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Amigo com H.

De Cléo Araújo.

Ele é do tipo que não compartilha emoções à toa.
Não conta intimidades, a menos que haja um propósito muito claro para tanto. Ou que eu fique pressionando até ele espanar.
Prático, direto, sem dramas e sem entrelinhas.
Seguro, sorridente e estável.
Fofinho, maldoso e crítico.
É assim, um belo exemplar de amigo com H.
Se você é moça e tem um, saiba que se trata este de privilégio de poucas.
Não, não vale aquele, que se faz de amigo, mas que no fundo quer mais é te comer. Não vale ninguém, aliás, com sentimentos outros que não a indulgente e altruísta fraternidade. Não ria rapaz. Esse tipo de amizade existe sim.
Falo aqui do amigo puro, legítimo. Aquele, em cujo elogio ou crítica você sempre pode acreditar porque nunca, jamais ele vai querer copiar o seu corte de cabelo.
Também, pudera.
Você foi a única (entre mulheres, homens, peixes-beta e cães) que topou assistir com ele os seis episódios de Guerras nas Estrelas numa única maratona, que começou às seis da tarde e acabou às sete da manhã. Não à toa, o amigo com H gosta tanto de você. Gosta a ponto de dizer que você é tão legal, mas tão legal, que mais pessoas no mundo precisariam saber disso. E um elogio dele faz de você uma pessoa mais segura e mais feliz.
Um amigo com H que se preze estica a festa de casamento de amigos em comum numa boate gay só porque você achou que essa seria a maneira mais divertida de se encerrar a noite. Ele não só entra no clima, dizendo que a noite ainda era longa quando já se via o sol nascer, como curte a valer o inferninho GLS, mesmo se tratando este de um amigo com H macho pra caralho. O amigo gay, aliás, também é um baita, senão o maior, dos amigos com H.
Um amigo com H dirige para você na estrada e costuma ser inimigo declarado do seu novo namorado. Mas no fundo ele adora o cara. Só implica com ele porque te conhece muito, e provavelmente mais do que esse “fulano” que chegou agora e te deixou com essa cara de boba-alegre.
Você e seu amigo com H dividem um quarto de hotel. Mas só se precisarem, porque ele ronca. E ele vê você toda desarrumada, como nenhum outro homem a viu antes - a não ser seu pai e seu cabeleireiro. Ele dá até a dica de uma pomada para essa espinha nojenta que você exibe no queixo. Zomba da sua chapinha, do seu pijama de vaquinhas coloridas e da sua placa para não ranger os dentes. Mas você nem fica brava porque se lembra: ele a levantou no ombro no show do U2 durante cinco músicas seguidas, sem reclamar. E ainda cantou “The time of my life” num dueto com você no karaokê. Mesmo sem saber a letra.
O amigo com H, no entanto, às vezes te faz chorar. Culpa daquela sinceridade dolorida, que você ama tanto. Mas, mesmo que ele lhe tire algumas lágrimas de vez em quando – quando questiona seu trabalho, sua infelicidade nos relacionamentos com os homens ou seu temperamento amargo - não admite que outro homem o faça. Ah, rapá, se prepare porque aí ele vira bicho!
O amigo com H pára de fumar para te encorajar a fazer o mesmo. Mas como você não consegue, ele acende uma cigarrilha na noite de ano novo, só para você não se sentir tão por fora. Se não fosse ele, aliás, além de por fora, você não teria música nenhuma no seu Ipod. É ele quem te passa todas, de Jesus and Mary Chain a Roxette.
Amigo com H pede cola e passa cola, bate a assopra, segura na mão e manda você se foder.
E o melhor de tudo é que ele não vai descobrir que quer se casar com você no dia em que ficar noiva. E que você não vai dar um escândalo na igreja no dia do casamento dele.
Embora alguns cochichem “certeza que ela já deu para ele” e outros apostem que ele já te comeu, vocês sabem que a idéia de serem um “casal” é tão ridícula quanto aquela camiseta do Homer Simpson que ele usa de final de semana.
E vocês riem.
Como de hábito, um do outro.
E juntos, do resto do mundo.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h46
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Quase 30.

De Bianca Rosolem.

