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15 PREVISÕES PARA 2009.

Pai Aran joga búzios e vê o futuro pra suncê.

1 - Índia e Paquistão farão as pazes e se unirão num novo país: o Indigestão.

2 - Tiririca será escolhido para o papel principal de "Lula, o Filho da Luta", superprodução cinematográfica da família Barreto sobre a vida de você sabe quem.

3 - O Talibã vai renunciar ao terrorismo e virar um grupo de axé music sob o comando de Carlinhos Brown. Pensando bem, eles vão continuar no terrorismo. 

4 - Lula baterá novo recorde de popularidade, alcançando uma aprovação nunca antes vista na história deste país. Garanhuns será um novo destino para romeiros em busca de milagre, sentido da vida e bolsa-família. 

5 - Novas e exóticas mulheres-frutas serão lançadas pelo funk carioca: Mulher Fruta do Conde, Mulher Mamão Macho, Mulher Lichia e Mulher Cupuaçu.

6 - As crises cíclicas do capitalismo acontecerão semana sim, semana não.

7 - Barack Obama vai virar verso do Caetano Veloso até março. Ele vai rimar "barraco" com "Barack" e "Obama" com "iguana". 

8 - Num discurso improvisado no Sindicato dos Onanistas Comissionados Autônomos (Soca), o presidente Lula dirá: "Us empresh... empreshárius... que é donu das empresha... tudo shifu... shifu..."

9 - Chico Buarque escreverá novo romance que fará muito sucesso entre mulheres que completaram o segundo grau. As demais continuarão gostando mais do Fabio Jr.

10 - Uma boa notícia: não vai ter Bienal de Artes em São Paulo. Bem, este ano também não teve...

11 - Depois de transformar Machado de Assis em cirquinho mambembe, a Globo fará uma versão realista do Carequinha.

12 - Um novo filme brasileiro trará vários favelados se matando.

13 - Haverá mais atentados, atrocidades e aloprados. E nós ainda estamos na letra A.

14 - O novo hype da Internet será o Twitter, que ficará velho e será substituído pelo Twoing, que ficará velho e será substituído pelo Zwboing, que ficará velho e será substituído...

15 - O filme "Lula, o Filho da Luta", de Fabio Barreto, ganhará o Calango de Ouro no Festival de Cinema de Garanhuns. 

Edson Aran é cronista do Blônicas e pai de santo pela Harvard.

Escrito por Blônicas às 16h44
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Madonna finalmente encontra Jesus

De Henrique Szklo

Foi em São Paulo, após seu último show. Alguns poucos e bons foram testemunhas deste milagre. Aliás, o Brasil é realmente um país com vocação para milagres, não há a menor dúvida. Este privilegiado grupo de VIPs, escolhidos a dedo, puderam comparecer a uma festinha num bar de Pinheiros na capital paulista onde Madonna se revelou. O que todos viram e comentaram é que a rainha do pop, que até então se dizia cabalista, descobriu Jesus. E se entregou de corpo e alma. Segundo as más línguas, mais de corpo que de alma.

Vários fatos cabeludos (e um careca) são observados neste misterioso e místico episódio. Perguntas constrangedoras e capciosas precisam ser formuladas no intuito de esclarecer alguns pontos obscuros nesta história toda. A igreja vai querer saber toda a verdade. Não vai contar para ninguém, mas vai querer saber de qualquer jeito. Os evangélicos por sua vez vão querer tirar proveito do evento para aliciar mais algumas almas perdidas e fazê-las encontrar finalmente o caminho do caixa. Já nós os judeus, que não acreditamos em Jesus, ficaremos em território neutro. Dentro de nossas lojas e empresas esperando o momento adequado para produzir e vender produtos relacionados ao evento a preços indecentes. E por isso é bom que tudo se esclareça com a maior rapidez e honestidade possível. Sem subterfúgios, sem diz-que-me-diz-que, sem fofocas. Apenas a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, em nome de Deus.

Eu, como judeu, me sinto em plenas condições para servir de mediador deste embróglio. Não tenho rabo preso com nenhum dos lados desta história e adoro ver o circo pegar fogo. Além do mais, Jesus é patrício, e eu conheço bem a alma judaica. Não tem como ele me enganar com estes truques de andar no mar e multiplicar os pães. Isso não me impressiona. Eu quero os fatos.

