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Agora eu gosto da Fernanda Young
De Henrique Szklo Acabei de ler a entrevista de Fernanda Young na Veja e fiquei impressionado. Não com ela, mas comigo mesmo. De repente se descortinou a verdade. Por que essa menina sempre me irritou? Por que ela sempre foi para mim uma aberração, uma provocação inaceitável? Ora, pelo motivo mais antigo do mundo, que ela mesma tratou de revelar na tal entrevista: me vejo nela. A carência, o caos pessoal, a impaciência com o padrão, a vontade de virar do avesso e mostrar para as pessoas que existe sim outra forma de se viver. Mas o que mais me admirou nela foi a forma com a qual ela lida com tudo isso. Não sei se é marketing ou edição manipuladora da jornalista, mas fiquei com a sensação clara de que a Fernanda encara seus fantasmas de frente. Assume sua existência e convive com eles. Não em harmonia, porque esta palavra não existe em nosso dicionário. Viu? Já estou nos colocando como iguais, acompanhantes da montanha-russa emocional de nossas vidas. Num segundo percebi que, apesar de fazer mais ou menos a mesma coisa que ela, talvez eu nunca tenha sido tão honesto comigo mesmo e muito menos com os fantasmas que me rodeiam. Talvez eu nunca tenha me conformado com a sua assustadora companhia, tentando de alguma forma negá-los e excluí-los de meu convívio. Acho que sempre trabalhei com uma espécie de aceitação seletiva, só reconhecendo os gasparzinhos que me interessassem, quando me interessassem. E os outros? Aqueles que estão sempre aí e não há ghostbuster que os mande pra longe? A Fernanda - querida neste momento como nunca foi - me deu uma aula de convivência espectral. Me fez ver como ela é interessante, como eu gostaria de ser amigo dela, ou não. Talvez por sermos muito parecidos a amizade seria infrutífera. De qualquer maneira, a admiração à distância já me dá um alento qualquer. A sensação de passar do não gostar ao gostar e até admirar é muito inspiradora. É gostoso, estimulante mas é auto-indulgente. Faz-nos sentirmos nobres de espírito. Ok, não tem problema, Não acho que virei um mórmon por causa disso. Foi só um momento de reflexão positiva. Até porque o caos continua, como sempre. Não esperaria mesmo que uma entrevista da Fernanda Young fosse capaz de resolver os enigmas indecifráveis da minha vida. Mas de qualquer maneira me fez bem. Valeu, Fernanda. Um beijo. Henrique escreve no Blônicas e muda de opinião sobre as pessoas. Emo.
De Carol Marçal. Elas estão se tornando cada vez mais fortes e difíceis de serem controladas. Fico olhando pro quartinho da minha filha, que agora, finalmente, está pronto e choro. Penso no primeiro banho que ela vai tomar e choro. Se estou no carro, mesmo irritada com o trânsito, choro outra vez. E não é de raiva não. Tudo alegria. Com isso, concluo que a música para ilustrar a trilha sonora nesse momento da minha vida que aspira tanta afetividade, deveria ser aquela do Cristian e Ralf: “sensível demais... eu sou um alguém que choraaaaa...” E como chora! Dá até vergonha de confessar, mas é a pura verdade. Não sei se toda mulher fica assim, mas eu estou. Até me incomoda um pouco. Sentir-se tão frágil e vulnerável, como algo que pode quebrar a qualquer momento. Mas por outro lado, forte como um touro e invencível. Fica a certeza de que essas são as lágrimas mais gostosas que eu derramei em toda a vida! São tão espontâneas, sinceras e intensas que nem me importo mais. E sem esse papo de ligeiramente grávida.Uma ova! Estou inteiramente grávida! Na plenitude da maternidade. Sinto como se carregasse um planeta no ventre. Andando lentamente e sentando com as pernas abertas, para o desespero do papai. E com tantas emoções, acredito que seja essa a fase mais marcante da minha vida. Porque diferentemente de chorar de raiva na frente do chefe que manda você embora, ou da topada que acabara de dar com o dedinho do pé na quina da mesa da sala ou mesmo aquele choro que sai sem querer quando alguém nos diz algo comovente e bonito ou músicas que marcaram no fundo da alma e até (por que não?) as famosas e inesquecíveis propagandas de margarinas, convenhamos que essas são emoções que vem do âmago de uma futura mãe! Que tipo de mãe serei eu? Uma mãe chorona? No maior estilo Donatela Fontini? Cadê o Zé Bob? E a Flora que passe bem longe de mim! Vá de retro... Minha sensibilidade só pode estar sendo testada. Até minha irmã está grávida! Minha família se reuniu recentemente para o chá de bebê da minha filha e pro casório da mana. É Simão... Buemba, buemba mesmo! Segura coração... Nossa, essa foi meio Galvão Bueno. Credo, alguém me ajude a parar com isso! Escapou, juro... Tudo de uma vez, ao mesmo tempo agora. Serei mãe, logo mais, titia, sem dizer que conheci meu sogro há poucas semanas atrás... Será que estou virando EMO? Preciso parir, essa é a verdade. Mas quem não precisa? E parir, a essa altura, não significa somente dar a luz a um bebê, mas dar aquele grito de independência, de dor e alegria, um misto de alívio, agonias e ansiedades ali contidas por tantos meses, enfim! Receio que todos precisemos dar uma “paridinha” de vez em quando, mas só para aliviar os anseios da vida; antes que viremos um bando de Emo, com suas roupinhas fofas, cabelinhos alisadinhos, franjinhas caídas no meio do rosto e ares andrógenos... Vamos parir! Bom, eu estou à caminho de... Let’s? Carol Marçal é cronista do Blônicas. Reflexões sobre um fio de cabelo.
