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Quinze minutos.

De Cléo Araújo.

No princípio, eu queria o moleque.
Aquele, que descia a rua da frente de casa esmerilhando no seu carrinho de rolimã. Achava um charme o joelho ralado, a voz que começava a ficar rouca, a canela cheia de mancha roxa e o tênis remendado de silver tape. Me apaixonei. Festinhas dançantes só tinham graça se ele viesse e me tirasse para dançar. Queria ele. Namorar com ele. E andar de mãos dadas com ele pela praça.
Depois veio aquele, da 7ª série. Usava calça de cós largo e tinha um franjão. Ele andava de skate e ouvia Talking Heads no seu walkman. A escola só tinha graça se eu o encontrasse na hora do recreio. Me apaixonei. Queria ele. Namorar com ele. E andar com ele de mãos dadas pelo pátio do colégio.
Quando estava no colegial achava os perebentos da escola uns perebentos. Era chegada a hora de querer os universitários, que iam com o carro do pai para ficar lá na frente do portão da escola, paquerando as menininhas na hora do intervalo. Eu queria aquele: óculos escuros e cabelo raspado de quem tinha acabado de passar no vestibular. Ele ouvia Men at work no Pioneer do seu Gol GTI. E a boate só tinha graça se ele entrasse, lá pela meia-noite, e viesse para perto de mim dançar “Who can it be? (now)”.  Me apaixonei. Fiquei com ele. Beijei ele. Namorei com ele. Mas nunca andei com ele de mãos dadas pelos barzinhos da cidade. É que o namoro não passou de 20 dias.
Um dia acordei e achei que tivesse virado mulher. E uma mulher se apaixonaria por um homem. Aquele: cinco anos mais velho do que eu, último ano da faculdade, já trabalhava e era lindo de morrer. A vida só tinha graça se ele estivesse comigo no carro ouvindo Aerosmith, em casa no sofá assistindo “Feitiço do tempo” ou o tempo todo fazendo qualquer coisa inútil. Queria ele. E queria ele mais. E queria de novo. Fiquei louca, me apaixonei, beijei, chorei, rastejei, virei metade de mim. Mas não me casei com ele. Não éramos feitos um para o outro. Demorou, mas eu entendi tudo. Expliquei, até. E fui continuar sendo feliz.
Aí achei que tinha virado mulher mesmo, dessa vez, de verdade. Fui morar sozinha, longe de tudo. Surgiu aquele: lindo, gentil, do mundo, cheiroso, alto, a soma de tudo. Queria ele antes de conhecê-lo. Os dias só tinham graça se eu estivesse falando com ele por email, fazendo gracejos virtuais à distância, imaginando o próximo jantar sobre almofadas marroquinas ou o próximo gole de conhaque sob a neve. Queria andar de mãos dadas com ele fosse onde fosse, em qualquer continente, em qualquer planeta, num restaurante estrelado ou num boteco pé sujo de um submundo qualquer. Queria ele. Queria muito. E ele foi tudo que eu quis. Pelo tempo que eu pude.
Depois dele eu não fiz mais questão de nada específico, e muito menos de nada genérico. Homens vinham em seus carrinhos de rolimã, fazendo manobras em seus skates, preparando coquetéis, exibindo os vincos de sua virilha em suas calças largas, desfilando seus ternos e laptops, fazendo solos em seus baixos, carregando suas pranchas de surfe, exibindo seus lados espirituosos, enfim, eu já tinha visto aquilo tudo e me apaixonado por aquilo tudo. Não fazia questão de nenhum deles.
O resultado é que não há praça, pátio de colégio, boate, restaurante estrelado ou submundo no qual eu consiga me ver de mãos dadas com alguém. Não há mais a expectativa do encontro na rua, na escola, na faculdade ou na cidade para onde eu acabei de me mudar. Lá, homens apaixonantes parecem não vagar mais. A paixão fugiu de mim.
E o pior é que eu quase agradeci. Faz tempo que não quero nada e que estou inteira, ouvindo as músicas de que quem gosta sou eu.
Não quero precisar mais pensar, nem me esforçar, nem esperar por um telefonema. Não quero calcular a hora certa de fazer um. Não quero correr atrás de fugitivos, nem meter o pé no peito para mostrar que isso que eu sinto é amor. Quero ser feliz sem querer.
Deitar em almofadas marroquinas e saborear um gole de conhaque sob flocos de neve.
Quero, sim, tudo isso e ao mesmo tempo.
Para sempre.
Ou por quinze minutos.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 14h10
[]


Acabou!

De Tati Bernardi.

Nunca me conformei com o fim de nada. Por mais que eu sentisse que era a hora. Por mais que eu quisesse ou precisasse me livrar das coisas. O "acabou" sempre chega ou chegou como se eu jamais tivesse parado pra pensar nele. Cruel, terrível e doloroso além de mim.

O último dia em qualquer coisa que tenha durado tempo suficiente pra me fazer dormir sorrindo com o dia seguinte. Um emprego, um curso, uma casa, uma viagem especial, um relacionamento. O ultimo dia do ano. Sempre tristes, sempre cheios de momentos em que eu preciso me isolar e ficar de um quase desespero catatônico. Uma vontade de sair correndo sem me mexer. Um pavor calmo e, pra quem nada entende de espasmos assustados, até sorridente. Abaixar e abrandar tudo em mim que ainda se debate pra continuar onde estava. Subindo loucos para a minha testa, todos eles. Mas quem são esses eles que sobem pra minha testa? Um mal estar em velar a vida que acabou pra poder continuar. Uma mistura caótica de enterro com nascimento, tipo se apaixonar.