Vamos então às perguntas. Jesus foi convidado para a festa ou apareceu assim sem mais nem menos? Se não foi convidado, como conseguiu entrar, ultrapassando a barricada de gordura e músculos dos seguranças? Será que ele deu uma carteirada, mandando um "Sabem quem é meu pai?"? E se foi convidado, quem convidou? Quem tem o email dele? Por que convidar Jesus e barrar Maomé? E Buda e Moisés, como ficam? E o que estaria fazendo Jesus na festa de Madonna? Por que ele não veio à festa de confraternização da minha firma? Quem ele pensa que é? Vip? E se for Vip porque nunca apareceu na Caras? Jesus por acaso estava alcoolizado ou alterado por algum tipo de droga ou aquilo que foi visto na pista de dança era só alegria? E Jesus se aproximou de Madonna com que intenção? Para repreendê-la, para dar-lhe um aviso, um sinal ou só para pegar a popstar? Desde quando Jesus beija de lingua? O pai dele sabe onde ele estava?

Bem, somente quando respondidas estas perguntas vergonhosas poderemos finalmente descansar em paz. Até lá, não recuaremos um centímetro sequer em busca da intromissão descarada na vida alheia. Mas no fundo, o que mais me preocupa é o fato de que, pelo que eu saiba, Madonna é a mãe de Jesus, o que imediatamente nos coloca num terreno perigoso e explosivo. Vistos aos beijos por todos os convidados da tal festinha, eles não tiveram o menor cuidado em esconder seu relacionamento incestuoso. Meu Deus, o Senhor que é onipresente, tomou conhecimento disto? Jesus, Seu filho apresentando um preocupante quadro edipiano? Que situação constrangedora, meus amigos.

E a história não acaba aí. Sem nenhum senso de decência, sem a mínima vergonha na cara, Madonna não teve o pudor de esconder seus sentimentos. Suas últimas palavras ao sair do Brasil foram "Minha vida mudou desde que eu conheci Jesus". E agora? Se ela decidir se casar com Jesus? Isso não é um privilégio dedicado apenas às freiras? E freira não precisa ser virgem? Ixi!

Henrique escreve no Blônicas e nunca encontrou Jesus.
Visite seu
site, o fotoblog de camisetas autodestrutivas e sua Academia de Criatividade.

Escrito por Blônicas.. às 17h17
[]


Mulheres são chatas.

De Tati Bernardi.

Certa vez um diretor de teatro cismou comigo. Ah, seus textos isso, seus
textos aquilo. Sua foto isso. Você, Tati. Ah, que mulher. E durante quatro
meses ele me mandou e-mails quase diários a respeito dessa adoração.
Aí ele finalmente veio estrear sua peça em São Paulo. E quero te ver daqui,
preciso te conhecer dali. Você, Tati. Ah, que mulher.
E o cara me mandava e-mails nos intervalos da peça, pouquinho antes de
começar, pouquinho depois de terminar. Durante os ensaios. Uma obsessão
que nunca vi. E me mandava senhas de ingressos com cadeiras na primeira
fileira. E traga quem você quiser, mas melhor que venha só. Preciso te
conhecer, preciso. Você, que mulher.
E eu fui. Ah, eu fui. Quatro meses no meu pé, tamanha obsessão. Eu fui. E
achei ele gato e interessante. E confesso que ele foi, nessa minha vida bem
aproveitada, o melhor beijo na boca que já dei.
E a coisa crescia. Seu cheiro, seu cabelo, seu sorriso, sua cintura. O cara, se
pudesse, me enquadrava e me colocava na sala. Se pudesse, me fazia virar
uma estátua na entrada do apartamento. Nunca ninguém ficou tão encantado
por mim. Ele chegou ao ponto de, no último dia da peça em cartaz em São
Paulo, agradecer a Deus olhando pra mim, que estava que nem besta, de
novo, na primeira fileira. Tipo: eu era Deus!
E então, transamos, e a coisa só piorou. Porque seus olhos fechados, porque
você dormindo, porque você acordando, porque tomar banho com você,
porque eu sei, mulher da minha vida, primor intelectual, sensibilidade
absurda, humor genial, maldade charmosa, que mulher, que mulher, que
mulher, eu nunca mais viverei sem você, não agüento ficar longe, você pode
tudo, é você, é você. E me apresentava pros amigos "se preparem pra amar
essa mulher pra sempre, porque é o que eu vou fazer". E não existia quarta,
nem quinta e nem terça. Todo dia era sábado. Todo dia era dia de namorar e
ouvir aquelas coisas todas. E ele me mostrava sua foto criança "olha a cara do
seu filho". E ai de mim se topasse sair com alguma amiga ao invés de ir
naquele flat onde ele quase me embalsamava de tanto amor e sexo e planos.
E eu quieta, vendo aquilo tudo. Querendo acreditar aos poucos mas
acreditando rápido porque, afinal, a vida é um saco e eu deveria mesmo
merecer tudo aquilo. Por que não? Sim, sim, eu merecia! Claro.
E então, numa tarde, depois de tantos elogios e melhores beijos do mundo e
carinhos na nuca para eu dormir mais rápido e um anel de ouro branco que
ele mandou fazer escrito "I Love you" na parte de dentro, eu resolvi que
gostava do cara. É, acho que eu curto esse cara. Olha, tô achando que eu amo
esse cara.
E porque resolvi que então eu estava naquela relação e qualquer mulher que
resolve isso precisa de algumas garantias e conversas que vão além da
ostentação teatral e da euforia sexual, achei que não teria problema nenhum
em dizer pra ele, o quanto eu estava sofrendo com o final da peça, se ele ia
mesmo vir pra São Paulo me ver toda semana, se ele ia se comportar no Rio,
longe de mim, com aquelas vadias bundudas querendo uma chance na TV. Se
ele me amava mesmo. Como seria com ele longe. Se ele achava que aquilo
tinha futuro mesmo. Aquela ladainha normal de qualquer mulher que se
sente à vontade pra ser chata depois do cara ter ganho o cartão "sou
insuportavelmente louco, apaixonado e obcecado por você, fucking woman of
my life".
E ele coçou a batata da perna. Espreguiçou. Fungou fundo a respiração. Foi
tomar banho sem falar nada. Ficou dois longos dias sem me ligar. E depois,
porque eu fiquei sem entender nada e fui pro Rio, desesperada, ver o que
estava acontecendo, ele me disse, com uma frieza e um distanciamento que
até hoje me dilaceram e me fazem temer a vida: "ah, Tati, você é chata".
É, mulheres são chatas mesmo. O que é melhor, muito melhor, infinitamente
melhor, do que ser você.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 09h33
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O espírito de Natal.