De Giovana Madalosso. Eu estava na frente do espelho, escovando os dentes. Gostava do que via. Embora meu cabelo estivesse totalmente branco, eu não tinha o menor sinal de calvície. Os fios imaculados, contra a pele queimada do sol, me davam um ar de armador grego. Sem tirar os olhos do reflexo, abaixei-me para cuspir a pasta. E então percebi que havia um fio preto na minha cabeça. Não é possível, sussurrei. Não tenho idade para isso. Fiquei ali parado, só meus olhos se mexiam, incrédulos com a presença do intruso. Erguia-se grosso e retinto, bem no meio da franja, sem deixar dúvidas sobre si mesmo. Tranquei a porta do banheiro. Não queria que minha mulher me visse com aquele fio preto na cabeça. Era só arrancá-lo e pronto, ninguém ficaria sabendo. Mas e se esse for apenas o primeiro de muitos? Então estou ficando jovem, pensei. Logo estarei grisalho, e não demora para que eu esteja andando por aí com uma cabeleira negra ao vento; um rapazinho, livre e ávido por novas experiências. Vou chegar ao escritório, às oito horas da manhã, e perguntar para mim mesmo: o que estou fazendo nesta baia, com um crachá pendurado no peito, quando o meu sonho é ser músico? Nada, nem o salário, nem o plano de previdência, nem o bônus de final de ano, vai conseguir me prender àquela cadeira ergonômica e giratória. Sem pensar duas vezes, entrarei na sala do meu chefe e lhe direi que estou largando tudo em nome da minha realização pessoal. Ele dirá que eu estou louco. Eu tomarei o insulto como elogio, e sairei da sala assobiando, com a confiança dos que ainda têm tudo pela frente. Passarei a viver com pouco dinheiro, mas não vou me incomodar com isso, já que não verei mais diferença entre um guardanapo de pano ou de papel, um ingresso para a numerada ou para a geral. Ficarei horas de pé na calçada em frente ao boteco, tomando cerveja morna no copo de plástico e ouvindo o papo de meia dúzia de maconheiros, e acharei que tive uma noite incrível. Minha alma irá encher-se como uma esponja. Não terei mais medo de candidatos de esquerda, radicais livres e frituras. Me sentirei imortal, indestrutível e, de repente, vou achar que posso mudar o mundo. Já me vejo com a veia do pescoço saltada, tentando convencer os meus colegas de golfe a entrarem numa ONG pela libertação do Tibet. Serei ignorado e, a partir desse dia, só irei andar com a minha própria tribo. Vou chegar em casa com o cabelo espetado e bastõezinhos de metal enfiados na língua e na orelha, e dizer para minha mulher que pô cara, o casamento miou, já era, não rola mais. A comodidade de estar com alguém que conhece todos os meus defeitos, e não se importa mais com eles, vai me parecer totalmente irrelevante. Que se foda a estabilidade emocional. Que se foda o gosto em comum pela tranca e pela pizza de massa fina. Eu vou querer é paixão, o peito arfante e a garganta seca, o pau arrebentando o zíper, madrugadas em claro trepando e rindo de bobagens e desenhando sombras na parede. Vou perder tudo que eu tenho no divórcio, serei chamado de imbecil pelos meus próprios filhos, e nem isso será capaz de arrancar o sorriso que estampará o meu rosto de têmpora a têmpora. E quando essa paixão acabar – hoje em dia nada dura mais que uma série de TV –, irei atrás de outras. Chegarei em dez, vinte mulheres na seqüência, e não me importarei de começar tudo de novo, de responder qual meu signo e meu ascendente, de pagar a conta e de levar para casa, desde que eu tenha a chance de pegar em uns peitinhos no final da noite. Serei um ser incansável. Cruzarei o país na poltrona de um ônibus convencional só para correr atrás de um trio elétrico. Subirei montanhas com uma barraca nas costas só para ver paisagens diferentes. E então voltarei cheio de histórias para o conforto do meu lar. Um apê que dividirei com três marmanjos que nunca ouviram falar de uma vassoura. Mas quem se importa com a falta de conforto quando se tem o espírito leve e o coração pulsante?, eu perguntei para mim mesmo. Então tirei os olhos do espelho, fitei o imenso banheiro ao meu redor, pensei nos meus chinelos ao pé da cama, e arranquei, de um só golpe, o fio preto da minha cabeça. Giovana Madalosso é cronista do Blônicas. Olheiras, ossos e escárnio.
