensando que fosse efeito especial.
A bruxa estava solta. Na hora do solo dos sintetizadores,
Kaveira não conseguiu uma boa sincronização com a bateria e
se estabacou em cima da mesa de som.
O quarteirão onde ficava o cursinho teve um apagão elétrico
de seis horas.
 
QUARTA SEMANA DE MAIO
 
Ao sair do hospital, Kaveira decidiu abandonar
definitivamente a música e se matricular num curso de
tecnólogo em banco de dados. Tuga e Rubão foram chamados pra
tocar num bufê infantil. Um vestido de Tico, o outro de
Teco. A grana compensava a roubada, os caras toparam a
bronca e lá se foram baixo e guitarra.
Olhei pro Alan, Alan olhou pra mim. A garagem vazia, aquele
azulejo frio.
Durante os ensaios da nossa fase progressiva ele acertava a
mesa, os mics. Eu cantava. A idéia era quase óbvia. Falei na
lata:
 
- Vamos fazer uma dupla de rap, mano!
 
SEGUNDA SEMANA DE JUNHO
 
Defendi pro Alan que seria legal construir raps, mas com um
ponto-de-vista original, diferente do que se ouve aí pelas
quebradas.
Bolei rapidinho meia dúzia de letras na batida do Eminem.
O núcleo era a história de Edinelson, um cara branqüelo, gay
e de classe média alta que morava numa casa vizinha à favela
do Come-Solto. Ele queria ser cantor de hip-hop, mas sofria
todo tipo de preconceito dos negões do pedaço.
Alan fez um “dub” realçando o eco da minha voz. Ensaiamos
com ele de DJ durante 10 dias.
Ficou animal.
O brother que vendia bagulho pra gente descolou uma
apresentação na entrada de uma favela na Zona Norte.
Domingão à tarde, Alan e eu vestimos umas camisetonas
gigantes, bonés pra trás, tênis sem cadarço e fomos rumo ao
nosso novo público.
O larguinho da favela lotou.
Alan meteu a sonzeira nas caixas, eu mandei um “salve” e
cantei o refrão com fé: “Só porque sou branqüelo, classe
média e gay/ os caras da favela num me suporta, eu sei”.
Não havia reação. Ninguém se mexia, rebolava, batia palmas,
nada.
Eu continuava berrando num sotaque bem mano , forçando os “r”.
Aí, do nada, meia dúzia de manos subiu no palco. Vieram pelo
flanco, a gente achou até que tavam a fim de dançar junto
com a gente, se mostrar pra galera da favela.
Só que um deles pegou uma caixa de som e levou. O outro
catou a outro, se mandou.
Vieram mais alguns e foram pegando os mics, o meu pedestal
e, por fim, a mesinha de DJ do Alan.
O último pegou nossos bonés e os tênis.
Ficamos os dois sozinhos e descalços no meio da rua.
 
TERCEIRA SEMANA DE NOVEMBRO
 
Shows com platéia lotada, vibrante e fervorosa depois de
meses. Tuga e Rubão deixando as festas infantis pra voltar a
se juntar a nós. Mesa, mics, caixas, tudo novinho em folha.
Ônibus com ar refrigerado que nós transporta pelos estados e
já nos levou até Rosário, na Argentina.
Só dá pra dizer que devemos tudo isso ao rock evangélico.
Depois de várias tentativas fracassadas, a minha composição
em parceria com o Alan “Os primeiros dias na noite de uma
Judéia reencontrada” estourou a boca do balão.
 
(Na verdade troquei apenas a espada e o alce por uma cruz e
um cordeiro, o resto ficou tudo igualzinho).
 
Foi o Senhor quem nos iluminou, disso não tenho mais dúvida.
Na fase do desespero pós-rap, pedimos a ajuda de Tuga e
Rubão pra gravação de uma demo na linha gospel.
Entre uma festinha de aniversário e um batizado, eles
fizeram a base num estúdio semi-doméstico.
O técnico de som era crente e acabou jogando o cedezinho na
mão de um pastor.
Aconteceu o milagre. Quinze dias depois estávamos tocando no
estádio do Pacaembu, vestidos de profetas - adotamos os
nomes de Ismael, Baruk, Nehemias e Jó - pra uma platéia de
25 mil fanáticos que gritavam, choravam e jogavam terços,
bíblias e notas de 50 no palco.
O sucesso tinha finalmente nos abençoado com sua Luz.

Aleluia, Senhor, yeah!

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h38
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Possuído pela dúvida.