Em um mundo de informações ao toque de botões, você percebe que são clipes de comerciais, rápidos, consome pá-pum, acaba tudo no banheiro e na descarga. O tempo é regulado no despertador: Acorda, se arrasta, almoça “de olho” no colesterol, algumas horas para chegar em casa, deitar para dormir morrendo...Já é hora de tudo mais uma vez.
Quem muito pensa, continua pensando, e cai de boca no relógio atroz das avenidas. “Não tem chance, não”, dizem os comprometidos em não viver. Todos correm, se acotovelando para entrar no metrô, nos cinemas, nos teatros, nas lanchonetes de minuto, e nas vagas da vida. É o espaço apático de escolhas submissas. Um carro, um aluguel, um cachorro com depressão, uma tv de LCD. Você critica e não o chamam mais para a reunião de condomínio.
Sentado em algum café, com o jornal nas mãos, você delira alguma saída, alguma rota escondida que o distancie do lugar comum das satisfações anêmicas. Algum dia você leu e acreditou que existia algo errado com este fluxo lento de não parar. Você olhou de sua janelinha e pensou “Para onde estas pessoas insistem em sempre chegar?”. E, no momento deste pensamento, um sulco violento se estendeu dos seus pés até o céu, e se fosse algo de cair, você descobriria que já estava no inferno desde... Um choro, te levaram para a enfermaria e muitos olhos depositaram sobre você sonhos calados e guardados em gavetinhas. Olharam você, careca e sem dente, tão amorfo, e acreditaram que dali existiria algo especial. Acho que o nome disso é esperança.
Mas nasceram dentes, cabelos, idéias, e tantas coisas, que você assoprou em um espirro involuntário os desejos de outros. Você era mais um, e mesmo assim, tão vulgarmente comum em seus erros, você era diferente. Com as expectativas frustradas, você era livre, quase livre, praticamente liberto para escolher o que DEVERIA no momento ERRADO. E assim, seus passos tropeçaram na maioria e, cada dia mais você realizou que toda essa escolha era um grande engodo.
Começou a era do paradoxo, onde tudo não era, e você apenas se entendia bêbado, naquele instante entre dormir e estar embriagado. Era só paz.
E você se sentiu velho, uma vez que já não era mais tempo de errar. Mas, ainda era jovem, porque queria sempre começar.
Mas alguém disse “no mundo não existem segundas chances”, você ouviu e ficou pensando muito. Foi dar uma volta. Ainda não retornou, e eu estou esperando para te contar umas coisas que descobri. Acho que nos enganaram.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h22
[]


Quero.

De Nelson Botter Jr.

Coxas
Quero suas coxas
Quero suas coxas em minha língua
Quero assinar com minha língua em suas coxas
Num quarto de hotel qualquer
Numa cidade barulhenta qualquer
Coxas
Suas coxas
Sentindo a delicadeza de sua pele na ponta da língua
Na ponta
Do lápis
Que assina em suas coxas
Coxas, cama, janela
A janela que nada revela
E eu quero
Quero fugir
Quero pular
Quero voar
Quero tudo que você puder me dar
Com força, com carinho
E mais um pouco
Misteriosa
É assim que você é
Quero você assim
Quero você
Suas coxas
Num quarto de hotel qualquer
Com sorriso maroto
Receosa
Tímida
Aflita
Quente
Suada
Molhada
Muito molhada
Louca
Louca
Louca
Quero
Quero
Quero
E querer é ter
E querer é ter você.

Nelson Botter Jr. é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 15h14
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Licença para mudar.

De Silvio Pilau.

Após décadas sendo fiel à mesma fórmula, a série 007 entrou em um novo momento em 2006, quando os produtores decidiram partir do zero e reinventar completamente o personagem. Claramente influenciada pela trilogia Bourne, a franquia apostou, em Cassino Royale, em uma trama mais realista e violenta, além de transformar o herói intocável James Bond em um espião de carne e osso, repleto de falhas. O resultado foi um dos melhores filmes – se não o melhor – e a maior bilheteria mundial de toda a história da série.

Em 007 – Quantum of Solace, quem assume o comando do navio é o versátil Marc Forster. Arriscando-se pela primeira vez no gênero, Forster surpreende nas cenas de ação, criando momentos intensos e que exploram o caráter bruto do novo James Bond. A utilização de cortes rápidos e tomadas com a câmera na mão pode ser perigosa, mas em Quantum of Solace a opção realmente funciona de forma a aumentar a tensão e refletir a urgência das situações. Além disso, o cineasta imprime um ritmo verdadeiramente ágil a Quantum of Solace. Quando não está correndo, dirigindo ou explodindo coisas, Bond está conseguindo novas informações que fazem a trama andar. Deste modo, não há um mero momento de descanso ou tédio no filme.