De Tati Bernardi. Já que você me viu dormir, acordar, tomar banho, gozar e ter medo de Tati Bernardi é cronista do Blônicas e lança novo livro, na quarta-feira, na Fnac de Pinheiros - São Paulo, às 19h30.
Amor de segunda-feira.
De Xico Sá. Só os homens e mulheres que têm amantes nas firmas e nas repartições amam a segunda-feira. Eles amam este dia como os seus próprios objetos e alvos do desejo. Segunda é o dia sagrado dos amantes de escritórios, redações, bancos, editoras, almoxarifados, restaurantes, varejões Ceasas, tomate e maravilha como na canção do Arnaldo Baptista... Sim, alguém levantaria a mão, nessa exata hora, com ou sem moralismo, pedindo a palavra, e diria, aproveitando as obviedades do centenário machadiano: e aos traídos a velha batata quente da chapa da existência!!! Depois de esperarem o sábado e o domingo, resignados ou aos coices internos no juízo, os amantes de repartições ou firmas voltam assobiando aos seus postos, mesmo nas funções mais duras e escravas, mesmo que a burocracia lhes reservem apenas o lirismo comedido antes do almoço no quilo barato. As criaturas que têm amantes nas empresas seriam uma incógnita para o velho Karl Marx , cada dia mais atual com a quebradeira dos mercados: seriam a quintessência da mais-valia, uma vez que retornam felizes à labuta e assim produzem mais ainda de forma lindamente alienada? Seriam uma ressaca a mais, esse belo antídoto ao kapital, levando-se em conta que os beijos e amassos na escada representam prejuízos na cadeia econômica? Noves fora as reflexões marxistas (o viejo Karl mesmo quebrou a corrente e a classe ao ter como amante a empregada doméstica), reparem no sorriso de segunda-feira do homem ou da mulher que têm amantes na firma! Eles batem o relógio de ponto ou passam o crachá na catraca como quem alcançam o ponto G ao primeiro minuto de jogo. Eles fazem aquelas reuniões chatíssimas, aquelas em que as pessoas se anulam e conjugam no plural das corporações –NOSSA EMPRESA, NOSSAS AÇÕES, NOSSO PREJU, NÓS DA FIRMA!- com um sorriso acima do bem e do mal do kapitalismo. Esse amor, seja que diabo for, não deixa de ser lindo, pois quebra de alguma maneira a corrente burra do trabalho e dos dias, como diria o velho Hesíodo. Alguém se dirige ao matadouro pensando em algo que não seja somente enricar o patrãozinho branco e reacionário! Porque um beijo na boca na escada, por mais que seja na firma, sítio do antitesão por excelência, vale mais do que a mais rentável das ações de um homem de negócios. Mas não politezemos o beijo, sem ideologia para o simples e inadiável desejo do pau duro ou da buceta molhada –essas inegociáveis mercadorias da natureza, essas anticommodities do mundo e de Deus, seja de que religião comungue a criatura da firma. Só queria dizer que hoje é segunda e alguém está feliz com essa maldita folhinha do calendário. Sexta-feira a história já será outra de novo. Até lá teremos futebol, tédio de graça, contas a pagar, almoços a quilo, noites mal-dormidas e amores a rodo. Xico Sá é cronista do Blônicas. Mulher da vida.
De Cléo Araújo. Na próxima vida ela queria voltar puta. Cléo Araújo é cronista do Blônicas. Clooney tem crédito.