De Silvio Pilau.

Juro que ainda não sei o que pensar de Possuídos. Na verdade, sei que admiro a obra e a coragem de William Friedkin em contar essa difícil história. Afinal, espera-se que um cineasta consagrado, pertencente ao panteão do cinema norte-americano graças a O Exorcista, limite-se a projetos mais seguros, onde pudesse manter seu status e não despertar o ódio das platéias. Particularmente, não odeio Friedkin por Possuídos, mas é bem provável que muita gente o fará.

Quem assistiu a algum trailer de Possuídos, pode começar a esquecer o que viu. O filme nada tem a ver com o que foi vendido. Não é uma história de terror sobre insetos assassinos se infiltrando sobre a pele das pessoas. O único inseto que o espectador verá é o que vai pousar na tela da televisão. Nada mais. Possuídos, na realidade, é um interessantíssimo estudo de personagens, repleto de significados e detalhes que deixam muitas questões para a platéia responder.

E isso é bom? Nem sempre. É um caminho arriscado para qualquer cineasta construir uma obra vaga, que deixa lacunas a serem preenchidas. Quando o diretor sabe o que faz, o resultado é positivo. Fellini em 8 e ½, Kubrick em 2001 – Uma Odisséia no Espaço e David Lynch em Cidade dos Sonhos são exemplos de incursões bem-sucedidas nessa área. No entanto, estes são raros acertos. Normalmente, o que se vê são filmes confusos, sem pé nem cabeça, que tentam mascarar os problemas sob o rótulo de “inteligente”.

Possuídos não é nem um, nem outro. O filme possui, sim, sua parcela de falhas. A narrativa é repetitiva, revelando sua a origem teatral, com os personagens voltando ao mesmo assunto dezenas de vezes, o que torna o filme, por vezes, cansativo. Da mesma forma, há cenas desnecessárias, com o único propósito de encher lingüiça. E, claro, muitos momentos criados por Friedkin e pelo roteirista Tracy Letts parecerão sem o menor sentido para a grande maioria.

No entanto, Possuídos não chega a ser uma produção tão difícil de acompanhar ou entender. A construção da história é interessante, uma vez que Friedkin não tem pressa em apresentar e construir os personagens. Somente depois que o espectador conhece Agnes e Peter, as maluquices começam a acontecer. Por isso afirmei lá em cima que Possuídos foi mal marqueteado. Na realidade, não é um filme de terror, mas um conto sobre a aproximação entre duas pessoas repletas de problemas. Pode parecer estranha essa afirmação, mas Possuídos é, em sua essência, uma história de amor. Perturbada e doentia, mas uma história de amor.

É aí, porém, que começam as perguntas. Quanto do que se passou foi real e quanto foi ilusão? Quem eram, realmente, personagens como Peter, dr. Sweet e RC? Que fim levou o filho de Agnes? Quem ligava para a protagonista? De onde surgiu o entregador de pizza? São diversas questões, todas passíveis de múltiplas interpretações, o que certamente fará com que o grande público vire a cara para o filme, mas também o que tem feito Possuídos ganhar uma crescente legião de seguidores.

Escrevi lá no início que ainda não sabia o que pensar de Possuídos. Continuo não sabendo, mas escrever esse texto já ajudou um pouco. É, certamente, uma obra ousada, destinada a um público restrito, com boas interpretações e boas idéias. Mas é, também, um filme com problemas de ritmo e de soluções vagas. O resultado final é interessante, com certeza. Bom? Não sei. Espero que me ajudem a chegar a alguma conclusão.

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h03
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A mulherzinha e a BMX.

De Cléo Araújo.