De Bianca Rosolem.

Lembrei agora mesmo, quando escrevia o título acima, de um filme e resolvi registrar aqui e utiliza-lo para ilustrar o início dessa crônica.
É um filme sessão da tarde natalino, acredito que com o divertido Bill Murray, não me recordo o título, e quem o souber deixe aqui anotado, por favor. Pois bem, na película o ator é um empresário mesquinho, sem valores humanos, mas com muito valor em espécie, digamos. É uma adaptação do conto natalino tradicional de autoria de Charles Dickens, que retrata o avarento visitado pelos espíritos do passado, presente e futuro, que o assombram na tentativa de elevar a mesquinhez de sua alma. O velho ditado "se não é pelo amor vai pela dor".
Eu que não gosto de festas coletivas observo toda essa movimentação em torno da data de Papai Noel de uma maneira peculiar. Desde muito cedo algo me fazia estranha no período festivo. Meus pais acabavam brigando por algum motivo e sempre rolava algum stress que a tenra idade não compreendia.  Apenas vivia um sentimento triste sem entender segurando o brinquedo novo. Com o tempo a chatice crítica se instalou e percebi a comoção financeira existente na comemoração do nascimento do Cristo. A real dessa história é bem simples: Um cara nasceu para salvar o mundo - olha a puta missão e responsa! - ganhou incenso e outras bugigangas e, hoje, o povo pega trânsito, fila pra tudo, e se endivida no cartão de crédito comprando grandes presentes. Claro que para compensar a falta de sentimentos reais e comprometimento nos relacionamentos, coisas que Jesus, o pobre filho do carpinteiro, pregou e deixando a maior história da humanidade.
Calma lá, não me odeiem!  E não me tomem por uma socialista chineluda chata.
Sou um pouco dessas coisas, admito, mas vamos lá.
A parte do presente é legal. Sim! Eu adoraria ganhar um conjunto de dvd+tv lcd+home theater e aquele telefone moderno que faz tudo e mais um pouco. Mesmo que eu não use metade dos recursos porque o meu é pré-pago. E os filmes que eu gosto não precisem de recursos extremos de som e imagem.
 Eu só acho que os sentimentos que deveriam nortear a data e, claro, toda a vida do indivíduo, ficam em segundo (terceiro, quarto, quinto...) plano para dar a vitória ao dimdim, money, bufanfa, grana, e sei lá quantos nomes o diabo tem.
Como advogada, posso dizer que no final do ano as pessoas ligam desesperadamente atrás da grana. Elas lembram daquele processo e, pum, sacam o telefone, ou entram no escritório agressivas atrás do dinheirinho sonhado. Até esculacho já tomei porque uma senhora comprou o tênis para o filho no cartão de crédito, esperando o dinheiro de um litígio com o INSS que, infelizmente, não saiu.
 É só notar na rua o volume crescente velocidade da luz de pessoas, todas estressadas em comprar. Caminhando desesperadas atrás de "um" dinheiro aqui, acolá. Não deixemos de falar das inevitáveis contendas familiares, afinal, creio que isso não seja um privilégio da minha. Na casa de quem,  o fulano fez tal coisa, a tia que não lava a louça, a cunhada que só traz aquele peru horroroso, tudo coisa muito elegante.
Não vou me esquecer também daqueles famosos "escorpião no bolso". Sabe aquele tio velho, que fica de cara amarrada só para não abraçar alguém ou gastar dinheiro, e come todas as coxas da ave natalina? Ou aqueles que dão presentes usados, já viram, com cheiro de naftalina e preço em cruzeiros na etiqueta? E aquele que te emprestou uma graninha há uns meses atrás e resolve te cobrar com juros de 3.000%?
Eu sei lá nessas horas. Eu apenas vejo essa gente enfiando pisca-pisca em todos os lugares (quem sabe até lá, não é minha gente?) e sinto uma vergonha alheia sem tamanho, proporção e cor. Eu não entendo nada disso, nem o excesso nem a carência. Eu só me questiono onde está a verdade nisso tudo. 
É isso aí, o espírito de natal é a grande assombração do conto ilustrado no filme citado. Exorcizando os maiores demônios existentes na alma humana que, sob o aval da comemoração do nascimento do Cristo, exteriorizam a sua faceta mais infame. E para compensarem tamanha excrescência, se entopem de presentes e comida como desculpas de sua própria mediocridade.
E fingem também se gostarem. Por um dia.
Feliz natal pra você.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h06
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Política à moda Hollywood.