O enredo, porém, não é tão elaborado quanto em Cassino Royale. Escrito pelos mesmos Paul Haggis, Neal Purvis e Robert Wade, o roteiro de Quantum of Solace não reserva grandes surpresas e é simples em seu desenvolvimento, optando por não explicar muito sobre a Quantum – o que provavelmente será realizado no(s) próximo(s) filme(s). Esta opção, aliás, resulta em um momento tanto arriscado como estranho, quando Forster opta por não mostrar o interrogatório de Bond com um dos vilões, quando ele revela informações sobre a organização.

O roteiro peca também no desenvolvimento do personagem. Ainda que Daniel Craig continue perfeito no papel, combinando o aspecto irascível e frio com certa vulnerabilidade emocional, a trama de Quantum of Solace não acrescenta muito ao novo Bond. Há, claro, a questão da busca pela vingança e do ressentimento pelo que aconteceu com Vesper, mas isso é apenas mencionado por outros personagens três ou quatro vezes, sem qualquer reflexo efetivo no personagem. Bond continua muito mais humano e falível do que em obras anteriores – agindo por impulso, errando com freqüência e sempre prestes a explodir –, mas essa percepção ainda é resquício do que conhecemos no filme anterior. Quantum of Solace não leva o personagem adiante.

Por outro lado, Quantum of Solace acerta ao dar um passo à frente na construção do relacionamento entre Bond e M, algo que já havia sido “anunciado” em Cassino Royale. Como é dito no próprio filme em certo momento, a dinâmica entre os dois é quase de mãe e filho. M recrimina Bond, ele não dá a menor bola e os dois continuam se amando como antes. A relação entre eles resulta em alguns dos melhores momentos de Quantum of Solace – e não deixa de ser interessante ver uma personagem hermética como M em casa passando creme no rosto.

Abordando ainda um contexto político sobre o petróleo e o papel dos EUA nos regimes ditatoriais sul-americanos, Quantum of Solace é um filme com seus próprios méritos, mas pálido em comparação ao seu antecessor. Possui bons diálogos, cenas de ação bem realizadas e um ótimo protagonista, mas nada acrescenta ao que havia sido apresentado dois anos atrás. Se Cassino Royale foi uma revolução na série, a nova produção não passa de simplesmente mais um – ainda que eficiente – exemplar.

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h01
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O green-yellow card.

De Carlos Castelo.
 

As filas que chegavam até o consulado brasileiro em Nova Iorque, no 630 da Quinta Avenida, vinham de muito longe.

Havia gente se acotovelando desde o The Pond, na rua 59, já na fronteira com o Central Park.

A suíte 2720 do International Building tinha uma decoração espartana. Poucos móveis, numa parede o pavilhão nacional e, ao fundo, a foto oficial de Luís Inácio Lula da Silva sorrindo.

Cumpre dizer que o clima geral não fazia par com o bom humor presidencial.

Além dos 97 cidadãos norte-americanos espremidos entre o elevador e a porta do saguão, nos guichês do consulado apenas três funcionários davam expediente naquela manhã.

O corpo diplomático brasileiro em Nova Iorque estava visivelmente irritado, pois trabalhava normalmente só até duas horas da tarde.

Graças às altas demandas das últimas semanas, no entanto, estava sendo obrigado a estender seus préstimos até às 19 horas - diariamente.

O padrão de atendimento público é conhecido por todos, no mundo inteiro. Agora imaginem como andavam os ânimos em Mid-Manhattan naquele momento.

Já havia uma significativa ala de barnabés na dúvida entre fazer greve branca ou pedir licença-prêmio só retornando ao trabalho depois que o panorama da economia mundial voltasse a amainar.

Uma operação-tartaruga tomava corpo, de certa maneira.

Colocar apenas três pessoas para atender a toda aquela horda vinda de jurisdições tão díspares como as de Bermudas, Connecticut, Delaware, Nova Jersey, Nova York e Pennsylvania era a prova disso.

- Senha 67 – berrou um dos funcionários, por sinal, de péssimo humor.

No meio do empurra-empurra, um homem esguio, branco, usando um terno brilhoso e uma cartola estilizada levantou um papel com o número chamado.

Foi em direção ao guichê.

- Nome? – perguntou o funcionário sem tirar os olhos do monitor.

- Michael Joseph Jackson – respondeu o cidadão.

- Profissão?

- Cantor, compositor, dançarino e instrumentista.

- Naturalidade?

- Gary, Indiana.

- Data de Nascimento?

- 29 de agosto de 1958.

- Por que deseja visto de trabalho para o Brasil, mister Jackson?