Dez pra meia noite meus amigos já estão um pouco bêbados e os fogos começam nas praias próximas. A praia em frente a casa está linda e o teto cheio de bexigas brancas. Meus amigos cheiram bem. Digo, por causa do banho. Eu sumo. Desapareço. E começam as piadinhas "deixa, ela é assim mesmo". Uma coisa horrorosa me assusta e eu quero algo que não é nem a minha mãe e nem a minha cama e nem a minha casa. Olho meu carro na garagem da casa e tenho um segundo de alívio. Ainda existe ir embora. Mas da onde? Eu sempre querendo ir embora. Mas pra onde? Quero um colo e um quente e um ombro que nunca conheci. Não é de homem, de amor, de força. O que é isso? Um enjoado que não faz passar mal. Um frio que não precisa de agasalho. Uma necessidade absurda de ir para um lugar que eu nem imagino qual seja. Uma saudade de vida inteira como se eu já tivesse vivido. Uma coisa enorme e ao mesmo tempo concentrada naquela picadinha de inseto atrás do meu joelho que incha e incomoda do tamanho do mundo. Uma angústia que estremece até aqueles cantos da gente que a gente passa batido. Uma coisa de cantos e não de peitos. Mas que acaba com o oxigênio.

Sento sozinha onde a vista é mais bonita. Aperto meu celular. Pra quem eu quero ligar? Quem? Ninguém. Não é saudade de gente essa coisa. Não é coisa que passa de ouvir voz ou desejo ou coisas bonitas. Então passa com o quê? Chama a Tati que vai dar meia noite. Não, deixa ela. Ela é assim mesmo. É "tipo" isso que ela faz? É e não é. É saudade da família, do cara, da cachorra? Não, ela é assim. Escuto os outros e enquanto isso acontecer, não vai passar. Preciso me escutar. Mas não tenho nada pra me dizer. Só esse vão dos pensamentos. Só esse intervalo de motivos. Só a soneca merecida do carrasco que mora no centro da minha cabeça. Só o momento alienado das listas. Esse bueiro vazio embaixo da vida. Essa falha da linha embaixo do que se tem a dizer. Esse nada que caio, de vez em quando, e que també m não tem nada pra me dizer a não ser que o mistério também faz parte. Assim que eu me sentir mais leve, simplesmente saio dele, sem nada concluir. Não dá pra forçar, levar um choque de voltar pra superfície. Só o que existe é enfrentar esse algo que jamais soa como algo a ser enfrentado, já que não é nada.

Coloca aí a sinfonia número 5 para eu chorar? Quando meu pai me leva, aos domingos, para ver concertos, fico torcendo pra ter essa porque ela sempre explica, de alguma maneira, o fim das coisas. Não é de morte, mas é de morrer. Entende? Coloca? Não, Tati. Ninguém tem isso aqui, tá louca? A gente vai colocar o Asa de águia. Oi? É. E eu mais uma vez me pergunto porque saio de São Paulo no dia que mais tenho pânico de todos os dias do ano. Mas se eu contar pra alguém, vão me mandar pra médicos e remédios e curandeiros. Como se tivesse solução pra ter nascido. Ninguém entende nada. Então só me afasto e aperto o celular. Não quero nada e nem ninguém. Aperto apenas pra lembrar que existe, ainda, uma lista de querer dentro de mim. Que uma hora volta. Daqui a pouco eu volto e tudo volta.

A virada do ano. Estamos todos morrendo! Quero correr pela praia. E gritar. Fodeu galeraaaaaa! Estamos todos morrendo! Acabou. Ta acabando. Vai acabar. E isso é...putz, e isso é tão lindo que eu queria poder, agora, amar demais tudo e todos. Amar daquele jeito perfeito que dura um segundo e não quer nada em troca. Amar com meu caminhão da Granero. Do jeito enorme e grosseiro e Zona Leste que sei. Mas não faço nada disso, apenas rebolo, como se eu fosse mais uma ovelha do rebanho feliz, ao som do Asa de águia. E é como se o diabo me filmasse para eu saber, pra sempre, o quanto me traio pra jamais sucumbir a minha estranheza. O quanto deixo de assustar os outros com a minha maluquice e me assusto com a maluquice dos outros em mim. Rebolo pra dar de presente ao mundo minha presença, ainda que nem eu possa senti-la nessas horas.

Acabou. O ano virou. Daqui a pouco, todos estarão tão bêbados que eu poderei ser estranha ou infeliz ou bizarra ou nula como bem entender. Talvez ir dormir, por exemplo. Ou fazer coco. E poderei me libertar dessa obrigação pavorosa de estar feliz e simpática e emanando coisas boas. A ditadura da felicidade. Ano Novo é que nem o Rio de Janeiro. O Hugo Chávez da alegria. Eu quando fico estranha, quando tenho o "troço" que me dá, a última coisa que quero é um abraço. Agora imagina ficar estranha todo ano novo, a data dos abraços. Socorro.

As quatro da manhã, em meio a bexigas estouradas, gente caída, bocejos e I-pods descarregados, sinto a alegria vindo como um orgasmo daqueles que sabemos fortes porque se aproximam tímidos e ainda machucados. Canto bem alto. Danço. Abraço os restos das pessoas espalhados pelos restos da festa. Agora é a minha vez. Enquanto todos acabam de comemorar o final do ano, começo a comemorar o final da comemoração de final de ano. Ufa! Acabou! Acabou o Natal e o ano novo! Ufa! Agora que não precisa ser feliz, posso ser feliz em paz. Agora que não precisa ter energia, esbanjo minha falta de limite. Quero correr pela praia. Estamos todos vivos. Galeraaaaaa estamos vivooooos! Ufa! Acabou! Acabooooou! É isso. Não sei ser feliz com os finais que chegam. Mas sempre dou um jeito de me divertir quando sou eu que, apesar de tudo, chego até o fim.

Tati Bernardi é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 10h19
[]


Melhores e piores do cinema em 2008.