De Silvio Pilau.

Rede de Mentiras tinha tudo para dar certo. Roteirista recém-oscarizado, um dos mais consagrados diretores do cinema americano, elenco formado por dois excelentes atores e um tema de extrema relevância para o mundo atual. As cartas estavam todas na mesa. Infelizmente, os jogadores não conseguiram montar um bom jogo. Ainda que esteja longe de ser um filme ruim, pode-se dizer que Rede de Mentiras é uma produção decepcionante, que peca pela falta de ousadia e coragem ao abordar de maneira superficial um assunto tão complexo.
Dirigido por Ridley Scott (Gladiador) a partir do roteiro de William Monaham (Os Infiltrados), Rede de Mentiras é mais uma produção recente a montar sua trama central em torno do tema terrorismo e guerra no Iraque. Porém, o filme está mais para O Reino, que priorizava a ação ao invés da reflexão, do que Leões e Cordeiros, que fazia o contrário e levava o espectador a pensar sobre os acontecimentos. O roteiro não se prende a análises ou críticas políticas, nem aborda as conseqüências da guerra sobre as vidas humanas. A intenção de Scott e Monaham parece ser, unicamente, a construção de um thriller de ação que prenda a atenção por duas horas.
Se esse era o objetivo, ele foi alcançado. Rede de Mentiras é uma aventura de espionagem conduzida com a competência de sempre por Scott e que conta com um enredo suficientemente bem amarrado. Ainda que superficial e não tão complexo quanto se poderia esperar, o roteiro não deixa grandes pontas soltas e é dinâmico para fazer com que o ritmo da produção seja bastante vertiginoso. Scott, aliás, colabora para isso ao construir cenas de ação eficientes e explorar a interessante contradição entre os norte-americanos serem prejudicados por sua própria tecnologia na luta contra os rústicos homens do deserto.
Por outro lado, a história é falha em diversos pontos, como na construção dos personagens. Ao focar simplesmente na busca pelo terrorista, Rede de Mentiras jamais permite que o espectador conheça aqueles personagens. Hoffman, por exemplo, permanece um verdadeiro mistério durante toda a produção. Ainda que Russel Crowe use todo o seu talento para transformá-lo em uma figura carismática e levemente cômica, pouco se sabe sobre o personagem além do fato de que ele toma decisões capazes de influenciar o mundo enquanto leva o filho ao banheiro ou assiste o futebol de sua filha - idéia que Scott esgota ao repeti-la.
Enquanto isso, a construção de Roger Ferris também enfrenta alguns percalços. Verdade que o personagem, ao menos, possui um arco dramático, mas esse é tão artificial que não convence - apesar da interpretação sólida e intensa de DiCaprio. Por exemplo, ele simplesmente decide dizer que está cansado de tudo o que vive, sem que o roteiro dê motivos para isso (e não falo sobre a cena que ocorre após o momento com a câmera de filmagem, mas antes). Além disso, pouco se sabe sobre ele fora sua capacidade como agente: quem é Ferris? De onde veio? Há uma breve menção a um divórcio e nada mais.
O maior problema, porém, em relação ao personagem diz respeito ao relacionamento inventado pelo roteiro entre ele e uma jordaniana. Totalmente fora de contexto, a história serve apenas para estabelecer o conflito do terceiro ato, sem qualquer função orgânica à trama. Além disso, as cenas entre DiCaprio e a atriz Golshifteh Farahani são os únicos momentos no qual o filme perde um pouco de seu ritmo e o relacionamento entre ambos dá início a um clichê que simplesmente não deveria ter lugar em uma obra com temática séria como Rede de Mentiras: aquele no qual o mocinho tem que salvar sua amada da mão dos bandidos.
Esse, por sinal, não é o único lugar-comum no qual a produção resvala em seu terceiro ato. Há um momento frustrante no qual alguém é salvo na "hora H" e a inevitável conversa entre mentor e aprendiz após todos os acontecimentos. Tais desvios quebram o tom realista que o filme deveria possuir, jogando na cara do espectador que ele está assistindo simplesmente mais uma produção hollywoodiana, onde a falta de ousadia em apresentar algo novo sempre dita as regras.
E isso é uma pena, pois torna Rede de Mentiras uma decepção por jamais atingir o nível que deveria ter alcançado. É, ao final, um thriller que dá conta do recado e diverte durante duas horas. No entanto, atém-se unicamente à caça ao terrorista de maneira rasa, jamais indo a fundo na questão da guerra ou promovendo reflexões na platéia a respeito de assunto tão relevante. Está longe de ser um filme ruim, mas é, por tudo o que prometia, frustrante.