Foi em meados de 1985 que eu gostei do meu primeiro menino.
André, o nome dele.
Birrento, do tipo que nunca fazia tarefa. Seus cadernos eram sujismundos e cheios de orelhas. Suas canelas eram salpicadas de manchas roxas e seus joelhos tinham ralados cascorentos que não saravam nunca. Vivia suado e adorava falar sobre cocô e caca de nariz. Mas, de algum jeito, e por alguma razão misteriosa, eu o achava bonitinho. Especialmente quando ele passava na frente de casa empinando a sua BMX.
Naquela época havia os bailinhos. E para atrair André para o meu território, tudo que tive que fazer foi organizar um e convidar o dito cujo. “Bailinhos dão trabalho, mas tudo vale a pena para dançar uma música lenta com ‘ele’”, dizia eu para mim mesma.
No dia da festinha, pedi para minha mãe me levar até o “Cerejeira” para arrumar o repicado da franja. Vesti minha bota de amarrar, minha camisa da 775 e minha saia de cotton da Print Rip. Mixei fitas K7 com o melhor de Peter Cetera. Borrifei gotas de “Annete”, do Boticário, atrás da orelha e no pulso. Estava pronta.
As amigas chegaram. Primeiro as vizinhas, depois as coleguinhas da escola. Ficamos ali, dançando Eurythmics em uma rodinha.
Aí vieram os nerds, todos de carona com a mesma mãe.
E finalmente, ele. André. Chegou a pé. Cabelo molhado, moletom verde musgo... E seus dois irmãos mais novos a tiracolo.
Tudo seria controlável, pensei, até a Fanta seria suficiente - mesmo que servindo os dois bicões; tudo seria aceitável, ponderei, até o fato deles não terem levado a bandeja de salgadinhos - conforme expressamente combinado em convite impresso. Tudo, se André e seus irmãos não tivessem se revelado um trio de lucíferes com potencial apocalíptico.
A seqüência demoníaca dos três incluía, dentre vários atentados, arrancar coquinhos das árvores do jardim, jogá-los dentro da piscina e arrotar. Muito. E lá se ia a Fanta.
Olhar feio para eles só piorou as coisas. Quando André e seus correligionários perceberam a irritação declarada em meus olhos, só fizeram agravar as investidas contra mim, sádicos que eram. Gritavam em cima da música, invadiam o “palco”, acho que chegaram até a peidar em coro, se é que isso é possível. Sei que assisti ao naufrágio completo da festa e da minha utopia romântica, mesmo que alguns dos meus melhores amigos - os nerdinhos que não tinham uma BMX - estivessem ao meu lado quando um dos irmãos endiabrados me chamou de “magrela metida”. Na minha própria casa. E André riu.
Nem preciso dizer que a única música lenta que dancei nesse final de tarde - começo de noite, foi “Lady in red”, com o Túlio, irmão de uma amiga, três anos mais novo e 14 centímetros mais baixo do que eu.
Os dias passaram, a rotina voltou ao normal. Mas algo em mim havia mudado. Sim, porque ao invés de agir como uma MULHER e excluir aquele moleque fedidinho da minha cabeça, o que foi que eu fiz? Continuei respondendo nos cadernos de enquete que André era meu namorado. Sim! E pior: ele também!
Era a vitória da mulherzinha que vivia dentro de mim. Um cara, enfim, que quebrou o filtro da piscina do meu pai, anuiu ao “magrela metida”, arrotou na minha festa e peidou em coro com seus irmãos na frente dos meus convidados merecia essa atenção?
Não. Não merecia.
Mas, com a mulherzinha no comando, esse seria só o primeiro de muitos Andrés.
Um dia - porque felizmente esse dia chega - eu comecei a reparar na mulherzinha alheia, outras colecionadoras de Andrés. Comecei a achar todas elas patéticas. Demorou uns 15 anos, mas foi assim que a minha mulherzinha começou a adoecer.
Ela não morreu, não. Ainda vive aqui. Mas, como muito enfraquecida, consegui me dar conta: o André não tinha lá tanta culpa assim, não.
Ele só estava lá, na santa paz do Senhor, brincando com seus irmãos, ralando o joelho, arrotando o abecedário, fazendo orelhas no seu caderno, sendo um André, enfim, quando ela - a mulherzinha safada que queria me dominar – chegou. E repleta de expectativas, danou a achar que só uma coisa no mundo seria capaz de fazê-la plenamente feliz: um pobre de um André.
Fuja delas, André.
Pegue sua BMX e fuja!
Salve os dois.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h27
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Mais devagar, ou não.

De Bianca Rosolem.

“As coisas não andam boas por aqui”, ele disse me olhando daquele jeito. Eu o ouvia enquanto fingia colocar ordem na bagunça da sala. Era só uma maneira de ouvi-lo sem envolver-me demais. “Fernando, meu querido, o nosso erro foi querer demais”, eu disse e me arrependi. Era uma grande bobagem e uma resignação decadente acreditar que os sonhos que nos moveram e nos enterraram foram grandes demais.

Primeiramente, sonhos não deviam ser medida, apenas meta e vida. Era isso agora que ele dizia enquanto revirava o armário da cozinha atrás de algo para beber. Achou a garrafa de Martini, fez uma careta, mas bebeu. “Vê? A vida é isso, um gole ruim, mas o único trago que se tem”. “Então vamos dar valor e celebrar esse que temos, certo?”, peguei a garrafa e bebi ali no gargalo, uma gota desceu o queixo e limpei com a mão. Sentei ao seu lado, recostando levemente minha cabeça em seu ombro enquanto passava a garrafa. Ele deixou o copo de lado e apoio os pés na mesa do telefone. Deu um grande gole.