 De Silvio Pilau.

Com o recesso de final de ano que tive, consegui montar um balanço mais elaborado e completo sobre o que passou nos cinemas brasileiros em 2008. Lembrando, claro, que não sou uma máquina e assistir filmes não é a única coisa que faço na vida, portanto, não consegui ver diversos filmes lançados aqui. Então, como consequência (sem trema), o que coloco aqui abaixo é uma análise de tudo o que consegui ver que foi lançado nos cinemas brasileiros em 2008.

Antes de entrar nas listas, um comentário rápido: na minha opinião, esse foi o melhor ano do cinema em um bom tempo, com no mínimo cinco filmes que podem ser considerados obras-primas.

Divirtam-se e comentem abaixo.

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Top 10 - Os melhores filmes lançados nos cinemas do Brasil

10) O Caçador de Pipas (The Kite Runner) - EUA, 2007
O diretor Marc Forster realizou uma fiel e bonita adaptação do grande sucesso de Khaled Hosseini. O filme, sem grandes ousadias, adota uma narrativa clássica e se sustenta pela força da história e dos personagens. De forma madura, a obra trata sobre sentimentos como culpa e amizade, contando com ótimas atuações e um olhar respeitoso e bem-vindo sobre os problemas do Oriente.

9) [REC] - Espanha, 2007
Esta produção espanhola, que segue a técnica empregada em A Bruxa de Blair, apresenta atuações naturais e uma tensão muito bem construída pelos diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza. Os cineastas deixam muito do medo a cargo da imaginação da platéia e realmente surpreendem nos sustos. Os quinze minutos finais são simplesmente aterrorizantes. Um prato cheio para os fãs do terror bem realizado.

8) Apenas uma Vez (Once) - Irlanda, 2006
Delicado e sensível, Apenas Uma Vez captura de forma mágica a aproximação entre um músico irlandês e uma imigrante tcheca através da música, realmente trazendo o espectador para o coração dos personagens. Além disso, a trilha é marcante e o roteiro evita os clichês. O resultado é uma declaração sobre o poder da música e sobre as dificuldades do amor.

7) Desejo e Reparação (Atonement) - Inglaterra/França, 2007
A princípio um simples filme de época, Desejo e Reparação, pouco a pouco, vai se revelando uma obra extremamente ousada. O diretor Joe Wright foge do comum ao brincar com a própria linguagem do cinema de maneira magistral, ao mesmo tempo em que demonstra grande domínio técnico. As interpretações são ótimas e o roteiro, baseado em uma obra literária, mexe de forma inteligente com as percepções da platéia.

6) Na Natureza Selvagem (Into the Wild) - EUA, 2007
O grande apelo de Na Natureza Selvagem é o fato do personagem principal partir em busca de um sonho com o qual todos podemos nos identificar. Alicerçado em uma atuação talentosa de Emile Hirsch, o diretor e roteirista Sean Penn constrói um belo filme, repleto de grandes imagens e personagens bem desenvolvidos, mesmo aqueles com pouco tempo em tela. Uma obra riquíssima e inspiradora.

5) O Orfanato (El Orfanato) - Espanha/México, 2007
Essa produção de Guillermo del Toro é um exemplo de como realizar um filme de terror. O diretor Juan Antonio Bayona e o roteirista de Sergio Sanchez acertam ao desenvolver os personagens, construindo a relação entre estes e a platéia. Assim, as cenas mais tensas - dirigidas de forma impecável por Bayona - realmente geram nervosismo no espectador. De quebra, O Orfanato tem um final belíssimo e perfeito à história.

4) Onde os Fracos Não têm Vez (No Country For Old Men) - EUA, 2007
O filme que consagrou de vez os irmãos Coen é uma obra densa, que exige a interpretação do espectador para ser completamente apreciada. As atuações são perfeitas (destaque para o psicótico Javier Bardem) e a direção é segura, mas são as sutilezas do roteiro na reflexão sobre o mal que fazem de Onde os Fracos Não Têm Vez um grande filme, digno de todas as premiações que recebeu.

3) WALL-E - EUA, 2008
Novamente, uma animação da Pixar figura na lista dos melhores do ano. Wall-E é engraçado, tocante e mágico, com algumas cenas que capturam o que existe de melhor no cinema. Boa parte do filme é sem diálogos, uma ousadia do diretor Andrew Stanton. A relação entre o carismático protagonista e sua namorada é sensível e o roteiro ainda realiza críticas bem pontuadas sobre nossa sociedade. Impossível não se emocionar.

2) Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight) - EUA, 2008
A nova aventura do homem-morcego supera a definição de filme de super-herói para se tornar uma grandiosa saga sobre o crime aos moldes de Fogo Contra Fogo. Sombrio e reflexivo sobre a natureza do ser humano, Batman - O Cavaleiro das Trevas apresenta um enredo ambicioso e personagens bem construídos, como o protagonista atormentado e o fascinante Coringa, interpretado com maestria por Heath Ledger.

1) Sangue Negro (There Will Be Blood) - EUA, 2007
Contando com uma atuação primorosa de Daniel Day-Lewis, Sangue Negro é mais uma obra-prima de Paul Thomas Anderson. Tecnicamente impecável e narrativamente corajoso, o filme é profundo, ousado e ambicioso ao contar a história de um homem rumo à sua própria perdição. Mais do que um filme impecável, Sangue Negro é a história do Cinema sendo feita diante de nossos olhos.