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h16
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Papai Noel e o Marketing.

De Carlos Castelo.

- E então, como ficou a criação do personagem-ícone do Natal?
- Trouxemos uns layouts com ele em algumas situações e figurinos.
- Vamos dar uma olhada geral?
- Ok, essa é a primeira situação. Ele seria um cara jovem, meio canalhão e usaria uma camiseta apertada, mostrando peitoral, bíceps. A consumidora feminina, com certeza, adoraria um tipo assim.
- Faz sentido. É ela quem define as compras em casa. Mas, por outro lado, me parece um pouco fechado demais num universo só. Muito classe A, B também.
- Ah, ele anda com um saco na mão, sempre cheio de presentes. Passa uma virilidade, a coisa do macho alfa-provedor. A classes C e D teriam identificação com esse aspecto, não acha?
- Vocês chegaram a ler alguma pesquisa qualitative sobre o tema? Meio arriscado aprovar assim sem um embasamento. O outro...
- Bem, aqui seria um sujeito, como eu posso dizer, mais efeminado.
- Hum, hum.
- Não necessariamente pela atitude, entende?
- Sei. Ele não é uma bicha louca, é mais um simpatizante.
- É, é.  Efeminado pelas roupas vermelhas que ele usa e tal.
- Veludo vermelho?
- Exato. E no entorno tem renas, alces e esses duendes. Dão um toque surreal ao ambiente onde ele transita. Lembra do Pee-Wee Herman?
- O humorista andrógino?
- Ele tinha uma pegada gay light, assexuada, dava o maior samba.
- Huuuummmm. Tem mais opções na pasta de vocês?
- Tem o velhinho bêbado.
- Curioso. Deixa eu ver.
- A gente partiu da idéia de que um personagem assim despertaria a piedade das pessoas. Final de ano, todo mundo sensibilizado. Aí surge esse cara de barbas brancas, bochechas rosadas, bêbado e falando onomatopéias estúpidas, tipo "ho ho ho", frases desconexas, sabe?
- E qual seria a vantagem do ponto de vista do marketing?
- Bom, essa seria uma opção menos "right sizing", mas que pegaria pelo emocional,  a vontade íntima das pessoas quererem ajudar um vovozinho de fogo.
- Ho Ho Ho?
- Sim, seria o "gimmick" sonoro do personagem.
- Qual opção agradou mais o Planejamento Estratégico?
- Hã, eles criaram um tipo deles...
- Como era?
- A gente não concordou muito. Mas por eles ficaria uma mistura do velhinho de barbas brancas com o gay de roupa de veludo vermelho...
- Interessante!
- Acha mesmo?
- Sim! E olha: coloca o velho segurando o saco de presentes do canalhão com esses viados todos em volta! 
- Sério?
- Ho Ho Ho!!! O "gimmick" sonoro é muito bom, cheio de non-sense! Vai pegar! Manda o orçamento amanhã pro Financeiro, sem falta!

Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h30
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Até tu, Saramago?

De Giovana Madalosso.