De Silvio Pilau. É difícil não admirar George Clooney. Mesmo sendo um dos maiores astros de Hollywood, o ator também é uma das mais interessantes e inteligentes figuras do cinema americano. Enquanto utiliza seu apelo junto às massas para juntar milhões em grandes produções, como a série Onze Homens e um Segredo, Clooney aproveita a grana arrecadada para bancar pequenos e relevantes filmes, como Syriana e Conduta de Risco. Além disso, o ator já se revelou um roteirista e diretor de mão cheia, inclusive com indicação ao Oscar em seu segundo trabalho atrás das câmeras, o ótimo Boa Noite e Boa Sorte. O Amor Não Tem Regras é a terceira incursão de Clooney na cadeira de diretor e, infelizmente, seu trabalho mais fraco – ainda que seja um filme divertido. Trabalhando com um roteiro de Duncan Brantley e Rick Reilly, Clooney acerta ao recriar o clima das comédias românticas dos anos 30 e 40, as chamadas screwball comedies. De certa forma, O Amor Não Tem Regras é uma grande homenagem a Howard Hawks, Ernst Lubitsch e a este gênero da época dourada de Hollywood. A abertura “antiga” da Universal, a trilha sonora de Randy Newman, a dinamicidade entre os atores, o grau de inocência que permeia os relacionamentos, tudo remete a grandes clássicos como Jejum de Amor e Núpcias de Escândalo, construindo um filme bastante agradável de se assistir. Além do tom certeiro da direção de Clooney, muito deste sucesso deve-se ao roteiro e aos atores. Os diálogos são inteligentes e ácidos, ditos de maneira extremamente veloz, como se um dos personagens sempre tivesse a resposta na ponta da língua. No entanto, este artifício só dá certo graças à química entre os protagonistas. Clooney e Zellweger funcionam maravilhosamente bem juntos, divertindo-se à beça nos papéis e construindo personagens cínicos e divertidos. Sempre que se concentra neste lado da trama, O Amor Não Tem Regras funciona às maravilhas. No entanto, a produção ainda desenvolve outras subtramas que acabam por prejudicar o resultado final. É o caso, por exemplo, da história envolvendo o passado de Carter na guerra. Ainda que tema da desconstrução do mito do herói seja interessante, o assunto aqui é tratado de maneira leve e superficial, sem maiores conseqüências. O mesmo acontece com a questão envolvendo o futebol americano. Se Clooney e os roteiristas tinham o objetivo de mostrar a transição do esporte, de amador para profissional, a intenção ficou longe de ser atingida. Ainda que isto seja mostrado no filme, pouco se fala sobre como aconteceu a transformação. Assim, o terceiro ato de O Amor Não Tem Regras, quando Clooney deixa de lado o aspecto da comédia em prol da trama séria sobre o esporte e a guerra, transforma-se em um grande e interminável tédio. Como não poderia deixar de ser, tudo encerra-se com uma decisiva partida – este, sim, um clichê que incomoda. E, para piorar, são levantadas questões até então inéditas, como o fato dos Bulluth Bulldogs só saberem jogar sujo, algo que se torna importante na resolução e que jamais havia ganho destaque em qualquer momento da trama. Como resultado, O Amor Não Tem Regras parece vários filmes dentro de um só. Nenhum deles é necessariamente ruim, mas apenas um realmente dá certo. É, em geral, uma produção divertida e repleta de charme pela homenagem a uma época clássica, porém com alguns problemas narrativos que impedem maior recomendação. Ainda que mereça méritos por alguns de seus acertos, fica impossível negar que O Amor Não Tem Regras é o trabalho mais fraco de George Clooney na direção. Sorte que ele ainda tem crédito. Silvio Pilau é cronista do Blônicas. Des-geração.
De Bianca Rosolem. Ele acordou sem saber e se olhou no espelho. Abriu a torneira e lavou o rosto, mas continuou do mesmo jeito. Nem acreditou. O banheiro parecia a sucursal do inferninho do centro. Era tanta cueca espalhada que ele nem acreditou que eram todas de sua bunda. A escova de dente amarelada dizia que era hora de consultar um dentista para não precisar de dentadura aos 30 anos. Cigarros, aos montes, atolavam os cinzeiros, assim como as latas de cerveja pelos móveis. Tudo isto à disposição de algum desesperado que ousasse utilizar os restos mortais das noites retrasadas e cansadas. Mas, ele podia, sim, voltar para a cama e rezar. Pediria para acordar no paraíso muçulmano, de mulheres com olhos rasgados e tez bronzeada oferecendo orgasmos eternos. Mas ele era um filho da puta ocidental, de modo que a pós-vida seria uma coisa chata e tediosa com o soundtrack da Enya que sofria certamente com diarréia cósmica. E assim, passaria a eternidade dialogando com anjos de pintos pequenos e roliços que nem mesmo um viado ousaria utilizar. Queria telefonar para algum S.O.S. aos suicidas, mais um dos serviços indispensáveis à vida moderna, mas o telefone havia sido cortado. Afinal, ou se bebe ou se paga o telefone. No caso a escolha é óbvia. Se acaso retornasse para a casa dos seus pais, tomaria um banho quente com sabonete perfumado, almoçaria com talheres em um prato, e arrotaria a abundância que ele nunca ousara procurar nos classificados dos jornais. Mas lembrou do que vira no espelho e desistiu, sua mãe sofreria mais um desgosto e enfartaria. Ele não suportava o olhar de frustração de sua mãe, que dizia: “Qual foi o meu erro?”. “Mamãe, do princípio: Casar com aquele babaca do meu pai, que esparrama a pança na carroceria do carro aos domingos, lavando os louros da vida burguesa. Depois, ter um filho e achar que ele poderia ser diferente dos demais fracassados dos rebentos vizinhos. Pois, então, mamãe, o seu erro foi acreditar na glória da esperança secular”. Pensou tudo isso e ainda sentiu o gosto da lasanha suculenta dos domingos, mas desistiu, não poderia corroborar aquilo que a senhora de grandes tetas esparramadas sabia no seu íntimo e infinito feminino. As mulheres eram foda. Por isso elas batiam a porta e quebravam pratos na parede. Existe até certa histeria nisso, mas ele reagiria da mesma forma se não tivesse a cabeça de baixo tão importante em detrimento de sua sinapse. Achou um livro abandonado ao lado do vaso sanitário que alguém havia dado a ele. “Alguma dessas novelas malucas de russos suicidas”, pensou. Mas, os óculos não estavam lá, assim adiaria para o próximo século a leitura de mais uma relíquia da humanidade. Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. Eu ? adesivos.