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Menções Honrosas - Filmes que quase entraram na lista dos melhores

O Gângster (American Gangster) - EUA, 2007
Trovão Tropical (Tropic Thunder) - EUA, 2008
Hellboy II - O Exército Dourado (Hellboy II - The Golden Army) - EUA, 2008
Ensaio sobre a Cegueira (Blindness) - Brasil/Canadá/Japão, 2008
Juno - EUA, 2007
Marley e Eu (Marley & Me) - EUA, 2008
Speed Racer - EUA, 2008
Senhores do Crime (Eastern Promises) - Canadá/EUA/Inglaterra, 2007

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Bottom 10 - Os piores filmes lançados nos cinemas do Brasil

10) A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (The Mummy: Tomb of the Dragon Emperor) - Alemanha/Canadá/EUA, 2008
Sequência totalmente desnecessária para a série de sucesso, que não chega nem aos pés do divertido filme original. Aqui, todas as piadas e situações soam forçadas e sem graça, enquanto Maria Bello não consegue preencher o lugar deixado por Rachel Weisz. Além disso, Rob Cohen não constrói uma única cena empolgante, usando e abusando de efeitos especiais nem sempre convincentes.

9) Star Wars: The Clone Wars - EUA, 2008
Pouco se esperava desse filme, mas ainda assim é uma decepção. Em primeiro lugar, Star Wars: The Clone Wars nada acrescenta à série, sendo totalmente dispensável. Em seguida, o roteiro não ambiciona algo mais além de funcionar como mera desculpa para cenas de batalha. O problema é que estes momentos também são fracos, prejudicados ainda pela animação sem recursos. Nem os fãs gostaram, o que já é um terrível sinal.

8) 10.000 a.C. - EUA, 2008
Se antes Roland Emmerich ainda conseguia fazer filmes idiotas, mas divertidos, agora eles ficam só na primeira definição. Sua mais nova atrocidade é esse absurdo fantasiado de épico, que apresenta personagens sem qualquer apelo e uma história que nem ao menos busca alcançar qualquer lógica. Um batalhão de efeitos especiais tenta mascarar o conteúdo vazio, mas 10.000 a.C. nada mais é do que um filme a ser esquecido.

7) As Duas Faces da Lei (Righteous Kill) - EUA, 2008
Dói colocar um filme protagonizado por Al Pacino e Robert De Niro em uma lista de piores, mas não tem como evitar. Os dois veteranos ainda são o que As Duas Faces da Lei oferece de melhor. O resto é uma série de clichês comandada por Jon Avnet a partir de um roteiro que se julga inteligente, mas é mais previsível do que o resultado das eleições venezuelanas. Uma mancha na carreira de Pacino e De Niro.

6) Awake - A Vida por um Fio ¬(Awake) - EUA, 2007
Ainda que parta de uma premissa interessante, a idéia central não tem importância qualquer para a narrativa, soando totalmente descartável. O diretor Joby Harold até tenta achar uma função para ela, mas cria momentos ainda mais dispensáveis com o protagonista em uma espécie de limbo. Para piorar, Hayden Christensen e Jessica Alba são atores fracos, que não conseguem carregar o filme.

5) Jumper - EUA, 2008
Mais uma idéia promissora jogada pelo ralo. Jumper até inicia de forma bacana, com o protagonista aproveitando os poderes, mas se perde à medida que ele começa a ser perseguido por uma entidade ridícula. Como se não bastasse, Hayden Christensen novamente demonstra falta de talento, e sua química com Rachel Bilson é nula. A tentativa de criar uma série de sucesso ficou longe de dar certo.

4) Max Payne - EUA, 2008
Mesmo que o visual seja muito bem acabado, a história de Max Payne é um equívoco total, com personagens tomando atitudes sem sentido e um excesso de clichês que incomoda - inclusive aquele no qual o vilão conta todo o plano para o mocinho antes de falhar em matá-lo. Não há identificação entre personagens e platéia e a emoção é nula, além de subtramas completamente desnecessárias.

3) Fim dos Tempos (The Happening) - EUA, 2008
Se a carreira de M. Night Shyamalan já vinha em declínio, atingiu o fundo do poço com Fim dos Tempos. Uma história que beira o risível, com um final absurdamente ridículo, pontuado por cenas vergonhosas como a de Mark Wahlberg falando com uma planta. Os personagens são inconstantes e o clima de tensão é inexistente. Shyamalan só se salva por alguns momentos bem dirigidos, mas é pouco diante desse filme caótico e sem sentido.

2) Missão Babilônia (Babylon A.D.) - EUA/França, 2008
O que dizer de um filme que o próprio diretor rejeitou? O que ainda começa como uma ficção-científica promissora vai se tornando uma verdadeira bagunça sem qualquer lógica. Personagens sem personalidade, trama confusa e atuações vergonhosas tornam a experiência de assistir Missão Babilônia algo insuportável, culminando nos vinte minutos finais mais sem sentido do cinema em 2008.

1) Alien vs. Predador 2 - EUA, 2007
Não há muito o que dizer de Alien vs. Predador 2, porque isso não pode ser considerado um filme. O roteiro é inexistente e as cenas de ação incompreensíveis, realizadas no escuro e sem qualquer lógica. Soma-se a isso centenas de mortes de personagens sem graça, pelas quais agradecemos por não mais precisar ouvir os diálogos risíveis. Para piorar, joga toda a mitologia de ambas as séries no lixo.
 