Eu estava na internet quando me deparei com a foto do ilustre português abraçado com sua esposa. Que decepção. Achei que Saramago fosse casado com uma senhorinha curvada pelo tempo, e não com uma morena esguia, de pele lisa e corada, com rugas tão sutis que é preciso dar um zoom para vê-las. Fechei a página. Se até esse devoto do intelecto e da alma escolheu uma mulher mais nova, o que será de nós, fêmeas, na idade avançada?

Não tem jeito. Antes de ser intelectual, ativista político, escritor e prêmio Nobel de Literatura, Saramago é homem. E homem gosta é de mulher bonita. Borges confirma. Aos oitenta e cinco anos, o escritor casou-se com Maria Kodama, quatro décadas mais nova do que ele. Na ocasião, Borges já estava cego, mas nem isso o impediu de dar uma conferida no material. Conta-se que, antes de propor o casamento, ele perguntou a sua empregada: Maria é bonita? Nem feia, nem bonita, ouviu como resposta. E então, certo de que não estava desposando uma de suas personagens de quatro mil olhos e quatro mil orelhas, casou-se com a jovem.

É claro que para Borges, Saramago ou qualquer outro portador de cromossomos XY também pesam outras qualidades. Além de bela, a Pilar de Saramago é uma mulher interessante, excelente tradutora, e a empatia entre os dois é inquestionável. A Maria de Borges também foi uma grande companheira. A questão não é com quantos atributos se faz uma paixão, mas qual o peso desses atributos. Dispa uma modelo e uma velhinha doutorada na frente de um homem e o orgão dele lhe apontará a resposta.

Condenável? De maneira alguma. É absolutamente instintivo, portanto não passível de retaliação. Até porque as mulheres também têm seu método de escolha. Só que, nesse caso, o ouvido vem antes e a visão, depois. O sujeito pode ser careca, barrigudo e peludo como um primata, mas se disser a coisa certa, leva. Mulher gosta de homem inteligente, dotado de atitude e, de preferência, bem-sucedido, não pela segurança financeira que isso proporciona, mas porque para elas é a admiração, e não a carne, o maior afrodisíaco.

Se é assim, o macho também precisa se destacar entre seus pares. Claro, rapaz. Está pensando que a vida é fácil? A diferença é que, com elas, o critério é muito mais cruel. Um bom papo se arranja, e só tende a melhorar com o tempo. Já a beleza física vai se esvaindo cada vez mais.

A sorte é que, na idade avançada, as mulheres vivem bem sem os homens. Já esses, pobres sofredores, passam até seus últimos dias, ainda que cegos, esquadrinhando o mundo por um rabo-de-saia.

Giovana Madalosso é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas às 16h18
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Um instante, Sr.

De Antonio Prata.

É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha e um rico entrar no reino dos céus do que cancelar a TV à cabo. Sei o que digo: perdi uma tarde no telefone até a atendente Carla aceitar o fim de nossa relação - não sem antes levar-me à beira da loucura com as infinitas artimanhas que deve ter aprendido em gincanas Tropa de Elite de Vendas e outras aberrações oriundas do fascinante mundo do RH.
"Não, Carla! Não quero outro pacote! Quero cancelar a assinatura! Escuta: se você me oferecer mais uma promoção eu vou ligar pro PROCON, vou escrever carta pro jornal, vou mandar um gato bomba aí pra central, tá entendendo?!".
A guerrilheira Carla nem perdia o rebolado. Pedia um instantinho, me deixava ouvindo aquela música new age de videogame e, cinco minutos depois, com se nada tivesse acontecido, oferecia-me o "Combo Deluxe" pelo preço do "Combo Master", o "Combo Master" pelo preço do "Combo Confort -- mais a família Cineblix!, senhor Antonio, é um excelente negócio!".
"Que raio de língua é essa? Família Cineblix? Combo?! Comboio! Kombi! Colombo! Camboja! Cumbuca! Eu já disse, senhora Carla, só quero que desliguem essa joça!!!".
"Vamos fazer assim: o senhor suspende a assinatura temporariamente." Sei. Jogo essa meia hora no lixo e marcamos, para 2013, uma nova DR corporativa? Serei incapaz de dormir sabendo o que me espera no futuro. "Cancela!".
"Vamos fazer assim: o senhor passa a assinatura para algum conhecido: um parente, amigo?". Que tipo de pessoa você imagina que eu sou, jihadista Carla? Não desejo essa Via Crucis ao meu pior inimigo. "Cancela!".
Uma hora depois, desidratado e rouco, atirei-me no sofá, mas nem pude comemorar o cancelamento, pois da bonança veio a tormenta: o que acontecerá com a atendente Carla? E se, ao ouvirem nossa conversa -- que foi gravada para minha "maior segurança" -- os demiurgos do RH decidirem que ela não presta pra coisa? E se ela estiver pra casar? Ou grávida? Noiva, grávida, abandonada pelo futuro marido, aí vem o senhor Antonio e, só porque fechou com o concorrente pela metade do preço, a joga na rua.
Pude ver a parturiente Carla voltando de ônibus para casa, chorando. Pior: vislumbrei a reunião dos gerentes de marketing, analisando a nossa conversa e chegando à conclusão inexorável: "precisamos ser mais agressivos!". Descancela, atendente Carla! Descancela!