- Meus país quebrou e a economia brasileira é bem mais robusta. No ramo de entretenimento, precisamos de moedas mais fortes que o dólar.

- Algum processo nos Estados Unidos?

- Sim, mas fui absolvido em todos.

O funcionário brasileiro carimbou o passaporte de Michael Jackson vigorosamente e sentenciou:

- Visto negado!

Depois urrou:

- Próximo! Senha 85!

Donald Trump saiu do meio da multidão, mostrou sua senha e anunciou, aliviado:

- Sou eu! Sou eu!


Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h06
[]


Central Park.

De Antonio Prata.

Para nossa sorte, o Museu da Língua Portuguesa não aceitava cartão nem cheque e o caixa automático mais perto ficava do outro lado do Parque da Luz. Quando digo sorte, não ponho nem uma gota de ironia.
Pertenço à primeira geração privatizada do Brasil. Na infância, ainda aproveitei aquele antigo espaço público chamado rua. Cresci numa vila, gritando um-dois-três-Antonio-salvo embaixo de goiabeiras e chapéus de sol, desenterrando moedas do vão entre os paralelepípedos, com interesse arqueológico e acreditando que o mundo era um lugar assim, por onde a gente podia correr, gritar e cavucar sem maiores problemas.
Quando cheguei à adolescência, contudo, a violência -- ou o medo da violência, que não deixa de ser, também, uma violência – já havia transformado a rua em mera passagem entre um lugar e outro. Adolesci em casas, escolas, shoppings, restaurantes, cinemas e outras instituições intra-muros, num pedaço da cidade que raramente excedia os limites da Zona Oeste. De modo que, aos 30 anos, vergonhosamente, não conhecia o Parque da Luz.
No portão, uma senhora vendia maçãs do amor, ao lado de dois repentistas cantando uma embolada. Um boliviano de calça camuflada, chapéu de cowboy e barrigão para fora da camisa passou por nós fumando um charuto e cantando um rap em castelhano. Lá dentro, crianças brincavam no tanque de areia e corriam entre enormes esculturas de metal. A dois metros do tanquinho, senhoras de programa exibiam um despudor cheio de pudores – um discreto exagero no batom e nos decotes insinuava que não estavam ali a passeio.
Tímidos, garotos e garotas exalando hormônios e desodorante faziam o footing na alameda central, como antigamente, com uma ingenuidade que combinava com o chafariz e os bancos de madeira, mas não com a cidade em torno das grades de ferro. Por toda parte, imigrantes falavam castelhano e pensei que já era hora de parar de comemorar a chegada dos japoneses e começar a entender a entrada dos bolivianos.
Tiramos dinheiro do outro lado do parque e refizemos o mesmo caminho, reparando nas esculturas, nos chapéus de cowboy, nos decotes e sotaques tão distintos que, reunidos pela curadoria do acaso, faziam daquele quadrilátero verde uma província cosmopolita, avesso de São Paulo e, ao mesmo tempo, a sua cara. Pagamos o museu com uma nota de cinqüenta. Uma pena que o moço tivesse troco.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 17h10
[]


Come as you are.

De Tati Bernardi.