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Menções Desonrosas - Filmes que quase entraram na lista dos piores

O Som do Coração (August Rush) - EUA, 2007
Ensinando a Viver (The Martian Child) - EUA, 2007
Elizabeth: A Era de Ouro (Elizabeth: The Golden Age) - Alemanha/França/Reino Unido, 2007
O Olho do Mal (The Eye) - EUA, 2008
Um Amor de Tesouro (Fool's Gold) - EUA, 2008
Jogos de Amor em Las Vegas (What Happens in Vegas) - EUA, 2008

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Melhor Diretor

1) Paul Thomas Anderson (Sangue Negro)
2) Christopher Nolan (Batman - O Cavaleiro das Trevas)
3) John Carney (Apenas Uma Vez)
4) Andrew Stanton (Wall-E)
5) Joel e Ethan Coen (Onde os Fracos Não Têm Vez)

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Pior Diretor

1) Colin Strause e Greg Strause (Alien vs. Predador 2)
2) John Moore (Max Payne)
3) Kristen Sheridan (Som do Coração)
4) Mathieu Kassovitz (Missão Babilônia)
5) Doug Liman (Jumper)

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Melhor Ator

1) Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)
2) Heath Ledger (Batman - O Cavaleiro das Trevas)
3) Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez)
4) Robert Downey Jr. (Trovão Tropical)
5) Emile Hirsch (Na Natureza Selvagem)

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Pior Ator

1) Mark Wahlberg (Fim dos Tempos)
2) Hayden Christensen (Jumper)
3) Steven Strait (10.000 a.C.)
4) Steven Pasquale (Alien vs Predador 2)
5) Vin Diesel (Missão Babilônia)

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Melhor Atriz

1) Catherine Keener (Na Natureza Selvagem)
2) Belén Rueda (O Orfanato)
3) Manuela Velasco ([REC])
4) Ellen Page (Juno)
5) Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)

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Pior Atriz

1) Jessica Alba (Awake - A Vida por um Fio)
2) Jessica Alba (O Olho do Mal)
3) Maria Bello (A Múmia: Tumba do Dragão Imperador)
4) Reyko Aylesworth (Alien vs. Predador 2)
5) Keri Russell (O Som do Coração)

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Melhor Roteiro

1) Paul Thomas Anderson (Sangue Negro)
2) Joel e Ethan Cohen (Onde os Fracos Não Têm Vez)
3) Sergio G. Sánchez (O Orfanato)
4) Christopher Nolan, Jonathan Nolan e David Goyer (Batman - O Cavaleiro das Trevas)
5) Diablo Cody (Juno)
6) Christopher Hampton (Desejo e Reparação)

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Pior Roteiro

1) M. Night Shyamalan (Fim dos Tempos)
2) Shane Salerno (Alien vs. Predador 2)
3) Mathieu Kassovitz, Joseph Simas e Eric Besnard (Missão Babilônia)
4) Shawn Ryan e Beau Thorne (Max Payne)
5) Roland Emmerich e Harald Kloser (10.000 a.C.)

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Melhor Cena

1) Coringa explodindo o hospital (Batman - O Cavaleiro das Trevas)
2) Wall-E e Eve se reencontrando ao final (Wall-E)
3) Esconde-esconde (O Orfanato)
4) Personagens no apartamento do último andar ([REC])
5) Plano-seqüência com as tropas na praia (Desejo e Reparação)

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Melhor Final

1) O Nevoeiro (The Mist) - EUA, 2007
2) O Orfanato
3) Apenas Uma Vez

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Pior Final

1) Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystall Skull) - EUA, 2008
2) Fim dos Tempos
3) Missão Babilônia

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Troféu "Só Eu Gostei?"

Speed Racer - EUA, 2008
Divertido, empolgante e criativo, o novo filme dos Wachowski é tudo aquilo que se espera de um filme-pipoca. Tudo bem que o visual é exagerado, mas não cansa em momento algum, até porque a história dos personagens é interessante o suficiente - apesar de óbvia. Cada segundo exala a absurda originalidade dos cineastas e as cenas mais movimentadas deixam o espectador grudado na cadeira. Merece outra chance.

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Troféu "Não É Pra Tanto"

Antes de Partir (The Bucket List) - EUA, 2008
Tire Jack Nicholson e Morgan Freeman de cena e nada mais resta a Antes de Partir. Este filme adorado por boa parte do público é uma imensa decepção, com um roteiro que não se decide entre a comédia e o drama. Para piorar, as viagens dos protagonistas são mal aproveitadas e as piadas se repetem sem o menor pudor. Vale somente pela dupla de astros e nada mais.

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(continua no posto abaixo)

Escrito por Blônicas . às 11h45
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Melhores e piores do cinema em 2008 (continuação).

Troféu "Esperei Tanto pra Isso?"

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
A aguardada nova aventura do arqueólogo mais famoso no cinema não chega a ser um filme ruim, mas é, sem dúvida, decepcionante. A magia presente na trilogia original surge apenas em momentos escassos, que fazem valer a pena uma assistida. Mas Spielberg e Lucas exageraram nos absurdos, como o personagem de Shia Labeouf dando uma de Tarzan ou formigas brincando de pirâmide. Sem contar o incompreensível final, que joga o pouco que tinha dado certo por água abaixo.

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Troféu "Melhor que a Encomenda"

Homem de Ferro (Iron Man) - EUA, 2008
O trabalho de Jon Favreau possui diversas qualidades que fizeram de Homem de Ferro mais do que um simples filme de super-heróis. A principal delas é que o diretor tornou a história crível, muito graças ao desenvolvimento do protagonista e à performance de Robert Downey Jr. A produção desliza de vez em quando nos clichês do gênero, mas é uma obra com muito a oferecer e uma boa partida para a série.

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Troféu "Bem-Vindo de Volta"

Guy Ritchie, por Rocknrolla - A Grande Roubada (Rocknrolla) - Inglaterra, 2008
Depois de duas bombas monumentais (Destino Insólito e Revólver), Ritchie voltou à forma que o consagrou com essa divertida e engenhosa história aos moldes de seus primeiros filmes, Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch. Ainda que não esteja no nível destes, Rocknrolla possui bons personagens, diálogos e um enredo bem amarrado, além das brincadeiras visuais de Ritchie. Mostrou que dá pra voltar a confiar no trabalho do cara.

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Troféu "Me Empresta um Lenço?"