De Antonio Prata. Se o leitor ou a leitora conhecerem um bom psiquiatra, favor entrar em contato -- sofro de um raríssimo distúrbio cognitivo: não entendo adesivos. Tudo começou com “Deus é fiel”. Li e pensei: como assim? Seria um complô corintiano? Deus não era apenas brasileiro como torcedor do Timão e membro de sua torcida organizada? Fontes ligadas ao parque São Jorge, no entanto, me asseguraram que não: a Gaviões não tinha nada a ver com aquilo. Mas então... Por acaso alguém acha que Deus vai deixar o pessoal na mão? Que na hora agá ele pode resolver barrar as almas caridosas e salvar, sei lá, o Ozzy Osbourn, só de sacanagem? Se com o problema religioso-desportivo fiquei intrigado, qual não foi minha desorientação ao ver pipocar, em dezenas de carros, a enigmática mensagem “No vaca”. Seria um surto de moralismo? Quem sabe a mesma turma da fidelidade divina quer agora dizer que naquele carro só entra moça direita? Mas chamar mulher de vaca, assim, sem o menor pudor, me parecia bem pouco cristão. Um amigo me explicou: “vaca” é o termo utilizado por surfistas para denominar aquilo que os comuns dos mortais conhecem como caldo ou capote, a saber: ser arrastado pela onda, girando, engolindo água, areia e estrelas do mar. O que eles querem dizer -- em portunglês -- é que surfam bem. Por que raios alguém comunica aos outros motoristas suas qualidades surfísticas, isso meus amigos não souberam explicar. Nos últimos meses achei que a doença estava piorando. Em vários carros via um pequeno emaranhado de fios e bolinhas, uma espécie de ideograma cambojano, coisa estranhíssima. Já não era apenas o sentido do adesivo que me escapava: os próprios caracteres estavam embolados. Mais uma vez os bons amigos me explicaram, pacientemente: o emaranhado era um contorno da Virgem Maria, envolta por um terço. Ahhh... Curioso. Um arqueólogo que tente decifrar nossos dias daqui a milênios ficará confuso. Baseando-se nos carros encontrados nas escavações, dirá que o começo do século XXI assistiu a uma acirrada divisão da humanidade, entre cristãos e praticantes de esportes aquáticos. E, caso encontre, no porta-luvas de um automóvel, as páginas amareladas deste guia, verá que enquanto uns pregavam a salvação celestial e outros alardeavam suas habilidades aquáticas, havia quem assistisse a tudo com os dois pés atolados na areia movediça da perplexidade. Tempos estranhos aqueles... Antonio Prata é cronista do Blônicas. A tua barba de cada dia.
De Cristiana Soares. Entro no banheiro para trocar a toalha, mas o que eu quero é ver você. Manhã de segunda. Hora de se transformar em um homem civilizado, responsável e trabalhador. Para isso, ejeta a espuma na palma da mão esquerda. Repousa a direita por cima e com as duas, suavemente, lambuza o rosto. Espalha o mousse de forma a cobrir os pêlos que não sabem a diferença entre domingo preguiçoso e dia em que os bancos abrem. Meu pai usava o pincel para aerar e espalhar o creme, formando um chantilly. Em transe, eu babava. Os movimentos circulares. As subidas e descidas. E a lâmina perigosa que podia cortar o rosto dele. Como de fato aconteceu algumas vezes. E a pedra-ume vinha estancar o sangue. Uma pedra que não fere, mas cura. Só o meu pai poderia ter uma assim. Você estica o pescoço. E no sentido de baixo para cima o percorre com o aparelho até o queixo. O barulhinho dos pêlos sendo cortados pela base. Esse barulhinho de homem. Depilação feminina ou é silenciosa (gilete) ou é histérica (cera). Mulher não tem mesmo meio-termo. Pequena, deitava ao lado dele sobre o tapete felpudo da sala, enquanto na vitrola tocava concertos para violino, sinfonias. Eu ficava ali encaixada entre o seu braço esticado sob meu pescoço e o seu tórax. Ele olhava para cima e viajava com Mendelssohn. Eu, que não enxergo de longe, colava meus olhos no seu maxilar e via, um a um, os fios nascendo de cada poro. Absorta, encantada. Não havia coisa mais bonita de se ver nascer. Você estica os músculos da região entre o lábio e o nariz para a lâmina não encontrar obstáculos. Infla a bochecha e faz uma bolha de ar interna. A lâmina sobe. Desliza. Desce. Agora é aquela hora em que há vestígios de espuma espalhados por toda a região. Às vezes resta um cavanhaque, às vezes costeletas. Poderia fotografar e usar como inspiração para quando você estiver longe. Oferece as duas mãos em concha à torneira e se inunda com a água gelada que transborda entre os dedos, molha os pelos dos braços e escorre pelos cotovelos. A toalha felpuda que eu acabara de trocar agora nas tuas mãos te toca enquanto sinto inveja de um pedaço de pano. A essência de mentol arde na minha boca imaginária que te beija. Ouço os tapinhas que se dá no rosto. Geladinho, receptivo, irresistível. Lamberia sentindo ainda as minúsculas protuberâncias que resistem. Para o meu deleite, à tarde elas estarão ainda mais salientes. Obrigando você a repetir o ritual na manhã seguinte. E será assim até o último dia. Por enquanto, me despedirei de você com um beijo no rosto para guardar o suave pinicar na boca. À noite, a barba por fazer arranhará minha nuca, meus lábios, meu corpo. Acordarei no dia seguinte com a pele exposta. Seqüela de quem dorme com você. Cristiana Soares é cronista do Blônicas. Não fume!