Ando de um lado para o outro do carpete manchado. Tenho horror a quarto
de hotel, por mais estrelas que tenha. Sempre esse carpete que ataca a minha
rinite. E as manchas. Tenho horror a manchas. Porra, sangue, cuspe, vômito.
Nunca sei o que elas são. As pessoas que já passaram por ali. E agora eu,
limpinha, tenho que sentar na vida, sentar no mundo. E virar parte desse
mistério e desse passado e de possíveis sujeiras. E lembrar que é tudo a
mesma merda. Eu e todo o resto. Não é minha casa, é só uma vidinha
emprestada. O foda é dormir em paz em vidinhas emprestadas.
Ando de um lado para o outro, repensando se devo ou não. É tão simples.
Ligo lá pra baixo, peço um táxi, o táxi chega, informo a rua, chego no bar,
sou engraçada por quarenta minutos, pego carona com ele pra v oltar pro
hotel, faço charme quando ele me pede pra subir, acabo deixando, falo pra
ele do meu nojo de manchas, ele tira barato da minha cara, pergunta se eu
quero deixar a minha mancha, eu digo que pode ser, ele me agarra, eu fecho
os olhos e sou absolutamente feliz e me sinto absolutamente viva, a gente
dorme juntos morrendo de ressaca. No dia seguinte ele me dá um selinho e
pede que eu me cuide (homem sempre diz essa merda). Eu choro no avião de
vontade de amar e ser amada. Depois dou risada porque acabo sempre
preferindo essa vidinha emprestada cheia de manchas. Amar é para os
grandes, eu sou essa coisinha mesmo.
Ando de um lado para o outro. Vou ou não? A gente troca e-mails há mais
de cinco anos. Ele já acompanhou todos os meus começos e términos de
namoro mais significantes. Ele sabe de todos os meus medos e sonhos
estranhos. E porque ele está no terceiro ano de medicina e tem aulas de
psicologia, ele me conta todos os segredos que eu não entendo e nem nunca
vou usar. Ele tem 56 teorias para o meu pânico de vomitar. Eu acredito em
todas elas. Ele é a cara do Kurt Cobain, pelo menos é o que parece nas fotos
meio esfumaçadas e mal tiradas que ele me manda.
Ele tem uma pastinha no computador dele, com as minhas melhores seis
fotos de todos os tempos. Ele me acha a cara da Débora Secco. Que bela
dupla de idiotas nós somos. Mas é bom ser idiota.
Passo meses deletando ele de todos os possíveis meios de comunicação. Pra
que quero ficar alimentando esse papo furado com um garoto mais novo e
de outra cidade? Pra quê? Depois, num desses dias desiludidos e chatíssimos,
o resgato. A gente se fala os maiores absurdos. Os maiores. Temos a teoria,
por exemplo, do filho virtual que fizemos em algum universo paralelo. De
tanta sacanagem que falamos.
Eu sou a Débora Secco vers ão escritora famosa de São Paulo. Na ilusão dele.
Ele é o Kurt Cobain com inteligência de doctor House e abdômen de ator
pornô. Na minha ilusão. Ele namora há 456 anos com uma garota que parece
um traveco, de tão bonita. Eu namoro 456 rapazes e nenhum deles completa
um ano na minha vida. Eu digo que é porque sou insuportável. Ele diz que é
porque sou uma devoradora de guris. Adoro a versão dele.
Ando de um lado para o outro. Não posso. Não posso me levar até aquele bar
e estragar tudo. Eu adoro ser a Débora Secco versão escritora famosa de São
Paulo. Pelo menos em algum lugar do mundo eu sou incrível. Pelo menos
naquela cidadezinha esquecida do Sul, eu sou uma escritora famosa e linda
de doer. E impossível. E inalcançável. E eterna. E jamais louca, jamais ao lado
da cama até perder a graça. Jamais cansativa. Para o Kurt eu jamais vou
apodrecer, perder o doce. Eu estou além da vi da e da rotina. E controlo o
tempo do sucesso e da paixão. Ele não me vê com fome, dor de barriga ou
vontade de chorar. Eu simplesmente não posso me levar até aquele bar e
estragar tudo.
Chega uma mensagem dele. Ele já está lá. Me esperando. Há meia hora. O
Kurt com sua barriga tanquinho e seu charme de doctor House está lá. E
ainda com sotaque gaúcho. Promete ser o sexo da minha vida. Promete ser a
noite da minha vida. Vou amar esse homem como nunca amei nada na vida.
Penso isso e quase ligo lá pra baixo e peço um táxi. Mas não posso fazer isso
com o Kurt. Não posso transformá-lo em mais um garoto gemendo,
roncando, sorrindo amarelo e indo embora. Não posso transformar o homem
mais incrível do mundo em mais uma mancha de vidinhas emprestadas de
quartos de hotel. Não agüento mais que absolutamente tudo seja sempre a
mesma merda de sempre.
Durmo sozinha comendo um lanche no jento da cozinha do hotel. O edredom
tem uma mancha asquerosa. Mas em algum lugar do mundo eu sou a pessoa
mais incrível do mundo. E olha que quem pensa isso é o melhor homem do
mundo.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h42
[]


O que fazer com uma não-paixão?

De Cristiana Soares.

Você chora. Não sinto pena porque não sou de pena. Mas minha certeza em terminar nossa história vale nada, molhada assim. Não sei que direção seguir nessa sua via exposta. Sinto inveja de quem consegue chorar. Sinto desejo de te beber nessa hora.

Uma espécie de atração pelo frágil declarado, que nunca senti antes. Talvez porque não conhecesse. Nem sei o que fazer com isso. E se eu me engasgar?

Teu rosto escanhoado, iluminado pela lâmpada de segurança. Estaremos seguros aqui? Nesse episódio que poderia durar mais do que toda nossa série de desníveis?