Marley e Eu
Baseado no livro de sucesso, Marley e Eu é uma ótima surpresa de final de ano. Ao invés de tornar o cão o principal apelo do filme, o diretor Scott Frankel prefere contar a história da família dos donos e seus problemas, posicionando Marley como apenas mais um deles. A abordagem gera identificação entre personagens e platéia e culmina no mar de lágrimas ao final. Não é original e tem seus clichês, mas é honesto e realmente emocionante.

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Troféu "Musa do Ano"

Isla Fisher, em Três Vezes Amor (Definitely, Maybe) - EUA, 2007
O filme pode ser uma comédia romântica sem grandes novidades, mas é difícil não ficar fascinado com a presença de Isla Fisher. A atriz, que surgiu com destaque em Penetras Bons de Bico, está apaixonante no papel de uma das namoradas do protagonista. Linda, carismática e talentosa, Fisher possui incrível presença em cena e é por ela que o espectador torce no final. Sem dúvida, uma estrela que está nascendo.

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Troféu "Valeu Pela Tentativa"

Não Estou Lá (I'm Not There) - EUA, 2007
Diante da mesmice que se tornaram as cinebiografias recentes, é bom ver uma abordagem original como a do diretor Todd Haynes para a vida de Bob Dylan. Ao contar a história do músico através de histórias e intérpretes diferentes, o cineasta construiu um filme interessante e bastante criativo. A produção, porém, é bastante arrastada e por vezes fica difícil de acompanham, mas Haynes merece elogios pela visão e ousadia.

Silvio Pilau é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 11h44
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O puxa-saco.

De Bianca Rosolem.

Minha mãe, na tentativa de reprimir minhas traquinagens infantis, tinha por hábito me assustar dizendo que o "Homem do Saco" levava embora crianças que não obedeciam a seus pais. Confesso que eu sentia lá um certo temor, porém, jamais fora o suficiente para que então eu fosse uma garota muito polida. A idade passou e o "Homem do Saco" perdeu sua importância e ficou no imaginário da criança que fui.

Adulta eu me deparei com o outro espécime do saco: O Puxa-Saco.

Este sim, me causa terríveis calafrios e também uma vontade imensa de me tornar sociopata.

O Puxa-Saco é aquela figura sem talento, mas astuta e muitíssimo esperta. Ele utiliza ardis poderosos para manter-se sob a luz do Chefe. Chefes são seres do mundo profissional que necessitam de objetos sem luz própria a fim de irradiarem de maneira mais ampla seu poder de ação.

O Puxa-Saco não o levará embora fisicamente, apenas seqüestrará seu bom-humor.

Ele sempre estará ao redor do Chefe, em órbita elíptica, 360 dias no ano, em todas as suas horas, segundos, e eventual nova descoberta sobre o tempo da Física. Estará pronto para rir de suas péssimas piadas, apoiar suas críticas, e abanar rabo como um cachorro débil e servil. Ele busca café e sorri para o filho pentelho do Chefe, mesmo quando esse puxa seus cabelos ou desfere um golpe de judô-ninja-seriado-enlatado em suas costas. Se tudo der certo, ele ficará amigo da esposa baranga também, na tentativa de adentrar no ambiente familiar do Chefe para desfrutar das regalias econômicas que com seu trabalho jamais será capaz de usufruir. Como é uma pessoa inútil no setor, e seu trabalho é visivelmente insuficiente perante todos os colegas e, para salvar-se da incompetência, o Puxa-Saco se utiliza da falta de amor próprio e de seu complexo de inferioridade lambendo todas as migalhas deixadas pelo Chefe. É uma relação de comensalismo social, onde o excesso de vaidade e a falta de inteligência se compensam na falsidade de elogios.

O Puxa-Saco é obediente e fiel, acredita que mesmo incapaz será Chefe de algo, mesmo que isso se restrinja ao controle de entrada e saída dos demais colegas.

E então, suas atividades ficarão restritas a tais espúrias atividades, executando o trabalho sujo para o Chefe.

Porém, o Puxa-Saco em sua parca inteligência confundirá suas atividades servis com poder, o que o levará a uma lenta e triste derrocada.

O Puxa-Saco esquecerá de sua natureza insignificante e começará a adentrar a Zona de Poder do Chefe. Este será o seu grande erro.

O Chefe perceberá na figura do Puxa-Saco alguém que almeja o seu posto, e aos poucos, minará suas intenções.

Desta maneira, o Puxa-Saco voltará lentamente às suas atividades e, ainda, não mais desfrutará das regalias decorrentes da sua arte saco-puxística altamente aprimorada.

Porém, deverá ele ainda permanecer Puxa-Saco, mas agora mais humilhado, dormindo na área de serviço do Chefe, e sempre de prontidão para atender seus maiores devaneios e caprichos.

Sem aumento de salário.

Bianca Rosolem é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h33
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Castigo e crime.

De Carlos Castelo.

Recesso de fim de ano.

Hora de abrir os horizontes, fechar as malas e fugir da cidade.

Aos poucos, São Paulo vai ficando meio vazia, cheia de desvãos.

A família de Pires o esperava há uma semana numa pousada.

Ele, esposa e o pequeno Diego passariam as festas numa praia no litoral norte, velho sonho.

Homem metódico, quase jesuítico, Pires começara a se preparar para a viagem com 72 horas de antecedência.

Pagou diarista para deixar casa e roupas em ordem. Separou contas de fim de ano numa pasta. Foi à internet, agendou pagamento.

Só que, ao separar seus pertences para colocar na mala, olhou para o beiral da janela do quarto de Diego e quem estava lá?

Berry, o peixe beta.

Pires teve um sobressalto, uma semi-hemiplegia, ao ver o bichinho de estimação do filho ali nadando, em sua felicidade bronca e pisciana.