Ficamos olhando a bagunça dos livros da estante, o sol deixando sombras engraçadas na parede. Era verão, uma tarde quente e abafada de quarta-feira. Nós estávamos temporariamente há um ano e meio sem trabalho fixo. Ou seja, desempregados e fodidos. Eu vivia de alguns trabalhos esporádicos com amigos que nunca questionaram tudo como eu. Eles tinham chefes, holerites, festas de final de ano, e alguns até cônjuges. Já eu, colecionava ex-companheiros, dívidas de cheque especial e cursos de literatura e redação que criaram alguns roteiros “blockbuster’s,”isto se, ao menos, eu os tivesse terminado.

Olhei o computador no canto, velho e amarelado, aquela quantidade de papel ao lado. “Eu sou uma porra de uma cretina que nunca conseguiu dizer uma linha do que escreveu, nem mesmo em uma mesa de bar. Sabe? Fazer aquela colocação perfeita, com um dos pés sobre a cadeira? Eu nunca fiz isso!”. Chutei um livro que estava sobre o sofá. Eu estava querendo mesmo colocar fogo em tudo.

Eu não queria ter aberto a porta para o Fernando, mas o filho da puta sabia que eu estava e insistia. Ficava apertando a campainha e gritando até fazer a vizinha crente do apartamento do lado abrir uma fresta da porta. Certamente para ver a cara do “elemento” e se seria necessário chamar a polícia. Eu acabava abrindo, fingindo que estava dormindo. A nossa amizade era assim. Éramos cúmplices demais, e como estávamos absolutamente fracassados e sem norte, olhar um a fuça do outro era vislumbrar o nosso reflexo.

“Sabe de uma coisa, você tem uns pés bonitos. Você ainda é bonita. A merda toda foi estes caras que você deixou dormirem com você. Eles roubaram o que você tinha de mais bonito”. Que porra, agora a bicha iria me fazer lembrar de quando eu ainda era uma garota de vinte e poucos. “Isso é auxílio ao suicídio, não quero lembrar de nada, eu bebo para esquecer. Sem análise. Você é um psicólogo de merda, lembra?”.

Fernando era um cara fino, de verdade, falava de Proust, Lacan e música erudita. Sabia citar Balzac na língua pátria. Mas, torrou toda a herança e afundou seu consultório em dívidas. Ficou deprimido de maneira que não conseguia nem cuidar de si mesmo, quanto menos da psiquê alheia e, ainda, cobrar por isto. Eu o adorei desde o princípio, inteligente e gay. Perfeito, ele me compreendia, conversávamos sobre filmes, livros, música e desatinos do mundo. E tudo isso com cumplicidade e carinho, ficava bêbada e sempre me recostava em seu ombro. Ele não faria nada, apenas me daria carinho e atenção. Eu não me apaixonaria, não existiriam desilusões e mais amargura. “Essa casa está um lixo, ao menos tenha dignidade!”.

“Você veio aqui só para encher meu saco, né? Vai embora, some! Eu gosto da minha bagunça, dos homens que levam embora a minha boa vontade, e de bares com mesas de ferro”. Disse isso levantando, chutei alguma porcaria no chão machucando o dedo e fui até a porta. Abri-a terminando de falar, fiquei ofegante olhando para a cara do traste no meu sofá. Ele fez aquele gesto teatral-dramático, empunhado a garrafa e citando Camus: “Antes, a questão era descobrir se a vida precisava ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado”.

Terminou chacoalhando os ombros e deu um gole.Ele olhou bem lá dentro, eu não fugi dessa vez. Eu comecei a rir, a chorar, fechei a porta e me joguei sobre o sofá. “Para quê toda essa merda, Fê! Todos dizem ser esta a realidade e têm tanta dificuldade em aceitar a metafísica. Mas, eu, eu sei que tudo isto é só um purgatório, uma prova, um grande sarcasmo de algo maior”. Ele me puxou, me deu a garrafa e seu colo. Acarinhou a minha cabeça. “Você é uma mulher tão interessante, tão corajosa, pena não ter aceitado isso”. “E você é um psicólogo de merda, nunca se esqueça disso!”, eu disse afastando a cabeça, sem me entregar tão facilmente.