Você está mais bonito agora do que sempre esteve. Evoluiu como nunca nesses tempos. E, se agora você está triste, está menos triste do que antes, quando ainda não se conhecia através de mim. Mas você ainda não sabe disso. Confunde o seu pesar com o vazio de outrora.

O menino foi perturbado. Provocado. Desafiado. Mas foi o homem quem chorou. Aliás, o mesmo homem que me puxa para o mergulho no linho. Que me tira da hibernação. Que me toca como um mágico levita sua assistente.

O menino arranha meus nervos. O homem os abranda, com mãos de luva de massagem.

Duvido outro alguém me tocar assim. Todas as partes do meu corpo duvidam também. Elas se rebelam contra minha decisão. Questionam-me. Fazem motim. Não querem mais tomar banho para não perder seus vestígios.

Tento me impor pela razão. É tudo o que eu tenho para barganhar. Mas é difícil domar desejos mimados e voluntariosos.

Ó senhor dos relacionamentos equilibrados, dê-me forças nessa hora. Não me abandone às minhas aréolas. Elas não pensam no futuro. Não me deixe fechar os olhos e me comunicar por lábios, pelo calor, pela biologia, pela sobrevivência da espécie.

Será que ao envelhecer nos livramos finalmente dessa terrível missão? Tenho medo de que a senilidade me faça continuar querendo participar da seleção natural.

Enquanto isso você me nega uma despedida. Umazinha só. Não faria mal a ninguém, sabia? Diz que não conseguiria nesse contexto doloroso. Mas eu faria você conseguir. Sei que sabe disso.

Então se proteja mesmo. É o melhor que faz por você. Eu fico aqui de braços dados com meu tesão, que nem sempre rima com paixão, como eu gostaria.

Cristiana Soares é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h40
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10 Frases inesquecíveis de George W. Bush.

De Edson Aran.

Oito anos de um homem limitado, mas jamais igualado

1 – O avião entrou no prédio? Pega o telefone dela, pega o telefone dela!
2 – O cara com pano de prato na cabeça fez o quê?!
3 – Afeganistão, Kafiristão, Combustão... bombardeia qualquer coisa aí, bestão.
4 – O cara com pano de prato na cabeça fez o quê?! Bem, pelo menos a gente acabou com o Teletube. Digo, Teletom. Quer dizer, Talismã... Telesena?
5 – O Iraque tem um plano diabólico para subjugar o mundo livre... vocês querem parar de rir e prestar atenção?
6 – Eu nunca consegui apontar Bagdá num mapa. Fui lá e risquei Bagdá do mapa.
7 – Deixa eu contar uma coisa pra vocês: sabe aquelas armas de destruição em massa? Era só o Saddam com problema de gases.
8 - Bom, agora o jeito é mandar o Rambo. Quê?! Como assim? Aquilo lá não era documentário?!
9 – E daí que o Katrina arrasou Nova Orleans? Eu só escuto música sertaneja mesmo...
10 – Ih, alguém faliu não sei quem fui...

Edson Aran é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h47
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Jukebox.

De Bianca Rosolem.

Eu quis chorar e disfarcei olhando para o balcão com os olhos imóveis. Tudo parecia mais despedida com aquela luz entrecortada pelo movimento do ventilador de teto. Poucas pessoas no bar àquela hora. E mesmo assim eu só conseguia ver você com aquela jaqueta de couro falsa. Aos meus pés, a mala de roupas e um buraco enorme. Um precipício. Tudo mais uma vez desconhecido. Uma porta do bar é fechada, faz aquele barulho de fim de tudo. E eu quero correr o tempo de volta. Virar a ampulheta e te encontrar. Novo começo. Quando, ainda, a história não havia encoberto o seu sorriso em nuvens de tristeza. Que momento esse seria, se naquele esbarrão do metrô, mesmo gentil em nosso primeiro encontro, já existia um cinza estranho projetado no seu olhar?
Eu não sei, são tantos e todos os eventos na vida do ser humano. Tantas peças, nunca soube juntá-las. Nem sequer as minhas. Vide essa mala, sempre de lá pra cá, semi-aberta. Nada que carrego. Um vestido, uma sandália e uma caixinha de lembrar. E mesmo assim a mala parece tão pesada e pequena. Vai entender.
E você diante de mim, agora, segurando o copo de alma selada. Sem nada falar. Mas, o único mistério, é essa sombra maior que seu corpo projeta na minha existência. E eu fico aqui, apagada, protegendo a mala da gente estranha desse bar na estação de trem. É madrugada, fria, gelando a ponta do nariz e doendo no coração. Eu tento decifrar, mas apenas me perco em considerações pessoais. Sobre você, tudo é tão simples que dói. Então, só me resta fantasiar alguma teoria louca, sobre o cinza das nuvens de inverno. Aqueles dias sem fim de frio e pouca cor. Como essa vida que mora atrás do teu olhar. Nessa maldita madrugada.
Gasto um pouco de todo o dinheiro que tenho - contado para não morrer tão cedo – e coloco uma música na jukebox. Chamo você para dançar, não falo, apenas estendo a mão e te lambo com o olhar. Você me conforta no peito, e mexe as pernas muito devagar. Nós nos despedimos assim.
Sem encontrar o nosso passo.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h27
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O fim do acaju.