Passariam uma semana fora de casa. Todos, inclusive empregada, estariam comemorando as festas.

Quem trocaria a água e colocaria aqueles farelinhos amarecelidos para Berry comer?

Faltavam ainda 48 horas para a partida e nada lhe ocorria sobre o que fazer com o animalzinho.

Foi à chopada do escritório. E mesmo ali, entre os colegas, não lhe saía da mente o maldito peixe.

"Sim, talvez só restasse mesmo parar de alimentá-lo a partir dessa madrugada. Não trocar a água o forçaria a entrar em pré-coma morrendo antes da viagem. Porque se ele morre durante a semana em que estivermos na pousada o cheiro dentro de casa fica insuportável. Diego voltando no comecinho de janeiro. "Cadê o Berry, cadê o o meu peixinho lindo e querido, papai?" E o bicho podre e esfacelado dentro do aquário. Não! Tudo menos isso. É mesmo o caso de ir assassinando Berry ao poucos. Sem comida hoje, água suja amanhã e um abraço".

Chegou embriagado em casa e foi direto ao beiral.

Berry nadava alheio a tudo.

Sua cor estava ainda mais bonita, as manchas vermelhas contrastando com o lombo azul.

"Vamos ver amanhã o dia inteiro sem refeição", pensou Pires.

Deitou-se.

Vieram direto a seu subconsciente pesadelos terríveis onde se afogava num rio barrento.

Na manhã seguinte saiu direto do quarto para o escritório, sem nem olhar para o peixe.

Procurou se enfiar na rotina de final de ano, voltando apenas às suas reflexões quando estava no trânsito, já de noite, voltando do escritório.

"Deve ter morrido. Mas o que é para o universo a eliminação de um estúpido peixe beta? Um animal que vive num vidrinho diminuto de 15 X 10 centímetros? E não me venham com o discurso clássico de que o bater das asas de uma borboleta na Amazônia provoca um terremoto no Arizona. Física quântica, essa balela toda. Berry morreu, antes ele do que eu. Não mereço um castigo desses depois de ter ralado 355 dias no ano".

Abriu a porta, correu ao beiral e, ao contrário das expectativas, Berry estava vivinho da silva.

E ainda por cima com uma carinha pidona de "quero raçãozinha".

- Peixe filho da puuuta! - berrou - eu vou te mostrar quem manda na porra dessa birosca!

Pegou o aquariozinho com brutalidade e, mesmo sabendo que as trocas de água não devem ser feitas direto na torneira - para evitar um choque térmico - jogou o líquido frio sobre Berry. Este nadou em desespero até que o jorro parasse de fazer redemoinho.

Pires gritava:

- Morre! Morre! Morre!

Largou tudo sobre a pia do banheiro, caiu exausto na cama e roncou até de manhã.

Chegara o dia da partida.

Pires pegou a mala e foi até o banheiro lançar os restos mortais de Berry no lixo.

Mas... de novo a carinha de "me dá comida", agora na água limpa e oxigenada.

Céus, só podia estar pagando um grande pecado. E o pior era que a chave se invertera. Imaginar-se jogando Berry vivo na privada, como chegara a tramar ontem, era algo que lhe dava engulhos.

Um sentimento de piedade se acercou dele. Era preciso dar o peixe, símbolo do cristianismo primitivo, a quem pudesse assegurar seu destino.

Foi o que fez.

Colocou a bagagem no porta-malas e saiu, aquário de Berry numa das mãos, caçando quem pudesse abrigá-lo.

Rodou com o carro cerca de meia hora. Até encontrar um menino todo sujo e mal-trapilho no semáforo.

- Quer esse peixinho, filho? O nome dele é Berry.

- Berry? - os olhos do pivete se encheram de alegria - Deixa eu ver?

- Toma, fica com ele - disse Pires, voz embargada.

O menino pegou o presente com enorme satisfação. E, sem perda de
tempo, meteu os dedinhos na água, puxou Berry pelas nadadeiras e o comeu.

 Carlos Castelo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 16h21
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Tubo de ventilação.

De Antonio Prata.

Num mundo ideal, as janelas dariam sempre para árvores frondosas, crepúsculos de calendário ou vizinhas distraídas. Aqui neste vale de lágrimas, no entanto, tenho que aceitar como vista do meu banheiro um vão de concreto onde a luz do sol jamais penetrou. Segundo o Jurandir, zelador zeloso e profundo conhecedor das questões condominiais, o nome técnico da anti-paisagem é "tubo de ventilação".
Se a tal garganta que perpassa treze andares não brinda os moradores do Edifício Maria Eulália com visões do paraíso, ao menos distribui, para deleite do cronista, a trilha sonora de algumas vidas empilhadas acima e abaixo do meu banheiro.
Tem o garoto que ouve música sertaneja e canta junto. Tem a moça que passa a vida ao telefone, repetindo sempre a mesma conversa: "E ele? Não! E você? Sei. E ele? Não! E você? Sei." Tem um senhor que tosse toda manhã, com uma força capaz de enviar seus perdigotos à Dinamarca, caso para lá sua janela estivesse virada -- e não, como já foi dito, para o "tubo de ventilação". Tem os namorados adolescentes que tomam banho juntos, descobrindo as artimanhas e agruras do asseio a dois: "deixa eu, tá frio!". "Calma, tem xampu no meu olho!". "Lindoco, posso lavar?!". "O que?". "Ele...". "Ele não, Gatucha! Tenho vergonha...". "Ah, deixa, vai?!". Tem alguém que passa as madrugadas no messenger. Triste... A noite toda aquele brrrrlump, brrrrlump -- um sapo eletrônico, a coaxar pelo prédio nossas solidões compartilhadas.
Semana passada, chegou pelo tubo uma coisa diferente. Não era som, era um cheiro. Cheiro de.... De que, meu deus?! Senti meu cérebro formigando, como se as memórias lá do fundo borbulhassem, confusas, querendo saber qual deveria emergir. Seria o desodorante da enfermeira que primeiro me pegou no colo? O xampu da minha mãe, na infância? O perfume de uma namoradinha da quinta série, que estava submerso há anos em algum rincão, ao lado do gosto do Halls de cereja e da música tema de Top Gun?
Fiquei ali parado, no box do chuveiro, de olhos fechados, com a sensação de estar muito próximo de uma coisa enorme e íntima, mas que ia se esvaindo, enquanto o cheiro sumia e se acalmava o alvoroço nas galés da memória. Então alguém deu a descarga, outro ligou o rádio e fui pegar uma coca na cozinha.