A tarde acabava, e a noite se anunciava com a lua aparecendo aos poucos na janela. Continuaria abafado e a garrafa de Martini acabaria logo. Seria necessário acender as luzes, de maneira que as aleluias encheriam o pequeno apartamento e grudariam suas asas sobre nossa pele suada. Elas voariam, seduzidas pela claridade artificial, e lá chegariam, perderiam as asas para virarem larvas e comerem os alicerces e os batentes de madeira.
Era só vida, a mágica é para quem gosta de circo.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 13h34
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Time is honey.

De Antonio Prata.

Poucas coisas neste mundo são mais tristes do que um bolo industrializado. Ali no supermercado, diante da embalagem plástica histericamente colorida, suspiro e penso: estamos perdidos. Bolo industrializado é como amor de prostituta, feliz natal de caixa automático, bom dia da Blockbuster. É um anti-bolo.

Não discuto aqui o gosto, a textura, a qualidade ou abundância do recheio de baunilha, chocolate ou qualquer outro sabor. (O capitalismo, quando se mete a fazer alguma coisa, faz muito bem feito). O problema não é de paladar, meu caro, é uma questão de princípios. Acredito que o mercado de fato melhore muitas coisas. Podem privatizar a telefonia, as estradas, as siderúrgicas. Mas não toquem no bolo! Ele não precisa de eficiência. Ele é o exemplo, talvez anacrônico, de um tempo que não é dinheiro. Um tempo íntimo, vagaroso, inútil, em que um momento pode ser vivido no presente, pelo que ele tem ali, e não como meio para, com o objetivo de.

Engana-se quem pensa que o bolo é um alimento. Nada disso. Alimento é carboidrato, é proteína, é vitamina, é o que a gente come para continuar em pé, para ir trabalhar e pagar as contas. Bolo não. É uma demonstração de carinho de uma pessoa a outra. É um mimo de avó. Um acontecimento inesperado que irrompe no meio da tarde, alardeando seu cheiro do forno para a casa, da casa para a rua e da rua para o mundo.  É o que a gente come só para matar a vontade, para ficar feliz, é um elogio ao supérfluo, à graça, à alegria de estarmos vivos.

A minha geração talvez seja a primeira que pôde crescer e tornar-se adulto sem saber fritar um bife. O mercado (tanto com m maiúsculo como minúsculo) nos oferece saladas lavadas, pratos congelados, comida desidratada, self-services e deliverys. Cortar, refogar, assar e fritar são verbos pretéritos.

Se você acha que é tudo bem, o problema é seu. Eu vou espernear o quanto puder. Se entregarmos até o bolo aos códigos de barras, estaremos abrindo mão de vez da autonomia, da liberdade, do que temos de mais profundamente humano. Porque o próximo passo será privatizar as avós, estatizar a poesia, plastificar o amor, desidratar o mar e diagramar as nuvens. Tô fora.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h06
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Pedrão e os Neurônios Virgens

De Henrique Szklo

Queridos leitores, gostaria de convidá-los para a minha palestra sobre criatividade que será realizada dia 25 de setembro, quinta-feira, a partir das 19h30 na Escola Panamericana da Rua Groenlândia, 77, São Paulo. A entrada é gratuita mas precisa reservar sua vaga pelo email palestra@academiadecriatividade.com.br.

Espero vocês lá!

Henrique

Henrique escreve no Blônicas e dá palestras de criatividade.
Visite seu
site, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 14h05
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A escrava do congado.

De Giovana Madalosso.

Queria se casar. Candidatos não lhe faltavam. Era esguia, delicada, e tinha olhos grandes e lamuriosos, que despertavam nos homens um desejo de tomá-la nos braços e fodê-la e protegê-la do mundo. O problema era ela. Toda vez que terminava de fazer sexo precisava ouvir Aquarela do Brasil. Não era uma mera vontade, um desejo aflorado na languidez do amor. Era um impulso irrefreável, mecânico. Não ouvisse a música e continuava com os músculos retesados e a alma suspensa num orgasmo mal concluído; não conseguia articular as palavras e convulsionava na inquietude.