De Cléo Araújo.

No começo a nossa relação era perfeita.
Ele fazia tudo o que eu queria. E eu me sentia segura.
Ele me chamava de “amore” e eu estava protegida, desde que minha cabeça estivesse dentro do seu lavatório.
Confiávamos um no outro como Barack confiava em sua eleição.
Ríamos juntos das matérias de “Caras”, criticávamos a fachada brega do salão do vizinho, dávamos palpites nos vestidos de noiva das Globais e achávamos hidratação com ampola simplesmente o máximo.
Tempos felizes, aqueles.
Até que um dia me apareceram uns fios de cabelo branco.
E foi assim que as coisas começaram a mudar.
Primeiro, ele deu de querer esconder os meus branquinhos. E dizia: “o que os outros vão pensar se te virem saindo daqui com esses brancos hor-ro-ro-sos? Nem pensar!”.
Então, cedi às suas tintas e pincéis.
Vi o loiro dourado dos meus fios indo embora, dando lugar para mechas acobreadas que eu, particularmente, achava absolutamente nada a ver.
Ao perceber certo desapontamento em meus olhos a cada dia, ele agiu como era de se esperar. Revelou-se possessivo, paranóico e ciumento.
Eu não podia nem passar a remota impressão de que tinha andado fora da linha para ele já vir com seu questionário inquisitivo, disfarçado de curiosidade inocente. “Onde esteve? Com quem? Ah, alguém mexeu na sua franja, né? Olha lá, não vá me trair, hein...”
Ai de mim.
Não podia fazer nem uma escova com outra pessoa ou repartir o cabelo do outro lado que ele já pirava. Era tudo do jeito que ele quisesse, da cor que ele escolhesse e com o repicado que ele bem entendesse. Era essa sua técnica para criar em mim dependência, medo e culpa.
Aliás, a simples inauguração de um salão perto de casa já me deixava nervosa. Sentia culpa só de pensar em experimentar a manicure do estabelecimento.
Assim vi, aos poucos, a minha vida se transformar em um inferno.
Precisava me libertar daquele homem. Mesmo que tivesse que ser forte feito cheiro de escova progressiva, definitiva como chapinha japonesa e, se nada funcionasse, até dissimulada feito um megahair, precisava que o desfecho fosse esse: “Chega! Acabou! Fim.”
Mas a minha submissão não me deixava. Uma insegurança estranha tomava conta de mim. Era como se nunca mais fosse encontrar alguém que conhecesse tão bem os meus cachos e redemoinhos.
Até que um dia, certa manhã, me dei conta de que estava ruiva. Oficial e juliane-mooremente ruiva.
Chorei em frente ao espelho, não reconhecendo a imagem ali refletida.
Fiz um rabo de cavalo e saí pelas ruas. Ah, e o mundo era tão grande. Dradges, chanéis, moicanos, balaiages, cauterizações. Eu queria viver!
Munida da coragem dos traidores, eu, a própria Judas descabelada, fugi em busca de um novo amor.
E o encontrei.
Ele me acolheu em suas tesouras e fez quase exatamente tudo o que eu pedi. E não me deixou sair sem antes me levar à loucura com uma hidratação da Kérastase que eu nem sabia que existia.
Não vou dizer que a mudança foi fácil, não.
Por muito tempo acordei no meio da noite sonhando com uma tesoura de desfiar e um pote de tintura acaju vindo na minha direção. Por muito tempo, tive que evitar a rua onde o salão do ex ficava localizado. Andava de boné para não ser reconhecida e pedia para amigas em comum dizerem a ele que estava de férias no Timbuktu.
Mas ele tinha meu telefone. E um dia, eventualmente, ele me ligou.
Fiquei pensando em desculpas, saídas pela tangente, pretextos. Engasguei, gaguejei, balbuciei. Mas não queria mais mentir. As marcas da traição estavam por todo meu corpo, na minha nuca despida e no tonalizante dourado que ele jamais, jamais ousara usar em mim.
Contei a verdade. Argumentei que assim seria melhor para nós dois.
Desligamos o telefone com um adeus. Para mim, liberdade. Para ele, prenúncio.
“Um dia você ainda vai voltar! E aí, gata, vai dar um trabalhão para ajeitar isso...”
Eu sei que eu não vou voltar. Nunca fui mulher de voltar pra ex.
Mas também sei que ele logo logo já se esqueceu.
É só uma loira de cabelo igualado cruzar sua porta para ele já sonhar com ela em sua cadeira, ruivinha, ruivinha...