Antonio Prata é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 18h11
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Modinhas de fêmea.

De Xico Sá.

Vocês viram qual a nova modinha entre as mulheres espanholas? Uma romaria de madrilenas corre aos consultórios especializados para recuperar a virgindade perdida. É a chamada himenoplastia. Pá-pum. Uma cirurgia rapidíssima e lá esta a Iracema, com seus lábios de mel, como veio ao mundo, virgem, virgem. Só dói no bolso: custa uma bagatela de 2 mil euros.

A loucura é tanta que as prostitutas já enxergaram na técnica uma mina de pessetas. Deu no "El País":   "M., prostituta de 25 anos, passou oito vezes pelo consultório para comprar sua inocência fictícia. Oito homens pagaram 6 mil euros cada um para ser o primeiro. Ela ganhou 48 mil. A cirurgiã que a operou conta que existem ofertas de virgens, leilões realizados em despedidas de solteiro nas quais o melhor licitante deflora a garota".

Mas esse é um caso raro, relata a reportagem. O mais comum são muçulmanas e ciganas, entre 20 e 25 anos, prestes a se casar, com medo que seus maridos as abandonem ou castiguem por causa dos seus passados. Isso é que é machismo, não aquelas besteirinhas que vocês sempre reclamam, pois pois!

Xico Sá é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 17h39
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Oração para um dia bom.

De Cléo Araújo.

Um dia bom tem cozinha quente.
Tem potes de cereja em calda abertos sobre a mesa da copa, rodelas de abacaxi cortadas com esmero pela tia avó em uma travessa de louça branca e um belo assado no forno, que doura bem devagar e espalha seu perfume de temperos por todos os cômodos da casa.
Um dia bom é um dia perfeito para se vasculhar os armários atrás de antigos discos de vinil. Mas também é ideal para se ficar surpreso com uma chuva inesperada que cai lá por volta das dez da noite (afinal, "fez tanto sol o dia inteiro").
Um dia bom é um dia feito para se ganhar um presente de surpresa, para se jogar ping-pong depois da meia-noite e para se tomar sorvete de flocos com calda de caramelo pouco antes de ir dormir.
Também é dia para se dar uma passada na casa dos amigos, tomar Coca Cola com bastante gelo, encher a sala de colchões e dormir lá com todos os primos que existem no mundo. 
Um dia bom é simplesmente delicioso porque a gente pode sair para comprar material escolar novo. E não há nada melhor no mundo do que encapar um caderno e escolher um estojo.
Mas o melhor de um dia bom é que, embora ele passe rápido, dá tempo de quase tudo.
De ir dormir na casa da amiga - mas de só fechar os olhos quando o sol já for nascendo lá fora, de dar voltas de mobilete pela cidade, de conhecer aquele menino lindo em quem você estava de olho há semanas, de dar banho no cachorro com a mangueira, de ficar com o rosto corado pelo sol e de passar esmalte com gliter nas unhas dos pés.
Durante um dia bom, todo mundo deveria ler pelo menos um capítulo de "O mundo de Sofia". Mas vale a pena também aproveitar para começar a aprender a dirigir naquela estradinha de terra remota e para comer pastel de carne com ovo no mercadão municipal.
Num dia bom, você pode descongelar o Han Solo, voar de bicicleta com o E.T., cantar Sinatra no karaokê e decorar a coreografia de Thriller.
Mas por favor, não se esqueça de esperar pelo menos duas horas depois do almoço antes de entrar na piscina para não ter congestão. Ou você tem alguma dúvida de que você vai pegar uma bela de uma piscina num dia maravilhoso feito esse?
Coma bolacha recheada de morango, lave o carro na garagem, encha os pneus da bicicleta e pule elástico.
Pegue uma luneta e vá para um terreno escuro olhar o céu.
Jogue vídeo-game, chupe manga com fiapo e faça um banho de creme no cabelo. Assista "A Gata e o Rato", "A lagoa azul" e "Curtindo a vida adoidado". Compre tinta, telas em branco, pincéis e pinte um quadro bem colorido e sem noção estética nenhuma.
Jogue "Stop", acampe no jardim e solte uma pipa.
Almoce na casa de uma avó, que nem precisa ser a sua.
Jogue queimada, buraco e truco.
Quando o dia estiver acabando, tome um belo banho. E não se esqueça de usar uma daquelas bolinhas de óleo de amêndoa para se perfumar. Vista um pijaminha bem fresco e deite na sua cama.
Abençoe cada picada de pernilongo na sua perna e cada músculo que dói de tanto que jogou biribol.
Aí, como você acredita em Deus, é a ele a quem agradece por tudo. Pelo seu pai, pela sua mãe, pelos seus irmãos, pela sua casa e por não ter tido dor de garganta.
E aí, caia no melhor sono do mundo, enquanto admira o seu teto, todo decorado de star fix.
Boa noite.
Durma bem.
Amém.

Cléo Araújo é cronista do Blônicas.

Escrito por Blônicas . às 15h05
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