Já deixava, ao lado da cama, o aparelho de som ligado, a agulha posicionada sobre a faixa; tinha uma predileção pela versão original em vinil, embora qualquer uma servisse, desde que pudesse ouvi-la do começo ao fim. No primeiro encontro tudo corria naturalmente. Quando acabava de transar, ela virava-se para o lado, ainda nua, e baixava a agulha, e cantarolava bota o rei congo no congado, e relaxava os dedinhos dos pés um a um, e ninguém desconfiava de nada, mesmo sendo a escolha da música tão peculiar. No segundo encontro, ela já se via obrigada a dar uma explicação: roubaram todos os meus discos e só sobrou este, ando tão ufanista!, você mexe com a mulata que existe dentro de mim. O terceiro encontro não existia. Não sabia como justificar mais uma noite de meu Brasil brasileiro, e como nem cogitava dizer a verdade, nunca mais atendia as ligações.

Saía em busca de outros homens. Foi para a casa de um deles, e lá flagrou-se, às duas da manhã, com a calcinha nos joelhos, vasculhando freneticamente a estante em busca da música, que ele não tinha. Nem no computador? Não, princesa, nem no computador. Vestiu-se e foi embora, resignada. Desde então, toda vez que saía, levava consigo um cd, e de cinco em cinco minutos tateava o plástico redondo dentro da bolsa, certificando-se de que estava mesmo lá, e só assim conseguia levar uma conversa adiante.

Foi procurar ajuda num psicanalista. Não entendia por que nutria tamanha obsessão pela música. Foram dissecando a letra, verso a verso. Esse coqueiro que dá coco não seria o falo, e os cocos a semente? E a necessidade de ouvir isso após o coito um desejo de fecundação? Não sabia. Só sabia que, por mais que tentasse, não conseguia evitar. Pensou em desistir do sexo, do próprio e do oposto, mas era demasiado romântica para isso. Não tinha outro jeito senão insistir, na esperança de que alguém lhe resgatasse de sua loucura.

A sua vida tornou-se a procissão do samba, e sua cama, o altar, por onde passavam Rodrigos e Robertos, Lúcios e Mauros, Pedros e Andrés, todos eles sacrificados à pátria antes que o amor tivesse chance de existir. Nem tinha mais prazer, só dependência, era como uma junkie, segurando a agulha, desesperada pelo primeiro acorde. Sentia raiva do filho-da-puta do Ary Barroso, do samba e de suas mulheres sacolejantes com fruteiras na cabeça, do infortúnio de ser brasileira e um dia ter ouvido aquela merda. Só pensava nisso, e já não se importava com mais nada, andava despenteada e mal vestida.

Ligou para um dos Andrés e convidou-o para ir a sua casa. Abriu a porta e, sem nem cumprimentá-lo, pediu que ele a algemasse na cama, e amarasse seus pés, e fodesse muito, e depois, mesmo que ela implorasse para ser solta, que a mantivesse presa. André obedeceu. E então assistiu, atônito, a ela se contorcer e se urinar, e depois rir e gargalhar e, ainda presa pelos pés e pelas mãos, gritar estou livre, estou livre, estou livre. Ali ela descobriu que podia viver sem a música. E passado um tempo, nem se lembrava mais dela, mas toda vez que saía levava um par de algemas dentro da bolsa, mesmo que não as usasse, precisava saber que estavam ali, e tatear o metal gelado, e só assim conseguia levar uma conversa adiante. Podia se libertar da Aquarela do Brasil, mas não de si mesma.

Giovana Madalosso é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 18h58
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Morte por sufocamento cultural.

De Cristiana Soares.

Nunca havia ouvido a palavra “vagabunda” tantas vezes como naquela capital onde morei. Foram longos cinco anos testemunhando homens se referindo a mulheres usando esse linguajar, em geral pelas costas. Além de ficar chocada com a óbvia falta de respeito e com a pouca delicadeza, refletia com meus botões cariocas: “O que é ser vagabunda para eles?” Instalava-se um choque cultural do tamanho da Amazônia devastada.

Num barzinho badalado entre os moderninhos, escutei um cidadão dizer à namorada que é feio mulher beber no gargalo (detalhe: ela tomava uma long neck, embalagem criada especialmente para ser utilizada dessa forma). E ainda arrancou o cigarro da boca da moça.

Na agência onde trabalhava, dei um tapinha amistoso no braço de um colega e o chefe, que estava ao lado, fez um comentário buscando o olhar cúmplice masculino: “Aeee... tá te dando mole...”

Uma profissional de atendimento me contou que um cliente havia lhe dito que uma mulher na idade dela (nem tinha completado 30), solteira, só servia para amante. Noutra oportunidade, quando eu comentei por acaso que havia sido casada duas vezes, ela ficou impressionada e me chamou de sortuda. Medo.

Muitos deles deixavam suas namoradas em casa cedo para poderem cair na noite. Pré-revolução de costumes ou implicância minha?