De Tati Bernardi. -Que demora pra atender essa merda. Tati Bernardi é cronista do Blônicas. Os trilhos.
De Bianca Rosolem. Eu lembro quando sentava no muro de casa, e ficava com as pernas balançando dentro da saia esperando você passar. Com os pés aflitos, para lá e para cá, eu mirava a rua no final da tarde. Os meninos jogavam bola enquanto as mães zelosas sentavam em suas cadeiras e falavam sobre a vida de todos. Eram tardes mornas, de um vento quente que levantava as folhas amareladas da calçada e as roupas do varal. Alguns cães brincavam e se cheiravam, enquanto as crianças pequenas corriam a puxar-lhes os rabos. Tudo era um pouco alegre e um pouco triste. Na realidade aquela felicidade pacata, cheia de paz e tranqüilidade, era a expressão da melancolia. Assim como o olhar da vizinha gorda e separada (as mulheres na varanda sempre diziam: Pobre da separada!) com os cotovelos, apoiados na janela, doloridos de ressentimento. E as tardes assim passavam, as bermudas dos garotos subiam, as saias das meninas desciam, e agora as bolas e as bonecas tinham novos donos e donas. Mas sentia-se, ainda, o cheiro do bolo de fubá da Dona Dú e o doce das cocadas do Seu Machado. Acho que ninguém além do Seu Pequeno, bisavó de minha amiga Marisa, tinha morrido. A vida era calma e as famílias, descendentes dos grandes fundadores, se desenvolviam por igual, de maneira que todos os pais tinham sido colegas de bola, e as mães de tricô, e assim vai. Eu gostava de fugir das conversas das meninas, ou das aulas de alguma coisa com linhas e agulhas, para sentar no muro caiado da porta de minha casa, com algum livro da biblioteca da escola, e olhar tudo aquilo que eu já sabia. Aquele conforto da falta de novidade deixava-me pensativa, imaginando o que aconteceria além dos trilhos do trem. O que aconteceria no porto de chegada dos vagões apinhados de cana-de-açúcar, que minha cidade produzia para aparecer nos índices dos livros de geografia? Eu sabia de algumas coisas, e elas me davam um grande buraco no estômago e deixavam minha boca seca. Eu tinha a sede enorme do inconformismo. Eu queria errar e não usar branco. Não queria mais sentir os olhos austeros das figuras da sala de jantar. E assim eu aguardava todas as tardes impaciente sentada naquele muro. Eu esperava quando o evento maior aconteceria. Eu sabia que seria, como um destino ruim, um presságio, o frio na espinha no escuro. Eu sonhava sem rostos e acordava intrigada para não sentir medo. E foi tudo tumultuado, você na bicicleta e as flores na soleira da janela. O seu sorriso e sua mão. Uma noite estranha até os trilhos. Um beijo, seu corpo, e uma dor dentro, dentro. O dia amanhecendo e o medo de você voltar. Eu já não mais pertencia quando sentava à mesa e evitava o olhar de meu pai durante a prece. As flores e o bilhete. O convite e o mundo se desvendava sem segurança. Eu lia e relia, escondida pelos cantos, arfando, ainda esperando que a dor passasse. As malas embaixo da cama, eu deitada de sapatos embaixo do cobertor. Você veio. Eu fui. Os trilhos levavam para muito longe, você apertou a minha mão. Eu não tive medo. Bianca Rosolem é cronista do Blônicas. Como ser enganado pelo cinemão americano.