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h38
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Alce Cinzento e Woody Allen.

De Edson Aran.

Crítico assistir Vicky Cristina Barcelona

Alce Cinzento, das Rochosas, grande crítico de cinema da Nação Sioux, assistiu ao filme Vicky Cristina Barcelona, produção mais recente de Woody Allen. Alce Cinzento, hoje dono de um cassino em Nevada, foi um dos críticos mais importantes dos Cahiers du Cinema. Agora ele só escreve por prazer. 

Woody Allen não Pederasta Espanhol

Por Alce Cinzento, Grande Crítico Nação Sioux

Alce Cinzento acompanhar Woody Allen antes tela preta com fonte Windsor-EF Elongated em branco. Alce Cinzento gostar Woody Allen. Alce Cinzento muito puto ler algum lugar Woody Allen virar "europeu", "emular" Pedro Almodóvar e fazer "melhor filme" carreira Vicky Cristina Barcelona.
Alce Cinzento achar crítica fumar mais peiote Coiote Lunático. Coiote Lunático espécie Amy Winehouse Grande Nação Sioux. Senão vejamos. Woody Allen sempre ser europeu. Woody Allen ser Bergman (Interiores). Woody Allen ser Fellini (A Era do Rádio). Woody Allen ser Godard (Annie Hall). Woody Allen ser até Antonioni (Tudo o que você queria saber sobre sexo). Woody Allen não virar europeu só porque filmar Europa, dãããã.
Alce Cinzento também achar Woody Allen não "emular" pederasta espanhol. Pederasta espanhol adorar travesti tetraplégico e Caetano Veloso. Pederasta espanhol ser Betty, la fea para pseudo-intelectual. Alce Cinzento odiar pseudo-intelectual.
Alce Cinzento gostar Vicky Cristina Barcelona, mas não achar melhor filme carreira Woody Allen. Mulheres conduzir trama. Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) muito gatas. Mas melhor mulher ser Maria Elena (Penélope Cruz) que parecer nascer fazer Woody Allen. Alce Cinzento gostar, não amar de paixão.
Cristina ser como bela Flor de Obsessão e não saber o que querer. Flor de Obsessão sair Toupeira Surfista, levar tapão pé do ouvido e dizer nunca mais homem canalha. Dois dias depois Flor de Obsessão rolar pradaria Urso Espancador. Flor de Obsessão ser Luana Piovani Grande Nação Sioux. Alce Cinzento desprezar Flor de Obsessão. Alce Cinzento dar quatro escalpos Woody Allen. Alce Cinzento dar meio escalpo crítica especializada. 

Escrito por Blônicas . às 17h08
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O Superbonder do acaso - parte I.

De Xico Sá.

Ela agora arruma a favela-nation, como chamava a fileira de malas no canto do quarto, uma delas bem grande, arre, tipo rodoviária de Teófilo, Minas, jardins dos sertões que se bifurcam.

É o último dia do janeiro mais frio dos últimos 26 anos, informa o serviço meteorológico da cidade de São Paulo.

"Durante vinte e três noites consecutivas as nossas costelas grudaram, sem contar siestas para lá de espanholas, com o superbonder do acaso, o tenaz de um ensaio amoroso, o araldilte dos idílios inesperados, o visgo de pegar pássaros na infância", pensa ele, no tempo em que o zômi ainda pensavam.

Vagamos lindamente pelos bares, calles, concertos, infernos, Buñuel na cama, biños, vanguarts, clashs, haxixes, consolações, chapas-quentes mistos idem, paraísos e augustas, coisas, babas,resumos, galegas birinaites samba club.

(...)

Amanhã partem as malas, a gaveta de calcinhas que eu mesmo arrumei com zelo & tara e alguma coisa a mais que ainda não tem nome nem cabe em nenhum carreto desse mundo.

Ela seguirá no dia seguinte, sábado, para um lugar que ainda não sabemos a essa altura.

Porque as mulheres que bolem de verdade com a gente são ciganas que não trabalham com pistas cartográficas.

No máximo, mapas de camelôs tão piratas quanto fitas da tropa de elite.