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h05
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Eles mereciam mais.

De Silvio Pilau.

Em 1995, quando realizou Fogo Contra Fogo, Michael Mann viu seu trabalho cercar-se de expectativas pelo simples fato de reunir dois dos maiores atores do Cinema, Robert De Niro e Al Pacino (eles já haviam dividido os créditos em O Poderoso Chefão – Parte II, mas sem contracenar). Foi, de certa forma, uma decepção. Ainda que Fogo Contra Fogo seja um grande filme, os astros dividiam uma única cena das quase três horas de projeção. O tão esperado encontro tinha ficado para outra ocasião.

Eis que surge As Duas Faces da Lei. Dirigido pelo mediano Jon Avnet, o filme ganhou destaque por entregar o que a produção de Mann prometeu e não cumpriu: De Niro e Pacino dividindo a tela durante quase todo o tempo. Infelizmente, a parceria mais uma vez decepciona, ainda que por motivos diferentes. Se Fogo Contra Fogo era um belíssimo filme com poucas cenas onde os astros contracenavam, As Duas Faces da Lei é uma obra repleta de defeitos com a dupla dividindo praticamente todos os momentos.

Escrito por Russell Gerwitz, As Duas Faces da Lei traz um roteiro capenga, direção pouco inspirada e um final “surpresa” previsível. Não fossem os nomes de De Niro e Pacino, o filme provavelmente encontraria seu espaço em um Supercine da vida. A idéia do serial killer de criminosos é promissora e promove a única reflexão interessante do filme: é justificável punir um culpado deixado livre pela justiça? Infelizmente, a história trata o assunto com superficialidade, trocando a inteligência por situações que justifiquem o final óbvio, principalmente pela falta de sutileza do roteiro e da direção de Avnet.

Além disso, o texto não dá espaço algum para desenvolvimento de personagens. O espectador fica sem conhecer nada sobre a vida de Turk e Rooster, exceto que são dois policiais veteranos. Há, em certo momento, uma menção sobre a filha de Turk, mas é algo tão solto na história que apenas causa estranheza. O mesmo acontece com as tramas envolvendo o personagem de Curtis “50 Cent” Jackson e da advogada, que prejudicam o andamento da narrativa e não levam a lugar algum. Como conseqüência, falta identificação entre público e personagens, o que torna o filme tedioso.

E nem Robert De Niro e Al Pacino conseguem salvar um péssimo material. Os dois atores são, obviamente, o único atrativo de As Duas Faces da Lei. Ainda que as performances estejam a anos-luz de seus melhores trabalhos, não deixa de ser um prazer ver dois dos maiores talentos da história do Cinema dividindo o mesmo quadro e trocando diálogos. Os atores ainda conseguem trazer um pouco de personalidade aos personagens: Turk é mais sisudo e profissional, enquanto Rooster é descontraído e brincalhão.

Como de praxe, a direção de Avnet não tem a menor de inspiração. Clichê do início ao fim, o cineasta falha em gerar tensão, o que prejudica até o ritmo da obra. Mais do que isso, Avnet apela para lugares-comuns como o antagonismo entre a dupla mais velha e a mais nova e a mais do que irritante fórmula do vilão ter o mocinho sob a ponta da arma e se dignar a explicar todos os seus motivos. Além, é claro, de não conseguir manter a coerência na estrutura, perdendo o controle das tramas e, por conseqüência, o fio narrativo.

Como resultado, As Duas Faces da Lei é uma obra que se julga inteligente, mas está longe disso. Ao contrário, é um filme ordinário e nada original, que provavelmente será esquecido daqui a duas semanas. Talvez, só talvez, seja lembrado por ser a primeira vez que De Niro e Pacino realmente contracenaram juntos. Porém, considerando-se o talento e a história destes dois monstros, eles mereciam algo muito melhor.

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h19
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