De Silvio Pilau. Após uma série de papéis menores, Shia LaBeouf foi alçado à condição de novo astro com o apenas divertido Paranóia. Dirigida por D.J. Caruso, a produção foi um inesperado sucesso, tornando o ator um dos jovens mais requisitados pelos estúdios. No entanto, mesmo promissor, LaBeouf ainda não conseguiu se firmar como intérprete de talento, optando por produções sem cérebro, nas quais nada mais faz além de correr e parecer assustado, como Transformers e este Controle Absouto. Controle Absoluto não é um filme ruim. Ele é idiota, sem dúvida. Mas, na realidade, a história não passa de desculpa para as cenas de ação, colocando os personagens em meio a explosões e situações que não fazem sentido. No entanto, o diretor demonstra, assim como fez em Paranóia, possuir controle sobre a produção, acelerando o ritmo e não deixando o espectador pensar – o que, neste caso, não é demérito. As cenas de ação são intensas, ainda que boa parte delas fique um tanto confusa graças à edição epiléptica. Assim, durante boa parte da projeção, a dúvida sobre “a voz” mantém o interesse. Infelizmente, o filme começa a se perder exatamente no momento em se descobre a origem da voz. Até a revelação, o mistério funciona. Mas a explicação, ao contrário de explicar, apenas confunde. Afinal, não havia necessidade alguma de fazer os dois personagens passarem por tudo aquilo para o plano ser levado adiante. Por que não pegar alguém da própria cidade, se o Hex já havia sido roubado? Aliás, como o Hex foi roubado? Que outras formas de chantagem foram usadas para convencer as demais pessoas? Estas são apenas algumas questões que ficam sem respostas pelo roteiro. No entanto, se os absurdos, como eles roubarem um carro-forte e Jerry invadir o Pentágono, são absorvidos graças à direção de Caruso, as interpretações de Shia Labeouf e Michelle Monaghan também desempenham papel fundamental nessa aceitação. Ainda que o material não ofereça algo para que possam criar grandes personagens, o talento e a boa presença dos atores colaboram para fazer a história andar, uma vez que eles convencem ao parecerem tão perdidos quanto o espectador em relação ao que está acontecendo. Ao mesmo tempo, o roteiro furado ainda possui algumas boas idéias, como as soluções rápidas que surgem para resolver os problemas dos protagonistas. Em certo momento, a voz que os comanda dá um jeito de liberar o sprinkler de uma empresa, fazendo com que centenas de pessoas saiam às ruas e facilitando a fuga do casal. Enquanto isso, a trama ainda possui um contexto mais crítico em relação à sociedade atual, mais especificamente à falta de liberdade dos cidadãos em razão das políticas defensivas de seus governos – neste caso, o dedo é apontado diretamente aos EUA pós-11 de setembro. Este, aliás, é o único traço de ousadia narrativa presente em Controle Absoluto. De resto, é uma superprodução burra, com um roteiro capenga que coloca dois astros do momento nos papéis principais para atrair público. Durante a projeção, o filme entretém e até diverte. O problema é quando as luzes do cinema se acendem e o espectador começa a perceber que Controle Absoluto não passa de mais uma imbecilidade do cinemão americano. Aí, porém, já é tarde demais. Silvio Pilau é cronista do Blônicas. O dia em que a mulher do Waldick foi lá em casa.
De Carlos Castelo. No alvorecer da minha infância, assevera dona Marirá - genitora deste plumitivo - um Puma GTE zerinho estacionou diante de nossa mansarda no bairro do Sumarezinho, em São Paulo. Acompanhada de um amigo da família, o finado Dagildo (nome dado ao mancebo pela contração do “Da” de CandiDA e o “Gildo” de LeoviGILDO) adentrou em nosso lar ninguém menos que a “mulher do Waldick Soriano”. Eram comuns tais visitas-relâmpago na pequena comunidade piauiense-maranhense de Sampa. Podia ser desde de um primo doente do peito até uma personalidade do mundo do forró. Desde que a razão fosse uma troca de favores ou uma "consideração" a alguém. Quando Dagildo anunciou a visita já subindo as escadas do sobrado, houve um certo estremecimento doméstico. Entretanto, como era comum em minha mãe, com dois ou três movimentos rápidos ela deixava uma sala bagunçada pronta para receber a Rainha Elizabeth II em noite de distribuição de honrarias aos lordes. E assim foi. Puxando um vaso pra cá, centralizando uma cadeira pra lá, só restou à primeira-dama do brega alardear: - Meu Deus, que casa mais ajeitadinha! Num cantinho da sala impecável, brincando com meu helicóptero da USAF (que fazia “dungo-dungo-dungo” com as hélices e abria a portinha) fiquei só reparando na cena. Dona Marirá não se recorda mais do nome da dita, porém lembra-se direitinhamente que a senhora estava desconsolada com o marido canastrão. Homem delicado e sensível, Dagildo era