Numa festa de publicitários, qual não foi meu susto ao abrir os olhos no meio do embalo e ver um paredão de pessoas “botando reparo” em quem estava dançando. Sabe aquele olhar crítico de fofoqueira da década de 50? No dia seguinte, teriam muito o que comentar na firma.

Aos domingos, passeando com as crianças (na feirinha de artesanato, no parque ou no shopping), só via casais com seus rebentos. Nem pai nem mãe separados. Apenas eu cometi tal heresia? Ou pelo menos só eu tinha o desplante de exibir esse infortúnio. Um morador acrescentou, em off, que ninguém se separava mas todo mundo se traía. Tudo muito família, é claro.

Na fila do supermercado, comentei com a senhora distinta algo a respeito do preço ou qualidade de um produto. A mulher me olhou de cima abaixo como que dizendo “Te conheço?”.

Uma amiga ousou me levar como companhia de última hora a uma reuniãozinha na qual fui educadamente ignorada. Trauma.

Levei minhas filhas ao aniversário da amiguinha de uma delas e no final a mãe da aniversariante, entregando as lembrancinhas, disse-me que só havia a quantidade certa de convidados, dando-me a indireta de que não deveria ter levado a irmã. Eu respondi, constrangida, mas digna, que não tinha importância, pois lá em casa, tudo o que era de uma era de outra. Uma lembrancinha bastava para as duas.

Foi chato ter que ser a Leila Diniz da agência. No começo eles nem entendiam o que era “aquilo” (no caso, eu). Não me computavam, não conseguiam me classificar. Aos poucos foram me absorvendo, mesmo eu falando mal deles para eles (era até divertido, confesso, e acabei me apegando àquele grupo). No final, a carola, que antes não falava palavrão, me superou. Dei minha contribuição modesta aos costumes locais.

Em troca, minha identidade foi enfraquecendo, ficando sem ar. Vesti a armadura de Joana d’Arc para ir da casa para o trabalho, do trabalho para casa. Desisti de vida social, antes que me tornasse vítima de um sufocamento cultural.

São Paulo me salvou.

Cristiana Soares é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h02
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Perigos de primeira viagem.

De Lusa Silvestre.

Então, pronto: apareceu uma oportunidade de ouro pra viajar com a moça ­
olerê, a primeira viagem. Sexo desvairado em todos os cômodos do chalé,
dormir até tarde, caipirinha na piscina, tudo. Não tem como dar errado.

Ah, tem.

Primeiro, a convivência direta vai expor o relacionamento a situações de
risco. A mais importante: a hora da cama. Não me refiro ao sexo, e sim ao
principal uso do mobiliário doméstico - descanso. E se ela quiser dormir o
tempo todo de conchinha ? E se ela gostar de dormir atravessada, deixando só
um palmo de colchão pro resto do casal ? E e o bafo matinal ? Quando você
pega a moça na casa dela, ela desce cheia de perfume, cremes, sprays de
própolis, tudo. Vem que nem carro novo. Mas, e de manhã ? Dependendo, pode
dar a impressão que ela bochechou com Gás Sarin antes de acordar. E,
diga-se: você também não está cheirando como o Novo Vectra GT. Complica.

Outra coisa a se preocupar é que, depois do bom dia inicial, vão ser mais
doze horas de convívio até o próximo "boa noite". E se ela for mala ? E se
ela gostar de Los Hermanos ? E se ela não suportar que, chegando da praia, o
mais gostoso é ficar pelado na frente do ar-condicionado, pegando ventinho
onde normalmente não bate vento? E se ela resolver aproveitar o pôr do sol
pra conversar sobre "isto que está acontecendo entre nós" ? Nossa.

E se no domingo de manhã amanhecer chovendo, e você não tem mais nada a
fazer a não ser jogar tranca ? E se você detestar jogar tranca ? Se bem que
o melhor que pode acontecer numa caso desses é amanhecer domingo chovendo.
Você volta antes. Mas, aí, e se estiver trânsito e ela falar o tempo todo na
volta ? E se for conversa sobre Los Hermanos? E se ela perguntar "não tem
outro jeito de resolver essa multa, seu guarda" na hora errada?

Agora, por outro lado, uma viagem inaugural pode resolver uma das questão
mais importantes para o homem moderno: achar a alma gêmea. E e se ela for
melhor ainda do que você imaginava ? E se ela tiver encantos só perceptíveis
no convívio intenso ? E se ela rir quando você arrota "Golden Cross"? E se
ela fizer amizade com o cara que faz batida na praia ? E se ela tem
calcinhas inacreditáveis ? E se na hora de pagar a conta da pousada ela
fizer questão de rachar ? E se ?