Terá uma conversa séria com um amor forte do pretérito nunca passado, conjugações esquisitas, leio aqui na palma da sua mão esquerda enquanto ela dorme no meu peito, baba aliterações de bebê, baby, baba, bob, jock, derraaaama sueños em intermináveis planos-sequência -sofisticada a nega!

(Um homem que guardou tudo para dizer somente agora, solamente agora, e talvez a espere com aqueles girassóis dos homens lentos que despertam enfurecidos apenas quando vêem o objeto do desejo encoberto pela maria-fumaça das estações do passado, ele merece, é sofrido, mas nunca justo.

03h00.

Ela toma banho.

Little drop of poison, de Tom Waits, toca na nossa rádio virtual predileta.

Ela guarda frascos e cremes.

Tento espremer a garrafa de Jim Bean que já estava na lata do lixo...

Agora fodeu de vez, mas o agora é agora, donde os fracos não têm vez: Leonard Cohen manda You Know Who I Am.

Os zipers das malas e bolsas dela não fecham direito, as coisas teimam -o secador de cabelo dispara inexplicavelmente revoltado- em ficar debaixo do teto das minhas falhas e goteiras. O que é uma mulher sem um secador de cabelo?

 Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 15h41
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Vazio.

De Tati Bernardi.

Fui na Bienal hoje. Tem um andar inteiro vazio. Parece comigo. Eu tenho um
andar inteiro vazio. Os meus cinqüenta e oito andares estão vazios. Está tudo
vazio.
Eu queria avisar as pessoas que eu era a melhor instalação da Bienal. Veio ver
o vazio? Olhe pra mim. Não tenho nada dentro de mim. Nada. Não tenho
vontade nenhuma de lutar por você, mas também não tenho vontade
nenhuma de não lutar. Não espero nada, mas também não espero outra coisa
nenhuma. Eu não tenho nada. Eu perambulo por aí, atendendo meus 78 mil
amigos e odiando ver o nome de cada um deles no visor do meu celular.
Todos divertidos, leves, incríveis, amigos. E eu cagando um mundo pra toda
essa merda.
Aí na Bienal fiquei sabendo que uma professora enlouqueceu e jogou umas
fotografias lá pra bai xo. Ninguém entendeu nada. Mas eu acho que entendi.
O vazio dá desespero, cara. Dá um desespero filho da puta.
O vazio dá um desespero silencioso. É como se o tempo jogado no lixo
batesse sutil, num relógio esquecido em algum canto do quarto, que você só
descobre quando está muito de madrugada e ao longe você escuta aquele
tic,tac,tic,tac. Um batida que quase não existe. Você não sabe se é o tempo
sendo contado pra você ou o seu coração contando você pro tempo. Um
desespero sem cara de desespero. Mas que é desespero puro. A pior espécie
dele.
Aquele tobogã da Bienal...que porra é aquela? Sofrer anda tão sem graça que
mergulhar no vazio tem fila e casal de mãos dadas.
Tem três seguranças no andar vazio da Bienal. A vida anda tão sem graça que
até o nada corre risco de ser roubado. Até porra nenhuma precisa de vigília. E
eles com aquela cara brava, fechada. Uma cara fami liar pra mim. Da pessoa
que protege o nada como se fosse a única coisa que ainda restou. Um
egoísmo em dividir o nada e ver ele virando alguma coisa.
Ai que dor. Que dor. Que merda. Que lixo. O andar vazio da Bienal tem cestos
de lixos espalhados. A vida anda tão chata que nem o nada pode sujar. Eu
queria ter gritado. Eu queria ter essa cara de pau. E ter berrado no meio do
andar vazio da Bienal. Um grito de nada. Pior é que eu berrei. Berrei com o
pior tipo de desespero do mundo. Meu silêncio, meu conformismo, minha
aceitação, minha quase maturidade.
Eu tenho a impressão que a hora que eu chorar, vai ser das coisas mais
tristes do mundo. Mais triste que aquelas crianças carentes correndo pelo
vazio da Bienal. Mais triste que o sol frio entrando pelo vazio da Bienal. Mais
triste que a mulher tirando foto do marido descendo no tobogã da Bienal. E
aquela bandinha que fica embaixo do pão de queijo. E o velhinho com uma
ave azul no ombro. Mais triste que os gringos tirando fotos com as crianças
carentes correndo ao fundo do andar vazio da Bienal. No vazio cabe um
monte de coisa, mas nenhuma se encaixa. Todas deslizam pelo rio de
lágrimas que inundam todos os meus andares vazios. A hora que eu chorar,
vai ser o choro mais triste do mundo.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h19
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