sabedor das manhas e artimanhas de mamã na arte de manter um casamento (papai não era definitivamente flor que se cheirasse naqueles tempos, mas a união mantinha-se intacta). Por isso, levou “a mulher do Waldick” para tomar uns conselhos. Feito uma psicanalista lavada e escorrida em Freud, mamãe quis saber o que levava a companheira de tão famoso astro a andar tão tristonha. - Eu amo aquele danado demais. Demais! Mas o Waldick só pensa no público dele, dona. É só público, público, público – disse ela aos prantos, para meu estremecimento infantil. Atenta na queixa, dona Marirá era só ouvidos. A mulher do homem continuou: - A prova disso é ele, em todo santo show, jogar aquele chapelão pro povo. Eu me zango demais com aquilo. Custa uma fortuna e ele atira como se fosse confete! Saindo da audição para a fala propriamente dita, minha mãe teria declarado mais ou menos o seguinte àquela ocasião: - Mas o problema de seu casamento com o Waldick Soriano é o chapéu que ele joga no povo, minha filha? - É! - E se ele se jogasse, ele mesmo lá do palco, pra cima das qüengas? Não ia ser pior? - Aí era a morte… - Pois então? Enquanto é o chapéu está uma beleza, não está? Limpando uma lágrima, a consorte de nosso mestre do kitsch musical deu toda razão a dona Marirá. E, depois de comer um doce de casca de limão azedo, entrou na companhia de Dagildo em seu Puma GTE e voltou a seus afazeres de mulher de latin-lover cafona. O casamento? Bem, segundo Dona Marirá, esse parece ter durado por muitos e muitos anos. Mesmo com o velho Soriano teimando em arremessar seus chapelões por centenas de platéias interiorzão afora. Carlos Castelo é cronista do Blônicas. Uma saudade uma janela e a garoa.
De Luís Couto. Saiu da estação virou a esquina olhando pro chão molhado da garoa e pisando forte nas poças só pra ver a água espirrando em volta água de garoa é lágrima pura que fica brotando o tempo todo sem a gente querer então pisava forte naquela água pra fazer de conta que pisava de raiva nas lágrimas que não queria mais derramar viu o prédio a janela e a luz fraca mudando de tonalidade ora azulada ora amarelada sinal de tevê ligada virou outra esquina entrou na doçaria que antes se chamava doceria ficou olhando os doces hesitou teve vergonha de que reparassem em seus olhos inchados voltou pra esquina ficou encostado no poste lá estava o prédio de novo levantou a cabeça e lavou o rosto na garoa olhou pra janela bem alta alta alta aquela luz que oscila dez da noite é a novela a doçaria vai fechar voltou comprou o pudim aquele de sempre foi pra esquina de novo olhou lá pra janela outra vez bem alta muito alta pensou em acenar só pra fingir que era como antes hesitou resolveu não acenar iam pensar que era um louco ali com um pudim numa mão e a outra acenando pra ninguém muita gente saindo da estação naquela hora o orelhão em frente quis discar um número qualquer só pra dizer estou subindo e sentir a sensação feliz de antes resolveu não fazer isto ficou lá encostado no poste começou a comer o pudim lentamente bem devagar pra sentir melhor o gosto aquele gosto gostoso não o gosto do pudim mas da lembrança o gosto de quem não estava ali repartindo com ele o pudim de sempre uma mordida e a cabeça levantando de novo pra molhar o rosto e ver a janela lá em cima muito alta tão alta que já estava com dor na nuca e a janela impassível sem vida só aquele lusco-fusco de tevê ligada quase meia-noite o pudim acabou e com ele aquele gosto do que era antes então sentiu raiva muita raiva dele mesmo e uma dor esquisita e uma coisa parecida com remorso e uma vontade de gritar mas gritar bem alto muito alto mesmo já que estava fazendo aquele papel idiota então que pelo menos houvesse público pra ver e as pessoas ainda saindo da estação os últimos trens que levam pessoas cansadas pras suas casas e nenhuma pessoa sequer estaria preocupada com ele então começou a rir de nervoso ficou tão nervoso que começou a rir mas um riso estranho que não fez o choro parar como é que pode alguém rir chorando ou chorar rindo que absurdo olhou uma última vez pra janela alta alta alta alta e aquela luz lá do mesmo jeito como quem diz não tenho nada a ver com isso levantou o braço com vontade de acenar mas lembrou que não era mais pra acenar então coçou a cabeça pra disfarçar e olhou pro chão molhado da garoa e começou a andar em direção à estação mas decidiu não pegar o último trem e foi embora a pé pisando forte nas poças só pra ver a água espirrando em volta. Luís Couto é músico e leitor do Blônicas. Ode ao homem brüt.
De Cléo Araújo. Ando um pouco cheia dessa coisa cult. Cléo Araújo é cronista do Blônicas. 13 Livros muito curtos.
De Edson Aran. Leitura rápida pra quem não tem tempo.
1 – Todos os livros que eu li – por Lula Edson Aran é cronista do Blônicas. |