Cuidado, caro blônico. Antes de entrar no Google Wheater, pense bem: o
relacionamento nunca mais será o mesmo. Pro bem ou pro mal.

Lusa Silvestre é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 20h23
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Uma certa justiça.

De Carlos Castelo.

Quando olhou o camarim reservado só pra ele, lacrimejou. Uvas, maçãs vermelhíssimas, pães artesanais, queijos diversos, grãos importadas do Líbano, a garrafa de Veuve Cliquot no gelo, água San Pelegrino. Tudo colocado harmoniosamente sobre uma mesa com toalha de renda branca. E flores. Muitas flores.

Depois de 32 anos de anonimato, esnobação dos críticos e completa inexistência na lembrança da mídia gorda, aquilo era a prova de que havia um certa justiça “nesse mundo de meu Deus”.

Numa algaravia, os auxiliares do Canecão perguntavam coisas sobre a tonalidade da mesa de som, sobre o roteiro, os convidados “vip”, as canjas. Mas seus ouvidos não acompanhavam mais nada do que vinha de fora. Só as orelhas de dentro funcionavam agora. As orelhas e os olhos internos.

Lembrava-se com grande clareza de seu longo calvário As temporadas no circuito alternativo da Zona Norte e Leste de São Paulo. Muitas vezes tocando sem cachê algum, apenas para tentar imprimir suas idéias revolucionárias a um grupo pequeno, mas interessado no novo.

Depois o empresário que embolsou a grana de seu primeiro grande show num Sesc da periferia. Com o dinheiro desviado, o mau caráter viabilizou a gravação dos discos de quatro duplas caipiras. E, com o estouro de um desses duos breganejos, montou um selo e uma rádio em Goiânia.

Por outro lado, não havia meio do trabalho dele decolar, parecia uma sina. Quanto mais tentava divulgá-lo, buscar pacientemente espaços, mais era esquecido pelos que controlavam as programações de rádio e tevê.

E o período mais negro ainda estava por vir.

Cansada do fracasso e da deprê generalizada, a companheira de duas déacdas o trocou pelo organista de uma igreja Pentecostal de Belém do Pará. E ainda meteu-lhe uma ação na Justiça de não-pagamento de pensão que o fez perder seu único bem: um Fiat Elba 1982 que herdara do avô.

Teve que se apresentar em saunas gay por cinco anos para conseguir honrar o parcelamento da dívida.

Nos cartazes promocionais de seu pocket-show-homoerótico - na foto, ele aparecia vestido de Cleópatra ao lado de um negro musculoso e nu da cintura para baixo - era aclamado como “Cléo, o menestrel do povo entendido”.

Calamidade maior, nem Paulo Coelho teve durante seu período de sexo, drogas e pacto com o demônio.

Nunca mais pôde ouvir o refrão “I will survive” impunemente.

Entretanto, a partir daquele show glorioso no Rio, tudo se repararia.

O acaso começava a jogar a favor.

Então como explicar o episódio de sua descoberta?

Certa madrugada, com insônia e entediada num quarto de hotel em Londres, Marisa Monte resolveu fuçar no google. Acidentalmente, acabou fazendo download de uma das canções dele. E, em seguida, baixou-a direto para o i-pod.

Dali para a apresentação do "genial músico da vanguarda de São Paulo" à sua turma de músicos foi um passo.

Um assistente avisou que faltavam dois minutos para o início do show. E que estavam na primeira fila Chico Buarque, Carlinhos Brown, Lenine, Maria Rita, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Titãs, Gil, Caetano, a velha Guarda da Portela inteira. E, claro, a sua madrinha Marisa Monte.

Fez uma pequena prece, memorizou o repertório. E uma última imagem veio à sua mente. Ele saindo do teatro da prefeitura de Itaquera, com uma craviola às costas, depois de fazer um show onde não houvera nenhum pagante.

Ouvindo o ruído dos primeiros aplausos da noite, ergueu-se, dirigindo-se altivo à boca do palco.

Nesse instante, o meteoro de 97 quilômetros de largura por 42 de comprimento precipitou-se sobre a Baía de Guanabara.

Passados poucos segundos, uma onda equivalente a 10 mil bombas atômicas levantou-se sobre toda a região sudeste do país e 75% da vida no planeta deixou de existir.

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 15h36
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